Fernando Skarke (1858 – 1935), Fotógrafo da Casa Imperial

O fotógrafo austríaco Ferdinand (Fernando) Adolf Skarke (1858 – 1935) veio para o Brasil com seus pais Johann e Theresa Skarke. Seu pai imigrou para trabalhar em Campinas em obras de engenharia hidráulica. Já na década de 1880, Fernando possuía um ateliê fotográfico em Piracicaba. Em novembro de 1886, dom Pedro II (1825 – 1891)  e dona Teresa Cristina (1822 – 1889) fizeram uma visita à cidade e, no mês seguinte, em 14 de dezembro de 1886, o imperador concedeu a Fernando o título de Fotógrafo da Casa Imperial. Acredita-se, até o momento, que ele tenha sido o único da província de São Paulo a receber essa distinção. De temperamento alegre e comunicativo, tinha vários amigos como, por exemplo, o poeta santista José Martins Fontes (1884-1937) e o empresário Conrado Wessel (1891 – 1993). Só saiu do Brasil, já idoso, para visitar Viena.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Skarke disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Por volta de 1888, foi para Santos onde teve estabelecimentos fotográficos em três diferentes endereços: rua General Jardim, 80; na Praça da República, 16; e na rua São Leopoldo, 14. Na virada do século XIX para o XX, Santos prosperava e a demanda por fotografias na cidade aumentava. Os profissionais disputavam a freguesia local e o ateliê de Skarke, na Praça da República, era o mais luxuoso da cidade: montado com todo o capricho, tendo um magnífico e espaçoso salão, com excelente luz; dispõe também das melhores e mais modernas máquinas, tendo uma grande variedade de ornamentos e fundos, tanto paisagens, como de salão, e mobília.

 

 

Segundo sua filha Mellita (1894 – ?), Skarke emulsionava papéis fotográficos com produtos químicos, usava albumina de ovo e nos dias ensolarados distribuía caixas de madeira com negativos de vidro e papel para serem sensibilizados pela luz natural. O sistema de iluminação natural do estúdio era composto por uma série de janelas de vidro, incluindo partes altas do telhado, que eram recobertas por cortinas em trilhos. Ajustes eram feitos para obter-se a iluminação desejada.

Sua neta Elisa Dias de Toledo Pitombo, filha de Mellita, relatou que Fernando teria feito fortuna produzindo retratos de famílias de imigrantes, principalmente, de comerciantes portugueses abastados que gostavam de enviar esses registros para seus parentes. “Com a fotografia ele ganhou muito dinheiro e morou num palacete que depois virou hotel, a casa começava na rua da praia e ia até o morro“.

Em 1890, Skarke casou-se com a alemã Meta Gesine. O primeiro filho do casal faleceu ainda bebê. A primogênita, Melitta, nasceu na Alemanha, e, os demais, em Santos:  Thereza (1896 – ?), Hugo Fernando (1898 – 197?), que o sucedeu na Photo Skarke; Regina (c. 1900 – ?) e Erna (c. 1902 – ?).

Faleceu, vítima de arteriosclerose, em 18 de abril de 1935, aos 76 anos, em São Paulo, na casa de seu filho Hugo, à rua Tupi, no bairro de Santa Cecília. Foi enterrado no Cemitério do Redentor.

 

Fernando Skarke. Hugo Skarke, c. 1905 / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

Fernando Skarke. Hugo Skarke, c. 1905 / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

 

Cronologia de Fernando Skarke (1858 – 1935)

 

 

1858 - Ferdinand (Fernando) Adolf Skarke nasceu em 17 de outubro de 1858, filho de Johann e Theresa Skarke. Em sua certidão de óbito consta que ele teria nascido na Tchecoslováquia embora, segundo seu bisneto Luiz Henrique Pitombo, a família sempre tenha considerado a Áustria como sua terra natal. O pai de Fernando Skarke imigrou para o Brasil, onde trabalhou em obras de engenharia hidráulica em Campinas, no estado de São Paulo.

1886 – Fernando Skarke possuía um ateliê fotográfico em Piracibaca. Dom Pedro II(1825 – 1891) e dona Teresa Cristina (1822 – 1889) visitaram a cidade em novembro de 1886. Skarke presenteou o imperador com uma fotografia panorâmica da cidade, montada a partir da união de imagens de várias chapas. Ficaram hospedados na casa do empresário e um dos fundadores da Companhia Ituana de Navegação, nos rios Tietê e Piracicaba, Estevão Ribeiro de Souza Rezende (1840 – 1909). Ele também foi o fundador do Engenho Geral de Piracicaba, em 1881, além de escritor e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Por ter lutado na Guerra do Paraguai foi agraciado com a Ordem de Cristo. Também participaram da visita imperial o ministro da Agricultura, Antônio da Silva Prado (1840 – 1929); e o presidente da Província de São Paulo, Antônio de Queirós Teles (1831 – 1888) (Correio Paulistano, 13 de novembro de 1886, primeira coluna).

 

Pedro II e TEresa Cristina em Piracicaba, 1886. Piracicaba, SP / Acervo de Luiz henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

Fernando Skarke. Pedro II e Teresa Cristina em Piracicaba, 1886. Piracicaba, SP / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

Em 14 de dezembro de 1886, Skarke foi agraciado pelo imperador com o título de Fotógrafo da Casa Imperial, tendo sido, provavelmente, o único da província de São Paulo a receber a condecoração. Abaixo, estão reproduzidos o envelope e a carta da concessão do título, do acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto de Skarke.

 

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Envelope e carta da concessão do título de fotógrafo da Casa Imperial concedido a Fernando Skarke por dom Pedro II / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

1887 – Skarke produziu três vistas fotográficas da enchente do rio Piracicaba que, na ocasião, apresentou um aspecto tão formidável e pitoresco ( L´Italia, 15/16 de janeiro de 1887, terceira colunaJornal do Commercio, 22 de janeiro de 1887, última coluna).

Neste mesmo ano, Skarke fotografou o bebê Emilia Diehl Muller, em Piracicaba (Site Coisas Antigas):

 

 

c. 1888 – Em Santos, seu estabelecimento fotográfico ficava na rua General Jardim, 80.

1890 – Casou-se, em São Paulo, com a alemã, de Bremen, Meta Gesine, que trabalhava como preceptora dos filhos de um casal abastado em Piracicaba. Nos primeiros anos dessa década, o casal teve o primeiro filho, que faleceu. 

 

Fernando e Skarke / Acervo de Luiz Henrique Skarke, bisneto do fotógrafo

O casal Fernando Skarke e Meta Gesine / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

1891 – Em 1891, Verano Alonso enviou seu retrato, produzido por Fernando Skarke, para José Joaquim de Miranda. No verso do cartão, Skarke anuncia “aparelhos especiais para grupos“, “novidades para retratos de crianças” e informa que “conserva-se chapas para reproduções e tendo as mesmas um abatimento de 25%“.

 

 

 

1892 – Fez propaganda de suas novas instalações, dotadas de “um magnífico e espaçoso salão, com excelente luz”, além de máquinas modernas e vários fundos, entre eles as paisagens” (Folha da Tarde, 22 de março de 1892). Na ocasião, seu ateliê ficava na Praça da República, 16, em Santos.

 

Verso de um cartão imperial, de Fernando Skarke / Acervo de Marjorie C.F. Medeiros)

Verso de um cartão de Fernando Skarke / Acervo de Marjorie C.F. Medeiros)

 

 

1894 - Meta decidiu ter o segundo filho junto à mãe, Gesine Schwarting, na Alemanha. Em Lesum, perto de Bremen, nascimento da filha primogênita do casal, Melitta. Um ano depois, as três vieram para o Brasil.

Todos os demais filhos de Skarke nasceram em Santos: Thereza (1896 – ?), Hugo Fernando (1898 – 197?), Regina (c. 1900 – ?) e Erna (c. 1902 – ?).

 

Os cinco filhos de Fernando e Meta Gersine Skarke, c. 1905 / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

Fernando Skarke. Os cinco filhos de Fernando e Meta Gersine Skarke, c. 1905 / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

1908 a 1911 - Seu ateliê, em Santos, ficava na rua São Leopoldo, 14. Nessa mesma época, além da Société Photographique Internacional, atuavam na cidade outros fotógrafos como Carlos W. Weize (18? – 19?), Gustavo Paiva (18? – 19?), Emílio Gottschalk  (18? – 19?), o alemão Hermann Eckman (18? – 19?) e J. Marques Pereira (18? – 19?) –  no Almanak Laemmert o nome deste último fotógrafo aparece como J. Moraes Pereira (Almanak Laemmert, 1908, última colunaAlmanak Laemmert, 1910, segunda coluna; Almanak Laemmert, 1911, primeira coluna).

 

 

1912 - Skarke fotografou o passe-partout, desenhado pelo apreciado pintor Waldemir Alfaya, das diplomandas de 1911 da Associação Feminina Santista. A imagem foi publicada em A Fita, revista humorística, literária e ilustrada, fundada em 1911 e dirigida por Bento de Andrade e Manoel Pompílio dos Santos (A Fita, 1º de maio de 1912).

 

 

1914 – Fotografou Um almoço de caridade, oferecido, no Natal de 1913, aos presos da Cadeia Pública de Santos, pela Associação das Mães Cristãs (A Fita, 15 de janeiro de 1914).

 

 

Neste ano, durante a Primeira Guerra Mundial, Hugo Fernando (1898 – 197?), sucessor do pai na Photo Skarke, estava estudando, provavelmente, fotografia, na Alemanha.

c. 1930 - A Photo Skarke ficava no Largo Santa Ifigênia, 12, em São Paulo, endereço conhecido por seu comércio sofisticado, frequentado pelas famílias do bairro Campos Elísios.

1931 - Uma fotografia realizada pela Photo Skarke da feminista Maria Prestia (? – 1988) foi enviada por ela a então presidente da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, a cientista Bertha Lutz (1894 – 1976).

 

 

1935 - Fernando Skarke faleceu, vítima de arteriosclerose, em 18 de abril de 1935, aos 76 anos, em São Paulo, na casa de seu filho Hugo, à rua Tupi, no bairro de Santa Cecília. Foi enterrado no Cemitério do Redentor.

 

Fernando Skarke. Erna, sua filha, c. 1905. Santos, SP / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrado

Fernando Skarke. Erna, filha de Fernando Skarke, c. 1905. Santos, SP / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrado

 

A Brasiliana Fotográfica agradece ao bisneto de Fernando Skarke, Luiz Henrique D. T. Pitombo que, generosamente, forneceu informações importantes acerca da Photo Skarke, além de ter cedido imagens para essa publicação.

Agradecimentos também à pesquisadora Maria Isabel Lenzi e à arquivista Daniella Gomes dos Santos, ambas do Museu Histórico Nacional, que viabilizaram, para essa publicação, a digitalização das imagens da referida instituição e de sua disponibilização no acervo da Brasiliana Fotográfica.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. Origens e expansão da fotografia no Brasil : século XIX. Prefácio Boris Kossoy. Rio de Janeiro: Funarte, 1980. 128 p.

FERREZ, Gilberto. A Fotografia no Brasil: 1840-1900 / Gilberto Ferrez; [prefácio por Pedro Vasquez] – 2ª ed. – Rio de Janeiro: FUNARTE: Fundação Nacional Pró-Memória, 1985.

PITOMBO, Luiz Henrique D. T. Fernando Skarke – fotógrafo pioneiro.

Site Câmara de Piracicaba

Site Coisas Antigas

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site Fundação Conrado Wessel

Site Novo Milênio

Site Secretaria de Cultura e Turismo de Piracicaba

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho: Companhia Internacional de Seguros: Ed. Index, 1985.

Cronologia de Fernando Skarke (1858 – 1935)

Cronologia de Fernando Skarke (1858 – 1935)

 

 

1858 - Ferdinand (Fernando) Adolf Skarke nasceu em 17 de outubro de 1858, filho de Johann e Theresa Skarke. Em sua certidão de óbito consta que ele teria nascido na Tchecoslováquia embora, segundo seu bisneto Luiz Henrique Pitombo, a família sempre tenha considerado a Áustria como sua terra natal. O pai de Fernando Skarke imigrou para o Brasil, onde trabalhou em obras de engenharia hidráulica em Campinas, no estado de São Paulo.

1886 – Fernando Skarke possuía um ateliê fotográfico em Piracibaca. Dom Pedro II (1825 – 1891) e dona Teresa Cristina (1822 – 1889) visitaram a cidade em novembro de 1886. Skarke presenteou o imperador com uma fotografia panorâmica da cidade, montada a partir da união de imagens de várias chapas. Ficaram hospedados na casa do empresário e um dos fundadores da Companhia Ituana de Navegação, nos rios Tietê e Piracicaba, Estevão Ribeiro de Souza Rezende (1840 – 1909). Ele também foi o fundador do Engenho Geral de Piracicaba, em 1881, além de escritor e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Por ter lutado na Guerra do Paraguai foi agraciado com a Ordem de Cristo. Também participaram da visita imperial o ministro da Agricultura, Antônio da Silva Prado (1840 – 1929); e o presidente da Província de São Paulo, Antônio de Queirós Teles (1831 – 1888) (Correio Paulistano, 13 de novembro de 1886, primeira coluna).

 

Pedro II e TEresa Cristina em Piracicaba, 1886. Piracicaba, SP / Acervo de Luiz henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

Fernando Skarke. Pedro II e Teresa Cristina em Piracicaba, 1886. Piracicaba, SP / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

Em 14 de dezembro de 1886, Skarke foi agraciado pelo imperador com o título de Fotógrafo da Casa Imperial, tendo sido, provavelmente, o único da província de São Paulo a receber a condecoração. Abaixo, estão reproduzidos o envelope e a carta da concessão do título, do acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto de Skarke.

 

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Envelope e carta da concessão do título de fotógrafo da Casa Imperial concedido a Fernando Skarke por dom Pedro II / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

1887 – Skarke produziu três vistas fotográficas da enchente do rio Piracicaba que, na ocasião, apresentou um aspecto tão formidável e pitoresco ( L´Italia, 15/16 de janeiro de 1887, terceira colunaJornal do Commercio, 22 de janeiro de 1887, última coluna).

Neste mesmo ano, Skarke fotografou o bebê Emilia Diehl Muller, em Piracicaba (Site Coisas Antigas):

 

 

c. 1888 – Em Santos, seu estabelecimento fotográfico ficava na rua General Jardim, 80.

1890 – Casou-se, em São Paulo, com a alemã, de Bremen, Meta Gesine, que trabalhava como preceptora dos filhos de um casal abastado em Piracicaba. Nos primeiros anos dessa década, o casal teve o primeiro filho, que faleceu. 

 

Fernando e Skarke / Acervo de Luiz Henrique Skarke, bisneto do fotógrafo

O casal Fernando Skarke e Meta Gesine / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

1891 – Em 1891, Verano Alonso enviou seu retrato, produzido por Fernando Skarke, para José Joaquim de Miranda. No verso do cartão, Skarke anuncia “aparelhos especiais para grupos“, “novidades para retratos de crianças” e informa que “conserva-se chapas para reproduções e tendo as mesmas um abatimento de 25%“.

 

 

 

1892 – Fez propaganda de suas novas instalações, dotadas de “um magnífico e espaçoso salão, com excelente luz”, além de máquinas modernas e vários fundos, entre eles as paisagens” (Folha da Tarde, 22 de março de 1892). Na ocasião, seu ateliê ficava na Praça da República, 16, em Santos.

 

Verso de um cartão imperial, de Fernando Skarke / Acervo de Marjorie C.F. Medeiros)

Verso de um cartão de Fernando Skarke / Acervo de Marjorie C.F. Medeiros)

 

 

1894 - Meta decidiu ter o segundo filho junto à mãe, Gesine Schwarting, na Alemanha. Em Lesum, perto de Bremen, nascimento da filha primogênita do casal, Melitta. Um ano depois, as três vieram para o Brasil.

Todos os demais filhos de Skarke nasceram em Santos: Thereza (1896 – ?), Hugo Fernando (1898 – 197?), Regina (c. 1900 – ?) e Erna (c. 1902 – ?).

 

Os cinco filhos de Fernando e Meta Gersine Skarke, c. 1905 / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

Fernando Skarke. Os cinco filhos de Fernando e Meta Gersine Skarke, c. 1905 / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

1908 a 1911 - Seu ateliê, em Santos, ficava na rua São Leopoldo, 14. Nessa mesma época, além da Société Photographique Internacional, atuavam na cidade outros fotógrafos como Carlos W. Weize (18? – 19?), Gustavo Paiva (18? – 19?), Emílio Gottschalk  (18? – 19?), o alemão Hermann Eckman (18? – 19?) e J. Marques Pereira (18? – 19?) –  no Almanak Laemmert, o nome deste último fotógrafo aparece como J. Moraes Pereira (Almanak Laemmert, 1908, última colunaAlmanak Laemmert, 1910, segunda coluna; Almanak Laemmert, 1911, primeira coluna).

 

 

1912 - Skarke fotografou o passe-partout, desenhado pelo apreciado pintor Waldemir Alfaya, das diplomandas de 1911 da Associação Feminina Santista. A imagem foi publicada em A Fita, revista humorística, literária e ilustrada, fundada em 1911 e dirigida por Bento de Andrade e Manoel Pompílio dos Santos (A Fita, 1º de maio de 1912).

 

 

1914 – Fotografou Um almoço de caridade, oferecido, no Natal de 1913, aos presos da Cadeia Pública de Santos, pela Associação das Mães Cristãs (A Fita, 15 de janeiro de 1914).

 

 

Neste ano, durante a Primeira Guerra Mundial, Hugo Fernando (1898 – 197?), sucessor do pai na Photo Skarke, estava estudando, provavelmente, fotografia, na Alemanha.

c. 1930 - A Photo Skarke ficava no Largo Santa Ifigênia, 12, em São Paulo, endereço conhecido por seu comércio sofisticado, frequentado pelas famílias do bairro Campos Elísios.

1931 - Uma fotografia realizada pela Photo Skarke da feminista Maria Prestia (? – 1988) foi enviada por ela a então presidente da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, a cientista Bertha Lutz (1894 – 1976).

 

 

1935 - Fernando Skarke faleceu, vítima de arteriosclerose, em 18 de abril de 1935, aos 76 anos, em São Paulo, na casa de seu filho Hugo, à rua Tupi, no bairro de Santa Cecília. Foi enterrado no Cemitério do Redentor.

 

Fernando Skarke. Erna, sua filha, c. 1905. Santos, SP / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrado

Fernando Skarke. Erna,  filha de Fernando Skarke, c. 1905. Santos, SP / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrado

 

 

A Brasiliana Fotográfica agradece ao bisneto de Fernando Skarke, Luiz Henrique D. T. Pitombo que, generosamente, forneceu informações importantes acerca da Photo Skarke, além de ter cedido imagens para essa publicação.

Agradecimentos também à pesquisadora Maria Isabel Lenzi e à arquivista Daniella Gomes dos Santos, ambas do Museu Histórico Nacional, que viabilizaram, para essa publicação, a digitalização das imagens da referida instituição e de sua disponibilização no acervo da Brasiliana Fotográfica.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Autorretratos de fotógrafos – Uma homenagem no Dia Mundial da Fotografia

A Brasiliana Fotográfica homenageia o Dia Mundial da Fotografia com a publicação de quatro autorretratos de importantes fotógrafos que atuaram no Brasil entre os séculos XIX e XX: o alemão Christoph Albert Frisch (1840 – 1918), o carioca Marc Ferrez (1843 – 1923), o francês Revert Henrique Klumb (c.1826 – c.1886) e o italiano Vincenzo Pastore (1865 – 1918). Interessante observar que o único autorretrato produzido fora de um estúdio fotográfico foi o de Frisch, que se fotografou, entre 1967 e 1868, em um barco em um rio na Amazônia, quando produziu os primeiros registros que chegaram até nós de índios brasileiros da região, além de aspectos de fauna e flora e de barqueiros de origem boliviana que atuavam como comerciantes itinerantes nos rios amazônicos. Os quatro fotógrafos já foram temas de artigos publicados no portal.

 

Acessando o link para os autorretratos de fotógrafos disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A data escolhida para a comemoração do Dia Internacional da Fotografia ou Dia Mundial da Fotografia tem sua origem no ano de 1839, quando, em 7 de janeiro, na Academia de Ciências da França, foi anunciada a descoberta da daguerreotipia, um processo fotográfico desenvolvido por Joseph Nicèphore Niépce (1765-1833) e Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851). Cerca de sete meses depois, em 19 de agosto, durante um encontro realizado no Instituto da França, em Paris, com a presença de membros da Academia de Ciências e da Academia de Belas-Artes, o cientista François Arago (1786 – 1853), secretário da Academia de Ciências, explicou o processo e comunicou que o governo francês havia adquirido o invento, colocando-o em domínio público e, dessa forma, fazendo com que o “mundo inteiro” tivesse acesso à invenção. Em troca, Louis Daguerre e o filho de Joseph Niépce, Isidore, passaram a receber uma pensão anual vitalícia do governo da França, de seis mil e quatro mil francos, respectivamente.

A velocidade com que a notícia do invento do daguerreótipo chegou ao Brasil é curiosa: cerca de 4 meses depois do anúncio da descoberta, foi publicado no Jornal do Commercio, de 1º de maio de 1839, sob o título “Miscellanea”, na segunda coluna, um artigo sobre o assunto – apenas 10 dias após de ter sido o tema de uma carta do inventor norte-americano Samuel F. B. Morse (1791 – 1872), escrita em Paris em 9 de março de 1839 para o editor do New York Observer, que a publicou em 20 de abril de 1839.

 

Vincenzo Pastore (1865 – 1918)

 

 

A obra do fotógrafo italiano Vincenzo Pastore, importante cronista visual de São Paulo da segunda metade do século XIX e do início do século XX, ficou, durante décadas, em uma caixa de charutos, sem negativos. As ampliações foram produzidas pela própria mulher do fotógrafo, Elvira, que o ajudava no estúdio. Com sua câmara Pastore capturava tipos e costumes de um cotidiano ainda pacato de São Paulo, uma cidade que logo, com o desenvolvimento econômico, mudaria de perfil. Captava as transformações urbanas e humanas da cidade, que passava a ser a metrópole do café. Com seu olhar sensível, o bem sucedido imigrante italiano flagrava trabalhadores de rua como, por exemplo, feirantes, engraxates, vassoureiros e jornaleiros, além de conversas entre mulheres e brincadeiras de crianças. Pastore, ao retratar pessoas simples do povo, realizou, na época, um trabalho inédito na história da fotografia paulistana.

Acessando o link para as fotografias de Vincenzo Pastore disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Marc Ferrez (1843 – 1923)

 

 

Marc Ferrez (1843 – 1923) foi um brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Sua vasta e abrangente obra iconográfica se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Estabeleceu-se como fotógrafo com a firma Marc Ferrez & Cia, em 1867, na rua São José, nº 96, e logo se tornou o mais importante profissional da área no Rio de Janeiro. Cerca de metade da produção fotográfica de Ferrez foi realizada na cidade e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais.

Acessando o link para as fotografias de Marc Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Christoph Albert Frisch (1840 – 1918)

  

 

Christoph Albert Frisch (1840 – 1918) foi o fotógrafo responsável pela impressionante e pioneira série de 98 fotografias realizadas em 1867 na Amazônia: foram os primeiros registros que chegaram até nós de índios brasileiros da região, além de aspectos de fauna e flora e de barqueiros de origem boliviana que atuavam como comerciantes itinerantes nos rios amazônicos. Ele foi o fotógrafo que acompanhou a expedição pela Amazônia liderada pelo engenheiro alemão Joseph Keller e pelo fotógrafo, desenhista e pintor Franz Keller (1835 – 1890). Este último era genro de Georges Leuzinger ( 1813 – 1892), considerado um dos mais importantes fotógrafos e difusores para o mundo da fotografia sobre o Brasil no século XIX, além de pioneiro das artes gráficas no país.

Acessando o link para as fotografias de Christoph Albert Frisch disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886)

 

Um dos primeiros fotógrafos estrangeiros a se estabelecer no Brasil, o francês Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) foi o fotógrafo preferido da família imperial brasileira, tendo sido agraciado com o título de “Fotógrafo da Casa Imperial”, em 1861. Um dos pioneiros na produção comercial de imagens sobre papel fotográfico e uso de negativo de vidro em colódio no Brasil, inaugurou seu estabelecimento fotográfico em 1855 ( Correio Mercantil , de 4 de novembro de 1855, na última coluna ). Foi professor de fotografia da princesa Isabel e, provavelmente, o introdutor da técnica estereoscópica no Brasil, com a qual entre os anos de 1855 e 1862 produziu ampla documentação sobre o Rio de Janeiro.

Foi também o autor do livro Doze horas em diligência. Guia do viajante de Petrópolis a Juiz de Fora, única obra do Brasil do século XIX a ser idealizada, fotografada, escrita e publicada por uma só pessoa. Também foi o primeiro livro de fotografia inteiramente litografado e produzido no país. Dois exemplares estão conservados na Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional.

Acessando o link para as fotografias de Revert Henrique Klumb disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Leia aqui os artigos já publicados na Brasiliana Fotográfica sobre o Dia Mundial da Fotografia:

 

Dia Mundial da Fotografia – 19 de agosto, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 19 de agosto de 2015

Os 180 anos da invenção do daguerreótipo – Pequeno histórico e sua chegada no Brasil, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 19 de agosto de 2019

Os 180 anos da invenção do daguerreótipo – Os álbuns da Comissão Geológica do Império com fotografias de Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 19 de agosto de 2019

No Dia Internacional da Fotografia, fotógrafas pioneiras no Brasil, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 19 de agosto de 2022

Dia Mundial da Fotografia, uma retrospectiva de artigos,  de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 19 de agosto de 2023

Dia dos Pais – Julio e Luciano, os filhos do fotógrafo Marc Ferrez, e outras famílias

 

 

A Brasiliana Fotográfica homenageia o Dia dos Pais, que esse ano será comemorado no próximo dia 8, publicando fotografias de Jules-Marc (1881 – 1946), que ficou conhecido como Julio, e Luciano José André (1884 – 1955), filhos do fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) e da francesa Marie Lefebvre (c.1849 – 1914), que se casaram em 16 de agosto de 1873. Há também imagens de Ferrez com seus netos Gilberto e Eduardo, filhos de Julio e Claire, além de registros de passeios da família na Floresta da Tijuca. Destacamos também fotografias do cientista Carlos Chagas (1878-1934) com seus filhos Evandro Chagas (1905 – 1940) e Carlos Chagas Filho (1910 – 2000), dos filhos do fotógrafo J. Pinto (1884 – 1951), dos filhos do Conde d´Eu (1842 – 1922), de dom Pedro II (1825 – 1891)  e do prefeito Francisco Pereira Passos (1836 – 1913) com suas famílias e também registros de outras famílias produzidos por Chichico Alkmin (1886 – 1978), João Stamato (1886 – 1951), José Teixeira e por fotógrafos ainda não identificados.

 

 

Marc Ferrez foi um brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Sua vasta e abrangente obra iconográfica se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Cerca de metade da produção fotográfica de Ferrez foi realizada na cidade e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais. Outro segmento de sua obra iconográfica registrou as várias regiões do Brasil – ele foi o único fotógrafo do século XIX que percorreu todas as regiões do país, tendo sido, no referido século, o principal responsável pela divulgação da imagem do país no exterior.

Ele e seus filhos desempenharam um importante papel na história do estabelecimento e do desenvolvimento do cinema no Brasil, tanto pela participação na produção de filmes, como pelo investimento em equipamentos necessários à criação de uma rede de distribuição e exibição de filmes.

Acessando o link para as fotografias de Marc Ferrez e seus filhos disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.  

 

 

Foi com Julio que Marc Ferrez, em 1905, obteve a representação da firma francesa Pathé Frères, no Brasil. A firma era a maior e melhor fábrica de aparelhos e filmes cinematográficos da Europa. Em primeiro de outubro de 1907, foi criada a firma Marc Ferrez & Filhos. Ferrez era dono de 60% das ações, cabendo a Luciano e a Julio 20% do negócio para cada um. Nesse mesmo ano, Julio havia se casado com Claire Poncy Ferrez (1888 – 1980), pais de Gilberto (1908 – 2000) e Eduardo. Gilberto foi pioneiro no estudo da fotografia no Brasil com a publicação, em 1946, do ensaio A Fotografia no Brasil e um de Seus Mais Dedicados Servidores: Marc Ferrez (1843-1923), na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Em 1908, Ferrez e Arnaldo Gomes de Souza, sócios no Cinema Pathé, produziram o filme, Nhô Anastácio chegou de viagem, dirigido por Julio Ferrez. É considerada a primeira comédia cinematográfica brasileira e foi estrelada por Antônio Cataldi, José Gonçalves Leonardo e Ismênia Matteo. Marc Ferrez produziu o curta-metragem A mala sinistra, também dirigido por seu filho Julio.

Em abril de 1915, Ferrez viajou para França no navio Frizia em companhia de seu filho Julio – que retornou ao Brasil em agosto.

Em 1917, Julio e Luciano, fundaram a Companhia Cinematográfica Brasileira, mais tarde denominada Casa Marc Ferrez Cinemas e Eletricidade Ltda. Dois anos depois, Julio Ferrez foi um dos fundadores da União dos Importadores Cinematográficos no Brasil (O Imparcial, 8 de dezembro de 1919, na segunda coluna). Foi o primeiro tesoureiro da associação, cujo primeiro presidente foi o empresário Francisco Serrador (1872 – 1941).

Em 1920, foi noticiada a volta da Europa de Marc e Luciano Ferrez ao Brasil, a bordo do paquete inglês Orcona (Vida doméstica, abril de 1920)

 

“O senhor Marc Ferrez é uma das figuras mais notáveis, de maior destaque na indústria fotográfica e cinematográfica do Brasil”

 

 

 

Na edição de 8 de abril de 1920 da revista Palcos e Telas, Marc, Julio e Luciano Ferrez foram biografados na seção “Grandes figuras da cinematografia”.

 

Em correspondência a Malia Frucht Ferrez (1890 – 1953), casada com Luciano, Marc Ferrez contou que havia feito belas fotografias de rosas, em sua visita ao roseiral do Parque de La Bagatelle, no Bois de Boulogne, local que freqüentava enquanto Luciano e Malia estavam com ele em Paris. Foi na casa deles, no Rio de Janeiro, cidade que ele eternizou com sua arte, que Ferrez faleceu em 12 de janeiro de 1923. Residia na rua Joaquim Murtinho, 177, e foi enterrado no cemitério São João Batista (A Rua, 13 de janeiro de 1923O Paiz, 14 de janeiro de 1923, última notícia da sexta coluna, Gazeta de Notícias, 16 de janeiro de 1923, na última coluna e Fon-Fon, 20 de janeiro de 1923).

 

 

Outras famílias

 

Acessando o link para as fotografias de pais e filhos disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Breve história da criação do Dia dos Pais

O Dia dos Pais foi comemorado pela primeira vez, em 1910, nos Estados Unidos. No Brasil, a ideia de criar esta data partiu do publicitário Sylvio Bhering e o jornal O Globo começou uma campanha para difundir a efeméride (O Globo, 1º de junho de 1953), festejada pela primeira vez no dia 16 de agosto de 1953 (Jornal do Brasil, 16 de agosto de 1953). Posteriormente, o Dia dos Pais passou a ser comemorado no segundo domingo de agosto.

 

Link para a publicação do Dia dos Pais, em 14 de agosto de 2016

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de autoria de Sérgio Burgi, um dos curadores da Brasiliana Fotográfica, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica,  publicada em 29 de junho de 2018

Série “O Rio de Janeiro desaparecido” V – O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 

Os 180 anos da invenção do daguerreótipo – Os álbuns da Comissão Geológica do Império com fotografias de Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 19 de agosto de 2019

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 4 de dezembro de 2019

Uma homenagem da Casa Granado ao imperial sob as lentes de Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado 6 de março de 2020

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 16 de março de 2020

Bambus, por Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 5 de junho de 2020

O Baile da Ilha Fiscal: registro raro realizado por Marc Ferrez e retrato de Aurélio de Figueiredo diante de sua obra, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 9 de novembro de 2020

O Palácio de Cristal fotografado por Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 2 de fevereiro de 2021

A Estrada de Ferro do Paraná, de Paranaguá a Curitiba, pelos fotógrafos Arthur Wischral (1894 – 1982) e Marc Ferrez (1843 – 1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 22 de março de 2021

No Dia da Árvore, mangueiras fotografadas por Ferrez e Leuzinger, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 21 de setembro de 2021

Retratos de Pauline Caroline Lefebvre, sogra do fotógrafo Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 28 de abril de 2022

A Serra dos Órgãos: uma foto aérea e imagens realizadas pelos mestres Ferrez, Leuzinger e Klumb, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 30 de junho de 2022

O centenário da morte do fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 12 de janeiro de 2023

O Observatório Nacional pelas lentes de Marc Ferrez, amigo de vários cientistas, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 29 de maio de 2023

No Dia Mundial do Meio Ambiente, a potente imagem da Cachoeira de Paulo Afonso, por Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 5 de junho de 2023

A Fonte Adriano Ramos Pinto por Guilherme Santos e Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 18 de julho de 2023

Os 180 anos de nascimento do fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 7 de dezembro de 2023

 

Visitantes Ilustres em Manguinhos

A partir de uma informação errada sobre uma imagem da visita do célebre cientista alemão Albert Einstein (1879 – 1955), publicada no Facebook durante a pandemia da Covid, o pesquisador Ricardo Augusto dos Santos, da Fiocruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, escreveu um artigo com os dados corretos do acontecimento e também sobre outras visitas ilustres ao Castelo Mourisco, dentre elas o presidente Getulio Vargas (1882 – 1954) e o governador de São Paulo, Adhemar de Barros (1901 – 1969). O registro de Einstein no Instituto Oswaldo Cruz, em 8 de maio de 1925, foi produzido pelo fotógrafo J. Pinto (1884 – 1951).

 

Visitantes Ilustres em Manguinhos

  Ricardo Augusto dos Santos*  

 

 

Em plena pandemia de COVID uma fotografia de Albert Einstein (1879 – 1955) circulou nas redes sociais (originalmente num post no Facebook) com informações erradas. O texto estava repleto de equívocos, com a legenda mencionando uma visita do cientista ao Instituto Butantã, em São Paulo. Além disso, a postagem comentava a presença de Oswaldo Cruz entre os homens. Seria cômico, se não fosse trágico. A primeira falha cometida é a ausência de informação sobre a origem do documento fotográfico pertencente ao acervo da Casa de Oswaldo Cruz, a COC, que é a unidade da Fundação Oswaldo Cruz responsável pela memória e história da instituição e de temas ligados ao campo da medicina e da saúde pública.

Vamos aos fatos. Em 1925, Einstein conheceu o Brasil, o Uruguai e a Argentina. Na foto aparece o cientista em visita ao Instituto Oswaldo Cruz. Em nosso país, entre compromissos profissionais e passeios, ficaram registradas visitas ao Observatório Nacional, Escola Politécnica, Museu Nacional, Instituto Oswaldo Cruz, Jardim Botânico e ao Clube de Engenharia. Não há dados sobre uma ida ao Butantã. No momento eternizado, na ampla varanda do belo prédio, o Pavilhão Mourisco, famoso Castelo da Avenida Brasil, estão fazendo companhia ao autor da Teoria Geral da Relatividade, Carlos Chagas, Alcides Godoy, Astrogildo Machado, Leocádio Chaves e demais pesquisadores. O principal equívoco que o autor do post no Facebook cometeu é que Oswaldo Cruz não poderia estar nessa foto, pois ele falecera em 1917. Oito anos, portanto, antes da visita de Einstein a Manguinhos.

 

 

Ao longo de seus 121 anos de história, a instituição de vanguarda na saúde pública e na ciência recebeu inúmeros visitantes. Personagens da história republicana, políticos, cientistas e intelectuais andaram pelos corredores, varandas, laboratórios e conheceram a ampla biblioteca. O acervo da Casa de Oswaldo Cruz guarda as imagens dessas visitas. Na foto acima, aparece Getulio Vargas (1882 – 1954); no grupo estão o ministro Gustavo Capanema (1900 – 1985), titular da pasta da Educação e Saúde Pública, e os cientistas Souza Araújo e Artur Neiva. Inúmeros cientistas nacionais e estrangeiros frequentaram Manguinhos, estudando, trabalhando ou visitando. Em outra fotografia, foi documentada a visita do médico francês León Bernard (1872 – 1934), especialista em tuberculose, membro do Comitê de Higiene da Liga das Nações e diretor dos Annales de Médecine.

 

 

Curiosamente, dentre as visitas registradas, encontramos duas fotos comprovando a presença inusitada do governador de São Paulo, Adhemar Pereira de Barros (1901 – 1969), que ficou famoso pelo modo condenável de administrar a coisa pública. Suspeito de angariar recursos financeiros em benefício próprio, Adhemar de Barros foi retratado junto aos pesquisadores do IOC. O que estaria fazendo Adhemar no Instituto? Adhemar era médico. E estudou no Curso de Aplicação do Instituto Oswaldo Cruz entre 1919 e 1920. Contudo, na imagem feita nos anos 1940, Adhemar de Barros havia abandonado a medicina e ingressado na vida política.

 

 

rei Alberto da Bélgica (1875 – 1934), em 25 de setembro de 1920, durante sua viagem ao Brasil, visitou Manguinhos, na companhia do presidente Epitácio Pessoa (1865 – 1942). Foram recebidos pelo cientista Carlos Chagas (1878 – 1934), diretor da instituição (O Paiz, 26 de setembro de 1920; Careta de 2 de outubro de 1920).

 

 

Dias depois, em 27 de setembro de 1920, a rainha Elizabeth da Bélgica (1876 – 1965) também visitou o instituto (O Paiz, 28 de setembro de 1920). Foi recepcionada por Carlos Chagas (1879 – 1934) e por seus assistente. O fotógrafo J. Pinto (1884 – 1951) registrou o evento quando, segundo o jornal A Noite:

A rainha trocou idéias com o Dr. Carlos Chagas sobre a profilaxia da doença do ‘barbeiro’, e ficou bastante impressionada com as notícias das doenças rurais do país, procurando informar-se da organização sanitária que visa à respectiva profilaxia. O diretor expôs-lhe em traços gerais o novo regulamento destinado ao combate das moléstias que dizimam a população dos nossos campos e, ao retirar-se a rainha, a quem fora oferecido um delicado ‘lunch’, S.S. fez-lhe oferta de um lindo ramalhete de cravos, presos por fitas com as cores brasileiras e belgas“.

A Noite, 28 de setembro de 1920

 

 

 

Finalmente, destaca-se a homenagem prestada por Carlos Chagas (1879 – 1934) ao ministro da Agricultura, Juarez Távora (1898 – 1975); ao interventor de Pernambuco, Carlos de Lima Cavalcanti (1892 – 1967); ao interventor do Rio de Janeiro, Pedro Ernesto (1884 – 1942); e a Washington Pires (1892 – 1970), ministro da Educação, em 26 de julho de 1933.

 

 

 

*Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz

 

Pesquisa complementar: Andrea C. T. Wanderley – Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XI – A Estrada de Ferro do Corcovado e o mirante Chapéu de Sol

 

Antes da construção do Cristo Redentor, inaugurado em 12 de outubro de 1931, havia no Corcovado um mirante que, devido a seu formato, ficou conhecido como Chapéu de Sol. Foi encomendado a uma fundição belga e construído, em 1885, por decisão de dom Pedro II (1825 – 1891), substituindo um precário pagode de madeira.

 

 

Acessando o link para as fotografias do Chapéu de Sol no Morro do Corcovado disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

Cerca de um ano antes, em 9 de outubro de 1884, foi concluída a linha férrea que ligava o Cosme Velho às Paineiras, cuja concessão para a construção foi dada aos engenheiros Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), futuro prefeito do Rio de Janeiro, e a João Teixeira Soares (1848 – 1927), um dos realizadores da Estrada de Ferro do Paraná, de Curitiba a Paranaguá, inaugurada também em 1884 (Revista de Engenharia, 1882, primeira coluna; Gazeta de Notícias, 8 de janeiro de 1882, segunda coluna).

Pereira Passos havia sido responsável, em 1874, pela elaboração de um plano urbano para o Rio de Janeiro inspirado nas obras realizadas em Paris pelo Barão de Haussmann (1809 – 1891). A Estrada de Ferro do Corcovado já estava prevista em relatórios de 1875 e 1876 entregues à Coroa pela comissão chefiada por ele.

O renomado engenheiro Marcelino Ramos da Silva (1844 – 1910), um dos fundadores do Club de Engenharia, que havia estudado nas escolas de Hannover e Hamburgo, na Alemanha, dirigiu as obras. Estavam presentes à inauguração deste primeiro trecho dom Pedro II (1825 – 1891), dona Teresa Cristina (1822 – 1889), a princesa Isabel (1846- 1921), o conde D ´Eu (1842 – 1922) , além dos ministros da Agricultura, Antônio Carneiro da Rocha (1842 – 1925), da Guerra, João José de Oliveira Junqueira Júnior (1832 – 1887), de outras autoridades e dos diretores da estrada (Gazeta de Notícias, 10 de outubro de 1884, primeira coluna).

 

 

 

 

 

 

Em 1º de julho de 1885, o tráfego foi aberto até o alto do Corcovado (Jornal do Commercio, 2 de julho de 1885, quinta coluna; Revista de Engenharia, 1885, primeira coluna). O ramal ferroviário entre o Cosme Velho e o Corcovado foi construído sob o sistema Riggenbach, com cremalheira denteada sobre um trilho central para dar maior segurança à composição (Revista de Engenharia, 14 de abril de 1884, primeira coluna).

 

 

Acessando o link para as fotografias da Estrada de Ferro do Corcovado disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

 

A ferrovia, com aproximadamente 3.800 km de extensão, era percorrida por uma locomotiva a carvão. Foi a primeira linha férrea turística das Américas. O passeio de trem até o mirante, inicialmente de tração à vapor e, a partir de fevereiro de 1910, de tração elétrica, passou a ser uma das atrações prediletas dos cariocas, que do topo do morro admiravam a beleza do Rio de Janeiro em todo o seu esplendor (O Paiz, 26 de fevereiro de 1910, quinta colunaO Jornal, 5 de abril de 1945, última coluna).

 

 

 

Uma curiosidade: durante as celebrações do centenário da independência do Brasil, em 7 de setembro de 1922, houve a primeira transmissão radiofônica no Brasil, marcada por um discurso do presidente Epitácio Pessoa (1865 – 1942) transmitido pelas antenas – que aparecem na fotografia aérea abaixo -, instaladas no morro do Corcovado, ao lado do Chapéu de Sol, que alcançou receptores em Niterói, Petrópolis e São Paulo.

 

 

O mirante Chapéu de Sol foi totalmente removido na década de 40 pelo então prefeito Henrique Dodsworth (1895 – 1975), dentro de um programa de melhoramentos no alto do Corcovado (O Jornal, 28 de maio de 1941, sexta colunaGazeta de Notícias, 24 de junho de 1942, quarta colunaCorreio da Manhã, 2 de abril de 1944, quarta colunaRevista da Semana, 17 de junho de 1944).

 

 

Uma curiosidade: O primeiro nome do Morro do Corcovado foi Pináculo das Tentações, possivelmente atribuído pelo navegador italiano Américo Vespúcio (1451 – 1512), que no início do século XVI, passou pela Baía do Rio de Janeiro. Mas por sua forma, no século XVII, passou a ser comumente chamado Corcovado. Sua ocupação definitiva aconteceu com a chegada da família imperial ao Brasil, em 1808. Dom Pedro I (17 98- 1834) conduziu, com o objetivo de estabelecer pontos de observação para a defesa da costa, a primeira expedição oficial ao Monte Corcovado, em 22 de fevereiro de 1824, registrada nas telas do francês Jean-Baptiste Debret (1868 – 1948).

 

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Segundo o Portal do Iphan:

“A iniciativa da abertura de um caminho terrestre para o Corcovado foi de D. Pedro I. Assessorado por engenheiros militares, D. Pedro I percorreu as montanhas que circundavam a cidade e dirigiu pessoalmente, os trabalhos para abrir uma picada para um cavaleiro, no Corcovado. No cimo do morro, mandou instalar um telégrafo (semáforo, que sinalizava a subida com bandeiras, em conexão com outras estações Palácio de S. Cristóvão, fortaleza de Santa Cruz e Forte de Copacabana). Neste mesmo ano, instalou-se o primeiro belvedere para descortinio da paisagem e um acampamento rústico para uso da família imperial, quando de suas excursões ao local. As caminhadas e passeios à região, tornaram-se um hábito junto à população, e em especial junto aos visitantes e cronistas estrangeiros que registram textual e iconograficamente estes passeios”. 

 

O título deste artigo foi alterado de A Estrada de Ferro do Corcovado e o mirante Chapéu de Sol para Série O Rio de Janeiro desaparecido XI – A Estrada de Ferro do Corcovado e o mirante Chapéu de Sol, em 16 de setembro de 2021.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BARBOSA, Verônica Mendes Borges; BONILHA, Caroline Leal. Paisagem brasileira: do retrtao pictórico ao retrato fotográfico. Universidade Federal de Pelotas, RS.

Dunlop, Charles Julius. Rio Antigo. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo, 1963.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MOTA, Isabela; PAMPLONA, Patricia. Vestígios da paisagem carioca: 50 lugares desaparecidos do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro ; Mauad X, 2019.

Portal Iphan

SEMENOVITCH, Jorge Scévola. Corcovado: a conquista da montanha de Deus. Rio de Janeiro : Editora Lutecia, 2010

Site Arquidiocese de São Sebaastião do Rio de Janeiro

Site Câmara dos Deputados

Site Diário do Rio

Site História de Marcelino Ramos

 

 

Links para os outros artigos da Série O Rio de Janeiro desaparecido

 

Série O Rio de Janeiro desaparecido I Salas de cinema do Rio de Janeiro do início do século XXde autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 26 de fevereiro de 2016.

Série O Rio de Janeiro desaparecido II – A Exposição Nacional de 1908 na Coleção Família Passos, de autoria de Carla Costa, historiadora do Museu da República, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 5 de abril de 2018.

Série O Rio de Janeiro desaparecido III – O Palácio Monroe, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 9 de novembro de 2016.

Série O Rio de Janeiro desaparecido IV - A via elevada da Perimetral, de autoria da historiadora Beatriz Kushnir, publicado na Brasiliana Fotográfica em 23 de junho de 2017.

Série O Rio de Janeiro desaparecido V – O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlopde autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portalpublicado na Brasiliana Fotográfica em 20 de julho de 2018.

Série O Rio de Janeiro desaparecido VI – O primeiro Palácio da Prefeitura Municipal do Rio de Janeirode autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de setembro de 2018.

Série O Rio de Janeiro desaparecido VII – O Morro de Santo Antônio na Casa de Oswaldo Cruzde autoria de historiador Ricardo Augusto dos Santos da Casa de Oswaldo Cruzpublicado na Brasiliana Fotográfica em 5 de fevereiro de 2019.

Série O Rio de Janeiro desaparecido VIII – A demolição do Morro do Castelode autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portalpublicado na Brasiliana Fotográfica em 30 de abril de 2019.

Série O Rio de Janeiro desaparecido X – No Dia dos Namorados, um pouco da história do Pavilhão Mourisco em Botafogode autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de junho de 2020.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XI – A Estrada de Ferro do Corcovado e o mirante Chapéu de Sol, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 22 de julho de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XII – o Teatro Lírico (Theatro Lyrico), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 15 de setembro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XIII – O Convento da Ajuda, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de outubro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XIV – O Conselho Municipal, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 19 de novembro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XV – A Praia de Santa Luzia no primeiro dia do verão, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 21 de dezembro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XVI – O prédio da Academia Imperial de Belas Artes, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, publicado na Brasiliana Fotográfica em 13 de janeiro de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XVII – Igreja São Pedro dos Clérigos, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 18 de março de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XVIII – A Praça Onze, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 20 de abril de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XIX – A Igrejinha de Copacabana, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 23 de junho de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XX – O Pavilhão dos Estados, futuro prédio do Ministério da Agricultura, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 26 de julho de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXI – O Chafariz do Largo da Carioca, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 19 de setembro de 2022. 

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXII – A Cadeia Velha que deu lugar ao Palácio Tiradentes, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 11 de abril de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXIII e Avenidas e ruas do Brasil XVII A Praia e a Rua do Russel, na Glória, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 15 de maio de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXIV – O luxuoso Palace Hotel, na Avenida Rio Branco, uma referência da vanguarda artística no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 4 de julho de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXV – O Theatro Phenix, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 5 de setembro de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXVI – Conclusão do arrasamento do Morro do Castelo por Augusto Malta, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 14 de dezembro de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXVII e Série Os arquitetos do Rio de Janeiro V – O Jockey Club e o Derby Club, na Avenida Rio Branco e o arquiteto Heitor de Mello (1875 – 1920), de autoria de Andrea c. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, em 15 de janeiro de 2024

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IX – Ruas e panoramas do bairro do Catete

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IX – Ruas e panoramas do bairro do Catete

A Brasiliana Fotográfica publica o nono artigo da série Avenidas e ruas do Brasil e convida seus leitores a um passeio pelas ruas do Catete, a partir de fotografias de autoria de Antônio Caetano da Costa Ribeiro (18? – 19?), Augusto Malta (1864 – 1957), Augusto Stahl (1828 – 1877), Georges Leuzinger (1813 – 1892)Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897) e Marc Ferrez (1843  1923). São vistas panorâmicas e registros das ruas Conde de Baependy, do Príncipe, da Praça José de Alencar e, finalmente, da Rua do Catete, onde localiza-se o Palácio do Catete, que já foi a residência dos presidentes da República do Brasil e o local do suicídio de Getulio Vargas (1882-1954), em 24 de agosto de 1954, um dos fatos mais dramáticos de nossa história. Hoje abriga o Museu da República, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica.

 

 

Acessando o link para as fotografias do Catete disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Links para as outras publicações da série “Avenidas e ruas do Brasil”

 Série “Avenidas e ruas do Brasil” I – Avenida Central, atual Rio Branco, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 7 de setembro de 2016

Série “Avenidas e ruas do Brasil” II – A Rua do Imperador em Petrópolis por Klumb, Leuzinger e Stahl, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 26 de junho de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” III – A Rua do Bom Jesus, no Recife, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 6 de agosto de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IV – A Rua 25 de Março, em São Paulo, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 1º de setembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” V – A Rua Direita, a Rua das Mercês e a Rua Macau do Meio, em Diamantina, Minas Gerais, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 22 de outubro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VI  – Rua Augusto Ribas e outras, em Ponta Grossa, no Paraná, pelo fotógrafo Luiz Bianchi, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 16 de novembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VII – A Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 23 de dezembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil VIII – A Rua da Carioca por Cássio Loredano, de autoria de Cássio Loredano, publicada em 20 de janeiro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” X – A Rua da Ajuda, no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 9 de novembro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XI – A Rua da Esperança, em São Paulo, por Vincenzo Pastore, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 14 de dezembro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XII – A Avenida Paulista, o coração pulsante da metrópole, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 21 de janeiro de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XIII – A Rua Buenos Aires no Centro do Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 19 de julho de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XIV – A Avenida Presidente Vargas,, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 31 de agosto de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XV – Misericórdia: rua, largo e ladeira, no Rio de Janeiro, por Cássio Loredano, de autoria de Cássio Loredano, publicada em 8 de dezembro de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVI – “Alguma coisa acontece no meu coração”, a Avenida São João nos 469 anos de São Paulo, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 25 de janeiro de 2023

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVII  e série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXIII – A Praia e a Rua do Russel, na Glória, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 15 de maio de 2023

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVIII – Avenida Beira-Mar, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 22 de janeiro de 2024

 

 

Série “Teatros e cinemas do Brasil” IV – Cinema no Brasil – a primeira sessão e um pouco da história do Cinema Odeon

Um “aparelho que projeta sobre uma tela colocada ao fundo da sala diversos espetáculos e cenas animadas, por meio de uma série enorme de fotografias“. Assim o Jornal do Commercio descreveu o omniógrafo, após a primeira sessão pública de cinema no Brasil, que aconteceu às 14h, do dia 8 de julho de 1896, no Rio de Janeiro, em uma sala especialmente preparada para as projeções do aparelho, na rua do Ouvidor (Jornal do Commercio, 9 de julho de 1896, quarta coluna). A exibição ocorreu poucos meses após a projeção inaugural dos filmes dos irmãos Auguste (1862 – 1954) e Louis-Jean Lumière (1864 – 1948), em Paris, no dia 28 de dezembro de 1895, no Grand Café do Boulevard des Capucines.

 

 

Diversos fotógrafos não ficaram indiferentes à nova invenção. Alguns exemplos já abordados pela Brasiliana Fotográfica são Benjamin Abrahão Calil Botto (1901 – 1938), Jorge Kfuri (1893 – 1965)João Stamato (1886 – 1951)Marc Ferrez (1843 – 1923) e seus filhos e Walter Garbe (18? – 19?).

 

Acessando o link para as fotografias dos cinemas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Nesse artigo, a Brasiliana Fotográfica homenageia a sétima arte e destaca a imagem do Cinema Odeon produzida pelo fotógrafo alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), que foi, de 1903 a 1936, o fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro. Acessando a fotografia no acervo do portal, o leitor poderá magnificá-la, verificar todos os dados referentes a ela e explorar todos os seus detalhes, como, por exemplo, os pedestres, os carros, a iluminação pública, a presença de uma agência da Sul-América Seguros no prédio, a arquitetura da fachada e ônibus que aparecem no registro. Basta clicar aqui ou na própria imagem. A preservaçao digital de imagens possibilita, a partir de recursos tecnológicos como o zoom, que as fotografias tenham outra visibilidade e possam ser acessadas em sua qualidade plena.

 

 

A sala de cinema Odeon já existia na década de 10, na então avenida Central, atual Rio Branco, nº 137, esquina com a rua Sete de Setembro, quando, entre 1909 e 1913, o pianista Ernesto Nazareth (1863 – 1934) tocava na sala de espera, tendo merecido um elogio do também pianista e compositor Henrique Oswald (1852 – 1931) que o ouviu no Cinema Odeon: “É admirável esse moço. Que música ele faz! Eu mesmo seria incapaz de interpretá-la com aquela mestria, aquele prodígio de ritmo. E aqui, perdido nesta indiferença…”. Nazareth havia dedicado o tango Batuque (1901) a Oswald.

Nazareth retornou ao cinema, entre 1913 e 1918, como pianista da orquestra de Eduardo Andreozzi  (1892-1979). Villa-Lobos (1887 – 1959) era, na ocasião, o violoncelista. Darius Milhaud (1892 – 1974), que passou uma temporada no Brasil, tambem o ouviu tocar no Odeon e, posteriormente, escreveu sobre ele em sua autobiografia Notes san musique. Foi também no Odeon que o pianista polonês Arthur Rubinstein (1887-1982) o ouviu tocar, tendo ficado impressionado com sua performance. Sua composição, o tango Odeon, publicado em 1909 pela Casa Mozart (E. Bevilacqua & Cia.) foi dedicado “à distinta empresa Zambelli & Cia.”, proprietária do Cinema Odeon. A primeira gravação foi realizada por ele com Pedro Alcântara (1866 – 1929) ao flautim, em 1912. Não foi, na época, uma peça de especial destaque, mas tornou-se um de seus maiores sucessos na segunda metade do século XX.

 

 

Voltando ao Cinema Odeon, o atual prédio, fotografado por Malta, foi inaugurado em 3 de abril em 1926, na Praça Floriano, nº 7, no auge da presença de salas de cinema na Cinelândia, no centro do Rio (Jornal do Commercio, 2 de abril de 1926, quarta coluna; O Paiz, 4 de abril de 1926, segunda coluna). Passou por reformas em fins do século XX e, sob a administração do Grupo Estação, foi fechado em 2014, devido a dívidas. Reaberto, em 2015, como Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro – Cine Odeon passou a ser, além de sala de cinema, um espaço para cursos, palestras e espetáculos. O Cine Odeon mantém viva a tradição dos cinemas de rua do Rio de Janeiro.

 

 

” O ODEON é parte da memória cultural do Rio de Janeiro e representa uma época em que o cinema e o Centro da cidade se confundiam e se completavam. Sua história acompanha as mudanças da cidade ao seu redor ao longo dos seus 90 anos e continua a encantar o público, combinando com maestria a tradição e a renovação, o clássico e o contemporâneo, sem nunca perder a força da sua identidade“.

 

 

 

Link para o site Ernesto Nazareth 150 anos, do Instituto Moreira Salles.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Site Cine Odeon

Site Ernesto Nazareth 150 Anos – Instituto Moreira Salles

Site Musica Brasilis

Youtube

 

Outros artigos publicados na Brasiliana Fotográfica sobre teatros e cinemas

 

Série O Rio de Janeiro desaparecido I Salas de cinema do Rio de Janeiro do início do século XXpublicado em 26 de fevereiro de 2016.

Os teatros do Brasil, publicado em 21 de março de 2016

A inauguração do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, publicado em 14 de julho de 2017

Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XII – O Teatro Lírico (Theatro Lyrico), publicado em 16 de setembro de 2021

O Theatro de Santa Isabel, publicado em 28 de outubro de 2021

O Teatro Amazonas (Theatro Amazonas), em Manaus, a “Paris dos Trópicos”, publicado em 28 de dezembro de 2021

O Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, no Dia Mundial do Teatro, publicado em 27 de março de 2023

Dia do Cinema Brasileiro, publicado em 19 de junho de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXV – O Theatro Phenix, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado em 5 de setembro de 2023

O Theatro da Paz, em Belém do Pará, inaugurado em 15 de fevereiro de 1878, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado em 15 de fevereiro de 2024

A Floresta da Tijuca na Coleção Família Passos

Nesse artigo, o cientista político Paulo Celso Corrêa, do Museu da República, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, nos convida a um passeio pela Floresta da Tijuca nos primeiros anos do século XX, a partir de visitas que o ex-prefeito do Distrito Federal, Francisco Franco Pereira Passos (1836-1913), fazia ali com sua família e convidados. A Floresta da Tijuca é uma das principais áreas verdes urbanas do mundo, com 33 km2 e 3.953 hectares. Desde 1961, integra o Parque Nacional que reúne as demais florestas do Maciço da Tijuca, com abrangência sobre as zonas oeste, norte e sul da cidade do Rio de Janeiro.

 

A Floresta da Tijuca na Coleção Família Passos

Paulo Celso Corrêa*

 

O patrimônio natural e histórico da Floresta da Tijuca, produto e testemunha da história da ocupação humana na região, inspirou a produção de diversos registros fotográficos ao longo dos séculos XIX e XX, alguns dos quais já mostrados aqui no portal Brasiliana Fotográfica, no artigo A Floresta da Tijuca no Dia Mundial do Meio Ambiente, publicada em 5 de junho de 2019.

As fotos a seguir ampliam o escopo desses registros ao retratar diferentes aspectos da Floresta da Tijuca durante as visitas que o ex-prefeito do Distrito Federal, Francisco Franco Pereira Passos (1836-1913), fazia ali com sua família e convidados. As fotos são de autoria de Augusto Malta (1864 – 1957), foram produzidas entre 1904 e 1906, e pertencem à Coleção Família Passos do Arquivo Histórico do Museu da República.

 

 

A Floresta da Tijuca é o resultado de uma grande obra de reflorestamento iniciada em 1861 pelos seus primeiros administradores, o major Manuel Gomes Archer (1821 – 1907) e o Barão d’Escragnolle (1821 – 1888). Desde fins do século XVIII, a vegetação original que cobria o Maciço da Tijuca havia sido devastada pelas plantações de café e pelas queimadas para produção de carvão. Com isso, as fontes de água potável da região, que abasteciam a cidade, ficaram ameaçadas de secar. A recuperação da floresta começou com a desapropriação das fazendas de café e o plantio de sementes e mudas de árvores nativas e exóticas. O projeto do paisagista francês Auguste Glaziou (1828 – 1906) transformou a floresta num parque, com a abertura de estradas cavalgáveis, fontes, lagos, pontes e áreas de lazer como o mirante do Excelsior, a gruta Paulo e Virgínia e a Vista do Almirante.

Tão logo o verde voltou a tomar conta dos altos tijucanos, as fazendas de café deram lugar às chácaras de nobres e burgueses, atraídos pelo sossego e clima fresco semelhante ao de Petrópolis. A Floresta da Tijuca se tornou o lugar favorito de quem, a exemplo dos integrantes da Família Real brasileira, buscava “passeios pitorescos e pic-nics restauradores” como os prometidos em um anúncio do Almanak Laemmert, de 1897:

 

 

As ações tomadas pela gestão de Francisco Pereira Passos na prefeitura do Distrito Federal entre 1902 e 1906 buscaram tornar a Floresta da Tijuca melhor sinalizada, transitável e atrativa aos praticantes do que se chamava à época de “excursionismo” – o hábito de sair de casa, na cidade, para apreciar a natureza, fazendo passeios e piqueniques. Antes, como engenheiro, Passos já havia trabalhado em outro projeto relacionado ao aproveitamento das florestas e montanhas do Maciço da Tijuca para fins recreativos e turísticos: a construção da estrada de ferro ligando o Cosme Velho ao Corcovado, inaugurada em 1885.

As primeiras iniciativas da reforma urbana de Passos para a Floresta da Tijuca foram a reconstrução, em saibro, da estrada que ligava a rua Conde de Bonfim ao Alto da Boa Vista e, neste, a criação de uma praça – atual praça Afonso Viseu – com jardim projetado pelo paisagista francês Paul Villon (1841 – 1905). Nela foi construído um coreto de música oferecido pela Companhia Ferro-Carril de São Cristóvão, que operava a linha de bonde do Largo de São Francisco até o Alto da Boa Vista. O quiosque ali existente foi demolido e substituído por um restaurante de arquitetura em estilo norueguês, mais afinado aos critérios burgueses de higiene e bom-gosto. Um dos traços da reforma Passos foi o combate aos quiosques que, servindo comidas e bebidas a trabalhadores, desocupados e demais integrantes das camadas pobres da sociedade, eram qualificados como focos de desordem e sujeira. Agindo de tal modo, o poder público assegurava então que a Floresta da Tijuca continuasse a ser um espaço moldado ao gosto das classes dominantes e que, na esteira das transformações urbanas promovidas na capital federal, fosse capaz de atrair visitantes e turistas. O coreto, o jardim e o restaurante aparecem nesses dois postais, que reproduzem fotos de Augusto Malta.

 

 

 

A inauguração da praça aconteceu em 12 de outubro de 1903 e contou com a presença do presidente Rodrigues Alves, conforme noticiou o Jornal do Brasil na matéria Alto da Boa Vista, publicada no dia seguinte. Na mesma ocasião, foram inauguradas a Mesa do Imperador reformada e o novo pavilhão oriental da Vista Chinesa.

No lugar conhecido como Mesa do Imperador, onde se supõe que a Família Real fazia suas refeições quando passeava pela Tijuca, a prefeitura fez construir um novo caramanchão e grades rústicas para melhor abrigar os piqueniques. A seguir, a foto de Augusto Malta mostra a Mesa do Imperador com essas novidades, em 1903; e o cartão postal (sem data) registra Passos e um grupo majoritariamente feminino, que inclui sua esposa Maria Rita, posando diante de uma placa na qual se lê o nome do lugar, a sua altitude e a sigla PM de “Prefeitura Municipal”.

 

 

 

Mais adiante se chega à Vista Chinesa, lugar assim chamado desde meados do século XIX em alusão aos trabalhadores chineses que cultivavam chá nas antigas fazendas da região. Na gestão de Pereira Passos, foi erguido ali um novo pavilhão em forma de pagode (torre típica dos templos budistas asiáticos), com estrutura de argamassa imitando bambu e uma mesa de piquenique. O projeto foi de autoria do arquiteto Luiz Rey. Desse mirante, inaugurado em 1903, se podia ver o Corcovado (ainda sem o Cristo Redentor), o Pão de Açúcar, a Baía de Guanabara, a Lagoa Rodrigo de Freitas e um pouco de Niterói. A foto seguinte mostra o pavilhão ainda em um estágio primário de construção.

 

 

As fotos abaixo registram uma visita de Passos à Tijuca, realizada em 19 de abril de 1906, com a finalidade de verificar os reparos feitos nas estradas da região, danificadas após fortes chuvas. A visita foi noticiada na seção “Prefeitura” do Jornal do Brasil de 20 de abril de 1904, na sétima coluna. Também integravam a comitiva Jerônimo Coelho, diretor municipal de Obras e Viação, e Manuel Maria Del Castilho, superintendente do Serviço de Limpeza Pública e Particular. As fotos de Malta mostram o grupo na Estrada da Vista Chinesa, em meio a um corredor de bambus; e na Estrada do Pica-Pau, destacando a presença da Pedra da Gávea ao fundo e alguns aspectos da comunidade local, como um armazém de secos e molhados e uma escola pública.

 

 

 

 

 

Nas fotos a seguir, datadas de 8 de julho de 1906, Passos e um grupo de homens aparecem em passeio à Mesa do Imperador, à Vista Chinesa e ao Rio das Furnas. Na foto abaixo, Malta destacou a Mesa do Imperador com as inovações inauguradas três anos antes. Pereira Passos aparece no canto direito, conversando com dois homens sentados na cerca rústica.

 

 

Posicionado no pavilhão da Vista Chinesa, Augusto Malta fotografou Passos e seus convivas, observados ao fundo por um adulto e uma criança descalços, provavelmente trabalhadores encarregados de manter a estrada em boas condições. O homem à direita de Pereira Passos segura um binóculo, instrumento necessário à melhor contemplação da paisagem oferecida pelo mirante. Na imagem é possível ver a traseira de um automóvel, veículo cada vez mais presente nas ruas das principais cidades brasileiras a partir dos primeiros anos do século XX. O carro, ainda privilégio daqueles com bastante dinheiro para pagar pela sua importação, facilitava subir as estradas da Floresta da Tijuca; por outro lado, também contribuía para este novo acontecimento da vida urbana, o acidente automobilístico, como o que aconteceu nas proximidades da Vista Chinesa, conforme noticiado pela Revista da Semana de 16 de junho de 1907.

 

 

O mesmo grupo de homens aparece noutra foto, produzida no mesmo passeio, à beira do Rio das Furnas.

 

 

Já o cartão postal abaixo foi feito a partir de foto de Augusto Malta do dia 14 de junho de 1904, durante a excursão oferecida pela prefeitura aos delegados brasileiros da Convenção Sanitária Internacional entre o Brasil, a Argentina e o Uruguai, encerrada no dia anterior. No canto esquerdo da imagem está a esposa do prefeito, Maria Rita Passos,  na Vista Chinesa. A convenção teve a finalidade de unificar protocolos de combate e prevenção à epidemias entre os três países. O sanitarista Oswaldo Cruz (1872 – 1917), então Diretor-Geral de Saúde Pública do Distrito Federal, integrava a delegação brasileira, mas não participou do passeio tijucano. Desde o ano anterior, Cruz vinha aplicando uma série de novas e polêmicas medidas para o combate à febre amarela e à peste bubônica, como os batalhões de mata-mosquitos e a compra de ratos. Naquele momento a cidade passava por um grave surto de varíola, o que em breve levaria o governo federal a propor a lei de vacinação obrigatória contra a doença, episódio que culminaria na Revolta da Vacina, em novembro de 1904.

 

 

Abaixo, os participantes da excursão posam para foto na escadaria do Hotel White, antigo Palacete do Conde de Boa Vista. O Jornal do Brasil do dia 15 de junho deu notícia do acontecimento na matéria No Alto da Boa Vista.

 

 

Situado no Alto da Boa Vista, o Hotel White aparece em várias outras fotos dessa série. Isso porque as recepções oferecidas aos figurões da política, dos negócios e da cultura que visitavam a cidade do Rio de Janeiro costumavam incluir passeios à Floresta da Tijuca e refeições num dos hotéis de luxo existentes na região. O palacete neoclássico que servia como edifício principal do Hotel White foi construído em meados do século XIX para o Conde de Itamaraty, sob projeto do arquiteto José Maria Jacinto Rebelo (1821 – 1871), responsável também por parte do Palácio do Itamaraty, no centro do Rio. Posteriormente, o hotel foi renomeado em homenagem ao primeiro proprietário, como se vê no anúncio publicado na revista Careta de 24 de janeiro de 1914. O palacete é tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural desde 1979.

 

 

As fotos abaixo foram produzidas por Augusto Malta no jardim do Hotel White, em 17 de dezembro de 1905. Fazem parte de um pequeno álbum que reúne fotos descontraídas do engenheiro Francisco Oliveira Passos (1878 – 1958), filho do prefeito e então consultor técnico da prefeitura, posando e fumando com um grupo de homens, dentre os quais o escritor e diplomata Graça Aranha (1868 – 1931) e o diretor da Limpeza Pública, Manoel Maria Del Castilho (1856 – 1911). A fotografia do grupo no coreto da praça do Alto da Boa Vista foi depois transformada em postal, enviado a Oliveira Passos pelo próprio Malta no Natal de 1905.

 

 

 

As fotos abaixo, também no Hotel White, mostram cenas da visita de Elihu Root (1845 – 1937), Secretário de Estado dos Estados Unidos, à Floresta da Tijuca. Em agosto de 1906, Root veio ao Rio de Janeiro participar da Terceira Conferência Pan Americana, iniciada em 25 de julho no Palácio Monroe, com a participação de representantes de dezenove países da América. Root chegava ao Brasil como representante da política externa do “Corolário Roosevelt”, oficializada pelo presidente estadunidense Theodore Roosevelt (1858 – 1919), em 1904, que justificava as intervenções militares “preventivas” dos Estados Unidos em outros países no caso de perturbação da ordem e desrespeito aos contratos. O Brasil, no entanto, não se via ameaçado pelo chamado “Grande Porrete”. A política externa brasileira dirigida pelo Barão do Rio Branco (1845 – 1912) considerava o poderio do país norte-americano um fator de proteção contra o intervencionismo europeu e um aliado na promoção dos interesses brasileiros no sul do continente.

As esperanças do governo brasileiro manifestaram-se no entusiasmo com que Root foi recebido no país. Sua despedida da capital federal, no dia 3 de agosto de 1906, foi marcada por um passeio à Floresta da Tijuca, organizado por Pereira Passos e por Joaquim Nabuco (1849 – 1910), embaixador nos Estados Unidos e chefe da delegação brasileira na Conferência. Na primeira foto aparecem Nabuco, Maria Rita Passos e as senhoritas Teixeira Castro num dos automóveis da excursão, que passou pelo Mirante Excelsior, Gruta Paulo e Virgínia, Vista Chinesa, Estrada de Furnas e pelas Furnas de Agassiz. O encontro incluiu um almoço no Hotel White (Jornal do Brasil, 4 de agossto de 1906, sétima coluna).

 

 

 

A vinda de Root, primeira viagem oficial de um secretário de Estado dos Estados Unidos ao exterior, foi interpretada pelos entusiastas da modernidade republicana como indício da inclusão do Brasil no seleto grupo dos países “civilizados”. O mesmo se deu com a chegada ao Rio da turnê internacional de uma prestigiosa atriz do teatro europeu, a italiana Tina Di Lorenzo (1872 – 1930). Ela veio ao Rio com sua companhia teatral apresentar um repertório de peças famosas que incluía Romeu e Julieta, de Shakespeare; Casa Paterna, de Hermann Sudermann e A Dama das Camélias, de Alexandre Dumas, dentre outros sucessos. E, como de costume, ela também foi convidada pelos Passos a conhecer a Floresta da Tijuca, junto de seu marido, o também ator teatral Armando Falconi (1871 – 1954) (Revista da Semana, 3 de junho de 1906).

Nas fotos a seguir, o grupo aparece fotografado diante das Furnas de Agassiz, conjunto de grutas e cavernas cujo nome faz referência ao naturalista suíço Louis Agassiz (1807 – 1873), que as estudou quando viajou pelo Brasil entre 1865 e 1866. Tina e o marido posam juntos diante da gruta principal das Furnas, formada por um conjunto de rochas superpostas. Noutra foto é possível ver os carros que levaram o grupo até o local e, na paisagem ao fundo, a Pedra da Gávea. Outro local visitado durante o passeio foi a Gruta de Paulo e Virgínia, batizada em referência ao romance francês Paulo e Virgínia, de Bernardin de Saint Pierre, muito famoso durante o século XIX (O Malho, 30 de junho de 1906).

 

 

 

 

 

* Paulo Celso Liberato Corrêa é cientista político do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República.

 

Fontes: 

ABREU, Alzira Alves de (coord.). Dicionário Histórico-Biográfico da Primeira República (1889-1930). Rio de Janeiro: Editora FGV, 2015.

AGASSIZ, Elizabeth Carey & AGASSIZ, Louis. Viagem ao Brasil 1865-1866. Brasília: Senado Federal, 2000.

CRULS, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1965.

GERSON, Brasil. História das ruas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Editora Bem-te-vi, 2015.

SEVCENKO, Nicolau. A revolta da vacina. São Paulo: Editora Scipione, 1993.

O centenário da morte de João do Rio (1881 – 1921), o cronista da “belle époque” carioca

Em sua época, Paulo Barreto (1881 – 1921), o João do Rio, era considerado o príncipe dos cronistas brasileiros: “Era um espírito de escol, educado, viajado, e enobreceu, quanto pode, as letras do país conquistando um nome imortal pela glória constante do trabalho (Bahia Illustrada, junho de 1921). Foi o primeiro grande repórter da imprensa brasileira do século XX e sua produção oscilava entre a reportagem e o conto.

Morou, a partir de fins da década de 1910, em uma casa na praia de Ipanema, na rua Vieira Souto, nº 476, registrada por Chapelin (18? – 19?), fotógrafo sobre o qual se sabe muito pouco. Anteriormente, João do Rio morava na rua Gomes Freire, na Lapa. Segundo o jornalista e historiador Raimundo Magalhães Junior (1907 – 1981), a casa deve ter sido adquirida, a preço de propaganda, desse espírito empreendedor o esquecido Raul Kennedy de Lemos (1880 – 1951), fundador da Companhia Construtora Ipanema. João do Rio comprou outra casa para sua mãe, também em Ipanema, na rua Prudente de Moraes, 391.

 

 

Pouco antes, ele havia escrito a crônica Praia Maravilhosa em homenagem ao bairro (O Paiz, 23 de maio de 1917). O título faz uma referência à expressão Cidade Maravilhosa – La Ville Merveilleuse -, nome do livro onde os poemas Amor ao Rio, de autoria da francesa Jane Catulle Mendès (1867 – 1955), foram publicados em 1913. Ela havia passado uma temporada, de setembro a dezembro de 1911, no Rio de Janeiro, quando se encantou pela cidade (O Paiz, 20 de setembro, quarta coluna; e 6 de dezembro, primeira coluna de 1911).

 

 

Voltando à crônica de João do Rio sobre Ipanema. Nela, ele evidencia seu entusiasmo pela beleza assim como traça o perfil do bairro, ainda recente e pouco habitado. Sobre a crônica, Magalhães Junior comentou que dava a “impressão de um prospecto predial. É claro que não poderia ter sido coisa desinteressada, pois João do Rio não era ingênuo ao ponto de se deixar arrastar por alguém cujo interesse estava perfeitamente caracterizado: criar ambiente favorável à venda de lotes de terreo e de casa a prestações”. Mas tudo indica que os elogios do cronista eram sinceros tanto que pouco tempo depois mudou-se para o bairro.

 

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Um pouco da história de Ipanema

José Antônio Moreira Filho (1830-1899), o barão e conde de Ipanema, comprou, em 1878, do tabelião e empresário Francisco José Fialho (1820? – 1885), um lote de terras que ia desde a atual rua Barão de Ipanema até o atual Canal do Jardim de Alah. Criou, então, um novo bairro, que batizou de “Villa Ipanema”, em homenagem a seu pai, o primeiro barão e conde de Ipanema, o paulista João Antônio Moreira (1797 – 1879). O nome Ipanema significa em tupi água ruim e foi inspirado por uma das propriedades do barão, em Minas Gerais.

A Villa Ipanema foi inaugurada, em 15 de abril de 1894, pelo barão e por seu sócio José Silva com a presença do prefeito Henrique Valladares, que no mesmo dia inaugurou a ampliação das linhas de bonde da empresa de Ferro Carril do Jardim Botânico, da Praça Malvino Reis, atual Serzedelo Correia, até a ponta da Igrejinha, que era a Igreja de Nossa Senhora de Copacabana, erguida no século XVIII e derrubada em 1918, próxima à rua Francisco Otaviano (Gazeta de Notícias, 16 de abril de 1894, terceira coluna). Em 26 de abril de 1894, foi assinada a ata de fundação definitiva do bairro Villa Ipanema, com a presença do então prefeito Henrique Valadares e do barão e conde de Ipanema, que lançou, em seus terrenos, um enorme loteamento, berço do que é ainda hoje um dos bairros mais valorizados da cidade do Rio de Janeiro. No princípio, foram abertas 13 ruas, uma avenida e duas praças no areal sem valor, tomado por pitangueiras, cajueiros e araçazeiros. Até hoje essas vias são as mais importantes artérias do bairro. Entre elas, a avenida Vieira Souto e as ruas Prudente de Moraes e Visconde de Pirajá, essa última batizada inicialmente de Vinte de Novembro. Ipanema conservou a denominação de vila até a década de 20. Apesar de alguns autores considerarem outras datas, o dia 26 de abril de 1894 é a data mais aceita como marco de referência da fundação do bairro. Ipanema tornou-se, ao longo do século XX, reduto de artistas, intelectuais, jornalistas e boêmios, um dos símbolos do comportamento de vanguarda, exportando a moda e os costumes cariocas para o resto do país.

 

Um pouco da vida de Paulo Barreto, o João do Rio (1881 – 1921)

 

 

“Qual de vós já passou a noite em claro ouvindo o segredo de cada rua? Qual de vós já sentiu o mistério, o sono, o vício, as idéias de cada bairro?”

João do Rio em  A Alma Encantadora das Ruas (1908)

 

Carioca, filho do matemático positivista Alfredo Coelho Barreto e da dona de casa Florência Cristóvão dos Santos Barreto, João Paulo Alberto Coelho Barreto nasceu em 5 de agosto de 1881. Em 1899, iniciou sua carreira no jornalismo, tendo colaborado, ao longo de sua vida, em diversas publicações, dentre elas O Paiz, A Noite, A Pátria, Revista Ilustrada, Rio-Jornal e a Gazeta de Notícias, onde ficou de 1903 a 1915, e onde assinou pela primeira vez como João do Rio, pseudônimo pelo qual tornou-se mais conhecido, no artigo O Brasil lê, publicado em 26 de novembro de 1903, uma enquete dos autores preferidos dos cariocas. Teve outros pseudônimos, dentre eles Claude, Caran d’Ache, Joe e José Antônio José. Assinou colunas importantes como “A cidade” (1903 a 1904), “O instante”(1912 a 1916), À margem do dia”(1913 a 1915), “Cinematógrafo” (1907 a 1910), todas na Gazeta de Notícias; “Pall-Mall Rio” (1915 a 1917), em O Paiz; “A Semana Elegante” (1916), na Revista Ilustrada; e “Notas de Teatro” (1918), no Rio-Jornal. Seus mais importantes personagens foram a cidade do Rio de Janeiro e ele mesmo, um dândi nos trópicos.

 

 

Entre 1902 e 1906, o Rio de Janeiro teve como prefeito Francisco Pereira Passos (1836 – 1913) que realizou na cidade uma significativa reforma urbana. Para saneá-la e modernizá-la realizou diversas demolições, conhecidas popularmente como a política do “bota-abaixo”, que contribuiu fortemente para o surgimento do Rio de Janeiro da Belle Époque. Em sua obra, que fundia a crônica com a reportagem, João do Rio escrevia sobre essas transformações, contribuindo para a formação da imagem desse novo Rio de Janeiro.

 

“Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem…É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. “

João do Rio em  A Alma Encantadora das Ruas (1908)

 

Em 1902, tentou ingressar no Itamaraty mas foi recusado pelo Barão do Rio Branco (1845 – 1912)  que justificou a decisão dizendo que as nomeações para a vaga pleiteada por João do Rio na comissão que estava organizando para tratar das questões da fronteira entre Brasil e Colômbia já haviam sido preenchidas por Enéias Martins, que chefiaria a missão. Segundo o professor Renato Cordeiro Gomes em seu livro João do Rio: vielas do vício, ruas da graça, na verdade teria sido recusado por ser “gordo, amulatado e homossexual“. O Brasil perdeu um diplomata e ganhou um notável jornalista/escritor. Sobre o trabalho na imprensa, em sua coluna “Cinematógrafo”, o definiu como “o voluntário cativeiro para o qual não há abolição possível” (Gazeta de Notícias, 10 de maio de 1908, sexta coluna). Produziu para a Gazeta de Notícias, as séries de reportagem  Religiões do Rio , em 1904, e O Momento Literário, em 1905, que foram posteriomente compiladas e publicadas pela Garnier.

Em 12 de agosto de 1910, tomou posse na Academia Brasileira de Letras – havia sido eleito em 7 de maio. Foi recebido por Coelho Neto (1864 – 1934)(Site da ABL). Foi o primeiro a acadêmico a ser empossado com o “fardão dos imortais”, ideia do também acadêmico Medeiros e Albuquerque (1867 – 1934).

 

 

Foi o responsável pelo texto do álbum Theatro Municipal do Rio de Janeiro, de 1913, com fotografias produzidas pelo ateliê Photographia Musso, também editor do livro. O teatro, inaugurado em 14 de julho de 1909, é uma das mais importantes salas de espetáculo da América do Sul, seu prédio é um dos mais bonitos e imponentes da cidade e sua história mistura-se à trajetória cultural do Brasil.

 

 

Link para o pdf do álbum Theatro Municipal do Rio de Janeiro (1913) com texto de Paulo Barreto, o João do Rio, e imagens produzidas pela Photo Musso, também editora do livro.

A Photographia Musso, dirigida por Alfredo Musso, ficava na rua Uruguaiana, nº 12 (Almanak Laemmert, 1913, primeira coluna). Alfredo era irmão de Luis Musso (18? – 1908), que havia sido sócio do estabelecimento fotográfico do português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924), onde Alfredo havia trabalhado (Jornal do Commercio, 1º de fevereiro de 1897, penúltima colunaO Paiz, 19 de outubro de 1900, sexta coluna). Luis Musso havia sido o primeiro operador da Companhia Photographica Brazileira, dirigida pelo fotógrafo Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897), desde sua fundação, em 1892, até 31 de março de 1894 (Jornal do Commercio, 13 de fevereiro de 1898, na última coluna). Em 1904, tendo deixado de trabalhar na Photographia Guimarães, Alfredo e Luis Musso e Julio D. Beltgen anunciaram a abertura de um novo estabelecimento fotográfico, na rua Uruguaiana, nº 10 (Gazeta de Notícias, 21 de fevereiro de 1904, terceira coluna). Em 1905, os irmãos Musso estavam estabelecidos sob a razão social L. Musso & C, que também se anunciava como Photographia Brazileira. Quando o álbum do Theatro Municipal foi publicado Luis Musso já havia falecido (O Paiz, 1º de agosto de 1908, sexta coluna).

Voltando a João do Rio. Em 8 de agosto de 1916, sob o pseudônimo José Antônio José, publicou na coluna “Pall-Mall-Rio” a crônica Clic! Clac! O fotógrafo!, em que discorreu sobre a “loucura da fotografia” (O Paiz, 8 de agosto de 1916, sexta coluna).

 

 

Em 1917, foi um dos fundadores e passou a dirigir a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais – Sbat. Em 1920, fundou o jornal A Pátria, onde defendia os interesses da colônia portuguesa, que seria prejudicada pela nacionalização da pesca. Por seu posicionamento, foi muitas vezes ofendido, tendo sido surrado por nacionalistas – o capitão de fragata Frederico Vilar e cinco jovens oficiais – quando almoçava sozinho em um de seus restaurantes preferidos, o da Brahma (O Paiz, 3 de outubro de 1920, terceira coluna).

Faleceu em 23 de junho de 1921, quando teve um enfarte dentro de um táxi na rua Bento Lisboa (O Paiz, 24 de junho e 25 de junho de 1921). Foi velado na redação do jornal A Pátria. Seu enterro, um dos mais concorridos realizados no Brasil, só comparável aos do presidente Getulio Vargas (1882 – 1954), da cantora Carmen Miranda (1909 – 1955) e do estudante Edson Luis (1950 – 1968), foi acompanhado por cerca de 100 mil pessoas. Seus restos mortais estão sepultados em uma tumba de mármore italiano e bronze, no Cemitério de São João Batista e é considerado um dos mais belos trabalhos de arte funerária no Rio de Janeiro (O Paiz, 27 de junho de 1921, terceira colunaGazeta de Notícias, 27 de junho de 1921; O Paiz, 28 de junhvido de 1921, primeira coluna). Sua biblioteca foi doada por sua mãe ao Real Gabinete Português de Leitura.

 

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João do Rio deixou uma vasta obra e entre seus livros mais importantes, destacam-se  A alma encantadora das ruas (1908),  Vida vertiginosa (1911) e Rosário da Ilusão (1919). Como teatrólogo, seu maior sucesso foi A bela madame Vargas, que estreou em 22 de outubro de 1912, no Teatro Municipal (Correio da Manhã, 22 de outubro de 1922Revista da Semana, 26 de outubro de 1912). Outras de suas peças foram Chic-chic (1906) e Clotilde (1907). Traduziu obras do escritor e dramaturgo irlandês Oscar Wilde (1854 – 1900).

 

 

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Ao longo de sua vida viajou quatro vezes à Europa e conviveu com importantes personalidades do mundo cultural e artístico, dentre elas a bailarina Isadora Duncan (1877 – 1927), que esteve no Rio de Janeiro, em 1916 (Revista da Semana, 9 de setembro de 1916). ”…relatos de Gilberto Amado revelam a cumplicidade dos dois (Isadora e João do Rio): conversavam em várias línguas e não se desgrudavam. Isadora fez até uma apresentação exclusiva para o amigo e seu protegido na Cascatinha da Tijuca: tirou não só o sapato mas a roupa inteira, bailando envolta em filó”Em suas memórias, Isadora diz: ”Aí conheci o poeta João do Rio, muito querido pela mocidade do Rio, onde aliás todos parecem poetas. Quando passeávamos, éramos seguidos pela rapaziada que gritava: ‘Viva Isadora!’, ‘Viva João do Rio!”’ (O Globo, 13 de abril de 1996).

 

 

Apesar de sua grande popularidade, segundo seu biógrafo, João Carlos Rodrigues,  João do Rio “teve muitos desafetos que o atacavam por sua afrodescendência e homossexualidade“. Logo no primeiro número de O Gato, Álbum de Caricaturas, em julho de 1911, revista desenhada por Seth (1891 – 1949) – pseudônimo de Álvaro Martins – e Hugo Leal – pseudônimo do português Vasco Lima (1883 – 1973) – foi caricaturado ao lado do poeta Olavo Bilac (1865 – 1918) apreciando uma escultura do imperador Heliogábalo nu. Na legenda, um suposto diálogo entre os dois escritores, que haviam estado recentemente na Itália: “- Soberbo, hein? – Que delicioso seria se todos os homens fossem assim!”.

 

 

O Globo, 13 de abril de 1996

O Globo, 13 de abril de 1996

 

A professora e feminista portuguesa Mariana Coelho, personagem do artigo Série “Feministas, graças a Deus!” IX – Mariana Coelho (1857 – 1954), a “Beauvoir tupiniquim”, publicou uma homenagem a João do Rio, na ocasião da morte do escritor:

 

 

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Link para a crônica João do Rio na vitrina, de autoria de Carlos Drummond de Andrade (1987 – 1902), publicada no Jornal do Brasil de 13 de agosto de 1981, na ocasião do centenário de nascimento de João do Rio, quando a Biblioteca Nacional, uma das fundadoras do portal Brasiliana Fotográfica, realizou uma exposição em homenagem ao aniversariante.

 

 

A Rua

João do Rio

 

 

Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia. Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.

A rua! Que é a rua? Um cançonetista de Montmartre fá-la dizer:

         Je suis la rue, femme éternellement verte,

         Je n’ai jamais trouvé d’autre carrière ouverte

         Sinon d’être la rue, et, de tout temps, depuis

         Que ce pénible monde est monde, je la suis…

(Eu sou a rua, mulher eternamente verde, jamais encontrei outra carreira aberta senão a de ser a rua e, por todo o tempo; desde que este penoso mundo é mundo, eu a sou…)

A verdade e o trocadilho! Os dicionários dizem: “Rua, do latim ruga, sulco. Espaço entre as casas e as povoações por onde se anda e passeia.” E Domingos Vieira, citando as Ordenações: “Estradas e rua pruvicas antigamente usadas e os rios navegantes se som cabedaes que correm continuamente e de todo o tempo pero que o uso assy das estradas e ruas pruvicas.” A obscuridade da gramática e da lei! Os dicionários só são considerados fontes fáceis de completo saber pelos que nunca os folhearam. Abri o primeiro, abri o segundo, abri dez, vinte enciclopédias, manuseei in-fólios especiais de curiosidade. A rua era para eles apenas um alinhado de fachadas, por onde se anda nas povoações…

Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! Em Benares ou em Amsterdã, em Londres ou em Buenos Aires, sob os céus mais diversos, nos mais variados climas, a rua é a agasalhadora da miséria. Os desgraçados não se sentem de todo sem o auxílio dos deuses enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua. A rua é o aplauso dos medíocres, dos infelizes, dos miseráveis da arte. Não paga ao Tamagno para ouvir berros atenorados de leão avaro, nem à velha Patti para admitir um fio de voz velho, fraco e legendário. Bate, em compensação, palmas aos saltimbancos que, sem voz, rouquejam com fome para alegrá-la e para comer. A rua é generosa. O crime, o delírio, a miséria não os denuncia ela. A rua é a transformadora das línguas. Os Cândido de Figueiredo do universo estafam-se em juntar regrinhas para enclausurar expressões; os prosadores bradam contra os Cândido. A rua continua, matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons futuros. A rua resume para o animal civilizado todo o conforto humano. Dá-lhe luz, luxo, bem-estar, comodidade e até impressões selvagens no adejar das árvores e no trinar dos pássaros.

A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopeia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas. A rua criou todas as blagues e todos os lugares-comuns. Foi ela que fez a majestade dos rifões, dos brocardos, dos anexins, e foi também ela que batizou o imortal Calino. Sem o consentimento da rua não passam os sábios, e os charlatães, que a lisonjeiam e lhe resumem a banalidade, são da primeira ocasião desfeitos e soprados como bolas de sabão. A rua é a eterna imagem da ingenuidade. Comete crimes, desvaria à noite, treme com a febre dos delírios, para ela como para as crianças a aurora é sempre formosa, para ela não há o despertar triste, e quando o sol desponta e ela abre os olhos esquecida das próprias ações, é, no encanto da vida renovada, no chilrear do passaredo, no embalo nostálgico dos pregões – tão modesta, tão lavada, tão risonha, que parece papaguear com o céu e com os anjos…

A rua faz as celebridades e as revoltas, a rua criou um tipo universal, tipo que vive em cada aspecto urbano, em cada detalhe, em cada praça, tipo diabólico que tem dos gnomos e dos silfos das florestas, tipo proteiforme, feito de risos e de lágrimas, de patifarias e de crimes irresponsáveis, de abandono e de inédita filosofia, tipo esquisito e ambíguo com saltos de felino e risos de navalha, o prodígio de uma criança mais sabida e cética que os velhos de setenta invernos, mas cuja ingenuidade é perpétua, voz que dá o apelido fatal aos potentados e nunca teve preocupações, criatura que pede como se fosse natural pedir, aclama sem interesse, e pode rir, francamente, depois de ter conhecido todos os males da cidade, poeira d’oiro que se faz lama e torna a ser poeira – a rua criou o garoto!

Essas qualidades nós as conhecemos vagamente. Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível; é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes – a arte de flanar: É fatigante o exercício?

Para os iniciados sempre foi grande regalo. A musa de Horácio, a pé, não fez outra coisa nos quarteirões de Roma. Sterne e Hoffmann proclamavam-lhe a profunda virtude, e Balzac fez todos os seus preciosos achados flanando. Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti, de casaca, aplaudirem o maior tenor do Lírico numa ópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja…

                                                  A alma encantadora das ruas (1908)

 

Caricatura de João do Rio, de Cássio Loredano

Caricatura de João do Rio, de Cássio Loredano

 

Link para o filme sobre a vida de João do Rio, De lá prá cá, parte 1 e parte 2.

Link  para cartas enviadas por João do Rio para o político e pensador português João de Barros (1881 – 1960), publicadas no Correio IMS.

A jornalista Cristiane d´Avila, da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, uma das instituições parceiras do portal, organizou um site com textos inéditos de João do Rio onde estão disponibilizadas s 52 colunas “Bilhete” do jornal A Pátria, fundado pelo escritor. Acesse aqui.

Leia aqui as crônicas João do Rio (mas não só), de Humberto Werneck; e Flanar com João do Rio, de Guilherme Tauil, ambas publicadas no Portal Crônica Brasileira.

Acesse aqui o site bilhetesdejoaodorio.com.br, que reúne as últimas colunas de João do Rio para o jornal A Pátria. É de autoria de Cristiane d´Avila, jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, e uma das mais constantes colaboradoras do portal. Ela é também autora de livros sobre o escritor que estão na relação de fontes utilizadas para a elaboração deste artigo.

Entre 9 e 13 de outubro de 2024, João do Rio foi o homenageado da 22ª edição da Flip- Festa Literária Internacional de Paraty.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Nota da editora: os últimos dois parágrafos do artigo foram acrescentados em outubro de 2024.

 

Fontes:

ANTELO, Raul. João do Rio – O dândi e a especulação. Rio de Janeiro : Livraria Taurus-Timbre Editores, 1989.

COSTA, Luis Ricardo Araújo. O Cinematographo de João do Rio; fotogramas de uma cidade em movimento, trabalho realizado sob a orientação do professor Ricardo Gomes, do Departamento de Comunicação Social da PUC-RJ.

D’AVILA, Cristiane. João do Rio a caminho da Atlântida: por uma aproximação luso-brasileira. Rio de Janeiro: Faperj/Contra Capa, 2015.

Enciclopédia Itaú Cultural 

GAWRYSZEWSKI, Alfredo (organizador). Imagem: Artefato cultural. Londrina : Eduel, 2017.

GOMES, Renato Cordeiro. João do Rio: vielas do vício, ruas da graças. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: Prefeitura, 1996. Série Perfis do Rio, n. 13.

GOMES, Renato Cordeiro. João do Rio. Rio de Janeiro : Agir, 2005.

Hemeroteca da Biblioteca Nacional

MAGALHÃES JUNIOR, Raimundo. A Vida Vertiginosa de João do Rio. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1978.

O Globo, 19 de junho de 2021

O Globo, 23 de junho de 2021 – Coluna de Joaquim Ferreira dos Santos.

RIO, João do. Cartas de João do Rio a João de Barros e Carlos Malheiro Dias. Introdução, organização e notas: Cristiane d’Avila; prefácio: Zuenir Ventura. Rio de Janeiro: Funarte, 2012.

RODRIGUES, João Carlos. João do Rio: vida, paixão e obra. Rio de Janeiro : Topbooks, 1996.

RODRIGUES, João Gabriel. João do Rio e as representações do Rio de Janeiro: o artista, o repórter e o artifício, trabalho realizado sob a orientação do professor Ricardo Gomes, do Departamento de Comunicação Social da PUC-RJ.

SCHAPOCHNIK, Nelson. João do Rio, um dândi na cafelândia. São Paulo : Boitempo Editorial, 2004.

Site da Academia Brasileira de Letras