As expedições realizadas pelo Instituto Oswaldo Cruz ao longo do século XX denunciavam as precárias condições de saúde das populações rurais e com elas a visão hegemônica sobre o Brasil sofreu alterações. O artigo As excursões científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do Brasil, de Ricardo Augusto dos Santos, Felipe Almeida Vieira e Francisco dos Santos Lourenço, pesquisadores da Fiocruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, aborda as expedições científicas realizadas sob a chefia de Lauro Travassos, entre 1938 e 1942. Nelas havia um sentimento patriótico que movia os cientistas. Com um rigoroso alerta, advertiram sobre o perigo do desconhecimento das potencialidades da fauna e flora nacionais. Também denunciaram o efeito devastador provocado pela busca do lucro monetário desenfreado, bem como o desprezo pela pesquisa da natureza, que tanto ameaçava o equilíbrio das espécies como facilitava o surgimento de pragas para a agricultura.
Acesse aqui o link para as fotografias das excursões científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do Brasil chefiadas por Lauro Travassos disponíveis na Brasiliana Fotográfica
As excursões científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do Brasil
Ricardo Augusto dos Santos, Felipe Almeida Vieira e
Francisco dos Santos Lourenço*

Membros da expedição em Bauru. Lauro Travassos, Maria José von Paumgartten, Manoel Joaquim de Mello, João Ferreira Teixeira de Freitas, Octávio Mangabeira Filho, Emmanuel Dias, Frederico Lane e Antenor Leitão de Carvalho, membros da primeira excursão, sendo recepcionados pelo médico Alípio Gonçalves dos Santos na estação de Bauru, 1938. Bauru, SP / Acervo Casa de Oswaldo Cruz.
Desde o início dos trabalhos em Manguinhos, Oswaldo Cruz (1872 – 1917), Carlos Chagas (1878 – 1934) e demais cientistas do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) não ficaram limitados às improvisadas salas e laboratórios da instituição. Frequentemente, participavam de expedições científicas pelo território brasileiro. Nos primeiros anos do IOC, as ações ficaram restritas às regiões próximas das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.
Médicos, sanitaristas e cientistas eram solicitados para identificar, estudar e combater as doenças contagiosas que assolavam o país desde os tempos coloniais. Diferentemente das primeiras missões sanitárias que visavam resultados imediatos em pequenas localidades, cinco expedições científicas realizadas entre 1911 e 1913 foram longas, alcançando meses de viagem por grandes áreas do país.
As expedições pelos chamados “sertões” forneceram um sólido inventário das condições sanitárias e sociais das regiões visitadas. Por intermédio dos diários produzidos pelos viajantes, intelectuais e políticos nacionais tomaram consciência da triste realidade que imperava no interior do Brasil. Dessas cinco expedições participaram nomes como Carlos Chagas, Belisário Penna (1868 – 1939) e Arthur Neiva (1880 – 1943).
Depois da divulgação dos diagnósticos elaborados pelos cientistas, denunciando as precárias condições de saúde das populações rurais, a visão hegemônica sobre o Brasil sofreu uma alteração. Se o interior do país estava doente, improdutivo para os padrões de eficiência e racionalidade capitalistas do século XX, o aumento da produtividade somente viria a acontecer com a melhoria da qualidade de vida de sua população. Era preciso conhecer as doenças das regiões mais afastadas do litoral para, enfim, propor estratégias de tratamento dos enfermos. Com essas preocupações, a ciência tomava literalmente o “caminho da roça”.
Há um depoimento interessante de Monteiro Lobato (1882 – 1948) sobre a necessidade do conhecimento in loco para entender e solucionar os problemas brasileiros. Lobato falava do contato direto com a realidade que o homem de responsabilidade pública deveria possuir. Com entusiasmo, o escritor acompanhou Arthur Neiva, diretor do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo (1916 – 1920), em uma excursão à cidade de Iguape, onde se desenvolvia uma campanha contra a malária e ancilostomíase.
“Penetramos na mata, alguns quilômetros fora da cidade. Vi-o apear-se e acender a lanterna elétrica e correr a luz pelo couro do cavalo em procura das anofelinas que incontinenti acudiram àquele inesperado banquete. Encontrou as anofelinas da espécie perigosa. Tinham o ninho na água depositada pelas chuvas nas bromélias parasitas. Estava liquidado o caso. Regressamos e no outro dia ordens precisas eram dadas para matar de vez a malária de Iguape em seu derradeiro reduto” (Lobato apud Ribeiro, 1993, p. 208).
Essa forte tradição parece que impregnou o jeito de fazer ciência no Brasil. Várias expedições científicas e campanhas sanitárias foram empreendidas pelo país afora. Investigavam não somente as condições naturais das localidades, mas os modos de vida de seus habitantes.
Assim, inseridas nesse contexto histórico, apresentamos as excursões científicas (ou “comissões”, como eram chamadas) do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do país. Lideradas por Lauro Travassos (1890 – 1970), elas ocorreram nas seguintes etapas: a primeira em outubro de 1938; a segunda em julho de 1939; a terceira em fevereiro e março de 1940; a quarta em agosto e setembro de 1940; a quinta em janeiro de 1941; a sexta em novembro de 1941; e a sétima em maio de 1942.
As excursões concentraram-se na região da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), companhia criada em 1904, que chegou a operar uma rede ferroviária de 1.622 quilômetros, ligando o Oeste paulista até a área do Pantanal no estado de Mato Grosso, atual Mato Grosso do Sul. A linha-tronco da NOB entre as estações de Bauru e Porto Esperança, em Corumbá, foi concluída em 1914. Com cerca de 1.300 quilômetros, atravessava as cidades de Araçatuba, Três Lagoas, Campo Grande e Miranda. Nesta última encontra-se o povoado de Salobra, que devido à sua variada e exuberante fauna e flora foi escolhido como parada obrigatória para coleta de material científico em todas as etapas das excursões.
De acordo com os relatórios produzidos pelos cientistas, quem deu suporte para que as excursões acontecessem na região foi o diretor da NOB, major Américo Marinho Lutz (1899 – 1983), que gratuitamente pôs à disposição de Lauro Travassos um vagão-dormitório e outro para bagagem de sua companhia. O militar era sobrinho do cientista do IOC e principal estudioso da medicina tropical no Brasil, Adolpho Lutz (1855 – 1940).
Tomaram parte nas excursões profissionais jovens e experientes com distintas habilidades. Entre eles figuraram entomologistas, helmintologistas, protozoologistas, ictiologistas, herpetologistas, ornitologistas, mastozoologistas, técnicos de laboratório e taxidermistas. Para auxiliar nos trabalhos de campo das excursões foram contratados pescadores e caçadores das áreas estudadas.
Além dos cientistas e técnicos do IOC, integraram as excursões representantes de várias instituições do Brasil e exterior, como Museu Paulista, Instituto Biológico de São Paulo, Instituto de Higiene de São Paulo, Museu Nacional, Fundação Rockefeller, Clube Zoológico do Brasil, Universidade de São Paulo e Universidade de Michigan.
Embora alguns dos personagens envolvidos nessas jornadas tenham obtido sucesso em suas trajetórias científicas, entre eles Lauro Travassos, Frederico Lane (1901 – 1979), João Ferreira Teixeira de Freitas (1912 – 1970), Emmanuel Dias (1908 – 1962) e Maria José von Paumgartten, depois Maria Deane (1916 – 1995), estas páginas épicas são pouco conhecidas pelo campo científico e acadêmico nacional.
Nos relatórios das excursões constatamos o sentimento patriótico que movia os cientistas. Com um rigoroso alerta, advertiram sobre o perigo do desconhecimento das potencialidades da fauna e flora nacionais. Também denunciaram o efeito devastador provocado pela busca do lucro monetário desenfreado, bem como o desprezo pela pesquisa da natureza, que tanto ameaçava o equilíbrio das espécies como facilitava o surgimento de pragas para a agricultura.
“A seca proporcionou ainda oportunidade de observar o horrível espetáculo das queimadas. Por estes brutais incêndios dos campos, em que se formam linhas de fogo de quilômetros de extensão e que caminham léguas, tudo destruindo, flora e fauna, e ainda esterilizando o solo pelo formidável calor produzido por labaredas que atingem a 10 metros de altura e que a 100 metros já se torna insuportável, vai o brasileiro, metódica e tenazmente, transformando o nosso interior em árido deserto. Argumentam os autores desta brutalidade, a necessidade da melhoria dos campos. Sem dúvida é um processo barato para a limpeza dos pastos, mas de graves consequências para as gerações futuras. Há também prazer em contemplar o espetáculo” (Travassos, 1940, p. 700).
Durante os trabalhos de campo, os excursionistas coletaram farto material de interesse médico e biológico, como insetos, mamíferos, répteis, aves, batráquios, peixes, helmintos e amostras botânicas. Todo esse material foi incorporado ao patrimônio científico de instituições de ensino e pesquisa do país. O IOC, por exemplo, ficou com o maior número de exemplares de insetos e helmintos, que se encontram atualmente preservados em coleções dedicadas a esses grupos zoológicos.
Entretanto, os cientistas não se limitaram a investigar o clima, o relevo, os animais, a vegetação e as doenças reinantes na região, como malária, doença de Chagas e leishmaniose. Eles mostraram-se preocupados com as respostas que os habitantes poderiam dar perante às dificuldades impostas pela sobrevivência. Em quase todos os registros das excursões existem comentários sobre a qualidade da alimentação e as condições de moradia dos habitantes, que algumas vezes foram descritas como precárias e insalubres. A baixa densidade demográfica dos locais visitados também fez parte das observações dos cientistas.
Em resenha biográfica sobre Lauro Travassos, Newton Dias dos Santos (1916 – 1989), naturalista do Museu Nacional, descreveu com riqueza de detalhes a sua participação na quinta excursão ao Noroeste. Nos trechos selecionados desta narrativa encontramos uma síntese de como deve ter sido o cotidiano das “aventuras” científicas por um Brasil rural e selvagem, rico em biodiversidade, e que ainda guarda muitos aspectos a serem conhecidos por nós na atualidade.
“Imagine, caro leitor, cerca de três dias de viagem pela Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, estrada de penetração do nosso mais longínquo oeste, com deficiências, mas que é um orgulho da nossa gente. (…) A composição, puxada com sacrifício, acaba de atravessar a ponte do rio Miranda e para na estação de Salobra, próxima do grande pantanal. Olho em torno e diviso umas 10 casas de barro: eis toda a localidade. (…) Em meia hora está escolhida nossa sede; o pátio da estação. Começa o trabalho da montagem. (…) Em duas horas há um laboratório montado. Toda a minúscula população local, de olhos arregalados, está em torno. (…) O índice de impaludismo desta população é de 100%. (…) Cada um de nós começa a tomar quinino preventivo. A população entra também no quinino. (…) Enquanto estamos alojados, vem gente de longe em busca de tratamento. Todos são atendidos, pois a farmácia que levamos é grande.
A cozinha de campo é imediatamente montada e começa o trabalho da janta: feijão, arroz, carne seca. (…) Cai a noite e com ela o silêncio. (…) E começa o primeiro trabalho. Num grande lençol branco estendido verticalmente abaixo da lâmpada, começam a chegar os primeiros insetos curiosos. (…) Mosquitos e anofelíneos cobrem o pano; vão chegando, mariposas, coleópteros, hemípteros. (…) Nossos vidros e caixas vão se acumulando de material. Os sapos saem dos seus esconderijos e vem comer insetos e são por nós caçados. (…) Alguns já foram dormir; se não dá bicho vamos para a cama, mas de vez em quando acordamos, e vamos espiar o pano. O calor é terrível. (…) Travassos toma o primeiro café puro da manhã, apanha sua espingarda e dá uns giros por perto. Uma hora depois, está no acampamento com alguma cotia, ou alguma ave abatida. Os taxidermistas entram em ação. Tiram a pele do animal e dão o corpo ao professor. Este vai autopsiá-lo. Abre o animal, retira os intestinos e começa a catar os vermes (…) que são guardados em líquido conservador. (…)
Antes do almoço vão chegando mais peças: porcos do mato, gaviões, jacarés, ariranhas, veados, cotias, toda a classe de aves e mamíferos. (…) Outros excursionistas colecionam plantas, insetos, aracnídeos, moluscos, miriápodos. (…) Nos charcos, riachos e rios as nossas redes de pesca de arrastão trazem curiosos espécimens. (…) Cada dia passa um trem de ida ou de volta. É a nossa única distração. Às vezes, se consegue uma cerveja no trem e isso é uma delícia, pois a nossa única bebida é água e, por sinal, salobra, que é filtrada em caixa de areia. Felizmente ninguém adoece. (…) Travassos quase sempre leva seus dois esplêndidos auxiliares de Manguinhos, Mário Ventel e Antônio Nobre, que se incumbem da manutenção do laboratório e dos instrumentos. (…) Nossos banhos são no rio ou na caixa d’água que alimenta os trens. (…) Ao fim de 25 dias, nossas caixas estão cheias; chegamos ao fim, bastante maltratados”
Ciência para Todos, 27 de março de 1949
* Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz. Felipe Almeida Vieira e Francisco dos Santos Lourenço são pesquisadores do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz.
Fontes:
BENCHIMOL, Jaime Larry (coord.). Manguinhos do sonho à vida: a ciência na belle époque. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz, 1990.
DALMEIDA, José Mario. Contribuições de Lauro Travassos (1890-1970) para a zoologia brasileira. História da Ciência e Ensino, São Paulo, v. 14, p. 88-99, 2016.
FONSECA FILHO, Olympio da. A escola de Manguinhos: contribuição para o estudo do desenvolvimento da medicina experimental no Brasil. São Paulo: EGTR, 1974.
Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.
RIBEIRO, Maria Alice Rosa. História sem fim… Inventário da saúde pública. São Paulo: Edusp, 1993.
SANTOS, Ricardo Augusto dos; VIEIRA, Felipe Almeida; LOURENÇO, Francisco dos Santos. O “Dr. Photographo” Oswaldo Cruz. Brasiliana Fotográfica, Rio de Janeiro, 31 out. 2023.
Site Estações Ferroviárias do Brasil.
THIELEN, Eduardo Vilela et al. A ciência a caminho da roça: imagens das expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao interior do Brasil entre 1911 e 1913. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, 1992.
TRAVASSOS, Lauro. Relatório da excursão científica do Instituto Oswaldo Cruz realizada na zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em outubro de 1938. Boletim Biológico, São Paulo, v. 4, n. 2, p. 208-260, 1939.
TRAVASSOS, Lauro. Relatório da terceira excursão a zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil realizada em fevereiro e março de 1940. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 35, n. 3, p. 607-696, 1940.
TRAVASSOS, Lauro. Relatório da quarta excursão do Instituto Oswaldo Cruz a zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, realizada em agosto e setembro de 1940. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 35, n. 4, p. 697-722, 1940.
TRAVASSOS, Lauro. Relatório da quinta excursão do Instituto Oswaldo Cruz, realizada à zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em janeiro de 1941. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 36, n. 3, p. 263-300, 1941.
TRAVASSOS, Lauro; FREITAS, J. F. Teixeira de. Relatório da excursão científica realizada na zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil em julho de 1939. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 35, n. 3, p. 525-556, 1940
TRAVASSOS, Lauro; FREITAS, J. F. Teixeira de. Relatório da sexta excursão do Instituto Oswaldo Cruz, realizada à zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em novembro de 1941. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 37, n. 3, p. 259–286, 1942.
TRAVASSOS, Lauro; FREITAS, J. F. Teixeira de. Relatório da sétima excursão cientifica do Instituto Oswaldo Cruz, realizada à zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em maio de 1942. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 38, n. 3, p. 385-412, 1943.