Série “Carnavais de antigamente” XI – O carnaval e suas histórias

Mais um carnaval se aproxima e desta vez a Brasiliana Fotográfica, além de listar todos os artigos já publicados em torno do tema e disponibilizar em um link todas as imagens carnavalescas do acervo fotográfico do portal, vai contar uma das histórias da introdução do confete no carnaval carioca, segundo uma entrevista publicada no Diário da Noite, de 21 de janeiro de 1931. O Diário da Noite, foi lançado, por Francisco Assis Chateaubriand (1892-1968), em 5 de outubro de 1929, no Rio de Janeiro, e no mesmo mês de seu lançamento já havia conquistado entre 60 e 80 mil leitores. O jornal faz parte do acervo fotográfico dos Diários Associados – Rio de Janeiro que foi incorporado, em 2016, por uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles (IMS).

 

 

Voltando ao artigo de 1931, publicado no Diário da Noite, o entrevistado foi o sr. Gomes Júnior, da antiga casa de músicas Viúva Guerreiro. Segundo ele, quando a loja Viúva Guerreiro ainda se chamava O Piano de Crystal, o chefe da casa, João de Souza de Oliveira Barreto, foi a Paris e viu o brinquedo dos “confetti” de papel. Trouxe toneladas e os introduziu no carnaval de 1895. Foi um grande sucesso. Anteriomente, já se brincava com papel colorido e picado, pacientemente, à tesoura.

 

 

Nesta mesma entrevista, o sr. Gomes Júnior, destacou a importância da Casa Beethoven (Nascimento Silva & Cia.), situada à Rua do Ouvidor, nº 175, e do compositor Sinhô (1888-1930) em relação às músicas do carnaval carioca.

 

 

Porém, a versão do sr. Gomes Júnior para a introdução do confete no carnaval carioca não é correta, pois sua venda começou a ser anunciada pela Casa Cotia, em 1892, e pela Cateyasson & Cia, em 1893, dentre outras. O fato é que o confete e a serpentina chegaram no Rio de Janeiro, na década de 1890, e nunca mais deixaram de estar presentes na folia momesca (O Paiz, 13 de junho de 1892, quarta colunaJornal do Commercio, 21 de dezembro de 1893, segunda coluna).

 

Confete Carnaval Decoração - 100 gramas

 

No Recife, o confete foi anunciado ainda na década de 1880, em janeiro de 1887 (Diário de Pernambuco, 12 de janeiro de 1887, quinta coluna).

“Para o Carnaval – Um nosso patrício, o Sr. Franklin Antônio Diniz, teve a feliz idéia de substituir por bisnagas de papel picado as de água perfumosas, sempre incomodativas, as de pós, sempre nocivas. O Sr. Diniz, formou, pois, uns pequenos saquinhos de papel, garbosamente enfeitados, contendo pedaços diminutos de papel de cores variadas, e os tem expostos à venda em todas as lojas de miudezas. É um inocente passatempo para o carnaval, e que merece ser bem acolhido pelo público, tanto mais quanto por ser de indústria nacional nada perde em conforto com os melhores similares que vêm do estrangeiro.”

 

Links para artigos sobre carnaval já publicados na Brasiliana Fotográfica

 

Imagem relacionada

O carnaval nas primeiras décadas do século XX, publicado em 5 de fevereiro de 2016

 

 

O carnaval do Cordão da Bola Preta, publicado em 9 de fevereiro de 2018

 

 

A Batalha de Flores, publicado em 19 de fevereiro de 2018, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

 

As Camélias Japonesas no carnaval de Alagoas pelas lentes do fotógrafo amador Luiz Lavenère Wanderley (1868 – 1966, publicado em 21 de fevereiro de 2020

 

Cenas da folia em Manaus em 1913, publicado em 28 de fevereiro de 2020

 

 

Baile de Carnaval em Santa Teresa – Di Cavalcanti, Klixto e Helios Seelinger, na casa de Raul Pederneiras, publicado em 25 de fevereiro de 2022

 

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Baile de Carnaval, c. 1921. Santa Teresa, Rio de Janeiro / Acervo FBN Anotação manuscrito no verso da foto “63”: “baile de carnaval em casa de Raul no Largo dos Neves em Sta Tereza. Da esquerda: sentados (3) primeira fila: Di Cavalcanti, Amaro e Claudio Manuel da Costa – sentados (2ª fila) Luis Peixoto, Mario, Kalixto, Raul, o ator Brandão o popularíssimo, e Helios Seelinger. Em pé atraz: [sic] miranda, 3 deusas, Marques Pinheiro e outra deusa 1923″. – “mulher do Raul Pederneiras (Wanda)”

 O Rei Momo por Jean Manzon e por outros fotógrafos dos Diários Associados, publicado em 3 de fevereiro de 2023

 

 

Foliões do Carnaval de Diamantina por Chichico Alkmim, publicado em 17 de fevereiro de 2023

 

 

Crianças no carnaval carioca de 1933 por Guilherme Santos publicado em 8 de fevereiro de 2024

 

 

O carnaval de 1919: o carnaval da revanche, o carnaval triunfante! publicado em 20 de fevereiro de 2025

 

 

Acessando o link para as fotografias de Carnaval disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas

Acesse aqui todos os artigos da Série Carnavais de antigamente.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Revista Superinteressante, 22 de fevereiro de 2024

SILVA, Leonardo Dantas. Ensaios de carnaval. SUPLEMENTO CULTURAL. Diário Oficial. O Estado de Pernambuco. Ano X. Fevereiro de 1997.

Série “Carnavais de antigamente” X – O carnaval de 1919: o carnaval da revanche, o carnaval triunfante!

Com uma imagem de autoria do alagoano Augusto Malta (1864-1957), fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro, entre 1903 e 1936, a Brasiliana Fotográfica relembra o carnaval carioca de 1919, o primeiro grande evento realizado na cidade após a pandemia de Gripe Espanhola. Após o luto pela doença, o povo foi à forra! Foi o carnaval da revanche, o carnaval triunfante!

 

 

 

Vamos para a Festa da Penha de 1918, uma festa religiosa realizada no alto do morro. Neste ano aconteceu nos dois primeiros domingos de outubro, foi suspensa devido à Gripe Espanhola, e voltou a realizar-se em 8 e 15 de dezembro (O Paiz, 6 de outubro de 1918, terceira colunaO Paiz, 8 de dezembro de 1918, penúltima coluna). Mas era no sopé da pedra onde está construída a Igreja da Penha que a festa atraía, segundo o jornalista Jota Efegê (1902-1987): “Os boêmios, o povo da lira, a gente do samba, e com eles os malandros, os valentes, os capoeiras sempre acorriam aos festejos da Penha. Misturavam-se às famílias (principalmente portuguesas) que lá iam para seus piqueniques regados ao farto verdasco”.

E durante a Festa da Penha, que normalmente era frequentada por cerca de 60 mil pessoas, e que abria o período carnavalesco, Oscar José Luiz de Morais (1883-1961), conhecido como Caninha, frequentador, no início do século XX, das casas das tias baianas da Pequena África, e amigo dos sambistas Donga (1889-1974), João da Baiana (1887-1974) e Pixinguinha (1897-1973), lançou uma música que fez muito sucesso, o maxixe Gripe Espanhola cuja letra era:

 

 

A Espanhola está aí

A Espanhola está aí

A coisa não está brincadeira

Quem tiver medo de morrer não venha

Mais à Penha

 

E estava mesmo! A Gripe Espanhola aconteceu, entre 1918 e 1920, em três ondas. Entre os meses de setembro e novembro de 1918, a epidemia assolou o Brasil. Estima-se que cerca de 65% da população brasileira tenha sido infectada pela Gripe Espanhola e por volta de 35.240 pessoas tenham morrido em São Paulo e no Rio de Janeiro e 300 mil em todo o Brasil. Esses números variam e diversas fontes os consideram abaixo das estatísticas reais. A pandemia acometeu cerca de 50 % da população mundial e a Organização Mundial de Saúde estima que tenha causando entre 20 e 40 milhões de mortes.

 

 

Depois da tragédia, veio a esbórnia! O que aconteceu no Rio de Janeiro, entre o sábado de carnaval e a quarta-feira de cinzas de 1919 – 1º e 5 de março – foi um carnaval animadíssimo, como uma vingança contra a terrível doença que havia atingido intensamente a cidade.

 

 

Texto de Pierrot, pseudônimo do jornalista Manuel Bastos Tigre (1882-1957), publicado no Correio da Manhã, 20 de janeiro de 1919:

“CARNAVAL

Quem não morreu da Espanhola, quem dela pôde escapar não dê mais tratos à bola, toca a rir, toca a brincar…A quadra não é de prantos! Tragam nos lábios sorrisos pois já por todos os cantos se ouve a música dos guisos. O Carnaval está na porta e da tristeza e da dor Momo a sequência nos corta com seu rabumba atreador.

A Folia está na rua e aos requebros do “Can Can” vai-se ao império da Lua numa alegria louçã. Vai o prazer aos confins , remexe-se a Terra inteira, ao som vivaz dos clarins, ao roncar do Zé Pereira.

Pinta-se a manta e o sete, ao jogar com as meninas tempestades de confete, de “Redó” e de serpentinas. Só há momentos simpáticos pros cavalheiros que ufanos vão brincar nos Democráticos ou nos bravos Fenianos. Por isso, pois, minha gente, bolas aos planos sinistros sobre o novo presidente, sobre os futuros ministros, sobre o caso complicado, cheio de negras mazelas, do tal Comissariado, com as suas muitas tabelas.

Deus Momo toca a rebate!…Ei-lo ! A Folia cá está!… Um viva à Flor do Abacate a ao Ameno Resedá!…”

                                                                                    Pierrot

 

 

No 12º capítulo das “Memórias de Nelson Rodrigues” foi publicado, em 10 de março de 1967, no Correio da Manhã: 

“Começou o Carnaval e, de repente, da noite para o dia, usos, costumes e pudores tornaram-se antigos, obsoletos, espectrais. As pessoas usavam a mesma cara, o mesmo feitio de nariz, o mesmo chapéu, a mesma bengala (naquele tempo, ainda se lavava a honra a bengaladas). Mas algo mudara. Sim, toda a nossa íntima estrutura fora tocada, alterada e, eu diria mesmo, substituída… Éramos outros seres que nem bem conheciam as próprias potencialidades. Cabe então a pergunta: e por quê? Eu diria que era a morte, sim a morte que desfigurava a cidade e a tornava irreconhecível. A Espanhola trouxera no ventre costumes jamais sonhados. E, então, o sujeito passou a fazer coisas, a pensar coisas, a sentir coisas inéditas e, mesmo, demoníacas… Estou aqui reunindo as minhas lembranças. Aquele Carnaval foi, também, e sobretudo, uma vingança dos mortos mal vestidos, mal chorados e, por fim, mal enterrados. Ora, um defunto que não teve o seu bom terno, a sua boa camisa, a sua boa gravata é mais cruel e mais ressentido do que um Nero ultrajado. E o Zé de S. Januário está me dizendo que enterrou sujeitos em ceroulas, e outros nus como santos. A morte vingou-se, repito, no Carnaval… E tudo explodiu no sábado de Carnaval. Vejam bem: até sexta-feira, isto aqui era o Rio de Machado de Assis; e, na manhã seguinte, virou o Rio de Benjamim Costallat ou, ainda, do Theo Filho… Desde as primeiras horas de sábado, houve uma obscenidade súbita, nunca vista, e que contaminou toda a cidade. Eram os mortos da Espanhola e tão humilhados e tão ofendidos que cavalgavam os telhados, os muros, as famílias… Nada mais arcaico do que o pudor da véspera. Mocinhas, rapazes, senhoras, velhos cantavam uma modinha tremenda. Eis alguns versos: “Na minha casa não racha lenha. Na minha racha, na minha racha/ Na minha casa não há falta de água/ Na minha abunda”, etc. etc. As pessoas se esganiçavam nos quatro dias…”

 

 

Anos depois, Carlos Heitor Cony (1926 – 2018) escreveu, na Folha de São Paulo, de 19 de fevereiro de 1996, um artigo sobre a Gripe Espanhola e o carnaval de 1919:

“Carnaval vem, Carnaval vai, e eu não consigo esquecer o Carnaval que não vivi, nem nascido era, o Carnaval de 1919.
Mário Filho, irmão de Nelson Rodrigues, que deu nome ao estádio do Maracanã, sempre me falava nesse Carnaval paradisíaco, os olhos dele estufavam dentro das órbitas, rememorando bacanais terríveis, terríveis esbórnias, um Carnaval apocalíptico -e seus cabelos cor-de-fogo ficavam eriçados como as cerdas bravas do javali-, imagem do Eça de Queiroz que Nelson divulgou à saciedade.
Havia um motivo para o eriçamento dos cabelos cor-de-fogo do Mário: ele vira e ouvira coisas naquele remoto ano, logo depois da Primeira Guerra Mundial e da gripe espanhola que matou milhares de pessoas em todo o mundo.
No Rio, o sujeito ia atravessar a rua, botava o pé no meio-fio com plena saúde e chegava morto ao meio-fio do outro lado. Era fulminante a gripe, os parentes deixavam os mortos nos bondes, pagavam a passagem deles, como se passageiros fossem. Não havia tempo nem lugar para o enterro.
Natural que, depois da fase mortuária, viesse a fase libertária, ou libertina, basta dizer que as delegacias da cidade registraram a queixa de 4.315 defloramentos e outros tantos casos de abandono do lar, adultério e até incesto.
E Mário Filho arregalava os olhos, os cabelos cor-de-rosa vibravam, Nelson apreciava a exaltação do irmão, nunca entrou nesse tema, deixou-o para Mário, que tentou, tentou, tocou no assunto num outro romance, mas não foi fundo, como o tema pedia e o irmão mais jovem esperava.
E assim é que o Carnaval de 1919 permanece inédito, à espera que algum desocupado encare a época, o Rio da gripe e do depois da gripe, o Rio cuja violência explodiu no sexo de um Carnaval como nunca houve nem haveria igual.
A idéia de Mário era pegar como narrador um personagem nascido nove meses depois, um filho dessa esbórnia, desse pânico pela morte que estourou donzelas e famílias. Os brasileiros nascidos na feliz data de novembro de 1919 que se habilitem”.

A folia de Momo foi festejada no Rio de Janeiro por cerca de 400 mil pessoas em um clima de euforia de fim de mundo, afinal não se sabia se a gripe voltaria. Poderia ser o último carnaval de muitos foliões! Traumas e medos foram transformados em euforia. Além disso, a crônica carnavalesca estava em seu auge e os jornalistas ligados ao carnaval, importantes tanto nas redações como na sociedade carioca, noticiavam o dia da dia dos festejos tornando a imprensa uma grande e crucial promotora do sucesso do carnaval triunfante!

Felizmente, a Espanhola não voltou ao Brasil!

Acesse aqui todos os artigos da Série Carnavais de antigamente.

 

Andrea C. T. Wanderley

Pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Acervo Casa do Choro

BUTTER, David. De sonho e de desgraça: o Carnaval carioca de 1919. Rio de Janeiro : Mórula Editorial, 2022.

EFEGÊ, Jota. Meninos, eu vi. Rio de Janeiro: Funarte, 1985.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Dicionário Ricardo Cravo Albim da Música Popular Brasileira

SANTOS, Daniel Santana; VAISBIH, Renato. A Cobertura do Carnaval de 1919 nas Páginas do Correio da Manhã e da Gazeta de Notícias. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação 44º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – VIRTUAL – 4 a 9/10/2021

SANTOS, Ricardo Augusto dos. O Carnaval, a peste e a ‘espanhola’. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 13, n. 1, p. 129-58, Jan.-Mar. 2006.

SIMAS, Luiz Antonio. A origem da Festa da Penha.

WANDERLEY, Andrea C. T. E o ex e futuro presidente do Brasil morreu de gripe…a Gripe Espanhola de 1918 in Brasiliana Fotográfica, 23 de março de 2020.

Manual de boas práticas de Preservação Digital

Neste artigo, destacamos a seção Links úteis, localizada à direita na parte superior da página de abertura da Brasiliana Fotográfica, onde o leitor pode acessar diversos textos e trabalhos importantes para o campo da preservação digital. A cada dia são gerados cada vez mais arquivos nato-digitais e versões digitais de imagens fotográficas, o que torna o tema da preservação digital essencial no tratamento de nossa memória visual e de nosso patrimônio documental no universo digital. O último trabalho anexado foi o Manual de boas práticas de Preservação Digital, elaborado pela Comissão Permanente de Preservação Digital da Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras o portal. Foi publicado, em agosto de 2024, com o objetivo de orientar as unidades organizacionais em seu trabalho cotidiano, no gerenciamento de seus arquivos e materiais digitais, bem como de documentar de forma clara e acessível as estratégias de preservação digital, que devem ser adotadas. O manual trata das boas práticas para a gestão de arquivos e materiais digitais e está alinhado com a Política de Preservação Digital da Biblioteca Nacional, publicada, em 2020.

 

manual

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

As excursões científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do Brasil

As expedições realizadas pelo Instituto Oswaldo Cruz ao longo do século XX denunciavam as precárias condições de saúde das populações rurais e com elas a visão hegemônica sobre o Brasil sofreu alterações. O artigo As excursões científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do Brasil, de Ricardo Augusto dos Santos, Felipe Almeida Vieira e Francisco dos Santos Lourenço, pesquisadores da Fiocruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, aborda as expedições científicas realizadas sob a chefia de Lauro Travassos, entre 1938 e 1942.  Nelas havia um sentimento patriótico que movia os cientistas. Com um rigoroso alerta, advertiram sobre o perigo do desconhecimento das potencialidades da fauna e flora nacionais. Também denunciaram o efeito devastador provocado pela busca do lucro monetário desenfreado, bem como o desprezo pela pesquisa da natureza, que tanto ameaçava o equilíbrio das espécies como facilitava o surgimento de pragas para a agricultura.

 

 

Acesse aqui o link para as fotografias das excursões científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do Brasil chefiadas por Lauro Travassos disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

As excursões científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do Brasil

           Ricardo Augusto dos Santos, Felipe Almeida Vieira e

Francisco dos Santos Lourenço*

 

 

Desde o início dos trabalhos em Manguinhos, Oswaldo Cruz (1872 – 1917), Carlos Chagas (1878 – 1934) e demais cientistas do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) não ficaram limitados às improvisadas salas e laboratórios da instituição. Frequentemente, participavam de expedições científicas pelo território brasileiro. Nos primeiros anos do IOC, as ações ficaram restritas às regiões próximas das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

Médicos, sanitaristas e cientistas eram solicitados para identificar, estudar e combater as doenças contagiosas que assolavam o país desde os tempos coloniais. Diferentemente das primeiras missões sanitárias que visavam resultados imediatos em pequenas localidades, cinco expedições científicas realizadas entre 1911 e 1913 foram longas, alcançando meses de viagem por grandes áreas do país.

As expedições pelos chamados “sertões” forneceram um sólido inventário das condições sanitárias e sociais das regiões visitadas. Por intermédio dos diários produzidos pelos viajantes, intelectuais e políticos nacionais tomaram consciência da triste realidade que imperava no interior do Brasil. Dessas cinco expedições participaram nomes como Carlos Chagas, Belisário Penna (1868 – 1939) e Arthur Neiva (1880 – 1943).

 

 

Depois da divulgação dos diagnósticos elaborados pelos cientistas, denunciando as precárias condições de saúde das populações rurais, a visão hegemônica sobre o Brasil sofreu uma alteração. Se o interior do país estava doente, improdutivo para os padrões de eficiência e racionalidade capitalistas do século XX, o aumento da produtividade somente viria a acontecer com a melhoria da qualidade de vida de sua população. Era preciso conhecer as doenças das regiões mais afastadas do litoral para, enfim, propor estratégias de tratamento dos enfermos. Com essas preocupações, a ciência tomava literalmente o “caminho da roça”.

 

 

Há um depoimento interessante de Monteiro Lobato (1882 – 1948) sobre a necessidade do conhecimento in loco para entender e solucionar os problemas brasileiros. Lobato falava do contato direto com a realidade que o homem de responsabilidade pública deveria possuir. Com entusiasmo, o escritor acompanhou Arthur Neiva, diretor do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo (1916 – 1920), em uma excursão à cidade de Iguape, onde se desenvolvia uma campanha contra a malária e ancilostomíase.

“Penetramos na mata, alguns quilômetros fora da cidade. Vi-o apear-se e acender a lanterna elétrica e correr a luz pelo couro do cavalo em procura das anofelinas que incontinenti acudiram àquele inesperado banquete. Encontrou as anofelinas da espécie perigosa. Tinham o ninho na água depositada pelas chuvas nas bromélias parasitas. Estava liquidado o caso. Regressamos e no outro dia ordens precisas eram dadas para matar de vez a malária de Iguape em seu derradeiro reduto” (Lobato apud Ribeiro, 1993, p. 208).

Essa forte tradição parece que impregnou o jeito de fazer ciência no Brasil. Várias expedições científicas e campanhas sanitárias foram empreendidas pelo país afora. Investigavam não somente as condições naturais das localidades, mas os modos de vida de seus habitantes.

 

 

Assim, inseridas nesse contexto histórico, apresentamos as excursões científicas (ou “comissões”, como eram chamadas) do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do país. Lideradas por Lauro Travassos (1890 – 1970), elas ocorreram nas seguintes etapas: a primeira em outubro de 1938; a segunda em julho de 1939; a terceira em fevereiro e março de 1940; a quarta em agosto e setembro de 1940; a quinta em janeiro de 1941; a sexta em novembro de 1941; e a sétima em maio de 1942.

 

 

 

As excursões concentraram-se na região da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), companhia criada em 1904, que chegou a operar uma rede ferroviária de 1.622 quilômetros, ligando o Oeste paulista até a área do Pantanal no estado de Mato Grosso, atual Mato Grosso do Sul. A linha-tronco da NOB entre as estações de Bauru e Porto Esperança, em Corumbá, foi concluída em 1914. Com cerca de 1.300 quilômetros, atravessava as cidades de Araçatuba, Três Lagoas, Campo Grande e Miranda. Nesta última encontra-se o povoado de Salobra, que devido à sua variada e exuberante fauna e flora foi escolhido como parada obrigatória para coleta de material científico em todas as etapas das excursões.

De acordo com os relatórios produzidos pelos cientistas, quem deu suporte para que as excursões acontecessem na região foi o diretor da NOB, major Américo Marinho Lutz (1899 – 1983), que gratuitamente pôs à disposição de Lauro Travassos um vagão-dormitório e outro para bagagem de sua companhia. O militar era sobrinho do cientista do IOC e principal estudioso da medicina tropical no Brasil, Adolpho Lutz (1855 – 1940).

Tomaram parte nas excursões profissionais jovens e experientes com distintas habilidades. Entre eles figuraram entomologistas, helmintologistas, protozoologistas, ictiologistas, herpetologistas, ornitologistas, mastozoologistas, técnicos de laboratório e taxidermistas. Para auxiliar nos trabalhos de campo das excursões foram contratados pescadores e caçadores das áreas estudadas.

 

 

Além dos cientistas e técnicos do IOC, integraram as excursões representantes de várias instituições do Brasil e exterior, como Museu Paulista, Instituto Biológico de São Paulo, Instituto de Higiene de São Paulo, Museu Nacional, Fundação Rockefeller, Clube Zoológico do Brasil, Universidade de São Paulo e Universidade de Michigan.

 

 

Embora alguns dos personagens envolvidos nessas jornadas tenham obtido sucesso em suas trajetórias científicas, entre eles Lauro Travassos, Frederico Lane (1901 – 1979), João Ferreira Teixeira de Freitas (1912 – 1970), Emmanuel Dias (1908 – 1962) e Maria José von Paumgartten, depois Maria Deane (1916 – 1995), estas páginas épicas são pouco conhecidas pelo campo científico e acadêmico nacional.

Nos relatórios das excursões constatamos o sentimento patriótico que movia os cientistas. Com um rigoroso alerta, advertiram sobre o perigo do desconhecimento das potencialidades da fauna e flora nacionais. Também denunciaram o efeito devastador provocado pela busca do lucro monetário desenfreado, bem como o desprezo pela pesquisa da natureza, que tanto ameaçava o equilíbrio das espécies como facilitava o surgimento de pragas para a agricultura.

“A seca proporcionou ainda oportunidade de observar o horrível espetáculo das queimadas. Por estes brutais incêndios dos campos, em que se formam linhas de fogo de quilômetros de extensão e que caminham léguas, tudo destruindo, flora e fauna, e ainda esterilizando o solo pelo formidável calor produzido por labaredas que atingem a 10 metros de altura e que a 100 metros já se torna insuportável, vai o brasileiro, metódica e tenazmente, transformando o nosso interior em árido deserto. Argumentam os autores desta brutalidade, a necessidade da melhoria dos campos. Sem dúvida é um processo barato para a limpeza dos pastos, mas de graves consequências para as gerações futuras. Há também prazer em contemplar o espetáculo” (Travassos, 1940, p. 700).

Durante os trabalhos de campo, os excursionistas coletaram farto material de interesse médico e biológico, como insetos, mamíferos, répteis, aves, batráquios, peixes, helmintos e amostras botânicas. Todo esse material foi incorporado ao patrimônio científico de instituições de ensino e pesquisa do país. O IOC, por exemplo, ficou com o maior número de exemplares de insetos e helmintos, que se encontram atualmente preservados em coleções dedicadas a esses grupos zoológicos.

 

 

Entretanto, os cientistas não se limitaram a investigar o clima, o relevo, os animais, a vegetação e as doenças reinantes na região, como malária, doença de Chagas e leishmaniose. Eles mostraram-se preocupados com as respostas que os habitantes poderiam dar perante às dificuldades impostas pela sobrevivência. Em quase todos os registros das excursões existem comentários sobre a qualidade da alimentação e as condições de moradia dos habitantes, que algumas vezes foram descritas como precárias e insalubres. A baixa densidade demográfica dos locais visitados também fez parte das observações dos cientistas.

 

 

Em resenha biográfica sobre Lauro Travassos, Newton Dias dos Santos (1916 – 1989), naturalista do Museu Nacional, descreveu com riqueza de detalhes a sua participação na quinta excursão ao Noroeste. Nos trechos selecionados desta narrativa encontramos uma síntese de como deve ter sido o cotidiano das “aventuras” científicas por um Brasil rural e selvagem, rico em biodiversidade, e que ainda guarda muitos aspectos a serem conhecidos por nós na atualidade.

“Imagine, caro leitor, cerca de três dias de viagem pela Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, estrada de penetração do nosso mais longínquo oeste, com deficiências, mas que é um orgulho da nossa gente. (…) A composição, puxada com sacrifício, acaba de atravessar a ponte do rio Miranda e para na estação de Salobra, próxima do grande pantanal. Olho em torno e diviso umas 10 casas de barro: eis toda a localidade. (…) Em meia hora está escolhida nossa sede; o pátio da estação. Começa o trabalho da montagem. (…) Em duas horas há um laboratório montado. Toda a minúscula população local, de olhos arregalados, está em torno. (…) O índice de impaludismo desta população é de 100%. (…) Cada um de nós começa a tomar quinino preventivo. A população entra também no quinino. (…) Enquanto estamos alojados, vem gente de longe em busca de tratamento. Todos são atendidos, pois a farmácia que levamos é grande.

A cozinha de campo é imediatamente montada e começa o trabalho da janta: feijão, arroz, carne seca. (…) Cai a noite e com ela o silêncio. (…) E começa o primeiro trabalho. Num grande lençol branco estendido verticalmente abaixo da lâmpada, começam a chegar os primeiros insetos curiosos. (…) Mosquitos e anofelíneos cobrem o pano; vão chegando, mariposas, coleópteros, hemípteros. (…) Nossos vidros e caixas vão se acumulando de material. Os sapos saem dos seus esconderijos e vem comer insetos e são por nós caçados. (…) Alguns já foram dormir; se não dá bicho vamos para a cama, mas de vez em quando acordamos, e vamos espiar o pano. O calor é terrível. (…) Travassos toma o primeiro café puro da manhã, apanha sua espingarda e dá uns giros por perto. Uma hora depois, está no acampamento com alguma cotia, ou alguma ave abatida. Os taxidermistas entram em ação. Tiram a pele do animal e dão o corpo ao professor. Este vai autopsiá-lo. Abre o animal, retira os intestinos e começa a catar os vermes (…) que são guardados em líquido conservador. (…)

Antes do almoço vão chegando mais peças: porcos do mato, gaviões, jacarés, ariranhas, veados, cotias, toda a classe de aves e mamíferos. (…) Outros excursionistas colecionam plantas, insetos, aracnídeos, moluscos, miriápodos. (…) Nos charcos, riachos e rios as nossas redes de pesca de arrastão trazem curiosos espécimens. (…) Cada dia passa um trem de ida ou de volta. É a nossa única distração. Às vezes, se consegue uma cerveja no trem e isso é uma delícia, pois a nossa única bebida é água e, por sinal, salobra, que é filtrada em caixa de areia. Felizmente ninguém adoece. (…) Travassos quase sempre leva seus dois esplêndidos auxiliares de Manguinhos, Mário Ventel e Antônio Nobre, que se incumbem da manutenção do laboratório e dos instrumentos. (…) Nossos banhos são no rio ou na caixa d’água que alimenta os trens. (…) Ao fim de 25 dias, nossas caixas estão cheias; chegamos ao fim, bastante maltratados”

Ciência para Todos, 27 de março de 1949

 

Ricardo Augusto dos Santos  é  Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz. Felipe Almeida Vieira e Francisco dos Santos Lourenço são pesquisadores do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz.

 

Fontes:

BENCHIMOL, Jaime Larry (coord.). Manguinhos do sonho à vida: a ciência na belle époque. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz, 1990.

DALMEIDA, José Mario. Contribuições de Lauro Travassos (1890-1970) para a zoologia brasileira. História da Ciência e Ensino, São Paulo, v. 14, p. 88-99, 2016.

FONSECA FILHO, Olympio da. A escola de Manguinhos: contribuição para o estudo do desenvolvimento da medicina experimental no Brasil. São Paulo: EGTR, 1974.

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