Ignacio Fernandes Mendo (18? – ?), um Fotógrafo da Casa Imperial pelas províncias do Nordeste do Brasil

Pouco se sabe, até hoje, sobre a vida, tanto pessoal como profissional, do fotógrafo brasileiro, provavelmente maranhense, Ignacio Fernandes Mendo (18? – ?). Fotógrafo itinerante, trabalhou em várias províncias da região Nordeste do Brasil e foi o último profissional a receber o título de Fotógrafo da Casa Imperial, concedido em 6 de agosto de 1889, por dom Pedro II (1825 – 1891), um entusiasta da fotografia. Ainda não se sabe que tipo de contato ele teve com o monarca e nem de como suas obras poderiam ter chegado para a apreciação do imperador.

Era também compositor e dedicou uma música às cataratas de Paulo Afonso. Sua cronologia é a 73ª publicada na seção Cronologia de Fotógrafos da Brasiliana Fotográfica, que reuniu as imagens de autoria de Mendo disponíveis em seu acervo fotográfico para que seus leitores conheçam um pouco do legado fotográfico deixado por ele. São fotos da Estrada de Ferro de Paulo Afonso, produzidas em 1880, e pertencem ao acervo fotográfico da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), uma das fundadoras do portal. É também o autor de uma das raras  fotografias existentes sobre as comemorações da abolição da escravidão no Brasil: registrou uma celebração realizada na Bahia no domingo seguinte à divulgação da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888.

 

O historiador Pedro Vasquez observou a respeito de Mendo em seu livro O Brasil na Fotografia Oitocentista (2003):

“É interessante notar que as mudanças de razão social da empresa espelham uma segurança profissional crescente [em Mendo]: começa com a Photographia Popular, em Sobral; passa para Photographia Maranhense, em Aracaju; e termina com a Photographia Universal, em Salvador, no ano de 1888 […] Particularmente interessantes são as vistas de Porto de Piranhas, onde já haviam precedido dois bons fotógrafos na década anterior, Abílio Coutinho e Augusto Riedel, transformando assim a distante e modesta vila situada às margens do Rio São Francisco numa referência para fotografia brasileira oitocentista”.

 

Nas fotografias destacadas nestes artigo, Mendo retratou a Estrada de Ferro de Paulo Afonso (EFPA ), que começou a ser construída justamente em Piranhas, em Alagoas, em 23 de outubro de 1878, tendo sido aberta ao tráfego dois anos depois, em 1880. O trecho final foi inaugurado em 2 de agosto de 1883, em Jatobá de Tacaratu, atual Petrolândia, em Pernambuco. Sua construção foi uma iniciativa do governo imperial  e objetivava conjugar interiorização e crescimento econômico. A EFPA havia sido idealizada pelo engenheiro militar e empresário abolicionista André Rebouças (1838 – 1898) com o propósito de ligar baixo e médio São Francisco, e socorrer os flagelados da terrível seca de 1877. O planejamento ficou a cargo do norte-americano William Milnor Roberts (1810 – 1881) e a autorização da obra foi dada por João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu (1810 – 1906), o Visconde de Sinimbu, alagoano e Conselheiro do Império.

 

 

Os registros de Mendo nos convidam a um passeio, passando pelo porto de Piranhas, por casas , cortes na mata, por trabalhadores e casas no caminho da estrada de ferro.

 

 

 

Acessando o link para as fotos de autoria de Ignacio Fernandes Mendo disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

De acordo com um anúncio de sua Photographia Popular, Mendo produzia fotografias pelos sistemas mais modernos adotados nas principais capitais da América e da Europa (Sobralense, 14 de março de 1875).

Mendo foi um dos fotógrafos cujas imagens integraram a exposição A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX, realizada entre 29 de janeiro e 23 de março de 1997, pela Biblioteca Nacional, no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Ainda em 1997, a exposição foi apresentada na Pinacoteca de São Paulo e no Museu Nacional de Belas Artes de Buenos Aires, na Argentina. Em 2000, foi apresentada no Centro Português de Fotografia, no Porto, em Portugal. Integraram também a exposição registros de autoria de Albert Frisch (1840 – 1918), Albert Richard Dietze (1838 – 1906), Arsênio da Silva (1833 – 1883), Augusto Amoretty (1845 – 1906), Augusto Riedel (1836 – ?), Benjamin R. Mulock (1829 – 1863), Felipe Augusto Fidanza (1844 – 1903), Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890), Henrique Rosen (1840 – 1892), Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912), Louis Niemeyer, Luis Terragno, Marc Ferrez (1843 – 1923), Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) e Victor Frond (1821 – 1881), dentre outros.

 

 

Cronologia de Ignacio Fernandes Mendo (18? – ?)

 

 

1866 – Ignacio Fernandes Mendo começou a atuar como fotógrafo provavelmente neste ano (SILVA, 2009).

Esteve, nos anos 1860, no Piauí (BASTOS, 1994), onde também atuavam, na referida década, os fotógrafos Joaquim Joze Avellino (18? -?), que abriu seu estabelecimento fotográfico, em Teresina, em 1865; Miguel Carlos (18? -?), que, em julho de 1868, anunciava ter um bom sortimento para o trabalho de fotografia; e Justino Rocha Pereira (18? -?), fotógrafo itinerante que, em 1860, esteve em Teresina (Liga e Progresso (PI), 3 de abril de 1865A Imprensa (PI), 18 de julho de 1868; e O Propagador (PI), 22 de abril de 1860).

1875 - Mendo anunciava os serviços de sua Photographia Popular, instalada na Rua Boa Vista, nº 15, em Sobral, no Ceará (Sobralense, 14 de março de 1875). Foi contemporâneo, no Ceará, de Joaquim Antônio Correia (18? – ?), autor de um conjunto de fotografias que pertence, atualmente, ao acervo da Biblioteca Nacional de vítimas da seca de 1877-1878.  São imagens chocantes, em formato de cartes de visite, e retratam crianças, homens e mulheres desnutridos e maltrapilhos, de aparência doentia. Também atuavam no estado, nos anos 1870, Pinto de Sampaio (18? -?), o prussiano Carlos Frederico Johann Reeckel (18? – c. 189?), do dinamarquês Niels Olsen (1843 –  1911) e o norte-americano R. H. Furmann (18? -?), dentre outros. Este último anunciou, em 1876, que era o único fotógrafo no Brasil que usava o Método Rembrant e o de porcelana para produzir fotografias (O Cearense, 21 de dezembro de 1871, primeira coluna; 2 de julho de 1874, terceira coluna; 30 de setembro de 1875, última coluna; 12 de março de 1876, terceira coluna; 25 de abril de 1879, terceira coluna12 de setembro de 1880, última coluna).

 

ignacio2

Sobralense, 14 de março de 1875 / Transcrição copiada de BEZERRA (2019)

 

Meses depois, a Photographia Popular estava estabelecida, na Rua da Palma, nº 17, em Fortaleza (Pedro II (CE), 7 de novembro de 1875).

1876 - Passou por Açu, no Rio Grande do Norte (Correio do Assú, 25 de outubro de 1876).

 

Correio do Assu, 25 de setembro de 1876

Correio do Assu, 25 de setembro de 1876 / Transcrição copiada de BEZERRA (2019)

 

1878 - Encontrava-se em Alagoas, onde realizou uma série de vistas da cachoeira e da Estrada de Ferro de Paulo Afonso, e também do porto de Piranhas (BEZERRA, 2019). Viajantes estrangeiros, como Augusto Stahl (1828 – 1877) e Augusto Riedel (1836 – ?), e depois o brasileiro Marc Ferrez (1843 – 1923) também fotografaram a Cachoeira de Paulo Afonso.

 

 

1881 – Anunciou a abertura de seu estabelecimento fotográfico, a Photographia Maranhense, em Aracaju (Echo Sergipano, 24 de abril de 1881).

 

 

Correio do Assu,

Echo Sergipano, 24 de abril de 1881 / Transcrição copiada de BEZERRA (2019)

 

1884 – Seu estabelecimento fotográfico, a Photographia Maranhense, ficava na Rua Conde d´Eu, em Feira de Santana, na Bahia (Jornal da Feira (BA), 1º de agosto de 1884, primeira coluna).

 

 

1885 – Seu nome aparece na lista de estudantes da Faculdade de Medicina da Bahia para os exames da primeira série de Farmácia (BEZERRA, 2019).

1886 – Estava trabalhando em Cachoeira, mas tinha a intenção de se mudar para Salvador. Anunciava um processo rápido ideal para os retratos de pessoas nervosas ou crianças (A Ordem (Cachoeira, BA), 14 de abril de 1886).

1888 – Estava estabelecido na Photographia Universal, na rua Direita do Colégio, esquina com rua São José, em Salvador. Também atuavam como fotográfos, nos anos 1880, na cidade, o alemão Alberto Henschel (1827 – 1882) e o suíco Guilherme Gaensly (1843 – 1928), dentre outros.

 

 

Produziu uma das raras fotografias existentes sobre as comemorações da abolição da escravidão no Brasil, feita na Bahia, logo no domingo seguinte à divulgação da Lei Áurea (VASCONCELLOS, 2006).

 

ignacio13

Phot. Universal de Ignacio Mendo. Cópia sobre cartão “Grande Missa Campal no adro do Bonfim, em ação de Graças pela redempção dos escravos no Brazil, em 13 de maio de 1888, celebrada pelo Padre Arsenio Pereira da Fonseca, deputado provincial pelo 1º districto e capellão da Libertadora Bahiana, sendo pregador o conego Dr. João Nepomuceno deputado pelo 4º districto e promovida por E. Carigé e o Club José Bonifácio” / Acervo Museu de Arte da Bahia

 

“O público da missa evidencia a diversidade social da cidade. Nesse primeiro plano, próximo ao fotógrafo, concentraram-se os homens afrodescendentes e brancos. Usam o mesmo modelo de paletó, gravata, chapéu e bigode. Isso demonstra que, fora do estúdio, homens afrodescendentes e brancos usavam os mesmos modelos de traje, enquanto as mulheres pretas se distinguiam pelo uso do turbante branco”.

 Christiane Silva de Vasconcellos

em O  circuito social da fotografia da gente negra Salvador 1860-1916, página 111

 

Anunciou que havia obtido diversas medalhas de ouro e que seguia produzindo retratos com perfeição e modicidade em preços (Folha Nova (BA), 4ª semana de setembro de 1888, primeira colunaA Locomotiva (BA), 13 de dezembro de 1888).

 

 

 

“Aos olhos do mundo civilizado apresentamos nessa página de honra a gravura que representa o edifício onde funciona a popularíssima fábrica Leite & Alves, nesta capital, à Caçada do Bom-fim, nº 95, cópia de uma bela fotografia do sr. Ignacio Mendo (A Locomotiva, 2 de dezembro de 1888).

 

 

 

1889 – Uma cópia fiel de uma fotografia da Grande Fábrica de Cigarros a Vapor de Martins Fernandes de sua autoria foi publicada (A Locomotiva, 13 de janeiro de 1889, primeira coluna).

 

 

 

Compôs uma música em homenagem às cataratas de Paulo Afonso: “Recebemos a polca Cachoeira Paulo Afonso – brilhante produção do nosso simpático amigo Ignacio Mendo, acreditado fotógrafo desta capital” (A Locomotiva (BA), 9 de fevereiro de 1889, primeira coluna).

 

 

Foi agraciado por dom Pedro II (1825 – 1891), um entusiasta da fotografia, com o título de Fotógrafo da Casa Imperial, em 6 de agosto de 1889, cerca de três meses antes da Proclamação da República no Brasil, em 15 de novembro do mesmo ano. No dia seguinte, 16 de novembro, a família real portuguesa foi banida do país (Decreto nº 2, 16 de novembro de 1889). Ainda não se sabe nem se ele teve contato com o imperador nem de como sua obra teria chegado à apreciação do monarca.

1997 – Foi um dos fotógrafos cujas imagens integraram a exposição A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX, realizada entre 29 de janeiro e 23 de março de 1997, pela Biblioteca Nacional, no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Integraram também a exposição registros de autoria de Albert Frisch (1840 – 1918), Albert Richard Dietze (1838 – 1906), Arsênio da Silva (1833 – 1883), Augusto Amoretty (1845 – 1906), Augusto Riedel (1836 – ?), Benjamin R. Mulock (1829 – 1863), Felipe Augusto Fidanza (1844 – 1903), Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890), Henrique Rosen (1840 – 1892), Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912), Louis Niemeyer, Luiz Terragno, Marc Ferrez (1843 – 1923), Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) e Victor Frond (1821 – 1881), dentre outros.

 

 

Entre 20 de abril e 25 de maio, foi apresentada na Pinacoteca de São Paulo.

Entre 4 e 31 de julho, foi apresentada no Museu Nacional de Belas Artes, em Buenos Aires, na Argentina.

2000 - A exposição A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX, foi realizada entre 8 de junho e 30 de julho de 2000, no Centro Português de Fotografia, no Porto, em Portugal.

2020 – Apresentação de A experiência da aceleração: paisagem, infraestrutura e o imaginário da modernidade no Brasil (1870/1910),  de Felipe Ziotti Narita, trabalho de pós-doutorado, ao Departamento de Sociologia e ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) como requisito para conclusão de pesquisa junto ao Programa de Pós-Doutorado (PPD/UFSCar).

Sobre o álbum das obras da Estrada de Ferro Paulo Afonso, produzido por Ignacio Mendo, Narita comentou:

“Ignacio Mendo foi fotógrafo da Casa Imperial nos anos 1880, quando também acompanhou as obras da Estrada de Ferro de Paulo Afonso. O álbum, com vapores e caminhos de ferro cruzando casebres precários e construções muitos dispersas, além de assinalar as condições de um território ermo, privilegia paisagens e perspectivas abertas, realçando um esvaziamento da própria figura humana. Exceto pequenas aparições de trabalhadores dos trechos ferroviários na paisagem vazia (Figura 125), predomina um desenho temático completamente ausente de movimento (Figuras 126, 127 e 128). A atmosfera estacionária do vazio oferece o material bruto a partir do qual as linhas de força do sistema-mundo moderno subsumia os mais remotos rincões à lógica social da circulação e da produção”.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BASTOS, Cláudio. Dicionário histórico e geográfico do Piauí. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1994.

BEZERRA, Ari Leite. História da fotografia no Ceará do século XIX. Edição do autor, 2019. Página 152

CASTRO, Danielle Ribeiro de. PHOTOGRAPHOS DA CASA IMPERIAL A Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX. Monografia apresentada ao curso de PósGraduação em História da Arte da Fundação Armando Álvares Penteado, como exigência parcial para obtenção do certificado de conclusão, sob a orientação de Rubens Fernandes Junior, 2010.

Enciclopédia Itaú Cultural

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

——————-Origens e expansão da fotografia no Brasil: século XIX. Rio de Janeiro: Funarte, 1980

NARITA, Felipe Ziotti. A experiência da aceleração: paisagem, infraestrutura e o imaginário da modernidade no Brasil (1870/1910). Relatório de pós-doutorado apresentado ao Departamento de Sociologia e ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) como requisito para conclusão de pesquisa junto ao Programa de Pós-Doutorado (PPD/UFSCar), 2020.

OLIVEIRA, Evelina Antunes. Nos Trilhos da História do Baixo São Francisco: um ensaio sobre a Estrada de Ferro Paulo Afonso in Mneme Revista de Humanidades, V.4 – N.8 – abr./set. de 2003– Semestral.

SILVA, TELMA Cristina Damasceno. A fotografia artística na Bahia e sua inserção nos salões oficiais de arte. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, Escola de Belas Artes, Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Artes Visuais., 2009.

VASCONCELLOS, Christiane Silva de. O  circuito social da fotografia da gente negra Salvador 1860-1916. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em História sob a orientação da Prof. Dr. Joao Jose Reis, 2006.

VASQUEZ, Pedro Karp. A fotografia no Império. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

—————————Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho: Companhia Internacional de Seguros: Ed. Index, 1985.

—————————O Brasil na Fotografia Oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.

Cronologia de Ignacio Fernandes Mendo (18? – ?)

Cronologia de Ignacio Fernandes Mendo (18? – ?)

 

 

1866 – Ignacio Fernandes Mendo começou a atuar como fotógrafo provavelmente neste ano (SILVA, 2009).

Esteve, nos anos 1860, no Piauí (BASTOS, 1994), onde também atuavam, na referida década, os fotógrafos Joaquim Joze Avellino (18? -?), que abriu seu estabelecimento fotográfico, em Teresina, em 1865; Miguel Carlos (18? -?), que, em julho de 1868, anunciava ter um bom sortimento para o trabalho de fotografia; e Justino Rocha Pereira (18? -?), fotógrafo itinerante que, em 1860, esteve em Teresina (Liga e Progresso (PI), 3 de abril de 1865A Imprensa (PI), 18 de julho de 1868; e O Propagador (PI), 22 de abril de 1860).

1875 - Mendo anunciava os serviços de sua Photographia Popular, instalada na Rua Boa Vista, nº 15, em Sobral, no Ceará (Sobralense, 14 de março de 1875). Foi contemporâneo, no Ceará, de Joaquim Antônio Correia (18? – ?)autor de um conjunto de fotografias que pertence, atualmente, ao acervo da Biblioteca Nacional de vítimas da seca de 1877-1878.  São imagens chocantes, em formato de cartes de visite, e retratam crianças, homens e mulheres desnutridos e maltrapilhos, de aparência doentia. Também atuavam no estado, nos anos 1870, Pinto de Sampaio (18? -?), o prussiano Carlos Frederico Johann Reeckel (18? – c. 189?), do dinamarquês Niels Olsen (1843 –  1911) e o norte-americano R. H. Furmann (18? -?), dentre outros. Este último anunciou, em 1876, que era o único fotógrafo no Brasil que usava o Método Rembrant e o de porcelana para produzir fotografias (O Cearense21 de dezembro de 1871, primeira coluna2 de julho de 1874, terceira coluna30 de setembro de 1875, última coluna12 de março de 1876, terceira coluna25 de abril de 1879, terceira coluna12 de setembro de 1880, última coluna).

 

ignacio2

Sobralense, 14 de março de 1875 / Transcrição copiada de BEZERRA (2019)

 

Meses depois, a Photographia Popular estava estabelecida, na Rua da Palma, nº 17, em Fortaleza (Pedro II (CE), 7 de novembro de 1875).

1876 - Passou por Açu, no Rio Grande do Norte (Correio do Assú, 25 de outubro de 1876).

 

Correio do Assu, 25 de setembro de 1876

Correio do Assu, 25 de setembro de 1876 / Transcrição copiada de BEZERRA (2019)

 

1878 - Encontrava-se em Alagoas, onde realizou uma série de vistas da cachoeira e da Estrada de Ferro de Paulo Afonso, e também do porto de Piranhas (BEZERRA, 2019). Viajantes estrangeiros, como Augusto Stahl (1828 – 1877) e Augusto Riedel (1836 – ?), e depois o brasileiro Marc Ferrez (1843 – 1923) também fotografaram a Cachoeira de Paulo Afonso.

 

 

1881 – Anunciou a abertura de seu estabelecimento fotográfico, a Photographia Maranhense, em Aracaju (Echo Sergipano, 24 de abril de 1881).

 

 

Correio do Assu,

Echo Sergipano, 24 de abril de 1881 / Transcrição copiada de BEZERRA (2019)

 

1884 – Seu estabelecimento fotográfico, a Photographia Maranhense, ficava na Rua Conde d´Eu, em Feira de Santana, na Bahia (Jornal da Feira (BA), 1º de agosto de 1884, primeira coluna).

 

 

1885 – Seu nome aparece na lista de estudantes da Faculdade de Medicina da Bahia para os exames da primeira série de Farmácia (BEZERRA, 2019).

1886 – Estava trabalhando em Cachoeira, mas tinha a intenção de se mudar para Salvador. Anunciava um processo rápido ideal para os retratos de pessoas nervosas ou crianças (A Ordem (Cachoeira, BA), 14 de abril de 1886).

1888 – Estava estabelecido na Photographia Universal, na rua Direita do Colégio, esquina com rua São José, em Salvador. Também atuavam como fotográfos, nos anos 1880, na cidade, o alemão Alberto Henschel (1827 – 1882) e o suíco Guilherme Gaensly (1843 – 1928), dentre outros.

 

 

Produziu uma das raras fotografias existentes sobre as comemorações da abolição da escravidão no Brasil, feita na Bahia, logo no domingo seguinte à divulgação da Lei Áurea (VASCONCELLOS, 2006).

 

ignacio13

Phot. Universal de Ignacio Mendo. Cópia sobre cartão “Grande Missa Campal no adro do Bonfim, em ação de Graças pela redempção dos escravos no Brazil, em 13 de maio de 1888, celebrada pelo Padre Arsenio Pereira da Fonseca, deputado provincial pelo 1º districto e capellão da Libertadora Bahiana, sendo pregador o conego Dr. João Nepomuceno deputado pelo 4º districto e promovida por E. Carigé e o Club José Bonifácio” / Acervo Museu de Arte da Bahia

 

“O público da missa evidencia a diversidade social da cidade. Nesse primeiro plano, próximo ao fotógrafo, concentraram-se os homens afrodescendentes e brancos. Usam o mesmo modelo de paletó, gravata, chapéu e bigode. Isso demonstra que, fora do estúdio, homens afrodescendentes e brancos usavam os mesmos modelos de traje, enquanto as mulheres pretas se distinguiam pelo uso do turbante branco”.

 Christiane Silva de Vasconcellos

em O  circuito social da fotografia da gente negra Salvador 1860-1916, página 111

 

Anunciou que havia obtido diversas medalhas de ouro e que seguia produzindo retratos com perfeição e modicidade em preços (Folha Nova (BA), 4ª semana de setembro de 1888, primeira colunaA Locomotiva (BA), 13 de dezembro de 1888).

 

 

“Aos olhos do mundo civilizado apresentamos nessa página de honra a gravura que representa o edifício onde funciona a popularíssima fábrica Leite & Alves, nesta capital, à Caçada do Bom-fim, nº 95, cópia de uma bela fotografia do sr. Ignacio Mendo (A Locomotiva, 2 de dezembro de 1888).

 

 

 

1889 – Uma cópia fiel de uma fotografia da Grande Fábrica de Cigarros a Vapor de Martins Fernandes de sua autoria foi publicada (A Locomotiva, 13 de janeiro de 1889, primeira coluna).

 

 

 

Compôs uma música em homenagem às cataratas de Paulo Afonso: “Recebemos a polca Cachoeira Paulo Afonso – brilhante produção do nosso simpático amigo Ignacio Mendo, acreditado fotógrafo desta capital” (A Locomotiva (BA), 9 de fevereiro de 1889, primeira coluna).

 

 

Foi agraciado por dom Pedro II (1825 – 1891), um entusiasta da fotografia, com o título de Fotógrafo da Casa Imperial, em 6 de agosto de 1889, cerca de três meses antes da Proclamação da República no Brasil, em 15 de novembro do mesmo ano. No dia seguinte, 16 de novembro, a família real portuguesa foi banida do país (Decreto nº 2, 16 de novembro de 1889). Ainda não se sabe nem se ele teve contato com o imperador nem de como sua obra teria chegado à apreciação do monarca.

1997 – Foi um dos fotógrafos cujas imagens integraram a exposição A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX, realizada entre 29 de janeiro e 23 de março de 1997, pela Biblioteca Nacional, no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Integraram também a exposição registros de autoria de Albert Frisch (1840 – 1918), Albert Richard Dietze (1838 – 1906), Arsênio da Silva (1833 – 1883), Augusto Amoretty (1845 – 1906), Augusto Riedel (1836 – ?), Benjamin R. Mulock (1829 – 1863), Felipe Augusto Fidanza (1844 – 1903), Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890), Henrique Rosen (1840 – 1892), Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912), Louis Niemeyer, Luiz Terragno, Marc Ferrez (1843 – 1923), Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) e Victor Frond (1821 – 1881), dentre outros.

 

 

Entre 20 de abril e 25 de maio, foi apresentada na Pinacoteca de São Paulo.

Entre 4 e 31 de julho, foi apresentada no Museu Nacional de Belas Artes, em Buenos Aires, na Argentina.

2000 - A exposição A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX, foi realizada entre 8 de junho e 30 de julho de 2000, no Centro Português de Fotografia, no Porto, em Portugal.

2020 – Apresentação de A experiência da aceleração: paisagem, infraestrutura e o imaginário da modernidade no Brasil (1870/1910),  de Felipe Ziotti Narita, trabalho de pós-doutorado, ao Departamento de Sociologia e ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) como requisito para conclusão de pesquisa junto ao Programa de Pós-Doutorado (PPD/UFSCar).

Sobre o álbum das obras da Estrada de Ferro Paulo Afonso, produzido por Ignacio Mendo, Narita comentou:

“Ignacio Mendo foi fotógrafo da Casa Imperial nos anos 1880, quando também acompanhou as obras da Estrada de Ferro de Paulo Afonso. O álbum, com vapores e caminhos de ferro cruzando casebres precários e construções muitos dispersas, além de assinalar as condições de um território ermo, privilegia paisagens e perspectivas abertas, realçando um esvaziamento da própria figura humana. Exceto pequenas aparições de trabalhadores dos trechos ferroviários na paisagem vazia (Figura 125), predomina um desenho temático completamente ausente de movimento (Figuras 126, 127 e 128). A atmosfera estacionária do vazio oferece o material bruto a partir do qual as linhas de força do sistema-mundo moderno subsumia os mais remotos rincões à lógica social da circulação e da produção”.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BASTOS, Cláudio. Dicionário histórico e geográfico do Piauí. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1994.

BEZERRA, Ari Leite. História da fotografia no Ceará do século XIX. Edição do autor, 2019. Página 152

CASTRO, Danielle Ribeiro de. PHOTOGRAPHOS DA CASA IMPERIAL A Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX. Monografia apresentada ao curso de PósGraduação em História da Arte da Fundação Armando Álvares Penteado, como exigência parcial para obtenção do certificado de conclusão, sob a orientação de Rubens Fernandes Junior, 2010.

Enciclopédia Itaú Cultural

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

——————-Origens e expansão da fotografia no Brasil: século XIX. Rio de Janeiro: Funarte, 1980

NARITA, Felipe Ziotti. A experiência da aceleração: paisagem, infraestrutura e o imaginário da modernidade no Brasil (1870/1910). Relatório de pós-doutorado apresentado ao Departamento de Sociologia e ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) como requisito para conclusão de pesquisa junto ao Programa de Pós-Doutorado (PPD/UFSCar), 2020.

SILVA, TELMA Cristina Damasceno. A fotografia artística na Bahia e sua inserção nos salões oficiais de arte. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, Escola de Belas Artes, Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Artes Visuais., 2009.

VASCONCELLOS, Christiane Silva de. O  circuito social da fotografia da gente negra Salvador 1860-1916. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em História sob a orientação da Prof. Dr. Joao Jose Reis, 2006.

VASQUEZ, Pedro Karp. A fotografia no Império. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

—————————Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho: Companhia Internacional de Seguros: Ed. Index, 1985.

—————————O Brasil na Fotografia Oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.

Série “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” VIII – O Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, fotografado por Angelo Regato e por fotógrafos ainda não identificados

Com imagens do Estádio do Maracanã do acervo dos Diários Associados – Rio de Janeiro, conjunto de fotos incorporado, em 2016, por um dos fundadores da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles, o portal publica o oitavo artigo da série Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica, celebrando os 76 anos de uma das arenas esportivas mais icônicas do planeta, um templo do futebol mundial, símbolo de uma das grandes paixões nacionais, patrimônio cultural brasileiro e orgulho dos cariocas. Foi construída para a Copa de 1950.

 

 

Os registros são de autoria de fotógrafos ainda não identificados e do italiano Angelo Regato (1912 – 1993), que ficou conhecido como um dos primeiros fotojornalistas a usar uma teleobjetiva no Brasil, provavelmente o primeiro. Chefiou o Departamento de Fotografia dos Diários Associados de 1952 até 1975, quando se aposentou, encerrando sua carreira no Jornal do Commercio. Sobre ele, publicamos um breve perfil e uma cronologia, a 72ª da seção Cronologia de Fotógrafos, da Brasiliana Fotográfica. Selecionamos também imagens aéreas do Maracanã do acervo do Museu Aeroespacial, uma das instituições parceiras do portal. Mostram o estádio, carinhosamente apelidado de Maraca, ainda sendo construído, em 1949, e também do ano de sua inauguração, ocorrida em 16 de junho de 1950. Vida longa ao Maraca!

 

 

 

Acessando o link para as fotografias do Estádio do Maracanã pertencente ao acervo da Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Didi e Pelé por Cássio Loredano. Didi marcou o primeiro gol do Maracanã e Pelé marcou seu milésimo gol no estádio

Didi e Pelé por Cássio Loredano. Didi foi o autor do primeiro gol marcado no Maracanã e Pelé marcou seu primeiro gol pela seleção brasileira e também seu milésimo gol no estádio / Pasmado, 3 de junho de 2026

 

A partir de algumas fotografias exibidas neste artigo, mais uma vez pode-se constatar que as hemerotecas digitais, no caso a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, são ferramentas de pesquisa poderosas e indispensáveis, principalmente na busca de registros históricos nos periódicos. Porém, devido a velhos sistemas de impressão, as imagens ficam prejudicadas. Daí a importância da conservação dos acervos fotográficos originais, que nenhuma hemeroteca conserva com a mesma nitidez. 

 

 

 

 

Em 1946, o Brasil foi escolhido pela FIFA como sede da Copa do Mundo de 1950 e precisava de um grande estádio para receber os jogos. A construção do Maracanã foi muito criticada pelo então vibrante e emergente orador e vereador pela União Democrática Nacional (UDN), Carlos Lacerda (1914 – 1977), devido aos gastos e à localização escolhida para o estádio, defendendo que fosse edificado em Jacarepaguá. O compositor Ary Barroso (1903 – 1964), já consagrado internacionalmente, então vereador no Rio de Janeiro, também pela UDN, e defensor da construção do estádio no terreno do antigo Derby Club, na Tijuca, encomendou ao Ibope uma pesquisa de opinião para que a população escolhesse entre os dois locais. O instituto fez a pesquisa durante jogos dos principais clubes de futebol cariocas. Resultado: 56,8% dos entrevistados escolheram o Derby Club e 9,7%, Jacarepaguá; 6,9% sugeriram outras regiões como Centro, Gávea, Quinta da Boavista e Cascadura. Além disso, 79,2% achavam necessária a construção de um estádio para a cidade e 53,6% se dispunham a arcar com algum ônus tributário para que a prefeitura financiasse a obra. O poeta venceu o tribuno!

A pedra fundamental do Estádio do Maracanã foi lançada em 20 de janeiro de 1948. O coronel Herculano Gomes (1899 – 1963) presidia a Comissão de Construção do Estádio Municipal. Seus arquitetos eram Antonio Dias Carneiro, Orlando Azevedo, Pedro Paulo Bernardes Bastos e Rafael Galvão.  E seus engenheiros estruturais, Alberto Rodrigues da Costa, Antonio Alves Noronha, Paulo Fragoso e Sergio Matos de Souza (O Jornal, 21 de janeiro de 1948).

 

 

 

 

Em junho de 1948, Angelo Regato registrou o local onde seria erguido o Maracanã e as obras ainda não haviam sido iniciadas.

 

 

 

 

O maior estádio do mundo* começou a ser erguido em 17 de agosto de 1948, cerca de sete meses após o lançamento de sua pedra fundamental (Diário da Noite, 17 de agosto de 1948, terceira coluna). No inicio das obras, havia 1.500 homens trabalhando. Nos últimos meses eram 3.000 operários. “A arquitetura de formato oval mede 317 metros no eixo maior e 279 metros no menor. A altura do estádio corresponde a um prédio de seis andares. Os ferros utilizados dariam volta e meia no planeta; foram 500 mil sacos de cimento, 60.000 m2 de pedras e 45.000 m2 de areia” (Jornal da Unicamp, 22 de abril e 4 de maio de 2003).

 

 

O Maracanã foi inaugurado com a presença do então presidente da República, general Eurico Gaspar Dutra (1883 – 1974), de todos os seus ministros, do prefeito do Rio de Janeiro, o general Ângelo Mendes de Moraes (1894 – 1990), e de várias outras autoridades. Foi abençoado pelo cardeal dom Jaime Câmara (1894 – 1971). Tornou-se o maior estádio de futebol do mundo, com capacidade técnica para cerca de 155.000 a 200.000 pessoas, superando o Hampden Park, na Escócia. Atualmente, o Maracanã é o 25º – hoje só pode abrigar oficialmente 94 751 pessoas. O maior do mundo é o Estádio Rungrado Primeiro de Maio (114.000 lugares), na Coreia do Norte, inaugurado em 1º de maio de 1989 (Diário da Noite, 16 de junho de 1950; Site Lance).

 

 

 

Sobre a grandiosidade da obra titânica, a maior construção em concreto armado até então realizada, com capacidade para mais de 150 mil pessoas, José Lins do Rego (1901 – 1957) escreveu:

 

 

No dia seguinte à inauguração, foi realizado um jogo entre as seleções do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os paulistas venceram por 3 a 1, mas foi o carioca Didi (1928 – 2001), do Fluminense, que marcou o primeiro gol no estádio (O Jornal, 18 de junho de 1950).

 

 

Poucos dias depois, foi o palco da abertura da Copa do Mundo de 1950, em 24 de junho, quando a seleção brasileira goleou a mexicana por 4 a 0 (Diário da Noite 24 de junho de 1950 e 26 de junho de 1950). E também foi o cenário da final docampeonato, em 16 de julho, que ficou conhecida como Maracanaçoquando o Brasil foi derrotado pelo Uruguai por 2 a 1. Foi, como escreveu Nelson Rodrigues (1912 – 1980), a nossa Hiroshima: “Uma humilhação jamais cicatrizada, que ainda pinga sangue”. O Maracanã, com quase 200 mil pessoas, oficialmente 199.584, até hoje recorde de espectadores em um jogo de futebol, ficou em silêncio. Foi uma verdadeira tragédia esportiva nacional. Antonio Olinto (1919 – 2009), José Lins do Rego e Vargas Neto (1903 – 1977) publicaram crônicas sobre a derrota no Jornal dos Sports, de 18 de julho de 1950.

 

A Derrota

José Lins do Rego

“Vi um povo de cabeça baixa, de lágrimas nos olhos, sem fala, abandonar o Estádio Municipal, como se voltasse de enterro de um pai muito amado. Vi um povo derrotado, e mais que derrotado, sem esperança. Aquilo me doeu o coração. Toda a vibração dos minutos iniciais da partida reduzida a uma pobre cinza de fogo apagada. E, de repente, chegou-me a decepção maior, a ideia fixa de que éramos mesmo um povo sem sorte, um povo sem as grandes alegrias das vitórias, sempre perseguido pelo azar, pela mesquinharia do destino. A vil tristeza de Camões, a vil tristeza dos que nada tem a esperar, seria assim o alimento podre dos nossos corações. Não dormi, senti-me alta noite, como que mergulhado num pesadelo. E não era pesadelo, era a terrível realidade da derrota”.

 

Sobre o assunto, o jornalista e caricaturista Cássio Loredano escreveu o artigo Tempo e placar do Maracanaço, na seção “Por dentro dos acervos”, do Instituto Moreira Salles, de 13 de julho de 2020. Nele publicou “três instantâneos metidos numa das dezenas de pastas do assunto ‘futebol’ no arquivo fotográfico dos Diários Associados no Rio, atualmente incorporado ao acervo do Instituto Moreira Salles. E aqui se publicam pela primeira vez”. Eram os placares da terrível derrota.

 

“E aí está. Às 4:15 está Brasil 1 a 0, Friaça marcara a 1 minuto e meio do segundo tempo. 

 

 

Aos 20, Schiaffino empatou, placar às 4:29.

 

 

E três minutos depois Ghiggia tinha posto o 2 lá em cima. Fazendo o que se orgulhava de só ele, Frank Sinatra e João Paulo II terem conseguido: calar o estádio que vaiava até minuto de silêncio”.

Cássio Loredano

 

Cerca de oito anos depois, às vésperas do Copa do Mundo de 1958, na Suécia, Nélson Rodrigues, em uma crônica publicada na Manchete Esportiva de 31 de maio de 1958, referiu-se à derrota de 1950 e declarou: …desde 50, nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. Foi também nesta crônica que criou a expressão complexo de vira-latas.

As seleções brasileira e uruguaia voltaram a se enfrentar numa Copa do Mundo, desta vez no México, em 17 de junho de 1970, no Estádio Jalisco, em Guadalajara, em um dos jogos da semifinal do campeonato. O Brasil venceu de 3 a 1  e os gols foram marcados por Clodoaldo (1949-), Jairzinho (1944-) e Rivelino (1946-). Pelo Uruguai, Luis Cubilla (1940 – 2013).  O Brasil eliminou o Uruguai  e superou o fantasma de 1950.

 

 

Continuando a história do Maracanã…

 

Em 1966, o nome oficial do Maracanã passou a ser Estádio Jornalista Mário Filho, a partir de um projeto apresentado pelo deputado Jamil Haddad (1926-2009) e subscrito pelo deputado Raul Brunini (1919 – 2009); aprovado em 27 de setembro de 1966, poucos dias após o falecimento de Mário Filho (1908 – 1966), em 16 de setembro. Mário Filho foi um dos maiores apoiadores da construção do Maracanã e a ideia do novo nome para o estádio foi de Waldir Amaral (1926–1997), um dos maiores locutores esportivos do rádio brasileiro (Jornal dos Sports20 de setembro de 196628 de setembro de 1966). Em 8 de abril de 2021, o então governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (1979 -), tornou público o veto à lei que mudava o nome do Estádio do Maracanã. Com isso, o projeto que pretendia alterar o nome oficial de Estádio Jornalista Mário Filho para Rei Pelé foi arquivado.  A decisão de mudança havia sido tomada em março deste ano pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e o pedido de desistência foi feito pelo então presidente da Casa, André Ceciliano (1968-), um dos idealizadores do projeto que tinha como intuito, segundo ele, homenagear Pelé (1940 -2022) em vida (Portal dos Jornalistas, 9 de abril de 2021).

 

 

Maraca também foi a sede da final da Copa do Mundo de 2014, das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Pan-Americanos de 2007 e dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016, quando em seus gramado a seleção brasileira de futebol conquistou o ouro olímpico derrotando a Alemanha nos pênaltis. Sediou campeonatos estaduais, a Copa Rio, Mundiais de Clubes. Foi no Maracanã que Mané Garrincha (1933 – 1983) consagrou-se com a camisa do Botafogo e da seleção brasileira, tendo feito lá seu jogo de despedida em 19 de dezembro 1973. Foi no seu gramado que Pelé marcou seu primeiro gol pela seleção brasileira em 7 de julho de 1957, na derrota por 2 a 1 para a Argentina, pela Copa Roca; e também seu milésimo gol, em  19 de novembro de 1969, durante a vitória do Santos por 2 a 1 contra o Vasco, pela Taça de Prata.

Foi também palco de grandes shows como o dos cantores Frank Sinatra (1915 – 1998), em janeiro de 1980; e Paul McCartney (1942-), em abril de 1990 e em dezembro de 2023; e das cantoras Tina Turner (1939 – 2023), em janeiro de 1998; Madonna (1958 -), em novembro de 1993 e em dezembro de 2008; e Ivete Sangalo (1972 -), em dezembro de 2006. Além disso, o papa João Paulo II rezou missas no estádio em julho de 1980 e em outubro de 1987; e o estádio sediou o festival de música Rock in Rio II, em janeiro de 1991.

Alguns importantes eventos esportivos não futebolísticos aconteceram lá. Um deles, em 23 de outubro de 1951, com a presença do vice-presidente Café Filho (1899 – 1970), quando foi realizado um duelo de artes marciais entre o brasileiro Hélio Gracie (1913 – 2009), lutador de jiu-jitsu; e o judoca japonês Masahiko Kimura (1917 – 1993), vencedor do combate (Correio da Manhã, 24 de outubro de 1951).

 

 

Em 2000, nas comemorações de seus 50 anos, o Maracanã ganhou uma Calçada da Fama com as marcas dos pés de vários jogadores como Romário (1966 -), Ronaldo Fenômeno (1976 -) e Zico (1953 -).

O estádio deixou de ser o maior do mundo com as obras para os Jogos Pan-americanos de 2007, quando o campo foi rebaixado e o setor conhecido como Geral foi eliminado – era o espaço mais democrático e popular do futebol. A maior reforma realizada no Maracanã ocorreu entre 2010 e 2013 para adequar o estádio para a Copa de 2014 dentro do padrão Fifa. Tornou-se mais confortável, mas para muitos perdeu sua identidade histórica, que fazia dele uma arena única e especial. Para os Jogos Olímpicos de 2016, foram realizadas novas intervenções para adequar o estádios às cerimônias de abertura e encerramento do evento (Valor Econômico, 8 de outubro de 2012Site OneFootball).

 

 

 

Brevíssimo perfil do fotojornalista Angelo Regato (1912 – 1993)

 

Mineiro de Estrela Dalva, Angelo Regato nasceu em 27 de outubro de 1912 e, ainda na juventude, veio para o Rio de Janeiro. Começou a se aproximar do jornalismo, em 1929, quando foi empregado na empresa de teatro e cinema de Paschoal Carlos Magno (1906 – 1980). Ele levava os anúncios dos filmes e das peças para os jornais. No ano seguinte, começou a trabalhar como fotógrafo no jornal A Pátria, onde permaneceu até 1940Sua máquina fotográfica era a alemã Contessa Nettel. Desta época até meados da década de 1930, trabalhava à noite como porteiro de cinema ou montador de cartaz.

Em entrevista, Regato comentou as condições de trabalho dos fotógrafos da época (O GLOBO, 30 de setembro de 1987).

“Ao mesmo tempo que era fascinante, o emprego era muito puxado. Naquele tempo, o fotógrafo fornecia desde o filme até o ampliador. O jornal só fornecia um quartinho para que pudéssemos revelar as chapas”.

Foi Regato que deu o tiro do magnésio para que fosse feita a foto, de autoria de Arnaldo Vieira (1904 – 1974), da prisão do presidente deposto pela Revolução de 1930, Washington Luís (1869 – 1957), saindo do Palácio Guanabara, residência oficial do chefe de governo, rumo ao Forte Copacabana, onde ficou preso até seguir, exilado, para os Estados Unidos. Era o fim de seu mandato presidencial, iniciado em 15 de novembro de 1926, o último da chamada República Velha. O primogênito de Irineu Marinho, Roberto Marinho (1904 – 2003), que assumiria a direção do jornal, em 1931, atuava na ocasião como repórter de O GLOBO e teve uma participação decisiva neste furo de reportagem. Ele estava no palácio e viu o momento em que Washington Luís entrou no carro, um luxuoso Lincoln. Para tornar a fotografia possível, colocou arbustos no caminho, fazendo com que o carro tivesse que parar por alguns segundos, e assim o fotógrafo que o acompanhava conseguiu fazer o registro. O registro fotográfico, um importante furo jornalístico, foi publicado na capa da terceira edição de O GLOBO de 24 de outubro de 1930 e republicada no dia seguinte. De acordo com o jornal esta fotografia é O mais eloquente documento histórico da deposição do Sr. Washington Luis É um documento único e cujo valor não será mais preciso exaltar.

 

 

Em 1935, Regato passou a trabalhar também no jornal A Nota. Em 1938, foi trabalhar para A Notícia e para veículos dos Diários Associados e foi, como já mencionado, chefe do Departamento de Fotografia do referido conglomerado de mídiade 1952 até 1975.

“Comandava uma equipe de 35 profissionais, que trabalhavam 24 horas por dia. Atendíamos aos jornais da rede e ao departamento de publicidade. Os fotógrafos vibravam quando iam aos concursos de miss”.

Participou de diversas coberturas de eventos importantes da história do Brasil como a já mencionada Revolução de 1930, a chegada ao Brasil dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira com o fim da Segunda Guerra Mundial e a realização da Assembleia Nacional Constituinte de 1946. Registrou a remoção da Igreja São Pedro dos Clérigos sobre gigantescos rolimãs para a abertura da Avenida Presidente Vargas, em 1944; e, de 1936 a 1939, acompanhou o presidente Getúlio Vargas em uma peregrinação pelo país. Acompanhou também Assis Chateaubriand (1892 – 1968), fundador e dono dos Diários Associados, em diversas viagens pelo Brasil.

 

 

Foto de Angelo Regato de um Pracinha comemorando com a família após a chegada da Itália com o fim da Segunda Guerra Mundial, 22 de agosto de 1945. Rio de Janeiro, RJ / Diários Associados (RJ) – Acervo IMS

 

Na enquete Em quem você votaria?, realizada pelo jornal O GLOBO, disse que ainda não havia se definido: “Sou do contra — declarou — Quero novidades. Quero gente nova. É preciso que se dêem oportunidades a outros brasileiros de valor até então desconhecidos por força do regime em que vivíamos. Sou ainda favorável à anistia e pela pacificação da família brasileira” (O GLOBO, 6 de abril de 1945).

Fazendo a cobertura do Circuito da Gávea de automobilismo, foi um dos fotógrafos agredidos pela polícia (O Jornal, 22 de abril de 1947, segunda coluna).

 

 

Pela primeira vez, fotos de sua autoria foram publicadas na revista O Cruzeiro, também dos Diários Associados. Foi na reportagem Energia para o Nordeste, de Theophilo de Andrade (1903 – 1994) (O Cruzeiro, 12 de julho de 1947).

O Diário da Noite foi um inovador na fotografia, publicando, inicialmente clichês de 6 a 8 colunas, e, posteriormente, alcançando sucesso com as fotos colhidas pela teleobjetiva de Angelo Regato, que a usou pela, primeira vez, no dia 4 de Julho de 1948, no Torneio Início do Campeonato Carioca de Futebol (Diário da Noite, 5 de julho de 1948, página 11 e página 28).

 

 

Antes, os fotógrafos de futebol ficavam alojados atrás do gol, sujeitos a pedradas dos torcedores e impossibilitados de variar a produção de imagens. Regato havia participado da cobertura jornalística de um eclipse solar, em Bocaiuva, no interior de Minas Gerais, em maio de 1947 (O Jornal, 21 de maio de 1947). Ele usava sua Contessa Nettel e observou um colega norte-americano trabalhando com uma teleobjetiva Garflex. Foi quando decidiu adquirir a sua, que comprou, à prestação, na Mesbla (O GLOBO, 1º de março de 1962; Boletim da ABI, de 1975).

Passou a morar no Méier em 1949. Nesta época, o futuro e importante colunista social, Ibrahin Sued (1924 – 1995), era seu ajudante.

Em 6 de abril de 1950, fez, de um teco-teco, fotos do descarrilamento do Noturno Campista sobre a ponte do Rio Tanguá. Os registros foram publicados no Diário da Noite. Considerava essa uma de suas melhores coberturas jornalísticas.

É de sua autoria a primeira foto do Maracanã lotado, durante um treino da seleção brasileira para a Copa de 1950. Jogou contra o quadro de aspirantes do Vasco da Gama reforçado por profissionais do time (Diário da Noite, 19 de junho de 1950).

 

 

Participou da cobertura da Copa do Mundo de 1954 na Suíça (Jornal do Sports, 10 de março de 1977, penúltima coluna).

Em 1956, foi um dos fundadores da Associação de Repórteres Fotográficos do Rio de Janeiro, cuja iniciativa foi apoiada por Herbert Moses (1884 – 1972), presidente a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), onde, até ter sede própria, a associação de fotógrafos funcionou.

Foi ele que levou Evandro Teixeira (1935 – 2024), recém chegado da Bahia ao Rio de Janeiro, em 1957, até a redação do Diário da Noite. Os dois jornais eram sediados no mesmo edifício da rua Sacadura Cabral, nº 103, na Praça Mauá. Não havia vaga disponível naquele momento, mas, no ano seguinte, Evandro começou a fotografar para o Diário da Noite e a produzir registros para O Jornal. Seus dois primeiros trabalhos no Diário da Noite não deram certo: fotografou, com uma Rolleiflex fornecida pelo jornal, o casamento de uma alemã com um negro, apesar da orientação racista do jornal. Foi demitido pelo diretor do jornal, o mineiro Paulo Vial Correa (1919 – 1975). Angelo Regato deu uma segunda chance a ele: fotografar o desfile de fantasias do Baile do Teatro Municipal, mas Evandro chegou atrasado e Regato teve que providenciar as fotos da revista O Cruzeiro sem o carimbo. Veio então a sua terceira, que seria sua última chance: fazer a cobertura do desfile das escolas de samba na Avenida Rio Branco. Foi um sucesso e Evandro finalmente iniciou sua carreira profissional no Rio de Janeiro, tornando-se um dos maiores fotojornalistas brasileiros de todos os tempos.

O Angelo Regato realmente foi uma pessoa maravilhosa, devo muito a ele que logo me apresentou ao diretor de redação”.

Evandro Teixeira em Arfoc

Participou da cobertura do Campeonato Sul-Americano de Futebol, realizado em Buenos Aires entre 7 de março de 4 de abril de 1959. Participaram da disputa sete seleções: Argentina, campeã do torneio; Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai. O jornalista Armando Nogueira (1927 – 2010), pelo Jornal do Brasil; e o fotógrafo Ângelo Gomes (19? -?), pelo Jornal dos Sports, também participaram da cobertura do evento (Jornal do Brasil, 3 de julho de 1994, segunda coluna).

Em 1968, era um dos dirigentes da Associação de Repórteres Fotográficos do Rio de Janeiro. Pelo menos até 1979 integrava a entidade, pela qual foi condecorado com o título de comendador (O GLOBO, 16 de fevereiro de 1968; Jornal do Commercio, 9 de fevereiro de 1979, penúltima colunaJornal do Commercio, 1º de outubro de 1993, penúltima coluna).

 

regato2

Na foto, Regato é o primeiro à direita / O GLOBO, 16 de fevereiro de 1968

 

Foi noticiado que um retrato de Regato seria inaugurado na sede da Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado do Rio, cujo presidente era Walter Quirino (19? -?) (Jornal do Commercio, 15 de janeiro de 1970, quarta coluna).

Foi homenageado, no Palácio do Comércio, em Niterói, recebendo das mãos de Moacyr Moreira Leite, presidente da Associação Comercial e Industrial do Estado do Rio de Janeiro, um diploma da Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado do Rio, fundada no ano anterior. Regato era um dos fundadores da associação congênere do Rio de Janeiro (O Jornal, 22 de março de 1970, primeira coluna).

 

regato11

 

Em 13 de maio de 1970, foi um dos profissionais condecorados com as insígnias do Mérito Jornalístico, da Ordem dos Velhos Jornalistas, em uma solenidade realizada na Associação Brasileira de Imprensa. Os outros  foram Dinah Silveira de Queiroz (1911 – 1982), Carlos de Souza Areas, Fernando Hupsel de Oliveira (19? -?), Alceu de Amoroso Lima (1893 – 1983), Raul Pilla (1892 – 1973), Gomes Maranhão (1907 – 1992), Antônio Herrera Filho (c. 1911 – 1980), Alberto Torres e Archimedes Fortini (18? – 1973). Na ocasião, Regato foi apresentado como o primeiro repórter a usar a teleobjetiva na imprensa brasileira. A Medalha do Mérito Jornalístico foi instituída pela Ordem dos Velhos Jornalistas e reconhecida oficialmente  pelo Decreto n° 52.206, de 28 de junho de 1963 (Jornal do Commercio, 14 de maio de 1970, quarta coluna). Pela conquista da Medalha, foi homenageado por colegas de A Notícia e de O Dia (O Jornal, 22 de maio de 1970, segunda coluna).

Integrava a equipe dos Diários Associados responsável pela cobertura jornalística da Copa Mundial de Futebol do México (O Jornal, 17 de abril de 1970).

O Diário da Noite Futebol Clube, clube dos Diários Associados, promoveu, no Social Marabu, no Encantado, um torneio de futebol de salão denominado Angelo Regato, em homenagem ao fotógrafo (O Jornal, 27 de novembro de 1971, primeira coluna).

Publicação da reportagem A bola é redonda para a família Antunes, de Yata Anderson (1944 – 2026), com fotos de autoria de Regato. Da família, fazia parte os jogadores Edu (1947 -), Nando (19?-), Antunes (19?-) e Zico (1953-). Uma curiosidade: Yata foi o único repórter a entrevistar Pelé em campo no seu último jogo no Maracanã, em 1974, e por isso, ficou conhecido como o Amigo do Rei (O Jornal, 7 de novembro de 1970).

Regato devolveu sua Leika e aposentou-se, em 1º de maio de 1975, encerrando sua carreira no Jornal do Commercio, após 46 anos de trabalho. Era, então, o mais antigo repórter fotográfico em atividade do Rio de Janeiro (Boletim da ABI, março e abril de 1975). Continuou trabalhando como profissional independente e visitava ocasionalmente seus amigos nas redação do Jornal do Commercio.

 

 

Em 1982, foi um dos fotógrafos contatados pelo Núcleo de Fotografia da Funarte para dar um depoimento acerca de seu trabalho de fotógrafo de copas do mundo. Na época, a Funarte estava promovendo em sua galeria a exposição Fotografias nas Copas do Mundo. Segundo Regato, os fotógrafos ficavam, normalmente, atrás do gol  (O GLOBO, 9 de junho de 1982).

Foi entrevistado pelo jornal O GLOBO (O GLOBO, 30 de setembro de 1987).

 

regato

 

Para aqueles que quisessem se aproximar do mundo da fotografia, Regato deu o seguinte conselho:

“A pessoa deve aguçar a sensibilidade. É preciso que ela seja paciente e criativa”.

 

Faleceu, em 30 de setembro de 1993, em sua residência, na Rua Domingues Freire, no Méier, vítima de um enfarte (Jornal do Commercio, 1º de outubro de 1993, penúltima coluna; Boletim da ABI, de setembro/outubro de 1993, segunda coluna).

 

 

Foi casado com Fernandina Maria Mesquita, com quem teve quatro filhos: Angelo, José, Carlos e Fernanda (Site Family Search; Jornal do Commercio6 de junho de 1976, penúltima coluna 27  de junho de 1976, última coluna).

Em uma de suas colunas, o jornalista Armando Nogueira escreveu:

 “Faço um saudoso parêntese pra relembrar, com ternura, o velho Angelo Regato. Era um mestre. Morreu sem jamais ter perdido um flagrante de um gol num clique de sua fiel speed graf”.

Tribuna da Imprensa, 26 de junho de 1996

 

Acesse aqui a Cronologia de Angelo Regato (1912 – 1993)

 

*Atualmente o maior estádio do mundo é o Estádio Primeiro de Maio Rungradolocalizado em Pyongyang, na Coreia do Norte, com capacidade para 150 000 espectadores.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANTUNES, Fátima Martin Rodrigues Ferreira. Com Brasileiro, Não Há Quem Possa! Futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues. São Paulo: EdUNESP, 2004.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Jornal da Unicamp, 22 de abril e 4 de maio de 2003

MÁXIMO, João. Maracanã: meio século de paixão. Rio de Janeiro: DBA, 2000.

O GLOBO, 30 de setembro de 1987.

Portal Maracanã

NELSON, Rodrigues. A pátria de chuteiras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013

Revista Superinteressante

SIMAS, Luiz Antônio. Maracanã: quando a cidade era terreiro. Rio de Janeiro : Mórula Editorial, 2021.

Site Arfoc Rio

Site Lance

Site Os Divergentes

 

Cronologia de Angelo Regato (1912 – 1993)

Cronologia de Angelo Regato (1912 – 1993)

 

 

1912 – Mineiro de Estrela Dalva, Angelo Regato nasceu em 27 de outubro de 1912 e, ainda na juventude, veio para o Rio de Janeiro. Foi casado com Fernandina Maria Mesquita, com quem teve quatro filhos: Angelo, José, Carlos e Fernanda (Site Family Search; Jornal do Commercio6 de junho de 1976, penúltima coluna 27  de junho de 1976, última coluna).

1929 /década de 1930- Começou a se aproximar do jornalismo, em 1929, quando foi empregado na empresa de teatro e cinema de Paschoal Carlos Magno (1906 – 1980). Ele levava os anúncios dos filmes e das peças para os jornais. No ano seguinte, começou a trabalhar como fotógrafo no jornal A Pátria, onde permaneceu até 1940Sua máquina fotográfica era a alemã Contessa Nettel. Desta época até meados da década de 1930, trabalhava à noite como porteiro de cinema ou montador de cartaz.

Em entrevista, Regato comentou as condições de trabalho da época (O GLOBO, 30 de setembro de 1987).

“Ao mesmo tempo que era fascinante, o emprego era muito puxado. Naquele tempo, o fotógrafo fornecia desde o filme até o ampliador. O jornal só fornecia um quartinho para que pudéssemos revelar as chapas”.

Em outubro de 1930, foi Regato que deu o tiro do magnésio para que fosse feita a foto, de autoria de Arnaldo Vieira (1904 – 1974), da prisão do presidente deposto pela Revolução de 1930, Washington Luís (1869 – 1957), saindo do Palácio Guanabara, residência oficial do chefe de governo, rumo ao Forte Copacabana, onde ficou preso até seguir, exilado, para os Estados Unidos. Era o fim de seu mandato presidencial, iniciado em 15 de novembro de 1926, o último da chamada República Velha. O registro fotográfico, um importante furo jornalístico, foi publicado na capa da terceira edição de O GLOBO de 24 de outubro de 1930 e republicada no dia seguinte. De acordo com o jornal esta fotografia é O mais eloquente documento histórico da deposição do Sr. Washington Luis É um documento único e cujo valor não será mais preciso exaltar. 

 

 

1935 – Passou a trabalhar também no jornal A Nota.

1938 – Foi trabalhar para A Notícia e para veículos dos Diários Associados.

1940 – Deixou de trabalhar como fotógrafo no jornal A Pátria.

1944 – Fotografou a remoção da Igreja São Pedro dos Clérigos sobre gigantescos rolimãs para a abertura da Avenida Presidente Vargas.

1945 – Fotografou a chegada ao Brasil dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira após o término da Segunda Guerra Mundial.

 

 

Foto de Angelo Regato de um Pracinha comemorando com a família após a chegada da Itália com o fim da Segunda Guerra Mundial, 22 de agosto de 1945. Rio de Janeiro, RJ / Diários Associados (RJ) – Acervo IMS

 

Na enquete Em quem você votaria?, realizada pelo jornal O GLOBO, disse que ainda não havia se definido: “Sou do contra — declarou — Quero novidades. Quero gente nova. É preciso que se dêem oportunidades a outros brasileiros de valor até então desconhecidos por força do regime em que vivíamos. Sou ainda favorável à anistia e pela pacificação da família brasileira” (O GLOBO, 6 de abril de 1945).

1946 – Fotografou a realização da Assembleia Nacional Constituinte de 1946.

1947 – Fazendo a cobertura do Circuito da Gávea de automobilismo, foi um dos fotógrafos agredidos pela polícia (O Jornal, 22 de abril de 1947, segunda coluna).

 

 

Pela primeira vez, fotos de sua autoria foram publicadas na revista O Cruzeiro, também dos Diários Associados. Foi na reportagem Energia para o Nordeste, de Theophilo de Andrade (1903 – 1994) (O Cruzeiro, 12 de julho de 1947).

1948 -O Diário da Noite foi um inovador na fotografia, publicando, inicialmente clichês de 6 a 8 colunas, e, posteriormente, alcançando sucesso com as fotos colhidas pela teleobjetiva de Angelo Regato, que a usou pela, primeira vez, no dia 4 de Julho de 1948, no Torneio Início do Campeonato Carioca de Futebol (Diário da Noite, 5 de julho de 1948, página 11 e página 28).

 

 

Antes, os fotógrafos de futebol ficavam alojados atrás do gol, sujeitos a pedradas dos torcedores e impossibilitados de variar a produção de imagens. Regato havia participado da cobertura jornalística de um eclipse solar, em Bocaiuva, no interior de Minas Gerais, em maio de 1947 (O Jornal, 21 de maio de 1947). Ele usava sua Contessa Nettel e observou um colega norte-americano trabalhando com uma teleobjetiva Garflex. Foi quando decidiu adquirir a sua, que comprou, à prestação, na Mesbla (O GLOBO, 1º de março de 1962; Boletim da ABI, de 1975).

1949 – Passou a morar no Méier. Nesta época, o futuro colunista social, Ibrahin Sued (1924 – 1995), era seu ajudante.

1950 – Em 6 de abril de 1950, fez, de um teco-teco, fotos do descarrilamento do Noturno Campista sobre a ponte do Rio Tanguá. Os registros foram publicados no Diário da Noite. Considerava essa uma de suas melhores coberturas jornalísticas.
É de sua autoria a primeira foto do Maracanã lotado, durante um treino da seleção brasileira para a Copa de 1950. Jogou contra o quadro de aspirantes do Vasco da Gama reforçado por profissionais do time (Diário da Noite, 19 de junho de 1950).

 

 

1952 - Tornou-se chefe do Departamento de Fotografia dos Diários Associados, cargo que exerceu até 1975 (O GLOBO, 30 de setembro de 1987).

“Comandava uma equipe de 35 profissionais, que trabalhavam 24 horas por dia. Atendíamos aos jornais da rede e ao departamento de publicidade. Os fotógrafos vibravam quando iam aos concursos de miss”.

1954 – Participou da cobertura da Copa do Mundo de 1954 na Suíça (Jornal do Sports, 10 de março de 1977, penúltima coluna).

1956 – Foi um dos fundadores da Associação de Repórteres Fotográficos do Rio de Janeiro, cuja iniciativa foi apoiada por Herbert Moses (1884 – 1972), presidente a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), onde, até ter sede própria, a associação de fotógrafos funcionou.

1957 - Levou o fotógrafo Evandro Teixeira (1935 – 2024), recém chegado ao Rio de Janeiro até a redação do Diário da Noite. Os dois jornais eram sediados no mesmo edifício da rua Sacadura Cabral, nº 103, na Praça Mauá. Não havia vaga disponível naquele momento, mas, no ano seguinte, Evandro começou a fotografar para o Diário da Noite e a produzir registros para O Jornal. Seus dois primeiros trabalhos no Diário da Noite não deram certo: fotografou, com uma Rolleiflex fornecida pelo jornal, o casamento de uma alemã com um negro, apesar da orientação racista do jornal. Foi demitido pelo diretor do jornal, o mineiro Paulo Vial Correa (1919 – 1975). Angelo Regato deu uma segunda chance a ele: fotografar o desfile de fantasias do Baile do Teatro Municipal, mas Evandro chegou atrasado e Regato teve que providenciar as fotos da revista O Cruzeiro sem o carimbo. Veio então a sua terceira, que seria sua última chance: fazer a cobertura do desfile das escolas de samba na Avenida Rio Branco. Foi um sucesso e Evandro finalmente iniciou sua carreira profissional no Rio de Janeiro, tornando-se um dos maiores fotojornalistas brasileiros de todos os tempos.

 

O Angelo Regato realmente foi uma pessoa maravilhosa, devo muito a ele que logo me apresentou ao diretor de redação”.

Evandro Teixeira em Arfoc

1959 – Participou da cobertura do Campeonato Sul-Americano de Futebol, realizado em Buenos Aires entre 7 de março de 4 de abril de 1959. Participaram da disputa sete seleções: Argentina, campeã do torneio; Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai. O jornalista Armando Nogueira (1927 – 2010), pelo Jornal do Brasil; e o fotógrafo Ângelo Gomes (19? -?), pelo Jornal dos Sports, também participaram da cobertura do evento (Jornal do Brasil, 3 de julho de 1994, segunda coluna).

1968 – Era um dos dirigentes da Associação de Repórteres Fotográficos do Rio de Janeiro. Pelo menos até 1979 integrava a entidade, pela qual foi condecorado com o título de comendador (O GLOBO, 16 de fevereiro de 1968; Jornal do Commercio, 9 de fevereiro de 1979, penúltima colunaJornal do Commercio, 1º de outubro de 1993, penúltima coluna).

 

regato2

Na foto, Regato é o primeiro à direita / O GLOBO, 16 de fevereiro de 1968

 

1970 – Foi noticiado que um retrato de Regato seria inaugurado na sede da Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado do Rio, cujo presidente era Walter Quirino (1? -?) (Jornal do Commercio, 15 de janeiro de 1970, quarta coluna).

Foi homenageado, no Palácio do Comércio, em Niterói, recebendo das mãos de Moacyr Moreira Leite, presidente da Associação Comercial e Industrial do Estado do Rio de Janeiro, um diploma da Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado do Rio, fundada no ano anterior. Regato era um dos fundadores da associação congênere da Guanabara (O Jornal, 22 de março de 1970, primeira coluna).

 

regato11

 

Em 13 de maio de 1970, foi um dos profissionais condecorados com as insígnias do Mérito Jornalístico, da Ordem dos Velhos Jornalistas, em uma solenidade realizada na Associação Brasileira de Imprensa. Os outros  foram Dinah Silveira de Queiroz (1911 – 1982), Carlos de Souza Areas, Fernando Hupsel de Oliveira (19? -?), Alceu de Amoroso Lima (1893 – 1983), Raul Pilla (1892 – 1973), Gomes Maranhão (1907 – 1992), Antônio Herrera Filho (c. 1911 – 1980), Alberto Torres e Archimedes Fortini (18? – 1973). Na ocasião, Regato foi apresentado como o primeiro repórter a usar a teleobjetiva na imprensa brasileira. A Medalha do Mérito Jornalístico foi instituída pela Ordem dos Velhos Jornalistas e reconhecida oficialmente  pelo Decreto n° 52.206, de 28 de junho de 1963 (Jornal do Commercio, 14 de maio de 1970, quarta coluna). Pela conquista da Medalha, foi homenageado por colegas de A Notícia e de O Dia (O Jornal, 22 de maio de 1970, segunda coluna).

Integrava a equipe dos Diários Associados responsável pela cobertura jornalística da Copa Mundial de Futebol do México (O Jornal, 17 de abril de 1970).

Publicação da reportagem A bola é redonda para a família Antunes, de Yata Anderson (1944 – 2026), com fotos de autoria de Regato. Da família, fazia parte os jogadores Edu (1947 -), Nando (19?-), Antunes (19?-) e Zico (1953-). Yata foi o único repórter a entrevistar Pelé em campo no seu último jogo no Maracanã, em 1974, e por isso, ficou conhecido como o Amigo do Rei (O Jornal, 7 de novembro de 1970).

1971 – O Diário da Noite Futebol Clube, clube dos Diários Associados, promoveu, no Social Marabu, no Encantado, um torneio de futebol de salão denominado Angelo Regato, em homenagem ao fotógrafo (O Jornal, 27 de novembro de 1971, primeira coluna).

1975 - Devolveu sua Leika e aposentou-se, em 1º de maio de 1975, encerrando sua carreira no Jornal do Commercio, após 46 anos de trabalho. Era, então, o mais antigo repórter fotográfico em atividade do Rio de Janeiro (Boletim da ABI, março e abril de 1975). Continuou exercendo atividades como profissional independente e visitava ocasionalmente seus amigos nas redação do Jornal do Commercio.

 

 

1982 – Foi um dos fotógrafos contatados pelo Núcleo de Fotografia da Funarte para dar um depoimento acerca de seu trabalho de fotógrafo de copas do mundo. Na época, a Funarte estava promovendo em sua galeria a exposição Fotografias nas Copas do Mundo. Segundo Regato, os fotógrafos ficavam, normalmente, atrás do gol  (O GLOBO, 9 de junho de 1982).

1987 – Foi entrevistado pelo jornal O GLOBO (O GLOBO, 30 de setembro de 1987).

 

regato

regato13

regato14

 

1993 - Faleceu, em 30 de setembro de 1993, em sua residência, na Rua Domingues Freire, no Méier, vítima de um enfarte (Jornal do Commercio, 1º de outubro de 1993, penúltima colunaBoletim da ABI, de setembro/outubro de 1993, segunda coluna).

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Breves perfis e cronologias dos irmãos e fotógrafos Malta: Aristógiton (1904-1954) e Uriel (1910 – 1994)

Hoje a Brasiliana Fotográfica publica breves perfis e as 70ª e 71ª cronologias de fotógrafos presentes no acervo fotográfico do portal. São dos irmãos e fotógrafos Aristógiton e Uriel Malta. As cronologias estão todas reunidas na página inicial da Brasiliana Fotográfica na aba Cronologia de Fotógrafos. Aristógiton e Uriel são filhos de Augusto Malta (1864 – 1957), que foi fotógrafo da Prefeitura do Rio de Janeiro, entre 1903 e 1936. O cargo foi criado para ele, que tornou-se o principal cronista visual da cidade nas primeiras décadas do século XX. Disponibilizamos hoje também uma versão revisada e ampliada do artigo O alagoano Augusto Malta, fotógrafo oficial do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936, e da Cronologia de Augusto Malta, originalmente publicados no portal, em 10 de julho de 2015.

O trabalho de Aristógiton e Uriel ficou durante muitas décadas à sombra da extraordinária obra de seu pai. A publicação, em 27 de janeiro de 2026, do livro digital Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945) , com fotografias produzidas pelos filhos de Augusto Malta pertencentes ao acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, resgatam a importância do trabalho deles, que fotografaram os últimos anos da belle époque carioca assim como seu desaparecimento.

 

Aristógiton Malta (1904-1954)

 

 

Aristógiton nasceu em 25 de agosto de 1904, no Rio de Janeiro, e era filho da primeira esposa de Augusto Malta, Laura Oliveira Campos (1874 – 1905). De temperamento alegre e afável, era um desportista e praticou remo durante muitos anos. Casou-se com Helena de Freitas Moutinho (1906 – 1975), no início da década de 1930. Tiveram sete filhos: Marcus Moitinho Malta (1933 – 1977), Maryse Malta Muller (1935 – ), Mauro Moitinho Malta (1937 – ), Marcelo Moitinho Malta (1940 – 2020), Marcio Moitinho Malta (1946 -), Antonio Carlos Moitinho Malta (1947 – 1950) e Monica Moitinho Malta (1952 -1952).

 

Aristógiton e Helena com Maryse, Marcus,

O casal Aristógiton e Helena com os filhos Maryse, Marcus, Mauro e Marcelo no colo da mãe, 1940 / Acervo pessoal de Maryse Muller

 

Em 1932, foi contratado como fotógrafo assistente da Prefeitura do Rio de Janeiro. Em 25 de agosto de 1936, Augusto Malta aposentou-se da Prefeitura e foi substituído por Aristógiton, a partir de 9 de setembro do mesmo ano. Em 1938, o presidente da República, Getúlio Vargas (1882 – 1954), visitou a “Feira de Amostras”,  uma exposição de diversas secretarias da Prefeitura do Rio de Janeiro. Um dos stands de maior sucesso foi o da Secretaria de Viação, Trabalho e Obras Públicas, que expôs fotos de Augusto e Aristógiton. Em 1953, foi noticiado que uma foto de sua autoria do Estádio do Maracanã estava nas paredes de todas as repartições da Prefeitura, no hall do Banco da Prefeitura, e também em hotéis em países da Europa, da América do Sul e dos Estados Unidos. Faleceu em 15 de agosto de 1954.

 

Aristogiton Malta (1896-1954) / Site Family Search

Aristógiton Malta, s/d / Site Family Search

 

Acesse aqui a Cronologia de Aristógiton Malta (1904 – 1954)

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Aristógiton Malta disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Uriel Malta (1910 – 1994)

 

 

Uriel Malta nasceu, em 28 de setembro de 1910, no Rio de Janeiro, filho da segunda esposa de Augusto, Celina Augusta Verscheuren (1884 – 1969). Passou a trabalhar com o irmão, Aristógiton, no Serviço de Fotografia da Prefeitura, em 1937. Casou-se com Hilda de Abreu Malta (1908 – 1976), em 1944. Tiveram pelo menos três filhos: Claudius Vinicius de Abreu Malta (1945-2010), Lelia Sandra de Abreu Malta (19? – ?) e Lelia Egle de Abreu Malta (19? – ?). Foi fotógrafo da Prefeitura até fins da década de 1960 e, em 1970, teve assinada a apostila fixando os proventos anuais de inatividade. Uriel faleceu, em Magé, em 5 de agosto de 1994.

 

Acesse aqui a Cronologia de Uriel Malta (1910- 1994)

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Uriel Malta disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Augusto Malta (1864 – 1957)

 

 

Acesse aqui a publicação O alagoano Augusto Malta, fotógrafo oficial do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936 e a Cronologia de Augusto Malta (1864 – 1957), revisadas e ampliadas.

 

Agradeço à colaboração generosa da filha de Aristógiton Malta, Maryse Muller, e de uma de suas netas, Christiana Malta, que me deram um depoimento fundamental para a elaboração deste artigo, em 20 de março de 2026.

 

Christiana Malta e Maryse Muller, neta e filha de Aristógiton Malta

Christiana Malta e Maryse Muller, neta e filha de Aristógiton Malta, respectivamente, comigo, Andrea Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, 20 de março de 2026. Rio de Janeiro

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Achados e Perdidos (livro eletrônico): Imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945)/Eliseu Santiago de Souza…(Et.Al.) — 1ª edição. Rio de Janeiro: Aprazível Edições e Arte e UQ Editions, 2025 PDF. Outros autores: Pedro Marreca, Rafael Martins, Leonel Kaz.

Blogspot Domingos Moitinho

DUNLOP, Charles Julius. Rio Antigo, volume II. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo, 1956.

ERMAKOFF, George. Augusto Malta e o Rio de Janeiro: 1903-1936 / George Ermakoff; tradução para o inglês Carlos Luís Brown Scavarda. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2009. 288p. : il.; 28cm

FROSSARD, Heloisa (org.) Augusto Malta – Catálogo da série Negativo em vidro Aristógiton Malta. Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro – Coleção Biblioteca Carioca, 1994.

HEEREN, Alice. Affective Rhetorics of Contagion – Augusto Malta in Belle Époque Rio de Janeiro, 2020.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Nosso Século. São Paulo; Abril Cultural, 1980. vol. 1 (1900-1910)

Portal Augusto Malta do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

Site A Casa Senhorial

WANDERLEY, Andrea C. T. “Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945)”, do acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Destaque para a identificação da casa de Tia Ciata in Brasiliana Fotográfica, 10 de fevereiro de 2026

Cronologia de Uriel Malta (1910 – 1994)

Cronologia de Uriel Malta (1910 – 1994)

 

Uriel Malta / Site Family Search

Uriel Malta / Site Family Search

 

1910 – Uriel Malta nasceu, em 28 de setembro de 1910, no Rio de Janeiro, filho do importante fotógrafo alagoano Augusto Malta (1864 – 1957) e da belga Celina Augusta Verscheuren (16/03/1884 – 1969) (Registro Civil do Rio de Janeiro, Site Family Search; O Jornal, 28 de setembro de 1926, segunda coluna). Augusto Malta foi fotógrafo da Prefeitura do Rio de Janeiro de 1903 até 1936 – o cargo foi criado para ele.

Augusto Malta, que havia ficado viúvo, em 1905, com o falecimento de Laura Oliveira Campos (1874 – 1905), passou a viver maritalmente com Celina, mãe de Uriel, em torno de 1906. Ela trabalhava desde os 15 anos como babá dos filhos de Malta e Laura. Com Celina, Malta teve, além de Uriel, quatro filhas: Dirce (1907 – 10/1971), Eglé (20/09/1909 – 11/1941) e Amalthea (12/12/1912 – 12/03/2007). Celina era de origem belga e ela e sua irmã ficaram órfãs de pai e mãe, ainda menores. Foram internadas em um pensionato na Glória. Com 15 anos, como já mencionado, Celina foi trabalhar na casa da família Malta. Sua irmã tornou-se professora.

 

Uriel e sua irmã, Amalthea, s/d. / Acervo  Jean Jacques Malta CArlini

Uriel e sua irmã, Amalthea, s/d. / Acervo Jean Jacques Malta Carlini

Os irmãos de Uriel do primeiro casamento de seu pai eram Luthgardes (05/01/1896 – 05/02/1928), Arethusa (1898-31/03/1913), Callisthene (26/07/1900 – 20/02/1919), Aristocléa (21/06/1903 – 03/1934), e Aristógiton (25/08/1904 – 15/08/1954).
1920 – Com nove anos, Uriel sofreu um acidente em casa e teve duas fraturas (Gazeta de Notícias, 19 de junho de 1920, sexta coluna).

1921 – Foi batizado em 13 de março de 1921 e seus padrinhos foram João Augusto de Godoy e Adélia Godoy de Almeida (Site Family Search).

 

urielmalta4

Certidão de Batismo de Uriel Malta / Site Family Search

 

1926 - O aniversário do menino Uriel Malta foi noticiado (O Jornal, 28 de setembro de 1926, segunda coluna).

1931 - Viajou para São Paulo no vapor Raul Soares, vindo do Rio de Janeiro (Tribuna (SP), 4 de agosto de 1931, última coluna).

1935 - Foi noticiado que ele estava envolvido em um caso policial sobre o sequestro de meninos para trabalho em um garimpo ilegal no Mato Grosso. O crime foi denunciado pelos pais de um dos menores encontrados na casa do inglês Harold Bold, suposto chefe da quadrilha. Uriel foi inicialmente identificado como um dos menores, mas na verdade já tinha 24 anos. Ele seria o cinegrafista do grupo. Foi preso, interrogado e solto (Gazeta de Notícias4 de julho de 1935, terceira coluna6 de julho de 1935, última coluna11 de julho de 1935, quarta colunaJornal do Brasil3 de julho de 1935, quinta colunaO Jornal, 4 de julho de 1935, terceira colunaDiário Carioca, 3 de julho de 1935Diário de Notícias, 4 de julho de 1935, quarta coluna).

 

 

Uriel foi à redação do jornal A Manhã e fez uma declaração sobre o caso, desmentindo a notícia. Bold declarou que ele chefiaria uma expedição aventureira pelo Mato Grosso, onde elaboraria um filme e  se lançaria à aventura dos garimpos (A Manhã, 4 de julho de 1935, primeira coluna).

 

 

1937 – Passou a trabalhar com o irmão, Aristógiton, no Serviço de Fotografia da Prefeitura (Jornal do Brasil, 12 de março de 1937, primeira coluna). Entre este ano e a década de 1950, os irmãos fotografaram exaustivamente as reformas urbanas realizadas no Rio de Janeiro.

1941 – Foi chamado para preencher uma proposta na Caixa Reguladora de Empréstimos da Prefeitura (Correio da Manhã, 19 de abril de 1941, primeira coluna).

1944 – Casou-se com a carioca Hilda de Abreu Malta (1908 – 1976), em 15 de abril. Tiveram pelo menos três filhos: Claudius Vinicius de Abreu Malta (1945-2010), Lelia Sandra de Abreu Malta (19? – ?) e Lelia Egle de Abreu Malta (19? – ?) (Registro Civil do Rio de Janeiro, Site Family Search; O Fluminense, 13 de agosto de 1960, segunda colunaO Fluminense, 17 de agosto de 1960, segunda coluna).

 

Certidão de Casamento Civil / Site Family Search

Certidão de Casamento Civil / Site Family Search

 

1945 – A Prefeitura concedeu a Uriel salário-família (Diário de Notícias, 20 de março de 1945, segunda coluna).

A Prefeitura fixou os proventos de Uriel (Diário de Notícias, 8 de junho de 1945, terceira coluna).

Em um anúncio, Uriel seria a pessoa a ser procurada para receber ofertas em relação à venda de lotes em Jacarepaguá e também em Paquetá (Correio da Manhã, 15 de setembro de 1945, sexta coluna; 16 de setembro de 1945, terceira coluna).

1950 – Foi concedido pela Prefeitura salário-família para Uriel (Correio da Manhã, 19 de julho de 1950, sexta coluna).

Na década de 1950, seu pai, Augusto, recebia muitas visitas de compradores de suas fotografias e um dos mais constantes era o colunista Arthur Faveret (? – 1968), que fazia diversas encomendas de vistas da cidade. Como laboratorista, Uriel ajudava o pai, produzindo as cópias solicitadas.

1953 - Foi designado pelo prefeito, Dulcídio do Espírito Santo Cardoso (1896 – 1978), para a Secretaria de Viação e Obras, cujo secretário-geral o designou para o Departamento de Propaganda Urbanística (Correio da Manhã, 3 de fevereiro de 1953, terceira coluna; Diário de Notícias, 11 de fevereiro de 1953, segunda coluna).

1955 – Foi designado para a Secretaria de Administração da Prefeitura (Diário de Notícias, 31 de março de 1955, segunda coluna).

1957 – A Prefeitura concedeu a Uriel nove meses de licença (Jornal do Brasil, 28 de junho de 1957, última coluna).

A Prefeitura aumentou o salário de Uriel em 20% (Jornal do Commercio, 6 de setembro de 1957, quinta coluna).

1959 - A filha de Uriel e Hilda, Lélia Eglé, participou do baile de debutantes do Clube Central (O Fluminense, 19 de agosto de 1959, segunda coluna).

A Prefeitura requisitou seu comparecimento urgente (Diário de Notícias, 28 de novembro de 1959, quarta coluna).

Seu pagamento de montepio foi deferido (Diário de Notícias, 17 de dezembro de 1959, quarta coluna).

1964 - Foi designado para a Secretaria de Turismo da Prefeitura (O Jornal, 14 de novembro de 1964, quarta coluna).

Foi colocado à disposição da Assembleia Legislativa (Diário de Notícias, 21 de maio de 1964, quarta coluna).

1965 – Foi designado para a Secretaria de Obras Públicas da Prefeitura (Diário de Notícias, 27 de fevereiro de 1965, primeira coluna).

1968 - Por ter completado o tempo de serviço exigido pela lei, ganhou uma licença-prêmio de nove meses. Foi promovido (Diário de Notícias, 3 de abril de 1968, terceira colunaDiário de Notícias, 20 de outubro de 1968, primeira coluna). 

1969 – A Prefeitura concedeu a Uriel um aumento trienal (Diário de Notícias, 31 de janeiro de 1969, terceira coluna).

1970 – Teve assinada a apostila fixando os proventos anuais de inatividade (Diário de Notícias, 7 de abril de 1970, última coluna).

1976 - Falecimento de sua esposa, Hilda de Abreu Malta.

 

O GLOBO, 5 de agosto de 1976

O GLOBO, 5 de agosto de 1976

 

1994 – Uriel faleceu, em Magé, em 5 de agosto de 1994 (Registro Civil do Rio de Janeiro, Site Family Search)

2026 – Em 27 de janeiro, sob a presidência do internacionalista e doutor em Ciência Política, Eliseu Santiago, em parceria com a Aprazível Edições, do jornalista, editor de livros, curador de museus e exposições, Leonel Kaz, o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro lançou o livro digital Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945)que revela um valioso e inédito acervo iconográfico da cidade do Rio no período do Estado Novo, sob a presidência de Getúlio Vargas (1882 – 1954). São fotografias inéditas produzidas por Aristógiton e Uriel. As imagens do livro resgatam a importância do trabalho dos filhos de Augusto Malta, que fotografaram os últimos anos da belle époque carioca assim como seu desaparecimento.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Cronologia de Aristógiton Malta (1904 – 1954)

 

Cronologia de Aristógiton Malta (1904 – 1954)

 

Aristógiton em uma foto com dedicatória para sua filha Maryse, s/d / Acervo pessoal de Maryse Muller

Aristógiton em uma foto com dedicatória para sua filha Maryse, s/d. Rio de Janeiro, RJ / Acervo pessoal de Maryse Muller

 

1904 - Nascimento, em 25 de agosto, de Aristógiton Malta, filho do fotógrafo Augusto Malta (1864 -1957) e de Laura Oliveira Campos (1874 – 1905). Na ocasião, Augusto já era fotógrafo da Prefeitura do Rio de Janeiro, cargo criado para ele, em 1903, e que ocupou até 1936 (O Imparcial, 25 de agosto de 1925, terceira coluna).

1905 - Em fins de junho, falecimento de sua mãe, Laura Oliveira Campos (Jornal do Brasil, 3 de julho de 1905, segunda coluna). Aristógiton passou a morar com uma irmã de sua mãe, a Tia Glória (ERMAKOFF, 2009). Segundo depoimento de sua filha, Maryse, Tia Glória era avó do cantor Dick Farney (1921 – 1987) e do ator Cyl Farney (1925 – 2003), e Aristógiton só foi  morar com ela anos após a morte de Laura.

1906 – O nome dele e de suas irmãs, filhas de Augusto e Laura – Luthgardes (05/01/1896 – 05/02/1928), Arethusa (1898 – 31/03/1913), Callisthene (26/07/1900 – 20/02/1919) e Aristocléa (21/06/1903 – 03/1934), afilhada do prefeito Pereira Passos; constavam na subscrição em favor das famílias atingidas pela tragédia de Jacuecanga –  o naufrágio do encouraçado Aquidabã da Marinha do Brasil na enseada de Jacuecanga, em Angra dos Reis, no Rio de Janeiro (Tico-Tico, 14 de março de 1906, segunda coluna). Suas irmãs aqui citadas morreram todas de tuberculose.

 

Augusto Malta. Calisthene, Aristógiton e Aristocléa no ateliê de Malta, 3 de setembro de 1906. Rio de Janeiro, RJ / Acervo Mauro Malta

Augusto Malta. Calisthene, Aristógiton e Aristocléa no ateliê de Malta, 3 de setembro de 1906. Rio de Janeiro, RJ / Acervo Mauro Malta

 

Em torno deste ano, Augusto Malta passou a viver maritalmente com Celina Augusta Verscheuren (16/03/1884 – 1969), que trabalhava desde os 15 anos como babá dos filhos de Malta e Laura. Com Celina, Malta teve mais quatro filhos: Dirce (1907 – 10/1971), Eglé (20/09/1909 – 11/1941), o futuro fotógrafo Uriel (28/09/1910 – 05/08/1994) e Amalthea (12/12/1912 – 12/03/2007).

1913 – Aristógiton foi fotografado por seu pai com suas irmãs Aristocléa, Calisthene e Dirce; e com duas moças ainda não identificadas.

 

aristógiton

Augusto Malta. Da esquerda para a direita: Aristocléa, Calisthene e Dirce; e duas moças ainda não identificadas. Atrás, Aristógiton com os braços abertos, 1913. Rio de Janeiro, RJ / Acervo Mauro Malta

 

1914 – Aristógiton recebeu um brinde oferecido pela revista O Tico-Tico e pelo Bazar Hollandez. Residia na Rua Câmara, nº 260 (O Tico-Tico, 28 de setembro de 1914, primeira coluna).

1916 – Participava de concursos promovidos pela revista O Tico-Tico (O Tico-Tico, 15 de março de 1916, primeira coluna).

Estudava na Escola Profissional Souza Aguiar (Jornal do Commercio, 26 e 27 de dezembro de 1916, penúltima coluna).

1917 - Participou da regata promovida pelo Clube de Regatas do Flamengo sob os auspícios da Federação Brasileira das Sociedades do Remo (Jornal do Commercio,- Edição da Tarde8 de outubro de 1917, terceira coluna).

1918 - Remou no festival aquático na enseada de Gragoatá e ficou em primeiro lugar em uma das competições na categoria estreantes. Participou de outras competições de remo (Jornal do Commercio,- Edição da Tarde,  26 de fevereiro de 1918, primeira coluna17 de junho de 1918, última coluna12 de agosto de 1918, terceira coluna20 de dezembro de 1918, última coluna).

Participou de um concurso da revista O Tico-Tico (O Tico-Tico, 10 de abril de 1918, segunda coluna).

No dia da inauguração da Escola de Artes e Ofícios Venceslau Brás, que contou com a presença do presidente da República, Venceslau Brás (1868 – 1966), estava, como aluno da Escola Profissional Souza Aguiar, trabalhando em uma das oficinas (Jornal do Brasil, 10 de novembro de 1918, quinta coluna).

1919 –  Participou de outras competições de remo (Jornal do Commercio,- Edição da Tarde30 de junho de 1919, terceira coluna; O Paiz, 1º de julho de 1919, terceira coluna; 29 de outubro de 1919, quarta coluna).

1920 – Na categoria de patrão, foi pesado na Federação Brasileira das Sociedades do Remo (Gazeta de Notícias, 16 de junho de 1920, penúltima coluna).

1922 – Participou da temporada de remo (Jornal do Commercio, 18 de junho de 1922, primeira coluna).

1923 – Participou da temporada de remo (Jornal do Commercio, 21 de outubro de 1923, segunda coluna).

Foi fotografado pelo pai no aniversário de 39 anos de sua madrasta, Celina.

 

Augusto Malta. Aniversário de 39 anos de Celina. Em pé, da esquerda para a direita: duas pessoas ainda não identificadas, Celina, Aristocléa e o Tio Teófilo, irmão de Malta. Sentaos: Aristógiton e moças ainda não identificadas. O quadro na parede da direita é um retrato de Laura. Na parede atrás do grupo, no centro o quadro é um retrato de Calisthene, entre retratos de Celina e Malta, 1923. Rio de Janeiro, RJ / Acervo Mauro Malta

Augusto Malta. Aniversário de 39 anos de Celina. Em pé, da esquerda para a direita: duas pessoas ainda não identificadas, Celina, Aristocléa e o Tio Teófilo, irmão de Malta. Sentados: Aristógiton e moças ainda não identificadas. O quadro na parede da direita é um retrato de Laura. Na parede atrás do grupo, no centro o quadro é um retrato de Calisthene, entre retratos de Celina e Malta, 1923. Rio de Janeiro, RJ / Acervo Mauro Malta

 

1925 – Quando Augusto Malta prestava um serviço para a Sul América, uma explosão ocasionada pelo flash de sua máquina fotográfica dilacerou um de seus dedos. Foi operado e ficou internado no Hospital da Ordem Terceira da Penitência. Aristógiton começou a auxiliá-lo na Prefeitura (O Imparcial, 25 de agosto de 1925, terceira coluna).

Segundo o artigo de Regina da Luz Moreira, Augusto Malta, dono da memória fotográfica do Rio, publicado no Portal Augusto Malta do Acervo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, em termos técnicos, Augusto Malta manteve-se sempre fiel ao seu equipamento, só admitindo mudanças a partir do momento em que o filho Aristógiton passou a trabalhar com ele. Foram então introduzidas câmaras americanas e alemãs, as mais modernas então existentes.

Participou de competições de remo (Gazeta de Notícias, 14 de junho de 1925, terceira coluna; 16 de agosto, quinta coluna; 18 de outubro, terceira coluna),

1926 - Foi um dos remadores amadores que pediu registro na Federação Brasileira das Sociedades do Remo. Fazia parte do Grupo de Regatas Gragoatá (Rio Sportivo, 27 de junho de 1926, penúltima coluna).

Participou de competições de remo (Jornal do Commercio, 15 de agosto de 1926, segunda coluna).

1927 - Participou de competições de remo (Jornal do Brasil, 26 de junho de 1927, última coluna).

1928 – Participou da competição de amadores do remo entre o Clube Icaraí e Gragoatá (O Jornal, 28 de outubro de 1928, penúltima coluna).

1929 – Participou da regata nacional realizada na Lagoa Rodrigo de Freitas e da regata de abertura da temporada náutica carioca da Federação Brasileira das Sociedades do Remo, promovida pelo Clube de Regatas Guanabara (O Jornal, 25 de maio de 1929, sexta coluna; A Manhã, 29 de junho de 1929, de 1929, primeira coluna).

1930 –Fazia parte da comissão de buffet do baile do Grupo de Regatas Gragoatá (Correio da Manhã, 27 de março de 1930, sétima coluna)

Participou de competições de remo (Correio da Manhã, 13 de maio de 1930, sétima coluna).

1931 – Participou de competições de remo (Correio da Manhã, 16 de agosto de 1931, primeira coluna).

1932 – Foi eleito diretor de remo do Grupo de Regatas Gragoatá (Correio da Manhã, 22 de janeiro de 1932, segunda coluna).

Aristógiton foi nomeado auxiliar de fotografia da Diretoria de Engenharia da Prefeitura. Seu pai e João Montenegro Cordeiro foram nomeados fotógrafos (Jornal do Brasil, 3 de março de 1932, segunda coluna; Correio da Manhã, 3 de março de 1932, quinta coluna).

Foi noticiado o noivado de Aristógiton com Helena de Freitas Moitinho (1906 – 1975), filha de Domingos Moitinho (1871 – 19?) e Sarah de Freitas das Neves (1881 – 1948) (Revista da Semana, 3 de setembro de 1932, primeira coluna).

Domingos havia sido um dos fundadores do Fluminense, em 21 de julho de 1902, na casa de Horácio da Costa Santos (1880 -19?), na Rua Marquês de Abrantes, número 51. A sessão de fundação foi presidida por Manoel Rios (18? -19?) e secretariada por Oscar Cox (1880 – 1931) e Américo da Silva Couto (18? -19?). Ele foi eleito tesoureiro da primeira diretoria do clube (Fon-Fon, 23 de agosto de 1952). Já havia sido um dos fundadores, em 5 de fevereiro de 1895, do Grupo de Regatas Gragoatá (Semana Sportiva, 3 de fevereiro de 1903, penúltima coluna; O Imparcial, 19 de junho de 1921, quarta coluna).

1933 - Foram publicadas fotos do casamento de Aristógiton e Helena (A Scena Muda, 28 de março de 1933).

 

 

 

A família de Laura era muito rica e foi contra o casamento. O avô de Laura, também chamado Domingos Moitinho (c. 1825 – 1895) era português, migrou para o Brasil, onde fez fortuna, e tornou-se comendador. Era o diretor da Estrada de Ferro de Teresópolis e estava presente no dia da fundação da cidade e foi também proprietário da Estrada de Ferro de Bananal, que adquiriu em 1891. A estação ferroviária de Bananal, com dois pavimentos, toda importada da Bélgica e montada aqui, cujas chapas, até no telhado, são metálicas, e o assoalhos são de pinho de Riga, foi uma doação do comendador. Em 1893, adquiriu de Domiciana Maria de Almeida (18? -?), viúva de Manoel de Aguiar Valim (18? – 1878), a Fazenda Resgate, em Bananal, desde 1969 tombada pelo IPHAN, além de outros bens, que posteriormente hipotecou. Foi proprietário de diversas empresas (Gazeta de Notícias, 28 de julho de 1895, sexta coluna).

 

 

Aristógiton e Laura tiveram sete filhos: Marcus Moitinho Malta (1933 – 1977), Maryse Malta Muller (1935 – ), Mauro Moitinho Malta (1937 – ), Marcelo Moitinho Malta (1940 – 2020), Marcio Moitinho Malta (1946 -), Antonio Carlos Moitinho Malta (1947 – 1950) e Monica Moitinho Malta (1952 -1952) (Site Family Search; A Noite, 31 de março de 1950, penúltima coluna6 de fevereiro de 1953, segunda coluna24 de março de 1955, segunda coluna),

 

Helena, mulher de Aristógiton, com Marcus e Maryse, os primeiros filhos do casal, c. 1935. Rio de Janeiro, RJ / Acervo pessoal de Maryse Muller

Helena, mulher de Aristógiton, com Marcus e Maryse, os primeiros filhos do casal, c. 1935. Rio de Janeiro, RJ / Acervo pessoal de Maryse Muller

 

Aristógiton seguia como auxiliar de fotografia da Diretoria de Engenharia Geral da Prefeitura do Rio de Janeiro, enquanto seu pai e João Montenegro Cordeiro eram fotógrafos (Jornal do Brasil, 9 de novembro de 1933, terceira coluna).

Era um dos sócios da firma Barros, Malta e Cia de comércio de materiais para construção, na Rua do Rosário, 52. Os outros sócios eram José de Barros e Agostinho Rodrigues Torres (Correio da Manhã, 22 de junho de 1933, última coluna).

1936 – Em 25 de agosto, Augusto Malta aposentou-se da Prefeitura e foi substituído por Aristógiton, a partir de 9 de setembro do mesmo ano.

1937 – Seu irmão, Uriel, passou a trabalhar com ele. Entre este ano e a década de 1950, os irmãos fotografaram exaustivamente as reformas urbanas realizadas no Rio de Janeiro.

1938 – O prefeito, Henrique Dodsworth (1895 – 1975), fixou os rendimentos de Aristógiton, que era o chefe do Gabinete Fotográfico da Prefeitura do Distrito Federal (Jornal do Brasil, 15 de março de 1938, segunda coluna; Diário de Notícias, 25 de agosto de 1938, primeira coluna).

 

Aristógiton com sua filha Maryse, c. 1938. Rio de Janeiro, RJ / Acervo pessoal de Maryse Muller

Aristógiton com sua filha Maryse, c. 1938. Rio de Janeiro, RJ / Acervo pessoal de Maryse Muller

 

O presidente da República, Getúlio Vargas (1882 – 1954), visitou a “Feira de Amostras”,  uma exposição de diversas secretarias da Prefeitura do Rio de Janeiro. Um dos stands de maior sucesso foi o da Secretaria de Viação, Trabalho e Obras Públicas, que expôs fotos de autoria de Augusto Malta e de seu filho, Aristógiton (A Noite, 31 de outubro de 1938, sob o título “A evolução do Rio através da fotografia”).

 

 

1939 – Visitou com Edson Passos, secretário-geral da Viação, do Trabalho e Obras Públicas do Rio de Janeiro, em Ribeirão das Lajes, a convite da firma Dahne & Conceição que estava realizando as obras de melhoramentos de abastecimento de água na cidade, a fábrica de tubos da empresa, seguido de um almoço no Monumento Rodoviário (Gazeta de Notícias, 27 de junho de 1939, penúltima coluna).

1940 – Foi noticiado o aniversário do filho de Aristógiton, Marcus, cuja festa se realizaria na casa dos pais, em Ipanema (A Batalha, 9 de janeiro de 1940, primeira coluna).

Aderiu ao almoço em homenagem a Jorge Dodsworth (1884 – 1974), secretário-geral de Administração, que ser realizaria, em 26 de setembro , no Clube Ginástico Português (O GLOBO, 25 de setembro de 1940, coluna).

Era candidato a integrar a União Beneficente dos Chauffeurs do Rio (Diário de Notícias, 31 de outubro de 1940, terceira coluna).

Foi de sua autoria uma fotomontagem publicada na revista Vamos Ler!, de 28 de novembro de 1940.

 

 

1941 - Foi designado pelo prefeito, Henrique Dodsworth, como o fotógrafo da Comissão Técnica Especial da Avenida Presidente Vargas e Esplanada do Castelo (Diário de Notícias, 6 de fevereiro de 1941, terceira coluna; Correio da Manhã, 6 de fevereiro de 1941, quinta coluna).

 

 

Foi um dos nomeados pelo presidente da República, Getúlio Vargas, delegado do Brasil no II Congresso Interamericano de Municípios, que se realizaria, em Santiago do Chile, entre 15 e 22 de setembro de 1946 (Correio da Manhã, 26 de agosto de 1941, segunda coluna).

1947 – Foi convocado a comparecer ao cartório da Comarca de Duque de Caxias para pagar prestações vencidas para a Companhia Frigoríficos Reunidos do Brasil (Diário de Notícias, 5 de agosto de 1947, penúltima coluna).

1948 – O secretário-geral de Finanças da Prefeitura do Rio de Janeiro o designou para a Superintendência do Financiamento Urbanístico (Diário de Notícias, 1º de junho de 1948, quinta coluna).

1949 – Publicação da reportagem Rui na intimidade, com texto de Raymundo Athayde (1905 – 19?) e fotos de Augusto Malta e Aristógiton Malta (O Cruzeiro, 12 de novembro de 1949).

 

 

1950 - Faleceu seu filho, Antônio Carlos (A Noite, 31 de março de 1950, penúltima coluna).

1951 - Foi concedido a ele, pela Prefeitura, salário-família (Correio da Manhã, 19 de julho de 1950, sexta coluna).

Foi removido para o Departamento de Patrimônio da Secretaria de Finanças da Prefeitura (Correio da Manhã, 9 de outubro de 1950, quarta coluna).

1953 – Em sua residência, na Rua Redentor nº 330, em Ipanema, quase aconteceu uma tragédia. Seu filho, Marcelo, de 12 anos, brincando com um revólver, atirou em seu irmão, Mauro, de 15 anos. Felizmente, a bala atingiu a vítima de raspão (Gazeta de Notícias, 6 de fevereiro de 91953, primeira coluna).

Nas eleições para a escolha da nova diretoria da Associação de Repórteres Fotográficos, quando Mozart Alves da Silva foi eleito presidente, empatou com com Raul Machado para o cargo de segundo presidente. Novas eleições seriam realizadas (A Manhã, 16 de abril de 1953, primeira coluna).

Foi noticiado que uma foto de sua autoria do Estádio do Maracanã, produzida em 1950, estava nas paredes de todas as repartições da Prefeitura, no hall do Banco da Prefeitura, e também em hotéis em países da Europa, da América do Sul e nos Estados Unidos (A Noite, 18 de maio de 1953, primeira coluna).

1954 - Foi noticiado que Augusto Malta, que completaria 90 anos, em 14 de maio, havia deixado um arquivo com cerca de 100 mil fotos do Rio de Janeiro aos cuidados de Aristógiton (O Jornal, 13 de maio de 1954, penúltima coluna).

Aristógiton Malta faleceu, em 15 de agosto de 1954, no Rio de Janeiro. Na ocasião estava lotado na Sala de Imprensa do prefeito. Foi enterrado no Cemitério da Ordem Terceira do Carmo (A Noite, 16 de agosto de 1954, terceira colunaDiário de Notícias, 17 de agosto de 1954, sexta coluna). Abaixo, seu Atestado de Óbito (Site Family Search).

 

aristogiton9aristogiton10

 

 

 

Em nota do O GLOBO, foi noticiado que ele havia produzido durante o Campeonato Mundial de Futebol de 1950 a maior e mais difundida fotografia do Estádio do Maracanã.

 

O GLOBO, de 1954

O GLOBO, 16 de agosto de 1954

 

 

Sua missa de 7º Dia foi celebrada na Igreja do Carmo, na Rua 1º de março, em 23 de agosto de 1954 (A Noite, 20 de agosto de 1954, primeira coluna).

 

 

Acompanhada de suas filha, a viúva de Aristógiton, Helena de Freitas Moutinho, esteve no gabinete do prefeito, Dulcídio do Espírito Santo Cardoso (1896 – 1978), para agradecer as atenções dispensadas e também às providências para proteger seus filhos menores (Diário de Notícias, 27 de agosto de 1954, primeira coluna).

Meses depois, em 30 de dezembro, foi efetuado o pagamento de encerramento da folha de pagamento de Aristógiton na Prefeitura (Diário de Notícias, 30 de dezembro de 1954, primeira coluna).

1955 – Foi noticiado o casamento de sua filha, Maryse, com Paulo Muller, engenheiro da Prefeitura (A Noite, 24 de março de 1955, segunda coluna).

1975 – Em 4 de março, falecimento de sua viúva, Laura Freitas Moutinho Malta (Registro Civil – Family Search).

 

aristogiton18

 

1989 - Na seção “O Leitor escreve”, publicação de um texto de Oromar Terra, que havia trabalhado no Palácio da Guanabara, na década de 1950. Em 1953, foi trabalhar na Sala de Imprensa do Palácio da Prefeitura como representante do jornal Última Hora e conheceu diversos fotógrafos, dentre eles Aristógiton Malta, de quem se tornou amigo. Segundo Oromar, Aristógiton nasceu, viveu e morreu em silêncio, fotografando as migalhas que o pai lhe deixara (O Fluminense, 1º de setembro de 1989, primeira coluna).

2004 – Publicação da matéria O Rio que ninguém viu, de autoria de Marcia Cezimbra, sobre a descoberta feita por bisnetas de Augusto Malta e netas de Aristógiton, Lucca e Gabriela, de fotografias produzidas por eles (O GLOBO, 29 de novembro de 2004).

 

aristogiton5

aristogiton6

aristogiton7

O GLOBO, 29 de novembro de 2004

 

2026 – Em 27 de janeiro, sob a presidência do internacionalista e doutor em Ciência Política, Eliseu Santiago, em parceria com a Aprazível Edições, do jornalista, editor de livros, curador de museus e exposições, Leonel Kaz, o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro lançou o livro digital Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945)que revela um valioso e inédito acervo iconográfico da cidade do Rio no período do Estado Novo, sob a presidência de Getúlio Vargas (1882 – 1954). São fotografias inéditas produzidas por Aristógiton e Uriel. As imagens do livro resgatam a importância do trabalho dos filhos de Augusto Malta, que fotografaram os últimos anos da belle époque carioca assim como seu desaparecimento.

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Cronologia de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963)

Cronologia de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963)

 

 

1890 – Em 2 de setembro, nascimento, no Presídio de Fernando de Noronha, em Pernambuco, de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho, filho de Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836- 1902) e Francisca Cavalcanti de Souza Leão Coelho (c. 1859 – 1929). Na ocasião, seu pai era diretor do presídio (Diário de Pernambuco8 de junho de 1890, primeira coluna13 de julho de 1890, última coluna).

 

Certidão de nascimento de Horacio de Gusmão / Family Search

Certidão de nascimento de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho / Site Family Search

 

Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836 – 1902), pai de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho  / Site Family Search

 

 

Era neto de Joaquim José Coelho (1797 – 1860) e de Maria Bernardina de Gusmão (1783 – 1885), barão e baronesa da Vitória.

 

 

 

1902 – Falecimento de seu pai, Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836 – 1902) (A Província (PE), 15 de maio de 1902, quarta coluna).

No Colégio Porto Carrero, no Recife, foi aprovado com distinção na segunda série da aula infantil (A Província (PE), 11 de dezembro de 1902, terceira coluna).

1905 / 1906 Estudava no Colégio Diocesano São José, no Rio de Janeiro (A União, 17 de agosto de 1905, segunda colunaJornal do Brasil, 25 de dezembro de 1905, quinta colunaCorreio da Manhã, 15 de abril de 1906, terceira coluna).

1911 - Foi nomeado pelo governador do Amazonas, Antonio Clemente Ribeiro Bittencourt (1853 – 1926), com a permissão do ministro da Guerra, Dantas Barreto (1850 – 1931), auxiliar e fotógrafo da Comissão Amazonense de Limites (Jornal do Commercio (AM), 10 de julho de 1911, primeira coluna).

Chegou no Recife, vindo de Manaus, a bordo do vapor Ceará (A Província (PE), 11 de outubro de 1911, última coluna).

 

 

1913 – Casou-se com Maria Emilia Coelho (1894 – 1948) e tiveram seis filhos: Pojucan (19 -?), Rômulo (1918 – 1971), Rêmulo (1921 – 1985), Maria Clementina (1928- 2016), Murilo (1929 – 1970) e Alberto (19? – ?).(Diário de Pernambuco, 26 de fevereiro, de 1913, quarta coluna).

1915 - Era guarda do corpo administrativo da Escola de Estado Maior, na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro (Almanak Laemmert, 1915, última coluna).

1918 – Por ordem do ministro da Guerra, José Caetano de Faria (1855 – 1936), o inspetor de alunos Horacio de Gusmão Coelho passou a servir no 1º Distrito de Artilharia de Costa (Jornal do Commercio, 12 de janeiro de 1918, terceira coluna).

1920 - Devido à iminente reabertura da Escola de Estado Maior, na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, o ministro da Guerra, João Pandiá Calógeras (1870 – 1934) pediu que se apresentassem alguns funcionários adidos de instituições subordinadas ao ministério da Guerra, dentre eles Horacio (O Paiz, 13 de fevereiro de 1920, sexta coluna).

Horacio foi identificado como empregado da Light. Teria arrendado o teatro Politheama e sido passado para trás no negócio* (O Paiz, 3 de outubro de 1920, quarta colunaO Jornal, 3 de outubro de 1930, terceira coluna).

1921 – Foi nomeado pelo ministro da Guerra, Pandiá Calógeras, conservador preparador do gabinete fotográfico da Escola de Estado Maior (O Paiz, 10 de setembro de 1921, quinta colunaGazeta de Notícias, 10 de setembro de 1921, quarta coluna).

1923 – Identificado como empregado público, pediu ao Ministério da Agricultura privilégio para uma nova armação giratória destinada a diversões públicas. A patente foi concedida* (Jornal do Commercio18 de abril de 1923, quinta coluna5 de junho de 1923, penúltima coluna).

 

AN - estaaqui

 

AN - AAaa

 

AN - AAaaa

 

1925 – Ficou ferido em uma explosão em um barracão nos fundos de um prédio na Rua Emerenciana, em São Cristóvão, quando eram manipulados petardos por dinamiteiros (O Imparcial, 6 de maio de 1925, segunda coluna).

Por abandono de emprego, foi exonerado do cargo de conservador preparador do gabinete fotográfico da Escola de Estado Maior (O Paiz, 19 de junho de 1925, penúltima coluna).

1926 – O ministro da Fazenda, Aníbal Freire da Fonseca (1884 – 1970), enviou ao ministro da Guerra, Fernando Setembrino de Carvalho (1861 – 1947) o processo originado pelo requerimento da esposa de Horacio, Maria Emilia Coelho, solicitando o recolhimento das contribuições para o montepio devidas por Horacio, cujo paradeiro era ignorado (Jornal do Commercio, 1º de janeiro de 1926, primeira coluna).

1928 – Ele e sua esposa compareceram à missa de sétimo dia do ex-ministro da Fazenda, Esmeraldino Bandeira (1865 – 1928) (Jornal do Commercio, 12 de abril de 1928, quarta coluna).

1929 – Falecimento de sua mãe, Francisca Cavalcanti de Souza Leão Coelho (c. 1859 – 1929), na residência de Horacio, no Rio de Janeiro (Diário da Manhã (PE), 13 de agosto de 1929, sexta colunaJornal do Recife, 14 de agosto de 1929, última colunaDiário da Manhã (PE), 17 de agosto de 1929, primeira coluna).

1931 – Pelo chefe do governo provisório, Getúlio Vargas (1882 – 1954), foi considerado readmitido no cargo de conservador preparador do gabinete fotográfico da Escola de Estado Maior, desde 13 de novembro do ano anterior (Jornal do Brasil, 10 de janeiro de 1931, primeira coluna).

Esteve presente na missa de sétimo dia do general Xavier de Brito (1866 – 1930) (Correio da Manhã, 10 de abril de 1930, antepenúltima coluna).

1933 – Integrou a comitiva presidencial que viajou para o Norte do país no navio Almirante Jaceguay (Diário de Notícias, 13 de outubro de 1933, sexta coluna).

1934 – Foi nomeado pelo ministro da Guerra, Goes Monteiro (1891 – 1963), desenhista, cartógrafo da Escola de Estado Maior (Jornal do Commercio, 23 de junho de 1934, penúltima coluna).

1935 – Foi posto pelo ministro da Guerra, Goes Monteiro, à disposição do ministro das Relações Exteriores, José Carlos de Macedo Soares (1883 – 1968), para atuar como fotógrafo na Comissão de Limites da Seção Sul (Correio de Manhã, 18 de janeiro de 1935, quarta coluna).

1938 – Com o secretário do Interior de Pernambuco, Arthur de Moura, e outras autoridades visitou Fernando de Noronha (Diário de Pernambuco, 28 de julho de 1938, segunda coluna).

1940 - Publicação de uma fotografia de Maria Clementina, filha de Horacio e Maria Emilia (Revista da Semana, 24 de fevereiro de 1940).

1942 – O presidente da República, Getúlio Vargas, assinou um decreto com várias promoções em diversos ministérios. Horacio foi um dos promovidos (Correio da Manhã, 21 de janeiro de 1942, quarta coluna).

1943 – Publicação de fotografias de autoria de Horacio de uma viagem entre Recife e Rio de Janeiro na reportagem Nossa Terra (Revista da Semana, 31 de julho de 1946).

1944/1945 – No relatório das atividades de 1944 apresentado ao ministro da Educação, Gustavo Capanema, por Roquette-Pinto, diretor do Instituto Nacional de Cinema Educativo, foi informado que a instituição havia dado toda assistência técnica para o manejo e aquisição de câmeras 16mm pelo sr. Horacio Coelho, cinematografista do Ministério da Guerra que seguiu com as forças expedicionárias brasileiras tendo o INCE examinado o material adquirido, fornecido filmes e câmeras para o treinamento do mesmo cinegrafista, que fica assim habilitado a desempenhar toda e qualquer filmagem em operações de guerra (A Noite, 13 de março de 1945, segunda coluna).

Como cinegrafista e fotógrafo do Ministério da Guerra participou como correspondente da Segunda Guerra Mundial, operando junto à Força Expedicionária Brasileira, na Itália. Foi posto pelo ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra (1883 – 1974), à disposição do marechal Mascarenhas de Moraes (1883 – 1968) (A Noite, 7 de junho de 1944, quarta colunaDiário de Pernambuco, 8 de junho de 1944, segunda coluna).

 

 

Publicação da reportagem Os brasileiros combatem sob a neve com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 10 de março de 1945).

Publicação da reportagem Onde a cobra fuma com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 24 de março de 1945).

Publicação da reportagem Onde a cobra está fumando com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 31 de março de 1945).

Publicação da reportagem Senta a Púa avestruz com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 14 de abril de 1945).

Na reportagem A Batalha de Castelnuevo, publicação da fotografia abaixo (Revista da Semana, 14 de abril de 1945).

 

 

No suplemento de guerra da Revista da Semana, de 5 de maio de 1945, publicação de fotos enviadas especialmente da Itália por Horacio Coelho (Revista da Semana, 5 de maio de 1945).

Publicação da reportagem Visões de uma guerra que passou com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 30 de junho de 1945).

Publicação da reportagem Depois da vitória Veneza com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 14 de julho de 1945).

Publicação da reportagem A volta de nosso correspondente com fotos de autoria de Horacio e do próprio Horacio em frente ao Café Petrarca, em Veneza (Revista da Semana, 7 de setembro de 1945).

Outros correspondentes de guerra contemporâneos de Horacio que trabalharam para a imprensa brasileira foram: Allan Fischer (1913 – 1988) (fotógrafo do escritório do Coordenador de Assuntos Econômicos Interamericanos), Egídio Squeff (1911 – 1973) (O Globo), Fernando Stamato (1917 – 1993) (cinematografista do DIP), Frank Norall (19? – ?) (Escritório do Coordenador de Assuntos Interamericanos), Henry Bagley (19? – ?) (Associated Press), Joel Silveira (1918 – 2007) (Diários Associados), Raul Brandão (19? – ?) (Correio da Manhã), Rubem Braga  (1913 – 1990) (Diário Carioca) e Thassilo Mitke (19? – ?) (DIP).

 

 

Uma mensagem de Horacio elogiando seus companheiros de imprensa foi lida em um programa de rádio (Jornal do Commercio, 4 de julho, quinta coluna).

Foi um dos correspondentes de guerra condecorados com a Medalha de Campanha (Diário de Notícias, 6 de dezembro de 1945, segunda coluna).

 

 

1946 - Fazia parte do quadro de civis permanentes do ministério da Guerra e foi promovido por merecimento na carreira de desenhista (Correio da Manhã, 11 de maio de 1946, sexta coluna).

Com o tenente João Brito Jorge, adjunto da SS Cine da Secretaria Geral de Guerra, foi para Resende filmar as manobras da Escola Militar (Correio da Manhã. 18 de setembro de 1946, segunda coluna).

1947 - Foi um dos correspondentes de guerra que atuaram junto à FEB na Segunda Guerra Mundial convidados pela Embaixada dos Estados Unidos para uma reunião no Serviço Cultural e Informativo dos Estados Unidos da América, quando foi exibido um longa-metragem sobre a atuação dos brasileiros na guerra (Correio da Manhã, 25 de janeiro de 1947, penúltima coluna).

Foi agraciado com uma Medalha de Guerra em uma solenidade realizada no Quartel do Batalhão de Guardas (Correio da Manhã, 20 de março de 1947, segunda coluna).

1948 - Em 24 de fevereiro, falecimento de sua esposa Maria Emilia, a Miluca (Correio da Manhã, 29 de fevereiro de 1948).

 

 

Década de 1950 – Aposentou-se do cargo de cinegrafista na década de 1950.

1958 – Em 8 de maio, participou da solenidade comemorativa do 13º ano do fim da Segunda Guerra Mundial, realizada na Associação Brasileira de Imprensa, quando os correspondentes de guerra foram homenageados. Rubem Braga (1913 – 1990) e Fernando Stamato (1917 – 1993), dentre outros, também estiveram presentes (Diário de Notícias, 9 de maio de 1958, última coluna).

1963 -  Faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de agosto, e foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier (Jornal do Commercio, 10 de agosto de 1963, segunda coluna).

 

 

 

*A pesquisa não conseguiu confirmar se trata-se do mesmo Horacio ou se é um homônimo.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

 

 

Série “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” IV – Os 100 anos dos Diários Associados

Hoje os Diários Associados, que já foram o maior conglomerado de mídia do Brasil, completam 100 anos. Foi em 2 de outubro de 1924 que O Jornal, primeiro órgão de comunicação dos Diários foi comprado pelo empresário paraibano Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo (1892-1968).

 

 

O acervo fotográfico dos Diários Associados – Rio de Janeiro foi incorporado, em 2016, por uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles (IMS). O conjunto adquirido pelo IMS possui cerca de 700 mil fotografias e 300 mil negativos com imagens produzidas para o já mencionado O Jornal; para o Diário da Noite, fundado por Chateaubriand, em 1929; e para o Jornal do Commercio, fundado em 1827 e adquirido pelo grupo em 1959. Também possui fotos produzidas pela Agência Meridional, primeira agência de notícias do Brasil, fundada em 1931.

 

Acessando o link para as imagens do Arquivo dos Diários Associados pertencentes ao Instituto Moreira Salles e de dois registros de Assis Chateaubriand que pertencem à Fundação Biblioteca Nacional e que estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Pequeno histórico de O Jornal, primeiro órgão de comunicação dos Diários Associados

 

 

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, conhecido como Chatô, comprou, em 2 de outubro de 1924, O Jornal, fundado em 17 de junho de 1919, por Renato Toledo Lopes e um grupo de dissidentes do Jornal do Commercio. Seu nome, O Jornal, foi uma provocação: era assim que o Jornal do Commercio era chamado internamente. O Jornal tornou-se o primeiro veículo de comunicação dos Diários Associados, um dos maiores conglomerados da história da imprensa brasileira (O Jornal, 2 de outubro de 1924, primeira coluna).

 

 

Chateaubriand fez várias inovações, tanto na linha editorial – substituindo os longos artigos por reportagens, separando claramente informações e comentários. Também mudou a diagramação, reorganizando a paginação gráfica e as técnicas de ilustração.

Seus primeiros diretores foram A. Cruz Santos e o próprio Chateaubriand. Sabóia de Medeiros (18?-19?) era o redator-chefe, mas foi logo substituído por Austregésilo de Athayde (1898-1993), grande amigo de Chatô, que permaneceu por toda sua vida nos DA. O ex-presidente da República, Epitácio Pessoa (1865-1942), era o presidente da empresa e Alfredo Pujol (1865-1930) e Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898-1969), seus diretores. Entre os colaboradores do matutino estavam Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde) (1893-1983), Capistrano de Abreu (1853-1927), Pandiá Calógeras (1870-1934), Humberto de Campos (1886-1934), Paulo de Castro Maya (1895-1928), Carlos de Laet (1847-1927) e Ferdinando Laboriau (1893-1928). Na área internacional, colaboravam  Ruddyard Kipling (1865-1936), prêmio Nobel de Literatura; o ex-premier francês Raymond Poincaré (1860-1934), e o também ex-premier britânico Lloyd George (1863-1945).

 

 

Fechou suas portas, em 28 de abril de 1974, quando publicou sua 16.123ª edição. Alberico de Souza Cruz (1938 – 2022) foi o último secretário de redação. O único voto contrário ao fim do jornal, na Assembleia Geral Extraordinária, foi de Austregésilo de Athayde (1898 – 1993). Chegava ao fim o órgão pioneiro e líder dos Diários Associados (RJ).

 

Diários Associados – acervos fotográficos no Instituto Moreira Salles

 

 Agência Meridional de Notícias (1931 – ) 

A Agência Meridional de Notícias foi fundada em agosto de 1931 e foi a primeira agência de notícias do Brasil. O principal objetivo de Chateaubriand era otimizar e racionalizar entre os jornais de seu conglomerado o intercâmbio de textos e fotos. Seria mais barato que as notícias das editorias nacional, de economia e internacional tivesses tanto sua produção tanto centralizada como compartilhada. Assim, os jornais se ocupariam da cobertura local. Ainda em 1931, Chateaubriand comprou o Diário de Pernambuco (Recife), o mais antigo jornal brasileiro em circulação; e fundou o Diário da Tarde (Belo Horizonte). Na ocasião, já faziam parte dos Diários Associados o Diário da Noite (edições Rio e SP)Diário de Notícias (Porto Alegre),  o Diário de S. Paulo, Estado de Minas (Belo Horizonte) e O Jornal (Rio de Janeiro). Chateaubriand também já era proprietário das revistas A Cigarra O Cruzeiro e das juvenis Detetive O Guri. Foi pela Agência Meridional que o repórter Joel Silveira (1918 – 2007) foi enviado para cobrir a campanha dos pracinhas da FEB na Segunda Guerra Mundial com a seguinte recomendação de Chateaubriand, que se tornou famosa: “Mas não me morra, seu Joel! Repórter é pra mandar matéria, não pra morrer!Em 2007, a Agência Meridional passou a usar nome de D.A. Press. 

Diário da Noite (RJ) (1929 – 1973) 

Em 5 de outubro de 1929, lançamento do Diário da Noite, do Rio de Janeiro, que, feito em duas semanas, no mesmo mês de seu lançamento já havia conquistado entre 60 e 80 mil leitores. Complementava o matutino O Jornal, também de Assis Chateaubriand e tinha duas edições diárias, a primeira saía às 15h. Era dirigido por Chateaubriand, Cumplido de Sant´Anna e Frederico Barata. Apresentava-se como um membro da vanguarda do movimento liberal. Opunha-se ao regime oligárquico da República Velha e defendia a Aliança Liberal. Foi nesse jornal que Nelson Rodrigues escreveu folhetins usando o pseudônimo de Susana Flag. Teve como colaborares Antônio Maria (1921 – 1964), Sérgio Porto (1923-1968), o Stanislaw Ponte Preta e o humorista Aparício Torelly (1895 – 1971), dentre outros. Circulou até junho de 1973.

 

Jornal do Commercio (RJ) (1827 – 2016) 

Assis Chateaubriand comprou o Jornal do Commercio de San Tiago Dantas, em 2 de abril de 1959. Instalado na rua Sacadura Cabral nº 103, passou a ser dirigido por Carlos Rizzini, e voltou à linha editorial conservadora, enfatizando o noticiário econômico, dirigido aos empresários do Rio de Janeiro. O Jornal do Commercio havia sido fundado em 31 de agosto de 1827, pelo tipógrafo e livreiro francês Pierre Plancher (1779 – 1844). Sua primeira edição, com quatro páginas, circulou no Rio de Janeiro em 1º de outubro do mesmo ano. No dia 29 de abril de 2016, foi para as ruas a sua última edição. Era o segundo periódico diário mais antigo do Brasil, perdendo apenas para o Diário de Pernambuco, o mais antigo jornal da América Latina, fundado em 7 de novembro de 1925. Seu presidente era Mauricio Dinepi (1953 – 2025).

 

O Jornal (1919 – 1974)

Em 1924, Assis Chateaubriand comprou O Jornal, fundado em 1919o primeiro elo e o órgão líder da cadeia dos Diários Associados. Nele, Chateaubriand fez várias inovações, tanto na linha editorial – substituindo os longos artigos por reportagens, separando claramente informações e comentários – como em sua diagramação – reorganizando a paginação gráfica, do colunismo e das técnicas de ilustração. Fechou suas portas em 28 de abril de 1974, quando publicou sua 16.123ª edição. Alberico de Souza Cruz foi o último secretário de redação. O único voto contrário ao fim do jornal, na Assembleia Geral Extraordinária, foi de Austregésilo de Athayde. Chegava ao fim o órgão líder dos Diários Associados.

 

 

 

Artigos publicados na Brasiliana Fotográfica com fotografias do acervo dos Diários Associados

Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 30 de maio de 2018.

 

 

 

A Casa dos Artistas nos Diários Associados, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 26 de agosto de 2019.

 

 

 

O Rei Momo por Jean Manzon e por outros fotógrafos dos Diários Associados, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 3 de fevereiro de 2023.

 

 

Brevíssimo perfil de Assis Chateaubriand e dos Diários Associados

 

A imprensa brasileira pode ser dividida em duas fases: antes e depois de Assis Chateaubriand. Conhecido como Chatô e nascido em 4 de outubro de 1892, em Umbuzeiro, tornou-se um magnata das comunicações no Brasil. Foi considerado o Cidadão Kane brasileiro, uma alusão ao filme homônimo de Orson Welles (1915-1985), supostamente baseado na vida do empresário norte-americano William Randolph Hearst (1863-1951), criador de uma enorme rede de jornais em seu país.

Chateaubriand foi uma personalidade polêmica e controversa e um dos mais poderosos e influentes homens públicos da história do país. Em seu auge, os Diários Associados chegaram a ter mais de cem jornais, emissoras de televisão e rádio, revistas e agência telegráfica. Um verdadeiro império de mídia.

Além de jornalista, Chatô foi advogado, embaixador, escritor, mecenas e político. Em 30 de dezembro de 1954, foi eleito para ocupar a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo Getúlio Vargas (1882-1954).  Tomou posse em 27 de agosto de 1955.

 

 

Uma das revistas do império de Chateaubriand, a O Cruzeiro, foi muito importante na história da fotografia no Brasil, tendo dignificado a profissão de repórter fotográfico. Foi publicada pela primeira vez, em 10 de novembro de 1928, e, entre as décadas de 40 e 50, pela utilização de fotografias, enfatizando o fotojornalismo, e por seu conteúdo e projeto gráfico arrojados, representou uma revolução no mercado editorial brasileiro. Seu primeiro diretor foi Carlos Malheiros Dias (1875 – 1941), sucedido por Antônio Accioly Neto (1906-2001) e José Amádio (1923-1992). Dentre importantes fotógrafos que atuaram na revista, destacamos Flávio Damm (1928-2020), Henri Ballot (1921-1997), Jean Manzon (1915-1990), José Medeiros (1921-1990), Luciano Carneiro (1926 – 1959) e Peter Scheier (1908-1979). Em julho de 1975, a revista deixou de circular.

 

 

Chatô fundou o Museu de Arte de São Paulo (MASP), inaugurado em 2 de outubro de 1947. O  crítico e marchand italiano Pietro Maria Bardi (1900-1999), parceiro de Chateaubriand na criação do museu, assumiu sua direção, cargo que ocupou até 1990. As primeiras obras de arte do museu foram selecionadas por Pietro e adquiridas a partir de doações. O museu foi instalado, inicialmente, no prédio,  na época ainda não finalizado, que abrigaria a sede dos Diários Associados, na Rua 7 de Abril, no centro de São Paulo.

 

 

Em 7 de novembro de 1968, o MASP foi transferido para a Avenida Paulista, sua sede atual, projeto arquitetônico arrojado da romana naturalizada brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992), casada com Pietro desde 1946, ano em que vieram para o Brasil. O MASP possui o mais importante acervo de arte europeia do hemisfério sul. A coleção do museu reúne mais de 11 mil obras, incluindo esculturas, fotografias, objetos, pinturas e vestuários de diversos períodos, abrangendo a produção africana, asiática, europeia e das Américas.

 

diariosassociados3

O MASP por Hans Gunter Flieg (1923-2024), 1968 / Acervo IMS

 

Chatô foi também o responsável pela chegada da televisão ao Brasil quando, em 18 de setembro de 1950, inaugurou a primeira emissora de TV do país, a PRF-3, TV Tupi de São Paulo, no chamado Palácio do Rádio. Participaram da cerimônia o próprio Chateaubriand, o bispo Dom Paulo Rollim Loureiro (1908 – 1975)  e a poetisa Rosalina Coelho Lisboa (1900-1975). À noite, numa festa no Automóvel Clube, autoridades e convidados assistiram à primeira transmissão. Existiam menos de mil aparelhos receptores de TV. Com apenas três câmeras e com profissionais como Cassiano Gabus Mendes (1927 – 1993), Homero Silva (1918-1981), Walter Avancini (1935-2001) e Walter Forster (1917-1996), começava a história da TV brasileira. A TV Tupi saiu do ar em 17 de julho de 1980.

 

World Tv: TV Tupi. A Pioneira!

 

A TV Pioneira do Brasil - A História da Tupi

Assista aqui a primeira vinheta da TV Tupi 

 

Ao longo da década de 50, Chateaubriand foi senador da República pela Paraíba e pelo Maranhão. Em 1957,  renunciou ao cargo porque foi nomeado pelo presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976) embaixador do Brasil na Inglaterra. Porém ficava mais tempo no Brasil do que na Inglaterra, fato muito criticado por diplomatas de carreira e também pelos jornais que faziam oposição a ele.  O posto era exercido de fato pelo diplomata Antônio Castello Branco (1916-2001).

 

 

Em 26 de setembro de 1959, Chateaubriand assinou uma escritura pública doando a 22 empregados 49% do controle acionário dos Diários e Emissoras Associados, então o maior império de comunicações da América Latina. Estava criado o Condomínio Acionário Diários e Rádios Associados. Na época, o conglomerado era composto pelas duas revistas mais importantes do país dirigidas a adultos, 12 revistas infantis, dezenas de jornais, 28 estações de rádio, seis estações de televisão, agências de notícias e agências de propaganda (O Jornal, 27 de setembro de 1959, primeira coluna).

Em fevereiro de 1960, Chatô foi levado para a Clínica Doutor Eiras, sob suspeita de enfarte. Foi atendido por um jovem médico que chamou o neurocirurgião Abrahão Ackerman, um dos donos do hospital. Após examiná-lo, constatou que Chateaubriand havia sofrido uma trombose cerebral dupla e que não iria sobreviver (O Jornal, 25 de fevereiro de 1960, primeira coluna; O Cruzeiro, 9 de abril de 1960). Ficou hospitalizado até fim de agosto de 1960 e viveu mais 8 anos (O Jornal, 4 de setembro de 1960, última coluna). Comunicava-se por balbucios e usava uma máquina de escrever adaptada. Continuou, mesmo paraplégico e impossibilitado de falar, a escrever seus artigos. O primeiro após a doença, Compromisso de Sangue, foi publicado em O Jornal de 4 de setembro de 1960.

 

 

 

Em julho de 1962, doou os 51% restantes das ações e quotas que possuía dos Diários e Emissoras Associados aos seus auxiliares, que já haviam recebido os primeiros 49%. Seus filhos foram excluídos desta segunda partilha.

Teve um colapso cardíaco e faleceu, em São Paulo, no Hospital Santa Catarina, em 4 de abril de 1968. Foi velado, no saguão do prédio dos Diários Associados em São Paulo (O Jornal, 5 de abril e 6 de abril de 1968). Pietro Maria Bardi mandou colocar telas do MASP em torno do caixão de Chatô. Também escreveu o artigo Chateaubriand fundador de museus, publicado em O Cruzeiro de 20 de abril de 1968. O sepultamento do Velho Capitão, título criado para ele pelo repórter David Nasser (1917-1980)foi realizado, no dia 6 de abril, no Cemitério do Araçá, em São Paulo.

João Calmon (1916-1999), que era vice-presidente do condomínio acionário dos Diários Associados desde 1962, tornou-se presidente da empresa. Na época, ela era constituída pelos seguintes órgãos: 1) os diários O Jornal (Rio), Jornal do Comércio (Rio), Diário de S. Paulo (S. Paulo), Diário da Noite (S. Paulo), Diário dos Esportes (S. Paulo), O Diário (Santos-SP), O Estado de Minas (Belo Horizonte), Diário da Tarde (Belo Horizonte), Diário Mercantil (Juiz de Fora-MG), Diário da Tarde (Juiz de Fora-MG), Diário de Notícias (Porto Alegre), A Razão (Santa Maria-RS), Estado da Bahia (Salvador), Diário de Notícias (Salvador), Diário de Aracaju (Aracaju), Diário de Pernambuco (Recife), O Norte (João Pessoa), Diário de Borborema (Campina Grande-PB), Diário de Natal (Natal), O Poti (Natal), A Província do Pará (Belém), Correio do Ceará (Fortaleza), Unitário (Fortaleza), O Imparcial (S. Luís), Jornal do Comércio (Manaus), A Nação (Florianópolis), Jornal de Joinville (Joinville-SC), Jornal de Alagoas (Maceió), Folha de Goiás (Goiânia), Diário do Paraná (Curitiba), Monitor Campista (Campos-RJ), Correio Brasiliense (Brasília), O Rio Branco (Rio Branco), Alto Madeira (Porto Velho-RO), Diário da Serra (Campo Grande-MS); 2) as revistas O Cruzeiro, O Guri, A Cigarra, Luluzinha, Bolinha, Brasinha, Gasparzinho, Aventura, Gurilândia, Pré-Estreia, Manda-Chuva, Os Flinstones, Os Jetsons, Pimentinha, Zé Colméia, Combate, Homem no Espaço, Galáxia; 3) as emissoras Rádio Tupi (Rio), Rádio Tamoio (Rio), Rádio Difusora (S. Paulo), Rádio Tupi (S. Paulo), Rádio Cultura (S. Paulo), Rádio Guarani (Belo Horizonte), Rádio Mineira (Belo Horizonte), Rádio Sociedade (Juiz de Fora-MG), Rádio Farroupilha (Porto Alegre), Rádio Sociedade da Bahia (Salvador), Rádio Clube de Pernambuco (Recife), Rádio Tamandaré (Recife), Rádio Borborema (Campina Grande-PB), Rádio Cariri (Campina Grande-PB), Rádio Poti (Natal), Rádio Marajoara (Belém), Ceará Rádio Clube (Fortaleza), Rádio Araripe (Crato-CE), Rádio Gurupi (S. Luís), Rádio Baré (Manaus), Rádio Progresso (Maceió), Rádio Vitória (Vitória), Rádio Difusora (Teresina), Rádio Clube de Goiânia (Goiânia), Rádio Planalto (Brasília); 4) as emissoras de televisão TV Tupi (Rio), TV Tupi (S. Paulo), TV Cultura (S. Paulo), TV Ribeirão Preto (Ribeirão Preto-SP), TV Itacolomi (Belo Horizonte), TV Alterosa (Belo Horizonte), TV Mariano Procópio (Juiz de Fora-MG), TV Piratini (Porto Alegre), TV Itapoan (Salvador), TV Rádio Clube (Recife), TV Borborema (Campina Grande-PB), TV Marajoara (Belém), TV Rádio Clube (Fortaleza), TV Vitória (Vitória), TV Rádio Clube (Goiânia), TV Paraná (Curitiba), TV Coroados (Londrina-PR), TV Brasília (Brasilia); e 5) as agências: Agência Meridional (de notícias, com matriz no Rio e sucursais em todo o Brasil) e SIRTA Serviços de Imprensa, Rádio e Televisão Associados (de publicidade, com matriz no Rio e filiais em todo o Brasil) (CPDOC).

Foi também na década de 60, que o império formado por Chateaubriand começou a decair. Após sua morte, deflagrou-se uma crise nos Diários Associados entre João Calmon e um de seus filhos, Gilberto Chateaubriand (1925-2022), devido a divergências relativas aos rumos da empresa. Desde maio de 2023, o Condomínio Acionário dos Diários Associados é presidido pelo jornalista Josemar Gimenez (1964-).

Acesse aqui a edição de O Cruzeiro, de 20 de abril de 1968, com uma homenagem a Assis Chateaubriand.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BARROS, Maria Pia Fontes Lins de; WANDERLEY, Andrea C. T. Agenda do Centro de Documentação da TV Globo

CARNEIRO, Glauco. Brasil, primeiro: História dos Diários Associados. Brasília : DF. Fundação Assis Chateaubriand, 1999.

G-1

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

IstoÉ, 10 de maio de 2023

MORAIS, Fernando. Chatô – O Rei do Brasil. Cia das Letras: São Paulo, 1994.

O Jornal, órgão líder dos Diários Associados / Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Secretaria, 2007 (Cadernos da Comunicação Série Memória – vol 18).

Revista da USP

Site Academia Brasileira de Letras

Site CPDOC 

Site Diários Associados

Site São Paulo infoco

Veja, 3 de agosto de 1994

Série “Conflitos” VIII – Os efeitos da Revolta Paulista de 1924 pelas lentes de Gustavo Prugner (1884 – 1931)

Para marcar o centenário da Revolta Paulista de 1924, a Brasiliana Fotográfica destaca registros produzidos pelo fotógrafo Gustavo Prugner (1884 – 1931) sobre os efeitos da rebelião na cidade. Pertencem ao acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles (IMS), uma das instituições fundadoras do portal. Também conhecida como a Revolução Esquecida, foi a segunda revolta tenentista e o mais grave conflito bélico ocorrido, até hoje, na cidade de São Paulo. Também publicamos hoje a Cronologia de Gustavo Prugner, a 68ª produzida pelo portal.

É possível conferir algumas destas fotografias de Prugner na base de dados do Acervo IMS online: https://acervos.ims.com.br. Lá estão disponíveis mais de 9.200 imagens em domínio público, com download liberado e gratuito. Ao usá-las para qualquer finalidade, basta citar o nome do fotógrafo e o acervo de origem.

 

 

Pouco de sabe sobre o fotógrafo Prugner. Ele nasceu em 5 de julho de 1884, em São Bernardo do Campo, e, no início do século XX, ganhou uma das câmeras fotográficas distribuídas em uma ação promocional da loja de artigos fotográficos de Guilherme Wessel (1862 – 1940), pai do empreendedor Conrado Wessel (1891 – 1993). Prugner havia estudado na Escola Alemã com Guilherme. Curiosamente, a vida de Conrado Wessel foi fortemente impactada pela rebelião de 1924: devido ao violento conflito urbano, faltou papel importado para os fotógrafos que atuavam, principalmente, no Jardim da Luz, e eles passaram a comprar de Wessel. Quando a rebelião terminou, o fornecimento de papel importado foi restabelecido, mas Conrado já havia conquistado uma clientela fiel. Sua empresa começou a prosperar.

 

Acessando o link para as imagens produzidas por Gustavo Prugner sobre os efeitos da Revolução de 1924 em São Paulo disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Voltando a Prugner. Com a obtenção da câmera, passou a trabalhar como fotógrafo e laboratorista. Foi também, em São Paulo, assim como o alemão Theodor Preising (1883 – 1962) e o suíço Guilherme Gaensly (1843 – 1928), um importante editor de cartões-postais, uma forma de circulação de imagens que, desde meados do século XIX, contribuiu para popularizar a fotografia. Prugner organizava álbuns a partir de fotos de sua autoria e de outros fotógrafos. Suas imagens eram marcadas pelas iniciais GP. Foram publicadas em revistas ilustradas como a Careta e a Revista da Semana e também em jornais, porém nem sempre sua autoria era identificada.

Gustavo Prugner foi o autor de um dos mais importantes conjuntos de fotografias sobre o conflito de 1924. Fotografou a destruição causada pelos bombardeios terrificantes realizados pelas tropas leais ao presidente da República, Artur Bernardes  (1875 – 1955), sobre São Paulo – única cidade brasileira já bombardeada por um ataque aéreo.

“As vítimas civis passaram de dois milheiros, quase todas estraçalhadas de modo horroroso por estilhaços de granada. O  número de prédios destruídos ou simplesmente estragados subiu aos milhares. Dia e noite os canhões legalistas despejavam metralha às tontas, sem o menor objetivo militar […]. Havia lá dentro 3 mil rebeldes disseminados no seio de uma massa de 800 mil civis. O mais rudimentar cálculo faria ver que, por força do bombardeiro às tontas, seria mister massacrar 270 civis para dar cabo de um revoltoso”

Monteiro Lobato (1882 – 1948), trecho de O bombardeio de São Paulo

 

 

As fotos de Prugner mostravam trincheiras improvisadas, prédios arruinados, ruas, fachadas de casas, animais mortos e incêndios. Os bairros mais atingidos foram Belenzinho, Brás, Cambuci, Centro, Ipiranga, Mooca e Vila Mariana. Os registros de Prugner, focados nos efeitos da revolta no cotidiano dos moradores dos bairros mais afetados pela guerra, tiveram grande sucesso comercial.

 

 

Faleceu, em 4 de dezembro de 1931, em São Paulo.  Seus filhos com Lina Hagemann (1889 – 1981), com quem foi casado, Edgar (1911 – 1984) e Mário (1912 – 1993), continuaram a editar cartões-postais até 1936, quando passaram a trabalhar em tempo integral na primeira fábrica de papel fotográfico da América Latina, a Fábrica Privilegiada de Papéis Fotográficos Wessel, criada, em 1921, e que utilizava tecnologia e patente próprias, cujo proprietário era o já mencionado pioneiro Conrado Wessel (1891 – 1993). Prugner foi casado com Lina Hagemann (1889 – 1981).

Acesse aqui a Cronologia de Gustavo Prugner (1884 – 1931).

 

Brevíssimo resumo da Revolta Paulista de 1924

 

A Revolta Paulista de 1924 foi motivada pelo descontentamento dos militares com a crise econômica e a concentração de poder nas mãos de políticos de Minas Gerais e de São Paulo. Os rebeldes, sob a liderança do general Isidoro Dias Lopes (1865 – 1949), pretendiam derrubar o governo de Artur Bernardes (1875 – 1955), instituir o voto secreto, fazer mudanças no ensino público e realizar reformas sociais. A rebelião eclodiu, em 5 de julho de 1924, justamente dois anos após a primeira revolta tenentista, a Revolta do Forte de Copacabana, ocorrida no Rio de Janeiro.

Os 23 dias da Revolta Paulista de 1924, que contou com a participação de vários tenentes, dentre eles Juarez Távora (1898 – 1975) e Eduardo Gomes (1896 – 1981), tiveram como saldo 503 mortos e cerca de 5 mil feridos. O número de desabrigados passou de 20 mil e, aproximadamente, dois mil edifícios foram destruídos. Os rebeldes, derrotados pelas tropas legalistas do governo federal, fugiram de São Paulo e foram para Santa Catarina e para o Paraná. Os tenentistas juntaram-se à Coluna Prestes, sob a liderança de Luís Carlos Prestes (1898 – 1990), e começaram a marcha que seguiu pelo interior do Brasil propondo reformas e atacando a República Velha.

 

 

Veja outras fotos da Revolta de 1924, em São Paulo, publicadas da página 15 a 22 da Revista da Semana de 9 de agosto de 1924 e da página 19 a 27 da Revista da Semana de 16 de agosto de 1924 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Esse artigo passou a integrar a série Conflitos, em 20 de março de 2026.

Fontes:

Blog da BBM

GERODETTI, João Emílio; CORNEJO, Carlos. Lembranças de São Paulo: a capital paulista nos cartões postais e nos álbuns de lembranças. São Paulo : Estúdios Flash Produções Gráficas, 1999.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Luzes e sobras da metrópole: um século de fotografia em São Paulo (1850 – 1950) in PORTA, Paula (org) História da Cidade de São Paulo: A cidade no Império. São Paulo : Paz e Terra, 2004.

LEMOS, Eric Danzil. Fotografia profissional, arquivo e circulação: a produção de Theodor Preising em São Paulo (1920 – 1940). Universidade de São Paulo, 2016.

LOBATO, Monteiro. O bombardeio de São Paulo. Obras Completas, vol. 6. São Paulo : Editora Brasiliense, 1946.

O Estado de São Paulo

Schiavinatto, Iara. Séries Fotográficas narram um evento: 1924/São Paulo. Revista Stadium, número 8, 2002.

Site Enciclopédia Itaú Cultural 

Site Family Search

Site IMS

Site Itú

WANDERLEY, Andrea C. T. Aspectos de Poços de Caldas impressos no papel fotográfico fabricado pelo pioneiro Conrado Wessel (1891 – 1993) in Brasiliana Fotográfica, 7 de abril de 2022

ZERWES, Erica. Suvenires da destruição: a Revolução de 1924 por Barros Lobo e Gustavo Prugner in Conflitos: fotografia e violência política no Brasil, 1889 -1964. Rio de Janeiro : Instituto Moreira Salles, 2017.