O objeto de trabalho: Augusto Malta e sua câmera fotográfica
Beatriz Kushnir e Carolina Ferro*
A facilidade com a qual produzimos uma fotografia nos dias atuais faz com que nos esqueçamos das dificuldades enfrentadas no passado para registrar um determinado momento, monumento ou evento. Da vinda do daguerreótipo para o Brasil, na década de 1840, até as primeiras décadas do século XX, os objetos destinados às fotografias eram muito maiores e mais complexos. As imagens eram, em sua grande maioria, em preto e branco, tendo em vista que a versão colorida era uma novidade que seria popularizada aos poucos, pós 1907. Também aos poucos os fotógrafos se profissionalizavam e se preocupavam com seus instrumentos de trabalho, acompanhando os avanços técnicos que se aceleravam. Nesse período, mais especificamente no início do século XX, Augusto Malta, fotógrafo oficial do município do Rio de Janeiro, foi um dos nomes mais célebres da fotografia no Brasil.
Malta percorreu a cidade do Rio de Janeiro com diversas câmeras, uma boa parte operada com chapas de vidro à base de gelatina. Segundo Amanda Danelli Costa (2019), essas chapas eram bastante sensíveis à luz, o que permitiam “diafragmas bem fechados e velocidades de obturador entre um segundo e um quarto de segundo”, o que é um avanço se compararmos com os vários minutos que a fotografia demorava a ficar pronta nos seus primórdios. Segundo a autora (COSTA, 2019), os objetos de trabalho de Malta carregavam grandes formatos de negativos (24X30 cm, 18X24 cm e 13X18 cm) e essas informações nos ajudam a afirmar que as técnicas e as câmeras utilizadas por ele são essenciais para a compreensão da qualidade das fotografias que esse profissional nos proporcionou durante mais de 30 anos de trabalho. Ele se deslocava pela cidade sempre com uma câmera pesada, um tripé de madeira, um flash de magnésio e uma maleta com as chapas (BUENO, 2014). Uma dessas câmeras se encontra, hoje, no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

Máquina fotográfica de Augusto Malta
Não cabe aqui retomar toda a vida de Augusto Malta, tão amplamente divulgada por inúmeros estudiosos. Mas cabe salientar que detalhes importantes de sua vida profissional estão em documentos encontrados no AGCRJ. Do decreto de nomeação à aposentadoria, o viés público de Malta nos faz refletir sobre a prática de produção de uma memória política e histórica pelo poder público e sobre a importância da fotografia como documento.
O alagoano Augusto Malta tornou-se fotógrafo através do decreto n° 445, de 27 de junho de 1903, publicado pelo prefeito Pereira Passos, um dos grandes responsáveis pela remodelação da cidade do Rio de Janeiro. Dentre suas atribuições, estavam “tirar provas photographicas, no número que for necessário, dos edifícios, monumentos, obras da municipalidade e pontos do Districto Federal que lhe forem determinados e bem assim, quando o diretor geral o julgar conveniente, auxiliar o expediente da Directoria”, que era a de Obras e Viação. Para cumprir com uma missão tão grandiosa, Malta precisou de auxiliares, sendo os seus filhos, Aristógiton e Uriel, os mais conhecidos.
Acessando o link para as fotografias de autoria de Augusto Malta e de seus filhos Aristógiton e Uriel disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.
Em 1909, o cargo de fotógrafo oficial da prefeitura foi extinto, mas em 1913 ele foi recriado e Malta foi o escolhido para ocupar esse lugar devido ao seu profissionalismo e à qualidade de suas fotografias. Ele começou seu trabalho de forma amadora, mas era um grande estudioso e autodidata, o que fez com que aprimorasse sua técnica e a qualidade de suas obras. Ficou na prefeitura até 25 de agosto de 1936, quando se aposentou, tendo passado por 19 prefeitos, comprovando que as disputas políticas pelas quais o Brasil enfrentou, inclusive no período dos movimentos da década de 1930, deixaram intocáveis seu serviço público muito bem prestado. Quem o substituiu foi seu filho Aristógiton, sendo nomeado alguns dias depois, em 9 de setembro do mesmo ano.
No percurso da carreira de Malta, há um momento que, para os historiadores e pesquisadores do Rio de Janeiro em geral, é precioso. Em 1931, o cargo de fotógrafo oficial da prefeitura passa da Diretoria Geral de Viação e Obras para a Diretoria Geral de Engenharia e, no ano seguinte, através do decreto n° 3.759, de 30 de janeiro, novas atribuições somam-se às já relatadas. Agora, é necessário “§2 – Organizar o Archivo photographico e histórico dos serviços executados” e “§3º – Fornecer ao Archivo geral as fotografias históricas relativas ao desenvolvimento da cidade ou de cerimonias realisadas e que tiverem sido photographadas”. Isto significa que Malta passa a ser obrigado por lei a entregar o material produzido na execução de seu trabalho ao Arquivo do Distrito Federal, atual AGCRJ. Graças a essa decisão é que temos mais de 30 mil negativos de Malta em nosso acervo, uma vasta coleção que carrega a história das fotografias e suas técnicas, bem como a história de nossa cidade.último decreto nos faz supor que, ao se aposentar, Malta também teria entregado uma de suas câmeras (talvez a mais utilizada para os serviços da prefeitura), tendo em vista que era um patrimônio da municipalidade, mas, infelizmente é só uma suposição. Malta continuou trabalhando como fotógrafo até sua morte, por enfarto, aos 93 anos.
A Câmera que se encontra no AGCRJ, provavelmente, é uma Speed Graphic, da empresa Graflex. Lançada pela primeira vez em 1912, ela tinha como propósito ser um instrumento de fotografia de paisagens, voltadas para profissionais que necessitavam de uma câmera mais leve, eficaz e preparada especificamente para esta função. Possivelmente, esse objeto foi adquirido bem depois de seu lançamento, tendo em vista que, à época, as novidades tecnológicas não chegavam com a mesma rapidez que nos dias atuais e, muitas vezes, era necessário importa-las. Sua qualidade é tão notável que, ainda hoje, existem fotógrafos que usam essa câmera para ter a mesma experiência do passado.

Máquina fotográfica de Augusto Malta
Ao pesquisar sobre a câmera utilizada por Augusto Malta, inúmeras questões são levantadas. Como e quando ela chegou ao AGCRJ? Em que momentos Malta utilizou esse instrumento? Será que ela foi uma das câmeras mais utilizadas pelo fotógrafo? Por que decidiram doar esta e não as outras câmeras? Qual era a circulação e como era a utilização desse tipo de câmera no Rio de Janeiro e no Brasil? Onde esse objeto teria sido comprado?
Infelizmente não temos muitas informações sobre a câmera de Augusto Malta, tendo em vista que os funcionários do Arquivo do Distrito Federal da época não registraram sua entrada, nem suas especificidades. Por isso, convidamos especialistas em câmeras fotográficas e em história da fotografia a visitarem o AGCRJ e nos ajudarem a resgatar um pouco mais da memória desse que foi um personagem icônico de nossa cidade e que nos forneceu inúmeros caminhos de pesquisa.

Máquina fotográfica de Augusto Malta
*Esse artigo teve uma preciosa ajuda na pesquisa e revisão de Rafael Martins de Araújo, estagiário da Gerência de Pesquisa do AGCRJ.
Beatriz Kushnir é diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ). Tem estágio pós-doutoral pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e é doutora em História pela mesma instituição.
Carolina Ferro é gerente de pesquisa do AGCRJ, professora do Centro Universitário Carioca (UniCarioca) e doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF).
Fontes:
Fontes secundárias:
Livros e artigos:
BUENO, Débora Gauziski de Figueiredo. Documentando a experiência urbana carioca: o Rio de Janeiro pelas fotografias de Augusto Malta e do Rio 365. 2014. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.
COSTA, Amanda Danelli. Augusto Malta e a fotografia da alma dos quiosques cariocas. Acervo, Rio de Janeiro, v. 32, n. 2, p. 117-132, maio/agosto 2019.
______. Impressões imagéticas: história, memória e a fotografia carioca de Augusto Malta. 2007. Dissertação (Mestrado em História Social da Cultura) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008.
TURAZZI, Maria Inez. Câmara fotográfica de Marc Ferrez. In: KNAUSS, Paulo; LENZI, Isabel; MALTA, Marize (Orgs.). História do Rio de Janeiro em 45 objetos. Rio de Janeiro: FGV Editora / Jauá editora / FAPERJ, 2019.
KOSSOY, Boris. O daguerreotipo nos trópicos. Jornal da USP. Publicado em: 29 mar. 2019. Disponível em: https://jornal.usp.br/?p=233593. Acesso em: 30 jul. 2019.
LOUREIRO, Elizabeth Cristina Marques de (Coord.). Augusto Malta: catálogo da série negativo em vidro / Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Divisão de Editoração, 1994.
MOREIRA, Regina da Luz. Augusto Malta, dono da memória fotográfica do Rio. Portal Augusto Malta. Publicado em: 18 ago. 2008. Disponível em: http://portalaugustomalta.rio.rj.gov.br/blog-post/augusto-malta-dono-da-memoria-fotografica-do-rio. Acesso em: 30 jul. 2019.
Sites:
Informações sobre as máquinas Graflex. Disponível em: https://graflex.org/speed-graphic/which-model.html. Acesso em: 15 ago. 2019.
Informações sobre as máquinas Graflex. Disponível em: https://graflex.org/speed-graphic/graphic-models.html. Acesso em: 15 ago. 2019.
Informações sobre as máquinas Graflex. Disponível em: https://graflex.org/graflex-products-list.html. Acesso em: 15 ago. 2019.
Informações sobre as máquinas Graflex. Disponível em: https://graflex.org/speed-graphic/. Acesso em: 16 ago. 2019.
CLEAVE, Joe Van. A 75 year Old Camera Review. Youtube. Publicado em: 28 mar. 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IQEXobv3OC4. Acesso em: 15 ago. 2019.
LENG, Bopp. Graflex Pacemaker Speed Graphic. Youtube. Publicado em: 19 jan. 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/results?search_query=Graflex+speed+graphic++1920. Acesso em: 15 ago. 2019.
Fontes primárias:
PREFEITURA DO DISTRICTO FEDERAL. Decreto nº 445, de 27/06/1903.
PREFEITURA DO DISTRICTO FEDERAL. Decreto nº 1365, de 22/07/1919.
PREFEITURA DO DISTRICTO FEDERAL. Decreto nº 3484, de 13/04/1931.
PREFEITURA DO DISTRICTO FEDERAL. Decreto nº 3759, de janeiro de 1932.
PREFEITURA DO DISTRICTO FEDERAL. Boletim da PDF. Jul./set. 1936, p. 316.
Acesse aqui a Cronologia de Augusto Malta por Andrea Wanderley
Para a elaboração da presente cronologia de Augusto Malta, além da pesquisa em dezenas de periódicos e revistas, valemo-nos, especialmente, do livro Augusto Malta e o Rio de Janeiro: 1903-1936, de George Ermakoff, e do artigo de Regina da Luz Moreira, “Augusto Malta, dono da memória fotográfica do Rio”, publicado no Portal Augusto Malta.
O lançamento do Portal Augusto Malta, em 2008, foi uma importante iniciativa do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ). No portal, estão reunidos o acervo do fotógrafo na referida instituição e no Museu Histórico da Cidade, além de fotografias de seus filhos, Aristógiton e Uriel Malta. Um dos curadores da Brasiliana Fotográfica, Joaquim Marçal, foi consultor do projeto.
O Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, o Arquivo Fotográfico da Light, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o Instituto Moreira Salles, a Biblioteca Nacional e o Museu Histórico Nacional são outros importantes acervos da obra do fotógrafo.
Link para publicações sobre a obra de Augusto Malta no site do Instituto Moreira Salles
Link para a matéria Banho de mar – 1915, escrita por Raymundo Athayde e ilustrada com fotografias de Augusto Malta, publicada na revista O Cruzeiro, 22 de abril de 1950).
Link para a matéria Do Convento da Ajuda às luzes da Cinelândia, escrita por Raymundo Athayde com fotos de Augusto Malta e Luciano Carneiro, publicada na revista O Cruzeiro, 9 de setembro de 1950.
Andrea C. T. Wanderley
Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica
Fontes:
Anais do Museu Histórico Nacional: volume XXXII – 2000, pág 131.
BULHÕES, Antonio & REBELO, Marques. O Rio de Janeiro do bota-abaixo. Rio de Janeiro: Salamandra, 1997
CAMPOS, Fernando Ferreira. Um fotógrafo, uma cidade: Augusto Malta, Rio de Janeiro: Maison Graphique, 1987.
Catálogo da Exposição comemorativa da doação do Acervo Brascan ao IMS – Guilherme Gaenly e Augusto Malta: dois mestres da fotografia brasileira no Acervo Brascan. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2002
ERMAKOFF, George. Augusto Malta e o Rio de Janeiro: 1903-1936 / George Ermakoff; tradução para o inglês Carlos Luís Brown Scavarda. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2009. 288p. : il.; 28cm
KOSSOY, Boris. A fotografia como fonte histórica: introdução à pesquisa e interpretação das imagens do passado. São Paulo: Secretaria da Ind., Com., Ciência e Tecnologia, 1980. (Coleção Museu &Técnicas; 4).
LAGO, Bia Corrêa do;LAGO, Pedro Corrêa do. Coleção Princesa Isabel: fotografia do século XIX. Rio de Janeiro: Capivara, 2008.432p.:il., retrs.
LOUREIRO, Elizabeth Cristina Marques de (coord.). Augusto Malta, Aristógiton Malta: catálogo da série negativo em vidro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1994. (Biblioteca carioca, 29. Instrumentos de pesquisa)
Nosso Século. São Paulo; Abril Cultural, 1980. vol 1 (1900-1910)
Portal Augusto Malta do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro
Site da Enciclopédia Itau Cultural
Site do Centro Cultural da Light
Site do Instituto Moreira Salles
Site do Museu da Imagem e do Som