Dia Nacional do Rádio

Com uma imagem da Orquestra da Rádio Nacional – uma das mais emblemáticas estações radiofônicas brasileiras -, e de outros registros relacionados à história do rádio no Brasil, o portal destaca o Dia Nacional do Rádio. As fotografias pertencem ao acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica. A escolha da data comemorativa, 25 de setembro, é uma homenagem ao nascimento, em 1884, daquele que é considerado o pai da radiodifusão no país, o carioca Edgar Roquette-Pinto (1884 – 1954). Ele foi um dos fundadores da primeira emissora oficial de rádio brasileira, a Rádio Sociedade Rio de Janeiro, a atual Rádio MEC, e pensou na comunicação pelo rádio como um poderoso meio para a educação, para a transformação social e para o desenvolvimento humano. A instituição e a comemoração do Dia Nacional do Rádio foi estabelecida pela lei 15.101/2025, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (1945-), em 13 de janeiro de 2025.

 

 

Acessando aqui o link para as fotografias relacionadas à história do rádio no Brasil disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Brevíssimo histórico do início do rádio no Brasil

 

 

Na abertura da Exposição Internacional do Centenário da Independência, foi realizada a primeira grande transmissão pública de rádio do Brasil. Outras transmissões radiofônicas já haviam sido realizadas no país – pelo padre gaúcho Roberto Landell de Moura (1861 – 1928), em 16 de julho de 1899, em São Paulo (Commercio de São Paulo, 17 de julho de 1899, terceira coluna); e pela Rádio Clube de Pernambuco, fundada em 6 de abril de 1919 (Jornal do Recife, 25 de abril de 1919, última coluna). Mas a realizada em 7 de setembro de 1922 é considerada a primeira transmissão radiofônica oficial brasileira.

Uma estação de 500 watts, montada no alto do Corcovado pela Westinghouse Eletric International em combinação com a Companhia Telefônica Brasileira, irradiou o discurso do presidente Epitácio Pessoa  (1865 – 1942), realizado no Rio de Janeiro, através de 80 receptores vindos dos Estados Unidos, instalados em pontos centrais da cidade, surpreendendo os visitantes da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil. A transmissão também foi realizada para Niterói, Petrópolis e São Paulo. Pelo mesmo sistema, à noite, a ópera O Guarany, de Carlos Gomes, encenada no Teatro Municipal, foi irradiada (Correio da Manhã, 8 de setembro de 1922, quinta colunaA União (RJ), 14 de setembro de 1922, quarta coluna).

Pixinguinha (1897 – 1973), em entrevista, disse que havia tocado durante as primeiras transmissões radiofônicas oficiais no Brasil. “Toquei num estudiozinho que havia lá e a Zaíra de Oliveira cantou”. O estúdio foi montado no pavilhão dos Estados Unidos.

Segundo Edgar Roquette-Pinto (1884 – 1954), presente no evento e considerado o pai da radiodifusão no Brasil, durante a Exposição de 1922:

“A verdade é que durante a exposição do centenário da Independência, em 1922, muito pouca gente se interessou pelas demonstrações experimentais da radiotelefonia, então realizadas pelas companhias norte-americanas Westinghouse, na estação do Corcovado e Western Electric na Praia Vermelha, muito pouco gente se interessou. Creio que a causa principal desse desinteresse foram os altos falantes instalados na exposição, ouvindo discursos e músicas reproduzidos no meio de um barulho infernal, tudo rofenho, distorcido, arranhando os ouvidos. Era uma curiosidade sem maiores conseqüências…”


“No começo de 1923, desmontava-se a estação do Corcovado, e a da Praia Vermelha ia seguir o mesmo destino se o governo não a comprasse. O Brasil ia ficar sem rádio… Ora eu vivia angustiado com essa história, porque já tinha a convicção profunda do valor informativo e cultural do sistema desde que ouvida as transmissões do Corcovado, meses antes conforme já marquei mais de uma vez, mas uma andorinha não faz verão… Resolvi interessar a Academia de Ciências, era presidente o nosso querido mestre Henrique Morize e eu era secretário, e assim que nasceu a radio Sociedade do Rio de Janeiro no dia 20 de abril de 1923.”

 

 

O fato é que, em 20 de abril de 1923, aquela que é considerada a primeira emissora radiofônica do Brasil, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, foi fundada tendo diversos associados, dentre eles os membros da Academia Brasileira de Ciências, influenciados pelo  engenheiro e astrônomo francês naturalizado brasileiro Henrique Morize (1860 -1930), primeiro presidente da instituição, cargo que exerceu entre 1916 e 1926, e também presidente da recém criada estação radiofônica; e por seu principal idealizador, justamente Edgar Roquette-Pinto, que se tornou secretário da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.

Lembramos aqui que, em torno de 1897, Morize realizava experiências no campo da imagem com o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) e com Tasso Fragoso (1869 – 1945), na época aluno da Escola Militar e posteriormente general. Em 1899, no consultório dos doutores Camilo Fonseca e Morize, foram realizadas experiências radiográficas nas gêmeas siamesas Rosalina e Maria Pinheiro, nascidas em 1893, no Espírito Santo, que chegaram ao Rio de Janeiro em junho (A Imprensa, 23 de junho de 1899, na terceira coluna). Morize foi diretor do Observatório Nacional entre 1908 e 1929 e o primeiro presidente da Academia Brasileira de Ciências, de 1916 a 1926.

A Rádio Sociedade Rio de Janeiro foi instituída como sociedade com fins exclusivamente educacionais e culturais e seu slogan era “Trabalhar pela cultura dos que vivem em nossa terra e pelo progresso do Brasil”. Em caráter experimental, a primeira transmissão da Rádio Sociedade aconteceu em 1º de maio de 1923, Dia do Trabalho, utilizando o prefixo PR1– A e, após, PRA-A e PRA-2 (O Paiz, 1º de maio de 1923, última coluna). Na ocasião, Roquette-Pinto declarou:

“A partir de agora todos os lares espalhados pelo imenso território do Brasil receberão livremente o conforto moral da ciência e da arte pelo milagre das ondas misteriosas que transportam, silenciosamente, no espaço, as harmonias.”

Foi a primeira emissora regular no Brasil e foi instalada, em 19 de maio de 1923, na sala de Física e Química da Escola Politécnica, no Largo de São Francisco (Correio da Manhã, 20 de maio de 1923, penúltima coluna).

 

 

 

Em 1936, foi doada por Roquette-Pinto ao Ministério da Educação e Saúde, então dirigido pelo ministro Gustavo Capanema (1900 -1985). Em 7 de setembro, foi realizada a cerimônia de doação da Rádio Sociedade, que passou a se chamar Rádio Ministério da Educação, popularmente Rádio Ministério e, atualmente, Rádio MEC.

 

 

Mas foi com a chegada de Getúlio Vargas (1882 – 1954) à presidência, em 1930, que a rádio começou a crescer, tornando-se o mais importante veículo de comunicação de massa do país. Em 1931, o governo começou a regulamentar a radiodifusão e aboliu as taxas pagas pelos ouvintes para que os aparelhos de rádio fossem instalados nas residências. No ano seguinte, a veiculação de anúncios comerciais pelo rádio passou a ser permitida. Com essas medidas, as emissoras foram se popularizando. No início da década de 1930, segundo a dissertação de mestrado Getúlio Vargas e o desenvolvimento do rádio no país: um estudo do rádio de 1930 a 1945, realizada por Luiz André de Oliveira, o Brasil contava com 19 emissoras de rádio. Em 1937, já eram 63 e, em 1945, 111. Assim iniciava-se a Era de Ouro do Rádio no Brasil, entre as décadas de 1940 e 1950, onde a Rádio Nacional se sobressaiu, tornando-se um fenômeno cultural no país. Durante esses cerca de 20 anos, as emissoras de rádio eram poderosas, irradiavam programas para todo o país e possuíam robustas estruturas administrativas e artísticas. Os programas era humorísticos, jornalísticos, musicais, esportivos e de dramatização. Com a popularização da televisão, a partir da década de 1960, o rádio foi perdendo seu protagonismo.

 

 

Brevíssimo perfil de Edgar Roquette-Pinto

 

 

O carioca Edgar Roquette-Pinto nasceu em 25 de setembro de 1884 e foi um brilhante intelectual tendo sido antropólogo, etnólogo, ensaísta, médico-legista e professor. Foi delegado do Brasil no Congresso de Raças, realizado em Londres, em 1911. Logo depois integrou a Missão Rondon e foi diretor do Museu Nacional entre 1915 e 1936. Foi, em 3 de maio de 1916, um dos fundadores da Academia Brasileira de Ciências. Foi o terceiro ocupante da Cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras, eleito em 20 de outubro de 1927.

Foi o representante do Brasil no 1º Congresso Indigenista Interamericano, reunido em Patzcuaro, no México, entre 14 e 24 de abril de 1940. Na ocasião, o dia 19 de abril foi escolhido como Dia do Índio (Correio da Manhã, 4 de abril de 1940, quarta colunaCorreio da Manhã, 6 de abril de 1940, terceira colunaDiário de Notícias, 26 de maio de 1940, quarta coluna Jornal do Brasil, 25 de maio de 1940, primeira coluna). Realizou centenas de curtas-metragens para apoiar o ensino nas escolas.

“Vários naturalistas famosos deram o nome de Roquette-Pinto a algumas espécies de plantas e animais: Endodermophyton Roquettei (Parasito da pele dos índios de Mato Grosso) por Olímpio da Fonseca; Alsophila Roquettei, por Brade e Rosenstock; Roquettia Singularis, por Melo Leitão; Phyloscartes Roquettei (pássaro do Brasil Central) por Snethlage; Agria Claudia Roquettei (borboleta) por May” (Site Academia Brasileira de Letras).

Faleceu, no Rio de Janeiro, em 18 de outubro de 1954, em sua residência, na Avenida Beira-Mar, 406. Foi velado na Academia Brasileira de Letras e enterrado em Petrópolis (Gazeta de Notícias, 19 de outubro de 1954, terceira coluna).

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Atlas Histórico do Brasil – FGV

BARROS, Maria Pia Fontes Lins de; WANDERLEY, Andrea C. T. Agenda do Centro de Documentação da TV Globo

BIANCO, Nelia del. O rádio ainda é relevante na sociedade do século 21. UNB Notícias, 2018.

CALABRE, Lia. A Era do Rádio. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 2002.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MASSARANI, Luisa; MOREIRA, Ildeu de Castro. A divulgação científica no Rio de Janeiro: um passeio histórico e o contexto atual in Revista Rio de Janeiro, set-dez de 2003.

OLIVEIRA, Luiz André Ferreira de. Getúlio Vargas e o desenvolvimento do rádio no país: um estudo do rádio de 1930 a 1945. Dissertação (Mestrado Profissional em Bens Culturais e Projetos Sociais) – FGV – Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2006.

Portal da Câmara dos Deputados

Revista Galileu, 26 de setembro de 2019

Site Academia Brasileira de Ciências

Site Academia Brasileira de Letras

Site Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo

Site Memorial da Democracia

Site Templo Cultural Delfos

WANDERLEY, Andrea C. T. Série “1922 – Hoje, há 100 anos” VIII – A abertura da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil e o centenário da primeira grande transmissão pública de rádio no país in Brasiliana Fotográfica, 7 de setembro de 2022

 

Uma breve história do abastecimento de água no Rio de Janeiro por Bárbara Primo e Maria Isabel Lenzi

As historiadoras Bárbara Primo, do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), e Maria Isabel Lenzi, do Museu Histórico Nacional (MHN), uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, são as autoras do artigo Uma breve história do abastecimento de água no Rio de Janeiro que resume os acontecimentos em torno do tema desde a instalação da cidade do Rio de Janeiro no Morro do Castelo, em meados do século XVI, até o princípio do século XX. Estão aqui disponibilizados três álbuns: dois com registros realizados pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) e um terceiro com fotografias de autoria desconhecida sob o título; Abastecimento D’Água: Obras executadas de 1907 a 1909. Os dois últimos fazem parte da Coleção Miguel Calmon, que foi ministro da Viação e Obras Públicas no governo de Afonso Pena, entre 1906 e 1909. O álbum sobre a canalização do rio São Pedro pertence à coleção Álbuns Iconográficos Avulsos e foi doado ao MHN por Oscar Trompowsky, em 1923.

 

Uma breve história do abastecimento de água no Rio de Janeiro

Bárbara Primo e Maria Isabel Lenzi*

 

 

A cidade do Rio de Janeiro, ao se instalar no Morro do Castelo, em 1557, encontrou um desafio: o abastecimento de água. Seus habitantes compravam água de indígenas e negros aguadeiros. Estes iam buscá-la no rio Carioca, que corria no vale que hoje denominamos de Laranjeiras e desaguava na praia do Flamengo. Com o pregão de “Hy! Hy! – palavra que na língua tupi significa água – o precioso líquido era anunciado à população.

Em 1673, no governo de João da Silva e Souza (1669-1674), foram iniciadas as obras da adução das águas do rio Carioca, mas os chamados Arcos Velhos da Carioca, de madeira, só seriam concluídos no início do século seguinte. Em 1723, sob o governo de Aires Saldanha, a água cristalina foi levada até o primeiro Chafariz da Carioca. O governo Gomes Freire de Andrade executou grandes reformas no aqueduto que, inaugurado em 1750, conserva ainda hoje as feições daquele tempo.

Com a mudança da corte portuguesa para o Rio de Janeiro e o consequente aumento da população, a água tornou-se escassa, obrigando as autoridades a buscarem outras fontes. Se até então a vertente Corcovado do Maciço da Tijuca era a mais usada, a partir do início do século XIX, os rios da vertente Tijuca seriam também aproveitados em diversos novos chafarizes e bicas que foram instalados na cidade.

 

 

O primeiro rio dessa vertente a ser aproveitado foi o rio Comprido que veio abastecer os chafarizes de Santana, do Catumbi e do Lagarto. Posteriormente, as águas do rio Maracanã foram também suprir esses chafarizes.

Com o passar do tempo, outros rios da vertente Tijuca foram incorporados ao abastecimento da cidade: o São João, o Trapicheiro, o Andaraí (ou Joana), o riacho da Cascatinha, o Gávea Pequena, o riacho do Hotel Aurora, o riacho A. Taylor e os córregos do Caranguejo, Soberbo, Morcego, Amaral e Machado.

A água, aos poucos, chegava às torneiras das residências. Todavia, este bem, tão fundamental à vida, deixava de ser gratuito, sendo incorporado definitivamente ao capital. As instituições públicas e as pessoas com maior poder aquisitivo, por óbvio, foram os pioneiros a ter água da torneira em casa e a mão de obra que pegava a água no chafariz público ficava cada vez mais escassa, pois a partir de 1850 o tráfico negreiro foi definitivamente abolido e muitos escravizados que viviam nas cidades foram vendidos para o Vale do Paraíba. Deste modo, o Rio de Janeiro seria palco e testemunha de uma série de transformações e avanços tecnológicos que, a partir da segunda metade do século XIX, vem responder a uma demanda advinda da escassez da mão de obra escravizada e de um aumento populacional e urbano.

O Rio sofre mais uma vez com falta d’água – os mananciais cariocas já não são mais suficientes para dar conta do abastecimento da cidade em franco crescimento, ainda dependente do Maciço da Tijuca como única fonte de abastecimento de água. O governo imperial contrata, então, o engenheiro Antonio Gabrielli (18? -?) para organizar comissões em busca de rios e fontes fora dos limites da cidade, sobretudo aqueles cujas nascentes estavam na serra do Tinguá, em Nova Iguaçu. Assim, entre os anos de 1877 e 1889, foram canalizadas as águas dos rios D’Ouro, Santo Antônio e São Pedro.

 

 

Para auxiliar as obras de canalização da Serra do Tinguá foi construída a ferrovia Rio D’Ouro. Ela percorria, inicialmente, 53 quilômetros entre o Caju e a Baixada Fluminense, mas ao longo dos anos, a estrada de ferro que serpenteava pelos subúrbios cariocas foi ampliada e acrescida de diversos ramais até atingir uma extensão total de mais de 100 quilômetros. O trajeto dos trilhos da Rio D’Ouro transformou a paisagem do seu percurso, condicionando a ocupação dos territórios do entorno e o surgimento de povoados ao longo do seu caminho.

 

 

Todavia, encontramos novamente crise de abastecimento no final do século XIX consequência da seca enfrentada pelos cariocas no início de 1889. Somada à escassez de água, a cidade enfrentava um surto de febre amarela e a crescente insatisfação popular já dava indícios da falência do Império. Em meio a este cenário, o engenheiro André Gustavo Paulo de Frontin (1860 – 1933)propôs como solução paliativa a captação provisória das águas da Serra do Tinguá para o reservatório de Pedregulho (Benfica). A ousadia da proposta, no entanto, não se deveu à grandiosidade da empreitada – canalização das águas por 18 km, mas ao tempo estimado para realizá-la: seis dias.

Diante de um problema tão grave e que já se arrastava por anos, a possibilidade de uma resolução tão imediata colocou em xeque a competência do já instável governo imperial. O apoio dos opositores do governo à proposta de Frontin e a repercussão do caso nos jornais fizeram deste um caso emblemático da crise político-social que conduziu o país à Proclamação da República em novembro deste mesmo ano.

Um pouco mais tarde, ao longo da primeira década do século XX, os rios Xerém e Mantiquira também foram domesticados de maneira a complementar o abastecimento da população carioca. Paralelamente à canalização de novos rios, diversas obras foram feitas para otimizar a distribuição e o tratamento as águas, como a construção de caixas de decantação, reservatórios e represas.

 

 

As novas possibilidades de fornecimento de água em domicílio traduziam-se em um maior comprometimento do poder público com a qualidade e armazenamento, o que resultou em novas práticas de controle deste fornecimento, assim como do consumo. É fato que a distribuição de água nas casas cariocas ocorreria de maneira desigual, privilegiando as famílias com maior poder aquisitivo.

Já em 1898 teve início a instalação de hidrômetros, mediante lei do ano anterior que regulamentava a cobrança de taxas. Assim, a distribuição de bicas e penas d’água acabaria por priorizar as freguesias mais abastadas em detrimento das regiões mais densamente povoadas.

 

 

O Museu Histórico Nacional preserva três álbuns com fotografias que documentam a domesticação da água no Rio de Janeiro. Dois deles trazem fotografias de Marc Ferrez. São eles: Obras de Canalização provisória do Rio S. Pedro, 1889 e Abastecimento D’Água do Rio de Janeiro. O terceiro álbum apresenta fotografias de autoria desconhecida sob o título Abastecimento D’Água: Obras executadas de 1907 a 1909. Os dois últimos fazem parte da Coleção Miguel Calmon, que foi ministro da Viação e Obras Públicas no governo de Afonso Pena, entre 1906 e 1909. O álbum sobre a canalização do rio São Pedro pertence à coleção Álbuns Iconográficos Avulsos e foi doado ao MHN por Oscar Trompowsky em 1923. Vale a pena apreciar essas fotografias.

 

Acessando o link para as fotografias do álbum Obras de Canalização provisória do Rio S. Pedro, 1889 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Acessando o link para as fotografias do álbum Abastecimento D’Água do Rio de Janeiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Acessando o link para as fotografias do álbum Abastecimento D’Água: Obras executadas de 1907 a 1909 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

*Bárbara Primo é historiadora do Instituto Brasileiro de Museus e Maria Isabel Lenzi é historiadora do Museu Histórico Nacional.

 

 

O Monumento do Ipiranga por Guilherme Gaensly

Com uma imagem realizada pelo fotógrafo suíço Guilherme Gaensly (1843 – 1928), por volta de 1902, a Brasiliana Fotográfica destaca o Monumento do Ipiranga, em São Paulo, que desde final do século XIX abriga o Museu do Ipiranga, sede do Museu Paulista na cidade de São Paulo, que completa 130 anos. O registro pertence ao acervo fotográfico da Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras do portal.

 

 

Gaensly foi o autor de importantes registros de São Paulo, vendidos como fotografias em papel albuminado e colotipias impressas na Suíça e comercializadas em álbuns. Em 1899, a empresa The São Paulo Railway, Light and Power Company, o contratou como fotógrafo oficial, função que exerceu até 1925, três anos antes de sua morte. Na ocasião, a presença da Light representava a modernização da área urbana e dos serviços da cidade. Apesar de nunca ter sido o fotógrafo oficial de São Paulo, como foi Augusto Malta (1864 – 1957) no Rio de Janeiro, Gaensly foi o autor de uma abrangente obra sobre a capital paulista nas primeiras décadas do século XX, o que o coloca nessa posição.

Ele e Militão Augusto de Azevedo (1837 – 1905) são considerados os fotógrafos que mais cultuaram São Paulo. Gaensly fotografou a cidade em plena transição para a modernidade, tendo registrado todos os aspectos urbanos da nova metrópole que surgia. Registrou a inauguração dos bondes elétricos que substituíram as carroças, o Jardim da Luz, a agitação do comércio na região do entorno da Praça da Sé, o crescimento da avenida Paulista, além do Museu do Ipiranga, palacetes, chácaras, edifícios públicos, igrejas, escolas, teatros e hospitais. Essas vistas de São Paulo foram comercializadas em álbuns impressos na Suíça a partir de fotografias em papel albuminado e de colotipias. Fotografou também a chegada de imigrantes italianos em Santos e em São Paulo. Dentre os prêmios que recebeu, está uma medalha de prata conquistada na Exposição Universal de Saint Louis, em 1904.

 

Breve histórico do Museu do Ipiranga ou Museu Paulista da Universidade de São Paulo

 

O arquiteto e engenheiro italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi (1844 – 1915), segundo o próprio indicado por Ignacio da Gama Cochrane (1836 – 1912), superintendente de obras públicas da Província de São Paulo, foi contratado, em 1882, pela Comissão Provincial do Monumento do Ipiranga para realizar o projeto de um monumento-edifício no local onde aconteceu o Grito do Ipiranga, em 7 de setembro de 1822. Sua escolha foi criticada pelo fato dele ser estrangeiro. Em 10 de dezembro de 1882, com a presença do governador de São Paulo, Francisco de Carvalho Soares Brandão(1839 – 1899), e de outras autoridades foi colocada a primeira pedra do monumento (Correio Paulistano, 11 de dezembro 1882, segunda coluna). Foi executado pelo mestre de obras Luigi Pucci (18? -?), também italiano. O edifício, localizado dentro do complexo do Parque Independência, foi construído entre 1885 e 1890. Em estilo eclético, tem 123 metros de comprimento e 16 metros de profundidade com muitos elementos decorativos e ornamentais. A técnica empregada, uma novidade na época, foi a da alvenaria de tijolos cerâmicos.  Em São Paulo ainda predominavam as técnicas vernaculares, de construção em taipa. O edifício é tombado pelo patrimônio histórico municipal, estadual e federal.

 

 

As obras encerraram-se em 1890 (Correio Paulistano, 24 de junho de 1890, segunda coluna). Houve a possibilidade de abrigar uma escola pública, mas, em 1892 foi decidido que o Museu do Estado, criado em 1890, seria transferido para o Edifício-Monumento.

Em 1893, instituiu-se o Museu Paulista, que foi inaugurado em 7 de setembro de 1895, no Monumento do Ipiranga  (Correio Paulistano, 8 de setembro de 1895, quinta coluna). Possui um acervo de mais de 125 mil unidades, entre objetos, iconografia e documentação textual, do século XVII até meados do século XX.

 

 

Assim as trajetórias do museu público mais antigo de São Paulo e do Monumento do Ipiranga se encontraram e, desde então, ele ficou conhecido como Museu do Ipiranga. O primeiro diretor do museu foi o zoólogo teuto-brasileiro Hermann von Ihering (1850 – 1930) e seu acervo originou-se na coleção particular do coronel Joaquim Sertório (18? – 1905). Em 1963, o Museu Paulista foi incorporado à Universidade de São Paulo.

O Museu do Ipiranga foi fechado para o público, em 2013, devido a suas péssimas condições físicas e estruturais. Em 2019, foi iniciada as obras de sua reforma, cujo custo foi estimado em 235 milhões de reais. Sua área construída foi dobrada e, a área expositiva, triplicada. O Jardim Francês e suas fontes foram recuperados. Foi reinaugurado em 7 de setembro de 2022, quando foi comemorado o bicentenário da Independência do Brasil. No dia seguinte, foi aberto ao público.

Uma das obras mais conhecidas de seu acervo é o quadro Independência ou Morte, pintado pelo artista Pedro Américo, em 1888.

 

 

Breve perfil de Tommaso Gaudenzio Bezzi (1844 – 1915)

 

 

Bezzi formou-se engenheiro, em Turim, onde nasceu em 18 de janeiro de 1844. Foi voluntário, nas campanhas de Giuseppe Garibaldi (1807 – 1882) para a unificação italiana. Também serviu como oficial do regimento de cavalaria do exército regular, comandado pelo Duque D’Aosta (1845 – 1890), tendo se destacado na Batalha de Custosa contra os austríacos. Foi ferido em combate diversas vezes e foi condecorado com medalhas pelas campanhas da Itália de 1860-1861-1866. Foi condecorado por bravura com uma medalha de prata. Em 1868, viajou para o Uruguai e Argentina.

Seu primeiro projeto no Brasil, para onde veio, na década de 1870, foi o edifício da alfândega de Fortaleza, realizado a pedido do governo imperial, em 1874 (Diário do Rio de Janeiro, 14 de abril de 1874, primeira coluna; Jornal do Commercio, 19 de julho de 1877, quarta colunaA Constituição (CE), 20 de novembro de 1874, penúltima coluna). Começou a trabalhar como engenheiro-arquiteto no Rio de Janeiro, onde, inicialmente, ficou hospedado na casa do Visconde do Rio Branco (1819 – 1880). Casou-se, em 26 de janeiro de 1876,  com Dona Francisca Nogueira da Gama Carneiro de Bellens, de uma nobre família brasileira (Diário do Rio de Janeiro, 10 de fevereiro de 1876, quinta coluna). A partir dessas relações entrou para o círculo íntimo do imperador Pedro II (1825 – 1891). O casal residia na Rua Bambina, em Botafogo.

Em 1876, foi designado para fiscalizar as obras da ponte da alfândega de Belém do Pará (A Constituição (PA), 19 de agosto de 1876, última coluna).

Na Exposição Antropológica Brasileira, inaugurada em 29 de julho de 1882, no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, na Sala Gabriel Soares, foram expostos produtos da arte plumária brasileira, adornos, tecidos e vestes de muitas tribos do Brasil, além das coleções arqueolíticas do Museu Nacional, de Amália Machado Cavalcanti de Albuquerque e dos senhores  Joaquim Monteiro Caminhoá (1836 – 1896), João Barbosa Rodrigues (1842 – 1909) e Tommaso G. Bezzi (1844 – 1915) (A Constituição (PA), 16 de agosto de 1882, terceira coluna). A mostra durou três meses e teve muito sucesso, com um público de mais de mil visitantes.

Ainda em 1882, a Comissão para o Monumento à Independência Brasileira, futuro Museu do Ipiranga, sede do Museu Paulista, cujo projeto vencedor foi o de Bezzi, o qualificou como arquiteto residente na Corte de reconhecido merecimento artístico (Correio Paulistano, 11 de dezembro de 1882, terceira coluna). Em 1883, Bezzi passou a residir em São Paulo, na Rua do Senador Florencio de Abreu, 43 (Correio Paulistano, 6 de julho de 1883, última coluna). Também em São Paulo projetou o ajardinamento da Praça da República, realizado entre 1902 e 1904 (Arquivo Histórico de São Paulo); e o Velódromo de São Paulo, inaugurado na década de 1890.

No Rio de Janeiro, além do Clube Naval, Bezzi projetou diversos prédios e residências, dentre eles o antigo Banco do Comércio, na Rua 1º de Março, e reformou o Edifício Itamarati, antiga sede do Ministério das Relações Exteriores, tendo construído sua ala esquerda.

Bezzi fundou algumas associações de fundo patriótico ligadas à Itália, dentre elas a Sociedade dos Combatentes Italianos pela unidade e pela independência da Itália, a Societa Veterani e Reduci e a Sociedade União Beneficente. Foi eleito membro honorário do Instituto de Engenheiros Civis de Londres, agraciado como Oficial da Legião de Honra da França e com o Hábito da Ordem Militar de São Maurício e São Lázaro, pelo governo da Itália. Era Comendador da Coroa Italiana e o representante no Brasil da Cruz Vermelha italiana (Jornal do Brasil, 30 de maio de 1915, sexta coluna).

Faleceu em 23 de maio de 1915, no Rio de Janeiro. Residia na Rua Cosme Velho, 57 (O Paiz, 24 de maio de 1915, terceira coluna; Correio da Manhã, de maio de 1915, penúltima coluna).

 

 

Andrea C. T. Wanderley
Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes

BREFE, Ana Claudia Fonseca. O Museu Paulista – Affonso de Taunay e a memória nacional. São Paulo : Editora UNESP, 2025.

EMERICH, Denise (autora); DIAS, Fabiano (tradutor). Museu Paulista: 120 anos de história | 120 years of history (PT/ING). São Paulo : Editora Brasileira, 2016.

NERY, Pedro. Arte, pátria e civilização: A formação dos acervos artísticos do Museu Paulista e da Pinacoteca do Estado de São Paulo, 1893-1912. Revista Fórum Permanente, dezembro de 2016.

ONO, Rosaria; LIMA, Solange Ferraz. O novo Museu do Ipiranga no Bicentenário da Independência do Brasil. São Paulo, 2022.

Site Arquitetura Italiana no Estado de São Paulo

Site Fflch – Enciclopédia de Antropologia

Augusto Malta e Jorge Kfuri, fundadores da Associação dos Photographos de Imprensa, em 1913

Hoje, no Dia do Repórter Fotográfico, a Brasiliana Fotográfica destaca a criação da Associação dos Photographos de Imprensa, provavelmente a primeira do gênero, no Brasil. Foi criada em 28 de outubro de 1913 e entre seus fundadores estavam Augusto Malta (1864 – 1957), que foi o fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro, entre 1903 e 1936; e Jorge Kfuri (1893 – 1965), autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, produzidas em 1916 – ambos representados no acervo fotográfico do portal e protagonistas de artigos acompanhados de cronologia publicados na Brasiliana Fotográfica. A fotografia abaixo, publicada na revista Fon-Fon, de 1º de novembro de 1913, está assinada por F. Garcia, o presidente da então recém criada associação.

 

 

Na ocasião, fotógrafos de jornais e revistas da então capital federal reuniram-se na casa 106, da Rua São José, criaram a associação e elegeram a seguinte diretoria, que regeria os destinos da entidade por um ano: na presidência, Francisco Garcia; na vice-presidência, Arthur do Carmo; Jayme Ramalho e Benjamin Vernaut, primeiro e segundo secretário, respectivamente; Carlos Chapelin, tesoureiro; e José Teixeira, procurador.

O objetivo da Associação dos Photographos de Imprensa era a união da classe, a assistência em caso de caso de doença, etc (Revista Moderna, 25 de outubro de 1913A Noite, 28 de outubro de 1913, última colunaCorreio da Manhã, 29 de outubro de 1913, quarta colunaO Paiz, 29 de outubro de 1913Fon-Fon, 1º de novembro de 1913).

 

 

Num artigo da Illustração Photographica (SP), de junho de 1919, intitulado Associação dos Photographos de Imprensa, os profissionais da classe foram criticados:

 

 

Tudo indica que a iniciativa não vingou por mais muito tempo porque logo nos primeiros dias de 1929 os fotógrafos de imprensa foram convocados para formar uma associação (A Noite, 3 de janeiro de 1929, segunda coluna).

 

Augusto Malta (1864 – 1957) e Jorge Kfuri (1893 – 1965)

 

Na imagem abaixo, Augusto Malta é o primeiro sentado à direita com sua inequívoca gravata de laço preto. A identificação de Jorge Kfuri, o terceiro, em pé, da esquerda para a direita, foi feita a partir da comparação com uma foto dele publicada na revista Vida Sportiva, de 12 de outubro de 1918.

 

 

 

 

As fotos de Malta foram divulgadas em guias turísticos, cartões-postais, revistas e publicações oficiais. Sua vasta produção fotográfica foi decisiva para a formação da identidade visual da Belle Époque no Rio de Janeiro e para a preservação da memória da cidade. Foi, sem dúvida, um importante incentivador do fotojornalismo no Brasil, tendo fornecido imagens de acontecimentos, pessoas, aspectos urbanos e paisagens para diversas revistas e jornais.

Nas primeiras décadas do século XX, Kfuri trabalhou nos jornais O Século e A Noite e produziu as primeiras fotografias aéreas do Brasil. Em 1920, foi aceito como associado na Associação Brasileira de Imprensa (Jornal do Brasil, 23 de junho de 1920, na penúltima coluna). No ano seguinte, naturalizou-se brasileiro e foi contratado como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval.

 

Para saber mais sobre a vida destes dois fotógrafos, acesse os seguintes artigos já publicados aqui na Brasiliana Fotográfica:

O alagoano Augusto Malta, fotógrafo oficial do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936, 10 de julho de 2015

Jorge Kfuri (1893 – 1965), autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, 26 de dezembro de 2019

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica