Ignacio Fernandes Mendo (18? – ?), um Fotógrafo da Casa Imperial pelas províncias do Nordeste do Brasil

Pouco se sabe, até hoje, sobre a vida, tanto pessoal como profissional, do fotógrafo brasileiro, provavelmente maranhense, Ignacio Fernandes Mendo (18? – ?). Fotógrafo itinerante, trabalhou em várias províncias da região Nordeste do Brasil e foi o último profissional a receber o título de Fotógrafo da Casa Imperial, concedido em 6 de agosto de 1889, por dom Pedro II (1825 – 1891), um entusiasta da fotografia. Ainda não se sabe que tipo de contato ele teve com o monarca e nem de como suas obras poderiam ter chegado para a apreciação do imperador.

Era também compositor e dedicou uma música às cataratas de Paulo Afonso. Sua cronologia é a 73ª publicada na seção Cronologia de Fotógrafos da Brasiliana Fotográfica, que reuniu as imagens de autoria de Mendo disponíveis em seu acervo fotográfico para que seus leitores conheçam um pouco do legado fotográfico deixado por ele. São fotos da Estrada de Ferro de Paulo Afonso, produzidas em 1880, e pertencem ao acervo fotográfico da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), uma das fundadoras do portal. É também o autor de uma das raras  fotografias existentes sobre as comemorações da abolição da escravidão no Brasil: registrou uma celebração realizada na Bahia no domingo seguinte à divulgação da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888.

 

O historiador Pedro Vasquez observou a respeito de Mendo em seu livro O Brasil na Fotografia Oitocentista (2003):

“É interessante notar que as mudanças de razão social da empresa espelham uma segurança profissional crescente [em Mendo]: começa com a Photographia Popular, em Sobral; passa para Photographia Maranhense, em Aracaju; e termina com a Photographia Universal, em Salvador, no ano de 1888 […] Particularmente interessantes são as vistas de Porto de Piranhas, onde já haviam precedido dois bons fotógrafos na década anterior, Abílio Coutinho e Augusto Riedel, transformando assim a distante e modesta vila situada às margens do Rio São Francisco numa referência para fotografia brasileira oitocentista”.

 

Nas fotografias destacadas nestes artigo, Mendo retratou a Estrada de Ferro de Paulo Afonso (EFPA ), que começou a ser construída justamente em Piranhas, em Alagoas, em 23 de outubro de 1878, tendo sido aberta ao tráfego dois anos depois, em 1880. O trecho final foi inaugurado em 2 de agosto de 1883, em Jatobá de Tacaratu, atual Petrolândia, em Pernambuco. Sua construção foi uma iniciativa do governo imperial  e objetivava conjugar interiorização e crescimento econômico. A EFPA havia sido idealizada pelo engenheiro militar e empresário abolicionista André Rebouças (1838 – 1898) com o propósito de ligar baixo e médio São Francisco, e socorrer os flagelados da terrível seca de 1877. O planejamento ficou a cargo do norte-americano William Milnor Roberts (1810 – 1881) e a autorização da obra foi dada por João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu (1810 – 1906), o Visconde de Sinimbu, alagoano e Conselheiro do Império.

 

 

Os registros de Mendo nos convidam a um passeio, passando pelo porto de Piranhas, por casas , cortes na mata, por trabalhadores e casas no caminho da estrada de ferro.

 

 

 

Acessando o link para as fotos de autoria de Ignacio Fernandes Mendo disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

De acordo com um anúncio de sua Photographia Popular, Mendo produzia fotografias pelos sistemas mais modernos adotados nas principais capitais da América e da Europa (Sobralense, 14 de março de 1875).

Mendo foi um dos fotógrafos cujas imagens integraram a exposição A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX, realizada entre 29 de janeiro e 23 de março de 1997, pela Biblioteca Nacional, no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Ainda em 1997, a exposição foi apresentada na Pinacoteca de São Paulo e no Museu Nacional de Belas Artes de Buenos Aires, na Argentina. Em 2000, foi apresentada no Centro Português de Fotografia, no Porto, em Portugal. Integraram também a exposição registros de autoria de Albert Frisch (1840 – 1918), Albert Richard Dietze (1838 – 1906), Arsênio da Silva (1833 – 1883), Augusto Amoretty (1845 – 1906), Augusto Riedel (1836 – ?), Benjamin R. Mulock (1829 – 1863), Felipe Augusto Fidanza (1844 – 1903), Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890), Henrique Rosen (1840 – 1892), Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912), Louis Niemeyer, Luis Terragno, Marc Ferrez (1843 – 1923), Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) e Victor Frond (1821 – 1881), dentre outros.

 

 

Cronologia de Ignacio Fernandes Mendo (18? – ?)

 

 

1866 – Ignacio Fernandes Mendo começou a atuar como fotógrafo provavelmente neste ano (SILVA, 2009).

Esteve, nos anos 1860, no Piauí (BASTOS, 1994), onde também atuavam, na referida década, os fotógrafos Joaquim Joze Avellino (18? -?), que abriu seu estabelecimento fotográfico, em Teresina, em 1865; Miguel Carlos (18? -?), que, em julho de 1868, anunciava ter um bom sortimento para o trabalho de fotografia; e Justino Rocha Pereira (18? -?), fotógrafo itinerante que, em 1860, esteve em Teresina (Liga e Progresso (PI), 3 de abril de 1865A Imprensa (PI), 18 de julho de 1868; e O Propagador (PI), 22 de abril de 1860).

1875 - Mendo anunciava os serviços de sua Photographia Popular, instalada na Rua Boa Vista, nº 15, em Sobral, no Ceará (Sobralense, 14 de março de 1875). Foi contemporâneo, no Ceará, de Joaquim Antônio Correia (18? – ?), autor de um conjunto de fotografias que pertence, atualmente, ao acervo da Biblioteca Nacional de vítimas da seca de 1877-1878.  São imagens chocantes, em formato de cartes de visite, e retratam crianças, homens e mulheres desnutridos e maltrapilhos, de aparência doentia. Também atuavam no estado, nos anos 1870, Pinto de Sampaio (18? -?), o prussiano Carlos Frederico Johann Reeckel (18? – c. 189?), do dinamarquês Niels Olsen (1843 –  1911) e o norte-americano R. H. Furmann (18? -?), dentre outros. Este último anunciou, em 1876, que era o único fotógrafo no Brasil que usava o Método Rembrant e o de porcelana para produzir fotografias (O Cearense, 21 de dezembro de 1871, primeira coluna; 2 de julho de 1874, terceira coluna; 30 de setembro de 1875, última coluna; 12 de março de 1876, terceira coluna; 25 de abril de 1879, terceira coluna12 de setembro de 1880, última coluna).

 

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Sobralense, 14 de março de 1875 / Transcrição copiada de BEZERRA (2019)

 

Meses depois, a Photographia Popular estava estabelecida, na Rua da Palma, nº 17, em Fortaleza (Pedro II (CE), 7 de novembro de 1875).

1876 - Passou por Açu, no Rio Grande do Norte (Correio do Assú, 25 de outubro de 1876).

 

Correio do Assu, 25 de setembro de 1876

Correio do Assu, 25 de setembro de 1876 / Transcrição copiada de BEZERRA (2019)

 

1878 - Encontrava-se em Alagoas, onde realizou uma série de vistas da cachoeira e da Estrada de Ferro de Paulo Afonso, e também do porto de Piranhas (BEZERRA, 2019). Viajantes estrangeiros, como Augusto Stahl (1828 – 1877) e Augusto Riedel (1836 – ?), e depois o brasileiro Marc Ferrez (1843 – 1923) também fotografaram a Cachoeira de Paulo Afonso.

 

 

1881 – Anunciou a abertura de seu estabelecimento fotográfico, a Photographia Maranhense, em Aracaju (Echo Sergipano, 24 de abril de 1881).

 

 

Correio do Assu,

Echo Sergipano, 24 de abril de 1881 / Transcrição copiada de BEZERRA (2019)

 

1884 – Seu estabelecimento fotográfico, a Photographia Maranhense, ficava na Rua Conde d´Eu, em Feira de Santana, na Bahia (Jornal da Feira (BA), 1º de agosto de 1884, primeira coluna).

 

 

1885 – Seu nome aparece na lista de estudantes da Faculdade de Medicina da Bahia para os exames da primeira série de Farmácia (BEZERRA, 2019).

1886 – Estava trabalhando em Cachoeira, mas tinha a intenção de se mudar para Salvador. Anunciava um processo rápido ideal para os retratos de pessoas nervosas ou crianças (A Ordem (Cachoeira, BA), 14 de abril de 1886).

1888 – Estava estabelecido na Photographia Universal, na rua Direita do Colégio, esquina com rua São José, em Salvador. Também atuavam como fotográfos, nos anos 1880, na cidade, o alemão Alberto Henschel (1827 – 1882) e o suíco Guilherme Gaensly (1843 – 1928), dentre outros.

 

 

Produziu uma das raras fotografias existentes sobre as comemorações da abolição da escravidão no Brasil, feita na Bahia, logo no domingo seguinte à divulgação da Lei Áurea (VASCONCELLOS, 2006).

 

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Phot. Universal de Ignacio Mendo. Cópia sobre cartão “Grande Missa Campal no adro do Bonfim, em ação de Graças pela redempção dos escravos no Brazil, em 13 de maio de 1888, celebrada pelo Padre Arsenio Pereira da Fonseca, deputado provincial pelo 1º districto e capellão da Libertadora Bahiana, sendo pregador o conego Dr. João Nepomuceno deputado pelo 4º districto e promovida por E. Carigé e o Club José Bonifácio” / Acervo Museu de Arte da Bahia

 

“O público da missa evidencia a diversidade social da cidade. Nesse primeiro plano, próximo ao fotógrafo, concentraram-se os homens afrodescendentes e brancos. Usam o mesmo modelo de paletó, gravata, chapéu e bigode. Isso demonstra que, fora do estúdio, homens afrodescendentes e brancos usavam os mesmos modelos de traje, enquanto as mulheres pretas se distinguiam pelo uso do turbante branco”.

 Christiane Silva de Vasconcellos

em O  circuito social da fotografia da gente negra Salvador 1860-1916, página 111

 

Anunciou que havia obtido diversas medalhas de ouro e que seguia produzindo retratos com perfeição e modicidade em preços (Folha Nova (BA), 4ª semana de setembro de 1888, primeira colunaA Locomotiva (BA), 13 de dezembro de 1888).

 

 

 

“Aos olhos do mundo civilizado apresentamos nessa página de honra a gravura que representa o edifício onde funciona a popularíssima fábrica Leite & Alves, nesta capital, à Caçada do Bom-fim, nº 95, cópia de uma bela fotografia do sr. Ignacio Mendo (A Locomotiva, 2 de dezembro de 1888).

 

 

 

1889 – Uma cópia fiel de uma fotografia da Grande Fábrica de Cigarros a Vapor de Martins Fernandes de sua autoria foi publicada (A Locomotiva, 13 de janeiro de 1889, primeira coluna).

 

 

 

Compôs uma música em homenagem às cataratas de Paulo Afonso: “Recebemos a polca Cachoeira Paulo Afonso – brilhante produção do nosso simpático amigo Ignacio Mendo, acreditado fotógrafo desta capital” (A Locomotiva (BA), 9 de fevereiro de 1889, primeira coluna).

 

 

Foi agraciado por dom Pedro II (1825 – 1891), um entusiasta da fotografia, com o título de Fotógrafo da Casa Imperial, em 6 de agosto de 1889, cerca de três meses antes da Proclamação da República no Brasil, em 15 de novembro do mesmo ano. No dia seguinte, 16 de novembro, a família real portuguesa foi banida do país (Decreto nº 2, 16 de novembro de 1889). Ainda não se sabe nem se ele teve contato com o imperador nem de como sua obra teria chegado à apreciação do monarca.

1997 – Foi um dos fotógrafos cujas imagens integraram a exposição A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX, realizada entre 29 de janeiro e 23 de março de 1997, pela Biblioteca Nacional, no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Integraram também a exposição registros de autoria de Albert Frisch (1840 – 1918), Albert Richard Dietze (1838 – 1906), Arsênio da Silva (1833 – 1883), Augusto Amoretty (1845 – 1906), Augusto Riedel (1836 – ?), Benjamin R. Mulock (1829 – 1863), Felipe Augusto Fidanza (1844 – 1903), Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890), Henrique Rosen (1840 – 1892), Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912), Louis Niemeyer, Luiz Terragno, Marc Ferrez (1843 – 1923), Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) e Victor Frond (1821 – 1881), dentre outros.

 

 

Entre 20 de abril e 25 de maio, foi apresentada na Pinacoteca de São Paulo.

Entre 4 e 31 de julho, foi apresentada no Museu Nacional de Belas Artes, em Buenos Aires, na Argentina.

2000 - A exposição A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX, foi realizada entre 8 de junho e 30 de julho de 2000, no Centro Português de Fotografia, no Porto, em Portugal.

2020 – Apresentação de A experiência da aceleração: paisagem, infraestrutura e o imaginário da modernidade no Brasil (1870/1910),  de Felipe Ziotti Narita, trabalho de pós-doutorado, ao Departamento de Sociologia e ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) como requisito para conclusão de pesquisa junto ao Programa de Pós-Doutorado (PPD/UFSCar).

Sobre o álbum das obras da Estrada de Ferro Paulo Afonso, produzido por Ignacio Mendo, Narita comentou:

“Ignacio Mendo foi fotógrafo da Casa Imperial nos anos 1880, quando também acompanhou as obras da Estrada de Ferro de Paulo Afonso. O álbum, com vapores e caminhos de ferro cruzando casebres precários e construções muitos dispersas, além de assinalar as condições de um território ermo, privilegia paisagens e perspectivas abertas, realçando um esvaziamento da própria figura humana. Exceto pequenas aparições de trabalhadores dos trechos ferroviários na paisagem vazia (Figura 125), predomina um desenho temático completamente ausente de movimento (Figuras 126, 127 e 128). A atmosfera estacionária do vazio oferece o material bruto a partir do qual as linhas de força do sistema-mundo moderno subsumia os mais remotos rincões à lógica social da circulação e da produção”.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BASTOS, Cláudio. Dicionário histórico e geográfico do Piauí. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1994.

BEZERRA, Ari Leite. História da fotografia no Ceará do século XIX. Edição do autor, 2019. Página 152

CASTRO, Danielle Ribeiro de. PHOTOGRAPHOS DA CASA IMPERIAL A Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX. Monografia apresentada ao curso de PósGraduação em História da Arte da Fundação Armando Álvares Penteado, como exigência parcial para obtenção do certificado de conclusão, sob a orientação de Rubens Fernandes Junior, 2010.

Enciclopédia Itaú Cultural

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

——————-Origens e expansão da fotografia no Brasil: século XIX. Rio de Janeiro: Funarte, 1980

NARITA, Felipe Ziotti. A experiência da aceleração: paisagem, infraestrutura e o imaginário da modernidade no Brasil (1870/1910). Relatório de pós-doutorado apresentado ao Departamento de Sociologia e ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) como requisito para conclusão de pesquisa junto ao Programa de Pós-Doutorado (PPD/UFSCar), 2020.

OLIVEIRA, Evelina Antunes. Nos Trilhos da História do Baixo São Francisco: um ensaio sobre a Estrada de Ferro Paulo Afonso in Mneme Revista de Humanidades, V.4 – N.8 – abr./set. de 2003– Semestral.

SILVA, TELMA Cristina Damasceno. A fotografia artística na Bahia e sua inserção nos salões oficiais de arte. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, Escola de Belas Artes, Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Artes Visuais., 2009.

VASCONCELLOS, Christiane Silva de. O  circuito social da fotografia da gente negra Salvador 1860-1916. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em História sob a orientação da Prof. Dr. Joao Jose Reis, 2006.

VASQUEZ, Pedro Karp. A fotografia no Império. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

—————————Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho: Companhia Internacional de Seguros: Ed. Index, 1985.

—————————O Brasil na Fotografia Oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.

Cronologia de Ignacio Fernandes Mendo (18? – ?)

Cronologia de Ignacio Fernandes Mendo (18? – ?)

 

 

1866 – Ignacio Fernandes Mendo começou a atuar como fotógrafo provavelmente neste ano (SILVA, 2009).

Esteve, nos anos 1860, no Piauí (BASTOS, 1994), onde também atuavam, na referida década, os fotógrafos Joaquim Joze Avellino (18? -?), que abriu seu estabelecimento fotográfico, em Teresina, em 1865; Miguel Carlos (18? -?), que, em julho de 1868, anunciava ter um bom sortimento para o trabalho de fotografia; e Justino Rocha Pereira (18? -?), fotógrafo itinerante que, em 1860, esteve em Teresina (Liga e Progresso (PI), 3 de abril de 1865A Imprensa (PI), 18 de julho de 1868; e O Propagador (PI), 22 de abril de 1860).

1875 - Mendo anunciava os serviços de sua Photographia Popular, instalada na Rua Boa Vista, nº 15, em Sobral, no Ceará (Sobralense, 14 de março de 1875). Foi contemporâneo, no Ceará, de Joaquim Antônio Correia (18? – ?)autor de um conjunto de fotografias que pertence, atualmente, ao acervo da Biblioteca Nacional de vítimas da seca de 1877-1878.  São imagens chocantes, em formato de cartes de visite, e retratam crianças, homens e mulheres desnutridos e maltrapilhos, de aparência doentia. Também atuavam no estado, nos anos 1870, Pinto de Sampaio (18? -?), o prussiano Carlos Frederico Johann Reeckel (18? – c. 189?), do dinamarquês Niels Olsen (1843 –  1911) e o norte-americano R. H. Furmann (18? -?), dentre outros. Este último anunciou, em 1876, que era o único fotógrafo no Brasil que usava o Método Rembrant e o de porcelana para produzir fotografias (O Cearense21 de dezembro de 1871, primeira coluna2 de julho de 1874, terceira coluna30 de setembro de 1875, última coluna12 de março de 1876, terceira coluna25 de abril de 1879, terceira coluna12 de setembro de 1880, última coluna).

 

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Sobralense, 14 de março de 1875 / Transcrição copiada de BEZERRA (2019)

 

Meses depois, a Photographia Popular estava estabelecida, na Rua da Palma, nº 17, em Fortaleza (Pedro II (CE), 7 de novembro de 1875).

1876 - Passou por Açu, no Rio Grande do Norte (Correio do Assú, 25 de outubro de 1876).

 

Correio do Assu, 25 de setembro de 1876

Correio do Assu, 25 de setembro de 1876 / Transcrição copiada de BEZERRA (2019)

 

1878 - Encontrava-se em Alagoas, onde realizou uma série de vistas da cachoeira e da Estrada de Ferro de Paulo Afonso, e também do porto de Piranhas (BEZERRA, 2019). Viajantes estrangeiros, como Augusto Stahl (1828 – 1877) e Augusto Riedel (1836 – ?), e depois o brasileiro Marc Ferrez (1843 – 1923) também fotografaram a Cachoeira de Paulo Afonso.

 

 

1881 – Anunciou a abertura de seu estabelecimento fotográfico, a Photographia Maranhense, em Aracaju (Echo Sergipano, 24 de abril de 1881).

 

 

Correio do Assu,

Echo Sergipano, 24 de abril de 1881 / Transcrição copiada de BEZERRA (2019)

 

1884 – Seu estabelecimento fotográfico, a Photographia Maranhense, ficava na Rua Conde d´Eu, em Feira de Santana, na Bahia (Jornal da Feira (BA), 1º de agosto de 1884, primeira coluna).

 

 

1885 – Seu nome aparece na lista de estudantes da Faculdade de Medicina da Bahia para os exames da primeira série de Farmácia (BEZERRA, 2019).

1886 – Estava trabalhando em Cachoeira, mas tinha a intenção de se mudar para Salvador. Anunciava um processo rápido ideal para os retratos de pessoas nervosas ou crianças (A Ordem (Cachoeira, BA), 14 de abril de 1886).

1888 – Estava estabelecido na Photographia Universal, na rua Direita do Colégio, esquina com rua São José, em Salvador. Também atuavam como fotográfos, nos anos 1880, na cidade, o alemão Alberto Henschel (1827 – 1882) e o suíco Guilherme Gaensly (1843 – 1928), dentre outros.

 

 

Produziu uma das raras fotografias existentes sobre as comemorações da abolição da escravidão no Brasil, feita na Bahia, logo no domingo seguinte à divulgação da Lei Áurea (VASCONCELLOS, 2006).

 

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Phot. Universal de Ignacio Mendo. Cópia sobre cartão “Grande Missa Campal no adro do Bonfim, em ação de Graças pela redempção dos escravos no Brazil, em 13 de maio de 1888, celebrada pelo Padre Arsenio Pereira da Fonseca, deputado provincial pelo 1º districto e capellão da Libertadora Bahiana, sendo pregador o conego Dr. João Nepomuceno deputado pelo 4º districto e promovida por E. Carigé e o Club José Bonifácio” / Acervo Museu de Arte da Bahia

 

“O público da missa evidencia a diversidade social da cidade. Nesse primeiro plano, próximo ao fotógrafo, concentraram-se os homens afrodescendentes e brancos. Usam o mesmo modelo de paletó, gravata, chapéu e bigode. Isso demonstra que, fora do estúdio, homens afrodescendentes e brancos usavam os mesmos modelos de traje, enquanto as mulheres pretas se distinguiam pelo uso do turbante branco”.

 Christiane Silva de Vasconcellos

em O  circuito social da fotografia da gente negra Salvador 1860-1916, página 111

 

Anunciou que havia obtido diversas medalhas de ouro e que seguia produzindo retratos com perfeição e modicidade em preços (Folha Nova (BA), 4ª semana de setembro de 1888, primeira colunaA Locomotiva (BA), 13 de dezembro de 1888).

 

 

“Aos olhos do mundo civilizado apresentamos nessa página de honra a gravura que representa o edifício onde funciona a popularíssima fábrica Leite & Alves, nesta capital, à Caçada do Bom-fim, nº 95, cópia de uma bela fotografia do sr. Ignacio Mendo (A Locomotiva, 2 de dezembro de 1888).

 

 

 

1889 – Uma cópia fiel de uma fotografia da Grande Fábrica de Cigarros a Vapor de Martins Fernandes de sua autoria foi publicada (A Locomotiva, 13 de janeiro de 1889, primeira coluna).

 

 

 

Compôs uma música em homenagem às cataratas de Paulo Afonso: “Recebemos a polca Cachoeira Paulo Afonso – brilhante produção do nosso simpático amigo Ignacio Mendo, acreditado fotógrafo desta capital” (A Locomotiva (BA), 9 de fevereiro de 1889, primeira coluna).

 

 

Foi agraciado por dom Pedro II (1825 – 1891), um entusiasta da fotografia, com o título de Fotógrafo da Casa Imperial, em 6 de agosto de 1889, cerca de três meses antes da Proclamação da República no Brasil, em 15 de novembro do mesmo ano. No dia seguinte, 16 de novembro, a família real portuguesa foi banida do país (Decreto nº 2, 16 de novembro de 1889). Ainda não se sabe nem se ele teve contato com o imperador nem de como sua obra teria chegado à apreciação do monarca.

1997 – Foi um dos fotógrafos cujas imagens integraram a exposição A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX, realizada entre 29 de janeiro e 23 de março de 1997, pela Biblioteca Nacional, no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Integraram também a exposição registros de autoria de Albert Frisch (1840 – 1918), Albert Richard Dietze (1838 – 1906), Arsênio da Silva (1833 – 1883), Augusto Amoretty (1845 – 1906), Augusto Riedel (1836 – ?), Benjamin R. Mulock (1829 – 1863), Felipe Augusto Fidanza (1844 – 1903), Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890), Henrique Rosen (1840 – 1892), Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912), Louis Niemeyer, Luiz Terragno, Marc Ferrez (1843 – 1923), Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) e Victor Frond (1821 – 1881), dentre outros.

 

 

Entre 20 de abril e 25 de maio, foi apresentada na Pinacoteca de São Paulo.

Entre 4 e 31 de julho, foi apresentada no Museu Nacional de Belas Artes, em Buenos Aires, na Argentina.

2000 - A exposição A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX, foi realizada entre 8 de junho e 30 de julho de 2000, no Centro Português de Fotografia, no Porto, em Portugal.

2020 – Apresentação de A experiência da aceleração: paisagem, infraestrutura e o imaginário da modernidade no Brasil (1870/1910),  de Felipe Ziotti Narita, trabalho de pós-doutorado, ao Departamento de Sociologia e ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) como requisito para conclusão de pesquisa junto ao Programa de Pós-Doutorado (PPD/UFSCar).

Sobre o álbum das obras da Estrada de Ferro Paulo Afonso, produzido por Ignacio Mendo, Narita comentou:

“Ignacio Mendo foi fotógrafo da Casa Imperial nos anos 1880, quando também acompanhou as obras da Estrada de Ferro de Paulo Afonso. O álbum, com vapores e caminhos de ferro cruzando casebres precários e construções muitos dispersas, além de assinalar as condições de um território ermo, privilegia paisagens e perspectivas abertas, realçando um esvaziamento da própria figura humana. Exceto pequenas aparições de trabalhadores dos trechos ferroviários na paisagem vazia (Figura 125), predomina um desenho temático completamente ausente de movimento (Figuras 126, 127 e 128). A atmosfera estacionária do vazio oferece o material bruto a partir do qual as linhas de força do sistema-mundo moderno subsumia os mais remotos rincões à lógica social da circulação e da produção”.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BASTOS, Cláudio. Dicionário histórico e geográfico do Piauí. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1994.

BEZERRA, Ari Leite. História da fotografia no Ceará do século XIX. Edição do autor, 2019. Página 152

CASTRO, Danielle Ribeiro de. PHOTOGRAPHOS DA CASA IMPERIAL A Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX. Monografia apresentada ao curso de PósGraduação em História da Arte da Fundação Armando Álvares Penteado, como exigência parcial para obtenção do certificado de conclusão, sob a orientação de Rubens Fernandes Junior, 2010.

Enciclopédia Itaú Cultural

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

——————-Origens e expansão da fotografia no Brasil: século XIX. Rio de Janeiro: Funarte, 1980

NARITA, Felipe Ziotti. A experiência da aceleração: paisagem, infraestrutura e o imaginário da modernidade no Brasil (1870/1910). Relatório de pós-doutorado apresentado ao Departamento de Sociologia e ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) como requisito para conclusão de pesquisa junto ao Programa de Pós-Doutorado (PPD/UFSCar), 2020.

SILVA, TELMA Cristina Damasceno. A fotografia artística na Bahia e sua inserção nos salões oficiais de arte. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, Escola de Belas Artes, Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Artes Visuais., 2009.

VASCONCELLOS, Christiane Silva de. O  circuito social da fotografia da gente negra Salvador 1860-1916. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em História sob a orientação da Prof. Dr. Joao Jose Reis, 2006.

VASQUEZ, Pedro Karp. A fotografia no Império. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

—————————Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho: Companhia Internacional de Seguros: Ed. Index, 1985.

—————————O Brasil na Fotografia Oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.

Série “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” VIII – O Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, fotografado por Angelo Regato e por fotógrafos ainda não identificados

Com imagens do Estádio do Maracanã do acervo dos Diários Associados – Rio de Janeiro, conjunto de fotos incorporado, em 2016, por um dos fundadores da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles, o portal publica o oitavo artigo da série Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica, celebrando os 76 anos de uma das arenas esportivas mais icônicas do planeta, um templo do futebol mundial, símbolo de uma das grandes paixões nacionais, patrimônio cultural brasileiro e orgulho dos cariocas. Foi construída para a Copa de 1950.

 

 

Os registros são de autoria de fotógrafos ainda não identificados e do italiano Angelo Regato (1912 – 1993), que ficou conhecido como um dos primeiros fotojornalistas a usar uma teleobjetiva no Brasil, provavelmente o primeiro. Chefiou o Departamento de Fotografia dos Diários Associados de 1952 até 1975, quando se aposentou, encerrando sua carreira no Jornal do Commercio. Sobre ele, publicamos um breve perfil e uma cronologia, a 72ª da seção Cronologia de Fotógrafos, da Brasiliana Fotográfica. Selecionamos também imagens aéreas do Maracanã do acervo do Museu Aeroespacial, uma das instituições parceiras do portal. Mostram o estádio, carinhosamente apelidado de Maraca, ainda sendo construído, em 1949, e também do ano de sua inauguração, ocorrida em 16 de junho de 1950. Vida longa ao Maraca!

 

 

 

Acessando o link para as fotografias do Estádio do Maracanã pertencente ao acervo da Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Didi e Pelé por Cássio Loredano. Didi marcou o primeiro gol do Maracanã e Pelé marcou seu milésimo gol no estádio

Didi e Pelé por Cássio Loredano. Didi foi o autor do primeiro gol marcado no Maracanã e Pelé marcou seu primeiro gol pela seleção brasileira e também seu milésimo gol no estádio / Pasmado, 3 de junho de 2026

 

A partir de algumas fotografias exibidas neste artigo, mais uma vez pode-se constatar que as hemerotecas digitais, no caso a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, são ferramentas de pesquisa poderosas e indispensáveis, principalmente na busca de registros históricos nos periódicos. Porém, devido a velhos sistemas de impressão, as imagens ficam prejudicadas. Daí a importância da conservação dos acervos fotográficos originais, que nenhuma hemeroteca conserva com a mesma nitidez. 

 

 

 

 

Em 1946, o Brasil foi escolhido pela FIFA como sede da Copa do Mundo de 1950 e precisava de um grande estádio para receber os jogos. A construção do Maracanã foi muito criticada pelo então vibrante e emergente orador e vereador pela União Democrática Nacional (UDN), Carlos Lacerda (1914 – 1977), devido aos gastos e à localização escolhida para o estádio, defendendo que fosse edificado em Jacarepaguá. O compositor Ary Barroso (1903 – 1964), já consagrado internacionalmente, então vereador no Rio de Janeiro, também pela UDN, e defensor da construção do estádio no terreno do antigo Derby Club, na Tijuca, encomendou ao Ibope uma pesquisa de opinião para que a população escolhesse entre os dois locais. O instituto fez a pesquisa durante jogos dos principais clubes de futebol cariocas. Resultado: 56,8% dos entrevistados escolheram o Derby Club e 9,7%, Jacarepaguá; 6,9% sugeriram outras regiões como Centro, Gávea, Quinta da Boavista e Cascadura. Além disso, 79,2% achavam necessária a construção de um estádio para a cidade e 53,6% se dispunham a arcar com algum ônus tributário para que a prefeitura financiasse a obra. O poeta venceu o tribuno!

A pedra fundamental do Estádio do Maracanã foi lançada em 20 de janeiro de 1948. O coronel Herculano Gomes (1899 – 1963) presidia a Comissão de Construção do Estádio Municipal. Seus arquitetos eram Antonio Dias Carneiro, Orlando Azevedo, Pedro Paulo Bernardes Bastos e Rafael Galvão.  E seus engenheiros estruturais, Alberto Rodrigues da Costa, Antonio Alves Noronha, Paulo Fragoso e Sergio Matos de Souza (O Jornal, 21 de janeiro de 1948).

 

 

 

 

Em junho de 1948, Angelo Regato registrou o local onde seria erguido o Maracanã e as obras ainda não haviam sido iniciadas.

 

 

 

 

O maior estádio do mundo* começou a ser erguido em 17 de agosto de 1948, cerca de sete meses após o lançamento de sua pedra fundamental (Diário da Noite, 17 de agosto de 1948, terceira coluna). No inicio das obras, havia 1.500 homens trabalhando. Nos últimos meses eram 3.000 operários. “A arquitetura de formato oval mede 317 metros no eixo maior e 279 metros no menor. A altura do estádio corresponde a um prédio de seis andares. Os ferros utilizados dariam volta e meia no planeta; foram 500 mil sacos de cimento, 60.000 m2 de pedras e 45.000 m2 de areia” (Jornal da Unicamp, 22 de abril e 4 de maio de 2003).

 

 

O Maracanã foi inaugurado com a presença do então presidente da República, general Eurico Gaspar Dutra (1883 – 1974), de todos os seus ministros, do prefeito do Rio de Janeiro, o general Ângelo Mendes de Moraes (1894 – 1990), e de várias outras autoridades. Foi abençoado pelo cardeal dom Jaime Câmara (1894 – 1971). Tornou-se o maior estádio de futebol do mundo, com capacidade técnica para cerca de 155.000 a 200.000 pessoas, superando o Hampden Park, na Escócia. Atualmente, o Maracanã é o 25º – hoje só pode abrigar oficialmente 94 751 pessoas. O maior do mundo é o Estádio Rungrado Primeiro de Maio (114.000 lugares), na Coreia do Norte, inaugurado em 1º de maio de 1989 (Diário da Noite, 16 de junho de 1950; Site Lance).

 

 

 

Sobre a grandiosidade da obra titânica, a maior construção em concreto armado até então realizada, com capacidade para mais de 150 mil pessoas, José Lins do Rego (1901 – 1957) escreveu:

 

 

No dia seguinte à inauguração, foi realizado um jogo entre as seleções do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os paulistas venceram por 3 a 1, mas foi o carioca Didi (1928 – 2001), do Fluminense, que marcou o primeiro gol no estádio (O Jornal, 18 de junho de 1950).

 

 

Poucos dias depois, foi o palco da abertura da Copa do Mundo de 1950, em 24 de junho, quando a seleção brasileira goleou a mexicana por 4 a 0 (Diário da Noite 24 de junho de 1950 e 26 de junho de 1950). E também foi o cenário da final docampeonato, em 16 de julho, que ficou conhecida como Maracanaçoquando o Brasil foi derrotado pelo Uruguai por 2 a 1. Foi, como escreveu Nelson Rodrigues (1912 – 1980), a nossa Hiroshima: “Uma humilhação jamais cicatrizada, que ainda pinga sangue”. O Maracanã, com quase 200 mil pessoas, oficialmente 199.584, até hoje recorde de espectadores em um jogo de futebol, ficou em silêncio. Foi uma verdadeira tragédia esportiva nacional. Antonio Olinto (1919 – 2009), José Lins do Rego e Vargas Neto (1903 – 1977) publicaram crônicas sobre a derrota no Jornal dos Sports, de 18 de julho de 1950.

 

A Derrota

José Lins do Rego

“Vi um povo de cabeça baixa, de lágrimas nos olhos, sem fala, abandonar o Estádio Municipal, como se voltasse de enterro de um pai muito amado. Vi um povo derrotado, e mais que derrotado, sem esperança. Aquilo me doeu o coração. Toda a vibração dos minutos iniciais da partida reduzida a uma pobre cinza de fogo apagada. E, de repente, chegou-me a decepção maior, a ideia fixa de que éramos mesmo um povo sem sorte, um povo sem as grandes alegrias das vitórias, sempre perseguido pelo azar, pela mesquinharia do destino. A vil tristeza de Camões, a vil tristeza dos que nada tem a esperar, seria assim o alimento podre dos nossos corações. Não dormi, senti-me alta noite, como que mergulhado num pesadelo. E não era pesadelo, era a terrível realidade da derrota”.

 

Sobre o assunto, o jornalista e caricaturista Cássio Loredano escreveu o artigo Tempo e placar do Maracanaço, na seção “Por dentro dos acervos”, do Instituto Moreira Salles, de 13 de julho de 2020. Nele publicou “três instantâneos metidos numa das dezenas de pastas do assunto ‘futebol’ no arquivo fotográfico dos Diários Associados no Rio, atualmente incorporado ao acervo do Instituto Moreira Salles. E aqui se publicam pela primeira vez”. Eram os placares da terrível derrota.

 

“E aí está. Às 4:15 está Brasil 1 a 0, Friaça marcara a 1 minuto e meio do segundo tempo. 

 

 

Aos 20, Schiaffino empatou, placar às 4:29.

 

 

E três minutos depois Ghiggia tinha posto o 2 lá em cima. Fazendo o que se orgulhava de só ele, Frank Sinatra e João Paulo II terem conseguido: calar o estádio que vaiava até minuto de silêncio”.

Cássio Loredano

 

Cerca de oito anos depois, às vésperas do Copa do Mundo de 1958, na Suécia, Nélson Rodrigues, em uma crônica publicada na Manchete Esportiva de 31 de maio de 1958, referiu-se à derrota de 1950 e declarou: …desde 50, nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. Foi também nesta crônica que criou a expressão complexo de vira-latas.

As seleções brasileira e uruguaia voltaram a se enfrentar numa Copa do Mundo, desta vez no México, em 17 de junho de 1970, no Estádio Jalisco, em Guadalajara, em um dos jogos da semifinal do campeonato. O Brasil venceu de 3 a 1  e os gols foram marcados por Clodoaldo (1949-), Jairzinho (1944-) e Rivelino (1946-). Pelo Uruguai, Luis Cubilla (1940 – 2013).  O Brasil eliminou o Uruguai  e superou o fantasma de 1950.

 

 

Continuando a história do Maracanã…

 

Em 1966, o nome oficial do Maracanã passou a ser Estádio Jornalista Mário Filho, a partir de um projeto apresentado pelo deputado Jamil Haddad (1926-2009) e subscrito pelo deputado Raul Brunini (1919 – 2009); aprovado em 27 de setembro de 1966, poucos dias após o falecimento de Mário Filho (1908 – 1966), em 16 de setembro. Mário Filho foi um dos maiores apoiadores da construção do Maracanã e a ideia do novo nome para o estádio foi de Waldir Amaral (1926–1997), um dos maiores locutores esportivos do rádio brasileiro (Jornal dos Sports20 de setembro de 196628 de setembro de 1966). Em 8 de abril de 2021, o então governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (1979 -), tornou público o veto à lei que mudava o nome do Estádio do Maracanã. Com isso, o projeto que pretendia alterar o nome oficial de Estádio Jornalista Mário Filho para Rei Pelé foi arquivado.  A decisão de mudança havia sido tomada em março deste ano pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e o pedido de desistência foi feito pelo então presidente da Casa, André Ceciliano (1968-), um dos idealizadores do projeto que tinha como intuito, segundo ele, homenagear Pelé (1940 -2022) em vida (Portal dos Jornalistas, 9 de abril de 2021).

 

 

Maraca também foi a sede da final da Copa do Mundo de 2014, das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Pan-Americanos de 2007 e dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016, quando em seus gramado a seleção brasileira de futebol conquistou o ouro olímpico derrotando a Alemanha nos pênaltis. Sediou campeonatos estaduais, a Copa Rio, Mundiais de Clubes. Foi no Maracanã que Mané Garrincha (1933 – 1983) consagrou-se com a camisa do Botafogo e da seleção brasileira, tendo feito lá seu jogo de despedida em 19 de dezembro 1973. Foi no seu gramado que Pelé marcou seu primeiro gol pela seleção brasileira em 7 de julho de 1957, na derrota por 2 a 1 para a Argentina, pela Copa Roca; e também seu milésimo gol, em  19 de novembro de 1969, durante a vitória do Santos por 2 a 1 contra o Vasco, pela Taça de Prata.

Foi também palco de grandes shows como o dos cantores Frank Sinatra (1915 – 1998), em janeiro de 1980; e Paul McCartney (1942-), em abril de 1990 e em dezembro de 2023; e das cantoras Tina Turner (1939 – 2023), em janeiro de 1998; Madonna (1958 -), em novembro de 1993 e em dezembro de 2008; e Ivete Sangalo (1972 -), em dezembro de 2006. Além disso, o papa João Paulo II rezou missas no estádio em julho de 1980 e em outubro de 1987; e o estádio sediou o festival de música Rock in Rio II, em janeiro de 1991.

Alguns importantes eventos esportivos não futebolísticos aconteceram lá. Um deles, em 23 de outubro de 1951, com a presença do vice-presidente Café Filho (1899 – 1970), quando foi realizado um duelo de artes marciais entre o brasileiro Hélio Gracie (1913 – 2009), lutador de jiu-jitsu; e o judoca japonês Masahiko Kimura (1917 – 1993), vencedor do combate (Correio da Manhã, 24 de outubro de 1951).

 

 

Em 2000, nas comemorações de seus 50 anos, o Maracanã ganhou uma Calçada da Fama com as marcas dos pés de vários jogadores como Romário (1966 -), Ronaldo Fenômeno (1976 -) e Zico (1953 -).

O estádio deixou de ser o maior do mundo com as obras para os Jogos Pan-americanos de 2007, quando o campo foi rebaixado e o setor conhecido como Geral foi eliminado – era o espaço mais democrático e popular do futebol. A maior reforma realizada no Maracanã ocorreu entre 2010 e 2013 para adequar o estádio para a Copa de 2014 dentro do padrão Fifa. Tornou-se mais confortável, mas para muitos perdeu sua identidade histórica, que fazia dele uma arena única e especial. Para os Jogos Olímpicos de 2016, foram realizadas novas intervenções para adequar o estádios às cerimônias de abertura e encerramento do evento (Valor Econômico, 8 de outubro de 2012Site OneFootball).

 

 

 

Brevíssimo perfil do fotojornalista Angelo Regato (1912 – 1993)

 

Mineiro de Estrela Dalva, Angelo Regato nasceu em 27 de outubro de 1912 e, ainda na juventude, veio para o Rio de Janeiro. Começou a se aproximar do jornalismo, em 1929, quando foi empregado na empresa de teatro e cinema de Paschoal Carlos Magno (1906 – 1980). Ele levava os anúncios dos filmes e das peças para os jornais. No ano seguinte, começou a trabalhar como fotógrafo no jornal A Pátria, onde permaneceu até 1940Sua máquina fotográfica era a alemã Contessa Nettel. Desta época até meados da década de 1930, trabalhava à noite como porteiro de cinema ou montador de cartaz.

Em entrevista, Regato comentou as condições de trabalho dos fotógrafos da época (O GLOBO, 30 de setembro de 1987).

“Ao mesmo tempo que era fascinante, o emprego era muito puxado. Naquele tempo, o fotógrafo fornecia desde o filme até o ampliador. O jornal só fornecia um quartinho para que pudéssemos revelar as chapas”.

Foi Regato que deu o tiro do magnésio para que fosse feita a foto, de autoria de Arnaldo Vieira (1904 – 1974), da prisão do presidente deposto pela Revolução de 1930, Washington Luís (1869 – 1957), saindo do Palácio Guanabara, residência oficial do chefe de governo, rumo ao Forte Copacabana, onde ficou preso até seguir, exilado, para os Estados Unidos. Era o fim de seu mandato presidencial, iniciado em 15 de novembro de 1926, o último da chamada República Velha. O primogênito de Irineu Marinho, Roberto Marinho (1904 – 2003), que assumiria a direção do jornal, em 1931, atuava na ocasião como repórter de O GLOBO e teve uma participação decisiva neste furo de reportagem. Ele estava no palácio e viu o momento em que Washington Luís entrou no carro, um luxuoso Lincoln. Para tornar a fotografia possível, colocou arbustos no caminho, fazendo com que o carro tivesse que parar por alguns segundos, e assim o fotógrafo que o acompanhava conseguiu fazer o registro. O registro fotográfico, um importante furo jornalístico, foi publicado na capa da terceira edição de O GLOBO de 24 de outubro de 1930 e republicada no dia seguinte. De acordo com o jornal esta fotografia é O mais eloquente documento histórico da deposição do Sr. Washington Luis É um documento único e cujo valor não será mais preciso exaltar.

 

 

Em 1935, Regato passou a trabalhar também no jornal A Nota. Em 1938, foi trabalhar para A Notícia e para veículos dos Diários Associados e foi, como já mencionado, chefe do Departamento de Fotografia do referido conglomerado de mídiade 1952 até 1975.

“Comandava uma equipe de 35 profissionais, que trabalhavam 24 horas por dia. Atendíamos aos jornais da rede e ao departamento de publicidade. Os fotógrafos vibravam quando iam aos concursos de miss”.

Participou de diversas coberturas de eventos importantes da história do Brasil como a já mencionada Revolução de 1930, a chegada ao Brasil dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira com o fim da Segunda Guerra Mundial e a realização da Assembleia Nacional Constituinte de 1946. Registrou a remoção da Igreja São Pedro dos Clérigos sobre gigantescos rolimãs para a abertura da Avenida Presidente Vargas, em 1944; e, de 1936 a 1939, acompanhou o presidente Getúlio Vargas em uma peregrinação pelo país. Acompanhou também Assis Chateaubriand (1892 – 1968), fundador e dono dos Diários Associados, em diversas viagens pelo Brasil.

 

 

Foto de Angelo Regato de um Pracinha comemorando com a família após a chegada da Itália com o fim da Segunda Guerra Mundial, 22 de agosto de 1945. Rio de Janeiro, RJ / Diários Associados (RJ) – Acervo IMS

 

Na enquete Em quem você votaria?, realizada pelo jornal O GLOBO, disse que ainda não havia se definido: “Sou do contra — declarou — Quero novidades. Quero gente nova. É preciso que se dêem oportunidades a outros brasileiros de valor até então desconhecidos por força do regime em que vivíamos. Sou ainda favorável à anistia e pela pacificação da família brasileira” (O GLOBO, 6 de abril de 1945).

Fazendo a cobertura do Circuito da Gávea de automobilismo, foi um dos fotógrafos agredidos pela polícia (O Jornal, 22 de abril de 1947, segunda coluna).

 

 

Pela primeira vez, fotos de sua autoria foram publicadas na revista O Cruzeiro, também dos Diários Associados. Foi na reportagem Energia para o Nordeste, de Theophilo de Andrade (1903 – 1994) (O Cruzeiro, 12 de julho de 1947).

O Diário da Noite foi um inovador na fotografia, publicando, inicialmente clichês de 6 a 8 colunas, e, posteriormente, alcançando sucesso com as fotos colhidas pela teleobjetiva de Angelo Regato, que a usou pela, primeira vez, no dia 4 de Julho de 1948, no Torneio Início do Campeonato Carioca de Futebol (Diário da Noite, 5 de julho de 1948, página 11 e página 28).

 

 

Antes, os fotógrafos de futebol ficavam alojados atrás do gol, sujeitos a pedradas dos torcedores e impossibilitados de variar a produção de imagens. Regato havia participado da cobertura jornalística de um eclipse solar, em Bocaiuva, no interior de Minas Gerais, em maio de 1947 (O Jornal, 21 de maio de 1947). Ele usava sua Contessa Nettel e observou um colega norte-americano trabalhando com uma teleobjetiva Garflex. Foi quando decidiu adquirir a sua, que comprou, à prestação, na Mesbla (O GLOBO, 1º de março de 1962; Boletim da ABI, de 1975).

Passou a morar no Méier em 1949. Nesta época, o futuro e importante colunista social, Ibrahin Sued (1924 – 1995), era seu ajudante.

Em 6 de abril de 1950, fez, de um teco-teco, fotos do descarrilamento do Noturno Campista sobre a ponte do Rio Tanguá. Os registros foram publicados no Diário da Noite. Considerava essa uma de suas melhores coberturas jornalísticas.

É de sua autoria a primeira foto do Maracanã lotado, durante um treino da seleção brasileira para a Copa de 1950. Jogou contra o quadro de aspirantes do Vasco da Gama reforçado por profissionais do time (Diário da Noite, 19 de junho de 1950).

 

 

Participou da cobertura da Copa do Mundo de 1954 na Suíça (Jornal do Sports, 10 de março de 1977, penúltima coluna).

Em 1956, foi um dos fundadores da Associação de Repórteres Fotográficos do Rio de Janeiro, cuja iniciativa foi apoiada por Herbert Moses (1884 – 1972), presidente a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), onde, até ter sede própria, a associação de fotógrafos funcionou.

Foi ele que levou Evandro Teixeira (1935 – 2024), recém chegado da Bahia ao Rio de Janeiro, em 1957, até a redação do Diário da Noite. Os dois jornais eram sediados no mesmo edifício da rua Sacadura Cabral, nº 103, na Praça Mauá. Não havia vaga disponível naquele momento, mas, no ano seguinte, Evandro começou a fotografar para o Diário da Noite e a produzir registros para O Jornal. Seus dois primeiros trabalhos no Diário da Noite não deram certo: fotografou, com uma Rolleiflex fornecida pelo jornal, o casamento de uma alemã com um negro, apesar da orientação racista do jornal. Foi demitido pelo diretor do jornal, o mineiro Paulo Vial Correa (1919 – 1975). Angelo Regato deu uma segunda chance a ele: fotografar o desfile de fantasias do Baile do Teatro Municipal, mas Evandro chegou atrasado e Regato teve que providenciar as fotos da revista O Cruzeiro sem o carimbo. Veio então a sua terceira, que seria sua última chance: fazer a cobertura do desfile das escolas de samba na Avenida Rio Branco. Foi um sucesso e Evandro finalmente iniciou sua carreira profissional no Rio de Janeiro, tornando-se um dos maiores fotojornalistas brasileiros de todos os tempos.

O Angelo Regato realmente foi uma pessoa maravilhosa, devo muito a ele que logo me apresentou ao diretor de redação”.

Evandro Teixeira em Arfoc

Participou da cobertura do Campeonato Sul-Americano de Futebol, realizado em Buenos Aires entre 7 de março de 4 de abril de 1959. Participaram da disputa sete seleções: Argentina, campeã do torneio; Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai. O jornalista Armando Nogueira (1927 – 2010), pelo Jornal do Brasil; e o fotógrafo Ângelo Gomes (19? -?), pelo Jornal dos Sports, também participaram da cobertura do evento (Jornal do Brasil, 3 de julho de 1994, segunda coluna).

Em 1968, era um dos dirigentes da Associação de Repórteres Fotográficos do Rio de Janeiro. Pelo menos até 1979 integrava a entidade, pela qual foi condecorado com o título de comendador (O GLOBO, 16 de fevereiro de 1968; Jornal do Commercio, 9 de fevereiro de 1979, penúltima colunaJornal do Commercio, 1º de outubro de 1993, penúltima coluna).

 

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Na foto, Regato é o primeiro à direita / O GLOBO, 16 de fevereiro de 1968

 

Foi noticiado que um retrato de Regato seria inaugurado na sede da Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado do Rio, cujo presidente era Walter Quirino (19? -?) (Jornal do Commercio, 15 de janeiro de 1970, quarta coluna).

Foi homenageado, no Palácio do Comércio, em Niterói, recebendo das mãos de Moacyr Moreira Leite, presidente da Associação Comercial e Industrial do Estado do Rio de Janeiro, um diploma da Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado do Rio, fundada no ano anterior. Regato era um dos fundadores da associação congênere do Rio de Janeiro (O Jornal, 22 de março de 1970, primeira coluna).

 

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Em 13 de maio de 1970, foi um dos profissionais condecorados com as insígnias do Mérito Jornalístico, da Ordem dos Velhos Jornalistas, em uma solenidade realizada na Associação Brasileira de Imprensa. Os outros  foram Dinah Silveira de Queiroz (1911 – 1982), Carlos de Souza Areas, Fernando Hupsel de Oliveira (19? -?), Alceu de Amoroso Lima (1893 – 1983), Raul Pilla (1892 – 1973), Gomes Maranhão (1907 – 1992), Antônio Herrera Filho (c. 1911 – 1980), Alberto Torres e Archimedes Fortini (18? – 1973). Na ocasião, Regato foi apresentado como o primeiro repórter a usar a teleobjetiva na imprensa brasileira. A Medalha do Mérito Jornalístico foi instituída pela Ordem dos Velhos Jornalistas e reconhecida oficialmente  pelo Decreto n° 52.206, de 28 de junho de 1963 (Jornal do Commercio, 14 de maio de 1970, quarta coluna). Pela conquista da Medalha, foi homenageado por colegas de A Notícia e de O Dia (O Jornal, 22 de maio de 1970, segunda coluna).

Integrava a equipe dos Diários Associados responsável pela cobertura jornalística da Copa Mundial de Futebol do México (O Jornal, 17 de abril de 1970).

O Diário da Noite Futebol Clube, clube dos Diários Associados, promoveu, no Social Marabu, no Encantado, um torneio de futebol de salão denominado Angelo Regato, em homenagem ao fotógrafo (O Jornal, 27 de novembro de 1971, primeira coluna).

Publicação da reportagem A bola é redonda para a família Antunes, de Yata Anderson (1944 – 2026), com fotos de autoria de Regato. Da família, fazia parte os jogadores Edu (1947 -), Nando (19?-), Antunes (19?-) e Zico (1953-). Uma curiosidade: Yata foi o único repórter a entrevistar Pelé em campo no seu último jogo no Maracanã, em 1974, e por isso, ficou conhecido como o Amigo do Rei (O Jornal, 7 de novembro de 1970).

Regato devolveu sua Leika e aposentou-se, em 1º de maio de 1975, encerrando sua carreira no Jornal do Commercio, após 46 anos de trabalho. Era, então, o mais antigo repórter fotográfico em atividade do Rio de Janeiro (Boletim da ABI, março e abril de 1975). Continuou trabalhando como profissional independente e visitava ocasionalmente seus amigos nas redação do Jornal do Commercio.

 

 

Em 1982, foi um dos fotógrafos contatados pelo Núcleo de Fotografia da Funarte para dar um depoimento acerca de seu trabalho de fotógrafo de copas do mundo. Na época, a Funarte estava promovendo em sua galeria a exposição Fotografias nas Copas do Mundo. Segundo Regato, os fotógrafos ficavam, normalmente, atrás do gol  (O GLOBO, 9 de junho de 1982).

Foi entrevistado pelo jornal O GLOBO (O GLOBO, 30 de setembro de 1987).

 

regato

 

Para aqueles que quisessem se aproximar do mundo da fotografia, Regato deu o seguinte conselho:

“A pessoa deve aguçar a sensibilidade. É preciso que ela seja paciente e criativa”.

 

Faleceu, em 30 de setembro de 1993, em sua residência, na Rua Domingues Freire, no Méier, vítima de um enfarte (Jornal do Commercio, 1º de outubro de 1993, penúltima coluna; Boletim da ABI, de setembro/outubro de 1993, segunda coluna).

 

 

Foi casado com Fernandina Maria Mesquita, com quem teve quatro filhos: Angelo, José, Carlos e Fernanda (Site Family Search; Jornal do Commercio6 de junho de 1976, penúltima coluna 27  de junho de 1976, última coluna).

Em uma de suas colunas, o jornalista Armando Nogueira escreveu:

 “Faço um saudoso parêntese pra relembrar, com ternura, o velho Angelo Regato. Era um mestre. Morreu sem jamais ter perdido um flagrante de um gol num clique de sua fiel speed graf”.

Tribuna da Imprensa, 26 de junho de 1996

 

Acesse aqui a Cronologia de Angelo Regato (1912 – 1993)

 

*Atualmente o maior estádio do mundo é o Estádio Primeiro de Maio Rungradolocalizado em Pyongyang, na Coreia do Norte, com capacidade para 150 000 espectadores.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANTUNES, Fátima Martin Rodrigues Ferreira. Com Brasileiro, Não Há Quem Possa! Futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues. São Paulo: EdUNESP, 2004.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Jornal da Unicamp, 22 de abril e 4 de maio de 2003

MÁXIMO, João. Maracanã: meio século de paixão. Rio de Janeiro: DBA, 2000.

O GLOBO, 30 de setembro de 1987.

Portal Maracanã

NELSON, Rodrigues. A pátria de chuteiras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013

Revista Superinteressante

SIMAS, Luiz Antônio. Maracanã: quando a cidade era terreiro. Rio de Janeiro : Mórula Editorial, 2021.

Site Arfoc Rio

Site Lance

Site Os Divergentes

 

Cronologia de Angelo Regato (1912 – 1993)

Cronologia de Angelo Regato (1912 – 1993)

 

 

1912 – Mineiro de Estrela Dalva, Angelo Regato nasceu em 27 de outubro de 1912 e, ainda na juventude, veio para o Rio de Janeiro. Foi casado com Fernandina Maria Mesquita, com quem teve quatro filhos: Angelo, José, Carlos e Fernanda (Site Family Search; Jornal do Commercio6 de junho de 1976, penúltima coluna 27  de junho de 1976, última coluna).

1929 /década de 1930- Começou a se aproximar do jornalismo, em 1929, quando foi empregado na empresa de teatro e cinema de Paschoal Carlos Magno (1906 – 1980). Ele levava os anúncios dos filmes e das peças para os jornais. No ano seguinte, começou a trabalhar como fotógrafo no jornal A Pátria, onde permaneceu até 1940Sua máquina fotográfica era a alemã Contessa Nettel. Desta época até meados da década de 1930, trabalhava à noite como porteiro de cinema ou montador de cartaz.

Em entrevista, Regato comentou as condições de trabalho da época (O GLOBO, 30 de setembro de 1987).

“Ao mesmo tempo que era fascinante, o emprego era muito puxado. Naquele tempo, o fotógrafo fornecia desde o filme até o ampliador. O jornal só fornecia um quartinho para que pudéssemos revelar as chapas”.

Em outubro de 1930, foi Regato que deu o tiro do magnésio para que fosse feita a foto, de autoria de Arnaldo Vieira (1904 – 1974), da prisão do presidente deposto pela Revolução de 1930, Washington Luís (1869 – 1957), saindo do Palácio Guanabara, residência oficial do chefe de governo, rumo ao Forte Copacabana, onde ficou preso até seguir, exilado, para os Estados Unidos. Era o fim de seu mandato presidencial, iniciado em 15 de novembro de 1926, o último da chamada República Velha. O registro fotográfico, um importante furo jornalístico, foi publicado na capa da terceira edição de O GLOBO de 24 de outubro de 1930 e republicada no dia seguinte. De acordo com o jornal esta fotografia é O mais eloquente documento histórico da deposição do Sr. Washington Luis É um documento único e cujo valor não será mais preciso exaltar. 

 

 

1935 – Passou a trabalhar também no jornal A Nota.

1938 – Foi trabalhar para A Notícia e para veículos dos Diários Associados.

1940 – Deixou de trabalhar como fotógrafo no jornal A Pátria.

1944 – Fotografou a remoção da Igreja São Pedro dos Clérigos sobre gigantescos rolimãs para a abertura da Avenida Presidente Vargas.

1945 – Fotografou a chegada ao Brasil dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira após o término da Segunda Guerra Mundial.

 

 

Foto de Angelo Regato de um Pracinha comemorando com a família após a chegada da Itália com o fim da Segunda Guerra Mundial, 22 de agosto de 1945. Rio de Janeiro, RJ / Diários Associados (RJ) – Acervo IMS

 

Na enquete Em quem você votaria?, realizada pelo jornal O GLOBO, disse que ainda não havia se definido: “Sou do contra — declarou — Quero novidades. Quero gente nova. É preciso que se dêem oportunidades a outros brasileiros de valor até então desconhecidos por força do regime em que vivíamos. Sou ainda favorável à anistia e pela pacificação da família brasileira” (O GLOBO, 6 de abril de 1945).

1946 – Fotografou a realização da Assembleia Nacional Constituinte de 1946.

1947 – Fazendo a cobertura do Circuito da Gávea de automobilismo, foi um dos fotógrafos agredidos pela polícia (O Jornal, 22 de abril de 1947, segunda coluna).

 

 

Pela primeira vez, fotos de sua autoria foram publicadas na revista O Cruzeiro, também dos Diários Associados. Foi na reportagem Energia para o Nordeste, de Theophilo de Andrade (1903 – 1994) (O Cruzeiro, 12 de julho de 1947).

1948 -O Diário da Noite foi um inovador na fotografia, publicando, inicialmente clichês de 6 a 8 colunas, e, posteriormente, alcançando sucesso com as fotos colhidas pela teleobjetiva de Angelo Regato, que a usou pela, primeira vez, no dia 4 de Julho de 1948, no Torneio Início do Campeonato Carioca de Futebol (Diário da Noite, 5 de julho de 1948, página 11 e página 28).

 

 

Antes, os fotógrafos de futebol ficavam alojados atrás do gol, sujeitos a pedradas dos torcedores e impossibilitados de variar a produção de imagens. Regato havia participado da cobertura jornalística de um eclipse solar, em Bocaiuva, no interior de Minas Gerais, em maio de 1947 (O Jornal, 21 de maio de 1947). Ele usava sua Contessa Nettel e observou um colega norte-americano trabalhando com uma teleobjetiva Garflex. Foi quando decidiu adquirir a sua, que comprou, à prestação, na Mesbla (O GLOBO, 1º de março de 1962; Boletim da ABI, de 1975).

1949 – Passou a morar no Méier. Nesta época, o futuro colunista social, Ibrahin Sued (1924 – 1995), era seu ajudante.

1950 – Em 6 de abril de 1950, fez, de um teco-teco, fotos do descarrilamento do Noturno Campista sobre a ponte do Rio Tanguá. Os registros foram publicados no Diário da Noite. Considerava essa uma de suas melhores coberturas jornalísticas.
É de sua autoria a primeira foto do Maracanã lotado, durante um treino da seleção brasileira para a Copa de 1950. Jogou contra o quadro de aspirantes do Vasco da Gama reforçado por profissionais do time (Diário da Noite, 19 de junho de 1950).

 

 

1952 - Tornou-se chefe do Departamento de Fotografia dos Diários Associados, cargo que exerceu até 1975 (O GLOBO, 30 de setembro de 1987).

“Comandava uma equipe de 35 profissionais, que trabalhavam 24 horas por dia. Atendíamos aos jornais da rede e ao departamento de publicidade. Os fotógrafos vibravam quando iam aos concursos de miss”.

1954 – Participou da cobertura da Copa do Mundo de 1954 na Suíça (Jornal do Sports, 10 de março de 1977, penúltima coluna).

1956 – Foi um dos fundadores da Associação de Repórteres Fotográficos do Rio de Janeiro, cuja iniciativa foi apoiada por Herbert Moses (1884 – 1972), presidente a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), onde, até ter sede própria, a associação de fotógrafos funcionou.

1957 - Levou o fotógrafo Evandro Teixeira (1935 – 2024), recém chegado ao Rio de Janeiro até a redação do Diário da Noite. Os dois jornais eram sediados no mesmo edifício da rua Sacadura Cabral, nº 103, na Praça Mauá. Não havia vaga disponível naquele momento, mas, no ano seguinte, Evandro começou a fotografar para o Diário da Noite e a produzir registros para O Jornal. Seus dois primeiros trabalhos no Diário da Noite não deram certo: fotografou, com uma Rolleiflex fornecida pelo jornal, o casamento de uma alemã com um negro, apesar da orientação racista do jornal. Foi demitido pelo diretor do jornal, o mineiro Paulo Vial Correa (1919 – 1975). Angelo Regato deu uma segunda chance a ele: fotografar o desfile de fantasias do Baile do Teatro Municipal, mas Evandro chegou atrasado e Regato teve que providenciar as fotos da revista O Cruzeiro sem o carimbo. Veio então a sua terceira, que seria sua última chance: fazer a cobertura do desfile das escolas de samba na Avenida Rio Branco. Foi um sucesso e Evandro finalmente iniciou sua carreira profissional no Rio de Janeiro, tornando-se um dos maiores fotojornalistas brasileiros de todos os tempos.

 

O Angelo Regato realmente foi uma pessoa maravilhosa, devo muito a ele que logo me apresentou ao diretor de redação”.

Evandro Teixeira em Arfoc

1959 – Participou da cobertura do Campeonato Sul-Americano de Futebol, realizado em Buenos Aires entre 7 de março de 4 de abril de 1959. Participaram da disputa sete seleções: Argentina, campeã do torneio; Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai. O jornalista Armando Nogueira (1927 – 2010), pelo Jornal do Brasil; e o fotógrafo Ângelo Gomes (19? -?), pelo Jornal dos Sports, também participaram da cobertura do evento (Jornal do Brasil, 3 de julho de 1994, segunda coluna).

1968 – Era um dos dirigentes da Associação de Repórteres Fotográficos do Rio de Janeiro. Pelo menos até 1979 integrava a entidade, pela qual foi condecorado com o título de comendador (O GLOBO, 16 de fevereiro de 1968; Jornal do Commercio, 9 de fevereiro de 1979, penúltima colunaJornal do Commercio, 1º de outubro de 1993, penúltima coluna).

 

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Na foto, Regato é o primeiro à direita / O GLOBO, 16 de fevereiro de 1968

 

1970 – Foi noticiado que um retrato de Regato seria inaugurado na sede da Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado do Rio, cujo presidente era Walter Quirino (1? -?) (Jornal do Commercio, 15 de janeiro de 1970, quarta coluna).

Foi homenageado, no Palácio do Comércio, em Niterói, recebendo das mãos de Moacyr Moreira Leite, presidente da Associação Comercial e Industrial do Estado do Rio de Janeiro, um diploma da Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado do Rio, fundada no ano anterior. Regato era um dos fundadores da associação congênere da Guanabara (O Jornal, 22 de março de 1970, primeira coluna).

 

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Em 13 de maio de 1970, foi um dos profissionais condecorados com as insígnias do Mérito Jornalístico, da Ordem dos Velhos Jornalistas, em uma solenidade realizada na Associação Brasileira de Imprensa. Os outros  foram Dinah Silveira de Queiroz (1911 – 1982), Carlos de Souza Areas, Fernando Hupsel de Oliveira (19? -?), Alceu de Amoroso Lima (1893 – 1983), Raul Pilla (1892 – 1973), Gomes Maranhão (1907 – 1992), Antônio Herrera Filho (c. 1911 – 1980), Alberto Torres e Archimedes Fortini (18? – 1973). Na ocasião, Regato foi apresentado como o primeiro repórter a usar a teleobjetiva na imprensa brasileira. A Medalha do Mérito Jornalístico foi instituída pela Ordem dos Velhos Jornalistas e reconhecida oficialmente  pelo Decreto n° 52.206, de 28 de junho de 1963 (Jornal do Commercio, 14 de maio de 1970, quarta coluna). Pela conquista da Medalha, foi homenageado por colegas de A Notícia e de O Dia (O Jornal, 22 de maio de 1970, segunda coluna).

Integrava a equipe dos Diários Associados responsável pela cobertura jornalística da Copa Mundial de Futebol do México (O Jornal, 17 de abril de 1970).

Publicação da reportagem A bola é redonda para a família Antunes, de Yata Anderson (1944 – 2026), com fotos de autoria de Regato. Da família, fazia parte os jogadores Edu (1947 -), Nando (19?-), Antunes (19?-) e Zico (1953-). Yata foi o único repórter a entrevistar Pelé em campo no seu último jogo no Maracanã, em 1974, e por isso, ficou conhecido como o Amigo do Rei (O Jornal, 7 de novembro de 1970).

1971 – O Diário da Noite Futebol Clube, clube dos Diários Associados, promoveu, no Social Marabu, no Encantado, um torneio de futebol de salão denominado Angelo Regato, em homenagem ao fotógrafo (O Jornal, 27 de novembro de 1971, primeira coluna).

1975 - Devolveu sua Leika e aposentou-se, em 1º de maio de 1975, encerrando sua carreira no Jornal do Commercio, após 46 anos de trabalho. Era, então, o mais antigo repórter fotográfico em atividade do Rio de Janeiro (Boletim da ABI, março e abril de 1975). Continuou exercendo atividades como profissional independente e visitava ocasionalmente seus amigos nas redação do Jornal do Commercio.

 

 

1982 – Foi um dos fotógrafos contatados pelo Núcleo de Fotografia da Funarte para dar um depoimento acerca de seu trabalho de fotógrafo de copas do mundo. Na época, a Funarte estava promovendo em sua galeria a exposição Fotografias nas Copas do Mundo. Segundo Regato, os fotógrafos ficavam, normalmente, atrás do gol  (O GLOBO, 9 de junho de 1982).

1987 – Foi entrevistado pelo jornal O GLOBO (O GLOBO, 30 de setembro de 1987).

 

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1993 - Faleceu, em 30 de setembro de 1993, em sua residência, na Rua Domingues Freire, no Méier, vítima de um enfarte (Jornal do Commercio, 1º de outubro de 1993, penúltima colunaBoletim da ABI, de setembro/outubro de 1993, segunda coluna).

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Gioconda Rizzo: além do pioneirismo, por Joanna Barbosa Balabram

Gioconda Rizzo: além do pioneirismo

Joanna Balabram*

 

Gioconda Rizzo é frequentemente apresentada como a primeira mulher a manter um estúdio fotográfico próprio na cidade de São Paulo. O pioneirismo, sem dúvida, ajuda a inscrevê-la na história da fotografia brasileira. Mas também pode funcionar como um limite: transforma uma trajetória complexa em uma exceção curiosa, quase isolada no tempo.

Ao pesquisar por Gioconda Rizzo no Google, as primeiras referências à fotógrafa reiteram justamente essa condição de pioneira. No entanto, ao buscar “quem foi a primeira fotógrafa do Brasil?”, o mecanismo de busca corrige automaticamente a palavra “fotógrafa” para “fotografia” e responde outra pergunta: “qual foi a primeira fotografia feita no Brasil?”. Curiosamente, o mesmo não acontece quando se pesquisa “quem foi o primeiro fotógrafo do Brasil?”. Esse pequeno equívoco do sistema de buscas do Google aponta para uma dificuldade histórica em reconhecer mulheres como produtoras de imagens, e não apenas como objetos de representação. Recuperar a história dessas mulheres é fundamental, mas isso não basta quando elas continuam sendo apresentadas na narrativa histórica como casos excepcionais, pioneiras isoladas, em suma, exceções. A historiadora da arte Linda Nochlin, em seu artigo seminal Por que não houve grandes mulheres artistas?, chamou atenção para esse mecanismo ao discutir como mulheres artistas são frequentemente apresentadas como exceções extraordinárias dentro da história da arte. Em vez de transformar a narrativa histórica, muitas vezes elas acabam inseridas nela apenas como figuras raras, quase deslocadas de seu próprio contexto. Deste modo, esse mecanismo não questiona por que tantas trajetórias femininas foram apagadas, mas frequentemente reforça o mito do “gênio” artístico (quase sempre associado a figuras masculinas) e transforma mulheres em exceções dentro de uma narrativa que continua sendo predominantemente masculina.

Voltando para a fotógrafa Gioconda Rizzo, não apenas como “a primeira”, mas como uma mulher que atuou dentro de redes, contextos sociais, históricos e construções visuais específicas de seu tempo, interessa destacar aspectos de sua trajetória comuns a muitas mulheres que atuaram no campo fotográfico nas primeiras décadas do século XX. Afinal, a experiência feminina no campo fotográfico existia antes de uma mulher poder ter seu próprio estúdio ou assinar suas fotografias[1].

Na história da arte a herança familiar de um ofício frequentemente aparece como um facilitador na trajetória de artistas mulheres. No caso de Gioconda, o estúdio fotográfico de seu pai, Michelle Rizzo, funcionava inicialmente no mesmo edifício em que a família Rizzo residia. A proximidade cotidiana com o estúdio e o interesse de Gioconda pela fotografia foram fundamentais para sua formação profissional.  Ela atuava não apenas na tomada das imagens, mas também no laboratório e retoques fotográficos.

O Ateliê Rizzo, ou Photographia Central, como também era conhecido, funcionava como uma empresa familiar, envolvendo diferentes membros da família em etapas variadas do trabalho, desde o atendimento e a preparação das poses, até o laboratório, os retoques e finalização das fotografias. Com o aprimoramento de Gioconda na técnica fotográfica, seu pai Michelle abriu para a filha um estúdio próprio: o Photo Femina.[2]

Tanto o Photographia Central como o Photo Femina ficavam localizados na Rua Direita, região central da cidade de São Paulo e importante espaço de circulação e consumo da elite paulistana naquele período. Diferentemente dos outros estúdios fotográficos, o Photo Femina dedicava-se exclusivamente ao retrato de mulheres e crianças. Essa especialização também respondia a uma exigência moral da época, já que não era considerado apropriado que uma mulher permanecesse sozinha com um homem em um ambiente fechado.  Deste modo, o estúdio atendia a uma demanda por retratos femininos ao mesmo tempo em que preservava sua reputação moral.

A vigilância sobre a conduta feminina era tão importante que todas as sessões fotográficas eram supervisionadas por Giuseppina Rizzo, a mãe de Gioconda. A proximidade entre o Photo Femina e o estúdio do pai facilitava esse controle. Mesmo tendo seu próprio estabelecimento, Gioconda ainda precisava atuar dentro de condições bastante diferentes daquelas vividas por fotógrafos homens. O lucro obtido com a atividade do estúdio, por exemplo, permanecia sob administração paterna, o que limitava sua autonomia financeira. Ainda assim, essa foi uma experiência possível para uma mulher branca de classe média ter um estúdio fotográfico no início do século XX.

As restrições que atravessavam a experiência profissional de Gioconda Rizzo também faziam parte de uma condição mais ampla da experiência feminina na modernidade. Como observa a historiadora da arte Griselda Pollock em A Modernidade e os espaços de feminilidade, a vivência das mulheres na cidade moderna ocorria de maneira distinta da masculina, marcada por limites de circulação, vigilância moral e acesso restrito aos espaços públicos. Enquanto a figura masculina moderna era frequentemente associada à liberdade de observar e ocupar a cidade, as mulheres precisavam constantemente negociar sua presença nesses espaços.

Nas primeiras décadas do século XX, a expansão dos estúdios fotográficos nas grandes cidades esteve diretamente ligada às transformações da vida urbana e à consolidação de novos hábitos sociais e à uma cultura visual moderna. As mulheres também participaram dessas mudanças, experimentando novas formas de se apresentar diante da câmera e também de atuar como produtoras de imagens, atrás da câmera. O estúdio Photo Femina funcionava como esse lugar intermediário entre o público e o privado onde foi possível colocar em prática esses novos modelos. Voltado exclusivamente para mulheres e crianças, o estúdio oferecia um ambiente considerado socialmente seguro para suas clientes, ao mesmo tempo, as imagens produzidas por Gioconda revelavam mudanças na representação feminina: poses menos rígidas, enquadramentos mais próximos, tecidos leves, ombros à mostra e uma atmosfera de intimidade pouco comum nos retratos tradicionais de estúdio.

A seguir estão dois retratos de Wanda Massucci produzidos por Gioconda Rizzo em diferentes períodos. No primeiro retrato, Wanda ainda era uma criança e, em função disso, destaca-se nessa imagem o tecido translúcido que escorrega do ombro para o braço dela trazendo uma sensualidade sutil. A luz difusa e o foco suave criam a atmosfera de uma figura etérea prestes a desaparecer na vinheta que se forma no fundo. O enquadramento em plano americano aproxima a retratada do espectador e a composição estabelece dois pontos de destaque: a menina no centro e o bouquet quase encaixado no canto inferior direito. Ela parece relaxada e confortável diante da câmera que ela encara.

 

 

Em seguida vemos Wanda no início da juventude, enquadramento em plano fechado, rosto de perfil e olhar suave para fora da imagem. Em destaque no centro, o colar e o brinco. O ombro, parte das costas e nuca à mostra contrastam com o tecido que ganha a cor azul na pintura sobre a fotografia. O tom rosado da pele do rosto e dos lábios transmitem uma atmosfera de sensualidade.

 

 

Nas duas fotografias não há apenas o registro da menina ou da jovem Wanda, mas uma construção visual produzida na relação entre fotógrafa e retratada. E é esse o aspecto de destaque dessas fotografias, uma experiência compartilhada entre mulheres. Se a visualidade moderna na virada do século XIX para o XX foi amplamente construída a partir do olhar masculino sobre os corpos femininos (como nas pinturas Olimpya e Almoço na relva, de Édouard Manet, Les Demoiselles d’Avignon, de Pablo Picasso, e a fotografia O violino de Ingres, de Man Ray), as fotografias de Gioconda Rizzo sugerem que havia outras formas de representação do corpo feminino.

A trajetória de Gioconda revela não apenas os limites impostos às mulheres que atuavam no campo fotográfico nas primeiras décadas do século XX, mas também as negociações e possibilidades que permitiram sua presença nesse espaço. Mais do que uma exceção isolada na história da fotografia brasileira, Gioconda Rizzo pode ser entendida como parte de uma experiência da modernidade que foi eclipsada. Talvez o desafio atual não seja apenas recuperar o nome dessas mulheres, mas também criar formas de narrar suas trajetórias sem reduzi-las apenas à condição de “pioneiras” ou exceções de talento extraordinário.

Este artigo é inédito e tem como base a dissertação de mestrado de autoria de Joanna Barbosa Balabram, intitulada Gioconda Rizzo: vestígios de uma trama fotográfica, defendida em dezembro de 2025 no Programa de Pós-Graduação em História da Arte da Universidade do Estado do Rio de Janeiro, com apoio da CAPES, sob orientação da Prof.ª Dr.ª Fernanda Pequeno.

 

[1] Para mais informações sobre o assunto consultar o artigo COSTA, Helouise. No limite da invisibilidade: mulheres fotógrafas no Brasil na primeira metade do século XX. In: COSTA, Helouise; ZERWES. Erika. Mulheres Fotógrafas / Mulheres Fotografadas: fotografias e gênero na América Latina. São Paulo: Intermeios, 2021. Disponível em: <https://repositorio.usp.br/item/003072112>. Acesso em: 10 mai. 2026

[2] O estúdio Photo Femina funcionou aproximadamente entre 1914 e 1918. O fechamento do estúdio ocorreu após o irmão mais velho de Gioconda, Vicente, contar ao pai, Michelle Rizzo, que o espaço estava sendo frequentado por cortesãs. Após o fechamento de seu estúdio, Gioconda volta a trabalhar no Ateliê Rizzo, ainda fotografando apenas mulheres e crianças.  A cronologia completa de Gioconda Rizzo está disponível na Brasiliana: https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=28653

 

*Joanna Balabram é mestre em História da Arte pela UERJ e curadora assistente na coordenadoria de Fotografia do Instituto Moreira Salles, onde atua na organização e processamento de coleções de fotografia do século XIX.

 

Referências:

COSTA, Helouise. No limite da invisibilidade: mulheres fotógrafas no Brasil na primeira metade do século XX. In: COSTA, Helouise; ZERWES. Erika. Mulheres Fotógrafas / Mulheres Fotografadas: fotografias e gênero na América Latina. São Paulo: Intermeios, 2021. Disponível em: <https://repositorio.usp.br/item/003072112>. Acesso em: 10 mai. 2026

IBRAHIM, Carla J. As retratistas de uma época: fotografas de São Paulo na primeira metade do século XX. Dissertação de mestrado, Instituto de Artes, Universidade Estadual de Campinas, 2005. Disponível em: < https://repositorio.unicamp.br/acervo/detalhe/359360 >. Acesso em: 9 mai. 2026.

NOCHLIN, LindaPor que não houve grandes artistas mulheres? ArtNews, 1971.

POLLOCK, Griselda. A modernidade e os espaços da feminilidade. (1988). In: PEDROSA, Adriano; CARNEIRO, Amanda;

MESQUITA, André (org.). História das Mulheres, histórias feministas: Antologia. MASP: São Paulo, 2019

WANDERLEY, Andrea C.T. No Dia Internacional da Fotografia, fotógrafas pioneiras no Brasil in Brasiliana Fotográfica, 19 de agosto de 2022. Disponível em: <https://brasilianafotografica.bn.gov.br/?p=26902>. Acesso em: 29 abr. 2026.

 

Breve perfil de Gioconda Rizzo (1897 – 2004)

Andrea C. T. Wanderley*

 

Foto de autoria de Gioconda Rizzo,19?. São Paulo, SP / Acervo IMS

Foto de autoria de Gioconda Rizzo,19?. São Paulo, SP / Acervo IMS

 

“Fotografia é uma coisa maravilhosa, que a gente tira o retrato quando era criança e depois quando é velho está vendo a figura dele quando era criança, é uma coisa maravilhosa. É muito bonito!”

Gioconda Rizzo, 2002

 

O avô da paulistana Gioconda Rizzo (1897 – 2004), Vincenzo Rizzo, já se encontrava em São Paulo, em 1887, e era fabricante de cerveja (L´Italia, 21 de maio de 1887, quarta coluna). Seu filho e pai de Gioconda, Michelle (Miguel) Rizzo (1869 – 1929), sofreu um acidente que afetou seus olhos. Foi para a Itália se tratar, sem sucesso, e lá aprendeu fotografia com B. Lauro, retratista da família real italiana.

Já de volta ao Brasil, Michelle inaugurou, em 10 de março de 1892, a Photographia Central, na Rua Direita nº 55, em São Paulo (O Estado de São Paulo, de 10 de março de 1892, página 1, antepenúltima coluna).

 

O Estado de São Paulo, 10 de março de 1892, página 1, antepenúltima coluna

O Estado de São Paulo, 10 de março de 1892

 

Verso de uma foto tirada no ateliê da família Rizzo

O Estado de São Paulo, 15 de maio de 2012

 

Em um anúncio veiculado pelo Fanfulla, de 8 de agosto de 1896, página 4, Michelle anunciava-se como proprietário da primeira photografia italiana no Brazil. Em 1906, estava na relação de fotógrafos italianos que atuavam em São Paulo (Il Brasile e gli Italiani, 1906, página 1165).

 

 

 

Foi com ele, seu grande incentivador, que Gioconda iniciou seus experimentos em fotografia, tendo sido a primeira mulher a ter um estabelecimento fotográfico, em São Paulo, a Photo Femina, aberto em 1914. Desde a adolescência Gioconda só enxergava com o olho direito. Sempre foi apaixonada por fotografia e aos 12 anos tirou um autorretrato e também fotografou uma amiga:

 

 

“Eu comecei a tirar foto de mim mesma… então meu pai quando viu aquela chapa… a primeira coisa que fiz… viu a chapa… disse: “Quem foi que fez isso?” “Fui eu papai”; ele disse: “Ihhhh! Esta vai me passar a perna!”

 Depoimento de Gioconda Rizzo a Carla Ibrahim. São Paulo, setembro de 2002.

 

Michelle muitas vezes viajava para o interior, de onde enviava fotografias para processamento, retoque e finalização em São Paulo. Quando estava ausente, seu filho Armando (1894 – 19?) cuidava dos negócios. Gioconda trabalhava com o irmão e participava desde a recepção e ambientação dos clientes no ateliê até o trabalho de revelação e acabamentos, como retoques e acondicionamento das fotos em álbuns, molduras ou estojos. Conhecia e dominava todas as etapas do processo fotográfico.

Em 1914, Michelle abriu para Gioconda o ateliê Femina, também na Rua Direita, número 8A, perto do seu, que ficava, então, na mesma rua, no número 10 C. O Femina atendia somente crianças e mulheres, pois, na época, não era adequado que uma mulher ficasse sozinha na presença de homens. Mesmo com essa restrição, a mãe de Gioconda, Giuseppina, sempre a acompanhava em  suas sessões fotográficas.

“Fui a primeira fotógrafa a se especializar em fotos assim. Fotografei, então, muitas mulheres de barões do café e muitas atrizes. Todas gostavam de minha maneira de fazer as fotos porque eu enfocava só meio corpo, realçando o rosto e usando tapetes nas paredes para servirem de fundo”.

Gioconda Rizzo, Folha de São Paulo, 12 de abril de 1982

 

Ainda em 1914, na revista A Cigarra, edição de 31 de dezembro, na seção “A Formiga”, foi publicada uma fotografia de autoria de Gioconda Rizzo com a assinatura do ateliê Femina.

 

Fotografia de autoria de Gioconda Rizzo / A Cigarra, 31 de dezembro de 1914

Fotografia de Wanda Massucci (a maior), de autoria de Gioconda Rizzo / A Cigarra, 31 de dezembro de 1914

 

Para criar diferentes figurinos e cenários, Gioconda possuia em seu estúdio almofadas, banquinhos, diversas cadeiras, colunas de mármore, estátuas de cães, laços, sombrinhas, véus, e outros objetos e adereços. Fazia também uso de uma balança para fotografar bebês, como sua filha, Wanda Pasqualucci (1926-), retratada, em 1926, na foto abaixo.

 

 

Criava poses que descontraíssem suas clientes, que tinham uma tendência a ficar muito sérias na hora da foto. Buscava em seus retratos a beleza, a sensualidade. Criava uma atmosfera de sonho, romântica. Suas retratadas sorriam, deixavam ombros e colos muitas vezes desnudos e os cabelos soltos, sem chapéus, enfeitados com flores.

Gioconda participou, trabalhando no pavilhão Gradisca, da quermesse realizada no parque da avenida Paulista, promovido pela sub-comissão italiana do bairro da Consolação para socorrer as famílias dos reservistas que haviam partido para a Itália (Correio Paulistano, 19 de julho de 1915, segunda coluna).

Em torno de 1916, Michelle trouxe da Itália o flash de magnésio que possibilitava a captação de poses mais rapidamente, o que facilitava enormemente fotografar crianças. Uma vez, Gioconda sofreu uma queimadura na mão direita quando utilizava a nova ferramenta. Também por volta deste ano, seu irmão, Vicente, descobriu que o ateliê Femina recebia cortesãs francesas e polonesas e contou para Michelle, que decidiu fechá-lo. Gioconda voltou a trabalhar com seu pai e seu irmão, Armando Rizzo. Passaram a produzir fotografias coloridas a óleo e a fazer fundos de paisagens aplicadas nas chapas. Também produziam muitas fotos de formaturas de escolas e faculdades.

Em 1926, Gioconda casou-se com o comerciante Onofre Pasqualucci (c. 1898 – 1935) e, no mesmo ano, nasceu sua única filha, Wanda.

 

 

Em 1931, devido à crise financeira deflagrada pela quebra da Bolsa de Valores de Nova York, a família Rizzo fechou, após cerca de 40 anos de funcionamento, o ateliê da Rua Direita, e abriu outro na Rua Líbero Badaró, 63, chefiado por Armando. Nesse mesmo ano, Gioconda fotografou a Miss Universo, Yolanda Pereira (1910 – 2001).

 

 

Ela aprendeu as técnicas de fotografias fundidas em esmalte para joias com o fotógrafo espanhol Medina, estabelecido no Rio de Janeiro. Adaptou as técnicas à porcelana e passou a produzir fotojoias e decorações tumulares para o ateliê Photo do Carmo, do italiano Sestilio Fiorelli. Instalou em sua casa, no bairro do Cambuci, um ateliê e um forno para a produção das peças, que eram vitrificadas a uma temperatura de 1.000º C.

 

“Essas fotos em porcelana dão muito trabalho e se desenvolvem em várias fases até que se consegue uma película aplicada sobre a louça. Queima-se então a uma temperatura de 1000 graus e está pronta”.

Gioconda Rizzo, Folha de São Paulo, 12 de abril de 1982

 

Foto de autoria de Gioconda Rizzo,19?. São Paulo, SP / Acervo IMS

Fotos em porcelana de autoria de Gioconda Rizzo,19?. São Paulo, SP / Acervo IMS

 

Em 14 de junho de 1935, Gioconda ficou viúva e foi com a fotografia em porcelana que sobreviveu com sua filha. Aposentou-se na década de 60.

 

O Estado de S]ao Paulo, 15 de junho de 1935

O Estado de São Paulo, 15 de junho de 1935

 

Cinco décadas mais tarde, entre 12 e 30 de abril de 1982, houve uma exposição de parte de sua obra na Galeria Fotoptica, em São Paulo: 20 fotos em papel, 15 em porcelana e algumas coloridas a óleo.

Faleceu em 22 de março de 2004, pouco antes de completar 107 anos, e foi sepultada no Cemitério da Consolação.

Uma curiosidade: a capa do livro Anarquistas, Graça a Deus, da escritora Zélia Gattai (1916 – 2008), foi ilustrada com uma foto da família Da Col – Gattai, de autoria de Gioconda.

Abaixo, reprodução do texto O real e a representação nos retratos de Gioconda, de autoria da fotógrafa e crítica de arte Stefania Bril (1922 – 1992), publicado em O Estado de São Paulo, de 30 de abril de 1982:

 

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Acesse aqui uma entrevista com Gioconda Rizzo para o programa Moviola

 

 

Acesse aqui a Cronologia de Gioconda Rizzo (1897 – 2004).

 

*Andrea C. T. Wanderley é editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Breves perfis e cronologias dos irmãos e fotógrafos Malta: Aristógiton (1904-1954) e Uriel (1910 – 1994)

Hoje a Brasiliana Fotográfica publica breves perfis e as 70ª e 71ª cronologias de fotógrafos presentes no acervo fotográfico do portal. São dos irmãos e fotógrafos Aristógiton e Uriel Malta. As cronologias estão todas reunidas na página inicial da Brasiliana Fotográfica na aba Cronologia de Fotógrafos. Aristógiton e Uriel são filhos de Augusto Malta (1864 – 1957), que foi fotógrafo da Prefeitura do Rio de Janeiro, entre 1903 e 1936. O cargo foi criado para ele, que tornou-se o principal cronista visual da cidade nas primeiras décadas do século XX. Disponibilizamos hoje também uma versão revisada e ampliada do artigo O alagoano Augusto Malta, fotógrafo oficial do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936, e da Cronologia de Augusto Malta, originalmente publicados no portal, em 10 de julho de 2015.

O trabalho de Aristógiton e Uriel ficou durante muitas décadas à sombra da extraordinária obra de seu pai. A publicação, em 27 de janeiro de 2026, do livro digital Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945) , com fotografias produzidas pelos filhos de Augusto Malta pertencentes ao acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, resgatam a importância do trabalho deles, que fotografaram os últimos anos da belle époque carioca assim como seu desaparecimento.

 

Aristógiton Malta (1904-1954)

 

 

Aristógiton nasceu em 25 de agosto de 1904, no Rio de Janeiro, e era filho da primeira esposa de Augusto Malta, Laura Oliveira Campos (1874 – 1905). De temperamento alegre e afável, era um desportista e praticou remo durante muitos anos. Casou-se com Helena de Freitas Moutinho (1906 – 1975), no início da década de 1930. Tiveram sete filhos: Marcus Moitinho Malta (1933 – 1977), Maryse Malta Muller (1935 – ), Mauro Moitinho Malta (1937 – ), Marcelo Moitinho Malta (1940 – 2020), Marcio Moitinho Malta (1946 -), Antonio Carlos Moitinho Malta (1947 – 1950) e Monica Moitinho Malta (1952 -1952).

 

Aristógiton e Helena com Maryse, Marcus,

O casal Aristógiton e Helena com os filhos Maryse, Marcus, Mauro e Marcelo no colo da mãe, 1940 / Acervo pessoal de Maryse Muller

 

Em 1932, foi contratado como fotógrafo assistente da Prefeitura do Rio de Janeiro. Em 25 de agosto de 1936, Augusto Malta aposentou-se da Prefeitura e foi substituído por Aristógiton, a partir de 9 de setembro do mesmo ano. Em 1938, o presidente da República, Getúlio Vargas (1882 – 1954), visitou a “Feira de Amostras”,  uma exposição de diversas secretarias da Prefeitura do Rio de Janeiro. Um dos stands de maior sucesso foi o da Secretaria de Viação, Trabalho e Obras Públicas, que expôs fotos de Augusto e Aristógiton. Em 1953, foi noticiado que uma foto de sua autoria do Estádio do Maracanã estava nas paredes de todas as repartições da Prefeitura, no hall do Banco da Prefeitura, e também em hotéis em países da Europa, da América do Sul e dos Estados Unidos. Faleceu em 15 de agosto de 1954.

 

Aristogiton Malta (1896-1954) / Site Family Search

Aristógiton Malta, s/d / Site Family Search

 

Acesse aqui a Cronologia de Aristógiton Malta (1904 – 1954)

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Aristógiton Malta disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Uriel Malta (1910 – 1994)

 

 

Uriel Malta nasceu, em 28 de setembro de 1910, no Rio de Janeiro, filho da segunda esposa de Augusto, Celina Augusta Verscheuren (1884 – 1969). Passou a trabalhar com o irmão, Aristógiton, no Serviço de Fotografia da Prefeitura, em 1937. Casou-se com Hilda de Abreu Malta (1908 – 1976), em 1944. Tiveram pelo menos três filhos: Claudius Vinicius de Abreu Malta (1945-2010), Lelia Sandra de Abreu Malta (19? – ?) e Lelia Egle de Abreu Malta (19? – ?). Foi fotógrafo da Prefeitura até fins da década de 1960 e, em 1970, teve assinada a apostila fixando os proventos anuais de inatividade. Uriel faleceu, em Magé, em 5 de agosto de 1994.

 

Acesse aqui a Cronologia de Uriel Malta (1910- 1994)

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Uriel Malta disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Augusto Malta (1864 – 1957)

 

 

Acesse aqui a publicação O alagoano Augusto Malta, fotógrafo oficial do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936 e a Cronologia de Augusto Malta (1864 – 1957), revisadas e ampliadas.

 

Agradeço à colaboração generosa da filha de Aristógiton Malta, Maryse Muller, e de uma de suas netas, Christiana Malta, que me deram um depoimento fundamental para a elaboração deste artigo, em 20 de março de 2026.

 

Christiana Malta e Maryse Muller, neta e filha de Aristógiton Malta

Christiana Malta e Maryse Muller, neta e filha de Aristógiton Malta, respectivamente, comigo, Andrea Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, 20 de março de 2026. Rio de Janeiro

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Achados e Perdidos (livro eletrônico): Imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945)/Eliseu Santiago de Souza…(Et.Al.) — 1ª edição. Rio de Janeiro: Aprazível Edições e Arte e UQ Editions, 2025 PDF. Outros autores: Pedro Marreca, Rafael Martins, Leonel Kaz.

Blogspot Domingos Moitinho

DUNLOP, Charles Julius. Rio Antigo, volume II. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo, 1956.

ERMAKOFF, George. Augusto Malta e o Rio de Janeiro: 1903-1936 / George Ermakoff; tradução para o inglês Carlos Luís Brown Scavarda. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2009. 288p. : il.; 28cm

FROSSARD, Heloisa (org.) Augusto Malta – Catálogo da série Negativo em vidro Aristógiton Malta. Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro – Coleção Biblioteca Carioca, 1994.

HEEREN, Alice. Affective Rhetorics of Contagion – Augusto Malta in Belle Époque Rio de Janeiro, 2020.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Nosso Século. São Paulo; Abril Cultural, 1980. vol. 1 (1900-1910)

Portal Augusto Malta do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

Site A Casa Senhorial

WANDERLEY, Andrea C. T. “Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945)”, do acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Destaque para a identificação da casa de Tia Ciata in Brasiliana Fotográfica, 10 de fevereiro de 2026

“Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945)”, do acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Destaque para a identificação da casa de Tia Ciata

A Brasiliana Fotográfica publica imagens inéditas do Rio de Janeiro, do acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ), instituição parceira do portal desde abril de 2016, quando celebrávamos um ano de existência. Sob a presidência do internacionalista e doutor em Ciência Política, Eliseu Santiago, em parceria com a Aprazível Edições, do jornalista, editor de livros, curador de museus e exposições, Leonel Kaz, o AGCRJ lançou o livro digital Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945), que revela um valioso e inédito acervo iconográfico da cidade do Rio no período do Estado Novo, sob a presidência de Getúlio Vargas (1882 – 1954).  A publicação reforça a importância da preservação e difusão do patrimônio histórico e iconográfico do Rio de Janeiro.

 

 

O livro digital está disponível gratuitamente no site do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro e da Aprazível Edições promovendo acessibilidade e difusão cultural. Foi financiado pelo Programa de Fomente à Cultura Carioca – PRÓ-CARIOCA LINGUAGENS, via Edição PNAB – Política Nacional Aldir Blanc. Lembramos aqui que o acervo do AGCRJ reúne cerca de quatro milhões de itens identificados, além de outros milhões de documentos, fotos e registros ainda em processo de organização.

 

Link para o livro digital Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945) 

 

Hoje a Brasiliana Fotográfica disponibiliza 20 das centenas de imagens publicadas no livro. A partir de recursos tecnológicos como a digitalização e o zoom, os registros fotográficos passam a ter outra visibilidade, podendo ser acessados em sua qualidade plena.

 

Acessando o link para as fotografias publicadas no livro Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937 -1945) disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945) é o resultado de uma extensa pesquisa, da recuperação e da digitalização de imagens realizadas por diversos profissionais do AGCRJ. São fotografias inéditas produzidas pelos filhos de Augusto Malta (1864 – 1957) – Aristógiton (1904-1954) e Uriel (1910 – 1994). Augusto Malta foi, entre 1903 e 1936, o fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro – cargo criado para ele -, e o mais  importante cronista fotográfico da cidade nas primeiras décadas do século XX, responsável por um legado fotográfico incontornável.

 

Foto do Arquivo recortada

Anônimo. Augusto Malta. Rio de Janeiro. Acervo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

 

Aristógiton Malta, nasceu em 1904, no Rio de Janeiro, e começou a auxiliar o pai na prefeitura, em 1925, ano em que Augusto, quando prestava um serviço para a Sul América, teve um de seus dedos dilacerados, devido a uma explosão ocasionada pelo flash de sua máquina fotográfica. Foi operado e ficou internado no Hospital da Ordem Terceira da Penitência. Aristógiton era filho da primeira esposa de Augusto, Laura Oliveira Campos (1874 – 1905).  Casou-se com Helena de Freitas Moutinho (1906 – 1975), em 1933. Em 25 de agosto de 1936, Augusto Malta aposentou-se da Prefeitura e foi substituído por ele, a partir de 9 de setembro do mesmo ano. Em 1938, O presidente da República, Getúlio Vargas (1882 – 1954), visitou a “Feira de Amostras”,  uma exposição de diversas secretarias da Prefeitura do Rio de Janeiro. Um dos stands de maior sucesso foi o da Secretaria de Viação, Trabalho e Obras Públicas, que expôs fotos de Augusto Malta e de seu filho, Aristógiton (A Noite, 31 de outubro de 1938, sob o título “A evolução do Rio através da fotografia”). Foi noticiado que uma foto de sua autoria do Estádio do Maracanã estava nas paredes de todas as repartições da Prefeitura, no hall do Banco da Prefeitura, e também em hotéis em países da Europa, da América do Sul e nos Estados Unidos (A Noite, 18 de maio de 1953, primeira coluna). Faleceu em 15 de agosto de 1954 (A Noite, 18 de maio de 1953, primeira colunaDiário de Notícias, 17 de agosto de 1954, sexta coluna).

 

Aristogiton Malta (1896-1954) / Site Family Search

Aristógiton Malta (1896-1954) / Site Family Search

 

Uriel Malta nasceu, em 28 de setembro de 1910, no Rio de Janeiro, filho da segunda esposa de Augusto, Celina Augusta Verscheuren (1884 – 1969). Passou a trabalhar com o irmão, no Serviço de Fotografia da Prefeitura, em 1937. Já era casado com Hilda de Abreu em 1944. Foi fotógrafo da Prefeitura até fins da década de 1960 e, em 1970, teve assinada a apostila fixando os proventos anuais de inatividade. Uriel faleceu, em Magé, em 5 de agosto de 1994 (Registro Civil do Rio de Janeiro, Site Family Search; Gazeta de Notícias, 4 de julho de 1935, terceira colunaJornal do Brasil, 12 de março de 1937, primeira colunaDiário de Notícias, 3 de abril de 1968, segunda colunaDiário de Notícias, 20 de outubro de 1968, primeira colunaDiário de Notícias, 31 de janeiro de 1969, terceira colunaDiário de Notícias, 7 de abril de 1970, última coluna).

 

Uriel Malta / Site Family Search

Uriel Malta / Site Family Search

 

O trabalho de Aristógiton e Uriel ficou durante muitas décadas à sombra da extraordinária obra de seu pai. As imagens de Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945) resgatam a importância do trabalho dos filhos de Augusto Malta, que fotografaram os últimos anos da belle époque carioca assim como seu desaparecimento.

 

 

O lançamento do livro digital foi realizado, em 27 de janeiro último, por Elizeu Santiago e Leonel Kaz, em um evento no AGCRJ. Em seguida, o professor Antonio Edmilson Martins Rodrigues proferiu a palestra Reformas Urbanas e Cultura no Rio do Estado Novo. O Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ), entidade que apoiou a publicação do livro, foi representada pelo seu presidente, Sydnei Menezes. No dia seguinte, foi realizada uma roda de conversa sob o tema O Rio de Janeiro no Estado Novo: uma perspectiva iconográfica, com os professores Pedro Marreca e Rafael Martins de Araujo, gerente e sub-gerente de Pesquisa do AGCRJ, respectivamente.

 

 

 

 

O lançamento do livro digital foi antecedido pelo resgate de cerca de 14 mil imagens – em positivos com nitrato de prata e negativos – distribuídas em 11 álbuns, que ainda estão em tratamento arquivístico e que futuramente serão disponibilizadas nos bancos de dados do AGCRJ. Foi uma das descobertas mais relevantes realizadas pela instituição nos últimos anos. As imagens capturam as transformações urbanas, culturais e sociais do Rio de Janeiro, entre 1937 e 1945, quando o interventor do então Distrito Federal, o Rio de Janeiro, era Henrique Dodsworth (1895 – 1975).

 

 

Retratam um período de grandes transformações na cidade do Rio: por exemplo, a abertura da Avenida Presidente Vargas e da Avenida Brasil, a expansão dos subúrbios, a urbanização da Pavuna e da Zona Sul, a finalização da esplanada do Castelo e a inauguração do Jardim de Alah. Mais de 500 edifícios desapareceram.

 

Essas obras realizadas na região pela Prefeitura do Rio de Janeiro reduziram muito a Praça Onze de Junho. Logo no início da década de 40, durante o Estado Novo, o então presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) decidiu construir a avenida Presidente Vargas e, pelo projeto, os quarteirões entre as ruas Visconde de Itaúna e Senador Eusébio desapareceriam para sua abertura (O Malho, dezembro de 1941).

 

 

Começaram as demolições. Inúmeras famílias foram desalojadas, prédios foram derrubados, dentre eles algumas construções históricas, como a Igreja de São Pedro dos Clérigos.

 

 

 

 

O segundo trecho da nova avenida foi concluído em 10 de novembro de 1942; e, em 10 de novembro de 1943, foi batizada de Presidente Vargas. Finalmente, em 7 de setembro de 1944, foi inaugurada (O Malhodezembro de 1942abril de 1943dezembro de 1943O País, 10 de novembro de 1943Jornal do Brasil, 8 de setembro de 1944).

 

 

Na fotografia abaixo, foi identificada a casa da lendária Tia Ciata (1854 – 1924), Hilária Batista de Almeida, localizada na Rua Visconde de Itaúna, 117.

 

 

A casa ficava na região da Pequena África do Brasil, expressão baseada numa afirmação do cantor e pintor Heitor dos Prazeres (1898 – 1966) se referindo à área que começava no Porto do Rio de Janeiro e abrangia os atuais bairros da Saúde, Estácio, Santo Cristo, Gamboa e Cidade Nova, até a Praça Onze de Junho. Foi lá que, a partir da década de 1870, a comunidade baiana se estabeleceu no Rio de Janeiro, fazendo da área um local de concentração de diversas manifestações da cultura afro-brasileira. Havia também as tias Bebiana, Carmen e Mônica, dentre outras, que fizeram de suas casas pontos de referência e de convívio, que garantiram a manutenção das tradições africanas na cidade. Nessas casas eram cultuadas a música e a religiosidade afro-brasileira. As casas de Tia Prisciliana, mãe de João da Baiana (1887-1974), e, principalmente, a de Tia Ciata, considerada a matriarca do samba, foram espaços fundamentais da música popular carioca e eram frequentados por Donga, Pixinguinha (1897 – 1973), João da Baiana (1887-1974), o jornalista e dramaturgo Vagalume, pseudônimo de Francisco Guimarães (c. 1880 – 1946), e agitadores culturais como, por exemplo, Hilário Jovino (1873- 1933), Germano Lopes da Silva (? – 1933), o compositor e jornalista Mauro de Almeida(1882 -1956), dentre outros. Foi também na Pequena África que a Deixa Falar, considerada a primeira escola de samba, foi fundada, em 12 de agosto de 1928, pelos sambistas Bide, Mano Edgar, Brancura, Baiaco, dentre outros, além de Ismael Silva, que reivindicava a autoria da expressão escola de samba.

Na época da demolição, a Praça Onze não era apenas um logradouro carioca, mas uma espécie de bairro, pois englobava todas as ruas das imediações. Hoje, esta importante referência na história da formação do Rio de Janeiro, da cultura brasileira e da criação do samba, não existe mais, porém sua região continua sendo importante para o samba: o Sambódromo e o Terreirão do Samba, inaugurados em 1984 e 1991, respectivamente, estão localizados na área. Da Praça Onze resta um pequeno jardim, onde foi instalado um monumento em homenagem a Zumbi, em 1986.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

São esses os profissionais responsáveis pelo extraordinário Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945):

 

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O livro físico foi lançado em 14 de julho de 2026, no Palácio da Cidade, no Rio de Janeiro, Na ocasião, discursaram Lucas Padilha, secretário de Cultura do Rio de Janeiro, e Eliseu Santiago, como já mencionado, presidente do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (informação inserida no texto em 14 de julho de 2026).

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BUENO, Eduardo. TIA CIATA E A PRAÇA ONZE: COMO SURGIRAM AS ESCOLAS DE SAMBA

Diário do Ri0 – Praça Onze

Dicionário de Música Cravo Alvim

GERSON, Brasil. História das Ruas do Rio. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2013.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MALAMUD, Samuel. Recordando a Praça Onze. 1ª edição, Rio de Janeiro, Editora Kosmos, 1988

MOURA, Roberto. Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Funarte, 1983.

SILVA, Beatriz Coelho. Negros e Judeus na Praça Onze. A História que não ficou na memória. Rio de Janeiro : Bookstart, 2015.

Site Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

Site Family Search

WANDERLEY, Andrea C.T. O alagoano Augusto Malta, fotógrafo oficial do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936 in Brasiliana Fotográfica, 10 de julho de 2015.

__________________. Série O Rio de Janeiro desaparecido” XVIII – A Praça Onze in Brasiliana Fotográfica, 20 de abril de 2022.

Joaquim Insley Pacheco: nauta entre Portugal e o Brasil e entre o Império e a República por Pedro Karp Vasquez

Publicamos hoje, quando completam-se 200 anos do nascimento de dom Pedro II (1825 – 1892), o artigo Joaquim Insley Pacheco: nauta entre Portugal e o Brasil e entre o Império e a República, de autoria do escritor e fotógrafo Pedro Karp Vasquez, sobre o fotógrafo português, um dos agraciados, ainda na década de 1850, pelo imperador, um entusiasta da fotografia, com o título de Fotógrafo da Casa Imperial. Disponibilizamos também uma cronologia atualizada sobre o fotógrafo realizada pela editora da Brasiliana Fotográfica, Andrea C. T. Wanderley.

 

 

Em 10 de agosto de 1855, Insley Pacheco fotografou o monarca, sua esposa, a imperatriz Teresa Cristina (1822 – 1889); e uma das filhas do casal, a princesa Leopoldina (1847 – 1871), na Quinta da Boa Vista (Diário do Rio de Janeiro, 9 de janeiro de 1856). Ao longo de sua trajetória fotografou diversos outros membros da Família Imperial como a Princesa Isabel (1846 – 1921) e seu marido, o Conde d´Eu (1842 – 1922); e realizou vistas da Quinta da Boa Vista e do Paço Imperial, dez das quais integram a coleção do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, e foram incluídas pelo historiador Daniel Rebouças no livro recentemente lançado pela Editora Capivara: O espelho de papel: A fotografia de Insley Pacheco na coleção do IHGB.

 

O espelho de papel: A fotografia de Insley Pacheco na coleção do IHGB, 2025

O espelho de papel: A fotografia de Insley Pacheco na coleção do IHGB, 2025

 

No artigo, além de destacarmos as fotografias de autoria de Insley recentemente incluídas no acervo fotográfico do portal e que pertencem ao IHGB, reunimos também imagens realizadas pelo fotógrafo provenientes de outros acervos presentes na Brasiliana Fotográfica: da Fundação Biblioteca Nacional e do Instituto Moreira Salles, suas instituições fundadoras; e do Arquivo Nacional e da Leibniz-Institut fuer Laenderkunde, suas parceiras.

 

Acessando aqui o link para as fotografias de autoria de Joaquim Insley Pacheco do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

Acessando aqui o link para todas as fotografias de autoria de Joaquim Insley Pacheco disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

 

JOAQUIM INSLEY PACHECO: NAUTA ENTRE PORTUGAL E O BRASIL E ENTRE O IMPÉRIO E A REPÚBLICA

Pedro Karp Vasquez*

 

 

 

A finalidade de um retrato não deve ser a de esclarecer,

mas de contornar, sugerindo o enigma.

De esforço em esforço, atingir a fisionomia plena,

mas com o seu segredo, que é o que importa.

Lúcio Cardoso

 

Queremos a ilusão grande do mar,

multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,

uma solidão para todos os lados,

uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do

mundo,

e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

Cecília Meireles

 

NAVEGAR É PRECISO…

Joaquim José Pacheco nasceu na vila portuguesa de Cabeceiras de Basto, no distrito de Braga, em 31 de março de 1830 e faleceu no Rio de Janeiro em 14 de outubro de 1912, famoso sob o nome de Insley Pacheco. Foi agraciado com o prestigioso titulo de Fotógrafo da Casa Imperial, na década de 1850, sendo igualmente Cavalheiro da Ordem de Christo de Portugal, pois seu talento também foi reconhecido em vida na pátria natal. O que destoa favoravelmente da situação da maioria dos fotógrafos estrangeiros que atuaram no Brasil durante o século XIX, desfrutando de maior ou menor celebridade entre nós, porém permanecendo no anonimato em seus países de origem.

 

 

Assim como muitos dos seus compatriotas que vieram tentar a sorte no Brasil, Joaquim José não teve vida fácil: órfão de pai e mãe, veio se juntar ao irmão mais velho, Bernardo José, no Recife, em 1843, sendo logo seguido pela irmã, Joaquina. Em algum momento da mesma década, mudou-se para Fortaleza, onde, em 1847, conheceu o daguerreotipista irlandês Frederick Walter (1811 – 18?) que contrabalançava a clientela rarefeita da época com o pitoresco ofício de mágico. Segundo Ary Bezerra Leite, em História da fotografia no Ceará (Edição do Autor, 2019), o jovem Pacheco trocou lições de daguerreotipia pela pintura de cenários para os espetáculos de magia do seu professor/empregador.

De temperamento perfeccionista, Joaquim José Pacheco rumou para Nova York no segundo semestre de 1950, depois de ter atuado por conta própria em Fortaleza e na capital maranhense. Nos Estados Unidos, estudou com dois grandes profissionais que se tornariam emblemáticos em virtude da documentação da Guerra Civil norte-americana (1861-1865), hoje conservada na Biblioteca do Congresso dos EUA: Jeremiah Gurney e Mathew Brady. Sendo que este último montou uma equipe para o registro simultâneo de diferentes frentes de batalha para oferecer abrangente documentação do conflito em consonância com sua ambição de ser “testemunha ocular da história”. Pacheco estudou também com Henry Earle Insley, que não se tornou tão célebre quanto os dois professores citados, mas foi um retratista extremamente popular, mantendo um estúdio na Broadway durante duas décadas, a partir de 1840. Foi ele quem, certamente, causou impressão mais profunda no jovem Joaquim José, de tal forma que, após regressar ao Brasil, ele aposentou o José de origem em benefício do Insley, com o qual pretendia homenagear o mestre.

De volta ao Brasil em 1851, Pacheco se instalou no Ceará dos seus primeiros passos na carreira, trabalhando em Fortaleza e Sobral. Depois fotografou também no Recife antes de buscar a clientela mais ampla e estável da Corte Imperial, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1855. Montou estúdio primeiro em um sobrado da rua do Ouvidor número 31, passando depois, quando já havia conquistado grande clientela, para um ateliê mais amplo e luxuoso no número 102 da mesma rua. Mas ocupou também, ao longo das seis décadas subsequentes, outros endereços na área central da cidade, que durante todo o século XIX concentrou a metade dos estúdios fotográficos do país. Pelo visto a adoção do Insley lhe deu sorte, pois depois de retratar belamente os principais membros da Família Imperial, Dom Pedro II, a imperatriz Thereza Christina e as princesas Isabel e Leopoldina, Insley Pacheco foi alçado, como foi dito, à honrosa condição de Fotógrafo da Casa Imperial. Manteve relacionamento pessoal e profissional com toda a família, inclusive com aqueles que se tornaram maridos das princesas, o conde d’Eu e o duque de Saxe, assim como os filhos de ambos os casais.

 

 

 

 

Merecem destaque dois retratos que fez do imperador e da imperatriz que se tornaram antológicos não só pela mestria técnica demonstrada como também pelo uso original e inesperado de uma ambientação com diversas plantas evocativas da exuberante natureza tropical brasileira. Isso, quando a moda, em todo o mundo, era o uso de fundos pintados para sugerir ambientes domésticos ou campestres europeus, já que a maioria desses acessórios vinha de cidades europeias, sobretudo Paris, Viena e Londres.

 

 

 

Insley Pacheco também retratou os membros da Família Imperial, assim como a maioria dos seus clientes, com o fundo neutro do estúdio e o mobiliário destinado a criar a ilusão de um ambiente caseiro abastado e que, nos primeiros tempos, servia para os retratados se apoiarem durante as longas sessões de pose: cadeiras, poltronas, balaustradas, colunas, assim como cortinas e tapetes destinados a acentuar a atmosfera doméstica.

 

 

 

 

Recebeu do imperador a autorização de comercializar esses retratos, o que, além de lhe proporcionar bons ganhos, permitiu que a sociedade tivesse um vislumbre mais fidedigno dos integrantes da Família Imperial, cujas fisionomias só eram conhecidas até então por intermédio dos processos de gravura, em particular da litografia, também usada na impressão de livros e periódicos. Seu bom relacionamento com Dom Pedro II fez com que ele aceitasse uma encomenda fora do seu padrão: a realização de vistas da Quinta da Boa Vista e do Paço Imperial, dez das quais integram a coleção do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (que possui um total de 397 fotos de Pacheco) e foram incluídas pelo historiador Daniel Rebouças no livro recentemente lançado pela Editora Capivara: O espelho de papel: A fotografia de Insley Pacheco na coleção do IHGB. A importância destas raras vistas de Pacheco já havia sido comprovada por sua inclusão pelo barão do Rio Branco no livro Le Brésil, de Levasseur, impresso em Paris, em 1889.

 

 

 

As sólidas raízes de Cabeceiras de Basto, “uma terra antiga e por isso uma terra sábia”, fizeram de Joaquim José Pacheco um gajo rijo e longevo que chegou aos 82 anos, em uma época na qual a expectativa de vida ao nascer era apenas de 30 anos e o próprio imperador faleceu três dias após fazer 66 anos. Hoje Pacheco seria certamente centenário, mas tal longevidade tanto pode ser encarada como uma bênção quanto como uma provação, já que o destino do idoso é viver em uma continua despedida dos entes queridos. Com Pacheco isso não foi diferente: ele, que já havia perdido na juventude uma filhinha com apenas 18 meses, Emília, perdeu depois a esposa, Elvira Laura, o filho, Alfredo Henrique, e duas netas, Maria e Maria de Lourdes. É como bem lembrou Lúcio Cardoso em seu Diário: “Podemos não sentir a idade, mas ela se faz presente, através dos mortos que vai semeando em torno de nós”.

ARLEQUIM SERVIDOR DE DOIS AMOS

Além de excelente fotógrafo, Joaquim Insley Pacheco foi também pintor e aquarelista, desmentindo o mito do antagonismo entre pintura e fotografia na fase inicial dessa nova disciplina. Foi, inclusive, aluno de pintura de outro dublê de fotógrafo e pintor, Arsênio da Silva, que documentou o casamento da princesa Isabel, em 15 de outubro de 1864. É muito provável que ele tenha tido notícia do daguerreotipista alemão, Francisco Napoleão Bautz, o primeiro a se dividir entre pintura e fotografia entre nós, e muito certamente conheceu outro profissional na mesma condição, Karl Ernest Papf, que chegou ao Brasil para realizar as fotopinturas da Photographia Allemã, de Albert Henschel, no Recife, mas depois se radicou em Petrópolis, onde abriu estúdio próprio no qual foi assistido pelo filho, Jorge Henrique, mais tarde autor de um impressionante panorama de 360 graus da Cidade Imperial.

Além de se aperfeiçoar na técnica do guache com Arsênio da Silva, Pacheco também foi aluno de pintura de Karl Linde e François-René Moreaux. Quando Silva faleceu, praticamente esquecido, em 1883, o discípulo deu uma bela prova de afeição pelo mestre: organizou uma ampla retrospectiva do seu trabalho no Salão Insley Pacheco, que foi prestigiada inclusive pelo imperador no dia 18 de outubro do mesmo ano, fato merecedor de registro na capa da Revista Illustrada (Número 358), na qual Angelo Agostini retratou o fotógrafo acompanhando Dom Pedro II na referida visita. Ressaltou ainda na legenda o fato de que Arsênio teria sido completamente esquecido se não fosse pela homenagem prestada por Insley Pacheco.

 

 

A prática do retrato fotográfico é tão fascinante quanto excruciante, pois é preciso admitir que o ser humano às vezes pode ser insuportável e as crianças, que têm índole melhor, costumam ser irrequietas, de tal forma que Pacheco chegou a anunciar na imprensa no começo da carreira sua especialidade no trato dos pequenos inevitavelmente enfastiados com as longas sessões de pose dos primórdios da fotografia. Para descansar das caras e bocas da prática cotidiana do retrato fotográfico, na pintura Insley Pacheco optou por se concentrar na produção de paisagens, com acentuado pendor pelas marinhas, que ele pintou em ambos os lados da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro e em Niterói, cujas belas praias seriam também a temática de predileção do Grupo Grimm, capitaneado pelo professor alemão Georg Grimm entre os anos de 1884 e 1886, em um capítulo fundamental do paisagismo na pintura brasileira.

 

 

Bom pintor, Insley Pacheco não era, no entanto, fenomenal, não podendo se igualar a alguns dos integrantes do Grupo Grimm, como seu próprio líder, Giovanni Battista Castagneto, Domingo García y Vásquez e Antônio Parreiras. Mas, no âmbito da fotografia, era insuperável, como um talento inegável e um domínio técnico invejável, do mesmo nível que os maiores profissionais europeus e norte-americanos de seu tempo. Dominava uma série admirável de processos e Mello Morais Filho, seu contemporâneo, afirmou em Artistas do meu tempo (H. Garnier, Livreiro-Editor, 1904) ter sido ele o pioneiro da ambrotipia no Brasil, além de “Introdutor incontestável da platinotipia no Brasil (1883), os seus planos vingaram desde logo, sendo o sistema adotado sem reservas pela generalidade dos nossos fotógrafos.” O empenho de Pacheco em se aperfeiçoar e se modernizar manteve intacto até o fim da vida, de tal forma que, mais tarde os anúncios publicados por ele na imprensa carioca alardearam o surgimento de um processo de sua invenção denominado “ambro-cromo-tipo”, assim como de “hallotypo”, e, finalmente, em 1909, a tipocromia “um novíssimo e interessante invento”. Constando também entre suas inovações a criação da “Diafonografia”, a respeito da qual nada sabemos.

 A PARTICIPAÇÃO DE INSLEY PACHECO NAS GRANDES EXPOSIÇÕES NACIONAIS E INTERNACIONAIS

Como Insley Pacheco foi ombreado apenas por Marc Ferrez o fotógrafo do Império que mais participou de exposições, tanto no Brasil quanto no exterior, é oportuno reproduzir aqui, à guisa de referência, um trecho do meu livro Fotografia escrita: Nove ensaios sobre a produção fotográfica no Brasil (Senac, 2014) sobre a matéria:

Foi em 1859 que ele participou pela primeira vez da Exposição Geral de Belas-Artes da Academia Imperial, na qual figuravam expoentes das nossas artes, como Jean-Baptiste Debret (incluído em caráter póstumo) e Victor Meirelles, bem como grandes mestres internacionais como Nicolas Poussin, Pieter Paul Rubens, Michelangelo Merisi da Caravaggio e Rafael Sanzio de Urbino.

Dois anos mais tarde, em 1861, Insley Pacheco obteve sua primeira premiação, uma medalha de cobre da I Exposição Nacional, evento em que participou com retratos fotográficos (inclusive de membros da família imperial), e com pinturas de paisagens. No ano seguinte, participou da primeira mostra internacional, a prestigiosa Exposição Universal de Londres, onde mostrou apenas retratos. Categoria em que figuravam também dois dos maiores especialistas franceses: Nadar (Gaspard Félix Tournachon et Maillet, 1820-1910) e Etienne Carjat (1828-1906). Outros importantes mestres da fotografia francesa que também expuseram na ocasião foram Louis-Alphonse Davanne (1824-1912), um dos membros fundadores, e depois presidente, da Société Française de Photographie, e Louis-Alphonse Poitevin (1819-1882), também membro da SFP e inventor de processos de impressão de imagens a partir do daguerreótipo. Contudo a presença mais ilustre dentre todas foi, inquestionavelmente, a do inventor inglês da fotografia, William Henry Fox Talbot (1800-1877), em sua primeira e última participação num evento dessa natureza.

Em 1864 Pacheco voltou a mostrar suas imagens fotográficas na Exposição Geral de Belas-Artes da Academia Imperial. E, no ano seguinte, teve participação destacada na Exposição Internacional do Porto, na qual conquistou a Medalha de Primeira Classe. Não deixando de participar também da Exposição Geral de Belas-Artes da Academia Imperial, no Rio de Janeiro. Em 1866 Insley Pacheco obteve medalhas de prata tanto por suas fotografias (na II Exposição Nacional), quanto por suas paisagens pintadas (na Exposição Geral de Belas-Artes da Academia Imperial). Em 1867, ele enviou retratos, inclusive em fotopintura, para a Exposição Universal de Paris, que também contou com a participação de Etienne Carjat. E, como sempre, compareceu à Exposição Geral de Belas-Artes da Academia Imperial, mostrando paisagens pintadas e fotografias, repetindo a dose com ambas as técnicas em 1868 também.

Joaquim Insley Pacheco teve destacada participação na III Exposição Nacional, em 1873, conquistado duas premiações: medalha de prata e medalha de cobre. Neste mesmo ano foi premiado também na Exposição Universal de Viena, com uma menção honrosa, sendo interessante mencionar que esse evento contou com expressiva participação de fotógrafos sediados no Brasil, tais como: Henschel & Benque, George Leuzinger, Augusto Riedel, Marc Ferrez, Fleiuss Irmãos & Linde, Júlio Balla, Antonio Ricardi e João Ferreira Vilella. Em 1875, ele participou da IV Exposição Nacional (com desenhos e pinturas), e da Exposição Geral de Belas-Artes da Academia Imperial, com retratos fotográficos e uma série de paisagens pintadas em técnicas diversas, como óleo, guache, aquarela e fusain, numa impressionante comprovação de sua versatilidade como pintor.

Em 1876, Insley Pacheco participou da Exposição Internacional da Filadélfia, comemorativa do primeiro centenário da independência dos Estados Unidos e da qual Dom Pedro II foi o convidado de honra, ocasião em que ocorreu o conhecido episódio do teste do telefone com seu inventor, Graham Bell, do qual nosso imperador foi um dos primeiros clientes e seguramente seu maior “garoto propaganda”. Consta inclusive que Pacheco teria sido premiado na ocasião, mas não consegui obter comprovação disto. Outro prêmio ainda indefinido foi aquele por ele obtido em 1882 na Exposição Continental de Buenos Aires, que Insley Pacheco fez questão de mencionar no verso de seus cartões-suporte a partir desta data, sem especificar no entanto que prêmio teria sido esse. A exemplo do que ocorreu também na Exposição Universal de Paris, de 1889. Esse foi o ano de inauguração da Tour Eiffel e Paul Nadar (Paul Tournachon, 1856-1939), filho do célebre Nadar também participou da exposição deste ano, bem como o suíço Frédéric Boissonnas (1858-1946). O Brasil também teve presença importante, com Albert Richard Dietze, Alfredo Ducasble, Marc Ferrez, Felipe Augusto Fidanza, Rodolpho Lindemann, Nicholson & Ferreira, José Tomás Sabino, José Ferreira Guimarães, George Leuzinger, Alfredo Ducasble e Paulo Robin & Cia.

Para concluir, é importante ressaltar que Joaquim Insley Pacheco não encerrou sua dupla carreira, na fotografia e na pintura, no período imperial. Extraordinariamente ativo, ele se manteve criativo e produtivo até o fim dos seus dias, com sua última presença em um evento público ocorrendo em 1910, ano em que participou da décima-sétima edição da Exposição Geral de Belas Artes com uma série de pinturas a guache (A Imprensa, 29 de setembro de 1910, primeira coluna).

 

*Pedro Karp Vasquez é escritor, fotógrafo e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

 

Acesse aqui a Cronologia de Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912) por Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

Histórias da fotografia paraense entre o século XIX e as primeiras décadas do século XX

Ainda durante a realização da 30ª Conferência das Nações Unidas sobre Mudança do Clima, COP30, em Belém, o Pará volta a ser tema da Brasiliana Fotográfica. Hoje o portal traz artigos que contam um pouco da história da fotografia paraense, entre o século XIX e as primeiras décadas do século XX. Essa história começou, provavelmente, com a chegada do norte-americano Charles DeForest Fredricks (1823 – 1894) ao estado, em 1846, poucos anos após o anúncio da descoberta do daguerreótipo, ocorrido em 1839, na França. Vamos destacar o trabalho do português Felipe Augusto Fidanza (1844 – 1903) e do alemão George Huebner (1862 – 1935), que já foram temas de publicações do portal.

 

 

Além disso, publicamos o artigo da artista e pesquisadora Mayra Rodrigues sobre a história da Photographia Oliveira, de Antonio Oliveira (1864 – 1929), seu tio-bisavô e destacado documentarista da cidade de Belém e retratista das famílias abastadas na belle époque da cidade; e de suas filhas, a fotógrafa Lourdes Oliveira (1893 – 1984) e a laboratorista Kyola Oliveira (18? – 19?). Segundo o jornalista, ensaísta e curador Cláudio de La Rocque Leal (1958 – 2006), Lourdes é um dos maiores nomes da fotografia paraense. Sua produção é uma das mais ricas, mais bonitas e inventivas…As irmãs Oliveira encontram terreno para o desenvolvimento de uma produção rara e bela, digna dos mais importantes centros fotográficos do mundo.

 

“O retrato paraense é um todo mítico de crendices, volúpias, revoltas, revoluções, âmagos dilacerados, histórias de envenenamento, morte, amor, ódio, expulsões, recebimentos, doações, tudo a um tempo só, átmo de segundo, átmo que a fotografia precisa para registrar para todo o sempre aquele instante fugidio, que já não é mais, como disse Lispector. E se alguns paraenses partiram algum dia em férias para Paris e lá foram fotografados por Felix Nadar ou, antes, por Daguerre, é unicamente porque faz parte dessa essência esse eterno mesclar, esse eterno misturar as raízes, as origens, os sentidos. Políticos, intelectuais, artistas, escritores, estivadores, militantes, feministas, todos – incluindo os esquecidos e os desconhecidos, guardados pelo acaso em registro desses fotógrafos-, enfim todos os que fizeram de sua participação na formação desse retrato a mais bela contribuição para a construção do rosto único – união de faces no espelho de Persona – são nosso retrato, representação de nosso caráter. E o olhar, conhecido ou anônimo faz o mesmo que a “femme inconue” de Nadar: fita-nos eternamente”.

Cláudio de La Rocque, março de 1998 (Retrato Paraense)

 

 

A Photographia Oliveira por Mayra Rodrigues*

 

 

Tio Antonico é como a família chamava meu tio-bisavô, o fotógrafo Antonio Oliveira. Experimentou a febre das modernidades introduzidas no Brasil pelo Norte, impulsionada pela economia da borracha e que, segundo Mário de Andrade, alumbrou o homem amazônico no século XIX.

 

Antonio Oliveira, em rara foto, 19? / Acervo da família Oliveira

Autor desconhecido.“Tio Antonico”, Antonio Joaquim da Paixão Oliveira (1864–1929), em rara fotografia / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

Aos 24 anos, abriu a Photographia Oliveira, em Belém do Pará. O cálculo da idade do estabelecimento toma por base o ano de 1888 como provável data de sua fundação conforme anúncio publicado no Estado do Pará, em 1916, que afirmava: “Todos os retratos tirados na Photographia Oliveira, desde 1888 até hoje, fôram ahí archivados e poderão ser reproduzidos em qualquer tempo” (O Estado do Pará, 20 de fevereiro de 1916, última coluna).

No registro de óbito de Antonio Oliveira, de 21 de janeiro de 1929, lê-se: “Que hoje, às dezenove horas, no Hospital da Caridade, sexto distrito, falleceu de “diabetes, anasarca e colapso cardíaco” Antonio Joaquim da Paixão Oliveira, paraense, branco, de sessenta e cinco anos de idade, photographo, filho de Francisco Gregório Oliveira e donna Anna Izabel Maciel de Oliveira.”

Antônio Oliveira e seus irmãos são, por parte de mãe, sobrinhos-netos de Filippe Alberto Patroni Martins Maciel Parente (Acará, 1798 — Lisboa, 1866), fundador do jornal O Paraense (1822), considerado o primeiro jornal publicado na então Província do Grão-Pará e Rio Negro. Patroni é apontado como um dos influenciadores do movimento que culminou na Revolta da Cabanagem (1835–1840) (1).

Voltando à fotografia, o português Filippe Augusto Fidanza é reconhecidamente o grande nome do período. Segundo o jornalista e curador Cláudio de La Rocque Leal, “seu estúdio encontra um rival à altura somente na década de 1880, exatamente em 1884, com a abertura do Photo Oliveira, cujo domicílio comercial situava-se no prédio ao lado do Photo Fidanza.” (Retrato Paraense, Fundação Rômulo Maiorana, Belém, Pará, 1998). Ele acrescenta: “Ao que tudo indica, não somente pelos noticiários, como por depoimentos colhidos, os dois eram os mais importantes da cidade.”

Comemorando as conquistas de Tio Antonico e seguindo as datas indicadas por Leal, registro que a Photographia Oliveira instalou-se no prédio ao lado do Photo Fidanza — no número 18-A da Rua Conselheiro João Alfredo — por volta de 1894, e não em 1884, já que anúncios, entre 1891 e 1893, ainda indicavam como domicílio o número 4 da mesma rua. Outra pista: em 1895, a revista A Palavra: revista militar e literária informava que “toda a correspondência deve ser dirigida à Photographia Oliveira, à rua João Alfredo, 98, ou ao 4º Batalhão de Artilharia de Posição.” É provável que tenha havido erro tipográfico, sendo correto o número 18 (A Palavra: revista militar e literária, 15 de setembro de 1895, primeira coluna).

Antonio Oliveira atuou como um leão por quatro décadas. No período em que trabalhou, a Princesa Isabel assinou a Abolição da Escravatura (1888), o Brasil passou de Império à República (1889) e o mundo enfrentou a Primeira Guerra Mundial (1914–1918). Anúncios, matérias na imprensa, trabalhos acadêmicos e fotografias em relatórios governamentais indicam que ele foi repórter fotográfico, paisagista, retratista dentro e fora do estúdio e comerciante de produtos e serviços ligados à fotografia e à pintura, além das então recentes novidades tecnológicas para o lar.

Em 1899, anuncia vagas para “typographos, pautadores, encadernadores, retocadores photographicos, de competencia profissional, assim como de uma cosinheira” (A República (PA), 19 de setembro de 1899, primeira coluna). É provável que a família, além de trabalhar, morasse também no sobrado. Fez da Photographia Oliveira uma referência na cidade como ponto de encontro, premiando clientes com retratos, promovendo concursos fotográficos e com a exibição dos resultados e notícias de interesse público na forma de murais na porta de seu estabelecimento, como retratos de criminosos procurados.

Além do tradicional expediente entre 8h e 17h, em 1921, abriu para “Retratos tirados à noite”, com novos horários “às terças, quintas e sábados, das 8h às 9h da noite. Excepto para creanças” (Estado do Pará, 19 de abril de 1921, segunda coluna).

A Photographia Oliveira também sabia brincar com o público em seus anúncios. Um deles prometia carteiras de “verdadeiro coiro da Rússia” e “à prova de batedores”, explicando que, “uma vez acostumadas com a mão do proprietário, extranham as alheias e GRITAM ao serem tocadas por estas” (A Província do Pará, 31 de janeiro de 1900, anno XXIV, nº 7.296, p. 4). Em outra oportunidade, garantia possuir um “grande depósito de paciência” para “retratar creanças tolas e traquinas” (Estado do Pará, 12 de agosto de 1915, sexta coluna).

 

Província do Pará, 1900

Província do Pará, 31 de janeiro de  1900

 

O ano de 1900 marca um ponto alto na carreira de meu tio-bisavô. Foi quando investiu em dois anúncios elaborados, publicados nos refinados álbuns bilíngues — português e italiano — de Arthur Caccavoni, impressos em Gênova: o Album Descriptivo Amazonico  ilustrado por P. Campofiorito, tem caráter mais artístico (a imagem do anúncio de Antonio Oliveira abre esse artigo); no outro, o álbum Pará Commercial, mais empresarial, o destaque do anúncio é o próprio fotógrafo — com uma rara imagem de seu rosto aos 36 anos e sua assinatura cursiva e abreviada: “A. J. P. Oliveira.”

 

 

 

 

Os adjetivos a ele atribuídos pela imprensa dão pistas de sua passagem por Belém e pelo tempo. Ainda nos anos 1890 é o “sympathico photographo”, “acreditado e bem montado”; em 1896, a Folha do Norte, comentando sobre um possível contraventor, publica que “Nada contém o Izidoro Santiago: nem a inexorabilidade do subprefeito capitão Cândido, nem a energia terrível do aterrador capitão Mattos e nem a célebre galeria da Photographia Oliveira”. Em 1902, é o “conhecidíssimo photographo belenense”; em 1911, possui um “conceito artístico que há muito distingue”; e, em 1921, é “antigo e esforçado” (A República (PA), 3 de junho de 1890, quarta coluna; Folha do Norte, 25 de novembro de 1896, última coluna; O Industrial (PA), 17 de abril de 1902, penúltima colunaEstado do Pará, 17 de dezembro de 1911, terceira coluna; Estado do Pará, 20 de abril de 1921, segunda coluna).

A essa altura, Tio Antonico há muito havia se casado com Tia Catita — Anna Catharina Miranda de Oliveira (08/01/1872 – 19/10/1956)  e era pai de sete mulheres – Maria de Lourdes, Regina, Deolinda, Anna, Kyola, Bonina e Helena; e de três homens – Milton, Sylla e Clóvis. Em 1921, não era possível prever que, oito anos mais tarde, o diabético Antonio Oliveira morreria de colapso cardíaco.

Mas, em 1929, Lourdes, a filha mais velha, então com 28 anos, e a irmã Kyola já estavam prontas para suceder o pai na Photographia Oliveira, a primeira como fotógrafa e a segunda como laboratorista. Mais que uma continuidade, e ainda muito pouco conhecido, é o fato que foi através de suas filhas Kyola e Lourdes que “o estúdio Oliveira acabou conhecido como o mais inventivo de todos.”

 

Lourdes Oliveira,19?. Belém, Pará / Foto do livro Retrato Paraense

Photographia Oliveira. Lourdes Oliveira, aos 26 anos, fotografada por sua irmã, Kyola de Miranda e Oliveira, 1919. Belém, Pará / Foto do livro Retrato Paraense.

 

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Photographia Oliveira. A jovem Lourdes Oliveira, em foto provavelmente feita por seu pai, Antonio Oliveira, no final dos anos 1910. Belém, Pará /Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

Quem afirma é o crítico Cláudio de La Rocque Leal, que dedica a exposição e o livro Retrato Paraense, realizados pela Fundação Rômulo Maiorana, em 1998, à memória do português Felipe Augusto Fidanza, a do alemão George Huebner e a da brasileira Lourdes Oliveira.

Para Rocque Leal, Lourdes é “um dos maiores nomes da fotografia paraense, que continua no, dir-se-ia, semi anonimato.” Analisa que, com as irmãs Oliveira, “o retrato paraense ganha força”. Que reformularam a estética mais sisuda de então ao introduzir “um certo glamour” inspirado nos ídolos do cinema e “impingir às fotografadas uma sensualidade pudica, enquanto ganhavam espaço nunca dantes a mulheres permitido.” E ainda que “os olhares sedutores de seus dândis e especialmente a ternura de suas crianças, ainda hoje fascinam com facilidade.”

Torço para que Cláudio de La Rocque as tenha conhecido em vida.

 

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Photographia Oliveira. “Tia Zara”, Maria do Rosário Coutinho de Oliveira (21/09/1905 -?). Foto de Lourdes Oliveira, década de 1930. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

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Photographia Oliveira. Rapaz não identificado. Foto de Lourdes Oliveira, década de 1930. Belém, Pará /Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

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Photographia Oliveira. “Tia Zara”, Maria do Rosário Coutinho de Oliveira (21/09/1905 -?). Foto de Lourdes Oliveira, década de 1930. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

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Photographia Oliveira. Primeira comunhão de Beatriz de Oliveira Rodrigues da Costa (13/05/1924 – ?), Cecília Cordeiro de Oliveira (16/09/1920 – ?) e José Luiz Cordeiro de Oliveira (24/11/1921 – ?), filhos do “Tio Cesar”, Cesar Coutinho de Oliveira (09/10/1890 – 06/11/1983), e Maria Celeste Cordeiro de Oliveira (07/07/1897 – 13/03/1959). Foto de Lourdes Oliveira, década de 1930. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

Minha mãe, Maria Evangelina Rodrigues de Almeida (Belém, 1932 – Rio de Janeiro, 2025) — Neném para a família —, era assídua frequentadora da Photographia Oliveira e foi privilegiada com lindos retratos durante sua infância e juventude.

 

Photo Oliveira. , c. 193?. Belé, Pará / Acervo da família Oliveira

Photographia Oliveira. “Neném”, Maria Evangelina Rodrigues de Almeida (27/03/1932 – 19/03/2025), com cerca de 3 anos, c. 1935. Foto de Lourdes Oliveira. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

Photo Oliveira. , Maria Evangelina Rodrigues de Almeida, c. 193?. Belém, Pará / Acervo da família Oliveira

Photographia Oliveira. “Neném”, Maria Evangelina Rodrigues de Almeida (27/03/1932 – 19/03/2025), com cerca de 3 anos, com suas bonecas, Vilma, a branca; e Dulce, a preta, c. 1935. Foto de Lourdes Oliveira. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

O estúdio, conta ela, ficava no segundo andar do sobrado da Rua João Alfredo, nº 18-A, onde se viam os vários cenários utilizados nas fotos e que, a pedido das proprietárias — pasmem! — adorava soltar a imagem gelatinosa do negativo de vidro na torneira do estúdio para que estes fossem reutilizados em outras tomadas fotográficas. Um sinal de que, nos anos 1930, o projeto anunciado, em 1916, segundo o qual a Photographia Oliveira guardava todos os negativos desde 1888, estava descontinuado.

 

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Photographia Oliveira. “Neném”, Maria Evangelina Rodrigues de Almeida (27/03/1932 – 19/03/2025), com cerca de 3 anos, c. 1935. Foto de Lourdes Oliveira. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

É certo que nesse período o sobrado abrigava, não apenas a Photographia Oliveira, mas toda a família, e foi nessa casa que Tio Antonico faleceu.

A eclosão da Segunda Guerra Mundial (1939–1945) alavanca o Segundo Ciclo da Borracha e Belém vê chegar, aos milhares, nordestinos esfomeados, doentes, maltrapilhos, chamados de Soldados da Borracha pela propaganda de Getúlio, Soldados de Cristo pela igreja católica e de “arigós” pelos belenenses. Abandonados à própria sorte, batiam nas casas em busca de comida, assombrando a cidade.

A Photographia Oliveira teve dificuldade em importar papel fotográfico durante a guerra, me contou a prima Glorinha — Gloria Coutinho de Faria e Cunha, nascida em 1942, que ouvia da mãe essa explicação sempre que reclamava por ser a única da família sem fotos das Oliveira.

Parece haver aqui um ponto de inflexão nos negócios. Pois, segundo Cláudio de La Rocque Leal, foi nos anos 1940 que Lourdes e Kyola se mudam para o Rio de Janeiro e vendem a firma e o nome fantasia para João Barbosa. O novo proprietário atualizou o nome para Stúdio Oliveira, mantendo o estabelecimento como referência de simpatia e qualidade fotográfica até sua morte, em 22 de setembro de 2001.

Maria de Lourdes de Miranda e Oliveira, a Lourdes, certamente não viu nem a exposição nem o livro Retrato Paraense. Foi sepultada, aos 90 anos, no Cemitério de Santa Isabel, em Belém, em 27 de março de 1984. Nasceu em 23 de dezembro de 1893, mesmo dia de minha avó, que repetia que tudo o que a prima Lourdes fazia, fazia bem feito, e, analisava que sempre faltava algo em fotos de outros fotógrafos, que não faltava nas da prima.

Circula em Belém a informação de que Lourdes, além de fotógrafa, foi pintora. Perguntei a respeito aos que conviveram com ela e nenhuma lembrança confirma essa informação. Mas confirmaram outra habilidade de Lourdes: a costura.

Ainda não encontrei detalhes sobre o nascimento e morte de Kyola de Miranda e Oliveira, a Kyola, mas sim sobre sua moradia. Consta em certidão de compra e venda de imóvel, detalhada mais abaixo, que Kyola é a única das 4 irmãs citadas no documento, incluindo Lourdes, que residia no Rio de Janeiro, tanto no ato de compra, em 21/05/1962, como na data de venda, em 19/06/1981. Kyola trabalhou no estúdio Lucena e Arthur , no prédio do cinema Roxy, onde minha mãe recomendava que fossemos tirar as fotos. Depois montou o “Foto Kyola, FOTOGRAFIAS EM GERAL, Av. Copacabana 798/409 – Rio-RJ”, como se vê nesse remanescente estojinho para fotos 3×4, com fotos de meu irmão Léo, feitas provavelmente no final dos anos 1970.

 

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Foto Kyola Fotografias em Geral. Léo Rodrigues de Almeida (07/06/1958 – 11/01/2021), final da década de 1970 / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

A certidão do imóvel que cita Kyola se refere à casa da Rua Tiradentes, nº 494, uma das quatro casas da Villa Kelly, no bairro do Reduto, em Belém, última residência própria das irmãs. A escritura de venda informa que a casa estava hipotecada ao Banco da Amazônia e que as irmãs, devedoras, se comprometiam a pagar a dívida em “180 prestações mensais, aos juros de 8,9% ao ano”. Um claro sinal de que — tristeza! — passavam por dificuldades financeiras.

Dali saíram para o asilo Pão de Santo Antônio, onde morreram. É certo que Lourdes, Tio Antonico e Tia Catita estão enterrados no Cemitério de Santa Izabel, próximo ao asilo, mas provavelmente não estão juntos. Mensagem da funcionária do cemitério diz: “Estive na sepultura que dona Maria de Lourdes foi sepultada e não tem nada inscrito. Ela é chão”, e reforçou, “a sepultura é chão”.

Sobre o destino do acervo que permaneceu nas instalações da Photographia Oliveira, e que foi continuado meticulosamente por João Barbosa, como me contou sua filha Clara, uma notícia grave e trágica: foi destruído pelo fogo! Tudo!

Outros conjuntos se encontram com familiares, antigos clientes ou estão espalhados entre colecionadores.

 

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Photographia Oliveira. “Tia Zara”, Maria do Rosário Coutinho de Oliveira (21/09/1905 -?). Foto de Lourdes Oliveira, década de 1930. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

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Photographia Oliveira. “Tia Thereza”, Thereza Coutinho de Oliveira, nascida em 25/04/1898. Foto de Lourdes Oliveira, década de 1930. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

 

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Photographia Oliveira. “Tia Pete”, Perpétua Coutinho de Oliveira, nascida em 26/02/1900. Foto de Lourdes Oliveira, década de 1930. Belém, Pará / Acervo Glória Coutinho de Faria e Cunha

 

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Photographia Oliveira. Maria Celeste Cordeiro de Oliveira (07/07/1897 – 13/03/1959). Foto de Lourdes Oliveira, década de 1930. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

 

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Photographia Oliveira. “Tia Zara”, Maria do Rosário Coutinho de Oliveira (21/09/1905 -?). Foto de Lourdes Oliveira, década de 1920. Belém, Pará / Acervo Evangelina Rodrigues de Almeida

 

Com o título Foto da Imagem Original de Nossa Senhora de Nazaré pode ser o registro mais antigo já encontrado”, matéria do jornal O Liberal, de 08 de outubro de 2025, conta sobre a descoberta de uma foto de Antonio Oliveira, que mostra a escultura antes de danos visíveis nas fotos oficiais de 1919, e que foi adquirida pelo colecionador Felipe Rissato, em leilão online organizado no Rio de Janeiro (O Liberal, 8 de outubro de 2025).

 

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Photographia Oliveira. Imagem de Nossa Senhora de Nazareth, c. 1910. Belém, Pará. No canto inferior direito, é possível identificar a assinatura do fotógrafo Antonio Oliveira

 

Finalizo sublinhando que o empreendedorismo independente e qualificado de Lourdes e Kyola é característica também de suas oito parentes ligadas ao Colégio da Quinta Carmita, fundado em Ananindeua, em 1900, às margens do rio Maguary. Uma característica forjada talvez pela educação familiar combinada à lufada feminista no pós-Primeira Guerra Mundial.

 

Colégio Quinta Carmita, Ananindeua, Pará

Colégio Quinta Carmita, Ananindeua, Pará

 

Além de atuarem no ensino e na administração do colégio, Tereza formou-se em Odontologia; Ana Celeste, a Ninó, em Farmácia; Glória importou máquinas de escrever Remington dos Estados Unidos e abriu um curso de datilografia em Belém; Maria do Rosário, a Zara trabalhou no Tesouro Nacional; e Perpétua, a Pete, fluente em inglês, trabalhou na então poderosa Rubber Reserve Company. Mais tarde, ao obter a certificação de qualidade da água mineral proveniente de uma nascente existente no terreno, Pete passou a comercializá-la sob o selo “Águas Maguary”.

 

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As Coutinho de Oliveira, no casarão do Colégio da Quinta Carmita, fundado em 1900, por seus pais, José Marcellino Sizenando de Oliveira e Thereza de Jesus Coutinho de Oliveira, no município de Ananindeua, às margens do rio Maguary.

 

Uma curiosidade incomum para a época: dessas dez mulheres, a maioria — seis — não se casou.

Mas este já é um outro capítulo.

 

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Várias imagens realizadas pela Photographia Oliveira

 

Toda a pesquisa realizada é parte de meu projeto Cordel Paraense para Evangelina, nome de minha mãe, e a ela é dedicado.

 

(1) Um dos artigos da série “Cabanagem: 180 anos”, publicada em 2014 e 2015 pelo portal O Estado Net, intitulado “Patroni: o Profeta da Rebelião”, afirma:

“Não há dúvida de que Filipe Patroni é, pelo menos, a mais curiosa e enigmática figura da era dos ‘motins políticos’, conforme a classificação que o historiador Domingos Antônio Raiol — a maior fonte sobre a história desse período — deu aos acontecimentos no Pará entre 1821 e 1835.”

No entanto, a fotografia que vem sendo identificada como a de Filipe Patroni, tanto nesta quanto em outras publicações na web, retrata, na realidade, o irmão de Antônio e meu bisavô, José Marcellino Sizenando de Oliveira (16/07/1859 – 08/11/1938).

 

 

José Marcelino e sua esposa, Thereza de Jesus Coutinho de Oliveira (29/06/1861 – 18/08/1953) — identificados na imagem abaixo —, fundaram, em 1900, o já mencionado Colégio da Quinta Carmita, situado às margens do Rio Maguary, no município de Ananindeua.

 

José Marcellino Sizenando de Oliveira e sua esposa, Thereza de Jesus Coutinho de Oliveira

José Marcellino Sizenando de Oliveira e sua esposa, Thereza de Jesus Coutinho de Oliveira, , fundadores do Colégio da Quinta Carmita em 1900, localizado às margens do Rio Maguary, no município de Ananindeua. I

 

Um terceiro irmão também deixou sua marca na história do Pará: João Hosannah de Oliveira (15/04/1854 – 15/06/1923). Ao longo de sua trajetória, exerceu múltiplas funções — jornalista, escritor, advogado, sacerdote e deputado federal pelo Pará —, destacando-se ainda como o primeiro Procurador-Geral do Estado, cargo que ocupou de 22 de junho de 1891 a 1900 (Diário da Manhã (ES), 27 de julho de 1922, última coluna).

 

João Hosannah de Oliveira, retratado no Álbum Descriptivo Amazônico, de Arthur Caccavoni (1899), páginas 16 e 17

João Hosannah de Oliveira, retratado no Álbum Descriptivo Amazônico, de Arthur
Caccavoni (1899), páginas 16 e 17

 

Nota da autora: Esta pesquisa buscou confirmar duas informações surgidas ao longo do processo, cuja verificação não pôde ser assegurada. A primeira é a de que Lourdes, além de fotógrafa, foi pintora. Ao buscar referências, encontrei apenas outra artista de mesmo prenome — Maria de Lourdes Acatauassú Nunes, reconhecida pintora paraense. Consultei ainda familiares que conviveram com Lourdes, e nenhuma lembrança confirma essa informação. Mas confirmaram outra habilidade de Lourdes: a costura. A segunda é a de que a Photographia Oliveira teria tido uma filial em Manaus. Nada indica que isso tenha de fato ocorrido.

 

*Mayra Rodrigues (1955-) é artista e pesquisadora.

Acesse aqui trabalhos da autora relacionados à pesquisa para o Cordel Paraense para Evangelina:

Guajará — Cordel Paraense para Evangelina  e Pavlova no Paz — Cordel Paraense para Evangelina

 

Fredericks, Huebner e Fidanza – um pouco da história da fotografia no Pará

 

Andrea C. T. Wanderley**

 

Charles DeForest Fredricks (1823 – 1894)

 

 

Charles DeForest Fredricks nasceu em 11 de dezembro de 1823, em Nova York. Com cerca de 20 anos, comprou um daguerreótipo e aprendeu a usá-lo com Jeremiah Gurney (1812 – 1895), um dos primeiros daguerreotipistas norte-americanos. Nesta mesma época, foi visitar um irmão que era comerciante em Ciudad Bolívar, na Venezuela. Decidiu vir para o Brasil, mas na descida do rio Orinoco, foi abandonado por seus guias indígenas. Sobreviveu, perdido, por aproximadamente 20 dias e retornou para Nova York.

Em 1846, voltou ao Brasil e foi, como já mencionado, possivelmente o primeiro fotógrafo a abrir um estúdio em Belém, no Pará, onde permaneceu por alguns meses, tendo também exercido a profissão de ourives (Treze de Maio (PA), 23 de maio de 1846).

 

 

Entre 1846 e 1849 esteve em São Luís e em Alcântara, no Maranhão; no Recife, em Salvador, no Rio Grande e em Porto Alegre, no Rio Grande do Sul. Vindo dos Estados Unidos, voltou ao Recife, em 1851, com o também daguerreotipista Alexander B. Weeks (1818-1859) e anunciou que estava a caminho do Rio de Janeiro. É notável a facilidade que Fredericks tinha de, naquela época, estabelecer-se num local, atuar por algum tempo e logo transferir-se para outro, reiniciando todo o processo com bastante rapidez (Publicador Maranhense, 5 de dezembro de 1846, segunda coluna; Publicador Maranhense, 2 de fevereiro de 1847, terceira colunaDiário Novo, 14 de junho de 1848, quarta coluna; Correio Mercantil (BA), 15 de novembro de 1848, segunda coluna; Diário do Rio Grande (RS), 24 a 27 de dezembro de 1848, segunda coluna; Diário de Pernambuco, 29 de setembro de 1851, segunda coluna).

Em 1853 esteve na França. Aprendeu a nova técnica de chapas de vidro a colódio, que superaria o sistema de daguerreotipia. Fredricks tornou-se proprietário do maior estabelecimento fotográfico dos Estados Unidos, em 1858, assim descrito pelo Frank Leslies Illustrated News:

“A Galeria Fotográfica de Fredricks, 585 e 587 Broadway, estava brilhantemente iluminada com lanternas coloridas. As palavras “Templo Fotográfico da Arte” eram formadas por centenas de lâmpadas, cobrindo um arco semicircular de 18 metros de curvatura. As janelas e sacadas dessas magníficas salas daguerrilhas ficavam lotadas de espectadores durante o dia, quase interrompendo os negócios. Não há galeria fotográfica mais popular em Nova York do que esta, e em nenhum lugar se obtêm retratos com maior fidelidade. A Galeria de Fredricks costuma ser frequentada por grupos, especialmente militares, e ele foi chamado, no sábado, para exercer sua arte com os oficiais da fragata a vapor H.B.M. Gorgon, cujos retratos ele tirou”.

 

 

Faleceu em 25 de maio de 1894, em Newark, Nova Jersey.

 

O fotógrafo português Felipe Augusto Fidanza (1844 – 1903)

 

Reprodução do retrto de Fidanza, Álbum do Pará, em 1899

Reprodução do retrato de Fidanza, Álbum do Pará em 1899

 

Filho de Fernando Gabriel Fidanza e Maria de Jesus Fidanza, Felipe Augusto Fidanza nasceu em 4 de setembro de 1844, em Lisboa, e foi um dos mais importantes fotógrafos que atuaram no norte do Brasil no século XIX e no início do século XX. Até hoje pouco se sabe de sua vida antes de sua chegada ao Brasil, em fins da década de 1860. Em 1º de janeiro de 1867, o Diario do Gram-Pará publicou o anúncio : “PHOTOGRAPHIA, ao largo das Mercez , nº. 5, Fidanza & Com”, o que prova que nessa época ele já estava estabelecido no Pará. Ainda em 1867, Fidanza realizou seu primeiro trabalho de importância nacional: o registro dos preparativos para a recepção da comitiva de dom Pedro II. O imperador foi ao Pará para participar das solenidades da abertura dos portos da Amazônia ao comércio exterior. Segundo Pedro Vasquez,  com esse trabalho, Fidanza “documentou de forma inovadora e antecipatória o espírito jornalístico”. No Diário de Belém, de 29 de agosto de 1869, há uma propaganda do ateliê Photographia Fidanza.

 

 

Era o predileto da aristocracia paraense e destacou-se por sua produção de retratos e também pelo registro das paisagens e documentações do início do desenvolvimento urbano de Belém e de Manaus, ocasionado pela riqueza do ciclo da borracha.  Essas imagens de paisagens urbanas foram divulgadas por álbuns fotográficos encomendados pelos governos do Pará e do Amazonas. A modernização de Belém e do Pará foram registradas nas coleções Álbum do Pará (1899) e Álbum de Belém (Correio da Manhã, de 22 de outubro de 1903, na quarta coluna sob o título “Intendência Municipal de Belém”).

 

 

 

Jornal do Brasil de 31 de janeiro de 1903 noticiou seu suicídio: “Atirou-se ao mar, de bordo do vapor Christiannia, em viagem de Lisboa para esta capital (Belém), o conhecido photographo Felippe Fidanza” ( Jornal do Brasil, 31 de janeiro de 1903, na primeira coluna ). Ele havia se jogado ao mar na altura da ilha da Madeira quando retornava de Portugal com a mulher e os filhos. Havia viajado para cuidar de uma encomenda dos governos do Pará e do Amazonas de 10 mil álbuns de vistas destes estados. Parece que foi mal sucedido e já havia, inclusive, tentado se matar em Lisboa ( O Pharol, 6 de março de 1903, na quinta coluna).

 

 

Segundo o jornalista Cláudio de La Rocque Leal, o estabelecimento fotográfico sob o nome “Fidanza” fez parte da história até 1969. Fidanza tornou-se uma marca da fotografia visto que, mesmo após a morte, seu nome permaneceu no cenário da produção fotográfica e na memória paraense, tanto que outros profissionais, ao adquirirem o seu ateliê, mantiveram o mesmo nome.

 

Acessando o link para as fotografias de Felipe Augusto Fidanza disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

O fotógrafo e naturalista alemão George Huebner (1862 – 1935)

 

 

O fotógrafo, botânico e naturalista alemão George Huebner (1862 – 1935) foi um dos estrangeiros atraídos a Manaus quando a cidade, com o ciclo da borracha, tornou-se um importante pólo econômico. Estabeleceu-se comercialmente em Belém, onde, em 1897, colaborou com o fotógrafo português Felipe Augusto Fidanza (c. 1847 – 1903). Em novembro do mesmo ano, apresentando-se como membro correspondente da Sociedade Geográfica de Dresden, informava a abertura de um ateliê fotográfico em Manaus, a Photographia Allemã, no antigo Hotel Cassina, junto ao palácio do governo. O ateliê mudou algumas vezes de endereço. Como fotógrafo registrou a chegada da modernidade em Belém e em Manaus, etnias indígenas, retratos de personalidades importantes de sua época, a sociedade que surgiu a partir do apogeu da economia da borracha e paisagens da floresta amazônica.

Em 1906, Huebner e o professor de Belas-Artes Libânio do Amaral (? – 1920), com quem já estava associado desde 1902, adquiriram, em Belém, o ateliê fotográfico Fidanza, que havia sido o mais tradicional do Pará. Dois anos depois, em 1908, Huebner foi pela primeira vez ao Rio de Janeiro, onde ele e Libânio do Amaral ganharam a medalha de prata e a medalha de ouro pelo Amazonas e o Grande Prêmio pelo Pará, na Exposição Nacional de 1908 (Almanak Laemmert, 1909). Em 1911, foi publicada uma propaganda da Photografia G. Huebner & Amaral informando que seria aberta e estaria à disposição do público para executar qualquer trabalho fotográfico a partir do dia 1º de janeiro de 1911, no Rio de Janeiro. Situava-se no edifício de O Paiz, na esquina da avenida Central com Sete de Setembro (A Notícia, 2 de janeiro de 1911, última coluna).

Em 1918, o Almanak Laemmert anunciou o estabelecimento fotográfico G. Huebner, Amaral & Cia, na rua da Assembleia, 100, no Rio de Janeiro. No mesmo ano, o estabelecimento fotográfico G. Huebner & Amaral, em Manaus, na avenida Eduardo Ribeiro, foi anunciado pela última vez no Almanak Laemmert.

No ano seguinte, o estabelecimento fotográfico G. Huebner & Amaral, de Belém, na rua Conselheiro João Alfredo, foi anunciado pela última vez no Almanak Laemmert. Foi anunciada a dissolução da sociedade entre George Huebner, Libânio do Amaral e Paulo Erbe, sócio-gerente da firma desde 1912, que passou a ser o único dono do estabelecimento fotográfico G. Huebner, Amaral & Cia, no Rio de Janeiro (Jornal do Commercio, 23 de novembro de 1919, oitava coluna). Erbe se estabeleceu, posteriormente, na rua República do Peru, nº 100.

Em 1935, George Huebner, que em seus últimos anos de vida, vivia em um sítio nos arredores de Manaus coletando espécies vegetais, sobretudo orquídeas, faleceu.

Acessando o link para as fotografias de George Huebner disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Outro nomes da fotografia paraense entre o século XIX e as primeira década do século XX que constam no livro de Boris Kossoy, o Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro são: Antonio José de Araújo Lima, Antonio Maria de Mattos, Campbell, Constantino Barza, Feliciano Verlangieri, Firmo Lopes de Araújo, Freire, Fritz Bartels, Fortunato Ory, Guedes, Guillerme Potter, J.A.Veyret, J. Girard, José Carlos Gonçalves, José Thomaz Sabino, Julio A. Siza, Lourenço Antonio Dias, Marcello Thomaz Pull, Mello, M.H. Costa, Niels Olsen, Paulo Ernesto Meyer, Pedro Vilhote, R.H. Furman, Senna e Victor.

 

** Andrea C. T. Wanderley é editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

FONTES:

https://ppgdstu.propesp.ufpa.br/ARQUIVOS/Dissertacoes/2006/ROSA%20CLAUDIA.pdf

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

LEAL, Cláudio de La Rocque. Retrato Paraense. Belém: Fundação Rômulo Maiorana, 1998.

LENZI, Teresa; MENESTRINO, Flávia. Pioneiros da fotografia em Rio Grande. Indícios de passagens e permanências. Relato de uma pesquisa histórica. Revista Memória em Rede, Pelotas, v.2, n.5, abr. / jul. 2011. Consultado em 26 de janeiro de 2013

Memorial de Charles DeForest Fredricks em Findagrave.com

PEREIRA, Rosa Claudia Cerqueira. Paisagens urbanas: fotografia e modernidade na cidade de Belém (1846-1908). Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Federal do Pará como exigência parcial para a obtenção do título de Mestre em História, 2006.

Site Broadway Photographs

Site Historic Camera

WANDERLEY, Andrea C. T. O suicídio do fotógrafo Felipe Augusto Fidanza (1844 – 1903) in Brasiliana Fotográfica, 31 de janeiro de 2016.

WANDERLEY, Andrea C. T. O fotógrafo, botânico e naturalista alemão George Huebner (1862 – 1935) in Brasiliana Fotográfica, 2 de fevereiro de 2018.

Série “Conflitos” X – Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963), fotógrafo e cinegrafista da FEB

Com fotografias do Cemitério de Pistoia, na Itália, pertencentes ao acervo do Museu da República, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, e um pequeno perfil e cronologia do autor dos registros, Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963), fotógrafo e cinegrafista da Força Expedicionária Brasileira (FEB), o portal lembra os 80 anos do Dia da Vitória na Europa, ocorrido em 8 de maio de 1945, data formal da derrota dos nazistas e da vitória das forças aliadas na Segunda Guerra Mundial. No cemitério foram sepultados os corpos dos integrantes da FEB durante a Segunda Guerra Mundial.  A cronologia de Horacio é a 69ª publicada pelo portal, que acredita que este trabalho seja uma importante contribuição para a historiografia da fotografia brasileira.

 

 

Acessando aqui o link para as fotografias de autoria de Horacio Coelho disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Os restos mortais dos integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) permaneceram no Cemitério de Pistoia até 5 de outubro de 1960, quando foram transladados para o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, localizado no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Em junho de 1965, em substituição ao cemitério, foi erguido no local o Monumento Votivo Militar Brasileiro (MVMB) como homenagem aos expedicionários brasileiros que morreram durante a guerra.

Inicialmente, o Brasil se manteve neutro na Segunda Guerra Mundial, porém, com o afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães, em 1942, o então presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) alinhou o país às nações aliadas, declarando guerra ao países do Eixo.

 

 

 

Brevíssimo perfil de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963)

 

“A tomada de Monte Castelo, os terríveis combates de Montese, tudo foi gravado em celulóide e perpetuado em sal de prata, imagem por imagem, graças a objetiva de Horacio Coelho, sua picareta de trabalho na paz e sua arma de combate na guerra”.

Revista da Semana, 7 de setembro de 1945

 

 

Nasceu em Fernando de Noronha, em Pernambuco, em 2 de setembro de 1890, Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho, filho de Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836 – 1902) e Francisca Cavalcanti de Souza Leão Coelho (c.1859 – 1929). Era neto do português Joaquim José Coelho (1797 – 1860), o Barão da Vitória. Teve com Maria Emilia Coelho (1894 – 1948), com quem foi casado, seis filhos: Pojucan, Rômulo, Rêmulo, Maria Clementina, Murilo e Alberto.

Como cinegrafista e fotógrafo do Ministério da Guerra participou como correspondente da Segunda Guerra Mundial, operando junto à Força Expedicionária Brasileira, na Itália. Foi nomeado pelo marechal Mascarenhas de Moraes (1883 – 1968) (Diário de Pernambuco, 8 de junho de 1944, segunda coluna). Algumas de suas fotos foram publicadas em artigos da Revista da SemanaOs brasileiros combatem sob a neve com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 10 de março de 1945) e Onde a cobra fuma (Revista da Semana, 24 de março de 1945). Outros correspondentes de guerra contemporâneos de Horacio que trabalharam para a imprensa brasileira foram: Allan Fischer (1913 – 1988) (fotógrafo do escritório do Coordenador de Assuntos Econômicos Interamericanos), Egídio Squeff (1911 – 1973) (O Globo), Fernando Stamato (1917 – 1993) (cinematografista do DIP), Frank Norall (19? – ?) (Escritório do Coordenador de Assuntos Interamericanos), Henry Bagley (19? – ?) (Associated Press), Joel Silveira (1918 – 2007) (Diários Associados), Raul Brandão (19? – ?) (Correio da Manhã), Rubem Braga  (1913 – 1990) (Diário Carioca) e Thassilo Mitke (19? – ?) (DIP).

Foi um dos correspondentes de guerra condecorados com a Medalha de Campanha, em 1945 (Diário de Notícias, 6 de dezembro de 1945, segunda coluna). Dois anos depois, em 1947, foi agraciado com uma Medalha de Guerra em uma solenidade realizada no Quartel do Batalhão de Guardas (Correio da Manhã, 20 de março de 1947, segunda coluna).

Com sua aposentadoria, na década de 1950, o cargo de cinegrafista do Exército foi extinto, em 1956 (Portal da Câmara dos Deputados).

Em 8 de maio de 1958, participou da solenidade comemorativa do 13º ano do fim da Segunda Guerra Mundial, realizada na Associação Brasileira de Imprensa quando os correspondentes de guerra foram homenageados. Rubem Braga e Fernando Stamato, dentre outros também estiveram presentes (Diário de Notícias, 9 de maio de 1958, última coluna).

Faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de agosto de 1963, e foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier (Jornal do Commercio, 10 de agosto de 1963, segunda coluna).

Uma curiosidade: Na foto abaixo, o último ajoelhado da esquerda para a direita é Fernando Stamato, filho do fotógrafo e pioneiro do cinema nacional João Stamato (1886 – 1951), que participou da viagem científica promovida pelo Instituto Oswaldo Cruz, em que um grupo de cientistas e engenheiros, entre setembro de 1911 e fevereiro de 1912, percorreu os vales do São Francisco e Tocantins, documentando a jornada, registrando as casas, costumes e pessoas, demonstrando conhecimento das técnicas, além de sensibilidade para fotografar a vida naqueles sertões. O cineasta Fernando Stamato seguiu os caminhos do pai, tendo sido cinegrafista da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra, trabalhando como correspondente na Itália. Viúvo, partiu para os campos da batalha para documentar os movimentos das tropas brasileiras. Sua esposa Lourdes Soares Dutra (1917-1941) havia falecido no parto da filha, que também não resistiu. Durante o conflito mundial, em pleno front, Fernando se apaixonou pela italiana Rossana Bonfatti. Casaram-se em Pistóia (Itália) e, no final da guerra, tiveram uma menina, nascida em 14 de setembro de 1945. No ano seguinte, nasceria outro filho.

 

 

Acesse aqui a cronologia de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963)

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Esse artigo passou a integrar a série Conflitos, em 20 de março de 2026.

 

Fontes:

Allan Fischer Photo

Atlas Histórico do Brasil – FGV

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MORADO, Maria de Fátima. O Cemitério de Pistoia e a memória dos combatentes da FEB in Brasiliana Fotográfica, 18 de fevereiro de 2022.

O GLOBO, 14 de junho de 2015

Portal da Câmara dos Deputados

SANTOS, Ricardo Augusto. João Stamato, um fotógrafo nos sertões in Brasiliana Fotográfica, 9 de fevereiro de 2021.

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Site INPI

Site Memorial da FEB

Portal Domínio Público