No Dia da Árvore, mangueiras fotografadas por Ferrez e Leuzinger

Com imagens de mangueiras produzidas pelos fotógrafos Georges Leuzinger (1813 – 1892) e por Marc Ferrez (1843 – 1923), em fins do século XIX, a Brasiliana Fotográfica lembra o Dia da Árvore. As árvores são importantes símbolos da natureza, essenciais riquezas naturais do planeta Terra, e um dia comemorativo em torno delas remete à importância da preservação do meio ambiente. É celebrado pouco antes da chegada da primavera no hemisfério sul, que neste ano acontecerá amanhã, dia 22, às 16h21.

Nas imagens selecionadas, há um registro curioso, de uma mangueira e um coqueiro que se confundem e outras, onde a presença humana de uma certa forma ressalta a força da natureza, sua dimensão e exuberância. A beleza é o denominador comum de todas as fotos. Sugerimos que vocês utilizem o zoom e explorem os detalhes de cada imagem.

 

 

O carioca e filho de franceses Marc Ferrez (1843 – 1923) foi um brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Sua vasta e abrangente obra iconográfica se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Estabeleceu-se como fotógrafo com a firma Marc Ferrez & Cia, em 1867, na rua São José, nº 96, e logo se tornou o mais importante profissional da área no Rio de Janeiro. Cerca de metade da produção fotográfica de Ferrez foi realizada na cidade e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais.

 

 

Acessando o link para as fotografias de mangueiras disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

O fotógrafo e editor suíço Georges Leuzinger (1813 – 1892) é um dos mais importantes fotógrafos e difusores para o mundo da fotografia sobre o Brasil no século XIX, além de pioneiro das artes gráficas no país. Grande empreendedor, montou um sofisticado e diversificado complexo editorial, a Casa Leuzinger, que se tornaria um polo de publicações e de produções fotográficas, alçando o Brasil ao mesmo nível da produção europeia do setor.

 

 

Algumas das árvores nativas do Brasil são a Pata de Vaca (Bauhinia variegata), a Quaresmeira (Tibouchina granulosa), o Jacarandá de Minas (Jacaranda Cuspidifolia), a Sibipiruna (Caesalpinia Peltophoroides), o Manacá da Serra (Tibouchina mutabilis), a Chuva de Ouro (Lophantera lactescens), o Ipê-branco (Tabebuia roseo-alba), a Babosa Branca (Cordia superba), Ipê-amarelo (Tabebuia ochracea), a Aroeira-vermelha (Astronium fraxinifolium), o Angico-branco (Anadenanthera colubrina), o Cambucá (Plinia edulis), a Guabiroba-árvore (Campomanesia xanthocarpa), a Grumixama (Eugenia brasiliensis), o Açoita-cavalo miúdo (Luehea divaricata), a Sapuva (Machaerium stipitatum)  e o Jacarandá-paulista (Machaerium villosum).

 

Acessando o link para as fotografias de árvores disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Curiosidades

 

Segundo o site Brasil Escola, cada região do Brasil possui uma árvore como símbolo:

 

Arvore símbolo da região Norte – castanheira;

 

Árvore símbolo da região Nordeste – carnaúba;

 

 

Árvore símbolo da região Centro-Oeste – ipê amarelo;

 

Árvore símbolo da região Sudeste – pau-brasil;

 

Árvore símbolo da região Sul – araucária.

 

 

Velhas Árvores

Olavo Bilac (1865 – 1918)

Olha estas velhas árvores, mais belas
Do que as árvores moças, mais amigas,
Tanto mais belas quanto mais antigas,
Vencedoras da idade e das procelas…
O homem, a fera e o inseto, à sombra delas
Vivem, livres da fome e de fadigas:
E em seus galhos abrigam-se as cantigas
E os amores das aves tagarelas.
Não choremos, amigo, a mocidade!
Envelheçamos rindo. Envelheçamos
Como as árvores fortes envelhecem,
Na glória de alegria e da bondade,
Agasalhando os pássaros nos ramos,
Dando sombra e consolo aos que padecem!

 

Olavo Bilac / O Rio de Janeiro do meu tempo, de Luiz Edmundo

Olavo Bilac / O Rio de Janeiro do meu tempo, de Luiz Edmundo

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Autorretratos de fotógrafos – Uma homenagem no Dia Internacional da Fotografia

A Brasiliana Fotográfica homenageia o Dia Internacional da Fotografia com a publicação de quatro autorretratos de importantes fotógrafos que atuaram no Brasil entre os séculos XIX e XX: o alemão Christoph Albert Frisch (1840 – 1918), o carioca Marc Ferrez (1843 – 1923), o francês Revert Henrique Klumb (c.1826 – c.1886) e o italiano Vincenzo Pastore (1865 – 1918). Interessante observar que o único autorretrato produzido fora de um estúdio fotográfico foi o de Frisch, que se fotografou, entre 1967 e 1868, em um barco em um rio na Amazônia, quando produziu os primeiros registros que chegaram até nós de índios brasileiros da região, além de aspectos de fauna e flora e de barqueiros de origem boliviana que atuavam como comerciantes itinerantes nos rios amazônicos. Os quatro fotógrafos já foram temas de artigos publicados no portal.

 

Acessando o link para os autorretratos de fotógrafos disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A data escolhida para a comemoração do Dia Internacional da Fotografia tem sua origem no ano de 1839, quando, em 7 de janeiro, na Academia de Ciências da França, foi anunciada a descoberta da daguerreotipia, um processo fotográfico desenvolvido por Joseph Nicèphore Niépce (1765-1833) e Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851). Cerca de sete meses depois, em 19 de agosto, durante um encontro realizado no Instituto da França, em Paris, com a presença de membros da Academia de Ciências e da Academia de Belas-Artes, o cientista François Arago (1786 – 1853), secretário da Academia de Ciências, explicou o processo e comunicou que o governo francês havia adquirido o invento, colocando-o em domínio público e, dessa forma, fazendo com que o “mundo inteiro” tivesse acesso à invenção. Em troca, Louis Daguerre e o filho de Joseph Niépce, Isidore, passaram a receber uma pensão anual vitalícia do governo da França, de seis mil e quatro mil francos, respectivamente.

A velocidade com que a notícia do invento do daguerreótipo chegou ao Brasil é curiosa: cerca de 4 meses depois do anúncio da descoberta, foi publicado no Jornal do Commercio, de 1º de maio de 1839, sob o título “Miscellanea”, na segunda coluna, um artigo sobre o assunto – apenas 10 dias após de ter sido o tema de uma carta do inventor norte-americano Samuel F. B. Morse (1791 – 1872), escrita em Paris em 9 de março de 1839 para o editor do New York Observer, que a publicou em 20 de abril de 1839.

 

Vincenzo Pastore (1865 – 1918)

 

 

A obra do fotógrafo italiano Vincenzo Pastore, importante cronista visual de São Paulo da segunda metade do século XIX e do início do século XX, ficou, durante décadas, em uma caixa de charutos, sem negativos. As ampliações foram produzidas pela própria mulher do fotógrafo, Elvira, que o ajudava no estúdio. Com sua câmara Pastore capturava tipos e costumes de um cotidiano ainda pacato de São Paulo, uma cidade que logo, com o desenvolvimento econômico, mudaria de perfil. Captava as transformações urbanas e humanas da cidade, que passava a ser a metrópole do café. Com seu olhar sensível, o bem sucedido imigrante italiano flagrava trabalhadores de rua como, por exemplo, feirantes, engraxates, vassoureiros e jornaleiros, além de conversas entre mulheres e brincadeiras de crianças. Pastore, ao retratar pessoas simples do povo, realizou, na época, um trabalho inédito na história da fotografia paulistana.

Acessando o link para as fotografias de Vincenzo Pastore disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Marc Ferrez (1843 – 1923)

 

 

Marc Ferrez (1843 – 1923) foi um brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Sua vasta e abrangente obra iconográfica se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Estabeleceu-se como fotógrafo com a firma Marc Ferrez & Cia, em 1867, na rua São José, nº 96, e logo se tornou o mais importante profissional da área no Rio de Janeiro. Cerca de metade da produção fotográfica de Ferrez foi realizada na cidade e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais.

Acessando o link para as fotografias de Marc Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Christoph Albert Frisch (1840 – 1918)

  

 

Christoph Albert Frisch (1840 – 1918) foi o fotógrafo responsável pela impressionante e pioneira série de 98 fotografias realizadas em 1867 na Amazônia: foram os primeiros registros que chegaram até nós de índios brasileiros da região, além de aspectos de fauna e flora e de barqueiros de origem boliviana que atuavam como comerciantes itinerantes nos rios amazônicos. Ele foi o fotógrafo que acompanhou a expedição pela Amazônia liderada pelo engenheiro alemão Joseph Keller e pelo fotógrafo, desenhista e pintor Franz Keller (1835 – 1890). Este último era genro de Georges Leuzinger ( 1813 – 1892), considerado um dos mais importantes fotógrafos e difusores para o mundo da fotografia sobre o Brasil no século XIX, além de pioneiro das artes gráficas no país.

Acessando o link para as fotografias de Christoph Albert Frisch disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886)

 

Um dos primeiros fotógrafos estrangeiros a se estabelecer no Brasil, o francês Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) foi o fotógrafo preferido da família imperial brasileira, tendo sido agraciado com o título de “Fotógrafo da Casa Imperial”, em 1861. Um dos pioneiros na produção comercial de imagens sobre papel fotográfico e uso de negativo de vidro em colódio no Brasil, inaugurou seu estabelecimento fotográfico em 1855 ( Correio Mercantil , de 4 de novembro de 1855, na última coluna ). Foi professor de fotografia da princesa Isabel e, provavelmente, o introdutor da técnica estereoscópica no Brasil, com a qual entre os anos de 1855 e 1862 produziu ampla documentação sobre o Rio de Janeiro.

Foi também o autor do livro Doze horas em diligência. Guia do viajante de Petrópolis a Juiz de Fora, única obra do Brasil do século XIX a ser idealizada, fotografada, escrita e publicada por uma só pessoa. Também foi o primeiro livro de fotografia inteiramente litografado e produzido no país. Dois exemplares estão conservados na Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional.

Acessando o link para as fotografias de Revert Henrique Klumb disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Links para artigos já publicados na Brasiliana Fotográfica em torno da celebração do Dia Internacional da Fotografia e também do Dia Nacional do Fotógrafo:

Dia Internacional da Fotografia – 19 de agosto, publicado em 19 de agosto de 2015

Dia Nacional do Fotógrafo, publicado em 8 de janeiro de 2016

Dia dos Pais – Julio e Luciano, os filhos do fotógrafo Marc Ferrez, e outras famílias

 

 

A Brasiliana Fotográfica homenageia o Dia dos Pais, que esse ano será comemorado no próximo dia 8, publicando fotografias de Jules-Marc (1881 – 1946), que ficou conhecido como Julio, e Luciano José André (1884 – 1955), filhos do fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) e da francesa Marie Lefebvre (c.1849 – 1914), que se casaram em 16 de agosto de 1873. Há também imagens de Ferrez com seus netos Gilberto e Eduardo, filhos de Julio e Claire, além de registros de passeios da família na Floresta da Tijuca. Destacamos também fotografias do cientista Carlos Chagas (1878-1934) com seus filhos Evandro Chagas (1905 – 1940) e Carlos Chagas Filho (1910 – 2000), dos filhos do fotógrafo J. Pinto (1884 – 1951), dos filhos do Conde d´Eu (1842 – 1922), de dom Pedro II (1825 – 1891)  e do prefeito Francisco Pereira Passos (1836 – 1913) com suas famílias e também registros de outras famílias produzidos por Chichico Alkmin (1886 – 1978), João Stamato (1886 – 1951), José Teixeira e por fotógrafos ainda não identificados.

 

 

Marc Ferrez foi um brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Sua vasta e abrangente obra iconográfica se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Cerca de metade da produção fotográfica de Ferrez foi realizada na cidade e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais. Outro segmento de sua obra iconográfica registrou as várias regiões do Brasil – ele foi o único fotógrafo do século XIX que percorreu todas as regiões do país, tendo sido, no referido século, o principal responsável pela divulgação da imagem do país no exterior.

Ele e seus filhos desempenharam um importante papel na história do estabelecimento e do desenvolvimento do cinema no Brasil, tanto pela participação na produção de filmes, como pelo investimento em equipamentos necessários à criação de uma rede de distribuição e exibição de filmes.

Acessando o link para as fotografias de Marc Ferrez e seus filhos disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.  

 

 

Foi com Julio que Marc Ferrez, em 1905, obteve a representação da firma francesa Pathé Frères, no Brasil. A firma era a maior e melhor fábrica de aparelhos e filmes cinematográficos da Europa. Em primeiro de outubro de 1907, foi criada a firma Marc Ferrez & Filhos. Ferrez era dono de 60% das ações, cabendo a Luciano e a Julio 20% do negócio para cada um. Nesse mesmo ano, Julio havia se casado com Claire Poncy Ferrez (1888 – 1980), pais de Gilberto (1908 – 2000) e Eduardo. Gilberto foi pioneiro no estudo da fotografia no Brasil com a publicação, em 1946, do ensaio “A Fotografia no Brasil e um de Seus Mais Dedicados Servidores: Marc Ferrez (1843-1923)“, na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional.

Em 1908, Ferrez e Arnaldo Gomes de Souza, sócios no Cinema Pathé, produziram o filme, Nhô Anastácio chegou de viagem, dirigido por Julio Ferrez. É considerada a primeira comédia cinematográfica brasileira e foi estrelada por Antônio Cataldi, José Gonçalves Leonardo e Ismênia Matteo. Marc Ferrez produziu o curta-metragem A mala sinistra, também dirigido por seu filho Julio.

Em abril de 1915, Ferrez viajou para França no navio Frizia em companhia de seu filho Julio – que retornou ao Brasil em agosto.

Em 1917, Julio e Luciano, fundaram a Companhia Cinematográfica Brasileira, mais tarde denominada Casa Marc Ferrez Cinemas e Eletricidade Ltda. Dois anos depois, Julio Ferrez foi um dos fundadores da União dos Importadores Cinematográficos no Brasil (O Imparcial, 8 de dezembro de 1919, na segunda coluna). Foi o primeiro tesoureiro da associação, cujo primeiro presidente foi o empresário Francisco Serrador (1872 – 1941).

Em 1920, foi noticiada a volta da Europa de Marc e Luciano Ferrez ao Brasil, a bordo do paquete inglês Orcona (Vida doméstica, abril de 1920)

 

“O senhor Marc Ferrez é uma das figuras mais notáveis, de maior destaque na indústria fotográfica e cinematográfica do Brasil”

 

 

 

Na edição de 8 de abril de 1920 da revista Palcos e Telas, Marc, Julio e Luciano Ferrez foram biografados na seção “Grandes figuras da cinematografia”.

 

Em correspondência a Malia Frucht Ferrez (1890 – 1953), casada com Luciano, Marc Ferrez contou que havia feito belas fotografias de rosas, em sua visita ao roseiral do Parque de La Bagatelle, no Bois de Boulogne, local que freqüentava enquanto Luciano e Malia estavam com ele em Paris. Foi na casa deles, no Rio de Janeiro, cidade que ele eternizou com sua arte, que Ferrez faleceu em 12 de janeiro de 1923. Residia na rua Joaquim Murtinho, 177, e foi enterrado no cemitério São João Batista (A Rua, 13 de janeiro de 1923O Paiz, 14 de janeiro de 1923, última notícia da sexta coluna, Gazeta de Notícias, 16 de janeiro de 1923, na última coluna e Fon-Fon, 20 de janeiro de 1923).

 

 

Outras famílias

 

Acessando o link para as fotografias de pais e filhos disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.  

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Breve história da criação do Dia dos Pais

O Dia dos Pais foi comemorado pela primeira vez, em 1910, nos Estados Unidos. No Brasil, a ideia de criar esta data partiu do publicitário Sylvio Bhering e o jornal O Globo começou uma campanha para difundir a efeméride (O Globo, 1º de junho de 1953), festejada pela primeira vez no dia 16 de agosto de 1953 (Jornal do Brasil, 16 de agosto de 1953). Posteriormente, o Dia dos Pais passou a ser comemorado no segundo domingo de agosto.

 

Link para a publicação do Dia dos Pais, em 14 de agosto de 2016

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicado em 

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), publicado em 4 de dezembro de 2019

Uma homenagem da Casa Granado ao imperial sob as lentes de Marc Ferrez, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, publicado 6 de março de 2020

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, publicado em 16 de março de 2020

Bambus, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2020

O Baile da Ilha Fiscal: registro raro realizado por Marc Ferrez e retrato de Aurélio de Figueiredo diante de sua obra, publicado em 9 de novembro de 2020

O Palácio de Cristal fotografado por Marc Ferrez, publicado em 2 de fevereiro de 2021

A Estrada de Ferro do Paraná, de Paranaguá a Curitiba, pelos fotógrafos Arthur Wischral (1894 – 1982) e Marc Ferrez (1843 – 1923), publicado em 22 de março de 2021

A Estrada de Ferro do Paraná, de Paranaguá a Curitiba, pelos fotógrafos Arthur Wischral e Marc Ferrez

 

 

Arthur Júlio Wischral (1894 – 1982) foi um importante fotógrafo do Paraná, tendo realizado trabalhos para a imprensa e também para o governo do estado onde atuou. Em 1928, foi contratado pela Rede Viação Paraná – Santa Catarina e registrou o dia a dia das obras de manutenção da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá assim como as dificuldades enfrentadas por seus trabalhadores. Um álbum, editado pelo próprio fotógrafo e por J. J. Wischral, foi produzido com esses registros.

 

 

 

Acessando o link para o Álbum de Photografias da Ferrovia de Curytiba a Paranaguá, de autoria de Arthur Wischral, disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

No final do artigo, há uma cronologia da vida de Wischral.

 

Um pouco da história da ferrovia Curitiba-Paranaguá, cuja construção foi registrada pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923)

 

 

O surgimento dos trens de ferro e a expansão das ferrovias eram no século XIX um evidente sinal de modernidade. Significavam a vitória, o triunfo do homem a partir da tecnologia e tinham como uma de suas consequências o desenvolvimento econômico. A ideia da construção da Ferrovia do Paraná surgiu após a emancipação do estado do Paraná, em 29 de agosto de 1853, a partir da Lei Imperial nº 704, assinada por dom Pedro II(1825 – 1891). Era um desafio escoar a erva-mate, importante produto para a economia do estado, para os portos do litoral. Por essa razão, foi autorizada a contratação de uma via férrea a partir da Lei Provincial nº 11, de 30 de abril de 1856 (Dezenove de Dezembro, 22 de outubro de 1856).

 

Acessando o link das imagens do Álbum da Estrada de Ferro do Paraná, de autoria de Marc Ferrez, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Porém, só no início da década de 1870, os engenheiros Francisco Monteiro Tourinho (1837 – 1885), Antônio Pereira Rebouças (1839 – 1874) e Maurício Schwartz (18? -?) solicitaram ao Império um pedido de concessão para a construção da ferrovia. Eles já haviam construído a Estrada da Graciosa, também no Paraná. A estrada de ferro do Paraná sairia, a princípio, da cidade de Antonina. Após muita polêmica, o Decreto Imperial de 1.º de maio de 1875 decidiu que o trem partiria de Paranaguá. O argumento foi que a profundidade da baía de Antonina não comportaria navios de grande porte.

O projeto da ferrovia, arrojado e muito avançado para a época, foi dos irmãos e engenheiros André Rebouças (1838 – 1898) – também abolicionista – e Antônio Pereira Rebouças (1839 – 1874), considerados, até hoje, os primeiros afrodescendentes formados em Engenharia no Brasil. Para realizá-lo, os irmãos fizeram um estudo detalhado da Serra do Mar e elaboraram um traçado cheio de pontes, túneis e viadutos.

 

 

Em 1873, por não conseguir cumprir os prazos estabelecidos para o início das obras, Antônio Rebouças cedeu seus direitos ao Barão de Mauá (1813 – 1889), que também não cumpriu as exigências do contrato. Em 1877, foi aprovado um novo traçado baseado nos originais de Rebouças e com adaptações dos engenheiros Rodolpho Alexandre Helh e Luiz da Rocha Dias. Pelo Decreto n° 7420 de 12 de agosto de 1879, assinado por João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, o Visconde de Sinimbu (1810 – 1906), foi autorizada a transferência de todos os direitos e obrigações dos, desde 1875, concessionários da ferrovia, José Gonçalves Pecego Junior e José Maria da Silva Lemos, à companhia francesa Compagnie Général de Chemins de Fer Brésiliens, que não tinha expertise em relação à construção de estradas de ferro, o que sua companhia associada, a empreiteira belga Société Anonyme de Travaux Dyle et Bacalan, tinha. Ficou, então, encarregada das obras.

 

 

O diretor dos novos serviços para a construção, um marco da engenharia do Brasil, foi o comendador Antônio Ferrucci (c. 1830 – ?), um dos principais chefes de seu planejamento que, com outros membros da comissão de engenharia da estrada, chegou ao Rio de Janeiro, em 8 de fevereiro de 1880, no paquete francês Gironde (Gazeta de Notícias, 10 de fevereiro de 1880, sétima coluna). Ferrucci comandou as obras até fins de 1881. A partir de 20 de janeiro de 1882, o representante no Brasil da Société Anonyme des Travaux Dyle et Bacalan, o engenheiro Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), futuro prefeito do Rio de Janeiro, entregou a chefia das obras ao engenheiro brasileiro João Teixeira Soares (1848 – 1927), que concluiu a construção da ferrovia, sendo o seu primeiro diretor.

 

 

A construção da ferrovia para a qual, entre brasileiros e estrangeiros – franceses, italianos, belgas, suíços, suecos e poloneses -, foram empregados cerca de nove mil trabalhadores, alavancou o desenvolvimento de Curitiba assim como a história da economia do Paraná.

Em 5 de junho de 1880, com a presença de dom Pedro II (1825 – 1891), em sua primeira e única visita ao Paraná, foi lançada a pedra fundamental das obras da ferrovia (Dezenove de Dezembro, 24 de maio de 1880Dezenove de Dezembro, 9 de junho de 1880, segunda coluna). A inauguração do tráfego regular da primeira seção, o trecho de Paranaguá a Morretes, ocorreu em 17 de novembro de 1883. O da segunda seção, entre Morretes e Borda do Campo ou Roça Nova, em 1884.

 

 

Em 13 de dezembro de 1884, a princesa Isabel (1846 – 1921), seus filhos, o governador do Paraná, Brasílio Augusto de Machado Oliveira (1848 – 1919); além de outras autoridades viajaram na ferrovia do Paraná, entre Curitiba e Paranaguá, onde a princesa embarcaria para Antonina e depois para Santa Catarina, onde encontraria seu marido, o conde d´Eu (1842 – 1922), em Joinville (Gazeta de Notícias, 14 de dezembro de 1884, primeira colunaDezenove de Dezembro, 14 de dezembro de 1884, primeira colunaO Paiz, 14 de dezembro de 1884, segunda coluna).

 

 

No dia 1º de fevereiro de 1885,  partiu da cidade de Curitiba um trem especial com destino à Paranaguá. Nele viajaram o dr. Brasilio Machado (1848 – 1919), presidente da Província; o chefe da Polícia, o senador Pedro Leão Veloso (1828 – 1902), o engenheiro João Teixeira Soares (1848 – 1927), dentre outras autoridades. Em Paranaguá, pelo vapor América, fretado pela Compagnie Général de Chemins de Fer Brésiliens, chegaram da Corte, no dia seguinte pela manhã, entre outros, o ministro da Agricultura, Manoel Pinto de Souza Dantas (1831 – 1894);  os ministros da Bélgica, da Rússia e da França; o Visconde de Paranaguá (1821 – 1912) e o Conselheiro Sinimbu (1810 – 1906) (Dezenove de Dezembro, 4 de fevereiro de 1885).

 

O vapor do mar, em galas, saudava a locomotiva, vapor de terra. Fulton abraçava Stephenson.

 

O fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), que fotografou a ferrovia na época de sua construção, estava presente no evento (Dezenove de Dezembro, 4 de fevereiro de 1885, terceira coluna).

 

 

Ainda na manhã de 2 de fevereiro, às 10h, o trem inaugural da Ferrovia do Paraná partiu de Paranaguá, fez uma parada em Morretes e, às 14h, em Cadeado, onde os convidados almoçaram. Houve uma série de saudações, uma delas feita pelo engenheiro Pereira Passos (1836 – 1913).

 

 

Depois de mais uma parada, na estação de Piraquara, o comboio chegou, às 19h, à Curitiba, tendo sido recepcionado por cerca de cinco mil pessoas que o aguardavam. Às 20:20, a Compagnie Général de Chemins de Fer Brésiliens ofereceu um banquete aos convidados da Corte, em um dos armazéns da estação, ornamentada com as bandeiras belga, brasileira, francesa, italiana e russa. Havia também uma exposição de utensílios dos operários que haviam trabalhado na construção da ferrovia.

 

 

 

 

 

 

Pereira Passos (1836 – 1913) presenteou dom Pedro II (1825 – 1891) com 14 fotografias e um álbum de autoria de Ferrez das obras da ferrovia, Estrada de Ferro do Paraná. O álbum integra a coleção Thereza Christina Maria, mantida na Biblioteca Nacional do Brasil, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica.

 

 

Em 1886, em uma reunião da Sociedade Central de Immigração, da qual faziam parte, entre outros, o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), o pintor italiano Nicolau Facchinetti (1824 – 1900), e o político Alfredo d´Escragnolle Taunay (1843 – 1899), foram apresentadas por esse último, presidente da associação, fotografias da ferrovia do Paraná, de autoria de Ferrez (A Immigração, agosto de 1886).

 

álbum

 

Acesse aqui o pdf do Álbum da Estrada de Ferro do Paraná, de autoria de Marc Ferrez, com 33 imagens.

Sobre o viaduto São João, considerado o mais importante de toda a linha, inaugurado em 26 de junho de 1884 e registrado na fotografia abaixo, o engenheiro Teixeira Soares (1848 – 1927) comentou:

 

 

“Os três vãos pequenos são vencidos com vigas de alma cheia. Só o vão central é de treliça. Assenta sobre pilares de ferro batido, apoiados em base de alvenaria de pedra. A estrutura metálica é fabricada na Bélgica. Fornecemos os perfis do terreno natural e do greide. Eles projetam cada ponte ou viaduto de acordo com o trem de carga especificado. Aqui fazemos a montagem, que não é fácil. Para muita gente pode parecer desperdício pilares metálicos, se estamos rodeados de granito e de gnaisse em abundância. Acontece que a experiência europeia concluiu que, a partir de 30 metros, o ferro torna-se mais econômico do que a alvenaria de pedra. O alojamento e a manutenção do numeroso pessoal necessário à execução de importantes maciços de alvenaria acarretam dificuldades. Embora isso, os pilares metálicos devem ser embutidos em bases de alvenaria, com certa altura. Não só impedem que a unidade provoque a corrosão do metal, como evitam que suba até a estrutura metálica. Para vãos inferiores a 15 metros, os europeus recomendam vigas de alma cheia. Mais afoitos, os americanos as empregam até vãos de 35 metros. Seu inconveniente é a rebitagem. Trabalho insano. Como estamos sujeitos ao mercado europeu, acima de 15 metros usamos vigas em treliça, a exemplo do vão central. As treliças simples são três. Em “V”, conhecidas por vigas ‘Warren’, do nome do engenheiro inglês que primeiro as usou no seu país. Em “N”, ou Monier, nome do engenheiro belga que as patenteou em 1858, na Alemanha. Finalmente as Neville, nome tirado do engenheiro americano que as inventou, mas que não passam de um tipo misto das anteriores. Aqui, dada a extensão do vão, os belgas projetaram uma treliça múltipla dupla.”

 

Pequena cronologia da carreira de Marc Ferrez como fotógrafo no setor ferroviário

 

 

1880 – Entre 1880 e 1890,  fotografou as construções ferroviárias no Brasil, quando produziu um grande panorama da paisagem brasileira de sua época.

1882 – Fotografou as obras da ferrovia Dom Pedro II, em São Paulo e em Minas Gerais, tendo registrado a presença do imperador Pedro II e de sua comitiva na entrada do túnel da Serra da Mantiqueira (Gazeta de Notícias, 27 de junho de 1882, na quarta coluna).

 

1883 – O Club de Engenharia ofereceu uma recepção ao engenheiro hidráulico holandês J. Dirks, o grande especialista da época em portos e canais, que estava de passagem pelo Rio de Janeiro e seguiria para Valparaíso, no Chile. Na ocasião, foi realizada uma exposição de fotografias das estradas de ferro, de autoria de Marc Ferrez (Revista de Engenharia, 14 de abril de 1883).

c. 1884 – Fotografou as obras da ferrovia do Paraná (Paranaguá – Curitiba. O gerente da firma Société Anonyme des Travaux Dyle et Bacalan, empreiteira belga encarregada pelas obras, o futuro prefeito do Rio de Janeiro, o engenheiro Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), presenteou dom Pedro II com 14 fotografias e um álbum de autoria de Ferrez com registros da ferrovia e da província do Paraná.

1884 - Exposição de fotografias da estrada de ferro Teresa Cristina, na A la Glacê Elegante (Gazeta da Tarde, 11 de novembro de 1884, na quinta coluna).

1885 – Ferrez participou da inauguração da ferrovia do Paraná, a estrada de ferro Paranaguá – Curitiba (Dezenove de Dezembro, 4 de fevereiro de 1885, na terceira coluna).

1886 – Em uma reunião da Sociedade Central de Immigração, da qual faziam parte, entre outros, o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), o pintor italiano Nicolau Facchinetti (1824 – 1900), e o político Alfredo d´Escragnolle Taunay (1843 – 1899), foram apresentadas por esse último, presidente da associação, fotografias da ferrovia do Paraná, de autoria de Ferrez (A Immigração, agosto de 1886).

O Club de Engenharia aprovou a proposta de Marc Ferrez e de E. de Mascheuk para a execução de “diversos trabalhos concernentes à exposição dos caminhos de ferro” (Revista de Engenharia, 14 de dezembro de 1886, na primeira coluna).

Ferrez fotografou a ferrovia Dom Pedro II, em Juiz de Fora.

1887 - Entre 2 de julho e 2 de agosto, nos salões do Liceu de Artes e Ofícios, por uma iniciativa do Club de Engenharia, realizou-se a Exposição dos Caminhos de Ferro Brasileiros, com a exibição de fotografias de Ferrez (Revista de Engenharia, 14 de agosto de 1887). Estiveram presentes no encerramento da exposição, no dia 2 de agosto, a princesa Isabel(1845 – 1921) e o conde d´Eu (1842 – 1922), além de outras autoridades. O conselheiro Sinimbu (1810 – 1906) leu o relatório do júri da exposição, do qual também fazia parte o visconde de Mauá (1813 – 1889), Pedro Betim Paes Leme (1846 – 1918), Christiano Benedicto Ottoni (1811 – 1896), Carlos Peixoto de Mello (1871 – 1917), Álvaro Joaquim de Oliveira (1840 – 1922) e Manoel José Alves Barbosa (1845 – 1907). Ferrez foi contemplado com uma menção honrosa pelas “magníficas fotografias de importantes trechos de nossas vias férreas, com que concorreu não só para abrilhantar a Exposição como até para suprir algumas lacunas sensíveis de estradas que se não fizeram representar” (Jornal do Commercio, 3 de agosto de 1887, na terceira coluna e Revista de Estradas de Ferro, 31 de agosto de 1887, na primeira coluna).

1888 – Em 25 de novembro, foi inaugurado o tráfego entre as estações de Alcântara e Rio do Ouro da estrada de ferro de Maricá. Marc Ferrez fotografou “instantaneamente ” um grupo de convidados da diretoria das estradas na estação Santa Izabel (Revista de Engenharia, 28 de dezembro de 1888, na primeira coluna).

1890 – Em setembro, Ferrez integrou a comitiva convidada para a  inauguração das obras da ferrovia Benevente -Minas, de Carangola a Benevente, atual Anchieta, no Espírito Santo (Diário de Notícias, 28 de setembro de 1890, quinta coluna).

1891 – Na Revista de Engenharia, 28 de dezembro de 1890, foi publicado um anúncio: “Marc Ferrez – Fotógrafo da Marinha Nacional. Especialista de vistas de estradas de ferro e em geral das grandes obras públicas. Reprodução de plantas com traços pretos sobre fundo branco. Rua São José 8″. O mesmo anúncio voltou a ser veiculado na edição de 14 de agosto de 1891.

1892 – Foi determinado que nas estradas de ferro subvencionadas pelo governo federal fossem liberados passes de ida e volta para Marc Ferrez e um ajudante para que pudessem “levantar fotografias em diversas localidades para o serviço da Exposição Universal Colombiana de Chicago”, que aconteceu entre 1º de maio e 30 de outubro de 1893 para celebrar os 400 anos da chegada do navegador genovês Cristóvão Colombo (1451 – 1506) ao Novo Mundo, em 1492 (Jornal do Brasil, 21 de agosto de 1892, na quinta coluna).

1895 – Em novembro, Ferrez fotografou, em Búzios, os convidados e a comissão responsável pela construção da Estrada de Ferro Rio de Janeiro-Minas, que uniria o povoado de Búzios a Paquequer, no estado de Minas Gerais (A Notícia, 11 de novembro de 1895, segunda coluna).

1900 – Revista da Semana de 21 de outubro de 1900, publicou uma litogravura da Estação Central da Estrada de Ferro da Central do Brasil baseada em uma fotografia de autoria de Marc Ferrez.

 

 

1904 - Exposição de fotografias da estrada de ferro Central do Brasil de autoria de Ferrez, no Club de Engenharia (O Commentario, março de 1904).

1908 – A Casa Marc Ferrez produziu filmes sobre obras em estradas de ferro do Brasil.

 

Cronologia do fotógrafo Arthur Júlio Wischral

 

 

1894 - Em Curitiba, nascimento de Arthur Júlio Wischral, descendente de alemães.

c. 1910 - Com uma máquina fotográfica emprestada de um amigo, Arthur Wischral procurou orientação do fotógrafo alemão Germano Fleury (1873 – 1945), estabelecido em Curitiba, durante a década de 1900. Além de fotografar, Fleury comercializava artigos fotográficos. Na cidade havia, na época, estúdios fotográficos utilizando as últimas técnicas trazidas da Europa e aonde também eram vendidos cartões postais e materiais fotográficos. Com Fleury, Wischral teve as primeiras noções de fotografia profissional. Segundo ele, quando começou a fotografar gostava de registrar cenas incomuns das reuniões familiares (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1912 – Fotografou o primeiro bonde elétrico de Curitiba, que saiu da praça Ouvidor Pardinho com destino ao Portão (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1913 - Ganhou de seu pai uma máquina fotográfica com todas as inovações que as indústrias de Dresden haviam conquistado até então. Custando 120 mil réis, a câmara apresentava fole, movas dimensões 13 x 18 cm – e vários outros recursos que possibilitavam um trabalho ainda mais sensível e de qualidade (Diário do Paraná, 21 de junho de 1975). Antes, seu pai havia tentado demovê-lo da ideia de ser fotógrafo. Queria que o filho se dedicasse ao violino.

O amador fotográfico Arthur Wischral fotografou os enterros de Mário de Castro e de Francisco de Luccas, em Curitiba (Diário da Tarde (PR), 14 de maio de 1913, quinta coluna).

Trabalhava como repórter fotográfico do jornal A República, do Paraná, e produziu registros de manobras militares realizadas pelo Regimento de Segurança na invernada do Campo Comprido (A República (PR), 26 de maio de 1913, sexta coluna).

Fotografou uma horrível catástrofe quando 26 tamboretes de explosivos de guerra explodiram nos armazéns da Rede Ferroviária, na praça Eufrásio Correia, causando a morte de 8 soldados, 3 operários e uma criança, deixando vários feridos e produzindo grandes danos materiais. As fotos foram vendidas para jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo (A República (PR), 2 de julho de 1913, primeira coluna; Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

Pelo jornal A República (PR), ele e Seraphin França acompanharam o governador do Paraná,  Carlos Cavalcanti (1864 – 1935), em uma viagem a cidades do litoral do estado (A República (PR), 14 de julho de 1913, terceira coluna; A República (PR), 22 de julho de 1913, sexta coluna).

Wischral era o repórter fotográfico da revista ilustrada, humorística e literária A Bomba (PR), publicada nos dias 10, 20 e 30 de cada mês. Era de propriedade de Marcello Bittencourt (A Bomba, 30 de julho de 1913, primeira coluna).

Além de Wischral, a Photographia Volk passou a integrar a equipe de reportagem fotográfica da revista A Bomba (PR) (A Bomba (PR), 10 de setembro de 1913, segunda coluna).

 

 

1914 – Estava presente à inauguração do ramal Serrinha – Nova Restinga, da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande (A República (PR), 19 de fevereiro de 1914, última coluna).

Em 5 de abril, fotografou o primeiro voo de avião realizado em Curitiba. O piloto foi Cícero Martins (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

Já estava na Alemanha e não era repórter fotográfico de A República (PR) (A República (PR), 30 de outubro de 1914, última coluna). A conselho de seu pai, havia viajado para aprender novas técnicas fotográficas. Ficou no país até depois do fim da Primeira Guerra Mundial. Empregou-se num estabelecimento que prestava serviços fotográficos para amadores. Fez um estágio no laboratório na Universidade de Würzburg e aprendeu a técnica do retoque com um fotógrafo da cidade, dominada por poucos profissionais em Curitiba. Em Würburg, encontrou-se uma vez com o futuro papa Pio XII a quem perguntou onde poderia encontrar pessoas que falassem português e ele lhe indicou uma escola onde estavam alguns feridos de guerra. Eram portugueses e estranharam o sotaque dele.  Durante sua estada na Alemanha, trabalhou durante seis anos no jornal Franken Warte. No período em que ficou na Europa viajou para diversos países do continente (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1921 – Voltou a Curitiba e por volta dessa época começou a prestar serviços para o governo e para empresas. Fotografou o interior do Paraná, realizando uma série de imagens que integrariam o estande do estado na exposição comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro.

1922 – Fotografou a exposição comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro.

Voltou ao Rio de Janeiro, onde fotografou os primeiros prédios da orla carioca e também os arredores de Petrópolis.

1924 - Esteve no Palácio do governador do Paraná, Caetano Munhoz da Rocha (1879 – 1944) (O Dia, 13 de fevereiro de 1924, terceira coluna).

O hábil fotógrafo Arthur Wischral realizou na Villa Olga uma sessão de projeção de fotografias (O Dia (PR), 30 de março de 1924).

 

 

1926 – No artigo Uma audaciosa excursão ao Marumby, escrito por Affonso Wischral, de 9 de julho de 1926, foi mencionado que o autor e Arthur Wischral haviam fotografado aspectos do passeio que poderiam ser vistos na loja “O Pequeno Paris“, na rua 15, nº 58 (O Dia (PR), 26 de julho de 1926, última coluna).

1928 – Foi contratado pela Rede Viação Paraná – Santa Catarina e registrou o dia a dia das obras, as dificuldades dos trabalhadores e as obras de manutenção da estrada de ferro Curitiba – Paranaguá, inaugurada em 1885 e considerada um marco na história da engenharia no Brasil. Um álbum, editado pelo próprio fotógrafo e por J. J. Wischral, foi produzido com esses registros. O endereço deles era avenida Silva Jardim, nº 175.

 

 

Acessando o link para o Álbum de Fotografias da Ferrovia de Curitiba a Paranaguá, de autoria de Arthur Wischral, disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

1929/1931 - Durante cerca de um ano e meio, Wischral permaneceu na Bahia onde documentou, contratado pelas Empresas Elétricas Brasileiras S.A, a construção da Barragem Jerry O´Connell, em Bananeiras. Uma das fotografias da barragem foi publicada no Estado de Florianópolis, 26 de julho de 1930.

 

O contrato previa também a produção de uma série de imagens de Salvador e do interior da Bahia que foram, posteriormente, reunidas em uma publicação de quatro volumes intitulada Desenvolvimento, Geologia e Produtos Agrícolas, Indústria do Cacau, feita pelas Empresas Elétricas Brasileiras S.A.

Wischral montou, com imagens de sua estada na Bahia, um álbum pessoal com cerca de 500 fotografias.

1934 - Registrou-se para receber algum pagamento da prefeitura de Curitiba (Correio do Paraná, 21 de fevereiro de 1934, quinta coluna).

1935 – Na ocasião do cinquentenário da Estrada de Ferro do Paraná, Wischral, identificado como veterano dessas empreitadas estéticas e artista da Kodak, deu um depoimento, publicado no jornal O Dia (PR), 9 de janeiro de 1935.

Foi contratado para acompanhar e documentar a expedição do coronel Raul Bandeira de Mello ao sudoeste do Paraná. As fotos e o relatório deram origem ao livro de mais de 400 páginas Ensaios de Geobélica Brasileira, editado pela Imprensa Nacional em 1938. O nome do fotógrafo não foi citado. A expedição registrou fatos e imagens desde Palmas até 7 Quedas e é um documento formidável da vida naquelas paragens nos anos 30. Eles documentaram os lugares das batalhas da revolução de 1924 e a situação de pontes, estradas e as defesas militares brasileiras na região. Também indígenas e até um chocante registro de uma família de deficientes físicos gerados por um casal de irmãos, imagens que correram o Brasil à época. Ao final uma cena bucólica com o comandante da expedição em meio aos hóspedes do hotel argentino das cataratas, constando do acervo até uma carta de “vinos” e menu, com a assinatura de todos os presentes. São mais de 90 fotos e mapas que mereciam uma exposição e uma edição fac-símile da obra, ou pelo menos das suas fotografias. Os originais encontram-se com Paulo José da Costa, proprietário da Fígaro Loja de Cultura Sebo e Antiquário, de Curitiba (Página Arthur Wishcral no Facebook).

 

geobélia

 

1936 - A matéria Capricho ou punição da natureza, sobre as consequências da sífilis, trazia uma fotografia de uma família com 4 filhos portadores de deficiência física , produzida por Wischral quando esteve no sertão de Guarapuava (O Estado (SC), 2 de setembro de 1936, primeira coluna).

1937 – Uma fotografia de sua autoria foi publicada no artigo A Floresta Brasileira (O Observador Econômico e Financeiro, agosto de 1937). 

 

 

Década de 1940 – No início dessa década, Wischral foi contratado pela prefeitura de Curitiba e documentou detalhadamente as obras do Plano Agache. Ao longo de três décadas fotografou a transformação da cidade, a urbanização dos bairros, o alargamento das ruas, a construção de praças ajardinadas e dos primeiros grandes edifícios.

Seu laboratório ficava na rua Desembargador Westphalen.

1950 – A mesma fotografia publicada na edição de agosto de 1937 da revista Observador Econômico e Financeiro foi de novo publicada na edição de julho de 1950 da mesma revista. No ano seguinte, um leitor da revista, Martim Zipperer, de Curitiba, curioso acerca da autoria da fotografia que, segundo ele, foi produzida no rio dos Bugres, no município de São Bento do Sul, em Santa Catarina, a pedido de um de seus parentes, procurou a revista. Havia fotografado o mesmo local e a imagem foi publicada em Observador Econômico e Financeiro, abril de 1951. Segundo a reportagem “o confronto dessas fotografias, representando duas épocas, é um dos mais impressionantes documentos que se poderia divulgar sobre os males causados pela economia predatória que vem sido exercida sobre as nossas reservas florestais!”

 

 

1964 - Uma fotografia de 1912 ou 1914, de autoria de Wischral foi publicada (Correio do Paraná, 23 de fevereiro de 1964, penúltima coluna).

 

 

1967 - Com texto de Sérgio Augusto e fotografias de Arthur Wischral, publicação do artigo A maravilhosa Curitiba-Paranaguá (Diário do Paraná, 15 de julho de 1967).

Publicação da matéria Era uma vez um vapor chamado Pery, com texto de Sérgio Augusto e fotos cedidas por Wischral (Diário do Paraná, 6 de agosto de 1967).

Com fotografias dos arquivos de César Pinto e de Arthur Wischral, publicação da matéria Prefeitura -Século XX (I – Parte Primeira – Do aluguel de 200 mil réis à casa própria (Diário do Paraná, 10 de setembro de 1967).

1975 – Publicação da matéria Curitiba em dois tempos, com fotos antigas produzidas por Wischral e com atuais do fotógrafo Mário Nunes do Nascimento (Diário do Paraná, 21 de junho de 1975). Dias depois, publicação de uma matéria sobre sua vida (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1978 - Publicação de um artigo com fotografias de carnavais antigos sob as lentes de Wischral (Diário do Paraná, 3 de fevereiro de 1978).

1979 - Na Casa Romário Martins, em Curitiba, realização da exposição Imagens e paisagens que Curitiba perdeu, com registros de Wischral e de outros fotógrafos (Diário do Paraná, 10 de junho de 1979, primeira coluna).

 

 

1982 – Na Sala Funarte, em Curitiba, realização da exposição Paraná de ontem com fotografias de Wischral e de Alberto Weiss, dentre outros (Diário do Paraná, 4 de maio de 1982, terceira coluna).

O fotógrafo Arthur Wischral faleceu, em setembro.

Década de 1990 – Em fins dessa década, A Universidade Federal da Bahia comprou da família do fotógrafo o álbum montado por ele com cerca de 500 imagens de sua estada na Bahia em torno de 1930.

1994 – Foi um dos fotógrafos com obras expostas no evento Curitiba Capital Nacional de Fotografia, entre 14 e 21 de agosto (Jornal do Brasil, 27 de julho de 1994).

2020 – O Instituto Moreira Salles adquiriu em leilão 91 imagens de um conjunto de registros de Salvador e de outras localidades, realizadas em 1931, por ocasião das obras da construção da usina hidrelétrica de Bananeiras, todas de autoria de Wischral. Complementam o trabalho do fotógrafo presente no acervo do IMS, que já possuía o álbum Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá, de 1928.

 

Link para um pequeno filme realizado pelo Paraná Portal sobre Arthur Wischral

Link para o filme Ferrovia Curitiba Paranaguá vista por Arthur Wischral

Link para a cronologia de Marc Ferrez, publicada na Brasiliana Fotográfica, em 7 de dezembro de 2016

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

A construção do trem da Serra do Mar entre Curitiba e o Litoral em 1885, TV Bandeirantes, Youtube

Blog de Paulo José da Costa

Boletim Casa Romário Martins. O acervo Wischral: documentos de um olhar / pesquisa e texto por Maria Luiza Baracho e Marcelo Saldanha Sutil; apresentação por João Urban. Curitiba : Fundação Cultural de Curitiba, vol 31, n. 134, abril de 2007.

CERON, Ileana Pradilla Ceron. Marc Ferrez – uma cronologia da vida e da obra. São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2018.

Estrada de Ferro Paranaguá Curitiba, Youtube

Facebook

Ferrovia Paranaguá-Curitiba 130 Anos – Documentário, Youtube

Gazeta do Povo

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

Site Artes na Web

Site Biblioteca Digital Mundial

Site Clube dos Amantes da Ferrovia

Site Inbec-Pós-graduação

Site Paraná Portal

Site Patrimônio belga no Brasil

Site Prefeitura de Curitiba

TURAZZI, Maria Inez. Cronologia. In O Brasil de Marc Ferrez – São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2005.

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicado em 

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), publicado em 4 de dezembro de 2019

Uma homenagem da Casa Granado ao casal imperial sob as lentes de Marc Ferrez, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, publicado 6 de março de 2020

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, publicado em 16 de março de 2020

Bambus, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2020

O Baile da Ilha Fiscal: registro raro realizado por Marc Ferrez e retrato de Aurélio de Figueiredo diante de sua obra, publicado em 9 de novembro de 2020

O Palácio de Cristal fotografado por Marc Ferrez, publicado em 2 de fevereiro de 2021

Dia dos Pais – Julio e Luciano, os filhos do fotógrafo Marc Ferrez, e outras famílias, publicada em 6 de agosto de 2021

 

O Palácio de Cristal, em Petrópolis, fotografado por Marc Ferrez (1843 – 1923)

A Brasiliana Fotográfica destaca uma imagem do Palácio de Cristal de Petrópolis produzida em torno da época de sua inauguração, em 1884, por Marc Ferrez (1843 – 1923), que realizou cerca da metade de sua produção fotográfica no Rio de Janeiro e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais. Patrimônio histórico tombado pela União, o Palácio de Cristal, localizado na Praça Koblenz ou Praça da Confluência, já abrigou exposições agrícolas, de flores e pássaros, além de eventos culturais como, por exemplo, o Petrópolis Bier Festival. É um monumento importante e simbólico para a história do Brasil e um dos principais pontos turísticos de Petrópolis. Em janeiro de 2020, foi fechado para visitação para a realização de uma reforma, paralisada no mês seguinte pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e retomada no início de outubro de 2020.

 

 

Foi inaugurado em 2 de fevereiro de 1884 (Gazeta de Notícias, 27 de janeiro de 1884, quarta colunaGazeta de Notícias, 5 de fevereiro de 1884, quinta coluna), cinco anos após o lançamento de sua pedra fundalmental, com um grande baile que contou com a presença maciça da família imperial brasileira.

Sobre sua construção e inauguração, foi publicado em Petrópolis, guia de viagem (1885), de José Nicolau Tinoco de Almeida (18? – 1950):

“ Petrópolis – Escrevem-nos dessa cidade:
03 de Fevereiro –  Por telegrama que expedi hontem daqui dei-lhes de noticia do baile com que se inaugurou o palácio de crystal, construído no local do antigo passeio publico, e cuja estufa ostenta agora as suas columnas de ferro e paredes vidro branco.
Se o palacio de crystal há de ser mais conveniente e util a Petropolis dirão os frequentadores desta bella cidade que assistirem às festas que alli se derem. O facto é que o antigo Passeio Público era o recreio das crianças e ponto de reunião de todos.
O palacio de crystal de Petrópolis foi construído nas oficinas da sociedade anonyma de Saint Sauveur les Arraz, para uma associação de horticultura sob a proteção as Sua Alteza Conde d’Eu. Devendo servir de lugar de exposição ou de festas, tem esta enorme estufa uma vasta sala composta de uma parte central e dois corpos lateraes rectangulares, com uma superfície de 224 metros quadrados. Ligão-se ao corpo principal duas meias luas, cada uma com uma superfície de 56 metros quadrados. Espaço suficiente no caso de haver exposição hortícola para receber pequenos volumes e plantas e em reuniões numerosas os necessários acessórios para uma sala de festas. É inconstestavelmente um elegante EDIFÍCIO, solidamente construido pelo engenheiro Eduardo Bonjean.
Como já dissemos, fez-se a inauguração do palacio-estufa com um baile dado em beneficio da Associação. A inauguração da sala foi feita sob as vistas de S.A. a Serenissima Princeza Imperial, o que fez ter maior realce a primeira festa dada no palacio de crystal.
 Às 9 horas da noite já a sala estava cheia de senhoras e cavalheiros, que receberão Suas Majestades e Altezas, dando-se logo depois começo às danças, nas quaes dignou-se S.A. a Sra. Princeza Imperial de tomar parte. Foi uma brilhante reunião tanto pela escolhida sociedade como pela bonita iluminação. Da corte vierão muitas senhoras para este tão falado baile, de cuja direção se encarregou, a convite de S.A. o Sr. Conde d’Eu uma comissão de cavalheiros da nossa sociedade, que se esmerarão no desempenho de tão agradável incumbência.
Mas não foi só para assistir ao baile que veio gente da corte; para fugir do calor e aqui passar dois dias também vierão muitas pessoas. A affluencia desde sexta-feira tem sido extraordinária.
Cerca de 1.000 pessoas vierão para Petrópolis, e sabe Deus que trabalho teve o Dr. Berrini para acomodar os passageiros nos carros da estrada de ferro Principe Grão Pará.
Os hotéis estão cheios que os últimos passageiros tiveram de dormir nos bilhares e salas.
O Hotel d’ Orleans não teve outras acomodações senão a rouparia e o quarto de banho para dar aos dois últimos hospedes que apparecêrão hontem ”

A estrutura pré-montada do Palácio de Cristal foi encomendada pelo conde D´Eu (1842 – 1922), marido da princesa Isabel (1846 – 1921), na época, presidente da Sociedade Agrícola de Petrópolis, às oficinas da Société Anonyme de Saint-Sauveur, na cidade de Arras, na França.

 

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O conde d´Eu e a princesa Isabel haviam se casado cerca de 20 anos antes, em 15 de outubro de 1864, na Capela Imperial, no Rio de Janeiro, em cerimônia celebrada por D. Manoel Joaquim da Silveira, arcebispo da Bahia e primaz do Brasil (Diário do Rio de Janeiro, edição de 16 de outubro de 1864). O escritor Machado de Assis (1839 – 1908) escreveu na coluna Folhetim uma calorosa descrição do evento (Diário do Rio de Janeiro, edição de 17 de outubro de 1864). O casal passou a lua de mel justamente em Petrópolis, de onde retornou no dia 24 de outubro.

 

 

Voltando ao Palácio de Cristal… Sua estrutura, a primeira pré-fabricada ultimada no Brasil, foi montada em Petrópolis pelo engenheiro Eduardo Bonjean (1844 -?),  foi inspirada em duas edificações: o Crystal Palace de Londres e no Palácio de Cristal do Porto. O Crystal Palace, construído no Hyde Park para sediar a Grande Exposição dos Trabalhos da Indústria de Todas as Nações de 1851, foi inaugurado em 1º de maio de 1851 pela Rainha Vitória (1837 – 1901)  e destruído por um incêndio em 1936. O Palácio de Cristal do Porto, inaugurado em 18 de setembro de 1865 pelo rei dom Luis (1838 0 1889) para abrigar a Exposição Internacional do Porto, foi demolido em 1951 para dar lugar ao Pavilhão dos Desportos,  atualmente denominado Pavilhão Rosa Mota.

 

Em 20 de abril 1884, com ornamentação do botânico francês Auguste Glaziou (1828 – 1906), que havia sido o responsável pelo embelezamento do Campo de Santana, foi aberta a Quarta Exposição da Sociedade Agrícola e Hortícula de Petrópolis, a primeira no Palácio de Cristal – as três primeiras haviam sido realizadas em 1875, 1876 e 1877, em pequenos pavilhões na mesma Praça Koblenz. A edição de 1884 contou com a presença dom Pedro II, do corpo diplomático e de ministros do Império. O discurso oficial foi proferido pelo Conde d’ Eu e o júri do evento, na seção hortícola, era formado por Glaziou, Ramiz Galvão (1846 – 1938), na ocasião preceptor dos filhos da princesa Isabel; e do bibliotecário José de Saldanha da Gama. Na seção zootécnica, os jurados foram Ferreira Penna e E. P. Wilson (Jornal do Commercio, 21 de abril de 1884, primeira colunaGazeta de Notícias, 22 de abril de 1884, quarta coluna; Gazeta de Notícias, 27 de abril, terceira coluna). Em 12 de abril de 1885 e em 20 de março de 1886, o Palácio de Cristal sediou as edições seguintes do evento. Em maio de 1886, também no palácio, foi realizada a Primeira Exposição Industrial de Petrópolis, organizada pela Câmara Municipal por iniciativa do vereador Henrique Kopke Junior (18? – ?).
No chuvoso domingo de Páscoa de 1888, o Palácio de Cristal foi todo enfeitado e em seu exterior via-se uma grande cruz também de ramagens e flores com o dístico “Viva a liberdade”. Na ocasião, a princesa Isabel e o conde d´Eu junto a seus filhos, os príncipes Pedro de Alcântara (1875 – 1940) e dom Luis Maria (1878 – 1920), entregaram 127 cartas de alforria a escravizados da cidade Imperial (Jornal do Commercio, 2 de abril de 1888, primeira coluna; Diário de Notícias, 2 e 3 de abril de 1888, sétima coluna). A maioria dos senhores desses escravizados foram indenizados a partir de uma grande campanha desenvolvida na cidade pela comissão agenciadora das libertações. Compareceram à cerimônia representantes do gabinete ministerial de João Alfredo, os abolicionistas André Rebouças (1838 – 1898) e José do Patrocínio (1853 – 1905), além dos embaixadores da Argentina, da Bélgica, do Chile, da Espanha, dos Estados Unidos e da Itália, e diplomatas das legações de outros países, dentre outros.
Com a proclamação da República, em 1889, o palácio entrou em decadência e, em 1894 foi doado à Prefeitura de Petrópolis. Foi arrematado em leilçao público por Manorel Buaque de Macedo que o cedeu à Associação Artística e Literária Fluminense. Em 1938, o Palácio de Cristal foi coberto por tijolos e folhas-de-flandres, passando a sediar o Museu Histórico de Petrópolis (MHP), por iniciativa do jornalista e historiador Alcindo de Azevedo Sodré (1895 – 1952). Em 1943, quando Petrópolis comemorava 100 anos de sua fundação, o MHP foi transferido para o Museu Imperial de Petrópolis, inaugurado na antiga residência de veraneio de dom Pedro II (1825 – 1891), do qual Sodré foi o primeiro diretor.
Voltou a pertencer à prefeitura e, em 1957,  durante as comemorações do centenário da elevação de Petrópolis à condição de cidade, foi realizada, no Palácio de Cristal, a Exposição Industrial e Histórica de Petrópolis (Anuário do Museu Imperial, 1957). Em 21 de junho de 1967, o palácio, integrante do conjunto arquitetônico e paisagístico da antiga Praça da Confluência, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. Na década de 1970, uma série de restaurações, inclusive em seus jardin, foram iniciadas. No ano de seu centenário, 1984, foi lançado um selo comemorativo em homenagem à data (Jornal do Brasil, 10 de janeiro de 1984, quarta coluna) e ele foi reinaugurado em 2 de fevereiro, coberto por paredes de vidro similares às suas originais, que eram de cristais bisotados importados da Bélgica, com uma mostra de medalhas, uma exposição de esculturas de Maria Martins (1894 – 1973) e um recital de música antiga do Praetorius Emsemble (Jornal do Brasil, 2 de fevereiro de 1984, segunda coluna).
O poeta Carlos Drummond de Andrade dedicou ao Palácio uma crônica, A vária sorte do Palácio de Cristal, no Jornal do Brasil 2 de fevereiro de 1984.

 

 

Nela se refere à história do edifício e também a uma fotografia do trio das inseparáveis amigas – a princesa Isabel e as baronesas de Muritiba (1851 – 1932) e de Loreto (1849 – 1931) -, retratadas dentro do Palácio de Cristal, em 1884, e publicada no Anuário do Museu Imperial de 1958.

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Anuário do Museu Imperial

Archivos Pittorescos: semanário illustrado

Diário de Petrópolis, 6 de outubro de 2020

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Portal Iphan

Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

SILVA, Lucas Ventura da. Patrimônio documental sobre escravidão: o elemento servil na Petrópolis do oitocentos. Revista Eletrônica Discente do Curso de História – UFAM, volume 4, número 1, ano 4, 2020

Site Biblioteca do IBGE

Site Cultura Viva

Site e-monument.net

Site Enciclopedia Britannica

Site G1

Site ipatrimonio.org

Site Visite Petrópolis

SODRÉ, Alcindo. Palácio de Cristal. Centenário de Petrópolis, vol. 2, p.103.

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicado em 

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), publicado em 4 de dezembro de 2019

Uma homenagem da Casa Granado ao casal imperial sob as lentes de Marc Ferrez, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, publicado 6 de março de 2020

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, publicado em 16 de março de 2020

Bambus, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2020

O Baile da Ilha Fiscal: registro raro realizado por Marc Ferrez e retrato de Aurélio de Figueiredo diante de sua obra, publicado em 9 de novembro de 2020

A Estrada de Ferro do Paraná, de Paranaguá a Curitiba, pelos fotógrafos Arthur Wischral e Marc Ferrez, publicado em 22 de março de 2021

Dia dos Pais – Julio e Luciano, os filhos do fotógrafo Marc Ferrez, e outras famílias, publicada em 6 de agosto de 2021

A cidade de São Paulo e Tebas (1721 – 1811), reconhecido como arquiteto, em 2018, mais de 100 anos após sua morte

Hoje, no dia em que São Paulo completa 467 anos, a Brasiliana Fotográfica publica um artigo sobre um homem escravizado conhecido em seu tempo como o mestre pedreiro Tebas (1721 – 1811), que se destacou na cidade, no século XVIII, por criar projetos de edifícios, principalmente religiosos, tornando-se por sua atuação um ícone da arquitetura colonial no Brasil. Essencial para a renovação do estilo arquitetônico da cidade de São Paulo no século XVIII, foi o mais afamado oficial de cantaria de pedra, técnica de talhar pedras em formas geométricas, e era também mestre nas técnicas de alvenaria e hidráulica. Apesar da importância de seu legado, só foi reconhecido como arquiteto, em 2018, quando foi inserido no quadro associativo do Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo. Era dado, então, mais um passo para acabar com a invisibilidade da trajetória desse importante personagem da história de São Paulo e do Brasil.

 

 

Nascido em 1721, em Santos, seu nome era Joaquim Pinto de Oliveira. Aprendeu seu ofício com o português Bento de Oliveira Lima (? – 1769), seu proprietário e renomado mestre de obras da cidade. Passaram a ser chamados para trabalhar na cidade de São Paulo, onde atuaram em diversas obras. Foram responsáveis pela restauração da antiga Catedral da Sé, demolida em 1911. Tebas já havia construido a torre da igreja em 1750. Lima morreu, em 1769, antes da conclusão da reforma da Sé, deixando sua viúva, Antônia Maria Pinta, endividada. No inventário de Lima, Tebas valia 400 mil réis enquanto seus outros três artífices escravizados valiam 100mil. Segundo o pesquisador do IPHAN, Carlos Gutierrez Cerqueira, a alforria de Tebas aconteceu entre 1777 e 1778, em ação judicial movida por Tebas contra a viúva de Bento, sob orientação de Matheus Lourenço de Carvalho, arcebispo da Sé.

 

 

 

 

Entre os trabalhos de Tebas estão a pedra fundamental da fachada da antiga igreja do Mosteiro de São Bento, um cubo de 22 centímetros “com relíquias e um Agnus Dei na base do cunhal”, pela qual teria recebido, em 1766, seis tostões. Além disso, segundo o arquiteto Carlos Lemos, “lavrou também a portaria de pedra da igreja, encimada por um frontão em forma de concha. Por todo o trabalho de cantaria lavrada – portada principal, três janelas do coro e cruz romana de remate da fachada – recebeu ele do mosteiro, no mesmo ano de 1766, a quantia de 286$040 réis.”

 

 

Também construiu o Chafariz da Misericórdia (1792), primeiro chafariz público da capital paulista, erguido onde hoje encontra-se a rua Direita. Na época era ponto de trabalho e de encontro do povo, especialmente da população negra da cidade. Na época, por permitir o acesso à água, os chafarizes eram fundamentais para a dinâmica de funcionamento das cidades.

Segundo o livro A mão afro-brasileira: significado da contribuição artística e histórica (1988), organizado pelo artista plástico baiano, que a partir de 2004 passaria a ser diretor curador do Museu Afro Brasil, Emanoel Araújo (1940 – ), o chafariz foi “transferido para o distante Largo de Santa Cecília, talvez para servir de bebedouro de cavalos. Ficou por ali até os anos da I Grande Guerra. Depois, foi desmontado e largado num dos depósitos da prefeitura e, segundo informações que tivemos, até há uns quinze ou vinte anos atrás, ainda permanecia semi-enterrado entre os escombros e velhos postes de iluminação pública abandonados.” A transferência ocorreu em 1886.

 

 

 

Outras obras realizadas com a participação de Tebas foram as partes frontais da igreja da Ordem Terceira do Carmo (1775 – 1776) e da igreja da Ordem Terceira do Seráfico São Francisco (1783).

 

 

Construiu a torre do Recolhimento de Santa Teresa e foi também o responsável pelo Cruzeiro Franciscano da cidade de Itu (1795), que integra o Centro Histórico de Itu, e foi tombado em 2004 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico de São Paulo. Considerado um monumento raro, só é comparável aos cruzeiros da Igreja de São Francisco, em João Pessoa; e o do Convento de Nossa Senhora das Neves, em Olinda.

 

 

Ainda trabalhava em obras quando faleceu, em 11 de janeiro de 1811, de gangrena. Foi velado e sepultado na Igreja de São Gonçalo, na Praça João Mendes, em São Paulo.

O primeiro registro escrito sobre Tebas de que se tem notícia é de 1899 em uma cronologia da história paulistana, Chronologia paulista ou relação histórica dos factos mais importantes ocorridos em S. Paulo, desde a chegada de Martim Affonso de Souza a S. Vicente até 1898, elaborada pelo cronista maranhense José Jacinto Ribeiro (1846 – 1910), filiado ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Em 1935, Nuto Sant’Anna, chefe da Seção de Documentação Histórica do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo, publicou o artigo Thebas: subsídios inéditos para a reconstituição da personalidade do célebre arquiteto paulistano do século XVIII, na Revista do Arquivo Municipal de São Paulo. Dois anos depois, escreveu o romance Tebas, o escravo, publicado em 1939.

Nas páginas iniciais do livro de Sant´Anna, há explicações preliminares:

 

PERSONAGENS

LENDÁRIO

Tebas, escravo pedreiro.

FICÇÃO

José Vaz, Mestre de Campo e D. Cotinha, sua mulher; Padre Justino, cônego; Gregório dos Anjos, feitor; Luiza, mulher do administrador do Quebra Lombo; Maria das Dores, Carolina, Tião, Juvêncio, Quitéria, Joana, Tibúrcio e Barnabé, escravos.

(…)

ENTRECHO

Dizem historiadores e cronistas que as tôrres das igrejas do Convento de Santa Teresa e da Sé foram construidas por Thebas. Thebas (Joaquim Pinto de Oliveira Thebas) trabalhou efetivamente nas obras do chafariz do largo da Misericórdia. O sítio do Tapanhoim existiu nas baixadas do ribeirão do Lavapés. A chácara do Quebra Lombo é também história. Os nomes das ruas e os aspectos ligeiramente delineados são reais.

O mestre de campo José Vaz é o dono do sítio do Tapanhoim e de tudo o que há nele, incluindo Tebas, protagonista da estória, e as demais pessoas ali escravizadas. O antagonista é o feitor Gregório dos Anjos, impedido por Tebas, a golpes de capoeira, de estuprar Maria das Dores, “mulatinha esguia, de saliências naturais bem feitas. Uns bonitos dentes. E uma certa vivacidade encantadora” nunca vista “nas outras crioulas” (p. 31).

Nesse tempo, a construção das pontes, a edifi cação de prédios altos, a erecção da tôrre das igrejas, constituiam verdadeiros problemas. Obras Tebas e o Tempo 15 difíceis e custosas. Os artífi ces da terra sentiam-se quasi incapazes de as realizar. O Convento de Santa Teresa, que, da beira do morro abrupto, espiava para a várzea, tinha já a sua igrejinha – mas sem tôrre; a da Sé também não a possuia; e a da igreja do Colégio, era pequenina e baixa. (p. 69)

Interessado nas habilidades de Tebas como pedreiro, padre Justino, cônego da Sé, o adquire junto ao mestre de campo José Vaz, sob a condição de libertá-lo assim que a obra estivesse concluída. Justino morre antes do início das obras, mas ainda tem tempo de ordenar o cumprimento da promessa e de determinar os ganhos (uma pataca e meia) do mestre pedreiro escravizado. Terminada a torre, o agora livre e respeitado Tebas juntara dinheiro para propor ao seu ex-senhor a compra de Maria das Dores. Mas é surpreendido por José Vaz, que lhe oferece de presente o amor de sua vida. Joaquim Pinto de Oliveira e Maria das Dores se casam um mês depois.

FIM

São Paulo, de 20 a 30 de junho de 1937

 (transcrito do livro Tebas, um negro arquiteto na São Paulo escravocrata, páginas 14 e 15)

 

O compositor paulistano Geraldo Filme (1927 – 1995) cantou a história do arquiteto no samba de 1974, da extinta escola de samba Paulistano da Glória, que, com o enredo, conquistou o vice-campeonato do Grupo de Acesso. Ouça aqui.

 

Praça da Sé, Sua Lenda, Seu Passado, Seu Presente

Geraldo Filme

Tébas negro escravo
Profissão alvenaria
Construiu a velha sé
Em troca da carta de alforria
Trinta mil ducados que lhe deu padre Justino
Tornou seu sonho realidade
Daí surgiu a velha Sé
Que hoje é o marco zero da cidade
Exalto no cantar de minha gente
A sua lenda, seu passado, seu presente
Praça que nasceu do ideal
E braço escravo, é praça do povo
Velho relógio, encontro dos namorados
Me lembro ainda do bondinho de tostão
Engraxate batendo na lata de graxa
E o camelô fazendo pregão
O tira-teima dos sambistas do passado
Bixiga, Barra Funda e Lavapés
O jogo da tiririca era formado
O ruim caía, o bom ficava de pé
No meu São Paulo, olê olê, era moda
Vamos na sé que hoje tem samba de roda
No meu São Paulo, olê olê, era moda
Vamos na sé que hoje tem samba de roda

 

Sobre o apelido e a vida de Tebas, segue um depoimento de Geraldo Filme:

 

 

Em 1988, no já mencionado livro A mão afro-brasileira: significado da contribuição artística e histórica,  foi publicado o artigo Thebas, do arquiteto Carlos Lemos, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Em 2011, Carlos Gutierrez Cerqueira, pesquisador do IPHAN, colocou no ar o blog Resgate – história e arte, a fim de divulgar suas pesquisas sobre Tebas, no artigo Tebas: vida e atuação na S. Paulo colonial; e também o resultado das suas mais de três décadas de trabalho no IPHAN. Em 2018, foi lançado o livro Tebas: Um Negro Arquiteto na São Paulo Escravocrata, organizado pelo jornalista Abilio Ferreira e fundamental para a elaboração desse artigo.

Foi inaugurado, em 20 de novembro de 2020, Dia da Consciência Negra, um monumento em homenagem a Tebas. A estátua, de autoria do artista plástico Lumumba Afroindígena e da arquiteta Francine Moura, está exposta na praça Clóvis Bevilaqua, entre as igrejas da Sé e do Carmo, em São Paulo.

 

 

“A natureza coletiva do seu legado o libertou do esquecimento”.

 

 

Como não existe nenhuma pintura ou desenho de Tebas, o quadro Cabeça de negro (1934), de Cândido Portinari (1903 – 1962), é muitas vezes associado à imagem do arquiteto. Fenômeno semelhante foi abordado no artigo A mulher negra de turbante, de Alberto Henscheldas historiadoras Aline Montenegro Magalhães e Maria do Carmo Rainho, publicado aqui no portal em 13 de maio de 2020. Nele é mencionado a frequência com que a imagem de Luiza Mahin, mãe do poeta, advogado e abolicionista Luís Gama (1830 – 1882), e liderança da Revolta dos Malês, um dos maiores levantes de escravizados promovidos no Brasil, em Salvador, em 1835, é associada à fotografia Mulher de turbante, produzida em torno de 1870, no Rio de Janeiro, pelo fotógrafo alemão Alberto Henschel (1827 – 1882).

 

 

Uma curiosidade: Tebas era uma gíria usada pela populaçao paulista, no século XIX, para designar algo que era bom ou o melhor. Segundo o livro A capital da solidão: uma história de São Paulo das origens a 1900 (2003), do jornalista Roberto Pompeu de Toledo: “Foi tal a fama de Tebas, considerado, além de pedreiro exímio, corajoso e desenvolto, que até a primeira metade do século XX seu nome, em São Paulo, era sinônimo tanto de valentão, quanto de habilidoso. “Fulano é um Tebas”, dizia-se, e a palavra, com tais acepções, até hoje está nos dicionários. Alguns afirmam que o adjetivo “tebas” não vem do Tebas, e sim do idioma quimbundo – mas o simples fato de outros o atribuírem ao artesão paulista já é indicativo de sua reputação”.

A história de Tebas foi lembrada no documentário AmarElo – É tudo pra ontem (2020) em torno de um show do rapper Emicida (1985 – ), realizado no Theatro Municipal de São Paulo, em 27 de novembro de 2019. No filme, é resgatada parte da história da cultura e dos movimentos dos negros no Brasil. Sobre Tebas: foi decisivo na renovação estilística pela qual São Paulo passou no século XVIII.

 

O livro  Tebas, um negro arquiteto na São Paulo escravocrata, organizado por Abilio Ferreira e lançado em 2018, foi fundamental para a elaboração desse artigo.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ARAUJO, Emanoel (Org.). A mão afrobrasileira: significado da contribuição artística e histórica. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/ Museu Afro Brasil, 2010.

Arch Daily, 27 de novembro de 2020

Aventuras na História, 27 de outubro de 2020

Documentário AmarElo – É tudo pra ontem

FERREIRA, Abilio (org.); CERQUEIRA, Carlos Gutierrez; YOUNG, Emma; JACINO, Ramatis; CHIARETTI, Maurilio. Tebas, um negro arquiteto na São Paulo escravocrata. São Paulo ; Idea, 2018.

Google Arts and Culture

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional 

O Estado de São Paulo

Outras palavras, 5 de abril de 2019

Projeto Tebas

Revista Galileu, 30 de junho de 2020

Revista Projeto, 14 de setembro de 2020

Site Cidade On

Site Prefeitura da Instância Turística de Itu

Site Cidade de São Paulo Cultura

Site IHGB

Site Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo

Site X Special Design

Veja São Paulo

 

Links para outro artigo relativo à fundação de São Paulo publicado na Brasiliana Fotográfica:

São Paulo sob as lentes do fotógrafo Guilherme Gaensly (1843 – 1928), publicado em 25 de janeiro de 2017.

Cronologia de Marc Ferrez (1843 – 1923)

 

Cronologia de Marc Ferrez (1843 – 1923)

 

1843 – O fotógrafo Marc Ferrez nasceu no Rio de Janeiro, em 7 de dezembro, sexto e último filho de Zépherin (Zeferino) Ferrez (31/07/1797 – 22/07/1851) e Alexandrine Caroline Chevalier (? – 1851), que se casaram em 16 de junho de 1821, na igreja do Santíssimo Sacramento e passaram a residir na rua do Hospício, 62. Seu pai, o escultor e gravador francês Zeferino, e seu tio Marc (Marcos) Ferrez (14/09/1788 – 31/03/1850), também escultor, chegaram ao Rio de Janeiro, via Nova York, conforme informado nos livros da polícia de Registros Estrangeiros guardados no Arquivo Nacional. Eram formados pela Escola de Belas Artes de Paris e passaram a integrar a Missão Francesa, um dos marcos do desenvolvimento das artes no Brasil, que havia se instalado na cidade em 1816, chefiada por Joachim Le Breton (1760 – 1819) (O Despertador, 7 de março de 1840, na quarta coluna). Os irmãos de Marc Ferrez eram Fanny (1845 – 1902), Sophie (1831 – 1877), Isabelle (18? – ?), Augustine Emile (1826 – 1904) e Maurice (1835 – 1886). Marc não foi registrado na Legação Francesa.

1851 - Em 20 de maio, Zeferino obteve a autorização da Secretaria de Polícia para embarcar para a França em “companhia de um filho menor”, Maurice ou Marc Ferrez (Diário do Rio de Janeiro, 21 de maio de 1851, na terceira coluna). Há uma possibilidade dele não ter embarcado porque, segundo especialistas, devido à duração da travessia entre o Brasil e a Europa não haveria tempo hábil para ele estar de volta em meados de julho, quando faleceu no Rio de Janeiro.

Em julho, os pais de Marc Ferrez faleceram devido a uma doença misteriosa ou a um envenenamento. Eles moravam na rua do Hospício, 62 (Diário do Rio de Janeiro, 29 de julho de 1851, na terceira coluna;  Correio da Tarde, 23 de julho de 1851Mercantil, 24 de julho de 1951, na última coluna e Jornal do Commercio, 25 de julho de 1851, na primeira coluna). Foram sepultados no Cemitério da Ordem Terceira de São Francisco de Paula. Essas mortes foram antecedidas e sucedidas pelas mortes de escravos e também de animais que viviam na propriedade de Zeferino. O cônsul francês pediu um exame médico-legal e o diagnóstico de disenteria foi confirmado. Em uma matéria publicada na revista Palcos e Telas, de 8 de abril de 1920 sobre Marc Ferrez, o envenenamento por um escravo foi apontado como a causa da morte.

Segundo Gilberto Ferrez, seu neto, Marc Ferrez teria ido viver em Paris com o gravador de medalhas Joseph Eugène Dubois (1795 – 1863) e sua esposa Uranie Virginie Béthune. Porém, segundo a revista Palcos e Telas, de 8 de abril de 1920, Marc Ferrez já estaria em Paris quando ficou órfão. Segundo a mesma matéria, Marc Ferrez teria ficado na França até completar 21 anos. Gilberto Ferrez, afirmava que o avô teria retornado ao Brasil com 16 anos. Há muitas informações controversas a respeito da vida de Marc Ferrez no período em que morou em Paris.

Em 11 de agosto de 1951, foi realizado o inventário de Zeferino. Nele constava que o fotógrafo suíço Georges Leuzinger era o tutor do irmão de Marc Ferrez, Maurice. Apesar de ser suíço, Leuzinger mantinha muitas relações com a colônia francesa do Rio de Janeiro por ter se casado com a francesa Anne Antoinette du Authier (1822 – 1898), conhecida como Eleonore. Também informava que uma das filhas de Zeferino, Isabelle, era casada com Guillaume Keller, sub-rogado no documento como tutor de Marc. Ainda não se sabe se Guillaume era parente de Franz Keller, casado com Sabine, uma das filhas de Georges Leuzinger. Em outro documento, Amedée Poindrelle, marido de sua irmã Fanny, era apontado como o tutor de Marc.

O irmão de Marc, Maurice, chegou no Rio de Janeiro, em 22 de outubro, vindo do Havre, na galera Imperatriz do Brasil (Correio Mercantil, 23 de outubro de 1851, na última coluna). Retornou à Europa em 4 de dezembro, na galera Galathea (Correio Mercantil, 5 de dezembro de 1851, na última coluna).

c. 1863 –  Marc Ferrez retornou ao Brasil. Segundo seu neto, o historiador Gilberto Ferrez (1908 – 2000), Marc teria aprendido a arte da fotografia com o engenheiro e botânico alemão Franz Keller (1835 – 1890), que trabalharia como fotógrafo no ateliê de Georges Leuzinger, aberto em 1865. Uma carta enviada em 17 de janeiro de 1923 por um amigo de Ferrez, Luiz Carlos Franco, a seus filhos Julio e Luciano após a a morte do fotógrafo, confirma que Ferrez havia trabalhado para Leuzinger. Porém, a participação de Franz Keller no ateliê fotográfico de Leuzinger é questionável. Na verdade, até hoje não foi comprovada, e na década de 1860, Keller fez diversas viagens pelo Brasil com seu pai, Joseph, explorando rios do país, sob contrato do governo imperial.

Foi também por volta dessa data que Ferrez requereu um registro de nascimento e batizado junto à Legação Francesa no Rio de Janeiro, que foi assinada pelo chanceler Théodore Taunay (1797-1881) e pelo próprio Ferrez, emitida em 12 de agosto de 1863.

c. 1864 – Por volta desse ano, Marc Ferrez foi retratado pelo fotógrafo Augusto Stahl (1828 – 1877).

1865 / 1875 – Durante esse período,  provavelmente Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) e Ferrez mantiveram uma parceria. A suposição existe devido a exames comparativos dos negativos originais dos fotógrafos que revelam semelhanças de procedimentos e de técnica.

1867 – Em 12 de março, Marc Ferrez enviou requerimento à Câmara Municipal do Rio de Janeiro para obter licença para que seu estabelecimento fotográfico funcionasse na rua São José, 96, sob a razão comercial Marc Ferrez & Cia. Nesse ano, o fotógrafo Oscar Delaporte e o artista gráfico Paul Théodore Robin (? – 1897) anunciavam seus estabelecimentos nesse mesmo endereço. Este último era dirigido pelo fotógrafo Revert Henrique Klumb (Almanak Laemmert, 1867). Durante o século XIX, era comum fotógrafos utilizarem os mesmos espaços anteriormente usados por outros fotógrafos para aproveitar a infraestrutura e o laboratório fotográfico já existente. Segundo Gilberto Ferrez, Marc já teria sua loja desde 1865.

1868 - Marc Ferrez anunciou a venda de “uma grande coleção de vistas do Rio de Janeiro e navios de guerra de todas as nações” na Photographia Brazileira (Jornal do Commercio, 6 de dezembro de 1868, na primeira coluna).

Pela primeira vez, o Almanak Laemmert se referiu a Marc Ferrez na seção “Fotógrafos”. O endereço de seu ateliê era rua São José, 96.

1869 – Publicação de um anúncio, em inglês, do estabelecimento de Ferrez, que ainda usava o nome de Photographia Brazileira, anunciando vistas do Rio de Janeiro e de seus arredores em todas as dimensões (Jornal do Commercio, 6 de junho de 1869, na segunda coluna).

1870 - Em 10 de julho, Ferrez fotografou o “Monumento à Deusa da Vitória” e o “Templo da Vitória”, localizados no Campo da Aclamação, durante as comemorações ocorridas no Rio de Janeiro pelo fim da Guerra do Paraguai – foi a primeira festa cívica do império. Uma das imagens das comemorações foi doada a dom Pedro II (Jornal do Commercio, 11 de julho de 1870, na quarta coluna).

Nos versos de seus cartões de montagem e fotografias estava inscrito “Marc Ferrez. Fotógrafo da Marinha Imperial e das construções navais do Rio de Janeiro”. Provavelmente a nomeação de Ferrez como fotógrafo oficial da Marinha relacionava-se com o lançamento do Plano para a Organização da Força Naval do Império que previa a renovação da frota com embarcações de diversos tipos, o que aconteceu nas décadas de 1870 e 1880. Ferrez registrou fotograficamente esses novos navios.

1871 – O ótico José Maria dos Reis, integrante do conselho da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (O Auxiliador da Indústria Nacional, 1871), teve seus instrumentos científicos fotografados por Ferrez para a Exposição Científica de Córdoba, na Argentina, inaugurada em 15 de março (A Regeneração, 19 de fevereiro de 1871, na última coluna).

1872 – Ferrez divulgou no Almanak Laemmert sua “especialidade de vistas do Brasil”, indicando que seu estabelecimento ficava na rua São José, 96.

No mês de março, fotografou a comemoração pela chegada do casal imperial ao Brasil, após viagem pela Europa. Foi a primeira viagem ao exterior que dom Pedro II realizou em companhia da imperatriz Teresa Cristina (Diário do Rio de Janeiro, 1º de abril de 1872).

1873 – A comissão de organização da III Exposição Nacional, aberta em 1º de janeiro, encomendou de Ferrez fotografias do edifício da Escola Central da Corte, onde o evento se realizou. Suas fotografias do palácio da exposição e da cascata construída em seu pátio foram enviadas para a Exposição Universal de Viena realizada no mesmo ano sob o tema “Cultura e Educação”.

Ferrez casou-se com a francesa Marie Lefebvre (c. 1849 – 1914) em 16 de agosto. Cerca de um mês antes, em 13 de julho, foram lidas as proclamas do casamento na capela imperial (A República, 20 de julho de 1873, na quarta coluna).

Em 18 de novembro, um incêndio destruiu seu ateliê. Todas a chapas de seus primeiros anos como fotógrafo assim como seu equipamento fotográfico foram queimados (Jornal do Commercio, 19 de novembro de 1873, na segunda coluna).

1874 – Viajou para a França, graças à ajuda de seu amigo Júlio Claudio Chaigneau (? – 1894), negociante de artigos fotográficos. Em Paris, adquiriu material para recomeçar sua vida profissional de fotógrafo. Encontrou-se com seu amigo Alfée Dubois (1831 – 1905), de quem o Institut de France havia encomendado a cunhagem de moedas comemorativas de eventos astronômicos. Posteriormente, o Instituto enviou por Marc Ferrez três medalhas para dom Pedro II, em reconhecimento à colaboração do monarca brasileiro à ciência. Foram ofertadas por Jean-Baptiste Dumas (1800-1884), Secretário Perpétuo do Institut de France.  As medalhas são relativas à descoberta do centésimo planeta pequeno, à descoberta do processo de observação das protuberâncias do sol e a terceira era uma homenagem ao químico francês Michel Eugène Chevreul (1786 – 1889). Provavelmente as medalhas foram entregues pessoalmente por Ferrez a Pedro II em uma visita que realizou ao Paço Imperial (Diário do Rio de Janeiro, 18 de maio de 1874, na primeira coluna).

1875 -  Marc ingressou, em fevereiro, na Irmandade do Santíssimo Sacramento da Candelária, como irmão remido.

Ferrez começou a trabalhar como fotógrafo da Comissão Geológica do Império, chefiada pelo norte-americano Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), que se tornaria diretor da Seção de Geologia do Museu Nacional em 1876. Percorreu os atuais estados de Alagoas, Bahia, Pernambuco e parte da região amazônica numa importante missão científica realizada no Brasil sob os auspícios do governo imperial, que gerou a primeira grande representação fotográfica de diversas regiões do território brasileiro. Segundo Gilberto Ferrez, foi durante essa viagem que Ferrez contraiu uma doença no fígado, da qual nunca se curou.

Carimbo de Marc Ferrez. Rio de Janeiro, c. 1875. Acervo IMS

Marc Ferrez e outros membros da Comissão Geológica do Império embarcaram no paquete Pará com destino a Pernambuco (Jornal do Commercio, 10 de julho de 1875, na segunda coluna). Ele, Elias Fausto Pacheco Jordão, Francisco José de Freitas e Charles Frederick Hartt, todos membros da Comissão, agradeceram, publicamente, ao “digno comissário” J. Feliciano Gomes, que os recebeu no navio (Jornal do Recife, 26 de julho de 1875, na quarta coluna).

Foi publicado o relatório preliminar dos trabalhos da Comissão Geológica na província de Pernambuco, de autoria de Hartt. Ferrez foi mencionado (Diário de Pernambuco, 25 de novembro de 1875, na primeira coluna).

Na residência do inspetor do arsenal de Marinha, em Recife, o chefe da Comissão Geológica do Império, Charles Frederick Hartt, fez uma conferência sobre os arrecifes e outros aspectos de Pernambuco como o cabo de Santo Agostinho, praias, o rio São Francisco e a cachoeira de Paulo Afonso, ilustrados com fotografias de Marc Ferrez (Diário do Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1875, nas quinta e sexta coluna. sob o título “Norte do Império”).

Ferrez  apresentou na Exposição de Obras Públicas, evento paralelo à IV Exposição Nacional, dois álbuns com imagens dos recifes de Pernambuco, do baixo São Francisco e da cachoeira de Paulo Afonso, além de registros de corais e madrepérolas. As imagens produzidas durante a viagem da Comissão Geológica foram projetadas por Ferrez durante uma conferência do professor Hartt (O Globo, 4 de janeiro de 1876, na penúltima coluna).

A mulher de Ferrez, Marie Lefebvre foi retratada pelo renomado fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924), radicado no Rio de Janeiro.

1876 -  New York Commercial Advertiser, de 29 de maio de 1876, publicou um artigo que informava que “riquíssimas fotografias da exploração geológica a cargo do professor Hartt” haviam sido apresentadas pelo Brasil na Exposição Universal da Filadélfia aberta em 10 de maio. Fotografias de Ferrez realizadas para a Comissão Geológica do Império foram premiadas com  medalha (The Rio News, 5 de agosto de 1879).  Uma curiosidade: a comissão de organização da Exposição da Filadéfia modificou as regras da premiação: os ganhadores receberiam um diploma, uma medalha de bronze e uma cópia certificada do parecer do júri, rompendo com o padrão de premiação hierárquica.

Foi publicada uma fotografia de autoria de Ferrez da cachoeira de Paulo Afonso na Revista Ilustração Brasileira, 1ºde agosto de 1876, acompanhada por um texto de Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), chefe da Comissão Geológica do Império. Na mesma edição, publicação de matéria sobre a Comissão Geológica do Império.

Foi noticiado que Ferrez havia chegado ao sul da Bahia com o geólogo Richard Rathbum, também integrante da Comissão Geológica, com diversas fotografias de índios botocudos, dentre outras (Revista Ilustração Brasileira, 1º de novembro de 1876, na última coluna). Essas teriam sido as primeiras imagens desses índios produzidas no Brasil (Palcos e Telas, 8 de abril de 1920).

1877 – Publicação da fotografia do farol da Barra da Bahia, de autoria de Marc Ferrez, na capa da Revista Ilustração Brasileira, 15 de janeiro de 1877.

O livro A Descrição do novo edifício para a Tipografia Nacional, publicado pelo engenheiro Antonio de Paula Freitas (1845 – 1906), foi ilustrado por gravuras baseadas em fotografias de Marc Ferrez.

Foi publicada uma gravura do morro da Glória, Pão de Açúcar e entrada na baía do Rio de Janeiro na capa da Revista Ilustração Brasileira, 15 de março de 1877.

De 1877 até o final da década de 1880, Ferrez foi o responsável pela produção da documentação fotográfica das obras destinadas a melhorar o abastecimento de água no Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, de 28 de junho de 1889, na segunda coluna, sob o título “Águas do rio S. Pedro”).

O governo decretou o fim da Comissão em 1º de julho de 1877 e em janeiro do ano seguinte sua extinção foi efetivada.

Foi anunciada a exposição de quatro fotografias de autoria de Marc Ferrez, na galeria da A la Glacê Elegantesituada na rua do Ouvidor, 138. Eram imagens do “importante estabelecimento hidroterápico e  casa de saúde do sr. dr. Fernando Eiras (Jornal do Commercio, 11 de setembro de 1877, na quarta coluna). Na A la Glacê Elegante, outra exposição de fotografias de Ferrez, desta vez do engenho central Quissamã (Gazeta de Notícias. 12 de outubro de 1877, na quarta coluna). Ferrez voltaria a expor várias vezes na A la Glacê Elegante, loja de moldurasque assim como outros estabelecimentos como o Espelho Fiel e a Casa de Wilde, em meio a seus produtos, abriam espaço para exposições de obras de arte ou novidades do mundo artístico-industrial. Por exemplo, em 1878, o artista italiano Nicolau Facchinetti (1824 – 1900) expôs suas pinturas na A la Glacê Elegante.

Publicação de uma matéria sobre o trabalhos da Comissão Geológica do Império e sobre o local onde estavam guardados e onde os membros da comissão cuidavam de sua classificação, estudo e do desenvolvimento, na rua da Constituição, nº 41, visitado pelo imperador Pedro II, no dia 27 de outubro. Foi mencionada a existência de um laboratório fotográfico, “grande e espaçoso…nele estão guardados algumas centenas de clichês , feitos no campo pelos Srs. Ferrez e Brenner e mno laboratório pelo Sr. Ratbunn, que hoje toma conta dessa parte do serviço da comissão“(O Vulgarizador, 3 de novembro de 1877).

1878 – No Almanak Laemmert de 1878, Ferrez foi identificado como fotógrafo da Marinha Imperial e da Comissão Geológica. Seu estabelecimento ficava na rua São José, 88 com depósito na rua do Ouvidor, 55.

Viajou para a França na época da Exposição Universal de Paris, quando apresentou o mesmo panorama do Rio de Janeiro que havia exposto na Exposição Universal da Filadélfia, em 1876. Participou de reuniões da da Sociedade Francesa de Fotografia apresentando imagens de paisagens brasileiras de sua autoria e retratos produzidos pelo fotógrafo Insley Pacheco (c. 1830 – 1912).  Ferrez comprou o aparelho panorâmico de varredura, fabricado por David Hunter Brandon (1821 – 1893) sob sua encomenda. Com esse equipamento, que pesava mais de 100 quilos, era possível produzir grandes imagens panorâmicas de até 1 metro e 10 centímetros sem as distorções muitas vezes provocadas pela justaposição de várias fotografias para a formação de uma única imagem.

Marc Ferrez estava na folha de pagamento do Ministério da Fazenda (Jornal do Commercio, 16 de março de 1878, na segunda coluna).

Foi publicada uma imagem do prédio da Tipografia Nacional, baseada em fotografia de Ferrez, na Revista Ilustração Brasileira, de abril de 1878.

Foi noticiada a morte de Charles Frederick Hartt, que havia sido o chefe da Comissão Geológica do Império. Ferrez foi mencionado (A Boa Nova, 24 de abril de 1878, na terceira coluna).

1879 – Matéria bem humorada sobre o ofício da fotografia. Segundo o autor, “as crianças é que são o pesadelo, a ave agoureira” dos fotógrafos. Devido a elas Ferrez e outros fotógrafos estariam “avelhantados e cheio de cans” (Jornal do Commercio, 20 de janeiro, sob o título “Photographos”).

Na galeria da A la Glacê Elegante, exposição de uma fotografia do correio, de autoria de Marc Ferrez, “tirada diretamente de uma dimensão nunca feita nesta capital até agora” (Jornal do Commercio, 28 de janeiro de 1879, na quarta coluna).

Na seção de “Fotografia”, Ferrez participou pela primeira vez da Exposição da Academia Imperial de Belas Artes e recebeu a medalha de ouro. Apresentou “Vistas diversas”, “Vistas transparentes pelo processo inalterável au charbon” e “Fotografias da Secretaria de Agricultura” e foi premiado com a segunda medalha de ouro (Jornal do Recife, 11 de agosto de 1879, na sexta coluna e Revista Musical e de Belas Artes, 9 de agosto de 1879). As fotografias foram elogiadas, sobretudo “as feitas com tintas azuladas e rosadas” (Jornal do Commercio, 17 de abril de 1879, na última coluna).

Em inglês, foram publicados anúncios das fotografias de Ferrez no jornal Rio News de 5 de agosto, de 15 de setembro15 de outubro5 de novembro, mencionando que ele havia recebido uma medalha na Exposição da Filadélfia e que havia sido fotógrafo da Comissão Geológica do Império. Os anúncios seguiram sendo publicados em 1880 e 1881.

Na galeria da A la Glacê Elegante, exposição de fotografias de Marc Ferrez representando o engenho agrícola no Porto-Real, “de uma dimensão nunca feita até hoje”(Jornal do Commercio, 10 de outubro de 1879, na sexta coluna).

Ferrez registrou a visita do Imperadordom Pedro II às obras para o abastecimento de água do Rio de Janeiro (Jornal do Commercio, 27 de novembro de 1879, primeira coluna).

Ferrez fotografou a Exposição Portuguesa no Rio de Janeiro e colocou as fotografias à venda (Revista da Exposição Portuguesa no Rio de Janeiro, 1879).

Anos 1880 – Começou a desenvolver a atividade de comerciante e representante de produtos e artigos para fotografia, de onde conseguia boa parte de sua renda. Entre 1880 e 1910, desenvolveu vários projetos em parceria com editores e fotógrafos, dentre eles Henri Gustave Lombaerts (1845-1897), Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912) e Gomes Junior.

1880 – No mês de junho, Ferrez fotografou o evento comemorativo do tricentenário de morte do poeta português Luis de Camões (c. 1524 – 1589 ou 1580), a Exposição Camoniana, inaugurada em 10 de junho na Biblioteca Nacional, então denominada Biblioteca Pública. Um desses registros foi oferecido à instituição por dom Pedro II.

Na casa do litógrafo Jules Martin, foi realizada uma exposição de fotografias de Ferrez produzidas no interior de São Paulo e na cidade de Santos, onde havia estado pela primeira vez (Jornal da Tarde, 29 de setembro de 1880, na terceira coluna).

1881 - Nascimento do primeiro filho do casal Ferrez, Julio Marc (1881 – 1946), em 14 de abril.

Na Exposição da Indústria Nacional, organizada por Jorge Henrique Leuzinger (1845 -1908), secretário da Associação Industrial e filho do fotógrafo George Leuzinger (1813 – 1892), Ferrez apresentou fotografias realizadas com a câmara panorâmica Brandon e ganhou o grande prêmio da mostra (O Binóculo, 23 de dezembro de 1881).

Publicou o folheto Exposição de paisagens fotográficas produtos do artista brasileiro Marc Ferrez Fotógrafo da Marinha Imperial e da Comissão Geológica, onde em 10 páginas divulgava seu trabalho. Nesse folheto declarava que seu estabelecimento, “dedicado especialmente a fazer vistas do Brasil”, havia sido fundado em 1860. Segundo Maria Inez Turazzi, a data coincide com a inauguração da oficina de fotografia e ambrótipo do litógrafo Paul Théodore Robin (? – 1897), com quem Ferrez pode ter trabalhado.

A Coroa imperial comprou, por 200 mil réis, quatro fotografias produzidas por Ferrez do Campo da Aclamação. No local havia sido instaladas as novas lâmpadas de filamento inventadas pelo industrial norte-americano Thomas Edison (1847 – 1931).

1882 – Participou da Exposição Continental de Buenos Aires, inaugurada em 15 de março (a seção brasileira foi inaugurada no dia 1º de abril, ocupando uma área de 600m2), com as fotografias apresentadas na Exposição da Indústria Nacional do ano anterior e foi premiado com uma medalha de prata e um prêmio ao mérito.

Fotografou na Exposição Antropológica Brasileira, inaugurada em 29 de julho de 1882, no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, uma série de registros de objetos e aspectos da vida indígena. Algumas fotografias de sua autoria também foram expostas. A mostra durou três meses e teve muito sucesso, com um público de mais de mil visitantes.

Fotografou as obras da ferrovia Dom Pedro II, em São Paulo e em Minas Gerais, tendo registrado a presença do imperador Pedro II e de sua comitiva na entrada do túnel da Serra da Mantiqueira (Gazeta de Notícias, 27 de junho de 1882, na quarta coluna).

 

1882 / 1883 – A fotomontagem feita por Ferrez de imagens de Antônio Luiz von Hoonholtz Tezpur, o Barão de Teffé (1837 – 1931), do capitão-tenente Francisco Calheiros da Graça (1849 – 1906) e do tenente Arthur Índio do Brasil e Silva (1856 – 1936) , os três homens encarregados pelo Observatório Imperial do Brasil para observar o trânsito de Vênus sobre o Sol, na ilha de São Tomás nas Antilhas, fez parte da publicação Comissão Astronômica Brasileira – Passagem de Vênus de 6 de dezembro de 1882, álbum comemorativo da participação brasileira no esforço internacional para acompanhar o citado evento astronômico. Com esse objetivo havia sido criado um observatório pelo Observatório Imperial, em homenagem a dom Pedro II (1825 – 1891), na ilha de São Tomás nas Índias Ocidentais Dinamarquesas (atualmente Ilhas Virgens Americanas). Esse trânsitos ofereciam a oportunidade de determinação da distância entre a Terra e o Sol e houve grande interesse científico e público nos trânsitos de 1874 e 1882.

1883 – O Club de Engenharia ofereceu uma recepção ao engenheiro hidráulico holandês J. Dirks, o grande especialista da época em portos e canais, que estava de passagem pelo Rio de Janeiro e seguiria para Valparaíso, no Chile. Na ocasião, foi realizada uma exposição de fotografias das estradas de ferro, de autoria de Marc Ferrez (Revista de Engenharia, 14 de abril de 1883).

Participou da Exposição Internacional de Amsterdam, realizada entre maio e outubro de 1883, com 24 grandes fotografias do Rio de Janeiro, de Santos, de Petrópolis e de outros lugares do interior do Brasil, tendo sido premiado com a medalha de bronze (Jornal do Commercio, 9 de outubro de 1883, na sétima coluna).

Ferrez fotografou a Kermesse organizada pela Sociedade Francesa de Beneficência, na Guarda Velha, localizada no antigo Campo de Santo Antônio, atual largo da Carioca (Gazeta da Tarde, 25 de outubro de 1883, na segunda coluna).

c. 1884 – Fotografou as obras da ferrovia do Paraná (Paranaguá – Curitiba). O gerente da firma Société Anonyme des Travaux Dyle et Bacalan, empreiteira belga encarregada pelas obras, o futuro prefeito do Rio de Janeiro, o engenheiro Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), presenteou dom Pedro II com 14 fotografias e um álbum de autoria de Ferrez com registros da ferrovia e da província do Paraná.

1884 - Nascimento do segundo filho do casal Ferrez, Luciano José André (1884 – 1955), em 9 de fevereiro.

Participou, em maio, da Exposição Internacional de Horticultura de São Petesburgo, com diversos trabalhos, dentre eles vistas do Brasil.  José Maria da Silva Paranhos Júnior (1845 – 1912), o Barão do Rio Branco, foi o comissário do pavilhão brasileiro, que teve como destaque a promoção do café nacional produzido em fazendas dos estados do Rio de Janeiro, Minas Gerais e São Paulo (Jornal do Commercio, 7 de agosto de 1884, sexta coluna).

Exposição, na Notre Dame de Paris, de um retrato do astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), diretor do Imperial Observatório do Rio de Janeiro, “trabalho artístico obtido pelo novo sistema de gelatino-bromureto, especialidade do sr. Marc Ferrez, clichê do sr. Insley Pacheco”(Jornal do Commercio, 4 de julho de 1884, na última coluna).

Fotografias de Ferrez ilustravam a matéria escrita por Arthur Barreiros sobre o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), diretor do Imperial Observatório do Rio de Janeiro, publicada na segunda edição da revista Galeria Contemporânea do Brasil (O Cearense, 29 de agosto de 1884, na terceira coluna).

Na primeira edição da revista Galeria Contemporânea do Brasil, publicação de uma fotografia de Machado de Assis, identificada como uma fotografia inalterável de Marc Ferrez e clichê de Insley Pacheco (Revista Ilustrada, 31 de agosto de 1884, na seção “Livros a ler”). Já na época, a Revista Ilustrada comentou o que parecia ser uma imprecisão na identificação da autoria da fotografia de Machado e documentos recentemente localizados na Biblioteca Nacional indicam Insley Pacheco como possível autor desse retrato.

Foi apresentada a revista Galeria Contemporânea do Brasil, cujas fotografias ficariam a cargo de Marc Ferrez, “introdutor entre nós do sistema de platinotipia, que se recomenda pela inalterabilidade e beleza de detalhes” (A Província do Espírito Santo, 14 de setembro de 1884, na última coluna).

Na “Seção de Fotografia” na Exposição Geral de Belas Artes, exibiu as fotografias Gaúcho do Rio GrandeFragata PallasFragata inglesa AmethystCruzador brasileiro Almirante BarrosoPasseio pela baía e Amazona e cavaleiro, feitas em gelatino-brometo de prata. Sob o título Vegetação, apresentou fotografias produzidas pelo processo de platina.

Exposição de fotografias da estrada de ferro Teresa Cristina, na A la Glacê Elegante (Gazeta da Tarde, 11 de novembro de 1884, na quinta coluna).

Ferrez e suas irmãs Francisca e Augustine libertaram dois escravos. Um trabalhava na Casa Leuzinger e o outro era padeiro (Gazeta da Tarde, 13 de dezembro de 1884, na segunda coluna, sob o título “Chronica do bem”).

1885 – Por volta deste ano, Ferrez produziu uma fotografia de uma vista panorâmica do Rio de Janeiro a partir de Santa Tereza, na qual ele brincava com o ilusionismo proporcionado pela dupla exposição: ele e um amigo apareciam duas vezes na foto.

Ferrez participou da inauguração da ferrovia do Paraná, a Paranaguá – Curitiba (19 de Dezembro, 4 de fevereiro de 1885, na terceira coluna).

Marc Ferrez foi recebido por dom Pedro II (Jornal do Commercio, 19 de março de 1885, na terceira coluna).

O imperador Pedro II agraciou Ferrez com o grau de Cavaleiro da Ordem da Rosa, em 7 de março (Publicador Maranhense, 26 de março de 1885, na quarta coluna). Outros que receberam a condecoração na mesma ocasião foram os pintores Antonio Firmino Monteiro (1855 – 1888), Augusto Rodrigues Duarte (1848 – 1888), Francisco Aurélio de Figueiredo e Mello (1856 – 1916), José Ferraz de Almeida Junior (1850 – 1899) , além do músico Vicente Cernicchiaro (1858 – 1928).

Na Exposição Internacional de Beauvais, inaugurada em maio, 30 grandes fotografias de cidades brasileiras, dentre elas, Rio de Janeiro e Petrópolis, de autoria de Ferrez foram expostas. A seção brasileira foi organizada pelo sr. Rodrigues de Oliveira (Jornal do Commercio, 29 de maio de 1885, na sexta coluna).

Ferrez partiu, em outubro, para Paris no vapor Orenoque onde buscaria as últimas novidades sobre técnicas e equipamentos de fotografia (Jornal do Commercio, 21 de outubro de 1885, na sexta coluna, sob o título “Despedida”). Aprimorou, na época, a técnica do ferro prussiano, método utilizado para reprodução rápida de plantas de engenharia e outros desenhos, um dos serviços que oferecia em seu estabelecimento (Revista de Engenharia, 14 de abril de 1886). Para a mesma finalidade, Ferrez também usava a heliografia.

Apresentou na Sociedade Francesa de Fotografia, em Paris, entre 1885 e 1886, uma câmera desenvolvida para a realização de fotografias marinhas e ofereceu à associação provas panorâmicas produzidas no Brasil.

Participou da Exposição Universal da Antuérpia ou Exposição Universal de Anvers, na Bélgica, com Grande coleções de vistas do Rio de Janeiro: 31 fotografias e ganhou a medalha de prata, na classe VII, de “Provas e aparelhos fotográficos”(O Auxiliador da Indústria Nacional, de 1885), informação corroborada no livro Anvers à l´Exposition Universelle 1885de René Cornelli e Pierre Mussely, publicado no ano seguinte à mostra. Em 14 de outubro, os reis da Bélgica visitaram a exposição e a rainha apreciou muito as fotografias de Ferrez (Jornal do Recife, de 20 de novembro de 1885, na sexta coluna).

Ferrez fotografou o escritório particular de dom Pedro II, no Palácio de São Cristóvão (Anais da Biblioteca Nacional, 1991).

O livro Bilder aus Brasilen (Imagens do Brasil)do teuto-brasileiro Carlos von Koseritz (1830 – 1890), publicado em Leipzig por  A. W. Sellin foi ilustrado com onze gravuras produzidas a partir de fotografias de Ferrez. Foi traduzido para português, na década de 40, por Afonso Arinos de Melo Franco (1905 – 1990).

1885/1887 - Com a reprodução de 12 imagens de Ferrez, a editora milanesa Fratelli Tensi publicou o álbum de fotogravuras Lembrança do Rio de Janeiro.

1886 – O Boletim da Sociedade Francesa de Fotografia registrou a apresentação do equipamento criado por Ferrez para produzir fotografias marinhas.

O engenheiro belga Aimé Durieux (1827 – 1901), representante da Sociedade Anonyma de Trabalhos Dyle & Bacalan, doou à Sociedade de Geografia de Paris, da qual era integrante, um álbum com 26 fotografias de autoria de Ferrez sobre a ferrovia do Paraná.  A empresa atuava na construção de veículos ferroviários, navios e aeronaves, bem como em obras públicas.

O militar italiano Carlo de Amezaga (1835 -1899) publicou em Roma os quatro volumes de Viaggio di circumnavigazione della corvetta Caracciolo. No terceiro volume, há duas estampas do Rio de Janeiro baseadas em fotografias de Ferrez.

O engenheiro britânico Hastings Charles Dent (1855 – 1909) publicou A year in Brazil: with notes on the abolition of slavery, the finances of the empire, religion, metereology, natural history, etc com 10 páginas de ilustrações e mapas baseados em registros de Ferrez.

Ferrez retornou ao Brasil em março.

O ateliê de Marc Ferrez era o depositário das chapas secas Clayton, “reconhecidas as melhores (Jornal do Commercio, 14 de março de 1886, na primeira coluna).

Estava em exposição na A la Glacê Elegante diversos aumentos de retratos pelo sistema inalterável de gelatino-bromure, de autoria de Ferrez, dentre eles uma fotografia do navio Almirante Barroso considerada rara por suas “enormes dimensões”. O sistema era uma especialidade da Casa Marc Ferrez (Jornal do Commercio29 de março de 1886, na terceira coluna 30 de março de 1886, na quarta coluna). Sobre a mesma exposição, Ferrez foi referido como “habilíssimo fotógrafo” que havia chegado da Europa para onde havia ido se aperfeiçoar “nas mais recentes ficelles de l´art, e fez no estabelecimento A la Glacê Elegante  uma exposição de positivos ampliados de clichês, e de uma prova de fotografia instantânea representando o cruzador Almirante Barroso. Esta prova é de grandes dimensões, calculamos ser de 1m20 x 0.80m. É escusado dizer que os trabalhos expostos traduzem a costumada e reconhecida perícia do expositor”. Informava também que uma das especialidades do ateliê de Ferrez era a reprodução rápida de plantas e de outros desenhos de engenharia através do processo “ferro prussiato“” (Revista de Engenharia, 14 de abril de 1886, na segunda coluna). Para a mesma finalidade, Ferrez também usava a heliografia.

Propaganda do estabelecimento de Marc Ferrez na rua São José 88 onde era anunciado como Photographia da Marinha Imperial e oferecia material completo para fotógrafos e amadores, chapas instantâneas Clayton, aumento de retratos, reprodução indelével de plantas e vistas de todas as partes do Brasil (O Programa Avisador, 8 de julho de 1886, na última coluna). O anúncio foi publicado diversas vezes ao longo de 1886.

 

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Propaganda do estabelecimento fotográfico de Marc Ferrez, 1886.

 

Na A la Glacê Elegante, exposição de fotografias produzidas “instantaneamente” por Marc Ferrez com um aparelho de sua invenção construído em Paris sob sua imediata inspeção (Jornal do Commercio, 26 de julho de 1886, na quarta coluna).

Em uma reunião da Sociedade Central de Immigração, da qual faziam parte, entre outros, o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), o pintor italiano Nicolau Facchinetti (1824 – 1900) e o político Alfredo d´Escragnolle Taunay (1843 – 1899), foram apresentadas por esse último, presidente da associação, fotografias da ferrovia do Paraná, de autoria de Ferrez (A Immigração, agosto de 1886).

A estampa que acompanhava o artigo sobre o túnel de ferro corrugado publicado na Revista de Engenharia de 18 de outubro de 1886, foi impressa “por um econômico processo heliográfico, de cujos detalhes o bem conhecido fotógrafo Marc Ferrez adquiriu o conhecimento em sua recente viagem à Europa, e que é eminentemente adaptado pelo seu moderado custo à reprodução de desenhos, quando se precisa apenas de algumas dezenas de exemplares”.

O Club de Engenharia aprovou a proposta de Marc Ferrez e de E. de Mascheuk para a execução de “diversos trabalhos concernentes à exposição dos caminhos de ferro” (Revista de Engenharia, 14 de dezembro de 1886, na primeira coluna).

Ferrez fotografou a ferrovia Dom Pedro II, em Juiz de Fora.

Não usava mais a referência da Comissão Geológica em seu currículo profissional. Apresentava-se como “Fotógrafo da Marinha Imperial”.

1887 - Ferrez comunicou a chegada de novas chapas gelatino Brumure Clayton, reconhecidas como as melhores e mais rápidas, de todos os tamanhos, das quais ele era o único depositário (Jornal do Commercio, 27 de fevereiro de 1887).

O antigo gerente do estabelecimento de Ferrez, Albert Breton, tornou-se funcionário da Casa Saturno, “grande atelier de retratos”, localizado na rua 1º de março, 23 (O Programa Avisador, 3 de março de 1887).

O Ministério da Agricultura encomendou a Ferrez dez grandes fotografias da hospedaria da Ilha das Flores, local de passagem obrigatória dos imigrantes estrangeiros que aportavam no Rio de Janeiro (Gazeta da Tarde, 7 de abril de 1887).

Ferrez fotografou a cerimônia de aclamação da Princesa Isabel (1846 – 1921) como regente, pela terceira vez, na Igreja da Sé. A cerimônia de Te Deum  ofereceu a ele, provavelmente, a primeira grande ocasião de usar os novos flashes de magnésio que havia recebido recentemente da Europa.

Marc Ferrez. Te Deum na Catedral – aclamação da Princesa Isabel como Regente, 1887. Rio de Janeiro, RJ / Coleção Princesa Isabel

Entre 2 de julho e 2 de agosto, nos salões do Liceu de Artes e Ofícios, por uma iniciativa do Club de Engenharia, realizou-se a Exposição dos Caminhos de Ferro Brasileiros, com a exibição de fotografias de Ferrez (Revista de Engenharia, 14 de agosto de 1887). Estiveram presentes no encerramento da exposição, no dia 2 de agosto, a princesa Isabel(1845 – 1921) e o conde d´Eu (1842 – 1922), além de outras autoridades. O conselheiro Sinimbu (1810 – 1906) leu o relatório do juri da exposição, do qual também fazia parte o visconde de Mauá (1813 – 1889), Pedro Betim Paes Leme (1846 – 1918), Christiano Benedicto Ottoni (1811 – 1896), Carlos Peixoto de Mello (1871 – 1917), Álvaro Joaquim de Oliveira (1840 – 1922) e Manoel José Alves Barbosa (1845 – 1907). Ferrez foi contemplado com uma menção honrosa pelas “magníficas fotografias de importantes trechos de nossas vias férreas, com que concorreu não só para abrilhantar a Exposição como até para suprir algumas lacunas sensíveis de estradas que se não fizeram representar” (Jornal do Commercio, 3 de agosto de 1887, na terceira coluna e Revista de Estradas de Ferro, 31 de agosto de 1887, na primeira coluna).

Ferrez era o secretário-adjunto da Diretoria da Associação Industrial, que enviou ao conselheiro Rodrigo Augusto da Silva (1833 – 1889), ministro e secretário de Estado para os Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, um plano para a realização de uma exposição preparatória para a Exposição Universal de Paris, em 1889 (Revista de Engenharia, 28 de agosto de 1887).

Anúncio da Photographia Marc Ferrez, apresentando-se como depositária das chapas secas de Attout-Taillfer & Clayton, além de oferecer cartões e câmaras de viagem (Jornal do Commercio, 4 de setembro de 1887, quarta e quinta colunas). Propagandas da Casa Marc Ferrez foram veiculadas várias vezes no mesmo jornal ao longo de 1887 e 1888.

1888 – Marc Ferrez estava fotografando pessoas e grupos para perpetuar as memórias dos festejos pela abolição da escravatura (O Paiz, 16 de maio de 1888, primeira coluna).

No Arsenal de Marinha, foi concluído o faceamento do meteorito de Bendegó com as presenças da princesa Isabel e do conde d´Eu. Ferrez fotografou o meteorito e o grupo com “Suas Altezas, o presidente da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro, Marquez de Paranaguá, iniciador da ideia de remoção desse meteorito, o diretor do Museu Nacional, os membros da comissão, e o sr. ministro dos estrangeiros”(Correio Paulistano, 17 de julho de 1888, na quinta coluna, sob o título “Meteorito de Bedengó”). Também no Arsenal de Marinha, cerca de um mês depois, com as presenças de Suas Altezas, da baronesa de Loreto Maria Amanda Paranaguá Dória (1849 – 1931), do barão de Corumbá João Mendes Salgado (1832 – 1894), do marquês de Paranaguá João Lustosa da Cunha Paranaguá (1821 – 1912), e do diretor do Imperial Observatório do Rio de Janeiro, Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), dentre outros, o meteorito de Bedengó foi coberto com ácido nítrico. Na matéria, foi mencionado que Ferrez fotografaria o meteorito (Gazeta de Notícias, 17 de agosto de 1888, na segunda coluna sob o título “Corte do Bendegó”).

Ferrez fotografou a fachada da tradicional farmácia carioca Casa Granado, tradicional farmácia carioca, enfeitada para as festividades de boas vindas a dom Pedro II  e à Imperatriz D. Teresa Cristina, que retornavamde sua viagem à Europa. No passepartout da fotografia, que foi distribuída como brinde pelo estabelecimento e trazia a assinatura de Marc Ferrez, lê-se: “Homenagem da Drogaria Granado ao feliz regresso de SS. MM. Imperiaes. Rio, 22 de agosto de 1888”.

 

 

Em uma fotografia produzida dentro da mina da Passagem, em Minas Gerais, Ferrez utilizou, provavelmente, o flash de magnésio. A imagem foi produzida, em setembro, quando Ferrez acompanhou a visita de d. Pedro II a Minas Gerais. Realiziu também registros de Ouro Preto e de Itacolomy.

Ferrez e Pedro da Silveira foram designados para fotografar a princesa Isabel recebendo a condecoração Rosa de Ouro, concedida pelo papa Leão XIII, na capela imperial, no dia 28 de setembro. O engenheiro Morin seria o encarregado pela luz elétrica (O Espírito – Santense, 6 de outubro de 1888, na segunda coluna). Ela foi saudada pelo bispo do Pará (Gazeta de Notícias, edição de 29 de setembro de 1888).

Em 25 de novembro, foi inaugurado o tráfego entre as estações de Alcântara e Rio do Ouro da estrada de ferro de Maricá. Marc Ferrez fotografou “instantaneamente ” um grupo de convidados da diretoria das estradas na estação Santa Izabel (Revista de Engenharia, 28 de dezembro de 1888, na primeira coluna).

Participou com fotografias de paisagens de Ouro Preto e de outras regiões do Brasil da Exposição Brasileira Preparatória da Exposição Universal de Paris, realizada entre 11 e 31 de dezembro de 1888 (O Auxiliador da Indústria Nacional, na segunda coluna, janeiro de 1889). Por essas fotografias, no ano seguinte, Ferrez recebeu o diploma de honra da Exposição Preparatória (O Auxiliador da Indústria Nacional, outubro de 1889, na segunda coluna).

Transcrição, na Gazeta de Notícias, de um artigo escrito pelo jornalista francês Charles (Carlos) Morel, redator chefe do jornal Étoile du Sud, sobre a participação brasileira na Exposição Universal de Paris de 1889. O desenvolvimento da fotografia no Brasil e a exposição de fotografias de Ferrez foram abordados (Gazeta de Notícias, 16 de dezembro de 1888, na sexta coluna).

1889 – Ferrez retornou de uma viagem a Uruguaiana e informou estar de volta “à testa de seu estabelecimento”(Jornal do Commercio, 3 de março de 1889, na quinta coluna).

Em propaganda da Casa Ferrez, era anunciada a chegada de várias novidades, dentre elas lanternas para aumento (Jornal do Commercio, 24 de março de 1889).

Ferrez fotografou a capela imperial, que estava em obras (Gazeta de Notícias, 11 de abril de 1889, na segunda coluna).

Jornal do Commercio noticiou que havia recebido a já mencionada fotografia da Casa Granado, de autoria de Ferrez, por ocasião da volta de dom Pedro II da Europa, ocorrida em 1888 (Jornal do Commercio, 10 de agosto de 1889, na sexta coluna).

Ferrez viajou com seus filhos e mulher para Paris. Apresentou fotografias de vistas do Rio de Janeiro, de vistas marinhas e paisagens na Exposição Universal em Paris, realizada entre 6 maio e 31 de outubro de 1889. De acordo com Maria Inez Turazzi, recebeu a medalha de bronze. Segundo o Auxiliador da Indústria Nacional, ele teria recebido a medalha de prata (O Auxiliador da Indústria Nacional, 1889). Foi nessa exposição que a Torre Eiffel, na época a mais alta estrutura do mundo, foi inaugurada.

O barão do Rio Branco (1845 – 1912), com o apoio de dom Pedro II, publicou para a exposição de Paris o Álbum de vistas do Brasil com imagens produzidas por vários fotógrafos, dentre eles Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912)Augusto Riedel (1836 – ?) e Marc Ferrez, que teve o maior número de fotografias publicadas no álbum.

A Casa Imperial comprou um lote de 50 vistas por 150 mil réis, na Casa Marc Ferrez.

A documentação fotográfica produzida por Ferrez das obras destinadas a melhorar o abastecimento de água no Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, de 28 de junho de 1889, na segunda coluna, sob o título “Águas do rio S. Pedro”), entre 1877 e o final da década de 1880, resultou em oito álbuns: três deles foram presenteados a dom Pedro II, nesse ano, último do regime imperial no Brasil. Outros três foram dados ao engenheiro Francisco de Paula Bicalho (1847 – 1919), diretor das Águas da Corte.

Na reportagem “La Révolution au Brésil”, sobre a queda do Império, foi publicado um desenho cuja base foi a fotografia da estátua eqüestre de Dom Pedro I, realizada por Marc Ferrez nos anos 1870 (Le Monde illustrée, 30 de novembro de 1889).

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1890 – Ferrez fotografou o lançamento do cruzador Almirante Tamandaré, em 20 de março (Revista Marítima Brasileira, junho de 1890).

Em maio, Ferrez anunciou a câmara detetive de Steinheil. Comunicou, no mês seguinte, também, que seu estabelecimento possuía um catálogo, que, se solicitado, poderia ser remetido aos clientes. Esta foi, provavelmente, a primeira referência à existência de um catálogo de produtos de sua loja (Jornal do Commercio, 18 de maio de 1890, sétima coluna, e O Paiz, 29 de junho de 1890, última coluna).

Ferrez oferecia em propaganda e desta vez indicando amadores também como potenciais clientes. É uma aposta e uma evidência de que essa nova categoria representava na época uma expansão no mercado de equipamentos e material de fotografia. “Grande especialidade de todas as pertenças para profissionais e amadores photographos. Câmaras objectivas garantidas de Dallmeyer e outros afamados fabricantes, banheiras, lanternas, obturadores, cartões de todos os tamanhos e qualidades etc. Acaba de receber a última novidade: a câmara detetive de Steinheil” (Jornal do Commercio, 1º de junho de 1890, segunda coluna).

 

 

Outro anúncio é veiculado informando que o estabelecimento de Ferrez é a única agência da Casa Dallmeyer, de Londres e,  oferece o Revelador Iconogène , uma novidade (Jornal do Commercio, 3 de agosto de 1890 e O Paiz, 3 de agosto de 1890, sétima coluna).

Anúncio da série completa de objectivas desse célebre autor (Ferrez), além de chapas de “todos os tamanhos e diversos autores”.

Em setembro, Ferrez integrou a comitiva convidada para a  inauguração das obras da ferrovia Benevente-Minas, de Carangola a Benevente, atual Anchieta, no Espírito Santo (Diário de Notícias, 28 de setembro de 1890, quinta coluna).

Propaganda da Photographia Marc Ferrez oferecia seus serviços ao engenheiros (O Cruzeiro, 5 de novembro de 1890)

 

 

Na Revista de Engenharia, 28 de dezembro de 1890, foi publicado um anúncio: “Marc Ferrez – Fotógrafo da Marinha Nacional. Especialista de vistas de estradas de ferro e em geral das grandes obras públicas. Reprodução de plantas com traços pretos sobre fundo branco. Rua São José 8″. O mesmo anúncio voltou a ser veiculado na edição de 14 de agosto de 1891.

1891 – Anúncio de venda de produtos fotográficos importados e exclusivos, como “as objetivas Dallmayer, de Londres, e das chapas Wratten-Wamweight”, em seu estabelecimento, situado na rua São José, 88 (Jornal do Commercio15 de janeiro e 18 de outubro de 1891).

A Casa Lombaerts & C incorporou-se à Casa Marc Ferrez, sob a firma Lombaerts, Marc Ferrez & C (Diário da Manhã, 9 de março de 1891, na terceira coluna). A firma Lombaerts, Marc Ferrez & C foi a editora e proprietária do jornal quinzenal de moda A Estação (A Estação, 15 de julho de 1891). A sede do jornal ficava na rua dos Ourives, 7 (Almanak Laemmert, última edição de 1892). A firma também publicou postais e, por encomenda da Inspetoria Geral da Instrução Primária e Secundária da Capital, publicou o álbum Quadros de história Pátria, com 21 fototipias, e o ensaio do engenheiro e astrônomo Henrique Morize (1860 – 1930), intitulado Esboço de una climatologia do Brasil. A sociedade de Lombaerts e  Ferrez foi dissolvida (Diário de Notícias, 15 de dezembro de 1891, quarta coluna).

1892 – O estabelecimento de Marc Ferrez era um dos locais de venda de ingressos para a Festa do 14 de Julho – Festa Nacional da França (Gazeta de Notícias, 11 de julho de 1892).

Foi determinado que nas estradas de ferro subvencionadas pelo governo federal fossem liberados passes de ida e volta para Marc Ferrez e um ajudante para que pudessem “levantar fotografias em diversas localidades para o serviço da Exposição Universal Colombiana de Chicago”, que aconteceu entre 1º de maio e 30 de outubro de 1893 para celebrar os 400 anos da chegada do navegador genovês Cristóvão Colombo (1451 – 1506) ao Novo Mundo, em 1492 (Jornal do Brasil, 21 de agosto de 1892, na quinta coluna).

Ferrez recebeu o pagamento de e 2:284$ pelo material fornecido para a exposição de Chicago e 6:454$ pelos “ trabalhos photographicos para a referida Exposição”, de acordo com a solicitação do Ministério da Justiça em 5 de janeiro, e com o pedido de transferência para o Tesouro Nacional do dia 8 de junho,  publicados no Diário Oficial em janeiro e julho de 1893[1]

[1] Diário Official, 08 de janeiro de 1893, p. 132 e 23 de Julho de 1893, p. 5, seção 1, publicado digitalmente em  https://www.jusbrasil.com.br/diarios/1598158/pg-4-secao-1-diario-oficial-da-uniao-dou-de-08-01-1893/pdfView e https://www.jusbrasil.com.br/diarios/1663079/pg-5-secao-1-diario-oficial-da-uniao-dou-de-23-07-1893, consultados em 06 de fevereiro de 2018 às 15:50

1893 – O governo autorizou uma encomenda a Marc Ferrez de “fotografias de diversas estradas e ainda os indispensáveis à organização da carta plastográfica” que seria enviada para a Exposição de Chicago. O valor do trabalho foi 6:454$000 (Relatório do Ministério da Agricultura, 1893).

[1] Diário Official, 08 de janeiro de 1893, p. 132 e 23 de Julho de 1893, p. 5, seção 1, publicado digitalmente em  https://www.jusbrasil.com.br/diarios/1598158/pg-4-secao-1-diario-oficial-da-uniao-dou-de-08-01-1893/pdfView e https://www.jusbrasil.com.br/diarios/1663079/pg-5-secao-1-diario-oficial-da-uniao-dou-de-23-07-1893, consultados em 06 de fevereiro de 2018 às 15:50

Ferrez registrou as consequências da Revolta da Armada nos navios e instalações da Marinha brasileira.

1894 – Foi para Minas Gerais, onde produziu fotografias para a Comissão Construtora da Nova Capital do Estado.

No Rio de Janeiro, registrou os engenheiros que trabalharam, em 1893, na elaboração da Carta Cadastral do Distrito Federal, encomendada pelo prefeito Cândido Barata Ribeiro (1843 – 1910).

Após quatro décadas de carreira, Marc Ferrez é um fotógrafo consagrado e um comerciante de sucesso. Embora discreto e pacato, goza  também  de certa notoriedade para além do círculo de seus clientes e amigos. Sua popularidade é bem exemplificada no conto Dor, de Escrangolle Doria, publicado na revista A Semana e vencedor do segundo prêmio de prosa literária do próprio periódico. Seu nome aparece nos parágrafos finais do capítulo derradeiro, quando os dois personagens principais olhando para uma parede, fitam um retrato au crayon,  de autoria de Marc Ferrez

O nome de Ferrez apareceu ao final do último capítulo do conto Dor, de Escrangolle Doria, vencedor do segundo prêmio de prosa literária da revista A Semana. Ele é citado quando os dois personagens principais olhavam um retrato au crayon, de autoria de Marc Ferrez (A Semana, 31 de março de 1894, terceira coluna).

Forneceu o material para o laboratório de fotografia da Comissão Construtora da Nova Capital (CCNC), encarregada do plano urbanístico e da construção dos edifícios públicos de Belo Horizonte, nova capital de Minas Gerais.

Exposição na redação do jornal A República de duas fotografias do couraçado Vinte e Quatro de Maio, ex-Aquidaban, ambas de autoria de Marc Ferrez. O navio havia sido atingido, em 16 de abril de 1894, em Santa Catarina, pela torpedeira Gustavo Sampaio, durante a Revolta da Armada (A República, 29 de agosto de 1894, na última coluna).

Em novembro, fotografou os festejos pela proclamação da República: a inauguração da estátua do general Osório, na Praça XV, em 12 de novembro, e a posse do novo presidente, Prudente de Morais (1841 – 1902), no dia 15 do mesmo mês. Um álbum do qual faziam parte essas imagens foi presenteado ao marechal Floriano Peixoto (1839 – 1895) pela comissão militar encarregada pelas comemorações oficiais do evento. Ferrez divulgava seu trabalho informando que “tendo por ordem do governo tirado fotografias das festas nacionais, tem conseguido magnífico resultado de todas elas” e que “recebia encomendas para coleção completa” (Jornal do Commercio, 18 de novembro de 1894).

1895 – Propaganda da Casa Marc Ferrez anunciavam que o estabelecimento agenciava com exclusividade as objetivas Dallmeyer, Français e Zeiss, além das chapas Wratten e Wanwrigth no Brasil (Jornal do Commercio, 20 de janeiro de 1895).

Publicação da fotografia do funeral do marechal Floriano de Peixoto (1839 – 1895), com crédito para Marc Ferrez (Le Monde Illustré, 3 de agosto de 1895).

 

 

Na igreja São Francisco de Paula, Ferrez produziu fotos do templo, ao final da cerimônia das solenes exéquias do almirante Saldanha da Gama (1846 – 1895), um dos líderes da Revolta da Armada (Jornal do Commercio, 4 de julho de 1895, quinta coluna).

Em novembro, Ferrez fotografou, em Búzios, os convidados e a comissão responsável pela construção da Estrada de Ferro Rio de Janeiro-Minas, que uniria o povoado de Búzios a Paquequer, no estado de Minas Gerais (A Notícia, 11 de novembro de 1895, segunda coluna).

1896 –  O explorador naturalizado francês Charles Wiener (1851 – 1913) e também cônsul geral encarregado de negócios franceses no Brasil, adquiriu uma coleção de 329 fotografias do Brasil, sendo 92 de autoria de Ferrez. Os três dos quatro álbuns dessas fotografias estão no Ministério das Relações Exteriores da França.

Entusiasta da imigração de europeus para o Brasil, o fotógrafo Maurício Lamberg publicou o livro O Brazil, sobre o qual o historiador Sacramento Blake (1827 – 1903) comentou:  “[…] trata da natureza do Brazil e das diversas raças que contém; de sua lavoura, do solo, da imigração e colonização; de suas florestas…”. Para escrever o livro, Lamberg viajou durante anos pelo norte e por parte do sul do país. Escrita originariamente em alemão, a obra, que abrange assuntos como história, geografia, fontes de renda e costumes, foi vertida para o português pelo jornalista e crítico musical Luiz de Castro (1863 – 1920), editado pela Casa Lombaerts e impresso na Tipografia Nunes, com 381 páginas distribuídos em 15 capítulos, com fotos de Lamberg e de outros autores, dentre eles Ferrez.

1897 – Marc Ferrez fotografou os convidados de uma festa realizada no Club de Paquetá para oficiais da Marinha chilena (Cidade do Rio, 12 de maio de 1897, na terceira coluna).

Em torno desse ano, Ferrez realizava experiências cinematográficas com Henrique Morize (1860 – 1930) e com Tasso Fragoso (1869 – 1945), na época aluno da Escola Militar e posteriormente general. O francês naturalizado brasileiro Henri Charles Morize ou Henrique Morize era engenheiro e astrônomo. Foi diretor do Observatório Nacional entre 1908 e 1929 e o primeiro presidente da Academia Brasileira de Ciências, de 1916 a 1926.

1898 – Ferrez  cedeu dois retratos de família pintados por August Muller (1815 – 1883) para a Exposição Retrospectiva do Centro Artístico, associação de jornalistas e literatos, criada em 1897, que tinha como objetivo a promoção da arte brasileira. A mostra, realizada durante o mês de julho, na Escola Nacional de Belas Artes, foi o primeiro evento organizado pelo Centro Artístico. Reuniu um grande número de objetos de arte cedidos por proprietários e colecionadores (Gazeta da Tarde, 13 de agosto de 1898, na última coluna e Diário de Notícias, 28 de julho de 1898, na penúltima coluna).

Três fotografias de Ferrez ilustraram a matéria O Palácio Presidencial (Revista Moderna, 25 de novembro de 1898).

1899 – Por volta desse ano, Ferrez realizou, possivelmente em parceria com Gomes Junior, uma série de fotografias de ambulantes, como a de “Jornaleiros” e “Comprador de garrafas”.

Anúncio da venda de produtos químicos do médico e cientista francês Charles Berthaud, na Casa Marc Ferrez (A Imprensa, 9 de abril de 1899, na quarta coluna).

No consultório dos doutores Camilo Fonseca e Henrique Morize, foram realizadas experiências radiográficas nas gêmeas siamesas Rosalina e Maria Pinheiro, nascidas em 1893, no Espírito Santo, que chegaram ao Rio de Janeiro em junho (A Imprensa, 23 de junho de 1899, na terceira coluna). Elas foram fotografadas por Marc Ferrez em várias posições (O Cachoeirano, 2 de julho de 1899, na última coluna). A cirurgia para separá-las, realizada em 30 de maio de 1900, na Casa de Saúde São Sebastião, no Rio de Janeiro, pelo médico Eduardo Chapot Prevost (1864 – 1907), foi a primeira do gênero que foi bem sucedida em todo o mundo. Maria morreu cinco dias após a cirurgia devido a uma grave infecção e Rosalina viveu até pelo menos 75 anos, tendo casado e tido filhos (A Imprensa, 11 de agosto de 1900, na primeira coluna).

 

 

Marc Ferrez e os fotógrafos portugueses Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912) e José Ferreira Guimarães (1841 – 1924) foram nomeados para formar a comissão de propaganda da classe de fotografia da Exposição do Quarto Centenário do Brasil, em 1900, promovida pela Sociedade Propagadora das Belas Artes (Cidade do Rio, 31 de outubro de 1899, na quinta coluna).

1900 – Com seu amigo, o engenheiro Humberto Antunes, participou, a bordo do vapor “Vigilante”, que abrigava membros da Sociedade de Benefcência Portuguesa, da procissão de navios que acompanham a chegada da comitiva portuguesa, vinda para as comemorações do quarto centenário do descobrimento do Brasil (Jornal do Commercio, 30 de abril de 1900, terceira coluna).

Ferrez fotografou alguns eventos dos festejos dos 400 anos da descoberta do Brasil: a missa campal celebrada pelo frei Amor Divino Costa (1830 – 1909), a inauguração do monumento a Pedro Álvares Cabral, de autoria de Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931), o desfile das tropas e o arco manuelino na praça da Glória (Gazeta de Notícias, 4 de maio de 1900).

Era um dos integrantes da comissão Exposição Artístico-Industrial Fluminense Comemorativa do IV Centenário do Descobrimento, promovida pela Sociedade Propagadora das Belas-Artes, realizada no Liceu de Artes e Ofícios, na rua da Guarda Velha, atual avenida 13 de Maio (O Paiz, 7 de maio de 1900, na sétima coluna). Ferrez participou com trabalhos fotográficos em transparentes de cristal.

A Casa Marc Ferrez lançou bilhetes-postais com imagens produzidas pelo fotógrafo impressas em fototipia.

Foram lançados os livros O Rio de Janeiro em 1900: vistas e excursões, do militar e jornalista Francisco Ferreira da Rosa (1864 – 1952) e Estados Unidos do Brasil, do geógrafo e anarquista francês Élisée Reclus (1830 – 1905). O primeiro trazia fotografias produzidas por Ferrez e, o segundo, estampas de T. Taylor e A. Slom baseadas em fotos de Ferrez.

Marc Ferrez e sua família foram à exposição da tela histórica de Aurélio Figueiredo (1856 – 1916), O descobrimento do Brasil, no salão da Casa Postal, na rua do Ouvidor (O Paiz, 31 de maio de 1900, na quarta coluna).

Revista da Semana de 21 de outubro de 1900, publicou uma litogravura da Estação Central da Estrada de Ferro da Central do Brasil baseada em uma fotografia de autoria de Marc Ferrez. A Revista da Semana havia sido lançada em 20 de maio por Álvaro de Tefé.

Perto do fim do ano, teria embarcado para a Europa, onde até o dia 12 de novembro realizou-se a Exposição Universal de Paris. Uma curiosidade: pela primeira vez numa feira internacional foi feita, para efeito de premiação, uma diferença entre fotografia profissional e amadora.

1901 – Em março, Ferrez anunciou seu retorno da temporada europeia e a retomada de suas atividades.

No encerramento da Exposição Artístico-Industrial Fluminense Comemorativa do IV Centenário do Descobrimento, Ferrez recebeu o diploma de honra. A mostra foi promovida pela Sociedade Propagadora das Belas Artes (Jornal do Brasil, 14 de maio de 1901, na sétima coluna).

Ferrez prometeu fazer uma doação para a Associação Nossa Senhora Auxiliadora para “o patrimônio do recolhimento de meninas e moças pobres, órfãs ou abandonadas”. O dinheiro seria parte da quantia devolvida pela Sociedade Propagadora de Belas Artes aos contribuintes das festas de distribuição dos prêmios da Exposição Artístico-Industrial Fluminense (A Notícia, 24 de maio de 1901, na última coluna).

Foi publicada uma fotografia produzida por Marc Ferrez de um grupo presente na garden party oferecida pelo cônsul alemão à oficialidade e a alguns marinheiros do cruzador Vinela, no Sylvestre (Revista da Semana, 4 de agosto de 1901). Na edição seguinte, de 11 de agosto, foi publicada uma fotografia do Vinela, também de autoria de Ferrez.

Fotografias de Marc Ferrez foram publicadas para ilustrar uma matéria sobre “A festa na ilha do Vianna – Experiência oficial de máquinas do cruzador República e da caça-torpedeiro Gustavo Sampaio” (Revista da Semana, 10 de novembro de 1901). Na edição seguinte, foi publicada uma fotografia da baía do Rio de Janeiro por ocasião da revista de tropas de 15 de novembro (Revista da Semana, 24 de novembro de 1901).

1902 – Fotografia de autoria de Marc Ferrez do sr. Armando Darlot (? – 1902), no caixão. Ele havia sido um dos fundadores da empresa de seguros Sul-América (Revista da Semana, 13 de abril de 1902).

O então capitão Tasso Fragoso (1869 – 1945), realizou sua segunda conferência sobre artilharia de campanha de tiro rápido. Foram apresentadas fotografias de projéteis e canhões, expostas em uma lanterna de projeção manejada por Henrique Morize e Marc Ferrez  (Jornal do Brasil, 26 de abril de 1902, na nona coluna).

Ferrez registrou a inauguração da estátua do visconde do Rio Branco, na Glória, no dia 13 de maio. A obra, de autoria do escultor Félix Maurice Charpentier (1858 – 1924), fazia parte dos festejos pela comemoração da Abolição da Escravatura (Gazeta de Notícias, 14 de maio de 1902, na quinta coluna, na quarta coluna).

Na Revista da Semana, publicação de diversas fotografias de autoria de Ferrez: Porto da cidade de Belém, Vista geral de Ouro PretoMercado de Porto Alegre e Uma vista de Paranaguá (Revista da Semana, 25 de maio de 1902); imagens dos portos de Recife e do Rio Grande (Revista da Semana, 15 de junho de 1902); e dos navios da esquadra chilena em visita ao Rio de Janeiro (Revista da Semana, 17 de agosto de 1902).

A irmã de Ferrez, Francisca Poindrelle, a Fanny, faleceu aos 84 anos (A Notícia, 25 de novembro de 1902, na última coluna).

1903 – Fotografias de Ferrez foram publicadas na Revista da Semana: dos navios que haviam partido para o norte do Brasil sob o comando do contra-almirante Alexandrino de Alencar (1848 – 1926) (Revista da Semana, 8 de fevereiro de 1903) e Os Dois irmãos no SylvestreLaranjeirasEntrada da barra do Rio de Janeiro vista por fora e Ilha das Cobras (Revista da Semana, 1º de março de 1903).

Ao longo desse ano e de 1904, foram publicadas, no Correio da Manhã, diversas propagandas dos serviços prestados por Ferrez e ele era identificado como “Fotógrafo da Marinha Nacional” (Correio da Manhã, 3 de outubro de 1903, na terceira coluna).

Marc Ferrez fotografou a cerimônia de Primeira Comunhão do Colégio Diocesano de São José (Jornal do Brasil, 3 de outubro de 1903, na segunda coluna).

Em reunião da Associação Promotora de Instrução, foi autorizada a quantia de 250$ para Marc Ferrez produzir fotografias das escolas da associação, que seriam expostas na Exposição Universal de Saint Louis, em 1904 (Correio da Manhã, 30 de novembro de 1903, na quarta coluna, sob o título “Pelas associações“).

Em 4 de dezembro, Marc Ferrez assinou o termo de aceitação da proposta de indenização do imóvel que pertencia a ele na rua São José e que seria demolido para a construção da avenida Central. Recebeu 25 contos de réis pela propriedade.

1904 – No segundo número da revista Kosmos, fundada pelo jornalista e engenheiro agrônomo Mario Bhering (1876-1933) e lançada em janeiro, publicação das fotografias Paineiras, AquedutoCopacabana Passeio Público (Kosmos, fevereiro de 1904).

Exposição de fotografias da estrada de ferro Central do Brasil de autoria de Ferrez, no Club de Engenharia (O Commentario, março de 1904).

Marc Ferrez importava cartões-postais de Paris (Jornal do Brasil, 23 de abril de 1904, na terceira coluna).

Ele e o fotógrafo Joaquim Insley Pacheco receberam a medalha de ouro na Exposição Universal de Saint Louis, nos Estados Unidos, realizada entre de 30 de abril e 1 de dezembro de 1904 (Almanak Laemmert, 1905). O prédio que sediou o Pavilhão Brasileiro da exposição foi, em 1906, remontado no Rio de Janeiro, e foi batizado de Palácio Monroe.

Anúncio da missa de 7º dia da irmã de Ferrez, Augustine Emile Catinot (Gazeta de Notícias, 30 de dezembro de 1904, na última coluna).

Foi editada, provavelmente nesse ano, pela Inspeção Geral das Obras Públicas da Capital Federal, a obra Abastecimento d´água do Rio de Janeiro, com o trabalho feito por Ferrez sobre as obras na cidade.

No final do ano, falecimento da irmã de Ferrez, Augustine Emile Cantinot.

1905 – O Guia da cidade do Rio de Janeiro, organizado pelo engenheiro civil Vicente Alves de Paula Pessoa (c. 1857 – 19?), por incumbência da comissão diretora do Terceiro Congresso Científico Latino Americano, publicado pela Editora Beviláqua, foi ilustrado por imagens produzidas por Ferrez. A escolha das ilustrações e outros aspectos da publicação foram elogiados (Jornal do Brasil, na primeira coluna e  O Paiz, na quinta coluna, ambos de 18 de agosto de 1905).

Ferrez iniciou a produção do Álbum da Avenida Central importante registro da reforma da principal via da então capital federal, onde ele contrapôs reproduções das plantas às fotografias das fachadas de cada edifício documentado. Esse tipo de fotografia foi fundamental para a construção e para a difusão de uma nova imagem do Rio de Janeiro, uma imagem associada aos ideais de civilização e progresso.

Com seu filho Julio obteve a representação da firma francesa Pathé Frères no Brasil. A firma era a maior e melhor fábrica de aparelhos e filmes cinematográficos da Europa.

No final do ano, a Casa Marc Ferrez & Filhos passou a ser a fornecedora exclusiva do cinematógrafo ao ar livre Passeio Público, que existiu entre em 28 de outubro de 1905 e 2 de novembro de 1906, e pertencia ao português Arnaldo Gomes de Souza e ao italiano Vittorio di Maio (1852 – 1926). Passou também a distribuir filmes para outros cinematógrafos ambulantes do Rio de Janeiro.

1906 – No periódico O Commentario, março de 1906, foi publicada a fotografia de um edifício, produzida por Marc Ferrez, 8 minutos após seu desabamento. O prédio estava sendo construído, na avenida Central, por ordem do Club de Engenharia.

Foi publicado um anúncio da Photographia Cinematographica, de Marc Ferrez, anunciando “um imenso sortimento de material para profissionais e amadores a “preços vantajosos”. Também anunciava a “remessa de catálogos” (Jornal do Recife, 29 de março de 1906, na última coluna).

A Alfândega indeferiu o requerimento de Marc Ferrez que pedia relevação para uma multa que lhe havia sido imposta (Correio da Manhã, 1º de novembro de 1906, na quinta coluna, sob o título “Alfândega”).

Em dezembro de 1906 e ao longo de 1907, foram publicadas várias vezes propagandas de “Anúncios luminosos”, na avenida Central. “Grande lanterna mágica com várias vistas atraentes. Informações à rua S. José, 88, com Emilio Brondi, casa Marc Ferrez” (Rio Nu, 12 de dezembro de 1906, na última coluna).

1907 – Em 30 de janeiro, Ferrez assinou um contrato com a  Comissão Construtora da avenida Central para a impressão do Álbum da Avenida Central.

Seu filho, Julio, casou-se com Claire Poncy Ferrez (1888 – 1980).

Marc Ferrez e Abílio Fontes representaram o comércio em uma comissão arbitral que julgaria o recurso interposto por Eduardo Trindade contra uma decisão da comissão de tarifas. Pela fazenda nacional, compunham a comissão arbitral Mendonça de Carvalho e Miranda Reis (Correio da Manhã, 7 de maio de 1907, na terceira coluna, sob o título “Alfândega”).

Arrendou, em sociedade com Arnaldo Gomes de Souza, os prédios de número 145 e 149 da Avenida Central e inaugurou, em 18 de setembro, o Cinema Pathé, o terceiro da cidade (Gazeta de Notícias, 18 de setembro de 1907, nas sexta e sétima colunas) – o primeiro, Chic, foi inaugurado em 1º de agosto de 1907; o segundo, o Grande Cinematographo Pariziense, foi aberto em 9 de agosto do mesmo ano. A firma de Arnaldo e Ferrez chamava-se Arnaldo & Cia, omitindo a participação de Ferrez,  porque Charles Pathé (1863 – 1957), um dos proprietários da Pathé Frères, proibia que seus distribuidores e representantes possuíssem cinematógrafos.

Em primeiro de outubro, foi criada a firma Marc Ferrez & Filhos. Ferrez era dono de 60% das ações, cabendo a Luciano e a Julio 20% do negócio para cada um. A empresa Marc Ferrez & C não deixou de existir. Em seu nome eram feitas as importações de material fotográfico enquanto a nova empresa era responsável pelas importações de material para cinema.

A empresa de fotografia de Ferrez passa a ser administrada por Emilio Brondi.

Publicação de uma propaganda de cinematógrafos de Marc Ferrez, identificado como representante da Casa Pathé Frères (Jornal do Commercio, 25 de outubro de 1907).

1908 - Ferrez embarcou para a Europa no navio Chili. Estavam também a bordo os artistas premiados da Academia de Belas Artes Timotheo da Costa (1882 – 1922) e Carlos Chambelland (1884 – 1950) (Jornal do Brasil, 9 de janeiro de 1908, segunda coluna). Retornou em 30 de março a bordo do paquete francês Cordillere (Jornal do Brasil, 31 de março de 1908, na sexta coluna).

A sociedade de Ferrez com Arnaldo Gomes de Souza foi denunciada pelo concorrente de Ferrez, Jácomo Rosário Staffa, proprietário do cinema Parisiense.

A família Ferrez morava na rua Pedro Américo, 121.

Ferrez e Arnaldo Gomes de Souza produziram o filme, Nhô Anastácio chegou de viagem, dirigido por Julio Ferrez. É considerada a primeira comédia cinematográfica brasileira e foi estrelada por Antônio Cataldi, José Gonçalves Leonardo e Ismênia Matteo. Ferrez produziu o curta-metragem A mala sinistra, também dirigido por seu filho Julio. Além disso, a Casa Marc Ferrez produziu filmes sobre obras em estradas de ferro do Brasil.

Fotografias de Ferrez e também de outros fotógrafos, dentre eles Augusto Malta (1864 – 1957), foram publicadas na obra organizada pelo engenheiro Luiz Raphael Vieira Souto (1849 – 1922), Notícia sobre o desenvolvimento da indústria fabril no Distrito Federal e sua situação atual.

Fotografias de Ferrez integravam a segunda edição do The new Brazil; its resources and attractions: historical, descriptive and industrial, de Marie Robinson Wright (1866 – 1914), publicada pela editora George Barrie & Son, da Filadélfia.

Ao longo de 1908, foi publicado várias vezes um anúncio da venda de cinematógrafos na sucursal da firma Marc Ferrez & Filhos em São Paulo, o Bijou-Theatre, do empresário espanhol Francisco Serrador (1872-1941) (O Commercio de São Paulo, 15 de fevereiro de 1908, na primeira coluna).

Em um anúncio veiculado pela Associação Geral de Auxílios Mútuos da Estrada de Ferro Central do Brasil, era noticiado um espetáculo de “Música com a expressão das fitas”. Informava também que as “fitas da Estrada são de exclusiva propriedade da Associação, conforme contrato assinado com a Casa Marc Ferrez (Correio da Manhã, 3 de abril de 1908, na quinta coluna).

Fotografou a Exposição Nacional, realizada na Praia Vermelha no Rio de Janeiro, entre 11 de agosto e 15 de novembro, para celebrar o centenário da Abertura dos Portos ao Livre Comércio e, posteriormente, lançou uma série de postais sobre o evento.

Em 5 de maio, nasceu Gilberto Ferrez (1908 – 2000), filho de Julio e neto de Marc. Ele foi pioneiro no estudo da fotografia no Brasil com a publicação, em 1946, do ensaio “A Fotografia no Brasil e um de Seus Mais Dedicados Servidores: Marc Ferrez (1843-1923), na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional. 

A Flávio Luz & Comp era a sucursal da Casa Marc Ferrez no Paraná para a venda de aparelhos e acessórios cinematográficos (A República, 1º de junho de 1908, na penúltima coluna).

Marc Ferrez enviou telegrama de pêsames ao empresário e um dos pioneiros do cinema no Brasil, Paschoal Segreto (1868 – 1920), pelo falecimento de seu irmão, o jornalista Gaetano Segreto (A Imprensa, 29 de junho de 1908, na terceira coluna).

O primeiro aniversário do Cinema Pathé foi comemorado com uma reforma, uma programação “divertida” e uma ceia (Fon-Fon, 26 de setembro de 1908).

Ferrez fez uma doação de 10$000 para ajudar os sobreviventes de um terremoto ocorrido na Itália, nas regiões da Calábria e da Sicília, em 28 de dezembro de 1908. A iniciativa foi de David Romagnoli e as doações seriam entregues a uma comissão organizada pela Associação de Imprensa (A Imprensa13 de janeiro de 1909 na sexta coluna e 15 de janeiro na penúltima coluna).

1909 - Foi anunciada a exibição do filme “Festival Hermes da Fonseca, fita nova para esta capital, mais completa e perfeita que se apresentou no Rio e foi tirada pela importante Casa Marc Ferrez” (A República, 27 de janeiro de 1909, sob o título “Diversões”).

Um aprendiz de fotografia que trabalhava na Casa Marc Ferrez, o italiano Roviso Pietro, de 19 anos, após ter sido repreendido por seu patrão, tentou se suicidar (O Paiz, 12 de fevereiro de 1909, na quarta coluna).

Foi anunciada pela Casa Marc Ferrez & Filhos a venda de “conjuntos electrogenios para produzir luz elétrica a domicílio por meio do querosene: pequeno consumo e grande força”(Revista da Semana, 11 de abril de 1909).

Marc Ferrez e sua mulher, Marie, compareceram à missa pela morte do dr. João Vieira da Cunha (A Imprensa, 15 de agosto de 1909, na última coluna).

Ferrez e sua esposa estiveram presentes na missa de 7º dia da viscondessa de Geslin, realizada na igreja de São Francisco de Paula (O Século, 2 de outubro de 1909, na quarta coluna).

Na Exposição Nacional de 1908, em comemoração ao centenário do Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas, realizada entre 11 de agosto e 15 de novembro de 1908 , no Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, 12 de agosto de 1908), Marc Ferrez participou no grupo de Fotografia e ganhou uma medalha de ouro (Almanak Laemmert, 1909).

1910 – Marc Ferrez estava na lista de “Capitalistas, banqueiros, proprietários e pessoas ricas” do Almanak Laemmert de 1910, com o endereço Christóvão Colombo, 23 (futura rua Dois de Dezembro).

O Cinema Royal, em Recife, anunciou um “Majestoso programa remetido do Rio de Janeiro no paquete Alagoas pelo srs. Marc Ferrez & Filhos, agentes em todo o Brasil da Casa Pathé Frères (Jornal do Recife, 14 de janeiro de 1910, na sexta coluna).

A fábrica Pathé Frères de Paris por intermédio de seus representantes exclusivos no Brasil, a Casa Marc Ferrez , negou a autoria  da fita cinematográfica “O Guarany”, conforme havia sido noticiado por “má fé” por um cinema de São Paulo (Correio Paulistano, 16 de janeiro de 1910, na quarta coluna).

Marc Ferrez foi um dos subscritores da lista organizada pelos presidentes das sociedades francesas sob os auspícios do cônsul da França para ajudar as vítimas de inundações ocorridas em Paris no mês de janeiro (O Paiz, 11 de fevereiro de 1910, na penúltima coluna).

Às terças-feiras, “dia da moda” nos cinematógrafos, o Cinema Pathé era frequentado pelas senhoras da sociedade carioca (Gazeta de Notícias, 19 de fevereiro de 1910).

Foi publicada a lista dos estabelecimentos comerciais com os quais a Empresa Paschoal Segreto havia feito negócios em 1909 e a Casa Marc Ferrez havia sido uma delas (O Paiz, 17 de março de 1910).

José Ignácio Guedes Pereira Filho comunicou que havia firmado um contrato com a firma Marc Ferrez & Filhos para fornecer a ele durante um ano fitas cinematográficas da Pathé Frères (A Província, 27 de março de 1910, na primeira coluna).

O ministro da Fazenda, José Leopoldo de Bulhões Jardim (1856 – 1928), negou “provimento ao recurso de Marc Ferrez e filhos interposto contra a decisão da Alfândega dessa capital, que lhes impôs a multa de 3:756$, tripulo do valor arbitrado para mercadoria submetida a despacho” (A Imprensa, 30 de abril de 1910, na terceira coluna).

A firma Marc Ferrez & Filhos negou que a empresa do Iris Cinema recebia diretamente da Pathé Frères de Paris material cinematográfico para venda, já que os Ferrez eram seus representantes exclusivos e que em São Paulo sua sucursal era o Bijou-Theatre, do empresário Francisco Serrador (Correio Paulistano, 2 de maio de 1910, na segunda coluna, sob o título “Secção Livre”).

Marc Ferrez embarcou no paquete francês Atlantique rumo a Bordeaux e escalas (Gazeta de Notícias, 12 de maio de 1910).

Marc Ferrez enviou ao escultor e diretor da Escola Nacional de Belas Artes, Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931), um telegrama felicitando-o por seu aniversário (Gazeta de Notícias, 20 de dezembro de 1910, na quinta coluna).

No Anuário do Jornal do Brasil, foi veiculada uma propaganda dos Cinematógrafos Pathé Frères cujo representante para todo o Brasil era a firma Marc Ferrez & Filhos.

1911 – Anúncio da missa de 7º dia da sogra de Ferrez, Pauline Caroline Lefebvre (Gazeta de Notícias, 26 de abril de 1911, na última coluna).

A firma Marc Ferrez & Filhos iria filmar, na Enseada de Botafogo, a flotilha de embarcações do Club de Regatas do Boqueirão do Passeio, formada por 36 unidades (Gazeta de Notícias, 3 de junho de 1911, na segunda coluna).

Marc e Marie Ferrez embarcaram para a Europa no navio Chili (O Paiz, 8 de junho de 1911, na última coluna).

Foi grande o sucesso do filme “Notre-Dame de Paris”, exibido no Cinema Pathé (Fon-Fon, 4 de novembro de 1911). Ao longo de todo o ano de 1911, vários filmes exibidos pela Casa Marc Ferrez & Filhos foram anunciados na revista.

No Cinema Pathé, reunião dos proprietários de cinematógrafos para discutir os impostos para o setor (O Século,  na primeira coluna e Correio da Manhã, na sexta coluna, 15 de novembro de 1911).

Fim da sociedade de Marc Ferrez com Arnaldo Gomes de Souza.

1912 – Ferrez introduziu no Brasil os autocromos, processo fotográfico colorido desenvolvido pelos irmãos Lumière.

A Casa Marc Ferrez & Filhos passou a funcionar na rua São José 112 e o Cinema Pathé transferiu-se para o número 116 da avenida Central.

Marc e Marie Ferrez viajaram para a Europa. Na notícia, ele foi identificado como um “conhecido comerciante desta praça” (O Paiz, 18 de janeiro de 1912, na segunda coluna sob o título “Viajantes”).

No Parque Fluminense, foi fundado um clube de futebol em patins cujo presidente era Julio Marc Ferrez (Diário de Notícias, 8 de agosto de 1912, na quinta coluna).

O ministro da Fazenda, Francisco Antônio de Salles (1863 – 1933), negou provimento ao recurso interposto por Marc Ferrez “do ato da Inspetoria da Alfândega do Rio de Janeiro, mandando classificar como cinematógrafo, para pagamento de 60$ cada um, a mercadoria para a qual os recorrentes pediram classificação prévia” (A Imprensa, 13 de agosto de 1912, na terceira coluna).

Marc Ferrez e sua mulher chegaram da Europa a bordo do paquete francês Amazone (A Imprensa, 11 de setembro de 1912, na quarta coluna).

Marc Ferrez era um dos integrantes da comitiva do presidente do Brasil, Marechal Hermes da Fonseca (1855 – 1923), que havia ido para Passa Quatro observar o eclipse. Também participaram do evento o então diretor do Observatório Nacional, Henrique Morize (1860 – 1930), o diretor do Jardim Botânico, Graciano dos Santos Neves (1868 – 1922), e astrônomos ingleses, dentre outros (Gazeta de Notícias, 11 de outubro de 1912, na quinta coluna sob o título “Marechal Hermes e o eclipse“).

O sr. Emilio Brondi, sócio da firma Marc Ferrez, ofereceu ao Arquivo Municipal do Rio de Janeiro 28 fotografias de aspectos da cidade (A Noite, 14 de outubro de 1912, na quarta coluna). No ano seguinte, ele fez uma segunda doação, desta vez de 176 fotografias, ao Arquivo Municipal do Rio de Janeiro. Em homenagem ao doador, o Arquivo iria organizar as fotografias em álbuns denominados Coleção Emilio Brondi (O Paiz, 30 de março de 1913, na terceira coluna).

1913 – Em março, uma grande ressaca ocorrida no Rio de Janeiro inundou o porão da casa da família Ferrez, na Dois de Dezembro – antiga rua Christóvão Colombo, 23 – destruindo os exemplares do Álbum da Avenida Central ali guardados (O Paiz, 9 de março de 1913).

Na seção “Crônica Social”, foi anunciado que Marc Ferrez estava em São Paulo, hospedado na Rotisserie Sportsman (Correio Paulistano, 10 de abril de 1913, na sexta coluna).

Marc e Marie Ferrez embarcaram no paquete holandês Zeelandia rumo a Amsterdam e escalas (O Paiz, 17 de abril de 1913, na quarta coluna).

Foi publicado Twentieth century impressions of Brazil: its history, people, commerce, industries and resources, uma obra de divulgação do Brasil, com fotografias de Marc Ferrez (Anais da Biblioteca Nacional de 1914).

1914 – O casal Ferrez retornou ao Rio de Janeiro e alugou uma casa na Rua Voluntários da Pátria 50, em Botafogo.

Falecimento “súbito da idolatrada” esposa de Marc, Marie Lefebvre Ferrez, em 27 de junho (O Paiz, 28 de junho de 1914, na quarta coluna e Diário de Notícias, 28 de junho de 1914, na última coluna). A missa de 30º dia foi realizada na igreja de São Francisco de Paula (O Imparcial, 29 de julho de 1914, na terceira coluna). Ferrez ficou muito abatido.

1915 – No Almanak Laemmert, o estabelecimento Emilio Brondi & C.. Casa Marc Ferrez localizava-se na rua Rodrigo Silva, 28.

Em abril, Ferrez viajou para França no navio Frizia em companhia de seu filho Julio – que retornou ao Brasil em agosto. Em junho, Marc foi para Vichy para tratar de dores nas pernas. Ficou hospedado no Hotel Europe. Nos cinco anos que ficou na Europa, Ferrez passou temporadas em Paris e na Suíça. Aderiu às fotografias coloridas.

Para a comemoração do tricentenário de Cabo Frio, promovido pelo Instituto Histórico e Geográfico Fluminense, a Casa Marc Ferrez forneceria o operador e a máquina para a exibição de filmes ao ar livre (Jornal do Brasil, 9 de novembro de 1915, na terceira coluna e O Paiz, 11 de novembro de 1915, na última coluna).

Em um dos diálogos de “Photo-Mania”, um sainete (peça alegre do teatro espanhol) de autoria de Eustorgio Wanderley (1882 – 1962), a loja de Marc Ferrez foi citada (Revista O Tico-Tico, 1º de dezembro de 1915).

Foi publicado um anúncio informando que a agência geral para os estados do norte da Agência Cinematográfica Marc Ferrez & Filhos situava-se, provisoriamente, na rua Duque de Caxias, 39, em Recife. Eles continuavam como representantes da Casa Pathé Frères (Jornal do Recife, 18 de dezembro de 1915).

1916 – Anúncio da “Casa Marc Ferrez & Filhos – Emilio Brondi & C., importadores de máquinas cinematográficas”, além de outros produtos (A Noite, 13 de janeiro de 1916, na penúltima coluna). O estabelecimento localizava-se na rua da Quitanda, 67 (Almanak Laemmert , 1916).

Em uma reportagem sobre a falência dos cinemas no Rio de Janeiro, o Cinema Pathé, de Marc Ferrez, foi mencionado como deficitário “(A Notícia, 29 de fevereiro de 1916, sob o título “A falência dos cinemas”). A Casa Marc Ferrez & Filhos negou a crise dos cinemas (A Província, 27 de março de 1916).

Anúncio da venda de um lote de 300 poltronas estrangeiras e quase novas pela Casa Marc Ferrez (Correio da Manhã, 21 de março de 1916, na sexta coluna).

A Casa Marc Ferrez & Filhos anunciou “estar aparelhada para atender aos mais exigentes pedidos em toda a América Latina”. O endereço da agência Pathé em Recife era Duque de Caxias, 51 (A Província, 30 de abril de 1916).

Os filhos de Marc Ferrez obtiveram terrenos em Guaratiba (Gazeta de Notícias, 6 de agosto de 1916, na última coluna).

1917 - Seus filhos, Julio e Luciano, fundaram a Companhia Cinematográfica Brasileira, mais tarde denominada Casa Marc Ferrez Cinemas e Eletricidade Ltda.

1919 - Diversos representantes e importadores de filmes, dentre eles Marc Ferrez & Filhos, publicaram um anúncio aos exibidores, comprometendo-se a não recusarem a nenhum deles o fornecimento de filmes nos moldes em que explicitaram na mensagem (Correio da Manhã, 18 de junho de 1919). Dois dias depois, a Fox Film Corporation e a Marc Ferrez & Filhos afirmaram, em outro anúncio, que nunca tiveram prevenção contra a Aliança dos Cinematografistas do Brasil (Correio da Manhã, 20 de junho de 1919).

A polícia proibiu a exibição do filme O Caso Caillaux e Bolo Pachá, no Cinema Pathé. Tratava de um crime de alta traição julgado no Conselho de Guerra de Paris (Correio da Manhã, 31 de julho de 1919).

Julio Ferrez foi um dos fundadores da União dos Importadores Cinematográficos no Brasil (O Imparcial, 8 de dezembro de 1919, na segunda coluna). Foi o primeiro tesoureiro da associação, cujo primeiro presidente foi o empresário Francisco Serrador.

Em 15 de dezembro, Marc Ferrez participou da cerimônia de recepção na recém criada categoria Aplicação das ciências à indústria da Academia Francesa de Ciências a seu amigo Louis Lumière (1864 – 1948) que, com o irmão Auguste Lumière (1862 – 1954), havia inventado o cinematógrafo (Academia Francesa de Ciências Palcos e Telas, 8 de abril de 1920).

Os escritórios da empresa Marc Ferrez & Filhos, mudaram-se para a Rua São José 64.

1920 - Marc Ferrez & Filhos localizava-se na rua São José, 64 (Correio da Manhã, 24 de março de 1920).

Em 10 de fevereiro, no Palais d´Orsay, Ferrez foi um dos cerca de 500 convidados de um banquete em homenagem aos 25 anos da invenção do cinema e também a seu criador, Louis Lumière, que ingressou na Academia Francesa de Ciências. O evento foi organizado por associações e câmaras sindicais de fotógrafos e cinematografistas franceses.

Foi noticiada a volta de Marc e Luciano Ferrez ao Brasil, a bordo do paquete inglês Orcona (Vida doméstica, abril de 1920). No  O Paiz de 22 de março de 1920, foi noticiada a chegada do Orcona ao Rio de Janeiro, mas na lista de passageiros publicada pelo jornal não constavam os nomes de Marc e Luciano Ferrez.

Na edição de 8 de abril de 1920 da revista Palcos e Telas Marc, Julio e Luciano Ferrez foram biografados na seção “Grandes figuras da cinematografia”.  Nessa matéria, o envenenamento por um escravo foi apontado como a causa de morte dos pais de Marc Ferrez.

A Casa Marc Ferrez Söndahl Comp. Limited localizava-se na Rua Sachet, 8 – antiga Travessa do Ouvidor – e anunciava-se como a única que dispunha de um técnico para instruir os amadores (Vida doméstica, junho de 1920).

1921 – João Antônio Bruno, diretor das Empresas Cinematográficas Reunidas, defendeu-se da acusação de haver um “trust paulista”. Segundo ele, havia sim uma combinação da Companhia Cinematográfica Brasileira com as firmas Derrico & Bruno e Lopes & Figueiredo”. Afirmou que Marc Ferrez o apoiava (Palcos e Telas, 10 de março de 1921).

Marc Ferrez & Filhos compraram terrenos onde anteriormente localizava-se o Convento d´Ajuda (Revista da Semana, 26 de março de 1921).

Em maio, Ferrez voltou à França e chegou em Bordeaux, em 5 de junho. Em Paris, instalou-se no Hotel Brebant.

Em correspondência a  Malia Frucht Ferrez (1890 – 1953), sua nora, casada com Luciano, Ferrez contou que fez belas fotografias de rosas, em sua visita ao roseiral do Parque de La Bagatelle, no Bois de Boulogne, local que freqüentava enquanto Luciano e Malia estavam com ele em Paris.

Foram publicados dados estatísticos da indústria cinematográfica no Brasil no primeiro semestre de 1921. Em número de filmes, a firma Marc Ferrez  & Filhos representava 3,9% (Para Todos, 13 de agosto de 1921). Na mesma revista, em 8 de julho de 1922, foram publicados os dados estatísticos do primeiro semestre de 1922.

Devido ao inverno rigoroso de Paris, em dezembro, Marc viajou para Hyères, na Cote d´Azur.

1922 – Em março, de volta à capital francesa, Marc recebeu a visita de seu amigo, o cientista Henrique Morize, em viagem para Europa em missão oficial do Observatório Nacional.

Em matéria publicada em O Malho, 27 de maio de 1922 sobre a indústria cinematográfica, Marc Ferrez & Filhos foram citados como uma firma que fez fortuna atuando no setor.

A Casa Marc Ferrez firmou contratos com importantes empresas cinematográficas dos Estados Unidos (O Jornal, 17 de junho de 1922, na quarta coluna).

Marc Ferrez embarcou no navio Lutetia, em Bordeaux, de volta ao Brasil, em 31 de julho, e chegou ao Rio de Janeiro, em 14 de agosto. O navio fez escala em Boulogne-sur-mer, Vigo e Lisboa. Também viajaram no Lutecia o inventor Alberto Santos Dumont (1873 – 1932), o presidente do Jockey Clube, Linneu de Paula Machado (1880 – 1942); Arnaldo Guinle (1884 – 1963), presidente do Fluminense S.C.; o médico Paulo de Figueiredo Parreiras Horta (1884 – 1961) e os Oito Batutas, grupo musical formado, entre outros, por Pixinguinha (1897 – 1973) e Donga (1890 – 1974) (O Paiz, 15 de agosto de 1922, página 3 e página 4).

Marc realizou fotografias estereoscópicas e autocromos dos diversos pavilhões nacionais e internacionais da Exposição do Centenário da Independência, inaugurado em 7 de setembro, no Rio de Janeiro (O Paiz, 8 e 9 de setembro de 1922).

No Almanak Laemmert, anúncio de Marc Ferrez & Filhos, na rua da Quitanda, 67.

1923 – Marc Ferrez faleceu em 12 de janeiro de 1923, na casa de seu filho Luciano e sua nora Malia, no Rio de Janeiro, cidade que ele eternizou com sua arte. Residia na rua Joaquim Murtinho, 177, e foi enterrado no cemitério São João Batista (A Rua, 13 de janeiro de 1923O Paiz, 14 de janeiro de 1923, última notícia da sexta coluna, Gazeta de Notícias, 16 de janeiro de 1923, na última coluna e Fon-Fon, 20 de janeiro de 1923).

Sua missa de sétimo dia foi celebrada na Igreja São Francisco de Paula, em 19 de janeiro, foi muito concorrida e contou com a presença dos engenheiros André Gustavo Paulo de Frontin (1860 – 1933) e Alfredo de Paula Freitas (1855 – 1931); dos cientistas Henrique Morize (1860 – 1930), dos médicos Camillo Fonseca e Rodolpho e José Chapot-Prevost; artistas, como o escultores Benevenuto Berna (1865 – 1940) e Rodolpho Bernardelli (1852 – 1931), além de jornalistas, exibidores e donos das empresas cinematográficas (O Paiz, 20 de janeiro de 1923, na última coluna).

 

No periódico A Scena Muda, 25 de janeiro de 1923, foi publicado um perfil de Ferrez, no qual sua morte foi atribuída a uma enfermidade que ele havia contraído devido ao uso do colódio. Na mesma matéria, foram mencionadas as experiências que fazia com seu amigo, o engenheiro e astrônomo Dr. Henrique Morize, em sua casa na rua São José, 88, com “luz oxi-etherica, luz oxydrica, de gás incandescente de petróleo com mechas concentradas fazendo também na ocasião as primeiras experiências com cinematógrafo com um aparelho Lumière e fitas de 10 e 20 metros…”. Na matéria da Para Todos de janeiro de 1923, o caráter de Ferrez foi exaltado: “A perfeita correção do velho comerciante, sua intransigente  honradez, a lisura dos seus processos o tornaram sempre uma figura de destaque nos meios cinematográficos”.

1946 – Falecimento de Julio Marc Ferrez (1881 – 1946), em 11 de janeiro (O Jornal, 12 de janeiro de 1946, sexta coluna).

1951 – Na edição de O Cruzeiro, de 25 de agosto de 1951, foi publicada a reportagem Fotografias do Rio Antigo, com texto de Gilberto Ferrez e fotografias produzidas por Marc Ferrez.

 

1953 - Em 1º de junho, falecimento de Malia Frucht Ferrez (1890 – 1953), esposa de Luciano Ferrez (1884 – 1955), segundo filho de Marc Ferrez. Ele e José Fruscht, filho de criação do casal, agradeciam às manifestações de pesar (Correio da Manhã, 7 de junho de 1953).

1955 – Falecimento de Luciano Ferrez (1884 – 1955), em 8 de agosto (Correio da Manhã, 14 de agosto de 1955).

1980 - Falecimento de Claire Poncy Ferrez  (1888 – 1980), viúva de Julio Marc (1881 – 1946), primogênito de Marc Ferrez, e mãe de Gilberto, Eduardo e João Luciano Ferrez (O Globo, 15 de novembro de 1980).

2000 – Em maio, falecimento de Gilberto Ferrez (1908 – 2000) (O Globo, 25 de maio de 2000).

 

O Globo, 25 de maio de 2000

O Globo, 25 de maio de 2000

 

2007 – Na edição de novembro de 2007 do Boletim Informativo da ABI, cujo tema foi o trabalho dos repórteres fotográficos, Marc Ferrez foi homenageado como o precursor do fotojornalismo no Brasil (ABI Boletim Informativo, novembro de 2007).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

O Baile da Ilha Fiscal: registro raro realizado por Marc Ferrez e retrato de Aurélio de Figueiredo diante de sua obra

A Brasiliana Fotográfica destaca uma rara fotografia do interior de um dos salões do Baile da Ilha Fiscal, realizada por Marc Ferrez (1843 – 1923), provavemente no dia da festa, em 9 de novembro de 1889; e um registro do pintor paraibano Francisco Aurélio de Figueiredo (1856 – 1916) diante do quadro que ficou conhecido como o “O baile da Ilha Fiscal”. As duas imagens pertencem à Fundação Biblioteca Nacional, uma das fundadoras do portal. O quadro está no acervo do Museu Histórico Nacional (MHN) desde 1933, ano em que a instituição, uma das parceiras do portal, incorporou o patrimônio do antigo Museu Naval, extinto por decreto de Getúlio Vargas (1882 – 1954) de 14 de janeiro de 1932. A Ilha Fiscal integra o Complexo Cultural da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, também uma instituição parceira da Brasiliana Fotográfica.

 

Sobre o registro de Ferrez

 

A notícia da descoberta da fotografia da sala do Baile da Ilha Fiscal realizada por Marc Ferrez em 1889 por pesquisadores da Divisão de Manuscritos na Coleção Livraria José Olympio Editora, incorporada ao acervo da Biblioteca Nacional em 2006, está documentada nos Anais da Biblioteca Nacional, vol 128, de 2008, na seção “Preciosidades do Acervo”. O artigo, intitulado O Baile da Ilha Fiscal, por Marc Ferrez (página 251), foi escrito pelos historiadores Frederico de Oliveira Ragazzi e Priscilla Helena Pereira Duarte, e pela cientista social Monique Matias Ramos de Oliveira. Supõe-se que o registro poderia vir a integrar livros de história do Brasil publicados pela editora como alguns de autoria de Octávio Tarquínio de Sousa e Pedro Calmon. A fotografia encontrava-se na pasta “Dom Pedro II – solenidades – coroação – Inauguração E. (Estrada) de Ferro Pedro II – baile da Ilha Fiscal – etc – soberano visitando doentes”. Seu título foi extraído do papel originalmente colado no verso do cartão-suporte com informações datilografadas atribuídas a funcionários da Editora José Olympio.

 

 

A cópia a óleo de um retrato do almirante Cochrane, pendurado em uma das paredes do salão da festa, foi trabalho do artista Novack (O Paiz, 26 de outubro de 1889, sétima coluna).

 

 

Acessando o link para as fotografias da Ilha Fiscal disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

O acervo da Livraria José Olympio Editora e  sua chegada na Fundação Biblioteca Nacional

 

Em outubro de 2006, a Fundação Biblioteca Nacional recebeu o acervo da Livraria José Olympio Editora, doado pelos familiares do empresário Henrique Sérgio Gregori – fundador da filial brasileira da empresa Xérox -, que em 1984 adquiriu o controle acionário da empresa, então sob a tutela do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Fundada em 1931, a editora e livraria teve um papel destacado no cenário cultural brasileiro ao divulgar a obra de alguns dos mais notáveis escritores brasileiros, como José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, entre tantos outros que contribuíram para solidificar o panorama literário brasileiro no século XX. Esse feito deve-se, em especial, à figura do seu fundador, José Olympio (1902- 1990), cuja identidade, não por acaso, sempre esteve diretamente associada à da instituição.

O acervo, abrangendo os oitenta anos de atividades da editora, é constituído principalmente pela correspondência trocada entre escritores e o editor José Olympio, documentos administrativos (com informações preciosas para a compreensão do funcionamento de uma editora na época), fotografias e recortes de jornais e revistas (com notícias sobre os acontecimentos na área editorial), projetos gráficos para cartazes e capas de livros, ilustrações criadas por renomados artistas brasileiros, como Santa Rosa, Poty, Eugênio Hirsch, Gian Calvi etc.

Não obstante ser composto por documentos, em sua grande maioria, do último século, há também no acervo alguns documentos do século XIX. A fotografia de Ferrez do salão de bailes no palacete da Ilha Fiscal – feita provavelmente pouco antes do início da festa — é, sem dúvida, uma peça notável, pois são raras as representações do baile que se tornou, para contragosto de seus organizadores, um irônico símbolo do declínio final da Monarquia” (O Baile da Ilha Fiscal, por Marc Ferrez).

 

Sobre Aurélio de Figueiredo, sobre sua fotografia no Álbum dos artistas e sobre o quadro O Baile da Ilha Fiscal

 

A fotografia de Aurélio de Figueiredo (1856 – 1916) diante do quadro O Baile da Ilha Fiscal faz parte do Álbum de artistas, do acervo da Fundação Biblioteca Nacional. O álbum foi doado à Seção de Estampas da instituição, em 22 de abril de 1932, pelo escritor, jornalista, cronista literário e crítico de arte maranhense Manoel Nogueira da Silva (1880 – 1943) (Gazeta de Notícias, 16 de novembro de 1943, terceira coluna). Dentre diversas personalidades, encontram-se retratadas no álbum, além do mencionado doador, Angelina Agostini (1888 – 1973)Antônio Parreiras (1860 -1937)Pedro Weingartner (1853 – 1929) e Menotti del Picchia (1892 – 1988). Nogueira da Silva foi o autor do livro Pequenos Estudos Sobre Arte, Pintura, Escultura (1926) e era considerado um dos melhores comentadores da obra do escritor Gonçalves Dias (Gazeta de Notícias, 28 de janeiro de 1940, terceira coluna). Ocupou a cadeira 23 da Academia Carioca de Letras e trabalhou nos jornais Gazeta de Notícias e A Notícia.

 

 

O republicano e abolicionista Aurélio de Figueiredo nasceu em Areia, cidade paraibana, em 3 de agosto de 1854. Além de pintor foi caricaturista, desenhista, escritor e escultor. Sob a orientação de seu irmão, o pintor Pedro Américo (1843 – 1905) – autor de quadros importantes como A Fala do Trono (1873) Batalha do Avaí (1877)  e Independência ou Morte! (1888)  – e de Jules Le Chevrel (c. 1810 – 1872), frequentou durante a adolescência, a Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Publicou suas caricaturas em revistas como A Comédia Social e a Semana Ilustrada. Em 1875, viajou para a Europa (Jornal do Commercio, 29 de agosto de 1875, sexta coluna) e entre 1876 e 1878 morou em Florença, na Itália, onde trabalhou no ateliê do irmão e teve aulas com Antonio Ciseri (1821 – 1891), Nicolò Barabino (1832 – 1891) e Stefano Ussi (1822 – 1901). Retornou ao Brasil em outubro de 1878 (Jornal do Recife, 10 de outubro de 1878, terceira coluna) e estabeleceu-se no Recife onde oferecia-se para a realização de pinturas históricas e retratos a óleo (Jornal do Recife, 5 de abril de 1879, quinta coluna).

 

 

Dirigiu um curso noturno de desenho (Jornal do Recife, 16 de fevereiro de 1880, quinta coluna). Trabalhou executando retratos a óleo copiados de fotografias ou de originais (Jornal do Recife, 14 de maio de 1880, terceira coluna). Foi professor de desenho e pintura do Colégio de Nossa Senhora das Graças (Jornal do Recife, 29 de dezembro de 1880, segunda coluna). Ainda nos anos 1880, visitou outros países europeus e participou de várias edições da Exposição Geral de Belas Artes. Expôs, no estabelecimento fotográfico de M. Alfred Ducasble, no Recife, dois quadros: Saudade e Melancolia (Diário de Pernambuco, 19 de abril de 1881, primeira coluna). Meses depois, por motivos de saúde, o pintor foi para a Paraíba e deixou como contato no Recife a Galeria Ducasble (Diário de Pernambuco, 8 de setembro de 1881, quarta coluna). Em 1882, expôs no Liceu de Artes e Ofícios (Jornal do Recife, 20 de outubro de 1882, penúltima coluna) e na comemoração dos 41 anos da Imperial Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais de Pernambuco, foi realizada uma exposição com quatro salas e quadros a óleo de sua autoria integraram a mostra (Jornal do Recife, 19 de dezembro de 1882, quinta coluna). Participou de outras exposições dessa sociedade. Em 1884, voltou a expor na Galeria Ducasble (Jornal do Recife, 6 de dezembro de 1884, quinta coluna). Em 1885, fixou residência em Montevidéu, no Uruguai, onde trabalhou na revista Illustracion Uruguaya (Jornal do Recife, 23 de dezembro de 1885, penúltima coluna). Foi noticiado que ele havia decidido pintar um quadro de grandes dimensões sobre a abolição da escravatura (Jornal do Recife, 24 de maio de 1888, quinta coluna). O pintor foi um dos autores do Projeto de reforma no ensino das artes plásticas, apresentada ao ministro do Interior (Jornal do Recife, 16 de fevereiro de 1890, quarta coluna). Por volta de 1889 foi viver no Rio de Janeiro e seu ateliê ficava na rua do Barão de Capanema. Realizou uma exposição na Academia de Belas Artes, em 1891 (Revista Illustrada, outubro de 1891,  primeira coluna; e Jornal do Recife, 23 de abril de 1892, segunda coluna). Publicação de uma carta dele redigida após uma reunião de artistas realizada em seu ateliê no dia 29 de janeiro de 1893 quando ficou decidida a organização de exposições gerais anuais de Belas Artes e a fundação de uma Galeri Livre (Revista Illustrada, março de 1893).

Sua produção foi apresentada em duas exposições individuais: a primeira em 1912, no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo (O Paiz, 23 de janeiro de 1912, sexta coluna), e a segunda, póstuma, em 1956, no Museu Nacional de Belas Artes (O Paiz, 5 de setembro de 1956, segunda coluna). Faleceu no Rio de Janeiro em 9 de abril de 1916. Sua mulher, Paulina de Figueiredo, faleceu dias depois (O Paiz, 10 de abril de 1916, segunda coluna; e O Paiz, de abril de 1916, segunda coluna).

Apesar de ter ficado conhecida como O baile da Ilha Fiscal, o autor havia dado à tela o título de A ilusão do Terceiro Reinado. Pintada em 1905, ela só seria apresentada ao público em 9 de janeiro de 1907, na Escola Nacional de Belas Artes, sob um terceiro título: O advento da república (Jornal do Brasil, 1o de janeiro de 1907, sétima coluna). Foi exibida na exposição de 1922, comemorativa do centenário de Independência, e na exposição de 1939, que celebrou o 50º aniversário da República. No artigo O último baile e seus personagens: protagonistas e figurantes na tela de Aurélio de Figueiredoa historiadora Maria Isabel Ribeiro Lenzi, do Museu Histórico Nacinal, identifica várias figuras representadas na pintura, dentre elas Machado de Assis (1839 – 1908) e Carolina Novaes (1835 – 1904); o poeta e jornalista João Cardoso de Menezes e Souza, barão de Paranapiacaba (1827 – 1915); o prefeito Francisco Pereira Passos (1836 – 1913); a família do próprio pintor; e a família imperial. Outros quadros importantes do pintor foram Francesca da Rimini (1873), Moça na janela (1891)Compromisso Constitucional (1896).

 

 

Sobre o Baile da Ilha Fiscal

 

 

Em 1889, as relações de amizade entre o Brasil e o Chile foram festejadas com demonstrações recíprocas de apreço e estima. Em Santiago e em Valparaíso, o governo e o povo chileno homenagearam a oficialidade do cruzador Almirante Barroso (O Paiz, 4 de julho de 1889, sexta coluna), em viagem de circunavegação iniciada em 27 de outubro de 1888 (O Paiz, 28 de outubro de 1888, segunda coluna). O Brasil fez o mesmo quando, retornando da Europa, a esquadra chilena, liderada pelo encouraçado Almirante Cochrane, sob o comando do capitão-de-mar-e-guerra Constantino Bannen (1847 – 1899), aportou no Rio de Janeiro, em 11 de outubro de 1889 (Gazeta de Notícias, 12 de outubro de 1889). Uma série de eventos, entre piqueniques, espetáculos de gala, banquetes e excursões, foram realizados mobilizando a elite carioca. O Império enfrentava problemas econômicos e a abolição da escravatura contribuia para a falta de sustentação política do regime. Nesse quadro de instabilidade, o gabinete ministerial se empenhou em organizar as festividades em torno dos chilenos para demonstrar o prestígio da monarquia.

O Baile da Ilha Fiscal, em 9 de novembro, oferecido pelo presidente do Conselho de Ministros do Império do Brasil, Visconde de Ouro Preto (1836 – 1912), foi o ápice das Festas Chilenas e um golpe de publicidade na tentativa de promover o terceiro reinado. Foi o primeiro (e último) baile oficialmente promovido pelo Império. Pretendia-se realizar uma celebração inesquecível para fortalecer a monarquia diante da ameaça republicana. Para a festa, o último grande evento do Império Brasileiro, inicialmente marcada para o dia 19 de outubro e adiada devido à morte do rei Luís I de Portugal (1861 – 1889), sobrinho do imperador Pedro II (Gazeta de Notícias, 20 de outubro de 1889; e O Paiz, 21 de outubro de 1889, sétima coluna), foram distribuidos cerca de 3 mil convites. Os preparativos e a realização da festa foram bastante noticiados e seu luxo foi muito criticado pela imprensa.

 

ingresso

 

Contou com as presenças de dom Pedro II (1825 – 1891), de dona Teresa Cristina (1822 – 1889), da princesa Isabel (1846 – 1921), do Conde d´Eu (1842 – 1922) e das mais importantes figuras da sociedade e da política do país. A Família Imperial, sua comitiva, diplomatas estrangeiros e alguns convidados ficaram em um salão especialmente preparado para eles.

 

 

 

O edifício da Ilha Fiscal, projeto do engenheiro Adolpho José Del Vecchio (1848 – 1927), havia sido inaugurado em 27 de abril de 1889, poucos meses antes da realização do baile. No dia da festa foi iluminada com luz elétrica, tecnologia rara na época, e refletores de grandes navios iluminavam o Paço, a Capela Imperial e a Igreja da Ordem Terceira do Carmo, propiciando uma bela visão do Rio de Janeiro aos convidados da festividade. Por volta das 23h, começaram as danças com seis bandas tocando diversos tipos de música como valsas, mazurcas quadrilhas, lanceiros e polcas. Em frente à ilha, no Largo do Paço, uma banda da polícia tocava lundus e fandangos alegrando uma pequena multidão que não havia sido convidada para a festividade.

O casal imperial, o conde d´Eu e a princesa Isabel foram embora à uma da madrugada, mas a festa só terminou por volta das 5 da manhã. Foram descritos com detalhes 74 trajes das damas presentes e publicada também uma descrição detalhada da ceia, anunciada em um menu de 12 páginas. O banquete ficou a cargo da Casa Paschoal (O Paiz, 10 de novembro de 1889Gazeta de Notícias, 11 de outubro de 1889Revista Illustrada, 16 de novembro de 1889).

Durante a festa foram servidos cerca de 10 mil litros de cerveja e 304 caixas de bebidas, das quais 258 eram de vinhos e champanhes, o que significa terem sido abertas mais de três mil garrafas. Segundo Carlos Cabral, essas bebidas custariam hoje 250 mil dólares, uma vez que foram servidos um raríssimo Porto de 1834, além dos até hoje famosos vinhos Tokay, Chateau D’Yquem, Chateau Lafite e um Falerno em homenagem à Imperatriz… Ao final, a conta apresentada pela Casa Paschoal incluía, além das bebidas acima mencionadas, os outros serviços, onde constava um bufê com 11 tipos de pratos quentes, 15 de pratos frios, 12 tipos de sobremesa, no qual foram utilizados 18 pavões, 25 cabeças de porco, 64 faisões, 300 peças de presunto, 500 perus, 800 quilos de camarão, 800 latas de trufas, 1.200 latas de aspargos, 1.300 galinhas, além de 50 tipos de saladas com maionese, 2.900 pratos de doces variados, 12.000 taças de sorvete, 18 mil frutas e 20 mil sanduíches.(1)

A festa foi definida por Machado de Assis (1839 – 1908) em seu romance Esaú e Jacó como um sonho veneziano; toda aquela sociedade viveu algumas horas suntuosas; novas para alguns, saudosas para outros.

Durante o baile, muitos militares estavam reunidos na Escola Militar da Praia Vermelha, articulando a derrubada do poder imperial.

Reza a lenda que o monarca, durante a festividade, tropeçou e então teria dito a Ouro Preto: a monarquia balança, mas não cai ou O monarca tropeçou, mas a monarquia não caiu. Ironia do destino? Caso tenha de fato dito isso, seu vaticínio não se cumpriu: dias depois, em 15 de novembro de 1889, foi proclamada a República e a monarquia caiu (O Paiz, 16 de novembro de 1889, primeira coluna). Dom Pedro II faleceu no exílio, em Paris, em 5 de dezembro de 1891.

 

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                                                       Revista Illustrada, 16 de novembro de 1889

 

(1) SUAUDEAU, Laurent; DITADI, Carlos Augusto Silva. O Império à mesa, por Luarent Suaudeau e Carlos Augusto Silva Ditadi  In: MALERBA, Jurandir; HEYNEMANN, Cláudia; RAINHO, Maria do Carmo Teixeira. Festas chilenas, sociabilidades e política no Rio de Janeiro no ocaso do império. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2014.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Link para o artigo A Ilha Fiscal na Baía de Guanabara, publicado na Brasiliana Fotográfica em 27 de abril de 2020.

 

Fontes:

Anais da Biblioteca Nacional, vol 128, de 2008

CARVALHO, José Murilo. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

DUNLOP, Charles.Os impressionantes números do último baile da Ilha Fiscal. Rio de Janeiro:Editora Rio Antigo

Folha de São Paulo, 12 de novembro de 2019

GOMES, Laurentino. 1889: Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no BrasilSão Paulo:Globo, 2013.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LENZI, Maria Isabel Ribeiro. O último baile e seus personagens: protagonistas e figurantes na tela de Aurélio de Figueiredo. Anais do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, vol 51, 191-216, 2019.

MALERBA, Jurandir; Heynemann, Claudia; RAINHO, Maria do Carmo Teixeira. Festas Chilenas, sociabilidade e política no Rio de Janeiro no ocaso do império. Rio Grande do Sul:EDICPUCRS, 2014.

PRIORI, Mary del. Entre “doidos” e “bestializados”: o baile da Ilha Fiscal. REVISTA USP, São Paulo, n.58, p. 30-47, junho/agosto 2003.

SANDRONI, Carlos. “Quem animou o baile?” In: MALERBA, Jurandir; HEYNEMANN, Cláudia; RAINHO, Maria do Carmo Teixeira. Festas chilenas, sociabilidades e política no Rio de Janeiro no ocaso do império. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2014.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: Uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Site Aventuras na História

Site Enciclopédia Itaú Cultural

SUAUDEAU, Laurent; DITADI, Carlos Augusto Silva. O Império à mesa, por Luarent Suaudeau e Carlos Augusto Silva Ditadi  In: MALERBA, Jurandir; HEYNEMANN, Cláudia; RAINHO, Maria do Carmo Teixeira. Festas chilenas, sociabilidades e política no Rio de Janeiro no ocaso do império. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2014.

Veja, 22 de maio de 2010

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicado em 

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), publicado em 4 de dezembro de 2019

Uma homenagem da Casa Granado ao casal imperial sob as lentes de Marc Ferrez, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, publicado 6 de março de 2020

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, publicado em 16 de março de 2020

Bambus, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2020

O Palácio de Cristal fotografado por Marc Ferrez, publicado em 2 de fevereiro de 2021

A Estrada de Ferro do Paraná, de Paranaguá a Curitiba, pelos fotógrafos Arthur Wischral e Marc Ferrez, publicado em 22 de março de 2021

Dia dos Pais – Julio e Luciano, os filhos do fotógrafo Marc Ferrez, e outras famílias, publicada em 6 de agosto de 2021

 

Antes do paraíso, o expurgo: a Hospedaria Central da Ilha das Flores

A Brasiliana Fotográfica publica o artigo “Antes do paraíso, o expurgo: a Hospedaria Central da Ilha das Flores“, de autoria de Beatriz Kushnir, diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, uma das instituições parceiras do portal. O texto aqui apresentado é um resumo da pesquisa de Pós-doutoramento Júnior realizada junto ao CEMI/Unicamp, com financiamento CNPq, entre 2003-5. A edificação da Hospedaria no Rio, uma  iniciativa de dom Pedro II foi instituída, em 1883, quando o governo Imperial, por meio da Inspetoria Geral de Terras e Colonização do Ministério da Agricultura, adquiriu, por 170 contos de réis, a Ilha das Flores do senador do Império, José Inácio Silveira Motta (1811 -1893). Atualmente, existe na Ilha das Flores o Centro de Memória do Imigrante, mantido por um convênio entre a Marinha do Brasil e a Universidade do Estado do Rio de Janeiro (UERJ).

 

Acessando o link para as fotografias da Ilha das Flores disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

Com o artigo, estão destacadas três fotografias. Duas são de autoria de Marc Ferrez (1843 – 1923) - uma de fins do século XIX e uma sem data especificada, ambas do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras do portal. Ferrez foi um brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Sua vasta e abrangente obra iconográfica se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Cerca de metade de sua produção fotográfica foi realizada no Rio de Janeiro e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais. Outro segmento de sua obra iconográfica registrou as várias regiões do Brasil – ele foi o único fotógrafo do século XIX que percorreu todas as regiões do país, tendo sido, no referido século, o principal responsável pela divulgação da imagem do país no exterior.

 

 

Há também uma imagem aérea da Ilha das Flores, realizada em 28 de novembro de 1936, por um fotógrafo ainda não identificado da Escola de Aviação Militar, cujo setor responsável pela atividade de fotografar era a Seção Foto e estava vinculada às escolas de aviação que formavam pilotos e observadores aéreos, além de funcionar como uma “escola técnica de aviação” que formava também militares especializados em fotografia e em toda a técnica envolvida. Essa imagem pertence  ao acervo do Museu Aeroespacial, instituição parceira da Brasiliana Fotográfica.

 

 

 

Antes do paraíso, o expurgo: a Hospedaria Central da Ilha das Flores [1]

Beatriz Kushnir[2]

 

A Ilha das Flores, no litoral da baía de Guanabara, no Rio de Janeiro, consagrou-se como uma arena de isolamentos, prisões e quarentenas; existindo tanto a Hospedaria para imigrantes em quarentena epidemiológica, como cárceres militares para presos políticos em 1922 – onde estiveram os revoltosos do Levante do Forte de Copacabana, como os tenentistas Cordeiro de Faria e Juarez Távora, os opositores à Revolução de 1930 e da Revolta Comunista de 1935 –, os “estrangeiros indesejáveis” a partir de 1942 – após o governo Vargas ter rompido relações com a Alemanha e a Itália – e no pós-1964.

Ali são instaladas tanto “campos de concentração” para “forasteiros perigosos”,  e/ou prisioneiros opositores do governo; além de imigrantes enfermos. Assim, nas malhas da burocracia do Estado brasileiro, a Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores foi desativada em meados da década de 1960. O presídio não. Servindo também como espaço para o encarceramento de presos políticos das esquerdas armadas na ditadura civil-militar do pós-1964.

Não restrita apenas à faceta das questões imigratórias desse espaço, pode-se perceber que esse lugar permite um estudo em um corte de tempo largo – de fins do Segundo Reinado até o governo do general Ernesto Geisel [1974-79]. Tendo quase 100 anos como mote de reflexão, o relevante é identificar a Ilha como zoneamento para o isolamento pelas questões “sanitárias”, físicas e políticas.

As hospedarias de imigrantes foram estruturas especificamente instituídas a partir da segunda metade do século 19 para receber cidadãos estrangeiros recém-chegados ao Brasil, que seriam posteriormente destinados ao trabalho rural no interior do país, ou ao serviços urbanos em cidades como São Paulo e Rio de Janeiro. Acolheram imigrantes europeus, mas também havia árabes e japoneses a partir de 1908. Os que aportavam com enfermidades, o que não era raro, permaneciam em quarentena antes de regularizarem suas entradas em solo brasileiro, e as hospedarias eram encarregadas de atendê-los. Entre as mais importantes hospedarias que funcionaram no Brasil, destacam-se:

 

  • Hospedaria de imigrantes de São Paulo;
  • Hospedaria de imigrantes de Campinas (São Paulo);
  • Hospedaria de imigrantes do Pinheiro (Espírito Santo);
  • Hospedaria de imigrantes de Vitória (Hospedaria da Pedra d’Água);
  • Hospedaria de imigrantes de Alfredo Chaves (Espírito Santo);
  • Hospedaria de imigrantes da Ilha das Flores (Casa dos Imigrantes do Rio de Janeiro, Hospedaria Central);
  • Hospedaria de imigrantes do Saco do Padre Inácio (Florianópolis).

 

A travessia do Atlântico e a Hospedaria de Imigrantes

 

 

Essa reflexão privilegia alguns aspectos, entre estes, um enfoque muito particular do processo de imigração, para o Brasil, de fins do século 19 às três primeiras décadas do século 20. Para além de não concentrar a análise em uma etnia, a preocupação se vincula às políticas estatais quanto à permissão, ou não, de entrada de estrangeiros no Brasil.

Uma apreciação das múltiplas faces do fluxo imigratório para o Rio de Janeiro ainda demonstra grandes lacunas. Tal ponto é diferentemente esquadrinhado quando centramos os estudos do fenômeno em outros estados. Nestes, iniciativas governamentais e privadas, incentivam tanto a construção de uma “memória do imigrante”, como, por vezes, a ponderação de suas trajetórias. O fomento ao tema do percurso do imigrante e do seu papel na sociedade que o recebeu, remetem, muitas vezes, a uma idealização preconceituosa do tema racial e ao seu encarceramento à imagem sempre vitoriosa do self-made man.

A trajetória da imigração encontra sua versão máxima no Ellis Island Immigration Museum, nas costas de Manhattan.[3] Na América do Sul, tem-se o exemplo da Argentina, tendo Buenos Aires como, por longos anos, a principal “porta de acesso”, encontra-se a Hospedaria de imigrantes de Buenos Aires [Hotel de inmigrantes de La Rotond]. Naquele país, desde 1876 a Lei de Imigração e Colonização regulou a chegada de imigrantes estrangeiros e as medidas necessárias para evitar a mendicância. Dentro dessa premissa, se criou alguns centros de acolhida designados “albergues”, “asilos” e  “hotéis de imigrantes”, onde teriam direito a cinco dias de permanência.[4]

No caso do Brasil, sabe-se muito, por exemplo, sobre as Hospedarias de Imigrantes de São Paulo. Existiu, porém, outras, como arrolado anteriormente.

Essas edificações eram respostas as pressões, publicadas nos jornais da época, denunciando os maus-tratos para com os imigrantes. Assim, o aluguel de hotéis na zona do porto como alojamentos confortáveis e asseados, assustavam até mesmo os políticos que para ali se dirigiam no intuito de autorizar a estadia e alimentação dos imigrantes.[5] Cabe aqui ressaltar que as despesas para com os imigrantes, autorizadas pela Província, no caso de Pelotas, eram de 400 réis por adulto, porém nem sempre a Câmara Municipal – que era responsável por esse primeiro atendimento ao imigrante – era ressarcida, o que de fato acarretava morosidade no processo de abrigo e alimentação daqueles que chegavam.

A edificação da Hospedaria no Rio – cuja iniciativa é de dom Pedro II – instituiu-se quando, em 1883, o governo Imperial, por meio da Inspetoria Geral de Terras e Colonização do Ministério da Agricultura, adquiriu, por 170 contos de réis, a Ilha das Flores do senador do Império, Silveira Mota. Originariamente, era um estabelecimento de piscicultura, lavoura e fábrica de goma de fécula de mandioca, que media 148 mil m². A Hospedaria era composta por um pavilhão em que os imigrantes permaneciam até conseguirem colocação em outros pontos do Rio ou outras Províncias, e posteriormente foi se tornando uma estrutura mais complexa, dotada de alojamento, administração, hospital, farmácia, refeitório, escola, lavanderia e área de lazer.

A Inspetoria Geral de Terras e Colonização do Ministério da Agricultura foi instituída pelo Decreto nº. 6.129, de 23/2/1876, onde se fazia menção à necessidade de se constituir hospedarias de imigrantes, locais onde estes, assim que chegavam ao Brasil, permaneciam até que lhes fosse acertado um destino[6]. Estudos como o de Diana Zaidman [Imigração ao Brasil no Império: O Caso Particular da Hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores, UFF/História, 1983], no então, indicam o ano de 1879 como a data de institucionalização da ideia e necessidade de se constituir a Hospedaria de Imigrantes na Ilhas das Flores, destinada a acolher os estrangeiros que chegavam ao Porto do Rio de Janeiro. A intenção era de fazer dessa hospedaria um centro de convergência de emigrantes ao Brasil. Demarcando forçadamente a centralidade da capital na questão, [7]

A grande concentração de imigrantes e a relevância que tiveram em outros estados têm dirigido as reflexões sobre o tema. Como sede da Corte e capital da República, essa cidade foi, por longo tempo, a principal cidade-porto do país, tendo importância no afluxo de imigrantes para o território brasileiro. O que pondera pensar o porquê dessa restrita atenção à questão neste estado.[8]

No sentido de preencher uma fração desse vácuo analítico, aponta-se a acuidade de se examinar parte da trajetória desta ilha, tomando como marco o instante em que esta passa a ser de propriedade do Estado brasileiro. A Ilha das Flores, na baía de Guanabara, localiza-se em frente ao município de São Gonçalo e a 10 km da Praça 15 de Novembro, no Rio, e forma com as Ilhas do Engenho, Ananazes, Mexingueiro e do Carvalho um pequeno arquipélago.

Na esfera das demandas imigratórias, é fundamental sublinhar as dificuldades em se demarcar etapas fixas desse processo. Os dados do Ministério do Império balizam o movimento de entrada de imigrantes entre 1855 – cinco anos após a decretação oficial do fim do tráfico  e do estabelecimento da “Lei de Terras”–, e 1889 – com a instauração republicana. Perseguindo as fontes, as do Departamento Nacional de Povoamento – órgão do Ministério da Agricultura –, circunscreveram-na entre 1877 e 1932. As informações deste acervo que se referem à Ilha das Flores convergem suas estatísticas ao período de janeiro de 1883, possivelmente a data de inauguração da hospedaria, até 1932 – provavelmente quando o Ministério da Agricultura altera a estrutura e competência do Departamento Nacional de Povoamento. Paralelamente as informações do que se passava no Rio e demonstrando que a prática da quarentena não se vinculava apenas ao eixo Rio/São Paulo, neste mesmo conjunto documental há outra série que compreende o período de dezembro de 1891 a setembro de 1932, e esquadrinha a Hospedaria de Imigrantes de Pinheiros, no Espírito Santo.[9]

Delimitando a noção de hospedaria e localizando outras pelo país, é oportuno destacar que o termo também se refere aos centros para reclusão de enfermos. No caso da do Espírito Santo, há alusão, no ano de 1892, de imigrantes confinados no lazareto – uma construção para quarentena de indivíduos vítimas de doenças infecciosas – da Ilha Grande. Sendo essa, no final do século 19 a única estação quarentenária no Brasil. Por isso, os navios que vinham de portos suspeitos ou infectados e que se dirigiam ao Norte tinham, primeiro, de ancorar naquela ilha. Esse mesmo local, cerca de trinta e cinco anos depois, durante a ditadura estadonovista [1937-45], tornou-se um presídio político.[10]

A ausência de outras estações de quarentena tematizou uma persistente reclamação das empresas marítimas, obrigando ao Estado a prometer construir o lazareto de Tamandaré, em Pernambuco. Em janeiro de 1895, entretanto, as obras em Pernambuco continuavam inacabadas, e as estações no Pará e na Bahia permaneciam nas promessas.[11]

Diversos indícios, portanto, mapeiam as intenções e, por vezes, concretizações, de se instalar lazaretos no território nacional. Tais projetos arquitetônicos, como o exemplo da edificação da Hospedaria da Ilha das Flores são espaços de isolamento para doenças do corpo e para os motes políticos. A Hospedaria da Ilha das Flores foi, da sua inauguração até pelo menos o início da 2ª Guerra, voltada às demandas das enfermidades dos imigrantes. Outras atividades, porém, igualmente ocuparam sua extensão neste período. Assim, durante parte da 1ª Guerra – de novembro de 1917 a outubro de 1919 –, a Ilha das Flores foi cedida à Marinha, que lá instalou um centro de reclusão tendo como “hóspedes” imigrantes alemães[12]. Prática repetida durante a 2ª Guerra, quando essa experiência de reclusão com caráter político foi novamente instituída. Os estudos atuais, contudo, parecem desconhecer a informação e se concentraram no período do segundo conflito mundial.

Os presos políticos foram asilados na Ilha entre 1922 e 1942, como mencionado anteriormente, em “campos de concentração” para “estrangeiros perigosos”. A partir de maio de 1969, com a captura de militantes da Dissidência da Guanabara – grupo que originaria o MR-8[13] – e num instante anterior ao sequestro do embaixador americano, a Ilha das Flores passou a ser um dos destinos dos presos políticos das organizações das esquerdas armadas. Não se pode afirmar, contudo, se a Hospedaria, os “centros de trabalho forçado”, no caso dos alemães, e as prisões políticas coexistiram. Tudo indica que sim.

A Hospedaria, em seu primeiro ano de funcionamento, recebeu, alojou e encaminhou aos seus destinos, 7.462 imigrantes, sendo 5.208 homens e 2.254 mulheres. Por nacionalidade, tem-se: 4.690 italianos, 1.083 portugueses, 901 austríacos, 640 alemães, 100 espanhóis, 26 franceses, 9 ingleses e, mais 13 de nacionalidades diversas. Em contraposição, nos últimos anos de funcionamento da Hospedaria de Imigrantes, o movimento imigratório baixou consideravelmente. Assim, no período de 1953 a 1965:

 

ANO HOSPEDAGEM ANO HOSPEDAGEM ANO HOSPEDAGEM
1953 1,742 1954 968 1955 854
1956 374 1957 1.513 1958 1.186
1959 1.401 1960 737 1961 391
1962 291 1963 172 1964 347
1965 86

 

É oportuno observar as outras ilhas da baía de Guanabara que desempenharam funções semelhantes de confinamento. Parto da perspectiva, portanto, de que as ilhas são também apropriadas, segundo Marshall Sahlins, como locais de “higiene” de ideias e de doenças, como espaços do isolamento e da quarentena, assim como são revestidas da imagem de

 

“[…] lugares especiais, remotos e misteriosos, imensamente atrativos, mas também assustadores. […] As ilhas ‘diabolicamente encantadoras’” são o cenário de náufragos, de presídios, da expatriação de enfermos – do corpo e das “questões da alma” –, e também dos relatos do Capitão Cook e de Fernão de Magalhães. Exemplos dos espaços da natureza selvagem que abrigam o singular – tanto em indivíduos, como em paisagem –, os locais destinados às bênçãos ou às maldições e que sentiu a ação do homem quando o “[…] senso do romântico, do misterioso ficou subordinado à paixão da curiosidade científica”. [14]

 

No plano mítico e metafórico, é interessante perceber as idealizações que as ilhas ocuparam e ainda o fazem. Na concepção de um sonho, de uma utopia do idílico, são ainda pontuadas pela expressão do exílio.

 

O perigo que vem do mar

 

Partindo da noção de que as ilhas formam um conjunto de sítios destinados também à limpeza, no caso do Brasil essa percepção esteve presente no aumento do afluxo de imigrantes aos seus portos, no final do século 19. Paralelo às estratégias de substituição da mão-de-obra escrava por imigrantes assalariados nas fazendas de café, o Império do Brasil também se preocupou em regularizar a posse e aquisição das terras e, assim, em 18/9/1850, institui a Repartição Geral de Terras Públicas, pela Lei nº 601, a “Lei de Terras”. Mais de um quarto de século se passaria até que a Inspetoria Geral de Terras e Colonização, vinculada ao Ministério de Negócios da Agricultura, Comércio e Obras Públicas, e destinada a promover a imigração espontânea, fosse instaurada pelo Decreto nº 6.129, de 23/2/1876. O receio às questões sanitárias frente ao fluxo de homens, mulheres e crianças que desembarcavam, diariamente, nos portos do país sentencia a necessidade de se constituir uma Inspetoria e regulamentar suas atividades.

Um marco importante de como ocupar as ilhas e proteger o território está descrito no Código Sanitário de 1894, que legislou durante toda a primeira República. Nele se inscreve um preceito de higiene que é milenar, mas o importante é perceber sua apropriação nesse instante. Assim, esse Código determinou que “os hospitais deveriam se localizar sempre afastados dos centros urbanos, em terrenos secos, saneados e cercados por vegetação exuberante”.[15] Vale destacar, contudo, que de modo algum se está afirmando que não existiam centros de tratamento e hospitais dentro do espaço da cidade.[16]

No artífice de atrair mão-de-obra estrangeira e ao mesmo tempo não permitir o alastramento de epidemias na população, é interessante o relato de um médico norte-americano, funcionário do Serviço de Hospital da Marinha, que era o encarregado da escolha de quem entraria ou não no país como imigrante. Victor Heiser descreveu, nas suas memórias, os últimos anos do século 19 e lembrou que

 

“[…] durante muitos anos a inundação de operários baratos vindos de fora derramara no país, pelos portões escancarados de Boston, Nova York, Filadélfia, São Francisco e outros portos de grandes cidades, uma aluvião de aleijados, coxos e cegos, até 1882. Passaram-se mais nove anos antes que o sentimento público, insurgindo-se lentamente contra a invasão do trabalho estrangeiro, forçasse o Congresso a agir. Naquela época, não somente chineses foram excluídos, mas o Serviço de Hospital da Marinha foi encarregado de indicar, para que fossem rejeitados, os imigrantes portadores de moléstias repugnantes ou contagiosas ou os que poderiam vir a ser, por alguma tara física, encargos públicos” [17]

 

Nesta passagem o Dr. Heiser se refere, en passant, a todo um clamor sindical que estabeleceu o sistema de cotas, por nacionalidade, para a entrada de estrangeiros nos EUA, a partir de 1924. Essas medidas, repetidas pela Argentina um pouco mais tarde, tornam o Brasil, no início do século 20, um porto desejável de acesso. Esses “portos abertos”, porém, foram redimensionados nos primeiros meses do governo Getúlio Vargas. Em 12/12/1930, o Decreto nº 19.482 limitou a entrada de passageiros estrangeiros de terceira classe a partir do instrumento das “cartas de chamada” – que obrigavam o imigrante a garantir já ter emprego no país. A existência desse instrumento justificou também a constituição de regras de amparo ao trabalhador nacional, estabelecendo como o imigrante preferencial o que se dirigisse ao meio rural.[18]

Mapeando os nortes que direcionam as políticas de Saúde Pública na Primeira República, constata-se que o modelo político liberal, do período, não oferecia assistência individual à saúde, que só passou a vigorar na década de 1930. As ações de Saúde Pública nas primeiras três décadas do século 20, centraram-se no saneamento urbano e na regulamentação das habitações populares[19]. O alto custo de uma assistência médica privada também explica a sobrecarga nas ações filantrópicas das Santas Casas de Misericórdia e das Ligas de Higiene, fazendo proliferar uma prática recorrente: o curandeirismo entre os pobres enfermos, tanto nas áreas urbanas como rurais.[20]

É o decreto nº 9.081, de 1911, que pela primeira vez faz referência à Ilha das Flores como o local de hospedagem de imigrantes desembarcados no Rio de Janeiro. O capítulo 23 desse dispositivo legal determinava o tempo de estada na Ilha, que “só poderá exceder de oito dias [de permanência] em casos extraordinários ou de força maior, a juízo da diretoria do Serviço de Povoamento”. Dentro desse panorama de regulamentações, uma dimensão importante do problema foi discutida nas convenções sanitária internacionais. A de novembro de 1887, por exemplo, definiu a criação, nos portos do Brasil e nas principais estações ferroviárias, de serviços de desinfecção para “barrar os agentes patogênicos veiculados por mercadorias e pessoas”.

Em janeiro de 1886, a Junta Central de Higiene Pública foi dividida em duas repartições: Inspetoria Geral de Saúde dos Portos e Inspetoria Geral de Higiene, ambas vinculadas ao Ministério do Império. A primeira era, por assim dizer, a das Relações Exteriores. Tinha a seu cargo a polícia sanitária do litoral, dos ancoradouros e navios, a superintendência dos lazaretos e do Hospital Marítimo de Santa Isabel, em Niterói. Quando recebia notícia de epidemia em país vinculado comercialmente ao Brasil, propunha ao ministro as medidas para barrar o ingresso da doença aqui e impunha quarentena aos navios procedentes das zonas infectadas. As funções do Inspetor-Geral de Higiene, segundo Benchimol [1999], eram portas adentro, estendendo-se, formalmente, a todo o território nacional.

A partir da adoção dessas instruções sanitaristas e na esteira do inventário de truques do médico americano para impedir um “não bom trabalhador” de ingressar no território nacional, vislumbra-se a gênese de teorias segregacionistas. Algumas dessas preocupações são compartilhadas pelas autoridades brasileiras e os itens idade, moralidade e profissão concentravam a atenção do Estado. As condições de saúde física e/ou psíquica, entretanto, não eram declaradamente empecilhos. Neste contexto, as normas de conduta determinavam que um navio cuja tripulação e/ou passageiros estivessem com alguma enfermidade contagiosa a bordo, deveria advertir as autoridades de saúde do porto, com oito dias de antecedência à sua chegada e, assim, era impedido de aportar e era desviado para as Hospedarias e seus centros médicos. Os irremediavelmente incuráveis, na noção estatal da época – inválidos, dementes e vagabundos –, contudo, não eram bem-vindos e deveriam, de algum modo, ser “descartado”, sendo impedidos, pelo uso da Lei, de alcançarem o continente.

Neste sentido, os trajetos dos imigrantes enfermos que se curavam e tiveram vistos de entrada, são razoavelmente conhecidos, quando se deslocaram para outros estados das regiões sudeste e sul. Pouco ainda se sabe, contudo, do “lugar do imigrante” na Capital Federal.[21]

 

[1] Esse artigo é uma adaptação de um paper sobre um projeto desenvolvido entre 2003-05, como pós-doutoramento júnior, financiado pelo CNPq, junto ao Cemi [Centro de Estudos de Migrações Internacionais] da Unicamp e sobre orientação do professor Michael Hall. Partes dessas reflexões estão publicadas, como artigos, em dois livros: “A ante-sala do paraíso: quarentena, isolamento e prisão na Ilha das Flores”. In Keila Grinberg (org.). História dos Judeus no Brasil. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2005. pp. 399-421; e “Cercear para conter! A Ilha das Flores: uma experiência de quarentena, isolamento e prisão”. In Izabel Andrade Marson e Márcia Capelari Naxara (orgs.). Sobre a Humilhação: sentimentos, gestos e palavras. Uberlândia, EDUFU, 2005. pp. 265-84.

[2] Doutora em História pela Universidade Estadual de Campinas [Unicamp] e Diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Autora, entre outros, de Baile de Máscaras: mulheres judias e prostituição. As polacas e suas associações de ajuda mútua [Rio de Janeiro, Editora Imago, 1996] e Cães de guarda: jornalistas e censores, do AI-5 à Constituição de 1988 [São Paulo, Editora Boitempo, 2004]. E organizadora de Perfis cruzados: trajetórias e militância política no Brasil [Rio de Janeiro, Editora Imago, 2002].

[3]A Hospedaria de Ellis Island, em Nova York, foi construída a partir de 1860. De 1892 a 1952, 12 milhões de estrangeiros, com passagem de 3ª classe, passaram pelo exame médico e adentraram o país como imigrantes [www.nps.gov/Elis]

[4] Na Argentina, o primeiro albergue instalou-se na avenida Corrientes, nº 8-10, com capacidade para 300 pessoas, e atendeu 20% da imigração entre 1857 e 1874, tratando os enfermos de febre amarela, em 1871, e cólera em 1873. A partir de 1880 se construiu outros alojamentos para imigrantes, como, em 1888 a Rotonda de Retiro, que recebeu até 5 mil estrangeiros num só dia, e durante 1908 acolheu um total de 129.304 imigrantes. Em 1911, outra Hospedaria foi erguida nos arredores do Rio de la Plata, com capacidade de receber 15 mil pessoas e que funcionou até 1953. Entre 1910 e 1913 as estatísticas oficiais argentinas registram a chegada de 1.100.000 imigrantes. Também se instalaram em outros países, Hospedarias de Imigrantes, como, por exemplo, no Chile, a Hospedaria de Vergara, na cidade de Valparaíso, a Hospedaria de Talca, e outras [http://www.ub.es/geocrit/b3w-739.htm].

[5] “Foco de Infecção”, Jornal Correio Mercantil, 2/3/1889, p. 2.

[6] “Capitulo VII: Da Hospedaria dos imigrantes e dos escritórios de locação de serviços. Art. 23. Na hospedaria de imigrantes haverá um Administrador nomeado pelo Inspetor Geral, incumbido de providenciar acerca do tratamento dos imigrantes e guarda das bagagens; e bem assim de manter a ordem e a policia do estabelecimento.  § 1º Subordinado ao Inspetor, dar-lhe-á parte diária do que ocorrer na hospedaria, solicitando as providências indispensáveis ao bem-estar dos imigrantes e fazendo observar as instruções expedidas para a regularidade do serviço. § 2º Terá sob sua imediata direção os Guardas que o Inspetor designar para o coadjuvarem no desempenho de seus deveres.  Art. 24. O escritório de locação de serviços ficará a cargo de um Agente nomeado pelo Inspetor, com os auxiliares por estes designados”.

[7]  Zaidman, Diana. “A Imigração ao Brasil no Império: o caso particular da hospedaria de Imigrantes da Ilha das Flores”. Niterói, Dissertação de Mestrado em História, UFF, 1983.

[8] Trabalhos recentes como as coletâneas Histórias de imigrantes e de imigração no Rio de Janeiro, organizada por Angela de Castro Gomes [Rio de Janeiro, Sette Letras, 2000] e a de Carlos Lessa, Os lusíadas na aventura do Rio de Janeiro [Rio de Janeiro, Record, 2002], apontam essa carência e investem em saneá-la.

[9] Os acervos documentais do Ministério do Império e do Departamento Nacional de Povoamento estão em depósito no Arquivo Nacional, e finda seus registros em 1932.

[10] Relatos do cárcere vivido na Ilha Grande, durante a ditadura estadonovista, são encontrados nos livros de: Graciliano Ramos, em Memórias do cárcere, e Jorge Amado, em Os Subterrâneos da Liberdade; como também as lembranças de Noé Gertel a respeito de Joaquim Câmara Ferreira, o Velho ou Toledo, quando juntos estiveram [in Kushnir, Beatriz (org.). Perfis Cruzados: trajetórias e militância política no Brasil. Rio de Janeiro, Imago, 2002]. Esses fazem um paralelo entre o ocorrido naquela ilha e na das Flores, possibilitando que esses sejam fontes de análise das experiências de prisão política em Ilhas no período.

[11] O Decreto no 9554, de 3/2/1886, regulamentou as Inspetorias Gerais de Higiene conforme o disposto no Decreto no 3271, de 28/9/1885. Cf. revista Brasil Médico, Rio de Janeiro, 15/1/1895, p. 824 [Agradeço a Jaime L. Benchimol que me chamou a atenção para esse dado].

[12] Pelo Decreto no 12.689, de 21/10/1917, a Ilha das Flores foi transferida, provisoriamente, ao Ministério da Marinha. E pelo Decreto no 13.781, de 1/10/1919, retorna ao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio.

[13] Movimento Revolucionário 8 de outubro (MR-8) originou-se da Dissidência da Guanabara (DI da Guanabara) do PCB, tendo uma grande influência no Movimento Estudantil. Destacou-se nacional e internacionalmente ao idealizar, em conjunto com a ALN, o primeiro seqüestro de caráter político que teve êxito: o do embaixador norte-americano no Brasil. Em 1972, o MR-8 foi desarticulado no país.

[14] Sahlins, Marshall. Ilhas de História. Rio de Janeiro, Jorge Zahar Editor, 1990. pp. 19-21.

[15] Telarolli Junior, Rodolpho. “Imigração e epidemias no estado de São Paulo”. Revista Manguinhos, vol. III, nº 2, jul./out. 1995. p. 274; Machado, Roberto et alli. A danação da norma: medicina social e constituição da psiquiatria no Brasil. Rio de Janeiro, Graal, 1978.

[16] Para ilustrar a afirmativa é interessante a fonte produzida pela Prefeitura da cidade do Rio de Janeiro em 1922. A partir do mapeamento das instituições de assistência pública e privada, desenhou-se toda a rede hospitalar e assistencialista [Assistência Pública e Privada no Rio de Janeiro (Brasil), História e Estatística. Comemoração do Centenário da Independência Nacional. Rio de Janeiro, Tipografia do “Anuário do Brasil”, 1922].

[17] Heiser, Victor. A odisséia de um médico americano. (2ª ed.). Porto Alegre, Ed. Globo, 1940. pp. 18-19.

[18] Quanto a essa questão, são extremamente elucidativas além de plasticamente belíssimas, as fotos que Jorge Latour – adido comercial do Brasil em Varsóvia, Polônia – sacou de transeuntes de origem judaica nas ruas da cidade. A intenção era provar que esses seriam imigrantes urbanos e não rurais, por isso deveriam ser proibidos de entrar. Essa problemática se situa dentro das questões do pré-Segunda Guerra e as tendências nazi-fascistas do Estado Novo [8/11/1936, maço 9650 (622), Arquivo Histórico do Itamaraty/Rio de Janeiro].

[19] Benchimol, Jaime Larry. Pereira Passos, um Hausmann tropical. Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes/Departamento Geral de Documentação e Informação, 1990; Rocha, Oswaldo Porto. A era das demolições, cidade do Rio de Janeiro: 1870-1920. Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes/Departamento Geral de Documentação e Informação, 1986.

[20] Algumas leituras percebem um deslocamento da atuação de Saúde Pública, em São Paulo, para o espaço rural, com o Código Sanitário, de 1918 [Telarolli Junior, 1995]. Na visão de Benchimol [1999], contudo, esse Código não sinaliza precisamente uma reorientação para as doenças endêmicas no campo. Para esse autor, Oswaldo Cruz ao combater doenças transmitidas por insetos – febre amarela, peste – ou passíveis de serem combatidas por vacina (varíola) ou soro (peste), desprendeu as questões de Saúde Pública da retórica anterior, centrada na higiene, à qual permanecem aderidos os engenheiros e todos os atores sociais interessados em derrubar “cascos urbanos” antigos e habitações coletivas.  A prática do isolamento dos doentes durante as epidemias de febre amarela e varíola, por exemplo, após o advento da teoria microbiana e consequentemente o fortalecimento da ideia de que as doenças eram contagiosas, reforçou os procedimentos de quarentena e desinfecção como rotinas da Saúde Pública. Mesmo quando não se conhecia com certeza qual o micróbio da doença e como ela de fato se transmitia, como era o caso da febre amarela na virada do século 19 para o 20, o importante, para Oswaldo Cruz, era isolar o doente do mosquito. As desinfecções deixaram de ser feitas nesses casos, como também na malária, pois Cruz e Ribas eram intransigentes nas suas recusas a essas práticas. Essas medidas colidiam “não tanto contra os miasmáticos, que queriam derrubar tudo, mas principalmente contra os magnetizados pela correlação micróbios-contágio”.

[21] São oportunos o levantamento e a discussão bibliográfica feitos por Rodolpho Telarolli Junior, “Imigração e epidemias no estado de São Paulo”, op. cit., pp. 265-281.

 

A Ilha das Flores – um pouco de sua história até a criação da hospedaria

Andrea C. T. Wanderley

A Ilha das Flores pertencia, no início do XIX a Delfina Felicidade do Nascimento Flores e era chamada de Ilha de Santo Antônio. Segundo o Centro de Memória da Imigração da Ilha das Flores, é “provável que seu nome atual tenha referência a essa proprietária, pois o local devia ser conhecido como a “ilha da D. Flores”, passando depois à “Ilha das Flores”.

​Foi incorporada ao patrimônio da província do Rio de Janeiro, rovavelmente em quitação a dívidas de sua proprietária, e, em 17 de agosto de 1834, foi comprada por Maria do Leo Antunes. Anos depois, foi colocada à venda,  (Correio Mercantil, 21 de dezembro de 1956, penúltima coluna) e, em 1857, foi vendida para o senador José Inácio Silveira Motta (1811 – 1893), que mudou-se para lá, com sua família, em 1861 (Correio Mercantil, 12 de fevereiro de 1861, quinta coluna) e fundou no local um estabelecimento de piscicultura e também desenvolveu o cultivo de mandioca. Eram abundantes na ilha ostras e argilas.

A edificação da Hospedaria no Rio, uma  iniciativa de dom Pedro II, foi instituida em 1883, quando o governo imperial, através da Inspetoria Geral de Terras e Colonização do Ministério da Agricultura, adquiriu de Silveira Motta, por 170 contos de réis, a Ilha das Flores. As negociações haviam começado em 1878 – o senador havia, por conselhos médicos, decidido ir viver em São Paulo. Quando foi adquirida pelo Império, havia na Ilha das Flores “uma boa casa de vivenda“, construída em 1868, grandes armazésn, “casinhas para escravos e trabalhadores livres”, um edifício que servia como disensa e depósito, dois torreões de recreio e seis docas que serviam como viveiros de peixes (Correio Paulistano, 6 de dezembro de 1878, última colunaCorreio Paulistano, 17 de setembro de 1881, segunda coluna;Gazeta de Notícias, 13 de janeiro de 1883, penúltima coluna; e 17 de janeiro de 1883, terceira colunaCorreio Paulistano, 14 de janeiro de 1883, terceira colunaJornal do Commercio, 20 de janeiro de 1883, quinta colunaCorreio Paulistano, 8 de março de 1883, primeira coluna).

 

 

Os primeiros imigrantes chegaram à Hospedaria da Ilha das Flores, em 1º de maio de 1883 (Gazeta de Notícias, 6 de maio de 1883, segunda coluna). Sua localização geográfica era considerada favorável porque seu isolamento tornaria dispensável a passagem dos imigrantes pela cidade do Rio de Janeiro, um foco de epidemias; e também por ser perto da Corte e de Niterói, uma vantagem para o deslocamento dos imigrantes para seus destinos finais.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

 

FERREIRA, Raquel França dos Santos. Hospedaria de Imigrantes Ilha das Flores. Biblioteca Nacional, 10 de maio de 2020.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Site Centro de Memória da Imigração da Ilha das Flores

Site Ministério da Defesa – Marinha do Brasil

Site MultiRio

O centenário da Universidade Federal do Rio de Janeiro

Com registros de Marc Ferrez (1843 – 1923) e de Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886), a Brasiliana Fotográfica celebra o centenário da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), a maior universidde federal do Brasil. Por coincidência, a comemoração de seus 100 anos acontece, como na época de sua criação, sob os impactos de uma pandemia. Em 1920, era a gripe espanhola, cujo auge aconteceu em 1918, e, atualmente, o coronavírus. É reconhecida como um dos maiores centros de produção acadêmica e científica do Brasil.

A imagem de Ferrez é do atual Palácio Universitário, antigo Hospital dos Alienados ou Hospício Pedro II, inaugurado em 18 de julho de 1841. O prédio, tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 1971, localiza-se na Urca e foi doado à universidade na década de 40 (Correio da Manhã, 9 de dezembro de de 1944, primeira coluna; e Correio da Manhã, 14 de novembro de 1944). É ocupado  pelo Fórum de Ciência e Cultura, pela Escola de Comunicação, pela Faculdade de Educação, pelo Centro de Ciências Jurídicas e Econômicas, pela Faculdade de Administração e Ciências Contábeis e pelo Instituto de Economia e Sistema de Bibliotecas e Informação da UFRJ.

 

 

As outras imagens, de autoria de Klumb, são da Escola Militar, desde 1969 local onde funciona o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais (IFCS), no Largo de São Francisco no Centro da cidade. O prédio foi construído originalmente para ser a Sé do Rio de Janeiro. A partir de 1812 abrigou a Academia Real Militar, futura Escola Militar que, em 1858, foi denominada Escola Central. Em 1874, passou a chamar-se Escola Politécnica. Em 1937, teve seu nome mais uma vez mudado, dessa vez para  Escola Nacional de Engenharia e, em meados da década de 60, já na Cidade Universitária, passou a se chamar Escola de Engenharia. Voltou a se intitular Escola Politécnica, em 2003, por ter sido esse o nome em que ela atingiu o apogeu de sua fama e prestígio, em que se tornou reconhecida no âmbito nacional e internacional. O edifício no Largo de São Francisco é a sede do Instituto de Filosofia e Ciências Sociais desde 1969.

 

 

A UFRJ  foi a primeira universidade federal do Brasil e seu primeiro reitor foi Ramiz Galvão (1846 – 1938). A atual reitora é a biofísica Denise Pires de Carvalho, primeira mulher a assumir esse cargo, em 2 de julho de 2019. A UFRJ é um centro de excelência tanto em ensino como em pesquisa no país e na América Latina e, nos últimos anos, tornou-se mais diversa, democrática e inclusiva: a entrada de estudantes negrou dobrou na última década e em 2016 passaram a ser mais da metade dos ingressantes. Além disto, o ingresso de estudantes originários da rede pública aumentou 64%.

A UFRJ tem 176 cursos de graduação e 232 de pós-graduação, cerca de 65 mil estudantes e quatro mil docentes, três mil servidores em hospitais e cinco mil técnicos administrativos, nove hospitais e 1.456 laboratóriso, 13 museus, 14 prédios tombados e 45 bibliotecas, 1.863 projetos de extensão e um parque tecnológico de 350 mil metros quadrados.

 

 

Acessando o link para as fotografias de prédios integrantes da Universidade Federal do Rio de Janeiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Foi criada no governo do presidente Epitácio Pessoa (1865 – 1942), com a denominação de Universidade do Rio de Janeiro, em 7 de setembro de 1920 pelo Decreto 14 343, que reuniu a Escola Politécnica do Rio de Janeiro, originária da Real Academia de Artilharia, Fortificação e Desenho, fundada em 1792da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro criada por dom João VI, em 2 de abril de 1808 como Academia de Medicina e Cirurgia; e a Faculdade de Direito do Rio de Janeiro, fusão da Faculdade de Ciências Jurídicas e Sociais com a Faculdade Livre de Direito, ambas reconhecidas pelo Decreto 639, de 31 de outubro de 1891 (O Paiz, 7 de setembro de 1920, terceira coluna). Uma curiosidade: pouco depois da fundação da Universidade do Rio de Janeiro, a congregação da Faculdade de Direito do Rio de Janeiro decidiu dar o título de doutor honoris causa para o rei Alberto da Bélgica, em visita ao Brasil (O Paiz, 2 de outubro de 1920).

 

simbolo

O ministro da Educação, Gustavo Capanema (1900 – 1985), promoveu, em 1937, durante o governo de Getúlio Vargas (1882 – 1954), uma grande reestruturação na Universidade do Rio de Janeiro que passou a ser chamada de Universidade do Brasil, cujo primeiro reitor foi Raul Leitão da Cunha (1881 – 1947) (O Jornal, 26 de janeiro de 1937, sexta coluna; O Jornal, 6 de julho de 1937). Em 1946, incorporou o Museu Nacional (Decreto-lei de 16 de janeiro de 1946) e teve seu estatuto aprovado pelo Decreto nº 21.321, de 18 de junho de 1946. Era então contituída pelas Faculdade Nacional de Medicina, Faculdade Nacional de Direito, Faculdade Nacional de Odontologia, Faculdade Nacional de Filosofia, Faculdade Nacional de Arquitetura, Faculdade Nacional de Ciências Econômicas, Faculdade Nacional de Farmácia, Escola Nacional de Engenharia, Escola Nacional de Belas Artes, Escola Nacional de Músicas, Escola Nacional de Minas e Metalurgia, Escola Nacional de Educação Física e Desportos e pela Escola Ana Néri, além do já mencionado Museu Nacional.

Sob o governo do general Humberto de Alencar Castelo Branco (1897 – 1967), com a sanção da Lei nº 4831, de 5 de novembro de 1965, a universidade ganhou seu nome atual, Universidade Federal do Rio de Janeiro. A Ilha do Fundão havia sido escolhida para sediar a Cidade Universitária, onde se concentra uma boa parte de seus cursos, departamentos e unidades (Revista Shell, abril/maio/junho de 1954). Foi oficialmente inaugurada em 7 de setembro de 1972.

Atualmente, a Universidade Federal do Rio de Janeiro possui quatro campi: a Cidade Universitária, na Ilha do Fundão; Praia Vermelha, na Urca; Macaé, o mais novo campus, na cidade de Macaé; e o Complexo Avançado de Xerém, em Duque Caxias. Existem faculdades, institutos e unidades da UFRJ fora dos campi mencionados, dentre eles o Instituto de Filosofia e Ciências Sociais, o Instituto de História, a Faculdade Nacional de Direito e a Escola de Música, localizados no centro do Rio de Janeiro; o Museu Nacional e o Observatório do Valongo, situados no bairro de São Cristóvão; e o Colégio de Aplicação da UFRJ, na Lagoa Rodrigo de Freitas.

 

Link para a galeria de reitores da UFRJ

Link para edificações que fazem parte da UFRJ e foram tombadas

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Agência Brasil

CUNHA, Luiz Antônio. A Universidade Temporã: o ensino superior da Colônia à Era Vargas. São Paulo: UNESP, 2007.

Dicionários de verbetes AGCRJ

Documentário Centenária: a universidade do Brasil entre duas pandemias

FÁVERO, Maria de Lourdes. Universidade do Brasil: das origens à construção. Rio de Janeiro: UFRJ, 2010.

Folha de São Paulo, 6 de setembro de 2020

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Portal da Câmara dos Deputados

Site 100 anos UFRJ

Site Escola Politécnica

Site IFCS

Site Museu Nacional

Site SiBI – Memória Institucional da UFRJ

Site UFRJ