Rio de encantos mil, por Cristiane d´Avila

Rio de encantos mil

Cristiane d´Avila*

 

Este artigo é uma homenagem à natureza do Rio de Janeiro imortalizada nas belas fotografias e nos negativos de vidro sob a guarda do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz. São imagens da paisagem natural, do início do século XX, registros de um tempo em que a cidade ainda mantinha sua vegetação quase intocada, distante das intervenções urbanísticas que a transformariam. Nelas, é possível viajar no tempo em busca da cidade imaginada, “esfinge amorosa”, como bem definiu o carioca Carlos Lessa. Rio dos cronistas e escritores, músicos e pintores; Rio do encantamento e das ruas que têm alma; Rio cartão-postal, Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil, coração do Brasil.

 

 

Acessando o link para as fotografias das belezas naturais do Rio de Janeiro do  acervo da Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A beleza natural do Rio de Janeiro inspira, há séculos, viajantes e artistas das mais variadas nacionalidades e tendências. Narrada em prosa, cantada em versos, retratada em óleo e aquarela ou revelada pela fotografia, a natureza do Rio jamais deixou de despertar encantamento. Ainda hoje, impressiona pela harmoniosa combinação entre montanhas, mar e vegetação, singularidade reconhecida e admirada no mundo inteiro.

 

 

No século XIX, a paisagem carioca fascinava a Europa por meio das fotografias de Marc Ferrez (1843-1922) e dos panoramas imortalizados por George Leuzinger (1813-1892). Nesse mesmo período, artistas como Émile Taunay (1795-1881), Victor Meirelles (1832-1903) e William Smith (1769-1839) produziram imagens idílicas da Lagoa Rodrigo de Freitas, da Baía de Guanabara, da Floresta da Tijuca, da Gávea, da Praia de Botafogo e de Santa Teresa. Para esses artistas, a natureza estava longe de ocupar um papel estático no imaginário nacional: ela adquiria protagonismo próprio, convertendo-se em expressão viva de uma nação concebida sob os signos da riqueza e exuberância natural.

 

 

O mesmo ardor que exaltava, e ainda hoje celebra, a beleza do Rio de Janeiro, também alimentava movimentos de resistência à degradação de suas riquezas naturais. Moradores e visitantes, movidos por afeição declarada pela paisagem carioca, produziram discursos ora entusiasmados, ora melancólicos, em defesa de sua preservação. Manifestações suscitadas pelo avanço do crescimento urbano sobre sua natureza pujante, porém vulnerável, símbolo da identidade nacional, permanecem até hoje inscritas no imaginário coletivo.

 

 

Segundo o historiador e crítico de arte Giulio Carlo Argan (1909 – 1992), a natureza nunca perdeu o lugar do mito e do sagrado na construção da cidade. Ela compõe o espaço do não construído, não protegido, não organizado, que tremula ao redor do recinto sagrado erguido pela civilização. Representa, para o autor, “o limite, a fronteira entre o habitado e o inabitável, entre a cidade e a selva, entre o espaço geométrico ou mensurável e a dimensão ilimitada, incomensurável do ser”. Daí o símbolo da beleza, a “cidade maravilha”, o emblemático cartão-postal não ter sua imagem suplantada pela do Rio “partido”, na expressão cunhada pelo jornalista Zuenir Ventura (1931 -), o Rio da violência, da degradação ambiental – purgatório do caos.

 

 

Em Cronistas do Rio, a ensaísta Beatriz Resende (1948-) apresenta a cidade como parte integrante e inseparável da vida de seus moradores e motivo de inspiração, de juras apaixonadas e também de indignação diante de sua descaracterização. Resende recupera, nesse contexto, o olhar de Machado de Assis (1839 – 1908) e seu apego “quase provinciano” às marcas autênticas da cidade, perceptível na melancolia com que lamentava, em suas crônicas, a derrubada de uma árvore ou o aterramento de uma praia, ocasionadas pela remodelação urbana do centro do Rio conduzida pelo prefeito Pereira Passos, no início do século XX.

 

 

Em seu Lima Barreto e o Rio de Janeiro em Fragmentos, Beatriz Resende ressalta a paixão do escritor pela cidade. Segundo a autora, a contemplação da paisagem carioca, suas formas, cores e atmosferas naturais, fez com que Lima considerasse a perda de uma casa, uma árvore, o pior dos castigos. Na obra, ela observa ainda que, em seu Diário Íntimo, Lima Barreto (1881 – 1922) descreve sua “amada”, a cidade, em passagens marcadas por uma sensualidade quase erótica, nos quais a natureza é expressada com delicadeza e lirismo: “As ondas verde-claro rebentam antes da praia em franjas de espuma. Pelo ar havia meiguice, e blandícias tinha o vento a sussurrar”.

 

 

No livro de contos Marcovaldo ou As Estações na Cidade, do escritor e jornalista Italo Calvino (1923 – 1985), a natureza está além das fronteiras da cidade, ela está afastada, quase inacessível, destacada do frenesi urbano. No universo fantástico do escritor, acolhe aqueles que escapam à lógica rígida da vida moderna — figuras deslocadas, capazes de perceber o sublime, o ilimitado e tudo aquilo que a cidade tenta conter ou silenciar. Nos contos, o protagonista Marcovaldo transita no espaço urbano sem jamais pertencer inteiramente a ele, como observador suspenso entre dois mundos. Nesta obra de Calvino, a natureza assumirá a função de refúgio e deslocamento, de instrumento capaz de proporcionar instantes de plenitude e efêmera esperança, quase sempre atravessados pela aridez da experiência urbana e a fugacidade da vida moderna.

 

 

A natureza do Rio de Janeiro surge ainda como cenário de acontecimentos singulares e memoráveis vividos pelo jornalista e cronista carioca João do Rio (1881-1921). Durante a passagem da bailarina norte-americana Isadora Duncan (1877-1927) pela cidade, em 1916, ele e o escritor Gilberto Amado (1887-1969) conduziram a artista em um passeio noturno à praia de Ipanema e à Cascatinha da Tijuca. Raimundo Magalhães Júnior (1907 – 1981), primeiro biógrafo do jornalista, rememorou o episódio relatado a ele por Gilberto Amado na obra A vida vertiginosa de João do Rio:

“Foram à Cascatinha, que [Duncan] já vira e queria rever ao clarão da lua. Isadora atordoou-se com o vozeio assombrador da mata”. Segundo Gilberto, a cena culmina na cascata da Floresta da Tijuca, onde a artista se banhou ao luar, nua, em um gesto de entrega e fascínio diante da exuberância natural: “foi acometida de uma espécie de delírio no meio dos sibilos, uivos e gemidos da mata, interrompidos apenas pelo som das ondas quebrando na praia. Oh God!, largou Isadora como que acordando”. Em carta ao amigo português João de Barros, João do Rio declara paixão avassaladora pela bailarina: “passei os 15 dias mais felizes da minha vida no êxtase amoroso, no verdadeiro amor, com uma criatura que é gênio, Bondade divina – tudo. Essa criatura que me olhou que me desejou, que quase me faz secretário humilde foi Isadora. Nunca amei assim! A minha vida está dentro do sol. Meu Deus! Mas é assim o amor? Eu só o senti assim agora aos 35 anos! Foi transfiguração”.

É o Rio de Janeiro que apaixona e arrebata!

 

 

 

*Cristiane d´Avila é é jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. História da arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 213.

CALVINO, Italo. Marcovaldo ou as estações na cidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

LESSA, Carlos. O Rio de todos os Brasis. Rio de Janeiro: Record, 2000.

MAGALHÃES JÚNIOR, Raimundo de. A vida vertiginosa de João do Rio. Brasília: Civilização Brasileira, 1997, p. 267.

RESENDE, Beatriz. Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos. Rio de Janeiro: ed. UFRJ: Ed. UNICAMP, 1993, p. 99.

RESENDE, Beatriz (Org.). Cronistas do Rio. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995.

RIO, João do. Cartas de João do Rio: a João de Barros e Carlos Malheiro Dias. Introdução, organização e notas: Cristiane d’Avila. Prefácio: Zuenir Ventura. Rio de Janeiro: FUNARTE, 2012, p. 252.

O Paço Imperial, o palácio mais antigo do Rio de Janeiro

O Paço Imperial, o mais antigo palácio da cidade do Rio de Janeiro, além de importante historicamente – foi palco do Dia do Fico, da assinatura da Lei Áurea e o centro das decisões que ocasionaram a Proclamação da Independência – é também muito bonito, atrativo que certamente impressionou diversos fotógrafos. Hoje destacamos imagens  realizadas por Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?)Camillo Vedani (18? – 1888)Georges Leuzinger (1813 – 1892)Guilherme Santos (1871 – 1966)Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897)Marc Ferrez (1843 – 1923) e Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886). Todos esses fotógrafos já foram personagens centrais de artigos publicados na Brasiliana Fotográfica. Há também imagens produzidas por fotógrafos ainda não identificados. As fotos são provenientes do acervos fotográficos das instituições fundadoras do portal – a Fundação Biblioteca Nacional e o Instituto Moreira Salles –  e de duas de suas instituições parceiras – o Leibniz-Institut fuer Laenderkunde e o Museu Histórico Nacional.

 

 

Acessando o link para as fotografias selecionadas do Paço Imperial disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

O Paço Imperial foi, no século XVIII, a residência do governador e do Vice-Rei. Em 1808, com a vinda de dom João VI (1767 – 1826) para o Rio de Janeiro, passou a se chamar Paço Real e tornou-se a residência oficial da família real e o centro de poder do Reinado e do Império.  Recebeu o nome atual, em 1822, e passou a ser a sede administrativa do governo, além de abrigar eventos oficiais e festas. Com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, passou a sediar os Correios e Telégrafos.

 

 

Foi tombado pelo SPHAN, em 1938. Em 1982, a Fundação Nacional Pró-Memória, sob a direção de Aloisio Magalhães (1927-1982), deu partida ao processo de restauração do prédio. Em 1985, já reformado sob o comando do arquiteto Glauco Campello (1930-2015), passou a funcionar como um Centro Cultural.

 

 

 

 

Seus 40 anos como centro cultural foram comemorados com a exposição coletiva Constelações, inaugurada em 28 de março e que termina hoje. A curadoria da mostra foi de Claudia Saldanha, Ivair Reinaldim e equipe do Paço Imperial.

 

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Leia aqui alguns artigos publicados na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional de 1984 sobre a restauração do Paço Imperial:

Paço Imperial: história e ressurreição de um palácio, por Pedro Calmon, então presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, ilustrada com imagens produzidas pelo austríaco Thomas Ender (1893 – 1875), pelo francês Jean-Baptiste Debret (1768 – 1868), do francês Louis-Auguste Moreau (1818 – 1877) e do suíço Abram Louis Buvelot (1814 – 1888), por Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?), por Urias Antonio da Silveira (18? – ?), do arquiteto português Pinto Alpoim (1700 – 1775) e de Pedro Lobo (19? -?).

A restauração do Paço: revendo 240 anos de transformações, por Glauco Campello, arquiteto e coordenador da restauração do Paço, ilustrada com aquarelas do inglês Richard Bate (1775 – 1856), de 1808, e do austríaco Thomas Ender (1893 – 1875), de 1817; com um desenho do alemão Karl Wilhelm von Theremin (1784-1852), de 1818, e com um do francês Louis-Auguste Moreau (1818 – 1877) e do suíço Abram Louis Buvelot (1814 – 1888), de 1842; e por fotografias de Marc Ferrez (1843 – 1923), de 1880, e de um fotógrafo ainda não identificado (posterior à Proclamação da República).

O novo Paço: uma obra para debates, pelo arquiteto Cyro Corrêa Lyra, ilustrada com uma imagem produzida por Leandro Joaquim (1838 – 1898), de 1789.

Estudos preliminares para a restauração do Paço, pelo arquiteto José de Souza Reis, com imagens de autoria do inglês William John Burchell (1781 – 1863), de 1825; e do arquivo pessoal do autor.

A pesquisa arqueológica: primeiras notas, pelas arqueólogas Regina Coeli Pinheiro da Silva, Edna June Morley e Catarina Eleonora Ferreira da Silva, ilustrada com fotografias produzidas por Pedro Lobo (19?-?), por uma gravura da Biblioteca Nacional e por plantas das escavações.

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

CAVALCANTI, Lauro. Paço Imperial. Rio de Janeiro : Sextante Artes, 1999.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Portal IPHAN

Portal MultiRio

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site Paço Imperial

 

 

 

O Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor e um breve histórico do uso da expressão “Cidade Maravilhosa” como referência ao Rio de Janeiro

Hoje, quando é comemorado o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, o Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa, passa a Rabat, capital de Marrocos, o posto de Capital Mundial do Livro, que assumiu há exatamente um ano. O Rio foi a primeira cidade de língua portuguesa escolhida para receber este título, um reconhecimento da excelência de seus programas de promoção da leitura. Em homenagem à cidade, cuja beleza e vocação exibicionista são inequívocas, a Brasiliana Fotográfica publica uma seleção de fotos da paisagem carioca, de alguns de seus símbolos mais icônicos e conta uma pouco da história do uso da expressão Cidade Maravilhosa, que tornou-se seu epíteto.

 

 

Segundo o poeta e editor Alexei Bueno (1963 – ), a poetisa francesa Jane Catulle Mendès (1867 – 1955) foi, senão a criadora, a oficializadora do epíteto do Rio de Janeiro. Para o jornalista Rafael Sento Sé, autor do livro que inspirou esse artigo, foi ela que criou o sonho de um Rio de Janeiro da Belle Époque. 

 

 

 

 

Mas a expressão se popularizou, de fato, a partir da canção homônima de André Filho (1906 – 1974), gravada, em 1934, por ele e por Aurora Miranda (1915 – 2005) e sucesso no carnaval de 1936. O epíteto tornou-se eterno!

Viva a leitura! Viva a fotografia! Viva a Cultura! Viva a Cidade Maravilhosa!

 

 

Foram selecionados para essa publicação registros produzidos por fotógrafos ainda não identificados, e por Antônio Caetano da Costa Ribeiro (18? – 19?)Augusto Malta (1864 – 1957), Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897) e Marc Ferrez (1843 – 1923). São belas imagens produzidas desde fins do século XIX até as primeiras décadas do século XX. Do primeiro, Costa Ribeiro, ainda não temos informações consistentes sobre sua vida e trajetória profissional.

 

 

Acessando o link para fotos selecionadas da Cidade Maravilhosa de autoria de Antônio Caetano da Costa Ribeiro, Augusto Malta, Juan Gutierrez e Marc Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Augusto Malta (1864 – 1957)

Foi na gestão do engenheiro Francisco Pereira Passos (1836 – 1913) como prefeito do Rio de Janeiro que, pela primeira vez, a prefeitura contratou um fotógrafo, o alagoano Augusto Malta, para documentar as obras da cidade. Ele ocupou o cargo até 1936, quando se aposentou. Incansável, elegante e bem-humorado, foi com seus olhos irrequietamente falantes o principal cronista visual do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX. Além de ter documentado as transformações urbanas e os grandes eventos da cidade como a Exposição Nacional de 1908, a construção do Teatro Municipal, em 1909; a Revolta da Chibata, em 1910; e a inauguração do Cristo Redentor, em 1931; fotografou personalidades políticas, intelectuais e artísticas; paisagens, monumentos, lojas, o casario decadente e as ressacas. Registrou também aspectos da vida carioca como, por exemplo, o carnaval de rua, o movimento dos quiosques, os eventos sociais, os moradores de cortiços, os vendedores ambulantes, as prostitutas, os marinheiros e cenas de praia.

 

 

Juan Gutierrez (c.1860 – 1897)

Provavelmente nascido nas Antilhas, em torno de 1860, Juan Gutierrez foi um dos mais importantes fotógrafos paisagistas do século XIX e um dos maiores cronistas visuais do Rio de Janeiro, tendo registrado a transição da cidade imperial para a cidade republicana. Entre 1892 e 1896, produziu a maior parte de suas fotografias de paisagens cariocas, que eram vendidas para estrangeiros que visitavam a cidade. Partiu para Canudos, em 1897, onde, em 28 de junho, foi mortalmente ferido.

 

 

Marc Ferrez (1843 – 1923)

O carioca Marc Ferrez foi um brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes do Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Sua vasta e abrangente obra iconográfica se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Estabeleceu-se como fotógrafo com a firma Marc Ferrez & Cia, em 1867, na rua São José, nº 96, e logo se tornou o mais importante profissional da área no Rio de Janeiro. Cerca de metade da produção fotográfica de Ferrez foi realizada na cidade e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais.

 

 

Breve histórico do uso da expressão Cidade Maravilhosa como referência ao Rio de Janeiro

 

 

A Cidade Maravilhosa e Alfredo Maia (1850 -1887)

 

O escritor e oficial da Marinha Portuguesa Alfredo Maia usou a expressão cidade maravilhosa ao referir-se ao Rio de Janeiro no capítulo XIII de seu folhetim Viagens de um marinheiro, publicado no jornal português Jornal da Noite (Jornal da Noite (Portugal), 05 e 06 de agosto de 1879, terceira coluna).

A capital do império brasileiro goza créditos de uma cidade maravilhosa e a sua baía rivaliza, diz-se, com o porto de Constantinopla e de Lisboa. Vamos lá ver tudo isso e sejamos justos em nossa admiração pelo que virmos…Com efeito, é esplêndido o magnífico porto do Rio de Janeiro, onde cabem à larga todas as esquadras do mundo!”.

 

 

 

Alfredo de Lacerda Maia, nascido em Alijó, cidade localizada na região do Douro, em 1850, foi redator dos jornais portugueses Atlantico, folha destinada ao Brasil e repúblicas do Rio da Prata, do Jornal do Noite e do Mercantil . Foi também colaborador da revista Chronicas Modernas. Em 1883, era segundo-tenente, comandante da lancha Rio Minho e por sua atuação recebeu uma nota de louvor do Ministério da Marinha de Portugal. Em 1886, já como capitão-tenente, era o governador do Timor e, pelos serviços que prestou ao comércio, recebeu dos negociantes da mencionada colônia portuguesa uma espada de honra. No mesmo ano, foi agraciado pelo governo português com a Comenda de Aviz. De Surabaia, foi enviado um telegrama para governo português informando que Maia havia sido assassinado pelos indígenas. Foram pedidos socorros para Macau. O assassinato ocorreu, em 3 de março de 1887, em Díli. Ele era casado e deixou um filho de 10 anos. Foi publicado, no Correio da Manhã, em 14 de março, poucos dias após seu assassinato, um artigo de sua autoria sobre uma visita que havia realizado ao sultão de Zanzibar (Jornal da Noite (Portugal), 26 e 27 de janeiro de 1880, última coluna27 e 28 de dezembro de 1880, quinta coluna; 7 e 8 de abril de 1881, segunda coluna; 23 e 24 de julho de 1883, terceira coluna11 e 12 de março de 1886, terceira coluna25 e 26 de agosto de 1886, quarta coluna11 e 12 de março de 1887, segunda colunaCorreio da Manhã (Portugal), 1º de outubro de 1886, terceira coluna; 8 de novembro de 1886, primeira coluna11 de março, de 1887, quarta coluna14 de março de 188727 de abril de 1887, quarta coluna).

 

 

A Cidade Maravilhosa e o escritor italiano Edmondo de Amicis (1846 – 1908)

 

 

Segundo o escritor e filósofo Ivo Karytowski (1951 -), em seu artigo Origem do epíteto “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro: lenda e verdade, foi feita uma referência ao Rio de Janeiro como uma cidade maravilhosa, em 1902, em um artigo escrito pelo italiano Edmondo de Amicis e publicado no suplemento La Lettura do jornal milanês Corriere della Sera. Amicis, em 1884, retornando de uma viagem à Argentina, fez uma rápida escala no porto do Rio. Segue o trecho do artigo em que a expressão foi usada:

“– Por que o senhor nunca escreveu nada sobre o Rio de Janeiro?

Esta pergunta me foi feita uma centena de vezes durante os dezoito anos que se passaram desde que fui ao Brasil, e cem vezes dei sempre a mesma resposta pronta, tal como fazem os deputados quando conversam com os eleitores:

– Porque fiquei apenas três dias, quando o Sírio, o navio em que viajei de Buenos Aires para Gênova, fez uma escala no porto da cidade. Amigos bondosos se desdobraram para me mostrar tudo, levando-me para todos os lados de carruagem, de bonde e em via férrea, desde cedo até a noite, como alguém que quisessem salvar da caça de uma banda de credores; vi muito, mas vi tudo correndo, afobado e com os olhos ofuscados pelo cansaço, de forma que me esqueci de muitas coisas, e de outras só tenho uma vaga lembrança, e até das imagens que se mantiveram mais vivas tenho lacunas obscuras, sobre as quais mesmo se reflito longamente nunca consegui captar uma mínima recordação. O que poderia escrever? Seria como descrever um sonho.

A esta resposta de sempre, poucos dias atrás, um intrépido italiano, que recentemente voltou do Brasil para Itália, rebateu sagazmente: – Mas o senhor não se sente tentado a fazer a descrição de uma cidade maravilhosa (E non la tenta la descrizione d’uma città maravigliosa, no original italiano), onde permaneceu somente poucas horas, e da qual se lembra apenas como um sonho?”

– Eis aí uma ideia – pensei.

E aquela ideia colocou-me a pena na mão e pregou-me à escrivaninha.

[…]

Sim, Mantegazza tinha razão quando me escreveu: – Queira me desculpar, mas o Rio de Janeiro é mais bonito que Constantinopla. – Não é que a cidade seja mais bonita, mas sim o lugar, as águas, toda a natureza que a circunda. Oh, não há comparação!”

Transcrito do artigo Origem do epíteto “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro: lenda e verdade,

de Ivo Karytowski,  2022.

 

 

O escritor e militar italiano Edmundo De Amicis nasceu em Oneglia, em 21 de outubro de 1846, e faleceu em Bordighera, em 11 de março de 1908. Sua maior obra foi o livro Coração (1886). A viagem durante a qual passou rapidamente no Rio de Janeiro, entre Gênova e Montevidéu, na primavera de 1884, a bordo do vapor Nord America, inspirou o livro de sua autoria, Sull’oceano (No oceano), publicado em 1889, misto de romance e diário de bordo. Seu tema é a emigração italiana para a América do Sul no final do século XIX. Foi traduzido para o português por Adriana Marcolini e publicado em 2017, no Brasil, com o título Em Alto-mar.

 

A Cidade Maravilhosa e o carnaval de 1904

 

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Numa notícia sobre o préstito carnavalesco do Clube de São Cristóvão, foi publicada, no jornal O Paiz, de 16 de fevereiro de 1904, versos que protestavam contra as carrocinhas que pegavam cachorros nas ruas. Na última estrofe, foi usada a expressão cidade maravilhosa, referind0-se ao Rio de Janeiro. Foi, muito provavelmente, a primeira vez que a expressão, referindo-se ao Rio de Janeiro, foi publicada na imprensa brasileira.

 

 

 

Daí por diante, na imprensa, volta e meia a expressão aparecia em referência à cidade (O Paiz, 4 de maio de 1904, quinta colunaO Malho, 24 de novembro de 1906A Notícia, 22 e 23 de maio de 1907, primeira coluna; 6 e 7 de julho de 1909, terceira coluna; 26 e 27 de julho de 1909, penúltima coluna; 15 e 16 de agosto de 1910, terceira coluna; 21 e 22 de setembro de 1909, penúltima colunaRevista da Semana, de 3 de novembro de 1907, terceira colunaA Imprensa, 8 de agosto de 1909, terceira coluna; Gazeta de Notícias, 4 de agosto de 1909, quinta coluna.

 

 

Em 1908, a expressão cidade maravilhosa foi usada diversas vezes não se referindo à cidade do Rio de Janeiro, mas ao espaço onde se realizou a Exposição Nacional Comemorativa do Centenário da Abertura dos Portos, na Urca (O Paiz, 24 de agosto de 1908, primeira coluna; 17 de novembro de 1908, primeira e segunda colunas; 16 de dezembro de 1908, primeira colunaGazeta de Notícias, 16 de outubro de 1908, quarta coluna; Jornal do Commercio, 27 de setembro de 1908, penúltima coluna).

Uma curiosidade: ainda nos anos 1900, Paris, São Paulo, o vale de Sorgues, Buenos Aires, Sevilha e Veneza foram referidas na imprensa brasileira como cidades maravilhosas (O Paiz, 9 de fevereiro de 1900, primeira coluna3 de abril de 1905, segunda coluna; 24 de março de 1907, segunda coluna; A Notícia, 13 de 14 de junho de 1904, primeira coluna; Gazeta de Notícias, 9 de dezembro de 1906, segunda coluna; 12 de janeiro de 1908, última coluna; Jornal do Commercio, 18 de outubro de 1907, quarta coluna; Revista da Semana, 2 de novembro de 1902, primeira coluna).

 

A Cidade Maravilhosa e Coelho Neto (1864 – 1934)

 

 

Coelho Neto foi um importante escritor e teatrólogo brasileiro, tendo sido um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 1897. Nasceu em 21 de fevereiro de 1864, em Caxias, no Maranhão, e faleceu, em 28 de novembro de 1934, no Rio de Janeiro.

A polêmica em torno de ele ser ou não o autor da expressão cidade maravilhosa em referência ao Rio de Janeiro é antiga: o uso da expressão pela poetisa francesa Jane Catulle Mendés, de quem falaremos mais adiante, foi lembrada na biografia do compositor Mário Penaforte (1876 – 1928), lançada no livro intitulado O rei da valsa, em 1958, escrito pelo poeta e tradutor Onestaldo de Pennafort (1902 – 1987) (Correio da Manhã, de 1958, 19 de agosto de 1958, quarta coluna). O filho de Coelho Neto, Paulo (1893 – 1985), publicou um pequeno livro de 16 páginas, Restabelecendo a verdade, defendendo o pai como autor da expressão (Correio da Manhã, 2 de novembro de 1958, primeira coluna). Onestaldo e Paulo comentaram a polêmica no jornal Correio da Manhã nos artigos Controvérsia em torno da “Cidade Maravilhosa” e Cidade Maravilhosa, respectivamente (Correio da Manhã, 15 de novembro de 1958  e 22 de novembro de 1958, terceira coluna). A polêmica voltou à baila, em 1965, quando se comemoravam os 400 anos do Rio de Janeiro, quando foi sugerido por leitores do jornal O GLOBO que Jane Catulle Mendès nomeasse um logradouro carioca já que teria sido a criadora da expressão. No dia seguinte, Paulo Coelho Neto, em uma matéria publicada no jornal voltou a afirmar que seu pai era o autor do epíteto. Não adiantou: uma praça em Campo Grande foi batizada com o nome Catulle Mendès (O GLOBO, 18 e 19 de maio de 1965).

 

O GLOBO, 18 de maio de 1965

O GLOBO, 18 de maio de 1965

 

O GLOBO, 19 de maio de 1965

O GLOBO, 19 de maio de 1965

 

Vamos aqui listar o uso da expressão por Coelho Neto:

No capítulo VII do folhetim Mistério de Natal, Coelho Neto usou a expressão cidade maravilhosa, mas ela não se referia ao Rio de Janeiro (O Paiz, 14 de dezembro de 1904, penúltima coluna).

Segundo uma carta do general Paulo de Bittencourt Amarante enviada para a coluna “Encontro Matinal”, da Eneida (1904-1971), grande cronista do carnaval carioca, Coelho Neto teria se referido ao Rio de Janeiro como cidade maravilhosa na palestra Antiga Cidade, proferida em 10 de outubro de 1908, na Academia Nacional de Música (Diário de Notícias, 19 de fevereiro de 1965, primeira coluna). Porém, na leitura da palestra, não se encontra a expressão (Palestras da Tarde (1911), página 33).

 

 

Na crônica Os Sertanejos, também de autoria de Coelho Neto, publicada no jornal A Notícia, de 29 e 30 de outubro de 1908, ele voltou a usar a expressão cidade maravilhosa, desta vez para referir-se à área onde foi realizada a Exposição Nacional Comemorativa do Centenário da Abertura dos Portos, realizada entre 11 de agosto e 15 de novembro de 1908, e não à cidade do Rio de Janeiro. A crônica conta a história de um grupo de matutos que se apresentaria no evento, mas, impressionados com a modernidade do Rio de Janeiro, não conseguem se apresentar bem, decepcionando o público (A Notícia, 28 e 29 de outubro de 1908, primeira coluna). Na crônica (1), quando adentraram a exposição:

“Era ao cair da tarde, uma tarde elegíaca, violácea, quieta, sem o silvo de uma cigarra. Os penhascos pareciam de lápis lazuli e os palácios, ainda mais brancos sobre o fundo escuro das rochas portentosas, alvejavam marmóreos. Longe, nos estábulos, o gado tino mugia, nostálgico, pondo no silêncio enlevado a tristeza bucólica das várzeas, em contraste com o requinte da cidade maravilhosa Estacaram deslumbrados. A Cidade Maravilhosa resplandecia como nas lendas. No fundo, na concha do palácio das Indústrias, a água escachoava colorindo-se à refração das luzes. Surgiram monstros flamineos acaçapados, no relvedo, esguicharam repuchos policromicos e a mísera gente tremia e encomendavam-se aos santos, fazendo promessas árduas, arrependida de haver seguido o diabo sedutor que a fora buscar no repouso feliz da sua terra para arrojá-la naquele inferno”.

 

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A Notícia, 29 e 30 de outubro de 1908. As edições de 1908 de A Notícia não constam da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, só estando disponíveis em microfichas na instituição

 

Parece que Cidade Maravilhosa não se referia ao Rio de Janeiro, mas ao recinto onde se realizava a Exposição de 1908.

Em 10 de novembro de 1927, Coelho Neto publicou no Jornal do Brasil uma versão modificada de Os Sertanejos, agora com o título Sertanejos, e nela a expressão Cidade Maravilhosa se referia certamente ao Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 10 de novembro de 1927, penúltima coluna).

“- Ocê uviu, Clódina ? A modi qu’é boi berrando. Não vá sê genti incantada! Era a hora angelical e o bando poz-se a rezar baixinho, á medida que a noite começa a desengranzar o seu rosario de estrellas. Subito, uma deflagração. Collares de lampadas de fogo e a linha dos edificios debruada a luzes. Foi um medo panico indizivel: “Misericordia! Credo! Abrenuntio! P’ras areias gordas!”
– Sê tá vendo, Clódina ? Eu não dixe qu ́é u inferno ? Oia cumu tudo s’accendeu d’uma vez ! sem phosque. Estacaram deslumbrados.
A Cidade maravilhosa resplandecia como nas lendas. E a misera gente tremia e encommendava-se a Deus, a Nossa Senhora e aos santos, fazendo promessa, arrependida de haver seguido o demonio tentador que a fôra buscar no repouso feliz da sua terra. E quando appareceu um automovel urrando, com os dois immensos olhos accesos em clarões, a debandada foi tumultuosa e gritos e esconjuros atroaram. Foi em tal estado d’alma que os sertanejos ensaiaram no cinema os cantos e as danças em que são exímios”.

 

 

Posteriormente, em 1928, ele lançou o livro Cidade Maravilhosa, mas no conto que dá nome à obra o Rio de Janeiro não é descrito. O termo se referia a uma cidade dos sonhos, uma cidade imaginária.

 

 

 

“Aqui a tem a sua cidade maravilhosa. Viu-a de longe, era linda. Veja agora. Ilusões, fanciulla…Ilusões…Adriana olhava estarrecida. Mas não era a destruição das árvores, não eram aquelas cinzas pardacentas, ainda mornas, não eram aqueles troncos denegridos, aqueles ramos que rechinavam amojados de seiva que a comoviam, mas a lembrança da cena da estrada, da sedução do homem sinistro a mostra-lhe, ao longe, no fogaréu rutilante, a cidade maravilhosa, cidade do sonho, cidade do amor”.

 

A Cidade Maravilhosa e Vicente Blasco Ibáñez (1867 – 1928)

 

 

Em uma entrevista para o correspondente de O Estado de S. Paulo em Buenos Aires, o escritor, jornalista e político espanhol Vicente Blasco Ibáñez referiu-se ao Rio de Janeiro como cidade maravilhosa. Tinha estado por poucos dias na cidade (Diário do Maranhão, 27 de agosto de 1909, segunda coluna).

 

 

Blasco Ibáñez nasceu em Valencia, na Espanha, em 29 de janeiro de 1867, e faleceu, em Menton, na França, em 28 de janeiro de 1928. Tornou-se um dos mais famosos romancistas espanhóis de seu tempo. Era contra a monarquia e fundou, em 1894, o jornal El Pueblo. Foi deputado, representante do Partido Republicano, entre 1898 e 1907. Em 1914, quando teve início a I Grande Guerra Mundial,  tornou-se correspondente. Seu livro de maior sucesso foi Os quatro ginetes do Apocalipse (1916).

 

 

A Cidade Maravilhosa e Jane Catulle Mendès (1867 – 1955)

 

 

Cidade Maravilhosa – La Ville Merveilleuse -, é o nome do livro onde os poemas enaltecendo o Rio de Janeiro, de autoria da escritora e feminista francesa Jane Catulle Mendès (1867 – 1955), foram publicados, em 1913. Pela primeira vez, a expressão dava título a um livro.

 

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Ilustração de Jane Catulle Mendès no frontispício do livro

 

Ainda em 1913, foi publicada no Jornal do Brasil, de 11 de maio, uma crítica extremamente favorável ao livro. Nela, está a poesia Promenade, que Jane escreveu dedicada a Fernando Mendes de Almeida (1845 – 1921), redator-chefe do jornal.

 

 

Ela havia passado uma temporada no Rio de Janeiro que, a princípio, seria de três semanas, mas que se estendeu de 20 de setembro a 6 de dezembro de 1911, quando Jane se encantou pela cidade, cuja elite era profundamente influenciada pela cultura francesa. Chegou no Rio a bordo do paquete Amazon, vindo de Buenos Aires, acompanhada por sua secretária, Mathilde Grimaud (18? -19?), desembarcando no Cais Pharoux, onde foi recebida por uma comissão da Associação Brasileira de Imprensa.

 

 

Já no dia de sua chegada declarou: “Rio de Janeiro est une ville merveilleuse dont je suis eblouie” – O Rio de Janeiro é uma cidade maravilhosa pela qual estou deslumbrada -, conforme publicado na primeira página do jornal A Imprensa, de 21 de setembro de 1911 (O Paiz20 de setembro, quarta coluna21 de setembro, segunda coluna6 de dezembro, primeira coluna de 1911; A Imprensa, 21 de setembro de 1911).

 

 

Havia sido colaboradora do jornal La Fronde, fundado pela atriz e jornalista Marguerite Durand (1864–1936), em 1897, e produzido exclusivamente por mulheres até 1905, quando foi fechado. Jane era viúva do escritor francês Catulle Abraham Mendès (1841 – 1909), expoente do parnasianismo, com quem foi casada entre 1897 e 1909.

Ela partiu de volta à Europa no paquete Danube (O Paiz6 de dezembro, primeira coluna de 1911; Gazeta de Notícias, 7 de dezembro de 1911, terceira coluna).

 

 

A passagem de Jane Catulle Mendès pelo Rio de Janeiro foi um grande sucesso. A cidade acabara de passar por uma grande reforma urbanística durante a gestão de Francisco Pereira Passos (1836 – 1913) como prefeito. Jane encantou-se pela beleza das paisagens cariocas, tanto pelas naturais como pelas construídas. Ficou hospedada no Hotel dos Estrangeiros, aonde recebeu jornalistas no dia em que chegou no Brasil, segundo o jornalista Rafael Sento Sé, foi uma coletiva de imprensa, subterfúgio até hoje comum no mundo do showbiz e que Jane organiza de forma pioneira no Rio de Janeiro.

 

 

Conheceu diversas personalidades da época, como os escritores João do Rio (1881 – 1921) e Julia Lopes de Almeida (1862 – 1934), que escreveu uma crônica a respeito dela publicada no jornal O Paiz, de 3 de outubro de 1911; a socialite, promotora cultural e feminista Laurinda Santos Lobo (1878 – 1946), o maestro Arthur Napoleão (1843 – 1925), o chargista Emílio Cardoso Ayres (1890 -1916), por quem foi retratada; o casal Stella (1879 – 1971) e Fernando Guerra Duval (18? – 1959), ela, feminista e uma das criadoras da Pró-Matre, e ele, fotógrafo amador, barítono e poeta; e o presidente da República, Hermes da Fonseca (1855 – 1923). Frequentou salões cariocas, o Club dos Diários e visitou diversos lugares da cidade como os morros do Corcovado e do Silvestre, os bairros à beira-mar da Zona Sul, a Biblioteca Nacional e o Jardim Botânico. E passeou muito pela Avenida Central (Careta, 28 de outubro; 4 de novembro, primeira coluna; O Paiz, 24 de setembro, primeira coluna30 de setembro, primeira coluna3 de outubro20 de outubro, quinta coluna; 29 de outubro, primeira coluna, 1º de novembro, primeira coluna9 de novembro , primeira colunaGazeta de Notícias, 21 de setembro, penúlltima coluna2 de novembro, segunda coluna, de 1911).

Seu poema, Rio de Janeiro, dividido em quatro partes – Matin, Crepuscule, Nocturne e Adieu – foi publicado em O Paiz, de 22 de outubro de 1911.

 

 

Fez durante sua temporada carioca três conferências: a primeira, O heroísmo da mulher francesa, em 29 de setembro, no salão da Associação dos Empregados do Comércio (Gazeta de Notícias, 29 de setembro30 de setembro, quarta colunaO Paiz, 2 de outubro de 1911, segunda coluna).

 

 

A segunda, intitulada A Parisiense, realizou-se no salão nobre do Jornal do Commercio, em 12 de outubro (Jornal do Commercio, 12 de outubro de 1911, primeira coluna).

 

 

A última foi proferida, em 24 de outubro, no Teatro Municipal sobre As escritoras francesas (O Paiz, 25 de outubro de 1911, primeira coluna).

 

 

No ano seguinte a sua partida, o jornal A Notícia, de São Paulo, promoveu um sorteio entre seus assinantes cujo terceiro prêmio seria um belo passeio ao Rio de Janeiro, à cidade maravilhosa, conforme a qualificou a notável poetiza francesa Jane Catulle Mendès (A Notícia (SP), 3 de dezembro de 1912, quarta coluna).

Segundo Alexei Bueno (1963 – ), no livro Rio Belle Époque: Álbum de imagens: Parece-nos, portanto, que a hoje totalmente esquecida Jane Catulle Mendès foi, senão a criadora, a oficializadora do epíteto do Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 16 de dezembro de 1965, última coluna). Conforme o título do livro de Rafael Sento Sé, fruto de 13 anos de pesquisa, foi Jane Catulle Mendès que criou o sonho de um Rio de Janeiro da Belle Époque.

 

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A Cidade Maravilhosa e Eugênio de Lemos (18? – 19?)

 

No mesmo ano da publicação do livro de Jane Catulle Mendés, 1913, no jornal A Notícia, na coluna “Contos de Hoje”, de Eugenio de Lemos, foi publicada a crônica A Cidade Maravilhosa. Acredita-se que esta foi a primeira vez que a expressão deu título a um artigo artigo jornalístico sobre o Rio de Janeiro. Nela, o autor comentava as belezas da cidade (A Notícia, 20 e 21 de março de 1913).

 

 

 

A Cidade Maravilhosa e Olegário Mariano (1889 – 1958)

 

 

O poeta e político recifense Olegário Mariano Carneiro da Cunha nasceu em 24 de março de 1899.  Publicou, em 1922, pela editora Pimenta de Mello, o livro de poesias Cidade Maravilhosa. Uma segunda edição, ampliada, foi editada pela Companhia Editora Nacional, em 1930. O livro traz 14 poemas, sendo quatro alusivos aos Rio de Janeiro: Cidade Maravilhosa, O aspecto mais lindo da cidade, Na feira livre de Copacabana e O crepúsculo na Quinta da Boa Vista. O príncipe dos poetas faleceu em 28 de novembro de 1958, no Rio de Janeiro (O Jornal, 21 de novembro de 1968).

 

 

 

Cidade Maravilhosa

Olegário Mariano

Cidade maravilhosa!
Na luz do luar, fluídica e fina,
Lembra excêntrica bailarina,
Corpo de náiade ou sereia,
Desfolhando-se em pétalas de rosa,
Com os pés nus sobre a areia.
Cidade do gozo e do vício!
Flor de vinte anos, rosa do desejo!
Corpo vibrando para o sacrifício,
Seios à espera do primeiro beijo.
Cidade do Amor e da Loucura,
Das estrelas errantes…Para vê-las,
Vibra no olhar de cada criatura
Uma ânsia indefinida
Pelo brilho longínquo das estrelas
Que é, como tudo, efêmero na vida.
Cidade do Êxtase e da Melancolia,
De dias tristes e de noites quietas;
Sombra desencantada da alegria
Dos que vivem de lágrimas, os poetas.
Cidade de árvores e sinos.
De crianças e jardins. Flor das Cidades;
Berço de ouro de todos os Destinos,
Fonte eterna de todas as Saudades.

Olegário Mariano foi membro da Academia Brasileira de Letras. Seu livro de estreia foi Angelus, em 1911. Sua obra poética foi publicada nos dois volumes de Toda uma vida de poesia (1957), publicados pela José Olímpio. Também publicou, durante anos, nas revistas Careta e Para Todos, sob o pseudônimo de João da Avenida, uma seção de crônicas mundanas em versos humorísticos, que foram reunidas nos livros: Bataclan (1927) e Vida, caixa de brinquedos (1933).

 

Manuel Faria (1895 – 1980) e a Cidade Maravilhosa 

 

 

O pintor Manuel Faria (1895 – 1980), um poeta do pincel que se vem revelando invulgarmente, aplicando-se em mostrar os panoramas deslumbrantes da cidade, inaugurou, no Palace Hotel, sob os auspícios do Centro Carioca, uma exposição em que a Cidade Maravilhosa encontra o seu pintor entusiasta e escrupuloso. Os quadros eram de paisagens do Rio de Janeiro e o pintor pretendia a partir da mostra organizar um álbum ilustrado que seria intitulado Cidade Maravilhosa (O Cruzeiro, 27 de dezembro de 1930, Jornal do Brasil, 16 de dezembro de 1930, segunda coluna).

 

 

 

Manuel Faria Guimarães estudou na Escola Nacional de Belas Artes, tendo sido discípulo de João Baptista da Costa (1865 – 1926), Lucílio de Albuquerque (1877 – 1939) e Rodolfo Chambelland (1879 – 1967). Ocupou a cadeira 9 da Academia Brasileira de Belas Artes.

 

 

A Light e a Cidade Maravilhosa

Foi publicado, em 1932, o livro Crônicas da Cidade Maravilhosa, editado pelo Departamento de Publicidade da Light. Na edição de Vida Literária, de dezembro de 1931, foi publicado seu prefácio que informava que tratava-se de uma obra de pura publicidade, mas que seria também uma obra literária (Vida Literária, dezembro de 1931).

 

 

O  livro, que seria um reflexo de nossa invejáveis belezas naturais e de nosso adiantamento industrial e de nossa civilização urbana, reunia artigos de escritores e artistas publicados em jornais e revistas sobre alguns dos melhores serviços da Light à população do Rio de Janeiro. Um exemplar do livro foi enviado para a revista Brasil Feminino (Brasil Feminino, julho de 1932).

 

 

César Ladeira (1910 – 1969) e a Cidade Maravilhosa

 

 

César Ladeira, um dos mais famosos locutores do Brasil e um dos ícones da Era de Ouro da rádio brasileira, foi contratado, em 1933, pela Rádio Mayrink Veiga como locutor e diretor artístico e mudou-se para o Rio de Janeiro. Em 1º de setembro de 1933, estreou no programa Crônicas da Cidade Gozada, onde lia crônicas de Genolino Amado (1902 – 1989). De acordo com Henrique Foréis Domingues, pseudônimo Almirante (1908 – 1980), em seu livro No Tempo de Noel Rosa: O Nascimento do Samba e a Era de Ouro da Música (2013), devido a críticas dos ouvintes, o programa teve seu nome mudado para Crônicas da Cidade Maravilhosa. Ladeira também publicava na revista O Malho a coluna “A Crônica da Cidade Maravilhosa” (O Malho, 30 de novembro de 1933Gazeta de Notícias, 6 de setembro de 1935, quinta coluna; Fon-Fon, 3 de setembro de 1938, segunda coluna).

 

 

A revista Cidade Maravilhosa, de César Ladeira, estreou no Teatro Recreio, em 4 de janeiro de 1935, e foi um sucesso. No elenco, estrelavam Aracy Cortes (1904 – 1985), Eva Todor (1919 – 2017), Ítala Ferreira (1901 – 1967), Zaira Cavalcanti (1913 – 1981), Henrique Chaves (19? – ?) e João Martins (19? – ?), dentre outros. Depois de um breve intervalo, voltou ao cartaz, em 12 de março de 1935. Sua última apresentação aconteceu em 17 de março (Gazeta de Notícias, 11 de janeiro de 1935, quarta coluna; O Jornal2 de janeiro de 1935, última coluna, 4 de janeiro de 1935, última coluna; 6 de janeiro de 1935, quinta coluna11 de janeiro de 1935, sétima coluna; 12 de março de 1935, última coluna; 16 de março de 1935, penúltima coluna).

 

 

Ainda em 1935, o enredo do bloco carnavalesco Caçadores de Veados foi Cidade Maravilhosa (O Jornal, 21 de fevereiro de 1935, quarta coluna).

 

A Cidade Maravilhosa, hino oficial do Rio de Janeiro, e André Filho (1906 – 1974), seu autor

 

 

Foi a marchinha Cidade Maravilhosa que consagrou definitivamente a expressão como epíteto do Rio de Janeiro! Antônio André de Sá Filho (1906 – 1974), que ficou conhecido como André Filho, nascido na Rua da Carioca, em 21 de março de 1906, compôs a música, que foi gravada por ele e por Aurora Miranda, em 4 de setembro de 1934 (Diário de Notícias, 24 de janeiro de 1965, primeira colunaCorreio da Manhã, 17 de fevereiro de 1965, terceira coluna).

 

 

O disco, cuja outra canção era Toda gente cantando, foi lançado no mês seguinte pela Odeon.

 

 

Cidade Maravilhosa

André Filho

Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil

Cidade maravilhosa, coração do meu Brasil!

Aurora entoa então, em tom menor, a primeira estrofe da segunda parte:

Berço do samba e das lindas canções
Que vivem n’alma da gente
És o altar dos nossos corações
Que cantam alegremente

Jardim florido de amor e saudade

Terra que a todos seduz
Que Deus te cubra de felicidade
Ninho de sonho e de luz

 

A marchinha Cidade Maravilhosa foi inscrita, no ano seguinte, no Concurso de Carnaval da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, obtendo, para indignação de André Filho e da plateia, a segunda colocação na categoria Marcha. A final aconteceu, em 10 de fevereiro de 1935, no Teatro João Caetano, e a canção vencedora foi Coração Ingrato, interpretada por Silvio Caldas (1908 – 1998), de autoria de Antônio Nássara (1910 – 1996) e Eratóstenes Alves Frazão (1901 – 1977). O terceiro lugar ficou para Joia falsa, de Osvaldo Santiago (1902 – 1976). Silvio Caldas foi muito vaiado e a André Filho foi feita grande manifestação, com toda a plateia de pé (A Noite, 11 de fevereiro de 1935O Jornal, 12 de fevereiro de 1935, quinta coluna).

Na visita que fez à redação do jornal A Noite, no mesmo dia do concurso, André Filho declarou:

“O julgamento eu coloco em plano secundário. O povo, o verdadeiro juiz, deu ao meu modesto trabalho o valor que eu, realmente, não imaginava ter “.

 

 

No mesmo concurso, na categoria Samba, a classificação foi a seguinte: em primeiro lugar, Implorar, do italiano Kid Pepe (1909 – 1961) e do português Germano Augusto (1901 – 1950), curiosamente, dois estrangeiros. Este samba causou uma polêmica pública quanto a sua real autoria, pois segundo alguns, seria do falecido sambista Cedá, que o vendera a Kid Pepe por 30 mil réis. Segundo depoimento de Kid Pepe reproduzido no livro “A canção no tempo”: “João Gaspar me mostrou um estribilho que gostei. Consegui então autorização dele, por escrito, para consertar o estribilho (que estava quebrado) e compor uma segunda parte e a introdução. Desse jeito fizemos “Implorar”. Agora, se provarem que o coro apresentado pelo Gaspar não lhe pertence, darei minha á família do falecido a parte dele” (Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira). Em segundo lugar, classificou-se o samba Foi ela, de Ary Barroso (1903 – 1964); e, em terceiro, Agradeça a mim, de Ismael Silva (1905 – 1978).

No mesmo ano, Cidade Maravilhosa foi incluída na trilha sonora do filme Alô, Alô, Brasil! (1935), dirigido por Alberto Ribeiro (1902 – 1971), João de Barro (1907 – 2006) e Wallace Downey (1902 – 1967), estrelado por Almirante, Ary Barroso, Aurora e Carmen Miranda (1909 – 1955), dentre outros.

Em 1936, estourou no carnaval! E o epíteto Cidade Maravilhosa se eternizou!

Sobre a inspiração de André Filho para escrever a música, que tradicionalmente encerra os bailes carnavalescos, há uma polêmica, destacada no site Discografia Brasileira, do Instituto Moreira Salles:

“Na coleção de jornais do seu acervo – que se encontra desde 2006, ano do seu centenário, sob a guarda do Instituto Moreira Salles –, há um recorte sem data de A Notícia com matéria que explica como o compositor teria se inspirado para fazer a música. Diz o texto que ele “Estava na Praia de Botafogo, pelos idos de 1933, eterno enamorado da beleza natural do Rio de Janeiro (…). Numa tarde assim, sentiu pulsar com intensidade toda a sua alegria de cidadão carioca (…). Ocorreu-lhe então a expressão: Cidade Maravilhosa”.

Versão que sua ex-mulher, Joana, contestaria: ao jornal O Globo de 12/01/1965, ela – já separada de André Filho – diria que o clássico surgiu em 1934, durante uma das madrugadas insones do então companheiro, e que, após escutar a melodia e a letra cantada por André, que batucava numa caixa de fósforos, teria sido interrogada por ele: “Ciganinha, você acha que deve ser marcha ou samba?”. Resposta dela: “Marcha!”. Difícil saber qual das duas narrativas é a verdadeira.

Ou se nenhuma delas, a julgar pelo que contam Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello no primeiro volume de “A canção no tempo” (Editora 34, 1997): “No início da década de 1930, o Rio era embelezado com a estátua do Cristo Redentor e a modernização de vários trechos da cidade, criando maiores condições para deixar o turista maravilhado. Foi nesta ocasião que, motivado por uma promoção chamada Festa da Mocidade, em que se elegia a Rainha da Primavera, André Filho compôs ‘Cidade maravilhosa’”. 

Cidade maravilhosa tornou-se a marcha oficial da Cidade do Rio de Janeiro, através da Lei nº 5, de maio de 1960, proposta pelo vereador Salles Neto (1910 – 1961) e promulgada pelo então governador da Guanabara, Carlos Lacerda (1914 – 1977) (Correio da Manhã, 20 de abril de 1960, quarta coluna; 29 de maio de 1960, quarta coluna; Diário de Notícias, 1º de maio de 1960, sexta coluna).

 

 

Mas em duas ocasiões tentaram destituir a canção como marcha oficial da cidade. A primeira vez, em 1962, quando a deputada Lygia Lessa Bastos (1919 – 2020) liderou um movimento para que o hino da cidade fosse uma música que possuísse “as características técnico-musicais peculiares e inconfundíveis do gênero“. Na opinião da deputada, a composição de André Filho não refletiria “na tradição, o sentimento patriótico da gente carioca” (Diário de Notícias, 14 de maio de 1961, quinta coluna; Jornal do Brasil, 13 de março de 1962, quarta coluna22 de março de 1962).

Em sua coluna no Jornal do Brasil, “Música Naquela Base”, o jornalista Sérgio Cabral publicou o resultado de uma enquete acerca do assunto que realizou consultando personalidades de várias áreas e apenas o historiador Ariosto Berna (18? – 1988), do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro; e o jornalista Prudente de Morais Neto (1904 – 1977) eram a favor da mudança. Os  seguintes foram contra: o crítico musical Lúcio Rangel, Carlos Lacerda, governador do Estado da Guanabara; o maestro e compositor César Guerra-Peixe, Cristóvão de Alencar, presidente da União Brasileira de Compositores; o compositor Miguel Gustavo e Stanislaw Ponte Preta, o jornalista Sérgio Porto (Jornal do Brasil, 22 de março de 1962). Cidade Maravilhosa seguiu como o hino da cidade!

 

 

O poeta Carlos Drummond (1902 – 1987) defendeu a manutenção da marchinha como hino na crônica Hino carioca (Correio da Manhã, 27 de abril de 1962, penúltima coluna).

 

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Em 1968, pela segunda vez, seu status de hino foi ameaçado: o deputado Frederico Trotta (1899 – 1980) foi o autor do projeto de lei sugerindo à Assembleia Legislativa a criação de um concurso para a escolha de um novo hino para a cidade promulgado, em 27 de  julho de 1968.  A marchinha Cidade Maravilhosa tinha, segundo ele, uma “música alegre, balanceante, carnavalesca e irreverente para o ritual das solenidades sérias e imponentes, às quais se torna forçoso o comparecimento de autoridades dos três poderes constituídos, bem como de personalidades estrangeiras”. Houve protestos e, em agosto de 1968, o presidente da Assembleia voltou atrás e sancionou a lei do deputado Everardo Magalhães Castro (1933 – 2010) que restituía Cidade maravilhosa à condição de hino oficial da cidade (Jornal do Brasil, 28 de julho de 1968, penúltima coluna; 6 de agosto, segunda coluna; O Jornal, 10 de agosto de 1968, segunda coluna; Correio da Manhã27 de julho de 1968, última coluna28 de julho de 1968, quinta coluna;).

André Filho faleceu, no Rio de Janeiro, em 2 de julho de 1974, no Hospital Souza Aguiar, vítima de uma úlcera. Foi velado no Museu da Imagem e do Som e sepultado no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju (Jornal do Brasil, 3 de julho de 1974, quarta coluna).

 

 

Ouça aqui várias gravações da marchinha Cidade Maravilhosa.

 

Abaixo, reprodução de um artigo publicado em O GLOBO, de 5 de agosto de 1968.

 

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(1)  A transcrição da crônica Os Sertanejos, de Coelho Neto, pode ser lida na página 282 do artigo Origem do epíteto “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro: lenda e verdade, de Ivo Karytowsky.

Leia aqui o artigo André Filho além dos ‘encantos mil’: os 120 anos do compositor ‘beijoqueiro’ que era um dos preferidos de Carmen Miranda, de autoria de Pedro Paulo Malta (1976-), publicada no site Discografia Brasileira do Instituto Moreira Salles .

Nota da editora: A inspiração para a publicação deste artigo surgiu quando assisti ao espetacular evento Cidade-Musa, no dia 6 de março de 2026, promovido pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, em sua sede, quando o jornalista Rafael Sento Sé proferiu uma maravilhosa palestra sobre seu livro A poeta da Cidade Maravilhosa: Jane Catulle Mendès e a viagem que criou o sonho de um Rio de Janeiro na Belle Époque, seguida pela sensacional aula musicada Cidade-musa: a história do Rio em marcha, samba e bossa, com Pedro Paulo Malta e Luís Filipe de Lima. Ao longo de minhas leituras para esse artigo, conheci o excelente artigo Origem do epíteto “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro: lenda e verdade, de Ivo Karytowski, que se tornou uma espécie de bússola para minha pesquisa. Como sempre, a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional tem um papel decisivo em meus escritos. Obrigada pelo talento de vocês!

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Blog Literatura, Rio de Janeiro & São Paulo

BUENO, Alexei. Rio Belle Époque: Álbum de imagens. Rio de Janeiro : Bem-Te-Vi Editora, 2016.

Cidade Maravilhosa por Olegário Mariano

COELHO NETO. Palestras da Tarde. Rio de Janeiro : Livraria Garnier Irmãos, 1911.

Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira

DOMINGUES, Henrique Foréis. No Tempo de Noel Rosa: O Nascimento do Samba e a Era de Ouro da Música. Rio de Janeiro : Editora Indigo Brasil, 2013

EFEGÊ, Jota. Figuras e coisas da Música Popular Brasileira vol1 e 2. Rio de Janeiro : Funarte, 1978.

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SÉ, Rafael Sento. A poeta da Cidade Maravilhosa: Jane Catulle Mendès e a viagem que criou o sonho de um Rio de Janeiro na Belle Époque. Belo Horizonte (MG) : Autêntica Editora, 2025.

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VALENÇA, Suetônio Soares. Tra-la-lá : vida e obra de Lamartine Babo – 3. ed., rev. e ampl. – Rio de Janeiro : FUNARTE, 2014.

XAVIER, Priscila. Cidade Maravilhosa: discursos entre o imaginário e o mito.

Uma breve história do abastecimento de água no Rio de Janeiro por Bárbara Primo e Maria Isabel Lenzi

As historiadoras Bárbara Primo, do Instituto Brasileiro de Museus (Ibram), e Maria Isabel Lenzi, do Museu Histórico Nacional (MHN), uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, são as autoras do artigo Uma breve história do abastecimento de água no Rio de Janeiro que resume os acontecimentos em torno do tema desde a instalação da cidade do Rio de Janeiro no Morro do Castelo, em meados do século XVI, até o princípio do século XX. Estão aqui disponibilizados três álbuns: dois com registros realizados pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) e um terceiro com fotografias de autoria desconhecida sob o título; Abastecimento D’Água: Obras executadas de 1907 a 1909. Os dois últimos fazem parte da Coleção Miguel Calmon, que foi ministro da Viação e Obras Públicas no governo de Afonso Pena, entre 1906 e 1909. O álbum sobre a canalização do rio São Pedro pertence à coleção Álbuns Iconográficos Avulsos e foi doado ao MHN por Oscar Trompowsky, em 1923.

 

Uma breve história do abastecimento de água no Rio de Janeiro

Bárbara Primo e Maria Isabel Lenzi*

 

 

A cidade do Rio de Janeiro, ao se instalar no Morro do Castelo, em 1557, encontrou um desafio: o abastecimento de água. Seus habitantes compravam água de indígenas e negros aguadeiros. Estes iam buscá-la no rio Carioca, que corria no vale que hoje denominamos de Laranjeiras e desaguava na praia do Flamengo. Com o pregão de “Hy! Hy! – palavra que na língua tupi significa água – o precioso líquido era anunciado à população.

Em 1673, no governo de João da Silva e Souza (1669-1674), foram iniciadas as obras da adução das águas do rio Carioca, mas os chamados Arcos Velhos da Carioca, de madeira, só seriam concluídos no início do século seguinte. Em 1723, sob o governo de Aires Saldanha, a água cristalina foi levada até o primeiro Chafariz da Carioca. O governo Gomes Freire de Andrade executou grandes reformas no aqueduto que, inaugurado em 1750, conserva ainda hoje as feições daquele tempo.

Com a mudança da corte portuguesa para o Rio de Janeiro e o consequente aumento da população, a água tornou-se escassa, obrigando as autoridades a buscarem outras fontes. Se até então a vertente Corcovado do Maciço da Tijuca era a mais usada, a partir do início do século XIX, os rios da vertente Tijuca seriam também aproveitados em diversos novos chafarizes e bicas que foram instalados na cidade.

 

 

O primeiro rio dessa vertente a ser aproveitado foi o rio Comprido que veio abastecer os chafarizes de Santana, do Catumbi e do Lagarto. Posteriormente, as águas do rio Maracanã foram também suprir esses chafarizes.

Com o passar do tempo, outros rios da vertente Tijuca foram incorporados ao abastecimento da cidade: o São João, o Trapicheiro, o Andaraí (ou Joana), o riacho da Cascatinha, o Gávea Pequena, o riacho do Hotel Aurora, o riacho A. Taylor e os córregos do Caranguejo, Soberbo, Morcego, Amaral e Machado.

A água, aos poucos, chegava às torneiras das residências. Todavia, este bem, tão fundamental à vida, deixava de ser gratuito, sendo incorporado definitivamente ao capital. As instituições públicas e as pessoas com maior poder aquisitivo, por óbvio, foram os pioneiros a ter água da torneira em casa e a mão de obra que pegava a água no chafariz público ficava cada vez mais escassa, pois a partir de 1850 o tráfico negreiro foi definitivamente abolido e muitos escravizados que viviam nas cidades foram vendidos para o Vale do Paraíba. Deste modo, o Rio de Janeiro seria palco e testemunha de uma série de transformações e avanços tecnológicos que, a partir da segunda metade do século XIX, vem responder a uma demanda advinda da escassez da mão de obra escravizada e de um aumento populacional e urbano.

O Rio sofre mais uma vez com falta d’água – os mananciais cariocas já não são mais suficientes para dar conta do abastecimento da cidade em franco crescimento, ainda dependente do Maciço da Tijuca como única fonte de abastecimento de água. O governo imperial contrata, então, o engenheiro Antonio Gabrielli (18? -?) para organizar comissões em busca de rios e fontes fora dos limites da cidade, sobretudo aqueles cujas nascentes estavam na serra do Tinguá, em Nova Iguaçu. Assim, entre os anos de 1877 e 1889, foram canalizadas as águas dos rios D’Ouro, Santo Antônio e São Pedro.

 

 

Para auxiliar as obras de canalização da Serra do Tinguá foi construída a ferrovia Rio D’Ouro. Ela percorria, inicialmente, 53 quilômetros entre o Caju e a Baixada Fluminense, mas ao longo dos anos, a estrada de ferro que serpenteava pelos subúrbios cariocas foi ampliada e acrescida de diversos ramais até atingir uma extensão total de mais de 100 quilômetros. O trajeto dos trilhos da Rio D’Ouro transformou a paisagem do seu percurso, condicionando a ocupação dos territórios do entorno e o surgimento de povoados ao longo do seu caminho.

 

 

Todavia, encontramos novamente crise de abastecimento no final do século XIX consequência da seca enfrentada pelos cariocas no início de 1889. Somada à escassez de água, a cidade enfrentava um surto de febre amarela e a crescente insatisfação popular já dava indícios da falência do Império. Em meio a este cenário, o engenheiro André Gustavo Paulo de Frontin (1860 – 1933)propôs como solução paliativa a captação provisória das águas da Serra do Tinguá para o reservatório de Pedregulho (Benfica). A ousadia da proposta, no entanto, não se deveu à grandiosidade da empreitada – canalização das águas por 18 km, mas ao tempo estimado para realizá-la: seis dias.

Diante de um problema tão grave e que já se arrastava por anos, a possibilidade de uma resolução tão imediata colocou em xeque a competência do já instável governo imperial. O apoio dos opositores do governo à proposta de Frontin e a repercussão do caso nos jornais fizeram deste um caso emblemático da crise político-social que conduziu o país à Proclamação da República em novembro deste mesmo ano.

Um pouco mais tarde, ao longo da primeira década do século XX, os rios Xerém e Mantiquira também foram domesticados de maneira a complementar o abastecimento da população carioca. Paralelamente à canalização de novos rios, diversas obras foram feitas para otimizar a distribuição e o tratamento as águas, como a construção de caixas de decantação, reservatórios e represas.

 

 

As novas possibilidades de fornecimento de água em domicílio traduziam-se em um maior comprometimento do poder público com a qualidade e armazenamento, o que resultou em novas práticas de controle deste fornecimento, assim como do consumo. É fato que a distribuição de água nas casas cariocas ocorreria de maneira desigual, privilegiando as famílias com maior poder aquisitivo.

Já em 1898 teve início a instalação de hidrômetros, mediante lei do ano anterior que regulamentava a cobrança de taxas. Assim, a distribuição de bicas e penas d’água acabaria por priorizar as freguesias mais abastadas em detrimento das regiões mais densamente povoadas.

 

 

O Museu Histórico Nacional preserva três álbuns com fotografias que documentam a domesticação da água no Rio de Janeiro. Dois deles trazem fotografias de Marc Ferrez. São eles: Obras de Canalização provisória do Rio S. Pedro, 1889 e Abastecimento D’Água do Rio de Janeiro. O terceiro álbum apresenta fotografias de autoria desconhecida sob o título Abastecimento D’Água: Obras executadas de 1907 a 1909. Os dois últimos fazem parte da Coleção Miguel Calmon, que foi ministro da Viação e Obras Públicas no governo de Afonso Pena, entre 1906 e 1909. O álbum sobre a canalização do rio São Pedro pertence à coleção Álbuns Iconográficos Avulsos e foi doado ao MHN por Oscar Trompowsky em 1923. Vale a pena apreciar essas fotografias.

 

Acessando o link para as fotografias do álbum Obras de Canalização provisória do Rio S. Pedro, 1889 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Acessando o link para as fotografias do álbum Abastecimento D’Água do Rio de Janeiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Acessando o link para as fotografias do álbum Abastecimento D’Água: Obras executadas de 1907 a 1909 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

*Bárbara Primo é historiadora do Instituto Brasileiro de Museus e Maria Isabel Lenzi é historiadora do Museu Histórico Nacional.

 

 

O Cemitério Israelita de Inhaúma e seu abandono por Beatriz Kushnir

Destacando uma imagem do Cemitério Israelita de Inhaúma, produzida por Augusto Malta (1864 – 1957), em 11 de abril de 1934, a Brasiliana Fotográfica publica o artigo Você quer saber quem somos nós? O Cemitério Israelita de Inhaúma e seu abandono, de autoria da historiadora Beatriz Kushnir. Inaugurado em 1o de outubro de 1916, lá encontram-se enterrados homens, mulheres e crianças, em um total de 797 pessoas. Mais que em outros cemitérios, uma “regra moral” impõe àquele espaço silêncio e isolamento. Na visão do escritor judeu Bashevis Singer, ali estaria enterrada a “escória” da comunidade judaica carioca: mulheres e homens de origem judaica e que exerciam a atividade da prostituição e da cafetinagem, que não é algo apenas masculino. As prostitutas judias ficaram conhecidas como “as polacas”.

Você quer saber quem somos nós?

O Cemitério Israelita de Inhaúma e seu abandono

Beatriz Kushnir*

 

 

No dia 11 de abril de 1934, uma quarta-feira, o fotógrafo Augusto Malta (1864 – 1957) (1) registrou um evento no Cemitério Israelita de Inhaúma. Na foto, homens e mulheres diante de uma lápide. Na tradição judaica, algum tempo após o enterramento, há a cerimônia de sua inauguração, com a colocação da pedra e das informações sobre o/a falecido/a. Possivelmente era isto que acontecia ali. Ao que parece, apenas cinco homens compareceram e, assim, não se seguia o rito religioso que exige um minian – um quórum de dez homens judeus adultos, ou seja, com 13 anos ou mais. Isto é um indício de que talvez o grupo não tivesse tantos homens judeus disponíveis.

A curiosidade do fotógrafo demonstra que as atividades naquele espaço despertavam, há muito, o interesse da sociedade carioca. Seguindo preceitos e ritos milenares, os judeus costumam visitar seus mortos no final de semana entre o Ano Novo (Rosh Hashaná) e o Dia do Perdão (Iom Kipur). Os vários cemitérios judeus, em todo o mundo, ficam lotados nesses dias. Mantendo tal costume, Zelda e sua irmã Celina apareceram no Cemitério Israelita de Inhaúma, em 1992, quando as encontrei. Diferentemente dos demais, lá as visitas são raras.

No subúrbio de Inhaúma, colado ao cemitério municipal, encontram-se enterrados homens, mulheres e crianças, em um total de 797 pessoas (2). Mais que em outros cemitérios, uma “regra moral” impõe àquele espaço silêncio e isolamento. Na visão do escritor judeu Bashevis Singer (1902 – 1991), ali estaria enterrada a “escória” da comunidade judaica carioca: mulheres e homens de origem judaica e que exerciam a atividade da prostituição e da cafetinagem, que não é algo apenas masculino.

As polacas, como ficaram conhecidas, estão presentes na letra de Mestre-Sala dos Mares, homenagem de João Bosco (1946-) e Aldir Blanc (1946 – 2020) a João Cândido (1880 – 1969), o Almirante Negro, líder da Revolta da Chibata (1910): “Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas, jovens, polacas e por batalhões de mulatas”. No poema Balada do Mangue, de Vinícius de Moraes (1913 – 1980), publicado em 1946, onde se lê: “Glabras, glúteas cafetinas / Embebidas em jasmim / Jogando cantos felizes / Em perspectivas sem fim. / Cantais maternais hienas / Canções de cefetinizar / Gordas polacas serenas / Sempre prestes a chorar”(3). Nos desenhos de Lasar Segall (1889 – 1957), intitulada Mangue (4), e de Di Cavalcanti (1897 – 1976) (5), e nas fotos de Augusto Malta (6).

 

 

 

 

Há também a música que Moreira da Silva (1902 – 2000) compôs para uma paixão, Estera Gladkowicer (1927 – 1968), uma polaca de origem russa naturalizada brasileira, nascida em 20 de maio de 1907, solteira e que chega ao Brasil em 1927. Estera era a sócia no 65 da Associação Beneficente Funerária e Religiosa Israelita (ABFRI) e morreu em 1968 por ingestão de barbitúricos. Intitulada Judia Rara, Kid Morengueira declara que “A rosa não se compara/a essa judia rara/criada no meu país/rosa de amor sem espinhos/diz que são meus carinhos/e eu sou um homem feliz/Os olhos dessa judia/cheios de amor e poesia/dorme o mistério da noite/brilha o milagre do dia/A sua boca vermelha/é uma flor singular/e meu desejo uma abelha/em torno dela a bailar” (https://www.youtube.com/watch?v=gXfRBepUV1M).

 

 

Quando encontrei Zelda e Celina ali, em 1992, elas vinham visitar seus mortos: a mãe, a sogra de uma irmã, amigos e amigas. Logo me perguntaram: “ah, você quer saber quem somos nós?”. Mas a quem pertence este espaço e por que está isolado? O Cemitério Israelita de Inhaúma materializa a necessidade que esse grupo teve de retirar de si o manto da marginalidade e da exclusão pela via da solidariedade e da sociabilidade com base na religiosidade. Isto porque, dentro dos preceitos religiosos judaicos as prostitutas são enterradas junto ao muro dos cemitérios, reforçando e demarcando o locus da exclusão e do estigma. A partir da vivência comunal religiosa construída por esse grupo, com a aquisição de um cemitério próprio, estes homens e mulheres puderam manter e reforçar sua identidade judaica.

No Rio de Janeiro, o espaço do cemitério revela números – participação feminina e masculina, existência de filhos – e hierarquias. Assim, foi durante a gestão de 1916 que a ABFRI inaugurou o Cemitério Israelita de Inhaúma, em um terreno na rua Piragibe nº 99, com fundos para o Cemitério Municipal de Inhaúma. O processo de aquisição do terreno remonta a fevereiro de 1912, quando a procuradora Norma Pargament reencaminhou um pedido ao prefeito da Cidade do Rio de Janeiro “(…) para que lhe fosse arrematado ou vendido um terreno junto ao Cemitério de Inhaúma, para nele ser instalado o cemitério da mesma Associação a fim de ali serem internados (sic). todos os seus associados”(7).

Em agosto de 1916, o Diretor Geral de Obras e Viação, José Dias Cupertim, aprovou a obra e, às vésperas do décimo aniversário de fundação da ABFRI, se inaugurou o seu cemitério em 1o de outubro de 1916. Este ato representa e corporifica o objetivo central de uma sociedade dessa natureza: a manutenção de uma identidade étnico-religiosa. Contrariamente ao que se poderia supor, os membros da ABFRI não eram ilustres desconhecidos. Tal qual a curiosidade de Malta em 1934, a inauguração de seu cemitério, em 1916, não passou despercebida na imprensa carioca, sendo noticiada na primeira página do jornal A Noite (8), em uma matéria que reproduz as imagens da época quanto aos imigrantes/cáftens/ prostitutas/judeus.

 

 

A reportagem, não assinada, foi ilustrada com uma foto do campo de Inhaúma cercado por grades e identificado com uma placa com o nome da Associação, expondo seu caráter ainda precário e o que difere muito do que acontecerá nas duas próximas décadas como a imagem do Malta demonstra.

No tom de uma verdadeira crônica policial, o jornal A Noite faz referências aos homens e mulheres ali presentes, seus trajes e costumes. Narrando o que denominava de bizarro, a notícia conta a história da primeira pessoa a ser ali enterrada “(…) de nome Helena. Coube a essa a primeira cova aberta. Helena. [moradora à] rua do Regente, (…) era austríaca, solteira e tinha 33 anos. Faleceu no dia 22 de outubro deixando uma filha “(…) Eva. Esse foi o nome escolhido por suas irmãs de religião. Mas a [criança] foi gerada da união da pecadora com um soldado naval. O soldado não quis que se chamasse Eva a pequena, nome judaico, e sim que se lhe desse Iracema, nome indígena”(9).

A descrição da “festa macabra” realizada pelo jornal misturava em um mesmo caldeirão todas as referências usualmente feitas ao fenômeno do tráfico de escravas brancas e à atuação de parte da comunidade judaica nessa área. Assim, o jornalista refere-se a uma possível cerimônia de inauguração do campo, no qual um carneiro sacrificado foi enterrado, seguindo-se a uma distribuição de doces e bolos e a um leilão de cargos beneméritos da Associação, mediante pagamento que reverteria para a construção das instalações do cemitério. Tais descrições poderiam se aproximar do capturado pelas lentes de Malta, em 1934. Também ali vemos alimentos e bebidas, que talvez se justifiquem pelo difícil acesso ao local naquele momento. O longo deslocamento de ida e volta exigiria a ingestão de um farnel.

Três dias após a publicação do A Noite, o mesmo órgão de imprensa registrou uma resposta do redator-chefe, David J. Perez, do jornal A Columna – órgão da comunidade israelita carioca. Perez escreveu uma nota negando existir qualquer preceito religioso que regesse a inauguração de um cemitério judeu e justificava a existência e atuação de judeus nesse tipo de ofício pela ausência de uma organização comunal na cidade (A Noite, 2 de novembro de 1916, segunda coluna).

O Cemitério Israelita de Inhaúma foi o primeiro cemitério israelita de caráter particular estabelecido na cidade do Rio de Janeiro. Anteriormente, os judeus desta cidade eram enterrados em quadras delimitadas no Cemitério do Caju, São João Batista ou dos Ingleses, segundo os preceitos religiosos judaicos. Dentro destes preceitos, os suicidas e as prostitutas eram enterrados junto ao muro, demarcando e reconfirmando a marca da exclusão. E foi certamente para sair deste lugar que aqueles homens e mulheres se organizaram associativamente a partir de 1906, em um ato pioneiro dentro do processo imigratório de judeus para o Brasil. Portanto, é errônea a visão segundo a qual, “(…) a municipalidade havia cedido à comunidade judaica uma extensa área, no Bairro de Inhaúma, para que fosse lá localizado um cemitério dentro dos preceitos da sua religião. (…) Aconteceu que os judeus da escravatura branca, chamados de ‘impuros’, quando souberam da concessão governamental, conseguiram das autoridades que seus mortos também fossem enterrados no cemitério de Inhaúma. Esse fato fez com que a comunidade, diante da impossibilidade de revogar a ordem, abandonasse o mencionado cemitério e, na impossibilidade de obter uma outra concessão. Dentro do então Distrito Federal. (…) foi instalado um cemitério em Vila Rosaly, atual município de São João de Meriti, então município de Nova Iguaçu” (Malamud, 1988, p. 83-4).

A ABFRI sobreviveu no século 20. Foi dirigida por mulheres que formavam uma irmandade. A última das quatro irmãs superioras foi Rebecca Freedman, a Becca, que faleceu com 103 anos, em 1984, talvez a verdadeira data de encerramento da associação. Ela havia sido eleita presidente por uma gestão de quatro anos, até 1970, porém nunca foi substituída. Após 62 anos de existência, a ABFRI se “exaure”, como me descreveu o seu contador, Sr. O. As rendas já não cobrem as despesas e as mensalidades já não conseguem ser pagas pelos associados. Diferente de suas companheiras e, certamente, não por sua vontade, Becca foi enterrada no Cemitério Comunal do Caju, pela Sociedade Cemitério Comunal, uma entidade israelita que cuidava até 2020 do Cemitério Israelita de Inhaúma. Mesmo com o fim da Associação, esse cemitério ainda recebeu sepultamentos e, na década de 1960, segundo a Comissão de Cemitérios do Rio de Janeiro, sua média anual era de oito enterros. O Livro de Registro dos óbitos dos associados da ABFRI encerra seus dados em outubro de 1967, embora outros cinco sócios tenham sido sepultados até setembro de 1970. Após esse ano, pela ausência de recursos e de pessoal que cuidasse do cemitério, ele fica abandonado.

As tentativas que membros da ABFRI realizam desde a década de 1960 para solucionar a questão chega a um limite e a transferência dos cuidados do cemitério para outra sociedade israelita me foi narrada pelo Sr. O como um processo longo. Anos mais tarde, já no final da década de 1970, a atual sociedade responsável – Sociedade Cemitério Comunal – procurou o Sr. O. Nos anos 2000, a entidade que assumiu o cemitério teve a intenção de usar as áreas livres restantes para outros enterros que não os dos sócios da  ABFRI. Os sócios seriam concentrados em uma área determinada, transladando-se os corpos, o que não é permitido pela religião judaica.

Para que isto não ocorresse, a Prefeitura do Rio tombou o cemitério como um sitio arqueológico (Decreto no 28.463, de 21 de setembro de 2007 e Decreto no 32.993, de 27 de outubro de 2010). Abandonado desde 2020, trancado e impossibilitado de receber visitantes, o espaço pede socorro!

 

* Beatriz Kushnir é Doutora em História/Unicamp. Autora, entre outros, de Baile de máscaras: mulheres judias e prostituição, as polacas e suas associações de ajuda mútua (Imago). Mantém o blog: http://polacas.blogspot.com

 

(1)  Augusto César Malta de Campos (Mata Grande, 1864 – Rio de Janeiro, 1957) foi fotógrafo com atuação na função oficial do então Distrito Federal entre as décadas de 1900 e 1930, nomeado pelo prefeiro Pereira Passos.
(2) Este dado foi retirado do Livro de Registro de Óbitos dos Adultos e Anjos sepultados no Cemitério da Associação
Beneficente Funerária e Religiosa Israelita – Inhaúma. Esse material foi elaborado por essa entidade e hoje se encontra em um depósito no arquivo da Sociedade Cemitério Comunal – instituição judaica carioca que tomava conta do local até 2020. Esse Livro possui páginas numeradas, 31 até 88, que dão conta do período de 22 de outubro de 1916 até 12 de outubro de 1967.
(3) Vinicius de Moraes, Antologia poética. Lisboa, Publicações D. Quixote, 2006.
(4) Lasar Segall, (Vilna, 1889 – São Paulo, 1957) foi um pintor, escultor e gravurista judeu nascido no território da atual Lituânia. Álbum de desenhos de Mangue foi realizado entre 1925 e 1928, e inclui texto de Mario de Andrade, Manuel Bandeira e Jorge de Lima. A edição de luxo é limitada a 135 exemplares.
(5) Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo, ou Di Cavalcanti, (1897–1976), abordou temas brasileiros em suas obras e, em 1929, pintou o quadro Mangue.
(6) Augusto César Malta de Campos (Mata Grande, 1864 – Rio de Janeiro, 1957) foi fotógrafo com atuação na função oficial do então Distrito Federal entre as décadas de 1900 e 1930, nomeado pelo prefeito Pereira Passos, instituiu um significativo acervo das transformações da então capital do Brasil.
(7) AGCRJ (Vol.4, p. 598, códice 58-3-22).
(8)“Uma festa Macabra – Os exploradores do judaísmo. Os ‘wizugths’ pagam o seu tributo – O destino de Helena”.
Jornal A Noite, RJ, 30/10/1916, p.1.
(9) Op. cit. Nota 8.

Série “Hotéis do Brasil” IX, Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” IX e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXXIII – O Hotel Avenida, um ícone da “Belle Époque” carioca, projetado por Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá

Série “Hotéis do Brasil” IX, Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” IX e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXXIII – O Hotel Avenida no Rio de Janeiro, projetado por Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá*

 

Com registros de Augusto Malta (1864-1957), que foi fotógrafo da prefeitura do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936; do fotógrafo amador Guilherme Santos (1871 – 1966) e de Marc Ferrez (1843 – 1923), brilhante cronista visual do Rio de Janeiro; o tema de nosso artigo é o Hotel Avenida, um marco arquitetônico e cultural carioca. Uma das fotografias de Marc Ferrez e as duas de Guilherme Santos são estereografias. Este último foi um entusiasta da fotografia estereoscópica, tendo sido um dos pioneiros dessa técnica no Brasil, ao adquirir, em 1905, na França, o Verascope, um sistema de integração entre câmera e visor, que permitia ver imagens em 3D, produzidas a partir de duas fotos quase iguais, porém tiradas de ângulos um pouco diferentes.

 

Thumbnail
Guilherme Santos. Hotel Avenida, c. 1920. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS

 

 

Acessando o link para as fotografias do Hotel Avenida disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Foi projetado pelo baiano Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá (1838 – 1915) e inaugurado, em julho de 1908 (A Imprensa, 30 de junho, segunda coluna; 2 de julho, segunda coluna), na então recém aberta Avenida Central, posteriormente Avenida Rio Branco.

 

 

Caminhoá, nascido em Santo Amaro da Purificação, em 1838, foi também responsável pelos projetos da Catedral de Petrópolis e da oficina de consertos dos bondes da Companhia de Ferro Carril Jardim Botânico e atual edifício do Instituto dos Arquitetos do Brasil. Havia estudado arquitetura na Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro e recebeu, da Assembleia Provincial da Bahia, em 1855, a subvenção de 200 francos mensais para estudar na Europa, onde frequentou a École de Beaux-Arts de Paris e foi aspirante, em 1857, no ateliê do arquiteto francês Louis-Hyppolyte Lebas (1782 – 1862), um dos mais influentes e populares profissionais de seu tempo. Regressou ao Brasil, em 1867. Faleceu em 14 de outubro de 1915 (Jornal do Commercio, 15 de outubro de 1915, última coluna).

 

 

A localização do luxuoso Hotel Avenida, em estilo eclético, ícone da Belle Époque carioca, e a presença de uma estação de bondes da Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico, proprietária do hotel, diante dele, propiciou que ele fosse muito mais do que um estabelecimento de hospedagem: foi o centro de gravidade de eventos sociais e culturais da cidades, dentre eles o carnaval.

 

 

O Hotel Avenida possuía 220 quartos, todos com telefone; restaurante, salão de jogos, água quente, iluminação elétrica e elevadores, tendo sido, na época de sua inauguração, o mais moderno e importante hotel do Brasil e um dos mais belos da América do Sul. Sua fachada frontal tinha 60 metros e cinco pavimentos. A altura do edifício era de quase 23 metros. Ao longo de sua existência hospedou importantes personalidades do cenário nacional e internacional. Abrigava a Galeria Cruzeiro, assim denominada devido a duas passagens em cruz, que ficava no andar térreo do hotel. Repleta de bares,  restaurantes e cafés, dentre eles o Nacional, o Ao Franziskaner (da Brahma), a Leiteria Mineira e o Laranjada Brasil, atraía um público de turistas, artistas e intelectuais. Ocupava uma quadra delimitada pela Avenida Central, o Largo da Carioca, a então denominada Rua de Santo Antônio, atual Bittencourt da Silva; e a Rua São José.

 

 

 

Por imposição do progresso vai abaixo a velha Galeria Cruzeiro. Essa foi a manchete da primeira página do Diário de Notícias, 2 de março de 1957. A demolição do Hotel Avenida começou em outubro de 1957 (A Noite, 25 de setembro de 1957, terceira colunaO Jornal, 15 de outubro de 1957, primeira coluna). Em seu lugar foi construído o Edifício Avenida Central, com 34 andares e o primeiro em estrutura metálica do Rio de Janeiro, inaugurado em 22 de maio de 1961 (Correio da Manhã, 23 de maio de 1961, primeira colunaManchete, 3 de junho de 1961). Foi projetado pelo Escritório Henrique Mindlin, também responsável pelo Shopping dos Antiquários e pelos hotéis Sheraton e Intercontinental.

Com a demolição do Hotel Avenida, começava na cidade uma transição para uma era de modernização e mudanças urbanas – muitos edifícios históricos foram demolidos e substituídos por construções modernas. Para a despedida, o Jornal do Brasil, a Rádio Jornal do Brasil e a Loja Palermo organizaram uma grande manifestação chamada Adeus à Galeria Cruzeiro, mesmo nome da música de autoria de Edel Ney e Aires Viana, cantada por Leny Eversong (1920 – 1984).

Adeus à Galeria Cruzeiro

Você viu, você leu, você ouviu
O comentário que corre pela cidade?
Você viu, você leu, você ouviu
A dolorosa verdade?

É certo que a Galeria Cruzeiro
Vai desaparecer
É a lei do progresso
Que faz a cidade crescer
Praça Onze, Café Nice

(O samba chorou
E a saudade ficou no coração do sambista)

Galeria (Galeria)

Este samba (triste samba)
É o adeus do artista
Adeus Galeria do chopp gelado

Das noites de boemia
Dos carnavais do passado
Adeus Galeria reduto do samba
De Chico, Noel e de tanta gente bamba

Galeria (adeus)
Galeria (adeus)

No dia da festa caia uma forte chuva na cidade mas personalidades importantes como Ademilde Fonseca (1921 – 2012), Altamiro Carrilho (1924 – 2012), Linda Batista (1919 – 1988), Pixinguinha (1897 – 1973), Pato Preto (1928 – 2005), Risadinha (1921 – 1976) e Silvinha Chioso (1938-), dentre outros, compareceram ao evento, que contou também com a participação de bandas militares e agremiações carnavalescas, como o Cordão da Bola Preta. Milhares de pessoas compareceram (Jornal do Brasil24 de novembro de 1957, sexta coluna, 26 de novembro de 1957, capa e página 13).

 

 

No poema A um hotel em demolição, sobre o desaparecimento do Hotel Avenida, seu autor, o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987), cita o fotógrafo Augusto Malta.

 

 A um hotel em demolição

 (Publicado no livro A vida passada a limpo (1973))

Carlos Drummond de Andrade

Vai, Hotel Avenida,
vai convocar teus hóspedes
no plano de outra vida.
Eras vasto vermelho,
em cada quarto havias
um ardiloso espelho.

Nele se refletia
cada figura em trânsito
e o mais que se não lia
nem mesmo pela frincha
da porta: o que um esconde,
polpa do eu, e guincha
sem se fazer ouvir.
E advindo outras faces
em contínuo devir,
o espelho eram mil máscaras
mineiroflumenpau-
listas, boas, más; caras.

50 anos-imagem
e 50 de catre
50 de engrenagem
noturna e confidente
que nos recolhe a úrica
verdade humildemente.

(Pois eras bem longevo, Hotel, e no teu bojo
o que era nojo se sorria, em pó, contigo.)

O tardo e rubro alexandrino decomposto.

Casais entrelaçados no sussurro
do carvão carioca, bondes fagulhando, políticos
politicando em mornos corredores
estrelas italianas, porteiros em êxtase
cabineiros

em pânico:
por que tanta suntuosidade se encarcera
entre quatro tabiques de comércio?
A bandeja vai tremulargentina:
desejo café geleia matutinos que sei eu.
A mulher estava nua no centro e recebeu-me
com a gravidade própria aos deuses em viagem:
Stellen Sie es auf den Tisch!

Sim, não fui teu quarteiro, nem ao menos
boy em teu sistema de comunicações louça
a serviço da prandial azáfama diurna.
Como é que vivo então os teus arquivos
e te malsinto em mim que nunca estive
em teu registro como estão os mortos
em seus compartimentos numerados?

Represento os amores que não tive
mas em ti se tiveram foice-coice.
Como escorre
escada serra abaixo a lesma
das memórias

de duzentos mil corpos que abrigaste
ficha ficha ficha ficha ficha
fichchchchch.
O 137 está chamando
depressa que o homem vai morrer
é aspirina? padre que ele quer?
Não, se ele mesmo é padre e está rezando
por conta dos pecados deste hotel
e de quaisquer outros hotéis pelo caminho
que passa de um a outro homem, que em nenhum
ponto tem princípio ou desemboque;
e é apenas caminho e sempre sempre
se povoa de gestos e partidas
e chegadas e fugas e quilômetros.
Ele reza ele morre e solitária
uma torneira
pinga
e o chuveiro
chuvilha
e a chama
azul do gás silva no banho
sobre o Largo da Carioca em flor ao sol.

(Entre tapumes não te vejo
roto desventrado poluído
imagino-te ileso emergindo dos sambas dos dobrados da polícia militar, do coro ululante de torcedores do campeonato mundial pelo rádio
a todos oferecendo, Hotel Avenida,
uma palma de cor nunca esbatida.)

Eras o Tempo e presidias
ao febril reconhecimento de dedos
amor sem pouso certo na cidade
à trama dos vigaristas, à esperança
dos empregos, à ferrugem dos governos,
à vida nacional em termos de indivíduo
e a movimentos de massa que vinham espumar
sob a arcada conventual de teus bondes.

Estavas no centro do Brasil,
nostalgias januárias balouçavam
em teu regaço, capangueiros vinham
confiar-te suas pedras, boiadeiros
pastoreavam rebanhos no terraço
e um açúcar de lágrimas caipiras
era ensacado a todo instante em envelopes
(azuis?) nos escaninhos da gerência
e eras tanto café e alguma promissória.

Que professor professa numa alcova
irreal, Direito das Coisas, doutrinando
a baratas que atarefadas não o escutam?
Que flauta insiste na sonatina sem piano
em hora de silêncio regulamentar?
E as manias de moradores antigos
que recebem à noite a visita do prefeito Passos para discutir novas técnicas urbanísticas?

E teus mortos
incomparavelmente mortos de hotel fraudados
na morte familiar a que aspiramos
como a um não morrer morrido;
mortos que é preciso despachar
rápido, não se contagiem lençóis
e guarda-pires
dessa friúra diversa que os circunda
nem haja nunca memória nesta cama
do que não seja vida na Avenida.

Ouves a ladainha em bolhas intestinas?

Balcão de mensageiros imóveis saveiros
banca de jornais para nunca e mais
alvas lavanderias de que restam estrias
bonbonnières onde o papel de prata
faz serenata em boca de mulheres
central telefônica soturnamente afônica
discos lamentação de partidos meniscos
papelariasconversariaschope da Brahma louco de quem ama
e o Bar Nacional pura afetividade
súbito ressuscita Mário de Andrade.

Que fazer do relógio
ou fazer de nós mesmos
sem tempo sem mais ponto
sem contraponto sem medida de extensão
sem sequer necrológio
enquanto em cinza foge o
impaciente bisão

a que ninguém os chifres
sujigou, aflição?
Ele marcava mar-
cavacava cava cava
e eis-nos sós marcados
de todos os falhados
amores recolhidos
relógio que não ouço
e nem me dá ouvidos
robô de puro olfato
a farejar o imenso
país do imóvel tacto
as vias que corria teu comando fecham-se
nas travessas em I
nos vagos pesadelos
nos sombrios dejetos
em que nossos projetos
se estratificaram. A ti não te destroem
como as térmitas papam
livro terra existência.
Eles sim teus ponteiros
vorazes esfarelam
a túnica de Vênus
o de mais o de menos
este verso tatuado
e tudo que hei andado
por te iludir e tudo
que nas arkademias
institutos autárquicos
históricos astutos
se ensina com malícia
sobre o evolver das coisas
ó relógio hoteleiro
deus do cauto mineiro,
silêncio,
pudicícia.
Mas tudo que moeste
hoje de ti se vinga
por artes
de pensada mandinga.
Deglutimos teu vidro
abafando a linguagem
que das próprias estilhas
se afadiga em pulsar
o minuto de espera
quando cessa na tarde
a brisa de esperar.
 
Rangido de criança nascendo.

Por favor, senhor poeta Martins Fontes, recite mais baixo suas odes enquanto minha senhora acaba de parir no quarto de cima, e o poeta velou a voz, mas quando o bebê aflorou ao mundo é o pai que faz poesia saltarilha e pede ao poeta que eleve o diapasão para celebrarem todos, hóspedes, camareiros e pardais, o grato alumbramento.

Anoitecias. Na cruz dos quatro caminhos, lá embaixo, apanhadores, ponteiros, engole-listas de sete prêmios repousavam degustando garapa.

Mujer malvada, yo te mataré! artistas ensaiavam nos quartos? I wil grind your bones to dust, and with your blood and it I’ll make a paste. Bagaço de cana, lá embaixo.
Todo hotel é fluir. Uma corrente
atravessa paredes, carreando o homem,
suas exalações de substância. Todo hotel
é morte, nascer de novo; passagem; se pombos
nele fazem estação, habitam o que não é de ser habitado
mas apenas cortado. As outras casas prendem
e se deixam possuir ou tentam fazê-lo, canhestras.
O espaço procura fixar-se. A vida se espacializa,
modela-se em cristais de sentimento.
A porta se fecha toda santa noite.
Tu não se encerras, não podes. A cada instante
alguém se despede de teus armários infiéis
e os que chegam já trazem a volta na maleta.
220 Fremdenzimmer e te vês sempre vazio
e o espelho reflete outro espelho
o corredor cria outro corredor
homem quando nudez indefinidamente.

 
No centro do Rio de Janeiro
ausência
no curral da manada dos bondes
ausência
no desfile dos sábados
no esfregar no repinicar dos blocos
ausência
nas cavatinas de Palermo
no aboio dos vespertinos
ausência
verme roendo maçã
verme roído por verme
verme autorroído
roer roendo o roer
e a ânsia de acabar, que não espera
o termo veludoso das ruínas
nem a esvoaçante morte de hidrogênio.
Eras solidão tamoia
vir a ser de casa
em vir a ser de cidade onde lagartos
 

Vem, ó velho Malta,
saca-me uma foto
pulvicinza efialta
desse pouso ignoto.

Junta-lhe uns quiosques
mil e novecentos,
nem iaras nem bosques
mas pobres piolhentos.

Põe como legenda
Q u e i j o I t a t i a i a
e o mais que compreenda
condição lacaia.

Que estas vias feias
muito mais que sujas
são tortas cadeias
conchas caramujas

do burro sem rabo
servo que se ignora
e de pobre-diabo
dentro, fome fora.

Velho Malta, please,
bate-me outra chapa:
hotel de marquise
maior que o rio Apa.

Lá do acento etéreo,
Malta, sub-reptício
inda não te fere o
super edifício

que deste chão surge?
Dá-me seu retrato
futuro, pois urge

documentar as sucessivas posses da terra até o juízo final e mesmo depois dele se há como três vezes três confiamos que haja um supremo ofício de registro imobiliário por cima da instantaneidade do homem e da pulverização das galáxias.

Já te lembrei bastante sem que amasse
uma pedra sequer de tuas pedras
mas teu nome — A V E N I D A — caminhava
à frente de meu verso e era mais amplo
e mais formas continha que teus cômodos
(o tempo os degradou e a morte os salva),
e onde abate o alicerce ou foge o instante
estou comprometido para sempre.

Estou comprometido para sempre,
eu que moro e desmoro há tantos anos
o Grande Hotel do Mundo sem gerência

em que nada existindo de concreto
— avenida, avenida — tenazmente
de mim mesmo sou hóspede secreto

Leia aqui a crônica Galeria, de autoria de Rubem Braga (1913 – 1990), publicada no Correio da Manhã, 10 de abril de 1953, sexta coluna.

A Brasiliana Fotográfica agradece ao jornalista e poeta André Luis Câmara (1965-) por sua colaboração na construção deste artigo.

 

*Este artigo foi escrito a partir de uma sugestão de Flávio Pinheiro, um dos criadores da Brasiliana Fotográfica, e é dedicado a ele.

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Agência Brasil

Dicionário de Belas Artes UFBA

Folha do Centro, junho de 1921

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

PAIVA, Claudia dos Reis. Abrindo passagem para o futuro: Galeria Pio X. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ambiente Construído da Universidade Federal de Juiz de Fora, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ambiente Construído, 2018.

PEREIRA, Sonia  Gomes. O Ensino de Arquitetura e a Trajetória dos Alunos Brasileiros na École des Beaux-Arts em Paris no Século XIX. XXII Colóquio Brasileiro de História da Arte, 2002.

Site Discografia Brasileira – IMS

Site Estilos Arquitetônicos

Site Rio de Janeiro Aqui

Site Urbe Carioca

Youtube – Hotel Avenida

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” VIII – O prédio do Supremo Tribunal Federal, atual Centro Cultural da Justiça Federal; o Museu Nacional de Belas Artes e o arquiteto Adolfo Morales de los Rios (1858 – 1928)

Com fotografias produzidas por Augusto Malta (1864 – 1957)Jorge Kfuri (1893 – 1965), Luiz Musso (18? – 19?), Marc Ferrez (1843 – 1923), pela Papelaria e Typographia Botelho e por fotógrafos ainda não identificados, a Brasiliana Fotográfica publica o oitavo artigo da série Os arquitetos do Brasil, sobre o antigo prédio do Supremo Tribunal Federal, atual Centro Cultural da Justiça Federal; e sobre o Museu Nacional de Belas Artes. Também conta um pouco da história de seu arquiteto, o espanhol Adolfo Morales de los Rios y Garcia de Pimentel  (1858 – 1928). Dos 17 prédios projetados por ele para a Avenida Central, no início do século XX, esses, que são os temas desse artigo, são os únicos que não foram demolidos. Além de arquiteto, Morales de los Rios foi urbanista, professor e historiador. Desempenhou um importante papel na modernização arquitetônica do Brasil em fins do século XIX e primeiras décadas do XX.

 

Edifício do Supremo Tribunal Federal, atual Centro Cultural da Justiça Federal

 

 

A construção do edifício do Supremo Tribunal Federal (STF) foi iniciada, em 1905, e estava integrada ao projeto de reurbanização do Rio de Janeiro, então a capital federal. A princípio, o prédio abrigaria a Mitra Arquiepiscopal, mas foi adquirido pelo governo federal para abrigar o STF, instalado em 3 de abril de 1909 (Brazilian Review, 21 de novembro de 1905, segunda colunaGazeta de Notícias, 2 de abril de 1909, terceira coluna). O edifício é um dos mais importantes testemunhos da arquitetura eclética do Brasil.

 

 

O prédio abrigou o STF até 1960, quando o tribunal foi transferido para Brasília, a nova capital do Brasil. Desde então, o edifício sediou o Superior Tribunal Eleitoral, o Tribunal de Alçada e varas da Justiça Federal de 1ª Instância. Após obras de restauração que duraram cerca de sete anos, o prédio foi aberto ao público, em 4 de abril de 2001, como Centro Cultural da Justiça Federal. Foi inaugurado com a exposição permanente Justiça e Cidadania e com a mostra temporária sobre a obra do importante fotógrafo cearense Chico Albuquerque (1917 – 2000), pioneiro da publicidade brasileira na década de 1940. Havia também uma exposição mostrando o prédio antes e depois da restauração (Jornal do Brasil, 4 de abril de 2001, primeira coluna).

 

Acesse aqui o link para as fotografias do antigo prédio do Supremo Tribunal Federal, atual Centro Cultural da Justiça Federal disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

Edifício do Museu Nacional de Belas Artes

 

 

Em 1908, a sede da Academia Nacional de Belas Artes foi transferida para um edifício também na Avenida Central e também projetado por Adolfo Morales de los Rios. Acredita-se que o desenho original de Morales de los Rios tenha sido modificado pelo escultor Rodolfo Bernadelli (1852 – 1931), que era diretor da escola. De acordo com o “afrancesamento” da Avenida Central, a fachada principal do prédio baseou-se em uma das alas do Museu do Louvre, projetada pelo arquiteto francês Hector-Martin Lefuel (1810 – 1880), que trabalhava para Napoleão III (1808 – 1873). Apresenta medalhões pintados por Henrique Bernardelli (1857 – 1936) retratando integrantes da Missão Francesa e outros artistas brasileiros, além de frontões, colunatas e relevos em terracota representando as grandes civilizações da antiguidade. As fachadas laterais são inspiradas no renascimento italiano e trazem mosaicos realizados pelo francês Félix Gaudin (1851 – 1930), com retratos de artistas famosos.

Em 1931, a Escola Nacional de Belas Artes foi incorporada à Universidade do Rio de Janeiro, futura Universidade do Brasil, e, a partir de 1937, dividiu o prédio com o Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), criado em 13 de janeiro de 1937 por iniciativa de Gustavo Capanema (1900 – 1985), ministro da Educação do governo de Getúlio Vargas (1882 – 1954), e inaugurado em 19 de agosto de 1938. O MNBA possui o maior acervo de obras de arte do século XIX no Brasil, sendo um dos mais importantes museus de arte do país. O edifício foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 24 de maio de 1973. Está fechado ao público desde 2020 e passa por uma reforma. Sua reabertura está prevista para fins de 2025. A atual Escola de Belas Artes foi, entre 1974 e 1975, transferida para o prédio Jorge Machado Moreira projetado para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), no campus do Fundão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

Acesse aqui o link para as fotografias do Museu Nacional de Belas Artes disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

 

Brevíssimo perfil do arquiteto Adolfo Morales de los Rios (1858 – 1928)

 

 

O arquiteto, urbanista, historiador e professor espanhol Adolfo Morales de los Rios y Garcia de Pimentel nasceu em Sevilha, em 10 de março de 1858, filho do capitão-general da Extremadura, de Granada e da Galícia, Adolfo Morales de los Rios e de Salud Pimentel y Garcia de Ambues. Trabalhou, inicialmente, na França, onde conheceu o arquiteto Viollet-le-Duc (1814 – 1879), um dos precursores da arquitetura moderna. Cursou arquitetura na Escola de Belas Artes de Paris, entre 1877 e 1882. Retornou à Espanha onde foi o responsável pelos projetos do Cassino de San Sebastián, do Gran Teatro de Cadiz e do Banco da Espanha, em Madri. Em 1889, aceitou o convite para fundar uma escola de arquitetura no Chile. Passou pelo Brasil para onde retornou, em 1890, devido a problemas políticos que impediram seu estabelecimento no Chile. Veio a convite do arquiteto belga mr. de Mot, encarregado da urbanização de Teresópolis (Correio da Manhã, 4 de setembro de 1928, quinta coluna).

 

“Fui e continuo a ser um bom brasileiro, sem deixar de ser um bom espanhol”.

Adolfo Morales de los Rios y Garcia de Pimentel

 

No Brasil, participou de obras de saneamento, de construção de estradas, tendo sido presidente e diretor da Companhia Auto-Viação Centro de Minas. Em 1897, passou a lecionar na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Em 1901, Morales de los Rios lançou a ideia de fazer uma ponte em estrutura metálica para ligar o Rio a Niterói, mas o projeto não saiu do papel.

Na primeira década do século XX, participou da construção da Avenida Central, cuja abertura foi uma das principais marcas da reforma urbana que ficou conhecida como o bota-abaixo, realizada, entre 1902 e 1906, pelo então prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos (1836 – 1913). Essas transformações foram definidas por Alberto Figueiredo Pimentel (1869-1914), autor da seção “Binóculo”, da Gazeta de Notícias, com a máxima “O Rio civiliza-se”, que se tornou o slogan da reforma urbana carioca. Essa intervenção urbana tornou o Rio uma cidade cosmopolita, moderna. Dos mais de 80 prédios da Avenida Central, 17 saíram da prancheta de Morales de los Rios – hoje de seus projetos para a avenida só restaram os prédios que são os tema deste artigo.

 

 

Morales de los Rios era também interessado em antropologia e tentou compreender ritos de feitiçaria, mitologia e história, e métodos construtivos dos “povos primitivos”, e entre estes estavam os índios brasileiros, que ocuparam um espaço especial em seus estudos, sobretudo em “Ôka, Taba, Tabajara” (MORALES DE LOS RIOS, Adolfo. Ôka, Taba, Tabajara. Documentação manuscrita, IHGB): um “tratado” sobre a arquitetura indígena.

Em janeiro de 1915, publicou seis artigos intitulados Uma questão importante – A primitiva fundação da cidade no jornal A Noite – 25 de janeiro26 de janeiro27 de janeiro28 de janeiro30 de janeiro e 31 de janeiro. Na seção “Reportagens Íntimas” da revista Fon-Fon, publicação de uma entrevista com Morales de los Rios (Fon-Fon, 18 de agosto de 1917).

Projetou cerca de quatro mil obras no Brasil, dentre elas a Basílica do Imaculado Coração de Maria, no Méier, tombada pelo município, em 2009, e única igreja em estilo neomourisco na cidade; o Palácio São Joaquim, na Rua da Glória, em estilo eclético e construído, em 1918, para ser a residência do primeiro arcebispo do Rio, cardeal pernambucano dom Joaquim Arcoverde Cavalcanti de Albuquerque (1850 – 1930).

 

 

Faleceu em 3 de setembro de 1928, na Casa de Saúde Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, e foi enterrado no Cemitério São João Batista (Correio da Manhã, 4 de setembro de 1928, quinta colunaO Paiz, 5 de setembro de 128, primeira colunaRevista da Semana, 8 de setembro de 1928). Foi casado com Maria Cuadras (18? -19?) e teve um filho, o também arquiteto Adolfo Morales de los Rios Filho (1887-1973), e duas filhas, Eugênia (18? -19?) e Margarita (18? -19?).

 

 

 

 

Outros prédios projetados por Adolfo Morales de los Rio representados no acervo fotográfico da Brasiliana Fotográfica

 

Jornal O Paiz (demolido)

 

Parque de Diversões da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil, em 1922 (demolido)

 

A convite dos organizadores da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil, realizada, em 1922, no Rio de Janeiro, escreveu o artigo Resumo monográfico da evolução da arquitetura no Brasil (1922/1923), que foi publicado no Livro de Ouro Comemorativo do Centenário da Independência e da Exposição Internacional do Rio de Janeiro – pág 97 a 103.

 

Palácio São Joaquim, construído entre 1912 e 1918

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

O GLOBO, 3 de janeiro de 2016 e 30 de junho de 2024

RAMOS, Renato Menezes (org.). O Restaurante Assyrio é Persa… e o Café Mourisco também, de Adolfo Morales de los Rios: Comentários e Anotações. 19&20, Rio de Janeiro, v. VI, n. 2, abr./jun. 2011

RICCI, Claudia Thurler. Sob a inspiração de Clio: O Historicismo na obra de Morales de los Rios19&20Rio de Janeiro, v. II, n. 4, out. 2007.

Site Centro Cultural da Justiça Federal

Site Enciclopédia Itáu Cultural

Site Ibram

Site Instituto Moreira Salles

Site Museus do Rio

Memórias da saúde pública pelas lentes de Augusto Malta

As bibliotecárias Luciana F. Lau e Danielle Barreiros e o arquivista Fabio Carvalho, todos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, desde 2024 uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, são os autores da publicação Memórias da saúde pública pelas lentes de Augusto Malta sobre a história do atendimento de emergência no Rio de Janeiro e a criação, em 1907, do Posto Central de Assistência Pública, origem do atual Hospital Municipal Souza Aguiar. Segundo o artigo, Augusto Malta (1864 – 1957) com suas técnicas fotográficas, que combinavam precisão documental e sensibilidade artística, deixou um legado que nos permite refletir sobre a fotografia urbana como instrumento indispensável para a preservação da memória das cidades, incluindo a memória da saúde pública. Ele foi o fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro, cargo criado para ele, entre 1904 e 1936, quando se aposentou.

 

Memórias da saúde pública pelas lentes de Augusto Malta

 Luciana Lau, Danielle Barreiros e Fábio Carvalho*

 

 

No início do século XX, o Rio de Janeiro, então capital da República, transformava-se em um grande canteiro de obras. Com o propósito de civilizar e modernizar a cidade, o prefeito Pereira Passos (1902-1906) promoveu reformas radicais que alteraram para sempre sua paisagem urbana e social. Essas transformações, marcadas tanto pelo progresso quanto por profundas desigualdades, foram meticulosamente registradas pelas lentes de Augusto Malta (1864-1957), fotógrafo oficial da prefeitura e principal cronista visual dessa era de mudanças e de paisagens efêmeras de uma cidade em transição. Com suas técnicas fotográficas, que combinavam precisão documental e sensibilidade artística, deixou um legado que nos permite refletir sobre a fotografia urbana como instrumento indispensável para a preservação da memória das cidades, incluindo a memória da saúde pública.

O ambicioso projeto de modernização de Pereira Passos, popularmente conhecido como “bota-abaixo”, tinha como objetivo sanear e embelezar a capital federal, seguindo os moldes das grandes metrópoles europeias.

Visando modernizar a saúde pública, em sua gestão, Pereira Passos determinou a criação de postos médicos nas Agências Municipais, sendo possível entrever a possibilidade de atendimento emergencial na cidade do Rio de Janeiro. O então prefeito solicitou  verba para a criação do primeiro grande posto de assistência médica que foi instalado na rua Camerino. O Posto Central de Assistência Pública na Rua Camerino foi a primeira unidade de socorro médico de emergência do município. Tendo suas obras iniciadas em 1906, foi inaugurado em 1º de novembro de 1907 pelo prefeito à época, Francisco Marcelino de Souza Aguiar (1855 – 1935), sendo futuramente homenageado por esta instituição, que foi denominada Hospital Municipal Souza Aguiar, como a conhecemos atualmente.

Como pioneiro na prestação do serviço de urgência, o Posto teve o desafio de implementar um novo modelo de serviço de emergência, que até aquele momento era realizado por farmácias e médicos particulares.

A implementação do novo processo de atendimento de urgência teve como desafio inicial modificar o comportamento dos cidadãos, que após sofrerem algum incidente na rua ou em casa, queriam ser atendidos somente pelos farmacêuticos e médicos particulares, pois esse era o hábito da população. E também porque estranhavam e até “desconfiavam” das ambulâncias brancas, pedindo passagem pela cidade, e do fato de serem levados para um hospital, um lugar desconhecido. Assim, a fim de familiarizar a população com o novo modelo de atendimento de emergência, foi realizada uma estratégia de marketing recomendada por Dr. Paulino Werneck (18? – 19?), superintendente do Posto Central de Assistência, chamada de “ensaios de socorro” na qual pessoas caiam pelas ruas e recebiam atendimento emergencial por meio das ambulâncias. A estratégia mostrou-se efetiva e as ambulâncias passaram a ser chamadas de “mãe carinhosa”.

 

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Ensaio de socorro / DISTRITO FEDERAL (BRASIL), 1922, p. 248

 

Em pouco tempo a quantidade de chamados de urgência aumentaram e o Posto Central de Assistência já não conseguia atender as solicitações recebidas, tornando-se necessário ampliar sua capacidade de atendimento.

Desta forma, o prefeito Souza Aguiar decidiu transferir o Posto Central para um novo endereço na Praça da República.  Coube ao prefeito general Inocêncio Serzedelo Corrêa (1858 – 1932), depois de determinar que fossem feitas ampliações no edifício, inaugurar o Posto em 17 de outubro de 1910. “O prédio tinha três pavimentos e estava equipado com o que havia de mais moderno” (RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 23).

Após a inauguração houve diversas ampliações e reconfigurações dos espaços. Em 1921, após reformulações nos serviços de assistência pública da capital, a Lei n.º 2.401 de 22 de janeiro determinava em seu artigo 28, a construção urgente de um Hospital de Pronto Socorro em anexo ao Posto Central, para a qual já havia verba consignada de mil contos de réis.  O Hospital do Pronto Socorro foi finalmente inaugurado no dia 20 de setembro de 1925.

 

 

Sobre o novo Hospital de Pronto Socorro inaugurado em 1925 comentou-se:

“[…] atendia, de modo satisfatório, aos reclamos da população, visto que se achava bem aparelhado e instalado para aquela época, como também situado em local de grande concentração populacional. Porém, dentro de pouco tempo, verificou-se a insuficiência de recursos do Hospital, tanto no que se relacionava com as suas possibilidades técnicas, como materiais, para o atendimento da população que crescia rapidamente”(RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 39).

Augusto Malta registra mais uma imagem do Posto Central na Praça da República revelando o poder da fotografia como guardiã da memória urbana:

 

 

Na gestão do interventor Pedro Ernesto (1884 – 1942), foi inaugurada uma maternidade no Hospital de Pronto Socorro, com o objetivo de ampliar sua área de atuação junto à população.  E houve a unificação dos serviços do antigo Posto Central de Assistência e do Hospital de Pronto Socorro, permanecendo o último nome.

 

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Prefeito Pedro Ernesto em visita ao Hospital de Pronto Socorro / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 53

 

Novos planos para reforma do Hospital de Pronto Socorro surgiram com o professor Clementino Fraga (1880 – 1971) à frente da Secretaria-Geral de Saúde e Assistência. Previa-se a instalação de 300 leitos e a aquisição de novas ambulâncias no projeto do novo hospital.

 

Projeto do novo hospital / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 57

Projeto do novo hospital / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 57

 

Em 2 de junho de 1955, enquanto o novo hospital ainda estava em construção, o prefeito Alim Pedro (1907 – 1975), no centenário do nascimento de Souza Aguiar, deu ao Hospital do Pronto Socorro, o nome de Hospital Geral Souza Aguiar em reconhecimento. Em 1962, por meio da Lei n.º 279, o hospital passa a ser chamado Hospital Estadual Souza Aguiar e, posteriormente, torna-se Hospital Municipal Souza Aguiar.

 

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Um busto em homenagem a Francisco Marcelino de Souza Aguiar está no segundo andar da Biblioteca Nacional em exposição permanente

 

Na edificação do novo hospital, por se tratar de uma construção de grandes proporções, as novas instalações entraram em funcionamento em etapas, à medida em que eram finalizadas e tinham condições de serem utilizadas. Até que em 04 de novembro de 1968, o novo prédio do Hospital Souza Aguiar foi inaugurado.

 

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Hospital Souza Aguiar / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 113

 

Porém as obras de melhorias no Hospital Souza Aguiar não pararam, conforme discursa o governador Negrão de Lima, mais obras seriam realizadas até que ele ficasse à altura dos melhores hospitais (LIMA, Negrão de., 1965/1970), sendo considerado hoje  o hospital com a maior emergência pública do Rio de Janeiro e da da América do Sul.  Além disso, seu edifício atual, projetado pelo arquiteto Ary Garcia Roza (1911 – 1999), é considerado patrimônio da cidade e foi tombado em 2009. Possui belíssimas obras do artista e paisagista Roberto Burle Marx (1909 – 1994), como o painel interno de pedras e o muro escultório.

 

Hospital Souza Aguiar. Mural de pedras.

Hospital Souza Aguiar. Mural de pedras.

 

** Luciana F. Lau e Danielle Barreiros são bibliotecárias e Fabio Carvalho é arquivista do IBGE.

 

Referências:

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Ivo Pitanguy: bibliografia. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2017.

A UNIÃO. Rio das Ostras, RJ: [s.n.]. Semanal. Acesso em: 2 abr. 2025.

DISTRITO FEDERAL (BRASIL). PREFEITURA. Assistência pública e privada no Rio de Janeiro (Brasil): história e estatística: commemoração do centenário da independência nacional. Rio de Janeiro: Typ. do Annuario do Brasil, 1922. 912 p.

LIMA, Negrão de (Governador). Discursos: Visita às Novas Instalações do Hospital Souza Aguiar de [1965/1970]. Rio de Janeiro, RJ: [s. n.], [1965/1970]. Acesso em: 06 de março de 2025.

RIO DE JANEIRO (Estado). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS. Assistência pública: Guanabara : 80 anos de história. Rio de Janeiro: Secretaria de Saúde do Estado da Guanabara, Superintendência de Serviços Médicos, 1972. 408 p.

SERVIÇO DE UROLOGIA. Hospital Souza Aguiar: experiência em atendimentos de urgência e emergência. [S. l.]: Serviço de Urologia, 2023. Acesso em: 06 de março de 2025.

O Rio de Janeiro é a nova Capital Mundial do Livro

Hoje, quando é comemorado o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, o Rio de Janeiro assume o posto de Capital Mundial do Livro. É a primeira cidade de língua portuguesa escolhida para receber este título, um reconhecimento da excelência de seus programas de promoção da leitura. Atualmente, a língua portuguesa é falada por cerca de 280 milhões de pessoas distribuídas por todos os continentes, sendo o quarto idioma mais falado no mundo como língua materna. No dia 5 de maio é celebrado o Dia da Língua Portuguesa nas Nações Unidas.

A cerimônia da entrega do título ao prefeito do Rio de Janeiro, Eduardo Paes (1969-), pelas mãos da prefeita de Estrasburgo, Jeanne Barseghian (1980-) aconteceu no Teatro Carlos Gomes, na Praça Tiradentes. Foi realizado um espetáculo musical que narrou a história da língua portuguesa e reverenciou grandes nomes da literatura. A celebração misturou tecnologia, literatura e expressões artísticas populares.

Em sua fala, o prefeito destacou a Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras da Brasiliana  Fotográfica e a mais antiga instituição cultural do Brasil, criada por dom João VI (1767 – 1826), em 1810. Possui um acervo de cerca de 9 milhões de itens e foi considerada pela UNESCO como uma das principais bibliotecas nacionais do mundo.

“— É um ano fundamental. O Rio já foi capital de muita coisa. Agora, é capital dos leitores — afirmou Paes. — Temos o Real Gabinete Português, a Biblioteca Nacional, a Academia Brasileira de Letras. Os grandes escritores brasileiros todos passaram por aqui.”.

A escolha do Rio de Janeiro como Capital Mundial do Livro foi feita pela UNESCO – Organização das Nações Unidas para Educação, Ciência e Cultura -, que desde 2001 designa uma cidade “que se compromete a realizar atividades com o objetivo de incentivar uma cultura de leitura e difundir os valores da Rede em todas as idades e grupos populacionais, dentro e fora das fronteiras nacionais. Através do programa WBC, a UNESCO reconhece o compromisso de uma cidade em promover livros e fomentar a leitura durante um período de 12 meses (entre um Dia Mundial do Livro e dos Direitos de Autor, 23 de Abril, e o seguinte), bem como no futuro”.

A Associação Internacional de Editores (IPA), a Federação Europeia e Internacional de Livreiros (EIBF), o Fórum Internacional de Autores (IAF) e a Federação Internacional de Associações de Bibliotecas (IFLA) são membros do Comitê Consultivo da Capital Mundial do Livro da UNESCO. Por ter sido escolhida Capital Mundial do Livro, o Rio de Janeiro entra para uma rede de cooperação internacional com as cidades dos anos anteriores.

 

 

A Brasiliana Fotográfica celebra esse evento destacando uma fotografia da sala de trabalho da Seção de Impressos da antiga sede da Biblioteca Nacional, que ficava na Rua do Passeio. A imagem faz parte do Album de vistas da Bibliotheca Nacional, de autoria de Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?).

 

 

Pouco se sabe, até o momento, da vida  pessoal de Antonio Luiz Ferreira. Provavelmente iniciou suas atividades como fotógrafo na década de 1880 e o último registro da existência de seu ateliê fotográfico verificado pela pesquisa da Brasiliana Fotográfica é de 1904. Apesar de sua carreira discreta, Ferreira é considerado um importante fotógrafo do século XIX por ter documentado cenas ligadas às celebrações pela abolição da escravatura em 1888 como a Assinatura da Lei Áurea no Paço Imperial, em 13 de maio de 1888; e a Missa Campal de 17 de maio de 1888. As imagens captadas por ele nessas ocasiões tão marcantes da história do país caracterizaram-se pela expressividade dos rostos retratados, decorrência, provavelmente, da relevância do acontecimento histórico e do fascínio causado pela própria presença da câmara fotográfica.

Em 1902, foram publicados dois álbuns realizados por Antonio Luiz Ferreira, que havia sido contratado para documentar o edifício sede da Biblioteca Nacional, na Rua do Passeio, onde a instituição permaneceu até 1910. Um, com as cópias em papel albuminado e outro, com as cópias produzidas em platina, que apresentam melhores atributos de estabilidade e permanência.

 

Retrospectiva das cidades que já foram Capital Mundial do Livro

2001 – Madri, Espanha

  2002 – Alexandria, Egito

2003 – Nova Deli, Índia

    2004 – Antuérpia, Bélgica

2005 – Montreal, Canadá

2006 – Turim, Itália

2007 – Bogotá, Colômbia

2008 – Amsterdã, Holanda

2009 – Beirute, Líbano]

2010 – Liubliana, Eslovênia

2011 – Buenos Aires, Argentina

2012 – Erevan, Armênia

2013 – Bangkok, Tailândia

2014 -Port Harcourt, Nigéria

2015 – Incheon, Coreia do Sul

2016 – Breslávia, Polônia

2017 – Conacri, Guné

2018 – Atenas, Grécia

2019 – Xarja, Emirados Árabes Unidos

2020 – Kuala Lumpur, Malásia

2021 – Tbilisi, Geórgia

2022 – Guadalajara, México

2023 – Acra, Gana

2024 – Estrasburgo, França

 

Ao longo do próximo ano, uma extensa programação focada em livros e literatura vai tomar acontecer no Rio de Janeiro. Será ancorada por cinco grandes ações: a Bienal do Livro, a Noite com Livros, o Book Parade Rio 2025, o Rio de Livros e a Academia Editorial Jr.. Haverá também uma inédita edição carioca do Prêmio Jabuti, além da Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) e outras festas e feiras, como as de Santa Teresa e de Santa Cruz.

A marca, lançada no dia 11 de abril de 2025 em uma cerimônia no Real Gabinete e Leitura , e o slogan do evento foram escolhidos pela Academia Brasileira de Letras. O Rio de Janeiro continua lendo faz referência ao clássico Aquele Abraço, do imortal Gilberto Gil.

 

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A próxima Capital Mundial do Livro será Rabat, em Marrocos.

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Esse artigo foi atualizado em 24 de abril de 2025.

 

Fontes:

Extra, 12 de abril de 2025

O GLOBO, 10 de abril de 2025

O GLOBO, 23 de abril de 2025

Site G1

Site IPA

Site Prefeitura do Rio de Janeiro

Site UNESCO

Série “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” VI – O “Balança-mas-não-cai” por Cássio Loredano

Pela terceira vez o jornalista e caricaturista Cássio Loredano escreve para a Brasiliana Fotográfica. Desta vez, o assunto do sexto artigo da série Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica é o prédio “Balança-mas-não-cai”. Cássio conta um pouco da história do emblemático complexo de três edifícios localizado, na Avenida Presidente Vargas, inaugurada no Centro do Rio de Janeiro, em 7 de setembro de 1944 (Jornal do Brasil, 8 de setembro de 1944). Também estão destacadas imagens de igrejas que foram demolidas para a construção da avenida. O acervo fotográfico dos Diários Associados – Rio de Janeiro, foi incorporado, em 2016, por um dos fundadores da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles (IMS).

O “Balança-mas-não-cai” por Cássio Loredano

Cássio Loredano*

 São três aqueles prédios da avenida Presidente Vargas, no Rio, que a cidade se acostumou a ver como único e a que deu apelido no singular: “Balança”, na intimidade; por extenso, “Balança-mas-não-cai”. São esses siameses os edifícios Prefeito Frontin, Maipú e Onze de Junho. Existem na coleção Diários Associados do acervo do Instituto Moreira Salles ao menos três imagens mostrando que o conjunto formado pela pequena quadra entre a avenida e as ruas Santana, Gustavo Barroso e Frederico Silva subiu um terço de cada vez, três fotos que comunicam a quem as vê uma sensação esquisita de desconforto: como assim aquilo não ter sido desde sempre uma coisa só?

A foto em que aparece apenas um dos prédios, o Prefeito Frontin, é do desfile militar que acontece todo 7 de setembro, neste caso o de 1947.

 

 

E as que mostram já dois, faltando ainda o Maipú no meio, são as duas de 1951; uma do Carnaval e a outra de pouco depois, em maio, com uma formação de cadetes da Aeronáutica alinhada tendo às costas o Campo de Santana, portanto de frente para o palácio Duque de Caxias, atual comando militar do leste.

 

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Carnaval 1951, c. fevereiro de 1951. Praça Onze, Rio de Janeiro /  O Jornal,  4 de fevereiro de 1951

 

Aviação - Exame de admissão para Aeronáutica, maio de 1951. Centro, Rio de Janeiro

Aviação – Exame de admissão para Aeronáutica, maio de 1951. Centro, Rio de Janeiro / Diários Associados (RJ) – Acervo IMS

 

A avenida Presidente Vargas foi aberta na administração do prefeito Henrique Dodsworth, entre 1941 e 1944, arrasando tudo o que estava entre as velhas ruas de São Pedro e do Sabão e, mais adiante, entre Senador Eusébio e Visconde de Itaúna, ao longo do canal do Mangue. Foram vitimados nesse percurso parte do Campo de Santana e a praça Onze de Junho e os largos de São Domingos e do Capim, os três últimos completamente apagados da cartografia. E – aqui já criminosamente – as igrejas do Bom Jesus do Calvário, São Domingos e sobretudo a jóia de inexcedível beleza e importância arquitetônica que era a de São Pedro dos Clérigos.

 

 

 

 

Para os paredões que se projetou construir ao longo do novo corredor, estabeleceu-se o gabarito de 22 andares para edifícios de lojas e sobrelojas bem recuadas em relação às fachadas superiores apoiadas sobre pilotis. Critérios observados à risca também pelo “Balança”.
 
Transferida a capital da República para o planalto central apenas dezesseis anos depois de aberta a avenida, teve início o gradual esvaziamento funcional e econômico do Rio. Arrefeceu o inicial entusiasmo incorporador, que só teve fôlego, do lado ímpar, da Candelária até a esquina da rua Uruguaiana, e, do par, até pouco depois da avenida Passos. De forma que o “Balança”, residencial, erguido muito mais longe, ficou completamente isolado de seus primos-ricos de escritórios do começo da avenida. E próximo demais da zona do meretrício do canal do Mangue. Isolamento aquele e proximidade esta as razões de ir sendo então parcialmente ocupado por agentes do lenocínio e do tráfico ilegal de drogas, com os delitos de que essas atividades costumam se fazer acompanhar.
 
Daí o apelido. “Balança-mas-não-cai” foi um programa humorístico semanal de Haroldo Barbosa e Max Nunes na Rádio Nacional, entre 1950 e 1967. Divertia a audiência com piadas sobre a convivência caótica nesses cortiços modernos surgidos com a verticalização urbana.

 

 

Ultimamente, iniciou-se uma lenta retomada imobiliária da avenida, agora já não mais tomando conhecimento do gabarito original. Chegou o Sambódromo, chegaram oito novos edifícios, entre eles o dos Correios, o Arquivo da Cidade e o “Piranhão”, centro administrativo da prefeitura. Chegaram o metrô Estácio e Cidade Nova. Povoaram-se as ruas, encheram-se de comércio e casas de pasto onde aquele formigueiro de funcionários tem que almoçar. Tudo ficou mais caro, aluguéis, por exemplo, fator este que também espanta a turma que vive de expedientes menos rendosos. O “Balança” está menos isolado e um tanto mais seguro. Os aluguéis no Prefeito Frontin oscilam entre R$1.500 e R$2.000 em andar mais alto, condomínio a R$450. No 4º andar esteve um apartamento à venda por R$270 mil e outro no 13º  por R$450 mil. No Maipú é tudo mais em conta. No Onze de Junho, mais silencioso ao ser de fundos, um quarto-e-sala está na base de R$1.200 o aluguel, e R$1.500 um 2-quartos, condomínio a R$540.

 

* Cássio Loredano é jornalista e caricaturista. E, sobretudo, um apaixonado pelo Rio de Janeiro e suas histórias.

Assista aqui a entrevista que o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, fez com Cássio Loredano, em 24 de setembro de 2024, a 41ª edição dos Depoimentos Cariocas, a série que vem registrando as memórias e reflexões de cariocas sobre o Rio de Janeiro. Foi gravada no apartamento de Cássio, no bairro de Laranjeiras, e foi conduzida pelo Coordenador de Promoção Cultural do Arquivo, Pedro Paulo Malta, com participações especiais do jornalista Álvaro Costa e Silva, do professor e crítico de arte Luiz Camillo Osorio e do cartunista Miguel Paiva.