Aspectos de Poços de Caldas impressos no papel fotográfico fabricado pelo pioneiro Conrado Wessel (1891 – 1993)

A Brasiliana Fotográfica destaca imagens de aspectos da cidade mineira de Poços de Caldas, impressas no papel fotográfico produzido pelo fotógrafo, inventor e empreendedor Conrado Wessel (1891 – 1993), pioneiro da indústria fotográfica no Brasil. Filho do fotógrafo argentino Guilherme Wessel (1862 – 1940), sua vida é um exemplo de desenvolvimento científico e inovação realizados no Brasil. As imagens pertencem ao acervo da Fundação Biblioteca Nacional, uma das fundadoras do portal, e, atrás de todas elas, produzidas em 1929, está escrita a marca do fabricante do papel no verso: “Wessel“. Também foram publicadas na seção “Cronologia de Fotógrafos”, as cronologias de Conrado e Guilherme, a 51ª e 52ª produzidas pelo portal.

 

Acessando o link para as fotografias de Poços de Caldas impressas no papel fotográfico produzido por Conrado Wessel disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

 

 

As trajetórias de Guilherme (1862 – 1940) e Conrado Wessel (1891 – 1993)

 

 

“Contribuiu decisivamente para a implantação da indústria fotográfica no país, pois fundou a primeira indústria de papel fotográfico no Brasil. Utilizou fórmulas e processos segundo sua concepção e auxiliou Valério Vieira na sensibilizaçaodo famoso painel “Panorama da Cidade de São Paulo. Introduziu o papel fotográfico tamanho postal, que se tornou conhecido por “Postaes Wessel Jardim” e que foram largamente consumido pelos lambe-lambe”. Sua indústria foi posteriormente adquirida pela Kodak e durante algum tempo lia-se nas casixas de papel fotográfico a sigla Kodak-Wessel”

Boris Kossoy sobre Conrado Wessel, 1975

 

O nome de batismo de  Conrado Wessel era Ubald Konrad August Wessel e ele nasceu em Buenos Aires, na Argentina, em 16 de fevereiro de 1891, filho do fotógrafo Guilherme Wessel (1862-1940), que havia nascido em Concepcion do Uruguai; e de Nicolina Krieger Wessel (1863 – 1956). Eles se casaram em 3 de março de 1887. A família Wessel, tradicional fabricante de chapéus em Hamburgo, na Alemanha, havia imigrado para a Argentina em meados do século XIX, provavelmente nos primeiros anos da década de 1860. Guilherme foi para Hamburgo onde formou-se em Física, e retornou à Argentina.

Em 1892, Guilherme foi com a família – mulher e dois filhos, Georg Walter (1888 – 1908) e Conrado – para Sorocaba e, depois, para São Paulo, convidado para lecionar na Escola Politécnica, que viria a ser uma das unidades fundadoras da Universidade de São Paulo, em 1934.

Ele abriu em sociedade com Carlos Norder, em 1900, um estabelecimento de artigos de fotografia e de laboratórios químicos, na rua São Bento, 41 A, no centro da capital, Aos Photograhos e Amadores da photographia. Oferecia gratuitamente aos amadores lições práticas e disponibilizavm para todos os fregueses um quarto escuro. Na mesma época, Guilherme Gaensly (1843 – 1928) tinha um ateliê fotográfico, na rua 15 de Novembro, 28 (O Estado de São Paulo, 3 de janeiro de 1900, página 2, sexta coluna; Correio Paulistano, 5 de janeiro de 1900Almanak Laemmert, segunda coluna, 1901)

 

 

 

O Estado de São Paulo, 3 de janeiro de 1900

O Estado de São Paulo, 3 de janeiro de 1900

 

Anunciava em dezembro de 1900 ter recebido grande sortimento de produtos: chapas Lumière, câmaras fotográficas e objetos para fotografia e distribuiu a seus fregueses, em dezembro do ano seguinte, uma carteira com espelho (O Commercio de São Paulo, 21 de dezembro de 1900; O Estado de São Paulo, 1º de janeiro de 1902, página 2, quarta coluna).

 

 

Em 1901, Guilherme já prestava serviços fotográficos para as secretarias da Fazenda, do Interior e da Justiça de São Paulo (O Estado de São Paulo, 6 de março de 1901, página 1, penúltima coluna; Correio Paulistano, 7 e março, quinta coluna; 4 de setembro, segunda coluna, de 1903; Correio Paulistano, 22 de setembro de 1904, última coluna; Correio Paulistano, 6 de janeiro de 1905, sétima coluna). Também tinha uma Casa Importadora de Artigos para Photografia e Aparelhos de Eletricidade, na rua Direita, nº 20 (Almanak Laemmert, primeira coluna, 1903).

 

Illustração Brasileira, 1905

Illustração Brasileira, 1905

 

Em 1904, Guilherme foi um dos doadores para a quermesse em prol do Instituto Pasteur de São Paulo e do Conservatório Dramático Municipal (Correio Paulistano, 11 de março de 1904, primeira coluna). Neste mesmo ano promoveu uma exposição de fotografias no intuito de estimular os amadores (O Commercio de São Paulo, 9 de julho de 1904, primeira coluna).

 

 

Em 1907, Guilherme tinha uma loja de artigos fotográficos na rua Líbero Badaró, 48. Nessa mesma época, Valério Vieira (1862 – 1941)Vincenzo Pastore (1865 – 1918) também possuiam estabelecimentos fotográficos em São Paulo.

 

 

O italiano Pastore, importante cronista visual de São Paulo da segunda metade do século XIX e do início do século XX, e Guilherme foram, provavelmente, amigos, já que Guilherme estava presente a seu enterro, em janeiro em 1918 (Almanak Laemmert, 1907primeira coluna; Almanak Henault, 1909Correio Paulistano, 19 de janeiro de 1918, terceira coluna).

 

 

Guilherme foi contratado pelo Jockey Club de São Paulo para inaugurar o serviço de fotografia de chegadas dos páreos (O Paiz, 23 de fevereiro de 1907, quarta colunaRevista da Semana, 3 de março de 1907).

 

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Trabalhava com seu filho mais velho Georg Walter, que faleceu de tifo, em 26 de dezembro de 1908, e foi enterrado no Cemitério dos Protestantes (Correio Paulistano, 2 de novembro de 1914, primeira coluna). Nesse mesmo ano, por cerca de seis meses, Conrado foi assistente de um cinegrafista da Gaumont, que havia vindo ao Brasil para filmar fazendas de café para a propaganda do produto na Europa, tornando-se um dos primeiros cinegrafistas do Brasil. Estava na folha de pagamentos da Secretaria da Fazenda de São Paulo (Correio Paulistano, 4 de novembro de 1908, sexta coluna).

“O primeiro documento expedido no Brasil atestando a capacidade para o exercício da função de cinegrafista foi fornecido ao químico Conrado Wessel, em 1908, pela Gaumont Films, uma das produtoras mais antigas da França. Wessel (1891-1993) conta em sua carta autobiográfica que recebeu o atestado das mãos de um cinegrafista da Gaumont, Colliot, que veio ao país contratado pela Secretaria de Agricultura de São Paulo.
Por mais de seis meses, ele foi intérprete e ajudante do cinegrafista francês e ambos filmaram várias fazendas de café, colhendo cenas para a propaganda do produto na Europa” (Ana Maria Guariglia, Folha de São Paulo, 2 de março de 1995).

Guilherme fechou a loja e, em 1909, continuou a trabalhar fornecendo fotografias para a Secretaria da Agricultura. Em 1911, recebeu pagamento da secretaria por ter fornecido 20 fotografias ao poeta Olavo Bilac (1865 – 1918). Em 1920, forneceu à Diretoria de Indústria e Comércio uma fita cinematográfica e ampliações fotográficas para a Feira de Lyon (Correio Paulistano, 12 de outubro de 1909, última coluna; Correio Paulistano, 7 de junho de 1911, terceira coluna; Correio Paulistano, 20 de março de 1912, terceira coluna; O Paiz, 21 de agosto de 1912, quinta coluna; O Combate, 3 de dezembro de 1920, última coluna).

 

 

Conrado, que havia feito seus primeiros estudos na Escola Alemã daVila Mariana, participou de um concurso de fotografia, apresentando 25 fotografias em um pavilhão especialmente preparado para a exposição, no Posto Zootécnico de São Paulo (Correio Paulistano, 21 de outubro de 1906, quinta coluna). Já havia conquistado dois prêmios como fotógrafo quando, em 1911, foi para Viena, na Áustria.

 

 

Além de estudar fotoquímica no K.K. Graphischen Lehr und Versuchsanstalt, entre julho de 1911 e dezembro de 1912 ,estagiou na Casa Beissner & Gottlieb, especializada na área gráfica e fotográfica, entre de 10 de julho de 1912 e 8 de fevereiro de 1913. Especializou-se em clichês para jornais e revistas.

 

 

Abaixo, a reprodução do certificado da Casa Beissner & Gottlieb, de Viena, de 8 de fevereiro de 1913, documentando o estágio profissional obrigatório realizado por Conrado Wessel, na conclusão de seus estudos no Instituto K.K. Graphischen Lehr und Versuchsanstalt.

 

 

Tradução: Atestado: Viena, 8 de fevereiro de 1913. O sr. Conrado Wessel, após ter terminado os estudos gráficos da K.K. Graphischen Lehr & Versuchsanstalt, esteve em nosso instituto em atividades práticas desde 10 de julho de 1912 até hoje. Trabalhou em diferentes departamentos e obteve sucesso e muitos bons resultados. Nós atestamos portanto com satisfação que estamos contentes pelo seu desempenho em cada índice, com extremado respeito por suas realizações, e desejamos a ele o maior progresso no futuro”.

Voltou para São Paulo, em 1913, com maquinário para a montagem de uma clicheria com o pai. Guilherme seguia trabalhando para a Secretaria da Fazenda e, em 1914, fez uma proposta para prorrogar por mais um ano o contrato que tinha de fornecimento de fotografias para a entidade (Correio Paulistano, 3 de fevereiro de 1914, quarta colunaCorreio Paulistano, 29 de julho de 1916, quarta coluna; Correio Paulistano, 13 de dezembro de 1917, terceira coluna; Correio Paulistano, 10 de janeiro de 1918, última coluna).

Em 1914, Conrado fotografou o Salto do Paranapanema durante uma visita realizada pelo então secretário da Agricultura de São Paulo, Paulo de Moraes Barros, ao local, quando inaugurou o primeiro trecho do prolongamento da ferrovia Sorocabana Railway na direção do Porto Tibiriçá (Correio Paulistano, 16 de fevereiro de 1914, sexta coluna).

Entre 1915 e 1919, foi aluno ouvinte na Escola Politécnica e também trabalhou como auxiliar no laboratório do professor de bioquímica, físico-química e eletroquímica Roberto Hottinger, no curso de Engenharia Química. Conrado queria criar um papel fotográfico de qualidade equivalente a dos importados – os usados eram da Kodak, da Agfa e da Gevaert – porém com um preço mais baixo.

Segundo o próprio:

“Durante quatro anos fiz de tudo ali. Desde a preparação do nitrato de prata até os estudos das diferentes qualidades de gelatinas. Da ação dos halogênios como o bromo, o cloro, e o iodo sobre o nitrato de prata ao brommeto de potássio. Cheguei à conclusão que a mistura de uma pequena dose de iodo ao bromo dava muito melhor resultado, assim como a adição do iodo ao cloro”.

O entusiasmo de um inventor (2006)

 

Em 1916, Guilherme seguia trabalhando para a Secretaria de Agricultura (A Gazeta (SP), 18 de janeiro de 1916, quarta coluna) e Conrado já estava desenvolvendo uma fórmula para banhar o papel que batizou de Postal Jardim, para atrair os lambe-lambes do Jardim da Luz. Em fevereiro, foi à inauguração da exposição de Levino Fanzeres (1884 – 1956), na rua Líbero Badaró, 66 (O Estado de São Paulo, 28 de fevereiro, página 2, última coluna).

Em 10 de novembro de 1916, Guilherme consultou a empresa International Patent Agency, de Moura & Wilson, que eram agentes de privilégios sediados no Rio de Janeiro, com o objetivo de se informar quanto aos procedimentos de requerimento de uma patente. A empresa respondeu três dias depois, dispondo-se a providenciar a patente mediante ao fornecimento dos documentos necessários e ao pagamento de Rs 220$000.

Em 1917, Guilherme Wessel possuia uma Oficina de Gravura, na Travessa Guaianazes, 155, na Barra Funda. em 1921, o Almanak Laemmert identificava no endereço um estabelecimento fotográfico (Almanak Laemmert, 1917 e 1921, última coluna). Em 1921, um dos funcionários da oficina sofreu um pequeno acidente (O Combate, 12 de maio de 1921, penútima coluna).

 

 

Em 1919, Conrado comprou uma casa na rua K , em Casa Verde (Correio Paulistano, 5 de fevereiro de 1919, quinta coluna).

A fórmula de Conrado, patenteada no início em 1921, em documento assinado pelo presidente da República, Epitácio Pessoa (1865 – 1942), foi descrita como um “novo processo para fabricação de material photographico, sensível à luz, para o processo positivo e negativo, à base de emulsões de saes de prata ou gelatina, albumina ou collodio, servindo de supportes para estas emulsões papel, vidro, celluloide ou qualquer outro supporte que seja appropriado”.

 

 

 

Em 1921, Conrado comprou do professor de Filosofia da Escola Normal, dr. Picarollo, e de seu filho o maquinário necessário, importou papel da Alemanha e começou a trabalhar em um pequeno prédio de seu pai, na Barra Funda. Enquanto aguardava a chegada do papel, um acaso o ajudou a criar uma forma de pendurar o papel emulsionado para a secagem, uma vez que dispunha de pouco espaço. Realizava um trabalho de propaganda para a Tapeçaria Schultz e observou o sistema de cortinas movimentadas por cordas. Achou que um processo semelhante poderia ser usado para secar metros e metros de papel. Mas a experiência foi um desastre. Nem 10 centímetros foram aproveitados dos 10 metros de papel emulsionados. Teria que encontrar outra solução.

 

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Surgia assim, em março de 1921, a primeira fábrica de papel fotográfico da América Latina, a Fábrica Privilegiada de Papéis Fotográficos Wessel, sediada na rua Lopes de Oliveira, em São Paulo.

 

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Apesar da qualidade do papel fotográfico e de ter melhor preço, os consumidores resistiam a utilizar um produto nacional e continuava a utilizar o postal da Ridax e da Gevaert. Foi nessa época que Wessel forjou o lema que o acompanharia por toda a vida: “Insista, não desista”.

Em 1922, foi inaugurada a exposição provisória do Panorama de São Paulo, na rua São Bento, nº 24, do fotógrafo Valério Vieira (1862 – 1941), anunciada como a maior fotografia já realizada no mundo, com 16 metros (Correio Paulistano, 6 de setembro de 1922, na segunda coluna e 7 de setembro, na quarta coluna). O trabalho foi apresentado na Exposição do Centenário da Independência, no Rio de Janeiro, realizada entre 7 de setembro de 1922 e 24 de julho de 1923. Foi Conrado que possibilitou a impressão da foto em uma solução de brometo de sais de prata (O Estado de São Paulo, 13 de agosto de 1998).

 

 

Dois anos depois, um acontecimento histórico ajudou os negócios de Conrado: entre 5 e 28 de julho de 1924, São Paulo ficou sitiada devido à eclosão da Revolução dos Tenentes, liderada por Isidoro Dias Lopes (1865 – 1949) e motivada pelo descontentamento dos militares com a crise econômica e a concentração de poder nas mãos de políticos de Minas Gerais e de São Paulo. Devido ao violento conflito urbano, faltou papel importado para os fotógrafos que atuavam, principalmente, no Jardim da Luz, e eles passaram a comprar de Wessel. Quando a rebelião terminou, o fornecimento de papel importado foi restabelecido, mas Wessel já havia conquistado uma clientela fiel. Sua empresa começou a prosperar.

Durante a década de 30, Conrado adquiriu vários imóveis e terrenos, dentre eles um terreno e um prédio na alameda Eduardo Prado, nº 18; o prédio da rua Santo Antônio, nº 89; o prédio da rua Anna Cintra, 34; um prédio na rua Lopes de Oliveira; e um prédio na Conselheiro Belisário, 96 (O Estado de São Paulo,12 de outubro de 1931, página 3, segunda coluna; 24 de junho de 1932, página 3, segunda coluna; 15 de agosto de 1934, página 3, quarta coluna; 5 de novembro de 1935, página 7; e 6 de maio de 1936, página 10, penúltima coluna; Correio Paulistano, 29 de setembro de 1934, sexta coluna; 6 de outubro, primeira coluna, de 1934; 23 de fevereiro de 1935, quinta coluna).

Na revista O Malho, de 2 de janeiro de 1932, publicação de uma fotografia de autoria de Conrado Wessel.

 

 

No mesmo ano, o ministro interino do Trabalho declarou caduca a patente de Wessel (Jornal do Commercio, 18 de março de 1932, segunda coluna). Pelo o que se seguiu, tudo indica que essa decisão foi revogada.

 

 

A residência e a fábrica de Conrado ficavam na rua Lopes de Oliveira, 18. Foi roubado um pacote de papel de sua fabricação mas ele conseguiu encontrar o autor do furto (Correio de São Paulo, 30 de novembro de 1933, terceira coluna).

Ainda na década de 30, foram as bobinas de papel produzidas pela firma de Conrado que alimentaram o sistema Photo Rotativo usado pelo fotógrafo Theodor Preising (1883 – 1962). Tratava-se de um mecanismo que produzia fotografias no formato postal e 18 x 24cm para álbuns a partir de até dois negativos.

 

 

Falecimento de Guilherme Wessel, em 25 de janeiro de 1940 (O Estado de São Paulo, 26 de janeiro de 1940, página 4, quinta coluna).

 

O Estado de São Paulo, 28 de janeiro de 1940

O Estado de São Paulo, 28 de janeiro de 1940

 

Em setembro de 1954, conforme acordado, em 1949, tanto a fábrica, construída em Santo Amaro pela Kodak, quanto a patente de Conrado passou a pertencer à empresa norte-americana, na época líder do mercado fotográfico, denominand0-se Kodak – Wessel. Àquela altura, após décadas dirigindo seu negócio, Conrado já havia consolidado seu patrimônio.

 

 

Sua mãe, Nicolina Krieger Wessel, faleceu, em 7 de novembro de 1956, aos 93 anos, em São Paulo (O Estado de São Paulo, 8 de novembro de 1956, página 7, terceira coluna).

 

O Estado de São Paulo, 8 de novembro de 1956

O Estado de São Paulo, 8 de novembro de 1956

 

No Suplemento Literário do O Estado de São Paulo, de 24 de novembro de 1974, foi publicado o artigo O fotógrafo ambulante – a história da fotografia nas praças de São Paulo, do professor Boris Kossoy (1941-), e a importância de Conrado foi destacada.

Conrado Wessel  faleceu, em 23 de maio de 1993, sem herdeiros e em seu testamento, datado de 11 de maio de 1988, foi determinado que seus bens fossem destinados à criação da Fundação Conrado Wessel, fundada, em 20 de maio de 1994, para a difusão da arte, da ciência e da cultura. O primeiro diretor-presidente da fundação foi Antônio Valério Lorenzini, que havia, assim como seu pai, trabalhado anos com Conrado (O Estado de São Paulo, 29 de janeiro de 1999). Em 2003, A Fundação Conrado Wessel passou a distribuir, anualmente, prêmios nas categorias de Arte, Ciência, Cultura e Medicina.

 Link para a Cronologia de Guilherme (1862 – 1940) e Conrado Wessel (1891 – 1993)

 

Poços de Caldas

 

 

Poços de Caldas, em Minas Gerais, foi fundada em 6 de novembro de 1872 e suas águas raras e com poderes de cura foram responsáveis pela prosperidade da cidade. Seu nome tem origem na cidade de Caldas da Rainha, importante terma em Portugal. Como as fontes eram poços usados por animais, o nome da cidade mineira ficou Poços de Caldas.

Em 1886, funcionava em Poços um balneário voltado ao tratamento de doenças de pele, que utilizava as águas sulfurosas que eram captadas pela Fonte Pedro Botelho (O Paiz, 29 de setembro de 1886, quarta coluna).

 

 

Neste ano, foi visitado, em outubro, por Pedro II (1825 – 1891) e por dona Teresa Cristina (1822 – 1889), que ficaram em um chalé feito especialmente para receber o casal, no Hotel da Empreza – Empresa Balneária, que funcionou como concessionária das termas nos anos 1880-, pelo engenheiro alemão Carlos Alberto Maywald e pelo arquiteto italiano Giovanni Battista Pansini. O casal imperial estava na região devido à inauguração do ramal de Caldas da Estrada de Ferro Mogiana, em 22 de outubro de 1886 (O Paiz, 25 de outubro de 1886, sétima coluna).

 

 

O balneário foi demolido nos anos 20 e substituído pelo conjunto arquitetônico de Eduardo Pederneiras, composto pelo Palace Hotel, de 1923 e reinaugurado em 1929; pelas Thermas Antônio Carlos e pelo Palace Cassino, inaugurados em 29 de março e 31 de março de 1931, respectivamente.

 

 

 

As Thermas Antônio Carlos foi o primeiro estabelecimento termal do Brasil a oferecer uma série de serviços e tratamentos de saúde a partir do uso da água termal. Sua gestão é feita pelo governo de Minas Gerais desde 2018.

O Palace Cassino fez muito sucesso e era frequentado pela aristocracia brasileira e lá aconteciam shows com artistas como Carmen Miranda, Sylvio Caldas e Orlando Silva. Com a assinatura do decreto-lei 9 215, de 30 de abril de 1946, pelo presidente Eurico Gaspar Dutra, determinando a proibição do jogo no país, o cassino fechou suas portas. Muitos anos depois foi restaurado tornando-se patrimônio histórico e arquitetônico da cidade que até hoje é um importante destino turístico.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Enciclopédia Itaú Cultural

Especial Prêmio Conrado Wessel – Pesquisa Fapesp, 2004

Folha de São Paulo, 6 de junho de 2004

Fundação Conrado Wessel

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

LEMOS, Eric Danze. Fotografia profissional, arquivo e circulação: a produção de Theodor Preising em São Paulo (1920 – 1940).  Dissertação apresentada ao programa de Pós-Graduação em História Social do Departamento de História da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo, 2016

MEGALE. Nilza Botelho. Memórias Históricas de Poços de Caldas. Minas Gerais : Gráfica Dom Bosco, 1990.

MOURÃO, Mário. Poços de Caldas – Synthese Historica e Crenologica, 1933.

Revista Pesquisa Fapesp – O entusiasmo de um inventor

Revista Pesquisa Fapesp – Rumos de um inventor

Revista Pesquisa Fapesp – Trajetória de um inventor

Site Companhia de Desenvolvimento de Minas Gerais

Site Memórias de Poços

Site Palace Cassino

Site Poços.com

Os “Instantâneos Cruéis” de Monteiro Lobato

O contato de Monteiro Lobato (1882 – 1948) com as pesquisas realizadas por cientistas de Manguinhos em suas cinco expedições científicas pelo Brasil, no início do século XX, em especial a viagem de cerca de sete meses feita pelos sanitaristas Belisário Penna (1868 – 1939) e Arthur Neiva (1885 – 1945), em 1912, entre o norte da Bahia, o sudeste de Pernambuco, o sul do Piauí e Goiás de norte a sul, impactaram a obra do escritor.

 

 

Fotografias produzidas por José Teixeira, fotógrafo da expedição, batizadas por Lobato de instantâneos cruéis em seu artigo O problema do saneamento – O início da ação (O Estado de São Paulo, 12 de maio de 1918, página 3, terceira coluna (1)), que retratavam a fome, a miséria e as doenças do povo brasileiro, faziam parte dessas pesquisas, que influenciaram a mudança da concepção de um de seus famosos personagens, o Jeca Tatu, e fez com que Lobato se engajasse numa campanha pelo saneamento do país: O Jeca não é assim: está assim – epígrafe de seu livro Problema Vital, publicado em fins de 1918, reunindo a série de artigos que havia escrito para o jornal O Estado de São Paulo no referido ano. Redefiniu o perfil do Jeca Tatu. Se em seus artigos de 1914 – Velha Praga e Urupês – o Jeca era definido a partir de sua natureza racial ou genética, agora eram as péssimas condições de saúde e higiene as causadoras da característica de indolência atribuída ao personagem.

Seu diagnóstico do Brasil havia se modificado, o saneamento das áreas rurais poderia transformar a realidade. A mudança de seu pensamento ancorava-se em sua crença otimista em relação à ciência. O pesquisador Ricardo Augusto dos Santos, da Fundação Oswaldo Cruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica conta essa história no artigo Os Instantâneos Cruéis de Monteiro Lobato.

 

 

As fotografias e negativos remanescentes das cinco expedições realizadas entre 1911 e 1913 pelo Insituto Oswaldo Cruz, com aproximadamente 1700 itens, foram produzidos por câmeras grandes, pesadas, que utilizavam negativos de gelatina seca sobre base de vidro no formato 13 x 18 centímetros. Sobre os fotógrafos conhece-se apenas dois, o já citado José Teixeira, que acompanhou a expedição Penna-Neiva, e João Stamato (1886-1951), cinegrafista do Rio de Janeiro´, na década de 1910, que documentou a expedição aos Vales dos Rios São Francisco e Tocantins, em 1911.

 

 

 

Os Instantâneos Cruéis de Monteiro Lobato

 Ricardo Augusto dos Santos*

 

 

Foi em 1987 que tomei conhecimento da obra adulta de Monteiro Lobato (1882-1948). Naquele ano, a Casa de Oswaldo Cruz contratou-me para trabalhar no projeto de organização de fontes e publicação do álbum fotográfico A Ciência a Caminho da Roça.

Que fontes eram essas? Tratava-se de um conjunto de imagens realizadas durante cinco expedições científicas efetuadas entre 1911 e 1913 pelo Instituto Oswaldo Cruz. Essas viagens produziram relatórios, registros e fotografias, que descreviam as condições de vida nas regiões visitadas. Era esse material que uma equipe organizava, pesquisava e preparava a edição do texto.

Depois das primeiras reuniões com o grupo responsável pela produção do volume, atraído em estudar a ideologia nacionalista, encontrei o livro Problema Vital (2)de Lobato. Publicado, em 1918, essa obra reúne 14 artigos veiculados no jornal O Estado de São Paulo daquele ano. Nestes textos, Lobato comentava sobre os problemas sociais do Brasil. Em determinado trecho, o autor falava de modo enfático sobre as imagens produzidas pelo fotógrafo José Teixeira durante uma dessas expedições científicas, a viagem liderada por Belisário Penna e Arthur Neiva. Segundo Lobato, as fotografias eram instantâneos cruéis que possuiriam força para alterar o diagnóstico do país.

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de José Teixeira disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Mas, que cinco viagens foram essas? Entre setembro de 1911 e fevereiro de 1912, Astrogildo Machado (1885 – 1945) e Antônio Martins (18?-19?), respectivamente pesquisador e farmacêutico do Instituto Oswaldo Cruz, percorreram os vales do São Francisco e do Tocantins com os técnicos da Estrada de Ferro Central do Brasil, responsáveis por estudos para um prolongamento que, a partir de Pirapora, deveria alcançar a cidade de Belém, no Pará.

 

 

A serviço da Superintendência da Defesa da Borracha, Carlos Chagas  (1878-1934), Antonio Pacheco Leão (1872 – 1931) e João Pedroso Barreto de Albuquerque (1869 – 1936) inspecionaram parte da bacia amazônica, no período de outubro de 1912 a março de 1913.

 

 

Entre março a outubro de 1912, a serviço da Inspetoria das Obras contra a Seca, três expedições exploraram o Nordeste e o Centro-Oeste do Brasil. Para o Ceará e o norte do Piauí, dirigiram-se João Pedro de Albuquerque (1874 – 1934) e José Gomes de Faria (18? – 1962). Adolfo Lutz (1855 – 1940) e Astrogildo Machado desceram o Rio São Francisco de Pirapora até Juazeiro, visitando alguns de seus afluentes. Das cinco expedições científicas deste período, a viagem de Arthur Neiva e Belisário Penna foi a mais longa, percorrendo em trens, cavalos e burros, quatro mil quilômetros entre o norte da Bahia, o sudeste de Pernambuco, o sul do Piauí e Goiás de norte a sul.

Em 1916, o diário da jornada foi publicado no periódico Memórias do Instituto Oswaldo Cruz com as fotos obtidas durante o trajeto. Este documento registrava em detalhes a miséria em que viviam as populações. Em um dos textos reunidos em Problema Vital, Lobato refere-se às fotos da expedição Penna-Neiva, ao falar de idéias capazes de mudar a realidade:

“A idéia do saneamento é uma. Bastou que a ciência experimental, após a série de instantâneos cruéis que o diário de viagem de Artur Neiva e Belisário Penna lhe pôs diante dos olhos, propalasse a opinião do microscópio, e esta fornecesse à parasitologia elementos para definitivas conclusões, bastou isso para que o problema brasileiro se visse, pela primeira vez, enfocado sob um feixe de luz rutilante. E instantaneamente vimo-la evoluir para o terreno da aplicação prática. E a idéia-força caminha avassaladoramente. Avassaladoramente e consoladora, porque o nosso dilema é este: ou doença ou incapacidade racial. É preferível optarmos pela doença.”

Problema Vital. Monteiro Lobato, 1918

 

As expedições científicas deixaram marcas profundas no pensamento de seus participantes e, posteriormente, influenciaram os intelectuais que tiveram acesso aos relatórios e às fotografias. Para Lobato, o diário da viagem Penna-Neiva foi um documento revelador dos reais problemas do país. Inclusive, a partir do texto repleto das imagens cruéis, Lobato e um dos personagens criados por ele, o Jeca Tatu, sofreriam uma metamorfose.

O contato de Lobato com o diário provocou uma mudança de perspectiva do escritor a respeito do camponês. Quando surgiu o personagem, em 1914, em pequeno artigo jornalístico, o Jeca Tatu era um retrato pessimista do camponês do Vale do Paraíba. Naquela conjuntura, Lobato estava alinhado com o pensamento dominante na passagem do século XIX para o XX, adotando as teorias cientificistas para refletir a nacionalidade brasileira. Entre os primeiros anos do século, o determinismo biológico era hegemônico no Brasil.

Em 1918, entretanto, Lobato assumiria outro ponto de vista. Certamente, um dos fatores que propiciaram a mudança está no encontro de Lobato com o diário e, especialmente, com os Instantâneos Cruéis. Seu diagnóstico do Brasil foi se alterando. Doravante, o saneamento das áreas rurais poderia transformar a realidade. Como o personagem Jeca se transformou?

Nascido como alegoria do trabalhador rural, em artigo escrito em 1914, Jeca Tatu tornou-se sinônimo de homem do campo. Inclusive, através de sua narrativa, uma empresa de produtos farmacêuticos difundiu um tônico, propagando os seus valores terapêuticos, chegando a circular em milhões de exemplares do folheto Jeca Tatuzinho distribuído colado ao “fortificante”. A presença do símbolo do homem da roça em campanhas de educação higiênica, especialmente as direcionadas ao controle das endemias rurais, ajudou a popularizar os cuidados com a higiene individual e a saúde pública nas primeiras décadas do século.

 

 

Caricatura do caipira brasileiro, o Jeca é um dos mais conhecidos personagens de nossa cultura. De caboclo preguiçoso e indolente à vítima da doença, a trajetória do matuto desenvolvido por Lobato está relacionada ao papel conferido às políticas de saúde pública e educação para o desenvolvimento econômico do país. Trata-se de uma das representações sociais da identidade nacional, em que se articula o retrato doente da sociedade, especialmente dos trabalhadores rurais, à regeneração do povo por meio da ação do Estado.

Portanto, a série de artigos compilados em livro (1918) evidenciam uma mudança de perspectiva do caboclo brasileiro. Naquela altura de sua trajetória, Lobato estava influenciado pelo conjunto de teorias científicas surgidas na Europa. Criado como símbolo do camponês, Jeca Tatu estava ancorado no racismo científico ainda dominante. Para as idéias cientificistas, o clima, a localização geográfica e a raça determinavam a evolução e hierarquia das sociedades humanas.

Lobato denunciava uma corrente de interpretação ufanista dos elementos culturais nacionais, atribuindo ao Jeca, espécie degenerada em sua origem mestiça indígena e portuguesa, e adaptada ao ambiente natural, a responsabilidade pelos problemas do universo rural. Esse primeiro Jeca era incapaz de participação no trabalho do mundo moderno.

Contudo, o enfoque mudaria. Surgiria um segundo Jeca. E o diagnóstico seria outro. Se o determinismo biológico representava um problema grave, uma herança nociva, o saneamento poderia transformar cientificamente a realidade. No livro Problema Vital, encontramos um Lobato entusiasta da microbiologia e parasitologia.

A primeira aparição do Jeca data de novembro de 1914, no texto Velha Praga (3), no qual Lobato se insurgia contra as queimadas de roça e descrevia o modo de vida dos camponeses. Nesta obra, aparecem os nomes de Manoel PerobaChico Marimbondo e Jeca Tatu.

Porém, segue-se um novo artigo com o título de Urupês (4), onde Lobato fornece um panorama do sertanejo e seu modo de vida, em oposição a uma literatura que exaltava romanticamente o homem rural como um guerreiro imbatível. Para Lobato, então fazendeiro no interior paulista, a explicação para a apatia e a incapacidade produtiva do Jeca encontrava-se nas facilidades de sobrevivência proporcionadas pela mandioca, milho e cana: 

“Pobre Jeca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade! Da terra só quer a mandioca, o milho e a cana. A primeira, por ser um pão já amassado pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas. Não impõe colheita, nem exige celeiro. O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade ambiente.”

Urupês, Lobato(1914)

 

 

Em 1918, Lobato lançou o livro Urupês (5), reunindo contos, incluindo os artigos Velha Praga e Urupês. Nestas páginas militantes, Lobato critica o caboclo modorrento e o ufanismo que identificava o Brasil como um paraíso. No entanto, Lobato estava progressivamente participando da campanha pelo saneamento das áreas rurais. Ele estava em contato com os médicos Arthur Neiva, Belisário Penna, Renato Kehl e demais membros do movimento sanitarista. Assim, nascia um novo Jeca: o Jeca dos artigos reunidos em Problema Vital.

Esse segundo Jeca padecia das mesmas enfermidades, mas após entrar em contato com a ciência médica, curava-se das moléstias que o levavam a ser apático; tornava-se trabalhador, enriquecia e transformava-se em exemplo para os vizinhos. Esta narrativa foi publicada com o título de Jeca Tatu. A Ressurreição. Conhecida como Jeca Tatuzinho, chegou a milhões de exemplares através do Almanaque de Produtos Farmacêuticos Fontoura.

Mas, se a personagem mudava, o seu criador também mudaria. Em meados dos anos 40, surgiria um terceiro Jeca: o Zé Brasil. Este Jeca não era preguiçoso. Nem doente, mas um trabalhador explorado. A figura do caipira nacional aparecia pela terceira vez na literatura lobatiana. Neste momento, superando a intolerância em relação ao primeiro Jeca (Velha Praga e Urupês) e o paternalismo presente em relação ao segundo, o Jeca Tatuzinho. Como entendermos a mudança do primeiro para o segundo Jeca? Algumas respostas podem ser buscadas nos já citados artigos publicados em O Estado de S. Paulo e reunidos no Problema Vital, por decisão da Sociedade de Eugenia de São Paulo e da Liga Pró-Saneamento do Brasil.

Se em Urupês e Velha Praga (1914) Lobato atribuía preponderância às teses raciais e climáticas para a pobreza, chegando a culpar o trabalhador do campo por sua condição, nos artigos redigidos quatro anos mais tarde, refletia sobre a questão nacional do saneamento. É através de uma explicação científica que Lobato, preocupado com a reprodução da força de trabalho improdutiva, mudaria a sua concepção do caipira. A ineficiência do Jeca não era devido à inferioridade racial, mas sim um problema sanitário. A epígrafe do livro Problema Vital traduz a ideia: O Jeca não é assim, está assim. O caboclo é pobre porque é doente e assim não produz. A mudança de concepção passava pela crença otimista de Lobato na ciência.

De raça e clima, o problema que inviabilizava a construção da nação deslocou-se para a doença que passou a ser considerada a origem de todos os males. Jeca permanecia incapaz, porém encontrava-se vitimado pelas doenças. No futuro, a ciência o absolveria da sua incapacidade. A educação o capacitaria para a vida e trabalho. A parasitologia, a bacteriologia e a microbiologia libertariam seu corpo dos agentes patogênicos. A higiene o protegeria dos micro-organismos.

Lobato continuava a atacar a visão ufanista e romantizada do campo. Todavia, chamando a atenção para a realidade dos sertões e associando a verdadeira realidade com as fotos. Lobato usaria com frequência as representações metafóricas das imagens fotográficas.

Contemporâneo do processo de modernização que pretendia transformar a sociedade brasileira nas primeiras décadas do século passado, Lobato lançou um olhar crítico sobre sua época. Constantemente, demonstrava crença no progresso e na ciência como verdade única e totalizante. As fotografias veiculadas no relatório causariam um grande impacto, ao revelarem um Brasil doente e pobre que vivia à margem da civilização que as cidades do litoral, em particular a capital da República, supunham personificar. Embora quase todas as fotos sejam fortes documentos das condições e modos de vidas das populações camponesas, até hoje, as imagens de doentes causam grande impacto.

 

 

“Nós, se fôramos poetas, escreveríamos um poema trágico com a descrição das misérias, das desgraças dos nossos infelizes sertanejos abandonados. A poesia das paisagens e dos panoramas ficaria apagada pela tragédia, pela desolação e pela miséria dos infelizes habitantes sertanejos, nossos patrícios. Aos nossos filhos, que aprendem nas escolas que a vida simples de nossos sertões é cheia de poesia e de encantos, pela saúde de seus habitantes, pela fartura do solo e generosidade da natureza, ficariam sabendo que nessas regiões se desdobra mais um quadro infernal, que só poderia ser mais magistralmente descrito pelo DANTE imortal.”

Belisário Penna e Arthur Neiva.

Viagem científica pelo norte da Bahia, sudoeste de Pernambuco, sul do Piauí e de norte a sul de Goiás, 1916.

 

 

 

Capa do Folheto

Capa do folheto que acompanhava o Biotônico Fontoura

 

 

*Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz

 

Indicação Bibliográfica:

 

DOS SANTOS, Ricardo Augusto. Lobato, os Jecas e a Questão Racial no Pensamento Social Brasileiro. Revista Achegas. Número 7, maio de 2003. http://www.achegas.net/numero/sete/ricardo_santos.htm

DOS SANTOS, Ricardo Augusto. O Plano de Educação Higiênica de Belisário Penna: 1900-1930. Dynamis. 2012, vol. 32, n. 1, pp. 45-68.https://scielo.isciii.es/scielo.php?script=sci_arttext&pid=S0211-95362012000100003&lng=es&nrm=iso

THIELEN,Eduardo Vilela; ALVES, Fernando Antonio Pires; BENCHIMOL, Jaime Larry;ALBUQUERQUE, Marli Brito de; DOS SANTOS, Ricardo Augusto; WELTMAN, Wanda Latmann. A ciência a caminho da roça: imagens das expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao interior do Brasil entre 1911 e 1913.  3ª edição. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2018.

 

Notas da editora:

(1) - Artigo O problema do saneamento – O início da ação, publicado no O Estado de São Paulo de 12 de maio de 1918, quando Monteiro Lobato usa a exxpressão instantâneos cruéis.

 

saneamento1

saneamento2

saneamento3

 

(2) – Artigo Problema Vital, de Lima Barreto, sobre os livros Urupês e Problema Vital, publicado na Revista Contemporânea de 22 de fevereiro de 1919.

 

 

 

Figura 1:

Primeira edição do livro Problema Vital, lançado em fins de 1918

 

(3) O artigo Velha Praga, de autoria de Monteiro Lobato, foi publicado em 12 de novembro de 1914, no jornal O Estado de São Paulo, na página 3, quinta coluna. Pela primeira vez, Jeca Tatu foi citado.

Velha Praga

Andam todos em nossa terra por tal forma estonteados com as proezas infernais dos belacíssimos “vons” alemães, que não sobram olhos para enxergar males caseiros.

Venha, pois, uma voz do sertão dizer às gentes da cidade que se lá fora o fogo da guerra lavra implacável, fogo não menos destruidor devasta nossas matas, com furor não menos germânico.

Em agosto, por força do excessivo prolongamento do inverno, “von Fogo” lambeu montes e vales, sem um momento de tréguas, durante o mês inteiro.

Vieram em começos de setembro chuvinhas de apagar poeira e, breve, novo “verão de sol” se estirou por outubro adentro, dando azo a que se torrasse tudo quanto escapara à sanha de agosto.

A serra da Mantiqueira ardeu como ardem aldeias na Europa, e é hoje um cinzeiro imenso, entremeado aqui e acolá, de manchas de verdura – as restingas úmidas, as grotas frias, as nesgas salvas a tempo pela cautela dos aceiros. Tudo mais é crepe negro.

À hora em que escrevemos, fins de outubro, chove. Mas que chuva caínha! Que miséria d’água! Enquanto caem do céu pingos homeopáticos, medidos a conta-gotas, o fogo, amortecido mas não dominado, amoita-se insidioso nas piúcas,a fumegar imperceptivelmente, pronto para rebentar em chamas mal se limpe  o céu e o sol lhe dê a mão.

Preocupa à nossa gente civilizada o conhecer em quanto fica na Europa por dia, em francos e cêntimos, um soldado em guerra; mas ninguém cuida de calcular os prejuízos de toda sorte advindos de uma assombrosa queima destas. As velhas camadas de humus destruídas; os sais preciosos que, breve, as enxurradas deitarão fora, rio abaixo, via oceano; o rejuvenescimento florestal do solo paralizado e retrogradado; a destruição das aves silvestres e o possível advento de pragas insetiformes; a alteração para piora do clima com a agravação crescente das secas; os vedos e aramados perdidos; o gado morto ou depreciado pela falta de pastos; as cento e uma particularidades que dizem respeito a esta ou aquela zona e, dentro delas, a esta ou aquela “situação” agrícola.

Isto, bem somado, daria algarismos de apavorar; infelizmente no Brasil subtrai-se; somar ninguém soma…

É peculiar de agosto, e típica, esta desastrosa queima de matas; nunca, porém, assumiu tamanha violência, nem alcançou tal extensão, como neste tortíssimo 1914 que, benza-o Deus, parece aparentado de perto com o célebre ano 1000 de macabra memória. Tudo nele culmina, vai logo às do cabo, sem conta nem medida. As queimas não fugiram à regra.

Razão sobeja para, desta feita, encarnarmos a sério o problema. Do contrário a Mantiqueira será em pouco tempo toda um sapezeiro sem fim, erisipelado de samambaias – esses dois términos à uberdade das terras montanhosas.

Qual a causa da renitente calamidade?

E mister um rodeio para chegar lá.

A nossa montanha é vítima de um parasita, um piolho da terra, peculiar ao solo brasileiro como o “Argas” o é aos galinheiros ou o “Sarcoptes mutans” à perna das aves domésticas. Poderíamos, analogicamente, classificá-lo entre as variedades do “Porrigo decalvans”, o parasita do couro cabeludo produtor da “pelada”, pois que onde ele assiste se vai despojando a terra de sua coma vegetal até cair em morna decrepitude, núa e descalvada. Em quatro anos, a mais ubertosa região se despe dos jequitibás magníficos e das perobeiras milenárias – seu orgulho e grandeza, para, em achincalhe crescente, cair em capoeira, passar desta à humildade da vassourinha e, descendo sempre, encruar definitivamente na desdita do sapezeiro – sua tortura e vergonha.

Este funesto parasita da terra é o CABOCLO, espécie de homem baldio, semi-nômade, inadaptável à civilização, mas que vive à beira dela na penumbra das zonas fronteiriças. À medida que o progresso vem chegando com a via férrea, o italiano, o arado, a valorização da propriedade, vai ele refugindo em silêncio, com o seu cachorro, o seu pilão, a picapau] e o isqueiro, de modo a sempre conservar-se fronteiriço, mudo e sorna. Encoscorado numa rotina de pedra, recua para não adaptar-se.

É de vê-lo surgir a um sítio novo para nele armar a sua arapuca de “agregado; nômade por força de vago atavismos, não se liga à terra, como o campônio europeu “agrega-se”, tal qual o “sarcopte”, pelo tempo necessário à completa sucção da seiva convizinha; feito o que, salta para diante com a mesma bagagem com que ali chegou.

Vem de um sapezeiro para criar outro. Coexistem em íntima simbiose: sapé e caboclo são vidas associadas. Este inventou aquele e lhe dilata os domínios; em troca o sapé lhe cobre a choça e lhe fornece fachos para queimar a colméia das pobres abelhas.

Chegam silenciosamente, ele e a “sarcopta” fêmea, esta com um filhote no útero, outro ao peito, outro de sete anos à ourela da saia – este já de pitinho na boca e faca à cinta. Completam o rancho um cachorro sarnento – Brinquinho, a foice, a enxada, a picapau, o pilãozinho de sal, a panela de barro, um santo encardido, três galinhas pévas e um galo índio. Com estes simpes ingredientes, o fazedor de sapezeiros perpetua a espécie e a obra de esterilização iniciada com os remotíssimos avós.

Acampam.

Em três dias uma choça, que por eufemismo chamam casa, brota da terra como um urupê. Tiram tudo do lugar, os esteios, os caibros, as ripas, os barrotes, o cipó que os liga, o barro das paredes e a palha do teto. Tão íntima é a comunhão dessas palhoças com a terra local, que dariam idéia de coisa nascida do chão por obra espontânea da natureza – se a natureza fosse capaz de criar coisas tão feias.

Barreada a casa, pendurado o santo, está lavrada a sentença de morte daquela paragem.

Começam as requisições. Com a picapau o caboclo limpa a floresta das aves incautas. Pólvora e chumbo adquire-os vendendo palmitos no povoado vizinho. É este um traço curioso da vida do caboclo e explica o seu largo dispêndio de pólvora; quando o palmito escasseia, raream os tiros, só a caça grande merecendo sua carga de chumbo; se o palmital se extingue, exultam as pacas: está encerrada a estação venatória.

Depois ataca a floresta. Roça e derruba, não perdoando ao mais belo pau. Árvores diante de cuja majestosa beleza Ruskin choraria de comoção, ele as derriba, impassível, para extrair um mel-de-pau escondido num ôco.

Pronto o roçado, e chegado o tempo da queima, entra em funções o isqueiro. Mas aqui o “sarcopte” se faz raposa. Como não ignora que a lei impõe aos roçados um aceiro de dimensões suficientes à circunscrição do fogo, urde traças para iludir a lei, cocando dest’arte a insigne preguiça e a velha malignidade.

Cisma o caboclo à porta da cabana.

Cisma, de fato, não devaneios líricos, mas jeitos de transgredir as posturas com a responsabilidade a salvo. E consegue-o. Arranja sempre um álibi demonstrativo de que não esteve lá no dia do fogo.

Onze horas.

O sol quase a pino queima como chama. Um “sarcopte” anda por ali, ressabiado. Minutos após crepita a labareda inicial, medrosa, numa touça mais seca; oscila incerta; ondeia ao vento; mas logo encorpa, cresce, avulta, tumultua infrene e, senhora do campo, estruge fragorosa com infernal violência, devorando as tranqueiras, estorricando as mais altas frondes, despejando para o céu golfões de fumo estrelejado de faíscas.

É o fogo-de-mato!

E como não o detém nenhum aceiro, esse fogo invade a floresta e caminha por ela a dentro, ora frouxo, nas capetingas  ralas, ora maciço, aos estouros, nas moitas de taquaruçú; caminha sem tréguas, moroso e tíbio quando a noite fecha, insolente se o sol o ajuda.

E vai galgando montes em arrancadas furiosas, ou descendo encostas a passo lento e traiçoeiro até que o detenha a barragem natural dum rio, estrada ou grota noruega.

Barrado, inflete para os flancos, ladeia o obstáculo, deixa-o para trás, esgueira-se para os lados – e lá continua o abrasamento implacável. Amordaçado por uma chuva repentina, alapa-se nas piúcas, quieto e invisível,  para no dia seguinte, ao esquentar do sol, prosseguir na faina carbonizante.

Quem foi o incendiário? Donde partiu o fogo?

Indaga-se, descobre-se o Nero: é um urumbeva qualquer, de barba rala, amoitado num litro de terra litigiosa.

E agora? Que fazer? Processá-lo?

Não há recurso legal contra ele. A única pena possível, barata, fácil e já estabelecida como praxe, é “tocá-lo”.

Curioso este preceito: “ao caboclo, toca-se”.

Toca-se, como se toca um cachorro importuno, ou uma galinha que vareja pela sala. E tão afeito anda ele a isso, que é comum ouví-lo dizer: “Se eu fizer tal coisa o senhor não me toca?”

Justiça sumária – que não pune, entretanto, dado o nomadismo do paciente.

Enquanto a mata arde, o caboclo regala-se.

-       Êta fogo bonito!

No vazio de sua vida semi-selvagem, em que os incidentes são um jacú abatido, uma paca fisgada n’água ou o filho novimensal, a queimada é o grande espetáculo do ano, supremo regalo dos olhos e dos ouvidos.

Entrado setembro, começo das “águas”, o caboclo planta na terra em cinzas um bocado de milho, feijão e arroz; mas o valor da sua produção é nenhum diante dos males que para preparar uma quarta de chão ele semeou.

O caboclo é uma quantidade negativa. Tala cincoenta alqueires de terra para extrair deles o com que passar fome e frio durante o ano. Calcula as sementeiras pelo máximo da sua resistência às privações. Nem mais, nem menos. “Dando para passar fome”, sem virem a morrer disso, ele, a mulher e o cachorro – está tudo muito bem; assim fez o pai, o avô; assim fará a prole empanzinada que naquele momento brinca nua no terreiro.

Quando se exaure a terra, o agregado muda de sítio. No lugar fica a tapera e o sapezeiro. Um ano que passe e só este atestará a sua estada ali; o mais se apaga como por encanto. A terra reabsorve os frágeis materiais da choça e, como nem sequer uma laranjeira ele plantou, nada mais lembra a passagem por ali do Manoel Peroba, do Chico Marimbondo, do Jéca Tatú ou outros sons ignaros, de dolorosa memória para a natureza circunvizinha.

 

(4) – O artigo Urupês, que deu nome ao livro de contos lançado em 1918, foi publicado no jornal O Estado de São Paulo, de 23 de dezembro de 1914, na página 6, quinta coluna.

Urupês

Esboroou-se o balsâmico indianismo de Alencar ao advento dos Rondons que, ao invés de imaginarem índios num gabinete, com reminiscências de Chateaubriand na cabeça e a Iracema aberta sobre os joelhos, metem-se a palmilhar sertões de Winchester em punho.

Morreu Peri, incomparável idealização dum homem natural como o sonhava Rousseau, protótipo de tantas perfeições humanas que no romance, ombro a ombro com altos tipos civilizados, a todos sobrelevava em beleza d’alma e corpo.

Contrapôs-lhe a cruel etnologia dos sertanistas modernos um selvagem real, feio e brutesco, anguloso e desinteressante, tão incapaz, muscularmente, de arrancar uma palmeira, como incapaz, moralmente, de amar Ceci.

Por felicidade nossa – a de D. Antonio de Mariz – não os viu Alencar; sonhou-os qual Rousseau. Do contrário lá teríamos o filho de Arará a moquear a linda menina num bom braseiro de pau brasil, em vez de acompanhá-la em adoração pelas selvas, como o Ariel benfazejo do Paquequer.

A sedução do imaginoso romancista criou forte corrente. Todo o clã plumitivo deu de forjar seu indiozinho refegado de Peri e Atala. Em sonetos, contos e novelas, hoje esquecidos, consumiram-se tabas inteiras de aimorés sanhudos, com virtudes romanas por dentro e penas de tucano por fora.

Vindo o público a bocejar de farto, já céptico ante o crescente desmantelo do ideal, cessou no mercado literário a procura de bugres homéricos, inúbias, tacapes, borés, piágas e virgens bronzeadas. Armas e heróis desandaram cabisbaixos, rumo ao porão onde se guardam os móveis fora de uso, saudoso museu de extintas pilhas elétricas que a seu tempo galvanizaram nervos. E lá acamam poeira cochichando reminiscências com a barba de D. João de Castro, com os frankisks de Herculano, com os frades de Garrett e que tais…

Não morreu, todavia.

Evoluiu.

O indianismo está de novo a deitar copa, de nome mudado. Crismou-se de “caboclismo”. O cocar de penas de arara passou a chapéu de palha rebatido à testa; o ocara virou rancho de sapé; o tacape afilou, criou gatilho, deitou ouvido e é hoje espingarda troxadal o boré descaiu lamentavelmente para pio de inambu; a tanga ascendeu a camisa aberta ao peito.

Mas o substrato psíquico não mudou: orgulho indomável, independência, fidalguia, coragem, virilidade heróica, todo o recheio em suma, sem faltar uma azeitona, dos Perís e Ubirajaras.

Estes setembrino rebrotar duma arte morta inda se não desbagoou de todos os frutos. Terá o seu “I Juca Pirama”, o seu “Canto do Piaga” e talvez dê ópera lírica.

Mas, completado o ciclo, virão destroçar o inverno em flor da ilusão indianista os prosaicos demolidores de ídolos – gente má e sem poesia. Irão os malvados esgaravatar o ícone com as curetas da ciência. E que feias se hão de entrever as caipirinhas cor de jambo de Fagundes Varela! E que chambões e sornas os Peris de calça, camisa e faca à cinta!

Isso, para o futuro. Hoje ainda há perigo em bulir no vespeiro: o caboclo é o “Ai Jesus!” nacional.

É de ver o orgulhoso entono com que respeitáveis figurões batem no peito exclamando com altivez: sou raça de caboclo!

Anos atrás o orgulho estava numa ascendência de tanga, inçada de penas de tucano, com dramas íntimos e flechaços de curare.

Dia virá em que os veremos, murchos de prosápia, confessar o verdadeiro avô: – um dos quatrocentos de Gedeão trazidos por Tomé de Souza¹ num barco daqueles tempos, nosso mui nobre e fecundo “Mayflower”.

Porque a verdade nua manda dizer que entre as raças de variado matiz, formadoras da nacionalidade e metidas entre o estrangeiro recente e o aborígene de tabuinha no beiço, uma existe a vegetar de cócoras, incapaz de evolução, impenetrável ao progresso. Feia e sorna, nada a põe de pé.

Quando Pedro I lança aos ecos o seu grito histórico e o país desperta estrouvinhado à crise duma mudança de dono, o caboclo ergue-se, espia e acocora-se de novo.

Pelo 13 de Maio, mal esvoaça o florido decreto da Princesa e o negro exausto larga num uf! o cabo da enxada, o caboclo olha, coça a cabeça, ‘magina e deixa que do velho mundo venha quem nele pegue de novo.

A 15 de Novembro troca-se um trono vitalício pela cadeira quadrienal. O país bestifíca-se ante o inopinado da mudança.² O caboclo não dá pela coisa.

Vem Florianol estouram as granadas de Custódiol Gumercidndo bate às portas de Roimal Incitatus derranca o país.³ O caboclo continua de cócoras, a modorrar…

Nada o esperta. Nenhuma ferrotoada o põe de pé. Social, como individualmente, em todos os atos da vida, Jéca, antes de agir, acocora-se.

Jéca Tatu é um piraquara do Paraíba, maravilhoso epítome de carne onde se resumem todas as características da espécie.

Hei-lo que vem falar ao patrão. Entrou, saudou. Seu primeiro movimento após prender entre os lábios a palha de milho, sacar o rolete de fumo e disparar a cusparada d’esguicho, é sentar-se jeitosamente sobre os calcanhares. Só então destrava a língua e a inteligência.

– “Não vê que…

De pé ou sentado as idéias se lhe entramam, a língua emperra e não há de dizer coisa com coisa.

De noite, na choça de palha, acocora-se em frente ao fogo para “aquentá-lo”, imitado da mulher e da prole.

Para comer, negociar uma barganha, ingerir um café, tostas um cabo de foice, fazê-lo noutra posição será desastre infalível. Há de ser de cócoras.

Nos mercados, para onde leva a quitanda domingueira, é de cócoras, como um faquir do Bramaputra, que vigia os cachinhos de brejaúva ou o feixe de três palmitos.

Pobre J’[eca Tatu! Como és bonito no romance e feio na realidade!

Jéca mercador, Jéca lavrador, Jéca fisólofo…

Quando comparece às feiras, todo mundo logo advinha o que ele traz: sempre coisas que a natureza derrama pelo mato e ao homem só custa o gesto de espichar a mão e colher – cocos de tucum ou jissara, guabirobas, bacuparis, maracujás, jataís, pinhões, orquídeas ou artefatos de taquara-poca – peneiras, cestinhas, samburás, tipitis, pios de caçador ou utensílios de madeira mole – gamelas, pilõesinhos, colheres de pau.

Nada Mais.

Seu grande cuidado é espremer todas as conseqüências da lei do menor esforço – e nisto vai longo.

Começa na morada. Sua casa de sapé e lama faz sorrir aos bichos que moram em toca e gargalhar ao joão-de-barro. Pura biboca de bosquimano. Mobília, nenhuma. A cama é uma espipada esteira de peri posta sobre o chão batido.

Às vezes se dá ao luxo de um banquinho de três pernas – para hospedes. Três pernas permitem equilíbrio inútil, portanto, meter a Quarta, o que ainda o obrigaria a nivelar o chão. Para que assentos, se a natureza os dotou de sólidos, rachados calcanhares sobre os quais se sentam?

Nenhum talher. Não é a munheca um talher completo – colher, garfo e faca a um tempo?

No mais, umas cuias, gamelinhas, um pote esbeiçado, a pichorra e a panela de feijão.

Nada de armários ou baús. A roupa, guarda-a no corpo. Só tem dois parelhosl um que traz no uso e outro na lavagem.

Os mantimentos apaióla nos cantos da casa.

Inventou um cipó preso à cumieira, de gancho na ponta e um disco de lata no alto, alí pendura o toucinho, a salvo dos gatos e ratos.

Da parede pende a espingarda picapau, o polvarinho de chifre, o S. Benedito defumado, o rabo de tatu e as palmas bentas de queimar durante as fortes trovoadas. Servem de gaveta os buracos da parede.

Seus remotos avós não gozaram maiores comodidades. Seus netos não meterão Quarta perna ao banco. Para que? Vive-se bem sem isso.

Se pelotas de barro caem, abrindo seteiras na parede, Jéca não se move a repô-las. Ficam pelo resto da vida os buracos abertos, a entremostrarem nesgas de céu.

Quando a palha do teto, apodrecida, greta em fendas por onde pinga a chuva, Jéca, em vez de remendar a tortura, limita-se, cada vez que chove, a aparar numa gamelinha a água gotejante…

Remendo… Para que? Se uma casa dura dez anos e faltam “apenas ” nove para que ele abandone aquela? Esta filosofia economiza reparos.

Na mansão de Jéca a parede dos fundos bojou para fora um ventre empanzinado, ameaçando ruir; os barrotes, cortados pela umidade, oscilam na podriqueira do baldrame. Afim de neutralizar o desaprumo e prevenir suas conseqüências, ele grudou na parede uma Nossa Senhora enquadrada em moldurinha amarela – santo de mascate.

– “Por que não remenda essa parede, homem de Deus?

– “Ela não tem coragem de cair. Não vê a escora?

Não obstante, “por via das dúvidas” , quando ronca a trovoada Jéca abandona a toca e vai agachar-se no ôco dum velho embirussu do quintal – para se saborear de longe com a eficácia da escora santa.

Um pedaço de pau dispensaria o milagre! mas entre pendurar o santo e tomar da foice, subir ao morro, cortar a madeira, atorá-la, baldeá-la e especar a parede, o sacerdote da Grande lei do Menor Esforço não vacila. É coerente.

Um terreirinho descalvado rodeia a casa. O mato o beira. Nem árvores frutíferas, nem horta, nem flores – nada revelador de permanência.

Há mil razões para isso; porque não é sua a terral porque se o “tocarem” não ficará nada que a outrem aproveite; porque para frutas há o mato; porque a “criação” come; porque…

– “Mas, criatura, com um vedozinho por ali… A madeira está à mão, o cipó é tanto…”

Jéca, interpelado, olha para o morro coberto de moirões, olha para o terreiro nu, coça a cabeça e cuspilha.

– “Não paga a pena”.

Todo o inconsciente filosofar do caboclo grulha nessa palavra atravessada de fatalismo e modorra. Nada paga a pena. Nem culturas, nem comodidades. De qualquer jeito se vive.

Da terra só quer a mandioca, o milho e a cana. A primeira, por ser um pão já amassado pela natureza. Basta arrancar uma raiz e deitá-la nas brasas. Não impõe colheita, nem exige celeiro. O plantio se faz com um palmo de rama fincada em qualquer chão. Não pede cuidados. Não a ataca a formiga. A mandioca é sem vergonha.

Bem ponderado, a causa principal da lombeira do caboclo reside nas benemerências sem conta da mandioca. Talvez que sem ela se pusesse de pé e andasse. Mas enquanto dispuser de um pão cujo preparo se resume no plantar, colher e lançar sobre brasas, Jéca não mudará de vida. O vigor das raças humanas está na razão direta da hostilidade ambiente. Se a poder de estacas e diques o holandês extraiu de um brejo salgado a Holanda, essa jóia do esforço, é que ali nada o favorecia. Se a Inglaterra brotou das ilhas nevoentas da Caledônia, é que lá não medrava a mandioca. Medrasse, e talvez os víssemos hoje, os ingleses, tolhiços, de pé no chão, amarelentos, mariscando de peneira no Tamisa. Há bens que vêm para males. A mandioca ilustra este avesso de provérbio.

Outro precioso auxiliar da calaçaria é a cana. Dá rapadura, e para Jéca, simplificador da vida, dá garapa. Como não possui moenda, torce a pulso sobre a cuia de café um rolete, depois de bem massetados os nós; açucara assim a beberagem, fugindo aos trâmites condutores do caldo de cana à rapadura.

Todavia, est modus in rebus. E assim como ao lado do restolho cresce o bom pé de milho, contrasta com a cristianíssima simplicidade do Jéca a opulência de um seu vizinho e compadre que “está muito bem.” A terra onde mora é sua. Possui ainda uma égua, monjolo e espingarda de dois canos. Pesa nos destinos políticos do país com o seu voto e nos econômicos com o polvilho azedo de que é fabricante, tendo amealhado com ambos, voto e polvilho, para mais de quinhentos mil réis no fundo da arca.

Vive num corrupio de barganhas nas quais exercita uma astúcia nativa muito irmã da de Bertoldo. A esperteza última foi a barganha de um cavalo cego por uma égua de passo picado. Verdade é que a égua mancava das mãos, mas ainda assim valia dez mil réis mais do que o rossinante zanaga.

Esta e outras celebrizaram-lhe os engrimanços potreiros num raio de mil braças, grangeando-lhe a incondicional e babosa admiração do Jéca, para quem, fino como o compadre, “home” … nem mesmo o vigário de Itaóca!.

Aos domingos vai à vila bifurcado na magreza ventruda da Serena; leva apenso à garupa um filho e atrás o potrinho no trote, mais a mulher, com a criança nova enrolada no chale. Fecha o cortejo o indefectível Brinquinho, a resfolgar com um palmo de língua de fora.

O fato mais importante de sua vida é sem dúvida votar no governo. Tira nesse dia da arca a roupa preta do casamento, sarjão furadinho de traça e todo vincado de dobras, entala os pés num alentado sapatão de bezerro; ata ao pescoço um colarinho de bico e, sem gravata, ringindo e mancando, vai pegar o diploma de eleitor às mãos do chefe Coisada, que lho retém para maior garantia da fidelidade partidária.

Vota. Não sabe em quam, mas vota. Esfrega a pena no livro eleitoral, arabescando o aranhol de gatafunhos a que chama “sua graça”.

Se há tumulto, chuchurrea de pé firme, com heroísmo, as porretadas oposicionistas, e ao cabo segue para a casa do chefe, de galo cívico na testa e colarinho sungado para trás, afim de novamente lhe depor nas mão o “diploma”.

Grato e sorridente, o morubixaba galardoa-lhe o heroísmo, flagrantemente documentado pelo latejar do couro cabeludo, com um aperto de munheca e a promessa, para logo, duma inspetoria de quarteirão.

Representa este freguês o tipo clássico do sitiante já com um pé fora da classe. Exceção, díscolo que é, não vem ao caso. Aqui tratamos da regra e a regra é Jéca Tatu.

O mobiliário cerebral de Jéca, à parte o suculento recheio de superstições, vale o do casebre. O banquinho de três pés, as cuias, o gancho de toucinho, as gamelas, tudo se reedita dentro de seus miolos sob a forma de idéias: são as noções práticas da vida, que recebeu do pai e sem mudança transmitirá aos filhos.

O sentimento de pátria lhe é desconhecido. Não tem sequer a noção do país em que vive. Sabe que o mundo é grande, que há sempre terras para diante, que muito longe está a Corte com os graúdos e mais distante ainda a Bahia, donde vêm baianos pernósticos e cocos.

Perguntem ao Jéca quem é o presidente da República.

– “O homem que manda em nós tudo?

– “Sim.

– “Pois de certo que há de ser o imperador.

Em matéria de civismo não sobe de ponto.

– “Guerra? T’esconjuro! Meu pai viveu afundado no mato p’ra mais de cinco anos por causa da guerra grande. (4) Eu, para escapar do “reculutamento”, sou inté capaz de cortar um dedo, como o meu tio Lourenço…

Guerra, defesa nacional, ação administrativa, tudo quanto cheira a governo resume-se para o caboclo numa palavra apavorante – “reculutamento”.

Quando em princípios da Presidência Hermes andou na balha um recenseamento esquecido a Offenbach, o caboclo tremeu e entrou a casar em massa. Aquilo “havera de ser reculutamento”, e os casados, na voz corrente, escapavam à redada.

A sua medicina corre parelhas com o civismo e a mobília – em qualidade. Quantitativamente, assombra. Da noite cerebral pirilampejam-lhe apozemas, cerotos, arrobes e eletuários escapos à sagacidade cômica de Mark Twain. Compendia-os um Chernoviz não escrito, monumento de galhofa onde não há rir, lúgubre como é o epílogo. A rede na qual dois homens levam à cova as vítimas de semelhante farmacopéia é o espetáculo mais triste da roça.

Quem aplica as mezinhas é o “curador”, um Eusébio Macário de pé no chão e cérebro trancado como muita de taquaruçu. O veículo usual das drogas é sempre a pinga – meio honesto de render homenagem à deusa Cachaça, divindade que entre eles ainda não encontrou heréticos.

Doenças hajam que remédios não faltam.

Para bronquite, é um porrete cuspir o doente na boca de um peixe vivo e soltá-lo: o mal se vai com o peixe água abaixo…

Para “quebranto de ossos”, já não é tão simples a medicação. Tomam-se três contas de rosário, três galhos de alecrim, três limas de bico, três iscas de palma benta, três raminhos de arruda, três ovos de pata preta (com casca; sem casca desanda) e um saquinho de picumã! mete-se tudo numa gamela d’água e banha-se naquilo o doente, fazendo-o tragar três goles da zurrapa. É infalível.

O específico da brotoeja consiste em cozimento de beiço de pote para lavagens. Ainda há aqui um pormenor de monta; é preciso que antes do banho a mãe do doente molhe na água a ponta de sua trança. As brotoejas saram como por encanto.

Para dor de peito que “responde na cacunda”, cataplasma de “jasmim de cachorro” é um porrete.

Além desta alopatia, para a qual contribui tudo quanto de mais repugnante e inócuo existe na natureza, há a medicação simpática, baseada na influição misteriosa de objetos, palavras e atos sobre o corpo humano.

O ritual bizantino dentro de cujas maranhas os filhos do Jéca vêm ao mundo, e do qual não há fugir sob pena de gravíssimas conseqüências futuras, daria um in-fólio d’alto fôlego ao Sílvio Romero bastante operoso que se propusesse a compendiá-lo.

Num parto difícil nada tão eficaz como engolir três caroços de feijão mouro, de passo que a parturiente veste pelo avesso a camisa do marido e põe na cabeça, também pelo avesso, o seu chapéu. Falhando esta simpatia, há um derradeiro recurso: colar no ventre encruado a imagem de S. Benedito.

Nesses momentos angustiosos outra mulher não penetre no recinto sem primeiro defumar-se ao fogo, nem traga na mão caça ou peixe. A criança morreria pagã. A omissão de qualquer destes preceitos fará chover mil desgraças na cabeça do chorincas recém- nascido.

A posse de certos objetos confere dotes sobrenaturais. A invulnerabilidade às facadas ou cargas de chumbo é obtida graças à flor da samambaia.

Esta planta, conta Jéca, só floresce uma vez por ano, e só produz em cada samambaial uma flor. Isto à meia noite, no dia de S. Bartolomeu. É preciso ser muito esperto para colhe-la, porque também o diabo anda à cata. Quem consegue pegar uma, ouve logo um estouro e tonteia ao cheiro de enxofre – mas livra-se de faca e chumbo pelo resto da vida.

Todos os volumes do Larousse não bastariam para catalogar-lhes as crendices, e como não há linhas divisórias entre estas e a religião, confundem-se ambas em maranhada teia, não havendo distinguir onde pára uma e começa outra.

A idéia de Deus e dos santos torna-se jéco-cêntrica. São os santos os graúdos lá de cima, os coronéis celestes, debruçados no azul para espreitar-lhes a vidinha e intervir nela ajudando-os ou castigando-os, como os metediços deuses de Homero. Uma torcedura de pé, um estrepe, o feijão entornado, o pote que rachou, o bicho que arruinou – tudo diabruras da corte celeste, para castigo de más intenções ou atos.

Daí o fatalismo. Se tudo movem cordéis lá de cima, para que lutar, reagir? Deus quis. A maior catástrofe é recebida com esta exclamação, muito parenta do “Allah Kébir” do beduíno.

E na arte?

Nada.

A arte rústica do campônio europeu é opulenta a ponto de constituir preciosa fonte de sugestões para os artistas de escol. Em nenhum país o povo vive sem a ela recorrer para um ingênuo embelezamento da vida. Já não se fala no camponês italiano ou teutônico, filho de alfobres mimosos, propícios a todas as florações estéticas. Mas o russo, o hirsuto mujique a meio atolado em barbarie crassa. Os vestuários nacionais da Ucrânia nos quais a cor viva e o sarapantado da ornamentação indicam a ingenuidade do primitivo, os isbas da Lituânia, sua cerâmica, os bordados, os móveis, os utensílios de cozinha, tudo revela no mais rude dos campônios o sentimento da arte.

No samoieda, no pele-vermelha, no abexim, no Papua, un arabesco ingênuo costuma ornar-lhes as armas – como lhes ornam a vida canções repassadas de ritmos sugestivos.

Que nada é isso, sabido como já o homem pré-histórico, companheiro do urso das cavernas, entalhava perfis de mamutes em chifres de rena.

Egresso à regra, não denuncia o nosso caboclo o mais remoto traço de um sentimento nascido com o troglodita.

Esmerilhemos o seu casebre: que é que ali denota a existência do mais vago senso estético? Uma chumbada no cabo do relho e uns ziguezagues a canivete ou fogo pelo roliço do porretinho de guatambú. É tudo.

Às vezes surge numa família um gênio musical cuja fama esvoaça pelas redondezas. Ei-lo na viola concentra-se, tosse, cuspilha o pigarro, fere as cordase “tempera” , E fica nisso, no tempero.

Dirão: e a modinha?

A modinha, como as demais manifestações de arte popular existentes no país, é obra do mulato, em cujas veias o sangue recente do europeu, rico de atavismos estéticos, borbulha d’envolta com o sangue selvagem, alegre e são do negro.

O caboclo é soturno.

Não canta senão rezas lúgubres.

Não dança senão o cateretê aladainhado.

Não esculpe o cabo da faca, como o cabila.

Não compõe sua canção, como o felá do Egito.

No meio da natureza brasílica, tão rica de formas e cores, onde os ipês floridos derramam feitiços no ambiente e a infolhescência dos cedros, às primeiras chuvas de setembro, abre a dança dos tangarás; onde há abelhas de sol, esmeraldas vivas, cigarras, sabiás, luz, cor, perfume, vida dionisíaca em escachôo permanente, o caboclo é o sombrio urupê de pau podre a modorrar silencioso no recesso das grotas.

Só ele não fala, não canta, não ri, não ama.

Só ele, no meio da tanta vida, não vive…

(5) O livro Urupês foi lançado em 1918 (Vida Moderna, 11 de julho de 1918; O Paiz, 14 de agosto de 1918, terceira coluna). No mesmo ano foi lançada uma segunda edição (Fon-Fon, 21 de setembro de 1918).

 

 

 

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Reunia os artigos Velha Praga e Urupês, ambos, como já mencionado, publicados no O Estado de São Paulo, em 1914, além de mais 12 contos, escritos entre 1915 e 1917: O estigmaBocatortaO mata-pauBucólicaMeu conto de MaupassantA colcha de retalhosPollice VersoO engraçado arrependido, Um suplício moderno, O comprador de fazendas, Os faroleiros e A Vingança da Peroba. A maior parte dos contos já havia sido publicado na Revista do Brasil, lançada em janeiro de 1916 e adquirida por Lobato em junho de 1918.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Autorretratos de fotógrafos – Uma homenagem no Dia Internacional da Fotografia

A Brasiliana Fotográfica homenageia o Dia Internacional da Fotografia com a publicação de quatro autorretratos de importantes fotógrafos que atuaram no Brasil entre os séculos XIX e XX: o alemão Christoph Albert Frisch (1840 – 1918), o carioca Marc Ferrez (1843 – 1923), o francês Revert Henrique Klumb (c.1826 – c.1886) e o italiano Vincenzo Pastore (1865 – 1918). Interessante observar que o único autorretrato produzido fora de um estúdio fotográfico foi o de Frisch, que se fotografou, entre 1967 e 1868, em um barco em um rio na Amazônia, quando produziu os primeiros registros que chegaram até nós de índios brasileiros da região, além de aspectos de fauna e flora e de barqueiros de origem boliviana que atuavam como comerciantes itinerantes nos rios amazônicos. Os quatro fotógrafos já foram temas de artigos publicados no portal.

 

Acessando o link para os autorretratos de fotógrafos disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A data escolhida para a comemoração do Dia Internacional da Fotografia tem sua origem no ano de 1839, quando, em 7 de janeiro, na Academia de Ciências da França, foi anunciada a descoberta da daguerreotipia, um processo fotográfico desenvolvido por Joseph Nicèphore Niépce (1765-1833) e Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851). Cerca de sete meses depois, em 19 de agosto, durante um encontro realizado no Instituto da França, em Paris, com a presença de membros da Academia de Ciências e da Academia de Belas-Artes, o cientista François Arago (1786 – 1853), secretário da Academia de Ciências, explicou o processo e comunicou que o governo francês havia adquirido o invento, colocando-o em domínio público e, dessa forma, fazendo com que o “mundo inteiro” tivesse acesso à invenção. Em troca, Louis Daguerre e o filho de Joseph Niépce, Isidore, passaram a receber uma pensão anual vitalícia do governo da França, de seis mil e quatro mil francos, respectivamente.

A velocidade com que a notícia do invento do daguerreótipo chegou ao Brasil é curiosa: cerca de 4 meses depois do anúncio da descoberta, foi publicado no Jornal do Commercio, de 1º de maio de 1839, sob o título “Miscellanea”, na segunda coluna, um artigo sobre o assunto – apenas 10 dias após de ter sido o tema de uma carta do inventor norte-americano Samuel F. B. Morse (1791 – 1872), escrita em Paris em 9 de março de 1839 para o editor do New York Observer, que a publicou em 20 de abril de 1839.

 

Vincenzo Pastore (1865 – 1918)

 

 

A obra do fotógrafo italiano Vincenzo Pastore, importante cronista visual de São Paulo da segunda metade do século XIX e do início do século XX, ficou, durante décadas, em uma caixa de charutos, sem negativos. As ampliações foram produzidas pela própria mulher do fotógrafo, Elvira, que o ajudava no estúdio. Com sua câmara Pastore capturava tipos e costumes de um cotidiano ainda pacato de São Paulo, uma cidade que logo, com o desenvolvimento econômico, mudaria de perfil. Captava as transformações urbanas e humanas da cidade, que passava a ser a metrópole do café. Com seu olhar sensível, o bem sucedido imigrante italiano flagrava trabalhadores de rua como, por exemplo, feirantes, engraxates, vassoureiros e jornaleiros, além de conversas entre mulheres e brincadeiras de crianças. Pastore, ao retratar pessoas simples do povo, realizou, na época, um trabalho inédito na história da fotografia paulistana.

Acessando o link para as fotografias de Vincenzo Pastore disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Marc Ferrez (1843 – 1923)

 

 

Marc Ferrez (1843 – 1923) foi um brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Sua vasta e abrangente obra iconográfica se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Estabeleceu-se como fotógrafo com a firma Marc Ferrez & Cia, em 1867, na rua São José, nº 96, e logo se tornou o mais importante profissional da área no Rio de Janeiro. Cerca de metade da produção fotográfica de Ferrez foi realizada na cidade e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais.

Acessando o link para as fotografias de Marc Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Christoph Albert Frisch (1840 – 1918)

  

 

Christoph Albert Frisch (1840 – 1918) foi o fotógrafo responsável pela impressionante e pioneira série de 98 fotografias realizadas em 1867 na Amazônia: foram os primeiros registros que chegaram até nós de índios brasileiros da região, além de aspectos de fauna e flora e de barqueiros de origem boliviana que atuavam como comerciantes itinerantes nos rios amazônicos. Ele foi o fotógrafo que acompanhou a expedição pela Amazônia liderada pelo engenheiro alemão Joseph Keller e pelo fotógrafo, desenhista e pintor Franz Keller (1835 – 1890). Este último era genro de Georges Leuzinger ( 1813 – 1892), considerado um dos mais importantes fotógrafos e difusores para o mundo da fotografia sobre o Brasil no século XIX, além de pioneiro das artes gráficas no país.

Acessando o link para as fotografias de Christoph Albert Frisch disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886)

 

Um dos primeiros fotógrafos estrangeiros a se estabelecer no Brasil, o francês Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) foi o fotógrafo preferido da família imperial brasileira, tendo sido agraciado com o título de “Fotógrafo da Casa Imperial”, em 1861. Um dos pioneiros na produção comercial de imagens sobre papel fotográfico e uso de negativo de vidro em colódio no Brasil, inaugurou seu estabelecimento fotográfico em 1855 ( Correio Mercantil , de 4 de novembro de 1855, na última coluna ). Foi professor de fotografia da princesa Isabel e, provavelmente, o introdutor da técnica estereoscópica no Brasil, com a qual entre os anos de 1855 e 1862 produziu ampla documentação sobre o Rio de Janeiro.

Foi também o autor do livro Doze horas em diligência. Guia do viajante de Petrópolis a Juiz de Fora, única obra do Brasil do século XIX a ser idealizada, fotografada, escrita e publicada por uma só pessoa. Também foi o primeiro livro de fotografia inteiramente litografado e produzido no país. Dois exemplares estão conservados na Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional.

Acessando o link para as fotografias de Revert Henrique Klumb disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Links para artigos já publicados na Brasiliana Fotográfica em torno da celebração do Dia Internacional da Fotografia e também do Dia Nacional do Fotógrafo:

Dia Internacional da Fotografia – 19 de agosto, publicado em 19 de agosto de 2015

Dia Nacional do Fotógrafo, publicado em 8 de janeiro de 2016

O centenário da morte de João do Rio (1881 – 1921), o cronista da “belle époque” carioca

Em sua época, Paulo Barreto (1881 – 1921), o João do Rio, era considerado o príncipe dos cronistas brasileiros: “Era um espírito de escol, educado, viajado, e enobreceu, quanto pode, as letras do país conquistando um nome imortal pela glória constante do trabalho (Bahia Illustrada, junho de 1921). Foi o primeiro grande repórter da imprensa brasileira do século XX e sua produção oscilava entre a reportagem e o conto.

Morou, a partir de fins da década de 1910, em uma casa na praia de Ipanema, na rua Vieira Souto, nº 476, registrada por Chapelin (18? – 19?), fotógrafo sobre o qual se sabe muito pouco. Anteriormente, João do Rio morava na rua Gomes Freire, na Lapa. Segundo o jornalista e historiador Raimundo Magalhães Junior (1907 – 1981), a casa deve ter sido adquirida, a preço de propaganda, desse espírito empreendedor o esquecido Raul Kennedy de Lemos (1880 – 1951), fundador da Companhia Construtora Ipanema. João do Rio comprou outra casa para sua mãe, também em Ipanema, na rua Prudente de Moraes, 391.

 

 

Pouco antes, ele havia escrito a crônica Praia Maravilhosa em homenagem ao bairro (O Paiz, 23 de maio de 1917). O título faz uma referência à expressão Cidade Maravilhosa – La Ville Merveilleuse -, nome do livro onde os poemas Amor ao Rio, de autoria da francesa Jane Catulle-Mendès (1867 – 1955), foram publicados em 1913. Ela havia passado uma temporada, de setembro a dezembro de 1911, no Rio de Janeiro, quando se encantou pela cidade (O Paiz, 20 de setembro, quarta coluna; e 6 de dezembro, primeira coluna de 1911).

 

 

Voltando à crônica de João do Rio sobre Ipanema. Nela, ele evidencia seu entusiasmo pela beleza assim como traça o perfil do bairro, ainda recente e pouco habitado. Sobre a crônica, Magalhães Junior comentou que dava a “impressão de um prospecto predial. É claro que não poderia ter sido coisa desinteressada, pois João do Rio não era ingênuo ao ponto de se deixar arrastar por alguém cujo interesse estava perfeitamente caracterizado: criar ambiente favorável à venda de lotes de terreo e de casa a prestações”. Mas tudo indica que os elogios do cronista eram sinceros tanto que pouco tempo depois mudou-se para o bairro.

 

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Um pouco da história de Ipanema

José Antônio Moreira Filho (1830-1899), o barão e conde de Ipanema, comprou, em 1878, do tabelião e empresário Francisco José Fialho (1820? – 1885), um lote de terras que ia desde a atual rua Barão de Ipanema até o atual Canal do Jardim de Alah. Criou, então, um novo bairro, que batizou de “Villa Ipanema”, em homenagem a seu pai, o primeiro barão e conde de Ipanema, o paulista João Antônio Moreira (1797 – 1879). O nome Ipanema significa em tupi água ruim e foi inspirado por uma das propriedades do barão, em Minas Gerais.

A Villa Ipanema foi inaugurada, em 15 de abril de 1894, pelo barão e por seu sócio José Silva com a presença do prefeito Henrique Valladares, que no mesmo dia inaugurou a ampliação das linhas de bonde da empresa de Ferro Carril do Jardim Botânico, da Praça Malvino Reis, atual Serzedelo Correia, até a ponta da Igrejinha, que era a Igreja de Nossa Senhora de Copacabana, erguida no século XVIII e derrubada em 1918, próxima à rua Francisco Otaviano (Gazeta de Notícias, 16 de abril de 1894, terceira coluna). Em 26 de abril de 1894, foi assinada a ata de fundação definitiva do bairro Villa Ipanema, com a presença do então prefeito Henrique Valadares e do barão e conde de Ipanema, que lançou, em seus terrenos, um enorme loteamento, berço do que é ainda hoje um dos bairros mais valorizados da cidade do Rio de Janeiro. No princípio, foram abertas 13 ruas, uma avenida e duas praças no areal sem valor, tomado por pitangueiras, cajueiros e araçazeiros. Até hoje essas vias são as mais importantes artérias do bairro. Entre elas, a avenida Vieira Souto e as ruas Prudente de Moraes e Visconde de Pirajá, essa última batizada inicialmente de Vinte de Novembro. Ipanema conservou a denominação de vila até a década de 20. Apesar de alguns autores considerarem outras datas, o dia 26 de abril de 1894 é a data mais aceita como marco de referência da fundação do bairro. Ipanema tornou-se, ao longo do século XX, reduto de artistas, intelectuais, jornalistas e boêmios, um dos símbolos do comportamento de vanguarda, exportando a moda e os costumes cariocas para o resto do país.

 

Um pouco da vida de Paulo Barreto, o João do Rio (1881 – 1921)

 

 

“Qual de vós já passou a noite em claro ouvindo o segredo de cada rua? Qual de vós já sentiu o mistério, o sono, o vício, as idéias de cada bairro?”

João do Rio em  A Alma Encantadora das Ruas (1908)

 

Carioca, filho do matemático positivista Alfredo Coelho Barreto e da dona de casa Florência Cristóvão dos Santos Barreto, João Paulo Alberto Coelho Barreto nasceu em 5 de agosto de 1881. Em 1899, iniciou sua carreira no jornalismo, tendo colaborado, ao longo de sua vida, em diversas publicações, dentre elas O Paiz, A Noite, A Pátria, Revista Ilustrada, Rio-Jornal e a Gazeta de Notícias, onde ficou de 1903 a 1915, e onde assinou pela primeira vez como João do Rio, pseudônimo pelo qual tornou-se mais conhecido, no artigo O Brasil lê, publicado em 26 de novembro de 1903, uma enquete dos autores preferidos dos cariocas. Teve outros pseudônimos, dentre eles Claude, Caran d’Ache, Joe e José Antônio José. Assinou colunas importantes como “A cidade” (1903 a 1904), “O instante”(1912 a 1916), À margem do dia”(1913 a 1915), “Cinematógrafo” (1907 a 1910), todas na Gazeta de Notícias; “Pall-Mall Rio” (1915 a 1917), em O Paiz; “A Semana Elegante” (1916), na Revista Ilustrada; e “Notas de Teatro” (1918), no Rio-Jornal. Seus mais importantes personagens foram a cidade do Rio de Janeiro e ele mesmo, um dândi nos trópicos.

 

 

Entre 1902 e 1906, o Rio de Janeiro teve como prefeito Francisco Pereira Passos (1836 – 1913) que realizou na cidade uma significativa reforma urbana. Para saneá-la e modernizá-la realizou diversas demolições, conhecidas popularmente como a política do “bota-abaixo”, que contribuiu fortemente para o surgimento do Rio de Janeiro da Belle Époque. Em sua obra, que fundia a crônica com a reportagem, João do Rio escrevia sobre essas transformações, contribuindo para a formação da imagem desse novo Rio de Janeiro.

 

“Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem…É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. “

João do Rio em  A Alma Encantadora das Ruas (1908)

 

Em 1902, tentou ingressar no Itamaraty mas foi recusado pelo Barão do Rio Branco (1845 – 1912)  que justificou a decisão dizendo que as nomeações para a vaga pleiteada por João do Rio na comissão que estava organizando para tratar das questões da fronteira entre Brasil e Colômbia já haviam sido preenchidas por Enéias Martins, que chefiaria a missão. Segundo o professor Renato Cordeiro Gomes em seu livro João do Rio: vielas do vício, ruas da graça, na verdade teria sido recusado por ser “gordo, amulatado e homossexual“. O Brasil perdeu um diplomata e ganhou um notável jornalista/escritor. Sobre o trabalho na imprensa, em sua coluna “Cinematógrafo”, o definiu como “o voluntário cativeiro para o qual não há abolição possível” (Gazeta de Notícias, 10 de maio de 1908, sexta coluna). Produziu para a Gazeta de Notícias, as séries de reportagem  Religiões do Rio , em 1904, e O Momento Literário, em 1905, que foram posteriomente compiladas e publicadas pela Garnier.

Em 12 de agosto de 1910,  tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras, tendo sido recebido por Coelho Neto (1864 – 1934)(Site da ABL).

 

 

Foi o responsável pelo texto do álbum Theatro Municipal do Rio de Janeiro, de 1913, com fotografias produzidas pelo ateliê Photographia Musso, também editor do livro. O teatro, inaugurado em 14 de julho de 1909, é uma das mais importantes salas de espetáculo da América do Sul, seu prédio é um dos mais bonitos e imponentes da cidade e sua história mistura-se à trajetória cultural do Brasil.

 

 

Link para o pdf do álbum Theatro Municipal do Rio de Janeiro (1913) com texto de Paulo Barreto, o João do Rio, e imagens produzidas pela Photo Musso, também editora do livro.

A Photographia Musso, dirigida por Alfredo Musso, ficava na rua Uruguaiana, nº 12 (Almanak Laemmert, 1913, primeira coluna). Alfredo era irmão de Luis Musso (18? – 1908), que havia sido sócio do estabelecimento fotográfico do português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924), onde Alfredo havia trabalhado (Jornal do Commercio, 1º de fevereiro de 1897, penúltima colunaO Paiz, 19 de outubro de 1900, sexta coluna). Luis Musso havia sido o primeiro operador da Companhia Photographica Brazileira, dirigida pelo fotógrafo Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897), desde sua fundação, em 1892, até 31 de março de 1894 (Jornal do Commercio, 13 de fevereiro de 1898, na última coluna). Em 1904, tendo deixado de trabalhar na Photographia Guimarães, Alfredo e Luis Musso e Julio D. Beltgen anunciaram a abertura de um novo estabelecimento fotográfico, na rua Uruguaiana, nº 10 (Gazeta de Notícias, 21 de fevereiro de 1904, terceira coluna). Em 1905, os irmãos Musso estavam estabelecidos sob a razão social L. Musso & C, que também se anunciava como Photographia Brazileira. Quando o álbum do Theatro Municipal foi publicado Luis Musso já havia falecido (O Paiz, 1º de agosto de 1908, sexta coluna).

Voltando a João do Rio. Em 8 de agosto de 1916, sob o pseudônimo José Antônio José, publicou na coluna “Pall-Mall-Rio” a crônica Clic! Clac! O fotógrafo!, em que discorreu sobre a “loucura da fotografia” (O Paiz, 8 de agosto de 1916, sexta coluna).

 

 

Em 1917, foi um dos fundadores e passou a dirigir a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais – Sbat. Em 1920, fundou o jornal A Pátria, onde defendia os interesses da colônia portuguesa, que seria prejudicada pela nacionalização da pesca. Por seu posicionamento, foi muitas vezes ofendido, tendo sido surrado por nacionalistas – o capitão de fragata Frederico Vilar e cinco jovens oficiais – quando almoçava sozinho em um de seus restaurantes preferidos, o da Brahma (O Paiz, 3 de outubro de 1920, terceira coluna).

Faleceu em 23 de junho de 1921, quando teve um enfarte dentro de um táxi na rua Bento Lisboa (O Paiz, 24 de junho e 25 de junho de 1921). Foi velado na redação do jornal A Pátria. Seu enterro, um dos mais concorridos realizados no Brasil, só comparável aos do presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954), da cantora Carmen Miranda (1909 – 1955) e do estudante Edson Luis (1950 – 1968), foi acompanhado por cerca de 100 mil pessoas. Seus restos mortais estão sepultados em uma tumba de mármore italiano e bronze, no Cemitério de São João Batista e é considerado um dos mais belos trabalhos de arte funerária no Rio de Janeiro (O Paiz, 27 de junho de 1921, terceira colunaGazeta de Notícias, 27 de junho de 1921; O Paiz, 28 de junhvido de 1921, primeira coluna). Sua biblioteca foi doada por sua mãe ao Real Gabinete Português de Leitura.

 

cronista

 

João do Rio deixou uma vasta obra e entre seus livros mais importantes, destacam-se  A alma encantadora das ruas (1908),  Vida vertiginosa (1911) e Rosário da Ilusão (1919). Como teatrólogo, seu maior sucesso foi A bela madame Vargas, que estreou em 22 de outubro de 1912, no Teatro Municipal (Correio da Manhã, 22 de outubro de 1922Revista da Semana, 26 de outubro de 1912). Outras de suas peças foram Chic-chic (1906) e Clotilde (1907). Traduziu obras do escritor e dramaturgo irlandês Oscar Wilde (1854 – 1900).

 

 

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Ao longo de sua vida viajou quatro vezes à Europa e conviveu com importantes personalidades do mundo cultural e artístico, dentre elas a bailarina Isadora Duncan (1877 – 1927), que esteve no Rio de Janeiro, em 1916 (Revista da Semana, 9 de setembro de 1916). ”…relatos de Gilberto Amado revelam a cumplicidade dos dois (Isadora e João do Rio): conversavam em várias línguas e não se desgrudavam. Isadora fez até uma apresentação exclusiva para o amigo e seu protegido na Cascatinha da Tijuca: tirou não só o sapato mas a roupa inteira, bailando envolta em filó”Em suas memórias, Isadora diz: ”Aí conheci o poeta João do Rio, muito querido pela mocidade do Rio, onde aliás todos parecem poetas. Quando passeávamos, éramos seguidos pela rapaziada que gritava: ‘Viva Isadora!’, ‘Viva João do Rio!”’ (O Globo, 13 de abril de 1996).

 

 

Apesar de sua grande popularidade, segundo seu biógrafo, João Carlos Rodrigues,  João do Rio “teve muitos desafetos que o atacavam por sua afrodescendência e homossexualidade“. Logo no primeiro número de O Gato, Álbum de Caricaturas, em julho de 1911, revista desenhada por Seth (1891 – 1949) – pseudônimo de Álvaro Martins – e Hugo Leal – pseudônimo do português Vasco Lima (1883 – 1973) – foi caricaturado ao lado do poeta Olavo Bilac (1865 – 1918) apreciando uma escultura do imperador Heliogábalo nu. Na legenda, um suposto diálogo entre os dois escritores, que haviam estado recentemente na Itália: “- Soberbo, hein? – Que delicioso seria se todos os homens fossem assim!”.

 

 

O Globo, 13 de abril de 1996

O Globo, 13 de abril de 1996

 

A professora e feminista portuguesa Mariana Coelho, personagem do artigo Série “Feministas, graças a Deus!” IX – Mariana Coelho (1857 – 1954), a “Beauvoir tupiniquim”, publicou uma homenagem a João do Rio, na ocasião da morte do escritor:

 

 

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Link para a crônica João do Rio na vitrina, de autoria de Carlos Drummond de Andrade (1987 – 1902), publicada no Jornal do Brasil de 13 de agosto de 1981, na ocasião do centenário de nascimento de João do Rio, quando a Biblioteca Nacional, uma das fundadoras do portal Brasiliana Fotográfica, realizou uma exposição em homenagem ao aniversariante.

 

 

A Rua

João do Rio

Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia. Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.

A rua! Que é a rua? Um cançonetista de Montmartre fá-la dizer:

         Je suis la rue, femme éternellement verte,

         Je n’ai jamais trouvé d’autre carrière ouverte

         Sinon d’être la rue, et, de tout temps, depuis

         Que ce pénible monde est monde, je la suis…

(Eu sou a rua, mulher eternamente verde, jamais encontrei outra carreira aberta senão a de ser a rua e, por todo o tempo; desde que este penoso mundo é mundo, eu a sou…)

A verdade e o trocadilho! Os dicionários dizem: “Rua, do latim ruga, sulco. Espaço entre as casas e as povoações por onde se anda e passeia.” E Domingos Vieira, citando as Ordenações: “Estradas e rua pruvicas antigamente usadas e os rios navegantes se som cabedaes que correm continuamente e de todo o tempo pero que o uso assy das estradas e ruas pruvicas.” A obscuridade da gramática e da lei! Os dicionários só são considerados fontes fáceis de completo saber pelos que nunca os folhearam. Abri o primeiro, abri o segundo, abri dez, vinte enciclopédias, manuseei in-fólios especiais de curiosidade. A rua era para eles apenas um alinhado de fachadas, por onde se anda nas povoações…

Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! Em Benares ou em Amsterdã, em Londres ou em Buenos Aires, sob os céus mais diversos, nos mais variados climas, a rua é a agasalhadora da miséria. Os desgraçados não se sentem de todo sem o auxílio dos deuses enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua. A rua é o aplauso dos medíocres, dos infelizes, dos miseráveis da arte. Não paga ao Tamagno para ouvir berros atenorados de leão avaro, nem à velha Patti para admitir um fio de voz velho, fraco e legendário. Bate, em compensação, palmas aos saltimbancos que, sem voz, rouquejam com fome para alegrá-la e para comer. A rua é generosa. O crime, o delírio, a miséria não os denuncia ela. A rua é a transformadora das línguas. Os Cândido de Figueiredo do universo estafam-se em juntar regrinhas para enclausurar expressões; os prosadores bradam contra os Cândido. A rua continua, matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons futuros. A rua resume para o animal civilizado todo o conforto humano. Dá-lhe luz, luxo, bem-estar, comodidade e até impressões selvagens no adejar das árvores e no trinar dos pássaros.

A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopeia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas. A rua criou todas as blagues e todos os lugares-comuns. Foi ela que fez a majestade dos rifões, dos brocardos, dos anexins, e foi também ela que batizou o imortal Calino. Sem o consentimento da rua não passam os sábios, e os charlatães, que a lisonjeiam e lhe resumem a banalidade, são da primeira ocasião desfeitos e soprados como bolas de sabão. A rua é a eterna imagem da ingenuidade. Comete crimes, desvaria à noite, treme com a febre dos delírios, para ela como para as crianças a aurora é sempre formosa, para ela não há o despertar triste, e quando o sol desponta e ela abre os olhos esquecida das próprias ações, é, no encanto da vida renovada, no chilrear do passaredo, no embalo nostálgico dos pregões – tão modesta, tão lavada, tão risonha, que parece papaguear com o céu e com os anjos…

A rua faz as celebridades e as revoltas, a rua criou um tipo universal, tipo que vive em cada aspecto urbano, em cada detalhe, em cada praça, tipo diabólico que tem dos gnomos e dos silfos das florestas, tipo proteiforme, feito de risos e de lágrimas, de patifarias e de crimes irresponsáveis, de abandono e de inédita filosofia, tipo esquisito e ambíguo com saltos de felino e risos de navalha, o prodígio de uma criança mais sabida e cética que os velhos de setenta invernos, mas cuja ingenuidade é perpétua, voz que dá o apelido fatal aos potentados e nunca teve preocupações, criatura que pede como se fosse natural pedir, aclama sem interesse, e pode rir, francamente, depois de ter conhecido todos os males da cidade, poeira d’oiro que se faz lama e torna a ser poeira – a rua criou o garoto!

Essas qualidades nós as conhecemos vagamente. Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível; é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes – a arte de flanar: É fatigante o exercício?

Para os iniciados sempre foi grande regalo. A musa de Horácio, a pé, não fez outra coisa nos quarteirões de Roma. Sterne e Hoffmann proclamavam-lhe a profunda virtude, e Balzac fez todos os seus preciosos achados flanando. Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti, de casaca, aplaudirem o maior tenor do Lírico numa ópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja…

                                                  A alma encantadora das ruas (1908)

 

Caricatura de João do Rio, de Cássio Loredano

Caricatura de João do Rio, de Cássio Loredano

 

Link para o filme sobre a vida de João do Rio, De lá prá cá, parte 1 e parte 2.

Link  para cartas enviadas por João do Rio para o político e pensador português João de Barros (1881 – 1960), publicadas no Correio IMS.

A jornalista Cristiane d´Avila, da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, uma das instituições parceiras do portal, organizou um site textos inéditos de João do Rio onde estão disponibilizadas s 52 colunas “Bilhete” do jornal A Pátria, fundado pelo escritor. Acesse aqui.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANTELO, Raul. João do Rio – O dândi e a especulação. Rio de Janeiro : Livraria Taurus-Timbre Editores, 1989.

COSTA, Luis Ricardo Araújo. O Cinematographo de João do Rio; fotogramas de uma cidade em movimento, trabalho realizado sob a orientação do professor Ricardo Gomes, do Departamento de Comunicação Social da PUC-RJ.

Enciclopédia Itaú Cultural 

GAWRYSZEWSKI, Alfredo (organizador). Imagem: Artefato cultural. Londrina : Eduel, 2017.

GOMES, Renato Cordeiro. João do Rio: vielas do vício, ruas da graças. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: Prefeitura, 1996. Série Perfis do Rio, n. 13.

GOMES, Renato Cordeiro. João do Rio. Rio de Janeiro : Agir, 2005.

Hemeroteca da Biblioteca Nacional

MAGALHÃES JUNIOR, Raimundo. A Vida Vertiginosa de João do Rio. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1978.

O Globo, 19 de junho de 2021

O Globo, 23 de junho de 2021 – Coluna de Joaquim Ferreira dos Santos.

RODRIGUES, João Carlos. João do Rio: vida, paixão e obra. Rio de Janeiro : Topbooks, 1996.

RODRIGUES, João Gabriel. João do Rio e as representações do Rio de Janeiro: o artista, o repórter e o artifício, trabalho realizado sob a orientação do professor Ricardo Gomes, do Departamento de Comunicação Social da PUC-RJ.

SCHAPOCHNIK, Nelson. João do Rio, um dândi na cafelândia. São Paulo : Boitempo Editorial, 2004.

Site da Academia Brasileira de Letras

A Estrada de Ferro do Paraná, de Paranaguá a Curitiba, pelos fotógrafos Arthur Wischral e Marc Ferrez

 

 

Arthur Júlio Wischral (1894 – 1982) foi um importante fotógrafo do Paraná, tendo realizado trabalhos para a imprensa e também para o governo do estado onde atuou. Em 1928, foi contratado pela Rede Viação Paraná – Santa Catarina e registrou o dia a dia das obras de manutenção da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá assim como as dificuldades enfrentadas por seus trabalhadores. Um álbum, editado pelo próprio fotógrafo e por J. J. Wischral, foi produzido com esses registros.

 

 

 

Acessando o link para o Álbum de Photografias da Ferrovia de Curytiba a Paranaguá, de autoria de Arthur Wischral, disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

No final do artigo, há uma cronologia da vida de Wischral.

 

Um pouco da história da ferrovia Curitiba-Paranaguá, cuja construção foi registrada pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923)

 

 

O surgimento dos trens de ferro e a expansão das ferrovias eram no século XIX um evidente sinal de modernidade. Significavam a vitória, o triunfo do homem a partir da tecnologia e tinham como uma de suas consequências o desenvolvimento econômico. A ideia da construção da Ferrovia do Paraná surgiu após a emancipação do estado do Paraná, em 29 de agosto de 1853, a partir da Lei Imperial nº 704, assinada por dom Pedro II(1825 – 1891). Era um desafio escoar a erva-mate, importante produto para a economia do estado, para os portos do litoral. Por essa razão, foi autorizada a contratação de uma via férrea a partir da Lei Provincial nº 11, de 30 de abril de 1856 (Dezenove de Dezembro, 22 de outubro de 1856).

 

Acessando o link das imagens do Álbum da Estrada de Ferro do Paraná, de autoria de Marc Ferrez, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Porém, só no início da década de 1870, os engenheiros Francisco Monteiro Tourinho (1837 – 1885), Antônio Pereira Rebouças (1839 – 1874) e Maurício Schwartz (18? -?) solicitaram ao Império um pedido de concessão para a construção da ferrovia. Eles já haviam construído a Estrada da Graciosa, também no Paraná. A estrada de ferro do Paraná sairia, a princípio, da cidade de Antonina. Após muita polêmica, o Decreto Imperial de 1.º de maio de 1875 decidiu que o trem partiria de Paranaguá. O argumento foi que a profundidade da baía de Antonina não comportaria navios de grande porte.

O projeto da ferrovia, arrojado e muito avançado para a época, foi dos irmãos e engenheiros André Rebouças (1838 – 1898) – também abolicionista – e Antônio Pereira Rebouças (1839 – 1874), considerados, até hoje, os primeiros afrodescendentes formados em Engenharia no Brasil. Para realizá-lo, os irmãos fizeram um estudo detalhado da Serra do Mar e elaboraram um traçado cheio de pontes, túneis e viadutos.

 

 

Em 1873, por não conseguir cumprir os prazos estabelecidos para o início das obras, Antônio Rebouças cedeu seus direitos ao Barão de Mauá (1813 – 1889), que também não cumpriu as exigências do contrato. Em 1877, foi aprovado um novo traçado baseado nos originais de Rebouças e com adaptações dos engenheiros Rodolpho Alexandre Helh e Luiz da Rocha Dias. Pelo Decreto n° 7420 de 12 de agosto de 1879, assinado por João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, o Visconde de Sinimbu (1810 – 1906), foi autorizada a transferência de todos os direitos e obrigações dos, desde 1875, concessionários da ferrovia, José Gonçalves Pecego Junior e José Maria da Silva Lemos, à companhia francesa Compagnie Général de Chemins de Fer Brésiliens, que não tinha expertise em relação à construção de estradas de ferro, o que sua companhia associada, a empreiteira belga Société Anonyme de Travaux Dyle et Bacalan, tinha. Ficou, então, encarregada das obras.

 

 

O diretor dos novos serviços para a construção, um marco da engenharia do Brasil, foi o comendador Antônio Ferrucci (c. 1830 – ?), um dos principais chefes de seu planejamento que, com outros membros da comissão de engenharia da estrada, chegou ao Rio de Janeiro, em 8 de fevereiro de 1880, no paquete francês Gironde (Gazeta de Notícias, 10 de fevereiro de 1880, sétima coluna). Ferrucci comandou as obras até fins de 1881. A partir de 20 de janeiro de 1882, o representante no Brasil da Société Anonyme des Travaux Dyle et Bacalan, o engenheiro Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), futuro prefeito do Rio de Janeiro, entregou a chefia das obras ao engenheiro brasileiro João Teixeira Soares (1848 – 1927), que concluiu a construção da ferrovia, sendo o seu primeiro diretor.

 

 

A construção da ferrovia para a qual, entre brasileiros e estrangeiros – franceses, italianos, belgas, suíços, suecos e poloneses -, foram empregados cerca de nove mil trabalhadores, alavancou o desenvolvimento de Curitiba assim como a história da economia do Paraná.

Em 5 de junho de 1880, com a presença de dom Pedro II (1825 – 1891), em sua primeira e única visita ao Paraná, foi lançada a pedra fundamental das obras da ferrovia (Dezenove de Dezembro, 24 de maio de 1880Dezenove de Dezembro, 9 de junho de 1880, segunda coluna). A inauguração do tráfego regular da primeira seção, o trecho de Paranaguá a Morretes, ocorreu em 17 de novembro de 1883. O da segunda seção, entre Morretes e Borda do Campo ou Roça Nova, em 1884.

 

 

Em 13 de dezembro de 1884, a princesa Isabel (1846 – 1921), seus filhos, o governador do Paraná, Brasílio Augusto de Machado Oliveira (1848 – 1919); além de outras autoridades viajaram na ferrovia do Paraná, entre Curitiba e Paranaguá, onde a princesa embarcaria para Antonina e depois para Santa Catarina, onde encontraria seu marido, o conde d´Eu (1842 – 1922), em Joinville (Gazeta de Notícias, 14 de dezembro de 1884, primeira colunaDezenove de Dezembro, 14 de dezembro de 1884, primeira colunaO Paiz, 14 de dezembro de 1884, segunda coluna).

 

 

No dia 1º de fevereiro de 1885,  partiu da cidade de Curitiba um trem especial com destino à Paranaguá. Nele viajaram o dr. Brasilio Machado (1848 – 1919), presidente da Província; o chefe da Polícia, o senador Pedro Leão Veloso (1828 – 1902), o engenheiro João Teixeira Soares (1848 – 1927), dentre outras autoridades. Em Paranaguá, pelo vapor América, fretado pela Compagnie Général de Chemins de Fer Brésiliens, chegaram da Corte, no dia seguinte pela manhã, entre outros, o ministro da Agricultura, Manoel Pinto de Souza Dantas (1831 – 1894);  os ministros da Bélgica, da Rússia e da França; o Visconde de Paranaguá (1821 – 1912) e o Conselheiro Sinimbu (1810 – 1906) (Dezenove de Dezembro, 4 de fevereiro de 1885).

 

O vapor do mar, em galas, saudava a locomotiva, vapor de terra. Fulton abraçava Stephenson.

 

O fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), que fotografou a ferrovia na época de sua construção, estava presente no evento (Dezenove de Dezembro, 4 de fevereiro de 1885, terceira coluna).

 

 

Ainda na manhã de 2 de fevereiro, às 10h, o trem inaugural da Ferrovia do Paraná partiu de Paranaguá, fez uma parada em Morretes e, às 14h, em Cadeado, onde os convidados almoçaram. Houve uma série de saudações, uma delas feita pelo engenheiro Pereira Passos (1836 – 1913).

 

 

Depois de mais uma parada, na estação de Piraquara, o comboio chegou, às 19h, à Curitiba, tendo sido recepcionado por cerca de cinco mil pessoas que o aguardavam. Às 20:20, a Compagnie Général de Chemins de Fer Brésiliens ofereceu um banquete aos convidados da Corte, em um dos armazéns da estação, ornamentada com as bandeiras belga, brasileira, francesa, italiana e russa. Havia também uma exposição de utensílios dos operários que haviam trabalhado na construção da ferrovia.

 

 

 

 

 

 

Pereira Passos (1836 – 1913) presenteou dom Pedro II (1825 – 1891) com 14 fotografias e um álbum de autoria de Ferrez das obras da ferrovia, Estrada de Ferro do Paraná. O álbum integra a coleção Thereza Christina Maria, mantida na Biblioteca Nacional do Brasil, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica.

 

 

Em 1886, em uma reunião da Sociedade Central de Immigração, da qual faziam parte, entre outros, o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), o pintor italiano Nicolau Facchinetti (1824 – 1900), e o político Alfredo d´Escragnolle Taunay (1843 – 1899), foram apresentadas por esse último, presidente da associação, fotografias da ferrovia do Paraná, de autoria de Ferrez (A Immigração, agosto de 1886).

 

álbum

 

Acesse aqui o pdf do Álbum da Estrada de Ferro do Paraná, de autoria de Marc Ferrez, com 33 imagens.

Sobre o viaduto São João, considerado o mais importante de toda a linha, inaugurado em 26 de junho de 1884 e registrado na fotografia abaixo, o engenheiro Teixeira Soares (1848 – 1927) comentou:

 

 

“Os três vãos pequenos são vencidos com vigas de alma cheia. Só o vão central é de treliça. Assenta sobre pilares de ferro batido, apoiados em base de alvenaria de pedra. A estrutura metálica é fabricada na Bélgica. Fornecemos os perfis do terreno natural e do greide. Eles projetam cada ponte ou viaduto de acordo com o trem de carga especificado. Aqui fazemos a montagem, que não é fácil. Para muita gente pode parecer desperdício pilares metálicos, se estamos rodeados de granito e de gnaisse em abundância. Acontece que a experiência europeia concluiu que, a partir de 30 metros, o ferro torna-se mais econômico do que a alvenaria de pedra. O alojamento e a manutenção do numeroso pessoal necessário à execução de importantes maciços de alvenaria acarretam dificuldades. Embora isso, os pilares metálicos devem ser embutidos em bases de alvenaria, com certa altura. Não só impedem que a unidade provoque a corrosão do metal, como evitam que suba até a estrutura metálica. Para vãos inferiores a 15 metros, os europeus recomendam vigas de alma cheia. Mais afoitos, os americanos as empregam até vãos de 35 metros. Seu inconveniente é a rebitagem. Trabalho insano. Como estamos sujeitos ao mercado europeu, acima de 15 metros usamos vigas em treliça, a exemplo do vão central. As treliças simples são três. Em “V”, conhecidas por vigas ‘Warren’, do nome do engenheiro inglês que primeiro as usou no seu país. Em “N”, ou Monier, nome do engenheiro belga que as patenteou em 1858, na Alemanha. Finalmente as Neville, nome tirado do engenheiro americano que as inventou, mas que não passam de um tipo misto das anteriores. Aqui, dada a extensão do vão, os belgas projetaram uma treliça múltipla dupla.”

 

Pequena cronologia da carreira de Marc Ferrez como fotógrafo no setor ferroviário

 

 

1880 – Entre 1880 e 1890,  fotografou as construções ferroviárias no Brasil, quando produziu um grande panorama da paisagem brasileira de sua época.

1882 – Fotografou as obras da ferrovia Dom Pedro II, em São Paulo e em Minas Gerais, tendo registrado a presença do imperador Pedro II e de sua comitiva na entrada do túnel da Serra da Mantiqueira (Gazeta de Notícias, 27 de junho de 1882, na quarta coluna).

 

1883 – O Club de Engenharia ofereceu uma recepção ao engenheiro hidráulico holandês J. Dirks, o grande especialista da época em portos e canais, que estava de passagem pelo Rio de Janeiro e seguiria para Valparaíso, no Chile. Na ocasião, foi realizada uma exposição de fotografias das estradas de ferro, de autoria de Marc Ferrez (Revista de Engenharia, 14 de abril de 1883).

c. 1884 – Fotografou as obras da ferrovia do Paraná (Paranaguá – Curitiba. O gerente da firma Société Anonyme des Travaux Dyle et Bacalan, empreiteira belga encarregada pelas obras, o futuro prefeito do Rio de Janeiro, o engenheiro Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), presenteou dom Pedro II com 14 fotografias e um álbum de autoria de Ferrez com registros da ferrovia e da província do Paraná.

1884 - Exposição de fotografias da estrada de ferro Teresa Cristina, na A la Glacê Elegante (Gazeta da Tarde, 11 de novembro de 1884, na quinta coluna).

1885 – Ferrez participou da inauguração da ferrovia do Paraná, a estrada de ferro Paranaguá – Curitiba (Dezenove de Dezembro, 4 de fevereiro de 1885, na terceira coluna).

1886 – Em uma reunião da Sociedade Central de Immigração, da qual faziam parte, entre outros, o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), o pintor italiano Nicolau Facchinetti (1824 – 1900), e o político Alfredo d´Escragnolle Taunay (1843 – 1899), foram apresentadas por esse último, presidente da associação, fotografias da ferrovia do Paraná, de autoria de Ferrez (A Immigração, agosto de 1886).

O Club de Engenharia aprovou a proposta de Marc Ferrez e de E. de Mascheuk para a execução de “diversos trabalhos concernentes à exposição dos caminhos de ferro” (Revista de Engenharia, 14 de dezembro de 1886, na primeira coluna).

Ferrez fotografou a ferrovia Dom Pedro II, em Juiz de Fora.

1887 - Entre 2 de julho e 2 de agosto, nos salões do Liceu de Artes e Ofícios, por uma iniciativa do Club de Engenharia, realizou-se a Exposição dos Caminhos de Ferro Brasileiros, com a exibição de fotografias de Ferrez (Revista de Engenharia, 14 de agosto de 1887). Estiveram presentes no encerramento da exposição, no dia 2 de agosto, a princesa Isabel(1845 – 1921) e o conde d´Eu (1842 – 1922), além de outras autoridades. O conselheiro Sinimbu (1810 – 1906) leu o relatório do júri da exposição, do qual também fazia parte o visconde de Mauá (1813 – 1889), Pedro Betim Paes Leme (1846 – 1918), Christiano Benedicto Ottoni (1811 – 1896), Carlos Peixoto de Mello (1871 – 1917), Álvaro Joaquim de Oliveira (1840 – 1922) e Manoel José Alves Barbosa (1845 – 1907). Ferrez foi contemplado com uma menção honrosa pelas “magníficas fotografias de importantes trechos de nossas vias férreas, com que concorreu não só para abrilhantar a Exposição como até para suprir algumas lacunas sensíveis de estradas que se não fizeram representar” (Jornal do Commercio, 3 de agosto de 1887, na terceira coluna e Revista de Estradas de Ferro, 31 de agosto de 1887, na primeira coluna).

1888 – Em 25 de novembro, foi inaugurado o tráfego entre as estações de Alcântara e Rio do Ouro da estrada de ferro de Maricá. Marc Ferrez fotografou “instantaneamente ” um grupo de convidados da diretoria das estradas na estação Santa Izabel (Revista de Engenharia, 28 de dezembro de 1888, na primeira coluna).

1890 – Em setembro, Ferrez integrou a comitiva convidada para a  inauguração das obras da ferrovia Benevente -Minas, de Carangola a Benevente, atual Anchieta, no Espírito Santo (Diário de Notícias, 28 de setembro de 1890, quinta coluna).

1891 – Na Revista de Engenharia, 28 de dezembro de 1890, foi publicado um anúncio: “Marc Ferrez – Fotógrafo da Marinha Nacional. Especialista de vistas de estradas de ferro e em geral das grandes obras públicas. Reprodução de plantas com traços pretos sobre fundo branco. Rua São José 8″. O mesmo anúncio voltou a ser veiculado na edição de 14 de agosto de 1891.

1892 – Foi determinado que nas estradas de ferro subvencionadas pelo governo federal fossem liberados passes de ida e volta para Marc Ferrez e um ajudante para que pudessem “levantar fotografias em diversas localidades para o serviço da Exposição Universal Colombiana de Chicago”, que aconteceu entre 1º de maio e 30 de outubro de 1893 para celebrar os 400 anos da chegada do navegador genovês Cristóvão Colombo (1451 – 1506) ao Novo Mundo, em 1492 (Jornal do Brasil, 21 de agosto de 1892, na quinta coluna).

1895 – Em novembro, Ferrez fotografou, em Búzios, os convidados e a comissão responsável pela construção da Estrada de Ferro Rio de Janeiro-Minas, que uniria o povoado de Búzios a Paquequer, no estado de Minas Gerais (A Notícia, 11 de novembro de 1895, segunda coluna).

1900 – Revista da Semana de 21 de outubro de 1900, publicou uma litogravura da Estação Central da Estrada de Ferro da Central do Brasil baseada em uma fotografia de autoria de Marc Ferrez.

 

 

1904 - Exposição de fotografias da estrada de ferro Central do Brasil de autoria de Ferrez, no Club de Engenharia (O Commentario, março de 1904).

1908 – A Casa Marc Ferrez produziu filmes sobre obras em estradas de ferro do Brasil.

 

Cronologia do fotógrafo Arthur Júlio Wischral

 

 

1894 - Em Curitiba, nascimento de Arthur Júlio Wischral, descendente de alemães.

c. 1910 - Com uma máquina fotográfica emprestada de um amigo, Arthur Wischral procurou orientação do fotógrafo alemão Germano Fleury (1873 – 1945), estabelecido em Curitiba, durante a década de 1900. Além de fotografar, Fleury comercializava artigos fotográficos. Na cidade havia, na época, estúdios fotográficos utilizando as últimas técnicas trazidas da Europa e aonde também eram vendidos cartões postais e materiais fotográficos. Com Fleury, Wischral teve as primeiras noções de fotografia profissional. Segundo ele, quando começou a fotografar gostava de registrar cenas incomuns das reuniões familiares (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1912 – Fotografou o primeiro bonde elétrico de Curitiba, que saiu da praça Ouvidor Pardinho com destino ao Portão (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1913 - Ganhou de seu pai uma máquina fotográfica com todas as inovações que as indústrias de Dresden haviam conquistado até então. Custando 120 mil réis, a câmara apresentava fole, movas dimensões 13 x 18 cm – e vários outros recursos que possibilitavam um trabalho ainda mais sensível e de qualidade (Diário do Paraná, 21 de junho de 1975). Antes, seu pai havia tentado demovê-lo da ideia de ser fotógrafo. Queria que o filho se dedicasse ao violino.

O amador fotográfico Arthur Wischral fotografou os enterros de Mário de Castro e de Francisco de Luccas, em Curitiba (Diário da Tarde (PR), 14 de maio de 1913, quinta coluna).

Trabalhava como repórter fotográfico do jornal A República, do Paraná, e produziu registros de manobras militares realizadas pelo Regimento de Segurança na invernada do Campo Comprido (A República (PR), 26 de maio de 1913, sexta coluna).

Fotografou uma horrível catástrofe quando 26 tamboretes de explosivos de guerra explodiram nos armazéns da Rede Ferroviária, na praça Eufrásio Correia, causando a morte de 8 soldados, 3 operários e uma criança, deixando vários feridos e produzindo grandes danos materiais. As fotos foram vendidas para jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo (A República (PR), 2 de julho de 1913, primeira coluna; Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

Pelo jornal A República (PR), ele e Seraphin França acompanharam o governador do Paraná,  Carlos Cavalcanti (1864 – 1935), em uma viagem a cidades do litoral do estado (A República (PR), 14 de julho de 1913, terceira coluna; A República (PR), 22 de julho de 1913, sexta coluna).

Wischral era o repórter fotográfico da revista ilustrada, humorística e literária A Bomba (PR), publicada nos dias 10, 20 e 30 de cada mês. Era de propriedade de Marcello Bittencourt (A Bomba, 30 de julho de 1913, primeira coluna).

Além de Wischral, a Photographia Volk passou a integrar a equipe de reportagem fotográfica da revista A Bomba (PR) (A Bomba (PR), 10 de setembro de 1913, segunda coluna).

 

 

1914 – Estava presente à inauguração do ramal Serrinha – Nova Restinga, da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande (A República (PR), 19 de fevereiro de 1914, última coluna).

Em 5 de abril, fotografou o primeiro voo de avião realizado em Curitiba. O piloto foi Cícero Martins (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

Já estava na Alemanha e não era repórter fotográfico de A República (PR) (A República (PR), 30 de outubro de 1914, última coluna). A conselho de seu pai, havia viajado para aprender novas técnicas fotográficas. Ficou no país até depois do fim da Primeira Guerra Mundial. Empregou-se num estabelecimento que prestava serviços fotográficos para amadores. Fez um estágio no laboratório na Universidade de Würzburg e aprendeu a técnica do retoque com um fotógrafo da cidade, dominada por poucos profissionais em Curitiba. Em Würburg, encontrou-se uma vez com o futuro papa Pio XII a quem perguntou onde poderia encontrar pessoas que falassem português e ele lhe indicou uma escola onde estavam alguns feridos de guerra. Eram portugueses e estranharam o sotaque dele.  Durante sua estada na Alemanha, trabalhou durante seis anos no jornal Franken Warte. No período em que ficou na Europa viajou para diversos países do continente (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1921 – Voltou a Curitiba e por volta dessa época começou a prestar serviços para o governo e para empresas. Fotografou o interior do Paraná, realizando uma série de imagens que integrariam o estande do estado na exposição comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro.

1922 – Fotografou a exposição comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro.

Voltou ao Rio de Janeiro, onde fotografou os primeiros prédios da orla carioca e também os arredores de Petrópolis.

1924 - Esteve no Palácio do governador do Paraná, Caetano Munhoz da Rocha (1879 – 1944) (O Dia, 13 de fevereiro de 1924, terceira coluna).

O hábil fotógrafo Arthur Wischral realizou na Villa Olga uma sessão de projeção de fotografias (O Dia (PR), 30 de março de 1924).

 

 

1926 – No artigo Uma audaciosa excursão ao Marumby, escrito por Affonso Wischral, de 9 de julho de 1926, foi mencionado que o autor e Arthur Wischral haviam fotografado aspectos do passeio que poderiam ser vistos na loja “O Pequeno Paris“, na rua 15, nº 58 (O Dia (PR), 26 de julho de 1926, última coluna).

1928 – Foi contratado pela Rede Viação Paraná – Santa Catarina e registrou o dia a dia das obras, as dificuldades dos trabalhadores e as obras de manutenção da estrada de ferro Curitiba – Paranaguá, inaugurada em 1885 e considerada um marco na história da engenharia no Brasil. Um álbum, editado pelo próprio fotógrafo e por J. J. Wischral, foi produzido com esses registros. O endereço deles era avenida Silva Jardim, nº 175.

 

 

Acessando o link para o Álbum de Fotografias da Ferrovia de Curitiba a Paranaguá, de autoria de Arthur Wischral, disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

1929/1931 - Durante cerca de um ano e meio, Wischral permaneceu na Bahia onde documentou, contratado pelas Empresas Elétricas Brasileiras S.A, a construção da Barragem Jerry O´Connell, em Bananeiras. Uma das fotografias da barragem foi publicada no Estado de Florianópolis, 26 de julho de 1930.

 

O contrato previa também a produção de uma série de imagens de Salvador e do interior da Bahia que foram, posteriormente, reunidas em uma publicação de quatro volumes intitulada Desenvolvimento, Geologia e Produtos Agrícolas, Indústria do Cacau, feita pelas Empresas Elétricas Brasileiras S.A.

Wischral montou, com imagens de sua estada na Bahia, um álbum pessoal com cerca de 500 fotografias.

1934 - Registrou-se para receber algum pagamento da prefeitura de Curitiba (Correio do Paraná, 21 de fevereiro de 1934, quinta coluna).

1935 – Na ocasião do cinquentenário da Estrada de Ferro do Paraná, Wischral, identificado como veterano dessas empreitadas estéticas e artista da Kodak, deu um depoimento, publicado no jornal O Dia (PR), 9 de janeiro de 1935.

Foi contratado para acompanhar e documentar a expedição do coronel Raul Bandeira de Mello ao sudoeste do Paraná. As fotos e o relatório deram origem ao livro de mais de 400 páginas Ensaios de Geobélica Brasileira, editado pela Imprensa Nacional em 1938. O nome do fotógrafo não foi citado. A expedição registrou fatos e imagens desde Palmas até 7 Quedas e é um documento formidável da vida naquelas paragens nos anos 30. Eles documentaram os lugares das batalhas da revolução de 1924 e a situação de pontes, estradas e as defesas militares brasileiras na região. Também indígenas e até um chocante registro de uma família de deficientes físicos gerados por um casal de irmãos, imagens que correram o Brasil à época. Ao final uma cena bucólica com o comandante da expedição em meio aos hóspedes do hotel argentino das cataratas, constando do acervo até uma carta de “vinos” e menu, com a assinatura de todos os presentes. São mais de 90 fotos e mapas que mereciam uma exposição e uma edição fac-símile da obra, ou pelo menos das suas fotografias. Os originais encontram-se com Paulo José da Costa, proprietário da Fígaro Loja de Cultura Sebo e Antiquário, de Curitiba (Página Arthur Wishcral no Facebook).

 

geobélia

 

1936 - A matéria Capricho ou punição da natureza, sobre as consequências da sífilis, trazia uma fotografia de uma família com 4 filhos portadores de deficiência física , produzida por Wischral quando esteve no sertão de Guarapuava (O Estado (SC), 2 de setembro de 1936, primeira coluna).

1937 – Uma fotografia de sua autoria foi publicada no artigo A Floresta Brasileira (O Observador Econômico e Financeiro, agosto de 1937). 

 

 

Década de 1940 – No início dessa década, Wischral foi contratado pela prefeitura de Curitiba e documentou detalhadamente as obras do Plano Agache. Ao longo de três décadas fotografou a transformação da cidade, a urbanização dos bairros, o alargamento das ruas, a construção de praças ajardinadas e dos primeiros grandes edifícios.

Seu laboratório ficava na rua Desembargador Westphalen.

1950 – A mesma fotografia publicada na edição de agosto de 1937 da revista Observador Econômico e Financeiro foi de novo publicada na edição de julho de 1950 da mesma revista. No ano seguinte, um leitor da revista, Martim Zipperer, de Curitiba, curioso acerca da autoria da fotografia que, segundo ele, foi produzida no rio dos Bugres, no município de São Bento do Sul, em Santa Catarina, a pedido de um de seus parentes, procurou a revista. Havia fotografado o mesmo local e a imagem foi publicada em Observador Econômico e Financeiro, abril de 1951. Segundo a reportagem “o confronto dessas fotografias, representando duas épocas, é um dos mais impressionantes documentos que se poderia divulgar sobre os males causados pela economia predatória que vem sido exercida sobre as nossas reservas florestais!”

 

 

1964 - Uma fotografia de 1912 ou 1914, de autoria de Wischral foi publicada (Correio do Paraná, 23 de fevereiro de 1964, penúltima coluna).

 

 

1967 - Com texto de Sérgio Augusto e fotografias de Arthur Wischral, publicação do artigo A maravilhosa Curitiba-Paranaguá (Diário do Paraná, 15 de julho de 1967).

Publicação da matéria Era uma vez um vapor chamado Pery, com texto de Sérgio Augusto e fotos cedidas por Wischral (Diário do Paraná, 6 de agosto de 1967).

Com fotografias dos arquivos de César Pinto e de Arthur Wischral, publicação da matéria Prefeitura -Século XX (I – Parte Primeira – Do aluguel de 200 mil réis à casa própria (Diário do Paraná, 10 de setembro de 1967).

1975 – Publicação da matéria Curitiba em dois tempos, com fotos antigas produzidas por Wischral e com atuais do fotógrafo Mário Nunes do Nascimento (Diário do Paraná, 21 de junho de 1975). Dias depois, publicação de uma matéria sobre sua vida (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1978 - Publicação de um artigo com fotografias de carnavais antigos sob as lentes de Wischral (Diário do Paraná, 3 de fevereiro de 1978).

1979 - Na Casa Romário Martins, em Curitiba, realização da exposição Imagens e paisagens que Curitiba perdeu, com registros de Wischral e de outros fotógrafos (Diário do Paraná, 10 de junho de 1979, primeira coluna).

 

 

1982 – Na Sala Funarte, em Curitiba, realização da exposição Paraná de ontem com fotografias de Wischral e de Alberto Weiss, dentre outros (Diário do Paraná, 4 de maio de 1982, terceira coluna).

O fotógrafo Arthur Wischral faleceu, em setembro.

Década de 1990 – Em fins dessa década, A Universidade Federal da Bahia comprou da família do fotógrafo o álbum montado por ele com cerca de 500 imagens de sua estada na Bahia em torno de 1930.

1994 – Foi um dos fotógrafos com obras expostas no evento Curitiba Capital Nacional de Fotografia, entre 14 e 21 de agosto (Jornal do Brasil, 27 de julho de 1994).

2020 – O Instituto Moreira Salles adquiriu em leilão 91 imagens de um conjunto de registros de Salvador e de outras localidades, realizadas em 1931, por ocasião das obras da construção da usina hidrelétrica de Bananeiras, todas de autoria de Wischral. Complementam o trabalho do fotógrafo presente no acervo do IMS, que já possuía o álbum Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá, de 1928.

 

Link para um pequeno filme realizado pelo Paraná Portal sobre Arthur Wischral

Link para o filme Ferrovia Curitiba Paranaguá vista por Arthur Wischral

Link para a cronologia de Marc Ferrez, publicada na Brasiliana Fotográfica, em 7 de dezembro de 2016

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

A construção do trem da Serra do Mar entre Curitiba e o Litoral em 1885, TV Bandeirantes, Youtube

Blog de Paulo José da Costa

Boletim Casa Romário Martins. O acervo Wischral: documentos de um olhar / pesquisa e texto por Maria Luiza Baracho e Marcelo Saldanha Sutil; apresentação por João Urban. Curitiba : Fundação Cultural de Curitiba, vol 31, n. 134, abril de 2007.

CERON, Ileana Pradilla Ceron. Marc Ferrez – uma cronologia da vida e da obra. São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2018.

Estrada de Ferro Paranaguá Curitiba, Youtube

Facebook

Ferrovia Paranaguá-Curitiba 130 Anos – Documentário, Youtube

Gazeta do Povo

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

Site Artes na Web

Site Biblioteca Digital Mundial

Site Clube dos Amantes da Ferrovia

Site Inbec-Pós-graduação

Site Paraná Portal

Site Patrimônio belga no Brasil

Site Prefeitura de Curitiba

TURAZZI, Maria Inez. Cronologia. In O Brasil de Marc Ferrez – São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2005.

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicado em 

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), publicado em 4 de dezembro de 2019

Uma homenagem da Casa Granado ao casal imperial sob as lentes de Marc Ferrez, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, publicado 6 de março de 2020

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, publicado em 16 de março de 2020

Bambus, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2020

O Baile da Ilha Fiscal: registro raro realizado por Marc Ferrez e retrato de Aurélio de Figueiredo diante de sua obra, publicado em 9 de novembro de 2020

O Palácio de Cristal fotografado por Marc Ferrez, publicado em 2 de fevereiro de 2021

Dia dos Pais – Julio e Luciano, os filhos do fotógrafo Marc Ferrez, e outras famílias, publicada em 6 de agosto de 2021

No Dia da Árvore, mangueiras fotografadas por Ferrez e Leuzinger, publicado em 21 de setembro de 2021

Retratos de Pauline Caroline Lefebvre, sogra do fotógrafo Marc Ferrez, publicado em 28 de abril de 2022

 

Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?), fotógrafo das celebrações pela abolição da escravatura em 1888

Pouco se sabe, até o momento, da vida pessoal de Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?). Provavelmente iniciou suas atividades como fotógrafo na década de 1880 e o último registro da existência de seu ateliê fotográfico verificado pela pesquisa da Brasiliana Fotográfica é de 1904.  Atuou no Rio de Janeiro e teve como contemporâneos Alberto Henschel (1827 – 1882), Juan Gutierrez (c. 1860 – 1887) e Marc Ferrez (1843 – 1923), dentre outros.

 

 

Apesar de sua carreira discreta, por ter documentado cenas ligadas às celebrações pela abolição da escravatura em 1888, Ferreira é considerado um importante fotógrafo do século XIX. As imagens captadas por ele nessas ocasiões tão marcantes da história do país caracterizaram-se pela expressividade dos rostos retratados, decorrência, provavelmente, da relevância do acontecimento histórico e também da atração exercida pela própria presença da câmara fotográfica.

 

Acessando o link para as fotografias de Antonio Luiz Ferreira disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

É o autor da imagem da Missa Campal em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em 17 de maio de 1888, uma celebração de Ação de Graças pela libertação dos escravizados no Brasil, decretada quatro dias antes, com a assinatura da Lei Áurea. A festividade contou com a presença da princesa Isabel (1846 – 1921), regente imperial do Brasil, e de seu marido, o conde D´Eu (1842 – 1922), príncipe consorte, que, na foto, está ao lado da princesa, além de autoridades, políticos, jornalistas e escritores, dentre eles o escritor Machado de Assis (1834 – 1908). A presença de Machado na fotografia de Ferreira, descoberta realizada por mim, Andrea Wanderley, pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica, foi revelada no artigo  Missa Campal de 17 de maio de 1888, publicado no portal em 17 de maio de 2015. O professor José Murilo de Carvalho (1939 – ) escreveu sobre o assunto no artigo Machado de Assis vai à missa, publicado no portal , em 29 de de maio de 2015.

 

 

Sobre o dia da abolição, Machado escreveu, anos depois, em 14 de maio de 1893, na coluna “A Semana”, no jornal carioca Gazeta de NotíciasVerdadeiramente, foi o único dia de delírio público que me lembra ter visto.

Antonio Luiz Ferreira presenteou a princesa Isabel com 13 fotos de acontecimentos em torno da Abolição (Diário de Notícias, 9 de junho de 1888, na segunda coluna). A maior parte dessas fotos faz parte da Coleção Princesa Isabel que se encontra em Portugal, conservada por seus descendentes.

 

 

A fotografia da Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da escravatura no Brasil, que está aqui destacada, faz parte da Coleção Dom João de Orleans e Bragança.

 

 

Outros três registros foram feitos por Ferreira no dia 22 de agosto de 1888 e documentaram o retorno do imperador Pedro II (1825 – 1891) ao Brasil. Pertencem à Coleção Princesa Isabel. Ele foi também o responsável pelo Álbum de vistas da Biblioteca Nacional, em 1902, com imagens da fachada, da escadaria e da galeria central, da sala principal de leituras,da sala de trabalho da seção de impressos, da sala principal da seção de manuscritos, da seção de estampas, do gabinete de numismática e da oficina de encadernação da instituição.

 

 

 

Cronologia de Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?)

 

1885 – Pela primeira vez a Photographia Antonio Luiz Ferreira foi anunciada no Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro. O estabelecimento ficava na rua da Conceição, nº 87.

1888 – Em 13 de maio, fotografou a multidão em torno do Paço Imperial quando a Lei Áurea foi assinada pela princesa Isabel.

 

 

Em 17 de maio, fotografou a missa campal realizada no Campo de São Cristóvão, uma celebração de Ação de Graças pela libertação dos escravos no Brasil, decretada quatro dias antes, com a assinatura da Lei Áurea. A festividade contou com a presença da princesa Isabel (1846 – 1921), regente imperial do Brasil, e de seu marido, o conde D´Eu (1842 – 1922), príncipe consorte, que, na foto, está ao lado da princesa, além de autoridades e políticos, dentre eles o escritor Machado de Assis (1834 – 1908).

 

 

 

Ferreira, referido como conhecido fotógrafo, levou à redação do Diário de Notícias e também na de O Paiz a fotografia da Missa Campal, que fazia honra ao artista porque é de uma fidelidade pasmosa. Media 52 x 32 cm e era emoldurada em pelúcia auriverde e suas margens tinha iluminuras realizadas pelo calígrafo R. Santos. Seria ofertada à princesa Isabel (Diário de Notícias, 3 de junho de 1888, sétima coluna; e O Paiz, 3 de junho de 1888, sétima coluna).

A prova da fotografia da missa campal, que ficou em exposição na papelaria Guimarães & Ferdinando, foi entregue à princesa em junho de 1888 juntamente com as outras 12 que Ferreira havia produzido em torno dos festejos pela abolição da escravatura (Diário de Notícias, 9 de junho de 1888, na segunda coluna).

Fotografou o Paço do Rio de Janeiro e exercícios militares de celebração pela volta de dom Pedro II e da imperatriz Tereza Christina da Europa, ocorrida em 22 de agosto de 1888.

1891 – Falecimento de Mário, filho de Ferrreira e de Elisa ou Luisa Christini, devido em um incêndio em sua casa na rua de Guaratiba, nº 53.  Mário e outro filho ou filha do fotógrafo estavam brincando com uma caixa de fósforos, causa do acidente. A mãe ficou com as mãos bastante queimadas por ter tentado salvar as crianças (Jornal do Brasil, 11 de novembro de 1891, quinta coluna; e Jornal do Brasil, 12 de novembro de 1891, segunda coluna).

1893 –  Seu ateliê fotográfico, a Photographia Central, ficava na rua da Guarda Velha, atual avenida 13 de maio, nº 1, no Largo da Carioca (Almanak Laemmert, 1894, 1896, 1898, 1899).

 

 

 

 

1894 – Fotografou, no Arpoador, a comitiva que participou de um piquenique em Vila Ipanema, promovido pelo incorporador da Sociedade Anônima Copacabana Sport, Gonçalves Junior (Jornal do Commercio, 29 de maio de 1894, penúltima coluna; 6 de junho de 1894, quarta coluna).

1895 – No mesmo endereço da Photographia Central, rua da Guarda, nº 1, ficava o gabinete cirúrgico-dentário do dr. J. Pontes Lopes & Gonçalves (Jornal do Brasil, de 1895, 8 de julho de 1895, terceira coluna).

1897 – Um retrato do coronel Moreira César, (1850 – 1897), morto em 4 de março de 1897 na Guerra de Canudos, encontrava-se na Photographia Central, de Ferreira, ou na Casa Nalté, na rua do Ouvidor (Jornal do Commercio, 10 de março de 1897, penúltima coluna).

1898 – Na Photographia Central, venda de folhinhas, anunciadas como bons presentes de festas, com fotografias do cruzador Adamastor e de seus marinheiros (Cidade do Rio, 27 de dezembro de 1898, penúltima coluna).

1899 – Anúncio de venda de uma máquina detectiva 9 x 12 com 12 chassis, o que há de mais aperfeiçoado, quase nova, na Photographia Central. Eram câmeras fotográficas sem tripé (Jornal do Commercio, 22 de abril de 1899, primeira coluna).

Por ocasião da visita do presidente da Argentina, Julio Argentino Roca (1843 – 1914) ao Rio de Janeiro, Ferreira foi um dos integrantes da comissão de ornamentação e iluminação das ruas, no caso do Largo da Carioca, onde ficava seu ateliê (Jornal do Commercio, 9 de agosto de 1899, sétima coluna).

1901 - Seu ateliê continuava a se localizar na rua da Guarda Velha, nº 1, e foi anunciado pela última vez no Almanak Laemmert de 1903 (Almanak Laemmert, 1901, 1902, 1903).

1902 - Publicação de dois álbuns realizados por Antonio Luiz Ferreira, que havia sido contratado para documentar o edifício sede da Biblioteca Nacional, na rua do Passeio, onde a instituição permaneceu até 1910. Um, com as cópias em papel albuminado e outro, com as cópias produzidas em platina, que apresentam melhores atributos de estabilidade e permanência.

 

 

1903 - Nascimento de Antônio, filho de Ferreira e de Luiza ou Elisa Christini (Jornal do Brasil, 10 de abril de 1903, terceira coluna).

Houve um incêndio no prédio onde ficava na Photographia Central, causado por um restaurante que também ficava no edifício (Jornal do Brasil, 13 de agosto de 1903, penúltima coluna; e Almanak Gazeta de Notícias, 1904).

1904 – Estavam sendo vendidas máquinas fotográficas quase novas na Photographia Central (Jornal do Brasil, 13 de dezembro de 1904, terceira coluna).

1905 - Ferreira pediu licença para retirar materiais que lhe pertenciam do prédio onde ficava seu ateliê fotográfico, na rua Treze de Maio, n° 1, antiga rua da Guarda (Gazeta de Notícias, 5 de maio de 1905, primeira coluna).

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

FERREZ, Gilberto;NAEF, Weston J. Pioneer photographers of Brazil : 1840 – 1920. New York: The Center for Inter-American Relations, 1976. 143 p.

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

LAGO, Bia Corrêa do;LAGO, Pedro Corrêa do. Coleção Princesa Isabel: fotografia do século XIX. Rio de Janeiro: Capivara, 2008.432p.:il., retrs.

O “artista fotógrafo” Louis Piereck (1880 – 1931)

 

O “artista fotógrafo” Louis Piereck (1880 – 1931)

 

 

O fotógrafo Louis Jacques Piereck (1880- 1931) é o autor do retrato destacado no sexto artigo da série “Feministas, graças a Deus”, sobre Júlia Medeiros (1896 – 1972), publicado na Brasiliana Fotográfica, em 9 de dezembro de 2020. De origem austríaca e nascido em Campinas, em 13 de outubro de 1880, ele atuou no Recife, entre fins do século XIX e nas primeiras décadas do XX. Pernambuco, a partir da década de 1850, com a chegada de vários fotógrafos estrangeiros e o estabelecimento de diversos ateliês fotográficos, tornou-se uma referência importante na história da fotografia no Brasil. Piereck foi contemporâneo do português Francisco du Bocage (1860 – 1919) e do pernambucano Manoel Tondella (1861 – 1921), dentre outros. Considerado talentoso, tinha muito prestígio na sociedade pernambucana e, em seu estabelecimento, a Photographia Piereck, eram produzidos “os mais perfeitos trabalhos“. Anunciava como sua especialidade “retratos, grupos de criança e o bello sexo“.

 

 

Muito provavelmente Louis aprendeu seu ofício de fotógrafo convivendo com profissionais em estabelecimentos fotográficos onde seu pai, o pintor acadêmico austríaco Ferdinand (Fernando) Piereck (1844 – 1925), trabalhou como, por exemplo, os ateliês de Henrique Rosén (1840 – 1892), em Campinas; Alberto Henschel (1827 – 1882), no Recife; e o de Carlos Hoenen (18? – ?), em São Paulo. Em 1870, Ferdinand esteve pela primeira vez no Brasil, onde todos os seus cinco filhos, que teve com a tcheca Elizabeth Taussig (1855 – 19?), nasceram: Wilhelmine Ernestine (Guilhermina Christiani) (1878 – 19?), Ferdinand Junior (1879 – ?), Louis (1880 – 1931), Babette (Elizabeth White) (1881 – 19?) e Laura Correia (1882 – 19?). Naturalizou-se brasileiro em 1896. A motivação de sua vinda para o Brasil é incerta. Teria vindo atraido pela natureza tropical? À procura de uma clientela desejosa de que sua prosperidade fosse retratada?

 

 

Em 1904, após uma estadia na Europa, Louis Piereck avisava a amigos, a antigos fregueses e ao público em geral que seu ateliê, a Photographia Piereck, no número 54 da rua dr. Rosa e Silva (1), antiga rua da Imperatriz, no Recife, tinha todos os requisitos necessários a fim de bem servi-los (Jornal Pequeno, 30 de abril de 1904, primeira coluna). Era o mesmo endereço onde havia se localizado o ateliê do fotógrafo Flosculo de Magalhães (18? – 19?).

Casou-se, no Recife, com Hermínia Bastos Tigre (? – 1949), em 31 de janeiro de 1907, e tiveram cinco filhos, Luiz (c. 1907 – 1923), Edgard (1909 – 1993), Carmelita (19? -19?) – que faleceu ainda criança de crupe em uma das viagens da família à Europa -, Helena (19? – 19?) e Hermínia (Baby) (1917 – 1987) (Jornal Pequeno, 31 de janeiro de 1907, quarta coluna).

Louis Piereck conquistou o Grande Prêmio na Exposição Nacional de 1908 e medalhas de ouro na Exposição Internacional de Bruxelas de 1910, na Exposição Internacional de Turim de 1911, na Exposição Internacional do Trabalho de Milão de 1915, e na Exposição Internacional do Centenário da Independência, no Rio de Janeiro, em 1922. Seu estabelecimento fotográfico era uma Casa honrada com a preferência da alta sociedade pernambucana, onde além de produzir e expor fotografias, Piereck vendia equipamentos fotográficos. Frequentemente ia à Europa, de onde trazia as “novidades da arte“.

“Essa conhecida casa, de que é proprietário o habilíssimo e competente artista sr. Luiz Piereck, acaba de ser dotada de importantes melhoramentos e novidades da arte, tonando-se desta sorte o principal estabelecimento do gênero desta capital”

Jornal Pequeno, 20 de fevereiro de 1913

 

A Photographia Piereck também foi palco de exposições de artistas plásticos como Vicente do Rego Monteiro (1899 – 1970), que se tornaria um pintor de renome internacional, e do chargista e caricaturista paraibano Fausto Silvério Monteiro, (? – 1935), o Fininho, pioneiro nas produções de materiais gráficos do cinema pernambucano (Diário de Pernambuco, 7 de janeiro de 1920, primeira colunaDiário de Pernambuco, 27 de agosto de 1922, quinta coluna).

 

 

Acessando o link para as fotografias de Louis Piereck disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Cerca de um ano antes de sua morte, Piereck foi o responsável pela última fotografia do então governador da Paraíba, João Pessoa  (1878 – 1930) que, no dia em que foi assassinado, 26 de julho de 1930, pelo jornalista João Dantas (1888 – 1930), no Recife, esteve na Photographia Piereck, onde tirou novas fotografias a fim de atender a pedidos que constantemente lhe eram feitos por jornalistas, amigos e parentes. O governador estava com o ex-deputado e futuro governador de Pernambuco, Agamenon Magalhães (1893 – 1952), e com o jornalista Caio Lima Cavalcanti (1898 – 1975). Piereck era grande admirador de Pessoa e, segundo noticiado no Correio da Manhã, o encontro dos dois se deu com grande emoção. O assassinato é considerado um dos estopins da Revolução de 30.

 

 

Link para o Hino a João Pessoa (o político), composto por Eduardo Souto e Oswaldo Santiago, cantado por Francisco Alves

O assassino de João Pessoa, João Dantas, e o engenheiro Augusto Caldas, seu cunhado, foram presos na Casa de Detenção do Recife, onde foram encontrados mortos em 6 de outubro (Diário de Pernambuco, 7 de outubro de 1930, primeira coluna). O motivo oficial das morte foi suicídio mas, anos depois, a descoberta de registros fotográficos produzidos por Piereck contribuíram para desacreditar essa versão.

Assim como Júlia de Medeiros, Louis Piereck teve um fim de vida trágico: suicidou-se, em 1931, ingerindo uma alta dose de oxianureto de mercúrio. Além da fotografia de Júlia, que pertence ao acervo do Arquivo Nacional, a Brasiliana Fotográfica disponibiliza 12 imagens produzidas por Piereck que pertencem ao acervo da Fundação Joaquim Nabuco. Ambas são instituições parceiras do portal.

 

 assinatura

 

Cronologia de Louis Piereck (1880 – 1931)

 

O fotógrafo Louis Piereck / Blog de Fernando Machado

O fotógrafo Louis Piereck / Acervo da família Piereck

 

1844 – Em Viena, na Áustria, nascimento do pintor Ferdinand (Fernando) Piereck (1844 – 1925), pai de Louis, em 10 de setembro.

1870 – Em 15 de outubro, Ferdinand chegou ao Rio de Janeiro, a bordo do paquete francês Amazone (Jornal do Commercio, 16 de outubro de 1870, sexta coluna).

1875 - Em Viena, em 13 de março, casamento de Ferdinand com Elizabeth Taussig (05/11/1855 – ?), nascida em Praga, de origem judaica. Os dois primeiros filhos do casal, Wilhelmine Ernestine (Guilhermina Christiani) (1878 – 19?) e Ferdinand Junior (1879 – ?), nasceram em Pernambuco. O fotógrafo Louis (1880 – 1931), Babette (Elizabeth White) (1881 – 19?) e Laura Correia (1882 – 19?), em São Paulo.

 

Louis Piereck. Ferdiand e Elizabeth Piereck com três filhos de Louis Piereck: Louis, Edgard e Hermínia (Baby), c. 19?

Ferdinand e Elizabeth Piereck e três de seu netos: Louis, Edgard e Hermínia (Baby), fotografados por Louis Piereck em torno de 1920/ Acervo da família Piereck

 

1876 – Ferdinand partiu do Rio de Janeiro para Pernambuco (O Globo, 1º de janeiro de 1876, quinta coluna). Foi contratado para trabalhar na Photographia Allemã de  Alberto Henschel (1827 – 1882) no Recife (Jornal do Recife, 14 de janeiro de 1876).

1877 – Ferdinand  foi contratado para ser o responsável pela pela policromia das fotopinturas a óleo e aquarela da Photographia Allemã, de Carlos Hoenen (18?-?), inaugurada em 1º de setembro de 1875, na rua do Carmo, 74, em São Paulo (Correio Paulistano, 31 de agosto de 1875, última coluna; Correio Paulistano, 23 de novembro de 1877).

1878 – Ferdinand ainda trabalhava no estabelecimento de Hoenen (Correio Paulistano, 30 de julho de 1878) e foi, muito provavelmente, o autor da pintura do teto de um dos cômodos do Grande Hotel, da Rua São Bento (Revista do IPHAN, nº 10, 1946), de propriedade de dois comerciantes: o teuto-suíço Frederico Glette (? – 1886) e o alsaciano Victor Nothmann (? – 1905).

 

 

Foi também o autor de uma pintura de tema religioso realizada para a Igreja da Penha (A Província de São Paulo, 28 de julho de 1878).

Transferiu-se para Campinas, onde trabalhou no ateliê Photographia Campinense, do sueco Henrique Rosén (1840 – 1892), na época o mais importante fotógrafo do interior paulista, que, posteriormente, em janeiro de 1890, foi nomeado cônsul do Brasil da Suécia e da Noruega (Relatório do Ministério das Relações Exteriores, 1891; Jornal do Brasil, 12 de junho de 1891, primeira coluna). A expansão cafeeira no oeste paulista fez com que vários fazendeiros alojassem em suas casas artistas que retratavam suas famílias. Ferdinand pintou diversos barões do café e, neste ano, pintou o retrato de dom Pedro II, que está no casarão da Fazenda  Pinhal, em São Carlos, São Paulo.

 

 

Sua primeira filha, Wilhelmine (Guilhermina) (1878 -?), nasceu em Pernambuco.

1879 – Nascimento do segundo filho do casal Ferdinand e Elizabeth, Ferdinand Junior, em Pernambuco.

1880 – Nascimento de Louis Piereck, em 13 de outubro, em Campinas (Jornal Pequeno, 13 de outubro de 1919, terceira coluna; Jornal do Recife, 13 de outubro de 1923, primeira coluna; Diário de Pernambuco, 14 de outubro de  1930, sexta coluna). Algumas fontes informam o ano de nascimento 1878, e, por vezes, indicam como local de seu nascimento a Áustria ou a Suíça, mas documentação enviada da Áustria para familiares do fotógrafo apontam 1880 e Campinas como o ano e o local corretos do nascimento do fotógrafo.

1881 – 1882 – Em São Paulo, nascimento dos últimos filhos do casal Ferdinand e Elizabeth: Elizabeth (Babette) (1881 – 19?) e Laura (1882 – 19?) .

1886 - Ferdinand Piereck, que havia voltado de Viena, foi contratado pela Photographia Allemã, de Albert Henschel (1827 – 1882), localizada na rua do Barão da Vitória, nº 52, no Recife. O gerente do estabelecimento era o também austríaco Constantino Barza (Jornal do Recife, 3 de março de 1886).

 

 

1887 – Segundo passaporte emitido na Áustria, em 16 de abril de 1887, para Ferdinand (Fernando) Piereck, com validade de três anos, ele estava em Viena, e viria ainda naquele ano para o Brasil. Aqui, após ter visitado as principais galerias durante sua viagem, voltou a trabalhar na Photographia Allemã, ficando encarregado dos retratos a óleo (Jornal do Recife, 26 de maio de 1887, quarta coluna).

1892 – De acordo com propaganda veiculada em 1910, a fundação do ateliê fotográfico de Louis Piereck teria ocorrido neste ano (Jornal Pequeno, 14 de novembro de 1910). Em janeiro de 1892, foi inaugurada a Photographia Brazil, de Flosculo de Magalhães (18? – 19?),  na rua da Imperatriz 54 A (que em 1895 passou a chamar-se rua dr. Rosa e Silva), primeiro estabelecimento do gênero no bairro da Boavista (Jornal do Recife, 6 de janeiro de 1892, terceira coluna). Em 1901, 1902 e 1903 continuava a funcionar no mesmo endereço. Flosculo mudou-se, em 1904, com a família para o Rio de Janeiro (A Província, 6 de novembro de 1901, quinta colunaA Província, 21 de janeiro de 1902, penúltima colunaA Província, 30 de janeiro de 1904, segunda colunaA Província, 1º de setembro de 1904, segunda coluna). É o mesmo endereço que, a partir de 1904, foi anunciado como o da Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 30 de abril de 1904, primeira coluna). Teriam os fotógrafos trabalhado juntos ou Piereck teria sucedido Flosculo no mesmo endereço?

1895 – Louis enviou um cartão de felicitações a sra. H. Barza. Seria uma parente de Constantino Barza (18? – ?), que havia sido o gerente da Photographia Allemã, de Henschel (1827 – 1882)? (Jornal do Recife, 1º de novembro de 1895, terceira coluna.

1896 - Seu pai, Ferdinand (Fernando) Piereck, naturalizou-se brasileiro, em 22 de maio de 1896 (Gazeta de Notícias, 25 de maio de 1896, quinta coluna).

1899 - Fazia parte de um Club de Photographia que distribuiu prêmios durante o ano de 1899 e 1900. O primeiro sorteio premiou o sócio Tito Rosas e o segundo, Alfredo Garcia (Jornal Pequeno, 2 de janeiro de 1899, terceira coluna).

Morava no Entroncamento nº 37 (Jornal do Recife, 30 de julho de 1899, sexta coluna).

1900 - Possuía um estabelecimento fotográfico, em Campina Grande, na Paraíba.

1904 – Seu estabelecimento fotográfico, a Photographia Piereck, ficava no número 54 A  da rua dr. Rosa e Silva (1), antiga rua da Imperatriz, no Recife, mesmo endereço onde havia se localizado anteriormente o ateliê do fotógrafo Flosculo de Magalhães (18? – 19?). Foi anunciado que Piereck havia chegado há pouco da Europa onde havia se dedicado com esmero à arte fotográfica. Avisava a amigos, a antigos fregueses e ao público em geral que seu ateliê tinha todos os requisitos necessários a fim de bem servi-los (Jornal Pequeno, 30 de abril de 1904, primeira coluna).

 

 

Na mesma rua dr. Rosa e Silva, no número 39, ficava a Modern Photograph, de Manoel Ribeiro Filho (18? – 19?) (Diário de Pernambuco, 20 de fevereiro de 1904, terceira coluna).

Piereck retratou a atriz e cantora Vittorina Cesana (1896? – 19?) caracterizada para o papel de militar da opereta Os 28 dias de Clarinha. Durante a apresentação da peça, no Teatro Santa Izabel, no Recife, esta fotografia foi distribuida aos espectadores (Jornal Pequeno, 21 de julho de 1904, terceira colunaDiário de Pernambuco, 23 de julho de 1904, penúltima coluna).

Na Photographia Piereck e na Maison Chic estavam sendo vendidos exemplares de A Linguagem dos selos pelo cartão postal ou o dicionário do amor pelo correio (Jornal Pequeno, 12 de outubro de 1904).

 

 

Seu pai, o pintor acadêmico Ferdinand (Fernando) Piereck, trabalhava na Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 20 de outubro de 1904, quarta coluna).

1905 - Foi anunciada uma grande exposição artística na Photographia Piereck (A Província, 8 de abril de 1905).

Houve uma liquidaçao de cartões-postais em seu estabelecimento (Jornal Pequeno, 14 de junho de 1905, segunda coluna).

1906 – Estavam em exposição na Photographia Piereck o retrato de todos os presidentes da Câmara de Deputados Estaduais de Pernambuco desde a proclamação da República: José Maria, Moreira Alves, José Marcelino, Elpidio Figueireido, Mota Silveira e João Coimbra (Jornal do Recife, 20 de fevereiro de 1906, sétima coluna).

Anunciava seu estabelecimento fotográfico como uma Casa honrada com a preferência da alta sociedade pernambucana (Jornal do Recife, 23 de fevereiro de 1906, oitava coluna).

Anúncio da contratação do casamento com Hermínia Bastos Tigre, irmã do poeta, bibliotecário, publicitário e jornalista Manuel Bastos Tigre (1882 – 1957), filha do negociante Delfino Tigre (18? – 1932) e de Maria Leontina Bastos Tigre (18? – 1926) e publicação das proclamas (Diário de Pernambuco, 5 de outubro de 1906, penúltima coluna; e Jornal do Recife, 25 de dezembro de 1906, quarta coluna). Uma curiosidade: o cunhado de Piereck, Manuel Bastos Tigre, foi o responsável pelo slogan da Bayer que se tornou famoso em todo o mundo: “Se é Bayer é bom“. É também o autor da letra da música Chopp em Garrafa, com música de Ary Barroso (1903 – 1964), que foi interpretada por Orlando Silva (1915 – 1978). Foi inspirada no produto que a Brahma passou a engarrafar. Sucesso do carnaval de 1934, é considerado o primeiro jingle publicitário do Brasil. O Dia do Bibliotecário, 12 de março, dia de seu nascimento, foi instituído, em 1980, em sua homenagem.

1907 – Louis Piereck produziu as fotografias da turma de bacharéis de 1906 (Jornal Pequeno, 5 de janeiro de 1907, primeira coluna).

 

 

 

Casou-se, no Recife, com Hermínia Bastos Tigre (? – 1949), em 31 de janeiro de 1907, e tiveram cinco filhos, Luiz (c. 1907 – 1923), Edgard (1909 – 1993), Carmelita (19? -19?) – que faleceu ainda criança de crupe em uma das viagens da família à Europa -, Helena (19? – 19?) e Hermínia (Baby) (1917 – 1987) (Jornal Pequeno, 31 de janeiro de 1907, quarta coluna).

 

família piereck 2

Da esquerda para a direita: Louis (filho primogênito do fotógrafo), Hermínia, sua mulher; Edgard (seu filho), o fotógrafo Louis Piereck, duas irmãs de Hermína e a mãe de Hermínia, Maria Leontina Bastos Tigre, em um navio indo para a Europa, década de 10 / Acervo da família Piereck

 

Anunciava utilizar na Photografia Piereck o processo Van Bosch, garantido para os climas tropicais (Jornal Pequeno, 24 de maio de 1907).

 

 

Anunciou a Alta Novidade Photo-Pintura-Esmaltada como exclusividade da Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 9 de dezembro de 1907). Com esta técnica foram realizados os retratos do desembargador Sigismundo Gonçalves (1845 – 1915) e do senador Rosa e Silva (1847 – 1929), expostos no depósito da Fábrica Lafayette (Jornal Pequeno, 13 de dezembro de 1907, primeira coluna).

1908 – A Photographia Piereck ficou incumbida pelo retrato do príncipe Luiz Felipe de Portugal (1887 – 1908), assassinado em 1º de fevereiro de 1908, que seria colocado na galeria do Real Hospital Português de Pernambuco (Jornal do Recife, 22 de fevereiro de 1908, oitava coluna).

Exposição na Fábrica Lafayette, na rua 1º de Março, do retrato em photo-pintura-esmaltada do coronel Cornélio Padilha (18? – 19?), realizado pela Photographia Piereck. O retrato seria dado ao coronel por amigos na ocasião de sua chegada da Europa (Jornal do Recife, 16 de setembro de 1908, última coluna).

A Photographia Piereck conquistou o Grande Prêmio na Exposição Nacional de 1908 (Diário de Pernambuco, 10 de dezembro de 1908, primeira colunaGutemberg, 31 de dezembro de 1908Jornal Pequeno, 3 de junho de 1909, última coluna).

 

 

1909 – Foi publicada uma lista de personalidades fotografadas pelo sistema “Esmalte Piereck” (Jornal Pequeno, 3 de junho de 1909).

 

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Exposição de um retrato do ex-presidente Afonso Pena (1847 – 1909) na Photographia Piereck (Diário de Pernambuco, 24 de junho de 1909, penúltima coluna).

Louis Piereck embarcou, em 10 de outubro, para a Europa, a bordo do Aragon, e anunciou que seu ateliê fotográfico continuaria funcionando. Retornou em 9 de dezembro de 1909 (A Província, 10 de outubro de 1909, terceira colunaJornal do Recife, 24 de outubro de 1909, terceira colunaA Província, 10 de dezembro de 1909, quinta coluna).

1910 – Na Fábrica Lafayette, exposição de retratos produzidos por Piereck, feitos por um novo e belíssimo processo, o mais moderno da arte fotográfica, imitação de fina gravura em relevo (A Província, 14 de janeiro de 1910, última coluna).

Venda de quadros e molduras a varejo e no atacado na Photographia Piereck (A Província, 30 de maio de 1910, quinta coluna).

A Photographia Piereck conquistou a Medalha de Ouro na Exposição Internacional de Bruxelas, realizada entre 23 de abril e 1º de novembro de 1910 (Diário de Pernambuco, 1º de novembro de 1910, última coluna). Também participaram da exposição os pintores brasileiros Lucilio de Albuquerque (1877 – 1939) e Antônio Parreiras (1860 – 1937). O encarregado pelos concertos de música brasileira no evento foi o maestro cearense Alberto Nepomuceno (1864 – 1920), então diretor do Instituto Nacional de Música. O pavilhão brasileiro foi projetado pelo arquiteto belga Franz van Ophen (18? – 19?).

 

 

Em 15 de novembro de 1910, foi inaugurada a instalação elétrica da Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 14 de novembro de 1910).

 

 

O quadro das novas professoras formadas no Colégio Prytaneu foi confeccionado e exposto na Photographia Piereck (A Província, 28 de novembro de 1910, segunda coluna).

1911 A Photographia Piereck ganhou a Medalha de Ouro na Exposição de Turim, realizada entre 29 de abril e 19 de novembro de 1911 (Almanach de Pernambuco, 1912).

 

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Medalha de Ouro da Exposição de Turim / Acervo da família Piereck

 

Nessa mesma exposição, o fotógrafo amador alagoano Luis Lavènere Wanderley (1868 – 1966) também foi premiado com uma Medalha de Ouro exibindo fotografias sobre madeira, sobre porcelana e quadros de gênero  (Leituras para todos, janeiro de 1912).

 

 

O fotógrafo austríaco radicado no Brasil Otto Rudolf Quaas (c. 1862 – c. 1930) recebeu a Medalha de Prata. Segundo artigo de Boris Kossoy, publicado no O Estado de São Paulo, de 4 de março de 1973,  o fotógrafo Valério Vieira (1862 – 1941) participou da Exposição Universal de Turim, durante a qual foi agraciado com a comenda de Cavaleiro da Coroa, concedida pelo rei da Itália, por sua defesa da causa da imigração italiana para o fotógrafo Valério Vieira (1862 – 1941).

 

 

Em uma exposição do quadro de bacharéis em Ciências Jurídicas e Sociais da Faculdade de Direito na Photographia Piereck, a iluminação do ateliê foi descrita e referida como responsável por um surpreendente efeito luminoso. O evento, muito concorrido, contou com a apresentação da banda do 49º Batalhão de Caçadores (A Província, 6 de dezembro de 1911, quarta coluna).

1912 –  Exposição de um retrato de Eudoro Correia (1869 – 1961), prefeito do Recife, na Photographia Piereck. O retrato seria ofertado ao prefeito pelos carvoeiros da casa Cory Brothers (Jornal do Recife, 19 de abril de 1912).

Mais uma vez, o quadro de retratos das novas professoras formadas no Colégio Prytaneu foi confeccionado e exposto na Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 16 de maio de 1912, quarta coluna).

A Photographia Piereck também confeccionava elegantes e custosas molduras (Jornal Pequeno, 20 de junho de 1912, última coluna).

Em julho, Louis Piereck foi passar uma temporada na Europa e deixou na direção de seu estabelecimento seu antigo auxiliar J. de Oliveira Lopes. Seu amigo Delfino da Silva Tigre cuidaria de seus assuntos particulares e comerciais (Jornal do Recife, 18 de julho de 1912, terceira coluna).

1913 – A bordo do Araguaya, Louis Piereck retornou de uma viagem à Europa quando visitou vários estabelecimentos fotográficos, especialmente em Viena e em Berlim. Comprou a patente para o processo fotográfico esmalte ouro para a América do Sul. Além disso, adquiriu uma utilíssima e magnífica máquina para operação em atelier, tipo 1912, a mais aperfeiçoada invenção e dotada de uma fina objetiva do importante cabricante Carl Zeiss…esse aparelho é o único que consegue apanhar clichês representando a maior naturalidade e nitidez, visto como o fotografado não vê diante de si a câmara, mas um grande espelho, onde se reflete a sua imagem, podendo desta natureza o artista, no momento crítico, apanhar uma fisionomia com a expressçao mais viva e natural. No interior da máquina  existe um aparelho instantâneo automático, de maneira que a pessoa que está sendo fotografada, por mais nervosa que seja, não pode modificar a expressão do rosto, evitando assim as tão frequentes reclamações de que “o trabalho não está bom a cópia não foi fiel”. Trouxe também fundos e decorações, uma coleção de animais para fotos com crianças, um projetor automático e elétrico, o maior do gênero em Pernambuco, que permitia apanhar no dia mais escuro qualquer clichê e um graduador automático de regulamentação de luz nas provas. Finalmente, comprou também uma rica e elegante cartonagem para a produção de um belíssimo efeito no acabamento dos retratos (Jornal do Recife, 1º de fevereiro de 1913, penúltima colunaJornal Pequeno, 20 de fevereiro de 1913, segunda coluna; e A Província, 25 de fevereiro de 1913, quarta coluna).

 

 

“Essa conhecida casa, de que é proprietário o habilíssimo e competente artista sr. Luiz Piereck, acaba de ser dotada de importantes melhoramentos e novidades da arte, tonando-se desta sorte o principal estabelecimento do gênero desta capital”.

Louis Piereck anunciou que havia reassumido a direção técnica de seu estabelecimento e a nova máquina fotográfica adquirida na Europa foi exposta na Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 26 de fevereiro de 1913, terceira colunaJornal Pequeno, 1º de março de 1913, primeira coluna).

Anunciou possuir os aparatos mais modernos e necessários para transformar seu ateliê em um interior de igreja para os atos de 1ª Comunhão, casamentos e batizados (Jornal Pequeno, 7 de abril de 1913, primeira coluna).

 

A Photographia Piereck inaugurou seu serviço fotográfico noturno sem o processo do magnésio (Jornal Pequeno, 13 de junho de 1913, penúltima coluna).

 

 

A Photographia Piereck foi contratada para realizar o quadro dos formandos da Escola de Farmácia (A Província, 24 de julho de 1913, terceira coluna).

Em 14 de novembro, no Teatro Santa Izabel, no Recife, foi entregue a Medalha de Ouro conquistada por Louis Piereco, na Exposição Internacional de Turim, em 1911 (Jornal Pequeno, 15 de novembro de 1913, terceira coluna).

 

 

Foi noticiado que Louis Piereck embarcaria para a Europa com a família. Teria aceito a incumbência de realizar para o Jornal Pequeno reportagens fotográficas nas principais cidades que visitasse (Jornal Pequeno, 29 de novembro de 1913, segunda colunaJornal do Recife, 18 de abril de 1915, segunda coluna).

Na Photographia Piereck, exposição de um quadro com retratos da tripulação vencedora, do Club Náutico, do páreo de honra da última regata (Jornal Pequeno, 13 de dezembro de 1913, última coluna).

1914 – Exposição do quadro das professoras da Escola Normal Pinto Junior, confeccionado no ateliê fotográfico de Piereck que foi decorado, para o evento, em estilo japonês. Na ocasião, houve a apresentação de uma banda militar (A Província, 21 de novembro de 1914, última colunaJornal do Recife, 24 de novembro de 1914, última coluna).

1915 – Ganhou o Grande Prêmio de Honra e uma Medalha de Ouro na Exposição Internacional do Trabalho em Milão.

 

Grande Prêmio de Honra, em Milão, 1915 / Arquivo da família Piereck

Grande Prêmio de Honra, Milão, 1915 / Acervo da família Piereck

 

Após uma longa viagem pela Europa, iniciada em fins de 1913, quando esteve em Viena, Paris e Berlim, Louis Piereck e sua família voltaram para o Recife, a bordo do transatlântico Avon. Trouxe para seu ateliê recentes descobertas fotográficas, dentre elas o processo de Pigment ou carvon verdadeiro, em que se notam nas provas 20 e tantas cores diferentes. Adquiriu também aparelhos para a execução de trabalhos esmaltados em moldura de diversos formatos – ovais, medalhões, redondos, quadrados, dentre outros – , e máquinas fotográficas para a realização de instantâneos de toda natureza … podendo apanhar as imagens com a rapidez de 2500 de segundo (Jornal do Recife, 18 de abril de 1915, segunda coluna; A Província, 23 de abril de 1915, segunda coluna; A Província, 27 de abril de 1915, quinta colunaJornal Pequeno, 28 de maio de 1915, penúltima coluna). Reassumiu seu estabelecimento fotográfico em 1º de junho (A Província, 27 de maio de 1915, segunda coluna).

Era o único depositário para todo o Brasil do medicamento Expulsin, fabricado em Berlim para o combate à gota, reumatismo e artrite (A Província, 27 de junho de 1915, primeira coluna; A Província, 17 de março de 1917, última coluna).

O inspetor de higiente, dr. Gouveia de Barros, foi retratado na Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 4 de agosto de 1915, última coluna).

Inauguração de diversos e importantes melhoramentos na Photographia Piereck, dentre eles o aumento da iluminação elétrica. Havia no ateliê um espaçoso laboratório para lavagem, revelação e fixagem de chapas, uma prensa automática e elétrica para a impressão de provas e também um aparelho para o serviço de ampliação. Havia também a seção de colagem, cortagem de cartão e abertura de firma da casa e outros distintivos, além da sala de fotografia e da seção de molduras. Nesta ocasião, trabalhavam no ateliê os artistas Gustavo Fischer e o alemão Phil Schafer, que havia trabalhado no ateliê Hubart & Cia, no Rio de Janeiro (Jornal Pequeno, 29 de dezembro de 1915, última coluna).

1916 - Piereck esteve por cerca de três meses na Europa e reassumiu a direção artística de seu ateliê, em 30 de junho de 1916. Trouxe para seu estabelecimento um aparelho para fotografias noturnas usado nas grandes casas da Europa. Adquiriu também uma belíssima cartonagem, o que havia de mais chic e novo no gênero (Jornal Pequeno, 1º de julho de 1916, última coluna).

Viajou a passeio para o Rio de Janeiro (Jornal Pequeno, 22 de agosto de 1916, última coluna).

1917 - Em um aviso publicado no jornal A Província, Piereck denunciou fotógrafos que, usando de má fé, apresentavam-se como seus representante (A Província, 3 de abril de 1917, última coluna).

 

 

Devido à manifestações contra a Alemanha ocorridas no Recife, Piereck procurou a redação do Jornal do Recife e declarou, mostrando documentos, ser brasileiro (Jornal do Recife, 12 de abril de 1917, primeira coluna).

A Photograhia Piereck foi escolhida para realizar o quadro de retratos dos bacharelandos de Direito de 1917 (Jornal Pequeno, 26 de maio de 1917, última coluna).

Anúncio da instalação, na Photographia Piereck, de uma importante e bem montada oficina para o fabrico de molduras, a cargo de competentes artistas (Jornal Pequeno, 26 de julho de 1917).

No quarto e mais importante páreo da regata promovida pelo Club Sportivo Almirante Barroso, foi disputado pela primeira vez o rico e elegante brinde “Photo Piereck”, oferecido pela conceituada Photographia Piereck  (Jornal Pequeno, 4 de agosto de 1917, quinta coluna).

 

medalhão

 

Foi noticiado que Gustavo Fischer havia deixado de ser o auxiliar de Louis Piereck, por sua livre e espontânea vontade. Ele passou a gerenciar a Photographia Chic (Diário de Pernambuco, 23 de outubro de 1917, primeira colunaJornal Pequeno, 24 de outubro de 1917, última coluna).

1918 - Mais uma vez, a Photographia Piereck foi a responsável pela realização do quadro de bacharéis da Faculdade de Direito (A Província, 7 de fevereiro de 1918, segunda coluna).

 

 

Exposição de diversos retratos na Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 2 de agosto de 1918, terceira coluna).

1919 – As capas da revista Vida Moderna passaram a trazer fotografias cedidas pela Photographia Piereck (Vida Moderna (PE), 5 de julho de 1919).

 

 

Inauguração na Photographia Piereck do quadro dos engenheiros formados em 1919 na Escola Livre de Engenharia. O passe-partout havia sido confeccionado pelo artista Moser (Jornal do Recife, 16 de agosto de 1919, penúltima coluna).

Realização de um magnífico trabalho na Photographia Piereck. Quadro do corpo médico e da junta administrativa de 1948, do Hospital Português (Jornal Pequeno, 20 de agosto de 1919, segunda coluna).

Foi anunciada a venda, na Photographia Piereck, de novas tintas para artistas pintores (Jornal Pequeno, 7 de outubro de 1919, primeira coluna).

A Photographia Piereck foi, de novo, a responsável pela realização do quadro de bacharéis da Faculdade de Direito (A Província, 10 de dezembro de 1919, penúltima coluna).

Na Photographia Piereck, inauguração do quadro de retratos dos professores da Escola Normal: Julio Pires Ferreira, França Pereira, Arthur Cavalcanti e José Ferreira Muniz (A Província, 13 de dezembro de 1919, quarta coluna).

1920 – O pintor Vicente do Rego Monteiro (1899 – 1970) fez uma exposição de ilustrações e aquarelas na Photographia Piereck (Diário de Pernambuco, 7 de janeiro de 1920, primeira coluna). Rego Monteiro trouxe para o Recife, em 1930, uma exposição de artistas da Escola de Paris, que foi a primeira mostra internacional de arte moderna realizada no Brasil, com artistas ligados às grandes inovações nas artes plásticas, como o cubismo e o surrealismo. Foram expostas, dentre outras, obras de Fernand Léger (1881 – 1955), Georges Braque (1882 – 1963), Joan Miró (1893 – 1983) e Pablo Picasso (1881 – 1973), além de trabalhos dele.

 

 

Estavam à venda na Photographia Piereck, as chapas fotográficas de fabricação alemã que, devido à guerra e a consequente interrupção das exportações, passaram muito tempo em falta. Outros produtos fotográficos também eram vendidos no ateliê (A Província, 22 de julho de 1920, primeira colunaA Província, 20 de agosto de 1920, última coluna).

 

 

A Photographia Piereck foi escolhida para realizar o quadro de retratos dos formandos em odontologia (Jornal do Recife, 7 de agosto de 1920, quinta coluna).

Os retratos do presidente do Brasil, Epitácio Pessoa (1865 – 1942), e do governador de Pernambuco, José Rufino Bezerra Cavalcanti (1865 – 1922), realizados pela Photographia Piereck, foram expostos durante a realização da comemoração do primeiro ano de governo de Bezerra CAvalcanti (A Província, 18 de dezembro de 1920, quarta coluna).

1921 – A Photographia Piereck realizou o quadro de retratos dos formandos da Faculdade de Direito e dos farmacêuticos (Jornal do Recife, 13 de janeiro de 1921, sexta colunaA Província, 3 de dezembro de 1921, segunda coluna).

Piereck Irmãos vendiam carros (Diário de Pernambuco, 20 de janeiro de 1921).

A Photographia Piereck recebeu da Alemanha cartonagem para retratos de formatos visita e álbum em cores sortidas com os seus respectivos envelopes transparentes (A Província, 30 de janeiro de 1921, quarta coluna).

Exposição de diversos retratos na Photographia Piereck, uma das melhores de nosso país (A Província, 11 de fevereiro de 1921, primeira coluna).

Louis Piereck reassumiu, em 15 de setembro, a direção de seu estabelecimento (A Província, 20 de setembro de 1921, última coluna).

Phil Schafer, gerente da Photographia Piereck, anunciou que havia se desligado do estabelecimento e oferecia seus serviços profissionais de ampliação, sua especialidade, assim como outros ligados à fotografia. Posteriormente abriu um estabelecimento fotográfico na rua da Imperatriz, 285, bem perto da Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 20 de setembro de 1921, última colunaAlmanak Laemert, 1927, última coluna).

O Club Sportivo Almirante Barroso conquistou algumas taças nas regatas realizadas na baciaa do Capiberibe, uma delas a Taça Photo Piereck (A Província, 20 de setembro de 1921, segunda coluna).

Houve um incêndio na Photographia Piereck devido a um curto-circuito na fiação elétrica (Jornal Pequeno, 6 de dezembro de 1921, quinta colunaA Província, 7 de dezembro de 1921, última coluna).

1922 – Foi premiado com a Medalha de Ouro na Exposição Internacional do Centenário da Independência, realizada no Rio de Janeiro (A Província, 11 de julho de 1924, primeira coluna).

A Photo Piereck anunciou a chegada de uma nova remessa de chapas alemães do afamado fabricante Schleussner. No mesmo anúncio aconselhava os fotógrafos e amadores: só usem chapas preparadas com emulsão tropical  (Diário de Pernambuco, 19 de janeiro de 1922, terceira coluna). No mesmo ano, foi anunciada a chegada de uma remessa da tinta Helios, especiais para a pintura de tecidos (Diário de Pernambuco, 14 de juho de 1922, terceira coluna).

A Photographia Piereck realizou o quadro de retratos das professoras formadas na Escola Normal de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 2 de fevereiro de 1922, sexta coluna).

Nascimento de Fernando Carlos, filho de Elizabeth Piereck White, irmã de Louis, que era casada com Fernando White (Jornal Pequeno, 16 de fevereiro de 1922, quinta coluna).

Durante as exéquias celebradas, na basílica Nossa Senhora da Penha, em memória de José Rufino Bezerra Cavalcanti (1865 – 1922), foi exibido um retrato a óleo, realizado pela Photographia Piereck na época em que ele foi ministro da Agricultura, entre 1915 e 1917 (Diário de Pernambuco, 28 de abril de 1922, quarta coluna).

Após concorrer com o fotógrafo Fidanza – curiosamente, mesmo sobrenome do fotógrafo português Felipe Augusto Fidanza (c. 1847 – 1903) – , foi escolhido para realizar o quadro de retratos dos bacharéis da Faculdade de Direito (A Província, 12 de maio de 1922, quinta coluna).

Na Photographia Piereck, exposição do chargista e caricaturista paraibano Fausto Silvério Monteiro, (? – 1935), Fininho, pioneiro nas produções de materiais gráficos do cinema pernambucano. Pode ser considerado como um dos primeiros artistas gráficos a trabalhar para o cinema no Brasil (Diário de Pernambuco, 27 de agosto de 1922, quinta coluna).

 

 

A Photo Piereck anunciava-se como a única importadora em Pernambuco de produtos fotográficos.

 

 

Foi, de novo, o responsável pela realização do quadro de retrato de bacharéis da Faculdade de Direito (Diário de Pernambuco, 15 de dezembro de 1922, quinta coluna).

1923 - Ferdinand Piereck Junior noticiou que seu irmão, Louis Piereck, estava se retirando da firma Piereck Irmãos, que ficava na Praça da Independência 31 e que havia há pouco anunciado a venda de tintas e anilinas de Brauns (A Província, 24 de abril de 1923, segunda coluna).

Exposição na Photographa Piereck do retrato do senador Manoel Borba (1864 – 1928), que seria colocado na Prefeitura de Jaboatão (Jornal Pequeno, 9 de junho de 1923, primeira coluna).

Eram vendidas na Photographia Piereck máquinas fotográficas Kodack Goerz, além de outros produtos fotográficos da marca Gevaert (Jornal Pequeno, 16 de janeiro de 1923, última colunaJornal Pequeno, 10 de julho de 1923, segunda coluna).

 

 

O alemão Martin Schumann dirigia a seção de retratos a óleo, pastel, aquarelas e ampliações fotográficas da Photographia Piereck. Anteriormente, já havia dirigido uma academia em Dresden onde ensinava essas técnicas. Em homenagem à data da independência do Brasil, foi realizada uma exposição na Photo Piereck de quadros a óleo e trabalhos outros do gênero (Jornal Pequeno, 5 de setembro de 1923, quinta colunaA Província, 7 de setembro de 1923, quarta coluna).

 

 

Morte do primogênito de Louis e Hermínia Piereck, Luiz, que estudava no Colégio Synodal, em Santa Cruz, no Rio Grande do Sul (Jornal Pequeno, 30 de novembro de 1923, primeira coluna).

Publicação de propagandas das lentes Goerz, vendidas na Photographia Piereck (Diário de Pernambuco9  e 30 de dezembro de 1923).

 

 

“A memória nem sempre é fiel….É recem-casado?…De futuro a sua alegria será enorme” – de uma propaganda da Photo Piereck (Jornal Pequeno, 31 de dezembro de 1923, última coluna).

 

 

1924 - Mário Araújo Sobrino e Felipe Nery dos Santos trabalhavam como auxiliares na Photographia Piereck  (Diário de Pernambuco, 14 de fevereiro, segunda coluna; e Diário de Pernambuco, 27 de maio de 1924, terceira coluna).

Realizou o quadro de retratos dos bacharéis em ciências comerciais (A Província, 29 de março de 1924, quarta coluna).

Exposição, na Photographia Piereck, do quadro de retratos dos formandos da Escola de Engenharia de Pernambuco. O passe-partout foi de autoria do pintor H. Moser  (Diário de Pernambuco, 5 de abril de 1924, quarta coluna).

Na Photographia Piereck eram vendidos diversos equipamentos fotográficos (Jornal Pequeno, 21 de maio de 1924).

 

 

Exposição na vitrine da Photographia Piereck de um magnífico retrato busto em tamanho natural enfaixado em rica moldura do abastado comerciante e nosso particular amigo coronel Othon Mendes Bezerra de Mello (Jornal Pequeno, 2 de setembro de 1924, segunda coluna).

Ganhou uma Medalha de Ouro do Instituto Agrícola,  no Rio de Janeiro.

1925 – Inauguração, na Photographia Piereck, do quadro de retratos de bacharéis da Faculdade de Direito (Diário de Pernambuco, 12 de março de 1925, primeira coluna).

 

 

Publicação de fotografias de Piereck na Revista de Pernambuco (Revista de Pernambuco, março de 1925).

 

 

Anunciou a venda de vários produtos “Para photografia!” como prensa de copiar 13:18 9:12, bacias de porcelana e ágata, copas de graduar, balanças, vidros finos despolidos, rubi e calibres diversos. Vendia também papéis mate e brilhantes de diversos fabricantes, além de cartolinas (Diário de Pernambuco, 31 de maio de 1925, terceira colunaDiário de Pernambuco, 4 de julho de 1925, primeira coluna).

A Photographia Piereck foi responsável pelo quadro de retratos da primeira turma de médicos formados na Faculdade de Medicina do Recife (A Província, 6 de dezembro de 1925, terceira coluna).

Falecimento de seu pai, Ferdinand, em sua casa na estrada dos Aflitos, 192 (Jornal do Recife, 12 de dezembro de 1925, segunda coluna).

1926 – Falecimento da sogra de Piereck, Maria Leontina Bastos Tigre (Jornal Pequeno, 4 de janeiro de 1926)

A Photo Piereck anunciava uma grande novidade, o metallon, um papel fotográfico ideal para efeitos artísticos (Diário de Pernambuco, 28 de março de 1926).

 

 

O chargista  e caricaturista Fausto Silvério Monteiro (? – 1935), Fininho, trabalhava na Photographia Piereck, na rua da Imperatriz, 198  (Jornal do Recife, 10 de abril de 1926, quinta coluna).

A Photographia Piereck produziu o quadro de retrato das primeiras diplomadas em Comércio do Instituto Nossa Senhora do Carmo (Jornal do Recife, 20 de novembro de 1926, quarta coluna).

1927 – Foi o responsável pelo quadro de retratos da Turma do Centenário da Faculdade de Direito do Recife (Diário de Pernambuco, 21 de abril de 1927, sexta coluna).

Foi noticiada uma reforma na Seção de amadores da Photo Piereck (Jornal Pequeno, 18 de julho de 1927, última coluna).

1928 – Anunciou a chegada novas remessas de papel Leonar, chapas Eisenberger (Jornal Pequeno, 8 de março de 1928, última coluna).

A Photographia Piereck realizou a fotografia de dom Miguel de Lima Valverde (1872 – 1951), arcebispo de Olinda e Recife (Diário de Pernambuco, 22 de julho de 1928, quarta coluna).

Em um anúncio, convidava os fotógrafos amadores a ver a nova Vest pocket à venda na Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 22 de novembro de 1928, segunda coluna)

1929 - Também eram vendidos na Photographia Piereck produtos da Kodak, da Agfa, da Hauff e de outros fabricantes (Jornal Pequeno, 2 de janeiro de 1929, segunda coluna).

Um retrato da Photographia Piereck era um dos prêmios oferecidos à vencedora do concurso de beleza que elegeu a Miss Pernambuco, Connie Brás da Cunha (Jornal Pequeno, 21 de março de 1929, quarta coluna).

A professora e feminista Júlia Augusta de Medeiros (1896 – 1972) ofereceu à feminista e presidente da Federação Brasileira para o Progresso Feminino, Bertha Lutz (1894 – 1976), uma fotografia sua produzida por Louis Piereck, datada de 5 de maio de 1929.

 

 

1930 - No dia em que foi assassinado, 26 de julho de 1930, pelo jornalista João Dantas (1888 – 1930), no Recife, o então governador de Paraíba, João Pessoa (1878 – 1930), esteve na Photographia Piereck, onde tirou novas fotografias a fim de atender a pedidos que constantemente lhe eram feitos por jornalistas, amigos e parentes. O governador estava com Agamenon Magalhães (1893 – 1952), na época ex-deputado e futuro governador de Pernambuco; e com o jornalista Caio Lima Cavalcanti. Piereck era grande admirador de Pessoa e segundo o Correio da Manhã, o encontro dos dois se deu com grande emoção. Na ocasião, Piereck teria contado a Pessoa que tivera um pesadelo com a morte dele (Diário Carioca, 29 de julho de 1930, penúltima colunaCorreio da Manhã, 29 de julho de 1930, penúltima coluna). O assassinato é considerado um dos estopins da Revolução de 30.

 

 

Segundo o jornalista Domingos Meirelles em seu livro Órfãos da revolução, ao preparar os equipamentos, Piereck notou que João Pessoa continuava tenso, olhos baixos, expressão congelada, com tristeza na face. Produziu um segundo retrato, segundo o pesquisador Edival Varandas, ao se dar conta que as luvas no bolso do paletó do presidente estavam desalinhadas e, subitamente, solicitando que não se movesse, ajeitou as luvas, pediu que esboçasse um leve sorriso e tirou o outro retrato, que viria a ser o último de Pessoa (O Dia (PR)21 de novembro de 1931, quarta coluna).

O assassino de João Pessoa, João Dantas, e o engenheiro Augusto Caldas, seu cunhado, foram presos na Casa de Detenção do Recife, onde foram encontrados mortos em 6 de outubro (Diário de Pernambuco, 7 de outubro de 1930, primeira coluna). O motivo oficial das morte foi suicídio mas, anos depois, a descoberta de registros fotográficos produzidos por Piereck contribuiu para desacreditar essa versão:

 “João Dantas e seu cunhado Augusto Caldas estavam detidos, desde a morte de João Pessoa, na penitenciária em Recife, quando, na tarde de 6 de outubro, foram encontrados mortos. A notícia oficial apontou suicídio, e assim foi divulgado na imprensa. Somente após a morte do fotógrafo Piereck foi que uma nova versão para a morte foi trazida ao público – tratava-se de outras fotografias desconhecidas e que estavam guardadas no cofre do fotógrafo. Conta-se que Piereck, sabendo do que ocorrera, fotografou o local, mas foi obrigado a tirar novas fotos em que, num novo cenário fotografado, esconderia os sinais de luta e de assassinato. Essa versão se encontra no livro do irmão de Augusto Caldas, que foi recentemente publicado pela ONG “Parahyba Verdade”” e editado pela Gráfica e Editora Imprell  (Trecho da dissertação de mestrado Sacrifício, heroísmo e imortalidade: a arquitetura da construção da imagem do Presidente João Pessoa, de Genes Duarte Ribeiro – página 100).

Essas fotografias foram publicadas no livro de Joaquim Inojosa Andrade, A República de Princesa (José Pereira x João Pessoa, -1930) e reproduzidas no site princesapb.com.

 

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1931 – Piereck suicidou-se em 19 de novembro, ingerindo uma alta dose de oxianureto de mercúrio em sua residência, na avenida Rosa e Silva, 192. Desesperada, sua mulher, Herminia Tigre Piereck, também tentou se matar ingerindo ácido arsênico. O casal tinha, na época, dois filhos, Edgard e Herminia “Baby” Piereck. O primogênito, Luiz, havia falecido em 1923 (Diário de Pernambuco, 20 de novembro de 1931, penúltima colunaJornal Pequeno, 20 de novembro de 1931, quinta coluna; Diário de Pernambuco, 20 de novembro de 1931, sexta coluna).

“A dolorosa ocorrência repercutiu tristemente em nosso meio, onde o sr. Louis Piereck se tornara um homem popular, pela sua bondade, pelos seus dotes morais. E o seu gesto,não foi só uma desagradável surpresa para os que apenas o conheciam mas também para os que pertenciam a sua família que, de momento, não podiam atinar onde essa causa tão forte, que levava o chefe a praticar o ato de desespero que lhe roubara a vida. Entretanto, ao que se sabe, o sr.Louis Piereck, antes de objetivar a sua macabra resolução, teria escrito uma longa carta a seu filho de nome Edgard Piereck expondo-lhe com pormenores as causas que o levaram a procurar a morte de uma maneira tão violenta”.

Jornal Pequeno, 20 de novembro de 1931

 

Era diretor do Jockey Club e as corridas foram suspensas no domingo seguinte a seu falecimento. Estiveram presentes a seu enterro o interventor federal e figuras da maior represetação da alta sociedade pernambucana (Jornal Pequeno, 21 de novembro de 1931, primeira coluna).

1932 – Foi publicado um anúncio convocando todos os credores da Photographia Piereck a fim de se entenderem com Edgard Piereck, filho de Louis (Diário de Pernambuco, 5 e fevereiro de 1932).

O estabelecimento foi a leilão judicial, em abril de 1932.

 

 

1949 – Falecimento da esposa de Louis Piereck, Hermínia, no Rio de Janeiro (Diário de Pernambuco, 17 de setembro de 1949, última coluna).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

(1) De acordo com Lúcia Gaspar, da Fundaj, “curiosamente, a rua da Imperatriz Tereza Cristina mudou de nome três vezes. Em 1895, foi denominada Dr. Rosa e Silva. Passou para Floriano Peixoto. Finalmente, por meio da Lei nº 1.336, de 13 de março de 1923, voltou ao nome tradicional. De maneira espontânea, a população reduziu a sua denominação para Rua da Imperatriz, como é conhecida até hoje”. Por isso, apesar de entre 1904 e 1931 a Photographia Piereck ter existido no mesmo lugar, o endereço variou: rua dr. Rosa e Silva, 54; rua Floriano Peixoto, 54; rua Floriano Peixoto, 198; e rua da Imperatriz, 198.

 

Agradeço muitíssimo à família de Louis Piereck, especialmente à sua neta, Eliane Piereck, por inúmeras informações e pela cessão de registros do acervo pessoal da família.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANDRADE, Joaquim Inojosa. República da Princesa (José Pereira x João Pessoa – 1930). Rio de janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL-MEC, 1980.

Blog do Juan Esteves

BEZERRA, Dinarte Varela. 1930, a Paraíba e o inconsciente político da revolução: a narrativa como ato socialmente simbólico. 2009. 227 f. Tese (Doutorado em Desenvolvimento Regional; Cultura e Representações) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2009.

CALDAS, Joaquim Moreira. Porque João Dantas assassinou João Pessoa: o delito do “Glória” e a tragédia da penitenciária do Recife em 1930. João Pessoa: Gráfica e Editora Imprell, 2008.

CAMPOS, Eudes. O antigo Beco da Lapa e o Grande Hotel. Informativo Arquivo Histórico Municipal, 4 (24): maio/jul. 2009

Google Arts and Culture

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

MEIRELLES, Domingos. Órfãos da revolução. Editora Record : Rio de Janeiro, 2006

RIBEIRO, Genes Duarte. Sacrifício, heroísmo e imortalidade: a arquitetura da construção da imagem do Presidente João Pessoa. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal da Paraíba, 2009.

Site CPDOC

Site Dezenovevinte.net

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site Imigração Histórica

Site Silvia Matos Ateliê de Criatividade

Site princesapb.com

Site Propagandas Históricas

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo: 1839/1889. Prefácio Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Funarte. Rocco, 1995. 309 p., il. p&b. (Coleção Luz & Reflexão, 4). ISBN 85-85781-08-4.

VARANDAS, Edival Toscano. O último retrato do presidente João Pessoa.

O Baile da Ilha Fiscal: registro raro realizado por Marc Ferrez e retrato de Aurélio de Figueiredo diante de sua obra

A Brasiliana Fotográfica destaca uma rara fotografia do interior de um dos salões do Baile da Ilha Fiscal, realizada por Marc Ferrez (1843 – 1923), provavemente no dia da festa, em 9 de novembro de 1889; e um registro do pintor paraibano Francisco Aurélio de Figueiredo (1856 – 1916) diante do quadro que ficou conhecido como o O baile da Ilha Fiscal. As duas imagens pertencem à Fundação Biblioteca Nacional, uma das fundadoras do portal. O quadro está no acervo do Museu Histórico Nacional (MHN) desde 1933, ano em que a instituição, uma das parceiras do portal, incorporou o patrimônio do antigo Museu Naval, extinto por decreto de Getúlio Vargas (1882 – 1954) de 14 de janeiro de 1932. A Ilha Fiscal integra o Complexo Cultural da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, também uma instituição parceira da Brasiliana Fotográfica.

 

Sobre o registro de Ferrez

 

A notícia da descoberta da fotografia da sala do Baile da Ilha Fiscal, realizada por Marc Ferrez em 1889, por pesquisadores da Divisão de Manuscritos na Coleção Livraria José Olympio Editora, incorporada ao acervo da Biblioteca Nacional, em 2006, está documentada nos Anais da Biblioteca Nacional, vol 128, de 2008, na seção “Preciosidades do Acervo”. O artigo, intitulado O Baile da Ilha Fiscal, por Marc Ferrez (página 251), foi escrito pelos historiadores Frederico de Oliveira Ragazzi e Priscilla Helena Pereira Duarte, e pela cientista social Monique Matias Ramos de Oliveira. Supõe-se que o registro poderia vir a integrar livros de história do Brasil publicados pela editora, como alguns de autoria de Octávio Tarquínio de Sousa e Pedro Calmon. A fotografia encontrava-se na pasta “Dom Pedro II – solenidades – coroação – Inauguração E. (Estrada) de Ferro Pedro II – baile da Ilha Fiscal – etc – soberano visitando doentes”. Seu título foi extraído do papel originalmente colado no verso do cartão-suporte com informações datilografadas atribuídas a funcionários da Editora José Olympio.

 

 

A cópia a óleo de um retrato do almirante Cochrane, pendurado em uma das paredes do salão da festa, que aparece no registro de Ferrez, foi trabalho do artista Novack (O Paiz, 26 de outubro de 1889, sétima coluna).

 

 

Acessando o link para as fotografias da Ilha Fiscal disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

O acervo da Livraria José Olympio Editora e  sua chegada na Fundação Biblioteca Nacional

 

Em outubro de 2006, a Fundação Biblioteca Nacional recebeu o acervo da Livraria José Olympio Editora, doado pelos familiares do empresário Henrique Sérgio Gregori – fundador da filial brasileira da empresa Xérox -, que em 1984 adquiriu o controle acionário da empresa, então sob a tutela do Banco Nacional de Desenvolvimento Econômico e Social (BNDES). Fundada em 1931, a editora e livraria teve um papel destacado no cenário cultural brasileiro ao divulgar a obra de alguns dos mais notáveis escritores brasileiros, como José Lins do Rego, Jorge Amado, Graciliano Ramos, Rachel de Queiroz, Gilberto Freyre, Guimarães Rosa, entre tantos outros que contribuíram para solidificar o panorama literário brasileiro no século XX. Esse feito deve-se, em especial, à figura do seu fundador, José Olympio (1902- 1990), cuja identidade, não por acaso, sempre esteve diretamente associada à da instituição.

O acervo, abrangendo os oitenta anos de atividades da editora, é constituído principalmente pela correspondência trocada entre escritores e o editor José Olympio, documentos administrativos (com informações preciosas para a compreensão do funcionamento de uma editora na época), fotografias e recortes de jornais e revistas (com notícias sobre os acontecimentos na área editorial), projetos gráficos para cartazes e capas de livros, ilustrações criadas por renomados artistas brasileiros, como Santa Rosa, Poty, Eugênio Hirsch, Gian Calvi etc.

Não obstante ser composto por documentos, em sua grande maioria, do último século, há também no acervo alguns documentos do século XIX. A fotografia de Ferrez do salão de bailes no palacete da Ilha Fiscal – feita provavelmente pouco antes do início da festa — é, sem dúvida, uma peça notável, pois são raras as representações do baile que se tornou, para contragosto de seus organizadores, um irônico símbolo do declínio final da Monarquia“…

Anais da Biblioteca Nacional, vol 128, 2008 – O Salão de de Baile da Ilha Fiscal, por Marc Ferrez, pág. 251

 

Sobre Aurélio de Figueiredo, sobre sua fotografia no Álbum dos artistas e sobre o quadro O Baile da Ilha Fiscal

 

A fotografia do pintor Aurélio de Figueiredo (1856 – 1916) diante do quadro O Baile da Ilha Fiscal faz parte do Álbum de artistas, do acervo da Fundação Biblioteca Nacional. O álbum foi doado à Seção de Estampas da instituição, em 22 de abril de 1932, pelo escritor, jornalista, cronista literário e crítico de arte maranhense Manoel Nogueira da Silva (1880 – 1943) (Gazeta de Notícias, 16 de novembro de 1943, terceira coluna). Dentre diversas personalidades, encontram-se retratadas no álbum, além do mencionado doador, Angelina Agostini (1888 – 1973)Antônio Parreiras (1860 -1937)Pedro Weingartner (1853 – 1929) e Menotti del Picchia (1892 – 1988). Nogueira da Silva foi o autor do livro Pequenos Estudos Sobre Arte, Pintura, Escultura (1926) e era considerado um dos melhores comentadores da obra do escritor Gonçalves Dias (1823 – 1864)(Gazeta de Notícias, 28 de janeiro de 1940, terceira coluna). Ocupou a cadeira 23 da Academia Carioca de Letras e trabalhou nos jornais Gazeta de Notícias e A Notícia.

 

 

O republicano e abolicionista Aurélio de Figueiredo nasceu em Areia, cidade paraibana, em 3 de agosto de 1854. Além de pintor foi caricaturista, desenhista, escritor e escultor. Sob a orientação de seu irmão, o pintor Pedro Américo (1843 – 1905) – autor de quadros importantes como A Fala do Trono (1873) Batalha do Avaí (1877)  e Independência ou Morte! (1888)  – e de Jules Le Chevrel (c. 1810 – 1872), frequentou durante a adolescência, a Academia Imperial de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Publicou suas caricaturas em revistas como A Comédia Social e a Semana Ilustrada. Em 1875, viajou para a Europa (Jornal do Commercio, 29 de agosto de 1875, sexta coluna) e, entre 1876 e 1878, morou em Florença, na Itália, onde trabalhou no ateliê do irmão e teve aulas com Antonio Ciseri (1821 – 1891), Nicolò Barabino (1832 – 1891) e Stefano Ussi (1822 – 1901). Retornou ao Brasil em outubro de 1878 (Jornal do Recife, 10 de outubro de 1878, terceira coluna) e estabeleceu-se no Recif,e onde oferecia-se para a realização de pinturas históricas e retratos a óleo (Jornal do Recife, 5 de abril de 1879, quinta coluna).

 

 

Dirigiu um curso noturno de desenho (Jornal do Recife, 16 de fevereiro de 1880, quinta coluna). Trabalhou executando retratos a óleo copiados de fotografias ou de originais (Jornal do Recife, 14 de maio de 1880, terceira coluna). Foi professor de desenho e pintura do Colégio de Nossa Senhora das Graças (Jornal do Recife, 29 de dezembro de 1880, segunda coluna). Ainda nos anos 1880, visitou outros países europeus e participou de várias edições da Exposição Geral de Belas Artes. Expôs, no estabelecimento fotográfico de M. Alfred Ducasble, no Recife, dois quadros: Saudade e Melancolia (Diário de Pernambuco, 19 de abril de 1881, primeira coluna). Meses depois, por motivos de saúde, o pintor foi para a Paraíba e deixou como contato no Recife a Galeria Ducasble (Diário de Pernambuco, 8 de setembro de 1881, quarta coluna). Em 1882, expôs no Liceu de Artes e Ofícios (Jornal do Recife, 20 de outubro de 1882, penúltima coluna) e, na comemoração dos 41 anos da Imperial Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais de Pernambuco, foi realizada uma exposição com quatro salas e quadros a óleo de sua autoria integraram a mostra (Jornal do Recife, 19 de dezembro de 1882, quinta coluna). Participou de outras exposições dessa sociedade. Em 1884, voltou a expor na Galeria Ducasble (Jornal do Recife, 6 de dezembro de 1884, quinta coluna). Em 1885, fixou residência em Montevidéu, no Uruguai, onde trabalhou na revista Illustracion Uruguaya (Jornal do Recife, 23 de dezembro de 1885, penúltima coluna). Foi noticiado que ele havia decidido pintar um quadro de grandes dimensões sobre a abolição da escravatura (Jornal do Recife, 24 de maio de 1888, quinta coluna). O pintor foi um dos autores do Projeto de reforma no ensino das artes plásticas, apresentada ao ministro do Interior (Jornal do Recife, 16 de fevereiro de 1890, quarta coluna). Por volta de 1889 foi viver no Rio de Janeiro e seu ateliê ficava na rua do Barão de Capanema. Realizou uma exposição na Academia de Belas Artes, em 1891 (Revista Illustrada, outubro de 1891,  primeira coluna; e Jornal do Recife, 23 de abril de 1892, segunda coluna). Foi publicada uma carta dele redigida após uma reunião de artistas realizada em seu ateliê no dia 29 de janeiro de 1893, quando ficou decidida a organização de exposições gerais anuais de Belas Artes e a fundação de uma Galeria Livre (Revista Illustrada, março de 1893).

Sua produção foi apresentada em duas exposições individuais: a primeira em 1912, no Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo (O Paiz, 23 de janeiro de 1912, sexta coluna), e a segunda, póstuma, em 1956, no Museu Nacional de Belas Artes (O Paiz, 5 de setembro de 1956, segunda coluna). Faleceu no Rio de Janeiro em 9 de abril de 1916. Sua mulher, Paulina de Figueiredo, faleceu dias depois (O Paiz, 10 de abril de 1916, segunda coluna; e O Paiz, de abril de 1916, segunda coluna).

Apesar de ter ficado conhecida como O baile da Ilha Fiscal, o autor havia dado à tela o título de A ilusão do Terceiro Reinado. Pintada em 1905, ela só seria apresentada ao público em 9 de janeiro de 1907, na Escola Nacional de Belas Artes, sob um terceiro título: O advento da república (Jornal do Brasil, 1o de janeiro de 1907, sétima coluna). Foi exibida na exposição de 1922, comemorativa do centenário de Independência, e na exposição de 1939, que celebrou o 50º aniversário da República. No artigo O último baile e seus personagens: protagonistas e figurantes na tela de Aurélio de Figueiredoa historiadora Maria Isabel Ribeiro Lenzi, do Museu Histórico Nacinal, identifica várias figuras representadas na pintura, dentre elas Machado de Assis (1839 – 1908) e Carolina Novaes (1835 – 1904); o poeta e jornalista João Cardoso de Menezes e Souza, barão de Paranapiacaba (1827 – 1915); o prefeito Francisco Pereira Passos (1836 – 1913); a família do próprio pintor; e a família imperial. Outros quadros importantes do pintor foram Francesca da Rimini (1873), Moça na janela (1891)Compromisso Constitucional (1896).

 

 

Sobre o Baile da Ilha Fiscal

 

 

Em 1889, as relações de amizade entre o Brasil e o Chile foram festejadas com demonstrações recíprocas de apreço e estima. Em Santiago e em Valparaíso, o governo e o povo chileno homenagearam a oficialidade do cruzador Almirante Barroso (O Paiz, 4 de julho de 1889, sexta coluna), em viagem de circunavegação iniciada em 27 de outubro de 1888 (O Paiz, 28 de outubro de 1888, segunda coluna). O Brasil fez o mesmo quando, retornando da Europa, a esquadra chilena, liderada pelo encouraçado Almirante Cochrane, sob o comando do capitão-de-mar-e-guerra Constantino Bannen (1847 – 1899), aportou no Rio de Janeiro, em 11 de outubro de 1889 (Gazeta de Notícias, 12 de outubro de 1889). Uma série de eventos, entre piqueniques, espetáculos de gala, banquetes e excursões, foram realizados mobilizando a elite carioca. O Império enfrentava problemas econômicos e a abolição da escravatura contribuia para a falta de sustentação política do regime. Nesse quadro de instabilidade, o gabinete ministerial se empenhou em organizar as festividades em torno dos chilenos para demonstrar o prestígio da monarquia.

O Baile da Ilha Fiscal, em 9 de novembro, oferecido pelo presidente do Conselho de Ministros do Império do Brasil, Visconde de Ouro Preto (1836 – 1912), foi o ápice das Festas Chilenas e um golpe de publicidade na tentativa de promover o terceiro reinado. Foi o primeiro (e último) baile oficialmente promovido pelo Império. Pretendia-se realizar uma celebração inesquecível para fortalecer a monarquia diante da ameaça republicana. Para a festa, o último grande evento do Império Brasileiro, inicialmente marcada para o dia 19 de outubro e adiada devido à morte do rei Luís I de Portugal (1861 – 1889), sobrinho do imperador Pedro II (Gazeta de Notícias, 20 de outubro de 1889; e O Paiz, 21 de outubro de 1889, sétima coluna), foram distribuidos cerca de 3 mil convites. Os preparativos e a realização da festa foram bastante noticiados e seu luxo foi muito criticado pela imprensa.

 

ingresso

 

Contou com as presenças de dom Pedro II (1825 – 1891), de dona Teresa Cristina (1822 – 1889), da princesa Isabel (1846 – 1921), do Conde d´Eu (1842 – 1922) e das mais importantes figuras da sociedade e da política do país. A Família Imperial, sua comitiva, diplomatas estrangeiros e alguns convidados ficaram em um salão especialmente preparado para eles.

 

 

 

O edifício da Ilha Fiscal, projeto do engenheiro Adolpho José Del Vecchio (1848 – 1927), havia sido inaugurado em 27 de abril de 1889, poucos meses antes da realização do baile. No dia da festa foi iluminada com luz elétrica, tecnologia rara na época, e refletores de grandes navios iluminavam o Paço, a Capela Imperial e a Igreja da Ordem Terceira do Carmo, propiciando uma bela visão do Rio de Janeiro aos convidados da festividade. Por volta das 23h, começaram as danças com seis bandas tocando diversos tipos de música como valsas, mazurcas quadrilhas, lanceiros e polcas. Em frente à ilha, no Largo do Paço, uma banda da polícia tocava lundus e fandangos alegrando uma pequena multidão que não havia sido convidada para a festividade.

O casal imperial, o conde d´Eu e a princesa Isabel foram embora à uma da madrugada, mas a festa só terminou por volta das 5 da manhã. Foram descritos com detalhes 74 trajes das damas presentes e publicada também uma descrição detalhada da ceia, anunciada em um menu de 12 páginas. O banquete ficou a cargo da Casa Paschoal (O Paiz, 10 de novembro de 1889Gazeta de Notícias, 11 de outubro de 1889Revista Illustrada, 16 de novembro de 1889).

Durante a festa foram servidos cerca de 10 mil litros de cerveja e 304 caixas de bebidas, das quais 258 eram de vinhos e champanhes, o que significa terem sido abertas mais de três mil garrafas. Segundo Carlos Cabral, essas bebidas custariam hoje 250 mil dólares, uma vez que foram servidos um raríssimo Porto de 1834, além dos até hoje famosos vinhos Tokay, Chateau D’Yquem, Chateau Lafite e um Falerno em homenagem à Imperatriz… Ao final, a conta apresentada pela Casa Paschoal incluía, além das bebidas acima mencionadas, os outros serviços, onde constava um bufê com 11 tipos de pratos quentes, 15 de pratos frios, 12 tipos de sobremesa, no qual foram utilizados 18 pavões, 25 cabeças de porco, 64 faisões, 300 peças de presunto, 500 perus, 800 quilos de camarão, 800 latas de trufas, 1.200 latas de aspargos, 1.300 galinhas, além de 50 tipos de saladas com maionese, 2.900 pratos de doces variados, 12.000 taças de sorvete, 18 mil frutas e 20 mil sanduíches.(1)

A festa foi definida por Machado de Assis (1839 – 1908) em seu romance Esaú e Jacó como um sonho veneziano; toda aquela sociedade viveu algumas horas suntuosas; novas para alguns, saudosas para outros.

Durante o baile, muitos militares estavam reunidos na Escola Militar da Praia Vermelha, articulando a derrubada do poder imperial.

Reza a lenda que o monarca, durante a festividade, tropeçou e então teria dito a Ouro Preto: a monarquia balança, mas não cai ou O monarca tropeçou, mas a monarquia não caiu. Ironia do destino? Caso tenha de fato dito isso, seu vaticínio não se cumpriu: dias depois, em 15 de novembro de 1889, foi proclamada a República e a monarquia caiu (O Paiz, 16 de novembro de 1889, primeira coluna). Dom Pedro II faleceu no exílio, em Paris, em 5 de dezembro de 1891.

 

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                                                       Revista Illustrada, 16 de novembro de 1889

 

(1) SUAUDEAU, Laurent; DITADI, Carlos Augusto Silva. O Império à mesa, por Luarent Suaudeau e Carlos Augusto Silva Ditadi  In: MALERBA, Jurandir; HEYNEMANN, Cláudia; RAINHO, Maria do Carmo Teixeira. Festas chilenas, sociabilidades e política no Rio de Janeiro no ocaso do império. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2014.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Link para o artigo A Ilha Fiscal na Baía de Guanabara, publicado na Brasiliana Fotográfica em 27 de abril de 2020.

 

Fontes:

Anais da Biblioteca Nacional, vol 128, de 2008

CARVALHO, José Murilo. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

DUNLOP, Charles.Os impressionantes números do último baile da Ilha Fiscal. Rio de Janeiro:Editora Rio Antigo

Folha de São Paulo, 12 de novembro de 2019

GOMES, Laurentino. 1889: Como um imperador cansado, um marechal vaidoso e um professor injustiçado contribuíram para o fim da Monarquia e a Proclamação da República no BrasilSão Paulo:Globo, 2013.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LENZI, Maria Isabel Ribeiro. O último baile e seus personagens: protagonistas e figurantes na tela de Aurélio de Figueiredo. Anais do Museu Histórico Nacional, Rio de Janeiro, vol 51, 191-216, 2019.

MALERBA, Jurandir; Heynemann, Claudia; RAINHO, Maria do Carmo Teixeira. Festas Chilenas, sociabilidade e política no Rio de Janeiro no ocaso do império. Rio Grande do Sul:EDICPUCRS, 2014.

PRIORI, Mary del. Entre “doidos” e “bestializados”: o baile da Ilha Fiscal. REVISTA USP, São Paulo, n.58, p. 30-47, junho/agosto 2003.

SANDRONI, Carlos. “Quem animou o baile?” In: MALERBA, Jurandir; HEYNEMANN, Cláudia; RAINHO, Maria do Carmo Teixeira. Festas chilenas, sociabilidades e política no Rio de Janeiro no ocaso do império. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2014.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

SCHWARCZ, Lilia Moritz; STARLING, Heloisa Murgel. Brasil: Uma Biografia. São Paulo: Companhia das Letras, 2015.

Site Aventuras na História

Site Enciclopédia Itaú Cultural

SUAUDEAU, Laurent; DITADI, Carlos Augusto Silva. O Império à mesa, por Luarent Suaudeau e Carlos Augusto Silva Ditadi  In: MALERBA, Jurandir; HEYNEMANN, Cláudia; RAINHO, Maria do Carmo Teixeira. Festas chilenas, sociabilidades e política no Rio de Janeiro no ocaso do império. Porto Alegre: EdiPUCRS, 2014.

Veja, 22 de maio de 2010

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicado em 

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), publicado em 4 de dezembro de 2019

Uma homenagem da Casa Granado ao casal imperial sob as lentes de Marc Ferrez, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, publicado 6 de março de 2020

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, publicado em 16 de março de 2020

Bambus, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2020

O Palácio de Cristal fotografado por Marc Ferrez, publicado em 2 de fevereiro de 2021

A Estrada de Ferro do Paraná, de Paranaguá a Curitiba, pelos fotógrafos Arthur Wischral e Marc Ferrez, publicado em 22 de março de 2021

Dia dos Pais – Julio e Luciano, os filhos do fotógrafo Marc Ferrez, e outras famílias, publicada em 6 de agosto de 2021

No Dia da Árvore, mangueiras fotografadas por Ferrez e Leuzinger, publicado em 21 de setembro de 2021

Retratos de Pauline Caroline Lefebvre, sogra do fotógrafo Marc Ferrez, publicado em 28 de abril de 2022

 

Pixel sobre tela. Tecnologias da memória e preservação digital do patrimônio histórico e cultural

No artigo Pixel sobre tela. Tecnologias da memória e preservação digital do patrimônio histórico e cultural, a historiadora da arte Carolina Matos elogia iniciativas como o Portal Brasiliana Fotográfica, que conecta acervos de fotografia analógica com o público através da Internet e faz uma análise sobre a coleção e a conservação do patrimônio histórico e cultural, destacando que a comunicação do passado através de sua exposição é, sem dúvida, o maior legado que podemos deixar para as gerações futuras.

 

Pixel sobre tela. Tecnologias da memória e preservação digital do patrimônio histórico e cultural

Carolina Matos*

 

 

Até o final do século XX, as tecnologias de memória limitavam-se ao uso de mídias analógicas como suporte para a transmissão de tempos passados, como arquivos, escrita, fotografia e, posteriormente, o cinema. Independentemente dos métodos tradicionais de coleção e conservação do patrimônio histórico e cultural, a comunicação do passado através de sua exposição é, sem dúvida, o maior legado que podemos deixar para as gerações futuras.

Com a chegada do novo milênio e a crescente presença do formato digital na esfera cultural, a gestão da memória passou a contar com a administração de arquivos informáticos e bancos de dados numéricos, em detrimento da usual manipulação de objetos físicos. Nos museus e instituições culturais da atualidade, o rápido desenvolvimento de uma diversidade de tecnologias destinadas a mediar o contato do espectador contemporâneo com as coleções provoca uma reconfiguração contundente nos modos usuais de representação.

Manifestar nosso passado por meio de imagens digitais gera um cruzamento, nunca antes imaginado, entre as disciplinas da História e da Museologia, para citar apenas duas das mais importantes esferas que envolvem a memória cultural, com a Comunicação. O novo modelo de acesso e exposição digital aproxima o público através da linguagem ágil das redes de computadores e da acessibilidade proporcionada no simples gesto de um clique.

A partir do pensamento do filósofo alemão Martin Heidegger à respeito da obra de arte(1), sabemos que os próprios gregos, “que entendiam algo das obras de arte,” usavam a palavra “techné” para se referir à arte, e denominavam o artesão e o artista com a mesmo nome: “technités”. Pois bem, a origem da palavra tecnologia, na sua forma grega, implicava igualmente um modo de conhecer, um modo de conceber o mundo. Mais atual, impossível.

No século XXI, é inegável admitir que a imagem digital é onipresente e que os conteúdos visuais são consumidos pelo público no espaço virtual como um ato cotidiano. Nesse ambiente digital, os objetos nada mais são do que uma abstração conceitual e geram um tipo de percepção semelhante àquela alcançada no confronto com o objeto real, produzindo a possibilidade de contemplação e reflexão sobre o conteúdo que transcende sua materialidade.

Especificamente, podemos pensar na utilização das telas digitais táteis, marcadamente as de telefones celulares, como meio intermediário entre a experiência do sujeito em seu encontro com a obra de arte no novo milênio. A tecnologia integra de forma essencial tanto o fazer quanto o ver nessa relação entre pessoas e obras, e a utilização da mesma ocasiona consequências inéditas para alguns processos intrínsecos ao espectador, como a contemplação.

Nesse sentido, a discussão sobre o conceito de aura da obra de arte se faz necessária, dada a importante mudança nos parâmetros de autenticidade na era digital. Walter Benjamin e seu pensamento de vanguarda sobre a reprodutibilidade técnica das imagens é um referencial teórico essencial(2). Por meio da tela digital, a imagem transcende a materialidade e novos conceitos para a história da arte são apresentados, como a aura da informação. Quanto mais acessível e compartilhada uma imagem, maior seu valor de culto na sociedade do espetáculo.

Já dizia o francês André Malraux, em seu ensaio sobre o Museu Imaginário (3), que a história da arte é a história do que é fotografável. A reprodução digital pode levar a fotografia a situações que ela jamais alcançaria na materialidade do papel. Iniciativas como o Portal Brasiliana Fotográfica, que conecta acervos de fotografia analógica com o público através da Internet, são a chave para alcançar a finalidade social que os museus sempre almejaram ao longo de sua história. Atualmente, as instituições culturais que estabelecem conexões múltiplas com diferentes públicos são aquelas que podem alcançar o maior impacto social e a presença digital é essencial para atingir esse objetivo em um mundo cada vez mais virtual, conectado e online.

Através da viagem pelo portal que alberga este artigo, o passado pode sair ao encontro do destinatário e a reflexão, que antes era fruto apenas da memória individual, agora pode ser conectada no mesmo espaço, ainda que virtual. À moda do “Atlas Mnemosyne”(4), obra inacabada do historiador de arte alemão Aby Warburg produzida na década de 1920, visitantes de iniciativas virtuais como esta podem articular a correspondência de uma infinidade de imagens através da abordagem de um espaço visual dinâmico, aberto e infinito.

Na busca pela disponibilidade infinita do passado, hoje observamos uma metamorfose no paradigma memorial por meio da ampliação das possibilidades de interação com o patrimônio histórico e artístico mundial. Como definiria o intelectual alemão Hans Ulrich Gumbrecht(5), em nosso presente muito eletrônico, não há nada do passado que tenhamos que deixar para trás, ou qualquer coisa do futuro que não possa se tornar presente por antecipação simulada.

Finalmente, toda memória depende, previamente, do esquecimento. Para que exista a memória, é necessário perceber o passado como um tempo diferente, como um antecedente do tempo atual. Culturalmente, a leitura de fotografias do passado permite o reconhecimento das diferentes personalidades individuais, políticas e culturais. Com essa memória do passado, sujeitos e sociedades podem construir sua identidade e também projetar uma visão de futuro.

(1) HEIDEGGER, Martin. A Origem da obra de arte. Trad. de Maria da Conceição Costa. Lisboa, Edições 70, 1999.

(2) BENJAMIN, Walter. A obra de arte na era da sua reprodutibilidade técnica. Trad. de Gabriel Valladão Silva. SãoPaulo, L&PM, 2014.

(3) MALRAUX, Andre. O Museu Imaginário. Trad. de Isabel Saint-Aubyn. Lisboa, Edições 70, 2011.

(4) WARBURG, Aby. Atlas Mynemosyne. Trad. De Joaquín Chamorro Mielke. Madrid, Ediciones Akal S.A, 2010.

(5) GUMBRECHT, Hans Ulrich. Produção de Presença: o que o sentido não consegue transmitir. Trad. de Ana Isabel
Soares. Rio de Janeiro, Contraponto: Ed. PUC-Rio, 2010.

 

* Carolina Matos é Historiadora da Arte e Coordenadora do Abre-te Código, primeiro Hackathon de dados culturais abertos do Brasil.  Atua no mercado editorial como fotógrafa e editora de imagens. Está concluindo Doutorado em História da Arte pela Universidad Complutense de Madrid, com tese sobre a imagem digital no campo cultural.

Fotografia de Leuzinger é capa da revista “Fon-Fon” em 1922

Imagens produzidas no século XIX pelo fotógrafo e editor suíço Georges Leuzinger (1813 – 1892) foram usadas na matéria O Rio Desapparecido, publicada na revista Fon-Fon de 29 de abril de 1922Uma delas, do Largo de São Francisco, no centro do Rio de Janeiro, está na capa acompanhando um pequeno texto onde se lê: “O velho Rio morreu”. A edição, acessada a partir da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, era comemorativa do aniversário da revista, que circulou entre abril de 1907 e agosto de 1958. A Brasiliana Fotográfica vai reproduzir nessa publicação todas as páginas do artigo, destacando as fotografias de autoria de Leuzinger que pertencem ao acervo do Instituto Moreira Salles, um das instituições fundadoras do portal. Com a preservação digital, os registros fotográficos podem, a partir de recursos tecnológicos como a digitalização e o zoom, terem uma melhor visibilidade e serem acessadas em sua qualidade plena.

Na foto da capa da edição da Fon-Fon de 29 de abril de 1922 é comentado que em mais ou menos meio século, no Largo de São Francisco, só a Igreja de São Francisco, assim mesmo sem os gradis desse tempo permaneceu intocada. Foi também comentado que a Litografia Comercial havia se tornado o majestoso prédio do Parc Royal, que pardieiros eram agora belas casas de negócios e que ao invés de diligências com quatro mulas viam-se então circulando bondes elétricos.

 

 

 

As duas primeiras fotos que ilustram a matéria, uma intitulada Igreja da Ordem Terceira do Carmo na Rua Direita, atual rua Primeiro de Março e outra Largo de São Francisco em destaque a Real Academia Militar pertencem ao álbum Rio de Janeiro e ses environs, produzido por Leuzinger em torno de 1868. A última, do Convento da Ajuda,  não faz parte do álbum.

 

Acessando o link para as fotografias de Leuzinger que ilustram a matéria O Rio desapparecido disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

 

 

 

 

 

A matéria menciona as diversas mudanças ocorridas na cidade desde 1872 como o desaparecimento do Morro do Senado, a destruição do Morro do Castelo, e as transformações nas construções em torno da Boulevard Carceller – como era conhecida um trecho da rua Direita, atual Primeiro de Março – e do Largo de São Francisco. Mas seu tom não é melancólico tanto que em seu último parágrafo lê-se:

 

parágrafo

 

No texto da reportagem é lamentada a morte do escritor José Vieira Fazenda (1874-1917), identificado como um homem-arquivo do Rio de Janeiro. A partir de 1896, publicou, principalmente, no jornal A Notícia e nas revistas Kosmos e Renascença uma série de artigos sobre diversos aspectos do Rio de Janeiro, de assuntos históricos a suas tradições e costumes. Os artigo foram reunidos, a partir de 1919, com o título Antiqualhas e Memórias do Rio de Janeiro e ocupam cinco volumes da Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro.

 

José Vieira Fazendo / Acervo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

José Vieira Fazendo / Acervo Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Site CPDOC

Site Reficio