A plataforma imagineRio

A Brasiliana Fotográfica apresenta a seus leitores o imagineRio com um artigo escrito por Martim Passos, gerente do projeto de colaboração entre o IMS e a plataforma, contando a história, as possibilidades e as funcionalidades do novo site. O imagineRio é um atlas digital que pode ser pesquisado e mostra a evolução social e urbana do Rio de Janeiro ao longo de sua história. Vistas da cidade criadas por artistas ou produzidas por fotógrafos, mapas de cartógrafos e plantas de arquitetos e urbanistas estão localizados no tempo e no espaço.

 

 

Muitas fotografias presentes no acervo da Brasiliana Fotográfica também estão no acervo do imagineRio e destacamos hoje algumas imagens procedentes das duas instituições fundadoras do portal: a Fundação Biblioteca Nacional e o Instituto Moreira Salles. O Arquivo Nacional e o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, também estão presentes no imagineRio com mapas de seus acervos.

 

 

Acessando o link para algumas fotografias presentes na plataforma imagineRio e também disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

 

“Desenvolvido pelos professores Farès el-Dahdah e Alida C. Metcalf em colaboração com a Axis Maps, imagineRio conta com o apoio financeiro de uma bolsa de História da Arte Digital da Fundação Getty, que permitiu a integração com o importante acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles. A plataforma não poderia ter sido desenvolvida sem o suporte técnico e financeiro da Rice University através do Laboratório de Estudos Espaciais, do Ken Kennedy Institute, do Fundo de Iniciativas do Corpo Docente, da Biblioteca Fondren, do Centro de Pesquisa em Humanidades, do Departamento de História e do Escritório de Estratégia Global e Digital, além do conteúdo disponibilizado pela Prefeitura do Rio de Janeiro, Arquivo Nacional, entre muitas outras instituições”.

 

 

Até maio de 2022, as seguintes instituições estão representadas no imagineRio:

  • Akademie der Bildenden Künste, Wien [Kupferstichkabinett]
  • Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro
  • Arquivo Histórico do Exército, Rio de janeiro
  • Arquivo Histórico Ultramarino, Lisboa
  • Arquivo Nacional
  • Arquivo Público Mineiro [Fundo Arthur da Silva Bernardes]
  • Biblioteca Nacional (Brasil)
  • Bibliothèque Nationale de France
  • Casa de Lucio Costa
  • Casa Geyer, Museu Imperial
  • Coleção Maria Cecília e Candido Guinle de Paula Machado
  • Fondren Library, Rice University
  • Fundo Correio da Manhã, Arquivo Nacional, Brasil
  • Imagens do Povo
  • Library of Congress, Washington, D.C.
  • Mapoteca do Itamaraty, Rio de Janeiro
  • Oliveira Lima Library
  • Prefeitura do Rio de Janeiro
  • Woodson Research Center Special Collections & Archives
  • Instituto Moreira Salles

 

 

O site imagineRio

Martim Passos*

 

 

Com milhares de fotografias, mapas e plantas do Rio de Janeiro vindas de instituições como o Instituto Moreira Salles e a Biblioteca Nacional, o site imagineRio é uma plataforma que permite ao usuário investigar, geográfica e visualmente, como a cidade se configurou ano a ano, do início da urbanização no Morro do Castelo ao seu recém-celebrado 457º aniversário. Idealizado por professores de Humanidades da Universidade de Rice, em Houston, Texas, a plataforma chega a sua terceira versão graças a um projeto de colaboração entre a instituição e o IMS financiado pela Fundação Getty.

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Fruto do casamento de mapas históricos com um amplo leque de representações – gravuras, aquarelas, fotografias – situadas no tempo e no espaço, o site oferece ferramentas poderosas para a pesquisa historiográfica e também para ser um passatempo inesgotável para os amantes da história carioca.

 

 

Escolhe-se uma data na linha do tempo e um mapa interativo se ajusta para refletir o Rio de Janeiro daquele ano. Em segundos, acessa-se um panorama de processos que aconteceram ao longo de séculos de intervenção: edifícios são construídos, modificados ou demolidos diacronicamente; ruas são abertas, desviadas ou estendidas; parques e jardins têm seus canteiros redesenhados, rios e mangues são aterrados, morros inteiros somem e a terra avança onde antes só havia mar. Tudo isso testemunhado pelas penas, lápis e lentes de artistas que registraram a cidade desde sua fundação e cujas obras tornaram-se evidências daquilo que o mapa mostra.

 

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O leitor pode ver o cotidiano de escravizados nas ruas do centro por Debret, as vistas secretas da Floresta da Tijuca capturadas em diversos formatos por Marc Ferrez, as primeiras tomadas aéreas da cidade realizadas pelo aviador pioneiro Jorge Kfuri, o movimento na Copacabana dos anos 20 nas estereoscopias de Guilherme Santos, o bota-abaixo da “Paris tropical” de Pereira Passos documentadas por Augusto Malta. A variada oferta de imagens é entregue em altíssima resolução, permitindo ao usuário mergulhar a fundo em cada uma e inspecionar detalhes longínquos, usando o painel cartográfico como apoio e vice-versa. No caso de objetos em domínio público, que configuram a grande maioria da coleção, também é possível baixar os arquivos originais para reuso livre.

 

 

 

Atrelada ao projeto está uma ferramenta de narrativas, voltada para a publicação de apresentações – criadas pelo público – aliando texto, imagens próprias e/ou publicadas no imagineRio e material cartográfico interativo. É possível anotar sobre o mapa, destacar pontos de interesse e animar transições entre diferentes áreas da cidade, contextualizando o leitor conforme avança na leitura. Mapear romances, esmiuçar grandes obras de engenharia e ilustrar processos e dinâmicas urbanas são alguns exemplos de uso empregados pelos primeiros usuários da plataforma.

 

Para aproveitar o imagineRio ao máximo, assista a este pequeno tutorial em vídeo. Junte-se também ao fórum para participar de discussões, sugerir melhorias e acompanhar as novidades.

 

 

*Martim Passos é o gerente do projeto Vistas Situadas do Rio de Janeiro e assistente técnico da Coordenadoria de Fotografia do Instituto Moreira Salles.

Link para o site imagineRio.

O Edifício Martinelli, antigo referencial e símbolo de São Paulo

A Brasiliana Fotográfica destaca quatro imagens do icônico Edifício Martinelli, símbolo do apogeu e do declínio do Centro velho de São Paulo. Uma delas foi produzida pelo francês Claude Lévi-Strauss (1908 – 2009), que esteve no Brasil entre 1935 e 1938, tendo sido professor de Sociologia na Universidade de São Paulo e que, nas horas vagas, fotografava a cidade. Sobre o edifício escreveu em Saudades de São Paulo:

“Se coloquei o prédio Martinelli na abertura desta coletânea, é que em 1935 ele era ao mesmo tempo um referencial e um símbolo.

Único arranha-céu de toda a cidade, aos olhos dos paulistanos simbolizava a ambição de que esta se tornasse a Chicago do hemisfério sul. Ambição que se realizou desde então, e foi além…

O prédio Martinelli era também um referencial cuja silhueta dominava todos os outros prédios. Era visto de quase toda a parte, mesmo do fundo dos barrancos escarpados que desciam das elevações onde corria a avenida Paulista. Ainda entregues à natureza, esses barrancos abrigavam as habitações mais pobres, com os riachos, à guisa de esgotos, transformados em torrentes quando chovia.

Mas o arranha-céu impunha sua presença majestosa sobretudo no início da avenida São João, artéria nova cuja abertura não estava ainda terminada. Descendo a pé a avenida em direção ao oeste, ficava-se obsedado por sua massa rosada que se percebia toda vez que se olhava para trás. Mesmo à distância, ela obstruia o horizonte, tanto de dia como ao anoitecer, quando as ornamentações feitas para o Carnaval se iluminavam“.

 

 

Há também uma fotografia aérea de autoria de Alfredo Krausz (? – 19?), uma de autoria de um fotógrafo ainda não identificado e, finalmente, um registro realizado por Edgard Egydio de Souza (1867 – 1956). Inicialmente, o Martinelli era dividido em três partes: na rua Líbero Badaró, a parte residencial do edifício; na rua São Bento, a área comercial; e, pela entrada da São João, estava o Hotel São Bento e os salões Verde e Mourisco, alguns dos destinos preferidos da alta sociedade paulistana. A pintura rosa dos detalhes esculpidos em suas paredes é uma de suas marcas registradas.

 

 

Marco na verticalização de São Paulo, um de seus símbolos de progresso, da riqueza gerada pelo café, o Edifício Martinelli foi o primeiro arranha-céu de São Paulo e, como cenário urbano, traduzia o cosmopolitismo, que caracterizou o modernismo no Brasil. Abaixo, versos da revolucionária escritora Patrícia Galvão (1910 – 1962), a Pagu, participante do movimento modernista, onde o Edifício Martinelli é citado:

 

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O Edificio Martinelli foi idealizado pelo imigrante italiano Giuseppe Martinelli (1870-1946), que chegou ao Brasil em fins do século XIX e tornou-se um dos mais ricos empresários do país. O projeto do prédio foi de autoria do arquiteto húngaro William Fillinger (1888-1968), formado na Academia de Belas Artes de Viena, na Áustria. A fachada foi desenhada pelos Irmãos Lacombe, suas portas eram de madeira de lei, as escadas tinham mármore italiano e o cimento veio da Noruega e da Suécia. Foi inaugurado, em 1929, em um terreno entre as ruas São Bento, Libero Badaró e a Avenida São João. Era, na época, o maior prédio da América do Sul, com 105,65 metros de altura, e a maior obra de cimento armado do mundo (O Cruzeiro, 11 de maio de 1929).

 

 

Sua construção foi iniciada, em 1924, e, a princípio, o prédio teria 14 andares. Mais seis pavimentos foram adicionados à obra e, posteriormente, com a ajuda de seu sobrinho, o engenheiro calculista Ítalo Martinelli, o edifício passou para 24 andares. A obra foi embargada, sob denúncias de risco de desabamento da construção. Giuseppe revogou a decisão e ainda ergueu mais pavimentos (A Gazeta (SP), 23 de setembro de 1925, sexta colunaA Gazeta (SP), 23 de janeiro de 1928, quinta coluna; Gazeta de Notícias, 25 de maio de 1928, última coluna; Gazeta de Notícias, 1º de junho, sexta colunaCorreio da Manhã, 1º de junho de 1928, sétima coluna; Gazeta de Notícias, 17 de outubro de 1928, quinta coluna).

 

 

Em 29 de março de 1928, o embaixador italiano, Bernardo Attolico, durante sua estadia em São Paulo, foi visitar as obras do edifício (Correio Paulistano, 30 de março de 1928).

 

 

Em abril de 1929, 25 andares já estavam construídos (O Paiz, 21 de abril de 1929, quarta coluna). Foi visitado pelo governador de São Paulo, Julio Prestes (1882 – 1946).

 

 

 

Em novembro, o prédio já tinha 26 pavimentos (Jornal do Brasil, 26 de novembro de 1926, primeira coluna). No topo, foi construído um palacete, de cinco andares, onde Martinelli moraria. Mudou-se com a família para o prédio, em 1929. Porém, foi o italiano Arturo Patrizi, professor de dança, o primeiro morador do prédio. Mudou-se para lá em 1928, com o edifício ainda em obras, e abriu uma concorrida escola em uma das salas de sua casa, no quarto andar.  
Em 2 de setembro de 1929, foi inaugurado, no prédio, o luxuoso Cinema Rosário, com a exibição do filme O Pagão. O evento foi considerado o maior acontecimento social do ano (A Gazeta (SP), 4 de setembro de 1929).

 

 

 

 

 

“E o Zeppelin veio provar para São Tomé o sofisma gracioso de que uma casa dum andar pode ser mais alta que o Martinelli.” 

Mário de Andrade, 1976

 

Devido à quebra da Bolsa de Valores de Nova York, em 1929, o comendador Martinelli vendeu o prédio para o Instituto Nazionale di Credito per il Lavoro Italiano all´Estero. Os bens italianos foram confiscados pelo governo brasileiro durante a Segunda Guerra Mundial e o Edifício Martinelli passou para a administração federal, tendo sido, em seguida, leiloado. Foi comprado por Milton Pereira de Carvalho e Herbert Levy e pouco tempo depois passou a ter 103 proprietários, tornando-se o primeiro edifício do Brasil a se transformar em condomínio. Entrou em decadência até a reforma realizada durante a gestão do prefeito Olavo Setúbal (1923 – 2008), na década de 70, tendo sido reinaugurado, em 4 de maio de 1979 (Diário da Noite (SP), 1º de fevereiro de 1979).

 

martinellicartãoO Estado de São Paulo, 5 de maio de 1979

O Estado de São Paulo, 5 de maio de 1979

 

O Martinelli foi o endereço da sucursal paulista da revista O Cruzeiro (O Cruzeiro, 20 de fevereiro de 1932), assim como dos partidos políticos Comunista, Integralista e também da União Democrática Nacional (UDN); do Palmeiras e da Portuguesa, do Club Republicano, da Ordem dos Músicos, da Federação Paulista de Medicina e do Instituto Médico Dante Alignieri.

Em 2019, quando completou 90 anos, cerca de 70% do Edifício Martinelli estava ocupado por secretarias municipais e o restante estava distribuído entre a Caixa Econômica Federal, o Sindicato dos Bancários de São Paulo e 11 lojas.

Uma curiosidade: Giuseppe Martinelli é avô da artista plástica Maria Bonomi (1935-).

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Esquinas – Revista Digital Laboratório da Faculdade Casper Líbero, 11 de fevereiro de 2020

Folha de São Paulo, 25 de janeiro de 1998

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

HOMEM, Maria Cecília Naclério. O Prédio Martinelli – A ascensão do imigrante e a verticalização de São Paulo. São Paulo : Editora Projeto, 1984.

LEVI-STRAUSS, Claude. Saudades de São Paulo. São Paulo : Companhia das Letras, 1996.

REBECHI JUNIOR, Arlindo. Pagu: poesia, militância e condição feminina. Revista da USP. Comunicação & Educação • Ano XXIII • número 1 • jan/jun 2018.

São Paulo Antiga

Site Prefeitura de São Paulo

Site YOU, INC

UOL

Cronologia de Joaquim Antônio Correia (18? – ?)

Breve cronologia de Joaquim Antônio Correia (18? – ?)

 

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1874 – Até este ano, o nome de Joaquim Antônio Correia apareceia no cadastro de contribuintes como dono de uma casa comercial especializada em produtos manufaturados fora da província,que ficava na rua da Palma , nº 17.

1877 - Estabeleceu como fotógrafo na rua Formosa, n° 31. Atuou como retratista por não menos de dez anos e foi contemporâneo de Agio Pio, do prussiano Carlos Frederico Reeckell, do dinamarquês Niels Olsen (1843 – 1911) associado ao austríaco Constantino Barza, do francês Baubrier e de Francisco Brandão, dentre outros.

 

 

 

1878 – Defendeu-se da acusação de comercializar indevidamente retratos que produzia de moças de família e ameaçou pendurar de cabeça para baixo os retratos de seus devedores (O Cearense, 12 de maio de 1878).

Em maio, conheceu o escritor José do Patrocínio (1853 – 1905), que havia ido para o Ceará para conhecer mais de perto a tragédia da seca. Voltando para o Rio de Janeiro, publicou duas fotos da seca no Ceará de autoria de Correia, na revista O Besouro, de 20 de julho de 1878, do chargista português Rafael Bordallo Pinheiro (1846 – 1905). Foi uma das iniciativas pioneiras da imprensa brasileira na utilização de fotografias como documentos comprobatórios de um fato. Foi um marco na história do fotojornalismo brasileiro.

A publicação da ilustração litográfica das duas fotos sendo seguradas por um esqueleto vestindo paletó, sob o título “Páginas tristes – Scenas e aspectos do Ceará (para S. Majestade, o Sr. Governo e os Senhores Fornecedores verem)”, tinha o objetivo de reforçar denúncias feitas por do Patrocínio em artigos publicados no periódico de texto Gazeta de Notícias. Patrocínio fazia, na época, a cobertura jornalística da seca com o principal objetivo de acompanhar a aplicação dos recursos governamentais em seu combate. Partiu em 10 de maio de 1878 e retornou ao Rio de Janeiro, em 12 de agosto do mesmo ano. As matérias foram publicadas, na coluna Folhetim, na primeira página da Gazeta de Notícias, sob o título “Viagem ao Norte”. Mas só o texto não era suficiente. Então, Patrocínio enviou as fotos para a redação da revista O Besouro, para a qual já havia mandado, antes da viagem, o artigo “Sermão de Lágrimas” (O Besouro, edição de 4 de maio de 1878 ), em que tratava, com preocupação, a seca e a situação dos retirantes.

1881 – Seu estúdio fotográfico dispunha de um grande sortimento de quadros de gosto…máquinas de 4 objetivas…e tudo por preço tão diminuto que admira.

 

 

1883 / 1884 – Antes da assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, Fortaleza, em 24 de maio de 1883, tornou-se a primeira capital brasileira a libertar todos os escravizados. No ano seguinte, em 25 de março de 1884, o Ceará passou a ser o primeiro estado brasileiro a extinguir a escravidão. Correia documentou os líderes da luta escravagista em fotos chamadas de Retratos Libertadores e, em 1883, as comercializava.

 

O Libertador, de 1887

O Libertador,  9 de maio de 1883 / História da fotografia no Ceará do século XIX

 

1885 – Correia anunciou que havia adquirido, em Paris, uma nova máquina para retratos instantâneos (O Cearense, de 28 de julho de 1885, última coluna).

1886 – Anunciava que em seu estabelecimento fotográfico tirava-se retratos pelos processos mais aperfeiçoados (O Libertador, 8 de junho de 1886, última coluna).

1892 – Provavelmente continuou trabalhando como fotógrafo até este ano.

Em 29 de dezembro, inaugurou a primeira fábrica de louças do Ceará, no Boulevard da Conceição (A República, 28 de dezembro de 1892, quarta coluna).

1893 – Anunciou a venda de seu estúdio fotográfico:

“Joaquim Antonio Correia vende a sua fotografia constando de boas lentes, drogas, punsas, etc. A tratar: Rua Formosa, nº 31″ (A República, 30 de maio de 1893). Residia na rua Floriano Peixoto, nº 95.

A Reação Republicana

O artigo de hoje foi escrito pela historiadora Silvia Pinho, do Museu da República, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica. É sobre a Reação Republicana, uma campanha política em torno da sucessão presidencial que mobilizou o Brasil, entre 1921 e 1922, cuja chapa oposicionista se opunha ao domínio de São Paulo e Minas Gerais na política nacional. Reuniu estados importantes – Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Sul, mais o Distrito Federal – que queriam construir um eixo alternativo de poder.  Os candidatos à presidência e à vice-presidência da Reação eram o fluminense Nilo Peçanha (1867 – 1924) e o baiano J.J. Seabra (1855 – 1942). Nas eleições de 1º de março de 1922, foram derrotados pelo mineiro Artur Bernardes (1875 – 1955) e pelo maranhense Urbano Santos (1859 – 1922), que morreu antes de tomar posse. As fotografias são da Coleção Nilo Peçanha.

 

 

Acessando o link para as fotografias do Movimento Reação Republicana disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

A Reação Republicana

Silvia Pinho*

 

 

A eleição é um dos principais episódios da vida política de um país. Além de peça chave do sistema representativo, os momentos que a antecedem são marcados por debates que levantam questões de importância nacional. A forma como é realizada revela muito da organização social e política de uma sociedade. Nos anos de 1921 e 1922, uma campanha política em torno da sucessão presidencial mobilizou o país. Era a Reação Republicana, chapa oposicionista formada em reação ao domínio de São Paulo e Minas, reunindo estados importantes – Rio de Janeiro, Pernambuco, Bahia e Rio Grande do Sul, mais o Distrito Federal – que queriam maior participação na política do país, com o objetivo de construir um eixo alternativo de poder. A plataforma da Reação propunha mudanças na organização política e econômica do país, defendendo maior equilíbrio federativo, solução da crise financeira, diversificação agrícola, expansão da educação pública, incentivo ao desenvolvimento econômico e regeneração dos costumes políticos.

 

 

A Reação Republicana lançava como candidato à Presidência da República o político fluminense Nilo Peçanha, e como candidato a vice o governador da Bahia, J. J. Seabra. O então presidente Epitácio Pessoa apoiava a chapa oficial, formada pelo mineiro Artur Bernardes e pelo maranhense Urbano Santos. A disputa representava, sobretudo, uma fissura no pacto oligárquico que caracterizou a Primeira República, baseado na Política dos Governadores – o governo central apoiava os grupos dominantes nos estados, e estes, em troca, apoiavam a política do presidente da República – e na Política do Café com Leite, segundo a qual São Paulo e Minas Gerais decidiam quem seria o candidato oficial à Presidência da República (quase sempre vencedor) e traçavam o rumo das políticas nacionais.

 

 

A grande novidade da Reação Republicana foi sua campanha. Foi a primeira vez que se realizou uma campanha política para a Presidência da República de amplo alcance, sobretudo geográfico, com formação de comitês eleitorais nas mais diversas cidades do país. A bordo do Íris – navio fretado especialmente para esse fim –, Nilo Peçanha visitou vários estados brasileiros, fazendo comícios em praças e teatros, percorrendo as ruas, articulando alianças e conversando com as pessoas em busca de apoio.

 

 

Nilo Peçanha e J. J. Seabra sabiam que estavam em desvantagem em relação à chapa oficial, que dominava o jogo político na maior parte do país. Além disso, nessa época, o voto não era secreto e as fraudes eram prática comum. Porém, os membros da Reação pensavam ser possível reverter a diferença, assim como inibir as fraudes, mediante o convencimento da sociedade, trazendo-a para sua causa.

 

 

A campanha da Reação começou em 24 de junho de 1921 e, enquanto J. J. Seabra visitava estados do Sul, Nilo Peçanha partiu em excursão pelo Norte e Nordeste. À bordo do Íris, ele visitou o Amazonas, Pará, Maranhão, Piauí, Ceará, Rio Grande do Norte, Pernambuco, Paraíba, Alagoas, Sergipe, Bahia, Espírito Santo e Distrito Federal. Em São Paulo, foi impedido pelo governo local de realizar seu comício, redigindo então um “Manifesto ao Povo Paulista”, no qual afirmava que a Reação era o “ideal renovador do Brasil e que varre a tutela usurpadora dos nossos direitos soberanos!”.

 

 

Embora fosse um movimento das elites políticas, a Reação atraiu a simpatia e conquistou a adesão de vários segmentos sociais insatisfeitos com o governo. Um dos mais importantes foi o grupo dos militares, cujo apoio foi fundamental para a força e a amplitude geográfica da campanha. A Reação Republicana também conquistou o apoio da maçonaria, de grupos feministas e de setores médios urbanos, além da participação efetiva da imprensa na promoção da campanha.

Em 1º de março de 1922, sob forte tensão, ocorreu a eleição. O pleito foi marcado por denúncias de fraude generalizada e a vitória coube ao candidato oficial, Artur Bernardes. Nilo Peçanha e J.J. Seabra, contudo, não reconheceram o resultado e passaram a reivindicar a criação de um Tribunal de Honra, que arbitrasse o processo eleitoral. Como a posse de Bernardes só se daria em 15 de novembro, os membros da Reação continuaram engajados nos meses que se seguiram, tentando mobilizar a opinião pública e encontrar uma solução política que revertesse a situação. Nesse entremeio, no dia 5 de julho, jovens militares – grupo que apoiou a Reação, mas que tinha força, ideologia e demandas próprias – se rebelaram no Forte de Copacabana, em um levante que, embora reprimido, seria o marco inicial do movimento tenentista.

 

 

Os esforços dos candidatos da Reação foram ineficazes e Artur Bernardes tomou posse no Palácio do Catete. Nilo Peçanha morreria pouco depois, em 1924. Em 1930, uma nova crise política, mais forte e ampla, irrompeu e reuniu novamente as oligarquias estaduais dissidentes, militares e setores urbanos, além de outros grupos insatisfeitos com o regime. Era a Revolução de 1930, que pôs fim àquele sistema político.

A Reação Republicana demonstra a complexidade do jogo político na Primeira República, visto muitas vezes de forma simplista e unívoca. O que se desvela, entretanto, é uma trama política dinâmica e múltipla, repleta de conflitos, nuances e atores variados, de um período rico e diverso de nossa história republicana.

 

 

A Coleção Nilo Peçanha, pertencente ao Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República, é formada por cerca de 20 mil documentos, sobretudo textuais, sendo em sua maioria correspondências. O acervo foi formado, principalmente, através das doações feitas pela viúva Anita Peçanha em 1948 e por Armênia Peçanha, irmã do titular, em 1960. Constam da coleção também 547 fotografias, nas quais se destaca o conjunto de imagens que retrata a campanha Reação Republicana.

 

*Silvia Pinho é historiadora do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República