As primeiras fotografias aéreas produzidas no Brasil, em 1916, de autoria do fotojornalista Jorge Kfuri

O jornal A Noite noticiou na capa de sua edição de 30 de outubro de 1916 a produção das primeiras fotografias aéreas do Brasil. Elas haviam sido realizadas pelo fotojornalista Jorge Kfuri (1893 – 1965), que, na época, trabalhava para o periódico. Eram imagens do acampamento dos Afonsos tiradas de um biplano, da Escola de Aviação, pilotado pelo aviador italiano Ernesto Darioli (1881 – 19?) (A Noite, 30 de outubro de 1916). Darioli havia chegado ao Brasil, em fins de 1911 (A Noite, 6 de novembro de 1911, quarta coluna). Foi o instrutor de voo do primeiro aviador militar brasileiro, Ricardo Kirk (1874 – 1915). Ambos foram contratados pela União Federal para missões no teatro de operações da Guerra do Contestado.

 

 

 

Voltando às fotografias aéreas. Pouco depois, em 29 de novembro de 1916, Kfuri produziu mais fotografias aéreas, quando voou com o piloto naval Virginius de Lamare (1883 – 1956), futuro major-brigadeiro, no C-1, em uma das três aeronaves Curtiss Flying Boats que haviam sido encomendadas pelo então ministro da Marinha, almirante Alexandrino de Alencar (1848 – 1926). Chegaram ao Brasil em 9 de julho de 1916 (A Noite, 29 de novembro de 1916A Noite, 24 de outubro de 1953, na quarta coluna).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Breve perfil do fotojornalista Jorge Kfuri

 

 

Jorge Kfuri era sírio ou libanês (as fontes variam*) e na década de 1910 já estava no Brasil. Trabalhou entre essa década e a de 1920 nos jornais O Século e A Noite. Em 28 de outubro de 1913, foi um dos fundadores da Associação dos Photographos de Imprensa, no Rio de Janeiro, provavelmente a primeira do gênero, no Brasil (Fon-Fon, 1º de novembro de 1913). Em 1920, foi aceito como associado na Associação Brasileira de Imprensa (Jornal do Brasil, 23 de junho de 1920, na penúltima coluna). Em 1921, naturalizou-se brasileiro e, em dezembro do mesmo ano, foi contratado como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval (O Paiz, 5 de maio de 1921, na terceira coluna e Relatórios do Ministério da Justiça de 1922O Paiz, 21 de dezembro de 1921, na primeira colunaO Relatório do Ministério da Marinha de 1922). Em 1923, para servir como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval, o Ministério da Marinha contratou o sr. Jorge Kfuri, servindo também como operador cinematográfico em qualquer dos departamentos da Marinha para que seja requisitado (Jornal do Commercio, 14 de maio de 1923, na segunda coluna). Nos anos 1920, fotos de sua autoria eram publicadas em revistas como a Fon-Fon, a Illustração Brasileira.

Em 1957, em uma cerimônia realizada na praça Salgado Filho, com a presença do presidente da República, Juscelino Kubitschek (1902 – 1976), e de Thomas White, Chefe do Estado Maior da Força Aérea dos Estados Unidos, Kfuri foi condecorado com o grau de Cavaleiro da Ordem do Mérito Aeronáutico. Foi publicada uma fotografia de Kfuri sendo condecorado (Correio da Manhã, 24 de outubro de 1957 e Jornal do Brasil, 24 de outubro de 1957, na primeira coluna). Dois anos depois, em 1959, o presidente da República, Juscelino Kubitschek (1902 – 1976), assinou um decreto suprimindo o cargo de chefe do Serviço Fotográfico da Aeronáutica, vago em virtude da aposentadoria de Jorge Kfuri (Jornal do Dia, 15 de setembro de 1959, na quarta coluna).

Kfuri faleceu em 21 de janeiro de 1965, no Hospital Central da Aeronáutica. Sua esposa, Hilda Carelli Kfuri, publicou um anúncio do enterro, realizado no cemitério São João Batista (Correio da Manhã, 22 de janeiro de 1965, na primeira coluna).

*Em matérias de jornal, ele é referido ora como sírio ora como libanês. A pesquisa da Brasiliana Fotográfica acredita que ele tenha nascido no Líbano por dois fatos: em 1934, ele foi um dos filhos de libaneses homenageados pela Missão Libanesa Maronita do Rio de Janeiro; e o local de seu nascimento como o Líbano é o que consta em seu atestado de óbito.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

GERALDO, Alcyr Lintz. O avião na campanha do Contestado.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. Reide Rio de Janeiro Buenos Aires – Oito histórias, 2021.

Site Early Aviators

Site G1

Site Museu Aeroespacial

WANDERLEY, Andrea C. T. Augusto Malta e Jorge Kfuri, fundadores da Associação dos Photographos de Imprensa, em 1913 in Brasiliana Fotográfica, 2 de setembro de 2025.

WANDERLEY, Andrea C. T. Jorge Kfuri (1893 – 1965), autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro in Brasiliana Fotográfica, 26 de dezembro de 2019.

 

Dia Nacional do Rádio

Com uma imagem da Orquestra da Rádio Nacional – uma das mais emblemáticas estações radiofônicas brasileiras -, e de outros registros relacionados à história do rádio no Brasil, o portal destaca o Dia Nacional do Rádio. As fotografias pertencem ao acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica. A escolha da data comemorativa, 25 de setembro, é uma homenagem ao nascimento, em 1884, daquele que é considerado o pai da radiodifusão no país, o carioca Edgar Roquette-Pinto (1884 – 1954). Ele foi um dos fundadores da primeira emissora oficial de rádio brasileira, a Rádio Sociedade Rio de Janeiro, a atual Rádio MEC, e pensou na comunicação pelo rádio como um poderoso meio para a educação, para a transformação social e para o desenvolvimento humano. A instituição e a comemoração do Dia Nacional do Rádio foi estabelecida pela lei 15.101/2025, sancionada pelo presidente Luiz Inácio Lula da Silva (1945-), em 13 de janeiro de 2025.

 

 

Acessando aqui o link para as fotografias relacionadas à história do rádio no Brasil disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Brevíssimo histórico do início do rádio no Brasil

 

 

Na abertura da Exposição Internacional do Centenário da Independência, foi realizada a primeira grande transmissão pública de rádio do Brasil. Outras transmissões radiofônicas já haviam sido realizadas no país – pelo padre gaúcho Roberto Landell de Moura (1861 – 1928), em 16 de julho de 1899, em São Paulo (Commercio de São Paulo, 17 de julho de 1899, terceira coluna); e pela Rádio Clube de Pernambuco, fundada em 6 de abril de 1919 (Jornal do Recife, 25 de abril de 1919, última coluna). Mas a realizada em 7 de setembro de 1922 é considerada a primeira transmissão radiofônica oficial brasileira.

Uma estação de 500 watts, montada no alto do Corcovado pela Westinghouse Eletric International em combinação com a Companhia Telefônica Brasileira, irradiou o discurso do presidente Epitácio Pessoa  (1865 – 1942), realizado no Rio de Janeiro, através de 80 receptores vindos dos Estados Unidos, instalados em pontos centrais da cidade, surpreendendo os visitantes da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil. A transmissão também foi realizada para Niterói, Petrópolis e São Paulo. Pelo mesmo sistema, à noite, a ópera O Guarany, de Carlos Gomes, encenada no Teatro Municipal, foi irradiada (Correio da Manhã, 8 de setembro de 1922, quinta colunaA União (RJ), 14 de setembro de 1922, quarta coluna).

Pixinguinha (1897 – 1973), em entrevista, disse que havia tocado durante as primeiras transmissões radiofônicas oficiais no Brasil. “Toquei num estudiozinho que havia lá e a Zaíra de Oliveira cantou”. O estúdio foi montado no pavilhão dos Estados Unidos.

Segundo Edgar Roquette-Pinto (1884 – 1954), presente no evento e considerado o pai da radiodifusão no Brasil, durante a Exposição de 1922:

“A verdade é que durante a exposição do centenário da Independência, em 1922, muito pouca gente se interessou pelas demonstrações experimentais da radiotelefonia, então realizadas pelas companhias norte-americanas Westinghouse, na estação do Corcovado e Western Electric na Praia Vermelha, muito pouco gente se interessou. Creio que a causa principal desse desinteresse foram os altos falantes instalados na exposição, ouvindo discursos e músicas reproduzidos no meio de um barulho infernal, tudo rofenho, distorcido, arranhando os ouvidos. Era uma curiosidade sem maiores conseqüências…”


“No começo de 1923, desmontava-se a estação do Corcovado, e a da Praia Vermelha ia seguir o mesmo destino se o governo não a comprasse. O Brasil ia ficar sem rádio… Ora eu vivia angustiado com essa história, porque já tinha a convicção profunda do valor informativo e cultural do sistema desde que ouvida as transmissões do Corcovado, meses antes conforme já marquei mais de uma vez, mas uma andorinha não faz verão… Resolvi interessar a Academia de Ciências, era presidente o nosso querido mestre Henrique Morize e eu era secretário, e assim que nasceu a radio Sociedade do Rio de Janeiro no dia 20 de abril de 1923.”

 

 

O fato é que, em 20 de abril de 1923, aquela que é considerada a primeira emissora radiofônica do Brasil, a Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, foi fundada tendo diversos associados, dentre eles os membros da Academia Brasileira de Ciências, influenciados pelo  engenheiro e astrônomo francês naturalizado brasileiro Henrique Morize (1860 -1930), primeiro presidente da instituição, cargo que exerceu entre 1916 e 1926, e também presidente da recém criada estação radiofônica; e por seu principal idealizador, justamente Edgar Roquette-Pinto, que se tornou secretário da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro.

Lembramos aqui que, em torno de 1897, Morize realizava experiências no campo da imagem com o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) e com Tasso Fragoso (1869 – 1945), na época aluno da Escola Militar e posteriormente general. Em 1899, no consultório dos doutores Camilo Fonseca e Morize, foram realizadas experiências radiográficas nas gêmeas siamesas Rosalina e Maria Pinheiro, nascidas em 1893, no Espírito Santo, que chegaram ao Rio de Janeiro em junho (A Imprensa, 23 de junho de 1899, na terceira coluna). Morize foi diretor do Observatório Nacional entre 1908 e 1929 e o primeiro presidente da Academia Brasileira de Ciências, de 1916 a 1926.

A Rádio Sociedade Rio de Janeiro foi instituída como sociedade com fins exclusivamente educacionais e culturais e seu slogan era “Trabalhar pela cultura dos que vivem em nossa terra e pelo progresso do Brasil”. Em caráter experimental, a primeira transmissão da Rádio Sociedade aconteceu em 1º de maio de 1923, Dia do Trabalho, utilizando o prefixo PR1– A e, após, PRA-A e PRA-2 (O Paiz, 1º de maio de 1923, última coluna). Na ocasião, Roquette-Pinto declarou:

“A partir de agora todos os lares espalhados pelo imenso território do Brasil receberão livremente o conforto moral da ciência e da arte pelo milagre das ondas misteriosas que transportam, silenciosamente, no espaço, as harmonias.”

Foi a primeira emissora regular no Brasil e foi instalada, em 19 de maio de 1923, na sala de Física e Química da Escola Politécnica, no Largo de São Francisco (Correio da Manhã, 20 de maio de 1923, penúltima coluna).

 

 

 

Em 1936, foi doada por Roquette-Pinto ao Ministério da Educação e Saúde, então dirigido pelo ministro Gustavo Capanema (1900 -1985). Em 7 de setembro, foi realizada a cerimônia de doação da Rádio Sociedade, que passou a se chamar Rádio Ministério da Educação, popularmente Rádio Ministério e, atualmente, Rádio MEC.

 

 

Mas foi com a chegada de Getúlio Vargas (1882 – 1954) à presidência, em 1930, que a rádio começou a crescer, tornando-se o mais importante veículo de comunicação de massa do país. Em 1931, o governo começou a regulamentar a radiodifusão e aboliu as taxas pagas pelos ouvintes para que os aparelhos de rádio fossem instalados nas residências. No ano seguinte, a veiculação de anúncios comerciais pelo rádio passou a ser permitida. Com essas medidas, as emissoras foram se popularizando. No início da década de 1930, segundo a dissertação de mestrado Getúlio Vargas e o desenvolvimento do rádio no país: um estudo do rádio de 1930 a 1945, realizada por Luiz André de Oliveira, o Brasil contava com 19 emissoras de rádio. Em 1937, já eram 63 e, em 1945, 111. Assim iniciava-se a Era de Ouro do Rádio no Brasil, entre as décadas de 1940 e 1950, onde a Rádio Nacional se sobressaiu, tornando-se um fenômeno cultural no país. Durante esses cerca de 20 anos, as emissoras de rádio eram poderosas, irradiavam programas para todo o país e possuíam robustas estruturas administrativas e artísticas. Os programas era humorísticos, jornalísticos, musicais, esportivos e de dramatização. Com a popularização da televisão, a partir da década de 1960, o rádio foi perdendo seu protagonismo.

 

 

Brevíssimo perfil de Edgar Roquette-Pinto

 

 

O carioca Edgar Roquette-Pinto nasceu em 25 de setembro de 1884 e foi um brilhante intelectual tendo sido antropólogo, etnólogo, ensaísta, médico-legista e professor. Foi delegado do Brasil no Congresso de Raças, realizado em Londres, em 1911. Logo depois integrou a Missão Rondon e foi diretor do Museu Nacional entre 1915 e 1936. Foi, em 3 de maio de 1916, um dos fundadores da Academia Brasileira de Ciências. Foi o terceiro ocupante da Cadeira 17 da Academia Brasileira de Letras, eleito em 20 de outubro de 1927.

Foi o representante do Brasil no 1º Congresso Indigenista Interamericano, reunido em Patzcuaro, no México, entre 14 e 24 de abril de 1940. Na ocasião, o dia 19 de abril foi escolhido como Dia do Índio (Correio da Manhã, 4 de abril de 1940, quarta colunaCorreio da Manhã, 6 de abril de 1940, terceira colunaDiário de Notícias, 26 de maio de 1940, quarta coluna Jornal do Brasil, 25 de maio de 1940, primeira coluna). Realizou centenas de curtas-metragens para apoiar o ensino nas escolas.

“Vários naturalistas famosos deram o nome de Roquette-Pinto a algumas espécies de plantas e animais: Endodermophyton Roquettei (Parasito da pele dos índios de Mato Grosso) por Olímpio da Fonseca; Alsophila Roquettei, por Brade e Rosenstock; Roquettia Singularis, por Melo Leitão; Phyloscartes Roquettei (pássaro do Brasil Central) por Snethlage; Agria Claudia Roquettei (borboleta) por May” (Site Academia Brasileira de Letras).

Faleceu, no Rio de Janeiro, em 18 de outubro de 1954, em sua residência, na Avenida Beira-Mar, 406. Foi velado na Academia Brasileira de Letras e enterrado em Petrópolis (Gazeta de Notícias, 19 de outubro de 1954, terceira coluna).

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Atlas Histórico do Brasil – FGV

BARROS, Maria Pia Fontes Lins de; WANDERLEY, Andrea C. T. Agenda do Centro de Documentação da TV Globo

BIANCO, Nelia del. O rádio ainda é relevante na sociedade do século 21. UNB Notícias, 2018.

CALABRE, Lia. A Era do Rádio. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 2002.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MASSARANI, Luisa; MOREIRA, Ildeu de Castro. A divulgação científica no Rio de Janeiro: um passeio histórico e o contexto atual in Revista Rio de Janeiro, set-dez de 2003.

OLIVEIRA, Luiz André Ferreira de. Getúlio Vargas e o desenvolvimento do rádio no país: um estudo do rádio de 1930 a 1945. Dissertação (Mestrado Profissional em Bens Culturais e Projetos Sociais) – FGV – Fundação Getúlio Vargas, Rio de Janeiro, 2006.

Portal da Câmara dos Deputados

Revista Galileu, 26 de setembro de 2019

Site Academia Brasileira de Ciências

Site Academia Brasileira de Letras

Site Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo

Site Memorial da Democracia

Site Templo Cultural Delfos

WANDERLEY, Andrea C. T. Série “1922 – Hoje, há 100 anos” VIII – A abertura da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil e o centenário da primeira grande transmissão pública de rádio no país in Brasiliana Fotográfica, 7 de setembro de 2022

 

Arthur Azevedo (1855 – 1908), entusiasta e incentivador do teatro brasileiro

Há 170 nos, em 7 de julho de 1855, nascia o teatrólogo, comediógrafo, jornalista, contista e poeta maranhense Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo, o Arthur Azevedo. Generoso e muito ativo, foi um importante intelectual da cena artístico-cultural brasileira na virada do século XIX para XX. Figura muito querida e admirada no Rio de Janeiro, onde passou a viver nos anos 1870, foi o autor de mais de 70 peças teatrais e seu trabalho foi um dos principais pontos de partida da dramaturgia nacional, da qual era grande entusiasta. Destacamos neste artigo registros de Arthur Azevedo produzidos por fotógrafos ainda não identificados e por Luis Musso (18? – 19?) – todas do acervo fotográfico da Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica.

 

Acessando o link para as fotografias de Arthur Azevedo disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

Sua primeira peça encenada em um teatro público foi  Amor por Anexins, uma comédia em um ato, que escreveu, em 1870, com apenas 15 anos (Diário de Pernambuco, 18 de fevereiro de 1875, segunda coluna). Incentivou a encenação de obras brasileiras e consolidou a comédia de costumes, tendo sido no Brasil o principal autor do teatro de revista em sua primeira fase. De sua obra, destacaram-se A almanjarra (1888)A Capital Federal (1897), A filha de Maria Angu (1875)O Dote (1907), O Mambembe (1904), O Tribofe (1891) Véspera de Reis (1876). O cotidiano da vida, os usos e costumes dos habitantes da então capital federal, o Rio de Janeiro, foram a matéria-prima de suas peças e contos. Entre 1876 e 1908, também atuou como tradutor e adaptou dramas, comédias e operetas.

 

 

Nasceu em São Luís, no Maranhão, em 7 de julho de 1855, filho do vice-cônsul português Davi Gonçalves de Azevedo (1816 – 1878) e de Emília Amália Pinto Guimarães (1818 – 1888), também portuguesa. Sua mãe havia sido casada com o comerciante Antônio Joaquim Branco, de quem se separou com pouco mais de um ano de casamento. Com Davi, teve quatro filhos além de Arthur: o escritor Aluísio de Azevedo (1857 – 1913), Emília (1860 -?), Camila Amália (1858 -?) e o teatrólogo Américo Garibaldi (1863 – 1900).

 

 

Quando faleceu, em 1908, era casado com a artista gravadora Carolina Adelaide Leconflé (18? – 1936) com que teve quatro filhos: Arthur (c. 1886 – 19?), Rodolfo (c. 1898 – 19?), Américo (c. 1902 – 19?) e Aluísio (c. 1904 – 19?). Eram seus enteados Luiz, José, Fernando e Lucinda Cordeiro. Havia sido casado anteriormente com Carlota de Morais (18? -?) (O Paiz, 23 de outubro de 1908, segunda coluna; Diário Carioca, 18 de novembro de 1936, quarta coluna).

 

 

Ainda em São Luiz, adolescente, publicou, em 1871, seu primeiro livro de poemas, Carapuças, trabalhou no comércio e fundou o jornal O Domingo. Depois foi trabalhar na administração provincial, da qual foi demitido devido a publicações de sátiras contra autoridades governamentais. Concorreu e foi classificado para uma vaga de amanuense da Fazenda. Transferiu-se para o Rio de Janeiro, em 1873. Inicialmente, trabalhou como professor de Português no Colégio Pinheiro e escreveu para o jornal A Reforma. Em 1875, obteve um emprego na Secretaria da Agricultura.

Era abolicionista e defendia a causa em seus artigos e em suas peças, dentre elas A Família Salazar, escrita com o acadêmico baiano Urbano Duarte de Oliveira (1855 – 1902), que foi proibida pela censura imperial. Foi, posteriormente, publicada com o título O Escravocrata (1884).

Uma peça traduzida por ele, a comédia Escola de Maridos (1661), do célebre dramaturgo francês Molière (1622 – 1673), foi uma das atrações da noite de 15 de julho de 1889, no Theatro Sant´Anna, no Rio de Janeiro, quando Dom Pedro II (1825 – 1891) foi alvo de um atentado na saída do teatro (Cidade do Rio, 16 de julho de 1889). Em um dos intervalos, Arthur foi chamado ao camarote do imperador, que felicitou seu trabalho e manifestou o desejo de possuir uma cópia de sua excelente tradução (Gazeta de Notícias, 16 de julho de 1889, quarta coluna).

Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 20 de julho de 1897.  Ocupou a cadeira nº 29, que tem como patrono o diplomata e dramaturgo carioca Martins Pena (1819 – 1848), considerado o Molière brasileiro.

 

 

 

Fundou as seguintes revistas: em 1879, com Lopes Cardoso (18? – ?), a Revista do Teatro; Gazetinha, com Antônio Vicente da  Fontoura Xavier (1856 – 1922) e Anibal Falcão (1859 – 1900), em 1880; em 1893, O Álbum, com Francisco de Paula Ney (1858-1897)e A Vida Moderna, em 1886, com Luiz Murat (1861 – 1929) e outros. Colaborou em A Estação, ao lado de Machado de Assis (1839 – 1908), seu companheiro na Secretaria da Viação; e no jornal Novidades, onde seus companheiros eram Alcindo Guanabara (1865 – 1918), Coelho Neto (1864 – 1934), Francisco Moreira Sampaio (1851 – 1901) e Olavo Bilac (1865 – 1918).

Teve colunas em diversos jornais, dentre elas “A Palestra”, em O Paiz; “De Palanque”, no Diário de Notícias; e o folhetim “O Teatro”, em A Notícia, tendo escrito milhares de artigos sobre eventos artísticos, com ênfase no teatro. Escreveu também em O Século, em O Mequetrefe, na Kosmos e no Correio de Manhã. Usou diversos pseudônimos, dentre eles Batista, o trocista; CosimoDorante, Elói, o herói; FrivolinoGavroche, JuvenalPetrônio.

Em 1889, reuniu alguns de seus contos no livro Contos possíveis, dedicado a Machado de Assis. Posteriormente, publicou outros livros, dentre eles Contos fora de moda (1894), Contos efêmeros (1897) e Contos em versos (1898).

Em 1908, por ocasião da Exposição Nacional Comemorativa do 1º Centenário da Abertura dos Portos do Brasil, no Rio de Janeiro, inaugurada, em 11 de agosto de 1908, na região da Urca, no Rio de Janeiro, o então Teatro Constitucional ergueu, no local do evento, um pavilhão temporário para apresentar peças e concertos para o público. Vários espetáculos de Arthur Azevedo foram montados nesse espaço confortável, batizado de Teatro João Caetano, organizado em platéia, galeria e camarotes. O teatro tinha  870m2 e sua decoração interna, em tons de verde e ouro, foi idealizada por Raul Pederneiras (1874 – 1953).

 

 

Foi um dos maiores entusiastas da construção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, mas faleceu nove meses antes de sua inauguração, ocorrida em 14 de julho de 1909. Em 1904, foi aberta uma concorrência pública, durante a gestão do prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), para a escolha do projeto arquitetônico do futuro teatro (Gazeta de Notícias, 20 de março de 1904, na quarta coluna e na última coluna). Em 20 de setembro de 1904, Arthur integrou a subcomissão formada pelo diretor da Estrada de Ferro Central do Brasil, José de Andrade Pinto, pelo arquiteto Adolfo Morales de los Rios (1858 – 1928), pelo escultor Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931) e pelo industrial Carlos Hargreaves que se reuniu para estudar os projetos apresentados (Gazeta de Notícias, 21 de setembro de 1904, na quinta coluna). Finalmente, a comissão encarregada para a escolha do melhor projeto decidiu pelo empate entre os projetos Áquila e Isadora (Gazeta de Notícias, 22 de setembro de 1904, sétima coluna). O autor do primeiro foi o engenheiro Francisco de Oliveira Passos (1878 – 1958), filho do prefeito, e, o do segundo, o arquiteto francês Albert Guilbert (1866 – 1949), vice-presidente da Associação dos Arquitetos Franceses. Sua peça, O Mambembe”, foi um dos espetáculos apresentados dentro das comemorações dos 50 anos do Teatro Municipal, em 1959. Foi encenado pelo Teatro dos Sete e uma das atrizes foi Fernanda Montenegro (1929-) (O Cruzeiro, 19 de dezembro 1959).

 

 

Pouco antes de falecer, foi nomeado Diretor da Contabilidade Geral do Ministério da Viação e Obras Públicas (Fon-Fon, 17 de outubro de 1908; Relatório do Ministério da Viação e Obras Públicas (1910 a 1927)). Faleceu em 21 de outubro de 1908 (O Paiz, 22 de outubro de 1908; O Século, 22 de outubro de 1908).

 

 

 

 

 

 

 

Alguns teatros do Brasil foram batizados com o nome de Arthur Azevedo. Em São Luís, um dos teatros mais antigos do Brasil, inaugurado, em 1º de junho de 1817, muito antes de seu nascimento, teve seu nome trocado para Teatro Arthur Azevedo, nos anos 1920 (Governo do Maranhão). Em São Paulo, foi criado o Teatro Arthur Azevedo, em 2 de agosto de 1952 (Secretaria Municipal de São Paulo de Economia e Cultura Criativa, 2 de agosto de 2022). Em agosto de 1956, foi inaugurado o Teatro Arthur Azevedo, em Campo Grande, no Rio de Janeiro, pelo embaixador Francisco Negrão de Lima, então prefeito do Distrito Federal, durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek (Correio da Manhã, 7 de julho de 1956, sexta coluna).

 

 

 

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BARROS, Maria Pia Fontes Lins de; WANDERLEY, Andrea C. T. Agenda do Centro de Documentação da TV Globo

Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos

COUTINHO, Afrânio; SOUSA, José Galante de. Enciclopédia de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional; Academia Brasileira de Letras, 2001.

Depoimento de Emília Amália Pinto Magalhães a Dunshee de Abranches, biógrafo de Arthur Azevedo

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MAGALDE, Sábato. Panorama do Teatro Brasileiro. São Paulo: Global, 1997.

MAGALHÃES JUNIOR, Raimundo. Arthur Azevedo e sua época. São Paulo : Martins, 1955.

MERCARELLI, Fernando Antonio. Cena aberta: a absolvição de um bilontra e o teatro de revista de Arthur Azevedo. Campinas : Editora da Unicamp, 1999.

PEREIRA, Margareth da Silva. A exposição de 1908 ou o Brasil visto por dentro.

Portal MultiRio

Siciliano, Tatiana. O guerreiro do Theatro Municipal in Open Editions Books

Site Academia Brasileira de Letras

Site Enciclopédia Itaú Cultural

WANDERLEY, Andrea C. T. Academia Brasileira de Letras in Brasiliana Fotográfica, 20 de julho de 2022.

WANDERLEY, Andrea C. T. Após encantar-se com Molière e Giulietta Dionesi, o imperador Pedro II sofre um atentado in Brasiliana Fotográfica, 15 de julho de 2020.

WANDERLEY, Andrea C. T. Série “Teatros e cinemas do Brasil” III – A inauguração do Theatro Municipal do Rio de Janeiro in Brasiliana Fotográfica, 14 de julho de 2017.

 

E o Oscar vai para…

 

E o Oscar vai para…***

A Brasiliana Fotográfica celebra esse dia histórico para o cinema nacional, quando o filme brasileiro Ainda estou aqui (2024), dirigido por Walter Salles Jr (1956-), concorre em três categorias da premiação do Oscar – Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz, com Fernanda Torres (1965-). Conquistou o Oscar de Melhor Filme Internacional. Vocês sabiam que o primeiro brasileiro que disputou um Oscar foi o compositor Ary Barroso (1903 – 1964)?  Ele e seu parceiro, o norte-americano Ned Washington (1901-1976), concorreram, em 15 de março de 1945, na cerimônia realizada no Grauman´s Chinese Theatre, em Los Angeles, na categoria Melhor Canção Original com a música Rio de Janeiro, do musical Brasil (1944), uma produção norte-americana dirigida por Joseph Santley (1889 – 1971). A canção vencedora foi Swinging On A Star, composta por James Van Heusen (1913 – 1990) e Johnny Burke (1908 – 1964) para o filme O Bom Pastor (1944).

O mineiro Ary Barroso foi um dos maiores compositores da música popular brasileira, um ícone da Era do Rádio, e alguns de seus maiores sucessos foram Aquarela do Brasil, Baixa do SapateiroNo Tabuleiro da Baiana, Os Quindins de Iaiá e Rancho Fundo. A fotografia abaixo, intitulada Ary Barroso ao piano, pertence à Coleção José Ramos Tinhorão, da Coordenadoria de Música do Instituto Moreira Salles (IMS), uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica.

 

 

A próxima imagem, também do acervo do IMS, retrata Ary Barroso com Linda Batista (1919 – 1988), Grande Otelo (1915 – 1993) e Herivelto Martins (1912 – 1992), e é de autoria do fotógrafo húngaro naturalizado brasileiro Carlos Moskovics (1916 – 1988). Em 1942, Moskovics fundou a Foto Carlos, no andar térreo do Edifício Rex, na Cinelândia. Era estúdio, laboratório e agência fotográfica.  Em 1946, transferiu o estúdio Foto Carlos para o Edifício Civitas, na rua México, onde firmou-se como o fotógrafo dos artistas, retratando personagens do meio teatral, assim como desfiles de moda, paisagens urbanas da cidade e diversos acontecimentos de relevância social. Foi o fotógrafo mais requisitado do meio artístico entre as décadas de 1940, 1950 e 1960. Deixou um acervo de mais de 150 mil imagens que foi incorporado, em 2004, ao conjunto de coleções fotográficas do IMS.

 

 

Destacamos também nesta celebração do cinema nacional artigos já publicados no portal sobre Benjamin Abrahão Calil Botto (1901 – 1938), Jorge Kfuri (1893 – 1965), João Stamato (1886 – 1951), Nicola Parente (1847 – 1911), Marc Ferrez (1843 – 1923) e seus filhos; e Walter Garbe (18? – 19?), fotógrafos que fizeram parte da história do cinema no Brasil.

 

 

Artigos sobre os fotógrafos que fizeram parte da história do cinema no Brasil:

Os índios sob as lentes de Walter Garbe, em 1909, publicado em 23 de maio de 2017, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Lampião e outros cangaceiros sob as lentes de Benjamin Abrahão, publicado em 28 de julho de 2017, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

João Stamato, um fotógrafo nos sertões, publicado em 9 de fevereiro de 2021, de autoria de Ricardo Augusto dos Santos

O fotógrafo italiano Nicola Maria Parente (1847 – 1911) e sua trajetória no Brasil, publicado em 21 de fevereiro dde 2023, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Teatros e cinemas do Brasil” XIII – Marc Ferrez e o cinema, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 19 de junho de 2024

 

Contamos também um pouco da chegada do cinema no Brasil e mostramos uma seleção de imagens de salas de cinema, do acervo do Instituto Moreira Salles, além de fotos aéreas da Cinelândia, do acervo do Museu Aeroespacial, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica. A Cinelândia foi durante muito tempo, ao longo do século XX, o epicentro da vida cultural do Rio de Janeiro, com uma grande concentração de bares, cinemas, restaurantes e teatros.

 

Acessando o link para as fotografias de salas de cinema disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Acessando o link para as fotografias aéreas da Cinelândia disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Cinema no Brasil – o início e o Oscar 2025

 

 

Um “aparelho que projeta sobre uma tela colocada ao fundo da sala diversos espetáculos e cenas animadas, por meio de uma série enorme de fotografias“. Assim o Jornal do Commercio descreveu o omniógrafo, após a primeira sessão pública de cinema no Brasil, que aconteceu às 14h, do dia 8 de julho de 1896, no Rio de Janeiro, em uma sala especialmente preparada para as projeções do aparelho, na rua do Ouvidor (Jornal do Commercio, 9 de julho de 1896, quarta coluna). A exibição ocorreu poucos meses após a projeção inaugural dos filmes dos irmãos Auguste (1862 – 1954) e Louis-Jean Lumière (1864 – 1948), em Paris, no dia 28 de dezembro de 1895, no Grand Café do Boulevard des Capucines.

 

 

Cerca de dois anos depois, em 1898, chegou ao Rio de Janeiro, vindo da Europa, o navio Paquebot Brésil. A bordo, encontrava-se o cinegrafista brasileiro de origem italiana Affonso Segreto (1875 – 1919), que retornava de uma viagem para comprar equipamentos de filmagens e conhecer novas técnicas cinematográficas em Nova York e em Paris, onde fez um curso na Pathé Films.

Antes de desembarcar no Rio de Janeiro, Affonso filmou com uma câmara Lumière a entrada da enseada da Baía de Guanabara, as fortalezas e os navios ancorados (Gazeta de Notícias, 20 de junho de 1898, segunda coluna). Teria sido a primeira fita de cinema realizada no Brasil*. O acontecimento deu origem ao Dia do Cinema Brasileiro. Affonso Segreto filmou, posteriormente, aspectos do Rio de Janeiro, além de seus arredores, e também cerimônias e comícios.

 

  

Acesse aqui todos os artigos da série Teatros e cinemas do Brasil

 

O Brasil e o Oscar

 

 

Hoje, 2 de março de 2025, pela segunda vez uma brasileira concorre na categoria de Melhor Atriz do Oscar, um dos prêmios mais importantes do cinema mundial, distribuído pela Academia de Artes e Ciências Cinematográficas, fundada, em 1927, em Los Angeles, nos Estados Unidos. Estamos na torcida por Fernanda Torres por sua atuação no filme Ainda estou aqui (2024), interpretando Eunice Facciolla Paiva (1929-2018), viúva do deputado Rubens Paiva (1929-1971), assassinado pela ditadura militar. Ainda estou aqui, dirigido por Walter Salles Jr., concorre ainda, como já mencionado, nas categorias de Melhor Filme e de Melhor Filme Estrangeiro.

 

 

Fernanda Torres repete o feito de sua mãe, Fernanda Montenegro (1929-)**, indicada, em 1999, por Central do Brasil (1998), também dirigido por Walter Salles Jr. –  ela foi derrotada por Gwyneth Paltrow (1972-), por Shakespeare Apaixonado (1998). As outras concorrentes foram Cate Blanchett (1969-), por Elizabeth (1998); Emily Watson (1967-), por Hilary e Jackie (1998); e Meryl Streep (1949-), por Um amor verdadeiro (1998).

 

Fernanda Montenegro foi indicada ao Oscar de 'Melhor atriz' em 1999, por seu trabalho em 'Central do Brasil'

Reprodução do Youtube

 

Retrospectiva da participação de brasileiros na premiação do Oscar entre 1929 e 2025

 

 

1945 - A música Rio de Janeiro, composta pelo brasileiro Ary Barroso (1903 – 1964) e pelo norte-americano Ned Washington (1901 – 1976), que verteu a letra para inglês, foi indicada como Melhor Canção Original pelo musical Brasil (1944), uma produção norte-americana dirigida por Joseph Santley (1889 – 1971) e estrelada pelo mexicano Tito Guízar (1908-1999), que cantou a música. Aurora Miranda (1915-2005), irmã de Carmen Miranda (1909 – 1955) participou do filme. A canção vencedora foi Swinging On A Star, composta por James Van Heusen (1913 – 1990) e Johnny Burke (1908 – 1964) para o filme O Bom Pastor (1944).

 

 

O parceiro de Ary, Ned Washington, já havia ganho um Oscar na categoria Melhor Canção Original, em 1941, por When You Wish Upon a Star, tema do filme Pinóquio (1940) e uma das composições mais famosas das produções da Disney. Voltou a vencer na mesma categoria, em 1953, com a música High Noon (Do Not Forsake Me, Oh My Darlin’, do filme Matar ou Morrer (1952).

Em agosto de 1945, Ary Barroso foi citado como um dos compositores que haviam sido convidados para ir a Hollywood a fim de contribuírem com seus talentos para películas cinematográficas (Gazeta de Notícias, 16 de agosto de 1945, última coluna). Antes de ser indicado ao Oscar, algumas de suas músicas já haviam sido executadas em filmes: No Tabuleiro da Baiana, em Melodia do Coração (1940); Os Quindins de Iaiá, em Você já foi à Bahia? (1942); e Aquarela do Brasil, em Alô, Amigos! (1942) e Entre a loura e a morena (1943).

1960 Orfeu Negro (1959), baseado na peça Orfeu da Conceição, de Vinícius de Moraes (1913 – 1980), ganhou o Oscar de Melhor Filme Estrangeiro pela França, apesar de sua música ter sido composta por Tom Jobim (1927 – 1994), de ter sido filmado no Rio de Janeiro e de ser todo falado em português. O diretor do filme foi o francês Marcel Camus (1912-1982) e o filme foi uma coprodução da França, da Itália e do Brasil.

1963 – O filme O Pagador de Promessas (1962), dirigido por Anselmo Duarte (1920 – 2009), foi indicado ao Oscar de Melhor Filme Estrangeiro, concorrendo com o grego Elektra (1962) o mexicano Tlayucan (1962), o italiano Quatro dias de rebelião (1962) e o francês Sempre aos domingos (1962), que foi o vencedor.

1979 – Raoni (1978), dirigido pelo brasileiro Luiz Carlos Saldanha (1943-) e pelo belga Jean-Pierre Dutilleux (1949-) concorreu na categoria de Melhor Documentário em Longa-Metragem com Le Vent des amoureux, de Albert Lamorisse (1922-1970); Mysterious Castles of Clay, d0 casal Joan Root (1936 – 2006) e Alan Root (1937 – 2017); With Babies and Banners: Story of the Women’s Emergency Brigade, de Lorraine Gray (1951-); e com Scared Straight! (1978), de Arnold Shapiro (1941-), que foi  vencedor.

1986 – O Beijo da Mulher Aranha, uma co-produção do Brasil com os Estados Unidos, filmado nos antigos estúdios da Cia. Cinematográfica Vera Cruz, dirigido pelo argentino naturalizado brasileiro Hector Babenco (1946 – 2016) e baseado no romance do também argentino Manuel Puig (1932 – 1990) foi indicado ao Oscar nas categorias de Melhor Filme, Melhor Diretor, Melhor Roteiro Adaptado – todas vencidos pelo filme Entre dois amores – e Melhor Ator – Willian Hurt (1950 – 2022) foi o vencedor por seu papel no filme.

1993 / 1994 / 2000 - Luciana Arrighi (1940-) ganhou com inglês Ian Whittaker (1928 – 2022) o Oscar de Melhor Direção de Arte pelo filme inglês Retorno a Howard´s End (1992). Luciana tem nacionalidade australiana, mas nasceu no Rio de Janeiro, em 1940, quando seu pai, um diplomata italiano, servia no Brasil. Aos dois anos, foi com sua família para a Austrália, onde sua mãe havia nascido. A dupla Arrighi/Whittaker foi mais duas vezes indicada na mesma categoria: em 1994, por Vestígios de Dia (1993) e, em 2000, por Anna e o Rei (1999).

1996 O Quatrilho (1995), baseado no livro homônimo de José Clemente Pozenato (1938 – 2024) e dirigido por Fábio Barreto (1957 – 2019), concorreu na categoria de Melhor Filme Estrangeiro com o sueco Lust och fägring stor (1995), o italiano O Homem das estrelas (1995), o argelino Poussières de vie (1995) e o holandês A excêntrica família de Antônia (1995), que foi o vencedor. O Quatrilho foi protagonizado por Glória Pires (1963-), Patrícia Pillar (1964-), Alexandre Paternost (1971-) e Bruno Campos (1973-).

1998 –  O Que é Isso, Companheiro? (1997), dirigido por outro membro do clã Barreto, Bruno Barreto (1955-) e baseado no livro homônimo de Fernando Gabeira (1941-), concorreu na categoria de Melhor Filme Estrangeiro com o alemão A música e o silêncio (1996), o espanhol Segredos do Coração (1997), o russo Vor (1997), e o belga-holandês Caráter (1997), que venceu na categoria. No elenco, dentre outros, Pedro Cardoso (1962-), Fernanda Torres, Fernanda Montenegro, Milton Gonçalves (1933 – 2022) e Othon Bastos (1933-).

1999Central do Brasil (1998), dirigido por Walter Salles Jr, concorreu na categoria Melhor Filme Estrangeiro com o iraniano Filhos do paraíso (1998), com o espanhol O avô (1998), com o argentino Tango (1998) e com o italiano A vida é bela (1998), que foi o vencedor. Na categoria de Melhor Atriz concorreu com Fernanda Montenegro que, como já mencionado, foi derrotada por Gwyneth Paltrow.

2001 – Uma História de Futebol (1998), do brasileiro Paulo Machline, concorreu na categoria na categoria de Curta-metragem de ficção em “live action” (filmado com atores). O vencedor foi Quiero ser (I want to be…), do alemão Florian Gallenberger (1972-). Os outros concorrentes foram By Courier (2010), do norte-americano Peter Riegert (1947-); One Day Crossing (2001), da norte-americana Joan Stein Schimke (19?-) e Serraglio (2000), dos norte-americanos Colin Campbell (19?-) e Gail Lerner (1970-). Uma História de Futebol é sobre passagens ficcionalizadas da infância de Pelé (), narradas por um amigo de infância do jogador. O roteiro é baseado em depoimentos de Aziz Adib Naufal.

2003 – O filme norte-americano de animação digital A Era do Gelo (2002), dirigido pelo norte-americano Chris Welsh (1957-) e co-dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha (1965-) concorreu na categoria Melhor Filme de Animação e foi derrotado pelo japonês A Viagem de Chichiro, de Hayao Miyazaki (1941-). Os outros concorrentes foram Lilo & Stitch (2002), do norte-americano Chris Sanders (1962-); Spirit – O Corcel Indomável (2002), do norte-americano Jeffrey Katzenberg (1950-); e O Planeta do Tesouro (2002), dos norte-americanos Ron Clements (1953-) e John Musker (1953-).

2004 - Cidade de Deus (2003), dirigido por Fernando Meirelles (1955-) concorreu e foi derrotado em quatro categorias: Melhor Diretor para Fernando Meirelles  Melhor Roteiro Adaptado para Bráulio Mantovani (1963-), Melhor Fotografia para César Charlone (1958-) e Melhor Edição para Daniel Rezende (1975-). Peter Jackson (1961-) venceu como Melhor Diretor pelo filme O Senhor dos Anéis, o Retorno do Rei (2003) Na categoria Melhor Roteiro Adaptado o vencedor foi de novo Peter Jackson, além de Fran Walsh (1959-) e Philippa Boyens (1962-), todos pelo filme O Senhor dos Anéis, o Retorno do Rei (2003). Na categoria Melhor Fotografia o vencedor foi Russel Boyd (1944-) por Mestre dos Mares (2003).

O filme norte-americano A Aventura Perdida de Scrat (2023), dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha (1965-) e pelo norte-americano John C. Donkin (1961-) foi indicado na categoria Melhor Curta-Metragem de Animação.

2005 - Diários de Motocicleta (2004), uma produção multinacional, dirigida por Walter Salles Jr, foi indicado nas categorias Melhor Roteiro Adaptado e Melhor Canção Original. Na segunda, venceu com a canção Al otro lado del rio, do uruguaio Jorge Drexler (1964-). Na primeira, Jose Rivera (1955-) concorreu mas perdeu para Rex Pickett (1956-),  Alexander Payne (1961-) e Jim Taylo (19?), do filme Sideways – Entre umas e outras (2004). Diários de Motocicleta é sobre uma expedição realizada, em 1952, pela América do Sul, por Ernesto Che Guevara (1928 – 1967) e seu amigo Alberto Granado (1922 – 2011).

2011 - O documentário anglo-brasileiro Lixo Extraordinário (2010), do brasileiro João Jardim (1964-) e dos britânicos Lucy Walker n(1970-) e Angus Aynsley (19?-), concorreu na categoria Melhor Documentário em Longa-Metragem, cujo vencedor foi Trabalho Interno (2010), do norte-americano Charles Henry Ferguson (1955-). Os outros concorrentes foram Saída pela loja de presentes (2010), dos britânicos Banksy (197?-) e Jaimie D’Cruz (19?); Gasland (2010), dos norte-americanos Josh Fox (19?-) e Trish Adlesic (19?); e Restrepo, do britânico Tim Hetherington (1970 – 2011) e do norte-americano Sebastian Junger (1962-). Lixo Extraordinário é sobre o trabalho realizado pelo artista plástico brasileiro Vik Muniz (1961-) com catadores de material reciclável em um dos maiores aterros controlados do mundo, em Jardim Gramacho, bairro do município de Duque de Caxias, no estado do Rio de Janeiro.

2012Os músicos brasileiros Carlinhos Brown (1962-) e Sérgio Mendes (1941 – 2024) e a norte-americana Siedah Garrett (1960-) concorreram na categoria Melhor Canção Original com Real in Rio, do filme de animação Rio (2011) mas foram derrotados por Man or Muppet, do neozelandês Bret McKenzie (1976) para o filme The Muppets. O filme de animação digital Rio (2011) foi dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha (1965-).

2015 – O documentário franco-ítalo-brasileiro O Sal da Terra (2014) foi dirigido pelo brasileiro Juliano Ribeiro Salgado (1974-) e pelo alemão Wim Wenders (1945-). Concorreu na categoria Melhor Documentário em Longa-Metragem com A Fotografia Oculta de Vivian Maier (2013), dos norte-americanos John Maloof (1981-) e Charlie Siskel (19?-); com Last days in Vietnan, da norte-americana Rory Kennedy (1968-); com Virunga (2014), dos britânicos Orlando von Einsiedel e Joanna Natasegara ; e com o vencedor, Citizenfour (2014), da norte-americana Laura Poitras (1964-), da francesa Mathilde Bonnefoy (1972-) e do alemão Dirk Wilutzky (1965-). O Sal da Terra é sobre o trabalho e a vida do fotógrafo brasileiro Sebastião Sagado (1944-). Um dos diretores do documentário, Juliano, é filho do fotógrafo.

2016 – O Menino e o Mundo (2015), do brasileiro Alê Abreu (1971-), concorreu na categoria de Melhor Filme de Animação com Anomalisa (2015), dos norte-americanos Charlie Kaufman (1958-), Duke Johnson (1979-) e Rosa Tran (19?); Shaun: o carneiro, do neozelandês Mark Burton (1984-) e do britânico Richard Starzak (1959-); As memórias de Marnie (2024), dos japoneses Hiromasa Yonebayashi (1973) e Yoshiaki Nishimura (1977-); e com o vencedor Divertidamente (2015), dirigido e co-escrito por Pete Docter (1968-). O Menino e o Mundo é sobre o menino Cuca que vive numa pequena aldeia, sofre com a falta do pai e parte a procura dele.

2018 – O filme norte-americano O Touro Ferdinando (2017), dirigido pelo brasileiro Carlos Saldanha (1965-), concorreu na categoria Melhor Filme de Animação. Foi derrotado por Coco, dos norte-americanos Lee Unkrich (1967-) e Darla K. Anderson (1968-). Os outros concorrentes foram Com amor, Van Gogh (2017), da polonesa Dorota Kobiela (1978-) e do norte-americano Hugh Welchman (1976-); O Poderoso Chefinho (2017), dos norte-americanos Tom McGrath (1964-) e Ramsey Ann Naito (1974-); e The Breadwinner (2017), da irlandesa Nora Twomey (1971-).

2020 - Democracia em Vertigem (2019), dos brasileiros Petra Costa (1983-) e Tiago Pavan (19?), concorreu na categoria Melhor Documentário em Longa-Metragem cujo vencedor foi American Factory (2019), dirigido pelos norte-americanos Steven Bognar (1963-) e Julia Reichert (1946 – 2022). Os outros concorrentes foram o documentário sino-norueguês The Cave (2019), do sírio Feras Fayyad (1984-) e das dinamarquesas Kirstine Barfod (1979-) e Sigrid Dyekjær (1969-); o anglo-sírio-norte-americano For Sama (2019), dirigido pela síria Waad Al-Kateab (1991-) e pelo britânico Edward Watts (19?-); e o macedônio Medena zemja (2019), dirigido pelos macedônios Tamara Kotevska (1993-) e Ljubomir Stefanov (1975-). O documentário Democracia em Vertigem retrata os bastidores do impeachment da ex-presidente do Brasil Dilma Roussef (1947-), o julgamento do então ex-presidente, que a antecedeu, Luiz Inácio Lula da Silva (1945-); e a eleição de Jair Bolsonaro (1955-) à presidência da República.

2025 - Ainda estou aqui (2024), dirigido por Walter Salles Jr (1956-) concorre em três categorias da premiação do Oscar – Melhor Filme, Melhor Filme Internacional e Melhor Atriz, com Fernanda Torres (1965-). Na categoria de Melhor Filme concorreu com: AnoraA SubstânciaConclaveDuna 2Emilia Perez, Nickel BoysO Brutalista, Um Completo Desconhecido e Wicked. Venceu na categoria Melhor Filme Internacional e seus concorrentes foram: A garota da agulha, A semente do fruto sagrado, Emilia Perez e  Flow. Com Fernanda Torres, na categoria de Melhor Atriz, concorreram: Demi Moore (1962-), por A Substância; Karla Sofía Gascón (1972-), por Emilia Pérez; Cynthia Erivo (1987-), por Wicked; e a vitoriosa Mikey Madison (1999-), por Anora. Todas os filmes são de 2024.

2026 - O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho (1968-), concorre em quatro categorias: Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Ator – com Wagner Moura (1976-); e, pelo prêmio de Melhor Seleção de Elenco, nova categoria que faz sua estreia na no Oscar este ano, com Gabriel Domingues (19?-). Na categoria Melhor Filme os concorrentes são: Bugonia, F-1, Frankenstein, Hamnet, Marty Supreme, Uma Batalha após a outra, Valor Sentimental, Pecadores e Sonhos de Trem. Na categoria Melhor Filme Estrangeiros os concorrentes são: A voz de Hind Rajab (Tunísia), Foi apenas um acidente (França), Sirat (França) e Valor Sentimental (Noruega).  Na categoria Melhor Ator, Wagner Moura concorre com Timothée Chalamet (1995-) por Marty Supreme, Leonardo DiCaprio (1974-) por Uma Batalha após a outra, Ethan Hawke (1970-) por Blue Moon, e Michael B. Jordan (1987-) por Pecadores. Finalmente, na categoria estreante Melhor Seleção de Elenco, Gabriel Domingues concorre com Nina Gold (1967-) por Hamnet, Jennifer Venditti (19?-) por Marty Supreme, Cassandra Kulukundis (1971-) por Uma Batalha após a outra e Francine Maisler (19?-) por Pecadores. O brasileiro Adolpho Veloso (1989-) concorre na categoria Melhor Fotografia pelo filme Sonhos de Trem com Dan Laustsen (1954-) por Frankenstein, Darius Khondji (1955-) por Marty Supreme, Michael Bauman (19?) por Uma Batalha após a outra e Autumn Durald Arkapaw (1979-) por Pecadores.

 

oscar

 

*Existe uma polêmica em torno do assunto: alguns estudiosos consideram o primeiro filme brasileiro Chegada em Petrópolis devido a uma notícia divulgada pela Gazeta de Petrópolis convidando para uma sessão do filme no dia 1º de maio de 1897, no Theatro Cassino de Petrópolis, organizada pelo napolitano Vittorio di Maio (1852 – 1926). Posteriormente, di Maio vendeu seu projetor e acervo para Paschoal Segreto. Também é de 1897 a vista Ancoradouro de pescadores na Baía de Guanabara, do pernambucano José Roberto Cunha Sales (1840- 1903), porém sua nacionalidade brasileira é contestada por historiadores que acreditam que o cinegrafista recortou o filme de uma vista estrangeira. Ancoradouro de pescadores na Baía de Guanabara está acervado no Arquivo Nacional.

** Uma curiosidade: outros pares de mães e filhas já concorreram ao Oscar: Ingrid Bergman (1915 – 1982) e Isabella Rossellini (1952-), Goldie Hawn (1945-) e Kate Hudson (1979-), Diane Ladd (1935-) e Laura Dern (1967-); e Judy Garland (1922 – 1969) e Liza Minnelli (1946-). As assinaladas em vermelho ganharam o prêmio.

*** Este artigo foi  atualizado em 22 de janeiro de 2026, quando foram divulgados os concorrentes ao Oscar 2026.

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

 

Fontes:

CABRAL, Sérgio. No Tempo de Ary Barroso. São Paulo : Lazuli Editora, 2016.

Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

PIMENTEL, Luís. Ary Barroso – Coleção Mestres da Música no Brasil. Rio de Janeiro : Editora Moderna, 2008.

Portal Academy of Motion Pictures Arts ans Sciences

Portal Brasiliana Fotográfica

Portal Funarte

Portal G1

Portal IMDB

Portal IMS

Portal MultiRio

Site Café História

Youtube – O primeiro brasileiro indicado a um Oscar, em 1945

As excursões científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do Brasil

As expedições realizadas pelo Instituto Oswaldo Cruz ao longo do século XX denunciavam as precárias condições de saúde das populações rurais e com elas a visão hegemônica sobre o Brasil sofreu alterações. O artigo As excursões científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do Brasil, de Ricardo Augusto dos Santos, Felipe Almeida Vieira e Francisco dos Santos Lourenço, pesquisadores da Fiocruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, aborda as expedições científicas realizadas sob a chefia de Lauro Travassos, entre 1938 e 1942.  Nelas havia um sentimento patriótico que movia os cientistas. Com um rigoroso alerta, advertiram sobre o perigo do desconhecimento das potencialidades da fauna e flora nacionais. Também denunciaram o efeito devastador provocado pela busca do lucro monetário desenfreado, bem como o desprezo pela pesquisa da natureza, que tanto ameaçava o equilíbrio das espécies como facilitava o surgimento de pragas para a agricultura.

 

 

Acesse aqui o link para as fotografias das excursões científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do Brasil chefiadas por Lauro Travassos disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

As excursões científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do Brasil

           Ricardo Augusto dos Santos, Felipe Almeida Vieira e

Francisco dos Santos Lourenço*

 

 

Desde o início dos trabalhos em Manguinhos, Oswaldo Cruz (1872 – 1917), Carlos Chagas (1878 – 1934) e demais cientistas do Instituto Oswaldo Cruz (IOC) não ficaram limitados às improvisadas salas e laboratórios da instituição. Frequentemente, participavam de expedições científicas pelo território brasileiro. Nos primeiros anos do IOC, as ações ficaram restritas às regiões próximas das cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

Médicos, sanitaristas e cientistas eram solicitados para identificar, estudar e combater as doenças contagiosas que assolavam o país desde os tempos coloniais. Diferentemente das primeiras missões sanitárias que visavam resultados imediatos em pequenas localidades, cinco expedições científicas realizadas entre 1911 e 1913 foram longas, alcançando meses de viagem por grandes áreas do país.

As expedições pelos chamados “sertões” forneceram um sólido inventário das condições sanitárias e sociais das regiões visitadas. Por intermédio dos diários produzidos pelos viajantes, intelectuais e políticos nacionais tomaram consciência da triste realidade que imperava no interior do Brasil. Dessas cinco expedições participaram nomes como Carlos Chagas, Belisário Penna (1868 – 1939) e Arthur Neiva (1880 – 1943).

 

 

Depois da divulgação dos diagnósticos elaborados pelos cientistas, denunciando as precárias condições de saúde das populações rurais, a visão hegemônica sobre o Brasil sofreu uma alteração. Se o interior do país estava doente, improdutivo para os padrões de eficiência e racionalidade capitalistas do século XX, o aumento da produtividade somente viria a acontecer com a melhoria da qualidade de vida de sua população. Era preciso conhecer as doenças das regiões mais afastadas do litoral para, enfim, propor estratégias de tratamento dos enfermos. Com essas preocupações, a ciência tomava literalmente o “caminho da roça”.

 

 

Há um depoimento interessante de Monteiro Lobato (1882 – 1948) sobre a necessidade do conhecimento in loco para entender e solucionar os problemas brasileiros. Lobato falava do contato direto com a realidade que o homem de responsabilidade pública deveria possuir. Com entusiasmo, o escritor acompanhou Arthur Neiva, diretor do Serviço Sanitário do Estado de São Paulo (1916 – 1920), em uma excursão à cidade de Iguape, onde se desenvolvia uma campanha contra a malária e ancilostomíase.

“Penetramos na mata, alguns quilômetros fora da cidade. Vi-o apear-se e acender a lanterna elétrica e correr a luz pelo couro do cavalo em procura das anofelinas que incontinenti acudiram àquele inesperado banquete. Encontrou as anofelinas da espécie perigosa. Tinham o ninho na água depositada pelas chuvas nas bromélias parasitas. Estava liquidado o caso. Regressamos e no outro dia ordens precisas eram dadas para matar de vez a malária de Iguape em seu derradeiro reduto” (Lobato apud Ribeiro, 1993, p. 208).

Essa forte tradição parece que impregnou o jeito de fazer ciência no Brasil. Várias expedições científicas e campanhas sanitárias foram empreendidas pelo país afora. Investigavam não somente as condições naturais das localidades, mas os modos de vida de seus habitantes.

 

 

Assim, inseridas nesse contexto histórico, apresentamos as excursões científicas (ou “comissões”, como eram chamadas) do Instituto Oswaldo Cruz ao Noroeste do país. Lideradas por Lauro Travassos (1890 – 1970), elas ocorreram nas seguintes etapas: a primeira em outubro de 1938; a segunda em julho de 1939; a terceira em fevereiro e março de 1940; a quarta em agosto e setembro de 1940; a quinta em janeiro de 1941; a sexta em novembro de 1941; e a sétima em maio de 1942.

 

 

 

As excursões concentraram-se na região da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil (NOB), companhia criada em 1904, que chegou a operar uma rede ferroviária de 1.622 quilômetros, ligando o Oeste paulista até a área do Pantanal no estado de Mato Grosso, atual Mato Grosso do Sul. A linha-tronco da NOB entre as estações de Bauru e Porto Esperança, em Corumbá, foi concluída em 1914. Com cerca de 1.300 quilômetros, atravessava as cidades de Araçatuba, Três Lagoas, Campo Grande e Miranda. Nesta última encontra-se o povoado de Salobra, que devido à sua variada e exuberante fauna e flora foi escolhido como parada obrigatória para coleta de material científico em todas as etapas das excursões.

De acordo com os relatórios produzidos pelos cientistas, quem deu suporte para que as excursões acontecessem na região foi o diretor da NOB, major Américo Marinho Lutz (1899 – 1983), que gratuitamente pôs à disposição de Lauro Travassos um vagão-dormitório e outro para bagagem de sua companhia. O militar era sobrinho do cientista do IOC e principal estudioso da medicina tropical no Brasil, Adolpho Lutz (1855 – 1940).

Tomaram parte nas excursões profissionais jovens e experientes com distintas habilidades. Entre eles figuraram entomologistas, helmintologistas, protozoologistas, ictiologistas, herpetologistas, ornitologistas, mastozoologistas, técnicos de laboratório e taxidermistas. Para auxiliar nos trabalhos de campo das excursões foram contratados pescadores e caçadores das áreas estudadas.

 

 

Além dos cientistas e técnicos do IOC, integraram as excursões representantes de várias instituições do Brasil e exterior, como Museu Paulista, Instituto Biológico de São Paulo, Instituto de Higiene de São Paulo, Museu Nacional, Fundação Rockefeller, Clube Zoológico do Brasil, Universidade de São Paulo e Universidade de Michigan.

 

 

Embora alguns dos personagens envolvidos nessas jornadas tenham obtido sucesso em suas trajetórias científicas, entre eles Lauro Travassos, Frederico Lane (1901 – 1979), João Ferreira Teixeira de Freitas (1912 – 1970), Emmanuel Dias (1908 – 1962) e Maria José von Paumgartten, depois Maria Deane (1916 – 1995), estas páginas épicas são pouco conhecidas pelo campo científico e acadêmico nacional.

Nos relatórios das excursões constatamos o sentimento patriótico que movia os cientistas. Com um rigoroso alerta, advertiram sobre o perigo do desconhecimento das potencialidades da fauna e flora nacionais. Também denunciaram o efeito devastador provocado pela busca do lucro monetário desenfreado, bem como o desprezo pela pesquisa da natureza, que tanto ameaçava o equilíbrio das espécies como facilitava o surgimento de pragas para a agricultura.

“A seca proporcionou ainda oportunidade de observar o horrível espetáculo das queimadas. Por estes brutais incêndios dos campos, em que se formam linhas de fogo de quilômetros de extensão e que caminham léguas, tudo destruindo, flora e fauna, e ainda esterilizando o solo pelo formidável calor produzido por labaredas que atingem a 10 metros de altura e que a 100 metros já se torna insuportável, vai o brasileiro, metódica e tenazmente, transformando o nosso interior em árido deserto. Argumentam os autores desta brutalidade, a necessidade da melhoria dos campos. Sem dúvida é um processo barato para a limpeza dos pastos, mas de graves consequências para as gerações futuras. Há também prazer em contemplar o espetáculo” (Travassos, 1940, p. 700).

Durante os trabalhos de campo, os excursionistas coletaram farto material de interesse médico e biológico, como insetos, mamíferos, répteis, aves, batráquios, peixes, helmintos e amostras botânicas. Todo esse material foi incorporado ao patrimônio científico de instituições de ensino e pesquisa do país. O IOC, por exemplo, ficou com o maior número de exemplares de insetos e helmintos, que se encontram atualmente preservados em coleções dedicadas a esses grupos zoológicos.

 

 

Entretanto, os cientistas não se limitaram a investigar o clima, o relevo, os animais, a vegetação e as doenças reinantes na região, como malária, doença de Chagas e leishmaniose. Eles mostraram-se preocupados com as respostas que os habitantes poderiam dar perante às dificuldades impostas pela sobrevivência. Em quase todos os registros das excursões existem comentários sobre a qualidade da alimentação e as condições de moradia dos habitantes, que algumas vezes foram descritas como precárias e insalubres. A baixa densidade demográfica dos locais visitados também fez parte das observações dos cientistas.

 

 

Em resenha biográfica sobre Lauro Travassos, Newton Dias dos Santos (1916 – 1989), naturalista do Museu Nacional, descreveu com riqueza de detalhes a sua participação na quinta excursão ao Noroeste. Nos trechos selecionados desta narrativa encontramos uma síntese de como deve ter sido o cotidiano das “aventuras” científicas por um Brasil rural e selvagem, rico em biodiversidade, e que ainda guarda muitos aspectos a serem conhecidos por nós na atualidade.

“Imagine, caro leitor, cerca de três dias de viagem pela Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, estrada de penetração do nosso mais longínquo oeste, com deficiências, mas que é um orgulho da nossa gente. (…) A composição, puxada com sacrifício, acaba de atravessar a ponte do rio Miranda e para na estação de Salobra, próxima do grande pantanal. Olho em torno e diviso umas 10 casas de barro: eis toda a localidade. (…) Em meia hora está escolhida nossa sede; o pátio da estação. Começa o trabalho da montagem. (…) Em duas horas há um laboratório montado. Toda a minúscula população local, de olhos arregalados, está em torno. (…) O índice de impaludismo desta população é de 100%. (…) Cada um de nós começa a tomar quinino preventivo. A população entra também no quinino. (…) Enquanto estamos alojados, vem gente de longe em busca de tratamento. Todos são atendidos, pois a farmácia que levamos é grande.

A cozinha de campo é imediatamente montada e começa o trabalho da janta: feijão, arroz, carne seca. (…) Cai a noite e com ela o silêncio. (…) E começa o primeiro trabalho. Num grande lençol branco estendido verticalmente abaixo da lâmpada, começam a chegar os primeiros insetos curiosos. (…) Mosquitos e anofelíneos cobrem o pano; vão chegando, mariposas, coleópteros, hemípteros. (…) Nossos vidros e caixas vão se acumulando de material. Os sapos saem dos seus esconderijos e vem comer insetos e são por nós caçados. (…) Alguns já foram dormir; se não dá bicho vamos para a cama, mas de vez em quando acordamos, e vamos espiar o pano. O calor é terrível. (…) Travassos toma o primeiro café puro da manhã, apanha sua espingarda e dá uns giros por perto. Uma hora depois, está no acampamento com alguma cotia, ou alguma ave abatida. Os taxidermistas entram em ação. Tiram a pele do animal e dão o corpo ao professor. Este vai autopsiá-lo. Abre o animal, retira os intestinos e começa a catar os vermes (…) que são guardados em líquido conservador. (…)

Antes do almoço vão chegando mais peças: porcos do mato, gaviões, jacarés, ariranhas, veados, cotias, toda a classe de aves e mamíferos. (…) Outros excursionistas colecionam plantas, insetos, aracnídeos, moluscos, miriápodos. (…) Nos charcos, riachos e rios as nossas redes de pesca de arrastão trazem curiosos espécimens. (…) Cada dia passa um trem de ida ou de volta. É a nossa única distração. Às vezes, se consegue uma cerveja no trem e isso é uma delícia, pois a nossa única bebida é água e, por sinal, salobra, que é filtrada em caixa de areia. Felizmente ninguém adoece. (…) Travassos quase sempre leva seus dois esplêndidos auxiliares de Manguinhos, Mário Ventel e Antônio Nobre, que se incumbem da manutenção do laboratório e dos instrumentos. (…) Nossos banhos são no rio ou na caixa d’água que alimenta os trens. (…) Ao fim de 25 dias, nossas caixas estão cheias; chegamos ao fim, bastante maltratados”

Ciência para Todos, 27 de março de 1949

 

Ricardo Augusto dos Santos  é  Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz. Felipe Almeida Vieira e Francisco dos Santos Lourenço são pesquisadores do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz.

 

Fontes:

BENCHIMOL, Jaime Larry (coord.). Manguinhos do sonho à vida: a ciência na belle époque. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz, 1990.

DALMEIDA, José Mario. Contribuições de Lauro Travassos (1890-1970) para a zoologia brasileira. História da Ciência e Ensino, São Paulo, v. 14, p. 88-99, 2016.

FONSECA FILHO, Olympio da. A escola de Manguinhos: contribuição para o estudo do desenvolvimento da medicina experimental no Brasil. São Paulo: EGTR, 1974.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

RIBEIRO, Maria Alice Rosa. História sem fim… Inventário da saúde pública. São Paulo: Edusp, 1993.

SANTOS, Ricardo Augusto dos; VIEIRA, Felipe Almeida; LOURENÇO, Francisco dos Santos. O “Dr. Photographo” Oswaldo Cruz. Brasiliana Fotográfica, Rio de Janeiro, 31 out. 2023.

Site Estações Ferroviárias do Brasil.

THIELEN, Eduardo Vilela et al. A ciência a caminho da roça: imagens das expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao interior do Brasil entre 1911 e 1913. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, 1992.

TRAVASSOS, Lauro. Relatório da excursão científica do Instituto Oswaldo Cruz realizada na zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em outubro de 1938. Boletim Biológico, São Paulo, v. 4, n. 2, p. 208-260, 1939.

TRAVASSOS, Lauro. Relatório da terceira excursão a zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil realizada em fevereiro e março de 1940. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 35, n. 3, p. 607-696, 1940.

TRAVASSOS, Lauro. Relatório da quarta excursão do Instituto Oswaldo Cruz a zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, realizada em agosto e setembro de 1940. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 35, n. 4, p. 697-722, 1940.

TRAVASSOS, Lauro. Relatório da quinta excursão do Instituto Oswaldo Cruz, realizada à zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em janeiro de 1941. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 36, n. 3, p. 263-300, 1941.

TRAVASSOS, Lauro; FREITAS, J. F. Teixeira de. Relatório da excursão científica realizada na zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil em julho de 1939. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 35, n. 3, p. 525-556, 1940

TRAVASSOS, Lauro; FREITAS, J. F. Teixeira de. Relatório da sexta excursão do Instituto Oswaldo Cruz, realizada à zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em novembro de 1941. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 37, n. 3, p. 259–286, 1942.

TRAVASSOS, Lauro; FREITAS, J. F. Teixeira de. Relatório da sétima excursão cientifica do Instituto Oswaldo Cruz, realizada à zona da Estrada de Ferro Noroeste do Brasil, em maio de 1942. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 38, n. 3, p. 385-412, 1943.

 

Série “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” IV – Os 100 anos dos Diários Associados

Hoje os Diários Associados, que já foram o maior conglomerado de mídia do Brasil, completam 100 anos. Foi em 2 de outubro de 1924 que O Jornal, primeiro órgão de comunicação dos Diários foi comprado pelo empresário paraibano Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo (1892-1968).

 

 

O acervo fotográfico dos Diários Associados – Rio de Janeiro foi incorporado, em 2016, por uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles (IMS). O conjunto adquirido pelo IMS possui cerca de 700 mil fotografias e 300 mil negativos com imagens produzidas para o já mencionado O Jornal; para o Diário da Noite, fundado por Chateaubriand, em 1929; e para o Jornal do Commercio, fundado em 1827 e adquirido pelo grupo em 1959. Também possui fotos produzidas pela Agência Meridional, primeira agência de notícias do Brasil, fundada em 1931.

 

Acessando o link para as imagens do Arquivo dos Diários Associados pertencentes ao Instituto Moreira Salles e de dois registros de Assis Chateaubriand que pertencem à Fundação Biblioteca Nacional e que estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Pequeno histórico de O Jornal, primeiro órgão de comunicação dos Diários Associados

 

 

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, conhecido como Chatô, comprou, em 2 de outubro de 1924, O Jornal, fundado em 17 de junho de 1919, por Renato Toledo Lopes e um grupo de dissidentes do Jornal do Commercio. Seu nome, O Jornal, foi uma provocação: era assim que o Jornal do Commercio era chamado internamente. O Jornal tornou-se o primeiro veículo de comunicação dos Diários Associados, um dos maiores conglomerados da história da imprensa brasileira (O Jornal, 2 de outubro de 1924, primeira coluna).

 

 

Chateaubriand fez várias inovações, tanto na linha editorial – substituindo os longos artigos por reportagens, separando claramente informações e comentários. Também mudou a diagramação, reorganizando a paginação gráfica e as técnicas de ilustração.

Seus primeiros diretores foram A. Cruz Santos e o próprio Chateaubriand. Sabóia de Medeiros (18?-19?) era o redator-chefe, mas foi logo substituído por Austregésilo de Athayde (1898-1993), grande amigo de Chatô, que permaneceu por toda sua vida nos DA. O ex-presidente da República, Epitácio Pessoa (1865-1942), era o presidente da empresa e Alfredo Pujol (1865-1930) e Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898-1969), seus diretores. Entre os colaboradores do matutino estavam Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde) (1893-1983), Capistrano de Abreu (1853-1927), Pandiá Calógeras (1870-1934), Humberto de Campos (1886-1934), Paulo de Castro Maya (1895-1928), Carlos de Laet (1847-1927) e Ferdinando Laboriau (1893-1928). Na área internacional, colaboravam  Ruddyard Kipling (1865-1936), prêmio Nobel de Literatura; o ex-premier francês Raymond Poincaré (1860-1934), e o também ex-premier britânico Lloyd George (1863-1945).

 

 

Fechou suas portas, em 28 de abril de 1974, quando publicou sua 16.123ª edição. Alberico de Souza Cruz (1938 – 2022) foi o último secretário de redação. O único voto contrário ao fim do jornal, na Assembleia Geral Extraordinária, foi de Austregésilo de Athayde (1898 – 1993). Chegava ao fim o órgão pioneiro e líder dos Diários Associados (RJ).

 

Diários Associados – acervos fotográficos no Instituto Moreira Salles

 

 Agência Meridional de Notícias (1931 – ) 

A Agência Meridional de Notícias foi fundada em agosto de 1931 e foi a primeira agência de notícias do Brasil. O principal objetivo de Chateaubriand era otimizar e racionalizar entre os jornais de seu conglomerado o intercâmbio de textos e fotos. Seria mais barato que as notícias das editorias nacional, de economia e internacional tivesses tanto sua produção tanto centralizada como compartilhada. Assim, os jornais se ocupariam da cobertura local. Ainda em 1931, Chateaubriand comprou o Diário de Pernambuco (Recife), o mais antigo jornal brasileiro em circulação; e fundou o Diário da Tarde (Belo Horizonte). Na ocasião, já faziam parte dos Diários Associados o Diário da Noite (edições Rio e SP)Diário de Notícias (Porto Alegre),  o Diário de S. Paulo, Estado de Minas (Belo Horizonte) e O Jornal (Rio de Janeiro). Chateaubriand também já era proprietário das revistas A Cigarra O Cruzeiro e das juvenis Detetive O Guri. Foi pela Agência Meridional que o repórter Joel Silveira (1918 – 2007) foi enviado para cobrir a campanha dos pracinhas da FEB na Segunda Guerra Mundial com a seguinte recomendação de Chateaubriand, que se tornou famosa: “Mas não me morra, seu Joel! Repórter é pra mandar matéria, não pra morrer!Em 2007, a Agência Meridional passou a usar nome de D.A. Press. 

Diário da Noite (RJ) (1929 – 1973) 

Em 5 de outubro de 1929, lançamento do Diário da Noite, do Rio de Janeiro, que, feito em duas semanas, no mesmo mês de seu lançamento já havia conquistado entre 60 e 80 mil leitores. Complementava o matutino O Jornal, também de Assis Chateaubriand e tinha duas edições diárias, a primeira saía às 15h. Era dirigido por Chateaubriand, Cumplido de Sant´Anna e Frederico Barata. Apresentava-se como um membro da vanguarda do movimento liberal. Opunha-se ao regime oligárquico da República Velha e defendia a Aliança Liberal. Foi nesse jornal que Nelson Rodrigues escreveu folhetins usando o pseudônimo de Susana Flag. Teve como colaborares Antônio Maria (1921 – 1964), Sérgio Porto (1923-1968), o Stanislaw Ponte Preta e o humorista Aparício Torelly (1895 – 1971), dentre outros. Circulou até junho de 1973.

 

Jornal do Commercio (RJ) (1827 – 2016) 

Assis Chateaubriand comprou o Jornal do Commercio de San Tiago Dantas, em 2 de abril de 1959. Instalado na rua Sacadura Cabral nº 103, passou a ser dirigido por Carlos Rizzini, e voltou à linha editorial conservadora, enfatizando o noticiário econômico, dirigido aos empresários do Rio de Janeiro. O Jornal do Commercio havia sido fundado em 31 de agosto de 1827, pelo tipógrafo e livreiro francês Pierre Plancher (1779 – 1844). Sua primeira edição, com quatro páginas, circulou no Rio de Janeiro em 1º de outubro do mesmo ano. No dia 29 de abril de 2016, foi para as ruas a sua última edição. Era o segundo periódico diário mais antigo do Brasil, perdendo apenas para o Diário de Pernambuco, o mais antigo jornal da América Latina, fundado em 7 de novembro de 1925. Seu presidente era Mauricio Dinepi (1953 – 2025).

 

O Jornal (1919 – 1974)

Em 1924, Assis Chateaubriand comprou O Jornal, fundado em 1919o primeiro elo e o órgão líder da cadeia dos Diários Associados. Nele, Chateaubriand fez várias inovações, tanto na linha editorial – substituindo os longos artigos por reportagens, separando claramente informações e comentários – como em sua diagramação – reorganizando a paginação gráfica, do colunismo e das técnicas de ilustração. Fechou suas portas em 28 de abril de 1974, quando publicou sua 16.123ª edição. Alberico de Souza Cruz foi o último secretário de redação. O único voto contrário ao fim do jornal, na Assembleia Geral Extraordinária, foi de Austregésilo de Athayde. Chegava ao fim o órgão líder dos Diários Associados.

 

 

 

Artigos publicados na Brasiliana Fotográfica com fotografias do acervo dos Diários Associados

Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 30 de maio de 2018.

 

 

 

A Casa dos Artistas nos Diários Associados, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 26 de agosto de 2019.

 

 

 

O Rei Momo por Jean Manzon e por outros fotógrafos dos Diários Associados, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 3 de fevereiro de 2023.

 

 

Brevíssimo perfil de Assis Chateaubriand e dos Diários Associados

 

A imprensa brasileira pode ser dividida em duas fases: antes e depois de Assis Chateaubriand. Conhecido como Chatô e nascido em 4 de outubro de 1892, em Umbuzeiro, tornou-se um magnata das comunicações no Brasil. Foi considerado o Cidadão Kane brasileiro, uma alusão ao filme homônimo de Orson Welles (1915-1985), supostamente baseado na vida do empresário norte-americano William Randolph Hearst (1863-1951), criador de uma enorme rede de jornais em seu país.

Chateaubriand foi uma personalidade polêmica e controversa e um dos mais poderosos e influentes homens públicos da história do país. Em seu auge, os Diários Associados chegaram a ter mais de cem jornais, emissoras de televisão e rádio, revistas e agência telegráfica. Um verdadeiro império de mídia.

Além de jornalista, Chatô foi advogado, embaixador, escritor, mecenas e político. Em 30 de dezembro de 1954, foi eleito para ocupar a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo Getúlio Vargas (1882-1954).  Tomou posse em 27 de agosto de 1955.

 

 

Uma das revistas do império de Chateaubriand, a O Cruzeiro, foi muito importante na história da fotografia no Brasil, tendo dignificado a profissão de repórter fotográfico. Foi publicada pela primeira vez, em 10 de novembro de 1928, e, entre as décadas de 40 e 50, pela utilização de fotografias, enfatizando o fotojornalismo, e por seu conteúdo e projeto gráfico arrojados, representou uma revolução no mercado editorial brasileiro. Seu primeiro diretor foi Carlos Malheiros Dias (1875 – 1941), sucedido por Antônio Accioly Neto (1906-2001) e José Amádio (1923-1992). Dentre importantes fotógrafos que atuaram na revista, destacamos Flávio Damm (1928-2020), Henri Ballot (1921-1997), Jean Manzon (1915-1990), José Medeiros (1921-1990), Luciano Carneiro (1926 – 1959) e Peter Scheier (1908-1979). Em julho de 1975, a revista deixou de circular.

 

 

Chatô fundou o Museu de Arte de São Paulo (MASP), inaugurado em 2 de outubro de 1947. O  crítico e marchand italiano Pietro Maria Bardi (1900-1999), parceiro de Chateaubriand na criação do museu, assumiu sua direção, cargo que ocupou até 1990. As primeiras obras de arte do museu foram selecionadas por Pietro e adquiridas a partir de doações. O museu foi instalado, inicialmente, no prédio,  na época ainda não finalizado, que abrigaria a sede dos Diários Associados, na Rua 7 de Abril, no centro de São Paulo.

 

 

Em 7 de novembro de 1968, o MASP foi transferido para a Avenida Paulista, sua sede atual, projeto arquitetônico arrojado da romana naturalizada brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992), casada com Pietro desde 1946, ano em que vieram para o Brasil. O MASP possui o mais importante acervo de arte europeia do hemisfério sul. A coleção do museu reúne mais de 11 mil obras, incluindo esculturas, fotografias, objetos, pinturas e vestuários de diversos períodos, abrangendo a produção africana, asiática, europeia e das Américas.

 

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O MASP por Hans Gunter Flieg (1923-2024), 1968 / Acervo IMS

 

Chatô foi também o responsável pela chegada da televisão ao Brasil quando, em 18 de setembro de 1950, inaugurou a primeira emissora de TV do país, a PRF-3, TV Tupi de São Paulo, no chamado Palácio do Rádio. Participaram da cerimônia o próprio Chateaubriand, o bispo Dom Paulo Rollim Loureiro (1908 – 1975)  e a poetisa Rosalina Coelho Lisboa (1900-1975). À noite, numa festa no Automóvel Clube, autoridades e convidados assistiram à primeira transmissão. Existiam menos de mil aparelhos receptores de TV. Com apenas três câmeras e com profissionais como Cassiano Gabus Mendes (1927 – 1993), Homero Silva (1918-1981), Walter Avancini (1935-2001) e Walter Forster (1917-1996), começava a história da TV brasileira. A TV Tupi saiu do ar em 17 de julho de 1980.

 

World Tv: TV Tupi. A Pioneira!

 

A TV Pioneira do Brasil - A História da Tupi

Assista aqui a primeira vinheta da TV Tupi 

 

Ao longo da década de 50, Chateaubriand foi senador da República pela Paraíba e pelo Maranhão. Em 1957,  renunciou ao cargo porque foi nomeado pelo presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976) embaixador do Brasil na Inglaterra. Porém ficava mais tempo no Brasil do que na Inglaterra, fato muito criticado por diplomatas de carreira e também pelos jornais que faziam oposição a ele.  O posto era exercido de fato pelo diplomata Antônio Castello Branco (1916-2001).

 

 

Em 26 de setembro de 1959, Chateaubriand assinou uma escritura pública doando a 22 empregados 49% do controle acionário dos Diários e Emissoras Associados, então o maior império de comunicações da América Latina. Estava criado o Condomínio Acionário Diários e Rádios Associados. Na época, o conglomerado era composto pelas duas revistas mais importantes do país dirigidas a adultos, 12 revistas infantis, dezenas de jornais, 28 estações de rádio, seis estações de televisão, agências de notícias e agências de propaganda (O Jornal, 27 de setembro de 1959, primeira coluna).

Em fevereiro de 1960, Chatô foi levado para a Clínica Doutor Eiras, sob suspeita de enfarte. Foi atendido por um jovem médico que chamou o neurocirurgião Abrahão Ackerman, um dos donos do hospital. Após examiná-lo, constatou que Chateaubriand havia sofrido uma trombose cerebral dupla e que não iria sobreviver (O Jornal, 25 de fevereiro de 1960, primeira coluna; O Cruzeiro, 9 de abril de 1960). Ficou hospitalizado até fim de agosto de 1960 e viveu mais 8 anos (O Jornal, 4 de setembro de 1960, última coluna). Comunicava-se por balbucios e usava uma máquina de escrever adaptada. Continuou, mesmo paraplégico e impossibilitado de falar, a escrever seus artigos. O primeiro após a doença, Compromisso de Sangue, foi publicado em O Jornal de 4 de setembro de 1960.

 

 

 

Em julho de 1962, doou os 51% restantes das ações e quotas que possuía dos Diários e Emissoras Associados aos seus auxiliares, que já haviam recebido os primeiros 49%. Seus filhos foram excluídos desta segunda partilha.

Teve um colapso cardíaco e faleceu, em São Paulo, no Hospital Santa Catarina, em 4 de abril de 1968. Foi velado, no saguão do prédio dos Diários Associados em São Paulo (O Jornal, 5 de abril e 6 de abril de 1968). Pietro Maria Bardi mandou colocar telas do MASP em torno do caixão de Chatô. Também escreveu o artigo Chateaubriand fundador de museus, publicado em O Cruzeiro de 20 de abril de 1968. O sepultamento do Velho Capitão, título criado para ele pelo repórter David Nasser (1917-1980)foi realizado, no dia 6 de abril, no Cemitério do Araçá, em São Paulo.

João Calmon (1916-1999), que era vice-presidente do condomínio acionário dos Diários Associados desde 1962, tornou-se presidente da empresa. Na época, ela era constituída pelos seguintes órgãos: 1) os diários O Jornal (Rio), Jornal do Comércio (Rio), Diário de S. Paulo (S. Paulo), Diário da Noite (S. Paulo), Diário dos Esportes (S. Paulo), O Diário (Santos-SP), O Estado de Minas (Belo Horizonte), Diário da Tarde (Belo Horizonte), Diário Mercantil (Juiz de Fora-MG), Diário da Tarde (Juiz de Fora-MG), Diário de Notícias (Porto Alegre), A Razão (Santa Maria-RS), Estado da Bahia (Salvador), Diário de Notícias (Salvador), Diário de Aracaju (Aracaju), Diário de Pernambuco (Recife), O Norte (João Pessoa), Diário de Borborema (Campina Grande-PB), Diário de Natal (Natal), O Poti (Natal), A Província do Pará (Belém), Correio do Ceará (Fortaleza), Unitário (Fortaleza), O Imparcial (S. Luís), Jornal do Comércio (Manaus), A Nação (Florianópolis), Jornal de Joinville (Joinville-SC), Jornal de Alagoas (Maceió), Folha de Goiás (Goiânia), Diário do Paraná (Curitiba), Monitor Campista (Campos-RJ), Correio Brasiliense (Brasília), O Rio Branco (Rio Branco), Alto Madeira (Porto Velho-RO), Diário da Serra (Campo Grande-MS); 2) as revistas O Cruzeiro, O Guri, A Cigarra, Luluzinha, Bolinha, Brasinha, Gasparzinho, Aventura, Gurilândia, Pré-Estreia, Manda-Chuva, Os Flinstones, Os Jetsons, Pimentinha, Zé Colméia, Combate, Homem no Espaço, Galáxia; 3) as emissoras Rádio Tupi (Rio), Rádio Tamoio (Rio), Rádio Difusora (S. Paulo), Rádio Tupi (S. Paulo), Rádio Cultura (S. Paulo), Rádio Guarani (Belo Horizonte), Rádio Mineira (Belo Horizonte), Rádio Sociedade (Juiz de Fora-MG), Rádio Farroupilha (Porto Alegre), Rádio Sociedade da Bahia (Salvador), Rádio Clube de Pernambuco (Recife), Rádio Tamandaré (Recife), Rádio Borborema (Campina Grande-PB), Rádio Cariri (Campina Grande-PB), Rádio Poti (Natal), Rádio Marajoara (Belém), Ceará Rádio Clube (Fortaleza), Rádio Araripe (Crato-CE), Rádio Gurupi (S. Luís), Rádio Baré (Manaus), Rádio Progresso (Maceió), Rádio Vitória (Vitória), Rádio Difusora (Teresina), Rádio Clube de Goiânia (Goiânia), Rádio Planalto (Brasília); 4) as emissoras de televisão TV Tupi (Rio), TV Tupi (S. Paulo), TV Cultura (S. Paulo), TV Ribeirão Preto (Ribeirão Preto-SP), TV Itacolomi (Belo Horizonte), TV Alterosa (Belo Horizonte), TV Mariano Procópio (Juiz de Fora-MG), TV Piratini (Porto Alegre), TV Itapoan (Salvador), TV Rádio Clube (Recife), TV Borborema (Campina Grande-PB), TV Marajoara (Belém), TV Rádio Clube (Fortaleza), TV Vitória (Vitória), TV Rádio Clube (Goiânia), TV Paraná (Curitiba), TV Coroados (Londrina-PR), TV Brasília (Brasilia); e 5) as agências: Agência Meridional (de notícias, com matriz no Rio e sucursais em todo o Brasil) e SIRTA Serviços de Imprensa, Rádio e Televisão Associados (de publicidade, com matriz no Rio e filiais em todo o Brasil) (CPDOC).

Foi também na década de 60, que o império formado por Chateaubriand começou a decair. Após sua morte, deflagrou-se uma crise nos Diários Associados entre João Calmon e um de seus filhos, Gilberto Chateaubriand (1925-2022), devido a divergências relativas aos rumos da empresa. Desde maio de 2023, o Condomínio Acionário dos Diários Associados é presidido pelo jornalista Josemar Gimenez (1964-).

Acesse aqui a edição de O Cruzeiro, de 20 de abril de 1968, com uma homenagem a Assis Chateaubriand.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BARROS, Maria Pia Fontes Lins de; WANDERLEY, Andrea C. T. Agenda do Centro de Documentação da TV Globo

CARNEIRO, Glauco. Brasil, primeiro: História dos Diários Associados. Brasília : DF. Fundação Assis Chateaubriand, 1999.

G-1

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

IstoÉ, 10 de maio de 2023

MORAIS, Fernando. Chatô – O Rei do Brasil. Cia das Letras: São Paulo, 1994.

O Jornal, órgão líder dos Diários Associados / Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Secretaria, 2007 (Cadernos da Comunicação Série Memória – vol 18).

Revista da USP

Site Academia Brasileira de Letras

Site CPDOC 

Site Diários Associados

Site São Paulo infoco

Veja, 3 de agosto de 1994

No Dia da Amazônia, fotos da expedição de 1901 realizada pela Comissão de Limites entre o Brasil e a Bolívia

Hoje é comemorado o Dia da Amazônia em homenagem à criação da Província do Amazonas por dom Pedro II (1825 – 1891), em 5 de setembro de 1850. A Amazônia é um bioma que possui 4,196.943 milhões de km2 – a maior floresta tropical do planeta – e abrange nove países: Bolívia, Brasil, Colômbia, Equador, Guiana Francesa, Paraguai, Peru, Suriname e Venezuela. Este ecossistema tem uma biodiversidade incomparável e influencia o equilíbrio ecológico global, o ciclo da água e o clima da Terra. Sua preservação é uma questão de urgência mundial.

Para lembrar o Dia da Amazônia, a Brasiliana Fotográfica destaca um grupo de 15 fotografias do acervo da Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, uma das instituições parceiras do portal, sobre a expedição realizada, em 1901, à Amazônia com o objetivo de demarcar o limite entre Brasil e Bolívia. Foram realizadas três expedições e as comissões instituídas pelo governo brasileiro objetivavam traçar o limite na região amazônica e verificar a localização da principal nascente do rio Javari, cujo desconhecimento gerava controvérsias.

 

 

Acessando o link para as fotografias da Comissão de Limites entre o Brasil e a Bolívia disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

A primeira e segunda expedições foram realizadas em 1895 e 1897 e foram chefiadas por Gregório Thaumaturgo de Azevedo (1853 – 1921) e Augusto Cunha Gomes (18? – ?), respectivamente. A terceira, assunto de nosso artigo, foi chefiada pelo astrônomo belga Luis Cruls (1848 – 1908), que havia sido fotografado por seu amigo Marc Ferrez (1843 – 1923), em torno de 1884. Cruls foi diretor do Observatório Astronômico do Rio de Janeiro entre 1891 e 1908. O retrato (abaixo) foi exposto, em 1884, na Notre Dame de Paris, e referido como um “trabalho artístico obtido pelo novo sistema de gelatino-bromureto, especialidade do sr. Marc Ferrez, clichê do sr. Insley Pacheco”(Jornal do Commercio, 4 de julho de 1884, na última coluna).

 

 

Voltando à expedição de 1901. O ministro das Relações Exteriores, Olyntho de Magalhães (1866 – 1948), deu a Cruls instruções para subir o rio Javari até as nascentes e determinar sua verdadeira posição geográfica.

 

 

Na época, Cruls já era um cientista renomado. Já havia sido membro da comissão da Carta Geral do Império, de 1875, na seção de geodésia, sua primeira atuação profissional no Brasil; e, em 1892, viajado e explorado o Planalto Central, trabalho pelo qual é atualmente mais conhecido. Era professor de Geodésia da Escola Militar.

Cruls e integrantes da comissão embarcaram no Alagoas, no Rio de Janeiro, rumo ao norte, em 4 de janeiro de 1901 (O Paiz, 4 de janeiro de 1901, segunda coluna). Desembarcaram em Belém, em 20 de janeiro. Os integrantes da comissão brasileira eram o capitão de fragata Carlos Accioli, o capitão do Estado-Maior Augusto Tasso Fragoso, o médico Leovigildo Honorário de Carvalho, o capitão farmacêutico Alfredo José Abrantes, o capitão honorário Eduardo Chartier, o secretário Ricardo Veríssimo Vieira, o encarregado do material Arthur Nogueira; e um contingente militar de 50 praças, comandados pelo alferes Arthur Cantalice. A comissão boliviana era chefiada por Adolpho Ballivian (Jornal do Commercio, 4 de março de 1901, sexta coluna).

Cruls montou o seu observatório no interior do Forte do Castelo.

 

 

 

 

 

A expedição de 1901 é referida na historiografia da ciência como sendo a que contribuiu para o Tratado de Petrópolis, firmado em 17 de novembro de 1903 em Petrópolis, que pôs fim à disputa territorial entre Brasil e Bolívia pelo território do Acre. Porém, de acordo com Moema de Rezende Vergara, a solução para o problema se deu puramente no plano político, sem levar em consideração os trabalhos técnicos então realizados, o que invalida a relação de causalidade entre a expedição chefiada por Cruls e o fim do litígio com a Bolívia…na Exposição de Motivos sobre o Tratado de 1903, é possível ver que o Barão de Rio Branco optou por uma condução política para a crise, fazendo tabula rasa das viagens de demarcação do período republicano. Os acontecimentos políticos, precipitando-se, haviam tornado sem efeito os esforços técnicos de localização precisa das nascentes do Javari. Cabe a ressalva de que, apesar dos trabalhos de Luiz Cruls não terem sido utilizados no Tratado de Petrópolis, isto não os invalida. As coordenadas que sua comissão determinou para as nascentes do rio Javari, consideradas a parte mais ocidental do Brasil, foram as mesmas utilizadas em importantes obras que tinham por objetivo apresentar a geografia do país, como o “Dicionário Histórico, Geográfico e Etnográfico do Brasil”, publicado para as comemorações do Centenário da Independência de 1922 (IHGB, 1922).

O Tratado de Petrópolis foi assinado pelo Barão do Rio Branco (1845 – 1912), ministro das Relações Exteriores, e pelo diplomata Joaquim Francisco Assis Brasil (1857 – 1938), do lado brasileiro; e pelos diplomatas Fernando Guachalla (1853 – 1908) e Claudio Pinilla (1859 – 1928), do lado boliviano.

 

Os signatários do Tratado de Petrópolis

 

 

 

 

 

No Tratado de Petrópolis foi estipulada a venda do território do Acre da Bolívia para o Brasil. Em compensação, o Brasil cedeu para a Bolívia territórios na Bacia do Rio Paraguai e o governo brasileiro se comprometeu a construir a Estrada de Ferro Madeira-Mamorée pagou à Bolívia a quantia de 2 milhões de libras esterlinas.

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

El Aparapita, cargador de la memoria cultural de Bolivia, 7 de julho de 1922

G-1

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Site CPDOC-FGV

VERGARA, Moema de Rezende. Ciência, fronteiras e nação: comissões brasileiras na demarcação dos limites territoriais entre Brasil e Bolívia, 1895-1901Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, agosto de 2010.

WANDERLEY, Andrea C.T. O Observatório Nacional pelas lentes de Marc Ferrez, amigo de vários cientistas in Brasiliana Fotográfica, 29 de maio de 2023.

 

O embaixador Oswaldo Aranha (1894-1960)

O embaixador Oswaldo Aranha (1894-1960) 

Pedro Quinteiro Uberti sob a supervisão de Adelina Novaes e Cruz* 

 

Gaúcho da fronteira, nascido em Alegrete, em 1894, Oswaldo Aranha teve ascendente trajetória na política local até se consolidar como uma das lideranças da Aliança Liberal e do movimento que levou Getulio Vargas ao Catete. Como ministro da Justiça e Assuntos Internos e ministro da Fazenda, contribuiu ativamente na reconfiguração institucional do Estado brasileiro, iniciada com o governo provisório de Vargas.

Notabilizou-se como personagem vinculado à condução da política externa brasileira. A historiografia destaca dois grandes momentos da vida política de Aranha, para além de seu envolvimento com a Revolução de 1930. O primeiro, entre 1938 e 1944, diz respeito ao período em que serviu como chanceler do Estado Novo, sendo apontado como um dos principais responsáveis pelo apoio prestado pelo Brasil ao esforço de guerra dos Aliados. O segundo, entre 1947 e 1948, marca o momento em que Aranha presidiu a Assembleia Geral das Nações Unidas, tendo seu nome vinculado à criação do Estado de Israel e à tradição, segundo a qual, o discurso brasileiro deve ser aquele que inaugura os encontros da Assembleia.

Antes disso, no entanto, Aranha já havia deixado sua marca na diplomacia brasileira. Entre 1934, quando se desvincula do Ministério da Fazenda, e 1937, quando é decretado o Estado Novo, o político gaúcho serviu como embaixador do Brasil nos Estados Unidos.

 

Acessando o link para as imagens de Oswaldo Cruz do acervo do FGV-CPDOC e disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Primeiras Impressões

 

A missão de Aranha começa a bordo do Augustus, navio que o levou a Gênova. A escala na Europa, antes de seguir viagem aos Estados Unidos, marcou a percepção de Aranha em relação ao futuro das relações internacionais. Em carta escrita a Getulio, em setembro de 1934, aborda criticamente o militarismo de governantes como Benito Mussolini, indicando a iminência de um novo conflito entre as potências europeias. Pondera que:

a Europa está, meu caro, em estado potencial de guerra. Os exércitos e as esquadras não se defrontam, mas ameaçam-se. […] Os instintos estão arrepiados, como o de feras ameaçadas ou agressivas. […] Ninguém sabe como e de onde virá. Mas creio, não há ninguém que não sinta a sua proximidade. […] A Europa está dominada por uma tropilha de grandes loucos que encerram em seus punhos a sorte do mundo” (GV c 1934.09.07).

 

 

É notável o contraste das perspectivas de Aranha em relação à Europa e aos Estados Unidos. Já em solo estadunidense, exulta o progresso material do país. Em outra carta a Vargas, de novembro de 1934, ameniza os efeitos da crise financeira de 1929, apontando que “este país tem mais riquezas do que todo o resto do mundo. O orçamento de uma cidade como Chicago é maior que o da Itália. O de Nova York várias vezes o nosso. O número de automóveis numa cidade média aqui é maior do que o de todo o Brasil!” (GV c 1934.11.02).

 

Primeiras Movimentações

 

As primeiras movimentações diplomáticas de Aranha demonstram a preocupação do novo embaixador em melhorar as relações entre Brasil e Estados Unidos. O pessimismo em relação à Europa e o fascínio em relação à economia estadunidense foram acompanhados por uma calorosa recepção nos círculos políticos de Washington. Aranha percebia uma boa vontade das autoridades de Washington em relação ao Brasil. “Só posso atribuir essa amabilidade ao desejo que notei no presidente Roosevelt, durante a conversa de alguns minutos que se seguiu à apresentação de credenciais, de estreitar sempre as íntimas relações com o Brasil”, relataria Aranha ao Itamaraty após a apresentação de suas credenciais como embaixador a Roosevelt, em outubro de 1934 (ARAÚJO, 1996, p. 113).

 

 

O andamento da missão seria, portanto, facilitada, na visão de Aranha, pela situação internacional. Com a Europa na iminência de um conflito e com o recrudescimento das disputas imperialistas entre as potências, incluindo a expansão japonesa no sudeste asiático e no Pacífico, os Estados Unidos, segundo Aranha, se voltariam cada vez mais para a América Latina, em especial para o Brasil. Deveria o governo Vargas, portanto, aproveitar essa oportunidade para atingir os objetivos da política externa brasileira.

Condição necessária ao estreitamento de relações entre os dois países era, no entanto, a restruturação da representação brasileira nos Estados Unidos. Isso significou o envolvimento de Aranha na instalação da embaixada em uma mansão comprada, em agosto de 1934, por Ciro Freitas-Valle, seu primo e diplomata, a mando do Itamaraty. Segundo o embaixador “encontramos, aqui, no país onde está metade do nosso comércio, todos os funcionários amontoados em três salinhas, sem mobiliário, sem nada. Vamos ficar, hoje, com uma instalação perfeita e capaz de atender às nossas fatais necessidades futuras” (GV c 1935.03.25).

 

 

 

Uma Atuação Multifacetada 

 

É possível encontrar no triênio em que Aranha serviu como embaixador, uma série de episódios que demonstra uma atuação diplomática multifacetada, conduzida por um diplomata muito bem conectado com diferentes setores da sociedade estadunidense. Logo nos primeiros meses de missão, Aranha conduziria em Washington as negociações em torno do tratado comercial que estava sendo costurado entre Brasil e Estados Unidos enquanto, constantemente, protestava a Vargas contra o estreitamento dos laços comerciais entre Brasil e Alemanha sob a modalidade que ficou conhecida como comércio compensado. Aranha acompanharia o ministro da Fazenda, Artur de Sousa Costa, na assinatura do tratado junto a Roosevelt, firmado em 2 de fevereiro de 1935.

 

 

 

 

 

Aranha ainda receberia outro ministro brasileiro em Washington. João Marques dos Reis, ministro da Viação e Obras Públicas havia sido designado por Getulio para participar da 3ª  Conferência Mundial de Energia, entre setembro e outubro de 1936. Segundo o embaixador, a visita do ministro seria facilitada pela boa vontade do governo estadunidense em procurar “favorecer negócios no Brasil” (GV c 1936.10.21).

 

 

O estabelecimento de boas relações com autoridades do governo estadunidense foi um dos maiores sucessos da missão de Aranha. Não à toa, durante o triênio em que serviu em Washington, Aranha foi o embaixador estrangeiro mais recebido por Roosevelt (OLIVEIRA, in LIMA; ALMEIDA; FARIAS, 2017, p. 103). Antes mesmo de Aranha embarcar para os Estados Unidos, Roosevelt já havia sido informado que Aranha era “o iniciador do atual movimento do Brasil de se afastar um pouco da Europa e se aliar com os Estados Unidos” (HILTON, 1994, p. 202). Destaca-se, ainda, a figura de Sumner Welles, referência no Departamento de Estado em assuntos relacionados à América Latina, com quem Aranha estabeleceu íntimas relações.

 

 

 

 

Para além dos círculos oficiais de poder, Aranha empreendeu esforços no sentido de fazer o Brasil ser ouvido por distintas camadas da sociedade estadunidense. Seja viajando pelo país, como na ocasião da Feira Mundial de Chicago, em outubro de 1935, seja em contato constante com jornalistas e empresários, Aranha defendia a ideia de que “devemos procurar ser conhecidos do povo para melhor contarmos com o governo dos Estados Unidos” (GV c 1937.09.09).

 

 

 

 

 

 

 

Essa aproximação, advogada por Aranha, não se restringia apenas ao âmbito bilateral. Logo no início da missão, alertou Vargas sobre a ascensão da Política da Boa Vizinhança. Segundo o embaixador, a busca dos Estados Unidos em melhorar suas relações com os demais países americanos poderia colocar em xeque o tratamento especial que era dispensado ao Brasil. Nesse sentido, as conferências e encontros multilaterais deveriam servir de palco para o Brasil reafirmar sua posição como parceiro estratégico dos Estados Unidos no continente.

Foi exatamente o que o embaixador buscou alcançar na Conferência Interamericana para a Manutenção da Paz, realizada em Buenos Aires, em 1936. Desde o momento em que Roosevelt veiculou a ideia da realização da Conferência, Aranha buscou costurar a posição entre Brasil e Estados Unidos a partir da coordenação de demandas entre a Casa Branca e o Catete, mesmo que isso significasse o desgaste na relação com Macedo Soares, seu superior na hierarquia institucional do Itamaraty. Sua atuação na Conferência lhe rendeu editoriais dos mais favoráveis na imprensa estadunidense, ao buscar o consenso entre as partes a despeito da oposição argentina aos termos do Projeto de Convenção Sobre Manutenção, Garantia e Restabelecimento da Paz.

 

 

 

 

 

 

Aranha buscava nutrir nos Estados Unidos a simpatia pelo Brasil, mas suas constantes súplicas não convenceram Getulio de visitar o país norte-americano. Conseguiu, entretanto, influenciar na visita de dois de seus filhos, Getulio e Alzira, e sua esposa, Darcy. Alzira permaneceu mais de um semestre com a família Aranha nos Estados Unidos, entre o final de 1935 e meados de 1936, período durante o qual realizou longas viagens na companhia de Luiza Zilda Aranha (Zazi) e Delminda Gudolle Aranha (Dedei) – filhas do embaixador – e Delminda Gudolle Aranha (Vindinha) – esposa do embaixador. Getulinho, como era chamado por Aranha, e Darcy encontraram Alzira e família Aranha em março de 1936. Após insistência de Aranha, Getulinho permaneceu nos Estados Unidos pelo resto do ano desenvolvendo seus estudos de inglês e química. O périplo da família Vargas nos Estados Unidos, na companhia de Aranha, serviu como ferramenta diplomática, na medida em que foram organizados encontros com empresários e jornalistas estadunidenses, além de uma conferência com Roosevelt e a primeira-dama, Eleanor.

 

 

 

 

 

 

O Fim da Missão

 

Decretado o Estado Novo em novembro de 1937, Oswaldo Aranha abdica do cargo de embaixador, alegando ter perdido sua credibilidade junto ao governo estadunidense por ter sido pego de surpresa pelo golpe. Permaneceria nos Estados Unidos até dezembro, num esforço de amenizar as críticas da imprensa sobre a ruptura institucional em curso no Brasil. Seus relatórios a Vargas demonstram como o governo estadunidense não alterou sua posição em relação à parceria que vinha sido construída entre os dois países. Em dezembro de 1937, o navio Western Prince atracaria em águas brasileiras trazendo o embaixador e sua família, pondo fim à experiência diplomática inaugural daquele que viria ser chanceler em um dos períodos mais conturbados da política externa brasileira.

 

 

 

*Pedro Quinteiro Uberti é aluno do Mestrado Acadêmico em História, Política e Bens Culturais FGV/CPDOC e Adelina Novaes e Cruz é Pesquisadora do FGV CPDOC.

 

FONTES:

Arquivo Pessoal de Alzira Vargas do Amaral Peixoto (FGV CPDOC). Disponível em: <https://www18.fgv.br/CPDOC/acervo/arquivo-pessoal?fun=AVAP&tud=AVI&tit=&ftit=2&de=1934&ate=1937&assun=&fassun=0&aut=&faut=0&ser=&loc=&tav=8+9+10&itens=30>.

Arquivo Pessoal de Getulio Vargas (FGV CPDOC). Disponível em: <https://docvirt.com/docreader.net/DocReader.aspx?bib=CorrespGV2>.

Arquivo Pessoal de Oswaldo Aranha (FGV CPDOC). Disponível em: <https://www18.fgv.br/CPDOC/acervo/arquivo-pessoal?fun=OA&tud=AVI&tit=&ftit=2&de=1934&ate=1937&assun=&fassun=0&aut=&faut=0&ser=&loc=&tav=8+9+10&itens=30>.

CAMARGO, Aspásia; ARAÚJO, João Hermes Pereira de; SIMONSEN, Mário Henrique. Oswaldo Aranha: a estrela da revolução. São Paulo: Mandarim, 1996.

HILTON, Stanley. Oswaldo Aranha: uma biografia. Rio de Janeiro: Editora Objetiva, 1994.

LIMA, Sérgio Eduardo Moreira; ALMEIDA, Paulo Roberto de; FARIAS, Rogério de Souza (org.). Oswaldo Aranha: um estadista brasileiro. Brasília: Fundação Alexandre de Gusmão, 2017. 2 v. (Coleção Política Externa Brasileira).

 

A Fundação Rockefeller no Brasil

A Fundação Rockfeller no Brasil

 Ricardo Augusto dos Santos*

Em 2022, a Casa de Oswaldo Cruz (COC) recebeu o certificado da incorporação do Fundo Fundação Rockefeller ao Programa Memória do Mundo da Unesco. O organismo internacional reconheceu o acervo como patrimônio documental inestimável. Sob a guarda do Departamento de Arquivo e Documentação da COC, este conjunto retrata as ações do Serviço Nacional de Febre Amarela e do Serviço Nacional de Malária e contém 4.209 fotografias e 633 negativos. Algumas são imagens raras de cidades e pequenas comunidades.

 

Acessando o link para as imagens do Fundo Fundação Rockfeller da Casa de Oswaldo Cruz disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

O arquivo abrange as ações realizadas pela Fundação Rockefeller no Brasil. Com milhares de fotos dos estados brasileiros Rio de Janeiro, Bahia e Ceará, mostra os serviços executados pela instituição em conjunto com o governo brasileiro na eliminação do mosquito Aedes aegypti, vetor da febre amarela, e do mosquito Anopheles gambiae, vetor da malária.

 

 

O arquivo das Séries do Fundo Fundação Rockefeller está dividido em séries documentais: a Série Serviço de Febre Amarela, a Série Serviço de Malária do Nordeste, a Série Exposições do Serviço de Febre Amarela e do Serviço de Malária do Nordeste; além da Série Fotografias Aéreas.

Neste artigo, apresentamos imagens da Série Serviço de Febre Amarela. Com fotos sobre a campanha de erradicação do mosquito Aedes aegypti nos estados brasileiros, além de imagens das pesquisas sobre a forma silvestre da febre amarela e o processo de produção da vacina contra a doença. Uma outra série, Serviço de Malária do Nordeste, contém os registros da eliminação do mosquito Anopheles gambiae, vetor da malária, durante a epidemia da doença ocorrida no Nordeste do país, em 1939. As fotografias também documentam o processo de produção da vacina contra a febre amarela, produzida em Manguinhos.

 

 

Inúmeras expedições percorreram o Brasil em busca de informações que pudessem explicar a diversidade natural e social do imenso país. Cientistas e aventureiros viajaram por várias regiões realizando pesquisas e colhendo amostras. Durante o século XIX e nas décadas iniciais do século passado, várias missões científicas ocorreram no país. Entusiasmados pelas conquistas técnicas, especialistas em ciências naturais excursionaram pela imensidão do território brasileiro. Muitas viagens foram documentadas através de pinturas, desenhos e fotografias.

No início do século XX, a Fundação Rockefeller iniciou uma série de projetos médicos e científicos no Brasil. Nesta época, várias iniciativas semelhantes estavam sendo criadas nas áreas da saúde pública internacional. Na origem, esse projeto assistencial da Fundação Rockefeller se restringia ao sul dos Estados Unidos. No entanto, suas atividades foram ampliadas para países que possuíam graves problemas sanitários, necessitando derrotar doenças como a ancilostomíase, a febre amarela e a malária.

Através de convênios com o governo brasileiro, o grupo industrial e financeiro norte-americano, liderado pelo bilionário John Davison Rockefeller (1839-1937), entrou em contato com cientistas e médicos nacionais. Assim, a Rockefeller chegou ao país. Após a criação de um acordo de cooperação com o estado brasileiro, começou um planejamento para controle das doenças endêmicas. Essas moléstias eram devastadoras, sobretudo nas regiões mais afastadas das capitais. As tarefas se concentravam na erradicação da febre amarela e da malária.

 

 

 

A partir de 1930, ocorreu um progresso da conduta da empresa norte-americana. Atuando ao lado de organismos estatais, especialmente criados para dominar a febre amarela e a malária, doenças que causavam muitas mortes, a Rockfeller auxiliou na elaboração do Serviço Nacional de Febre Amarela e do Serviço de Malária do Nordeste. Desta maneira, ampliando o alcance dos trabalhos, também proporcionava uma troca de conhecimentos e experiências entre o governo brasileiro e a instituição estrangeira.

Nesta campanha de Saneamento do Brasil, as equipes de trabalhos procuravam combater o mosquito vetor da febre amarela, mas também desenvolviam pesquisas em laboratórios, aprofundando análises sobre a doença, além da produção da vacina antiamarílica. A partir de 1940, a Fundação Rockefeller foi transferindo a direção do projeto para o Serviço Nacional de Febre Amarela. Na década de 1950, o laboratório de pesquisas e de produção da vacina passou para o comando do Instituto Oswaldo Cruz.

Apresentamos, neste artigo, algumas fotografias do Fundo Fundação Rockefeller. O arquivo fotográfico é resultado das atividades da Fundação Rockefeller no Brasil. Há uma concentração de imagens a partir de 1930, quando ocorre a institucionalização de suas atividades em nível federal.

 

 

 

*Ricardo Augusto dos Santos é  Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz

 

 

E, há 200 anos, Hercule Florence chegou ao Brasil!

Há 200 anos, em 8 abril de 1824, chegou ao Rio de Janeiro, a bordo da fragata Marie Théreze, que havia zarpado do porto de Toulon, na França, em fevereiro de 1824, o fotógrafo, desenhista, tipógrafo e naturalista francês Antoine Hercule Romuald Florence (1804 – 1879) (Diário do Rio de Janeiro, 9 de abril de 1824, segunda coluna). Viveu no Brasil entre 1824 e 1879, quando faleceu, em Campinas. Foi, certamente, um dos mais extraordinários estrangeiros que se estabeleceu no país, no século XIX, tendo sido o inventor de um dos primeiros métodos de fotografia do mundo.

Em 11 de agosto de 2023, o Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, anunciou a aquisição da coleção Cyrillo Hercules Florence, composta por aproximadamente 1.200 itens, que reúne a parte mais importante da obra e dos documentos do Hercule Florence.  A coleção estava sob a guarda da família e foi reunida por seu neto, Cyrillo Hercules Florence (1901 – 1995).

 

 

Foi no livro de Florence, Livre d´annotations et les premiers matériaux, em 1834, que ele usou pela primeira vez o verbo photographier – cinco anos antes da palavra ser utilizada na Inglaterra, em 1839, por John Frederick William Herschel (1792-1871). Florence deixou uma descrição do procedimento adotado por ele para obter o registro fotográfico, em 1833.

Foi a partir da pesquisa e do teste realizados pelo professor Boris Kossoy (1941-), aos quais se seguiu a publicação de seu livro “1833: a Descoberta Isolada da Fotografia no Brasil” (1980), que Hercule Florence tornou-se conhecido internacionalmente. Convidamos vocês à leitura dos artigos O francês Hercule Florence (1804 – 1879), inventor de um dos primeiros métodos de fotografia do mundo e Florence, autor do mais antigo registro fotográfico existente nas Américas, já publicados na Brasiliana Fotográfica.

 

Acessando o link para as imagens de Hercule Florence disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Autorretrato de Hercule Flrence, 1855. Detalhe de um retrato de sua família, em Campinas

Autorretrato de Hercule Florence, 1855. Detalhe de um retrato de sua família, em Campinas

 

Foi publicado nos Anais do Museu Paulista, de dezembro de 2019, o artigo Revelando Hercule Florence, o Amigo das Artes: análises por fluorescência de raios X.  A física Márcia de Almeida Rizzutto, coordenadora do NAP-Faepah, atestou, com a ajuda do método conhecido como fluorescência de raios X por dispersão de energia (ED-XRF) para detectar a presença de elementos químicos, que os manuscritos de Florence descrevem fielmente os processos de produção fotográfica por ele testados em 1833. Segundo Boris Kossoy, “é a comprovação física daquilo que já se sabia do ponto de vista químico”.

Nos dias 23 e 24 de maio de 2023, foi realizado no Instituto Moreira Salles, de São Paulo, o seminário internacional 190 anos dos experimentos fotográficos de Hercule Florence para celebrar o seu pioneirismo na descoberta dos processos fotográficos. Vários temas relacionados a Florence foram abordados durante o evento, mas o principal assunto do encontro foi a divulgação dos resultados das análises físico-químicas realizadas, em 2022, de três objetos do inventor, por meio de uma parceria inédita entre quatro instituições de três continentes: o IMS, o Instituto Hercule Florence (IHF), de São Paulo, Brasil; o Getty Conservation Institute (GCI), de Los Angeles, EUA; e o Laboratório HERCULES da Universidade de Évora, Portugal.

 

Nota da editora: havia dúvidas em torno da data de nascimento de Hercule Florence – seria 28, 29 de fevereiro ou 9 de março de 1804. O artigo Os nascimentos de Hercule Florence, publicado em de 2022 pelo Instituto Hercule Florence esclarece que a data de nascimento foi 28 de fevereiro de 1804 e a data de batizado 29 de fevereiro de 1804. A data 9 de março foi aventada a partir de um erro de leitura de William Luret, ex-jornalista da Radio Montecarlo. Como os artigos Florence, autor do mais antigo registro fotográfico existente nas Américas e O francês Hercule Florence (1804 – 1879), inventor de um dos primeiros métodos de fotografia do mundo haviam sido publicados na Brasiliana Fotográfica em 17 de junho de 2015 e em 7 de março 2017, respectivamente, portanto antes das dúvidas em relação à data de nascimento de Florence terem sido dirimidas, constava como data de seu nascimento 29 de fevereiro de 1804, como o próprio havia escrito em seu diário. Segundo Thierry Thomas, historiador belga que se debruçou sobre vida e obra de Florence, o artista pode não ter se enganado. “Hercule, de verdade, não se engana totalmente. Muitas pessoas no passado, consideravam o dia do batismo como o dia de nascimento. Pode ser também que ele só consultou o registro de batismo e não o registro de nascimento”.  As correções já foram realizadas e explicadas nos artigos mencionados.

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Leia aqui o artigo Hercule Florence e “a arte de inventar”; as mobilizações da memória, de autoria de Maria InezTurazzi, no site Instituto Hercule Florence