Breves perfis e cronologias dos irmãos e fotógrafos Malta: Aristógiton (1904-1954) e Uriel (1910 – 1994)

Hoje a Brasiliana Fotográfica publica breves perfis e as 70ª e 71ª cronologias de fotógrafos presentes no acervo fotográfico do portal. São dos irmãos e fotógrafos Aristógiton e Uriel Malta. As cronologias estão todas reunidas na página inicial da Brasiliana Fotográfica na aba Cronologia de Fotógrafos. Aristógiton e Uriel são filhos de Augusto Malta (1864 – 1957), que foi fotógrafo da Prefeitura do Rio de Janeiro, entre 1903 e 1936. O cargo foi criado para ele, que tornou-se o principal cronista visual da cidade nas primeiras décadas do século XX. Disponibilizamos hoje também uma versão revisada e ampliada do artigo O alagoano Augusto Malta, fotógrafo oficial do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936, e da Cronologia de Augusto Malta, originalmente publicados no portal, em 10 de julho de 2015.

O trabalho de Aristógiton e Uriel ficou durante muitas décadas à sombra da extraordinária obra de seu pai. A publicação, em 27 de janeiro de 2026, do livro digital Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945) , com fotografias produzidas pelos filhos de Augusto Malta pertencentes ao acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, resgatam a importância do trabalho deles, que fotografaram os últimos anos da belle époque carioca assim como seu desaparecimento.

 

Aristógiton Malta (1904-1954)

 

 

Aristógiton nasceu em 25 de agosto de 1904, no Rio de Janeiro, e era filho da primeira esposa de Augusto Malta, Laura Oliveira Campos (1874 – 1905). De temperamento alegre e afável, era um desportista e praticou remo durante muitos anos. Casou-se com Helena de Freitas Moutinho (1906 – 1975), no início da década de 1930. Tiveram sete filhos: Marcus Moitinho Malta (1933 – 1977), Maryse Malta Muller (1935 – ), Mauro Moitinho Malta (1937 – ), Marcelo Moitinho Malta (1940 – 2020), Marcio Moitinho Malta (1946 -), Antonio Carlos Moitinho Malta (1947 – 1950) e Monica Moitinho Malta (1952 -1952).

 

Aristógiton e Helena com Maryse, Marcus,

O casal Aristógiton e Helena com os filhos Maryse, Marcus, Mauro e Marcelo no colo da mãe, 1940 / Acervo pessoal de Maryse Muller

 

Em 1932, foi contratado como fotógrafo assistente da Prefeitura do Rio de Janeiro. Em 25 de agosto de 1936, Augusto Malta aposentou-se da Prefeitura e foi substituído por Aristógiton, a partir de 9 de setembro do mesmo ano. Em 1938, o presidente da República, Getúlio Vargas (1882 – 1954), visitou a “Feira de Amostras”,  uma exposição de diversas secretarias da Prefeitura do Rio de Janeiro. Um dos stands de maior sucesso foi o da Secretaria de Viação, Trabalho e Obras Públicas, que expôs fotos de Augusto e Aristógiton. Em 1953, foi noticiado que uma foto de sua autoria do Estádio do Maracanã estava nas paredes de todas as repartições da Prefeitura, no hall do Banco da Prefeitura, e também em hotéis em países da Europa, da América do Sul e dos Estados Unidos. Faleceu em 15 de agosto de 1954.

 

Aristogiton Malta (1896-1954) / Site Family Search

Aristógiton Malta, s/d / Site Family Search

 

Acesse aqui a Cronologia de Aristógiton Malta (1904 – 1954)

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Aristógiton Malta disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Uriel Malta (1910 – 1994)

 

 

Uriel Malta nasceu, em 28 de setembro de 1910, no Rio de Janeiro, filho da segunda esposa de Augusto, Celina Augusta Verscheuren (1884 – 1969). Passou a trabalhar com o irmão, Aristógiton, no Serviço de Fotografia da Prefeitura, em 1937. Casou-se com Hilda de Abreu Malta (1908 – 1976), em 1944. Tiveram pelo menos três filhos: Claudius Vinicius de Abreu Malta (1945-2010), Lelia Sandra de Abreu Malta (19? – ?) e Lelia Egle de Abreu Malta (19? – ?). Foi fotógrafo da Prefeitura até fins da década de 1960 e, em 1970, teve assinada a apostila fixando os proventos anuais de inatividade. Uriel faleceu, em Magé, em 5 de agosto de 1994.

 

Acesse aqui a Cronologia de Uriel Malta (1910- 1994)

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Uriel Malta disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Augusto Malta (1864 – 1957)

 

 

Acesse aqui a publicação O alagoano Augusto Malta, fotógrafo oficial do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936 e a Cronologia de Augusto Malta (1864 – 1957), revisadas e ampliadas.

 

Agradeço à colaboração generosa da filha de Aristógiton Malta, Maryse Muller, e de uma de suas netas, Christiana Malta, que me deram um depoimento fundamental para a elaboração deste artigo, em 20 de março de 2026.

 

Christiana Malta e Maryse Muller, neta e filha de Aristógiton Malta

Christiana Malta e Maryse Muller, neta e filha de Aristógiton Malta, respectivamente, comigo, Andrea Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, 20 de março de 2026. Rio de Janeiro

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Achados e Perdidos (livro eletrônico): Imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945)/Eliseu Santiago de Souza…(Et.Al.) — 1ª edição. Rio de Janeiro: Aprazível Edições e Arte e UQ Editions, 2025 PDF. Outros autores: Pedro Marreca, Rafael Martins, Leonel Kaz.

Blogspot Domingos Moitinho

DUNLOP, Charles Julius. Rio Antigo, volume II. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo, 1956.

ERMAKOFF, George. Augusto Malta e o Rio de Janeiro: 1903-1936 / George Ermakoff; tradução para o inglês Carlos Luís Brown Scavarda. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2009. 288p. : il.; 28cm

FROSSARD, Heloisa (org.) Augusto Malta – Catálogo da série Negativo em vidro Aristógiton Malta. Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro – Coleção Biblioteca Carioca, 1994.

HEEREN, Alice. Affective Rhetorics of Contagion – Augusto Malta in Belle Époque Rio de Janeiro, 2020.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Nosso Século. São Paulo; Abril Cultural, 1980. vol. 1 (1900-1910)

Portal Augusto Malta do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

Site A Casa Senhorial

WANDERLEY, Andrea C. T. “Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945)”, do acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Destaque para a identificação da casa de Tia Ciata in Brasiliana Fotográfica, 10 de fevereiro de 2026

O Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor e um breve histórico do uso da expressão “Cidade Maravilhosa” como referência ao Rio de Janeiro

Hoje, quando é comemorado o Dia Mundial do Livro e do Direito de Autor, o Rio de Janeiro, a Cidade Maravilhosa, passa a Rabat, capital de Marrocos, o posto de Capital Mundial do Livro, que assumiu há exatamente um ano. O Rio foi a primeira cidade de língua portuguesa escolhida para receber este título, um reconhecimento da excelência de seus programas de promoção da leitura. Em homenagem à cidade, cuja beleza e vocação exibicionista são inequívocas, a Brasiliana Fotográfica publica uma seleção de fotos da paisagem carioca, de alguns de seus símbolos mais icônicos e conta uma pouco da história do uso da expressão Cidade Maravilhosa, que tornou-se seu epíteto.

 

 

Segundo o poeta e editor Alexei Bueno (1963 – ), a poetisa francesa Jane Catulle Mendès (1867 – 1955) foi, senão a criadora, a oficializadora do epíteto do Rio de Janeiro. Para o jornalista Rafael Sento Sé, autor do livro que inspirou esse artigo, foi ela que criou o sonho de um Rio de Janeiro da Belle Époque. 

 

 

 

 

Mas a expressão se popularizou, de fato, a partir da canção homônima de André Filho (1906 – 1974), gravada, em 1934, por ele e por Aurora Miranda (1915 – 2005) e sucesso no carnaval de 1936. O epíteto tornou-se eterno!

Viva a leitura! Viva a fotografia! Viva a Cultura! Viva a Cidade Maravilhosa!

 

 

Foram selecionados para essa publicação registros produzidos por fotógrafos ainda não identificados, e por Antônio Caetano da Costa Ribeiro (18? – 19?)Augusto Malta (1864 – 1957), Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897) e Marc Ferrez (1843 – 1923). São belas imagens produzidas desde fins do século XIX até as primeiras décadas do século XX. Do primeiro, Costa Ribeiro, ainda não temos informações consistentes sobre sua vida e trajetória profissional.

 

 

Acessando o link para fotos selecionadas da Cidade Maravilhosa de autoria de Antônio Caetano da Costa Ribeiro, Augusto Malta, Juan Gutierrez e Marc Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Augusto Malta (1864 – 1957)

Foi na gestão do engenheiro Francisco Pereira Passos (1836 – 1913) como prefeito do Rio de Janeiro que, pela primeira vez, a prefeitura contratou um fotógrafo, o alagoano Augusto Malta, para documentar as obras da cidade. Ele ocupou o cargo até 1936, quando se aposentou. Incansável, elegante e bem-humorado, foi com seus olhos irrequietamente falantes o principal cronista visual do Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX. Além de ter documentado as transformações urbanas e os grandes eventos da cidade como a Exposição Nacional de 1908, a construção do Teatro Municipal, em 1909; a Revolta da Chibata, em 1910; e a inauguração do Cristo Redentor, em 1931; fotografou personalidades políticas, intelectuais e artísticas; paisagens, monumentos, lojas, o casario decadente e as ressacas. Registrou também aspectos da vida carioca como, por exemplo, o carnaval de rua, o movimento dos quiosques, os eventos sociais, os moradores de cortiços, os vendedores ambulantes, as prostitutas, os marinheiros e cenas de praia.

 

 

Juan Gutierrez (c.1860 – 1897)

Provavelmente nascido nas Antilhas, em torno de 1860, Juan Gutierrez foi um dos mais importantes fotógrafos paisagistas do século XIX e um dos maiores cronistas visuais do Rio de Janeiro, tendo registrado a transição da cidade imperial para a cidade republicana. Entre 1892 e 1896, produziu a maior parte de suas fotografias de paisagens cariocas, que eram vendidas para estrangeiros que visitavam a cidade. Partiu para Canudos, em 1897, onde, em 28 de junho, foi mortalmente ferido.

 

 

Marc Ferrez (1843 – 1923)

O carioca Marc Ferrez foi um brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes do Rio de Janeiro da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Sua vasta e abrangente obra iconográfica se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Estabeleceu-se como fotógrafo com a firma Marc Ferrez & Cia, em 1867, na rua São José, nº 96, e logo se tornou o mais importante profissional da área no Rio de Janeiro. Cerca de metade da produção fotográfica de Ferrez foi realizada na cidade e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais.

 

 

Breve histórico do uso da expressão Cidade Maravilhosa como referência ao Rio de Janeiro

 

 

A Cidade Maravilhosa e Alfredo Maia (1850 -1887)

 

O escritor e oficial da Marinha Portuguesa Alfredo Maia usou a expressão cidade maravilhosa ao referir-se ao Rio de Janeiro no capítulo XIII de seu folhetim Viagens de um marinheiro, publicado no jornal português Jornal da Noite (Jornal da Noite (Portugal), 05 e 06 de agosto de 1879, terceira coluna).

A capital do império brasileiro goza créditos de uma cidade maravilhosa e a sua baía rivaliza, diz-se, com o porto de Constantinopla e de Lisboa. Vamos lá ver tudo isso e sejamos justos em nossa admiração pelo que virmos…Com efeito, é esplêndido o magnífico porto do Rio de Janeiro, onde cabem à larga todas as esquadras do mundo!”.

 

 

 

Alfredo de Lacerda Maia, nascido em Alijó, cidade localizada na região do Douro, em 1850, foi redator dos jornais portugueses Atlantico, folha destinada ao Brasil e repúblicas do Rio da Prata, do Jornal do Noite e do Mercantil . Foi também colaborador da revista Chronicas Modernas. Em 1883, era segundo-tenente, comandante da lancha Rio Minho e por sua atuação recebeu uma nota de louvor do Ministério da Marinha de Portugal. Em 1886, já como capitão-tenente, era o governador do Timor e, pelos serviços que prestou ao comércio, recebeu dos negociantes da mencionada colônia portuguesa uma espada de honra. No mesmo ano, foi agraciado pelo governo português com a Comenda de Aviz. De Surabaia, foi enviado um telegrama para governo português informando que Maia havia sido assassinado pelos indígenas. Foram pedidos socorros para Macau. O assassinato ocorreu, em 3 de março de 1887, em Díli. Ele era casado e deixou um filho de 10 anos. Foi publicado, no Correio da Manhã, em 14 de março, poucos dias após seu assassinato, um artigo de sua autoria sobre uma visita que havia realizado ao sultão de Zanzibar (Jornal da Noite (Portugal), 26 e 27 de janeiro de 1880, última coluna27 e 28 de dezembro de 1880, quinta coluna; 7 e 8 de abril de 1881, segunda coluna; 23 e 24 de julho de 1883, terceira coluna11 e 12 de março de 1886, terceira coluna25 e 26 de agosto de 1886, quarta coluna11 e 12 de março de 1887, segunda colunaCorreio da Manhã (Portugal), 1º de outubro de 1886, terceira coluna; 8 de novembro de 1886, primeira coluna11 de março, de 1887, quarta coluna14 de março de 188727 de abril de 1887, quarta coluna).

 

 

A Cidade Maravilhosa e o escritor italiano Edmondo de Amicis (1846 – 1908)

 

 

Segundo o escritor e filósofo Ivo Karytowski (1951 -), em seu artigo Origem do epíteto “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro: lenda e verdade, foi feita uma referência ao Rio de Janeiro como uma cidade maravilhosa, em 1902, em um artigo escrito pelo italiano Edmondo de Amicis e publicado no suplemento La Lettura do jornal milanês Corriere della Sera. Amicis, em 1884, retornando de uma viagem à Argentina, fez uma rápida escala no porto do Rio. Segue o trecho do artigo em que a expressão foi usada:

“– Por que o senhor nunca escreveu nada sobre o Rio de Janeiro?

Esta pergunta me foi feita uma centena de vezes durante os dezoito anos que se passaram desde que fui ao Brasil, e cem vezes dei sempre a mesma resposta pronta, tal como fazem os deputados quando conversam com os eleitores:

– Porque fiquei apenas três dias, quando o Sírio, o navio em que viajei de Buenos Aires para Gênova, fez uma escala no porto da cidade. Amigos bondosos se desdobraram para me mostrar tudo, levando-me para todos os lados de carruagem, de bonde e em via férrea, desde cedo até a noite, como alguém que quisessem salvar da caça de uma banda de credores; vi muito, mas vi tudo correndo, afobado e com os olhos ofuscados pelo cansaço, de forma que me esqueci de muitas coisas, e de outras só tenho uma vaga lembrança, e até das imagens que se mantiveram mais vivas tenho lacunas obscuras, sobre as quais mesmo se reflito longamente nunca consegui captar uma mínima recordação. O que poderia escrever? Seria como descrever um sonho.

A esta resposta de sempre, poucos dias atrás, um intrépido italiano, que recentemente voltou do Brasil para Itália, rebateu sagazmente: – Mas o senhor não se sente tentado a fazer a descrição de uma cidade maravilhosa (E non la tenta la descrizione d’uma città maravigliosa, no original italiano), onde permaneceu somente poucas horas, e da qual se lembra apenas como um sonho?”

– Eis aí uma ideia – pensei.

E aquela ideia colocou-me a pena na mão e pregou-me à escrivaninha.

[…]

Sim, Mantegazza tinha razão quando me escreveu: – Queira me desculpar, mas o Rio de Janeiro é mais bonito que Constantinopla. – Não é que a cidade seja mais bonita, mas sim o lugar, as águas, toda a natureza que a circunda. Oh, não há comparação!”

Transcrito do artigo Origem do epíteto “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro: lenda e verdade,

de Ivo Karytowski,  2022.

 

 

O escritor e militar italiano Edmundo De Amicis nasceu em Oneglia, em 21 de outubro de 1846, e faleceu em Bordighera, em 11 de março de 1908. Sua maior obra foi o livro Coração (1886). A viagem durante a qual passou rapidamente no Rio de Janeiro, entre Gênova e Montevidéu, na primavera de 1884, a bordo do vapor Nord America, inspirou o livro de sua autoria, Sull’oceano (No oceano), publicado em 1889, misto de romance e diário de bordo. Seu tema é a emigração italiana para a América do Sul no final do século XIX. Foi traduzido para o português por Adriana Marcolini e publicado em 2017, no Brasil, com o título Em Alto-mar.

 

A Cidade Maravilhosa e o carnaval de 1904

 

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Numa notícia sobre o préstito carnavalesco do Clube de São Cristóvão, foi publicada, no jornal O Paiz, de 16 de fevereiro de 1904, versos que protestavam contra as carrocinhas que pegavam cachorros nas ruas. Na última estrofe, foi usada a expressão cidade maravilhosa, referind0-se ao Rio de Janeiro. Foi, muito provavelmente, a primeira vez que a expressão, referindo-se ao Rio de Janeiro, foi publicada na imprensa brasileira.

 

 

 

Daí por diante, na imprensa, volta e meia a expressão aparecia em referência à cidade (O Paiz, 4 de maio de 1904, quinta colunaO Malho, 24 de novembro de 1906A Notícia, 22 e 23 de maio de 1907, primeira coluna; 6 e 7 de julho de 1909, terceira coluna; 26 e 27 de julho de 1909, penúltima coluna; 15 e 16 de agosto de 1910, terceira coluna; 21 e 22 de setembro de 1909, penúltima colunaRevista da Semana, de 3 de novembro de 1907, terceira colunaA Imprensa, 8 de agosto de 1909, terceira coluna; Gazeta de Notícias, 4 de agosto de 1909, quinta coluna.

 

 

Em 1908, a expressão cidade maravilhosa foi usada diversas vezes não se referindo à cidade do Rio de Janeiro, mas ao espaço onde se realizou a Exposição Nacional Comemorativa do Centenário da Abertura dos Portos, na Urca (O Paiz, 24 de agosto de 1908, primeira coluna; 17 de novembro de 1908, primeira e segunda colunas; 16 de dezembro de 1908, primeira colunaGazeta de Notícias, 16 de outubro de 1908, quarta coluna; Jornal do Commercio, 27 de setembro de 1908, penúltima coluna).

Uma curiosidade: ainda nos anos 1900, Paris, São Paulo, o vale de Sorgues, Buenos Aires, Sevilha e Veneza foram referidas na imprensa brasileira como cidades maravilhosas (O Paiz, 9 de fevereiro de 1900, primeira coluna3 de abril de 1905, segunda coluna; 24 de março de 1907, segunda coluna; A Notícia, 13 de 14 de junho de 1904, primeira coluna; Gazeta de Notícias, 9 de dezembro de 1906, segunda coluna; 12 de janeiro de 1908, última coluna; Jornal do Commercio, 18 de outubro de 1907, quarta coluna; Revista da Semana, 2 de novembro de 1902, primeira coluna).

 

A Cidade Maravilhosa e Coelho Neto (1864 – 1934)

 

 

Coelho Neto foi um importante escritor e teatrólogo brasileiro, tendo sido um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 1897. Nasceu em 21 de fevereiro de 1864, em Caxias, no Maranhão, e faleceu, em 28 de novembro de 1934, no Rio de Janeiro.

A polêmica em torno de ele ser ou não o autor da expressão cidade maravilhosa em referência ao Rio de Janeiro é antiga: o uso da expressão pela poetisa francesa Jane Catulle Mendés, de quem falaremos mais adiante, foi lembrada na biografia do compositor Mário Penaforte (1876 – 1928), lançada no livro intitulado O rei da valsa, em 1958, escrito pelo poeta e tradutor Onestaldo de Pennafort (1902 – 1987) (Correio da Manhã, de 1958, 19 de agosto de 1958, quarta coluna). O filho de Coelho Neto, Paulo (1893 – 1985), publicou um pequeno livro de 16 páginas, Restabelecendo a verdade, defendendo o pai como autor da expressão (Correio da Manhã, 2 de novembro de 1958, primeira coluna). Onestaldo e Paulo comentaram a polêmica no jornal Correio da Manhã nos artigos Controvérsia em torno da “Cidade Maravilhosa” e Cidade Maravilhosa, respectivamente (Correio da Manhã, 15 de novembro de 1958  e 22 de novembro de 1958, terceira coluna). A polêmica voltou à baila, em 1965, quando se comemoravam os 400 anos do Rio de Janeiro, quando foi sugerido por leitores do jornal O GLOBO que Jane Catulle Mendès nomeasse um logradouro carioca já que teria sido a criadora da expressão. No dia seguinte, Paulo Coelho Neto, em uma matéria publicada no jornal voltou a afirmar que seu pai era o autor do epíteto. Não adiantou: uma praça em Campo Grande foi batizada com o nome Catulle Mendès (O GLOBO, 18 e 19 de maio de 1965).

 

O GLOBO, 18 de maio de 1965

O GLOBO, 18 de maio de 1965

 

O GLOBO, 19 de maio de 1965

O GLOBO, 19 de maio de 1965

 

Vamos aqui listar o uso da expressão por Coelho Neto:

No capítulo VII do folhetim Mistério de Natal, Coelho Neto usou a expressão cidade maravilhosa, mas ela não se referia ao Rio de Janeiro (O Paiz, 14 de dezembro de 1904, penúltima coluna).

Segundo uma carta do general Paulo de Bittencourt Amarante enviada para a coluna “Encontro Matinal”, da Eneida (1904-1971), grande cronista do carnaval carioca, Coelho Neto teria se referido ao Rio de Janeiro como cidade maravilhosa na palestra Antiga Cidade, proferida em 10 de outubro de 1908, na Academia Nacional de Música (Diário de Notícias, 19 de fevereiro de 1965, primeira coluna). Porém, na leitura da palestra, não se encontra a expressão (Palestras da Tarde (1911), página 33).

 

 

Na crônica Os Sertanejos, também de autoria de Coelho Neto, publicada no jornal A Notícia, de 29 e 30 de outubro de 1908, ele voltou a usar a expressão cidade maravilhosa, desta vez para referir-se à área onde foi realizada a Exposição Nacional Comemorativa do Centenário da Abertura dos Portos, realizada entre 11 de agosto e 15 de novembro de 1908, e não à cidade do Rio de Janeiro. A crônica conta a história de um grupo de matutos que se apresentaria no evento, mas, impressionados com a modernidade do Rio de Janeiro, não conseguem se apresentar bem, decepcionando o público (A Notícia, 28 e 29 de outubro de 1908, primeira coluna). Na crônica (1), quando adentraram a exposição:

“Era ao cair da tarde, uma tarde elegíaca, violácea, quieta, sem o silvo de uma cigarra. Os penhascos pareciam de lápis lazuli e os palácios, ainda mais brancos sobre o fundo escuro das rochas portentosas, alvejavam marmóreos. Longe, nos estábulos, o gado tino mugia, nostálgico, pondo no silêncio enlevado a tristeza bucólica das várzeas, em contraste com o requinte da cidade maravilhosa Estacaram deslumbrados. A Cidade Maravilhosa resplandecia como nas lendas. No fundo, na concha do palácio das Indústrias, a água escachoava colorindo-se à refração das luzes. Surgiram monstros flamineos acaçapados, no relvedo, esguicharam repuchos policromicos e a mísera gente tremia e encomendavam-se aos santos, fazendo promessas árduas, arrependida de haver seguido o diabo sedutor que a fora buscar no repouso feliz da sua terra para arrojá-la naquele inferno”.

 

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A Notícia, 29 e 30 de outubro de 1908. As edições de 1908 de A Notícia não constam da Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, só estando disponíveis em microfichas na instituição

 

Parece que Cidade Maravilhosa não se referia ao Rio de Janeiro, mas ao recinto onde se realizava a Exposição de 1908.

Em 10 de novembro de 1927, Coelho Neto publicou no Jornal do Brasil uma versão modificada de Os Sertanejos, agora com o título Sertanejos, e nela a expressão Cidade Maravilhosa se referia certamente ao Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 10 de novembro de 1927, penúltima coluna).

“- Ocê uviu, Clódina ? A modi qu’é boi berrando. Não vá sê genti incantada! Era a hora angelical e o bando poz-se a rezar baixinho, á medida que a noite começa a desengranzar o seu rosario de estrellas. Subito, uma deflagração. Collares de lampadas de fogo e a linha dos edificios debruada a luzes. Foi um medo panico indizivel: “Misericordia! Credo! Abrenuntio! P’ras areias gordas!”
– Sê tá vendo, Clódina ? Eu não dixe qu ́é u inferno ? Oia cumu tudo s’accendeu d’uma vez ! sem phosque. Estacaram deslumbrados.
A Cidade maravilhosa resplandecia como nas lendas. E a misera gente tremia e encommendava-se a Deus, a Nossa Senhora e aos santos, fazendo promessa, arrependida de haver seguido o demonio tentador que a fôra buscar no repouso feliz da sua terra. E quando appareceu um automovel urrando, com os dois immensos olhos accesos em clarões, a debandada foi tumultuosa e gritos e esconjuros atroaram. Foi em tal estado d’alma que os sertanejos ensaiaram no cinema os cantos e as danças em que são exímios”.

 

 

Posteriormente, em 1928, ele lançou o livro Cidade Maravilhosa, mas no conto que dá nome à obra o Rio de Janeiro não é descrito. O termo se referia a uma cidade dos sonhos, uma cidade imaginária.

 

 

 

“Aqui a tem a sua cidade maravilhosa. Viu-a de longe, era linda. Veja agora. Ilusões, fanciulla…Ilusões…Adriana olhava estarrecida. Mas não era a destruição das árvores, não eram aquelas cinzas pardacentas, ainda mornas, não eram aqueles troncos denegridos, aqueles ramos que rechinavam amojados de seiva que a comoviam, mas a lembrança da cena da estrada, da sedução do homem sinistro a mostra-lhe, ao longe, no fogaréu rutilante, a cidade maravilhosa, cidade do sonho, cidade do amor”.

 

A Cidade Maravilhosa e Vicente Blasco Ibáñez (1867 – 1928)

 

 

Em uma entrevista para o correspondente de O Estado de S. Paulo em Buenos Aires, o escritor, jornalista e político espanhol Vicente Blasco Ibáñez referiu-se ao Rio de Janeiro como cidade maravilhosa. Tinha estado por poucos dias na cidade (Diário do Maranhão, 27 de agosto de 1909, segunda coluna).

 

 

Blasco Ibáñez nasceu em Valencia, na Espanha, em 29 de janeiro de 1867, e faleceu, em Menton, na França, em 28 de janeiro de 1928. Tornou-se um dos mais famosos romancistas espanhóis de seu tempo. Era contra a monarquia e fundou, em 1894, o jornal El Pueblo. Foi deputado, representante do Partido Republicano, entre 1898 e 1907. Em 1914, quando teve início a I Grande Guerra Mundial,  tornou-se correspondente. Seu livro de maior sucesso foi Os quatro ginetes do Apocalipse (1916).

 

 

A Cidade Maravilhosa e Jane Catulle Mendès (1867 – 1955)

 

 

Cidade Maravilhosa – La Ville Merveilleuse -, é o nome do livro onde os poemas enaltecendo o Rio de Janeiro, de autoria da escritora e feminista francesa Jane Catulle Mendès (1867 – 1955), foram publicados, em 1913. Pela primeira vez, a expressão dava título a um livro.

 

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Ilustração de Jane Catulle Mendès no frontispício do livro

 

Ainda em 1913, foi publicada no Jornal do Brasil, de 11 de maio, uma crítica extremamente favorável ao livro. Nela, está a poesia Promenade, que Jane escreveu dedicada a Fernando Mendes de Almeida (1845 – 1921), redator-chefe do jornal.

 

 

Ela havia passado uma temporada no Rio de Janeiro que, a princípio, seria de três semanas, mas que se estendeu de 20 de setembro a 6 de dezembro de 1911, quando Jane se encantou pela cidade, cuja elite era profundamente influenciada pela cultura francesa. Chegou no Rio a bordo do paquete Amazon, vindo de Buenos Aires, acompanhada por sua secretária, Mathilde Grimaud (18? -19?), desembarcando no Cais Pharoux, onde foi recebida por uma comissão da Associação Brasileira de Imprensa.

 

 

Já no dia de sua chegada declarou: “Rio de Janeiro est une ville merveilleuse dont je suis eblouie” – O Rio de Janeiro é uma cidade maravilhosa pela qual estou deslumbrada -, conforme publicado na primeira página do jornal A Imprensa, de 21 de setembro de 1911 (O Paiz20 de setembro, quarta coluna21 de setembro, segunda coluna6 de dezembro, primeira coluna de 1911; A Imprensa, 21 de setembro de 1911).

 

 

Havia sido colaboradora do jornal La Fronde, fundado pela atriz e jornalista Marguerite Durand (1864–1936), em 1897, e produzido exclusivamente por mulheres até 1905, quando foi fechado. Jane era viúva do escritor francês Catulle Abraham Mendès (1841 – 1909), expoente do parnasianismo, com quem foi casada entre 1897 e 1909.

Ela partiu de volta à Europa no paquete Danube (O Paiz6 de dezembro, primeira coluna de 1911; Gazeta de Notícias, 7 de dezembro de 1911, terceira coluna).

 

 

A passagem de Jane Catulle Mendès pelo Rio de Janeiro foi um grande sucesso. A cidade acabara de passar por uma grande reforma urbanística durante a gestão de Francisco Pereira Passos (1836 – 1913) como prefeito. Jane encantou-se pela beleza das paisagens cariocas, tanto pelas naturais como pelas construídas. Ficou hospedada no Hotel dos Estrangeiros, aonde recebeu jornalistas no dia em que chegou no Brasil, segundo o jornalista Rafael Sento Sé, foi uma coletiva de imprensa, subterfúgio até hoje comum no mundo do showbiz e que Jane organiza de forma pioneira no Rio de Janeiro.

 

 

Conheceu diversas personalidades da época, como os escritores João do Rio (1881 – 1921) e Julia Lopes de Almeida (1862 – 1934), que escreveu uma crônica a respeito dela publicada no jornal O Paiz, de 3 de outubro de 1911; a socialite, promotora cultural e feminista Laurinda Santos Lobo (1878 – 1946), o maestro Arthur Napoleão (1843 – 1925), o chargista Emílio Cardoso Ayres (1890 -1916), por quem foi retratada; o casal Stella (1879 – 1971) e Fernando Guerra Duval (18? – 1959), ela, feminista e uma das criadoras da Pró-Matre, e ele, fotógrafo amador, barítono e poeta; e o presidente da República, Hermes da Fonseca (1855 – 1923). Frequentou salões cariocas, o Club dos Diários e visitou diversos lugares da cidade como os morros do Corcovado e do Silvestre, os bairros à beira-mar da Zona Sul, a Biblioteca Nacional e o Jardim Botânico. E passeou muito pela Avenida Central (Careta, 28 de outubro; 4 de novembro, primeira coluna; O Paiz, 24 de setembro, primeira coluna30 de setembro, primeira coluna3 de outubro20 de outubro, quinta coluna; 29 de outubro, primeira coluna, 1º de novembro, primeira coluna9 de novembro , primeira colunaGazeta de Notícias, 21 de setembro, penúlltima coluna2 de novembro, segunda coluna, de 1911).

Seu poema, Rio de Janeiro, dividido em quatro partes – Matin, Crepuscule, Nocturne e Adieu – foi publicado em O Paiz, de 22 de outubro de 1911.

 

 

Fez durante sua temporada carioca três conferências: a primeira, O heroísmo da mulher francesa, em 29 de setembro, no salão da Associação dos Empregados do Comércio (Gazeta de Notícias, 29 de setembro30 de setembro, quarta colunaO Paiz, 2 de outubro de 1911, segunda coluna).

 

 

A segunda, intitulada A Parisiense, realizou-se no salão nobre do Jornal do Commercio, em 12 de outubro (Jornal do Commercio, 12 de outubro de 1911, primeira coluna).

 

 

A última foi proferida, em 24 de outubro, no Teatro Municipal sobre As escritoras francesas (O Paiz, 25 de outubro de 1911, primeira coluna).

 

 

No ano seguinte a sua partida, o jornal A Notícia, de São Paulo, promoveu um sorteio entre seus assinantes cujo terceiro prêmio seria um belo passeio ao Rio de Janeiro, à cidade maravilhosa, conforme a qualificou a notável poetiza francesa Jane Catulle Mendès (A Notícia (SP), 3 de dezembro de 1912, quarta coluna).

Segundo Alexei Bueno (1963 – ), no livro Rio Belle Époque: Álbum de imagens: Parece-nos, portanto, que a hoje totalmente esquecida Jane Catulle Mendès foi, senão a criadora, a oficializadora do epíteto do Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 16 de dezembro de 1965, última coluna). Conforme o título do livro de Rafael Sento Sé, fruto de 13 anos de pesquisa, foi Jane Catulle Mendès que criou o sonho de um Rio de Janeiro da Belle Époque.

 

cidade

 

A Cidade Maravilhosa e Eugênio de Lemos (18? – 19?)

 

No mesmo ano da publicação do livro de Jane Catulle Mendés, 1913, no jornal A Notícia, na coluna “Contos de Hoje”, de Eugenio de Lemos, foi publicada a crônica A Cidade Maravilhosa. Acredita-se que esta foi a primeira vez que a expressão deu título a um artigo artigo jornalístico sobre o Rio de Janeiro. Nela, o autor comentava as belezas da cidade (A Notícia, 20 e 21 de março de 1913).

 

 

 

A Cidade Maravilhosa e Olegário Mariano (1889 – 1958)

 

 

O poeta e político recifense Olegário Mariano Carneiro da Cunha nasceu em 24 de março de 1899.  Publicou, em 1922, pela editora Pimenta de Mello, o livro de poesias Cidade Maravilhosa. Uma segunda edição, ampliada, foi editada pela Companhia Editora Nacional, em 1930. O livro traz 14 poemas, sendo quatro alusivos aos Rio de Janeiro: Cidade Maravilhosa, O aspecto mais lindo da cidade, Na feira livre de Copacabana e O crepúsculo na Quinta da Boa Vista. O príncipe dos poetas faleceu em 28 de novembro de 1958, no Rio de Janeiro (O Jornal, 21 de novembro de 1968).

 

 

 

Cidade Maravilhosa

Olegário Mariano

Cidade maravilhosa!
Na luz do luar, fluídica e fina,
Lembra excêntrica bailarina,
Corpo de náiade ou sereia,
Desfolhando-se em pétalas de rosa,
Com os pés nus sobre a areia.
Cidade do gozo e do vício!
Flor de vinte anos, rosa do desejo!
Corpo vibrando para o sacrifício,
Seios à espera do primeiro beijo.
Cidade do Amor e da Loucura,
Das estrelas errantes…Para vê-las,
Vibra no olhar de cada criatura
Uma ânsia indefinida
Pelo brilho longínquo das estrelas
Que é, como tudo, efêmero na vida.
Cidade do Êxtase e da Melancolia,
De dias tristes e de noites quietas;
Sombra desencantada da alegria
Dos que vivem de lágrimas, os poetas.
Cidade de árvores e sinos.
De crianças e jardins. Flor das Cidades;
Berço de ouro de todos os Destinos,
Fonte eterna de todas as Saudades.

Olegário Mariano foi membro da Academia Brasileira de Letras. Seu livro de estreia foi Angelus, em 1911. Sua obra poética foi publicada nos dois volumes de Toda uma vida de poesia (1957), publicados pela José Olímpio. Também publicou, durante anos, nas revistas Careta e Para Todos, sob o pseudônimo de João da Avenida, uma seção de crônicas mundanas em versos humorísticos, que foram reunidas nos livros: Bataclan (1927) e Vida, caixa de brinquedos (1933).

 

Manuel Faria (1895 – 1980) e a Cidade Maravilhosa 

 

 

O pintor Manuel Faria (1895 – 1980), um poeta do pincel que se vem revelando invulgarmente, aplicando-se em mostrar os panoramas deslumbrantes da cidade, inaugurou, no Palace Hotel, sob os auspícios do Centro Carioca, uma exposição em que a Cidade Maravilhosa encontra o seu pintor entusiasta e escrupuloso. Os quadros eram de paisagens do Rio de Janeiro e o pintor pretendia a partir da mostra organizar um álbum ilustrado que seria intitulado Cidade Maravilhosa (O Cruzeiro, 27 de dezembro de 1930, Jornal do Brasil, 16 de dezembro de 1930, segunda coluna).

 

 

 

Manuel Faria Guimarães estudou na Escola Nacional de Belas Artes, tendo sido discípulo de João Baptista da Costa (1865 – 1926), Lucílio de Albuquerque (1877 – 1939) e Rodolfo Chambelland (1879 – 1967). Ocupou a cadeira 9 da Academia Brasileira de Belas Artes.

 

 

A Light e a Cidade Maravilhosa

Foi publicado, em 1932, o livro Crônicas da Cidade Maravilhosa, editado pelo Departamento de Publicidade da Light. Na edição de Vida Literária, de dezembro de 1931, foi publicado seu prefácio que informava que tratava-se de uma obra de pura publicidade, mas que seria também uma obra literária (Vida Literária, dezembro de 1931).

 

 

O  livro, que seria um reflexo de nossa invejáveis belezas naturais e de nosso adiantamento industrial e de nossa civilização urbana, reunia artigos de escritores e artistas publicados em jornais e revistas sobre alguns dos melhores serviços da Light à população do Rio de Janeiro. Um exemplar do livro foi enviado para a revista Brasil Feminino (Brasil Feminino, julho de 1932).

 

 

César Ladeira (1910 – 1969) e a Cidade Maravilhosa

 

 

César Ladeira, um dos mais famosos locutores do Brasil e um dos ícones da Era de Ouro da rádio brasileira, foi contratado, em 1933, pela Rádio Mayrink Veiga como locutor e diretor artístico e mudou-se para o Rio de Janeiro. Em 1º de setembro de 1933, estreou no programa Crônicas da Cidade Gozada, onde lia crônicas de Genolino Amado (1902 – 1989). De acordo com Henrique Foréis Domingues, pseudônimo Almirante (1908 – 1980), em seu livro No Tempo de Noel Rosa: O Nascimento do Samba e a Era de Ouro da Música (2013), devido a críticas dos ouvintes, o programa teve seu nome mudado para Crônicas da Cidade Maravilhosa. Ladeira também publicava na revista O Malho a coluna “A Crônica da Cidade Maravilhosa” (O Malho, 30 de novembro de 1933Gazeta de Notícias, 6 de setembro de 1935, quinta coluna; Fon-Fon, 3 de setembro de 1938, segunda coluna).

 

 

A revista Cidade Maravilhosa, de César Ladeira, estreou no Teatro Recreio, em 4 de janeiro de 1935, e foi um sucesso. No elenco, estrelavam Aracy Cortes (1904 – 1985), Eva Todor (1919 – 2017), Ítala Ferreira (1901 – 1967), Zaira Cavalcanti (1913 – 1981), Henrique Chaves (19? – ?) e João Martins (19? – ?), dentre outros. Depois de um breve intervalo, voltou ao cartaz, em 12 de março de 1935. Sua última apresentação aconteceu em 17 de março (Gazeta de Notícias, 11 de janeiro de 1935, quarta coluna; O Jornal2 de janeiro de 1935, última coluna, 4 de janeiro de 1935, última coluna; 6 de janeiro de 1935, quinta coluna11 de janeiro de 1935, sétima coluna; 12 de março de 1935, última coluna; 16 de março de 1935, penúltima coluna).

 

 

Ainda em 1935, o enredo do bloco carnavalesco Caçadores de Veados foi Cidade Maravilhosa (O Jornal, 21 de fevereiro de 1935, quarta coluna).

 

A Cidade Maravilhosa, hino oficial do Rio de Janeiro, e André Filho (1906 – 1974), seu autor

 

 

Foi a marchinha Cidade Maravilhosa que consagrou definitivamente a expressão como epíteto do Rio de Janeiro! Antônio André de Sá Filho (1906 – 1974), que ficou conhecido como André Filho, nascido na Rua da Carioca, em 21 de março de 1906, compôs a música, que foi gravada por ele e por Aurora Miranda, em 4 de setembro de 1934 (Diário de Notícias, 24 de janeiro de 1965, primeira colunaCorreio da Manhã, 17 de fevereiro de 1965, terceira coluna).

 

 

O disco, cuja outra canção era Toda gente cantando, foi lançado no mês seguinte pela Odeon.

 

 

Cidade Maravilhosa

André Filho

Cidade maravilhosa, cheia de encantos mil

Cidade maravilhosa, coração do meu Brasil!

Aurora entoa então, em tom menor, a primeira estrofe da segunda parte:

Berço do samba e das lindas canções
Que vivem n’alma da gente
És o altar dos nossos corações
Que cantam alegremente

Jardim florido de amor e saudade

Terra que a todos seduz
Que Deus te cubra de felicidade
Ninho de sonho e de luz

 

A marchinha Cidade Maravilhosa foi inscrita, no ano seguinte, no Concurso de Carnaval da Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, obtendo, para indignação de André Filho e da plateia, a segunda colocação na categoria Marcha. A final aconteceu, em 10 de fevereiro de 1935, no Teatro João Caetano, e a canção vencedora foi Coração Ingrato, interpretada por Silvio Caldas (1908 – 1998), de autoria de Antônio Nássara (1910 – 1996) e Eratóstenes Alves Frazão (1901 – 1977). O terceiro lugar ficou para Joia falsa, de Osvaldo Santiago (1902 – 1976). Silvio Caldas foi muito vaiado e a André Filho foi feita grande manifestação, com toda a plateia de pé (A Noite, 11 de fevereiro de 1935O Jornal, 12 de fevereiro de 1935, quinta coluna).

Na visita que fez à redação do jornal A Noite, no mesmo dia do concurso, André Filho declarou:

“O julgamento eu coloco em plano secundário. O povo, o verdadeiro juiz, deu ao meu modesto trabalho o valor que eu, realmente, não imaginava ter “.

 

 

No mesmo concurso, na categoria Samba, a classificação foi a seguinte: em primeiro lugar, Implorar, do italiano Kid Pepe (1909 – 1961) e do português Germano Augusto (1901 – 1950), curiosamente, dois estrangeiros. Este samba causou uma polêmica pública quanto a sua real autoria, pois segundo alguns, seria do falecido sambista Cedá, que o vendera a Kid Pepe por 30 mil réis. Segundo depoimento de Kid Pepe reproduzido no livro “A canção no tempo”: “João Gaspar me mostrou um estribilho que gostei. Consegui então autorização dele, por escrito, para consertar o estribilho (que estava quebrado) e compor uma segunda parte e a introdução. Desse jeito fizemos “Implorar”. Agora, se provarem que o coro apresentado pelo Gaspar não lhe pertence, darei minha á família do falecido a parte dele” (Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira). Em segundo lugar, classificou-se o samba Foi ela, de Ary Barroso (1903 – 1964); e, em terceiro, Agradeça a mim, de Ismael Silva (1905 – 1978).

No mesmo ano, Cidade Maravilhosa foi incluída na trilha sonora do filme Alô, Alô, Brasil! (1935), dirigido por Alberto Ribeiro (1902 – 1971), João de Barro (1907 – 2006) e Wallace Downey (1902 – 1967), estrelado por Almirante, Ary Barroso, Aurora e Carmen Miranda (1909 – 1955), dentre outros.

Em 1936, estourou no carnaval! E o epíteto Cidade Maravilhosa se eternizou!

Sobre a inspiração de André Filho para escrever a música, que tradicionalmente encerra os bailes carnavalescos, há uma polêmica, destacada no site Discografia Brasileira, do Instituto Moreira Salles:

“Na coleção de jornais do seu acervo – que se encontra desde 2006, ano do seu centenário, sob a guarda do Instituto Moreira Salles –, há um recorte sem data de A Notícia com matéria que explica como o compositor teria se inspirado para fazer a música. Diz o texto que ele “Estava na Praia de Botafogo, pelos idos de 1933, eterno enamorado da beleza natural do Rio de Janeiro (…). Numa tarde assim, sentiu pulsar com intensidade toda a sua alegria de cidadão carioca (…). Ocorreu-lhe então a expressão: Cidade Maravilhosa”.

Versão que sua ex-mulher, Joana, contestaria: ao jornal O Globo de 12/01/1965, ela – já separada de André Filho – diria que o clássico surgiu em 1934, durante uma das madrugadas insones do então companheiro, e que, após escutar a melodia e a letra cantada por André, que batucava numa caixa de fósforos, teria sido interrogada por ele: “Ciganinha, você acha que deve ser marcha ou samba?”. Resposta dela: “Marcha!”. Difícil saber qual das duas narrativas é a verdadeira.

Ou se nenhuma delas, a julgar pelo que contam Jairo Severiano e Zuza Homem de Mello no primeiro volume de “A canção no tempo” (Editora 34, 1997): “No início da década de 1930, o Rio era embelezado com a estátua do Cristo Redentor e a modernização de vários trechos da cidade, criando maiores condições para deixar o turista maravilhado. Foi nesta ocasião que, motivado por uma promoção chamada Festa da Mocidade, em que se elegia a Rainha da Primavera, André Filho compôs ‘Cidade maravilhosa’”. 

Cidade maravilhosa tornou-se a marcha oficial da Cidade do Rio de Janeiro, através da Lei nº 5, de maio de 1960, proposta pelo vereador Salles Neto (1910 – 1961) e promulgada pelo então governador da Guanabara, Carlos Lacerda (1914 – 1977) (Correio da Manhã, 20 de abril de 1960, quarta coluna; 29 de maio de 1960, quarta coluna; Diário de Notícias, 1º de maio de 1960, sexta coluna).

 

 

Mas em duas ocasiões tentaram destituir a canção como marcha oficial da cidade. A primeira vez, em 1962, quando a deputada Lygia Lessa Bastos (1919 – 2020) liderou um movimento para que o hino da cidade fosse uma música que possuísse “as características técnico-musicais peculiares e inconfundíveis do gênero“. Na opinião da deputada, a composição de André Filho não refletiria “na tradição, o sentimento patriótico da gente carioca” (Diário de Notícias, 14 de maio de 1961, quinta coluna; Jornal do Brasil, 13 de março de 1962, quarta coluna22 de março de 1962).

Em sua coluna no Jornal do Brasil, “Música Naquela Base”, o jornalista Sérgio Cabral publicou o resultado de uma enquete acerca do assunto que realizou consultando personalidades de várias áreas e apenas o historiador Ariosto Berna (18? – 1988), do Instituto Histórico e Geográfico do Rio de Janeiro; e o jornalista Prudente de Morais Neto (1904 – 1977) eram a favor da mudança. Os  seguintes foram contra: o crítico musical Lúcio Rangel, Carlos Lacerda, governador do Estado da Guanabara; o maestro e compositor César Guerra-Peixe, Cristóvão de Alencar, presidente da União Brasileira de Compositores; o compositor Miguel Gustavo e Stanislaw Ponte Preta, o jornalista Sérgio Porto (Jornal do Brasil, 22 de março de 1962). Cidade Maravilhosa seguiu como o hino da cidade!

 

 

O poeta Carlos Drummond (1902 – 1987) defendeu a manutenção da marchinha como hino na crônica Hino carioca (Correio da Manhã, 27 de abril de 1962, penúltima coluna).

 

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Em 1968, pela segunda vez, seu status de hino foi ameaçado: o deputado Frederico Trotta (1899 – 1980) foi o autor do projeto de lei sugerindo à Assembleia Legislativa a criação de um concurso para a escolha de um novo hino para a cidade promulgado, em 27 de  julho de 1968.  A marchinha Cidade Maravilhosa tinha, segundo ele, uma “música alegre, balanceante, carnavalesca e irreverente para o ritual das solenidades sérias e imponentes, às quais se torna forçoso o comparecimento de autoridades dos três poderes constituídos, bem como de personalidades estrangeiras”. Houve protestos e, em agosto de 1968, o presidente da Assembleia voltou atrás e sancionou a lei do deputado Everardo Magalhães Castro (1933 – 2010) que restituía Cidade maravilhosa à condição de hino oficial da cidade (Jornal do Brasil, 28 de julho de 1968, penúltima coluna; 6 de agosto, segunda coluna; O Jornal, 10 de agosto de 1968, segunda coluna; Correio da Manhã27 de julho de 1968, última coluna28 de julho de 1968, quinta coluna;).

André Filho faleceu, no Rio de Janeiro, em 2 de julho de 1974, no Hospital Souza Aguiar, vítima de uma úlcera. Foi velado no Museu da Imagem e do Som e sepultado no Cemitério São Francisco Xavier, no Caju (Jornal do Brasil, 3 de julho de 1974, quarta coluna).

 

 

Ouça aqui várias gravações da marchinha Cidade Maravilhosa.

 

Abaixo, reprodução de um artigo publicado em O GLOBO, de 5 de agosto de 1968.

 

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(1)  A transcrição da crônica Os Sertanejos, de Coelho Neto, pode ser lida na página 282 do artigo Origem do epíteto “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro: lenda e verdade, de Ivo Karytowsky.

Leia aqui o artigo André Filho além dos ‘encantos mil’: os 120 anos do compositor ‘beijoqueiro’ que era um dos preferidos de Carmen Miranda, de autoria de Pedro Paulo Malta (1976-), publicada no site Discografia Brasileira do Instituto Moreira Salles .

Nota da editora: A inspiração para a publicação deste artigo surgiu quando assisti ao espetacular evento Cidade-Musa, no dia 6 de março de 2026, promovido pelo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, em sua sede, quando o jornalista Rafael Sento Sé proferiu uma maravilhosa palestra sobre seu livro A poeta da Cidade Maravilhosa: Jane Catulle Mendès e a viagem que criou o sonho de um Rio de Janeiro na Belle Époque, seguida pela sensacional aula musicada Cidade-musa: a história do Rio em marcha, samba e bossa, com Pedro Paulo Malta e Luís Filipe de Lima. Ao longo de minhas leituras para esse artigo, conheci o excelente artigo Origem do epíteto “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro: lenda e verdade, de Ivo Karytowski, que se tornou uma espécie de bússola para minha pesquisa. Como sempre, a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional tem um papel decisivo em meus escritos. Obrigada pelo talento de vocês!

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Blog Literatura, Rio de Janeiro & São Paulo

BUENO, Alexei. Rio Belle Époque: Álbum de imagens. Rio de Janeiro : Bem-Te-Vi Editora, 2016.

Cidade Maravilhosa por Olegário Mariano

COELHO NETO. Palestras da Tarde. Rio de Janeiro : Livraria Garnier Irmãos, 1911.

Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira

DOMINGUES, Henrique Foréis. No Tempo de Noel Rosa: O Nascimento do Samba e a Era de Ouro da Música. Rio de Janeiro : Editora Indigo Brasil, 2013

EFEGÊ, Jota. Figuras e coisas da Música Popular Brasileira vol1 e 2. Rio de Janeiro : Funarte, 1978.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional 

KARYTOWSKI, Ivo. Origem do epíteto “Cidade Maravilhosa” para designar o Rio de Janeiro: lenda e verdade. IHGB, Rio de Janeiro, a. 183(488): 265-294, jan./abr. 2022.

SÉ, Rafael Sento. A poeta da Cidade Maravilhosa: Jane Catulle Mendès e a viagem que criou o sonho de um Rio de Janeiro na Belle Époque. Belo Horizonte (MG) : Autêntica Editora, 2025.

Site Discografia Brasileira – IMS

Site Literatura é bom para a vista

VALENÇA, Suetônio Soares. Tra-la-lá : vida e obra de Lamartine Babo – 3. ed., rev. e ampl. – Rio de Janeiro : FUNARTE, 2014.

XAVIER, Priscila. Cidade Maravilhosa: discursos entre o imaginário e o mito.

O primeiro campo do Clube de Regatas do Flamengo por Augusto Malta

Produzida pelo fotógrafo alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), em torno de 1926, a imagem destacada no artigo de hoje da Brasiliana Fotográfica mostra um aspecto do primeiro campo do Clube de Regatas do Flamengo – O Estádio da Rua Paissandu. Na época, Malta era o fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro, cargo criado para ele, que o ocupou entre 1903 e 1936, quando se aposentou. Fotografou no período as transformações urbanas e os grandes eventos da cidade, personalidades políticas, intelectuais e artísticas; paisagens, monumentos, lojas, o casario e as ressacas. Registrou também aspectos da vida carioca como, por exemplo, o carnaval de rua, o movimento dos quiosques, os eventos sociais e esportivos, os moradores de cortiços, os vendedores ambulantes, as prostitutas, os marinheiros e cenas de praia. Seu legado iconográfico é essencial para a preservação da memória da cidade.

 

 

O Estádio da Rua Paissandu, cercado de palmeiras imperiais, localizava-se na esquina da Rua Paissandu com a Pinheiro Machado. A família Guinle era a proprietária do terreno, que foi arrendado pelo Flamengo, em fins de 1914, quando o Paissandu Atlético Clube deixou de ser o mandante em amistosos e jogos não oficiais do campo. Em 31 de outubro de 1915, foi realizado o primeiro jogo oficial do Flamengo no estádio: foi uma goleada de 5 a 1 sobre o Bangu, que valeu ao rubro-negro o título do Campeonato Carioca daquele ano. Depois viriam, ainda no campo da Rua Paissandu, os títulos de 1920, 1921, 1925 e 1927. Seu último jogo no estádio, em 25 de setembro de 1932, foi contra o Sport Club Brasil e o rubro-negro ganhou de 5 a 0. O Flamengo devolveu o terreno no fim de 1932 (A Noite, 26 de setembro de 1932).  Os maiores públicos do estádio foram Flamengo 0 x 3 Fluminense, em 23  de junho de 1918, e Flamengo 1 x 3 Fluminense, em 24 de agosto de 1919; ambas as partidas registrando cerca de 15 mil pagantesEm 4 de setembro de 1938, foi inaugurado o novo estádio do Flamengo, o Estádio da Gávea, à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, com um jogo pelo Campeonato Carioca, entre o Flamengo e o Vasco, que venceu por 2 a 0, gols de Leonídio Fantoni, conhecido como Niginho (1912-1975).

 

flamengo

 

O Flamengo, cuja torcida é atualmente a maior do mundo, foi fundado, como clube de regatas, em 15 de novembro de 1895. Apenas em 1912, adotou o futebol. Antes de arrendar o Estádio da Rua Paissandu, o time não tinha estádio próprio e realizava seus jogos nos campos do Fluminense, em Laranjeiras; e no do Botafogo, na General Severiano – campos que voltou a utilizar entre 1932 e 1938. Seu atual estádio é o da Gávea (A Noite, 4 de setembro de 1938Jornal dos Sports, 6 de setembro de 1938).

 

 

 

 

Algumas curiosidades sobre o estádio da Rua Paissandu

 

Em 1872, foi fundada uma agremiação chamada Rio Cricket Club, na rua Berquó, atual Rua General Polidoro, semente do Paissandu Atlético Clube. Em 1880, o Rio Cricket Club mudou-se para um terreno alugado na Rua Paissandu e passou a chamar-se Paysandú Cricket Club. Na nova sede, foi construída uma pista de corrida em volta da quadra de críquete, além de quadras de tênis e de um pavilhão onde ficavam as senhoras que vinham assistir aos jogos. O terreno pertencia a Gastão d´Orleans (1842 – 1922), o conde D´Eu e sua esposa, a princesa Isabel (1846 – 1921), frequentava o clube para ver jogos e campeonatos…

 

 

 

…quando ainda era denominado Paysandú Cricket Club foi o local do primeiro jogo do Fluminense Futebol Clube, em 19 de outubro de 1902, quando o time tricolor venceu o amistoso contra o Rio Futebol Clube por 8 a 0 (Revista da Semana, 26 de outubro de 1902, primeira coluna)…

 

 

…em 13 maio de 1917, o estádio foi palco de um jogo amistoso da seleção brasileira de futebol, que venceu o Barracas da Argentina por 2 a 1 (O Paiz, 14 de maio de 1917, primeira coluna).

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

PARDO, Aristides Leo. Os Estádios de Futebol do Estado do Rio de Janeiro: Bola, História e Cultura – Vol. 3. Rio de Janeiro : Editora Tide Karioca, 2025.

Site Fla Estatística

Site Fluminense Futebol Clube

Site Globo Esporte

Site Museu Flamengo

Site Paissandu Atlético Clube

“Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945)”, do acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Destaque para a identificação da casa de Tia Ciata

A Brasiliana Fotográfica publica imagens inéditas do Rio de Janeiro, do acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ), instituição parceira do portal desde abril de 2016, quando celebrávamos um ano de existência. Sob a presidência do internacionalista e doutor em Ciência Política, Eliseu Santiago, em parceria com a Aprazível Edições, do jornalista, editor de livros, curador de museus e exposições, Leonel Kaz, o AGCRJ lançou o livro digital Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945), que revela um valioso e inédito acervo iconográfico da cidade do Rio no período do Estado Novo, sob a presidência de Getúlio Vargas (1882 – 1954).  A publicação reforça a importância da preservação e difusão do patrimônio histórico e iconográfico do Rio de Janeiro.

 

 

O livro digital está disponível gratuitamente no site do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro e da Aprazível Edições promovendo acessibilidade e difusão cultural. Foi financiado pelo Programa de Fomente à Cultura Carioca – PRÓ-CARIOCA LINGUAGENS, via Edição PNAB – Política Nacional Aldir Blanc. Lembramos aqui que o acervo do AGCRJ reúne cerca de quatro milhões de itens identificados, além de outros milhões de documentos, fotos e registros ainda em processo de organização.

 

Link para o livro digital Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945) 

 

Hoje a Brasiliana Fotográfica disponibiliza 20 das centenas de imagens publicadas no livro. A partir de recursos tecnológicos como a digitalização e o zoom, os registros fotográficos passam a ter outra visibilidade, podendo ser acessados em sua qualidade plena.

 

Acessando o link para as fotografias publicadas no livro Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937 -1945) disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945) é o resultado de uma extensa pesquisa, da recuperação e da digitalização de imagens realizadas por diversos profissionais do AGCRJ. São fotografias inéditas produzidas pelos filhos de Augusto Malta (1864 – 1957) – Aristógiton (1904-1954) e Uriel (1910 – 1994). Augusto Malta foi, entre 1903 e 1936, o fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro – cargo criado para ele -, e o mais  importante cronista fotográfico da cidade nas primeiras décadas do século XX, responsável por um legado fotográfico incontornável.

 

Foto do Arquivo recortada

Anônimo. Augusto Malta. Rio de Janeiro. Acervo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

 

Aristógiton Malta, nasceu em 1904, no Rio de Janeiro, e começou a auxiliar o pai na prefeitura, em 1925, ano em que Augusto, quando prestava um serviço para a Sul América, teve um de seus dedos dilacerados, devido a uma explosão ocasionada pelo flash de sua máquina fotográfica. Foi operado e ficou internado no Hospital da Ordem Terceira da Penitência. Aristógiton era filho da primeira esposa de Augusto, Laura Oliveira Campos (1874 – 1905).  Casou-se com Helena de Freitas Moutinho (1906 – 1975), em 1933. Em 25 de agosto de 1936, Augusto Malta aposentou-se da Prefeitura e foi substituído por ele, a partir de 9 de setembro do mesmo ano. Em 1938, O presidente da República, Getúlio Vargas (1882 – 1954), visitou a “Feira de Amostras”,  uma exposição de diversas secretarias da Prefeitura do Rio de Janeiro. Um dos stands de maior sucesso foi o da Secretaria de Viação, Trabalho e Obras Públicas, que expôs fotos de Augusto Malta e de seu filho, Aristógiton (A Noite, 31 de outubro de 1938, sob o título “A evolução do Rio através da fotografia”). Foi noticiado que uma foto de sua autoria do Estádio do Maracanã estava nas paredes de todas as repartições da Prefeitura, no hall do Banco da Prefeitura, e também em hotéis em países da Europa, da América do Sul e nos Estados Unidos (A Noite, 18 de maio de 1953, primeira coluna). Faleceu em 15 de agosto de 1954 (A Noite, 18 de maio de 1953, primeira colunaDiário de Notícias, 17 de agosto de 1954, sexta coluna).

 

Aristogiton Malta (1896-1954) / Site Family Search

Aristógiton Malta (1896-1954) / Site Family Search

 

Uriel Malta nasceu, em 28 de setembro de 1910, no Rio de Janeiro, filho da segunda esposa de Augusto, Celina Augusta Verscheuren (1884 – 1969). Passou a trabalhar com o irmão, no Serviço de Fotografia da Prefeitura, em 1937. Já era casado com Hilda de Abreu em 1944. Foi fotógrafo da Prefeitura até fins da década de 1960 e, em 1970, teve assinada a apostila fixando os proventos anuais de inatividade. Uriel faleceu, em Magé, em 5 de agosto de 1994 (Registro Civil do Rio de Janeiro, Site Family Search; Gazeta de Notícias, 4 de julho de 1935, terceira colunaJornal do Brasil, 12 de março de 1937, primeira colunaDiário de Notícias, 3 de abril de 1968, segunda colunaDiário de Notícias, 20 de outubro de 1968, primeira colunaDiário de Notícias, 31 de janeiro de 1969, terceira colunaDiário de Notícias, 7 de abril de 1970, última coluna).

 

Uriel Malta / Site Family Search

Uriel Malta / Site Family Search

 

O trabalho de Aristógiton e Uriel ficou durante muitas décadas à sombra da extraordinária obra de seu pai. As imagens de Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945) resgatam a importância do trabalho dos filhos de Augusto Malta, que fotografaram os últimos anos da belle époque carioca assim como seu desaparecimento.

 

 

O lançamento do livro digital foi realizado, em 27 de janeiro último, por Elizeu Santiago e Leonel Kaz, em um evento no AGCRJ. Em seguida, o professor Antonio Edmilson Martins Rodrigues proferiu a palestra Reformas Urbanas e Cultura no Rio do Estado Novo. O Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ), entidade que apoiou a publicação do livro, foi representada pelo seu presidente, Sydnei Menezes. No dia seguinte, foi realizada uma roda de conversa sob o tema O Rio de Janeiro no Estado Novo: uma perspectiva iconográfica, com os professores Pedro Marreca e Rafael Martins de Araujo, gerente e sub-gerente de Pesquisa do AGCRJ, respectivamente.

 

 

 

 

O lançamento do livro digital foi antecedido pelo resgate de cerca de 14 mil imagens – em positivos com nitrato de prata e negativos – distribuídas em 11 álbuns, que ainda estão em tratamento arquivístico e que futuramente serão disponibilizadas nos bancos de dados do AGCRJ. Foi uma das descobertas mais relevantes realizadas pela instituição nos últimos anos. As imagens capturam as transformações urbanas, culturais e sociais do Rio de Janeiro, entre 1937 e 1945, quando o interventor do então Distrito Federal, o Rio de Janeiro, era Henrique Dodsworth (1895 – 1975).

 

 

Retratam um período de grandes transformações na cidade do Rio: por exemplo, a abertura da Avenida Presidente Vargas e da Avenida Brasil, a expansão dos subúrbios, a urbanização da Pavuna e da Zona Sul, a finalização da esplanada do Castelo e a inauguração do Jardim de Alah. Mais de 500 edifícios desapareceram.

 

Essas obras realizadas na região pela Prefeitura do Rio de Janeiro reduziram muito a Praça Onze de Junho. Logo no início da década de 40, durante o Estado Novo, o então presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) decidiu construir a avenida Presidente Vargas e, pelo projeto, os quarteirões entre as ruas Visconde de Itaúna e Senador Eusébio desapareceriam para sua abertura (O Malho, dezembro de 1941).

 

 

Começaram as demolições. Inúmeras famílias foram desalojadas, prédios foram derrubados, dentre eles algumas construções históricas, como a Igreja de São Pedro dos Clérigos.

 

 

 

 

O segundo trecho da nova avenida foi concluído em 10 de novembro de 1942; e, em 10 de novembro de 1943, foi batizada de Presidente Vargas. Finalmente, em 7 de setembro de 1944, foi inaugurada (O Malhodezembro de 1942abril de 1943dezembro de 1943O País, 10 de novembro de 1943Jornal do Brasil, 8 de setembro de 1944).

 

 

Na fotografia abaixo, foi identificada a casa da lendária Tia Ciata (1854 – 1924), Hilária Batista de Almeida, localizada na Rua Visconde de Itaúna, 117.

 

 

A casa ficava na região da Pequena África do Brasil, expressão baseada numa afirmação do cantor e pintor Heitor dos Prazeres (1898 – 1966) se referindo à área que começava no Porto do Rio de Janeiro e abrangia os atuais bairros da Saúde, Estácio, Santo Cristo, Gamboa e Cidade Nova, até a Praça Onze de Junho. Foi lá que, a partir da década de 1870, a comunidade baiana se estabeleceu no Rio de Janeiro, fazendo da área um local de concentração de diversas manifestações da cultura afro-brasileira. Havia também as tias Bebiana, Carmen e Mônica, dentre outras, que fizeram de suas casas pontos de referência e de convívio, que garantiram a manutenção das tradições africanas na cidade. Nessas casas eram cultuadas a música e a religiosidade afro-brasileira. As casas de Tia Prisciliana, mãe de João da Baiana (1887-1974), e, principalmente, a de Tia Ciata, considerada a matriarca do samba, foram espaços fundamentais da música popular carioca e eram frequentados por Donga, Pixinguinha (1897 – 1973), João da Baiana (1887-1974), o jornalista e dramaturgo Vagalume, pseudônimo de Francisco Guimarães (c. 1880 – 1946), e agitadores culturais como, por exemplo, Hilário Jovino (1873- 1933), Germano Lopes da Silva (? – 1933), o compositor e jornalista Mauro de Almeida(1882 -1956), dentre outros. Foi também na Pequena África que a Deixa Falar, considerada a primeira escola de samba, foi fundada, em 12 de agosto de 1928, pelos sambistas Bide, Mano Edgar, Brancura, Baiaco, dentre outros, além de Ismael Silva, que reivindicava a autoria da expressão escola de samba.

Na época da demolição, a Praça Onze não era apenas um logradouro carioca, mas uma espécie de bairro, pois englobava todas as ruas das imediações. Hoje, esta importante referência na história da formação do Rio de Janeiro, da cultura brasileira e da criação do samba, não existe mais, porém sua região continua sendo importante para o samba: o Sambódromo e o Terreirão do Samba, inaugurados em 1984 e 1991, respectivamente, estão localizados na área. Da Praça Onze resta um pequeno jardim, onde foi instalado um monumento em homenagem a Zumbi, em 1986.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

São esses os profissionais responsáveis pelo extraordinário Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945):

 

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O livro físico foi lançado em 14 de julho de 2026, no Palácio da Cidade, no Rio de Janeiro, Na ocasião, discursaram Lucas Padilha, secretário de Cultura do Rio de Janeiro, e Eliseu Santiago, como já mencionado, presidente do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (informação inserida no texto em 14 de julho de 2026).

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BUENO, Eduardo. TIA CIATA E A PRAÇA ONZE: COMO SURGIRAM AS ESCOLAS DE SAMBA

Diário do Ri0 – Praça Onze

Dicionário de Música Cravo Alvim

GERSON, Brasil. História das Ruas do Rio. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2013.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MALAMUD, Samuel. Recordando a Praça Onze. 1ª edição, Rio de Janeiro, Editora Kosmos, 1988

MOURA, Roberto. Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Funarte, 1983.

SILVA, Beatriz Coelho. Negros e Judeus na Praça Onze. A História que não ficou na memória. Rio de Janeiro : Bookstart, 2015.

Site Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

Site Family Search

WANDERLEY, Andrea C.T. O alagoano Augusto Malta, fotógrafo oficial do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936 in Brasiliana Fotográfica, 10 de julho de 2015.

__________________. Série O Rio de Janeiro desaparecido” XVIII – A Praça Onze in Brasiliana Fotográfica, 20 de abril de 2022.

Augusto Malta e Jorge Kfuri, fundadores da Associação dos Photographos de Imprensa, em 1913

Hoje, no Dia do Repórter Fotográfico, a Brasiliana Fotográfica destaca a criação da Associação dos Photographos de Imprensa, provavelmente a primeira do gênero, no Brasil. Foi criada em 28 de outubro de 1913 e entre seus fundadores estavam Augusto Malta (1864 – 1957), que foi o fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro, entre 1903 e 1936; e Jorge Kfuri (1893 – 1965), autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, produzidas em 1916 – ambos representados no acervo fotográfico do portal e protagonistas de artigos acompanhados de cronologia publicados na Brasiliana Fotográfica. A fotografia abaixo, publicada na revista Fon-Fon, de 1º de novembro de 1913, está assinada por F. Garcia, o presidente da então recém criada associação.

 

 

Na ocasião, fotógrafos de jornais e revistas da então capital federal reuniram-se na casa 106, da Rua São José, criaram a associação e elegeram a seguinte diretoria, que regeria os destinos da entidade por um ano: na presidência, Francisco Garcia; na vice-presidência, Arthur do Carmo; Jayme Ramalho e Benjamin Vernaut, primeiro e segundo secretário, respectivamente; Carlos Chapelin, tesoureiro; e José Teixeira, procurador.

O objetivo da Associação dos Photographos de Imprensa era a união da classe, a assistência em caso de caso de doença, etc (Revista Moderna, 25 de outubro de 1913A Noite, 28 de outubro de 1913, última colunaCorreio da Manhã, 29 de outubro de 1913, quarta colunaO Paiz, 29 de outubro de 1913Fon-Fon, 1º de novembro de 1913).

 

 

Num artigo da Illustração Photographica (SP), de junho de 1919, intitulado Associação dos Photographos de Imprensa, os profissionais da classe foram criticados:

 

 

Tudo indica que a iniciativa não vingou por mais muito tempo porque logo nos primeiros dias de 1929 os fotógrafos de imprensa foram convocados para formar uma associação (A Noite, 3 de janeiro de 1929, segunda coluna).

 

Augusto Malta (1864 – 1957) e Jorge Kfuri (1893 – 1965)

 

Na imagem abaixo, Augusto Malta é o primeiro sentado à direita com sua inequívoca gravata de laço preto. A identificação de Jorge Kfuri, o terceiro, em pé, da esquerda para a direita, foi feita a partir da comparação com uma foto dele publicada na revista Vida Sportiva, de 12 de outubro de 1918.

 

 

 

 

As fotos de Malta foram divulgadas em guias turísticos, cartões-postais, revistas e publicações oficiais. Sua vasta produção fotográfica foi decisiva para a formação da identidade visual da Belle Époque no Rio de Janeiro e para a preservação da memória da cidade. Foi, sem dúvida, um importante incentivador do fotojornalismo no Brasil, tendo fornecido imagens de acontecimentos, pessoas, aspectos urbanos e paisagens para diversas revistas e jornais.

Nas primeiras décadas do século XX, Kfuri trabalhou nos jornais O Século e A Noite e produziu as primeiras fotografias aéreas do Brasil. Em 1920, foi aceito como associado na Associação Brasileira de Imprensa (Jornal do Brasil, 23 de junho de 1920, na penúltima coluna). No ano seguinte, naturalizou-se brasileiro e foi contratado como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval.

 

Para saber mais sobre a vida destes dois fotógrafos, acesse os seguintes artigos já publicados aqui na Brasiliana Fotográfica:

O alagoano Augusto Malta, fotógrafo oficial do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936, 10 de julho de 2015

Jorge Kfuri (1893 – 1965), autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, 26 de dezembro de 2019

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

O Templo da Humanidade, sede da Igreja Positivista do Brasil

Com uma imagem produzida pelo alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), pertencente ao acervo fotográfico da Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, o portal conta um pouco da história do Templo da Humanidade, sede da Igreja Positivista do Brasil. Foi o primeiro templo positivista edificado no mundo conforme indicações e regras estabelecidas pelo francês Auguste Comte (1798-1857), fundador do Positivismo. O prédio, cuja decoração foi realizada por artistas como Décio Villares (1851 – 1931) e Eduardo de Sá (1866 – 1940), é tombado.

 

 

Seus acervos formados por livros, documentos e obras de arte e que contam mais de um século de história brasileira, também são tombados e retratam a força do ideário e da iconografia positivistas na formação da nação republicana brasileira. Parte deles recebeu o selo Memória do Mundo da UNESCO, durante uma cerimônia realizada no Arquivo Nacional, no Rio de Janeiro, em 10 de dezembro de 2015.

 

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Inaugurado em 1º de janeiro de 1897, na Rua Benjamin Constant, nº 74, na Glória, bairro do Rio de Janeiro, a construção do Templo da Humanidade, realizada entre 1891 e 1896, foi dirigida pelo arquiteto e engenheiro cearense Trajano Saboya Viriato de Medeiros (1865 – 1940), graduado pela Escola Politécnica do Rio de Janeiro, em 1886. Foi também responsável pela construção do prédio da Casa Colombo. Casou-se, em 1894, com Olympia Carvalho de Oliveira, sobrinha do filósofo Miguel Lemos (1854 – 1917), fundador da Igreja Positivista no Brasil, que o indicou para ser o responsável pela obra do templo. Na fachada, uma frase remete ao lema Ordem e Progresso da bandeira nacional : O amor por princípio e a ordem por base, o progresso por fim.

 

 

O Positivismo é um método científico, político e sociológico, inspirado no Iluminismo francês, que afirmou a necessidade da ordem e do rigor sociais e políticos para o progresso. Disciplina, rigor e ordem seriam, segundo a doutrina, essenciais para o crescimento moral e social. Os princípios do Positivismo inspiraram a Proclamação da República no Brasil.

“O movimento positivista teve uma atuação importante na vida política brasileira. Desde o final do século 19 os membros da Igreja Positivista do Brasil interferiram assiduamente no debate público clamando pela instauração do regime republicano e pelo fim da escravatura. Após a Proclamação da República a influência do positivismo tornou-se mais direta incidindo em decisões políticas tomadas pelo Governo Provisório e ao longo da República Velha”.

Site Templo da Humanidade

 

 

Miguel Lemos, Raimundo Teixeira Mendes (1855 – 1927) e Benjamin Constant (1836 – 1891) fundaram, em 1876, a Sociedade Positivista Brasileira, de caráter acadêmico e a primeira do Brasil. Miguel Lemos e Teixeira Mendes viajaram juntos para Paris, em 1877, em busca de conhecimentos sobre a doutrina positivista. A religião positivista foi trazida para o Brasil por eles, que trabalharam ativamente na divulgação da “Religião da Humanidade”. Em 1881, Miguel Lemos fundou oficialmente a Igreja Positivista do Brasil, no Rio de Janeiro, da qual tornou-se diretor. Teixeira Mendes era o vice-diretor.

 

 

 

 

Em 1905, Mendes assumiu a liderança da Igreja Positivista do Brasil e a ocupou até sua morte, em 28 de junho de 1927.

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Figueiredo, Daniel Caetano de. A família Saboia, junho de 2005.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Revista do Instituto do Ceará

SANTOS, Ricardo Augusto. O funeral de Teixeira Mendes pela lente de Augusto Malta in Brasiliana Fotográfica, 2 de agosto de 2019.

Site CPDOC

Site Inepac

Site Senado

Site Templo da Humanidade

VIANNA, Carlos Negreiros. Trajano de Medeiros: um dos maiores empresários brasileiros de seu tempo, um desconhecido no Ceará até hoje. Revista do Instituto do Ceará, 2015.

 

 

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” VIII – O prédio do Supremo Tribunal Federal, atual Centro Cultural da Justiça Federal; o Museu Nacional de Belas Artes e o arquiteto Adolfo Morales de los Rios (1858 – 1928)

Com fotografias produzidas por Augusto Malta (1864 – 1957)Jorge Kfuri (1893 – 1965), Luiz Musso (18? – 19?), Marc Ferrez (1843 – 1923), pela Papelaria e Typographia Botelho e por fotógrafos ainda não identificados, a Brasiliana Fotográfica publica o oitavo artigo da série Os arquitetos do Brasil, sobre o antigo prédio do Supremo Tribunal Federal, atual Centro Cultural da Justiça Federal; e sobre o Museu Nacional de Belas Artes. Também conta um pouco da história de seu arquiteto, o espanhol Adolfo Morales de los Rios y Garcia de Pimentel  (1858 – 1928). Dos 17 prédios projetados por ele para a Avenida Central, no início do século XX, esses, que são os temas desse artigo, são os únicos que não foram demolidos. Além de arquiteto, Morales de los Rios foi urbanista, professor e historiador. Desempenhou um importante papel na modernização arquitetônica do Brasil em fins do século XIX e primeiras décadas do XX.

 

Edifício do Supremo Tribunal Federal, atual Centro Cultural da Justiça Federal

 

 

A construção do edifício do Supremo Tribunal Federal (STF) foi iniciada, em 1905, e estava integrada ao projeto de reurbanização do Rio de Janeiro, então a capital federal. A princípio, o prédio abrigaria a Mitra Arquiepiscopal, mas foi adquirido pelo governo federal para abrigar o STF, instalado em 3 de abril de 1909 (Brazilian Review, 21 de novembro de 1905, segunda colunaGazeta de Notícias, 2 de abril de 1909, terceira coluna). O edifício é um dos mais importantes testemunhos da arquitetura eclética do Brasil.

 

 

O prédio abrigou o STF até 1960, quando o tribunal foi transferido para Brasília, a nova capital do Brasil. Desde então, o edifício sediou o Superior Tribunal Eleitoral, o Tribunal de Alçada e varas da Justiça Federal de 1ª Instância. Após obras de restauração que duraram cerca de sete anos, o prédio foi aberto ao público, em 4 de abril de 2001, como Centro Cultural da Justiça Federal. Foi inaugurado com a exposição permanente Justiça e Cidadania e com a mostra temporária sobre a obra do importante fotógrafo cearense Chico Albuquerque (1917 – 2000), pioneiro da publicidade brasileira na década de 1940. Havia também uma exposição mostrando o prédio antes e depois da restauração (Jornal do Brasil, 4 de abril de 2001, primeira coluna).

 

Acesse aqui o link para as fotografias do antigo prédio do Supremo Tribunal Federal, atual Centro Cultural da Justiça Federal disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

Edifício do Museu Nacional de Belas Artes

 

 

Em 1908, a sede da Academia Nacional de Belas Artes foi transferida para um edifício também na Avenida Central e também projetado por Adolfo Morales de los Rios. Acredita-se que o desenho original de Morales de los Rios tenha sido modificado pelo escultor Rodolfo Bernadelli (1852 – 1931), que era diretor da escola. De acordo com o “afrancesamento” da Avenida Central, a fachada principal do prédio baseou-se em uma das alas do Museu do Louvre, projetada pelo arquiteto francês Hector-Martin Lefuel (1810 – 1880), que trabalhava para Napoleão III (1808 – 1873). Apresenta medalhões pintados por Henrique Bernardelli (1857 – 1936) retratando integrantes da Missão Francesa e outros artistas brasileiros, além de frontões, colunatas e relevos em terracota representando as grandes civilizações da antiguidade. As fachadas laterais são inspiradas no renascimento italiano e trazem mosaicos realizados pelo francês Félix Gaudin (1851 – 1930), com retratos de artistas famosos.

Em 1931, a Escola Nacional de Belas Artes foi incorporada à Universidade do Rio de Janeiro, futura Universidade do Brasil, e, a partir de 1937, dividiu o prédio com o Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), criado em 13 de janeiro de 1937 por iniciativa de Gustavo Capanema (1900 – 1985), ministro da Educação do governo de Getúlio Vargas (1882 – 1954), e inaugurado em 19 de agosto de 1938. O MNBA possui o maior acervo de obras de arte do século XIX no Brasil, sendo um dos mais importantes museus de arte do país. O edifício foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 24 de maio de 1973. Está fechado ao público desde 2020 e passa por uma reforma. Sua reabertura está prevista para fins de 2025. A atual Escola de Belas Artes foi, entre 1974 e 1975, transferida para o prédio Jorge Machado Moreira projetado para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), no campus do Fundão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

Acesse aqui o link para as fotografias do Museu Nacional de Belas Artes disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

 

Brevíssimo perfil do arquiteto Adolfo Morales de los Rios (1858 – 1928)

 

 

O arquiteto, urbanista, historiador e professor espanhol Adolfo Morales de los Rios y Garcia de Pimentel nasceu em Sevilha, em 10 de março de 1858, filho do capitão-general da Extremadura, de Granada e da Galícia, Adolfo Morales de los Rios e de Salud Pimentel y Garcia de Ambues. Trabalhou, inicialmente, na França, onde conheceu o arquiteto Viollet-le-Duc (1814 – 1879), um dos precursores da arquitetura moderna. Cursou arquitetura na Escola de Belas Artes de Paris, entre 1877 e 1882. Retornou à Espanha onde foi o responsável pelos projetos do Cassino de San Sebastián, do Gran Teatro de Cadiz e do Banco da Espanha, em Madri. Em 1889, aceitou o convite para fundar uma escola de arquitetura no Chile. Passou pelo Brasil para onde retornou, em 1890, devido a problemas políticos que impediram seu estabelecimento no Chile. Veio a convite do arquiteto belga mr. de Mot, encarregado da urbanização de Teresópolis (Correio da Manhã, 4 de setembro de 1928, quinta coluna).

 

“Fui e continuo a ser um bom brasileiro, sem deixar de ser um bom espanhol”.

Adolfo Morales de los Rios y Garcia de Pimentel

 

No Brasil, participou de obras de saneamento, de construção de estradas, tendo sido presidente e diretor da Companhia Auto-Viação Centro de Minas. Em 1897, passou a lecionar na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Em 1901, Morales de los Rios lançou a ideia de fazer uma ponte em estrutura metálica para ligar o Rio a Niterói, mas o projeto não saiu do papel.

Na primeira década do século XX, participou da construção da Avenida Central, cuja abertura foi uma das principais marcas da reforma urbana que ficou conhecida como o bota-abaixo, realizada, entre 1902 e 1906, pelo então prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos (1836 – 1913). Essas transformações foram definidas por Alberto Figueiredo Pimentel (1869-1914), autor da seção “Binóculo”, da Gazeta de Notícias, com a máxima “O Rio civiliza-se”, que se tornou o slogan da reforma urbana carioca. Essa intervenção urbana tornou o Rio uma cidade cosmopolita, moderna. Dos mais de 80 prédios da Avenida Central, 17 saíram da prancheta de Morales de los Rios – hoje de seus projetos para a avenida só restaram os prédios que são os tema deste artigo.

 

 

Morales de los Rios era também interessado em antropologia e tentou compreender ritos de feitiçaria, mitologia e história, e métodos construtivos dos “povos primitivos”, e entre estes estavam os índios brasileiros, que ocuparam um espaço especial em seus estudos, sobretudo em “Ôka, Taba, Tabajara” (MORALES DE LOS RIOS, Adolfo. Ôka, Taba, Tabajara. Documentação manuscrita, IHGB): um “tratado” sobre a arquitetura indígena.

Em janeiro de 1915, publicou seis artigos intitulados Uma questão importante – A primitiva fundação da cidade no jornal A Noite – 25 de janeiro26 de janeiro27 de janeiro28 de janeiro30 de janeiro e 31 de janeiro. Na seção “Reportagens Íntimas” da revista Fon-Fon, publicação de uma entrevista com Morales de los Rios (Fon-Fon, 18 de agosto de 1917).

Projetou cerca de quatro mil obras no Brasil, dentre elas a Basílica do Imaculado Coração de Maria, no Méier, tombada pelo município, em 2009, e única igreja em estilo neomourisco na cidade; o Palácio São Joaquim, na Rua da Glória, em estilo eclético e construído, em 1918, para ser a residência do primeiro arcebispo do Rio, cardeal pernambucano dom Joaquim Arcoverde Cavalcanti de Albuquerque (1850 – 1930).

 

 

Faleceu em 3 de setembro de 1928, na Casa de Saúde Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, e foi enterrado no Cemitério São João Batista (Correio da Manhã, 4 de setembro de 1928, quinta colunaO Paiz, 5 de setembro de 128, primeira colunaRevista da Semana, 8 de setembro de 1928). Foi casado com Maria Cuadras (18? -19?) e teve um filho, o também arquiteto Adolfo Morales de los Rios Filho (1887-1973), e duas filhas, Eugênia (18? -19?) e Margarita (18? -19?).

 

 

 

 

Outros prédios projetados por Adolfo Morales de los Rio representados no acervo fotográfico da Brasiliana Fotográfica

 

Jornal O Paiz (demolido)

 

Parque de Diversões da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil, em 1922 (demolido)

 

A convite dos organizadores da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil, realizada, em 1922, no Rio de Janeiro, escreveu o artigo Resumo monográfico da evolução da arquitetura no Brasil (1922/1923), que foi publicado no Livro de Ouro Comemorativo do Centenário da Independência e da Exposição Internacional do Rio de Janeiro – pág 97 a 103.

 

Palácio São Joaquim, construído entre 1912 e 1918

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

O GLOBO, 3 de janeiro de 2016 e 30 de junho de 2024

RAMOS, Renato Menezes (org.). O Restaurante Assyrio é Persa… e o Café Mourisco também, de Adolfo Morales de los Rios: Comentários e Anotações. 19&20, Rio de Janeiro, v. VI, n. 2, abr./jun. 2011

RICCI, Claudia Thurler. Sob a inspiração de Clio: O Historicismo na obra de Morales de los Rios19&20Rio de Janeiro, v. II, n. 4, out. 2007.

Site Centro Cultural da Justiça Federal

Site Enciclopédia Itáu Cultural

Site Ibram

Site Instituto Moreira Salles

Site Museus do Rio

Memórias da saúde pública pelas lentes de Augusto Malta

As bibliotecárias Luciana F. Lau e Danielle Barreiros e o arquivista Fabio Carvalho, todos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, desde 2024 uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, são os autores da publicação Memórias da saúde pública pelas lentes de Augusto Malta sobre a história do atendimento de emergência no Rio de Janeiro e a criação, em 1907, do Posto Central de Assistência Pública, origem do atual Hospital Municipal Souza Aguiar. Segundo o artigo, Augusto Malta (1864 – 1957) com suas técnicas fotográficas, que combinavam precisão documental e sensibilidade artística, deixou um legado que nos permite refletir sobre a fotografia urbana como instrumento indispensável para a preservação da memória das cidades, incluindo a memória da saúde pública. Ele foi o fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro, cargo criado para ele, entre 1904 e 1936, quando se aposentou.

 

Memórias da saúde pública pelas lentes de Augusto Malta

 Luciana Lau, Danielle Barreiros e Fábio Carvalho*

 

 

No início do século XX, o Rio de Janeiro, então capital da República, transformava-se em um grande canteiro de obras. Com o propósito de civilizar e modernizar a cidade, o prefeito Pereira Passos (1902-1906) promoveu reformas radicais que alteraram para sempre sua paisagem urbana e social. Essas transformações, marcadas tanto pelo progresso quanto por profundas desigualdades, foram meticulosamente registradas pelas lentes de Augusto Malta (1864-1957), fotógrafo oficial da prefeitura e principal cronista visual dessa era de mudanças e de paisagens efêmeras de uma cidade em transição. Com suas técnicas fotográficas, que combinavam precisão documental e sensibilidade artística, deixou um legado que nos permite refletir sobre a fotografia urbana como instrumento indispensável para a preservação da memória das cidades, incluindo a memória da saúde pública.

O ambicioso projeto de modernização de Pereira Passos, popularmente conhecido como “bota-abaixo”, tinha como objetivo sanear e embelezar a capital federal, seguindo os moldes das grandes metrópoles europeias.

Visando modernizar a saúde pública, em sua gestão, Pereira Passos determinou a criação de postos médicos nas Agências Municipais, sendo possível entrever a possibilidade de atendimento emergencial na cidade do Rio de Janeiro. O então prefeito solicitou  verba para a criação do primeiro grande posto de assistência médica que foi instalado na rua Camerino. O Posto Central de Assistência Pública na Rua Camerino foi a primeira unidade de socorro médico de emergência do município. Tendo suas obras iniciadas em 1906, foi inaugurado em 1º de novembro de 1907 pelo prefeito à época, Francisco Marcelino de Souza Aguiar (1855 – 1935), sendo futuramente homenageado por esta instituição, que foi denominada Hospital Municipal Souza Aguiar, como a conhecemos atualmente.

Como pioneiro na prestação do serviço de urgência, o Posto teve o desafio de implementar um novo modelo de serviço de emergência, que até aquele momento era realizado por farmácias e médicos particulares.

A implementação do novo processo de atendimento de urgência teve como desafio inicial modificar o comportamento dos cidadãos, que após sofrerem algum incidente na rua ou em casa, queriam ser atendidos somente pelos farmacêuticos e médicos particulares, pois esse era o hábito da população. E também porque estranhavam e até “desconfiavam” das ambulâncias brancas, pedindo passagem pela cidade, e do fato de serem levados para um hospital, um lugar desconhecido. Assim, a fim de familiarizar a população com o novo modelo de atendimento de emergência, foi realizada uma estratégia de marketing recomendada por Dr. Paulino Werneck (18? – 19?), superintendente do Posto Central de Assistência, chamada de “ensaios de socorro” na qual pessoas caiam pelas ruas e recebiam atendimento emergencial por meio das ambulâncias. A estratégia mostrou-se efetiva e as ambulâncias passaram a ser chamadas de “mãe carinhosa”.

 

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Ensaio de socorro / DISTRITO FEDERAL (BRASIL), 1922, p. 248

 

Em pouco tempo a quantidade de chamados de urgência aumentaram e o Posto Central de Assistência já não conseguia atender as solicitações recebidas, tornando-se necessário ampliar sua capacidade de atendimento.

Desta forma, o prefeito Souza Aguiar decidiu transferir o Posto Central para um novo endereço na Praça da República.  Coube ao prefeito general Inocêncio Serzedelo Corrêa (1858 – 1932), depois de determinar que fossem feitas ampliações no edifício, inaugurar o Posto em 17 de outubro de 1910. “O prédio tinha três pavimentos e estava equipado com o que havia de mais moderno” (RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 23).

Após a inauguração houve diversas ampliações e reconfigurações dos espaços. Em 1921, após reformulações nos serviços de assistência pública da capital, a Lei n.º 2.401 de 22 de janeiro determinava em seu artigo 28, a construção urgente de um Hospital de Pronto Socorro em anexo ao Posto Central, para a qual já havia verba consignada de mil contos de réis.  O Hospital do Pronto Socorro foi finalmente inaugurado no dia 20 de setembro de 1925.

 

 

Sobre o novo Hospital de Pronto Socorro inaugurado em 1925 comentou-se:

“[…] atendia, de modo satisfatório, aos reclamos da população, visto que se achava bem aparelhado e instalado para aquela época, como também situado em local de grande concentração populacional. Porém, dentro de pouco tempo, verificou-se a insuficiência de recursos do Hospital, tanto no que se relacionava com as suas possibilidades técnicas, como materiais, para o atendimento da população que crescia rapidamente”(RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 39).

Augusto Malta registra mais uma imagem do Posto Central na Praça da República revelando o poder da fotografia como guardiã da memória urbana:

 

 

Na gestão do interventor Pedro Ernesto (1884 – 1942), foi inaugurada uma maternidade no Hospital de Pronto Socorro, com o objetivo de ampliar sua área de atuação junto à população.  E houve a unificação dos serviços do antigo Posto Central de Assistência e do Hospital de Pronto Socorro, permanecendo o último nome.

 

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Prefeito Pedro Ernesto em visita ao Hospital de Pronto Socorro / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 53

 

Novos planos para reforma do Hospital de Pronto Socorro surgiram com o professor Clementino Fraga (1880 – 1971) à frente da Secretaria-Geral de Saúde e Assistência. Previa-se a instalação de 300 leitos e a aquisição de novas ambulâncias no projeto do novo hospital.

 

Projeto do novo hospital / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 57

Projeto do novo hospital / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 57

 

Em 2 de junho de 1955, enquanto o novo hospital ainda estava em construção, o prefeito Alim Pedro (1907 – 1975), no centenário do nascimento de Souza Aguiar, deu ao Hospital do Pronto Socorro, o nome de Hospital Geral Souza Aguiar em reconhecimento. Em 1962, por meio da Lei n.º 279, o hospital passa a ser chamado Hospital Estadual Souza Aguiar e, posteriormente, torna-se Hospital Municipal Souza Aguiar.

 

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Um busto em homenagem a Francisco Marcelino de Souza Aguiar está no segundo andar da Biblioteca Nacional em exposição permanente

 

Na edificação do novo hospital, por se tratar de uma construção de grandes proporções, as novas instalações entraram em funcionamento em etapas, à medida em que eram finalizadas e tinham condições de serem utilizadas. Até que em 04 de novembro de 1968, o novo prédio do Hospital Souza Aguiar foi inaugurado.

 

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Hospital Souza Aguiar / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 113

 

Porém as obras de melhorias no Hospital Souza Aguiar não pararam, conforme discursa o governador Negrão de Lima, mais obras seriam realizadas até que ele ficasse à altura dos melhores hospitais (LIMA, Negrão de., 1965/1970), sendo considerado hoje  o hospital com a maior emergência pública do Rio de Janeiro e da da América do Sul.  Além disso, seu edifício atual, projetado pelo arquiteto Ary Garcia Roza (1911 – 1999), é considerado patrimônio da cidade e foi tombado em 2009. Possui belíssimas obras do artista e paisagista Roberto Burle Marx (1909 – 1994), como o painel interno de pedras e o muro escultório.

 

Hospital Souza Aguiar. Mural de pedras.

Hospital Souza Aguiar. Mural de pedras.

 

** Luciana F. Lau e Danielle Barreiros são bibliotecárias e Fabio Carvalho é arquivista do IBGE.

 

Referências:

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Ivo Pitanguy: bibliografia. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2017.

A UNIÃO. Rio das Ostras, RJ: [s.n.]. Semanal. Acesso em: 2 abr. 2025.

DISTRITO FEDERAL (BRASIL). PREFEITURA. Assistência pública e privada no Rio de Janeiro (Brasil): história e estatística: commemoração do centenário da independência nacional. Rio de Janeiro: Typ. do Annuario do Brasil, 1922. 912 p.

LIMA, Negrão de (Governador). Discursos: Visita às Novas Instalações do Hospital Souza Aguiar de [1965/1970]. Rio de Janeiro, RJ: [s. n.], [1965/1970]. Acesso em: 06 de março de 2025.

RIO DE JANEIRO (Estado). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS. Assistência pública: Guanabara : 80 anos de história. Rio de Janeiro: Secretaria de Saúde do Estado da Guanabara, Superintendência de Serviços Médicos, 1972. 408 p.

SERVIÇO DE UROLOGIA. Hospital Souza Aguiar: experiência em atendimentos de urgência e emergência. [S. l.]: Serviço de Urologia, 2023. Acesso em: 06 de março de 2025.

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XIX – A Rua dos Ourives, atual Miguel Couto, no centro do Rio de Janeiro

 

 

No 19° artigo da série Avenidas e ruas do Brasil, o destaque são as fotos da Rua dos Ourives realizadas pelo fotógrafo alagoano Augusto Malta (1864-1957) que, em 1903, tornou-se o fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro, cargo criado para ele. Passou a documentar a radical mudança urbanística promovida pelo então prefeito da cidade, Francisco Pereira Passos (1836-1913), período que ficou conhecido como o “bota-abaixo”. Augusto Malta trabalhou na Prefeitura até 1936, quando se aposentou. Foi o principal fotógrafo da evolução urbana do Rio nas primeiras décadas do século XX.

 

Anônimo. Augusto Malta. Rio de Janeiro. Acervo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

Anônimo. Augusto Malta. Rio de Janeiro. Acervo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

 

Acessando o link para as fotografias da Rua dos Ourives produzidas por Augusto Malta disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

A origem da Rua dos Ourives, atual Rua Miguel Couto

 

Em meados do século XVIII, a Rua dos Ourives fazia parte do Caminho do Parto para Conceição, que ia da Igreja de Nossa Senhora do Parto até o Morro da Conceição. Nela começaram a se instalar todos os ourives da cidade, impedidos, a partir de 1742, de realizar sua atividade em qualquer outro lugar. A medida foi tomada pelo governador português Gomes Freire de Andrada (1757-1817), o Conde de Bobadela, com o objetivo de facilitar a arrecadação e a fiscalização, impedindo desvios do ouro, cujo quinto deveria ser pago a Portugal. A Carta Régia de 30 de julho de 1766 proibiu no Brasil as indústrias de ourives, fiadores de ouro, de sedas e algodões tecidos. O vice-rei Conde da Cunha (1700-1791), em 1767, se referia à Rua dos Ourives como a maior e mais populosa da cidade. “O ouro que ali se lavra é muito mais do que se sabe e se imagina. E quase todo extraviado das Casas de Fundição.(…) A rua é um coito de ladrões e vagabundos; todos interessados no contrabando do ouro.”

O episódio da proibição foi lembrado no romance As Mulheres de Mantilha (1870), de Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882):

“É provável que também uma sinistra medida tomada pelo governo de Lisboa e executada pelo conde da Cunha concorresse muito para o desgosto profundo que causou a sua administração.

Ou porque se quisesse prevenir o muito descaminho do ouro em pó e em folhetas, ou porque, como parece mais verdadeiro, se resolvesse sob aquele pretexto sacrificar os interesses legítimos dos colonos aos interesses egoístas dos ourives da metrópole, a Carta Régia de 30 de julho de 1766 mandou extinguir o ofício de ourives nas capitanias de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, e foi o conde da Cunha o infeliz executor desse assassinato da ourivesaria que principalmente no Rio de Janeiro tinha chegado a um grau de perfeição que excluía o concurso dos produtos
respectivos da metrópole.

A Carta Régia de 30 de julho de 1766 era a pobreza para muitos, e a iniqüidade para todos. Um castiçal de prata amassado, uma colher de prata quebrada, uma jóia de ouro precisando de conserto, deviam ou perder-se, ou ir pedir conserto a Portugal.

O governo de Lisboa sentenciara à morte a ourivesaria do Brasil e o conde da Cunha era o algoz que enforcava a vítima no patíbulo levantado pelo despotismo”.

 

 

 

No século XIX, com a chegada de dom João VI ao Rio de Janeiro, em 1808, foram revogadas as medidas do alvará de 5 de janeiro de 1785 – assinado pela rainha dona Maria I (1734-1816) -, que proibia o estabelecimento das manufaturas e indústrias no Brasil e em todos os seus domínios ultramarinos.

 

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Trecho do alvará de 5 de janeiro de 1785

 

 

Alvará do príncipe regente João VI, de 1º de abril de 1808:

“Eu o príncipe regente faço saber aos que o presente alvará virem: que desejando promover, e adiantar a riqueza nacional, e sendo um dos mananciais dela as manufaturas, e melhoram, e dão mais valor aos gêneros e produtos da agricultura, e das artes, e aumentam a população dando que fazer a muitos braços, e fornecendo meios de subsistência a muitos dos meus vassalos, que por falta deles se entregariam aos vícios da ociosidade: e convindo remover todos os obstáculos, que podem inutilizar, e prestar tão vantajosos proveitos: sou servido abolir, e revogar toda e qualquer proibição, que haja a este respeito no Estado do Brasil, e nos meus domínios ultramarinos, e ordenar, que daqui em diante seja o país em que habitem, estabelecer todo o gênero de manufaturas, sem excetuar alguma, fazendo os seus trabalhos em pequeno, ou em grande, como entenderem que mais lhes convém, para o que. Hei por bem revogar o alvará de cinco de janeiro de mil setecentos oitenta e cinco e quaisquer leis, ou ordens que o contrário decidam, como se delas fizesse expressa, e individual menção, sem embargo da lei em contrário”.

 

Um alvará de 11 de agosto de 1815 declarou livres os ourives para trabalharem e negociarem com obras e ouro e prata. Ele passaram a viver um de seus melhores períodos e a Rua dos Ourives se transformou em uma das mais importantes ruas cariocas, passando a ter maior número de estabelecimentos comerciais da cidade.

“Declaro livre aos Ourives o trabalharem e negociarem com obras de ouro e prata.

     Eu o Principe Regente faço saber aos que o presente Alvará com força de lei virem, que havendo determinado no do 1º de abril de 1808, que fosse livre a qualquer dos meus fieis vassallos habitadores deste Estado do brazil e Dominios Ultramerinos, estabelecer manufacturas de todo o genero, e sem exccepção de alguma, revogando qualquer prohibição, que houvesse a este respeito, com o fim de augmentar e promover a industria nacional, e de não tolher a qualquer a livre faculdade de applicar-se aos trabalhos decentes e lucrosos; deve entender-se comprehendida nesta disposição a prohibição , que tinham de usar do seu officio os Ourives de ouro e prata desta Cidade, e mais partes do Brazil estabelecida na Carta Régia de 30 de Julho de 1766, para que se julgue abolida e levantada; e muito mais porque os motivos que precederem e determinaram a referida prohibição não se verificaram de todo, como mostrou a experiencia ; nem já existem depois das disposições dos Alvarás de 1 de Setembro e 12 de Outubro de 1808, que puzeram em effectiva observancia as providencias antes estabelecidas nos Capitulos 2º e 3º do de 13 de Maio de 1803, para acautelare preveniros extravios do ouro em pó, facilitando-se-lhe a fundição e promovendo-se-lhe o troco e permutas nas casas determinadas a este fim: tendo consideração a todo o referido e ao mais que me foi presente em consulta da Mesa do desembargo do Paço, com que fui servido conformar-me : hei por bemrevogar a abolir a sobredita Carta Régia de 30 de Julho de 1766; ficando livre aos Ourives de ouro e prata trabalhar nestes metaes e negociar nas obras que delles fizerem , como lhes convier.
     Pelo que : mando á Mesa do Desembargo do Paço e da Consciencia e Ordens; Presidente do meu Real Erario; Regedor da Casa da Supplicação do Brazil; Conselho da minha Real Fazenda ; Governadores e Capitães Generaes ; ea todos os tribunaes, ministros de Justiça e mais pessoas, a quem o conhecimento deste Alvará pertencer, o cumpram  e guardem, não obstante quaesquer disposições, que o contrario determinem: que todas hei por derogadas como se de cada um fizesse expressa e individual menção. E valerá como Carta passada pela Chancellaria, posto que por ella não ha de passar , e que o seu effeito haja de durar mais de um anno, sem embargo da ordenação em contrario. Dado no Rio de Janeiro a 11 de Agosto de 1815.

PRINCIPE com guarda.

     Alvará com força de lei pelo qual Vossa Alteza Real ha por bem revogar e abolir a Carta Regia de 20 de Julho de 1766 pelos motivos acima expostos.

Para Vossa Alteza real ver.

Joaquim José da Silveira o fez. Bernardo José de Souza Lobato o fez escrever.”

Em 1821, os primeiros alemães vindos para o Brasil fundaram na Rua dos Ourives o Clube Germânia. A rua também foi a moradia dos primeiros imigrantes judeus. Em 1846, a região atingiu o ápice, concentrando 66 das 78 joalherias cariocas. Segundo o romancista francês Gustavo Aimard (1818-1883), no livro Le Brésil nouveau (1886), nas casas da rua as “… janelas brilham com ouro e prata: candelabros, lampadários, custódias, relicários, toda a ourivesaria das igrejas está lá exposta, e  também faz-se as pulseiras, seus fechos, os diademas, todo o mundum muliebrem de que falam os poetas latinos… Gustavo Aimard era o pseudônimo de Olivier Gloux. Ele esteve no Brasil durante o Segundo Reinado e conheceu pessoalmente o imperador dom Pedro II (1825-1891), que o impressionou por sua simplicidade.

 

 

Em 1888, a Rua dos Ourives foi dividida em duas frações: entre as ruas São José e a Sete de Setembro passou a se chamar Rodrigo Silva e, entre a Rua do Ouvidor e o Largo de Santa Rita, manteve a denominação de Rua dos Ourives. Em 1936, a Rua dos Ourives teve seu nome alterado para Rua Miguel Couto, importante nome da medicina brasileira, que teve consultório na rua que hoje historiamos.

 

 

A Rua dos Ourives foi mencionada no conto Pobre Finoca! (1891), de Machado de Assis (1839-1908):

“Saíram todos e subiram a rua. Finoca não se enganara; Macedo estava à esquina da rua dos Ourives. Disfarçou mas fitou logo os olhos nela. Ela não tirou os seus do chão, e foram os de Alberta que receberam os dele, entre curiosa e piedosa. Macedo agradeceu o favor”.

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

AIMARD, Gustave: Le Brésil Nouveau. Paris, E. Dentú editeur, 1886, páginas 124 e 125.

GERSON, Brasil. História das Ruas do Rio. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2013.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

O Arquivo Nacional e a história luso-brasileira

OZANAM, Luiz Henrique. A jóia mais preciosa do Brasil – joalheria em Minas Gerais 1735-1815. Tese de doutorado – Universidade Federal de Minas Gerais, 2013.

Portal Rio um olhar no tempo 1565 a 2011

Site Rede Artesanato Brasil

 

 

O Túnel Velho por Gutierrez e Malta

Com duas imagens produzidas por Juan Gutierrez de Padilla (c. 1860 – 1897), na década de 1890, quando ainda estava em construção; e com outra de autoria de Augusto Malta (1864 – 1957), de 1927, a Brasiliana Fotográfica conta um pouco da história do Túnel Real Grandeza. Há ainda uma fotografia de autoria de Rodrigues & C°. Editores e Proprietários mostrando a abertura do Túnel do Leme, ou Túnel Novo.

O Túnel Real Grandeza foi rebatizado de Túnel Alaor Prata, em 1927, em homenagem a Alaor Prata Leme Soares (1882 – 1964), que foi prefeito do Rio de Janeiro entre 1922 e 1926. Foi inaugurado em 6 de julho de 1892 e ligou a Rua Real Grandeza, em Botafogo, à Rua do Matoso, atual Rua Siqueira Campos, em Copacabana. Sua construção foi realizada pelo engenheiro José de Cupertino Coelho Cintra (1843 – 1939), gerente da Companhia Ferro-Carril Jardim Botânico. Com essa ligação, o bairro de Copacabana começou a se integrar ao resto da cidade. Com a presença do presidente da República, marechal Floriano Peixoto (1839 – 1895), quando foi inaugurado, foi lavrada uma ata que marcou, oficialmente, o nascimento de Copacabana (O Paiz, 7 de julho de 1892, na sexta coluna). Antes disso, Copacabana não era um local de fácil acesso, viviam ali alguns pescadores, havia algumas chácaras e sítios, além da Igrejinha de Copacabana e do Forte Reduto do Leme.

 

 

 

 

 

 

Abaixo, uma imagem realizada por Gutierrez na década de 1890:  em primeiro plano, no centro, a estação de bondes instalada na Praça Malvino Reis (atual Serzedelo Corrêa). Essa estação foi colocada em uso no ano de 1893, quando os trilhos chegaram até o bairro, e depois de demolida, deu lugar ao Centro Comercial de Copacabana. No fundo, à direita, o Morro do Cantagalo; à esquerda, a ponta do Arpoador.

 

 

Da data de sua inauguração até 1901, quando foi entregue ao livre trânsito público, só podiam passar pelo Túnel Velho bondes da Companhia Jardim Botânico.

Ficou mais conhecido como Túnel Velho porque, em 4 de março de 1906, foi inaugurado pela companhia Jardim Botânico sua nova linha elétrica pelo Túnel do Leme, indo o ramal até o ponto terminal da praça do Vigia, onde foi construída a estação de bonds (O Paiz, 4 de março de 1906, quarta colunaA Notícia, 6 e 7 de março de 1906, quinta coluna). O Túnel do Leme, inaugurado com a denominação de Túnel Carioca, teve seu nome mudado para Túnel Coelho Cintra, em 1937. Mas ficou conhecido como Túnel Novo.

 

 

 

Brevíssimos perfis de Juan Gutierrez de Padilla (c. 1860 – 1897) e de Augusto Malta (1864 – 1957),

fotógrafos das imagens do Túnel Velho publicadas neste artigo

 

Juan Gutierrez de Padilla (c. 1860 – 1957)

 

 

Juan Gutierrez de Padilla foi um dos mais importantes fotógrafos paisagistas dos oitocentos, no Brasil. Foi, ao lado de Marc Ferrez (1843 – 1923) e George Leuzinger (1813 – 1892), ambos do século XIX, e de Augusto Malta (1864 – 1957), já no século XX, um dos maiores cronistas visuais do Rio de Janeiro. Foi um dos fotógrafos principais da transição da cidade imperial para a cidade republicana. Gutierrez registrou a Revolta da Armada ( 1893 – 1894), tornando-se um dos pioneiros da fotografia dos conflitos armados no Brasil. Em 1896, eclodiu o conflito de Canudos e foi por seu entusiamo republicano que, após a derrota da expedição comandada pelo coronel Moreira César (1850 – 1897), decidiu incorporar-se como ajudante de ordens do general João da Silva Barbosa. Foi ferido mortalmente, em 28 de junho de 1897. Sua trágica morte o tornou, talvez, o primeiro repórter fotográfico morto durante um trabalho de campo, no Brasil, apesar de, até hoje, não se conhecer nenhum registro fotográfico que ele tenha feito do conflito. Nasceu, provavelmente, nas Antilhas, na época, uma colônia espanhola. Porém, outras fontes afirmam que ele teria nascido em Cuba ou na África.

 

Augusto Malta (1864 – 1957)

 

Foto do Arquivo recortada

Anônimo. Augusto Malta. Rio de Janeiro. Acervo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

 

O alagoano Augusto Malta foi o mais  importante cronista fotográfico do Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XX. Em 1903, foi contratado pela Prefeitura do Rio de Janeiro como fotógrafo oficial, cargo criado para ele. Passou a documentar a radical mudança urbanística promovida pelo então prefeito da cidade, Francisco Pereira Passos (1836-1913), período que ficou conhecido como o “bota-abaixo”. Augusto Malta trabalhou na Prefeitura até 1936, quando se aposentou. Além de ter documentado as transformações urbanas e os grandes eventos da cidade como a Exposição Nacional de 1908, a construção do Teatro Municipal, em 1909; a Revolta da Chibata, em 1910; e a inauguração do Cristo Redentor, em 1931; fotografou personalidades políticas, intelectuais e artísticas; paisagens, monumentos, lojas, o casario decadente e as ressacas. Registrou também aspectos da vida carioca como, por exemplo, o carnaval de rua, o movimento dos quiosques, os eventos sociais, os moradores de cortiços, os vendedores ambulantes, as prostitutas, os marinheiros e cenas de praia. Faleceu em Em 30 de junho de 1957,  no Hospital da Ordem Terceira da Penitência, devido a uma insuficiência cardíaca. Foi sepultado no dia seguinte, no Cemitério do Caju (Correio da Manhã, 2 de julho de 1957, na seção “Prefeitura”).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Biblioteca Nacional

DUNLOP, Charles. Rio Antigo, vol 1. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo Ltda, 1958.

GERSON, Brasil. História das Ruas do Rio. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2013.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Site Diário do Rio

Site Prefeitura do Rio de Janeiro

Site Trilhos do Rio

WANDERLEY, Andrea C. T. A fundação de Copacabana in Brasiliana Fotográfica, 6 de julho de 2016.

WANDERLEY, Andrea C. T. O alagoano Augusto Malta, fotógrafo oficial do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936 in Brasiliana Fotográfica, 10 de julho de 2015.

WANDERLEY, Andrea C. T. O fotógrafo Juan Gutierrez de Padilla (c. 1860 – 28/6/1897) in Brasiliana Fotográfica, 28 de junho de 2016.

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