Dom Pedro II (1825 – 1891), um entusiasta da fotografia, já foi tema da Brasiliana Fotográfica em diversas publicações. Hoje o portal celebra os 200 anos do nascimento do monarca, destacando esses artigos e oferecendo a seus leitores uma seleção de imagens das viagens que o imperador fez ao Egito e às ruínas de Pompeia, que foram o assunto da exposição Uma viagem ao mundo antigo, cujo curador foi Joaquim Marçal, na ocasião pesquisador da Divisão de Iconografia da Biblioteca Nacional e curador da Brasiliana Fotográfica. Destacamos também a participação da Brasiliana Fotográfica no evento Pelas Lentes das Ciências, da História e das Artes: Pedro II em Debate, realizado nos dias 25 e 27 de novembro de 2025 no Colégio Pedro II, no Rio de Janeiro.

Foram expostas, entre 30 de outubro de 2017 e 30 de janeiro de 2018, reinaugurando o Espaço Eliseu Visconti, na Biblioteca Nacional, 119 fotografias do acervo da instituição, uma das fundadoras do portal. Segundo Marçal, muitos desses registros foram expostos pela primeira vez e não contam apenas parte da história do Brasil e do mundo no século XIX, mas também da própria fotografia e da reprodutibilidade das imagens. O acervo integra a Coleção D. Thereza Christina Maria, da qual fazem parte cerca de 100 mil itens entre desenhos, estampas, fotografias, livros, mapas, partituras e outros documentos impressos e manuscritos. A exposição, ainda segundo Marçal, evocou a antiguidade a partir das ruínas do Egito Antigo e de Pompeia e, simultaneamente, alguns aspectos importantes da história das imagens e de sua reprodutibilidade – com destaque para a fotografia, mas sem deixar de levar em conta os processos que a antecederam e com ela coexistiram. A ideia é exibir as diversas técnicas de reprodução experimentadas no século XIX.
Acessando o link para as fotografias das viagens de d. Pedro II disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.
Acesse aqui os outros artigos sobre o imperador dom Pedro II já publicados na Brasiliana Fotográfica:
Dom Pedro II ( RJ, 2/12/1825 – Paris, 5/12/1891), um entusiasta da fotografia, e autoria de Andrea C.T. Wanderley, publicado em 2 de dezembro de 2016.
Após encantar-se com Molière e Giulietta Dionesi, o imperador Pedro II sofre um atentado, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, publicado em 15 de julho de 2020.
Dom Pedro II fotografado pelo italiano Luis Terragno (c. 1831 – 1891), Fotógrafo da Casa Imperial, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, publicado em 2 de dezembro de 2022.
E o grande escritor Machado de Assis elogia o imperador Pedro II, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, publicado em 5 de março de 2025.
Egito
O Egito foi um dos destinos do imperador em sua primeira viagem ao exterior, quando foi à Europa e ao Oriente Médio. Partiu, em 25 de maio de 1871, a bordo do paquete Douro, e retornou ao Brasil, em 31 de março de 1872 (Diário do Rio de Janeiro, 26 de maio de 1871, segunda coluna; Diário do Rio de Janeiro, 1º de abril de 1872, primeira coluna).
Em 28 de outubro, Pedro II chegou a Alexandria e, em 2 de novembro, no Cairo. Em 4 de novembro de 1871, visitou as pirâmides de Gizé com um grupo de viajantes, dentre eles o fundador do atual Museu Egípcio no Cairo, o egiptólogos francês François Auguste Mariette (1821 – 1881) e o alemão Heinrich Karl Brugsch (1827 – 1894), também egiptólogo e futuro diretor da Biblioteca do Instituto de Alexandria. Pedro II ficou no Egito até 11 de novembro de 1871.
Em seus diários, o imperador escreveu, em 4 de novembro de 1871:
“Estou muito cansado e atirar-me-ia já na cama se as saudades não exigissem que lhe desse as mais afetuosas boas noites. Adeus, cara amiga! Nada me interessa completamente longe de Você. Adeus! Depois de ouvir missa na igreja dos Franciscanos à qual só a pé se pode chegar por causa destas ruas que parecem galerias de formigas fui às Pirâmides de Gizeh. O caminho quase todo por alamedas de acácias, das quais muitíssimas trançam entre si as comas do verde o mais esplêndido é condigno vestíbulo de tão venerando monumentos. Parecem pequenos até chegar a eles e só se faz idéia da altura da grande pirâmide quando se observam os que por ela trepam e vão-se tornando cada mais pigmeus. Subi facilmente ajudado pelos árabes e no cimo reunimo-nos mais de 30. Da minha companhia só foram Bom Retiro e o egiptólogo distinto dr. Brugsch, que muito tem simpatizado comigo e dado-me informações interessantíssimas. Também galgaram a pirâmide 11 de 17 moças nos Estados Unidos, que consta pertencerem a uma sociedade emancipadora [sic] das mulheres. Um rapaz e senhora de mais idade também as acompanharam. Logo que atingimos o alto da pirâmide soltamos muitos hurrahs, agitamos os lenços e eu assentado numa pedra do tempo de Chufu (Cheops dos gregos) escrevi algumas palavras a Você e os dados que o Brugsch comunicou-me a respeito da pirâmide”.
Em 7 de novembro, visitou Mênfis e Sakkarah; em 9 de novembro, Mokattan; e, em 10 de novembro, retornou à Alexandria. No dia seguinte, retornou à Europa.
Pedro II voltou ao Egito em sua segunda viagem ao exterior, a mais longa, realizada entre entre 26 de março de 1876 e 25 de setembro de 1877. Embarcou no paquete inglês Hevelius (Diário do Rio de Janeiro, 27 e 28 de março de 1876, quarta coluna; Diário do Rio de Janeiro, 26 de setembro de 1877, terceira coluna; 27 de setembro de 1877, quarta coluna). Visitou os Estados Unidos, o Canadá, diversos países da Europa, do Oriente Médio e da África.
Passou seu aniversário de 51 anos, em 2 de dezembro de 1876, no Santo Sepulcro, em Jerusalém. Chegou ao Egito, em 7 de dezembro de 1876, quando visitou diversas pirâmides. Viajou pelo Rio Nilo saindo do Cairo e foi até até Wadi Halfa, hoje o Sudão. Conheceu diversas cidades históricas, dentre elas Luxor, Karnal, Dandur e Assuã, além do célebre templo de Abu Simbel. Deixou o Egito, em 16 de janeiro de 1877.
As fotos de dom Pedro II no Egito
As fotos, que estão o acervo fotográfico da Brasiliana Fotográfica, de dom Pedro II no Egito, em 1871, são de autoria de Hippolyte Delie (1841 – 1889) e Emile Bechard (1844 – 1917), fotógrafos franceses ativos no Egito na década de 1870; e de Hélios, possivelmente o fotógrafo grego Hélio Zoulis (18? -?), cujo estúdio chamava-se Hélios Alexandrie & Caire. Há um registro realizado por um fotógrafo ainda não identificado que não está datado.
Segundo o Metropolitan Museum of Art: “Émile Béchard continua sendo uma figura misteriosa, principalmente por causa da assinatura “H. Béchard”, que aparece nos negativo da maior parte de suas obras paisagísticas e arquitetônicas, inclusive nesta vista do Ramesseum. Desde o final dos anos 1980, muitos historiadores acreditavam que havia de fato dois fotógrafos, Émile e “Henri” Béchard, ambos operando no Egito. Mais recentemente, os estudiosos levantaram a hipótese de que talvez Émile tenha adotado esse segundo nome para distinguir os diferentes temas de suas várias séries (ou seja, retratos versus monumentos). A identificação de um irmão chamado Hippolyte Béchard, no entanto, levou a uma explicação mais lógica de que Hippolyte vendeu e distribuiu as fotos de Emile na França. A situação, porém, foi ainda mais complicado por um grupo de fotografias vendidas em outubro de 2015 no castelo de Saint-Brisson em Saint Brisson-sur-Loire, França. Inscrições em algumas das gravuras indicam que Hippolyte Béchard estava no Cairo em 1870, dando algum crédito à sugestão de Ken Jacobson de que Hippolyte Délié não era apenas sócio de Emile, mas possivelmente também seu irmão, Hippolyte Béchard, que, por algum motivo, mudou de endereço. nome. As identidades cambiantes associadas à “Maison Béchard” são um excelente exemplo das dificuldades frequentemente associadas à fotografia comercial do século XIX”.
Pompéia
Em 30 de junho de 1887, dom Pedro II viajou pela terceira vez à Europa. Embarcou, no Rio de Janeiro no paquete francês Gironde e retornou ao Brasil, em 22 de agosto de 1888, quando chegou ao Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, 30 de junho de 1877, quarta coluna; 22 de agosto de 1888, primeira coluna, e 23 de agosto de 1888, primeira coluna). A motivação principal da viagem, durante a qual a princesa Isabel, pela terceira vez regente provisória, assinou a Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, foi a recuperação de sua saúde. Em abril de 1888, foi para a Itália, onde visitou diversas cidades e, atendendo a um desejo de sua esposa, a napolitana dona Teresa Cristina Maria (1822 – 1889), esteve nas ruínas de Pompeia, um dos mais importantes sítios arqueológicos do mundo, cuja descoberta havia sido iniciada em 1748. Subiu à cratera do vulcão Vesúvio e o casal real percorreu as ruas da cidade.
As fotos de dom Pedro II em Pompeia
As fotografias de dom Pedro II em Pompeia, que estão o acervo fotográfico da Brasiliana Fotográfica, são de autoria do alemão Giorgio Sommer (1834 – 1914) que começou a trabalhar como fotógrafo com 19 anos. Entre as décadas de 1850 e 1880, registrou milhares de imagens de ruínas arqueológicas, objetos de arte, paisagens e retratos. Em 1857, Sommer mudou-se para a Itália para Nápoles e, 10 anos depois, associou-se ao também alemão Edmund Behles (1841 – 1924), cujo estúdio ficava em Roma. Tornaram-se proprietários de um dos maiores e mais prolíficos estúdios fotográficos da Itália. Entre 1862 e 1873, ele ganhou medalhas nas Exposições Internacionais de Londres, Paris e Viena.
Acesse aqui imagens de Uma viagem o mundo antigo – Egito e Pompeia
Andrea C.T. Wanderley
Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Pedro II desenhado por Rafael Bordalo Pinheiro, carregando uma mala. Publicado, em maio de 1880, no Álbum das Glórias, título de uma coleção de folhas volantes publicadas em duas séries (1880–1883 e 1902), com caricaturas de políticos, intelectuais, artistas, jornalistas e outras figuras públicas da época. As ilustrações eram de autoria de Bordalo Pinheiro e vinham acompanhadas de textos satíricos sobre o caricaturado de autoria, em sua maioria, de João Rialto -pseudônimo de Guilherme de Azevedo (1839-1882) -; e de João Ribaixo, pseudônimo de Ramalho Ortigão (1836 – 1915)
Andrea C. T. Wanderley
Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica
Fontes:
BNDigital
CARVALHO, José Murilo de. D. Pedro II. São Paulo : Companhia das Letras, 2007.
CARVALHO, Larissa Nunes de. A Egiptomania no Brasil: As viagens de D. Pedro II ao Egito em 1871 e 1876. Trabalho de Conclusão de Curso apresentado à Universidade Federal de São Paulo como requisito parcial para obtenção do grau em Licenciado em História, 2023.
FARIAS, Andressa Brenda Ferreira. Uma visão sobre o orientalismo através do registro fotográfico de uma das viagens de Pedro II ao Egito. Trabalho de conclusão de curso de Bacharelado em História da Arte apresentado à Escola de Belas Artes da Universidade Federal do Rio de Janeiro como requisito parcial para a obtenção do título de Bacharel em História da Arte, 2020.
Flickr
Hemeroteca Digital, sítio da Hemeroteca Municipal de Lisboa
Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional
KAHTLAB, Roberto. As Viagens de Dom Pedro II. São Paulo : Benvirá, 2015.
LIRA, Heitor. Dom Pedro II. Rio de Janeiro : Editora Garnier, 2020.
Portal Brasiliana Fotográfica
REZUTTI, Paulo. D. Pedro II – A história não contada: O último imperador do Novo Mundo revelado por cartas e documentos inéditos. Portugal : Editora Leya, 2019.
REZUTTI, Paulo. Viagem de Dom Pedro II em 1876. Youtube.
SANTOS, Helio Ricardo dos. Representações de D. Pedro II na Imprensa Brasileira (1872-1889). Revista Minerva Universitária, 13 de fevereiro de 2022.
SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.
Site Metropolitan Museum of Art
Site Museu Imperial de Petrópolis
Site Royal Academy
Site Staedel Museum
A Brasiliana Fotográfica no Colégio Pedro II

Ronaldo Fernandes, do Museu Nacional; Késiah Pinheiro Viana e Andrea Wanderley, integrantes do Comitê Gestor da Brasiliana Fotográfica; Elizabeth Monteiro da Silva, coordenadora do Centro de Documentação e Memória do Colégio Pedro II, e Roberta Zanatta, coordenadora do Núcleo de Catalogação do Instituto Moreira Salles e gestora de conteúdo da Brasiliana Fotográfica, no seminário Pelas Lentes das Ciências, da História e das Artes: Pedro II em Debate, em 27 de novembro de 2025. Rio de Janeiro.
A Brasiliana Fotográfica esteve presente no evento Pelas Lentes das Ciências, da História e das Artes: Pedro II em Debate, organizado pela bibliotecária Elisabeth Monteiro da Silva, coordenadora do Centro de Documentação e Memória do Colégio Pedro II, realizado nos dias 25 e 27 de novembro de 2025. Késiah Pinheiro Viana*, bibliotecária da Biblioteca Nacional e integrante do Comitê Gestor do portal; e eu, Andrea C.T. Wanderley, editora, pesquisadora e também integrante do Comitê Gestor da Brasiliana Fotográfica, fechamos o seminário com a palestra A Brasiliana Fotográfica e a Coleção Teresa Cristina Maria.
Os outros palestrantes foram Vera Cabana; Victor Carlos Massena Fernandes, da Academia Luso Brasileira de Letras; Cristiana Aubin; Paulo Rezzutti, Angela Telles, do Real Gabinete de Leitura; Paulo Knauss, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, instituição parceira da Brasiliana Fotográfica; Mauricio Vicente e Alessandra Fragua, do Museu Imperial; e Regina Dantas e Ronaldo Fernandes, do Museu Nacional.

Iniciei nossa apresentação traçando um perfil do portal e contando um pouco da história da invenção e da chegada do daguerreótipo no Brasil; e do entusiasmo e envolvimento de dom Pedro II com a fotografia.
Abaixo a íntegra de minha participação:
Um pouco da história do daguerreótipo e do interesse de Pedro II pela fotografia
Andrea C. T. Wanderley

Inicialmente, muito obrigada pelo convite para participar deste encontro. É realmente uma coroação para a Brasiliana Fotográfica falar para estudantes e professores. Esse sempre foi um dos objetivos do portal. Para mim, pesquisadora e editora do portal desde seu início, em abril de 2015, é uma grande emoção e uma realização importante.
A Brasiliana Fotográfica é um espaço para dar visibilidade, fomentar o debate e a reflexão sobre os acervos deste gênero documental, abordando-os enquanto fonte primária mas também enquanto patrimônio digital a ser preservado. É uma plataforma de difusão de conhecimento imagético e textual que valoriza o papel da fotografia na escrita da história.
Alguns números de nosso portal: fomos fundados pela Biblioteca Nacional e pelo Instituto Moreira Salles e atualmente reunimos 15 instituições. Além das fundadoras, os parceiros são, por ordem de chegada, o Leibniz Laenderkunde, de Leipzig, na Alemanha; o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, a Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, o Arquivo Nacional, a Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, o Museu da República, o Museu Histórico Nacional, a Fundação Joaquim Nabuco, o Museu Aeroespacial, a Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – o IHGB -, o Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – o IBGE -, e o Museu Paraense Emílio Goeldi.
Temos em nosso acervo cerca de 12.500 imagens – registros produzidos no século XIX até a década de 1940 – e 590 artigos publicados: 464 escritos por mim e o restante por parceiros e convidados. Temos 9 séries, dentre elas “Feministas, graças a Deus” e “O Rio de Janeiro desaparecido”; e 69 cronologias de fotógrafos, o que acreditamos seruma importante contribuição para a historiografia da fotografia no Brasil.
E o mais importante: cerca de 82 milhões de visualizações! Porque esse trabalho, que envolve a dedicação e o empenho de dezenas de pessoas entre conservadores, digitalizadores, historiadores, profissionais de informática, pesquisadores e divulgadores teria pouco sentido se não estivesse chegando ao público.
E vamos em frente!
Um pouco da história do daguerreótipo e do interesse de Pedro II pela fotografia
Em 7 de janeiro de 1839, na Academia de Ciências da França, foi anunciada a descoberta da daguerreotipia, um processo fotográfico desenvolvido pelos franceses Joseph Nicèphore Niépce (1765 – 1833) e Louis Jacques Mandé Daguerre (1787 – 1851).

Cerca de sete meses depois, em 19 de agosto, durante um encontro realizado no Instituto da França, o cientista François Arago (1786 – 1853), secretário da Academia de Ciências, explicou o processo e comunicou que o governo francês havia adquirido o invento, colocando-o em domínio público e, dessa forma, fazendo com que o “mundo inteiro” tivesse acesso à invenção. Um daguerreótipo consiste em uma imagem única e positiva, formada diretamente sobre placa de cobre, revestida com prata e, em seguida, polida e sensibilizada por vapores de iodo. Depois de exposta na câmera escura, a imagem é revelada por vapores de mercúrio e fixada por uma solução salina.

A notícia do invento do daguerreótipo chegou ao Brasil muito rapidamente: cerca de quatro meses depois do anúncio da descoberta, foi publicado no Jornal do Commercio, de 1º de maio de 1839, sob o título “Miscellanea”, um artigo sobre o assunto. A historiadora Ana Maria Mauad comenta em seu texto Imagem e auto-imagem no Segundo Reinado, de 1997, que “apesar de sua possível reprodutibilidade, o daguerreótipo aparecia como uma peça única, acondicionada em estojo de luxo às vezes considerado como uma jóia”.
O interesse de dom Pedro II pela fotografia teve quase a mesma idade do próprio daguerreótipo.
A introdução da daguerreotipia no Brasil se deu com a chegada do navio-escola L’Oriental-Hydrographe, da Marinha Mercante da França, em fins de 1839, sob o comando do capitão Augustin Lucas, que havia estado no ateliê de Daguerre, em 1839. A viagem de circunavegação foi pensada como uma escola flutuante e começou a ser planejada, em 1838, quando seu projeto, pedagógico e mercantil, foi apresentado ao ministro da Marinha francesa, Claude Rosamel (1774 – 1848).
Segundo a historiadora Maria Inez Turazzi (1957-), autora de um livro definitivo sobre a viagem do L’Oriental-Hydrographe, a presença do daguerreótipo a bordo assim como a de outros instrumentos inovadores, abre aspas não foi casual ou improvisada…É possível afirmar que a viagem de circunavegação do Oriental-Hydrographe teve início com a expectativa de consagrá-la como a primeira do gênero a utilizar a fotografia como meio de registro da experiência. Fecha aspas.
O navio partiu do porto Paimboeuf, na França, em 25 de setembro de 1839, e, após alcançar o Brasil, onde aportou no Recife e em Salvador, chegou ao Rio de Janeiro,em dezembro de 1839. O abade francês Louis Comte (1798 – 1868), encarregado pela assistência intelectual e espiritual e pelo ensino de religião, música e canto durante a viagem, produziu alguns daguerreótipos na cidade, em 16 de janeiro de 1840.



Sobre essa última imagem há uma discussão de autoria: seria de Comte ou do fotógrafo Morand (c. 1818 – 1896)? Mas isso é uma outra história.
Alguns dias depois, Louis Comte apresentou o invento a dom Pedro II. O imperador, meses depois, com apenas 14 anos, adquiriu o equipamento. Aliás, aqui chamo atenção para o fato do monarca ser muitíssimo culto e interessado por diversos assuntos. Um verdadeiro polímata – tinha um profundo conhecimento em várias áreas como ciência, arte e filosofia.

Por sediar o Império, o Rio de Janeiro foi a capital da fotografia no Brasil. O imperador foi retratado por diversos fotógrafos, dentre eles Marc Ferrez (1843 – 1923), Revert Henrique Klumb (c. 1816 – c. 1886) e Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912), tendo conhecido praticamente o trabalho de todos eles. A fotografia tornou-se um símbolo de civilização e status e passou a ser um poderoso instrumento de divulgação da imagem de dom Pedro II, “moderna como queria que fosse o reino“, segundo comenta Lilia Moritz Schwarcz (1857-) no livro As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos.
Foi um dos primeiros monarcas a oferecer seu real patrocínio a um fotógrafo, juntamente com a rainha Vitoria da Inglaterra (1819 – 1901), quando, em 1851, permitiu que Buvelot & Prat, que haviam realizado uma série de daguerreótipos de Petrópolis – todos desaparecidos – usassem as armas imperiais na fachada de seu estabelecimento fotográfico.

Selo de Fotógrafo de Suas Majestades e Altezas Imperiais na capa do Guia do Viajante de Klumb
Dom Pedro II reinou no Brasil de 23 de julho de 1840 a 15 de novembro de 1889 e, segundo José Murilo de Carvalho (1939 – 2023), o fez “com os valores de um republicano, com a minúcia de um burocrata e com a paixão de um patriota. Foi respeitado por quase todos, não foi amado por quase ninguém”. Durante seu reinado de quase 50 anos, o tráfico de escravizados e a escravidão foram abolidos, a unidade do Brasil foi consolidada, as principais capitais brasileiras se modernizaram, a ciência e a cultura se desenvolveram. Sinais, sobretudo estes últimos, de um reinado que, não obstante o conservadorismo escravista dominante, perseguiu sempre uma pauta liberal, humanista e civilizatória. De fato, no século XIX, muito do que se fez no Brasil nos campos das letras e das ciências deveu-se a ele, um dos monarcas mais eruditos de sua época.
Em seu diário de 1862, Pedro II declarou: “Nasci para consagrar-me às letras e às ciências, e, a ocupar posição política, preferia a de presidente da República ou ministro a imperador“.
Uma curiosidade: o escritor Machado de Assis (1839 – 1908) nasceu no mesmo ano em que nasceu a fotografia: 1839. Escreveu sobre o assunto em sua coluna do Diário do Rio de Janeiro de 7 de agosto de 1864. Comentou sobre suas visitas à casa do Pacheco (o fotógrafo português Joaquim Insley Pacheco) e também a história da chegada do daguerreótipo na cidade. Termina seu passeio perguntando-se “Até onde chegará o aperfeiçoamento do invento de Daguerre?
Na apresentação que minha colega Késiah Pinheiro Viana, bibliotecária da Fundação Biblioteca Nacional e integrante do Comitê Gestor da Brasiliana Fotográfica, vai fazer agora sobre a Coleção Teresa Cristina Maria, composta por cerca de 23 mil fotografias e doada à Biblioteca Nacional por Pedro II, vocês farão um passeio iconográfico onde ficará evidenciada a diversidade dos interesses do imperador.
E, para finalizar, uma imagem do decreto da criação do Colégio Pedro II, nosso anfitrião de hoje, fundado em 2 de dezembro de 1837, data em que o imperador completou 12 anos. Na época chamava-se Imperial Collegio Pedro II e localizava-se no antigo Seminário São Joaquim. O decreto foi publicado na primeira página do Jornal do Commercio, de 9 de dezembro de 1837, assinado por Pedro de Araújo Lima (1793 – 1870), o marquês de Olinda, então regente do Império, e por Bernardo Pereira de Vasconcellos (1795 – 1850), ministro da Justiça. Foi aberto em 25 de março do ano seguinte, conforme publicado no Jornal do Commercio de 27 de março de 1838. O resto é história! História de sucesso!
Parabéns e muito obrigada!
Em seguida, a bibliotecária Késiah exibiu diversas fotografias da Coleção Teresa Cristina Maria, evidenciando a diversidade de interesses do imperador, um dos monarcas mais eruditos de todos os tempos. Dividiu sua apresentação em cinco módulos. No primeiro, mostrou fotografias de EXPOSIÇÕES, dentre elas da Segunda Exposição Nacional, em 1866; e da Exposição Continental, Buenos Aires, em 1882, que já foram temas abordados em artigos do portal.
No segundo módulo, o das CIÊNCIAS, foram selecionadas fotos de cientistas e de exploradores, dentre eles dos franceses Louis Pasteur (1822 – 1895) e Ferdinand de Lesseps (1805 – 1894); fotomicrografias, além de imagens relativas à paleontologia, à medicina, à engenharia e às ferrovias.
Em seguida, no módulo cujo assunto era EDUCAÇÃO, Késiah apresentou registros de instituições de ensino e de bibliotecas, como por exemplo imagens da antiga sede da Biblioteca Nacional, na rua do Passeio; de professores, de escritores e de jornalistas.
No módulo ARTES, foram exibidas fotos de teatros, atores, dentre eles da atriz francesa Sarah Bernhardt (1844 – 1923); de ópera e de artistas de circo como, por exemplo, da australiana Ella Zuila (1854–1926).
A ASTRONOMIA foi o assunto do último módulo e foram mostradas fotos da Lua, de telescópios, de observatórios, de expedições astronômicas e de astrônomos.
*Késiah Pinheiro Viana é graduada em Biblioteconomia e Documentação pela Universidade Federal Fluminense, com pós-graduações em Arquivologia e História da Arte. Desde 1996 atua como servidora e bibliotecária na Divisão de Iconografia da Biblioteca Nacional, dedicando-se especialmente ao tratamento técnico (pesquisa e catalogação) do acervo fotográfico, e colaborando em diversas exposições sobre as fotografias da Coleção D. Teresa Cristina Maria.
Andrea C. T. Wanderley
Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica