Série “Feministas, graças a Deus” XXI – Uma alemã que amava a Amazônia: Emília Snethlage no Museu Goeldi

No 21º artigo da série Feministas, graças a Deus, do historiador Nelson Sanjad, do Museu Paraense Emílio Goeldi, que é, desde o início de 2026, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, vamos conhecer a espetacular trajetória da alemã Emília Snethlage, nascida em 13 de abril de 1868. Foi uma cientista pioneira, que chegou ao Brasil, em 1905, e a primeira mulher diretora do Museu Goeldi, cargo que exerceu entre 1914 e 1921. Em 1926, tornou-se membro correspondente da Academia Brasileira de Ciências (O Paiz, 28 de outubro de 1926, penúltima coluna).

Suas escolhas foram sempre avançadas: estudou zoologia, quando a entrada de mulheres em universidades era ou proibida ou mal vista; decidiu não casar e veio para um país estrangeiro. Decisões feministas.

 

 

Em 1926, foi uma das signatárias da mensagem em apoio à candidatura de Washington Luis (1869 – 1957) à presidência da República da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, dirigida pela bióloga Bertha Lutz  (1894 – 1976) (Jornal do Brasil, 2 de fevereiro de 1926, segunda coluna).

Foi convidada para integrar o conselho da União Universitária Feminina, fundada, no Rio de Janeiro, em 13 de janeiro de 1929, sob a direção da engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001). As outras criadoras ou conselheiras da entidade foram: a engenheira civil Amélia Sapienza (? -19?), Bertha Lutz, a advogada Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993),  a professora Heloisa Marinho (1903 – 1994), as médicas Herminia de Assis (? -19?) e Juana Lopes (? -19?), as advogadas Maria Alexandrina Ferreira Chaves (? -19?), Maria Ester Correia Ramalho (? -19?), Myrthes de Campos ( 1875 – 1965) e Orminda Ribeiro Bastos (1899 – 1971) (Correio da Manhã, 15 de janeiro de 1929, quinta coluna).

Emília Snethlage faleceu, em Porto Velho, capital de Rondônia, em 25 de novembro de 1929. Trabalhava desde 1922 no Museu Nacional (Correio da Manhã, 28 de novembro de 1929, primeira coluna).

 

 

Série “Feministas, graças a Deus” XXI – Uma alemã que amava a Amazônia: Emília Snethlage no Museu Goeldi

Nelson Sanjad*

Emília Snethlage (1868-1929) é dessas figuras que causam comoção: sua trajetória ainda surpreende pelas escolhas que tomou ao longo da vida, sobretudo quando decidiu estudar zoologia – em uma época em que o acesso das mulheres à universidade era proibido ou mal visto; quando decidiu não se casar; quando quis trabalhar em um país estrangeiro num ofício dominado por homens – a pesquisa científica; e quando aceitou o desafio de dirigir um museu de história natural, o Museu Goeldi, em 1914, feito que talvez nenhuma outra mulher havia experimentado antes dela.

Como se isso não bastasse, Snethlage, que trocou a Alemanha pelo Brasil aos 37 anos, em 1905, gostava de viajar sozinha ou com apenas um acompanhante pelos rincões do interior do país. Era exímia coletora de aves, sendo responsável pelo acréscimo de muitos milhares de exemplares à coleção ornitológica do Museu Goeldi. E também produziu uma obra científica atualmente considerada fundacional para a ciência brasileira, especialmente para a taxonomia de aves e a biogeografia. No século XX, apenas cinco cientistas (homens), descreveram mais espécies de aves do que ela: os norte- americanos Frank Chapman (1864 – 1945), John Zimmer (1889 – 1957) e Walter Todd (1874 – 1969); o austríaco Carl Hellmayr (1878-1944) e o alemão Hans von Berlepsch (1850 – 1915). Ela foi a única a trabalhar em instituições brasileiras – o Museu Goeldi e o Museu Nacional – e criou 46 nomes de aves válidos atualmente, descritos entre 1906 e 1928. Por fim, foi ela quem delineou uma agenda de investigações que perdura até nossos dias, dedicada à compreensão do papel dos grandes rios na distribuição de espécies de aves pelo território nacional.

Acessando o link para as fotos de Emília Snethlage disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A esta longa lista de qualificativos, podemos acrescentar mais alguns: Emília Snethlage foi a primeira pessoa não-indígena a explorar um interflúvio amazônico, percorrendo a pé, em companhia de sete indígenas Kuruaya, o divisor de águas entre o Xingu e o Tapajós, em 1909. Posteriormente, em 1914, revisitou aquele mesmo povo indígena, e mais os Xipaya, reunindo uma coleção com mais de 150 artefatos. Snethlage inscreveu seu nome na história da antropologia por ter não apenas feito a primeira (e única) coleção etnográfica de ambos os povos, como também por ter sido a primeira mulher a fazer uma etnografia e a coletar em aldeias indígenas na Amazônia. Antes dela, somente a princesa Teresa da Baviera vinculou seu nome a uma coleção etnográfica, mas esta não foi obtida em aldeias e nem junto a indígenas, mas comprada nos mercados das cidades amazônicas por onde viajou na década de 1880.

Esses episódios vêm sendo explorados por pesquisadoras e pesquisadores capturados pela memória de Emília Snethlage. Nos últimos 25 anos, brasileiros e alemães revisitaram publicações, relatórios, cartas, fotografias, desenhos, mapas, coleções e toda sorte de documentos relacionados a Snethlage, com motivações diversas, mas todos movidos – ou comovidos – pela extraordinária vida de Snethlage e pelo imenso legado que ela deixou. A lista é longa, mas faço questão de registrar os nomes (em ordem alfabética) para que o/a leitor/a tenha a dimensão desse recente movimento de construção historiográfica: Aline Ariela Pereira, Beatrix Hoffmann-Ihde, Carla Bedran, Cilene Trindade Rohr, Diana Alberto, Gabriel Ramos Pacheco, Gleice Mere, Leila Mourão Miranda, Lilian Bayma de Amorim, Luiz Felipe Santos, Marcelo de Castro Silva, Marco Crozariol, Matheus Camilo Coelho, Miriam Junghans, Nelson Sanjad, Pablo Borges, Peter Schroeder, Reinhard Michael Arnegger, Rosanne Castelo Branco e possivelmente outros. Esses nomes se uniram a pesquisadores mais antigos, pioneiros no estudo da vida e da obra de Snethlage, como Osvaldo Cunha e Marisa Corrêa.

Já é possível registrar alguns avanços significativos no conhecimento da vida e do legado de Snethlage: Junghans (2009) e Coelho (2026) fizeram  belas análises das viagens e do trabalho de campo da ornitóloga; Hoffmann-Ihde (2015) fez o mais importante estudo das coleções Kuruaya e Xipaya, preservadas no Ethnologisches Museum Berlin; Pereira (2024) seguiu os passos (literalmente) de Snethlage pelo Ceará e revisitou as coleções ornitológicas que ela formou, semelhante ao que Santos e colegas (2024, 2025) fizeram, mas para o caso da Amazônia; Alberto (2022) introduziu Snethlage nos estudos de gênero, enquanto Sanjad (2019) mapeou as relações científicas que ela estabeleceu entre os etnólogos (homens) alemães; por fim, Crozariol (2025) lançou luz sobre as circunstâncias da morte de Snethlage, graças à descoberta de documentos inéditos do Museu Nacional do Rio de Janeiro, felizmente salvos do grande incêndio de 2018. Vale registrar, ainda, os esforços para divulgar importantes trabalhos de Snethlage, como os seus estudos etnográficos, pouco lidos e quase nunca citados, traduzidos ao português, pela primeira vez, por Michael Arnegger e Nelson Sanjad (Snethlage, 2023a) e por Cilene Rohr e Rosanne Castelo Branco (Snethlage, 2023b). Todas as referências bibliográficas seguem listadas abaixo para a devida orientação do/a leitor/a.

O desenvolvimento da historiografia, na dimensão e com a qualidade aqui demonstrados, só é possível com bons levantamentos documentais e com coleções bem preservadas em museus e arquivos. Com esse horizonte, o Arquivo Guilherme de La Penha, do Museu Goeldi, organizou e inventariou toda a documentação produzida e recebida pela instituição entre 1914 e 1921, anos em que Snethlage esteve à frente da direção do museu; e também desenvolveu a Coleção Especial Emília Snethlage, que reúne cartas pessoais conservadas no próprio arquivo do museu e cópias digitais de documentos preservados pela Família Snethlage, residente na Alemanha, e por outras instituições, como o Museum für Naturkunde Berlin, Ethnologisches Museum Berlin, Philipps-Universität Marburg, Albert-Ludwigs-Universität Freiburg, Natural History Museum London, Staatsarchiv des Kantons Basel-Stadt e Naturhistorisches Museum Wien. Esses documentos vêm sendo reunidos há pelo menos 15 anos por Nelson Sanjad, Beatrix Hoffmann-Ihde, Miriam Junghans, Rotger Snethlage e Gleice Mere.

Esse enorme conjunto documental dará origem a duas publicações: o livro “Emília Snethlage no Arquivo Guilherme de La Penha”, contendo o Catálogo Descritivo da Gestão Emília Snethlage no Museu Goeldi (1914-1921) e o Catálogo Descritivo da Coleção Especial Emília Snethlage (1907-1924), ambos organizados por Lilian Bayma de Amorim, Pablo Borges e Nelson Sanjad, com previsão de publicação em 2026; e o livro “Emília Snethlage: cartas e inéditos”, contendo a transcrição e tradução das cartas e dos textos inéditos de Snethlage encontrados até o momento, organizados por Nelson Sanjad, Beatrix Hoffmann-Ihde, Rotger Snethlage e Marco Aurélio Crozariol, com previsão de publicação em 2027.

Essas são notícias alvissareiras para celebrarmos o aniversário de Emília Snethlage neste 13 de abril de 2026, quando se completam 158 anos de seu nascimento – alvissareiras porque os documentos a serem publicados certamente darão ensejo a novos estudos, ampliando ainda mais o conhecimento que dispomos sobre a biografia de Snethlage e a construção de sua obra científica.

Nesta postagem, adiantamos a publicação de algumas fotos preservadas no Arquivo Guilherme de La Penha, devidamente contextualizadas com o auxílio de outros documentos. A primeira delas é o célebre retrato das funcionárias do Museu Goeldi, tirado em março de 1907 por pessoa não identificada. Snethlage aparece de pé, com suas características roupas claras, mangas bufantes e cabelo preso. Ela trabalhava há um ano e meio como assistente de Emílio Goeldi na Seção de Zoologia, tendo sido indicada ao cargo pelo ornitólogo alemão Anton Reichenow (1847-1941), curador do Museum für Naturkunde Berlin, que assegurou sua competência e habilidade nos trabalhos museais (Sanjad, 2010). Quando Goeldi se retirou de volta para a Suíça, em 1907, Snethlage assumiu a chefia da seção e depois, com o falecimento de Jacques Huber (1867-1914), a direção do próprio museu, ali permanecendo até 1921 (com exceção de um breve período em que precisou se afastar em razão da Primeira Guerra Mundial).

 

 

As moças sentadas são Anna de Aragão Carreira (1894-?), à esquerda, e Abigayl Esther de Mattos (1889-1958), à direita. Ambas foram contratadas em 1907, após o secretário José Lobo Pessanha ser demitido e seu salário dividido em dois, sendo uma parte paga para Anna Carreira, como encarregada de confeccionar os rótulos e as etiquetas das coleções, e a outra para Abigayl Mattos, encarregada da secretaria e da biblioteca. As duas moças, uma com 13 e a outra com 18 anos, passaram a desempenhar as mesmas funções que Pessanha, somadas às atividades incessantes de apoio às coleções, mas recebiam apenas a metade do salário do antigo “oficial de secretaria”. A ideia foi apresentada pelo sucessor de Goeldi, Jacques Huber, como uma medida muito inteligente, “permitindo assim obter maior soma de trabalho sem acréscimo notável de despesas” (Huber, 1909, p. 4).

Ainda que esse experimento trabalhista nos soe como um disparate e muito injusto, a iniciativa de Goeldi e Huber foi inovadora para a época. Snethlage foi a primeira funcionária pública do Estado do Pará, logo seguida pelas outras duas, sendo a mais nova (Anna, 13) contratada como “aprendiz”. O Museu Goeldi talvez seja a primeira instituição científica do país onde as mulheres passaram a ocupar funções finalísticas, como Snethlage, e administrativas, incluindo aí um programa de estágio para adolescentes, denominado “Jovens Aprendizes”. A avaliação da experiência de inserir mulheres no ambiente de trabalho, feita por Huber (1909, p. 4), foi bastante positiva:

Felizmente esta experiência, ainda que única no Pará, deu resultados de todo satisfatórios para o Museu, sendo de louvar o zelo e a aplicação com que as ditas funcionárias se houveram no desempenho de suas funções. Provavelmente o nosso Museu é o único na América latina onde o trabalho feminino seja tão largamente aproveitado.

As próximas quatro fotos foram feitas em dezembro de 1908, por pessoa não identificada, mas que certamente carregava uma máquina portátil. Essas fotos fazem parte de um conjunto maior, somando oito negativos de vidro produzidos quando uma chimpanzé chegou no Museu Goeldi. Essa história é muito curiosa: o animal pertencia ao médico Harold Wolferstan Thomas  (1875–1931), chefe da missão da Escola de Medicina Tropical de Liverpool em Manaus. Em 17 de novembro de 1908, ele escreveu a Huber perguntando se ele poderia cuidar da chimpanzé enquanto viajava à Europa. Ela já era adulta, estava cativa há dois anos, era “bem mança e accostumada com gente” [sic]. Dr. Thomas foi prontamente atendido por Huber, mas quem recebeu e cuidou do animal foi Snethlage, responsável pelo zoológico da instituição, e seu assistente preparador, João Batista de Sá (?-1909). São eles que aparecem acolhendo a chimpanzé: na primeira foto, Sá, vergado e segurando um balde (com comida?), dá a outra mão ao animal – que parece estranhar o ambiente. Snethlage está observando a cena logo atrás, com as mãos na cintura. Huber está bem no fundo, de paletó branco e chapéu, mas um de seus filhos quis se aproximar da nova moradora do parque. É o menino que aparece à esquerda, de branco (o outro menino, atrás de Snethlage, não foi identificado).

 

 

Na sequência, a chimpanzé aparece agarrada às grades da jaula dos pequenos felinos. Ela provavelmente emite algum som, enquanto uma jaguatirica a observa atentamente à esquerda. Snethlage, com cabelos bem mais esbranquiçados do que na foto tirada no ano anterior, ainda mantêm distância da chimpanzé, com Sá ao seu lado (cujo corpo é apenas parcialmente visível).

Na próxima foto, a chimpanzé já está junto à jaula dos macacos barrigudos, identificada por uma plaqueta que pende à direita, em cima. Dois deles permanecem empoleirados, enquanto um terceiro desce para ver de perto a visitante. Nesse momento, Snethlage inclina-se, permitindo-nos ver seus longos cabelos arrumados em um coque. Ela toca as costas da chimpanzé, enquanto Sá, do outro lado, parece estar de prontidão para conter o animal. A chimpanzé vira-se para Snethlage – e quase podemos ouvi-la chiar agudamente. A cena é terna e tensa ao mesmo tempo.

Na quarta foto, ainda junto à jaula dos macacos barrigudos, Snethlage e Sá permitem que a chimpanzé suba em uma tábua, talvez para interagir melhor com os macacos, que parecem se movimentar no interior. O balde volta às mãos de Sá, enquanto Snethlage encosta-se no guarda-corpo, dizendo algo para o fotógrafo.

 

 

 

 

 

 

Em 25 de junho de 1909, Dr. Thomas escreve de Liverpool: “How is my chimpazee behaving in the museum?” – e anuncia a sua volta para novembro do mesmo ano. Huber respondeu em agosto, em tom bem humorado: “A chimpanzé fêmea está prosperando em sua nova residência; ela é a principal atração do zoológico e está plenamente consciente de sua importância. Agora, ela está mais forte e mais animada do que nunca.”

Em outra fotografia, podemos ver Snethlage novamente em ação no zoológico do Museu Goeldi, junto a uma equipe de tratadores de animais. Desta vez, eles estão ocupados com uma onça, que aparece amarrada atrás das grades. Dois homens tencionam uma corda, sendo um deles João Batista de Sá, mais próximo à jaula. Snethlage olha a cena, vestida como de costume, mas com chapéu (estava chegando da rua?). É difícil decifrar o que está acontecendo, mas é certamente algo que demanda cuidado e atenção. Além da longa corda tencionada e que se enrola pelo chão, um terceiro homem, ao lado de Sá, puxa uma segunda corda, mais fina e menor, que talvez estivesse contendo as patas traseiras da onça; e um quarto homem, ao lado de Snethlage, também segura uma corda, com um laço na ponta, certamente utilizado no pescoço do animal. Podemos imaginar que uma onça estava chegando no museu, tendo sido transportada completamente amarrada. Os homens parecem estar no processo de desamarrá-la, enquanto a onça rosna e esperneia do lado de dentro.

 

 

Alguns autores já escreveram sobre a intimidade dos funcionários do museu e de suas famílias com os animais residentes no zoológico. A chegada da chimpanzé mobilizou toda a instituição, pois na série de fotos é possível ver os funcionários e familiares que acorreram para testemunhar a entrada do animal no museu. Por sua vez, Suescún Florez e colegas (2018) analisaram o Museu Goeldi como local para a sociabilidade dos funcionários e das suas famílias, chegando a divulgar uma foto dos filhos de Huber brincando dentro do viveiro de jabotis, montando nos animais como se fossem cavalos, enquanto uma tia ri alegremente.

A tese de Alberto (2022) dá ênfase à relação de afeto que Snethlage mantinha com os animais. Apesar de ser exímia caçadora, não hesitando em apertar o gatilho para abater o animal que desejasse, Snethlage cuidava com zelo e carinho dos habitantes do zoológico, convivendo com alguns deles dentro de casa. Por exemplo, em um diário de viagem ao rio Tocantins que ela mandou para a família, na Alemanha, em 1907, Snethlage dá notícias de como encontrou o zoológico ao retornar ao museu:

Estava tudo bem também com a maioria dos bichos; naturalmente, alguns casos de animais mortos, mas nenhum dos mais valiosos. Em compensação, recebemos nesse tempo três onças jovens, sujeitos muito cândidos, de fisionomia simpática e movimentos desengonçados. Ainda tentarei tornar-me amiga delas, embora sejam bem ariscas e pouco afeitas a seres humanos. Encontrei bem espertas as minhas duas corujinhas. A menor transformou-se de lá para cá e está com a aparência tão imponente quanto sua companheira mais velha. Também reencontrei os dois gatos maracajás jovens. Um fica muito tempo no meu quarto e, no começo, deixava as corujas apavoradas, especialmente quando pulava sobre as gaiolas e mostrava sua avidez por restos de carne. Agora, elas já estão mais acostumadas e deixaram o gato um pouco de lado (Sanjad e colegas, 2013, p. 210).

Um desses maracajás ainda vivia em 1912. Em uma carta ao irmão Viktor Snethlage, datada de 18 de julho, Emília conta como o gato a fez relembrar um episódio de infância:

Ontem não houve como eu não me lembrar da história do teu pardal. Precisei deixar meu gato maracajá sozinho em casa por algumas horas e, quando voltei, ele tinha aberto uma gaiola e liquidado um de meus roedores, que eu criava já fazia um ano e meio (um sauiá, não o rato vermelho).  Também isso estava bem perto de acontecer, mesmo que houvesse um roedor só. Claro que não posso pôr a culpa no gato, senão em mim mesma, mas a gaiola estava muito bem trancada.

Temos a sorte de poder conhecer esse gato maracajá, que gostava de assustar corujinhas e apreciava comer sauiás. Ele talvez fosse o mais querido entre os animais silvestres criados por Snethlage entre o seu quarto de dormir e os viveiros do zoológico: por volta de 1907 ou pouco depois, Jacques Huber registrou em uma foto o carinho de Snethlage pelo gato. Eles estão junto à porta dos fundos do pavilhão de exposições, conhecido como Rocinha. Snethlage, sempre de branco e com cabelos amarrados, olha ternamente para o animal em seu colo. A foto comove pelo inusitado da cena: o desejo dela em documentar seu afeto por um animal silvestre, e bem junto ao corpo, como um abraço.

 

 

* Nelson Sanjad é historiador e servidor do Museu Paraense Emílio Goeldi

 

Referências:

ALBERTO, Diana. Emília Snethlage e Heloisa Alberto Torres: gênero, ciência e turismo na Amazônia do século XX. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Pará, Belém, 2022.

COELHO, Matheus Camilo. Ciência em campo: patronato e redes de conhecimento na Amazônia (1894-1918). Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Pará, Belém, 2026.

CROZARIOL, Marco Aurélio. O último voo: documentos inéditos relativos ao falecimento e ao espólio de Emília Snethlage, 1868-1929. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 32, e202501, 2025.

HOFFMANN-IHDE, Beatrix. 100 Jahre Xipaya- und Kuruaya- Sammlung im Ethnologischen Museum, Staatliche Museen zu Berlin. Baessler-Archiv, v. 62, p. 45-66, 2015.

HUBER, Jacques. Relatório sobre a marcha do Museu Goeldi no ano de 1907 apresentado ao Exmo. Snr. Dr. Secretário do Estado da Justiça, Interior e Instrução Pública pelo Dr. J. Huber, Diretor do Museu. Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense) de História Natural e Ethnopgraphia, v. 6, p. 1-21, 1909.

JUNGHANS, Miriam. Avis Rara: a trajetória científica da naturalista alemã Emília Snethlage (1868-1929) no Brasil. Dissertação (Mestrado em História das Ciências e da Saúde) – Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2009. Disponível em:

PEREIRA, Aline Ariela. Seguindo os passos de Emilia Snethlage no Ceará (1910 e 1915): uma análise comparativa e atual. Dissertação (Mestrado em Ciência Biológicas) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2024.

SANJAD, Nelson. A coruja de minerva: o Museu Paraense entre o Império e a República (1866-1907). Brasília: Instituto Brasileiro de Museus; Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi; Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2010.

SANJAD, Nelson. Nimuendajú, a Senhorita Doutora e os ‘etnógrafos berlinenses’: rede de conhecimento e espaços de circulação na configuração da etnologia alemã na Amazônia no início do século XX. Asclepio, v. 71, n. 2, p273, 2019.

SANJAD, Nelson; SNETHLAGE, Rotger; JUNGHANS, Miriam; OREN, David. Emília Snethlage (1868-1929): um inédito relato de viagem ao rio Tocantins e o obituário de Emil-Heinrich Snethlage. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 8, p. 195-221, 2013.

SANTOS, Luiz Felipe Farias; SANJAD, Nelson; AMORIM, Lilian Bayma. Redes de conhecimento e representações: um estudo das coleções ornitológicas formadas por Emília Snethlage no Museu Paraense Emílio Goeldi entre 1905 e 1921. Revista Eletrônica História em Reflexão, v. 20, p. 131–160, 2024.

SANTOS, Luiz Felipe Farias; AMORIM, Lilian Bayma. Coleções e redes de intercâmbios na Amazônia do início do século XX: considerações sobre o legado de Emília Snethlage. Boletim do Museu Paraene Emílio Goeldi: Ciências Humanas, v. 20, e20230097, 2025.

SNETHLAGE, Emilia. Sobre a Etnografia dos Xipaya e Kuruaya. Tradução de Reinhard Michael Eugen Arnegger e Nelson Sanjad. Cadernos de Tradução, v. 41, n. esp. 1, p. 366-418, 2023a.

SNETHLAGE, Emilia. As  etnias  indígenas do Médio Xingu: em especial a Xipaya e a Kuruaya. Tradução de Cilene Trindade Rohr e Rosanne Castelo Branco. Cadernos de Tradução, v. 41, n. esp. 1, p. 423-503, 2023b.

SUESCÚN-FLOREZ, Lilian; SANJAD, Nelson; OKADA, Wanda. Construção do espaço museal: ciência, educação e sociabilidade na gênese do Parque Zoobotânico do Museu Goeldi (1895-1914). Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, v. 26, p. 1-67, 2018.

Arthur Azevedo (1855 – 1908), entusiasta e incentivador do teatro brasileiro

Há 170 nos, em 7 de julho de 1855, nascia o teatrólogo, comediógrafo, jornalista, contista e poeta maranhense Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo, o Arthur Azevedo. Generoso e muito ativo, foi um importante intelectual da cena artístico-cultural brasileira na virada do século XIX para XX. Figura muito querida e admirada no Rio de Janeiro, onde passou a viver nos anos 1870, foi o autor de mais de 70 peças teatrais e seu trabalho foi um dos principais pontos de partida da dramaturgia nacional, da qual era grande entusiasta. Destacamos neste artigo registros de Arthur Azevedo produzidos por fotógrafos ainda não identificados e por Luis Musso (18? – 19?) – todas do acervo fotográfico da Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica.

 

Acessando o link para as fotografias de Arthur Azevedo disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

Sua primeira peça encenada em um teatro público foi  Amor por Anexins, uma comédia em um ato, que escreveu, em 1870, com apenas 15 anos (Diário de Pernambuco, 18 de fevereiro de 1875, segunda coluna). Incentivou a encenação de obras brasileiras e consolidou a comédia de costumes, tendo sido no Brasil o principal autor do teatro de revista em sua primeira fase. De sua obra, destacaram-se A almanjarra (1888)A Capital Federal (1897), A filha de Maria Angu (1875)O Dote (1907), O Mambembe (1904), O Tribofe (1891) Véspera de Reis (1876). O cotidiano da vida, os usos e costumes dos habitantes da então capital federal, o Rio de Janeiro, foram a matéria-prima de suas peças e contos. Entre 1876 e 1908, também atuou como tradutor e adaptou dramas, comédias e operetas.

 

 

Nasceu em São Luís, no Maranhão, em 7 de julho de 1855, filho do vice-cônsul português Davi Gonçalves de Azevedo (1816 – 1878) e de Emília Amália Pinto Guimarães (1818 – 1888), também portuguesa. Sua mãe havia sido casada com o comerciante Antônio Joaquim Branco, de quem se separou com pouco mais de um ano de casamento. Com Davi, teve quatro filhos além de Arthur: o escritor Aluísio de Azevedo (1857 – 1913), Emília (1860 -?), Camila Amália (1858 -?) e o teatrólogo Américo Garibaldi (1863 – 1900).

 

 

Quando faleceu, em 1908, era casado com a artista gravadora Carolina Adelaide Leconflé (18? – 1936) com que teve quatro filhos: Arthur (c. 1886 – 19?), Rodolfo (c. 1898 – 19?), Américo (c. 1902 – 19?) e Aluísio (c. 1904 – 19?). Eram seus enteados Luiz, José, Fernando e Lucinda Cordeiro. Havia sido casado anteriormente com Carlota de Morais (18? -?) (O Paiz, 23 de outubro de 1908, segunda coluna; Diário Carioca, 18 de novembro de 1936, quarta coluna).

 

 

Ainda em São Luiz, adolescente, publicou, em 1871, seu primeiro livro de poemas, Carapuças, trabalhou no comércio e fundou o jornal O Domingo. Depois foi trabalhar na administração provincial, da qual foi demitido devido a publicações de sátiras contra autoridades governamentais. Concorreu e foi classificado para uma vaga de amanuense da Fazenda. Transferiu-se para o Rio de Janeiro, em 1873. Inicialmente, trabalhou como professor de Português no Colégio Pinheiro e escreveu para o jornal A Reforma. Em 1875, obteve um emprego na Secretaria da Agricultura.

Era abolicionista e defendia a causa em seus artigos e em suas peças, dentre elas A Família Salazar, escrita com o acadêmico baiano Urbano Duarte de Oliveira (1855 – 1902), que foi proibida pela censura imperial. Foi, posteriormente, publicada com o título O Escravocrata (1884).

Uma peça traduzida por ele, a comédia Escola de Maridos (1661), do célebre dramaturgo francês Molière (1622 – 1673), foi uma das atrações da noite de 15 de julho de 1889, no Theatro Sant´Anna, no Rio de Janeiro, quando Dom Pedro II (1825 – 1891) foi alvo de um atentado na saída do teatro (Cidade do Rio, 16 de julho de 1889). Em um dos intervalos, Arthur foi chamado ao camarote do imperador, que felicitou seu trabalho e manifestou o desejo de possuir uma cópia de sua excelente tradução (Gazeta de Notícias, 16 de julho de 1889, quarta coluna).

Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 20 de julho de 1897.  Ocupou a cadeira nº 29, que tem como patrono o diplomata e dramaturgo carioca Martins Pena (1819 – 1848), considerado o Molière brasileiro.

 

 

 

Fundou as seguintes revistas: em 1879, com Lopes Cardoso (18? – ?), a Revista do Teatro; Gazetinha, com Antônio Vicente da  Fontoura Xavier (1856 – 1922) e Anibal Falcão (1859 – 1900), em 1880; em 1893, O Álbum, com Francisco de Paula Ney (1858-1897)e A Vida Moderna, em 1886, com Luiz Murat (1861 – 1929) e outros. Colaborou em A Estação, ao lado de Machado de Assis (1839 – 1908), seu companheiro na Secretaria da Viação; e no jornal Novidades, onde seus companheiros eram Alcindo Guanabara (1865 – 1918), Coelho Neto (1864 – 1934), Francisco Moreira Sampaio (1851 – 1901) e Olavo Bilac (1865 – 1918).

Teve colunas em diversos jornais, dentre elas “A Palestra”, em O Paiz; “De Palanque”, no Diário de Notícias; e o folhetim “O Teatro”, em A Notícia, tendo escrito milhares de artigos sobre eventos artísticos, com ênfase no teatro. Escreveu também em O Século, em O Mequetrefe, na Kosmos e no Correio de Manhã. Usou diversos pseudônimos, dentre eles Batista, o trocista; CosimoDorante, Elói, o herói; FrivolinoGavroche, JuvenalPetrônio.

Em 1889, reuniu alguns de seus contos no livro Contos possíveis, dedicado a Machado de Assis. Posteriormente, publicou outros livros, dentre eles Contos fora de moda (1894), Contos efêmeros (1897) e Contos em versos (1898).

Em 1908, por ocasião da Exposição Nacional Comemorativa do 1º Centenário da Abertura dos Portos do Brasil, no Rio de Janeiro, inaugurada, em 11 de agosto de 1908, na região da Urca, no Rio de Janeiro, o então Teatro Constitucional ergueu, no local do evento, um pavilhão temporário para apresentar peças e concertos para o público. Vários espetáculos de Arthur Azevedo foram montados nesse espaço confortável, batizado de Teatro João Caetano, organizado em platéia, galeria e camarotes. O teatro tinha  870m2 e sua decoração interna, em tons de verde e ouro, foi idealizada por Raul Pederneiras (1874 – 1953).

 

 

Foi um dos maiores entusiastas da construção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, mas faleceu nove meses antes de sua inauguração, ocorrida em 14 de julho de 1909. Em 1904, foi aberta uma concorrência pública, durante a gestão do prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), para a escolha do projeto arquitetônico do futuro teatro (Gazeta de Notícias, 20 de março de 1904, na quarta coluna e na última coluna). Em 20 de setembro de 1904, Arthur integrou a subcomissão formada pelo diretor da Estrada de Ferro Central do Brasil, José de Andrade Pinto, pelo arquiteto Adolfo Morales de los Rios (1858 – 1928), pelo escultor Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931) e pelo industrial Carlos Hargreaves que se reuniu para estudar os projetos apresentados (Gazeta de Notícias, 21 de setembro de 1904, na quinta coluna). Finalmente, a comissão encarregada para a escolha do melhor projeto decidiu pelo empate entre os projetos Áquila e Isadora (Gazeta de Notícias, 22 de setembro de 1904, sétima coluna). O autor do primeiro foi o engenheiro Francisco de Oliveira Passos (1878 – 1958), filho do prefeito, e, o do segundo, o arquiteto francês Albert Guilbert (1866 – 1949), vice-presidente da Associação dos Arquitetos Franceses. Sua peça, O Mambembe”, foi um dos espetáculos apresentados dentro das comemorações dos 50 anos do Teatro Municipal, em 1959. Foi encenado pelo Teatro dos Sete e uma das atrizes foi Fernanda Montenegro (1929-) (O Cruzeiro, 19 de dezembro 1959).

 

 

Pouco antes de falecer, foi nomeado Diretor da Contabilidade Geral do Ministério da Viação e Obras Públicas (Fon-Fon, 17 de outubro de 1908; Relatório do Ministério da Viação e Obras Públicas (1910 a 1927)). Faleceu em 21 de outubro de 1908 (O Paiz, 22 de outubro de 1908; O Século, 22 de outubro de 1908).

 

 

 

 

 

 

 

Alguns teatros do Brasil foram batizados com o nome de Arthur Azevedo. Em São Luís, um dos teatros mais antigos do Brasil, inaugurado, em 1º de junho de 1817, muito antes de seu nascimento, teve seu nome trocado para Teatro Arthur Azevedo, nos anos 1920 (Governo do Maranhão). Em São Paulo, foi criado o Teatro Arthur Azevedo, em 2 de agosto de 1952 (Secretaria Municipal de São Paulo de Economia e Cultura Criativa, 2 de agosto de 2022). Em agosto de 1956, foi inaugurado o Teatro Arthur Azevedo, em Campo Grande, no Rio de Janeiro, pelo embaixador Francisco Negrão de Lima, então prefeito do Distrito Federal, durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek (Correio da Manhã, 7 de julho de 1956, sexta coluna).

 

 

 

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BARROS, Maria Pia Fontes Lins de; WANDERLEY, Andrea C. T. Agenda do Centro de Documentação da TV Globo

Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos

COUTINHO, Afrânio; SOUSA, José Galante de. Enciclopédia de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional; Academia Brasileira de Letras, 2001.

Depoimento de Emília Amália Pinto Magalhães a Dunshee de Abranches, biógrafo de Arthur Azevedo

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MAGALDE, Sábato. Panorama do Teatro Brasileiro. São Paulo: Global, 1997.

MAGALHÃES JUNIOR, Raimundo. Arthur Azevedo e sua época. São Paulo : Martins, 1955.

MERCARELLI, Fernando Antonio. Cena aberta: a absolvição de um bilontra e o teatro de revista de Arthur Azevedo. Campinas : Editora da Unicamp, 1999.

PEREIRA, Margareth da Silva. A exposição de 1908 ou o Brasil visto por dentro.

Portal MultiRio

Siciliano, Tatiana. O guerreiro do Theatro Municipal in Open Editions Books

Site Academia Brasileira de Letras

Site Enciclopédia Itaú Cultural

WANDERLEY, Andrea C. T. Academia Brasileira de Letras in Brasiliana Fotográfica, 20 de julho de 2022.

WANDERLEY, Andrea C. T. Após encantar-se com Molière e Giulietta Dionesi, o imperador Pedro II sofre um atentado in Brasiliana Fotográfica, 15 de julho de 2020.

WANDERLEY, Andrea C. T. Série “Teatros e cinemas do Brasil” III – A inauguração do Theatro Municipal do Rio de Janeiro in Brasiliana Fotográfica, 14 de julho de 2017.

 

Série “Feministas, graças a Deus” XX – A líder feminista pernambucana Edwiges de Sá Pereira (1884-1958), a “Eva Militante”

A Brasiliana Fotográfica publica o artigo A líder feminista pernambucana Edwiges de Sá Pereira (1884-1958), a Eva Militante,  o 20° da série Feministas, graças a Deus!. Foi escrito pela historiadora Cibele Barbosa, da Fundação Joaquim Nabuco, uma das instituições parceiras do portal. Publicamos também uma breve cronologia de Edwiges de Sá Pereira, escrita pela editora e pesquisadora do portal, Andrea C.T. Wanderley.

Edwiges de Sá Pereira tornou-se ainda jovem uma poetisa reconhecida nacionalmente, tendo suas poesias e artigos publicados em jornais e revistas do Brasil. Em 1920, foi a primeira mulher a ingressar como membro da Academia Pernambucana de Letras, que com sua eleição tornou-se a primeira Academia no Brasil a ter uma mulher em seus quadros. Foi também presidente da Associação das Damas de Beneficência, a primeira presidente da Federação Pernambucana pelo Progresso das Mulheres, integrante do Comitê Feminino da Maternidade do Recife, sócia colaboradora da Associação Pernambucana de Imprensa e professora da Escola Normal do Recife.

No artigo, estão destacadas duas imagens de Edwiges pertencentes ao acervo fotográfico da Fundação Joaquim Nabuco. Ambas foram produzidas pelo fotógrafo Louis Piereck (1880-1931), que já foi tema de uma publicação da Brasiliana Fotográfica. A foto em que Edwiges está sem chapéu foi publicada na revista A Nota (PE), de 22 de maio de 1920 em uma matéria que a felicitava pelo ingresso na Academia Pernambucana de Letras. A imagem dela com chapéu é, conforme o verso da foto, de 29 de agosto de 1909, ano em que foi nomeada diretora da escola estadual da Boa Vista. Também no verso, consta que Edwiges  presenteou algum amigo ou amiga com a fotografia.

 

 

De origem austríaca e nascido em Campinas, em 13 de outubro de 1880, Louis Piereck atuou no Recife, entre fins do século XIX e nas primeiras décadas do XX. Pernambuco, a partir da década de 1850, com a chegada de vários fotógrafos estrangeiros e o estabelecimento de diversos ateliês fotográficos, tornou-se uma referência importante na história da fotografia no Brasil. Considerado talentoso, Piereck tinha muito prestígio na sociedade pernambucana e, em seu estabelecimento, a Photographia Piereck, eram produzidos “os mais perfeitos trabalhos“. Anunciava como sua especialidade “retratos, grupos de criança e o bello sexo“.

 

A líder feminista pernambucana Edwiges de Sá Pereira (1884-1958), a Eva Militante

Cibele Barbosa*

 

 

Edwiges de Sá Pereira foi uma mulher que não se conformou com as imposições de seu tempo. Nascida, em 1884, no município de Barreiros, estado de Pernambuco, a filha de José Bonifácio de Sá Pereira e de Maria Amélia Rocha de Sá Pereira, nutria, desde cedo, o interesse pelos livros. Conforme descreveu em suas notas autobiográficas, costumava ler escondido os livros dos irmãos mais velhos, em especial aqueles dedicados à poesia, que copiava e declamava em reuniões de família.

A menina que costumava dizer aos familiares que “haveria de ser poeta”, não tardou a cumprir seu intento. No início da adolescência, publicou um jornalzinho, o “Echo Juvenil”, juntamente com seu irmão Eugênio. Algum tempo depois, chegaram-lhe às mãos, pelos correios, exemplares do jornal O Paiz (RJ) com versos seus transcritos e apresentados pelo escritor Arthur Azevedo. A jovem poeta, do interior de Pernambuco, teve seu soneto “A uma estrela” reproduzido também na Revista do Brasil (SP), acompanhado de comentários entusiasmados de Cunha Mendes ao prenunciar que a menina se tornaria “a primeira poetisa do Brasil”.

Um ano antes de se mudar com sua família para o Recife, ainda vivendo na cidade de Barreiros, Edwiges teve seu primeiro livro publicado e prefaciado pelo jurista e poeta português Antônio de Souza Pinto, em 1901. A ideia de publicar os 51 versos da jovem escritora ocorreu-lhe quando estava de férias no interior e teve a oportunidade de ser apresentado aos poemas de Edwiges. Levou os manuscritos para a capital e os publicou com o título Campesinas.

Na edição de 17 de agosto de 1901, anunciava o Jornal Pequeno o recebimento do “mimoso livro” de Edwiges, impresso na forma de folheto, com 80 páginas. Ainda em 1901, fundou o pequeno jornal literário, o Azul e Ouro, com seu irmão Eugênio e seu amigo Caetano Andrade. Sua família se mudou para o Recife naquele período, após seu pai ter vendido o engenho na cidade de Barreiros para ocupar um cargo do governo do estado na capital pernambucana.

Já instalada na capital, Edwiges ingressou na Escola Normal para obter formação no magistério e tornar-se professora. Paralelamente aos estudos pedagógicos, a jovem participou ativamente da vida literária de seu tempo, contribuindo com seus escritos para jornais e revistas. Em 1902, colaborou com a Revista Pernambucana e foi convidada para ser uma das redatoras do jornal O Lyrio, formado somente por mulheres. Entre as companheiras da publicação estavam Amélia Beviláqua e Úrsula Garcia. Os textos desafiavam a rígida sociedade patriarcal da época refletindo sobre a importância da educação escolar e profissional para as mulheres, entre outras pautas como a equidade salarial. 

 

 

A partir de então, não parou mais, tendo sido convidada a ser sócia correspondente da recém-fundada Academia Pernambucana de Letras. Colaborou assiduamente em jornais como o Jornal Pequeno, do Recife, no qual foram publicados poemas seus inéditos e traduções de poetas como o simbolista Lorenzo Stecchetti, um dos pseudônimo do italiano Olindo Guerrini (1845-1916). Era sempre adjetivada por seus admiradores de “adorável”, “inteligente poetisa”.

Em 1920, foi a primeira mulher a ingressar como membro da Academia Pernambucana de Letras, aliás a primeira Academia no Brasil a ter uma mulher em seus quadros. A normalista e poeta, defensora dos direitos das mulheres, ocupou a cadeira n.7 da APL, no lugar do acadêmico João Batista Regueira Costa, a quem dedicou o texto Um passado que não morre.

Em sua casa, na rua do Sossego, bairro da área central do Recife, Edwiges recebia convidados e declamava poemas em italiano, em especial os da poeta Ada Negri. Também nesse espaço eram comuns os encontros de mulheres que se dedicavam às causas da emancipação feminina.

Professora catedrática da Escola Normal, onde realizou sua formação como professora, Edwiges também atuou como professora de português no curso comercial do Colégio Eucarístico e assumiu a disciplina de História Geral e do Brasil no Colégio Nossa Senhora do Carmo. Seu engajamento no campo da “instrução pública”, como se dizia à época, levou-lhe ao cargo de superintendente de ensino dos grupos escolares da capital pernambucana, cargo que lhe permitiu viajar para outros estados em eventos e oficinas ligadas à educação. O governo estadual chegou a publicar suas Impressões e notas (questões do ensino).

A participação ativa como educadora se alinhava às suas causas políticas. Para Edwiges era necessário que os governos investissem na educação das mulheres. Em 1931, participou do II Congresso Internacional Feminista, promovido pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada por Bertha Luz, em 1922. Na ocasião, a escritora pernambucana apresentou o texto Pela mulher, para a mulher, publicado no ano seguinte. Em seu discurso, Edwiges exortava as mulheres de diferentes extratos sociais a se unirem para reivindicar direitos políticos e direito à educação.

Como consequência das articulações e redes que construiu no Rio de Janeiro, fundou, no mesmo ano, a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, filiada à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF). A primeira sessão da Federação Pernambucana teve participação de Odila Porto de Oliveira, representando a FBPF. Edwiges, presidente da filiada pernambucana, apresentou os projetos e propostas voltadas para “campanhas em prol dos direitos e demais interesses da mulher”. Na mesma ocasião, anunciou o projeto de um levantamento estatístico das “mulheres que exercem atividades no funcionalismo em Pernambuco, no comércio, no magistério”, de modo a subsidiar a criação de uma “Escola de Oportunidades”, ideia de Noemia Xavier, vice-presidente da Federação Pernambucana. A primeira ata foi assinada, em novembro de 1931, por 47 mulheres.

 

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Ata da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, 10 de novembro de 1931 / Acervo Fundaj

 

Nas eleições de 1933 para o parlamento, Edwiges, pelo Partido Economista, e a também escritora Martha de Hollanda, sem partido, foram as únicas mulheres a se candidatarem em Pernambuco. Apesar de não terem sido eleitas, deixaram sua marca na constituição do eleitorado feminino no Brasil.

Em 1947, Edwiges publicou a conferência “A influência da mulher na educação pacifista do após-guerra”, na qual expôs os principais desafios do século XX e os impactos da catástrofe da II Guerra Mundial. Apontou retrocessos históricos, afirmando que a “questão feminista bem longe está do seu rumo necessário”.

 

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A influência da mulher na educação pacifista do após-guerra, 1947 / Acervo Fundaj

 

A “Eva Militante”, como assim se nomeou em artigos de jornais nos anos de 1930, e “imortal” da Academia Pernambucana de Letras, deixou escritos de sua trajetória e projetos de futuro. Faleceu em 1958, aos 74 anos, com planos de publicar suas crônicas sociais, textos feministas e escritos poéticos. Horas Inúteis, livro de poemas, foi publicado postumamente.

 

*Cibele Barbosa é historiadora da Fundação Joaquim Nabuco.

 

Breve cronologia de Edwiges de Sá Pereira (1884-1958)

Andrea C.T. Wanderley**

 

 

1884 - Em Barreiros, na Zona da Mata Sul de Pernambuco, nascimento, em 25 de outubro, de Isabel Edwiges de Sá Pereira, futura escritora, educadora, líder feminista e sufragista. Filha do barachel em Direito e senhor de engenho José Bonifácio de Sá Pereira (c.1831-1916) e da dona de casa Maria Amélia Rocha de Sá Pereira (18?-1915), pertencia à aristocracia latifundiária e letrada de Pernambuco. Era irmã dos advogados Virgílio e Manoel Arthur, do advogado e poeta Eugenio, o advogado e jornalista Eurico; e Érico, Nanette, Margarida, Fredovinda, Cândida, Adalgisa e Marieta.

1895 – Com apenas 11 anos de idade escreveu o poema Saudade, um dos seus primeiros textos de que se tem registro.

1886/1897 – Com seu irmão, Eugênio, criou o jornalzinho manuscrito Echo Juvenil, com pequenos textos e poesias, que circulava entre os seus familiares.

1897 - Algumas de suas poesias que se encontravam no Echo Juvenil foram publicadas no jornal O Paiz, do Rio de Janeiro, com apresentação do jornalista, escritor e dramaturgoArtur Azevedo (1855-1908) (O Paiz, 7 e agosto de 1897, primeira coluna).

A revista A Mensageira, revista literária dedicada à mulher brasileira, foi criticada por não ter incluído Edwiges e outras escritoras no artigo de fundo de sua primeira edição. Era dirigida pela poetisa e feminista mineira Presciliana Duarte de Almeida (1867-1944) (Revista do Brazil, setembro de 1897).

 

 

Seu poema Primaveras foi publicado (Revista do Brazil, 30 de novembro de 1897).

Publicação de seu poema A jurity ao beija-flores (Revista do Brazil, 30 de dezembro de 1897).

1898 – Algumas poesias de sua autoria foram publicadas na Revista do Brazil (Correio Paulistano, 8 de janeiro de 1898, terceira coluna).

Publicação de um soneto de sua autoria no Jornal do Recife, de 24 de maio de 1898.

 

1899 – Na revista Mensageira, n° 26, publicação de poesias de Edwiges (A Meridional, 1899).

Publicação de suas poesias SimileScenas Simples, na Revista do Rio Grande do Norte, outubro de 1899.

 

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1900 – Publicação de seu poema A Cigana, dedicado a Auta de Souza (A Província, 25 de setembro de 1900, terceira coluna).

1901 – Publicação de Campesinas, seu primeiro livro, com 51 poemas, prefaciado pelo jurista e poeta Antonio Souza Pinto (18-19), entusiasta da publicação. Ele havia conhecido Edwiges em uma viagem que fez a Barreiros (Almanaque do Garnier, 1903). Ofereceu um exemplar do livro à Academia Pernambucana de Letras (Jornal do Recife, 17 de setembro de 1901, sexta coluna).

 

 

A obra recebeu boas críticas no Recife. Alguns de seus poemas foram:

Meu livro

Perdoa-me se um dia, Tuas nevadas folhas descerrando, Alguém, meu fraco mérito acusando, De ti chasqueie e ria, Não te escrevi, meu livro, para os sábios, Para os sábios, bem sei que tu não prestas… Tinha minh’alma em festas E um riso alegre a me enfeitar os lábios, E antes que me viessem vis ressábios A alegria turvar de minha vida, Eu quis cantar e essas canções modestas Fui tirando da lira estremecida. Tudo quanto da vida eu penso, e via Nos meus sonhos gentis e soberanos, Tudo quanto me enleva a fantasia – Canto na lira azul dos verdes anos!

Barreiros,1900.

No lar

À minha irmã Margarida

Ri-se na sala a trêfega criança, Como a enxotar a mágoa que domina A natureza, quando o sol declina Para o ocaso feliz onde descansa… Na estofada cadeira se embalança Uma jovem mulher, e a fronte inclina Para beijar a filha pequenina, De sua vida a lúcida esperança. Reflete o espelho a serpentina acesa, À luz da qual uma velhinha reza, E eu vejo a fé impressa no seu rosto… Basta em todas as casas esta cena, Assim tão meiga, plácida e serena, Para alegrar as horas do sol posto.

Barreiros, 1898.

Dor suprema

Pranto supremo, pranto dolorido, Companheiro da dor, pranto pungente Dize-me tu, que tornas comovente O suspirar de um coração ferido. Dize-me tu que já de toda a gente Ouviste o peito a soluçar dorido. Sim! Tu que és sempre o intérprete escolhido De quem os golpes do infortúnio sente: Dize-me tu se por acaso existe Dor tão cruenta, padecer tão triste Como de um’alma as duras aflições, Ao ver cortando a vastidão imensa Da região sombria da descrença O bando das primeiras ilusões.

Barreiros, 1900

A uma estrela

Áquela estrêla que acompanha a lua / Eu, curiosa perguntei um dia: / – Qual de vós vale mais, a que flutua / No céu azul da minha fantasia, // Ou tu que, no correr da noite fria, / Erras no céu assim, pálida e nua, / Das esferas ouvindo essa harmonia / Que, até ouvi-la o velho mar estua? // E a clara estrêla disse-me: “Criança, / Quando fanada a última esperança, / A alma ficar-te de ilusão vazia. // Inda hás de verme fulgurar, divina; / Mas, onde encontrarás a que ilumina / O céu azul da tua fantasia”?

       Desolada   

A meu Pai

Beijando a cruz de rútilo rosário, Clotilde reza uma oração, fitando O vulto de Maria no sacrário. Dos belos olhos seus vem deslisando Um rosário de lágrimas ardentes, Que se lhe vai no colo desmanchando. Na posição dos pobres penitentes – Joelhos em terra, mãos entrelaçadas – Envia à Virgem súplicas ferventes. De pungente amargura repassadas São as frases que, triste, balbucia Com o fervor das almas desoladas. Pede à clemente e divinal Maria – Testemunha da dor que a dilacera – O bálsamo que as mágoas alivia. Suplica, reza e, soluçando, espera – Fitando sempre o casto santuário – A proteção da santa que venera. Beijando a cruz de rútilo rosário, Clotilde pensa que tardar não deve O remédio que abrande o seu fadário… Beija a cruz do rosário, e não se atreve, Não faz o mesmo à cruz que lhe foi dada… Acha a que tem na mão pequena e leve, E a que carrega por demais pesada!

Barreiros, 1896

Madrigais

A Hortência

Para enfeitar o céu – quantas estrelas E tu, melhor do que elas Brilham de noite, apenas, no infinito Brilhas a qualquer hora aqui na terra! É que o intenso fulgor Do astro mais esplendente e mais bonito Tens nos olhos, ó flor, (mago espelho de uma alma sem refolhos!) Si eu fosse estrela, inda que fosse Vênus, Teria inveja de teus lindos olhos!

Musa sensível

Seja teu coração bondoso e terno Sensível para o riso e para o luto! O mundo chora e ri, e eu vejo e escuto, Que se às vezes é céu, outras é inferno! Se eu te visse assistir de olhar enxuto Desta vida que passa ao drama eterno, E, a um mesmo gesto, único e supremo, Confundir o que é bom e o que é poluto; Se eu te visse impassível e serena Ante o bem, ante o mal, de que deriva Ora o gozo, ora a mágoa que envenena, Eu que tanto te estimo e te respeito, Musa, sentirá a dor pungente e viva De extinguir -se teu culto no meu peito!

Eduardo de Carvalho (18?-19?), membro efetivo da Academia Pernambucana de Letras, fundada em 26 de janeiro deste ano por iniciativa de Joaquim Maria Carneiro Vilela (1846-1913) e de um grupo de 19 escritores pernambucanos, fez uma bela crítica ao seu livro e a convidou para ser sócia correspondente da instituição. A Academia Pernambucana de Letras foi a quarta do Brasil, tendo sido precedida pela Academia Cearense de Letras, fundada, em 1894;  pela Academia Brasileira de Letras, fundada no Rio de Janeiro, em 1897; e pela Academia Paraense de Letras, fundada em 1900.

Edwiges colaborava com diversos jornais no país, dentre eles, O Norte (RJ) e o Escrutínio (RS), e com revistas, como a Revista Feminina (SP).

Publicação de seu poema Maria Amelia (Almanach de Pernambuco, ).

Era uma das redatoras da revista Azul e Ouro, órgão literário da Oficina Martins Junior, da qual era sócia honorária correspondente. A Oficina havia sido fundada em 1900 (Revista do Brazil, 1901).

Em fins deste ano, seu pai vendeu o engenho em Barreiros e foi morar com sua família no Recife, onde passou a trabalhar para o governo do Estado.

1902 - Edwiges, Adalgisa Duarte Ribeiro, Amélia Freitas Bevilacqua, Belmira Villarim, Cândida Duarte Barros, Luiza Ramalho e Maria Augusta Freire fundaram revista O Lyrio, cujo primeiro exemplar foi lançado em 5 de novembro. Em várias de suas 20 edições, abordava a importância da educação da mulher e a pouca atenção dos governantes em relação à instrução feminina. A publicação, encerrada em junho de 1904, foi importante para a difusão do ideário feminista baseado na educação como o único caminho para a emancipação da mulher. A Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, possui sete exemplares da revista armazenados na Divisão de Obras Raras e na Coordenadoria de Publicações Seriadas (Diário de Pernambuco, 10 de outubro de 1902, última coluna).

“Escrita somente por mulheres tem como redatora-chefe D. Amelia de Freitas Bevilaqua e como redatora-secretária D. Candida Duarte Barros. Participavam da redação as sras. Adalgisa Duarte Ribeiro, Belmira Villarim, Edwiges de Sá Pereira, Luiza Cintra Ramalho, Maria Augusta Freire  e Ursula Garcia. Impresso pela Emp. d’A Província, com exceção do primeiro exemplar, que foi na Imprensa Industrial. Na última página de cada exemplar encontra-se a informação de que “toda correspondência deve ser dirigida para rua do Lima, n.54, residência da Redactora-Secretaria”, e o valor da revista: número avulso custava 1$000 e a assinatura trimestral era de 2$000″.

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Alguns de seus poemas publicados em O Lyrio foram Simile (n°1, novembro de 1902), dedicado a sua mãe; Paisagem (n°2, dezembro de 1902), Auta de Souza e  Esther (n°4, fevereiro de 1903)Olhos Verdes (nº 5, março de 1903); A um raio de sol (nº 6, abril de 1903); O Malmequer (nº 7, maio de 1903), e Miss (n°13 e 14, novembro e dezembro de 1903).

 

Olhos Verdes

Teus olhos verdes eu fito
Mas logo depois não sei
Se foi do excelso infinito
Divina estrella que olhei.

É que teu olhar encerra
Tanta graça e tanta luz
Que eu penso não ser da terra
O brilho que me seduz!…

Teus olhos, flor adorada,
São de um poder soberano:
E a gente os fita enlevada
Qual se contemplasse o oceano…

Não é que nelles escondas
Essa perola do mar,
Mas toda a attração das ondas
Tu tens guardada no olhar!

Eu nesse olhar adivinho
– Como a chimera vagueia! –
Candura de passarinho
Fascinação de sereia!…

O canto sonho do poeta
Nas noites claras de lua,
Semelha a chamma dilecta
Que nos teus olhos fluctua…

Formosa é sempre a esperança,
Pois vês teus olhos querida,
Têm a cor desta ave mansa
Que tece os sonhos da vida!…

Se pudessem teus olhares
Ver toda a immensa amargura
Do mundo eu via os pesares
Transformados em ventura…

Das almas tristes chorosas,
O pranto num doce riso,
A vida – num mar de rosas,
A terra num paraíso!…

 

Era considerada uma charadista (Almanach de Pernambuco, 1902).

Era uma das redatoras da Revista Pernambucana, que existiu entre 1902 e 1904 (Gazeta de Notícias, 26 de dezembro de 1902, sexta coluna).

1903 – Estudava na Escola Normal, onde se formou como professora, em 1905.

Publicação de seu poema Março (Almanach de Pernambuco para o ano de 1903).

Publicação de seu poema No camarim (Almanach de Pernambuco para o ano de 1903).

Seguia colaborando com a  Revista Pernambucana (Diário de Pernambuco, 16 de dezembro de 1902, quinta coluna).

1904 - Foi eleita vice-presidente do clube literário Olintho Victor, fundado por estudantes da Escola Normal (Diário de Pernambuco, 7 de maio de 1904, sétima coluna).

Seus poemas estavam presentes na publicação Sonetos brasileiros, editada por Laudelino Freire (1873-1937) (Diário de Pernambuco, 3 de julho de 1904, quarta coluna).

Publicação de seu poema O Mar (Almanach de Pernambuco, 1904).

Ofertou livros à Biblioteca da Faculdade de Direito do Recife (Diário de Pernambuco, 28 de julho de 1904, sexta coluna).

Foi publicada uma foto de Edwiges no Almanach de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 10 de agosto de 1904, segunda coluna).

Foi a oradora na cerimônia de bênção do estandarte do corpo discente da Escola Normal, realizada na Ordem 3ª de São Francisco (Jornal Pequeno, 24 de setembro de 1904, segunda coluna).

Foi anunciado que a Oficina Martins Junior, que já existia desde 1900 e que em 1901 elegeu a revista Azul e Ouro como seu órgão literário, seria reconstituída em 2 de outubro, em uma sessão no Instituto Arqueológico Pernambucano. Em 1901, Edwiges havia se tornado sócia honorária correspondente da Oficina, mas na reorganização da agremiação tornou-se efetiva (Jornal do Recife, 11 de setembro de 1900, primeira coluna; Jornal do Recife, 2 de abril de 1901, penúltima colunaDiário de Pernambuco, 29 de setembro de 1904, segunda coluna; Jornal do Recife, 2 de outubro de 1904, última coluna).

Foi aceita como sócia honorária do Grêmio Literário Pantheon de Lettras (Diário de Pernambuco, 4 de outubro de 1904, penúltima coluna).

Fez um discurso como representante do segundo ano da Escola Normal (Diário de Pernambuco, 13 de dezembro de 1904, primeira coluna).

1905 – Na Revista Pernambucana, publicação de seu poema Amor (A Província (PE), 15 de fevereiro de 1905, quinta coluna).

Foi eleita presidente do Clube Literário Olintho Victor (Diário de Pernambuco, 25 de maio de 1905, primeira coluna).

Formou-se na Escola Normal (Diário de Pernambuco, 27 de outubro de 1905, quinta coluna). Em 19 de outubro, foi promovida a festa da Escola Normal das formandas de 1905 e Edwiges foi a oradora do evento (Almanach de Pernambuco, 1911).

A letra do hino da Escola Normal era de sua autoria (Diário de Pernambuco, 28 de novembro de 1905, sexta coluna).

Publicação de seu poema O Mar (Almanach de Pernambuco, 1905).

1907 –  Publicação de seu poema Desolação (Almanach de Pernambuco1907).

Na rua da Aurora, n° 123, foram realizados os exames da escola particular mista presidida por Edwiges (Jornal do Recife, 12 de dezembro de 1907, quarta coluna).

Angariou fundos para a construção de uma estátua em homenagem ao poeta, professor e jurista Martins Junior (1860-1904) (Jornal do Recife, 26 de junho de 1907, última coluna).

Foi uma das colaboradoras da terceira edição de novembro/dezembro da revista Polyantho, sob a direção de Martins Filho (Jornal do Recife, 4 de janeiro de 1908, sexta coluna).

1908 - Publicação de seu poema Aves Libertas, dedicado a Aurea Jacome (Jornal do Recife, 1° de abril de 1908, última coluna).

Assumiu o cargo de professora primária do Estado de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 12 de abril de 1908, segunda coluna). Durante sua carreira no magistério lecionou Prática Didática e Pedagogia. Também foi professora de Português do curso Comercial do Colégio Eucarístico. Depois tornou-se catedrática da Escola Normal e mestra da cadeira de História Geral e do Brasil, do Instituto Nossa Senhora do Carmo. Posteriormente foi superintendente do Ensino nos Grupos Escolares do Recife.

Foi publicado um poema de sua autoria acerca da esperança (Diário de Pernambuco, 19 de fevereiro de 1908, última coluna).

1909 – Foi nomeada diretora da Escola Estadual da Boa Vista. No fim do ano, foi realizada na escola uma festa magnífica (Diário de Pernambuco, 15 de janeiro de 1909, terceira coluna; Jornal do Recife, 7 de dezembro de 1909, sexta coluna).

Publicação de seu poema Maio (Jornal Pequeno, 7 de maio de 1909, terceira coluna).

Publicação de seu soneto O Violino.

“Magno instrumento a tua voz parece / A voz do coração que á gente fala: – / Ninguem te ouvindo o seu pezar esquece, / Ninguem te ouvindo os seus sorrisos cala… // Quando, ou tranqüilo e doce como aparece / Ou presto e alegre um som de ti revela, / – Queixa de quem magoas de amor padece / Canto de quem feliz amor propala, // O sêr que bebe o influxo soberano / Das emoções diversas de teu peito / Que pulsa e vibra como o peito humano, // Presa de enleio e de fascinação / Pensa um momento que tu foste feito / Das próprias cordas do seu coração…”

A “Secção Chic” do Jornal Pequeno foi aberta com a publicação do poema Inverno, de sua autoria (Jornal Pequeno, 14 de junho de 1909, terceira coluna).
Foi elogiada em um artigo de Adelmar Tavares (1888-1963) (Jornal Pequeno, 16 de setembro de 1909, primeira coluna).
Foi noticiado que Edwiges havia enviado ao Jornal Pequeno belíssimos escritos para a Secção Chic do periódico sob o pseudônimo de Jessie Yorke. Foi descoberta e como artigo editorial foi publicado na primeira página do jornal o artigo Triste, de sua autoria (Jornal Pequeno, 16 de outubro de 1909, primeira coluna)
Após a palestra Trovas e trovadores proferida por Ademar Tavares, na Sexta Conferência Literária realizada pela Academia dos Nullos, uma associação de jovens acadêmicos, Edwiges ofereceu-lhe flores (Jornal Pequeno, 4 de outubro de 1909, segunda coluna).

Participou da organização de uma quermesse que seria realizada em 16 de janeiro de 1910 em benefício do Instituto de Proteção e Assistência à Infância (A Província, 21 de dezembro de 1909, terceira coluna).

1910 - Publicação de uma fotografia de Edwiges no Almanach Literário Pernambucano (Jornal Pequeno, 4 de janeiro de 1910, terceira coluna).

Ao longo do ano, publicação, no Jornal Pequeno, dos artigos de sua autoria ManiasSombras, Não sei…, A esmo, O Lenço Azul, O Ensino ProfissionalPela infância; Sol Posto, Tradições, Fazer o bem, Grandes e pequenos, O Signal, Educação e Noite de Natal (Jornal Pequeno, 15 de janeiro de 1910, 22 de janeiro de 1910, 29 de janeiro de 1910, 5 de fevereiro de 1910, 12 de fevereiro de 1910, 19 de fevereiro, 5 de março de 1910, 12 de março de 1910, 2 de abril de 1910, 9 de abril de 191030 de abril de 1910, 7 de maio de 1910, 21 de maio de 1910 e 24 de dezembro de 1910).

O poema Vagando, assinado por Cecy, foi dedicado a ela (Jornal Pequeno, 5 de março de 1910, penúltima coluna).

Viajou para o Rio de Janeiro (Jornal Pequeno, 27 de maio de 1910, última coluna). Durante sua estadia, fez uma visita à Escola Normal (O Paiz, 16 de julho de 1910, última coluna). Em uma de suas colunas, a escritora e feminista Julia Lopes de Almeida (1862-1934) comentou a viagem de Edwiges (O Paiz, 1º de novembro de 1910, segunda coluna).

Publicação de seu poema Amor (Jornal Pequeno, 28 de maio de 1910).

Para tratar de sua saúde, licenciou-se do magistério (Diário de Pernambuco, 22 de junho de 1910, penúltima coluna).

Publicação de Nedda, de sua autoria (A República, 29 de outubro de 1910, quarta coluna).

1911 - Publicação, no Jornal Pequeno, dos artigos de sua autoria Anno Bom, Pelo ensino, Ferri e Gaffre 1, Ferri e Gaffre 2, Ferri e Gaffre 3, Selma, Cortezias, Epistolar, Um livro novo, Mal entendido, A Chronica, Horas mysticas (Jornal Pequeno2 de janeiro de 1911, 14 de janeiro de 1911, 21 de janeiro de 1911, 28 de janeiro de 1911, 4 de fevereiro de 1911, 25 de fevereiro de 1911, 4 de março de 1911, 11 de março de 1911, 18 de março de 1911, 1º de abril de 1911, 8 de abril de 1911, 22 de abril de 1911,

Um artigo de sua autoria sobre as escolas brasileiras publicado no Jornal Pequeno foi citado na coluna “Dois dedos de prosa”, da escritora Julia Lopes de Almeida (O Paiz, 24 de janeiro de 1911, segunda coluna).

Publicação de seu poema Horas mysticas, na revista Santa Cruz (Correio Paulistano, 11 de junho de 1911, primeira coluna).

Integrava a Cooperativa dos Funcionários Públicos (Diário de Pernambuco, 19 de outubro de 1911, terceira coluna).

1912 – Publicação de seu poema Aves e Coração (Almanak Henault, 1912/1913).

No artigo Um Protesto, foi mencionado que Edwiges teve a satisfação de ver traduzida em francês numa revista de Estocolmo uma de suas produções do Lyrio, acompanhada de lisongeiros conceitos do grande literato Pythion de Villar e a propósito de quem o ilustrado dr. Julio Pires, por aquele tempo do Lyrio, escreveu em seu Almanak: “discípula que honra o mestre” (Jornal Pequeno, 6 de fevereriro de 1912, segunda coluna).

Publicação de seu poema De Volta, dedicado a Mlle. Maria Estevan (Almanach de Pernambuco, 1912). Na mesma edição, escreveu o artigo D. Julia Lopes de Almeida, homenageando a escritora, a quem havia visitado no Rio de Janeiro (Almanach de Pernambuco, 1912).

Foi a oradora oficial da homenagem prestada pela mulher pernambucana, um concerto realizado em 13 de janeiro, no Theatro de Santa Isabel, ao general Dantas Barreto (1850-1931), governador de Pernambuco, em protesto por sua eliminação do número dos associados da Associação de Imprensa (Jornal do Recife, 9 de abril de 1912, quinta coluna).

 

 

Publicação de seu poema Maguas (A Faceira, agosto de 1912).

1913 – Publicação de seu poema À Florisa (Sciencias e Letras, fevereiro de 1912 a fevereiro de 1913).

Foi eleita a primeira presidente da Associação das Damas de Beneficência. Já fazia parte da diretoria do Instituto de Proteção e Assistência à Infância (Jornal do Recife, 28 de janeiro de 1913, quarta coluna).

Publicação do artigo Pro-Parvulos Carta Aberta e Francisca Izidora, de sua autoria (Jornal Pequeno, 21 de junho de 1913, primeira coluna; Jornal Pequeno, 30 de agosto de 1913, primeira coluna).

No Instituto de Proteção e Assistência à Infância, foi promovido pelas Damas de Beneficência, sob a presidência de Edwiges, uma festa de Natal (Jornal Pequeno, 26 de dezembro de 1913, primeira coluna).

1914 - Publicação de seu poema No camarim (Jornal Pequeno, 28 de abril de 1914).

Estava inscrita, assim como Assis Chateaubriand (1892-1968) e outros, como colaboradora do recém criado vespertino A Tarde, em Pernambuco (O Paiz, 7 de junho de 1914, quinta coluna).

Foi aceita como membro efetiva do Instituto Arqueológico de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 21 de agosto de 1914, terceira coluna).

Foi citada como uma das grandes poetisas brasileiras pelo palestrante Leal de Souza, secretário da redação da revista Careta, na 3ª conferência de uma série organizada por um grupo de literatos, no salão nobre do (Jornal do Commercio, 26 de agosto de 1914, última coluna).

Publicação de seu poema Natal na Aldeia (Às moças de minha aldeia natal) (Jornal Pequeno, 24 de dezembro de 1914).

1915 - Falecimento de sua mãe, Maria Amélia Rocha de Sá Pereirra (Diário de Pernambuco, 23 de novembro de 1915).

1916 - Seu pai, José Bonifácio de Sá Pereira, foi atropelado por um carro elétrico e faleceu (Jornal do Commercio, 10 de junho de 1916, sexta coluna).

Publicação do artigo A Romã, de sua autoria (Jornal Pequeno, 30 de dezembro de 1916, primeira coluna).

1917 – Publicação do artigo Trabalho Feminino, de sua autoria, em que aborda a questão da admissibilidade da mulher trabalhar fora de casa (Sciencias e Letras, abril de 1917).

Publicação de seu poema De Volta (O Jornal (MA), 9 de outubro de 1917, primeira coluna).

O Jornal do Recife organizou o evento A Primeira Hora Literária Feminina e Edwiges foi a vencedora do Torneio Literário (Revista Feminina (SP), ano 4, n° 34, 1917).

1918 – Publicação em duas partes do artigo A Escola Moderna, de sua autoria, onde discute as noções da pedagogia (A Escola Primária, 1º de janeiro de 1918 e 1º de fevereiro de 1918).

Escreve para o periódico O Ratazana.

Seus versos eram vendidos em algumas lojas do Recife (Jornal Pequeno, 7 de junho de 1918, primeira coluna).

Estava licenciada do magistério (Jornal do Recife, 5 de outubro de 1918, primeira coluna).

Falecimento de seu irmão, Eugênio de Sá Pereira (Jornal do Commercio, 27 de novembro de 1918, segunda coluna).

1919 - Foi citada como exemplo de uma mulher inteligente na seção “Cartas de Mulher”, da revista Vida Moderna, em uma mensagem que contestava o conceito de Schopenhauer sobre as mulheres (Vida Moderna (PE), 22 de março de 1919, última coluna).

1920 – Ao longo dos anos 1920, se correspondeu com feministas do sudeste do Brasil.

Seguia como diretora da freguesia de Boa Vista e era também professora da Escola Normal (Almanach Laemmert, 1921, primeira e segunda coluna).

Em 10 de abril, foi eleita membro efetivo da Academia Pernambucana de Letras e tomou posse em 13 de maio, tornando-se a primeira mulher a fazer parte do quadro efetivo de uma Academia de Letras no Brasil, antecedendo, em 57 anos, a cearense Rachel de Queiroz (1910-2003) que, em 4 de novembro de 1977, tornou-se a primeira mulher a fazer parte do quadro efetivo da Academia Brasileira de Letras (Diário de Pernambuco, 11 de abril de 1920, quarta coluna; A Nota, 22 de maio de 1920). A foto abaixo é de autoria do fotógrafo Louis Piereck.

 

 

Edwiges substituiu João Baptista Regueira Costa (1845-1915), na Cadeira de nº 7, cujo patrono é Antônio Peregrino Maciel Monteiro (1804-1968). A cerimônia de posse aconteceu na Câmara dos Deputados do Recife. Os outros membros empossados foram Antônio Andrade Bezerra (1889-1946), José Gonçalves Maia (1866-19?), Mario Carneiro do Rego Melo (1884-1959), Manoel de Oliveira Lima (1867-1928) e Zeferino Galvão (1864-1924). Faltaram à cerimônia, com motivo justificado, os novos acadêmicos Arthur Muniz (1896-1924), Antônio Andrade Bezerra (1889-1946) e João Barreto de Menezes (1872-1950) (Diário de Pernambuco, 14 de maio de 1920). O evento foi aberto por Samuel Martins (1862-1930), presidente da Academia Pernambucana de Letras, que exaltou Pernambuco como o berço da evolução literária brasileira. Em seguida, o acadêmico Luis de França Pereira (1870-1925) falou sobre a importância da Academia Pernambucana de Letras, das tradições de Pernambuco e saudou os novos imortais. Sobre Edwiges, falou:

“Edwiges de Sá Pereira, que como Sapho dedilha à lira de ouro as queixas mudas do coração humano…Será esta, penso, a primeira das actuaes Academias de Lettras do paiz a admitir uma senhora em seu seio. A casa de Bento Teixeira Pinto quiz ter a primazia neste acto de justiça aos vossos dotes de espirito. Mademoselle Edwiges. E é da tradicional galanteria pernambucana alliar a cooperação da Mulher a todas as nossas affirmações de Energia como a todas as nossas manifestações de Arte”.

Oliveira Lima, um dos novos imortais, falou em nome deles, agradecendo à Academia Pernambucana de Letras e traçou um perfil sobre si e sobre os demais empossados. Em seu discurso, valorizou a entrada de uma mulher na Academia e falou sobre Edwiges:

“Escolhestes a sra. d. Edwiges de Sá Pereira e com esta escolha destes as outras academias do Brazil um exemplo a que a Academia Brasileira ainda não afoitara. As produções poeticas e pedagogicas da nossa consocia justificam de certo vosso acto, mas não deixa ella de ser uma innovação. Devemos todos agradecer a sra. d. Edwiges de Sá Pereira o ter proporcionado a esta Academia o ensejo de tão depressa entrar na nova corrente de idéas, admittindo no seu gremio uma representante da intellectualidade pernambucana”.

 

 

Publicação do artigo Poesia e Moda, de sua autoria (Jornal Pequeno, 7 de junho de 1920, primeira coluna).

É nomeada professora para a cadeira primária feminina da Escola Normal de Pernambuco (A Província (PE), 27 de junho de 1920, primeira coluna).

O escritor e acadêmico Artur Muniz (1870-1924) dedicou a ela o artigo Página de Saudade (A Província (PE), 14 de outubro de 1920, quinta coluna).

Publicação do artigo Natal, de sua autoria (Jornal Pequeno, 24 de dezembro de 1920, última coluna).

1921 – Escreve para a revista A Nota e para a revista do Instituto da Sociedade de Letras de Pernambuco.

 

 

Publicação do artigo Um livro bom, de sua autoria (Jornal Pequeno, 9 de maio de 1921, primeira coluna).

1922 - Publicação de seu poema Abril (Almanach de Pernambuco, 1922).

Foi a letrista do hino Pernambuco à independência com música de Maria do Carmo Santos Barbosa. Foi cantado na comemoração do centenário da Independência do Brasil, realizado no Theatro de Santa Izabel (Diário de Pernambuco,13 de julho de 1922, penúltima coluna).

Escreveu um artigo sobre a exposição da pintora Georgina Barbosa Vianna (18?-1961) (Jornal Pequeno, 22 de julho de 1922, primeira coluna).

Na Revista do Instituto de Sciências, publicação do soneto Pernambuco, de sua autoria (A Província (PE), 14 de novembro de 1922, quarta coluna).

Publicação de uma carta que Antônio Carneiro Leão (1887-1996), diretor de Instrução Pública do Rio de Janeiro, havia enviado a Edwiges, sobre o livro Educação, de autoria dela (Jornal Pequeno, 1º de dezembro de 1922, penúltima coluna).

Participou, em dezembro, no Rio de Janeiro, do I Congresso Internacional Feminista ou 1ª Conferência pelo Progresso Feminino, organizado pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada em 9 de agosto de 1922 e presidida por Bertha Lutz (1894-1976).

1923 – Seguia como diretora da freguesia de Boa Vista e professora da Escola Normal (Almanach Laemmert, 1924).

Publicação de seu poema Avatari, dedicado a Julio Pires (Jornal Pequeno, 21 de fevereiro de 1923, quinta coluna).

1924 – Publicação de seu poema Contraste (Almanach de Pernambuco, 1924).

Foi eleita para integrar a comissão fiscal da Cooperativa dos Funcionários Públicos (Diário de Pernambuco, 25 de janeiro de 1924, quarta coluna).

Foi concedida a ela uma licença de três meses para tratamento de saúde (Jornal do Recife, 16 de março de 1924, terceira coluna).

Fazia parte da comissão de Literatura da organização das festividades em torno da chegada do navio Italia ao Recife (Diário de Pernambuco, 21 de março de 1924, quinta coluna).

Colaborou na revista mensal Nação Brasileira, dirigida por Evaristo de Moraes e Alfredo Horcades (O Paiz, 14 de junho de 1924, quarta coluna).

Publicação do artigo A prioridade de Pernambuco nas ideias liberais, de autoria de Edwiges (Diário de Pernambuco, 2 de julho de 1924, quarta coluna).

Em maio, o governador de Pernambuco, Sergio Teixeira Lins de Barros Loreto (1867-1913), a encarregou para a realização de um estudo acerca da organização e funcionamento do ensino técnico e profissional em Pernambuco e em outros estados do país. Com esse fim, Edwiges partiu para o Rio Grande do Norte e proferiu uma palestra. Foi apoiada pelo governador José Augusto Bezerra de Medeiros (1884-1971) (Jornal do Recife, 11 de maio de 1924, quinta coluna; Diário de Pernambuco, 6 de julho de 1924, penúltima coluna; 30 de julho de 1924, quarta coluna).

Seguiu para o Rio de Janeiro e para São Paulo para continuar seus estudos sobre a organização das escolas domésticas e das escolas profissionais (Diário de Pernambuco, 22 de agosto de 1924, quarta coluna; A Província (PE), 27 de agosto de 1924, primeira coluna).

No Rio de Janeiro, acompanhada por Antônio Carneiro Leão, diretor de Instrução Pública do Rio de Janeiro, visitou escolas rurais. Também fez uma visita à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e encontrou-se com a presidente da entidade, Bertha Lutz, e esteve na Liga dos Professores, onde fez uma palestra. Foi visitada por membros do Centro Pernambucano sediado no Rio de Janeiro. Na Escola Nilo Peçanha foi homenageada com uma festa em comemoração à entrada da Primavera (Jornal do Brasil, 20 de setembro de 1924 e 25 de setembro de 1924O Paiz, 28 de setembro de 1924, sexta coluna; Jornal do Recife, 16 de dezembro de 1924, penúltima coluna; Jornal do Brasil, 17 de dezembro de 1924, sexta coluna).

 

 

Foi recebida em São Paulo com um chá oferecido na Liga das Senhoras Católicas (A Noite, 14 de outubro de 1924, quinta coluna; A Cigarra, 15 de novembro de 1924Diário de Pernambuco, 21 de novembro de 1924, segunda coluna).

Publicação e uma foto e Edwiges com o artigo de sua autoria, intitulado O Violão – ouvindo Josephina Robledo (Brasil Social, 1° de dezembro de 1924).

 

 

1925 - Publicação do artigo Sobre o Ensino Público no Brasil – impressões de uma educadora pernambucana, de sua autoria (Educação, janeiro de 1925).

Publicação de seu artigo Pelo ensino, na revista Brasil Social, dirigido por P.A. Soares (Brasil Social, 1º de janeiro de 1925).

Retornou de sua viagem ao Sul do Brasil onde esteve em comissão do governo estadual. Ao final do trabalho acerca da situação da educação no país, entregou ao governador um minucioso relatório, o qual, um ano depois, foi publicado com o título de Impressões e Notas (Jornal do Brasil, 14 de janeiro de 1925, quarta colunaDiário de Pernambuco, 20 de janeiro de 1925, terceira coluna).

Publicação de seu artigo, A Mulher pernambucana (Diário de Pernambuco, 7 de novembro de 1925).

Escrevia para o periódico Vida Feminina.

1926 - Publicação de um artigo acerca do trabalho realizado por Edwiges em comissão do governo de Pernambuco sobre as escolas domésticas e as escolas profissionais do Brasil (Jornal Pequeno, 18 de maio de 1926, última coluna)

Publicação de um artigo de sua autoria sobre a declamadora Angela Vargas (Jornal Pequeno, 16 de setembro de 1926, primeira coluna).

1927 – Era catedrática da Escola Normal e foi a letrista do hino comemorativo do centenário do Ensino Primário no Brasil – foi musicado pela professora Maria do Carmo Santos Barbosa. O hino foi cantado durante uma sessão magna realizada no Theatro de Santa Isabel e presidida pelo governador Estácio Coimbra (1872-1937) em comemoração à efeméride (Jornal do Recife, 15 de outubro de 1927, primeira coluna; O Paiz, 29 de outubro de 1927, última coluna).

Visitou a redação do Jornal do Recife com a poetisa potiguar Palmyra Wanderley (1894-1978) que iria ler, no dia 10 de dezembro, na Academia Pernambucana de Letras, versos de seu livro Roseira Brava (Jornal do Recife, 2 de dezembro de 1927, quarta coluna).

 

 

1928 - Foi publicada uma declaração de Edwiges sobre a Academia Pernambucana de Letras, integrando a série de reportagens A casa de Bento Teyxeyra Pinto (Diário da Manhã (PE), 22 de janeiro de 1928).

 

 

Foi entrevistada sobre a questão do voto feminino (Diário da Manhã, 28 de março de 1928, sexta coluna).

1929 – Foi eleita a oradora da Academia Pernambucana de Letras (Jornal do Recife, 3 de fevereiro de 1929, última coluna).

Assinou um artigo sobre o feminismo publicado na revista A dona de casa, dirigida por Cândida de Brito (Jornal do Brasil, 22 de março de 1929, terceira coluna).

Na Revista da Academia Pernambucana de Letras, publicação de um artigo de Edwiges (Diário de Pernambuco, 7 de maio de 1929, segunda coluna).

1931 - Em junho, ela, a médica Paulina Waisman e a pintora Georgina Barbosa Vianna participaram como delegadas de Pernambuco do II Congresso Internacional Feminista, organizado pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e realizado, no Automóvel Club, no Rio de Janeiro, entre 20 e 30 de junho. Edwiges e Georgina chegaram à cidade no dia 18, a bordo do navio Raul Soares. Foram recebidas por representantes da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, presidido por Bertha Lutz, e da União Universitária Feminina, presidida por Carmen Portinho (1903-2001). Na época, Edwiges era professora de português e história, na Escola Normal do Recife, além de vice-presidente da Academia Pernambucana de Letras (Correio da Manhã, 19 de junho de 1931, primeira coluna).

Os temas do evento foram educação feminina, proteção às mães e à infância, trabalho feminino, direitos das mulheres e estreitamento das relações pan-americanas e internacionais (Correio da Manhã, 5 de março de 1931, primeira colunaJornal do Brasil, 19 de junho de 1931O Jornal, 19 de junho de 1931, primeira coluna; Diário de Notícias, 20 de junho de 1931Correio da Manhã, 26 de junho de 1931O Malho, 27 de junho de 1931;  Revista da Semana, 27 de junho de 1931 Correio da Manhã, 1º de julho de 1931O Malho, 11 de julho de 1931Vida Doméstica, agosto de 1931).

Destacam-se aqui as delegadas das representações estaduais: Amazonas – Emilia Galvão e Cassilda Araujo Lima; Pará – Marina Lamarão Cardoso, Noemia de Rego Lins, Glória Silva e Maria Aurora Pegado Beltrão; Maranhão – Mariana Gurjão, Cristina Vinhais; Piauí – Nazareth Pires Ferreira; Ceará – Henriqueta Galena, Adilia Moraes e Carmem Castelo Branco; Rio Grande do Norte – Maria Eugenia Celso e Julia de Medeiros; Paraíba do Norte – Rosalina Coelho Lisboa; Pernambuco – Edwiges de Sá Pereira, Georgina Barbosa Vianna e Paulina Waismann; Alagoas – Almerinda Farias Gama; Sergipe – Sra. Maria Rita Soares de Andrade, Carlota Camargo do Nascimento; Bahia – Edith Mendes da Gama e Abreu, dra. Hermelinda Paes, Lili Tosta, dra. Francisca Praguer Froés, Alice Kelsche de Aguiar, Celeste Cerqueira; Espírito Santo – Anna Borges Ferreira; Estado do Rio de Janeiro – Antonieta de Souza Braga, Murilla Torres, Yolanda Torres, Dulce Horta Esteves Lagoeira, Maria Rosa Ribeiro; Estado de São Paulo – Helena Gordo; Julia Algodoal, Clotilde Kleber, dr. Horácio Silveira, Alice de Toledo Tibiriça e outras: Paraná – Martha da Silva Gomes; Santa Catarina – Alice Pinheiro Coimbra; Rio Grande do Sul – Ascylia Correia Rodrigues, Acy Coelho e Ilka Labarthe; Minas Gerais – Ignácia Guimarães, dra. Alzira Reis Vieira Ferreira, Maria Esther Ramalho, Eunice Weaver; Goiás – Dra. Rosita Godinho de Oliveira Bello; Mato Grosso – Branca Portinho.

O discurso de abertura do evento foi pronunciado pela escritora Julia Lopes de Almeida (1862-1934). Durante o encontro, Edwiges proferiu o discurso Pela Mulher, para a Mulher, que defendia uma nova concepção de ensino para a mulher. Dividiu a população feminina em três categorias: mulheres que não precisavam trabalhar, mulheres que sabiam e precisavam trabalhar e, finalmente, as mulheres que não sabiam e precisavam trabalhar. Os dois primeiros grupos deveriam, segundo ela, se unir para que o terceiro grupo fosse auxiliado (Jornal do Brasil, 15 de julho de 1931, sexta coluna).

Foi entrevistada e declarou que “o feminismo é uma evolução natural dos tempos. Como todas as forças vivas da natureza, a mulher não poderia estacionar nas fronteiras do passado, montando guarda aos velhos preconceitos que lhe tolhiam a faculdade de pensar e agir“(Diário da Noite, 22 de junho de 1931, primeira coluna).

 

 

Dentro da programação do congresso, participou de uma missa campal com a presença da primeira-dama, Darcy Vargas (1895-1968), e de todas as delegadas do evento, realizada no terreno da igreja do Sagrado Coração de Jesus. No mesmo dia foi inaugurada a exposição anexa ao congresso, no Automóvel Club. Participou também da sessão de congraçamento presidido por Bertha Lutz, quando falou sobre a filosofia do momento feminista (Diário de Pernambuco, 23 de junho de 1931, quinta coluna; Diário de Notícias, 1º de julho de 1931, primeira coluna).

Foi publicada uma entrevista com Edwiges (Jornal do Brasil, 1º de julho de 1931, terceira coluna).

Foi convidada pela escritora e feminista Martha de Holanda (1903-1950) para ser a presidente de honra da Cruzada Feminista Brasileira, fundada e presidida por Martha, mas não aceitou o cargo. Sobre Martha de Hollanda, Luciene de Freitas, autora de sua biografia “Uma guerreira no tempo – Um resgate de uma época, Martha de Hollanda e Delírio do Nada” (2003), escreveu:

“Ela era uma pessoa à frente do seu tempo. Contestava o ensino, contestava as roupas, usava vestidos sem manga e curtos, sem meia, fumava, bebia, tinha amizades com homens e fazia saraus com intelectuais. Eram coisas que chocavam naquela época. Tanto que essa liberdade rendeu um falatório sobre ela na cidade”

 

 

Em 10 de novembro, no Clube Internacional do Recife, Odila Porto da Silveira, representante da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, deu posse à primeira diretoria da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino. Edwiges foi a primeira presidente desta associação, cargo que exerceu até 1935. Personalidades da sociedade pernambucana, assim como autoridades estaduais e federais, representantes da imprensa e de diversas corporações prestigiaram o evento (Jornal Pequeno, 10 de novembro de 1931, primeira colunaJornal do Recife, 11 de novembro de 1931, primeira coluna). Neste primeiro biênio da associação, a vice-presidente era a professora Noemia Ferreira Xavier, e a segunda vice-presidente era a também professora e irmã de Edwiges, Anna Sá Pereira da Silva Almeida. A secretária-geral era Maria de Lourdes Souza Leão, a tesoureira, Santina Monteiro; e a consultora jurídica era Ida Souto Uchôa (Jornal Pequeno, 7 de agosto de 1931, quinta coluna).

 

 

A ideia de criação da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino surgiu em reuniões de um grupo de pernambucanas que defendia a maior inclusão feminina na sociedade. Várias destas reuniões aconteceram na casa de Edwiges (Jornal do Recife, 20 de junho de 1931, primeira coluna). A Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino apoiava fortemente os princípios católicos. Ao longo de sua existência, até fins da década de 1930, a associação, devido à forte influência de Edwiges, teve como prioridade a questão da educação da mulher. Investiu na criação da Escola de Oportunidades cuja principal meta era disponibilizar cursos como correspondência, datilografia e línguas às jovens de todas as classes sociais do Estado.

A coluna “Palestras Femininas”, do Diário de Notícias, homenageou Edwiges com a publicação do poema Dúvida, da escritora pernambucana (Diário de Notícias, 5 de julho de 1931, primeira coluna).

1932 – Sua tese Pela Mulher, para a Mulher foi publicada como de livro.

Ainda era a vice-presidente da Academia Pernambucana de Letras (Fon-Fon, 5 de março de 1932, primeira coluna).

Foi eleita segunda secretária da diretoria da Academia Pernambucana de Letras (Diário de Pernambuco, 1º de abril de 1932, última coluna).

No Clube Internacional, a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino promoveu um evento para comemorar o Dia das Mães. Pela primeira vez a efeméride foi comemorada no Brasil de acordo com um decreto assinado pelo presidente Getúlio Vargas (1882-1954) (Jornal Pequeno, 9 de maio de 1932, quarta coluna).

 

 

A oficialização do Dia das Mães no Brasil foi uma conquista da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino que durante o II Congresso Internacional Feminista, realizado em junho de 1931, no Rio de Janeiro, designou uma comissão que fez a solicitação ao presidente Vargas. Ele assinou o Decreto 21.366, em 5 de maio de 1932, estabelecendo o segundo domingo de maio como a data comemorativa dedicada às mães.

 

 

1933 - Publicação do artigo Pela mulher, de sua autoria (Diário de Notícias, 20 de fevereiro de 1933, penúltima coluna).

Foi eleita vice-presidente da Academia Pernambucana de Letras (Jornal do Recife, 22 de fevereiro de 1933, quarta coluna).

A Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, sob a presidência de Edwiges, enviou a artista plástica e feminista Georgina Barbosa Vianna como representante da associação na Convenção Eleitoral Feminina, no Rio de Janeiro, com propostas de inclusão no texto constitucional de obras contra as secas, recusa ao serviço militar obrigatório para mulheres e apoio ao ideário católico (Diário de Pernambuco, 30 de março de 1933, primeira coluna).

Edwiges e Martha de Hollanda conseguiram o direito de votar e também de serem votadas. Em uma enquete promovida pelo Diário de Pernambuco, Edwiges foi apontada como uma excelente candidata pela pintora e feminista Emília Barbosa Viana Marchesini, por Edna Leite Gueiros, redatora da “Página Feminina” do Jornal do Commercio; por representantes da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, e por Ana Campos, catedrática da Escola Normal. Em, 30 de abril, a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino fez uma publicação indicando Edwiges ao eleitorado (Diário de Pernambuco26 de janeiro de 1933, quarta coluna27 de janeiro de 1933, penúltima coluna;  29 de janeiro de 1933, penúltima coluna1º de fevereiro de 1933, penúltima coluna; 30 de abril de 1933, quarta coluna30 de abril de 1933, terceira coluna30 de abril de 1933, última coluna).

 

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Foi publicada uma entrevista com Edwiges e quanto à questão do divórcio, no Diário de Pernambuco, de 30 de março de 1933, ela afirmou:

“Somos católicos e não compreendemos as reivindicações femininas fora desses princípios. Somos pela indissolubilidade do matrimônio como condição máxima de garantia de família, da estabilidade do lar, da moral social, enfim. Mas, não basta impedir que o divórcio se instale em nossa lei magna; é o no código civil, quando se regular a sociedade conjugal que todo o cuidado se impõe. Combater o divórcio e deixar subsistindo na legislação civil e nos costumes as causas principais que o provocam é obra incompleta. Combatamos o mal do organismo social, ele está muito na indiferença com que consideramos e que de grosseiro temos herdado ou contagiado de raças diversas, vinculadas a nossa e má importação de práticas dissolventes de civilizações requintadamente epicuristas. Na época atual o espírito de sacrifício, o apelo a passividade e a resignação, afiguram-se de natureza e resultados muito precários”.

Martha, sem partido, e Edwiges, pelo Partido Economista de Pernambuco, foram candidatas a deputadas constituintes por Pernambuco, em 3 de maio, mas não se elegeram.

 

 

Publicação de seu poema Pernambuco (Brasil Feminino, maio de 1933).

Devido à reforma do Ensino Normal em Pernambuco, ela e mais três professoras catedráticas da Escola Normal foram postas em disponibilidade (A Província (PE), 16 de maio de 1933, quinta coluna).

Foi reeleita presidente da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino para o biênio de 1933 a 1935 (Jornal Pequeno, 1º de agosto de 1933, primeira coluna).

1934 – Na reunião semanal da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, foi uma das escolhidas para o serviço direto junto à Constituinte (O Paiz, 22 de março de 1934, quinta coluna; O Paiz, 2 de maio de 1934, quinta coluna).

Publicação de uma entrevista com Edwiges sobre os rumos do feminismo no Brasil e das propostas à Constituição (Jornal do Recife, 22 de junho de 1934, primeira coluna).

Na Rádio Clube Recife, a Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino promoveu uma hora de arte para comemorar as vitórias alcançadas pela mulher na nova Constituição do país. O evento foi aberto por Edwiges (Jornal do Recife, 22 de julho de 1934, primeira coluna).

Foi admitida na Associação de Imprensa de Pernambuco como sócia colaboradora (Diário de Pernambuco, 15 de setembro de 1934, segunda coluna)

Falecimento de seu irmão, o desembargador Virgílio de Sá Pereira (Jornal Pequeno, 22 de setembro de 1934, terceira coluna).

Publicação de seu artigo intitulado Natal (Jornal Pequeno, 24 de dezembro de 1934, penúltima coluna).

Integrou o júri do Concurso Feminino promovido pelo Diário de Pernambuco. Os trabalhos foram divididos nas categorias puramente literários e de interesse educativo e social (Diário de Pernambuco, 27 de dezembro de 1934, terceira coluna).

1935 – Foi sucedida por Emília Barbosa Viana Marchesini na presidência da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino, tornando-se sua presidente honorária.

Publicação do artigo A Arte de Conversar, de sua autoria (Jornal do Recife, 3 de fevereiro de 1935).

Publicação do artigo Dia das Mães, de sua autoria (Jornal Pequeno, 11 de maio de 1935, segunda coluna).

Proferiu a palestra de abertura da Semana do Livro (Diário de Pernambuco, 12 de novembro de 1935, penúltima coluna).

1936 – Era a segunda vice-presidente da Academia Pernambucana de Letras (Jornal do Brasil, 30 de junho de 1936, quarta coluna).

Discursou durante a visita da escritora Carolina Nabuco (1890-1981) à Academia Pernambucana de Letras (Jornal Pequeno, 6 de novembro de 1936, quarta coluna).

1937 – Recebeu 39 votos no plebiscito promovido pela revista O Malho para saber quem seriam as mulheres que mereceriam ingressar na Academia Brasileira de Letras. As cinco primeiras colocadas foram Maria Eugênia Celso (1886-1963), Gilka Machado (1893-1980), Alba Canizares (1893-1944), Anna Amélia Carneiro de Mendonça (1896-1971) e Henriqueta Lisboa (1901-1985) (O Malho, 14 de janeiro de 1937, quarta coluna).

Foi eleita para integrar a comissão da Revista da Academia Pernambucana de Letras (Jornal do Brasil, 28 de março de 1937, última coluna).

Foi uma das eleitoras do concurso Príncipe dos Poetas Brasileiros promovido pela revista Fon-Fon (Fon-Fon, 24 de abril de 1937, segunda coluna).

Ela e outras integrantes da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino estiveram presentes à inauguração da Escola de Enfermagem de Olinda, fundada sob os auspícios da associação (Diário de Pernambuco, 17 de agosto de 1937, penúltima coluna).

Foi uma das palestrantes da 7ª Semana Anti-Alcoólica (Jornal do Recife, 30 de outubro de 1937, última coluna).

Em 22 de dezembro, foi instalado o Estado Novo que, de acordo com o Decreto-lei n. 37, de 02 de dezembro de 1937, assinado pelo então presidente Getúlio Vargas (1882-1954), proibia a existência de partidos políticos e organizações civis.

1938 – Esteve presente à cerimônia da entrega solene da Escola de Enfermagem de Olinda à prefeitura da cidade (Diário de Pernambuco, de 1938, segunda coluna).

1940 – Foi a autora da letra do Hino Escolar João Barbalho, musicado pela também professora Maria do Carmo Santos Barbosa (Diário da Manhã, 24 de outubro de 1940, quinta coluna).

1945 – Publicou o livro Um passado que não morre, uma homenagem póstuma ao historiador João Baptista Regueira Costa (Diário de Pernambuco, 5 de outubro de 1952, terceira coluna).

Proferiu, na Academia Pernambucana de Letras a conferência A influência da mulher na educação pacifista do após-guerra. Na introdução deste trabalho escreveu sobre sua motivação para escrevê-lo: como “única mulher membro deste sodalício, competia-me, por vários motivos, a explanação do assunto, que em mim se integra por uma longa fase de cátedra e de suas afinidades sociais” .

1946 - Foi uma das colaboradoras da primeira edição da revista Capibaribe, dirigida por Jorge Medeiros de Souza (Jornal Pequeno, 13 de junho de 1946, terceira coluna).

Tomou posse como uma das integrantes do Conselho Consultivo da filial pernambucana da Liga Internacional Mulheres, fundada no Recife (Diário de Pernambuco, 22 de agosto de 1946, segunda coluna; Jornal do Brasil, 1° de setembro de 1946, primeira coluna).

Foi publicada na edição de dezembro da Revista da Academia Brasileira de Letras a conferência A influência da mulher na educação pacifista do após-guerra. O texto integrou uma série de 28 conferências organizada pela Academia Pernambucana de Letras (Revista Brasileira, dezembro de 1946).

1947 – Foi recebida na Federação das Academias de Letras no Brasil, no Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 1° de outubro de 1947, segunda coluna).

1948 – Fez uma visita de despedida à Federação das Academias de Letras no Brasil (Jornal do Brasil, 3 de fevereiro de 1948, terceira coluna).

Falecimento de seu irmão, Eurico de Sá Pereira (Jornal Pequeno, 31 de maio de 1948, penúltima coluna).

Seu apoio ao envio de uma mensagem de solidariedade da Academia Pernambucana de Letras ao Salão de Poesia escandalizou o acadêmico Mário Melo (1884-1959), que combatia a poesia moderna (Jornal Pequeno, 13 de outubro de 1948, primeira coluna).

1951 - Participou de um almoço, no restaurante Torre de Londres, em homenagem à escritora Maria das Graças dos Santos Leite pela publicação do livro Alma em vigília (Jornal Pequeno, 24 de agosto de 1951, quarta coluna).

1952 - Falecimento de sua irmã, Fredovinda, funcionária aposentada do Tribunal de Justiça (Diário de Pernambuco, 23 de abril de 1952, primeira coluna).

Colaborou na terceira edição da Revista Pernambucana, dirigida por Getúlio Amaral e Olympio Fernandes (Jornal Pequeno, 13 de dezembro de 1952, terceira coluna).

1953 – Escreveu um artigo sobre a poetisa baiana Ilka Sanchez (1922-?) (Diário de Pernambuco, 1º de novembro de 1953, sexta coluna).

Escreveu o artigo Austro Costa (Diário de Pernambuco, 15 de novembro de 1953, quinta coluna).

1954 - Escreveu o artigo “Rosa de Pedra”: poesias de Zila Mamede (Diário de Pernambuco, 28 de fevereiro de 1954, sexta coluna).

Escreveu o artigo Imagens e Sombras sobre o novo livro do poeta Costa Rego Junior (Diário de Pernambuco, 4 de abril de 1954, última coluna).

Publicação do artigo Poesia, de sua autoria (Diário de Pernambuco, 13 de junho de 1954, quinta coluna).

Na colunaVida religiosa”, publicação do artigo Obra Social de Grande Vulto, de sua autoria, sobre o Centro Social Nossa Senhora da Soledade (Diário de Pernambuco, 18 de setembro de 1954, sexta coluna).

1955 – Publicação de seu poema Saudade, dedicado à poetisa Maria das Graças Santos Leite (Diário de Pernambuco, 8 de julho de 1955, quarta coluna).

1956 - Publicação do artigo Cartas, de sua autoria (Diário de Pernambuco, 21 e 22 de abril de 1956, última coluna).

Publicação do artigo Poesias de Pierre Luz, de sua autoria (Diário de Pernambuco, 23 de setembro de 1956, sexta coluna)

1958 - Faleceu, em 14 de agosto, em sua casa, no bairro do Espinheiro, no Recife, vítima de uma trombose cerebral (Diário de Pernambuco, 15 de agosto de 1958, penúltima coluna). Nunca se casou nem teve filhos, mas sua sobrinha Hebe de Sá Pereira, em um depoimento de 2010, revelou que Edwiges se arrependia de não ter sido mãe solteira (Revista Brasileira, abril maio, junho de 2020, página 69) .

 

 

 

 

Foi homenageada na Academia Pernambucana de Letras e a professora, educadora e escritora Dulce Chacon (1906-1982) pronunciou um discurso intitulado Edwiges de Sá Pereira – Escritora, acadêmica e professora, no qual dissertou sobre o respeito e carinho que a homenageada tinha para com os membros da referida agremiação, e em seguida, traçou um perfil de sua vida e obra. No ano seguinte, o discurso foi reunido em plaquette (Diário de Pernambuco, 28 de setembro de 1958, primeira coluna; Diário de Pernambuco, 18 de janeiro de 1959, quarta coluna).

 

 

1960 – Publicação, por iniciativa de sua sobrinha Hebe de Sá Pereira, de seu livro Horas inúteis, uma reunião de poemas escritos por ela, com prefácio do escritor e imortal da Academia Pernambucana de Letras, Jordão Emerenciano (1919-1972). O livro é composto por 53 poemas, alguns inéditos e outros que já haviam sido publicados em periódicos. No prefácio desta publicação póstuma, o professor Jordão Emereciano, fez breves considerações sobre a personalidade da autora, da sua importância para a história da Academia Pernambucana de Letras e sobre o valor desta publicação para o campo literário do estado. Para ele, este livro, era “um pouco a síntese de tudo isto porque os seus sonetos e poemas contêm os reflexos de sua atividade variada e diversificada e a motivação de toda uma vida que teve também os seus dias de luta e de sonho, de ideal e de poesia” (Revista Ágora, Vitória, n.13, 2011, p. 1-16 ).

A seguir, um trecho do prefácio:

 

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Publicação de seu poema Capitólio, onde se evidenciava sua formação parnasiana.

“Hás de viver eternamente, ó verso, / Nos velhos moldes: no esplendor que anima / A luz no movimento do Universo! / O amor na lei da Natureza oprima! // Quando não mais surgisse um som disperso / Do hemisfério, da métrica e da rima, / Sobram-te louros de um parnaso terso: / Nunca a seara dos Gênios se dizima! // Não medra o esforço do que finge odiar-te. / Qual haverá que um dardo acerte dentre / Os que desdenham teu prestigio de arte? // Qual haverá que um poema legue, ovante, / Ao mundo, e o mundo o leia e se concentre / Como se lê Camões, Homero, Dante?!”

Dulce Chacon foi eleita para ocupar a vaga de Edwiges na Academia Pernambucana de Letras (Diário de Pernambuco, 26 de novembro de 1959, terceira coluna).

1979 - Em seu livro de memórias, intitulado Medo de Criança (1979), Dulce Chacon revelou: “Tenho estado a pensar nos belos livros que Edwiges de Sá Pereira deixou reunidos, já datilografados, prontos para a impressão. Nos derradeiros anos, ver os seus três livros em letra de forma constituiu para ela o maior desejo” (Chacon, 1979:265). Os livros que a autora se refere, são: Eva MilitanteJóia de Turco Horas Inúteis. Sobre Eva militante, Dulce comentou que Edwiges havia feito uma análise de alguns aspectos dos problemas enfrentados pela mulher brasileira “no lar ou nas atividades externas, nas profissões liberais, ou na burocracia, aviadora, magistrada, prefeita, deputada, escrivã, professora”. Ainda segundo Chacon, no livro Jóia de Turco, Edwiges havia reunido algumas de suas crônicas sobre acontecimentos nacionais e internacionais, já publicadas em jornais, “inspiradas no noticiário e nos telegramas, nas conversas de rua e na leitura de livros, tirando-os da sombra ou de um recanto do passado para dar-lhe vida, movimento, graça, sentido poético e conteúdo humano”.

 

**Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

AMARAL, Walter Valdevino do. Edwiges de Sá Pereira: Uma voz pernambucana no Segundo Congresso Internacional Feminista (Rio de Janeiro, 1931), 2017.

AMARAL, Walter Valdevino do. “Um passado que não morre”: traços biográficos de Edwiges de Sá Pereira. Revista Ágora, Vitória, n.13, 2011, p. 1-16.

AMARAL, Walter Valdevino do; RIBEIRO, Emanuela Souza. Edwiges de Sá Pereira: um breve olhar sobre a poesia feminina pernambucana, 2009.

BARBOSA, Izabelle Lúcia de Oliveira. Os movimentos feministas pernambucanos e o debate em torno do divórcio (1926-1937). XVIII Simpósio Nacional de História. Florianópolis, Santa Catarina, 2015.

BNDigital

CAMPOS, Andrea Almeida Campos. Edwiges de Sá Pereira: Uma feminista vitoriana na primeira metade do século XX in Revista Brasileira, abril, maio, junho de 2020, página 59.

CAMPOS, Zuleica Dantas Pereira. Edwiges de Sá Pereira: um discurso para e pela mulher. In: I COLÓQUIO INTERNACIONAL DE HISTÓRIA. GT12: Gênero, Sociabilidades e Sensibilidades. Universidade Federal de Campina Grande (UFCG), 1º, 2008. Anais […]. Campina Grande – PB, 2008.

COSTRUBAL, Deivid Aparecido. Para além do sufragismo: A contribuição de Júlia Lopes de Almeida à história do feminismo no Brasil (1892-1934). Tese apresentada à Faculdade de Ciências e Letras de Assis – UNESP – Universidade Estadual Paulista para a obtenção do título de Doutor em História (Área de conhecimento: História e Sociedade), 2017.

FAGUNDES, Emelly Sueny Fekete. Uma das faces do feminismo em Pernambuco: Transgressões e permanências na trajetória da Federação Pernambucana pelo Progresso Feminino (1931-1937).  2018. 181 f. Dissertação (Programa de Pós-Graduação em História) – Universidade Federal Rural de Pernambuco, Recife.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

NASCIMENTO, Alcileide Cabral do. O bonde do desejo: o Movimento Feminista no Recife e o debate em torno do sexismo (1927-1931). Rev. Estud. Fem. 21 (1) • Abr 2013.

PEDROSA, Cida. A Eva militante e todas as horas úteis para a mulher e pela mulher. Revista Hexágono, 2020.

SCHUMAHER, Shuma; BRAZIL, Érico Vital (Org.). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade. Rio de Janeiro: Zahar, 2000.

SILVA, Martia Angélica Pedrosa de Lima. Entre engajamentos e manifestos: a inserção de Edwiges de Sá Pereira nos espaços públicos do Recife (1920-1935). Seminário Internacional Fazendo Gênero, Florianópolis, Santa Catarina, 2017.

Site Academia Pernambucana de Letras

Site Tribunal Eleitoral de Pernambuco

VAINSSENCHER, Semira Adler. Edwiges de Sá Pereira.

Série “Feministas, graças a Deus!” XIX – A aviadora Anésia Pinheiro Machado (1904-1999)

Com fotos de uma das pioneiras da aviação brasileira, a feminista Anésia Pinheiro Machado (1904-1999), a Brasiliana Fotográfica publica o 19º artigo da série Feministas, graças a Deus e comemora o Dia do Aviador, estabelecido pela Lei n° 218, de 4 de julho de 1936, e celebrado hoje em homenagem à data em que, em 1906, Alberto Santos Dumont (1873 – 1932), conhecido como o “Pai da Aviação”, realizou o primeiro voo do 14-Bis no Campo de Bagatelle, na França. Anésia recebeu seu brevê, a permissão para pilotar aeronaves, em 9 de abril de 1922, com apenas 18 anos. As duas imagens da aviadora destacadas do acervo do portal pertencem ao Museu Aeroespacial, uma de nossas instituições parceiras. Uma delas é do dia 8 de setembro de 1922 e, a outra, de 4 de junho de 1940.

 

 

“O meu desejo de voar talvez seja fruto do meu anseio, sempre cada vez mais intenso, de me elevar, de sair da banalidade do viver comum. E o incontido ímpeto de minha alma, que me impulsiona e me leva a procurar as emoções mais fortes do voo. A vida corriqueira não me satisfaz; ando sempre em busca de alguma coisa nova. E essa faceta de minha personalidade que dirão inconstante, que fez com que eu me dedicasse à aviação”.

Anésia Pinheiro Machado nasceu em 5 de junho de 1904, em Itapetininga, em São Paulo. Cursou a faculdade de Farmácia e trabalhou no Diário de Itapetininga. Foi durante a Festa do Divino, na Catedral de Nossa Senhora dos Prazeres, em 1920, em sua cidade natal, que Anésia viu um avião pela primeira vez e se apaixonou pela aviação. Mudou-se para São Paulo, aos 17 anos, e iniciou o curso de pilotagem, tendo como instrutor o piloto alemão Fritz Roesler. Ela e Thereza de Marzo (1903-1986) realizaram seus voos solos no mesmo dia, 17 de março de 1922.

Mas Teresa recebeu o brevê número 76, em 8 de abril, e Anésia, no dia seguinte, recebeu o brevê 77 da Federação Aeronáutica Internacional. Foram examinadas por Luiz Ferreira Guimarães e Delamare Garcia, da comissão do Aero Club Brasileiro  (O Paiz, 11 de abril de 1922, quinta coluna).

 

 

 

Em 23 de abril de 1922, tornou-se a primeira mulher a realizar um voo com passageiro. Foi também a primeira brasileira a realizar um voo acrobático. E, em 18 de maio de 1922, pilotando um Caudron G3, conquistou o recorde feminino de voo em altitude até então,  alcançando 94.124 metros.

 

Em 10 de junho, voou de São Paulo a Santos na companhia de seu mecânico e de Paulo Duarte, redator de O Estado de São Paulo (O Paiz, 11 de junho de 1922, quarta coluna).

Em 8 de julho, participou, no prado da Mooca, em São Paulo, da homenagem promovida pelo Aero Club aos aviadores portugueses Gago Coutinho (1869-1959) e Sacadura Cabral (1881-1924), que haviam feito a primeira travessia aérea do Atlântico Sul entre 30 de março e 17 de junho de 1922. Anésia ficou em terceiro lugar, depois de Edu Chaves (1887-1975) e Steckmann (?-?), na prova de velocidade realizada durante o evento (O Paiz, 9 de julho de 1922, quarta coluna).

Na ocasião da comemoração do Centenário da Independência, no avião monomotor Caudron G3, Anésia iniciou o voo no qual cruzou 442 quilômetros que separam São Paulo e o Rio de Janeiro. Partiu do Campo de Higianópolis, em 5 de setembro, tendo pousado em Taubaté, Guaratinguetá, Cruzeiro e Pinheiro. Seu destino final foi o Campo dos Afonsos, onde chegou no dia 8 de setembro (O Paiz, 1° de janeiro de 1922, sexta colunaO Paiz, 26 de abril de 1922, penúltima coluna; O Paiz, 29 de agosto de 1922, quarta coluna; O Paiz, 5 de setembro de 1922, quinta coluna; O Paiz, 6 de setembro de 1922, segunda coluna; O Paiz, 7 de setembro de 1922, segunda coluna; O Paiz, 8 e 9 de setembro de 1922, quinta coluna).

 

 

 

Foi a primeira mulher a realizar a façanha, que teve muita visibilidade, e usou o fato para divulgar o movimento feminista. Recebeu um bilhete de Santos Dumont parabenizando-a por seu voo. Junto com o bilhete, ele enviou uma réplica da medalha de São Bento que havia recebido da Princesa Isabel (1846 -1921) e que Anésia levou consigo por toda a sua vida.

 

No artigo A relíquia, o autor reclamou da ausência de uma homenagem às mulheres durante a comemoração do centenário da independência e propôs que o avião em que Anésia havia realizado o voo entre São Paulo e Rio fosse adquirido e elevado à condição de relíquia (O Paiz, 13 de setembro de 1922´, quarta coluna).

Foi homenageada no Theatro São Pedro, na apresentação da peça Amor à terra, de Octavio Rangel (O Paiz, 19 de setembro de 1922, penúltima coluna).

Em 27 de setembro, visitou a Escola de Aviação Naval, na Ilha das Enxadas. No dia seguinte, o Conselho Municipal aprovou uma premiação em dinheiro para ela (O Paiz, 28 de setembro de 1922, quarta colunaO Paiz, 29 de setembro de 1922, penúltima coluna).

Ainda no mesmo ano, como delegada da Liga Paulista pelo Progresso Feminino participou do I Congresso Feminista Internacional, organizado pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e realizado, entre 19 e 23 de dezembro, no edifício Silogeu, do Instituto dos Advogados, no centro do Rio de Janeiro, e em Petrópolis.

 

 

Participou da Revolução de 1924, motivada pelo descontentamento dos militares com a crise econômica e a concentração de poder nas mãos de políticos de Minas Gerais e de São Paulo. Os rebeldes, sob a liderança do general Isidoro Dias Lopes (1865 – 1949), pretendiam derrubar o governo de Artur Bernardes (1875 – 1955), instituir o voto secreto, fazer mudanças no ensino público e realizar reformas sociais. A rebelião eclodiu, em 5 de julho de 1924, e durou 23 dias. Os rebeldes foram derrotados pelas tropas legalistas do governo federal. Uma das missões de Anésia foi sobrevoar as tropas legalistas e o encouraçado Minas Gerais, jogando flores e panfletos nos quais estava escrito “E se fosse uma bomba?”. Por isso foi proibida de voar até 1939, quando retomou suas atividades. Neste ínterim voltou ao jornalismo e manteve uma coluna sobre aviação no jornal O Paiz. Também trabalhou como jornalista no Departamento de Imprensa e Propaganda e na Assembleia Legislativa (Correio Paulistano, 12 de setembro de 1924, sexta coluna; Correio Paulistano, 1º de janeiro de 1925, penúltima coluna).

Foi publicada uma entrevista com ela na revista Paratodos, de março de 1926.

Em 1940, recebeu do Departamento de Aviação Civil a licença de piloto privado e comercial, em julho e em agosto, respectivamente. No mesmo ano, participou do Campeonato da Semana da Asa e ficou na quinta colocação na prova Cruzeiro do Sul e, na de acrobacia aérea, a quarta coloção.

Ainda nos primeiros anos da década de 40 foi habilitada como instrutora de voo e piloto de voo por instrumentos.

 

 

Sua perícia na execução de acrobacias aéreas, no campo de Manguinhos, onde havia um curso de pilotagem mantido pelo Aero Club Brasileiro, impressionou Mrs. Ulysses Grant McQueen, presidente da Women´s International Association of Aeronautics dos Estados Unidos, durante sua viagem ao Rio de Janeiro. Na ocasião, Anésia manifestou sua insatisfação em relação à diferença das oportunidades dadas aos aviadores homens, sempre muito mais estimulados do que as aviadoras (A Noite, 15 de maio de 1940).

 

 

No livro Frontier by air (1942), a escritora e jornalista Alice Roger Hager (1894-1969) deixou registrado que “Anésia é a melhor piloto do país, não havia dúvidas sobre sua habilidade. Quando fomos ao Aeroclube ela pegou um pequeno Bucher e superou qualquer piloto acrobático que eu já vi”.

Durante a Segunda Guerra Mundial, em 1943, foi convidada pela Federal Aviation Administration para realizar um curso avançado de aviação nos Estados Unidos.

 

 

Entre 1944 e 1948, trabalhou como  piloto e instrutora de voo na Panair do Brasil, e no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, da Força Aérea Brasileira.

 

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Anésia, em 1948, com Donald Dionne, instrutor chefe da Pan American Airways / Instituto Smithsonion , EUA

 

Em 1951,  voou de Nova York para o Rio de Janeiro tornando-se a primeira mulher a pilotar um voo transcontinental, quando percorreu mais de 17 mil quilômetros entre Nova York e Rio de Janeiro em um avião Kian-Navion Super 260. No mesmo ano, atravessou a Cordilheira dos Andes voando de Santiago do Chile a Mendoza, na Argentina.

Em 1954, durante a Conferência de Istambul, foi reconhecida pela Federação Aeronáutica Internacional (FAI), como Decana Mundial da Aviação Feminina, por ser a detentora do brevê mais antigo do mundo ainda em atividade de voo. Na ocasião recebeu o diploma Paul Tissandier.

No ano em que foi celebrado os 50 anos do primeiro voo de avião de Santos Dumont, 1956, Anésia começou uma campanha de difusão do nome do aviador pelo mundo. Conseguiu que uma réplica do avião 14-Bis e do dirigível de Santos Dumont fossem doados ao Museu de Aviação Smithsonion, em Washington. Também lutou para que o nome de Santos Dumont fosse dado a uma das crateras da Lua, nomeada pela União Astronômica Internacional (IAU) em 20 de julho de 1973, data do centenário de nascimento do aviador. A cratera Santos Dumont está localizada nas imediações do lugar onde pousou a nave espacial Apollo 15, em 1971, que executou a primeira missão de caráter eminentemente científico e a primeira que utilizou o jipe lunar. A decisão foi aprovada durante a a 15ª Assembleia Geral da União Aeronáutica Internacional, realizada na Austrália, em agosto de 1973 (O Estado de Mato Grosso, 12 de agosto de 1973).

Ao longo de sua vida, foi condecorada com 19 medalhas nacionais e sete internacionais, dentre elas a Edward Warner, a mais alta distinção da Organização da Aviação Civil Internacional, que recebeu em 1989 por seu pioneirismo e por sua participação no desenvolvimento da aviação civil na América Latina. Era uma das integrantes do Ninety-Nines: Organização Internacional de Mulheres Pilotos, também conhecida como The 99s ou As 99, uma organização internacional voltada para pilotos do sexo feminino. Foi fundada em 1929 por um grupo de mulheres aviadoras sob a liderança de Amelia Earhart (1897-1937), pioneira da aviação dos Estados Unidos.

Anésia faleceu no Rio de Janeiro, em 10 de junho de 1999, no Hospital do Galeão (Jornal do Brasil, 11 de junho de 1999). Seu corpo foi cremado e suas cinzas estão em uma urna que faz parte do acervo do Museu de Cambangu em Santos Dumont, cidade de Minas Gerais.

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Mulheres na aviação – Embraer

Portal G1

SCHUMAHER, Schuma; BRAZIL, Erico Vital (organizadores). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., 2000.

Site Marcos Palhares

Site Ministério da Defesa Força Aérea Brasileira

Site Museu Aeroespacial

Site Organização da Aviação Civil Internacional

Os 180 anos de nascimento do fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923)

No dia do aniversário de 180 anos de Marc Ferrez (1843 – 1923), a Brasiliana Fotográfica destaca os 27 artigos já publicados no portal em torno da obra do fotógrafo. Ferrez teve uma trajetória singular na história da fotografia no Brasil, tendo se estabelecido, inicialmente, em 1867, na Rua São José, nº 96, no Rio de Janeiro, tornando-se logo o mais importante profissional da área na cidade. Foi no Rio de Janeiro e em seus arredores que ele realizou cerca da metade de sua produção fotográfica, registrando, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais.

 

Foi o único fotógrafo do século XIX que percorreu todas as regiões do Brasil, tendo sido, no referido século, o principal responsável pela divulgação da imagem do país no exterior. Nos anos 1870, integrou a Comissão Geológica do Império e tornou-se Fotógrafo da Marinha Imperial. Participou e foi premiado em diversas exposições nacionais e internacionais.

 

Carimbo de Marc Ferrez, c. 1875. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS.

Carimbo de Marc Ferrez, c. 1875. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS.

 

Acessando o link para as fotografias de Marc Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Marc Ferrez nasceu no Rio de Janeiro, em 7 de dezembro de 1843, cerca de quatro após o anúncio da invenção do daguerreótipo por François Arago (1786 – 1853), secretário da Academia de Ciências da França, em 19 de agosto de 1839. O daguerreótipo, processo fotográfico desenvolvido por Joseph Nicèphore Niépce (1765-1833) e Louis Jacques Mandé Daguerre (1787-1851), revolucionou em pouco tempo e para sempre a forma do registro do mundo e de seus habitantes, inundando nosso planeta de imagens fotográficas. A invenção chegou ao Brasil em 1840 e dom Pedro II (1825 – 1891) foi um grande entusiasta da fotografia.

 

Câmara de daguerreótipo Succe Frères, de 1939 / Westlicht Photography Museum, em Viena, na Áustria

 

Voltando a Marc Ferrez. Ele era filho de Zépherin (Zeferino) Ferrez (1797 – 1851) e Alexandrine Caroline Chevalier (18? – 1851). Seu pai, um escultor e gravador francês, havia chegado com o irmão Marc (Marcos), no Rio de Janeiro, em 1817. Os dois passaram a integrar a Missão Francesa, que havia se instalado na cidade no ano anterior. Após passar alguns anos em Paris, Marc Ferrez retornou ao Rio de Janeiro em torno de 1863. Casou-se com a francesa Marie Lefebvre (c. 1849 – 1914) em 16 de agosto de 1873. Tiveram dois filhos: Julio Marc (1881 – 1946) e Luciano José André (1884 – 1955).

 

 

Sua trajetória profissional foi marcada por uma forte ligação com atividades culturais e científicas e também por um contato permanente com os principais desenvolvimentos tecnológicos de sua época. Produziu magistrais fotografias de arquitetura durante a construção da Avenida Central, no Rio de Janeiro.

 

 

Também participou da introdução do cinema e da fotografia estereoscópica em cores no Brasil, no início do século XX. Em 1905, obteve a representação da firma francesa Pathé Frères no Brasil. A firma era a maior e melhor fábrica de aparelhos e filmes cinematográficos da Europa. Faleceu em 12 de janeiro de 1923, no Rio de Janeiro.

 

“Há nas suas paisagens…uma nota artística sempre: a escolha do ponto de vista denotava no fotógrafo a existência daquela divina centelha de arte que dá o toque de poesia às frias imagens que a objetiva mecanicamente registra”.

Para Todos, 20 de janeiro de 1923

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de autoria de Sérgio Burgi, um dos curadores da Brasiliana Fotográfica, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica,  publicada em 29 de junho de 2018

Série “O Rio de Janeiro desaparecido” V – O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 

Os 180 anos da invenção do daguerreótipo – Os álbuns da Comissão Geológica do Império com fotografias de Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 19 de agosto de 2019

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 4 de dezembro de 2019

Uma homenagem da Casa Granado ao imperial sob as lentes de Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado 6 de março de 2020

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 16 de março de 2020

Bambus, por Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 5 de junho de 2020

O Baile da Ilha Fiscal: registro raro realizado por Marc Ferrez e retrato de Aurélio de Figueiredo diante de sua obra, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 9 de novembro de 2020

O Palácio de Cristal fotografado por Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 2 de fevereiro de 2021

A Estrada de Ferro do Paraná, de Paranaguá a Curitiba, pelos fotógrafos Arthur Wischral (1894 – 1982) e Marc Ferrez (1843 – 1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 22 de março de 2021

Dia dos Pais – Julio e Luciano, os filhos do fotógrafo Marc Ferrez, e outras famílias, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 6 de agosto de 2021

No Dia da Árvore, mangueiras fotografadas por Ferrez e Leuzinger, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 21 de setembro de 2021

Retratos de Pauline Caroline Lefebvre, sogra do fotógrafo Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 28 de abril de 2022

A Serra dos Órgãos: uma foto aérea e imagens realizadas pelos mestres Ferrez, Leuzinger e Klumb, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 30 de junho de 2022

O centenário da morte do fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 12 de janeiro de 2023

O Observatório Nacional pelas lentes de Marc Ferrez, amigo de vários cientistas, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 29 de maio de 2023

No Dia Mundial do Meio Ambiente, a potente imagem da Cachoeira de Paulo Afonso, por Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 5 de junho de 2023

A Fonte Adriano Ramos Pinto por Guilherme Santos e Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 18 de julho de 2023

 

Acesse aqui a Acervo, Revista do Arquivo Nacional, com o tema Marc Ferrez: a fotografia como experiência, volume 36, nº2 maio/agosto 2023, que traz artigos de algumas parceiras – Maria do Carmo Rainho (Arquivo Nacional) e Maria Isabel Lenzi (Museu Histórico Nacional –  e também de algumas colaboradoras – Ana Maria Mauad e Maria Isabela Mendonça dos Santos – da Brasiliana Fotográfica.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

O fotógrafo Paul Erbe

A arquivista Daniella Gomes dos Santos e a doutora em História Maria Isabel Lenzi, ambas do Museu Histórico Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, nos contam sobre o trabalho de pesquisa que realizaram em busca de informações sobre um fotógrafo chamado Paul Erbe, que atuou no Rio de Janeiro nas primeiras décadas do século XX. O Museu Histórico Nacional possui dois álbuns fotográficos de Erbe, além de três retratos realizados por ele na década de 20. Um dos álbuns, com 11 paisagens do Rio de Janeiro produzidas na década de 10, pertenceu ao alemão Karlheinz Klintworth e foi adquirido em 1998. O outro tem 20 imagens do Mosteiro de São Bento realizadas nos anos 20.

 

O fotógrafo Paul Erbe

Daniella Gomes dos Santos e Maria Isabel Ribeiro Lenzi*

Neste artigo relatamos o trabalho de pesquisa em busca de informações sobre um fotógrafo chamado Paul Erbe.

 

 

A investigação iniciou-se após revisão de dados em diversos inventários das coleções sob a guarda do Arquivo Histórico do Museu Histórico Nacional – MHN. Uma das atualizações feitas foi a de um álbum contendo onze fotografias com imagens do Rio de Janeiro, da década de 1910, com a identificação do fotógrafo Paul Erbe, que nós desconhecíamos.

 

 

Acessando o link para as 11 fotografias em sépia do álbum que pertenceu a Karlheinz Klintworth com fotografias de autoria de Paul Erbe do acervo do Museu Histórico Nacional e disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Esse álbum pertenceu a Karlheinz Klintworth, cidadão alemão, que viveu no Brasil no período de 1957 a 1970 e foi oferecido ao MHN como sendo uma preciosidade. Após trocas de correspondências entre a direção do Museu e o proprietário das fotografias, foi verificada a relevância do material e a compra foi realizada através da Associação de Amigos do Museu Histórico Nacional no ano de 1998.

 

 

Notícia no Jornal do Brasil sobre a compra do álbum:

 

 

 

Buscamos informações sobre Erbe no Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro de Boris Kossoy, em que foi compilada a trajetória de fotógrafos e retratistas que documentaram o Brasil entre 1833 e 1910, mas não constam nessa obra informações sobre o fotógrafo.

Pesquisando na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, encontramos notícia de agosto de 1917, em que vários jornais, como O Paiz, Gazeta de Notícias, Jornal do Commercio e Jornal do Brasil, relatam um incêndio de grandes proporções que destruiu grande parte do edifício em que funcionava a redação do jornal O Paiz, na Avenida Branco, esquina com rua Sete de Setembro, no centro do Rio de Janeiro. Ocorre que, o ateliê fotográfico de Huebner Amaral, de quem Paul Erbe era sócio, também funcionava no prédio em que aconteceu o sinistro.

 

 

 

 

Demos prosseguimento à pesquisa em sítios eletrônicos e encontramos um artigo de Mateus Duarte, tendo como objeto de estudo um álbum com fotografias de 1921 a 1936, produzidas por Paul Erbe. O álbum foi doado e dedicado à John Raschle pela diretoria da indústria como prova reconhecimento à sua collaboração como director gerente nos dois primeiros anos da sociedade e como constante lembrança da sua pêssoa , conforme escrito na dedicatória do dia 26 de novembro de 1936.

 

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Álbum S.A. Cotonifício Gávea / Mapeamento sócio técnico e cultural da Gávea: o álbum de fotografia da S.A Cotonifício Gávea, página 10.

 

 

São 45 fotografias de uma pequena fábrica localizada na Gávea, Rio de Janeiro. O autor relata em seu texto que não conseguiu muita informação sobre o fotógrafo e faz referência ao Almanak Laemmert: Administrativo Mercantil e Industrial (RJ) e ao Jornal do Comércio como fonte de pesquisa. Na edição de 1919 do Jornal do Commercio é noticiada a dissolução da sociedade com George Huebner (1862-1935). Paul Erbe, citado na matéria como Paulo Erbe, era sócio-gerente desde 1912, ficando como único proprietário do ateliê fotográfico, localizado na rua da Assembleia nº 100, a partir da interrupção da parceria. Presumimos que a ruptura da sociedade e a mudança de endereço tenha relação com o incêndio de 1917.

 

 

 

Paul Erbe permaneceu na rua da Assembleia nº 100 até o final da década de 1920.  Ao longo deste decênio, grande parte de seus anúncios ofereciam ao público seu trabalho neste endereço no centro da cidade.

 

 

Todavia, no final da década, o fotógrafo faz o movimento rumo ao bairro que estava em franco crescimento: Copacabana. Encontramos, em 1929, no Almanak Laemmert, sua nova direção à rua República do Peru nº 100.

 

 

A partir de 1923, aparecem diversos anúncios em que se faz referência ao trabalho de Paul Erbe em peças teatrais, cujos artistas tinham os retratos expostos nos saguões do teatro e no “estúdio Erbe”. Eram disponibilizados aos assinantes de frisas e camarotes, fotografias dos principais artistas das Companhias, produzidas pelo “magnífico trabalho da acreditada Photographia ERBE, Rua da Assembleia n.100”(Correio da Manhã, 2 de outubro de 1923; O Jornal, 15 de abril de 1924).

 

 

A única imagem que conseguimos encontrar do fotógrafo está na Revista Fon-Fon! - importante periódico que circulou nas primeiras décadas do século XX – é a que está publicada no início deste artigo. A Fon-Fon! apresentava a vida privada da sociedade burguesa e foi grande influenciadora do comportamento da elite carioca (Fon-Fon!, 7 de outubro de 1916).

Nas buscas por mais informações, nos deparamos com trabalhos de Erbe em sites de leilões eletrônicos: fotografias de famílias e paisagens do Rio de Janeiro.

Mas voltando ao álbum, verificamos que aparece na capa o endereço do centro – rua da Assembleia, 100.  Deste modo, deduzimos que ele deve ter sido feito a partir de 1919, talvez na década de 1920. Porém, observando algumas fotografias, percebemos que são imagens da década de 1910. Em duas fotos, o Pão-de-Açúcar aparece sem os cabos que sustentam o bondinho.  Conseguimos visualizar as construções que estavam sendo feitas no alto dos morros da Urca e do Pão-de-Açúcar, mas ainda sem o bondinho que pouco depois levaria turistas para contemplar a paisagem carioca. Sabemos que a primeira parte do Caminho Aéreo do Pão-de-Açúcar foi inaugurado em 1912, de modo que provavelmente essas imagens são anteriores a este ano. Todavia, a montagem do álbum provavelmente é da década de 1920.

 

 

Consta no processo de compra do álbum que um perito do arquivo histórico da Companhia de Navegação Hamburg-Sud, de Hamburgo, apontou que há uma imagem de um navio da referida companhia, que só trafegou na Baía da Guanabara em alguns meses no ano de 1914.  Nesta fotografia em que aparece o navio, o Pão-de-Açúcar fica bem visível sem o cabo do bondinho, de modo que constatamos um equívoco do perito nesta datação, a julgar pelo exposto acima.

O fato de o Morro do Castelo aparecer em uma das fotos corrobora a tese de que as fotografias são da década de 1910. Sabemos que aquele outeiro foi demolido em início dos anos de 1920 e o álbum traz uma fotografia em que o outeiro está intacto.  Então acreditamos que essas imagens são mesmo dos anos 1910, mas foram reunidas em álbum na década seguinte.

 

 

Além do álbum citado neste artigo, o Arquivo Histórico do MHN preserva outro, contendo vinte fotografias com imagens do Mosteiro de São Bento do Rio de Janeiro, além de três retratos da década de 1920, todos produzidos por Paul Erbe.

 

Acessando o link para as fotografias do outro álbum de fotografias de autoria de Paul Erbe com imagens do Mosteiro de São Bento e de três retratos também produzidos por ele pertencentes ao acervo do Museu Histórico Nacional e disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

Não localizamos a quem pertenceu este outro álbum e um dos retratos. Já as outras duas fotografias constam a informação de seus doadores: uma foi doada em 1993 por Yeda Telles de Menezes, e é de um familiar da doadora; e a outra, doada em 1998, por José Pinto de Lima, é do próprio doador.

 

 

 

 

A terceira é do engenheiro e político Miguel Calmon (1879 – 1935), que foi ministro e secretário de Estado dos Negócios da Indústria, Viação e Obras Públicas durante a presidência de Afonso Pena (1847 – 1909) e de Nilo Peçanha (1867 – 1924); e também da Agricultura, Indústria e Comércio, do governo de Artur Bernardes (1875 – 1955).

 

 

 

*Daniella Gomes dos Santos é graduada em Arquivologia pela Unirio e arquivista do Arquivo Histórico do Museu Histórico Nacional (IBRAM/MinC)

Maria Isabel Ribeiro Lenzi é doutora em História pela UFF e historiadora do Arquivo Histórico do Museu Histórico Nacional (IBRAM/MinC)

 

Fontes:

DUARTE, Mateus Sanches. Mapeamento sócio técnico e cultural da Gávea: o álbum de fotografia da S.A Cotonifício Gávea.  Disponível em: https://www.puc-rio.br/ensinopesq/ccpg/pibic/relatorio_resumo2019/download/relatorios/CCS/CSOC/CSOC-
Mateus%20Sanches%20Duarte.pdf . Acesso em 11 de agosto de 2023.Acesso em 11 de agosto de 2023.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

ZANON, Marilia Cecilia. A sociedade carioca da Belle Époque nas páginas do Fon Fon!  Patrimônio e Memória, v.4, n. 2, p. 217-235. Disponível em: https://repositorio.unesp.br/handle/11449/108024. Acesso em 10 de agosto de 2023.

 

 

Nota da editora:

No catálogo dos quadros do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, publicado, em 1948, na revista do referido instituto, está listada uma ampliação fotográfica realizada por Paul Erbe do historiador, professor e jornalista Max Fleiuss(1868 – 1943) (Revista do  Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, outubro / dezembro de 1948, segunda coluna).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

O “Dr. Photographo” Oswaldo Cruz

Ricardo Augusto dos Santos, Felipe Almeida Vieira e Francisco dos Santos Lourenço, pesquisadores da Fiocruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, são os autores do artigo O “Dr. Photographo” Oswaldo Cruz, que traz para os leitores do portal uma faceta pouquíssimo conhecida do cientista: ele era um entusiasta da fotografia e este interesse ocupou um lugar importante tanto em sua vida privada como na profissional. Atuou muitas vezes como fotógrafo e foi personagem central de inúmeras fotografias ao longo de sua vida. Com a publicação de registros realizados por ele próprio, por fotógrafos ainda não identificados, pelo fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924) e por J. Pinto (1884 – 1951), fotógrafo baiano que atuou muitos anos na Fundação Oswaldo Cruz, vamos conhecer um pouco desta história.

 

 

Acessando o link para as fotografias relativas a este artigo disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

O “Dr. Photographo” Oswaldo Cruz

 

Ricardo Augusto dos Santos, Felipe Almeida Vieira e Francisco dos Santos Lourenço*

 

Oswaldo Gonçalves Cruz (1872 – 1917) era um apaixonado pela fotografia. O interesse na criação de imagens em suporte sensível ocupou um lugar de destaque em sua vida privada e no mundo do trabalho. Ele próprio atuou como fotógrafo e foi personagem central de inúmeras fotografias de conteúdos distintos ao longo de sua gloriosa existência.

 

 

 

É importante registrar que nem sempre foi possível a identificação dos profissionais que contribuíram para eternizar a imagem de Oswaldo Cruz com suas lentes, já que a maioria de seus nomes se perdeu no tempo. Nessa perspectiva, até mesmo as fotografias atribuídas a Oswaldo Cruz apresentam um quantitativo subestimado em virtude da carência de elementos descritivos, como datas, nomes e locais, que comprovem a sua autoria.

As raras fontes existentes indicam que Oswaldo Cruz demonstrou interesse pela fotografia quando morou em Paris, na França, com a família, entre 1897 e 1899, a fim de aprimorar seus conhecimentos médico-científicos. Em carta a Emília da Fonseca Cruz, a Miloca (1873 – 1952), sua esposa, retornando da Exposição Internacional de Higiene de Dresden, na Alemanha, em 1911, fez menção a um passeio turístico para Fontainebleau, em 1897. Nessa ocasião, retratou a esposa, filhos e monumentos históricos.

 

 

De acordo com Ezequiel Dias (1880 – 1922), cientista e cunhado de Oswaldo, este se dedicava tanto à fotografia que se tornou um perito na arte, passando os domingos envolvido com a prática. Essa narrativa também foi compartilhada nas memórias afetivas do professor Eduardo Oswaldo Cruz (1933 – 2015), que herdou verdadeiras “preciosidades documentais” deixadas por seu ilustre avô. O material encontra-se sob a guarda da Casa de Oswaldo Cruz.

“O interesse de Oswaldo pela fotografia é evidente pela presença em sua casa da Praia de Botafogo, número 406, de uma câmara escura, localizada ao lado de sua sala de estudo (que ele denominava ‘meu Palácio de Cristal’), o que assegurava condições ideais para seu entretenimento. Sabemos que o próprio executava todas as manipulações necessárias, incluindo a sensibilização das placas, sua revelação e preparo dos positivos”.

Eduardo Oswaldo Cruz. Anaglyphos, s.d.

 

 

 

Porém, segundo a inscrição contida na imagem a seguir, Oswaldo Cruz possuía também em sua anterior residência, na rua Voluntários da Pátria, número 128, em Botafogo, um espaço para exercitar seu passatempo predileto, a fotografia. Em ambos os endereços registrou cenas do cotidiano familiar.

 

 

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Taxiphote, aparelho similar ao pertencente a Oswaldo Cruz / stereoscopyhistory.net

 

Para embasar da melhor forma possível a execução de seu hobby, Oswaldo Cruz cercou-se de publicações sobre teoria e técnica fotográficas. Entre os títulos em alemão, francês e italiano da antiga biblioteca do cientista, hoje preservados no acervo da Casa de Oswaldo Cruz, destacam-se La fotografia industriale. Fotocalchi economici per le riproduzioni di disegni, piani, carte, musica, negative fotografiche, ecc. e Les nouveautés photographiques, années 1904 et 1905. Complément annuel à la théorie, la pratique et l’art en photographie.

 

Coleção Bibliográfica Oswaldo Cruz / Acervo Casa de Oswaldo Cruz

Coleção Bibliográfica Oswaldo Cruz / Acervo Casa de Oswaldo Cruz

 

As câmeras utilizadas por Oswaldo Cruz, que teriam sido adquiridas em Paris, foram a Kodak Folding Pocket, que empregava Roll Film tamanho 118, e a Vérascope Richard, a sua favorita, que produzia fotografias estereoscópicas.

 

“Ainda que em alguns sentidos guarde semelhanças à prática amadora da fotografia plana, o amadorismo estereoscópico tem também suas especificidades, sobretudo no que diz respeito à sua capilarização. Estendendo-se pouco, ou quase nada, para além das elites, podemos perceber um perfil padrão dos fotógrafos amadores: profissionais liberais herdeiros de abastadas famílias brasileiras, homens de posses e/ou ocupantes de altos cargos da administração pública e sediado nos grandes centros urbanos”.

Maria Isabela Mendonça dos Santos.

A estereoscopia e o olhar da modernidade, 2019.

 

 

 

Entre as clássicas denominações atribuídas a Oswaldo Cruz – “mito na ciência brasileira”, “saneador do Rio de Janeiro” e “fundador da medicina experimental no Brasil” – houve uma de procedência totalmente informal, e que serviu de fio condutor para a concepção deste artigo. Sua origem se deu a partir de um episódio pitoresco envolvendo a figura de Oswaldo Cruz, que na ocasião foi chamado de “Dr. Photographo” por estudantes da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro.

 

Ezequiel Caetano Dias. Traços biográficos de Oswaldo Cruz, 1922

Ezequiel Caetano Dias. Traços biográficos de Oswaldo Cruz, 1922

 

As imagens que apresentamos no presente artigo pertencem à Coleção Família Oswaldo Cruz. Nela encontram-se, entre outras “preciosidades documentais”, fotografias, cartas e álbuns, de natureza e suportes diversos, que revelam aspectos até então desconhecidos da vida privada e da trajetória de Oswaldo Cruz como médico, cientista, sanitarista e administrador de instituições de ciência e saúde pública. Dito isso, vamos conhecer um pouco mais a respeito do nosso “Dr. Photographo”.

 

 Oswaldo Cruz, a Saga de Um Herói Brasileiro

Samba-enredo da Escola de Samba Em Cima da Hora, no carnaval de 2000.

 

“De São Luiz do Paraitinga

A saga de um herói vamos contar

Grande gênio da ciência

Trouxe a experiência da Cidade-Luz

No Brasil está vivo na memória

Um carnaval de epidemias combateu

Saneando a cidade, o meu Rio tropical

Foi espelho de Paris

Botaram abaixo o antigo

Construindo um ideal e assim remodelaram a capital

 

Com seus feitos, muitas vidas preservou

Foram ideias geniais e amor

Diretor pela saúde se tornou

Nos anais da nossa história o seu nome consagrou

 

Mas nem tudo eram flores

E houve dissabores com a vacinação

E aí a imprensa com humor, malhou, malhou

Em meio a tanta dor

 

Lá no Pará,

Terra de Tapajós e Apiacás

Com muita força e fé, livrou do mal

Operários da Madeira-Mamoré

Pesquisador, tornou-se imortal

Prefeito da Cidade Imperial

 

Oswaldo Cruz, a Fundação é você

Batam palmas, eu quero ver

Parabéns ao centenário

Muito fez por merecer”

 

Natural de São Luiz do Paraitinga, cidade histórica do interior paulista, Oswaldo Cruz nasceu no dia 5 de agosto de 1872, filho do médico Bento Gonçalves Cruz (1845 – 1892) e Amália Taborda de Bulhões Cruz (1851 – 1921). Em 1877, quando Oswaldo tinha cinco anos de idade, sua família se transferiu para a capital do Império, a cidade do Rio de Janeiro.

 

 

Em 1889, ingressou na Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, onde se formou em 1892, aos vinte anos. Em relação ao período que Oswaldo Cruz realizou sua graduação, é necessária uma correção. A partir da consulta aos documentos sobre a vida estudantil do cientista na Faculdade de Medicina, verificamos ser 1889 o ano correto para a sua entrada no curso médico – e não 1887, como foi difundido por seus primeiros biógrafos.

 

Certificado de provas da primeira série do curso médico, 9 de abril de 1889 / Acervo do Centro de Ciências da Saúde/UFRJ.

Certificado de provas da primeira série do curso médico, 9 de abril de 1889 / Acervo do Centro de Ciências da Saúde/UFRJ.

 

Em 1893, casou-se com Emília, com que teve seis filhos: Elisa (1894 – 1965), Bento (1895 – 1941), Hercília (1898 – 1968), Oswaldo (1903 – 1977), Zahra (1907 – 1908) e Walter (1910 – 1967). Ainda nesse ano, Oswaldo Cruz montou um laboratório de análises clínicas em sua casa e deu início a uma diversificada atuação como médico no consultório que herdara de seu pai, na Fábrica de Tecidos Corcovado e na Policlínica Geral do Rio de Janeiro. Além disso, auxiliou o Instituto Sanitário Federal no diagnóstico da epidemia de cólera que grassava no Vale do Paraíba.

 

 

Entre 1897 e 1899, conforme citado anteriormente, Oswaldo Cruz esteve em Paris estudando microbiologia, soroterapia e imunologia no Instituto Pasteur e medicina legal no Instituto de Toxicologia. Sua estadia com a família na “cidade-luz” foi financiada pelo sogro, o abastado comerciante português Manuel José da Fonseca (1842 – 1912).

 

 

 

De volta ao Rio de Janeiro, Oswaldo Cruz retomou suas funções como médico e fez parte da comissão que averiguou a crise de peste bubônica na cidade de Santos. Em seguida, recebeu o convite para exercer a direção técnica do Instituto Soroterápico Federal, que estava sendo criado na Fazenda de Manguinhos, localizada à beira mar, no subúrbio carioca. Seu funcionamento teve início em 1900, sob o comando do barão de Pedro Affonso (1845 – 1920). Dois anos depois, o barão foi destituído do cargo. Oswaldo Cruz, então, passou a dirigir sozinho os destinos do instituto – “célula mater” do que é, hoje, a Fundação Oswaldo Cruz (Fiocruz).

“Embora as verbas permanecessem escassas, o Instituto, sob a direção exclusiva de Oswaldo, foi tendo maiores facilidades para a realização de pesquisas. Trabalhava-se o mais que se podia, despreocupadamente, com satisfação, com muito interesse pelas pesquisas científicas e com liberdade para investigar sobre os mais variados assuntos com aprovação ampla de Oswaldo, cujo maior objetivo era alargar o âmbito das atividades praticadas no Instituto”.

Henrique de Beaurepaire Aragão.

Notícia histórica sobre a fundação do Instituto Oswaldo Cruz (Instituto de Manguinhos), 1950.

 

Sobre os primeiros tempos do Instituto Soroterápico Federal existem relatos de que o próprio Oswaldo Cruz documentou fotograficamente as atividades desenvolvidas nos improvisados ambientes de pesquisa e de preparo de soros e vacinas.

 

 

Em 1903, a partir da contratação do exímio e criativo fotógrafo Joaquim Pinto da Silva, o J. Pinto (1884 – 1951), foram ampliados os registros referentes aos funcionários, estudantes, eventos, expedições científicas, campanhas sanitárias e instalações físicas do que viria a ser, dentro de poucos anos, um dos principais centros de ciências biomédicas e saúde do país. As fotografias produzidas por J. Pinto e outros fotógrafos que serviram na instituição ao longo de sua história, também estão reunidas no acervo da Casa de Oswaldo Cruz. Muitas delas, inclusive, foram apresentadas como tema de artigos na própria Brasiliana Fotográfica.

 

 

 

 

 

Mesmo após a chegada de um fotógrafo profissional, Oswaldo Cruz continuou produzindo fotografias sobre o dia a dia de Manguinhos, bem como de suas viagens a trabalho dentro e fora do país. No edifício símbolo da instituição, o Pavilhão Mourisco, mandou instalar um moderno Gabinete Fotográfico. Essa iniciativa, inovadora para os padrões da época, vem comprovar o grande apreço que o cientista tinha pela elaboração de imagens, não somente fixas, mas também em movimento.

“Entre o 3° e o 4° andar estão os gabinetes de macro e microfotografia, cinematografia etc., onde são executados por profissional de real competência – o Snr. Pinto – todos os trabalhos desse gênero. Ao lado, se acha uma copiosa coleção catalogada de fotografias e microfotografias, todas elas referentes a estudos realizados pelo pessoal do Instituto”. 

Ezequiel Caetano Dias. O Instituto Oswaldo Cruz: resumo histórico (1899-1918), 1918.

 

 

 

A partir de 1903, Oswaldo Cruz também comandou a Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), tendo como desafio empreender uma campanha sanitária para debelar as principais doenças que assolavam o Rio de Janeiro: febre amarela, peste bubônica e varíola. Essa árdua tarefa se desenvolveu no contexto da reforma urbana orquestrada pelo prefeito Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), que recebeu plenos poderes do presidente Francisco de Paula Rodrigues Alves (1848 – 1919) para transformar a capital da República em uma metrópole tropical com ares parisienses.

Cabe ressaltar aqui o papel desempenhado pela fotografia no período da Primeira República ou República Velha. Graças a difusão da técnica, um farto material iconográfico foi publicado na imprensa brasileira. Consultando revistas ilustradas e jornais diários, encontramos fotografias – além de charges e caricaturas – que foram utilizadas para enaltecer ou criticar as campanhas sanitárias e atividades científicas sob a responsabilidade de Oswaldo Cruz.

 

 

Os métodos empregados pelo diretor da DGSP para combater as epidemias de febre amarela e peste bubônica abordaram o isolamento dos doentes, a eliminação de mosquitos e ratos, a notificação compulsória dos casos positivos e a desinfecção de imóveis e ruas. Esses métodos, embora eficazes, não foram bem recebidos por vários segmentos da população, que desconfiavam da sua validade.

 

 

 

 

O combate à varíola, por sua vez, não saiu conforme o planejado por Oswaldo Cruz. Em 1904, depois da aprovação da polêmica lei que tornou obrigatória a vacinação contra a varíola em todo o Brasil, eclodiu uma revolta popular, seguida da tentativa de golpe militar: a Revolta da Vacina. Ela durou sete dias e foi reprimida severamente pelo governo de Rodrigues Alves, que acabou suspendendo a obrigatoriedade da vacinação.

 

 

De 1905 a 1906, ainda como parte das atribuições da DGSP, Oswaldo Cruz realizou uma viagem a diversos portos marítimos e fluviais de norte a sul do Brasil em companhia de seu secretário, o médico João Pedroso Barreto de Albuquerque (1869 – 1936). O objetivo da viagem era estabelecer um código sanitário para o país de acordo com as normas internacionais. Por esse novo empreendimento, Oswaldo Cruz foi mais uma vez incompreendido e atacado pela imprensa.

 

 

 

 

Em 1907, durante o XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia de Berlim (Alemanha), Oswaldo Cruz recebeu da imperatriz Augusta Vitória (1858 – 1921) a medalha de ouro em nome da seção brasileira presente na Exposição Internacional de Higiene. No evento foram exibidos os produtos e documentos referentes às ações do Instituto Soroterápico Federal e da DGSP, como, por exemplo, vacinas e soros, peças anatomopatológicas, coleções zoológicas, gráficos e fotografias de campanhas sanitárias e maquetes dos edifícios construídos para o instituto e a saúde pública no Rio de Janeiro. Quando ainda se encontrava no exterior, o governo brasileiro transformou o Instituto Soroterápico Federal em Instituto de Patologia Experimental de Manguinhos, um antigo anseio do cientista. Ao regressar ao Rio de Janeiro, em 1908, Oswaldo Cruz foi festivamente recebido como herói nacional após o retumbante sucesso alcançado pelo Brasil no evento de Berlim, que consagrou os trabalhos realizados sob seu comando em Manguinhos e contra as epidemias na capital federal, sobretudo a de febre amarela. A partir desse episódio, o comportamento da impressa em relação às atividades de Oswaldo Cruz se modificou, e as homenagens ao homem público, antes tão criticado, se tornaram rotineiras.

 

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Charge alusiva à conquista da medalha de ouro em Berlim / Edgard de Cerqueira Falcão. Oswaldo Cruz monumenta histórica, 1971

 

Com o desenvolvimento e transformação do “Instituto de Manguinhos” no arrojado Instituto Oswaldo Cruz (IOC), assim batizado em 1908 para homenagear os feitos do cientista, fotografia e desenho passaram a ser serviços complementares indispensáveis às atividades de ensino e pesquisa. Os sucessores de Oswaldo na gestão do instituto continuaram a dedicar atenção a essas práticas.

 

 

Oswaldo Cruz pediu exoneração da DGSP em 1909 e voltou a se dedicar exclusivamente ao seu instituto. Entre outras ações, promoveu o inventário das condições sanitárias do interior do Brasil através de expedições formadas por cientistas do IOC e médicos da DGSP. De 1910 a 1911, liderou importantes missões de combate à malária durante a construção da Ferrovia Madeira-Mamoré, a “ferrovia do diabo”, em Porto Velho, Rondônia, e à febre amarela em Belém, a convite do governador paraense João Coelho (1852 – 1926).

 

 

Nas duas ocasiões em que regressou ao Rio de Janeiro proveniente da região Norte do país, Oswaldo Cruz foi calorosamente recepcionado no Cais Pharoux, atual Praça XV, por autoridades, amigos e admiradores, que se deslocaram até o local para parabenizá-lo pela excelente condução dos trabalhos de saúde pública realizados no Pará e Rondônia.

 

 

 

Retornou à Alemanha em 1911 para participar da Exposição Internacional de Higiene de Dresden. O destaque da presença brasileira no evento foi, sem dúvida, a apresentação de peças anatomopatológicas, fotografias, moldes e bustos em gesso de doentes, entre outros itens, sobre a descoberta de Carlos Chagas (1879 – 1940), cientista do IOC, em 1909, da doença transmitida pelo barbeiro, a tripanossomíase americana ou doença de Chagas. A exibição dos filmes que documentam essa descoberta e as ações de combate à febre amarela no Rio de Janeiro também tiveram excelente aceitação entre os participantes da exposição. Muito provavelmente, o fotógrafo J. Pinto foi o responsável pelo filme Chagas em Lassance, o primeiro de caráter científico realizado no Brasil.

 

 

Em carta ao fiel escudeiro João Pedroso, que ficou em seu lugar chefiando os trabalhos de combate à febre amarela em Belém, Oswaldo Cruz resumiu com alegria mais um triunfo da ciência brasileira em solo alemão:

 

Berlim, 28 de julho de 1911.

Caro Pedroso.

De passagem por aqui, de volta de Dresden e a caminho de Paris não quis deixar de te mandar algumas linhas, informando-te dos resultados de nossa Exposição. Quando o Vasconcelos me escrevia cheio de entusiasmo, julgava eu que era vibração exagerada de patriotismo hipertrofiado pelos ares estrangeiros; mas, felizmente, tive ocasião de verificar a realidade do fato: É um sucesso completo, no ponto de vista, que eu o encaro, i. é. como meio de tornar conhecido o Brasil científico. Com efeito, a Exposição tem tido uma verdadeira romaria de sábios de toda a Alemanha. Quando aqui se reuniu o Congresso de Microbiologia foram todos os membros à nossa Exposição, espontaneamente e sem prévio convite; examinaram cuidadosamente tudo e ficaram todos encantados pelos estudos do Chagas. Quando no cinematógrafo viram a fita dos doentes do Chagas, não se puderam conter e irromperam em palmas e vivas! […] Os resultados da campanha do Pará têm pasmado a todos e com um interesse admirável estudam cuidadosamente os gráficos e mapas. Não havia, pois, exagero, e nossa reputação, já adquirida, de país civilizado que caminha na vanguarda do progresso científico, teve mais uma eloquente sanção, e vocês todos contribuíram para isso com enorme contingente, pelo que vivamente os felicito.

E Sales Guerra. Osvaldo Cruz, 1940.

Em 1912, o cientista foi eleito “imortal” da Academia Brasileira de Letras na vaga do poeta Raimundo Correia (1859 – 1911). Em 1914, recebeu a condecoração de oficial da Ordem Nacional da Legião de Honra da França.

 

 

 

 

Ainda em 1914, Oswaldo Cruz presidiu a Conferência Sanitária realizada em Montevidéu (Uruguai), que contou com a participação de representantes da Argentina, Brasil, Paraguai e do país anfitrião. O objetivo da conferência foi a elaboração de uma nova Convenção Sanitária para a região. Antes de voltar ao Rio de Janeiro, esteve na capital argentina visitando estabelecimentos científicos e de ensino superior. Na ocasião, recebeu o diploma de membro honorário da Academia de Medicina da Universidade Nacional de Buenos Aires.

 

 

 

 

Em 1916, por motivos de saúde, deixou a direção do IOC e foi morar em Petrópolis, região serrana fluminense. Lá, durante poucos meses, ocupou o cargo de primeiro prefeito da cidade, por nomeação de Nilo Peçanha (1867 – 1924), presidente do estado do Rio de Janeiro. No dia 11 de fevereiro de 1917, durante os festejos de Momo, Oswaldo Cruz morreu em sua casa, na rua Montecaseros, aos 44 anos, cercado por familiares e amigos. Seu enterro, realizado no dia seguinte, no Cemitério de São João Batista, Rio de Janeiro, reuniu representantes de todas as camadas sociais, que formaram um cortejo solene para dar o último adeus ao grande cientista brasileiro – o “Dr. Photographo” Oswaldo Cruz –, que se tornou símbolo da ciência nacional e da saúde pública.

 

 

* Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz. Felipe Almeida Vieira e Francisco dos Santos Lourenço são pesquisadores do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz.

 

Fontes:

ARAGÃO, Henrique de Beaurepaire. Notícia histórica sobre a fundação do Instituto Oswaldo Cruz (Instituto de Manguinhos). Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 48, p. 1-75, 1950.

BENCHIMOL, Jaime Larry (coord.). Manguinhos do sonho à vida: a ciência na belle époque. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz, 1990.

BRITTO, Nara. Oswaldo Cruz: a construção de um mito na ciência brasileira. Rio de Janeiro: Editora Fiocruz, 2006.

D’AVILA, Cristiane. A Exposição Internacional de Higiene de Dresden, na Alemanha, em 1911. Brasiliana Fotográfica, Rio de Janeiro, 5 jan. 2022.

DIAS, Ezequiel Caetano. O Instituto Oswaldo Cruz: resumo histórico (1899-1918). Rio de Janeiro: Instituto Oswaldo Cruz, 1918.

DIAS, Ezequiel Caetano. Traços biográficos de Oswaldo Cruz. Memórias do Instituto Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, v. 15, n. 1, p. 1-79, 1922.

FALCÃO, Edgard de Cerqueira (org.). Oswaldo Cruz monumenta histórica. A incompreensão de uma época. Oswaldo Cruz e a caricatura. São Paulo: Revista dos Tribunais, 1971. tomo 1.

FONSECA FILHO, Olympio da. A escola de Manguinhos: contribuição para o estudo do desenvolvimento da medicina experimental no Brasil. São Paulo: EGTR, 1974.

FRAIHA NETO, Habib. Oswaldo Cruz e a febre amarela no Pará. 2 ed., rev. e ampl. Ananindeua: Instituto Evandro Chagas, 2012.

FRAGA, Clementina. Vida e obra de Oswaldo Cruz. 2 ed. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz, 2005.

GUERRA, E. Sales. Osvaldo Cruz. Rio de Janeiro: Vecchi, 1940.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

LIMA, Ana Luce Girão Soares de. A bordo do República: diário pessoal da expedição de Oswaldo Cruz aos portos marítimos a fluviais do Brasil. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 4, n. 1, p. 158-167, 1997.

LIMA, Nísia Trindade; MARCHAND, Marie-Hélène (org.). Louis Pasteur & Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro: Ed. Fiocruz; Banco BNP Paribas Brasil S.A., 2005.

LOPES, Myriam Bahia. Corpos ultrajados: quando a medicina e a caricatura se encontram. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v. 6, n. 2, p. 257-275, 1999.

LOURENÇO-DE-OLIVEIRA, Ricardo; LOURENÇO, Francisco dos Santos. Antonio Gonçalves Peryassú e o estudo dos mosquitos para sanear o Brasil: uma resenha biográfica. Revista Pan-Amazônica de Saúde, Ananindeua, v. 13, p. 1-13, 2022.

Oswaldo Cruz: o médico do Brasil. São Paulo: Fundação Odebrecht; Brasília: Fundação Banco do Brasil, 2003.

OSWALDO CRUZ, Eduardo. Anaglyphos: Oswaldo Cruz como fotógrafo. Inglaterra, s.d.

ROCHA LIMA, Henrique da. Com Oswaldo Cruz em Manguinhos. Ciência e Cultura, São Paulo, v. 4, n. 1/2, p. 15-38, 1952.

SANTOS, Maria Isabela Mendonça dos. A estereoscopia e o olhar da modernidade. Brasiliana Fotográfica, Rio de Janeiro, 29 maio 2019.

SANTOS, Ricardo Augusto dos. O fotógrafo Joaquim Pinto da Silva, o J. Pinto (1884 1951) e a Fundação Oswaldo Cruz. Brasiliana Fotográfica, Rio de Janeiro, 16 nov. 2017.

SANTOS, Ricardo Augusto dos; LOURENÇO, Francisco dos Santos. João Pedro ou João Pedroso?. Brasiliana Fotográfica, Rio de Janeiro, 11 jan. 2019.

SERPA, Phocion. A vida gloriosa de Osvaldo Cruz. Rio de Janeiro, 1937.

THIELEN, Eduardo Vilela et al. A ciência a caminho da roça: imagens das expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz em 1911 e 1912. Rio de Janeiro: Casa de Oswaldo Cruz, 1991.

THIELEN, Eduardo Vilela. Imagens da saúde do Brasil: a fotografia na institucionalização da saúde pública. Dissertação (Mestrado em História) – Pontifícia Universidade Católica, São Paulo, 1992.

WANDERLEY, Andrea C. T. Breve perfil e cronologia do fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 30/01/1924). Brasiliana Fotográfica, Rio de Janeiro, 30 nov. 2017.

 

O fotógrafo amador Archanjo Sobrinho (18? – 1941)

Pesquisando para escrever sobre a Praia do Russel, tema do 23º artigo da série O Rio de Janeiro desaparecido, publicado em 15 de maio de 2023, aqui na Brasiliana Fotográfica, me deparei com três imagens produzidas, no Rio de Janeiro, durante a década de 1890, por Archanjo Sobrinho. São estereoscopias da já mencionada Praia do Russel, da Enseada da Lapa a partir de adro na Igreja de Nossa Senhora da Glória; e da aléia de palmeiras da Rua Paissandu, no bairro do Flamengo. Muito pouco se sabe até hoje sobre este fotógrafo amador, qualificação que consta em suas imagens.

 

 

A estereoscopia chegou ao Brasil, ainda no século XIX, e foi uma técnica utilizada por fotógrafos renomados como  Revert Henrique Klumb (c.1826 – c. 1886) e Georges Leuzinger (1813 – 1892), ambos europeus e radicados no país. No século XX, destacou-se o estereoscopista amador carioca Guilherme Antônio dos Santos (1871-1966).

 

Acessando o link para as fotografias de Archanjo Sobrinho disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

A partir de uma busca na Hemereoteca Digital da Biblioteca Nacional, uma das mais importantes fontes de pesquisa do portal, “descobri” alguns fatos sobre a vida de Archanjo, que partilho com vocês na esperança de que algum ou alguns leitores possam contribuir para adensar o perfil deste fotógrafo tão pouco conhecido até o momento. Infelizmente, ao longo da pesquisa na Hemeroteca, da década de 1880 até a de 1940, já que ele faleceu em 1941, só há duas referências a sua atividade de fotógrafo amador. Mas surgiram diversas informações acerca de sua vida.

 

Cronologia de Archanjo Sobrinho (18? – 1941)

 

 

18? - Archanjo Correia de Mello Sobrinho nasceu em 24 de junho, no século XIX, em ano ainda desconhecido (Gazeta de Notícias, 24 de junho de 1898, última colunaO Paiz, 24 de junho de 1900, sexta coluna; O Cruzeiro, 22 de junho de 1929).

1890 - Ofereceu uma bolsa de malha de prata com 10 libras esterlinas para o artista Peixoto (? – 1910) que havia se apresentado na peça Mimi Bilonira, encenada no Theatro Variedades. Esteve na missa pela morte do ator, em 1910  (Gazeta de Notícias, 15 de setembro de 1890, penúltima colunaA Imprensa, 4 de março de 1910, penúltima coluna).

 

 

 

1894 a 1901 – Estava na lista de guarda-livros – contador – do Almanak Laemmert e morava na Rua da Misericóridia, nº 80 (Almanak Laemmert1894189518961897189818991900 e 1901). Em 1900, foi noticiado que era proprietário da Papelaria União.

 

1901 – O jornal A Imprensa publicou uma trova na coluna”Ineditoriais”, de Felizardo Ventura, na qual ele era um dos personagens (A Imprensa, 5 de janeiro de 1901).

 

 

1902 / 1903 – Era sócio da firma Fernando Freire e Cia (Correio da Manhã, 24 de junho de 1902, penúltima coluna). A notícia abaixo, de 1903, confirma tratar-se do Anchanjo Sobrinho fotógrafo amador e não um possível homônimo. Também se refere jocosamente a suas dificuldades no início de suas atividades de fotógrafo e informa que ele já havia sido barbeiro e dentista. Parece que gostava de beber e era um ótimo amigo, muito relacionado no Rio de Janeiro. De acordo com o texto, na época, já possuia uma papelaria.

 

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Nasceu, em 1903, Ari, seu filho com Jovina Muniz Barreto Correia de Mello (Jornal do Brasil, 3 de março de 1903, quinta coluna). Em 1906, já tinha também uma filha (Jornal do Brasil, 9 de fevereiro de 1906, penúltima coluna). Suas filhas chamavam-se Semiramis, futura professora municipal; Oswaldina (1892 -?) e Inah (A Tribuna, 21 de setembro de 1911, segunda colunaO Paiz19 de abril de 1917, última coluna13 de maio de 1917, quinta coluna; A Razão, 16 de agosto de 1919, sexta coluna).

1904 – Fez parte da primeira diretoria do Retiro Dramático Fluminense, uma agremiação de atores amadores. A festa inaugural aconteceu no Teatro Lucinda com a encenação da peça O Médico das Crianças, protagonizada por Eugênio de Magalhães. Archanjo estava presente (Jornal do Commercio, 1º de setembro de 1904, sexta coluna; Jornal do Brasil, 16 de setembro de 1904, terceira coluna; Jornal do Brasil, 20 de setembro de 1904, segunda coluna).

1910 – Ficou ferido em um descarrilamento do bonde onde estava. Morava na rua Visconde de Sapucai (Correio da Manhã, 8 de maio de 1910, penúltima coluna). Foi um dos jurados do julgameno de Nathalino Paes de Barros, que havia assasinado sua mulher. Georgina Reid Paes de Barros (O Paiz, 3 de agosto de 1910, última coluna).

 

 

 

1911 - Esteve presente à encenação da comédia O Diretor, no Teatro Fluminense, no Campo de São Cristóvão (Gazeta de Notícias, 24 de maio de 1911, quarta coluna).

1912 - Constituiu a firma Archanjo e Sobrinho & Cia para explorar a Papelaria Moderna (O Paiz, 13 de janeiro de 1912, quinta coluna).

 

 

Em dezembro, a Papelaria Moderna, que ficava na Rua Marechal Floriano, nº 21, vizinha do Cinema Brasileiro, que sofreu um incêndio, teve alguns prejuízos devido ao acidente (A Imprensa, 9 de dezembro dde 1912, penúltima coluna).

1913 – No ano seguinte, no Almanak Laemmert, a empresa Archanjo Sobrinho & Cia foi noticiada pela primeira vez, listada na seção de “Litografias e Estamparias”, na de “Papelarias”- a dele seria a Papelaria Moderna; e na de “Tipografias”. Ficava na Marechal Floriano, nº 21. Seus sócios eram Manoel Joaquim P. da Fonseca e José Ferreira da Silva. Seguiu, em 1914, na lista de “Litografias e Estamparias” e de “Tipografias”. Residia na Rua Conde de Leopoldina, 85, e a Papelaria Moderna seguiu na Marechal Floriano, 21, até 1918. Em 1922, 1924, 1925 e 1926 foi listada a tipografia Archanjo Sobrinho & Lobosco, na rua Jorge Rudge, nº 38. Em 1922, a Papelaria Moderna existia ainda na rua Marechal Floriano, mas no número 168. Em 1927, estava listada a tipografia Archanjo Sobrinho & Cia, na Rua da Misericórdia, 59. Neste mesmo endereço, em 1929, estava listada uma papelaria e uma tipografia em seu nome. Também em 1929, estava listada a tipografia Archanjo Sobrinho & Maciel Artes Gráficas, na Rua São Pedro, 21. No ano seguinte e em 1934, estava na mesma Rua São Pedro, mas no número 281 e 269, respectivamente (Almanak Laemmert191319131913191319131914191419141915, 1916191819221922192419241925192619271929192919291930 e 1934).

 

 

1914 – Era também gerente do jornal A Época e sua Papelaria Moderna contribuiu com brindes, cartões de visita com impecável impressão, no concurso promovido pelo jornal. Deixou o cargo em 1915 (A Época24 de junho de 191428 de julho de 1914, terceira coluna18 de agosto de 1915, quarta coluna).

1917 e 1919 - Houve greves dos gráficos e os funcionários da oficina de Archanjo aderiram ao movimento. Na mesma época da greve de 1919, a gráfica de Archanjo foi roubada (O Paiz, 4 de setembro de 1917, última colunaGazeta de Notícias, 3 de setembro de 1919, terceira colunaCorreio da Manhã, 9 de setembro de 1919, quarta coluna). Participou das comemorações do jubileu da vida intelectual do então senador Rui Barbosa (1849 – 1923) (O Paiz, 10 de agosto fe 1918, última coluna).

1919 – Doou uma fotografia da Rua 1º de março, produzida em 1893, para ajudar os flagelados da seca nordestina. Será de sua autoria? É da mesma década de 1890 das fotografias que estão exibidas neste artigo e que pertence ao acervo do Instituto Moreira Salles, uma das instuições fundadoras da Brasiliana Fotográfica.

 

 

1920 – Retirou-se da sociedade da firma Archanjo Sobrinho & Cia.

 

 

1922 a 1926 – Contribuiu para a Obra de Assistência aos Portugueses Desamparados (A Noite, 25 de junho de 1922, terceira coluna). Em 1925, residia na rua Barata Ribeiro, nº 417; e depois na Rua Teófilo Otoni, 118 (A Noite, 16 de abril de 1925, terceira colunaO Paiz, 4 de setembro de 1925, última coluna). No primeiro dia de 1926 foi publicada uma propaganda da Artes Gráficas – Archanjo Sobrinho & Gumarães, na Rua da Misericórdia, nº 59.

 

 

1929 – Retirou-se da sociedade Archanjo Sobrinho & Maciel Artes Gráficas (A Manhã, 25 de julho de 1929, quarta coluna).

1941 – Faleceu, em agosto, no Hospital a Ordem Terceira da Penitência e foi enterrado no cemitério da referida ordem (A Noite, 2 de agosto de 1941).

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XV – No Dia dos Povos Índígenas, Leolinda Daltro,”a precursora do feminismo indígena” e a “nossa Pankhurst”

No Dia dos Povos Indígenas, a Brasiliana Fotográfica publica o décimo quinto artigo da série Feministas, graças a Deus com uma seleção de imagens produzidas por Alberto Frisch (1840 – 1918), Dana B. Merril (1887 – 19?), Felipe Augusto Fidanza (c.1847 – 1903), Franz Keller (1835 – 1890), Hercule Florence (1804 – 1879), Marc Ferrez (1843 – 1923), Vincenzo Pastore (1865 – 1918), Walter Garbe (18? – 19?) e também por fotógrafos ainda não identificados. O portal traz para seus leitores a história da origem da data e também o perfil de uma das primeiras e mais importantes feministas brasileiras, a baiana Leolinda Daltro (1859 – 1935), chamada de a precursora do feminismo indígena e também de a nossa Pankhurst, uma alusão à famosa e fundamental sufragista britânica Emmeline Pankhurst (1858 – 1928).

 

 

Acessando o link para as fotografias de indígenas selecionadas e disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

A origem do Dia dos Povos Indígenas

 

Anteriormente chamado no Brasil de Dia do Índio, a data foi criada no Primeiro Congresso Indigenista Interamericano, realizado em Pátzcuaro, no México, entre 14 e 24 de abril de 1940, com a participação da grande maioria dos países americanos, exceto o Canadá, o Haiti e o Paraguai. Havia 55 delegações oficiais, 71 delegados independentes e 47 representantes de grupos indígenas de vários países. O representante brasileiro foi Edgar Roquette-Pinto (1884 – 1954), membro do Conselho Nacional do Serviço de Proteção ao Índio (SPI) (Correio da Manhã, 27 de abril de 1940, sexta coluna; Jornal do Brasil, 25 de maio de 1940, primeira coluna).

Nem todos os países americanos adotaram a data como dia de celebração da cultura indígena. No Brasil, a data foi instituída pelo Decreto-Lei 5.540, de 1943, assinado pelo então presidente Getulio Vargas (1882 – 1954), convencido pelo marechal Cândido Rondon (1865 – 1958), primeiro diretor do Serviço de Proteção ao Índio, criado em 1910 e extinto em 1967, quando foi substituído pela Fundação Nacional do Índio, Funai (Correio da Manhã, 3 de junho de 1943, sexta coluna).

 

 

Passou a chamar-se oficialmente Dia dos Povos Indígenas a partir da Lei 14.402, promulgada em 8 de julho de 2022. A alteração ocorreu com a aprovação do PL 5.466/2019, que revogou o já mencionado decreto de 1943. A nova nomenclatura tem como objetivo explicitar a diversidade das culturas dos povos originários.

 

 

Breve perfil de Leolinda Daltro (1859 – 1935), “a precursora do feminismo indígena” e a “nossa Pankhurst”

 

 

Baiana e importante ativista pela incorporação da população indígena brasileira à sociedade a partir da alfabetização laica e defensora da emancipação da mulher, Leolinda de Figueiredo Daltro nasceu em 14 de julho de 1859. De origem indígena, segundo a própria  descendente em linha reta quer pelo lado paterno quer pelo lado materno de duas tribos indígenas – Tymbira e Tupynamba, viveu a maior parte de sua vida no Rio de Janeiro e foi uma das precursoras do indigenismo e do feminismo no Brasil. Entusiasta do voto feminino, fundou o Partido Republicano Feminino (PRF), em 1910, e a Escola de Ciências, Artes e Profissões Orsina da Fonseca, em 1911.

“Minei, pacientemente, o terreno, sem que os inimigos do voto feminino se apercebessem do meu verdadeiro objetivo”

Leolinda Daltro,

Jornal do Brasil, 18 de dezembro de 1927

Abaixo, trecho do  artigo Mulher! Sempre a mulher, da poetisa gaúcha e ex-diretora da revista Brasil Feminino Iveta Ribeiro (1886 – 1962), publicado na revista O Malho, de 5 de abril de 1951. Nele, a autora escreve que Leolinda, por sua luta pelos ideais femininos, deveria ter um monumento em praça pública.

 

 

Leolinda foi casada duas vezes: a primeira com seu primo, Gustavo Pereira de Figueiredo, por volta de 1875; e, a segunda, com Appolonio de Castilho Daltro, em torno de 1883. Com Gustavo teve dois filhos: a futura professora Alcina de Figueiredo (1874 – 1948); e Alfredo Napoleão de Figueiredo (1877 -1931), futuro advogado e funcionário dos Correios. Com Appolonio, teve quatro: Oscar (188?- 1943), Leobino (1887-1959) – que se formaram no Mackenzie College de São Paulo em Direito e Engenharia, respectivamente -; a futura professora Áurea (1893 – 1924) e uma quarta criança, que faleceu ainda bebê.

Veio para o Rio de Janeiro com a familia, por volta de 1888, e foi nomeada professora municipal. Segundo seu relato, quando dirigia a Escola Mista de Santa Isabel, no Matadouro de Santa Cruz, recebeu a visita da princesa Isabel (1846 – 1921) e de seu marido, o conde D´Eu (1842 – 1922), acompanhados do coronel Floriano Peixoto (1839 – 1905), futuro segundo presidente do Brasil; e de outros militares. Em 1893, Leolinda apoiou o movimento que ficou conhecido como a Segunda Revolta da Armada, quando militares da Marinha se revoltaram contra o governo de Floriano.

Em 1896, Leolinda envolveu-se com a questão indígena quando um grupo de indígenas Xerente foi ao Rio de Janeiro para pedir proteção ao então presidente da República, Prudente de Moraes (1841 – 1902). Ela defendia a incorporação da população indígena brasileira à sociedade a partir da alfabetização laica – na época, o sistema vigente era a de catequização e conversão dos indígenas ao catolicismo. Para por sua ideia em prática, entre 1896 e início do século XX, percorreu o interior do país, atendendo a um pedido feito, em 1896, pelo indígena Sapé ao já citado presidente da República, para enviar pessoas capazes de instruir as crianças de sua aldeia, em Goiás. Leolinda atuou às margens do Rio Tocantins lecionando para os indígenas Xerente. Foi denominada Oaci-Zauré (estrela d’alva) pelos indígenas de Goiás. Por sua atuação junto a eles foi muitas vezes ridicularizada. Por exemplo, na peça O Filhote, de Vicente Reis, que estreou no Teatro Lucinda, em 11 de março de 1897, Leolinda era atrozmente insultada (O Paiz, 13 de março de 1897, sexta coluna).

Na sede do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, foi instalado o Instituto de Protecão aos Indigenas Brasileiros, em 21 de outubro de 1902. Leolinda, cujo ativismo foi importante para a realização da iniciativa, foi, acompanhada de seu filho Alfredo Napoleão de Figueiredo, à primeira sessão ordinária, e agradeceu sua admissão como sócia benemérita. Em um breve relato de suas viagens, Leolinda afirmou que era “urgente a fundação de um núcleo de indigenas na margem do Araguaya”.

Na década de 1900, hospedou diversas vezes indígenas em sua casa no Rio de Janeiro. Em outubro de 1908, fundou a Associação de Auxílio aos Silvícolas do Brasil e ofereceu ao governo seus serviços como coordenadora de uma equipe de educação voltada aos indígenas. Foi delegada do Primeiro Congresso Brasileiro de Geografia, que se realizou no Palácio Monroe, entre 7 e 15 de setembro de 1909. Na comissão de antropologia e etnografia apresentou uma Moção sobre os resultados de suas observações nos sertões de Goiás e Mato Grosso. Seu trabalho completo, intitulado Memória, foi incluído nos anais do evento e seu teor principal refere-se a convicção indigenista de Daltro: retirar da esfera religiosa o privilégio de civilizar os indígenas e transferi-lo para a instância governamental.

Em 23 de dezembro de 1909, fundou a Junta Feminina Hermes – Venceslau, que apoiava Hermes da Fonseca (1855 – 1923) e Venceslau Brás (1868 – 1966) para a presidência e vice-presidência da República, respectivamente. Sob a presidência de Leolinda, a ata da nova associação expressava seu protagonismo como ativista política pelos direitos das mulheres. Em 1º de março de 1910, a chapa apoiada por ela venceu as eleições. Neste mesmo ano, como já citado, Leolinda fundou o Partido Republicano Feminino (PRF), cujo manifesto, de autoria de Gilka Costa de Melo Machado (1893 – 1980), foi publicado no jornal A República, de 10 de agosto de 1910*. Ela foi uma das 27 fundadoras do partido e, em 1933, ganhou um concurso da revista O Malho como maior poeta brasileira do século XX.

 

 

 

 

Em 17 de junho de 1911, Leolinda inaugurou a Escola de Ciências, Artes e Profissões Orsina da Fonseca, que fundou e dirigiu, com a presença da primeira-dama Orsina da Fonseca (1879 – 1912) e do presidente Hermes da Fonseca (1855 – 1923). O discurso de abertura foi feito por Gilka da Costa Melo Machado. Na escola, que era gratuita, eram ministradas aulas de alfaiataria, datilografia, enfermagem, tipografia e até tiro e esgrima. No mesmo ano, fundou a Linha de Tiro Rosa da Fonseca, nome da mãe do presidente Hermes da Fonseca. Posteriormente denominado batalhão feminino, era presença frequente nas festas cívicas do Rio de Janeiro.

Leolinda declarou, em 1913, considerar-se a responsável pela semente da emancipação feminina no Brasil. Dois anos depois,´em 1915, já como professora catedrática, aposentou-se. Em 1916, sob sua direção foi lançado o primeiro número do periódico quinzenal A Tribuna Feminina. Ainda neste ano, em dezembro, Leolinda encaminhou à Câmara uma representação em nome do Partido Republicano Feminino, sobre o voto feminino:

“A grande maioria do professorado municipal desta cidade é constituído por mulheres. São elas que dão instrução aos futuros cidadãos, que têm sobre os ombros a difícil tarefa de preparo das novas gerações. Se a lei lhes deu tão grande responsabilidade; se o Estado reconhece a sua capacidade para tão alta função, qual seja a de educar e instruir a mocidade; se a Escola Normal, Oficial, lhes conferiu um diploma que lhes habilita para esse espinhoso mister — como admitir que esse mesmo Estado possa negar-lhes capacidade para a simples escolha dos que devam ser os representantes do país nas assembleias legislativas e nos altos postos da administração pública? É o maior dos absurdos.”

Em 1917, requereu seu alistamento eleitoral, mas seu pedido foi recusado. Cerca de um ano depois lançou o livro Início do Feminismo no Brazil – subsídios para a história. Também em 1918, ainda convalescendo da gripe espanhola, Leolinda ofereceu ao então prefeito do Rio de Janeiro, Amaro Cavalcanti (1849 – 1922), o edifício da Escola Orsina da Fonseca para tornar-se uma enfermaria de atendimento a mulheres e crianças desamparadas e o trabalho das 20 enfermeiras da instituição para ajudar no combate à epidemia.

Em 1919, lançou sua candidatura ao cargo de intendente municipal pela cidade do Rio de Janeiro, mas não foi eleita. Em 1926, voltou a concorrer e não se eleger ao cargo.

O voto feminino e Leolinda foram alvo de zombaria no desfile dos clubes do carnaval carioca de 1920. No fim deste ano, publicou o livro Da catequese dos índios do Brasil (notícias e documentos para a história). Leolinda justificou a publicação tardia de seus registros alegando que a idéia da educação laica dos indígenas fora recebida com indiferença e frieza e a tornara alvo de ridículo.

Em 1926, inaugurou o Centro das Escoteiras da Redemptora, na Escola Orsina da Fonseca. Em seu discurso afirmou ter sido a primeira escoteira do Brasil. Em 1933,foi candidata pelo Partido Nacional do Trabalho para deputada constituinte, mas não se elegeu.

 

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Leolinda sobre a conquista do voto feminino (Revista da Semana, 20 de maio de 1933):

 

 

Em 1934, integrava a comissão fiscal da Aliança Nacional das Mulheres, cuja fundadora e presidente era a advogada e feminista Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993).

Em 30 de abril de 1935, foi atropelada por um automóvel quando atravessava a Praça da República. Após ficar internada por alguns dias na Casa de Saúde Pedro Ernesto, onde teve sua perna amputada, faleceu em 4 de maio. Foi enterrada no Cemitério São João Batista.

 

Leolinda Figueiredo Daltro

Mamãe – nosso ourinho

14/07/1859 04/05/1935

Precursora do verdadeiro feminismo pátrio

Propugnadora da nobilitação dos humildes e humanização dos selvícolas

Seu epitáfio no Cemitério Sao João Batista

 

 

Em 2003, a Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro aprovou a Resolução nº 233, que instituiu o Diploma Mulher Cidadã Leolinda de Figueiredo Daltro. A cada ano são escolhidas dez mulheres para receber a homenagem por seu destaque na vida pública e na defesa dos direitos femininos.

 

Cronologia de Leolinda Daltro

 

Leolinda Daltro / A Informação Goyana, maio de 1921

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A Informação Goyana, maio de 1921

 

1859 - Nasceu, em Nagé, na Bahia, em 14 de julho de 1859 – as fontes variam em relação ao ano, mas aqui consideraremos 1859 como o correto, já que é o que consta em seu epitáfio no Cemitério São João Batista, onde está enterrada.

Filha de Alexandrina Tupinambá de Figueiredo e de Luiz Antonio de Figueiredo, em um discurso proferido, em 1926, por ocasião da inauguração do Centro das Escoteiras da Redemptora, Leolinda afirmou ser descendente em linha reta quer pelo lado paterno quer pelo lado materno de duas tribos indígenas – Tymbira e Tupynamba. Leolinda perdeu a mãe ainda na infância e foi criada pela avó, Joana Tupinambá de Sant´Anna Barauna (Gazeta de Notícias, 21 de janeiro de 1916, penúltima colunaO Brasil, 24 de novembro de 1926, quarta colunaCorreio da Manhã, 5 de maio de 1935, sexta colunaDiário de Notícias, 7 de novembro de 1948Jornal do Brasil, 18 de março de 1956).

c. 1871 – Foi internada no Colégio Colé, em Salvador.

1873 – Seu pai, que havia lutado na Guerra do Paraguai, foi promovido a capitão.

c. 1875 – Por volta deste ano Leolinda teria se casado com seu primo, Gustavo Pereira de Figueiredo, conforme declarou em juízo seu filho Alfredo Napoleão de Figueiredo. Desse casamento, cujo desfecho é, até o momento, desconhecido, ela teve dois filhos: a futura professora Alcina de Figueiredo (1874 – 1948); e o já citado Alfredo Napoleão de Figueiredo (1877 -1931), futuro advogado e funcionário dos Correios.

c. 1883 – Casou-se com Appolonio de Castilho Daltro (? – 1943), com o qual teve quatro filhos: Oscar (188?- 1943), Leobino (1887-1959) – que se formaram no Mackenzie College de São Paulo em Direito e Engenharia, respectivamente -; a futura professora Áurea (1893 – 1924) e uma quarta criança, que faleceu ainda bebê.

Uma curiosidade: a esposa de Leobino, Iracema Amazonas, era irmã de Oscar de Siqueira Amazonas, marido de Alcina. Oscar foi casado com a professora Joaquina Daltro e Áurea com Antônio Cardoso de Gusmão Junior. Alfredo Napoleão foi casado com Antonietta de Figueiredo.

 

 

 

Nesta década, Leolinda mudou-se com a família para o Rio de Janeiro. Segundo entrevista dada, em 17 de junho de 2011, por seu neto Othon de Castilho Daltro a Paulete Maria Cunha dos Santos, Appolonio era funcionário da Fazenda da Província da Bahia, em Salvador, e foi transferido para o Rio de Janeiro.

1888 – Foi comunicado ao diretor das escolas suburbanas do Rio de Janeiro que Leolinda havia sido nomeada professora (Jornal do Commercio, 29 de outubro de 1888, segunda colunaJornal do Commercio, 7 de novembro de 1888, primeira coluna)

c. 1888 – Segundo relato de Leolinda, quando dirigia a Escola Mista de Santa Isabel, no Matadouro de Santa Cruz, recebeu a visita da princesa Isabel (1846 – 1921) e de seu marido, o conde D´Eu (1842 – 1922), acompanhados do coronel Floriano Peixoto (1839 – 1905), futuro segundo presidente do Brasil; de outros militares e de outras pessoas gratas, que examinaram os trabalhos escolares, assistiram aos exercícios de ginástica e às aulas de artes e profissões, e a impressão recebida por esses altos personagens foi de tal ordem e tão favorável, que suas altezas, conde d’Eu e a princesa Isabel, mandaram-me um luxuoso livro que intitularam de Livro de Ouro, em cuja primeira página, que denominaram de Página de Honra, lançaram as suas ótimas impressões relativas a sua visita à minha tenda de trabalho. (DALTRO, 1918)

 

 

1893 –  Leolinda Daltro apoiou o movimento que ficou conhecido como a Segunda Revolta da Armada, quando militares da Marinha se revoltaram contra o governo de Floriano Peixoto (1839-1895), acusando-o de desrespeitar a constituição já que após a renúncia do presidente da República, Deodoro da Fonseca, na condição de vice-presidente assumiu a presidência, sem convocar eleições presidenciais conforme previa a Constituição em vigor (Gazeta de Notícias, de 24 de novembro de 1891).

Segundo relato de Leolinda: “Por ocasião da revolta de 6 de setembro de 1893, formado pela primeira vez, em frente da prefeitura, o Batalhão Patriótico Municipal, do qual o mais velho dos meus filhos, Alfredo Napoleão de Figueiredo (com 16 anos de idade), fazia parte como simples soldado, a minha escola apresentou-se com quatrocentos alunos, quase todos uniformizados (à minha custa), fazendo evoluções ginásticas e marchando militarmente entre um delírio de palmas e vivas de quantos assistiram à festa, colocando, uma das alunas, sobre a bandeira do batalhão uma rica coroa de flores douradas, depois de ser pronunciado pela menina Amélia Pessoa um patriótico e vibrante discurso. Todos os alunos foram abraçados com entusiasmo pelos intendentes”. (DALTRO, 1918).

1894 - Seguia trabalhando como professora municipal no Rio de Janeiro (A Federação, 13 de fevereiro de 1894, quarta coluna).

1896 – Leolinda envolveu-se com a questão indígena quando um grupo de indígenas Xerente foi ao Rio de Janeiro para pedir proteção ao então presidente da República, Prudente de Moraes (1841 – 1902). Houve denúncias de negligência que motivaram protestos e reações. Em novembro, Leoinda iniciou sua viagem por Goiás. Seu filho, Augusto Napoleão, havia ido antes. Uma campanha para angariar fundos para expedição foi lançada no Rio de Janeiro e em São Paulo. Leolinda era professora da rede pública do Distrito Federal e recebeu do Conselho Municipal um ano de licença com vencimentos, renovados em 1897 e 1898 e também nos anos seguintes, até 1900. Neste período, instruiu, às margens do Rio Tocantins (Gazeta de Notícias, 30 de julho de 1896, quinta coluna; Jornal do Commercio, 22 de agosto de 1896, terceira coluna; Gazeta de Notícias, 13 de novembro de 1896, quarta colunaJornal do Recife, 6 de agosto de 1897, quarta coluna;  Colecção de Leis Municipaes e Vetos1897 e 1898; Gazeta de Notícias, 25 de julho de 1896, quarta colunaO Paiz, 19 de agosto de 1896, quarta colunaA Notícia, 3 de outubro e 1896, segunda coluna; O Commercio de São Paulo, 24 de julho de 1896, quarta colunaGazeta de Notícias, 17 de setembro de 1902, quinta coluna).

 

 

1897 – Seu retrato foi publicado na Tarde Literária, publicação quinzenal redigida pelo boêmio Raphael Gondry (Gazeta da Tarde, 17 de janeiro de 1897, terceira coluna).

Na peça O Filhote, de Vicente Reis, que estreou no Teatro Lucinda, em 11 de março de 1897, Leolinda era atrozmente insultada (O Paiz, 13 de março de 1897, sexta coluna).

 

 

Em torno deste ano, teria se separado de Appolonio.

Foi noticiado que já havia partido de Goiás para um aldeamento indígena (Jornal do Recife, 6 de agosto de 1897, quarta coluna).

Década de 1900 – Ao longo desta década tirou diversas licenças para tratar de sua saúde.

1901 – Apresentou o mapa que organizou das aldeias que visitou em sua missão pelo estado de Goiás e no Mato Grosso (Jornal do Commercio, 18 de junho de 1901, terceira coluna).

 

 

Pretendia fundar um centro agrícola, denominado Joaquim Murtinho, de 35 léguas de extensão, para onde várias tribos convergiriam.

 

 

1902 – Prestou uma homenagem a Augusto Severo (1864 – 1902), que havia falecido, em 12 de maio de 1902, em Paris, numa explosão do dirigível Pax, inventado por ele (A República (RN), 8 de julho de 1902, terceira coluna).

Leolinda hospedou em sua casa, na rua da Pedreira, em Cascadura, oito indígenas Pinagé que vieram ao Rio de Janeiro fazer reivindicações ao presidente da República, Campos Sales (1841-1913). Alguns estavam enfermos e, outros, amedrontados (Jornal do Brasil, 16 de setembro de 1902, penúltima colunaGazeta de Notícias, 17 de setembro de 1902, primeira coluna). Sua atuação foi comentada em uma crônica de Ferreiro-Mór, publicada em O Malho, de 18 de outubro de 1902. Um dos indígenas que hospedou, o Major Sabino, faleceu.

Em uma sessão do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil de 1902, foi discutida a proposta de um de seus conselheiros, Henrique Raffard, de criação de uma associação de proteção aos indígenas sob os aupícios da referida instituição (Jornal do Commercio, de outubro de 1902, antepenúltima coluna). Um de seus sócios correspondentes, Luiz de França Almeida e Sá (1847 – 1903), falou que um padre da região do Araguaia já havia ordenado o assassinato de Leolinda (Revista do Instituto Histórico e Geográfico do Brasil, 1903).

 

 

Na sede do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, com o apoio do sócio comendador Julio Henrique Raffard (1851 – 1906) e do general Francisco Raphael de Mello Rego (18? – 1904) foi instalado o Instituto de Protecão aos Indigenas Brasileiros, em 21 de outubro. Leolinda, cujo ativismo foi importante para a realização da iniciativa, foi, acompanhada de seu filho Alfredo Napoleão de Figueiredo, à primeira sessão ordinária, e agradeceu sua admissão como sócia benemérita. Em um breve relato de suas viagens, Leolinda afirmou que era “urgente a fundação de um núcleo de indigenas na margem do Araguaya”.

1904 – Participou de uma homenagem feita ao Barão do Rio Branco (1845 – 1912) (Jornal do Brasil, 20 de fevereiro de 1904, última coluna).

Leu uma saudação durante uma homenagem ao coronel acriano Placido de Castro (1873 – 1908), na Pensão Beethoven, onde ele estava hospedado. Um dos líderes da Revolução Acriana, era presidente da República do Acre. Em 1906, Placido tornou-se o primeiro governador do território do Acre, cargo que ocupou até sua morte, em 1908 (Jornal do Brasil, 12 de maio de 1904, oitava coluna).

1905 – Esteve no velório do escritor e jornalista José do Patrocínio ( 1853 – 1905), no Cemitério São Francisco Xavier (O Paiz, 4 de fevereiro de 1905, última coluna).

Leolinda percorreu o acampamento de Santa Cruz com alguns indígenas Xerente e apresentou um deles, Oyama Prace,  ao presidente Hermes da Fonseca  (1855 – 1923). Oyama queria entrar para a Marinha (Jornal do Brasil, 9 de outubro de 1905, sétima coluna).

 

 

1906 – Era muitas vezes ridicularizada devido à sua atuação junto aos indígenas.

 

 

Voltou a abrigar em sua casa indígenas dessa vez guaranis, que vieram ao Rio de Janeiro fazer reivindicações ao presidente da República. Muitas vezes era ridicularizada (Jornal do Brasil, 20 de junho de 1906, sétima coluna).

Foi felicitada no dia do seu aniversário com uma mensagem no jornal (Gazeta de Notícias, 14 de julho de 1906, primeira coluna).

Em 17 de julho, estava no Cais Pharoux participando da recepção ao diplomata Joaquim Nabuco (1849 – 1910), que chegava ao Rio. Na ocasião apresentou a ele três indígenas pinajés (A República, 20 de julho de 1906, primeira colunaRevista da Semana, 29 de julho de 1906).

 

 

Cerca de um mês depois, acompanhada de vários indígenas, entregou a ele uma mensagem pedindo garantias para a educação leiga dos indígenas das Américas. Na época acontecia no Rio de Janeiro o III Congresso Pan-americano. Nabuco disse que não poderia tratar do assunto porque o tema não fazia parte do evento, mas que imprimiria a mensagem e a distribuiria no Congresso (Correio da Manhã, 17 de agosto de 1906, segunda colunaJornal do Brasil, 17 de agosto de 1906, quinta coluna). O III Congresso Pan-americano aconteceu no então Pavilhão de São Luiz, futuro Palácio Monroe. Ele foi erguido no fim da rua do Passeio, na avenida Central, atual Rio Branco, ponto mais nobre da capital do Brasil. O congresso foi aberto em 23 de julho de 1906 e prolongou-se até o dia 27 de agosto de 1906.

Quando ocorreram conflitos violentos entre os povos da etnia Kaingang e os trabalhadores da construção da estrada de ferro em Bauru, Leolinda enviou telegrama ao governador de São Paulo, Jorge Tibiriçá Piratininga (1855 – 1928), oferecendo sua colaboração.

Organizou, em 1906, o Grêmio Patriótico Leolinda Daltro destinado à proteção dos indígenas (Jornal do Brasil, 2 de novembro de 1906, oitava coluna).

1907 – Com o intuito de imprimir um cunho mais nacional ao préstito popular para o general argentino Julio Roca (1843 – 1914), no Rio de Janeiro, Leolinda quis juntar um grupo de indígenas ao festejo, mas o prefeito Francisco Marcelino de Sousa Aguiar (1855 – 1935) não autorizou a iniciativa (O Pharol (MG), 11 e 12 de março de 1907, segunda coluna).

Foi uma das representantes do professorado municipal que entregou um presente a Leôncio Correia (1865 – 1950), diretor de Instrução Pública no dia de seu aniversário(Jornal do Brasil, 3 de setembro de 1907, sétima coluna).

1908 – Foi aprovado pelo Conselho Municipal do Rio de Janeiro que o cálculo de tempo de serviço de Leolinda como professora contasse desde sua investidura no cargo de professora, em 1888, até 19 de dezembro de 1901, sem descontar o tempo que passou licenciada (Jornal do Brasil, 13 de junho de 1888, quarta colunaJornal do Brasil, 30 de dezembro de 1908, última coluna).

 

 

Fundou, em outubro, a Associação de Auxílio aos Silvícolas do Brasil e ofereceu ao governo seus serviços como coordenadora de uma equipe de educação voltada aos indígenas. Adolpho Gomes de Albuquerque era o presidente da instituição, Leolinda de Figueiredo Daltro, vice-presidente, e seu filho Leobino Castilho Daltro, secretário. A criação da nova associação, que defendia o ensino laico para indígenas e a integração desses povos por vias pacíficas, foi estimulada por um fato ocorrido em 14 de setembro, quando o cientista tcheco Alberto Vojtěch Frič (1882 – 1944) denunciou o extermínio do povo Kaingang em Santa Catarina, no XVI Congresso de Americanistas, em Viena; e pela publicação, na segunda quinzena do mesmo mês de setembro de um artigo do então diretor do Museu Paulista, Hermann von Ihering (1850 – 1930), na Revista do Museu Paulista defendendo o extermínio dos indígenas (Origem e Fundação do Serviço de Proteção aos Índios (III)).

“Os actuaes índios do Estado de S. Paulo não representam um elemento de trabalho e de progresso. Como também nos outros Estados do Brazil, não se póde esperar trabalho sério e continuado dos índios civilizados e como os Caingang selvagens são um impecilio para a colonização das regiões do sertão que habitam, parece que não há outro meio, de que se possa lançar mão, senão o seu extermínio”. 

1909 – Indígenas Xerente foram à redação do jornal O Paiz pedindo ajuda para seu aldeamento às margens do Tocantins, onde são escorraçados pelas legiões de missionários. Uma das reivindicações dos indígenas era a presença de Leolinda para lhes dar instrução e os guiar na organização e na defesa de seu aldeamento (O Paiz, 29 de janeiro de 1909, sexta colunaA Imprensa, 11 de fevereiro de 1909, quarta coluna). Ela então enviou para o ministro Miguel Calmon (1879 – 1935), Ministro e Secretário de Estado dos Negócios da Indústria, Viação e Obras Públicas, o pedido para ser nomeada missionária civilizadora dos indígenas de Goiás. A resposta foi a seguinte:

 

 

Os indígenas Xerente pediram que Leolinda fosse aposentada para que pudesse ir com eles para a aldeia (O Malho, 13 de março de 1909).

 

 

 

 

Foi delegada do Primeiro Congresso Brasileiro de Geografia, que se realizou no Palácio Monroe, entre 7 e 15 de setembro. Na comissão de antropologia e etnografia apresentou uma Moção sobre os resultados de suas observações nos sertões de Goiás e Mato Grosso. Seu trabalho completo, intitulado Memória, foi incluído nos anais do evento e seu teor principal refere-se a convicção indigenista de Daltro: retirar da esfera religiosa o privilégio de civilizar os indígenas e transferi-lo para a instância governamental. Foi instalada a Associação e Proteção e Auxílios aos Silvículas do Brasil e Leolinda tornou-se a segunda secretária da instituição (O Paiz, 7 de setembro de 1909, segunda colunaO Paiz, 14 de setembro de 1909, última colunaGazeta de Notícias, 15 de setembro de 1909, segunda colunaGazeta de Notícias, 18 de setembro de 1909, quinta coluna).

 

 

O então prefeito do Distrito Federal, Inocêncio Serzedelo Correia (1858 – 1932) abriu um crédito especial para pagamento de diferença de vencimentos a Leolinda (O Magistério, 30 de novembro de 1909).

 

 

Em 23 de dezembro, fundou a Junta Feminina Hermes – Venceslau, que apoiava Hermes da Fonseca (1855 – 1923) e Venceslau Brás (1868 – 1966) para a presidência e vice-presidência da República, respectivamente. Sob a presidência de Leolinda, a ata da nova associação expressava seu protagonismo como ativista política pelos direitos das mulheres (A Imprensa, 25 de fevereiro de 1910, quarta colunaO Paiz, 27 de fevereiro de 1910, primeira colunaGazeta de Notícias, 18 de setembro de 1918, terceira coluna).

1910 -  Em 1º de março, realização das eleições em que a chapa de Hermes da Fonseca e Venceslau Brás venceu a de Rui Barbosa (1849 – 1923) e Albuquerque Lins (1852 – 1926).

 

 

Participou da recepção ao marechal Hermes da Fonseca, que voltava ao Rio de Janeiro, vindo do Rio Grande do Sul (A Imprensa, 16 de março de 1910, primeira coluna).

Participou do préstito que levou o busto de Washington, adquirido por subscrição popular, ao Teatro Municipal. O recém eleitro presidente da República, Hermes da Fonseca, estava presente (Jornal do Brasil, 4 de abril de 1910, antepenúltima coluna).

Leolinda recebeu da Prefeitura do Rio de Janeiro uma gratificação adicional sobre seus vencimentos de professora. Houve uma polêmica a respeito deste assunto envolvendo o marechal Hermes da Fonseca e um funcionário da prefeitura do Rio de Janeiro (O Paiz, 19 de abril de 1910O Paiz, 22 de abril de 1910, quinta colunaO Século, 22 de abril de 1910, primeira coluna).

Enviou à jornalista e escritora Camen Dolores (1852 – 1910), pseudônimo de Emília Moncorvo Bandeira de Melo, um exemplar do periódico A Política. Em resposta Carmen Dolores declarou que nem era republicana nem feminista (O Paiz, 19 de junho de 1910, segunda coluna). Carmen Dolores faleceu poucos meses depois, em 16 de agosto de 1910. Foi uma das mais influentes literatas dos primeiros anos do século XX, tendo começado a escrever ao ficar viúva. Escreveu entre 1905 e 1910, a coluna “A Semana”, no jornal O Paiz. Quando faleceu, foi substituída por Gilberto Amado. Foi a primeira brasileira a ter a distinção de literata em sua certidão de óbito a  (Fon-Fon, 26 de junho de 1915, segunda coluna).

Apesar de ter declarado não ser feminista a Leolinda, abordou temas bastante incendiários, que tratavam da emancipação da mulher: o direito ao divórcio à educação e à igualdade no trabalho. De fato não atuou na luta pelo voto feminino.

 

 

Por serviços prestados à educação de indígenas no Brasil foi proposto que Leolinda tornasse-se diretora honorária da União Cívica Brasileira (O Paiz, 5 de agosto de 1910, segunda coluna).

O conferencista português João Rodrigues Moreira realizou a palestra Mulheres ilustres brasileiras e uma delas era Leolinda Daltro (A Imprensa, 1º de setembro de 1910, terceira coluna).

Anunciou a fundação da revista Tribuna Feminina, que só seria lançada em 1916 (A Imprensa, 11 de outubro de 1910, primeira coluna).

Fez um discurso em homenagem à primeira-dama do Brasil, Orsina da Fonseca (1879 – 1912), de quem era grande amiga (O Paiz, 19 de outubro de 1910, primeira coluna).

O recém criado Partido Republicano Feminino participou do préstito que acompanhou Hermes da Fonseca do Arsenal de Marinha à sua residência, onde Leolinda leu um soneto em homenagem ao marechal (A Imprensa, 26 de outubro de 1910, primeira colunaJornal do Brasil, 27 de outubro de 1910, sexta coluna).

 

 

Era uma das personalidades retratadas no Álbum Republicano, uma homenagem da Junta Republicana Hermes- Venceslau ao presidente da República, Hermes da Fonseca, ofertado a ele (O Paiz, 12 de novembro de 1910, primeira coluna).

Em 17 de dezembro, foi publicado no Diário Oficial o texto do estatuto do Partido Republicano Feminino (PRF), fundado para mobilizar as mulheres em torno do direito ao voto feminino e Leolinda passou a presidi-lo. Sua sede ficava na rua General Câmara, 387, e o prédio foi cedido pelo então prefeito do Rio de Janeiro, Serzedelo Corrêa (1858 – 1932)  (Jornal do Brasil, 27 de outubro de 1910, sexta coluna). No dia 18 de agosto de 1911, o partido recebeu o registro oficial, depositado no 1º Ofício de Títulos e Documentos do Distrito Federal.

No mês de dezembro de 1910, reuniram-se assim na cidade do Rio de Janeiro professoras, escritoras e donas de casa, somando ao todo 27 mulheres, que concordaram em assinar a ata de fundação de um partido político que tinha como objetivo integrá-las na sociedade política. O grupo buscava representar as mulheres brasileiras na capital federal e em todos os estados do Brasil, promovendo a cooperação entre elas na defesa das causas relativas ao progresso do país e de sua cidadania. Assim, o programa do partido destacava a luta pelo sufrágio feminino como primeiro passo para a plena incorporação das mulheres ao mundo público. 

CPDOC

Assim era composta sua primeira diretoria: presidente, como já mencionado, Leolinda de Figueiredo Daltro; primeira vice-presidente, Maria Carlota Vaz de Albuquerque; segunda vice-presidente, Emília Torterolli Araldo; primeira-secretária, Hermelinda Fonseca da Cunha e Silva; segunda-secretária, Gilka da Costa Melo Machado; tesoureira, Goldemira Moreira dos Anjos; arquivista, Áurea Daltro; procuradora, Alice Esperança Arnosa; zeladora, Vitalina Faria Sena.

1911 - Em 17 de junho, inaugurou a Escola de Ciências, Artes e Profissões Orsina da Fonseca, que fundou e dirigiu, com a presença da primeira-dama Orsina da Fonseca (1879 – 1912) e do presidente Hermes da Fonseca (1855 – 1923). O discurso de abertura foi feito pela poeta e ativista Gilka da Costa Melo Machado. Na escola, que era gratuita, eram ministradas aulas de alfaiataria, datilografia, enfermagem, tipografia e até tiro e esgrima (Jornal do Brasil, 15 de outubro de 1910, última colunaO Paiz, 17 de junho de 1911, penúltima colunaA Imprensa, 17 de junho de 1911, terceira colunaO Paiz, 19 de junho de 1911, segunda coluna).

 

 

Em 1918, foi dada à instituição uma subvenção anual (Collecção de Leis Municipaes, 1918).

 

 

No livro A Vida Vertiginosa, seu autor, João do Rio, citou Leolinda na crônica As impressões dos Bororos:

Como nunca tive a coragem civilisadora da professora Daltro, só consigo approximar-me dos authenticos proprietários deste paiz, quando por cá apparece alguma caravana de sujeitos de nariz esborrachado, a pedir ao Papae Grande instrumentos agrários“.

Fundou a Linha de Tiro Rosa da Fonseca, nome da mãe do presidente Hermes da Fonseca. Posteriormente denominado batalhão feminino, era presença frequente nas festas cívicas do Rio de Janeiro (A Imprensa, 20 de outubro de 1911, quinta coluna).

Teve concedida pela Prefeitura do Rio de Janeiro licenças de saúde neste ano, no seguinte e em 1915 (O Paiz, 7 de setembro de 1911, primeira colunaO Paiz, 23 de junho de 1912O Paiz, 10 de abril de 1915, penúltima coluna).

Para comemorar a entrada da primavera organizou um préstito com alunas da Escola Orsina da Fonseca, que foi até o Palácio do Catete, onde foram recebidas pelo presidente e pela primeira-dama. O colégio já contava com mais de mil alunas (O Paiz, 23 de setembro de 1911, quinta colunaJornal do Brasil, 23 de setembro de 1911, primeira coluna).

 

 

O Partido Republicano Feminino dedicava-se à realização de atividades de cultura física e também científica – organizou uma escola de enfermeiras  (O Paiz, 21 de outubro de 1911, segunda colunaO Paiz, 25 de outubro de 1911, segunda coluna).

1912 - Em janeiro, exposição de trabalhos realizados pelas aluna da Escola Orsina da Fonseca em 1911, Na ocasião, o general Serzedelo Corrêa (1858 – 1932) elogiou a gestão de Leolinda (A Imprensa, 14 de janeiro de 1912).

 

 

Lecionava em uma escola municipal que ficava na rua Coronel Cabrita, nº 6, no bairro de São Cristóvão. Teve aprovada pela Prefeitura verba adicional ao seus vencimentos (O Paiz, 15 de fevereiro de 1912O Paiz, 22 de março de 1912, quinta coluna).

Com a presença de mais de 100 sócias foi realizada, na Escola Orsina da Fonseca, uma assembleia para alterar os estatutos do Partido Republicano Feminino, cuja secretária-geral era a poetisa Gilka da Costa Melo Machado (O Paiz, 22 de junho de 1912, penúltima coluna).

Com cerca de 80 senhoras do Partido Republicano Feminino, Leolinda foi ao Cemitério de Jacarepaguá prestar uma homenagem fúnebre ao político e jornalista republicano Quintino Bocaiuva (1836 – 1912), seu amigo e padrinho de sua filha Áurea. Na ocasião, discursou (O Paiz, 19 de julho de 1912, terceira coluna).

 Em 30 de novembro, falecimento da primeira-dama e grande amiga de Leolinda, Orsina da Fonseca (Jornal do Brasil, 5 de dezembro de 1912, terceira coluna).

1913 –  Sua filha, Áurea Daltro, fazia parte do corpo docente da Escola Orsina da Fonseca (O Paiz, 25 de maio de 1913, quarta coluna).

Fez um pequeno reparo ao artigo escrito por Gilka Melo da Costa Machado publicado na edição de A Faceira, outubro e novembro de 1913. Segundo Leolinda, que não foi citada no referido artigo, ela teria sido a responsável pela semente da emancipação feminina no Brasil (A Faceira, outubro e novembro de 1913A Faceira, dezembro de 1913, segunda coluna).

Foi, com alunas da Escola Orsina da Fonseca, ao Cemitério de Jacarepaguá, prestar uma homenagem a Orsina da Fonseca, que havia falecido em de 1912 (O Paiz, 3 de novembro de 1913, penúltima coluna).

 

 

1914 – Leolinda estava presente na inauguração da Escola Prática e Profissional em uma das salas da Imprensa Nacional (A Época, 7 de janeiro de 1914, quinta coluna).

O Partido Republicano Feminino tinha cerca de duas mil associadas (Jornal do Brasil, 4 de junho de 1914, terceira coluna).

1915 – Envolveu-se numa confusão com um recebedor dos bondes da Light (Gazeta de Notícias, 19 de julho de 1915, última coluna).

Leolinda aposentou-se como professora catedrática (A Noite, 24 de julho de 1915, quarta colunaO Paiz, 6 de agosto de 1915, segunda coluna).

O Partido Republicano Feminino, sob a presidência de Leolinda, inaugurou a Escola Cívica Pinheiro Machado para adultos do sexo masculino, que funcionaria todas as noites e provisoriamente na Escola Orsina da Fonseca. Contava no início com 25 alunos que após a preleção inaugural decidiram fundar o jornal Atalaia e também uma linha de tiro (O Paiz, 8 de outubro de 1915, última coluna).

1916 - A Prefeitura do Rio de Janeiro anunciou que despejaria judicialmente a Escola Orsina da Fonseca, que ocupava um prédio na rua General Câmara, que pertencia à Municipalidade. Mas o despejo não se cumpriu (O Paiz, 20 de janeiro de 1916, quarta coluna;  Almanak Laemmert, 1926).

Em entrevista à Gazeta de Notícias, de 21 de janeiro, de 1916, falou sobre sua vida, sobre a fundação da Escola Orsina da Fonseca que, segundo ela, ensinava dentre vários ofícios, a fotografia (Gazeta de Notícias, 21 de janeiro de 1916 ).

 

 

Leolinda, à frente do Partido Republicano Feminino, propôs a criação do donativo patriótico, com o qual todo o funcionalismo público seria conservado com os vencimentos atuais (A Lanterna, 28 de novembro de 1916Jornal do Brasil, 19 de novembro de 1931, terceira coluna).

Lançamento do primeiro número do periódico quinzenal A Tribuna Feminina, dirigido por Leolinda (A Faceira, 1º de dezembro de 1916, última colunaA Federação, 7 de dezembro de 1916, quarta coluna).

 

 

Em dezembro, Leolinda encaminhou à Câmara uma representação em nome do Partido Republicano Feminino, sobre o voto feminino:

“A grande maioria do professorado municipal desta cidade é constituído por mulheres. São elas que dão instrução aos futuros cidadãos, que têm sobre os ombros a difícil tarefa de preparo das novas gerações. Se a lei lhes deu tão grande responsabilidade; se o Estado reconhece a sua capacidade para tão alta função, qual seja a de educar e instruir a mocidade; se a Escola Normal, Oficial, lhes conferiu um diploma que lhes habilita para esse espinhoso mister — como admitir que esse mesmo Estado possa negar-lhes capacidade para a simples escolha dos que devam ser os representantes do país nas assembleias legislativas e nos altos postos da administração pública? É o maior dos absurdos.”

 

 

 

1917 - O Partido Republicano Feminino apoiou o rompimento das relações diplomáticas do governo brasileiro com a Alemanha (A Época, 28 de abril de 1917, primeira colunaGazeta de Notícias, 28 de abril de 1917).

 

 

Requereu seu alistamento eleitoral, mas seu pedido foi recusado (O Imparcial, 10 de fevereiro de 1917, última colunaA República, 13 de fevereiro de 1917, segunda colunaJornal do Brasil, 23 de agosto de 1919, terceira coluna).

Carlos Rubens publicou um artigo exaltando a atuação da professora Leolinda Daltro (A Faceira, 1º de agosto de 1917).

O deputado Mauricio de Lacerda (1888 – 1959) propôs uma emenda à lei eleitoral para estender o alistamento eleitoral para as brasileiras maiores de 21 anos. Foi rejeitada pela Comissão de Constituição e Justiça. Tal atitude da comissão parece ter inspirado uma reação por parte do PRF, através de uma passeata de mulheres pelas ruas do Rio de Janeiro, em novembro de 1917, como uma resposta ao repúdio à proposta de Lacerda. Seguindo o exemplo das feministas de outros países as partidárias do PRF foram convocadas para participar de uma nova manifestação pública, na qual cerca de 84 mulheres foram para as ruas protestar (KARAWEJCZYK, 2014).

O Partido Republicano Feminino manifestou-se, oferecendo os serviços de suas associadas em solidariedade à participação do Brasil na Primeira Guerra Mundial (O Dia, 20 de novembro de 1917). A delegação do Tiro Feminino, às vezes identificado como batalhão feminino, era formado por 89 soldadas do Tiro Feminino, alunas da Escola Orsina da Fonseca. Elas usavam uniforme militar e faziam treinamento em praças públicas do Rio de Janeiro. A iniciativa foi muito criticada e ridicularizada. Em 1920, o batalhão feminino foi rebatizado como Legionárias da Paz.

 

 

1918 - Inauguração, no Campo de Santana, da primeira Escola Popular, uma iniciativa do Partido Republicano Feminino (Correio da Manhã, 14 de julho de 1918, sétima coluna).

Lançou o livro Início do Feminismo no Brazil – subsídios para a história (Gazeta de Notícias, 18 de setembro de 1918, terceira coluna).

 

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Visitou a redação do jornal A Época com Izabel de Souza Matos ou Izabel de Mattos Dillon (1861 – 1920), identificada no artigo publicado no referido periódico, em 24 de setembro de 1918, como a primeira eleitora do Brasil. Leolinda se queixou da falta de atenção da imprensa na divulgação do trabalho dela e do Partido Republicano Feminino em prol do feminismo no Brasil (A Época, 24 de setembro de 1918).

 

 

 

O Partido Republicano Feminino celebrou a posição do presidente dos Estados Unidos, Woodrow Wilson (1913-1921), pedindo ao legislativo de seu país a aprovação do voto feminino (A Época, 2 de outubro de 1918).

 

 

Ainda convalescendo da gripe espanhola, Leolinda ofereceu ao prefeito do Rio de Janeiro, Amaro Cavalcanti (1849 – 1922), o edifício da Escola Orsina da Fonseca para tornar-se uma enfermaria de atendimento a mulheres e crianças desamparadas e o trabalo das 20 enfermeiras da instituição para ajudar no combate à epidemia. Na carta ao prefeito revelou que, além dela, 14 membros de sua família tinham contraído a gripe (A Época, 28 de outubro de 1918, quarta colunaCorreio da Manhã, 11 de novembro, sétima coluna).

 

 

1919 – Lançou o opúsculo Pela Velhice (A Noite, 8 de janeiro de 1919, segunda coluna).

O ministro da Guerra, Alberto Cardoso de Aguiar (1864 – 1935) atendeu à solicitação de Leolinda no sentido de oferecer aulas de instrução militar às alunas da Escola Orsina da Fonseca (Jornal do Brasil, 11 de julho de 1919, sexta coluna).

Participou de uma manifestação a favor do prefeito do Rio de Janeiro, Paulo de Frontin (1860 – 1933) (A Razão, 29 de julho de 1919, quarta coluna).

Foi noticiado que Leolinda havia sido escolhida para representar as classes trabalhadoras na Conferência Trabalhista de Washington, em outubro de 1919 (Jornal do Brasil, 26 de setembro de 1919, penúltima coluna).

Lançou sua candidatura ao cargo de intendente municipal pela cidade do Rio de Janeiro. Não foi eleita (A Noite, 24 de setembro de 1919, primeira colunaA Época, 7 de outubro de 1919, quarta coluna; Revista Feminina, outubro de 1919O Paiz, 22 de outubro de 1919, terceira colunaGil Blas, 13 de novembro de 1919Jornal do Brasil, 8 de dezembro de 1919, última coluna).

 

“Como mulher que sou, com um sentido superior de altruísmo, tenho me preocupado com a necessidade de minorar o sofrimento humano e de se atingir uma melhor distribuição da Justiça.”

Revista Feminina, outubro de 1919

 

 

1920 – Leolinda negava sua participação e a do Batalhão do Partido Republicano Feminino em um homenagem ao novo prefeito, Sá Freire (1870 – 1947) (Gazeta de Notícias, 24 de janeiro de 1920, quarta coluna).

 

 

O voto feminino e Leolinda foram alvo de zombaria no desfile dos clubes do carnaval carioca (Jornal do Brasil, 20 de fevereiro de 1920, última coluna).

Em entrevista publicada na capa da Gazeta de Notícias, Leolinda anuncia a adoção de um novo sistema, norte-americano, de ensino prático intuitivo na Escola Orsina da Fonseca e queixa-se do tratamento da imprensa e das autoridades em relação a seu trabalho. comenta a iminente visita dos reis belgas ao Brasil e também sobre a comemoração do centenário da Independência(Gazeta de Notícias, 22 de março de 1920, quarta coluna).

Leolinda havia perdido um memorial que havia dirigido ao Congresso Pan-americano (Jornal do Brasil, 4 de junho de 1920, quinta coluna).

Foi com alunas da Escola Orsina da Fonseca saudar o novo prefeito do Rio de Janeiro, Carlos Sampaio (1861 – 1930) (Jornal do Brasil, 10 de junho de 1920, última coluna).

Leolinda apresentou um requerimento ao prefeito pedindo para ser nomeada despachante municipal (Gazeta de Notícias, 31 de julho de 1920, quarta coluna; O Paiz, 31 de julho de 1920, sexta coluna).

À frente de um grupo de feministas, Leolinda fez uma consulta acerca do conceito de cidadão a renomados juristas, dentre eles Clóvis Bevilacqua (1859 – 1944) e Rui Barbosa (1849 – 1923), (O Norte (PB), 10 de setembro de 1920, quarta colunaRevista Feminina, outubro de 1920).

A possível participação do Batalhão Feminino do Brasil sob o comando de Leolinda na recepção aos reis da Bélgicas que visitariam o Brasil, entre 19 de setembro e 15 de outubro de 1920, foi criticada (D. Quixote, 15 de setembro de 1920).

 

 

Publicação do artigo O voto às brasileiras, no qual Leolinda é citada (Revista Feminina, outubro de 1920).

Em nome do Partido Republicano Feminino, que ainda presidia, convidou a Rainha Elizabeth da Bélgica (1876 – 1965), em visita com seu marido o Rei Alberto I, ao Brasil, para um piquenique em Paquetá. Por falta de espaço na agenda, a soberana declinou do convite (Jornal do Brasil, 7 de outubro de 1920, terceira coluna).

Publicou o livro Da catequese dos índios do Brasil (notícias e documentos para a história). Leolinda justificou a publicação tardia de seus registros alegando que a idéia da educação laica dos indígenas fora recebida com indiferença e frieza e a tornara alvo de ridículo (Jornal do Brasil, 9 de dezembro de 1920, quinta colunaGazeta Suburbana, 25 de dezembro de 1920, primeira colunaVida Carioca, 6 de janeiro de 1921).

 

 

 

 

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1921 – Publicação de um artigo exaltando a atuação de Leolinda e também sua conduta pessoal (Vida Carioca, 6 de janeiro de 1921).

 

 

Na edição de maio de A Informação Goyana, a vida de Leolinda foi exaltada.

 

 

Na coluna “Eleganpcias”, Leolinda revelou seus livros de cabeceira - Justiça e Assistência, de Ataulfo de Paiva (1867 – 1955); e o primeiro volume de versos de Alberto de Oliveira (1857 – 1937), cujo poema Borboleta Azul (Sonetos e Poemas, página 33), havia sido, segundo Leolinda, inspirado nela (D. Quixote, 1º de junho de 1921, segunda coluna). Na edição de junho da mesma revista, numa enquete realizada entre acadêmicos diante da discussão da entrada de mulheres na Academia Brasileira de LetrasRui Barbosa (1849 – 1923) declarou que seu voto seria pelo ingresso de Leolinda Daltro.

Foi entrevistada: em pauta o direito do voto feminino (Gazeta de Notícias, 4 de junho de 1921, terceira coluna).

 

 

Recebeu na Escola Orsina da Fonseca os intendentes argentinos que faziam parte do Conselho Deliberante de Buenos Aires, em visita ao Brasil (Jornal do Brasil, 14 de setembro de 1921, primeira coluna).

Na Escola Orsina da Fonseca, inauguração da Escola Noturna Dr. Nascimento Silva destinada ao combate ao analfabetismo (Jornal do Brasil, 17 de novembro de 1921, quinta coluna; Jornal do Brasil, 21 de setembro de 1922, quarta coluna).

1922 – O nome de Leolinda foi lembrado para ser uma das representantes do Brasil na I Conferência Pan-americana de Mulheres, que se realizaria, em Baltimore, nos Estados Unidos, entre os dias 20 a 23 de julho, patrocinado pela National League of Women Voters, uma divisão da National Woman Suffrage Association (NAWSA), associação norte-americana vinculada ao movimento abolicionista e sufragista, fundada em 1868, em Nova York.  A também feminista Bertha Lutz (1894 – 1976) foi a escolhida como a representante oficial do governo brasileiro (O Combate, 5 de janeiro de 1922, segunda coluna).

Em carta para o jornal A Noite negou que houvesse recebido uma quantia de dinheiro do Banco Nacional Brasileiro para patrocinar a campanha do senador Nilo Peçanha (1867 – 1924) à presidência do Brasil (Diário de Notícias, 19 de março de 1922, quarta colunaA Noite, 22 de março de 1922, última coluna).

Foi receber o marechal Hermes da Fonseca (1855 – 1923) no Palace Hotel. Ele havia sido preso no dia 2 de julho. Este foi um dos eventos que antecederam a Revolta do Forte de Copacabana. O marechal Hermes foi de novo preso e só foi solto, em janeiro de 1923 (O Imparcial, 4 de julho de 1922; O Combate5 de julho de 1922, primeira coluna).

A ideia da construção de um monumento em homenagem à Princesa Isabel foi do Partido Republicano Feminino, em dezembro de 1921. Leolinda pedia que fosse aberta uma subscrição popular para financiamento do monumento e colocava para venda durante a Exposiçao de 1922 exemplares de seu livro, Da catequese dos índios do Brasil, cuja renda reverteria para esta causa. Esteve presente ao lançamento da pedra fundamental do monumento, na Praça XV, em 28 de setembro de 1922, quando leu a ata inaugural (O Jornal, 14 de dezembro de 1921, quinta colunaJornal do Commercio, 29 de setembro de 1922, quinta colunaO Jornal, 29 de setembro de 1922, primeira colunaJornal do Brasil, 22 de outubro de 1922, sétima coluna).

1923 – Foi destinado pelo governo à Escola Orsina da Fonseca uma quantia para a reforma de seu mpbiliário, mas até o momento o dinheiro ainda não havia sido dosponibilizado. No artigo, destacam-se os esforços pessoais de Leolinda para manter a instituição (O Paiz, 13 de junho de 1923, última coluna).

Alunas se formaram em radiotelegrafia na Escola Orsina da Fonseca (Jornal do Brasil, 15 de novembro de 1923).

1924 – Em 15 de abril, falecimento de Áurea Daltro Cardoso de Gusmão, filha caçula de Leolinda (Jornal do Brasil, 17 de abril de 1924, quarta colunaJornal do Brasil, 22 de abril de 1924, última coluna).

1925 – Foi muito elogiada a exposição dos trabalhos das alunas da Escola Orsina da Fonseca, que Leolinda seguia dirigindo (Jornal do Brasil, 5 de agosto de 1925, primeira coluna).

Apoiava a chapa formada por Luis Gonçalves Nogueira e Fortunato Campos de Medeiros para o Conselho de Serventuários Municipais (O Brasil, 18 de outubro de 1925, segunda coluna).

Tendo à frente Leolinda, o Partido Republicano Feminino e a Escola Orsina da Fonseca estiveram presentes, com seus estandartes, ao desembarque, do engenheiro e ex-prefeito do Rio de Janeiro, Paulo de Frontin (1860 – 1933), no Rio de Janeiro (Annuario das Estações Sportivas: Derby Club, 1925).

1926 – Em um artigo sobre a história da luta pela emancipação feminina e pelo voto feminino no Brasil a liderança de Leolinda foi adjetivada de pitoresca (Frou-Frou, fevereiro de 1926).

Concorreu ao cargo de intendente do Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, 2 de março de 1926, segunda coluna).

Com a presença do prefeito Antônio da Silva Prado Júnior (1880 – 1955), foi inaugurado o Centro das Escoteiras da Redemptora, na Escola Orsina da Fonseca. Em seu discurso afirma ter sido a primeira escoteira do Brasil (Jornal do Brasil, 10 de agosto de 1926, primeira colunaO Paiz, 21 de novembro de 1926, quinta coluna; O Brasil, 24 de novembro de 1926, quarta colunaJornal do Brasil, 9 de abril de 1927).

 

 

1927 – A escritora Rachel Prado (1891 – 1943), em entrevista ao jornal Correio da Manhã, referiu-se a Leolinda como a pioneira no Brasil na luta pelo voto feminino, como a nossa Pankhurst, aludindo à famosa e fundamental sufragista britânica Emmeline Pankhurst (1858 – 1928) (Correio da Manhã, 6 de dezembro de 1927). No jornal A Manhã, de 30 de novembro de 1928, a escritora de novo exaltou a atuação de Leolinda como precursora do feminismo e referiu-se a um artigo escrito por Agrippino Nazareth em que ele também elogiava a veneranda educadora (A Manhã, 30 de novembro de 1928, quarta coluna).

Leolinda declarou em entrevista que o voto feminino era seu verdadeiro objetivo (Jornal do Brasil, 18 de dezembro de 1927).

 

 

“O preparo do terreno para a conquista de hoje foi feito por mim, à custa de muito humorismo grosseiro, de muita chacota, de muitas descomposturas! Houve uma época em que durante anos seguidos eu era figura obrigatória em carros carnavalescos, num ridículo medonho!”

Leolinda sobre o voto feminino no Jornal do Brasil, 18 de dezembro de 1927

1928 – O orçamento municipal destinou uma quantia para a aquisição de material para a Escola Orsina da Fonseca. Na época, o prefeito do Rio de Janeiro ainda era Antônio da Silva Prado Junior (1880 – 1955) (O Paiz, 14 de janeiro de 1928, quinta coluna).

1929 - Reivindicava para si a primeira iniciativa de estender o escotismo às mulheres (Diário Carioca, 27 de abril de 1929).

 

 

Leolinda foi homenageada na Escola Orsina da Fonseca, que ainda dirigia, pelas Escoteiras da Redemptora (Jornal do Brasil, 17 de julho de 1929, antepenúltima coluna).

1930 – Foi homenageada pelo Conselho Metropolitano de Escoteiros (Diário Carioca, 12 de julho de 1930, primeira coluna; Correio da Manhã, 17 de julho de 1930, penúltima coluna).

Leolinda é a protagonista do artigo A Pioneira do Feminismo (Diário Carioca, 18 de julho de 1930, última coluna).

No artigo Justiça Tardia, a escritora  Iveta Ribeiro (1886 – 1962) chama atenção para a importância da atuação de Leolinda ao longo de sua vida (Correio da Manhã, 20 de julho de 1930).

 

 

Leolinda foi homenageada na coluna “A esmo…”, escrita pela poetisa e jornalista Rosalina Coelho Lisboa (1900 – 1975) e também no artigo A professora Daltro, escrito pelo jornalista Benjamin Costallat (1897 – 1961) (A Pacotilha(MA), 18 de agosto de 1930, penúltima colunaA Pacotilha (MA), 2 de setembro de 1930, penúltima coluna).

Apoiou a Revolução de 30 (A Batalha, 1º de novembro de 1930, primeira coluna).

Sofreu um acidente de carro (Correio da Manhã, 12 de novembro de 1930, sétima coluna).

1931 – Com a presença de Leolinda, cujo trabalho foi considerado uma obra de esforço e abnegação, exposição de trabalhos realizados na Escola Orsina da Fonseca (Jornal do Brasil, 6 de março de 1931Jornal do Brasil, 3 de fevereiro de 1932).

Em entrevista, Leolinda contou porque se tornou feminista (A Batalha, 2 de abril de 1931).

 

Falecimento de seu filho, Alfredo Napoleão de Figueiredo (Diário de Noticias, 9 de maio de 1931, quinta coluna).

Publicação de uma carta da escritora Maria Lacerda de Moura (1887 – 1945) a também escritora Rachel Prado, onde comenta aspectos do II Congresso Internacional Feminista e a polêmica em torno de uma homenagem que Rachel queria fazer a Leolinda Daltro como pioneira do feminismo no Brasil que foi  como dito no artigo Phosphoros Femininos, escrito por Victoria Regia, abruptamente negada. Segundo o artigo, Daltro foi discriminada por ser pobre, idosa, viúva e por não ter a cultura das feministas da atualidade, que não tiraria o valor da luta inicial pelos direitos da mulher empreendida pela professora  (Diário Carioca, 7 de julho de 1931; Diário Carioca, 21 de julho de 1931, segunda coluna).

 

 

 

Algumas participantes do II Congresso Internacional Feminista foram fazer uma visita a Leolinda (Fon-Fon, 11 de julho de 1931).

1932 - Com a presença da primeira-dama Darcy Vargas (1895 – 1968), realização da exposição de trabalhos da Escola Orsina da Fonseca, quando Leolinda falou sobre a fundação do estabelecimento (Diário Carioca, 23 de janeiro de 1932).

Foi publicada uma fotografia de uma homenagem das Escoteiras da Redemptora ao príncipe dom Pedro de Orleans (1875-1940), em 1930 (Brasil Feminino, maio de 1932).

 

No dia do aniversário de Leolinda, 14 de julho, o Jornal do Brasil publicou um artigo em sua homenagem onde elencou os principais feitos dela, dentre eles a fundação da Escola Orsina da Fonseca e do Partido Republicano Feminino, iniciativa que relacionou à recente nomeação de duas mulheres, Bertha Lutz (1894 – 1976) e Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993), para participar da elaboração do ante-projeto da nova Constituição. Foram também lembradas outras iniciativas de Leolinda como a criação da Escola de Enfermeiras e da Linha de Tiro Rosa da Fonseca (Jornal do Brasil, 14 de julho de 1932, sexta coluna).

Leolinda enviou a Benevenuto Berna (1865 – 1940), presidente do Centro Carioca uma carta confiando à instituição a tarefa de perseverar na campanha para erigir um monumento em homenagem à Princesa Isabel, uma iniciativa tomada por ela em dezembro de 1921. A pedra fundamental da estátua foi lançada em 1922, mas a obra não foi adiante. Alegou que seu estado de saúde precário e abatimento pela morte de seus filhos Áurea, em 1924, e Alfredo, em 1931, a impediam de prosseguir na luta por este ideal. Em artigo de 13 de maio de 1938, a escritora Rachel Prado (1891 – 1943) cobrava a construção da estátua (Jornal do Brasil, 23 de agosto de 1932, terceira colunaCorreio da Manhã, 14 de outbro de 1932, antepenúltima colunaCorreio da Manhã, 4 de novembro de 1932, primeira colunaJornal do Brasil, 13 de maio de 1938, terceira coluna).

Fazia parte de uma comissão da Aliança Nacional de Mulheres, dirigida por Natércia da Cunha Silbeira (1905 – 1993) e foi homenageada pela instituição (Jornal do Brasil, 31 de janeiro de 1932, quarta colunaJornal do Brasil, 31 de dezembro de 1932).

 

 

1933 – Uma comissão formada por alunas da Escola Orsina da Fonseca participou do cortejo fúnebre do ex-prefeito Paulo de Frontin (1860 – 1933), que sempre apoiou o referido colégio (Jornal do Brasil, 17 de fevereiro de 1933, quinta coluna).

Foi candidata pelo Partido Nacional do Trabalho para deputada constituinte, mas não se elegeu (A Noite, 1º de maio de 1933Revista da Semana, 20 de maio de 1933Jornal do Brasil, 31 de maio de 1933, penúltima coluna).

 

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Leolinda sobre a conquista do voto feminino (Revista da Semana, 20 de maio de 1933):

 

 

 

1934 – Integrava a comissão fiscal da Aliança Nacional das Mulheres (Jornal do Commercio, 24 de janeiro de 1934, quinta coluna).

Deu um entrevista para o jornal A Noite, quando elencou a criação da Escola Orsina da Fonseca e a fundação do Partido Republicano Feminino como suas maiores realizações. Revelou que o PRF estava alistando mulheres para votar no Colégio Amazonas, na rua Barão de Mesquita, dirigido por sua filha, a professora Alcina de Figueiredo Siqueira Amazonas (A Noite3 de agosto de 1934).

 

 

 

No artigo Uma heroína, Floriano de Lemos (1885 – 1968) exaltou as iniciativas de Leolinda e os obstáculos que ela enfrentou por seu pioneirismo (Correio da Manhã, 27 de setembro de 1934, primeira coluna).

1935 - Em 30 de abril foi atropelada por um automóvel quando atravessava a Praça da República. Após ficar internada por alguns dias na Casa de Saúde Pedro Ernesto, onde teve sua perna amputada, faleceu em 4 de maio. Foi enterrada no Cemitério São João Batista. Seus filhos vivos eram, na ocasião, o advogado Oscar Daltro e o engenheiro Leobino Daltro e a professora Alcina Siqueira Amazonas.

 

 

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A advogada e feminista Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993) manifestou-se no enterro de Leolinda, que fazia parte da comissão fiscal da Aliança Nacional de Mulheres, presidida por ela (Jornal do Brasil, 3 de maio de 1935, primeira colunaDiário Carioca, 4 de maio, quinta colunaJornal do Brasil, 4 de maio de 1935, quarta colunaA Nação, 5 de maio de 1935Correio da Manhã, 5 de maio de 1935, sexta colunaJornal do Commercio, 6 e 7 de maio de 1935, quarta colunaJornal do Brasil, 8 de maio de 1935, quarta colunaO Malho, 9 de maio de 1935Revista da Semana, 11 de maio de 1935Jornal do Brasil, 15 de maio de 1935, quarta coluna).

Seu epitáfio do cemitério São João Batista:

Leolinda Figueiredo Daltro

Mamãe – nosso ourinho

14/07/1859 04/05/1935

Precursora do verdadeiro feminismo pátrio

Propugnadora da nobilitação dos humildes e humanização dos selvícolas

 

Na Câmara dos Deputados no Rio de Janeiro foi aprovado um requerimento de pesar da deputada Carlota Pereira de Queirós (1892- 1982) pelo falecimento de Leolinda. A Assembleia Constituinte da Bahia inseriu em sua ata uma nota de pesar pelo falecimento da professora Daltro (Correio Paulistano, 7 de maio de 1935, quarta colunaA Noite, 18 de maio de 1935, terceira coluna).

Foi sucedida, na direção da Escola Orsina da Fonseca por sua filha, Alcina Amazonas (1874 – 1948), que foi sucedida por seu filho, Djalma Amazonas (A Noite, 6 de maio de 1937Jornal do Brasil, 9 de maio de 1939, quinta colunaJornal do Brasil, 30 de outubro de 1941, terceira colunaO Jornal, 24 de março de 1948, segunda coluna).

1936 – O Grêmio Literário Leolinda Daltro, promovia um festival dançante (Jornal do Brasil, 16 de agosto de 1936, última coluna).

Em seu artigo Mulheres na Academia, Modesto de Abreu (1901 – 1996) comentando acerca da polêmica sobre o ingresso de mulheres na Academia Brasileira de Letras, propõe a criação de uma Academia Feminina e cita Leolinda Daltro como um ótimo nome para ser patrona de uma de suas cadeiras (Jornal do Brasil, 30 de agosto de 1936, segunda coluna).

O então prefeito do Rio de Janeiro, Henrique Dodsworth (1895 – 1975), na comemoração dos 50 anos  da abolição da escravatura do Brasil, inaugurou um marco na Praça XV indicando o local onde uma estátua da Princesa Isabel seria erigida, uma iniciativa tomada por Leolinda em dezembro de 1921. Em artigo, no Correio da Manhã, de 13 de maio de 1938, a escritora Rachel Prado (1891 – 1943) cobrava a construção da estátua. No artigo Monumento à Princesa Isabel, assinado pela escritora Maria Eugênia Celso (1886 – 1963), publicado no mesmo jornal, em 20 de maio, Leolinda foi outra vez lembrada como a idealizadora do projeto  (Jornal do Brasil, 13 de maio de 1938, terceira colunaCorreio da Manhã, 13 de maio de 1938, quinta colunaCorreio da Manhã, 20 de maio de 1938, penúltima colunaJornal do Brasil, 28 de setembro de 1947, primeira coluna).

1943 – Era a patrona da cadeira 27 da recém criada Academia Feminina sob a presidência de Adalzira Bittencourt (1904 – 1976)(Revista da Semana, maio de 1943, segunda coluna).

1944 - Foi inaugurada na sede da Organização Jurídica, dirigida por seu filho Leobino Daltro, um retrato de Leolinda e um de Oscar Daltro, seu filho já falecido (Nação Brasileira, agosto de 1944, última coluna).

1951 – Publicação da história da Escola Orsina da Fonseca, 1ª Escola Técnico-Profissional da América do Sul (Jornal do Brasil, 11 de março de 1951, primeira coluna).

1956 – Publicação de um artigo sobre Leolinda Daltro (Jornal do Brasil18 de março, quarta coluna e 25 de março, quinta coluna, de 1956).

2003 - A Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro aprovou a Resolução nº 233, que instituiu o Diploma Mulher Cidadã Leolinda de Figueiredo Daltro. A cada ano são escolhidas dez mulheres para receber a homenagem por seu destaque na vida pública e na defesa dos direitos femininos.

 

Assista aqui o vídeo Leolinda e a luta pelo voto feminino, por Mônica Karawejczyk, pesquisadora da Fundação Biblioteca Nacional.

 

*Essa informação foi uma descoberta da pesquisa realizada pelo jornalista Rafael Sento Sé para seu livro A poeta da Cidade Maravilhosa: Jane Catulle Mendès e a viagem que criou o sonho de um Rio de Janeiro na Belle Époque (2025), e foi acrescentada ao artigo em 6 de março de 2026.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Centro de Memória do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte

CORRÊA, Marisa. Os índios do Brasil elegante e a professora Leolinda Daltro. São Paulo : Revista Brasileira de História, vol 9, nº 18, agos a setembro de 1989.

DALTRO, Leolinda. Da catequese dos índios no Brasil. Notícias e documentos para a História (1896-1911). Rio de Janeiro: Typografia da Escola Orsina da Fonseca, 1920.

DALTRO, Leolinda. O início do feminismo no Brasil. [recurso eletrônico] : subsídios para história / Leolinda Daltro ; introdução, notas e posfácio de Elaine Pereira Rocha. — Brasília : Câmara dos Deputados, Edições Câmara, 2021. – (Coleção vozes femininas).

FGV CPDOC – Leolinda Daltro

FGV CPDOC – Partido Republicano Feminino

GIRAUDO, Laura. (2017). Homenagear os índios, defender o indigenismo: o “Dia do Índio” e o Instituto Indigenista Interamericano. Estudos Ibero-Americanos, 43(1), 81–96. https://doi.org/10.15448/1980-864X.2017.1.24069

HELLMANN, Risolete Maria. Carmen Dolores, escritora e cronista: Uma intelectual feminista da Belle Époque. 2015. Tese (Doutorado em Literatura) – Universidade Federal de Santa Catarina, Florianópolis, 2015.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

JARDILINO, José Rubens Lima. Educadora, Feminista, Indigenista: Leolinda Figueiredo Daltro, uma “Dama” da educação brasileira no final do século XIX. Universidad Pedagógica y Tecnológica de Colombia. Revista Historia de la Educación Latinoamericana, vol. 18, núm. 26, pp. 7-11, 2016.

KARAWEJCZYK, Mônica. Os primórdios do movimento sufragista no Brasil: o feminismo “pátrio” de Leolinda Figueiredo Daltro. Estudos Ibero-Americanos, PUCRS, v. 40, n. 1, p. 64-84, jan.-jun. 2014

MARQUES, Teresa Cristina de Novaes. O voto feminino do Brasil. Brasília : Edições Câmara, 2019.

MELO, Hildete Pereira de; MARQUES, Teresa Cristina de Novaes. Partido Republicano Feminino. Rev. hist.edu.latinoam – Vol. 18 No. 26, enero – junio 2016 – ISSN: 0122-7238 – pp. 311 – 326.

Mulheres de Luta

Observatório do Terceiro Setor

PETSCHELIES, Erik. O Museu Paulista, Hermann von Ihering (1850-1930) e os ameríndios. São Paulo : Revista de Antropologia, nº 66, 2023.

Portal da BBC

Portal do Senado Federal

ROCHA, Elaine Pereira. Entre a pena e a espada: a trajetória de Leolinda Daltro (1859-1935)- patriotismo, indigenismo e feminismo. 2002. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo, São Paulo, 2002.

SANTOS, Paulete Cunha dos. Leolinda Daltro – a Oaci-zauré – relato de sua experiência de proposta laica de educação para os povos indígenas no Brasil central. Universidad Pedagógica y Tecnológica de Colombia. Revista Historia de la Educación Latinoamericana, vol. 18, núm. 26, pp. 15-46, 2016.

SANTOS, Paulete Cunha dos. Leolinda Daltro – a caminhante do futuro: uma análise de sua trajetória de catequista a feminista (Rio de Janeiro/Goiás – 1896 – 1920). Tese de Doutorado. Universidade do Rio dos Sinos, São Leopoldo, Rio Grande do Sul, 2014.

SCHUMAHER, Schuma; BRAZIL, Erico Vital (organizadores). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., 2000.

SÉ, Rafael Sento. A poeta da Cidade Maravilhosa: Jane Catulle Mendès e a viagem que criou o sonho de um Rio de Janeiro na Belle Époque. Belo Horizonte (MG) : Autêntica Editora, 2025.

Site Instituto Histórico Geográfico Brasileiro

Site Memória da Administração Pública Brasileira – Arquivo Nacional

Site Memória Política do México

Site Povos Indígenas no Brasil

STAUFFER, David Hall. Origem e Fundação do Serviço de Proteção aos Índios (III). Revista de História, [S. l.], v. 21, n. 43, p. 165-183, 1960. DOI: 10.11606/issn.2316-9141.rh.1960.120126. Disponível em: https://www.revistas.usp.br/revhistoria/article/view/120126. Acesso em: 24 fev. 2023.

 

Acesse aqui os outros artigos da Série “Feministas, graças a Deus!

Série “Feministas, graças a Deus!” I – Elvira Komel, a feminista mineira que passou como um meteoro, publicado em 25 de julho de 2020, de autoria da historiadora Maria Silvia Pereira Lavieri Gomes, do Instituto Moreira Salles, em parceria com Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” II  – Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993), o jequitibá da floresta, publicado em 20 de agosto de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” III  – Bertha Lutz e a campanha pelo voto feminino: Rio Grande do Norte, 1928, publicado em 29 de setembro de 2020, de autoria de Maria do Carmo Rainha, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” IV  – Uma sufragista na metrópole: Maria Prestia (? – 1988), publicado em 29 de outubro de 2020, de autoria de Claudia Heynemann, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” V – Feminista do Amazonas: Maria de Miranda Leão (1887 – 1976), publicado em 26 de novembro de 2020, de autoria de Maria Elizabeth Brêa Monteiro, mestre em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” VI – Júlia Augusta de Medeiros (1896 – 1972) fotografada por Louis Piereck (1880 – 1931), publicado em 9 de dezembro de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VII – Almerinda Farias Gama (1899 – 1999), uma das pioneiras do feminismo no Brasil, publicado em 26 de fevereiro de 2021, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VIII – A engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001), publicado em 6 de abril de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” IX – Mariana Coelho (1857 – 1954), a “Beauvoir tupiniquim”, publicado em 15 de junho de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” X – Maria Luiza Dória Bittencourt (1910 – 2001), a eloquente primeira deputada da Bahia, publicado em 25 de março de 2022, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XI e série “1922 – Hoje, há 100 anos” VI – A fundação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, publicado em 9 de agosto de 2022, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XII e série “1922 – Hoje, há 100 anos” XI – A 1ª Conferência para o Progresso Feminino, publicado em 19 de dezembro de 2022, de autoria de Maria Elizabeth Brêa Monteiro, historiadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” XIII – E as mulheres conquistam o direito do voto no Brasil!, publicado em 24 de fevereiro de 2023, de autoria de Andrea C T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XIV – No Dia Internacional da Mulher, Alzira Soriano, a primeira prefeita do Brasil e da América do Sul, publicado em 8 de março de 2023, de autoria de Andrea C T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XVI – O I Salão Feminino de Arte, em 1931, no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica, publicado em 30 de junho de 2023

Série “Feministas, graças a Deus!” XVII – Anna Amélia Carneiro de Mendonça e o Zeppelin, equipe de Documentação da Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC, em parceira com Andrea C.T. Wanderley, publicado em 5 de janeiro de 2024

Série “Feministas, graças a Deus!” XVIII – Júlia Lopes de Almeida (1862 – 1934), a “escritora da Belle Époque tropical”, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica, publicado em 5 de junho de 2024

 

 

 

A construção do Bondinho do Pão de Açúcar sob as lentes de Therezio Mascarenhas

A Brasiliana Fotográfica destaca imagens da construção do Bondinho do Pão de Açúcar realizadas pelo fotógrafo Therezio Mascarenhas (18? – 19?), cuja biografia ainda é pouco conhecida. Na primeira década do século XX, ele morava em Vitória e, provavelmente, conheceu o engenheiro civil Augusto Ferreira Ramos (1860 – 1939), criador e construtor do Bondinho do Pão de Açúcar, em torno de 1909, quando este estava fazendo obras de instalação de água, luz, força e tração, no Espírito Santo.

 

 

Acessando o link para as fotografias do Bondinho do Pão de Açúcar de autoria de Therezio Mascarenhas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

O Pão de Açúcar com seu bondinho e o Cristo Redentor são os principais pontos turísticos do Brasil, segundo e primeiro  mais visitados do país, e marcas registradas do Rio de Janeiro, seus mais conhecidos cartões-postais.

 

 

O Bondinho do Pão de Açúcar já foi visitado por diversas celebridades, dentre elas o físico Albert Einstein (1879 – 1955), o cantor e compositor Bob Marley (1945-1981), o papa João Paulo II (1920 – 2005); em 1941, pelo futuro presidente dos Estados Unidos, John Kennedy (1917-1963); as atrizes Halle Berry (1966-) e Natalie Portman (1981-), o ator Robert de Niro (1943-), a cantora Tina Turner (1939-) e Malala Yousafzai (1997-), ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 2014. Em um dos bondinhos foram filmadas cenas de 007 Contra o Foguete da Morte (1979): em uma das sequências, o agente James Bond, na época interpretado pelo ator Roger Moore (1927 – 2017), se equilibrou, a mais de 500 metros de altura, em seus cabos de aço.

 

 

Um pouco da história do Bondinho do Pão de Açúcar

 

O projeto do bondinho era ousado e grandioso e estava em consonância com as transformações urbanas realizadas no Rio de Janeiro, no começo do século XX, durante a gestão do prefeito Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), entre 1903 e 1906. Para sanear e modernizar a cidade diversas demolições foram feitas. Era a política do “bota-abaixo”, como ficou popularmente conhecida, que contribuiu fortemente para o surgimento do Rio de Janeiro da Belle Époque. Essas transformações foram definidas por Alberto Figueiredo Pimentel (1869-1914), autor da seção “Binóculo”, da Gazeta de Notícias, com a máxima “O Rio civiliza-se”, que se tornou o slogan da reforma urbana carioca.

 

 

O criador do Bondinho do Pão de Açúcar, Augusto Ferreira Ramos, nascido em 22 de agosto de 1860, em Cantagalo, no estado do Rio, formou-se, em 1882, na Polytecnica do Império do Brasil, atual Faculdade de Engenharia da UFRJ, e tornou-se sócio do Clube de Engenharia, em 1894, por indicação de Conrado Jacob de Niemeyer (1831 – 1905). Faleceu em 28 de julho de 1939, em sua residência, na rua 5 de julho, nº 130, em Copacabana (O Globo, 29 de julho de 1939).

 

O Globo, 29 de julho de 1939

Augusto Ferreira Ramos / O Globo, 29 de julho de 1939

 

Visionário, ele teve a ideia da criação do bondinho, durante a Exposição Nacional de 1908, na região da Urca, no Rio de Janeiro, em comemoração ao centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas, inaugurada em 11 de agosto de 1908. Ramos foi um dos coordenadores do pavilhão do estado de São Paulo devido ao café, um dos assuntos de seu interesse, e sobre o qual escreveu tanto sobre o seu cultivo como sobre sua comercialização. O café era, na época, o principal produto da balança comercial do Brasil.

A construção de um caminho aéreo entre os morros da Baía de Guanabara alavancaria o turismo na cidade. Conseguiu capital – entre os investidores estavam Eduardo Guinle (1846-1912)Candido Gaffrée (1845-1919) e Raymundo de Castro Maya (1894 – 1968) – apoio do governo e fundou a Cia Caminho Aéreo Pão de Açúcar.

 

 

As obras foram realizadas entre 1909 e 1912. O teleférico carioca, cujas duas linhas somam 1325 metros, superou os dois que existiam na época: o do Monte Ulia, na Espanha, com extensão de 280 metros; e o de Wetterhorn, na Suíça, com 560 metros. O empreendimento custou uma fortuna, dois milhões de contos de réis, e centenas de operários, além de alpinistas, trabalharam em sua construção.

 

 

Os bondinhos de madeira maciça foram trazidos da Alemanha e fixados nos cabos com o auxílio de guindastes. Foi contratada a empresa alemã J.Pohling, de Colônia, que fabricou e montou os equipamentos.

 

 

Finalmente, em 27 de outubro de 1912, foi inaugurado o caminho aéreo no Rio de Janeiro, entre a Praia Vermelha e o Morro da Urca, que se tornaria o mundialmente famoso Bondinho do Pão de Açúcar (Careta, 5 de outubro de 1912). Alguns dias antes, houve uma visita da imprensa às obras (Correio da Manhã, 10 de outubro de 1912). Em 1º de dezembro, foi inaugurada a iluminação elétrica no caminho aéreo (Jornal do Brasil, 1º de dezembro de 1912, na última coluna).

 

 

O bondinho no segundo trecho, entre o Morro da Urca e o Pão de Açúcar, numa extensão de 750 metros e 396 metros de altura, começou a funcionar no dia 18 de janeiro de 1913, completando a ligação até o alto do pico do Pão de Açúcar (O Paiz, 19 de janeiro de 1913, quarta coluna).

 

 

Augusto Ferreira Ramos dirigiu a empresa até 1934, ano em que o industrial e banqueiro Carlos Pinto Monteiro assumiu a administração da Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar até 1962, quando o engenheiro Christovam Leite de Castro (1904 – 2002) assumiu a direção. Durante sua gestão, em 1969, a Companhia do Pão de Açúcar obteve permissão para duplicar a linha e, após algumas reformas, passou a contar com quatro novos bondinhos, cada um com capacidade para transportar 75 passageiros. Os trabalhos foram completados em 29 de outubro de 1972.

Em 1993, Christovam passou o cargo para sua filha, Maria Ercília Leite de Castro, mestre em Administração de Empresas pela COPPEAD. Em 2002, o bondinho passou por outra reforma com a substituição dos oito cabos de aço e na realização de melhorias como nova pintura, iluminação, equipamento de som e placas de sinalização. Foram gastos 852 mil dólares. Entre 2008, foram inaugurados quatro novos bondinhos e a operação do teleférico foi digitalizada.

Em 2022, zerou suas emissões de carbono e ganhou uma nova marca e um novo lema: Parque Bondinho Pão de Açúcar, “Felicidade lá em cima”. Recebeu de presente, em homenagem aos seus 110 anos uma canção, O bondinho, de Roberto Menescal, Alex Moreira e Cris Delanno. É dirigido por Sandro Fernandes.

 

 

Uma curiosidade: em novembro de 2021, Anna Caroline Boyd Martine entrou para a história do cartão postal carioca, tornando-se a primeira mulher a trabalhar como operadora de cabine do teleférico do Parque Bondinho Pão de Açúcar.

 

Acesse aqui um artigo publicado na revista Brazil – Ferro – Carril, número 36, em 1912, onde o projeto do Bondinho do Pão de Açúcar é explicado detalhadamente.

 

 

 

 

Pequeno perfil e cronologia de Therezio Mascarenhas (18? – 19?)

 

Como já mencionado, pouco se sabe, até hoje, sobre a biografia do fotógrafo Therezio Mascarenhas. A partir da pesquisa na Hemeretoca Digital da Biblioteca Nacional, segue uma pequena cronologia de sua vida, que ajuda a traçar um pouco de seu perfil.

 

 

 

1900 – Procedente do Rio de Janeiro, fazendo quarentena na Ilha Grande, chegada do vapor nacional Pernambuco , em Vitória. Therezio era um dos passageiros (O Estado do Espírito Santo: Ordem e Progresso, 24 de julho de 1900, última coluna).

1908 – Foi um dos convidados de F. Clemetson, superintendente da Estrada de Ferro Sul do Espírito Santo, para viajar para Engenheiro Reeve com o cientista e ministro plenitenciário da França, Charles Wiener (1851–1913), nascido em Viena, que ficou bastante conhecido por suas viagens ao Peru (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 20 de fevereiro de 1908, quarta coluna).

Fotografou indígenas do Rio Doce (Diário da Manhã: Órgão do Partido Conservador (ES), 20 de fevereiro de 1908, segunda coluna).

Identificado como um ativo jovem, Therezio seguiu para o Rio de Janeiro, no paquete Maranhão, em 6 de junho, com a intenção de conversar com o diretor da Sociedade Nacional de Agricultura sobre a abertura de um estabelecimento de artigos e ferragens para a lavoura. Retornou em julho (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 7 de junho de 1908, quinta colunaCommercio do Espírito Santo, 24 de julho de 1908, segunda coluna).

Foi anunciado que ele abriria, na rua da Alfândega, em Vitória, um depósito para máquinas para a lavoura importados da Europa e da América do Norte (Cachoeirano, 20 de junho de 1908, terceira coluna).

Publicação de uma poesia de sua autoria (O Malho, 8 de agosto de 1908).

1909 - Ele e Casemiro Guimarães tiraram várias diversas fotográficas do piquenique dos sócios do Club de Regatas, realizado na Ilha do Boi, no Espírito Santo (Commercio do Espírito Santo, 22 de março de 1909, primeira coluna).

O engenheiro Augusto Ferreira Ramos (1860 – 1939), criador e construtor do Bondinho do Pão de Açúcar, promoveu uma excursão durante a qual os aplicados amadores Paulo Motta e Therezio Mascarenhas tiraram várias fotografias (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 8 de abril de 1909, última coluna). Provavelmente, em torno deste ano, Augusto e Therezio se conheceram.

Foi publicada na revista Fon-Fon uma fotografia do capor Queen Eleanor de sua autoria. Foi identificado como fotógrafo amador (Fon-Fon, 24 de abril de 1909).

 

 

Praticava tiro ao alvo (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 4 de maio de 1909, primeira coluna).

No Café Globo, em Vitória, houve uma exposição de fotografias de sua autoria dos serviços de abastecimento e luz realizados pelo engenheiro Augusto Ferreira Ramos. Foi identificado como amador e nesses registros Therezio revelava muito bom gosto pela arte (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 24 de maio de 1909, quinta colunaCorreio do Espírito Santo, 26 de maio de 1909, segunda coluna).

Fazia parte da comitiva de Augusto Ferreira Ramos em visitas de obras hidráulicas realizadas pelo engenheiro  (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 10 de julho de 1909, segunda colunaDiário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 13 de julho de 1909, quinta coluna).

Participou da homenagem realizada pelo governo do Espírito Santo ao presidente Afonso Pena (1847 – 1909), na Catedral de Vitória (Commercio do Espírito Santo, 13 de julho de 1909, última coluna).

Foi noticiado seu aniversário, no dia 23 de agosto (Correio do Espírito Santo, 23 de agosto de 1909, primeira coluna).

Produziu várias fotografias durante uma excursão ao Jucu promovida pelo engenheiro Augusto Ferreora Ramos, contratante dos serviços de água, luz e esgoto de Vitória, que ofereceu um piquenique à família do político capixaba Torquato Moreira e a outras distintas famílias (Commercio do Espírito Santo, 21 de setembro de 1909, segunda coluna).

Esteve presente na missa de sétimo dia do prefeito de Vitória, Ceciliano Abel de Almeida (Commercio do Espírito Santo, 24 de novembro de 1909, quarta coluna).

Fotografou as festas realizadas na Escola Aprendizes de Marinheiro e foi identificado como um hábil fotógrafo (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 23 de dezembro, segunda coluna).

1910 – Possuia um estabelecimento fotográfico na Villa Moscoso, nº 16, em Vitória, no Espírito Santo (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 26 de fevereiro de 1910, segunda colunaAlmanak Laemmert, 1910, primeira colunaAlmanak Renault, 1912, última coluna).

Estava vendendo artigos  fotográficos (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 10 de março de 1910, última coluna).

 

 

1911 - Chegou no porto de Vitória, procedente do norte no paquete Sattelite (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 18 de outubro de 1911, segunda coluna).

1916 - Seu estabelecimento fotográfico na Villa Moscoso, em Vitória, no Espírito Santo, foi anunciado pela última vez no Almanak Laemmert (Almanak Laemmert, 1916, última coluna).

1927 - Ele e Augusto Ferreira Ramos foram alguns dos subscritores do abaixo-assinado feito por moradores e proprietários na Praia Vermelha, elogiando os melhoramentos realizados pelo prefeito do Rio de Janeiro, Antônio da Silva Prado Junior (1880 – 1955), na remodelação da principal artéria e nas cercanias da região, o que facilitaria a visita ao encantador passeio do Pão de Açúcar (O Paiz, 14 de dezembro de 1927, segunda coluna).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Diário do Rio

Extra, 27 de outubro de 2022

Correio Braziliense, 12 de junho de 2008

Folha de São Paulo, 12 de fevereiro de 2022

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Jackobson, Andrea. O bondinho do Pão de Açúcar. Rio de Janeiro : Editora Andrea Jackobson, 2018.

O GLOBO, 13 de junho de 2011

O GLOBO, 20 de outubro de 2012

Portal Clube de Engenharia

Rezende, Nilza. Pão de Açúcar – A Marca do Rio / Sugar Loaf – Rios Trademark.  Editora Clio.

Revisa EDVD

Serra News

Site Bondinho do Pão de Açúcar

Site Instituto Histórico Geográfico Brasileiro

Superinteressante, 4 de julho de 2018