Missa Campal de 17 de maio de 1888 e a descoberta de uma nova fotografia por Carlos Lima Junior

Devido à importante e recente descoberta de uma foto inédita da Missa Campal de 17 de maio de 1888, realizada pelo historiador Carlos Lima Junior, professor da Universidade Federal de São Paulo, em seu pós-doutorado, a Brasiliana Fotográfica republica o artigo “Missa Campal de 17 de maio de 1888″, de 17 de maio de 2015, de autoria da pesquisadora e editora do portal, Andrea C.T. Wanderley, que identificou a presença do escritor Machado de Assis no evento, no qual compareceram cerca de 30 mil pessoas. A imagem descoberta por Carlos Lima Junior foi produzida pelo fotógrafo amador Antônio de Barros Araújo, que a ofertou à Princesa Isabel. O registro estava no Castelo d´Eu, na França, onde atualmente funciona o Museu Louis-Philippe. A fotografia deve ser exibida ao público até o fim de 2026, em uma exposição sobre os 200 anos da invenção da fotografia.

 

 

A pesquisadora e editora-assistente da Brasiliana Fotográfica, Andrea Wanderley*, identificou a presença de Machado de Assis na fotografia da Missa Campal de Ação de Graças pela Abolição da Escravatura realizada no dia 17 de maio de 1888, no Campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. O autor da foto foi Antonio Luiz Ferreira.

A identificação de Machado de Assis foi confirmada por Eduardo Assis Duarte, doutor em Teoria da Literatura e Literatura Comparada (USP) e professor da Faculdade de Letras da UFMG , que considerou a fotografia um documento histórico da maior importância. Segundo ele, Machado de Assis teve uma “atitude mais ou menos esquiva na hora da foto, em que praticamente só o rosto aparece, dando a impressão de que procurou se esconder, mas sem conseguir realizar sua intenção totalmente. Atitude esta plenamente coerente com o jeito encolhido e de caramujo que sempre adotou em público, uma vez que dependia do emprego público para viver e eram muitas as perseguições políticas aos que defendiam abertamente o fim da escravidão.”

Eduardo Assis Duarte, que organizou “Machado de Assis afrodescendente” (2007) e a coleção “Literatura e afrodescendência no Brasil: antologia crítica” (2011, 4 vol.), e é coordenador do Literafro – Portal da Literatura Afro-brasileira, justificou a proximidade de Machado da princesa Isabel. Segundo ele, “Machado foi abolicionista em toda a sua vida e, a seu modo, criticou a escravidão desde seus primeiros escritos. Nunca defendeu o regime servil nem os escravocratas. Além disso, era amigo próximo de José do Patrocínio, o grande líder da campanha abolicionista e, junto com ele, foi à missa campal do dia 17, de lá saindo para com ele almoçar… Como Patrocínio sempre esteve próximo da princesa em todos esses momentos decisivos, é plenamente factível que levasse consigo o amigo para o palanque onde estava a regente imperial. A propósito, podemos ler no volume 3 da biografia escrita por Raimundo Magalhães Júnior :

‘Na manhã de 17 de maio, foi promovida uma grande missa campal, comemorativa da Abolição, em homenagem à Princesa Isabel, que compareceu, e houve em seguida um almoço festivo no Internato do Colégio Pedro II. Terminada a missa, José do Patrocínio foi para sua casa, à rua do Riachuelo, com dois amigos que convidara para almoçar em sua companhia: um deles era Ferreira Viana, ministro da Justiça do Gabinete de João Alfredo. E o outro era Machado de Assis, a quem, aliás, o grande tribuno abolicionista oferecera a carta autógrafa que recebera, em 1884, em Paris, de Victor Hugo.’ (MAGALHÃES JÚNIOR, Vida e obra de Machado de Assis. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira / INL-MEC, 1981, vol. 3, Maturidade, p. 125).”

O biógrafo, continua Eduardo Assis Duarte, “não diz onde estava Machado durante a missa, mas pode-se concluir perfeitamente que ele compareceu e que estava junto a José do Patrocínio. Daí minha conclusão: se a imagem que aparece na foto não for de Machado, é de alguém muito parecido.”

Segundo Ubiratan Machado, jornalista, escritor, bibliófilo e autor do “Dicionário de Machado de Assis”, lançado pela Academia Brasileira de Letras, a identificação de Machado de Assis na foto foi uma dupla descoberta: “Não há dúvida que se trata do Machado, atrás de um senhor de barbas brancas e mil condecorações no peito. O fato do seu rosto estar um pouco escondido não atrapalha em nada a identificação. É o velho mestre, perto de completar 50 anos. Igualzinho aos dos retratos que conhecemos desta fase de sua vida.  A segunda revelação é a de Machado ter ido à missa de ação de graças, fato até hoje desconhecido pelos biógrafos. A foto tem ainda outra importância: mostrar que ele se preocupava com a libertação dos escravos, acabando de vez com a idiotice de alguns que afirmam ser ele indiferente ao destino da raça negra no Brasil. É a prova visual da alegria embriagadora que ele sentiu com a abolição, como narra em seu conhecido depoimento (Gazeta de Notícias, edição de 14 de maio de 1893, sob o título “A Semana”).

Machado de Assis participou também, no dia 20 de maio de 1888, do préstito organizado pela Comissão de Imprensa para celebrar a Abolição. Na ocasião, ele desfilou no carro do fundador da Gazeta de Notícias, o Sr. Ferreira de Araújo (1848 – 1900) (Gazeta de Notícias, edição de 21 e 22 de maio de 1888, na última coluna) .  Antes dessas festividades, Machado havia sido agraciado com a Imperial Ordem da Rosa, que premiava civis e militares que houvessem se destacado por serviços prestados ao Estado ou por fidelidade ao imperador.

Além disso, em 16 de maio, dia anterior à realização da missa campal, Machado de Assis havia participado de uma homenagem prestada pelos empregados da secretaria de Agricultura e repartições anexas ao conselheiro Rodrigo Silva (1833 – 1889), autor e co-assinante da Lei Áurea, ministro dos Negócios da Agricultura e interino dos Negócios Estrangeiros, integrante do Gabinete de 10 de março de 1888, proferindo as seguintes palavras:

“Todos os vossos empregados que eram vossos amigos agradecidos pela elevação do trato e confiança com que são acolhidos, são hoje vossos admiradores pelo imorredouro padrão de glória a que ligastes vosso nome, referendando a lei que declarou para sempre extinta a escravidão no Brasil” (Gazeta de Notícias, 17 de maio de 1888, na terceira coluna). O conselheiro Rodrigo Silva estava presente à missa campal.

Machado também foi apontado como um dos funcionários da secretaria de Agricultura que muito fizeram em prol da causa da abolição e que “no silêncio do gabinete …dedicaram-se durante anos a velar com solicitude na defesa dos direitos dos escravos, a tirar das leis de liberdade todos os seus naturais corolários, a organizar e tornar efetiva a emancipação gradual pela ação do Estado, a marcar por laboriosas estatísticas o andamento do problema, a estabelecer hermenêutica sã como reguladora dos casos controversos, a saturar a atmosfera, enfim, de princípios fecundos na sua aplicação prática, firmando o corpo de doutrina e, na realidade, sustentando verdadeira propaganda eficacíssima para a aspiração da liberdade”(Gazeta de Notícias, 18 de maio de 1888, na quarta coluna).

 

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Detalhe da foto

 

A Brasiliana Fotográfica convida os leitores a participar do desafio de identificar outras personalidades presentes na foto da solenidade. Abaixo, destacamos na foto e em sua silhueta o grupo em torno da princesa Isabel (1) e do conde D’Eu (2). Machado de Assis é o número 5. Possivelmente o número 7 é José do Patrocínio, atrás de um estandarte e segurando a mão de seu filho, então com três anos. Quem serão os outros?

 

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Numeramos alguns dos presentes, mas a identificação de qualquer pessoa que esteja na fotografia é bem-vinda.

 

Um pouco da história da foto

 

A Missa Campal em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em 17 de maio de 1888, foi uma celebração de Ação de Graças pela libertação dos escravos no Brasil, decretada quatro dias antes, com a assinatura da Lei Áurea. A festividade contou com a presença da princesa Isabel, regente imperial do Brasil, e de seu marido, o conde D´Eu, príncipe consorte, que, na foto, está ao lado da princesa, além de autoridades e políticos. De acordo com os jornais da época, foi um “espetáculo imponente, majestoso e deslumbrante”, ocorrido em um “dia pardacento” que contrastava com a alegria da cidade.

Cerca de 30 mil pessoas estavam no Campo de São Cristóvão. Dentre elas, o fotógrafo Antonio Luiz Ferreira que há muito vinha documentando os eventos da campanha abolicionista brasileira desde suas votações e debates até as manifestações de rua e a aprovação da Lei Áurea. Não se conhece um evento de relevância nacional que tenha sido tão bem fotografado anteriormente no Brasil. No registro da missa campal é interessante observar a participação efetiva da multidão na foto, atraída pela presença da câmara fotográfica, o que proporciona um autêntico e abrangente retrato de grupo. Outra curiosidade é a cena de uma mãe passeando com seu filho atrás do palanque, talvez alheia à multidão, fazendo um contraponto de quietude à agitação da festa.

Antonio Luiz Ferreira presenteou a princesa Isabel com 13 fotos de acontecimentos em torno da Abolição. A maior parte dessas fotos faz parte da Coleção Princesa Isabel que se encontra em Portugal, conservada por seus descendentes. Ferreira produziu duas fotos das duas missas realizadas em ação de graças pela Abolição. Uma delas, a principal,  intitulada “Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da escravatura no Brasil”, é a que está aqui destacada e faz parte da Coleção Dom João de Orleans e Bragança. A outra missa foi celebrada pela Irmandade de Nossa Senhora do Rosário e São Benedito dos Homens Pretos. Outros três registros foram feitos por Ferreira no dia 22 de agosto de 1888 e documentaram o retorno do imperador Pedro II ao Brasil. A prova da fotografia da missa campal, que ficou em exposição na papelaria Guimarães & Ferdinando, foi entregue à princesa em junho de 1888 (Diário de Notícias, 9 de junho de 1888, na segunda coluna).

Ao todo, Antonio Luiz Ferreira fotografou 18 cenas ligadas às celebrações de 1888 e com isso, apesar de ter tido uma carreira discreta, tornou-se um importante fotógrafo do século XIX. As imagens captadas por ele nessas datas tão marcantes da história do Brasil caracterizam-se pela expressividade dos rostos retratados, decorrência da relevância do fato e da fascinação causada pela câmara fotográfica. Também foi responsável por um Álbum de vistas da Biblioteca Nacional, em 1902.

Ampliando-se a fotografia abaixo clicando em cima dela, vê-se, no alto à esquerda, um anúncio da Photographia Central de Antonio Luiz Ferreira no Largo da Carioca onde está anunciado que trabalhava-se mesmo com mau tempo**:

 

 

Acessando o link para a fotografia Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da Escravatura no Brasil produzida  Antonio Luiz Ferreira,  disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar a imagem e verificar todos os dados referentes a ela.

 

 

Foto inédita da missa campal de 17 de maio de 1888 foi encontrada na França***

 

Em 13 de maio de 2026, foi noticiado que uma foto inédita da missa campal havia sido encontrada na França pelo pelo historiador Carlos Lima Junior, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), em seu pós-doutorado. Ele pesquisou sobre obras brasileiras preservadas no Castelo d´Eu, no norte da França.

Leia aqui o artigo Foto inédita de missa campal após Lei Áurea é encontrada na França, da Folha de São Paulo, de 13 de maio de 2026:

 

Foto inédita de missa campal após Lei Áurea é encontrada na França

João Pedro Pitombo

  • Registro foi produzido em 17 de maio de 1888 por fotógrafo amador e dado de presente à princesa Isabel
  • Imagem revela minúcias de ato que exaltou Família Imperial e deixou abolicionistas em segundo plano

Salvador – Uma fotografia esquecida por mais de um século na reserva técnica de um museu no interior da França revela detalhes de um dos momentos mais importantes da história brasileira, cuja narrativa em torno dos seus protagonistas vem sendo disputada ao longo de décadas.

A imagem é um registro inédito da missa campal realizada em 17 de maio de 1888, quatro dias após a assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel. O ato, que completa 138 anos nesta quarta-feira (13), pôs fim a mais de três séculos de escravidão no Brasil, mas não garantiu direitos nem compensações para a população negra que havia sido escravizada.

Produzida pelo fotógrafo amador Antônio de Barros Araújo, a imagem tem 49 centímetros de largura por 11,5 de altura. Em plano aberto, mostra uma multidão reunida na praça Pedro 1º, situada no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Eram cerca de 50 mil pessoas, segundo estimativas dos jornais da época.

 

missacampal

 

A foto foi encontrada pelo historiador Carlos Lima Junior, professor da Unifesp (Universidade Federal de São Paulo), em seu pós-doutorado. Ele pesquisou sobre obras brasileiras preservadas no Castelo d´Eu, no norte da França, que abrigou a família imperial no exílio após a proclamação da República.

“Recebi fotografia ainda um pouco coberta de poeira e logo vi que era um segundo registro, ainda desconhecido, da grande missa que foi feita após a assinatura da Lei Áurea. Apesar de ser uma foto não tão grande de tamanho, ela tem uma importância gigante para a história do país”, afirma Carlos Lima Junior.

Até então, a principal imagem conhecida da cerimônia era a fotografia de Antônio Luiz Ferreira, que retornou ao Brasil e atualmente faz parte do acervo do Instituto Moreira Salles. Essa fotografia circulou amplamente já no final do século 19 e havia se consolidado como retrato oficial da celebração da abolição.

A imagem descoberta na França, por outro lado, permaneceu praticamente fora de circulação desde sua produção. Em 1888, o jornal A Gazeta de Notícias mencionou que a foto de Barros Araújo foi dada de presente à princesa Isabel, mas o registro não chegou a ser reproduzido pelo jornal.

A hipótese mais provável, aponta o pesquisador, é que a fotografia tenha sido incorporada aos pertences pessoais da princesa e enviada à França logo após a queda do Império.

Os detalhes da descoberta da foto resultaram em um artigo publicado na Revista de História da Arte e da Cultura da Unicamp. No estudo, Carlos Lima Junior mostra como a família imperial teve cuidado em preservar objetos que reforçassem a memória da princesa Isabel como uma espécie de redentora.

A própria missa teve papel importante nessa construção simbólica. Organizada pela Associação Imprensa Fluminense, a cerimônia religiosa buscava sacralizar o ato de assinatura da Lei Áurea.

No livro “Flores, Votos e Balas”, Angela Alonso, socióloga e colunista da Folha, destaca que as celebrações da abolição foram transformadas em uma elegia da tradição imperial. Os abolicionistas que aturaram pelo fim da escravidão ficaram em segundo plano.

O ato explicitava a aliança entre Igreja e Estado, sobretudo no uso do vocabulário religioso para redefinir a princesa como a “redentora”. “Catolicismo e monarquia se apropriavam dos louros da abolição”, disse a autora.

Entre carruagens e vendedores ambulantes

Na avaliação de Carlos Lima Junior, a nova foto altera parcialmente a visão consolidada sobre a missa campal. Enquanto a imagem conhecida de Antônio Luiz Ferreira destaca a família imperial, a fotografia de Antônio de Barros Araújo é uma tomada panorâmica que privilegia a dimensão popular do ato.

O artigo descreve minuciosamente a cena. A foto mostra carruagens espalhadas pelas extremidades da praça, pessoas equilibradas sobre os veículos para enxergar o altar, oficiais montados a cavalo observando a multidão e moradores acompanhando a cerimônia das janelas das casas vizinhas.

O enquadramento também evidencia desigualdades sociais presentes naquela celebração: embora houvesse grande quantidade de carros e bondes, o transporte não era acessível à maior parte da população. Muitos participantes seguiram a pé até o local.

A imagem registra ainda personagens anônimos como vendedores ambulantes espalhados pela praça e pessoas que nem sequer observavam a missa.

Ao mesmo tempo, a foto também evidencia os limites daquela celebração, por encobrir a presença de negros que foram figuras de destaque na luta pela liberdade e os movimentos abolicionistas que impulsionaram o debate sobre o fim da escravidão no Brasil.

“Ela também nos faz lembrar como foi difícil o dia seguinte, o 14 de maio, para a população que foi escravizada.”

A fotografia segue preservada no Castelo d’Eu, onde atualmente funciona o Museu Louis-Philippe. A imagem deve ser exibida ao público até o fim deste ano em uma mostra sobre os 200 anos da invenção da fotografia.

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Abaixo, a reprodução da notícia sobre a fotografia da missa campal de autoria do fotógrafo amador identificado como Antonio de Barros Araujo (18? -?), publicada na primeira página da Gazeta de Notícias, de 14 de junho de 1888. Conforme a nota, o registro, “ricamente emoldurado em pelluche de duas cores”,  seria oferecido à Princesa Isabel. Barros Araujo era comerciante na Rua do Ouvidor, nº 74 A (Almanak Administrativo Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1885).

 

 

Por uma notícia, veiculada na Gazeta da Tarde, de 22 de março de 1884, sabe-se que ele era abolicionista, tendo doado uma saleira de madeira em forma de globo geográfico à Kermesse da Confederação Abolicionista (Gazeta da Tarde, 22 de março de 1884, terceira coluna).

 

 

Leia aqui o artigo Imagem (re)velada: sobre uma fotografia desconhecida da “Missa Campal 17 de maio 1888” no acervo do Musée Louis-Philippe, Castelo d’Eu, de Carlos Lima Junior.

 

Contribuíram para esta pesquisa Elvia Bezerra (IMS) e Luciana Muniz (BN).

 

*O texto desta publicação foi revisto em 15 de maio de 2018.

**Essa informação foi inserida no artigo em 9 de setembro de 2019.

*** O artigo sobre a Foto inédita da missa campal de 17 de maio de 1888 foi encontrada na França foi inserido em 13 de maio de 2026.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Série “Hotéis do Brasil” VIII e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXXI – O Hotel dos Estrangeiros, no Flamengo, e o Dia da Literatura Brasileira

Hoje comemora-se o Dia da Literatura Brasileira em homenagem à data de nascimento do cearense José de Alencar (1829-1877),  importante escritor do Romantismo brasileiro, autor de clássicos como O Guarani (1857), Lucíola (1862), Iracema (1865) e Senhora (1875). Sua estátua, no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, foi registrada por Marc Ferrez (1843 – 1923), em torno de 1897; e por Augusto Malta (1864 – 1957), em 1906. O Dia da Literatura Brasileira seria, a princípio, o tema central deste artigo. Mas, nas fotos do monumento, aparece o Hotel dos Estrangeiros. O artigo passou então a ser também sobre o hotel e a ser o 31º da série O Rio de Janeiro desaparecido e o 8º da série Hotéis do Brasil.

 

 

 

O Hotel dos Estrangeiros* foi inaugurado, provavelmente, em 1849, ano em que foi mencionado pela primeira vez nos jornais da época, e ficava na Rua do Catete, nº 1 (Jornal do Commercio, 8 de maio de 1849, quarta coluna).

 

 

 

Foi demolido em 1951 e em seu lugar, foi construído o edifício Simon Bolivar (A Noite, 16 de abril de 1951, última colunaCorreio da Manhã, 17 de junho de 1951, quarta coluna, A Noite, 26 de junho de 1952, quarta coluna).

 

 

 

 

Breve histórico do Hotel dos Estrangeiros no Catete

 

 

Um dos pioneiros na história da hotelaria carioca, o Hotel dos Estrangeiros era, quando inaugurado, dirigido por Milliet Chesnay, William Coute e Lafourcade pertencia a Francisco Lumau e ficava na confluência das atuais ruas Senador Vergueiro e Barão do Flamengo, em frente à atual Praça José de Alencar. Oferecia uma vista magnífica para o mar, e reúne todas as comodidades para banhos (Almanak Laemmert, 1850).

 

 

Ao longo da década de 1850, eram vendidos no hotel ingressos para espetáculos teatrais e esportivos (Diário do Rio, 8 de novembro de 1853, última coluna; Courrier du Brésil, 31 de outubro de 1858, última coluna). Em 1856, pertencia a João Mayall, que plantou as quatro figueiras em frente ao edifício, que encantavam os visitantes e que foram tema do poema As quatro irmãs, de Odete de São Felix Simonsen (Almanak Laemmert, 1856; Correio da Manhã, 4 de junho de 1950, quarta coluna).

Em torno de 1860, diplomatas norte-americanos passaram a residir no hotel (Revista da Semana, 7 de novembro de 1942, segunda coluna).

Em 1896, foi anunciado que ele havia passado por uma reforma. Tinha instalações bonitas e higiênicas, um bom restaurante e dispensava a seus clientes um tratamento diferenciado.

 

 

“Esse hotel que foi completamente restaurado, situa-se na melhor parte da cidade, recebendo ar e luz por todos os lados, próximo a mais limpa praia da cidade e cercado por um grande jardim. Possui quartos grandes e confortáveis e bem mobilhados, bons chuveiros, e banhos quentes, desinfetantes na água, armários, água potável filtrada pelo sistema Pasteur, bom serviço de mesa, e é considerado o primeiro hotel dessa capital. Possui ainda suntuosos salões, e serviço de mesa esplendido para baquetes. O restaurante e serviços não podem ser superados”.

Tornou-se a moradia de autoridades nacionais, chefes de estado em visita ao Rio de Janeiro e personalidades importantes nacionais e estrangeiras.

 

 

Foi um ponto de importantes reuniões e encontros, tanto de natureza social quanto política. Foi lá que Prudente de Moraes (1841 – 1902), primeiro presidente civil e eleito no Brasil, foi morar com sua família quando veio de São Paulo, em 1894 (Gazeta de Notícias, 8 de novembro de 1894, segunda coluna). E também foi lá que nasceu a candidatura do marechal Hermes da Fonseca (1855 – 1923) à Presidência da República, cargo que exerceu entre 1910 e 1914.

Foi cenário, em 8 de setembro de 1915, do assassinato do senador José Gomes Pinheiro Machado (1851 – 1915), importante e poderoso político da República Velha. Foi apunhalado por Manso de Paiva (c. 1886 – década de 1960), no saguão do hotel, aonde visitaria o político Rubião Junior (1851-1915), do Partido Republicano Paulista. Suas últimas palavras teriam sido: “Ah, canalha! Apunhalaram-me!” (Careta, 11 de setembro de 1915A Noite, 24 de janeiro de 1934; O Cruzeiro, 8 de julho de 1944).

Meses antes, Pinheiro Machado previra sua própria morte em entrevista ao jornalista João do Rio: “Morro na luta. Matam-me pelas costas, são uns ‘pernas finas’. Pena que não seja no Senado, como César…”

 

 

Foi noticiado o despejo do hotel em fins de 1949 e, em 5 de abril de 1950, foi requerida por seus credores a decretação de sua falência (Diário da Noite, 14 de dezembro de 1949, segunda coluna;Correio da Manhã, 5 de abril de 1950, sexta coluna; Correio da Manhã, 4 de junho de 1950). Em setembro do mesmo ano, foi alugado pela Justiça Eleitoral (A Manhã, 9 de setembro de 1950, terceira coluna). Em fevereiro de 1951, foi anunciado um baile de carnaval em suas dependências. Poucos meses depois foi demolido: uma tradição do Rio que mergulha no esquecimento para sempre (Gazeta de Notícias, 17 de dezembro de 1949, última colunaCorreio da Manhã, 18 de janeiro de 1951, quarta coluna).

 

estrangeiros

 

Dia da Literatura Brasileira

 

Para homenagear o Dia da Literatura Brasileira, como já mencionado o ponto de partida deste artigo, o portal destaca, ainda, três imagens de importantes escritores brasileiros, todos fundadores da Academia Brasileira de Letras: Joaquim Nabuco (1849-1910), Lucio de Mendonça (1854-1909) e Machado de Assis (1839-1908). As fotografias foram produzidas por Augusto Malta, José Ferreira Guimarães (1841-1924) e por Joaquim Insley Pacheco (1830-1912) com Marc Ferrez, respectivamente. Lembramos aqui que, por escolha de Machado de Assis, José de Alencar é o patrono da cadeira n. 23 da Academia Brasileira de Letras.

 

 

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A propósito, o Hotel dos Estrangeiros foi citado em dois romances e em um conto de Machado de Assis:

“- Tenho de jantar com um amigo, no Hotel dos Estrangeiros. Depois, talvez, ou amanhã. Vá, vá tranquilizar a baronesa, e os rapazes. Os rapazes estarão em paz? Esses brigam, com certeza; vá pô-los em ordem”.

Esaú e Jacó (1904)

 

“Cheguei ao Hotel de Estrangeiros ao declinar da tarde. Minha mulher esperava-me para jantar. Eu, ao entrar no quarto, peguei-lhe das mãos, e perguntei-lhe:

- O que é eterno, Iaiá Lindinha?

Ela, suspirando:

- Ingrato! É o amor que te tenho.

Jantei sem remorsos; ao contrário, tranquilo e jovial. Cousas do Tempo! Dá-se-lhe um punhado de lodo, ele o restitui em diamantes…”

 

Eterno! (1899) – conto

 

“25 de junho

Campos e Aguiar queriam, à sua vez, que o jovem casal viesse aposentar-se em casa deles, e alegaram a razão de ser por poucos dias, pois que tinham de embarcar. Tristão e Fidélia recusaram e foram para o Hotel dos Estrangeiros. A razão alegada por estes foi a mesma dos poucos dias, e eu creio que era verdadeira, mas principalmente seria a de não dar preferência a um nem a outro.

Não escrevo o que lá se passou para me não demorar a dizer tudo, que é muito. Vi-os felizes a todos quatro. D. Carmo parecia esconder a tristeza da viagem que se aproxima, ou temperá-la com a ideia da volta, a que aludia frequentemente e a propósito de tudo, como a avivar a obrigação. Assim correram as horas depressa. Saí com eles até o hotel; dali seguiu Campos para Botafogo e vim eu para o Catete”.

Memorial de Aires (1908)

 

De acordo com o portal machadodeassis.net:

Segundo o Almanaque Laemmert de 1888, havia dois hotéis com esse nome: um em francês (Hôtel des Étrangers), pertencente a Pedro Lemgruber, que ficava na rua da Assembleia, 54; outro em português (Hotel dos Estrangeiros), pertencente a João Mayall, que ficava “no caminho Velho de Botafogo, em frente ao largo do Catete”, isto é, na confluência da rua Senador Vergueiro com a rua Barão do Flamengo, no bairro do Flamengo, na zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, em frente à atual praça José de Alencar. O contexto da ficção machadiana sugere que se trata do segundo, que era um estabelecimento de grande prestígio à época.

 

O monumento a José de Alencar, no Flamengo

 

 

O monumento a José de Alencar, no Flamengo, obra do escultor Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931), foi inaugurado em 1º de maio de 1897, no Largo do Catete, que passou nesta data a se chamar Praça José de Alencar – era anteriormente denominada Praça Ferreira Vianna. Foi o primeiro monumento erguido no Brasil para homenagear um escritor brasileiro e é composto por uma estátua de José de Alencar, quatro relevos e quatro medalhões em bronze, dispostos em uma base octogonal, onde estão gravadas cenas dos romances Iracema, O Gaúcho O Guarani e O Sertanejo, de autoria do homenageado.

Sua inauguração contou com a presença do então presidente da República, Prudente de Moraes, do prefeito Francisco Furquim Werneck de Almeida (1846 – 1908) e de diversas autoridades e, apesar do sol e imenso calor, a praça e as imediações estavam apinhadas. Sua viúva, filhos, seu irmão, o barão de Alencar (1832 – 1921); e outros familiares também estiveram presentes à cerimônia. Na ocasião, discursaram Ferreira de Araújo (1848 – 1900), fundador da Gazeta de Notícias; os escritores Coelho Neto (1864 – 1934) e Olavo Bilac (1865 – 1918), além de políticos presentes (Gazeta de Notícias, 2 de maio de 1897, terceira colunaO Paiz, 2 de maio de 1897, terceira colunaRevista da Semana, 9 de maio de 1942).

 

“Bernardelli deu a José de Alencar (mais conhecido ainda hoje como político do que como romancista) a mais bela e duradoura das consagrações, já agora é possível que a profissão das letras mereça mais respeito, uma vez que o povo está vendo que um homem de letras merece também a homenagem devida aos heróis e aos benfeitores da pátria.

E não seria justo que o nome do escultor não fosse entregue ao aplauso público, ao lado do nome do escritor glorificado.
E que este dia (o primeiro dia em que o governo do meu país dá uma demonstração pública de que deseja honrar a arte e a literatura do Brasil, vindo assistir a essa festa de homens de letras) possa iniciar uma era nova de florescimento intelectual.”
Trecho do discurso de Olavo Bilac

 

A ideia da construção do monumento partiu dos redatores do Monitor Sul Mineiro, da cidade de Campanha, em Minas Gerais, que abriram uma subscrição para esse fim. A família do jornalista Evaristo da Veiga (1799 – 1837) incumbiu a divulgação da ideia à Gazeta de Notícias (Gazeta de Notícias, 20 de janeiro de 1880, segunda coluna). Foram feitos diversos donativos e, em 1º de dezembro de 1894, foi realizado um concerto, no Cassino Fluminense, para arrecadar dinheiro para a construção da estátua (Gazeta de Notícias, 1º de dezembro de 1894).

 

* Não confundir com o Hotel dos Estrangeiros que existiu anteriormente na Rua da Cadeia, 69 (Diário do Rio de Janeiro, 9 de julho de 1846, terceira coluna).

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

 

Almanaque Gaúcho

Aventuras na História

DUNLOP, Charles. Rio Antigo, volume II. Rio de Janeiro : Cia. Editora e Comercial F. Lemos, 1956.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Nosso Século 1910/1930 – Anos de crise e de criação. São Paulo : Editora Abril, 1980

SILVA, Maria do Carmo Couto da. Escultura e literatura nacional: o monumento a José de Alencar (1897). 

Site Arqueologia Histórica do Rio de Janeiro

WANDERLEY, Andrea C.T. A fundação da Academia Brasileira de Letras  in Brasiliana Fotográfica, 20 de julho de 2022.

 

 

 

E o grande escritor Machado de Assis elogia o imperador Pedro II

Neste ano de 2025, quando comemora-se em 2 de dezembro os 200 anos de nascimento de dom Pedro II (1825 – 1891) que, dentre outros interesses, era um grande entusiasta da fotografia, tendo atuado decisivamente para seu desenvolvimento no Brasil, destacamos uma crônica de 1867, em que o escritor Machado de Assis (1839-1908), então com 27 anos, elogiou o imperador, declarando sua admiração pelo monarca.

Neste artigo, a Brasiliana Fotográfica destaca duas imagens, uma do rei e outra do literato, produzidas pelo fotógrafo e pintor português Joaquim Insley Pacheco (1830-1912), um dos mais prestigiados e famosos retratistas do Brasil no século XIX. No fim dos anos 1840, já estava em Fortaleza, onde teve contato com a fotografia com o daguerreotipista e mágico irlandês Frederick Walter (1811 – 18?), que tornou-se seu mestre. Em 1855, já estava estabelecido no Rio de Janeiro e nesse mesmo ano fotografou o imperador Pedro II, a imperatriz Teresa Cristina e a filha do casal, princesa Leopoldina, na Quinta da Boa Vista. Foi noticiado que havia sido agraciado com o título de “Fotógrafo da Casa Imperial”, em 1857 (Diário do Rio de Janeiro, 9 de janeiro de 1856Diário do Rio de Janeiro, 19 de dezembro de 1857).

 

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Voltando a Machado de Assis. Declarou em sua crônica a respeito de dom Pedro II:

“… gosto do imperador. Tem as duas qualidades essenciais ao chefe de uma nação: é esclarecido e honesto. Ama o seu país e acha que ele merece todos os sacrifícios”.

 

 

A crônica foi publicada no dia 5 de março de 1897, no Diário do Rio de Janeiro, na coluna “Folhetim”, e Machado a assinou com o pseudônimo Job – criado, em 1865, para a assinatura de contos destinados ao Jornal das Famílias. Em forma de correspondência, era endereçada à Opinião Pública.

 

 

Foi a primeira de duas crônicas intituladas Cartas Fluminenses.

 

 

Abaixo, a transcrição:

CARTAS FLUMINENSES

 À OPINIÃO PÚBLICA

5 DE MARÇO DE 1867.

Dizem alguns que V. Excia. não existe; outros afirmam o contrário. Mas estes são em maior número, e a força do número, que é a suprema razão moderna, resolve as dúvidas que eu porventura possa ter. Creio que V. Excia. existe, em que pese aos mofinos caluniadores de V. Excia. Se não existisse, como se falaria tanto em seu nome, na tribuna, na imprensa, nos meetings, na praça do comércio, na rua do Ouvidor? Das criações fabulosas não se fala com tanta insistência e generalidade, salvo se houvesse uma conspiração para asseverar aquilo que não é, e isto repugna-me acreditar. Também por muito tempo se duvidou da existência de Mr. Hume, aquele célebre mágico que transformava os ovos em carvão, mas, se bem me lembro, apareceu um dia o dito mágico, e daí em diante ninguém mais duvidou dele. O mesmo há de acontecer com o judeu errante, de quem falam todos, e que eu creio que existe, sem ser a cholera-morbos, e que há de aparecer mais dia menos dia, tenho essa esperança. É a maioria da gente que tem razão, e quando falo em maioria suponho ter produzido um desses argumentos invulneráveis, até mesmo no calcanhar, apesar de quanto possa ter dito o visconde de Albuquerque. Assentado isto, receba V. Excia. esta carta que é a primeira da série com que eu pretendo estrear na imprensa. É costume entre a gente trocar os bilhetes de visita a primeira vez que se encontra. Na Europa, ao menos, é tão necessário trazer um maço de bilhetes, como trazer um lenço. V. Excia. terá desejo de saber quem sou. Di-lo-ei em poucas palavras.

Se a velhice quer dizer cabelos brancos, se a mocidade quer dizer ilusões fracas, não sou moço nem velho. Realizo literalmente a expressão francesa: Un homme entre deux âges. Estou tão longe da infância como da decrepitude; não anseio pelo futuro, mas também não choro pelo passado. Nisto sou exceção dos outros homens que, de ordinário, diz um romancista, passam a primeira metade da vida a desejar a segunda, e a segunda a ter saudades da primeira. Não sou alto nem baixo; estou entre Thiers e Dumas, entre o finado marquês de Abrantes e o visconde de Camaragibe. Cito os dois para dar cor local à compa- ração, e ficar logo às boas com a crítica literária. Além disso, há um ponto de contato entre o orador francês e o orador brasileiro; ambos obtiveram um apelido quase idêntico pela semelhança da eloqüência parlamentar. Onde não há nenhum ponto de contato é entre os outros dois: nem o Sr. Camaragibe faz romances, nem Alexandre Dumas faz política, e creio que ambos se dão bem com esta abstenção. Não sou votante nem eleitor, o que me priva da visita de algumas pessoas de consideração em certos dias, gozando, aliás, da estima deles no resto do ano, o que me é sobremaneira agradável. Ao mesmo tempo poupo-me às lutas da igreja e às corrupções da sacristia.

Não privo com as musas, mas gosto delas. Leio por instruir-me; às vezes por consolar-me. Creio nos livros e adoro-os. Ao domingo leio as Santas Escrituras; os outros dias são divididos por meia dúzia de poetas e prosadores da minha predileção; consagro a sexta-feira à Constituição do Brasil e o sábado aos manuscritos que me dão para ler. Quer tudo isto dizer que à sexta-feira admiro os nossos maiores, e ao sábado durmo a sono solto. No tempo das câmaras leio com freqüência o padre Vieira e o padre Bernardes, dois grandes mestres. Quanto às minhas opiniões públicas, tenho duas, uma impossível, outra realizada. A impossível é a republica de Platão. A realizada é o sistema representativo. É sobretudo como brasileiro que me agrada esta última opinião, e eu peço aos deuses (também creio nos deuses) que afastem do Brasil o sistema republicano, porque esse dia seria o do nascimento da mais insolente aristocracia que o sol jamais iluminou.. Não freqüento o paço, mas gosto do imperador. Tem as duas qualidades essenciais ao chefe de uma nação: é esclarecido e honesto. Ama o seu país e acha que ele merece todos os sacrifícios. Aqui estão os principais traços da minha pessoa. Não direi a V. Excia. se tomo sorvetes nem se fumo charutos de Havana; são ridiculezas que não devem entrar no espírito da opinião pública.

Agora que me conhece, perguntará V. Excia. por que motivo esta primeira carta é dirigida à sua pessoa, e que lhe quero dizer com esta dedicatória. Nada mais simples. Entrando numa sala, cumprimenta-se logo a dona de casa; entrando na imprensa, dirijo-me a V. Excia. que é a dona dela, segundo dizem as gazetas, e eu creio no que as gazetas dizem. Consinta V. Excia. que eu não lhe faça corte. De todas as pessoas deste mundo é V. Excia. a mais cortejada desde que um italiano escreveu estas celebres palavras: — de l’opinione, regina del mondo, talvez para contrabalançar o título que as ladainhas da Igreja dão à Virgem Maria, regina angelorum. Não será V. Excia. igual à Virgem Maria, mas creio poder compará-la a Santa Bárbara, e realmente é uma Santa Bárbara, que a maior parte da gente invoca na hora do temporal e esquece na hora da bonança. Eu serei o mesmo em todas as fases do tempo, e se vier a cortejá-la algum dia, será em silêncio, silentium loquens, como dizia S. Jerônimo, outro advogado contra as borrascas. Terá V. Excia. a indiscrição de pedir-me um programa? Acho que este uso parlamentar não pode ter aceitação nos domínios da musa epistolar, que é toda incerta, caprichosa, fugitiva. Demais, sei eu acaso o que há de acontecer amanhã? Posso criar uma norma aos acontecimentos? Deixe que os dias passem, e o sucessor com ele, os sucessos imprevistos, as coisas inesperadas, e a respeito de todos direi francamente a minha opinião.

Ou, se quiser absolutamente um programa, dir-lhe-ei que prometo escrever com pena e tinta todas as minhas cartas, imitando deste modo o programa daquele ministério que consistia em executar as leis e economizar os dinheiros públicos. Profunda política que toda a gente compreendeu de um lance. Perdoe-me V. Excia., creio que V. Excia. apoiou esse ministério; ao menos assim dizem os amigos dele; e creio que também lhe fez oposição; ao menos, diziam-no os parlamentares oposicionistas. Coisas de V. Excia. É nisto que ninguém pode vencê-la. O dom de ubiqüidade é V. Excia. quem o tem de uma maneira prodigiosa. Agora, por exemplo, não anda V. Excia. de um lado trajando sedas e agitando guizos, alegre e descuidada, pulando uma valsa de Strauss, dando a mão à tísica dos pulmões e à tísica das algibeiras, e de outro lado envergando uma casaca preta, e distribuindo pelos candidatos políticos a palma eleitoral? Ajuizada e louca, grave e risonha, entre uma urna e um cálice de champanhe, na esquerda o tirso da bacante, na direita o estilo do escritor, olhar de Cícero, calva de Anacreonte, eis aí V. Excia., a quem todos adoram, os velhos e os mancebos, os boêmios e os candidatos.

A verdade é que V. Excia. tem às vezes caprichos singulares; gosta da cor vermelha, e a pretexto de eleição, inspira não sei que maus ímpetos ao leão popular, que a tudo investe e tudo desfaz. Nessas ocasiões V. Excia. não tem cetro, como rainha que é, tem um cacete, que é um teorema infalível. Mas nem assim perde o caráter de opinião: é esse o parecer dos seus escolhidos. Enfim, são ímpetos. O pior é quando, em vez de ímpetos, apenas se emprega o meio da corrupção das urnas, da sedução do votante, da intervenção do fósforo, — pasmoso invento que eu coloco entre a obra de Fulton e a obra de Gusmão, vulgo Montgolfier. Isso é que é pior. Francamente, eu creio que V. Excia. desconhece todos esses meios, e os condena, e se acaso os sofre é por honra da firma. Em todo caso, por que não protesta V. Excia.? É deste silêncio que algumas pessoas tiram a conclusão de que V. Excia. não existe. É amanhã que V. Excia. tem de escolher definitivamente os deputados; começam duas quaresmas, uma religiosa, outra política. Amanhã os católicos e os candidatos vão receber a cinza, e todos recebem a cinza, — ainda os que não forem eleitos, — uns na testa, outros nos olhos. Alegrias e decepções, dores e flores, todas as exaltações, todos os abatimentos, todos os contrastes. Eu creio que há em todo o império uma soma de políticos capaz de formar cinco ou seis câmaras. É que não há outra classe mais numerosa no Brasil. Divide-se essa classe em diversas secções: políticos por vocação, políticos por interesse, políticos por desfastio, políticos por não terem nada que fazer. Imagino daqui o imenso trabalho que há de ter V. Excia. em escolher os bons e úteis dentre tantos. E esse é o meu desejo, essa é a necessidade do país. Mande-nos V. Excia. uma câmara inteligente, generosa, honesta, sinceramente dedicada aos interesses públicos, uma câmara que ponha de parte as subtilezas e os sofismas, e entre de frente nas magnas questões do dia, que são as grandes necessidades do futuro, de que depende a grandeza, ia quase dizer a existência do corpo social.

Mas eu que falo assim obscuro e rude, quem sou eu para dar conselhos à opinião, regina del mondo? Perdoe-me V. Excia. É natural nos homens, e eu sou homem, homo sum. Ao menos veja nisto a minha boa vontade e o grande amor que lhe tenho. Creio que esta carta vai longa; tenho-lhe roubado demasiado tempo. Vou pôr aqui o ponto final, e recolher-me ao silêncio, a fim de pensar nos diversos assuntos com que me hei de ocupar, se Deus me der vida e saúde. Devia ir vê-la hoje divertindo-se e pulando, mas não posso. Consagro o dia de hoje a S. Francisco de Salles, apropriado à estação de penitência que começa amanhã. Preparo assim o meu espírito à meditação. Além de que, o bom do Santo é um dos melhores amigos que a gente pode ter: não fala mal nem dá conselhos inúteis. Se V. Excia. cuida que é um homem de carne e osso, engana-se; é um maço de folhas de papel metidos numa capa de couro; mas dentro do couro e do papel fulge e palpita uma bela alma.

JOB

A segunda crônica foi publicada no mesmo jornal e na mesma coluna, uma semana depois, em 12 de março. Também em forma de correspondência, era endereçada a Hetaira, termo grego para as prostitutas requintadas da Grécia Antiga. Foi sua última crônica publicada no Diário do Rio de Janeiro.

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Na década anterior, em 6 de novembro de 1859, na primeira página da revista semanal O Espelho, cujos textos de capa eram usualmente de autoria de Machado, foi publicada uma biografia não assinada de dom Pedro II. A descoberta deste texto e a possibilidade de sua autoria ser de Machado foi abordada pela pesquisadora Cristiane Garcia Teixeira (1985-), da Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC), em sua tese de mestrado, de 2016, intitulada Um projeto de revista n’O Espelho: literatura, modas, indústria e artes (1859-1860).

 

 

Segundo Cristiane, “Machado de Assis tinha vinte anos de idade quando começou a escrever nesta revista. Ele foi o colaborador mais assíduo, escreveu 38 textos em apenas quatro meses“. O Espelho circulou entre setembro de 1859 e janeiro de 1860, totalizando 19 números.

Sobre a possibilidade de Machado ser o autor do texto sobre o imperador, a pesquisadora escreveu em sua tese:

O argumento se sustenta da seguinte maneira; na edição número seis, publicada no dia nove de outubro, na rubrica Notícias á mão – sem menção de autor – uma nota informou: “Brevemente encetaremos a publicação de uma–Galeria Dramática – biografias e um retrato correspondente. O fotógrafo é o Sr. Gaspar Guimarães, e o biógrafo é o Sr. Machado de Assis”. Em nenhum dos números posteriores (sete, oito e nove), foram publicadas biografias ou apareceu alguma menção ao retrato. Apenas no número dez apareceu este esboço biográfico de D. Pedro II. O texto, por sua vez, ocupou um espaço geográfico na revista que foi comum a publicação de textos de Machado de Assis ou Francisco Eleutério de Sousa; a primeira página e o primeiro artigo. Era o “abre alas” da revistaPortanto, este texto biográfico, pode vir a ser um texto ainda desconhecido do literato tão aclamado pela crítica brasileira. Ademais, o biógrafo absteve-se de falar em política, no esboço biográfico, justificando que “As conveniências impõem-se esta falta, ou antes o cálculo impõe-nos esse silêncio”.

 

Abaixo, um trecho do esboço biográfico de Pedro II publicado em O Espelho:

“Duas nobres qualidades têm o imperador, que sempre acompanharão a sua memória: a da fé evangélica e a do amor pelo seu país, que o faz nivelar-se com o mais humilde de seus cidadãos. Além destas qualidades de um coração bem formado e educado nos são principio da moral e da religião, o monarca brasileiro presa-se de ser o cultor e amante protetor das letras pátrias. Em diversas associações entre nós fundadas todos o vêem representado no seu nome, nos donativos que faz a bem de sua prosperidade, e mesmo quando pode dispor de algumas horas de sua afadigada vida, ainda todos o veem animar com a sua presença as reuniões literárias dos nossos jovens estudiosos. É que o imperador reconhece, e mui bem, que sobre a ilustração assenta-se a moralidade de um povo, o seu adiantamento, a sua civilização; e sendo a mocidade o esteio do futuro, cumpre prepará-la de modo que as esperanças hoje sonhadas possam ser uma realidade nos dias que hão de vir”.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

 

Folha de São Paulo, 17 de setembro de 2020

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MOREIRA, Éric. Machado de Assis escreveu texto sobre D. Pedro II?. Aventuras na História, 23 de fevereiro de 2025

O GLOBO, 17 de setembro de 2020

Site Sábado

Site UFSC

WANDERLEY, Andrea. O retratista português Joaquim Insley Pacheco (1830 – 14 de outubro de 1912)in Brasiliana Fotográfica, 14 de outubro de 2016.

 

Os bondes do Rio de Janeiro de antigamente

O Rio de Janeiro foi a primeira cidade da América do Sul a organizar um serviço de transportes coletivos sobre trilhos de ferro. Antes dos bondes elétricos, havia os bondes à tração animal e a vapor. Vamos passear pelas ruas cariocas entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX a partir de uma seleção de imagens de bondes disponível no acervo fotográfico da Brasiliana Fotográfica? São registros realizados por fotógrafos ainda não identificados, por Augusto Malta (1864 – 1957), Guilherme Santos (1871 – 1966), José Baptista Barreira Vianna(1860-1925)Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897) e Marc Ferrez (1843 – 1923), dentre  vários outros. Contamos também, no artigo, um pouco da história do surgimento e desenvolvimento deste meio de transporte na cidade.

Acessando o link para uma seleção de fotografias de bondes do Rio de Janeiro de antigamente disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar a imagem e verificar todos os dados referentes a ela.

 

“Na verdade, o bonde foi um elemento essencial para a expansão e organização do espaço urbano no Rio de Janeiro”

 

Elisabeth von der Weid, historiadora

 

 

 

A primeira concessão para implantar o serviço dos bondes sobre trilhos e os de tração animal no Rio de Janeiro foi dada em 1856 ao médico inglês Thomas Cochrane (1805-1873), sogro do escritor José de Alencar (1829-1877), que casou-se, em 1864, com a primogênita do médico, Georgiana Augusta (1946-1923) (Diário do Rio de Janeiro, 14 de abril de 1856, sexta coluna; Descendência de José de Alencar). O primeiro trajeto ligou o Rocio (hoje Praça Tiradentes) à Tijuca com carros puxados a cavalos.

 

Ele formou a empresa Companhia de Carris de Ferro da Cidade à Boavista na Tijuca, mais conhecida como Companhia Ferro-Carril da Tijuca. Em janeiro de 1859, trafegou pela primeira vez no Rio de Janeiro um bonde puxado a burros (Jornal do Commercio, 15 de janeiro, quinta coluna; e 4 de fevereiro, segunda coluna, de 1859).

 

Gravura do primeiro bonde a tração animal que circulou no Rio de Janeiro / Rio Antigo, de Charles Dunlop

Gravura do primeiro bonde a tração animal que circulou no Rio de Janeiro / Rio Antigo, de Charles Dunlop

 

A primeira linha regular de bondes à tração animal foi inaugurada em 26 de março de 1859 pelo imperador Pedro II,  ligando o centro da cidade ao Alto da Boa Vista. A cerimônia de bênçãos ocorreu na estação central da Rua do Conde. A Família Real seguiu com membros do governo e com a família de Cochrane para o Andaraí. No outro carro seguiram diretores da companhia e alguns convidados. Foi servido um almoço a todos na chácara de F. A. Marques (Jornal do Commercio, 26 e 27 de março de 1859, segunda coluna). Havia dois veículos, importados da Inglaterra, que faziam as viagens pela manhã e pela tarde. Os carros eram puxados por burros e foram apelidados de maxambombas pelos cariocas, provavelmente por analogia aos trens da Estrada de Ferro D. Pedro II que iam até um engenho com este nome na zona rural (WEID). Em 1861, Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá (1813 – 1889), empresário pioneiro das estradas de ferro no país, assumiu a presidência da Companhia de Carris de Ferro da Cidade à Boavista, que mudou a tração animal para vapor. Em novembro de 1866, a empresa de carris da Tijuca, em dificuldades financeiras, suspendeu seus serviços e a concessão caducou em seguida, por interrupção de tráfego (WEID).

 

 

A partir do fim da década de 1860, os bondes, ainda movidos por tração animal, começaram a se multiplicar no Rio de Janeiro. Desde então, muitas empresas se constituíram para explorar o negócio. Em 1868, a Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico, organizada pelo Barão de Mauá, entrou em operação, com bondes puxados a burro. Mauá havia se associado ao banqueiro norte-americano Charles Bachus Greenough (1824 – 1880) que, em 1866 criou nos Estados Unidos a Botanical Garden Rail Road Company Ltd.

 

 

O primeiro trecho, da rua do Ouvidor ao Largo do Machado, foi inaugurado em outubro de 1868. Ainda neste ano os trilhos chegaram a Botafogo. A estação do Jardim Botânico só foi inaugurada em 1871.

 

 

Segundo o escritor e entusiasta do Rio Antigo Charles Julius Dunlop (1908–1987), em seu livro Apontamentos, foi nesta fase que começou a ser utilizado o termo bond para designar o novo tipo de transporte. A origem teria sido um sistema de bloco de cinco passagens instituído pela Botanical Garden. Os blocos eram comprados nas estações e as passagens tinham escrito em cima o nome da companhia, a palavra bond (título), o valor e um desenho do veículo. Em pouco tempo, o termo generalizou-se.

Em 1880, os trilhos chegavam ao alto da Gávea.

Em crônica publicada em 4 de julho de 1883, Machado de Assis (1839 – 1908) atesta o sucesso desse meio de transporte coletivo “essencialmente democrático”. Com sua inconfundível ironia, o cronista Machado, sob o pseudônimo Lélio, assinou a série coletiva “Balas de Estalo”, publicada na Gazeta de Notícias, entre os anos de 1883 e 1886. Na crônica sobre os bondes, ele divulgou, com sua fina ironia, dez de setenta artigos que regulamentariam o convívio entre os passageiros dos bondes.

 

 Balas de estalo

Ocorreu-me compor umas certas regras para uso dos que frequentam bondes. O desenvolvimento que tem tido entre nós esse meio de locomoção, essencialmente democrático, exige que ele não seja deixado ao puro capricho dos passageiros. Não posso dar aqui mais do que alguns extratos do meu trabalho; basta saber que tem nada menos de setenta artigos. Vão apenas dez.

ART. I Dos encatarroados

Os encatarroados podem entrar nos bondes com a condição de não tossirem mais de três vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quatro. Quando a tosse for tão teimosa, que não permita esta limitação, os encatarroados têm dois alvitres: — ou irem a pé, que é bom exercício, ou meterem-se na cama. Também podem ir tossir para o diabo que os carregue. Os encatarroados que estiverem nas extremidades dos bancos, devem escarrar para o lado da rua, em vez de o fazerem no próprio bonde, salvo caso de aposta, preceito religioso ou maçônico, vocação, etc., etc.

ART. II Da posição das pernas

As pernas devem trazer-se de modo que não constranjam os passageiros do mesmo banco. Não se proíbem formalmente as pernas abertas, mas com a condição de pagar os outros lugares, e fazê-los ocupar por meninas pobres ou viúvas desvalidas, mediante uma pequena gratificação.

ART. III Da leitura dos jornais

Cada vez que um passageiro abrir a folha que estiver lendo, terá o cuidado de não roçar as ventas dos vizinhos, nem levar-lhes os chapéus. Também não é bonito encostá-los no passageiro da frente.

É permitido o uso dos quebra-queixos em duas circunstâncias: — a primeira quando não for ninguém no bonde, e a segunda ao descer.

ART. IV Dos quebra-queixos

É permitido o uso dos quebra-queixos em duas circunstâncias: — a primeira quando não for ninguém no bonde, e a segunda ao descer.

ART. V Dos amoladores

Toda a pessoa que sentir necessidade de contar os seus negócios íntimos, sem interesse para ninguém, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidência, se ele é assaz cristão e resignado. No caso afirmativo, perguntarlhe-á se prefere a narração ou uma descarga de pontapés. Sendo provável que ele prefira os pontapés, a pessoa deve imediatamente pespegá-los. No caso, aliás extraordinário e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narração, o proponente deve fazê-lo minuciosamente, carregando muito nas circunstâncias mais triviais, repetindo os ditos, pisando e repisando as coisas, de modo que o paciente jure aos seus deuses não cair em outra.

ART. VI Dos perdigotos

Reserva-se o banco da frente para a emissão dos perdigotos, salvo nas ocasiões em que a chuva obriga a mudar a posição do banco. Também podem emitir-se na plataforma de trás, indo o passageiro ao pé do condutor, e a cara para a rua.

ART. VII Das conversas

Quando duas pessoas, sentadas a distância, quiserem dizer alguma coisa em voz alta, terão cuidado de não gastar mais de quinze ou vinte palavras, e, em todo caso, sem alusões maliciosas, principalmente se houver senhoras.

ART. VIII Das pessoas com morrinha

As pessoas que tiverem morrinha, podem participar dos bondes indiretamente: ficando na calçada, e vendo-os passar de um lado para outro. Será melhor que morem em rua por onde eles passem, porque então podem vê-los mesmo da janela.

ART. IX Da passagem às senhoras

Quando alguma senhora entrar, o passageiro da ponta deve levantar-se e dar passagem, não só porque é incômodo para ele ficar sentado, apertando as pernas, como porque é uma grande má-criação.

ART. X Do pagamento

Quando o passageiro estiver ao pé de um conhecido, e, ao vir o condutor receber as passagens, notar que o conhecido procura o dinheiro com certa vagareza ou dificuldade, deve imediatamente pagar por ele: é evidente que, se ele quisesse pagar, teria tirado o dinheiro mais depressa.

Os bondes deixaram as ruas na década de 1960, mas ainda frequentam o imaginário da cidade como um ícone do Rio antigo. Santa Teresa é o último bairro carioca entrecortado pelos trilhos.

Gazeta de Notícias,  04/07/1883

 

 

Na cidade do Rio de Janeiro, em 8 de outubro de 1892, foi inaugurada a primeira linha de bonde elétrico da América do Sul, pela Companhia Ferro Carril do Jardim Botânico. O bonde partiu, sob aplausos do povo, da curva do antigo Teatro Lírico e foi até a estação do Largo do Machado, conduzindo o então vice-presidente da República em exercício na presidência, marechal Floriano Peixoto (1839 – 1895) e convidados. Houve quem temesse viajar nesse primeiro veículo elétrico e a empresa mandou pintar no encosto dos bancos o aviso “A corrente elétrica nenhum perigo oferece aos srs. passageiros“. Os carros abertos eram a marca registrada dos nossos bondes, devido ao calor da cidade.

 

 

 

 

 

 

 

Uma semana depois, o escritor Machado de Assis relatou suas impressões:

“Não tendo assistido a inauguração dos bonds elétricos, deixei de falar neles. nem sequer entrei em algum, mais tarde, para receber as impressões da nova tração e contá-las. daí o meu silêncio da outra semana. anteontem, porém, indo pela praia da lapa, em um bond comum, encontrei um dos elétricos, que descia. era o primeiro que estes meus olhos viam andar…Em seguida, admirei a marcha serena do bond, deslizando como os barcos dos poetas, ao sopro da brisa invisível e amiga. mas, como íamos em sentido contrário, não tardou que nos perdêssemos de vista, dobrando ele para o largo da lapa e rua do passeio, e entrando eu na rua do catete. nem por isso o perdi de memória. a gente do meu bond ia saindo aqui e ali, outra gente entrava adiante e eu pensava no bond elétrico. assim fomos seguindo; até que, perto do fim da linha e já noite, éramos só três pessoas, o condutor, o cocheiro e eu. os dois cochilavam, eu pensava…”

Gazeta de Notícias, 16 de outubro de 1892

 

A ampliação do serviço de bondes garantia a circulação dos moradores, incentivando os negócios e a expansão da cidade. Seu papel como elemento propulsor de expansão urbana foi tão grande, que o ilustre jurista baiano Rui Barbosa (1849 – 1923) declarou, em 1898:

“O bonde foi até certo ponto a salvação da cidade. Foi o grande instrumento, o agente incomparável do seu progresso material. Foi ele que dilatou a zona urbana, que arejou a cidade, desaglomerando a população, que tornou possível a moradia fora da região central, onde até então todos nos apinhávamos sem luz, sem ar, sem espaço. (…) O Rio é realmente a pátria adotiva do bonde, a sua pátria de eleição” .

Em 1920, o bonde era o principal meio de transporte para 84% da população carioca. Segundo Ruy Castro, “…Caso se esticassem os quilômetros de trilhos da Light nas ruas do Rio, seria como ir de bonde da praça Mauá a São Paulo – eram 448 quilômetros de trilhos, com cerca de 480 carros cobrindo sessenta itinerários. Todos os usavam, dos escriturários e chapeleiras aos críticos de literatura e ministros do Supremo. Eram o veículo democrático por excelência”.

Com exceção de dois bondes que ainda trafegam pelo bairro carioca de Santa Teresa, o sistema foi aposentado em 1967, quando a última linha no Alto da Boa Vista parou de circular. O VLT, que é o bonde moderno, começou a circular no Rio de Janeiro, em maio de 2016.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ABREU, Maurício de A. Evolução urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, IPLANRIO/Zahar, 1987.

AZEVEDO, Aroldo. Os Cochranes do Brasil. São Paulo : Companhia Editora Nacional, 1965.

BARROS, Maria Pia Fontes Lins de; WANDERLEY, Andrea C. T. Agenda do Centro de Documentação da TV Globo

BENCHIMOL, Jaime L. Pereira Passos, um Haussmann tropical. Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes, 1990.

CASTRO, Ruy. Metrópole à beira-mar. O Rio moderno dos anos 20. São Paulo : Companhia das Letras, 2019.

DUNLOP, Charles. Rio Antigo, volume I. Rio de Janeiro : Editora Rio Antigo Ltda, 1958.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MORRISON, Alen. Rio de Janeiro - História dos bondes e 75 fotografias.

MORRISON, Alen. The tramways of Brazil – a 130 years survey, 1989.

O GLOBO, 15 de maio de 2016

Portal MultiRio

Site Rio Memórias

WEID, Elisabeth von der. O bonde como elemento de expansão urbana no Rio de Janeiro. Fundação Casa de Rui Barbosa.

 

A fundação da Academia Brasileira de Letras

Somente seis prédios da Exposição Internacional do Centenário da Independência, realizada em 1922, ainda existem e o da atual sede da Academia Brasileira de Letras, que hoje completa 125 anos, é um deles. É uma réplica do Petit Trianon, residência de campo da rainha da França, Maria Antonieta (1775 – 1793), em Versalhes, e abrigou, durante o evento, o Palácio da França (Fon Fon8 de julho 23 de setembro de 1922). Foi edificado sob a chefia do arquiteto Emile Louis Viret (1882 – 1968). Seu adjunto era o também arquiteto Gabriel Marmorat (1882 – 1951). Para celebrar o aniversário da ABL que, segundo seu estatuto tem por fim a cultura da língua e da literatura nacional, a Brasiliana Fotográfica destaca uma fotografia produzida por Thiele & Kollien, do acervo do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras do portal (*).

 

 

 

A Exposição Internacional do Centenário da Independência, um dos maiores eventos internacionais já realizados no Brasil foi inaugurada no Rio de Janeiro em 7 de setembro de 1922 e terminou em 24 de julho do ano seguinte (O Paiz, 25 de julho de 1923). Seu fim estava previsto para março de 1923, mas, como algumas construções não estavam concluídas na data de sua inauguração, foi prorrogada até julho. Durante sua realização foi produzido o Álbum Internacional do Centenário da Independência  com fotografias de autoria de Carlos Bippus, Thiele & Kollien e Lopes.

Além do edifício da ABL, cinco prédios da Exposição de 1922 ainda existem. No Rio de Janeiro, são o do Pavilhão da Administração e do Distrito Federal, atualmente uma das sedes do Museu da Imagem e do Som; o do Palácio das Indústrias, atual Museu Histórico Nacional;  o do Pavilhão de Estatística, órgão do Ministério da Saúde, e o do Pavilhão das Indústrias Particulares, o restaurante Albamar. Este último já existia antes da Exposição e abrigava o Mercado Municipal. O Pavilhão das Indústrias de Portugal, foi transferido para Lisboa e é o atual Pavilhão Carlos Lopes.

 

Segundo o site da Academia Brasileira de Letras:

“No fim do século XIX, Afonso Celso Júnior, ainda no Império, e Medeiros e Albuquerque, já na República, manifestaram-se a favor da criação de uma academia literária nacional, nos moldes da Academia Francesa. O êxito social e cultural da Revista Brasileira, de José Veríssimo, daria coesão a um grupo de escritores e, assim, possibilidade à idéia”.

O escritor e poeta Lucio de Mendonça (1854 – 1909) teve a iniciativa de propor uma Academia de Letras, sob a égide do Estado. As primeiras notícias relativas à sua fundação foram divulgadas em novembro de 1896, pela Gazeta de Notícias e pelo Jornal do Commercio (Gazeta de Notícias, 10 de novembro de 1896, quarta coluna; Jornal do Commercio, 11 de novembro de 1896, segunda coluna).

 

 

Até sua fundação, foram realizadas sete sessões preparatórias: a primeira em 15 de dezembro de 1896, e, a última, em 28 de janeiro de 1897, quando foi divulgado o estatuto da instituição. Ambas em uma sala da redação da Revista Brasileira, na Travessa do Ouvidor, nº 31 (Gazeta de Notícias, 16 de dezembro de 1896, quarta coluna; e Gazeta de Notícias, 29 de janeiro de 1897, terceira coluna).

 

 

 

 

A Academia Brasileira de Letras (ABL), inspirada na Academia Francesa, foi, finalmente, fundada em 20 de julho de 1897 e em sua sessão inaugural estavam presentes 16 acadêmicos em uma sala do Museu Pedagogium, na rua do Passeio, Centro do Rio de Janeiro. Seu primeiro presidente foi o escritor Machado de Assis (1839 – 1908). Joaquim Nabuco (1849 – 1910) foi seu primeiro secretário-geral; Rodrigo Otávio (1866 – 1944), 1º secretário; Silva Ramos (1853 – 1930), 2º secretário; e Inglês de Sousa (1853 – 1918), tesoureiro. Desde o início tem 40 membros, os imortais.

 

 

 

Nabuco pronunciou o discurso inaugural. A partir desta data, a Academia passou a realizar reuniões semanais no Pedagogium (Gazeta de Notícias, 22 de julho de 1897, sétima coluna).

 

 

Entre 1905 e 1923, a ABL ocupou o prédio do Silogeu, onde também funcionavam o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, a Academia de Medicina e o Instituto dos Advogados do Brasil e o Instituto Histórico. Este edifício foi construído durante as reformas do prefeito Pereira Passos (1836 – 1913) e foi demolido no início da década de 1970 para o alargamento da Rua Teixeira de Freitas.

 

 

 

Em 15 de dezembro de 1923, quando comemorava 27 anos de fundação, a ABL mudou-se para seu endereço atual e sua primeira sede própria, no Petit Trianon, doado pelo governo da França, localizado na avenida Presidente Wilson (Jornal do Brasil, 6 de julho de 1923, quinta coluna; 15 de dezembro de 1923, penúltima coluna).  No prédio são realizadas as reuniões regulares dos Acadêmicos e as Sessões Solenes comemorativas e de posse de seus novos membros.

 

 

Neste mesmo ano, havia sido inaugurado, meses antes, um monumento em homenagem a Santos Dumont (1873 – 1932), no Petit Trianon (Jornal do Brasil, 13 de março de 1923).

 

 

Em 20 de julho de 1979, foi inaugurado um edifício ao lado do Petit Trianon, batizado como Palácio Austregésilo de Athayde (1898 – 1993), Acadêmico que ocupou durante 35 anos, de 1958 até sua morte, em 1993, a presidência da instituição. O novo edifício tornou-se importante parte do patrimônio da ABL. A primeira mulher eleita Acadêmica foi a escritora cearense Rachel de Queiroz (1910 – 2003), em 4 de novembro de 1977. Em 1996, a escritora Nélida Piñon (1937 – 2022) foi eleita a primeira mulher presidente da instituição, que é atualmente presidida pelo jornalista Merval Pereira (1949-). Em 10 de julho de 2025, a escritora mineira Ana Maria Gonçalves (1970 -) tornou-se a primeira mulher negra eleita para a Academia Brasileira de Letras.

 

 

Início

 

 

 

 

(*) Esse parágrafo foi alterado em 26 de julho de 2022.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Este artigo foi atualizado em 10 de julho de 2025.

 

Fontes:

Blog Rio Curioso

Cem Anos de Cultura Brasileira. Rio de Janeiro : Academia Brasileira de Letras, 2002

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

O Globo, 20 de julho de 2022

PISA, Daniel. Academia Brasileira de Letras Histórias e Revelações. Editora Fine Books, 2013.

Site Academia Brasileira de Letras

Site Arquivo Arq

Site Histórias e Monumentos

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XIII – A Rua Buenos Aires no Rio de Janeiro

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XIII – A Rua Buenos Aires no Rio de Janeiro

No 13º artigo da Série Avenidas e ruas do Brasil, a Brasiliana Fotográfica destaca a Rua Buenos Aires, antiga Rua do Hospício, no Centro do Rio de Janeiro. Os registros são de Augusto Malta (1864 – 1957), alagoano que foi o fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro, entre 1903 e 1936, e de um fotógrafo ainda não identificado. Malta foi contratado pelo prefeito Pereira Passos (1836 – 1913) para documentar a radical mudança urbanística promovida por ele, período que ficou conhecido como o “bota-abaixo” e que contribuiu fortemente para o surgimento do Rio de Janeiro da Belle Époque.

 

Acessando o link para as fotografias da rua Buenos Aires disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A Rua Buenos Aires liga o Campo de Santana à rua 1º de Março e fica na região conhecida como Saara, caracterizada pela forte presença de lojas especializadas em artigos populares. Lembramos a nossos leitores que a utilização da ferramenta zoom possibilita a exploração mais aproximada de aspectos interessantes das fotografias. Por exemplo, na imagem abaixo, realizada por um fotógrafo ainda não identificado, que registrou a Rua Buenos Aires na direção da Avenida Passos, podem ser observados mais detalhadamente seu antigo casario, os pedestres, as fachadas das lojas e um bonde em seus trilhos.

 

 

No século XVIII, a Rua Buenos Aires era chamada de Rua Detrás do Hospício, apesar de não ter existido um hospício nela: a parte de trás da antiga Igreja do Hospício, localizada na Rua do Rosário, que tinha uma capela e um albergue, dava para a Buenos Aires. Conforme lembrado por Brasil Gerson (1904 – 1981), no livro História das Ruas do Rio: No português antigo, hospício era o mesmo que albergue e hospital. Ainda, segundo o mesmo autor, antes de ficar conhecida como Rua do Hospício, alguns de seus trechos tiveram outras denominações como Rua da Portuguesa, certamente por causa da portuguesa Margarida Soares, que nela morava quando ela não ia além do caminho para o Morro da Conceição; Rua do Sebastião Ferrão, que foi provavelmente um tabelião; Rua do Teixeira, que nela explorava uma casa de jogo de truque; Rua do Becão, famoso cirurgião da Santa Casa; e Rua do Alecrim.

Passou a chamar-se Rua Buenos Aires, em 1915, durante a gestão do prefeiro Rivadávia da Cunha Correia (1866- 1920) (A Noite, 16 de novembro de 1915, quarta coluna; A Rua, 23 de novembro, segunda coluna).

Abrigou alguns estabelecimentos importantes da cidade como, por volta de 1860, a empresa Mesquita e Moreira, de matérias fecais, que antes da instalação do serviço de esgoto no Rio de Janeiro recolhia os urinóis caseiros e jogava sua carga no mar; a redação do jornal O Jacobino, a primeira sede do Clube Ginástico Português, a companhia Mútua de Seguros de Vida de Escravos, em 1862; em 1880, o Grêmio dos Professores; e, em 1905, a Liga Metropolitana de Futebol. Já na década de 1930, tornou-se uma Ra cheia de sedes de jornais: lá estavam instalados, no quarteirão entre o Mercado das Flores e a Rua Uruguaiana, A Manhã, O Popular e  A Tarde.

 

 

O registro abaixo, do Mercado das Flores, na Rua Buenos Aires, foi produzido por Malta. Foi inaugurado em 17 de abril de 1910 com a presença do então prefeito da cidade, Serzedelo Correia (1858 – 1932) e de Julio Furtado (1851 -1934), diretor das Matas e Jardins. Agora já pode o estrangeiro ir a um mercado de flores decente e digno de uma capital como a nossa (Correio da Manhã, 18 de abril de 1910, última coluna). Porém a construção não agradou a todos (Gazeta de Notícias, 18 de abril de 1910, segunda coluna). Foi o caso da escritora Julia Lopes de Almeida (1862 – 1934), que publicou uma crítica no jornal O Paiz, de 10 de maio de 1910. O Mercado das Flores, além de ser um polo de referência no comércio de flores, foi um ponto turístico da cidade, devido à exuberância de seus arranjos florais.

 

 

A Rua Buenos Aires, que ainda se chamava Rua do Hospício, foi mencionada na crônica Vinte Anos! Vinte Anos!, de Machado de Assis (1839 – 1908).

“…Depois de dizer o diabo do correspondente, de fazer e desfazer mil planos, Gonçalves assentou no que lhe pareceu melhor, que era ir à casa dele, na Rua do Hospício, descompô-lo, armado de bengala, e dar-lhe com ela, se ele replicasse alguma coisa. Era sumário, enérgico, um tanto fácil, e, segundo lhe dizia o coração, útil aos séculos…Eram os vinte anos que irrompiam cálidos, férvidos, incapazes de engolir a afronta e dissimular. Gonçalves foi por ali fora, Rua do Passeio, Rua da Ajuda, Rua dos Ourives, até à Rua do Ouvidor. Depois lembrou-se que a casa do correspondente, na Rua do Hospício, ficava entre as de Uruguaiana e dos Andradas; subiu, pois, a do Ouvidor para ir tomar a primeira destas. Não via ninguém, nem as moças bonitas que passavam, nem os sujeitos que lhe diziam adeus com a mão. Ia andando à maneira de touro. Antes de chegar à Rua de Uruguaiana, alguém chamou por ele.”

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Diário do Rio

GERSON, Brasil. História das Ruas do Rio. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2013.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

 

Links para as outras publicações da série “Avenidas e ruas do Brasil”

 Série “Avenidas e ruas do Brasil” I – Avenida Central, atual Rio Branco, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 7 de setembro de 2016

Série “Avenidas e ruas do Brasil” II – A Rua do Imperador em Petrópolis por Klumb, Leuzinger e Stahl, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 26 de junho de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” III – A Rua do Bom Jesus, no Recife, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 6 de agosto de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IV – A Rua 25 de Março, em São Paulo, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 1º de setembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” V – A Rua Direita, a Rua das Mercês e a Rua Macau do Meio, em Diamantina, Minas Gerais, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 22 de outubro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VI  – Rua Augusto Ribas e outras, em Ponta Grossa, no Paraná, pelo fotógrafo Luiz Bianchi, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 16 de novembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VII – A Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 23 de dezembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil VIII – A Rua da Carioca por Cássio Loredano, de autoria de Cássio Loredano, publicada em 20 de janeiro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IX – Ruas e panoramas do bairro do Catete, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 14 de julho de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” X – A Rua da Ajuda, no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 9 de novembro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XI – A Rua da Esperança, em São Paulo, por Vincenzo Pastore, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 14 de dezembro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XII – A Avenida Paulista, o coração pulsante da metrópole, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 21 de janeiro de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XIV – A Avenida Presidente Vargas,, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 31 de agosto de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XV – Misericórdia: rua, largo e ladeira, no Rio de Janeiro, por Cássio Loredano, de autoria de Cássio Loredano, publicada em 8 de dezembro de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVI – “Alguma coisa acontece no meu coração”, a Avenida São João nos 469 anos de São Paulo, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 25 de janeiro de 2023

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVII  e série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXIII – A Praia e a Rua do Russel, na Glória, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 15 de maio de 2023

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVIII – Avenida Beira-Mar, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 22 de janeiro de 2024

 

 

Série “Avenidas e ruas do Brasil” X – A Rua da Ajuda, no Rio de Janeiro, por Augusto Malta

Série “Avenidas e ruas do Brasil” X – A Rua da Ajuda, no Rio de Janeiro, por Augusto Malta

No 10º artigo da Série “Avenidas e ruas do Brasil”, o tema é a Rua da Ajuda, uma das mais antigas do Rio de Janeiro, registrada pelo alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro, de 1903 a 1936. Esse cargo foi criado para ele por Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), que o contratou meses após ter sido nomeado prefeito do então Distrito Federal, o Rio de Janeiro, pelo presidente Rodrigues Alves (1848 – 1919) em 30 de dezembro de 1902. O objetivo era o registro das obras e dos imóveis a serem desapropriados para posteriores pagamentos de indenizações. Malta passou a documentar, então, a radical mudança urbanística promovida pelo prefeito. Para realizá-la, várias demolições aconteceram e ficaram conhecidas popularmente como a política do “bota-abaixo”, que contribuíram decisivamente para o surgimento do Rio de Janeiro da Belle Époque.

 

Acessando o link para as fotografias da rua da Ajuda disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

A Rua da Ajuda, onde se encontravam o Conselho Municipal e o  Convento da Ajuda, que já foi tema de um artigo publicado na Brasiliana Fotográfica, foi drasticamente encurtada quando a Avenida Central, atual Avenida Rio Branco, foi construída e inaugurada, em 1904. Da rua restou apenas um pequeno trecho denominado Rua Chile, localizado entre a Rua São José e a Avenida Rio Branco.

 

 

Recebeu, por volta de 1630, o nome de Caminho de Nossa Senhora da Ajuda por começar em frente à Capela de Nossa Senhora da Ajuda. Mas, antes disso, em fins do século XVI, no caminho que vai para a Lagoa Grande ou do Boqueirão, levantou-se a Ermida de Nossa Senhora da Conceição da Ajuda, fato que comprova a antiguidade da Rua da Ajuda, aberta pelos primeiros povoadores do Rio de Janeiro.

“A Rua da Ajuda é quase tão antiga como as de São José e da Assembleia. Já encontramos escrituras de venda de terrenos e prédios desde 1612. Sua abertura explica-se pela comunicação, ao lado do Morro do Castelo e da rua São José, com a Ermida da Ajuda – onde está o Convento da Ajuda, demolido há poucos meses para construção de um grande hotel”.

Felisberto Freire em História da Cidade do Rio de Janeiro (1912)

 

 

Em um trecho do conto Pai Contra Mãe, publicado na antologia de contos Relíquias de Casa Velha (1906), o escritor Machado de Assis (1839 – 1908), em cuja obra a paisagem urbana do Rio de Janeiro é bastante presente, a Rua da Ajuda foi três vezes citada.

 

 

“…Saiu de manhã a ver e indagar pela Rua e Largo da Carioca, Rua do Parto e da Ajuda, onde ela parecia andar, segundo o anúncio. Não a achou; apenas um farmacêutico da Rua da Ajuda se lembrava de ter vendido uma onça de qualquer droga, três dias antes, à pessoa que tinha os sinais indicados. Cândido Neves parecia falar como dono da escrava, e agradeceu cortesmente a notícia. Não foi mais feliz com outros fugidos de gratificação incerta ou barata”.

 

 

“…Mas não sendo a rua infinita ou sequer longa, viria a acabá-la; foi então que lhe ocorreu entrar por um dos becos que ligavam aquela à Rua da Ajuda. Chegou ao fim do beco e, indo a dobrar à direita, na direção do Largo da Ajuda, viu do lado oposto um vulto de mulher; era a mulata fugida. Não dou aqui a comoção de Cândido Neves por não podê-lo fazer com a intensidade real. Um adjetivo basta; digamos enorme. Descendo a mulher, desceu ele também; a poucos passos estava a farmácia onde obtivera a informação, que referi acima. Entrou, achou o farmacêutico, pediu-lhe a fineza de guardar a criança por um instante; viria buscá-la sem falta”.

 

 

“…O fruto de algum tempo entrou sem vida neste mundo, entre os gemidos da mãe e os gestos de desespero do dono. Cândido Neves viu todo esse espetáculo. Não sabia que horas eram. Quaisquer que fossem, urgia correr à Rua da Ajuda, e foi o que ele fez sem querer conhecer as consequências do desastre…”

 

 

Andrea C.T.Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

FREIRE, Felisberto. História da Cidade do Rio de Janeiro: 1564 – 1700. Rio de Janeiro, RJ; São Paulo, SP: Tipografia da Revista dos Tribunais, 1912

GERSON, Brasil. História das Ruas do Rio. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2013.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Rua da Ajuda. Revista do Arquivo do Distrito Federal, Volume I, pág. 356, 1950

Site O Rio de Janeiro Aqui

 

Links para as outras publicações da série “Avenidas e ruas do Brasil”

 Série “Avenidas e ruas do Brasil” I – Avenida Central, atual Rio Branco, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 7 de setembro de 2016

Série “Avenidas e ruas do Brasil” II – A Rua do Imperador em Petrópolis por Klumb, Leuzinger e Stahl, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 26 de junho de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” III – A Rua do Bom Jesus, no Recife, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 6 de agosto de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IV – A Rua 25 de Março, em São Paulo, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 1º de setembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” V – A Rua Direita, a Rua das Mercês e a Rua Macau do Meio, em Diamantina, Minas Gerais, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 22 de outubro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VI  – Rua Augusto Ribas e outras, em Ponta Grossa, no Paraná, pelo fotógrafo Luiz Bianchi, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 16 de novembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VII – A Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 23 de dezembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil VIII – A Rua da Carioca por Cássio Loredano, de autoria de Cássio Loredano, publicada em 20 de janeiro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IX – Ruas e panoramas do bairro do Catete, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 14 de julho de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XI – A Rua da Esperança, em São Paulo, por Vincenzo Pastore, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 14 de dezembro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XII – A Avenida Paulista, o coração pulsante da metrópole, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 21 de janeiro de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XIII – A Rua Buenos Aires no Centro do Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 19 de julho de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XIV – A Avenida Presidente Vargas,, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 31 de agosto de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XV – Misericórdia: rua, largo e ladeira, no Rio de Janeiro, por Cássio Loredano, de autoria de Cássio Loredano, publicada em 8 de dezembro de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVI – “Alguma coisa acontece no meu coração”, a Avenida São João nos 469 anos de São Paulo, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 25 de janeiro de 2023

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVII  e série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXIII – A Praia e a Rua do Russel, na Glória, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 15 de maio de 2023

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVIII – Avenida Beira-Mar, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 22 de janeiro de 2024

 

 

Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?), fotógrafo das celebrações pela abolição da escravatura em 1888

Pouco se sabe, até o momento, da vida pessoal de Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?). Provavelmente iniciou suas atividades como fotógrafo na década de 1880 e o último registro da existência de seu ateliê fotográfico verificado pela pesquisa da Brasiliana Fotográfica é de 1904.  Atuou no Rio de Janeiro e teve como contemporâneos Alberto Henschel (1827 – 1882), Juan Gutierrez (c. 1860 – 1887) e Marc Ferrez (1843 – 1923), dentre outros.

 

 

Apesar de sua carreira discreta, por ter documentado cenas ligadas às celebrações pela abolição da escravatura em 1888, Ferreira é considerado um importante fotógrafo do século XIX. As imagens captadas por ele nessas ocasiões tão marcantes da história do país caracterizaram-se pela expressividade dos rostos retratados, decorrência, provavelmente, da relevância do acontecimento histórico e também da atração exercida pela própria presença da câmara fotográfica.

 

Acessando o link para as fotografias de Antonio Luiz Ferreira disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

É o autor da imagem da Missa Campal em São Cristóvão, no Rio de Janeiro, em 17 de maio de 1888, uma celebração de Ação de Graças pela libertação dos escravizados no Brasil, decretada quatro dias antes, com a assinatura da Lei Áurea. A festividade contou com a presença da princesa Isabel (1846 – 1921), regente imperial do Brasil, e de seu marido, o conde D´Eu (1842 – 1922), príncipe consorte, que, na foto, está ao lado da princesa, além de autoridades, políticos, jornalistas e escritores, dentre eles o escritor Machado de Assis (1834 – 1908). A presença de Machado na fotografia de Ferreira, descoberta realizada por mim, Andrea Wanderley, pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica, foi revelada no artigo  Missa Campal de 17 de maio de 1888, publicado no portal em 17 de maio de 2015. O professor José Murilo de Carvalho (1939 – ) escreveu sobre o assunto no artigo Machado de Assis vai à missa, publicado no portal , em 29 de de maio de 2015.

 

 

Sobre o dia da abolição, Machado escreveu, anos depois, em 14 de maio de 1893, na coluna “A Semana”, no jornal carioca Gazeta de NotíciasVerdadeiramente, foi o único dia de delírio público que me lembra ter visto.

Antonio Luiz Ferreira presenteou a princesa Isabel com 13 fotos de acontecimentos em torno da Abolição (Diário de Notícias, 9 de junho de 1888, na segunda coluna). A maior parte dessas fotos faz parte da Coleção Princesa Isabel que se encontra em Portugal, conservada por seus descendentes.

 

 

A fotografia da Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da escravatura no Brasil, que está aqui destacada, faz parte da Coleção Dom João de Orleans e Bragança e pertence ao acervo do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica.

 

 

Outros três registros foram feitos por Ferreira no dia 22 de agosto de 1888 e documentaram o retorno do imperador Pedro II (1825 – 1891) ao Brasil. Pertencem à Coleção Princesa Isabel.

Há ainda um registro da missa campal, também realizada em 17 de maio de 1888, pela Sociedade dos Homens de Cor da Irmandade de São Benedito. Pertence à família de Ferreira e segue inédita.

Então são 18 fotografias de autoria de Ferreira em torno da abolição.

Ele foi também o responsável pelo Álbum de vistas da Biblioteca Nacional, em 1902, com imagens da fachada, da escadaria e da galeria central, da sala principal de leituras, da sala de trabalho da seção de impressos, da sala principal da seção de manuscritos, da seção de estampas, do gabinete de numismática e da oficina de encadernação da instituição.

 

 

 

Cronologia de Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?)

 

1885 – Pela primeira vez a Photographia Antonio Luiz Ferreira foi anunciada no Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro. O estabelecimento ficava na rua da Conceição, nº 87.

1888 – Em 13 de maio, fotografou a multidão em torno do Paço Imperial quando a Lei Áurea foi assinada pela princesa Isabel.

 

 

Em 17 de maio, fotografou a missa campal realizada no Campo de São Cristóvão, uma celebração de Ação de Graças pela libertação dos escravos no Brasil, decretada quatro dias antes, com a assinatura da Lei Áurea. A festividade contou com a presença da princesa Isabel (1846 – 1921), regente imperial do Brasil, e de seu marido, o conde D´Eu (1842 – 1922), príncipe consorte, que, na foto, está ao lado da princesa, além de autoridades e políticos, dentre eles o escritor Machado de Assis (1834 – 1908).

 

 

 

Ferreira, referido como conhecido fotógrafo, levou à redação do Diário de Notícias e também na de O Paiz a fotografia da Missa Campal, que fazia honra ao artista porque é de uma fidelidade pasmosa. Media 52 x 32 cm e era emoldurada em pelúcia auriverde e suas margens tinha iluminuras realizadas pelo calígrafo R. Santos. Seria ofertada à princesa Isabel (Diário de Notícias, 3 de junho de 1888, sétima coluna; e O Paiz, 3 de junho de 1888, sétima coluna).

A prova da fotografia da missa campal, que ficou em exposição na papelaria Guimarães & Ferdinando, foi entregue à princesa em junho de 1888 juntamente com as outras 12 que Ferreira havia produzido em torno dos festejos pela abolição da escravatura (Diário de Notícias, 9 de junho de 1888, na segunda coluna).

Fotografou o Paço do Rio de Janeiro e exercícios militares de celebração pela volta de dom Pedro II e da imperatriz Tereza Christina da Europa, ocorrida em 22 de agosto de 1888.

1891 – Falecimento de Mário, filho de Ferrreira e de Elisa ou Luisa Christini, devido em um incêndio em sua casa na rua de Guaratiba, nº 53.  Mário e outro filho ou filha do fotógrafo estavam brincando com uma caixa de fósforos, causa do acidente. A mãe ficou com as mãos bastante queimadas por ter tentado salvar as crianças (Jornal do Brasil, 11 de novembro de 1891, quinta coluna; e Jornal do Brasil, 12 de novembro de 1891, segunda coluna).

1893 –  Seu ateliê fotográfico, a Photographia Central, ficava na rua da Guarda Velha, atual avenida 13 de maio, nº 1, no Largo da Carioca (Almanak Laemmert, 1894, 1896, 1898, 1899).

 

 

 

 

1894 – Fotografou, no Arpoador, a comitiva que participou de um piquenique em Vila Ipanema, promovido pelo incorporador da Sociedade Anônima Copacabana Sport, Gonçalves Junior (Jornal do Commercio, 29 de maio de 1894, penúltima coluna; 6 de junho de 1894, quarta coluna).

1895 – No mesmo endereço da Photographia Central, rua da Guarda, nº 1, ficava o gabinete cirúrgico-dentário do dr. J. Pontes Lopes & Gonçalves (Jornal do Brasil, de 1895, 8 de julho de 1895, terceira coluna).

1897 – Um retrato do coronel Moreira César, (1850 – 1897), morto em 4 de março de 1897 na Guerra de Canudos, encontrava-se na Photographia Central, de Ferreira, ou na Casa Nalté, na rua do Ouvidor (Jornal do Commercio, 10 de março de 1897, penúltima coluna).

1898 – Na Photographia Central, venda de folhinhas, anunciadas como bons presentes de festas, com fotografias do cruzador Adamastor e de seus marinheiros (Cidade do Rio, 27 de dezembro de 1898, penúltima coluna).

1899 – Anúncio de venda de uma máquina detectiva 9 x 12 com 12 chassis, o que há de mais aperfeiçoado, quase nova, na Photographia Central. Eram câmeras fotográficas sem tripé (Jornal do Commercio, 22 de abril de 1899, primeira coluna).

Por ocasião da visita do presidente da Argentina, Julio Argentino Roca (1843 – 1914) ao Rio de Janeiro, Ferreira foi um dos integrantes da comissão de ornamentação e iluminação das ruas, no caso do Largo da Carioca, onde ficava seu ateliê (Jornal do Commercio, 9 de agosto de 1899, sétima coluna).

1901 - Seu ateliê continuava a se localizar na rua da Guarda Velha, nº 1, e foi anunciado pela última vez no Almanak Laemmert de 1903 (Almanak Laemmert, 1901, 1902, 1903).

1902 - Publicação de dois álbuns realizados por Antonio Luiz Ferreira, que havia sido contratado para documentar o edifício sede da Biblioteca Nacional, na rua do Passeio, onde a instituição permaneceu até 1910. Um, com as cópias em papel albuminado e outro, com as cópias produzidas em platina, que apresentam melhores atributos de estabilidade e permanência.

 

 

1903 - Nascimento de Antônio, filho de Ferreira e de Luiza ou Elisa Christini (Jornal do Brasil, 10 de abril de 1903, terceira coluna).

Houve um incêndio no prédio onde ficava na Photographia Central, causado por um restaurante que também ficava no edifício (Jornal do Brasil, 13 de agosto de 1903, penúltima coluna; e Almanak Gazeta de Notícias, 1904).

1904 – Estavam sendo vendidas máquinas fotográficas quase novas na Photographia Central (Jornal do Brasil, 13 de dezembro de 1904, terceira coluna).

1905 - Ferreira pediu licença para retirar materiais que lhe pertenciam do prédio onde ficava seu ateliê fotográfico, na rua Treze de Maio, n° 1, antiga rua da Guarda (Gazeta de Notícias, 5 de maio de 1905, primeira coluna).

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

FERREZ, Gilberto;NAEF, Weston J. Pioneer photographers of Brazil : 1840 – 1920. New York: The Center for Inter-American Relations, 1976. 143 p.

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

LAGO, Bia Corrêa do;LAGO, Pedro Corrêa do. Coleção Princesa Isabel: fotografia do século XIX. Rio de Janeiro: Capivara, 2008.432p.:il., retrs.

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VIII – A Rua da Carioca por Cássio Loredano

A Brasiliana Fotográfica celebra o Dia de São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro, com a publicação do oitavo artigo da série “Avenidas e ruas do Brasil”. É o jornalista e caricaturista Cássio Loredano que nos conta a história de uma das ruas mais antigas e representativas da cidade, a Rua da Carioca, no Centro, que traz no seu nome, desde 1848, por deliberação da Câmara Municipal da Corte, a denominação daqueles que nascem na cidade (Diário do Rio de Janeiro, 8 de novembro de 1848, terceira coluna). Mas já foi, há séculos, chamada de Caminho do Egito e Rua do Piolho.

Acessando o link para as fotografias do largo e da Rua da Carioca disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.  

 

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VIII – A rua da Carioca por Cássio Loredano

Cássio Loredano*

 

 

Degredar foi em Portugal, desde o século XVI, uma das penas impostas a quem tinha contas a ajustar com a lei. E foi disso que se lembraram por lá quando, no início do Setecentos, pretenderam se ver livres de uma gente incômoda que em toda a Europa e ao longo de séculos era alvo de ondas recorrentes de antipatia, segregação, preconceitos e perseguições, – os ciganos: mandar para o Brasil. E no Rio de Janeiro, como eram “intocáveis”, em grego
athígganos, isto é, que não queriam e, mais do que não quererem, eram proibidos de contato com cristãos, foram armar suas barracas fora dos estreitos limites municipais de então: lá para os lados do Rocio grande, na época Campo da Cidade, e numa rua que a partir dele se formou e se chamou Rua dos Ciganos. O próprio campo passou a ser então também chamado dos Ciganos.

 

 

Que são as atuais Rua da Constituição e praça Tiradentes. O acesso a esse campo se dava pelo que é hoje a Rua da Carioca e era um tortuoso “caminho que pelo areal passa pelo pé do outeiro de São Francisco (Santo Antônio)”.

 

 

Essa hesitação na toponímia se deve a que Santo Antônio de Lisboa era franciscano. Saiu a pé para a Itália, onde ingressou nessa ordem, se fez doutor e lecionou Teologia em Bolonha. Foi canonizado como Santo Antônio de Pádua, cidade em que morreu. Era soldado honorário do exército português e, quando o Rio foi atacado em 1710 por um pirata francês, Jean-François Duclerc, tiveram a ideia de tirar sua imagem do frontão da igreja e colocá-la em cima do muro do convento para inspirar os defensores da cidade. A isso atribuído o êxito da campanha, promoveu-se o santo a tenente-coronel e lhe outorgaram a grã-cruz da Ordem Militar de Cristo. Quando, um ano depois, outro pirata, René Duguay-Trouin, veio vingar Duclerc, que tinha morrido no Rio, não houve santo que evitasse a nódoa que ficou no brasão da cidade.

 

 

°°°

Em 1967, dois anos depois o do 4º centenário da, com nódoa ou sem nódoa, “mui heróica e leal” São Sebastião do Rio de Janeiro, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, IHGB, publicou um preciosíssimo Atlas da evolução urbana da cidade, de Eduardo Canabrava Barreiros. São vinte e duas pranchas em que nos passa sob o olhar tudo o que houve com o plano municipal ao longo de quatrocentos anos: abertura de caminhos, ruas e praças, desmontes de morros, aterros de lagoas, charcos e perfis litorâneos, etc.

 

atlas

 

A prancha 10 do atlas, que  tem por base uma planta de 1713, de José Massé, ensina que aquele “caminho do areal” passara a se chamar Caminho do Egito. Em sua História das ruas do Rio, Brasil Gerson levanta a possibilidade de ter havido em algum ponto do caminho um oratório com a imagem da fuga de Maria, José e o Menino para o Egito para escapar ao infanticídio decretado por Herodes. Muito mais plausível, embora não se conheça documento que o comprove, é que se chamasse do Egito por conduzir ao campo dos Ciganos, como está no último romance da pentalogia carioca de Alberto Mussa, A biblioteca elementar, de 2018.

 

 

Em algumas línguas, português, italiano, alemão, manteve-se a palavra grega que Bizâncio usou, athígganos, como derivação para cigano, zíngaro, Zigeuner (tsigóiner). Esses nômades originários da Índia tinham entrado na Europa com as invasões mongóis do século XIII e subido até a Boêmia pelo vale do Danúbio. Outro itinerário de entrada teria sido via Egito, e isso diziam os próprios ciganos, o que originou as palavras por que foram chamados em outras línguas. Em castelhano, gitanos, de egiptanos. Em francês, além do empréstimo tomado ao castelhano, gitans, também égyptiens ou bohémiens, dependendo de se tinham chegado pelo Mediterrâneo ou descido pelo continente, – e Victor Hugo pode numa mesma página de Notre-Dame de Paris chamar sua Esmeralda de bohémienne ou égyptienne. Em inglês, simplesmente gypsys ou gipsys.

Ora, os degredados do campo dos Ciganos diziam que tinham entrado na Europa passando pelo Egito e é mais plausível que por isso a rua tenha se chamado assim do que pelo oratório imaginado por Brasil Gerson.

 

 

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Tom Jobim dizia que o Brasil não é para principiantes. Aqui, prostitutas se apaixonam e traficantes se viciam. E cigano se fixa, cigano se estabelece. E o mesmo Brasil Gerson nos conta como alguns deles ganharam dinheiro com o negócio negreiro no Valongo e deixaram seus acampamentos para vir morar dentro dos limites da cidade. Na Rua do Piolho, como tinha passado a se chamar o caminho do Egito, segundo o mapa de André Vaz Figueira, de 1750, base para a prancha 12 do atlas de Canabrava Barreiros.

“Piolho” era como a vizinhança chamava um solicitador da época, cujo nome a história esqueceu, apelido que se dava a gente que como ele vivia escarafunchando arquivos e cartórios em busca de questões de que pudesse tirar proveito. “Piolho das roupas”, “piolho em costura”. Algo como hoje muquirana (aliás o nome do piolho em tupi), parasita, sanguessuga.

 

 

No começo, o caminho do Egito só tinha casas do lado direito de quem vai para o campo. Do lado esquerdo, só havia uma cerca que separava da cidade os domínios dos franciscanos. Mas quando a ordem terceira de São Francisco da Penitência construiu seu hospital no sopé do morro, detrás dele ficou aberto o espaço em que se fizeram as casas do lado esquerdo e a Rua do Piolho passou a tê-las dos dois lados. O “Piolho” tinha na rua a casa em que morava e mais três que alugava.

Na Planta Régia mandada fazer em 1808 pela casa real que chegara ao Brasil naquele ano, a rua ainda se chama do Piolho, mas o campo é da Lampadosa, por causa da igreja dessa virgem que havia (e há) na Rua do Sacramento, atual Avenida Passos. Nessa igreja o Tiradentes teve licença de ouvir uma missa antes de ser  levado ao patíbulo que estava para ele armado no centro do campo.

 

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Em 1723, tinha sido mandada aterrar uma lagoa, às vezes só charco, emanação de miasma e criadouro de mosquitos que havia embaixo, defronte ao convento de Santo Antônio (como se vê no mapa acima, diante do convento assinalado pelo quadrado preto). Naquele espaço se construiu o primeiro chafariz “da Carioca”. De suas 16 bicas despejava a água que os velhos arcos construídos pelo governador Aires Saldanha traziam da nascente do rio Carioca pelos altos de Santa Teresa. Depois, Gomes Freire, também governador, mandou subir o maravilhoso monumento que são os Arcos da Lapa, com o idêntico propósito de vencer o vale entre os morros de Santa Teresa e Santo Antônio, trazendo a água para um novo, enorme chafariz de agora 35 torneiras. E largo da Carioca passou a se chamar o espaço do antigo viveiro pestilento aterrado. (Como “da Carioca” se chamara lá atrás o caminho que levava até a foz do rio Carioca, na atual praia do Flamengo, onde se fazia a aguada, o reabastecimento de água doce a bordo das embarcações que estavam fundeadas na baía. Quando a Rua do Cano, atual Sete de Setembro, e o chafariz do Mestre Valentim puxaram a água até o largo do Paço, a aguada dos marinheiros passou a se fazer com muito maior comodidade, no cais Pharoux.)

 

 

A Rua do Piolho, que ganhou a importância de ser o acesso de quem morava lá fora à água do chafariz, passou com o tempo a ser também chamada  de Rua da Carioca, como consta na planta Garnier, de 1859, prancha 16 do atlas do IHGB. Nela, o campo da Lampadosa tinha mudado de novo de nome, praça da Constituição. Sempre se disse que o novo nome comemorava a primeira constituição do Brasil independente, de 1824. Brasil Gerson avança, porém, a informação de que isto foi porque na praça, dia 26 de fevereiro de 1821 – e apenas dois meses antes de seu embarque de volta a Portugal, a 25 de abril – d. João VI jurou “as bases da futura Constituição a ser votada pelas Cortes de Lisboa”. A República rebatizou outra vez o velho campo: praça Tiradentes.

No começo do século XX, a administração Pereira Passos tornou o velho caminho uma rua reta, alargou-a, arborizou-a e a tornou importante eixo de ligação centro-norte da cidade, com suas “colegas” lá na frente, Visconde do Rio Branco, Frei Caneca, Salvador e Estácio de Sá, Haddock Lobo e por ali adiante. Depois, ganharam a concorrência brutal da Presidente Vargas. A rua manteve um charme que foi devagar se degradando e entrou na depressão que agora está atravessando e que se comunica a seus frequentadores mais antigos.

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Em 1862, instalou-se no centro da então praça da Constituição o primeiro e possivelmente o mais belo bronze da cidade, a estátua equestre de Pedro I, esculpida e fundida em Paris nas oficinas de Louis Rochet. O imperador está brandindo um calhamaço que seria a constituição de 1824, origem da tal confusão que se criou com a afirmação de Brasil Gerson.

 

 

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2020

Da praça que emoldura o monumento, três quartos das portas estão arriados, a maioria – por causa da pandemia – definitivamente. Na face entre a Rua da Carioca e a Visconde do Rio Branco estão os dois hotéis da esquina da rua Silva Jardim: o decadente e o moderno da cadeia Ibis. Há depois uma loja de ferragens e “sebo” mais nenhum. O Teatro Carlos Gomes está obviamente fechado e o quartel da polícia foi abandonado. Do lado onde funcionou o lendário dancing Estudantina Musical, estão o palacete do visconde do Rio Seco, imponente e restaurado, e seu vizinho moderno, ambos abrigando agora o Centro de Referência do Artesanato Brasileiro. Depois, só mais a tradicional loja Tic-tac, sapataria nos três sentidos: indústria, comércio e reparo de sapatos e consertos gerais. O resto, até a Rua da Constituição, é deprimente, doze portas de aço fechadas, enferrujando.

Dessa Rua da Constituição, há quatro anos, saem, passam pela praça e se enfiam pela Rua Sete de Setembro os trilhos da linha 2 do VLT, tetrassílabo tolo, quando se tem bonde, delicioso brasileirismo quase monossilábico. Desse lado da praça, funciona um pequeno supermercado. A casa onde morou a cantora Bidu Sayão foi restaurada e abandonada. Na esquina da Rua da Imperatriz há um café e restaurante novo, bastante simpático. Na pequena quadra dali até a Avenida Passos funcionou no século XIX a tipografia e editora do grande Francisco de Paula Brito, aliás nascido na Rua do Piolho, primeiro empregador de um certo Quincas, jovem revisor, por extenso Joaquim Maria Machado de Assis. Hoje ali não há mais nada e o outrora imponente casarão da esquina da avenida é uma perigosa ruína. O Teatro João Caetano está também sem função. Na face entre a Rua do Teatro e a da Carioca existe uma caixa de fósforos estreita e comprida, de 31 andares, isolada e horrorosa, o Edifício Centro Paulista. Fora isso, mais nada. Uma filial da Adega do Pimenta, de Santa Teresa, está fechada.

Entremos então pela Rua da Carioca. Mais ou menos metade das portas também está fechada. Do tradicional polo de lojas de instrumentos musicais ainda resistem oito, mas não mais nem A Guitarra de Prata, nem O Bandolim de Ouro. Das de malas ainda existem quatro. De guarda-chuvas, uma só e só uma de chapéus de sol e cadeiras de praia.

Do lado esquerdo de quem está indo para o Largo da Carioca, está a metade do que foi a fachada do Cinema Ideal, com sua marquise de vidro sustentada por belo artesanato de ferro art déco. A sala tinha o luxo de um teto retrátil para noites limpas de verão. A seguir, chega-se a uma simpaticíssima servidão de passagem para a Rua Sete de Setembro, Rua do Verde, inteiramente dedicada a comércios de plantas; e uma filial do paraíso, a loja do Palácio das Ferramentas. Na esquina de Ramalho Ortigão existiu muito tempo um lindo armazém do tipo da Casa Paladino, na Rua Uruguaiana, ou o do Senado na Gomes Freire e o Gomes de Santa Teresa. Pé-direito altíssimo, mobiliário até o teto em madeira escura entalhada e portas de cristal, balcões, prateleiras e gôndolas com milhares de garrafas de toda aguardente imaginável, compotas, rapaduras envoltas em folhas de bananeira secas ou palha de milho. Bar Flora. Agora na esquina, no espaço de um terço do que era, está um bar com graça zero, tudo de fórmica, em que  pessoas engolem de pé e depressa uma fritura massuda qualquer com qualquer refresco para ajudar a descer.

No sobrado do nº 38 – magnificamente restaurado, deixando à mostra por dentro a antiga alvenaria de pedra e argamassa à base de óleo de baleia -, funcionava até a pandemia e reabrirá depois dela a Casa do Choro, iniciativa de Luciana Rabello, reduto da melhor música instrumental da cidade.

Mas atravessemos a rua. No pequeno edifício estreito do nº 59, ocupou um andar a última redação do Pasquim, em que, praticamente sozinhos, Jaguar e Reinaldo “casseta” levaram o barco até o fim. O segundo andar do 53 foi o lendário restaurante Zicartola. Os donos, Cartola e sua mulher Zica, a chefe da cozinha, moravam no andar de cima. O local tinha um espaço em que se apresentava a nata do universo do samba carioca – e onde Hermínio Bello de Carvalho concebeu o espetáculo Rosa de Ouro, de 1965. O Zicartola foi o primeiro palco de Paulinho da Viola.

Seguindo: Cinema Iris. Em 1973, o patrimônio fechou, para restaurar sua arquitetura eclética e a bela escadaria de ferro que leva ao balcão, a sala que exibia filmes pornô, – mas em que o mais picante não se passava na tela. Na reinauguração, houve uma concorridíssima festa, com público nada a ver com o que habitualmente frequentava suas poltronas. Cinema mudo a noite toda, animado pela orquestra de Nicolino Coppia, o maestro Copinha. Dali, saiu todo mundo para o Bar Luiz. No dia seguinte, o Iris já tinha voltado à velha batida. Esteve fechado desde março por causa da pandemia, mas reabriu agora em setembro. “O melhor do Rio em filmes eróticos” é o orgulhoso aviso que recebe o público: “três filmes pornô” por 20 módicos reais.

 

 

O Bar Luiz, antes de vir para a Rua da Carioca, 39, fora na Rua da Assembleia, de um alemão chamado Wendling. Quando se mudou, veio como Adolf, Bar Adolf. Óbvio, na guerra foi obrigado a mudar. Passava por ter o melhor chope da cidade, mesmo quando a cozinha já não era mais nada do outro mundo. Até que alguns anos atrás um novo dono tivesse a infeliz ideia de tirar a chopeira da Brahma e botar a da cervejaria Sol. Pronto: debandada geral. Ninguém mais ia lá – e agora, ainda por cima, veio a pandemia. O bar foi reaberto com menos mesas, mas as mesmas toalhas imaculadas dando destaque às belas cadeiras pretas tipo austríacas. O chope voltou a ser Brahma. Mas o estrago que se conseguiu num dia pode levar anos para ser reparado, – se é que será possível reparar.

Desse lado impar, do Bar Luiz até o Largo da Carioca, há ainda uma loja de roupas masculinas, outra de artigos esportivos, uma sapataria e as lojas de artigos de praia e malas, mas não mais a Mala Carioca, a Mala Inglesa ou A Mala Amada. E uma loja maluca, O Rei das Facas, cutelaria que é também armeiro – espadas decorativas, lanças, fuzis, pistolas, munição -, loja de ferramentas e ferragens, aqueles velhos moedores de carne caseiros, manuais, panelas de ferro, máquinas também manuais de esticar massa de pastel,  penicos de ágate etc.

Entre esses poucos negócios, tudo portas de aço arriadas.

E assim chegamos ao Largo da Carioca, presidido pelo Convento e a Igreja de Santo Antônio e a da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência – pequenina preciosidade inteiramente forrada de ouro -, no alto do pouco que restou do Morro de Santo Antônio.

 

 

Na área que foi desmontada, abriu-se a “esplanada das estatais”, Petrobrás, BNDES, BNH. No centro do largo continua o velho relógio, que ficou anos parado e recentemente voltou a funcionar. No subsolo, a estação Carioca do metrô, cuja obra demoliu a loja de discos Palermo, que aparece no filme Garrincha, alegria do povo, de Joaquim Pedro de Andrade: Mané consultando as bancadas de LPs. Lá no fundo, o edifício do Liceu Português, na esquina de Senador Dantas, e à esquerda, na de Bitencourt da Silva, os fundos da Caixa Econômica e do premiado edifício modernista de Henrique Mindlin, o Avenida Central.

 

Largo da Carioca, por Cássio Loredano

Largo da Carioca, por Cássio Loredano, 2015 / Acervo IMS

 

Uma banca de jornais vende mapas e painéis de anatomia daqueles de antigas salas de aula. De vez em quando aparece um vendedor de panaceias em garrafadas, um sujeito com cobras, engolidores de fogo. Um homenzinho de Bíblia em punho anuncia para a indiferença geral o final dos tempos.

 

* Cássio Loredano é jornalista e caricaturista. E, sobretudo, um apaixonado pelo Rio de Janeiro e suas histórias.

 

Links para as outras publicações da série “Avenidas e ruas do Brasil”

 Série “Avenidas e ruas do Brasil” I – Avenida Central, atual Rio Branco, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 7 de setembro de 2016

Série “Avenidas e ruas do Brasil” II – A Rua do Imperador em Petrópolis por Klumb, Leuzinger e Stahl, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 26 de junho de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” III – A Rua do Bom Jesus, no Recife, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 6 de agosto de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IV – A Rua 25 de Março, em São Paulo, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 1º de setembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” V – A Rua Direita, a Rua das Mercês e a Rua Macau do Meio, em Diamantina, Minas Gerais, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 22 de outubro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VI  – Rua Augusto Ribas e outras, em Ponta Grossa, no Paraná, pelo fotógrafo Luiz Bianchi, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 16 de novembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VII – A Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 23 de dezembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IX – Ruas e panoramas do bairro do Catete, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 14 de julho de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” X – A Rua da Ajuda, no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 9 de novembro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XI – A Rua da Esperança, em São Paulo, por Vincenzo Pastore, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 14 de dezembro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XII – A Avenida Paulista, o coração pulsante da metrópole, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 21 de janeiro de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XIII – A Rua Buenos Aires no Centro do Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 19 de julho de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XIV – A Avenida Presidente Vargas,, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 31 de agosto de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XV – Misericórdia: rua, largo e ladeira, no Rio de Janeiro, por Cássio Loredano, de autoria de Cássio Loredano, publicada em 8 de dezembro de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVI – “Alguma coisa acontece no meu coração”, a Avenida São João nos 469 anos de São Paulo, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 25 de janeiro de 2023

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVII  e série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXIII – A Praia e a Rua do Russel, na Glória, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 15 de maio de 2023

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVIII – Avenida Beira-Mar, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 22 de janeiro de 2024

 

 

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Link para a Proposta Pedagógica: território e imagem, realizada pela equipe educativa do IMS-RJ sob inspiração da plataforma interativa ImagineRio, que ilustra a partir de fotografias, ilustrações e mapas as transformações sociais e urbanas da cidade do Rio de Janeiro.

 

 

A Confeitaria Colombo, um elo entre o Rio de Janeiro antigo e o atual

A Confeitaria Colombo, que hoje destacamos com a publicação de fotografias do Acervo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, é uma espécie de elo entre o Rio de Janeiro de antigamente e o atual, além de ser também um marco na história da gastronomia e da vida social carioca. Fundada pelos portugueses Manoel Lebrão e Joaquim Borges de Meirelles, em 17 de setembro de 1894, na movimentada rua Gonçalves Dias, no centro da cidade (Diário de Notícias, 18 de setembro de 1894, sexta coluna), onde permanece até hoje, é um símbolo da Belle Epoque carioca. Considerada uma casa verdadeiramente parisiense, a Colombo era vizinha dos ateliês dos fotógrafos Juan Gutierrez e José Ferreira Guimarães e de vários outros importantes estabelecimentos comerciais (Revista Illustrada, janeiro de 1895).

Acessando o link para as fotografias da Confeitaria Colombo disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Em pouco tempo a confeitaria tornou-se um dos pontos mais concorridos da cidade, tendo sido frequentada por escritores como Olavo Bilac (1865 – 1918) e Machado de Assis (1839 – 1908), por jornalistas como Emilio de Menezes (1866 – 1918), por artistas como Villa-Lobos (1887 – 1959) e Chiquinha Gonzaga  (1847-1935), e por políticos como os presidentes Washington Luís (1869 – 1957) e Juscelino Kubitschek (1902 – 1976). Algumas mesas trazem os nomes de alguns de seus clientes, como a em homenagem ao empresário e político Assis Chateubriand (1892 – 1968), fundador dos Diários Associados. Em estilo art nouveau, a confeitaria tem em sua decoração vitrais franceses, espelhos importados da Bélgica, cadeiras feitas de palhinha e jacarandá por Antonio Borsoi (1880 – 1953), mesas em opalina azul com os pés de ferro, posteriormente substituídas por tampos de mármore, continua sendo um reduto de elegância e sinônimo de tradição no Rio de Janeiro. Em 1922, foram inaugurados o salão de chá em estilo Luís XVI, no segundo andar, uma clarabóia vinda da França e um dos primeiros elevadores instalados na cidade.

 

 

Estabelecimento perfeito no gênero, o primeiro da América do Sul, e quiçá da Europa” (Illustração Brasileira, 7 de julho de 1922).

 

 

Foi tombada, em 9 de fevereiro de 1983, como patrimônio material, pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural; e, em 31 de outubro de 2017, como patrimônio imaterial, pelo Instituto Rio Patrimônio da Humanidade. Ao longo de sua história foi um lugar de convergência, de comunhão entre os vários Rios.

 

 

 

 

 

 

Na matriz da Colombo, na Gonçalves Dias, há o Espaço Memória, onde são mostradas imagens do Rio Antigo, além de fotografias da memorabilia que fez parte da história da confeitaria como projetos, louças, cristais originais e embalagens antigas. Atualmente, a confeitaria tem filiais no Forte de Copacabana, no Aeroporto Internacional do Rio de Janeiro e no Centro Cultural Banco do Brasil.
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Ouça aqui a marchicha de carnaval “Sassaricando” (1951), interpertada por Virginia Lane, que menciona a Confeitaria Colombo.

 

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Requerimento feito por Manoel Lebrão à Prefeitura do Rio de Janeiro para reconstruir o prédio da Colombo datado de 10 de janeiro de 1912 / Acervo AGCRJ

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Acervo Digital de O Globo

BIANCHI, Silvia Soler. Entre o café e a prosa : memórias da Confeitaria Colombo no início do século XX. Rio de Janeiro : Terceira Margem, 2008.

DUNLOP, Charles. Rio Antigo, vol 2. Rio de Janeiro : Cia. Editora e Comercial F. Lemos, 1956.

FREIRE, Renato; RODRIGUES, Antônio Edmilson Martins. Confeitaria Colombo: Sabores de uma cidade. Rio de Janeiro : Edições de Janeiro, 2014.

LAZINHA, Luiz Carlos. A “Colombo” na vida do Rio. Rio de Janeiro : Gráfica Olímpica Editora, 1970.

Site Confeitaria Colombo

Site Inepac