Novos acervos: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB

O artigo Generalíssimo por aclamação é a primeira publicação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB – na Brasiliana Fotográfica. O IHGB é a 12ª instituição parceira do portal, fundado pelo Instituto Moreira Salles e pela Fundação Biblioteca Nacional. O artigo, que destaca duas fotografias produzidas por Francisco Soucasaux (1856-1904), é sobre a comemoração do segundo mês da proclamação da República, realizado no dia 15 de janeiro de 1890, um evento único na história militar brasileira. Foi escrito pelo historiador Thiago Guimarães Pougy sob a orientação do professor Paulo Knauss, vice-presidente do IHGB, fundado, em 1838, inspirado no Instituto Histórico de Paris, criado quatro anos antes. Desde seu início, dom Pedro II (1825-1891) esteve ligado ao IHGB, que foi a primeira instituição no Brasil dedicada à preservação e à pesquisa da cultura, das ciências sociais, da história e da geografia do Brasil. A adesão do IHGB à Brasiliana Fotográfica é mais um passo importante na história do portal.

 

Acesse aqui o link para as fotografias do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

Generalíssimo por aclamação

Thiago Guimarães Pougy sob a orientação do professor Paulo Knauss*

 

A comemoração do segundo mês da República, no dia 15 de janeiro de 1890, ficou marcada por alguns eventos peculiares. Houve uma homenagem ao Ministro da Marinha, o então contra-almirante Eduardo Wandenkolk, que progrediu a uma homenagem ao chefe do Governo Provisório, o marechal-de-campo Manuel Deodoro da Fonseca. Há nela, entretanto, alguns eventos estranhos às homenagens de praxe, como promoções militares feitas por aclamação popular, isto é, do “povo, do Exército e da Armada”; mas também há a percepção de que o hino do Império, de Francisco Manuel da Silva, seria antes nacional que imperial e, portanto, deveria manter a condição de hino oficial.

As fotografias de Francisco Soucasaux, do acervo do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, apresentam a expressão visual desse evento histórico. O que vemos na fotografia é o desfile da Marinha em homenagem a Deodoro da Fonseca em frente ao palácio Itamaraty, então sede do Governo Provisório. Trata-se do momento em que, após promovidos por aclamação, respectivamente, Deodoro a Generalíssimo, Wandenkolk a vice-almirante e Benjamin Constant a brigadeiro, as bandas da Marinha voltam a tocar desfilando em frente ao palácio. Pode-se ver a guarda de honra feita pelos soldados do 23º batalhão de infantaria do Exército separando os marinheiros em desfile dos civis no palácio.

 

 

Nos meses seguidos à Proclamação, houve um movimento de beneficiar os militares que apoiaram o golpe e de reformar os que se opuseram. O aumento do soldo veio em menos de um mês após a ruptura e, em janeiro de 1890, as promoções em massa fariam oficiais subirem dois ou três postos em questão de semanas ou meses.[1] Havia uma preocupação do governo em recompensar os seus partidários e, sobretudo, em valorizar os militares, os quais se consideravam vítimas de uma tradição civilista do Império que nutria antipatia aos valores, às demandas e às instituições castrenses.

Foi nesta conjuntura que ocorreu o evento fotografado. Segundo Raimundo Magalhães Júnior, houve uma espécie de conspiração palaciana em que o capitão-tenente Alexandrino Faria de Alencar almejava homenagear a Wandenkolk e o major Inocêncio Serzedello Correia, a Constant, Ministro da Guerra. Para tal, teriam incluído Deodoro, pensando ser assim mais fácil de convencê-lo a acatar ao pedido.[2] Planejou-se, desse modo, o desfile do quinze de janeiro.

Os jornais diários narram o seu trajeto: entre 11 e 12 horas, o corpo de marinheiros nacionais desembarca no Arsenal da Marinha, tendo a sua frente bandas de música[3]; seguiram, então, por volta de 13h30 e 14h15, para o Clube Naval, passando pela rua Primeiro de Março, pela Rua do Ouvidor até a rua do Theatro, após o Largo de São Francisco, e depois para a praça da Constituição (atual praça Tiradentes), onde se localizava o clube.[4] Após a homenagem a Wandenkolk e saudações generalizadas, este decide se unir ao desfile e seguir até a sede do governo com seu estado maior, por volta das 15h15.[5] A parada continuou pela rua Visconde do Rio Branco, atravessou a praça da Aclamação (atual praça da República) pelo lado da antiga prefeitura e foi para a rua Larga de São Joaquim, onde ficava o Itamaraty, encontrando lá o 23º batalhão de infantaria do Exército fazendo a guarda de honra do palácio.[6] O Diário de Noticias descreveu o aspecto da sede do governo:

 

“As janelas do palácio achavam-se apinhadas de famílias, e nas diversas salas circulava grande número de oficiais de mar e terra, cidadãos ministros do interior, da guerra, da agricultura e da justiça, dr. chefe de polícia e muitas outras pessoas gradas. No saguão do palácio tocavam as bandas de música […]

Na rua a multidão era compacta.” (As festas de hontem. Diario de Notícias, 16/01/1890; p.1)

 

Ao chegarem ao Itamaraty, os marinheiros desfilaram, comandados pelo capitão-tenente Alexandrino, e houve uma saudação a Deodoro, que respondeu à cortesia. Foi quando o major Serzedello, comissionado por outros oficiais, da rua, dirigiu-se ao marechal pedindo permissão para que fossem promovidos – o Ministro da Guerra, o da Armada e o próprio chefe do governo – porque essa era a vontade do povo, do Exército e da Marinha.[7] O Paiz descreve o pedido:

Depois dessa formalidade, cercado de muitos oficiais, na rua, tomou a palavra o talentoso major Serzedello, que em nome do povo, da armada e do exercito, declarou, que, grata aos relevantes serviços prestados, a nação elevava o marechal Deodoro a generalissimo do exercito; o tenente-coronel Benjamin Constant a brigadeiro, e o contra-almirante Wandenkolk a vice-almirante. Ao troar dos canhões e por entre os vivas do povo, assim terminou o orador.

“É essa a vontade do povo e ela é soberana.” (Festa militar: o hymno nacional. O Paiz, 16/01/1890; p.1)

 

 

Embora haja suspeita de que as promoções por aclamação tenham sido planejadas em uma conspiração do oficialato, os homenageados pareceram surpresos. Há relatos de que tanto Deodoro como Constant recearam em receber tais promoções. Afinal, uma promoção de patente por aclamação popular é algo estranho às práticas castrenses. O Diário de Noticias aponta que Deodoro relutou a princípio, mas acedeu após a insistência de Serzedello respondendo “Querem? pois bem, seja feita a vossa vontade”.[8] Já o O Paiz e a Gazeta de Notícias registram que Constant também receou em receber a promoção tendo, inclusive, discursado o porquê de sua recusa no momento.[9] Este jornal publicou o discurso no dia 17 e relata que ao seu fim, “O povo reclama e o Sr. major Serzedello declara que os decretos da população são irrevogáveis”.[10] O major de 29 anos era, à época, o secretário do Ministro da Guerra, que também terminou por acatar à homenagem.[11]

Após as relutâncias, os oficiais foram promovidos por aclamação em meio entusiasmado, as bandas de música voltaram a tocar e as forças de mar a desfilar em frente ao palácio. Acredita-se que foi este o momento das fotografias. Pode-se ver, em uma delas, Deodoro na sacada do palácio; em outra, o desfile dos marinheiros precedido pela banda de música. As fotografias parecem terem sido tomadas em sequência, tendo em vista que muitos dos personagens continuam no mesmo lugar, com a exceção do Generalíssimo. Percebe-se que na fotografia em que Deodoro aparece, o desfile da Marinha ainda não está no enquadramento da foto e muitos dos olhares sugerem a sua chegada pelo canto esquerdo. Supõe-se, por isso, que a fotografia com Deodoro tenha sido tomada no momento anterior.

Em seguida ao momento fotografado, o chefe do governo convidou os oficiais para um almoço solene no palácio. Foi Serzedello, ainda, quem, em nome de oficiais do Exército e da Armada, se dirigiu a Deodoro e a Constant para pedir a manutenção do hino, pois, repetindo o argumento corrente na imprensa[12], se tratava antes de um símbolo da nacionalidade do que da monarquia.[13] O ministro da Guerra respondeu que o governo já havia entendido ser esta a vontade do “[…] povo, do Exército e da Armada”.[14] Havia, no entanto, um concurso agendado para o dia vinte de janeiro, isto é, cinco dias depois, no qual seria eleito um novo hino para a República. Com a escolha da manutenção do hino antigo, houve uma mudança e o concurso elegeria o hino da Proclamação, não mais o da nação.[15] De qualquer forma, as bandas, que antes desfilavam na rua Larga de São Joaquim alternando entre marchas e a Marselhesa, sem despertar entusiasmo do público, com a anuência de Constant passam a tocar o hino de Francisco Manuel da Silva, que levou ao êxtase generalizado dos presentes.[16] A parada terminou por volta da 17h30.

Também digno de nota foram os presentes dados pela Escola Militar aos personagens promovidos por aclamação, buscando, desse modo, endossá-las. Por unanimidade de votos, ofereceram a Deodoro os bordados de Generalíssimo; a Constant o boné de brigadeiro; e a Wandenkolk um mimo que simbolizaria a concórdia entre o Exército e a Marinha.[17] Além disso, o major Serzedello também parece ter sido recompensado por seu empreendimento: ainda em 1890 foi promovido a tenente-coronel e nomeado presidente do Estado do Paraná.[18]

Por fim, quatro importantes questões se impõem à imagem apresentada. A primeira é a de que promoções militares por aclamação popular nas ruas são eventos estranhos à cultura castrense. De acordo com Frank McCann, este foi um evento único na história militar brasileira.[19] Além disso, a imagem da fotografia contrasta com os retratos oficiais da Proclamação, de predominância militar e carência de povo, como descrito por Aristides Lobo. O povo, quer dizer, civis de terno ou casaca, mulheres e crianças, participam do evento e da composição da imagem. As menções na imprensa diária incluindo o povo na aclamação, sempre se referindo à tríade povo, Exército e Armada, também não parece despropositada. O próprio major Serzedello havia salientado a importância de inclusão do elemento civil no Governo Provisório, quando saudou Quintino Bocaiúva no Clube Naval.[20] No Diário Oficial, por exemplo, a inclusão do povo era feita de forma diferente. Os decretos caracterizavam o Governo Provisório como constituído por “Exército e Armada em nome da nação”.[21] A terceira leva em consideração a tradição monárquica de aclamar os novos imperadores. No Brasil, D. João VI, D. Pedro I e D. Pedro II foram aclamados nas ruas. A do primeiro Imperador, inclusive, foi bem próxima à localização do Itamaraty, no Campo de Santana, que passou a ser chamado de praça da Aclamação. Uma aclamação popular a Deodoro dois meses após a Proclamação, em meio à disputa pela reorganização política do país, aparenta expor uma sociedade ainda conformada às distinções típicas do Império. O que leva à última questão: diferentemente das promoções a Wandenkolk e a Constant, a de Deodoro não foi uma ascensão na hierarquia militar propriamente dita. Trata-se, antes, de título distintivo, isto é, que visava à distinção do marechal que também era o governante e o personagem ao qual era atribuída a Proclamação. Ironicamente, o título a distinguir o proclamador da República, Generalíssimo, havia pertencido ao Imperador.[22]

O decreto escrito pelo secretário e sobrinho do chefe de governo, João Severiano da Fonseca Hermes, irmão do futuro Presidente Hermes da Fonseca[23], no dia das aclamações, foi transcrito de diferentes formas para os jornais diários, mas todas respeitando a mesma mensagem. Assim foi apresentado o decreto no Diario de Notícias:

“O povo brazileiro, o exercito e armada nacionaes, representados no governo provisorio, como gratidão eterna aos serviços immorredouros prestados à liberdade e à grandeza da patria, acclamam o marechal de campo Manoel Deodoro da Fonseca generalissimo do mesmo exercito, o contra-almirante Eduardo Wandenkolk, vice-almirante, e o tenente -coronel Benjamin Constant, brigadeiro.” (As festas de hontem. Diario de Notícias, 16/01/1890; 1)

 

[1] McCann, Frank. Soldados da pátria: história do Exército brasileiro, 1889-1937. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo / Rio de Janeiro: Companhia das Letras / Biblioteca do Exército, 2009; 46.

[2] Magalhães Jr, Raimundo. Deodoro: a Espada contra o Império. Volume 2: o galo na torre. São Paulo: São Paulo Editora S/A, 1957; 134-135.

[3] As festas de hontem. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[4] As festas de hontem. Diario de Notícias, 16/01/1890; 1; Manifestação ao marechal Deodoro e ao almirante Wandenkolk. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[5] Acclamação publica. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[6] Manifestação ao marechal Deodoro e ao almirante Wandenkolk. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1; Festa militar: o hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[7] As festas de hontem. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1; Manifestação ao marechal Deodoro e ao almirante Wandenkolk. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[8] As festas de hontem. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[9] Manifestação ao marechal Deodoro da Fonseca. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1; Festa militar: o hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[10] Manifestação ao marechal Deodoro da Fonseca. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1.

[11] Magalhães Jr, op. cit., loc. cit.

[12] Guanabarino, Oscar. O hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1; Carvalho, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. 2ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2017; 123.

[13] As festas de hontem. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1; Manifestação ao marechal Deodoro da Fonseca. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1; Festa militar: o hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[14] Manifestação ao marechal Deodoro da Fonseca. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1.

[15] Carvalho, op. cit., 124.

[16] Carvalho, op. cit., 122-123; McCann, op. cit., loc. cit.

[17] Escola Militar. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1; Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1.

[18] Magalhães Jr, op. cit., 136; McCann, op. cit., 47.

[19] McCann, op. cit., loc. cit.

[20] Manifestação da armada. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1; Festa militar: o hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[21] Citação presente em qualquer Diário Oficial da União de janeiro de 1890.

[22] McCann, op. cit., loc. Cit.

[23] Lopes, Raimundo Helio. Hermes, Fonseca. Dicionário Histórico-Biográfico da Primeira República. CPDOC, Fundação Getúlio Vargas. Disponível em: https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/HERMES,%20Fonseca.pdf . Acesso em: 25/02/2024.

 

*Thiago Guimarães Pougy é doutorando em História na Universidade Federal Fluminense sob a orientação de Paulo Knauss, sócio titular e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).

 

Bibliografia:

Carvalho, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. 2ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

Faria, Durland Puppin de; Pedrosa, Fernando Velôzo Gomes. Hierarquia militar brasileira – Exército. IN: Dicionário de história militar do Brasil (1822-2022): volume II. Org. Silva, Francisco Carlos Teixeira da.  [et al.]. Rio de Janeiro: Autografia, 2022.

Lopes, Raimundo Helio. Hermes, Fonseca. Dicionário Histórico-Biográfico da Primeira República. CPDOC, Fundação Getúlio Vargas. Disponível em: https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/HERMES,%20Fonseca.pdf . Acesso em: 25/02/2024.

Magalhães Jr, Raimundo. Deodoro: a Espada contra o Império. Volume 2: o galo na torre. São Paulo: São Paulo Editora S/A, 1957.

McCann, Frank. Soldados da pátria: história do Exército brasileiro, 1889-1937. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo / Rio de Janeiro: Companhia das Letras / Biblioteca do Exército, 2009.

Hemeroteca da Biblioteca Nacional:

Diario de Notícias:

As festas de hontem. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Escola Militar. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1.

Gazeta de Notícias:

Acclamações. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Hymno da Republica. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Manifestação ao marechal Deodoro e ao almirante Wandenkolk. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1. (Escola Militar)

Manifestação ao marechal Deodoro da Fonseca. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1.

Jornal do Commercio:

Acclamação publica. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Hymno nacional. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Manifestação da armada. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

O Paiz:

Festa militar: o hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 2.

Guanabarino, Oscar. O hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1.

 

Biblioteca Machado de Assis – Acervo histórico do Diário Oficial da União – DOU:

http://museu.in.gov.br/fi/web/dou/dou/-/document_library/kcmautn6AnNs/view/575744?_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_navigation=recent&_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_curFolder=&_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_deltaFolder=&_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_deltaEntry=75&_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_orderByCol=modifiedDate&_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_orderByType=asc&p_r_p_resetCur=false&_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_curEntry=4

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VIII – A Rua da Carioca por Cássio Loredano

A Brasiliana Fotográfica celebra o Dia de São Sebastião, padroeiro do Rio de Janeiro, com a publicação do oitavo artigo da série “Avenidas e ruas do Brasil”. É o jornalista e caricaturista Cássio Loredano que nos conta a história de uma das ruas mais antigas e representativas da cidade, a Rua da Carioca, no Centro, que traz no seu nome, desde 1848, por deliberação da Câmara Municipal da Corte, a denominação daqueles que nascem na cidade (Diário do Rio de Janeiro, 8 de novembro de 1848, terceira coluna). Mas já foi, há séculos, chamada de Caminho do Egito e Rua do Piolho.

Acessando o link para as fotografias do largo e da Rua da Carioca disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.  

 

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VIII – A rua da Carioca por Cássio Loredano

Cássio Loredano*

 

 

Degredar foi em Portugal, desde o século XVI, uma das penas impostas a quem tinha contas a ajustar com a lei. E foi disso que se lembraram por lá quando, no início do Setecentos, pretenderam se ver livres de uma gente incômoda que em toda a Europa e ao longo de séculos era alvo de ondas recorrentes de antipatia, segregação, preconceitos e perseguições, – os ciganos: mandar para o Brasil. E no Rio de Janeiro, como eram “intocáveis”, em grego
athígganos, isto é, que não queriam e, mais do que não quererem, eram proibidos de contato com cristãos, foram armar suas barracas fora dos estreitos limites municipais de então: lá para os lados do Rocio grande, na época Campo da Cidade, e numa rua que a partir dele se formou e se chamou Rua dos Ciganos. O próprio campo passou a ser então também chamado dos Ciganos.

 

 

Que são as atuais Rua da Constituição e praça Tiradentes. O acesso a esse campo se dava pelo que é hoje a Rua da Carioca e era um tortuoso “caminho que pelo areal passa pelo pé do outeiro de São Francisco (Santo Antônio)”.

 

 

Essa hesitação na toponímia se deve a que Santo Antônio de Lisboa era franciscano. Saiu a pé para a Itália, onde ingressou nessa ordem, se fez doutor e lecionou Teologia em Bolonha. Foi canonizado como Santo Antônio de Pádua, cidade em que morreu. Era soldado honorário do exército português e, quando o Rio foi atacado em 1710 por um pirata francês, Jean-François Duclerc, tiveram a ideia de tirar sua imagem do frontão da igreja e colocá-la em cima do muro do convento para inspirar os defensores da cidade. A isso atribuído o êxito da campanha, promoveu-se o santo a tenente-coronel e lhe outorgaram a grã-cruz da Ordem Militar de Cristo. Quando, um ano depois, outro pirata, René Duguay-Trouin, veio vingar Duclerc, que tinha morrido no Rio, não houve santo que evitasse a nódoa que ficou no brasão da cidade.

 

 

°°°

Em 1967, dois anos depois o do 4º centenário da, com nódoa ou sem nódoa, “mui heróica e leal” São Sebastião do Rio de Janeiro, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, IHGB, publicou um preciosíssimo Atlas da evolução urbana da cidade, de Eduardo Canabrava Barreiros. São vinte e duas pranchas em que nos passa sob o olhar tudo o que houve com o plano municipal ao longo de quatrocentos anos: abertura de caminhos, ruas e praças, desmontes de morros, aterros de lagoas, charcos e perfis litorâneos, etc.

 

atlas

 

A prancha 10 do atlas, que  tem por base uma planta de 1713, de José Massé, ensina que aquele “caminho do areal” passara a se chamar Caminho do Egito. Em sua História das ruas do Rio, Brasil Gerson levanta a possibilidade de ter havido em algum ponto do caminho um oratório com a imagem da fuga de Maria, José e o Menino para o Egito para escapar ao infanticídio decretado por Herodes. Muito mais plausível, embora não se conheça documento que o comprove, é que se chamasse do Egito por conduzir ao campo dos Ciganos, como está no último romance da pentalogia carioca de Alberto Mussa, A biblioteca elementar, de 2018.

 

 

Em algumas línguas, português, italiano, alemão, manteve-se a palavra grega que Bizâncio usou, athígganos, como derivação para cigano, zíngaro, Zigeuner (tsigóiner). Esses nômades originários da Índia tinham entrado na Europa com as invasões mongóis do século XIII e subido até a Boêmia pelo vale do Danúbio. Outro itinerário de entrada teria sido via Egito, e isso diziam os próprios ciganos, o que originou as palavras por que foram chamados em outras línguas. Em castelhano, gitanos, de egiptanos. Em francês, além do empréstimo tomado ao castelhano, gitans, também égyptiens ou bohémiens, dependendo de se tinham chegado pelo Mediterrâneo ou descido pelo continente, – e Victor Hugo pode numa mesma página de Notre-Dame de Paris chamar sua Esmeralda de bohémienne ou égyptienne. Em inglês, simplesmente gypsys ou gipsys.

Ora, os degredados do campo dos Ciganos diziam que tinham entrado na Europa passando pelo Egito e é mais plausível que por isso a rua tenha se chamado assim do que pelo oratório imaginado por Brasil Gerson.

 

 

º º º

 

Tom Jobim dizia que o Brasil não é para principiantes. Aqui, prostitutas se apaixonam e traficantes se viciam. E cigano se fixa, cigano se estabelece. E o mesmo Brasil Gerson nos conta como alguns deles ganharam dinheiro com o negócio negreiro no Valongo e deixaram seus acampamentos para vir morar dentro dos limites da cidade. Na Rua do Piolho, como tinha passado a se chamar o caminho do Egito, segundo o mapa de André Vaz Figueira, de 1750, base para a prancha 12 do atlas de Canabrava Barreiros.

“Piolho” era como a vizinhança chamava um solicitador da época, cujo nome a história esqueceu, apelido que se dava a gente que como ele vivia escarafunchando arquivos e cartórios em busca de questões de que pudesse tirar proveito. “Piolho das roupas”, “piolho em costura”. Algo como hoje muquirana (aliás o nome do piolho em tupi), parasita, sanguessuga.

 

 

No começo, o caminho do Egito só tinha casas do lado direito de quem vai para o campo. Do lado esquerdo, só havia uma cerca que separava da cidade os domínios dos franciscanos. Mas quando a ordem terceira de São Francisco da Penitência construiu seu hospital no sopé do morro, detrás dele ficou aberto o espaço em que se fizeram as casas do lado esquerdo e a Rua do Piolho passou a tê-las dos dois lados. O “Piolho” tinha na rua a casa em que morava e mais três que alugava.

Na Planta Régia mandada fazer em 1808 pela casa real que chegara ao Brasil naquele ano, a rua ainda se chama do Piolho, mas o campo é da Lampadosa, por causa da igreja dessa virgem que havia (e há) na Rua do Sacramento, atual Avenida Passos. Nessa igreja o Tiradentes teve licença de ouvir uma missa antes de ser  levado ao patíbulo que estava para ele armado no centro do campo.

 

º º º

 

Em 1723, tinha sido mandada aterrar uma lagoa, às vezes só charco, emanação de miasma e criadouro de mosquitos que havia embaixo, defronte ao convento de Santo Antônio (como se vê no mapa acima, diante do convento assinalado pelo quadrado preto). Naquele espaço se construiu o primeiro chafariz “da Carioca”. De suas 16 bicas despejava a água que os velhos arcos construídos pelo governador Aires Saldanha traziam da nascente do rio Carioca pelos altos de Santa Teresa. Depois, Gomes Freire, também governador, mandou subir o maravilhoso monumento que são os Arcos da Lapa, com o idêntico propósito de vencer o vale entre os morros de Santa Teresa e Santo Antônio, trazendo a água para um novo, enorme chafariz de agora 35 torneiras. E largo da Carioca passou a se chamar o espaço do antigo viveiro pestilento aterrado. (Como “da Carioca” se chamara lá atrás o caminho que levava até a foz do rio Carioca, na atual praia do Flamengo, onde se fazia a aguada, o reabastecimento de água doce a bordo das embarcações que estavam fundeadas na baía. Quando a Rua do Cano, atual Sete de Setembro, e o chafariz do Mestre Valentim puxaram a água até o largo do Paço, a aguada dos marinheiros passou a se fazer com muito maior comodidade, no cais Pharoux.)

 

 

A Rua do Piolho, que ganhou a importância de ser o acesso de quem morava lá fora à água do chafariz, passou com o tempo a ser também chamada  de Rua da Carioca, como consta na planta Garnier, de 1859, prancha 16 do atlas do IHGB. Nela, o campo da Lampadosa tinha mudado de novo de nome, praça da Constituição. Sempre se disse que o novo nome comemorava a primeira constituição do Brasil independente, de 1824. Brasil Gerson avança, porém, a informação de que isto foi porque na praça, dia 26 de fevereiro de 1821 – e apenas dois meses antes de seu embarque de volta a Portugal, a 25 de abril – d. João VI jurou “as bases da futura Constituição a ser votada pelas Cortes de Lisboa”. A República rebatizou outra vez o velho campo: praça Tiradentes.

No começo do século XX, a administração Pereira Passos tornou o velho caminho uma rua reta, alargou-a, arborizou-a e a tornou importante eixo de ligação centro-norte da cidade, com suas “colegas” lá na frente, Visconde do Rio Branco, Frei Caneca, Salvador e Estácio de Sá, Haddock Lobo e por ali adiante. Depois, ganharam a concorrência brutal da Presidente Vargas. A rua manteve um charme que foi devagar se degradando e entrou na depressão que agora está atravessando e que se comunica a seus frequentadores mais antigos.

º º º

Em 1862, instalou-se no centro da então praça da Constituição o primeiro e possivelmente o mais belo bronze da cidade, a estátua equestre de Pedro I, esculpida e fundida em Paris nas oficinas de Louis Rochet. O imperador está brandindo um calhamaço que seria a constituição de 1824, origem da tal confusão que se criou com a afirmação de Brasil Gerson.

 

 

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2020

Da praça que emoldura o monumento, três quartos das portas estão arriados, a maioria – por causa da pandemia – definitivamente. Na face entre a Rua da Carioca e a Visconde do Rio Branco estão os dois hotéis da esquina da rua Silva Jardim: o decadente e o moderno da cadeia Ibis. Há depois uma loja de ferragens e “sebo” mais nenhum. O Teatro Carlos Gomes está obviamente fechado e o quartel da polícia foi abandonado. Do lado onde funcionou o lendário dancing Estudantina Musical, estão o palacete do visconde do Rio Seco, imponente e restaurado, e seu vizinho moderno, ambos abrigando agora o Centro de Referência do Artesanato Brasileiro. Depois, só mais a tradicional loja Tic-tac, sapataria nos três sentidos: indústria, comércio e reparo de sapatos e consertos gerais. O resto, até a Rua da Constituição, é deprimente, doze portas de aço fechadas, enferrujando.

Dessa Rua da Constituição, há quatro anos, saem, passam pela praça e se enfiam pela Rua Sete de Setembro os trilhos da linha 2 do VLT, tetrassílabo tolo, quando se tem bonde, delicioso brasileirismo quase monossilábico. Desse lado da praça, funciona um pequeno supermercado. A casa onde morou a cantora Bidu Sayão foi restaurada e abandonada. Na esquina da Rua da Imperatriz há um café e restaurante novo, bastante simpático. Na pequena quadra dali até a Avenida Passos funcionou no século XIX a tipografia e editora do grande Francisco de Paula Brito, aliás nascido na Rua do Piolho, primeiro empregador de um certo Quincas, jovem revisor, por extenso Joaquim Maria Machado de Assis. Hoje ali não há mais nada e o outrora imponente casarão da esquina da avenida é uma perigosa ruína. O Teatro João Caetano está também sem função. Na face entre a Rua do Teatro e a da Carioca existe uma caixa de fósforos estreita e comprida, de 31 andares, isolada e horrorosa, o Edifício Centro Paulista. Fora isso, mais nada. Uma filial da Adega do Pimenta, de Santa Teresa, está fechada.

Entremos então pela Rua da Carioca. Mais ou menos metade das portas também está fechada. Do tradicional polo de lojas de instrumentos musicais ainda resistem oito, mas não mais nem A Guitarra de Prata, nem O Bandolim de Ouro. Das de malas ainda existem quatro. De guarda-chuvas, uma só e só uma de chapéus de sol e cadeiras de praia.

Do lado esquerdo de quem está indo para o Largo da Carioca, está a metade do que foi a fachada do Cinema Ideal, com sua marquise de vidro sustentada por belo artesanato de ferro art déco. A sala tinha o luxo de um teto retrátil para noites limpas de verão. A seguir, chega-se a uma simpaticíssima servidão de passagem para a Rua Sete de Setembro, Rua do Verde, inteiramente dedicada a comércios de plantas; e uma filial do paraíso, a loja do Palácio das Ferramentas. Na esquina de Ramalho Ortigão existiu muito tempo um lindo armazém do tipo da Casa Paladino, na Rua Uruguaiana, ou o do Senado na Gomes Freire e o Gomes de Santa Teresa. Pé-direito altíssimo, mobiliário até o teto em madeira escura entalhada e portas de cristal, balcões, prateleiras e gôndolas com milhares de garrafas de toda aguardente imaginável, compotas, rapaduras envoltas em folhas de bananeira secas ou palha de milho. Bar Flora. Agora na esquina, no espaço de um terço do que era, está um bar com graça zero, tudo de fórmica, em que  pessoas engolem de pé e depressa uma fritura massuda qualquer com qualquer refresco para ajudar a descer.

No sobrado do nº 38 – magnificamente restaurado, deixando à mostra por dentro a antiga alvenaria de pedra e argamassa à base de óleo de baleia -, funcionava até a pandemia e reabrirá depois dela a Casa do Choro, iniciativa de Luciana Rabello, reduto da melhor música instrumental da cidade.

Mas atravessemos a rua. No pequeno edifício estreito do nº 59, ocupou um andar a última redação do Pasquim, em que, praticamente sozinhos, Jaguar e Reinaldo “casseta” levaram o barco até o fim. O segundo andar do 53 foi o lendário restaurante Zicartola. Os donos, Cartola e sua mulher Zica, a chefe da cozinha, moravam no andar de cima. O local tinha um espaço em que se apresentava a nata do universo do samba carioca – e onde Hermínio Bello de Carvalho concebeu o espetáculo Rosa de Ouro, de 1965. O Zicartola foi o primeiro palco de Paulinho da Viola.

Seguindo: Cinema Iris. Em 1973, o patrimônio fechou, para restaurar sua arquitetura eclética e a bela escadaria de ferro que leva ao balcão, a sala que exibia filmes pornô, – mas em que o mais picante não se passava na tela. Na reinauguração, houve uma concorridíssima festa, com público nada a ver com o que habitualmente frequentava suas poltronas. Cinema mudo a noite toda, animado pela orquestra de Nicolino Coppia, o maestro Copinha. Dali, saiu todo mundo para o Bar Luiz. No dia seguinte, o Iris já tinha voltado à velha batida. Esteve fechado desde março por causa da pandemia, mas reabriu agora em setembro. “O melhor do Rio em filmes eróticos” é o orgulhoso aviso que recebe o público: “três filmes pornô” por 20 módicos reais.

 

 

O Bar Luiz, antes de vir para a Rua da Carioca, 39, fora na Rua da Assembleia, de um alemão chamado Wendling. Quando se mudou, veio como Adolf, Bar Adolf. Óbvio, na guerra foi obrigado a mudar. Passava por ter o melhor chope da cidade, mesmo quando a cozinha já não era mais nada do outro mundo. Até que alguns anos atrás um novo dono tivesse a infeliz ideia de tirar a chopeira da Brahma e botar a da cervejaria Sol. Pronto: debandada geral. Ninguém mais ia lá – e agora, ainda por cima, veio a pandemia. O bar foi reaberto com menos mesas, mas as mesmas toalhas imaculadas dando destaque às belas cadeiras pretas tipo austríacas. O chope voltou a ser Brahma. Mas o estrago que se conseguiu num dia pode levar anos para ser reparado, – se é que será possível reparar.

Desse lado impar, do Bar Luiz até o Largo da Carioca, há ainda uma loja de roupas masculinas, outra de artigos esportivos, uma sapataria e as lojas de artigos de praia e malas, mas não mais a Mala Carioca, a Mala Inglesa ou A Mala Amada. E uma loja maluca, O Rei das Facas, cutelaria que é também armeiro – espadas decorativas, lanças, fuzis, pistolas, munição -, loja de ferramentas e ferragens, aqueles velhos moedores de carne caseiros, manuais, panelas de ferro, máquinas também manuais de esticar massa de pastel,  penicos de ágate etc.

Entre esses poucos negócios, tudo portas de aço arriadas.

E assim chegamos ao Largo da Carioca, presidido pelo Convento e a Igreja de Santo Antônio e a da Ordem Terceira de São Francisco da Penitência – pequenina preciosidade inteiramente forrada de ouro -, no alto do pouco que restou do Morro de Santo Antônio.

 

 

Na área que foi desmontada, abriu-se a “esplanada das estatais”, Petrobrás, BNDES, BNH. No centro do largo continua o velho relógio, que ficou anos parado e recentemente voltou a funcionar. No subsolo, a estação Carioca do metrô, cuja obra demoliu a loja de discos Palermo, que aparece no filme Garrincha, alegria do povo, de Joaquim Pedro de Andrade: Mané consultando as bancadas de LPs. Lá no fundo, o edifício do Liceu Português, na esquina de Senador Dantas, e à esquerda, na de Bitencourt da Silva, os fundos da Caixa Econômica e do premiado edifício modernista de Henrique Mindlin, o Avenida Central.

 

Largo da Carioca, por Cássio Loredano

Largo da Carioca, por Cássio Loredano, 2015 / Acervo IMS

 

Uma banca de jornais vende mapas e painéis de anatomia daqueles de antigas salas de aula. De vez em quando aparece um vendedor de panaceias em garrafadas, um sujeito com cobras, engolidores de fogo. Um homenzinho de Bíblia em punho anuncia para a indiferença geral o final dos tempos.

 

* Cássio Loredano é jornalista e caricaturista. E, sobretudo, um apaixonado pelo Rio de Janeiro e suas histórias.

 

Links para as outras publicações da série “Avenidas e ruas do Brasil”

 Série “Avenidas e ruas do Brasil” I – Avenida Central, atual Rio Branco, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 7 de setembro de 2016

Série “Avenidas e ruas do Brasil” II – A Rua do Imperador em Petrópolis por Klumb, Leuzinger e Stahl, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 26 de junho de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” III – A Rua do Bom Jesus, no Recife, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 6 de agosto de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IV – A Rua 25 de Março, em São Paulo, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 1º de setembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” V – A Rua Direita, a Rua das Mercês e a Rua Macau do Meio, em Diamantina, Minas Gerais, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 22 de outubro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VI  – Rua Augusto Ribas e outras, em Ponta Grossa, no Paraná, pelo fotógrafo Luiz Bianchi, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 16 de novembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VII – A Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 23 de dezembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IX – Ruas e panoramas do bairro do Catete, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 14 de julho de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” X – A Rua da Ajuda, no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 9 de novembro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XI – A Rua da Esperança, em São Paulo, por Vincenzo Pastore, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 14 de dezembro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XII – A Avenida Paulista, o coração pulsante da metrópole, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 21 de janeiro de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XIII – A Rua Buenos Aires no Centro do Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 19 de julho de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XIV – A Avenida Presidente Vargas,, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 31 de agosto de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XV – Misericórdia: rua, largo e ladeira, no Rio de Janeiro, por Cássio Loredano, de autoria de Cássio Loredano, publicada em 8 de dezembro de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVI – “Alguma coisa acontece no meu coração”, a Avenida São João nos 469 anos de São Paulo, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 25 de janeiro de 2023

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVII  e série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXIII – A Praia e a Rua do Russel, na Glória, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 15 de maio de 2023

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVIII – Avenida Beira-Mar, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 22 de janeiro de 2024

 

 

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Link para a Proposta Pedagógica: território e imagem, realizada pela equipe educativa do IMS-RJ sob inspiração da plataforma interativa ImagineRio, que ilustra a partir de fotografias, ilustrações e mapas as transformações sociais e urbanas da cidade do Rio de Janeiro.