Novos acervos: Museu Paraense Emílio Goeldi

A Brasiliana Fotográfica inicia 2026 anunciando com alegria e entusiasmo a adesão do Museu Paraense Emílio Goeldi como sua 15ª instituição parceira. Fundado em 1866, localiza-se em Belém, capital do Pará, e é o mais antigo instituto de pesquisa da Amazônia. Vinculado ao Ministério da Ciência e Tecnologia e Inovação do Brasil, como museu e instituto de pesquisa é essencial tanto para a produção como para a difusão de conhecimento sobre a maior floresta tropical do mundo, a Floresta Amazônica. Nosso novo parceiro estreia no portal com o artigo Belém na coleção fotográfica do Museu Goeldi, de autoria de Nelson Sanjad, Lilian Bayma de Amorim e Pablo Borges, servidores da instituição, no dia em que Belém do Pará completa 410 anos de fundação, ocorrida em 12 de janeiro de 1616. A maior parte das imagens do artigo é publicada aqui pela primeira vez. Ao ingressarem na Brasiliana Fotográfica, esses registros ficarão disponíveis para a consulta e para futuras pesquisas nos campos da história, das artes e em outros possíveis caminhos. Boas-vindas, Museu Paraense Emílio Goeldi!

 

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No final do artigo, está disponibilizada a matéria da edição do Diário do Pará dos dias 10 e 11 de janeiro de 2026, Belém em imagens raras: acervo histórico ganha primeira exposição digital, com chamada na capa do jornal, sobre a entrada do Museu Paraense Emílio Goeldi na Brasiliana Fotográfica. Sobre o mesmo assunto, o jornal O Liberal, de 19 de janeiro de 2026, publicou a reportagem Belém antiga no portal Brasiliana, também disponibilizada no final deste artigo.

 

Belém na coleção fotográfica do Museu Goeldi

Nelson Sanjad, Lilian Bayma de Amorim e Pablo Borges*

 

A fundação de Belém é celebrada no dia 12 de janeiro. Em 2026, contam-se 410 anos desde que o capitão português Francisco Caldeira Castelo Branco deu início à construção do Forte do Presépio e do povoado Feliz Lusitânia. Não foi o primeiro entreposto militar nem a primeira vila fundada pelos europeus no norte do Brasil, pois Gurupá e Vigia de Nazaré antecedem Belém. Essa cidade, contudo, ganharia, nos séculos seguintes, uma importância estratégica para a colonização de toda a bacia amazônica e também para a conexão da região com os principais portos europeus. Em Belém se concentram os marcos arquitetônicos e históricos do processo de conquista do território amazônico, incentivado, sobretudo, pela exploração de recursos vegetais pelas metrópoles imperiais, primeiro Lisboa, com as drogas do sertão; e depois Londres, com a borracha.

O final do século XIX é um momento particularmente importante na história da cidade, quando a população e a economia cresceram de maneira exponencial em razão do comércio da borracha. No extraordinário livro de Rosário Lima Silva e Paulo Chaves Fernandes (1996) é possível apreciar a produção de imagens da cidade no período através de cartões postais. Eles documentam a rápida expansão da malha urbana, a instalação de infraestrutura, os meios de transporte, a ampliação do comércio, a construção de praças e parques, a introdução de edificações de padrão eclético, a eliminação das florestas próximas e o desenvolvimento de um modo de vida burguês e cosmopolita – pelo menos entre as classes privilegiadas.

Na coleção fotográfica do Museu Goeldi também existem vários registros de Belém, feitos a partir de 1890. Esses registros incluem negativos de vidro, reproduções em papel, cópias digitais de coleções privadas (cuja reprodução e divulgação foram autorizadas) e impressões em fototipia. Todos os registros são de autoria de pesquisadores e técnicos que trabalharam no Museu Goeldi e que fizeram da fotografia uma tecnologia auxiliar para a documentação de cidades, artefatos, pessoas, paisagens, plantas e animais. Isso significa que as imagens aqui divulgadas têm origem nas atividades de pesquisa da própria instituição, em eventos familiares e em interesses pessoais dos funcionários.

Organizamos cinco conjuntos de imagens, acompanhados de comentários para a devida contextualização. Todas as fotografias estão preservadas no Arquivo Guilherme de La Penha, do Museu Goeldi. A maior parte delas é publicada aqui pela primeira vez. Ao ingressarem na Brasiliana Fotográfica, ficarão disponíveis para a consulta e para futuras pesquisas nos campos da história, das artes e em outros possíveis caminhos.

 

Acessando o link para as fotografias do acervo do Museu Paraense Emílio Goeldi mostradas neste artigo, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A modernização da cidade

A arquitetura em ferro e as ferrovias são os grandes símbolos da modernização de cidades ocidentais no final do século XIX (Derenji, 1993; Borges, 2011; Palácios, Sanjad, Oliveira, 2024). Esses são os elementos destacados em uma fotografia do alemão Ernst Lohse (1873-1930), datada de 15 de agosto de 1901. Em primeiro plano, uma locomotiva a vapor puxa vários vagões do bonde urbano, em direção à estação ferroviária, no atual bairro de São Brás. Por trás, ergue-se a imensa caixa d’água em ferro fundido, importada da Europa e inaugurada em 1885 (Ramos, 2019). Essa caixa d’água, ainda existente, mas não funcional, é um ícone da arquitetura em ferro de Belém, não apenas pela impressionante estrutura capaz de sustentar 1,5 milhão de litros de água, mas também porque representa a instalação do sistema de tratamento e distribuição de água na cidade. Das nascentes existentes próximas ao Igarapé do Utinga (ver fotos adiante), a água era transferida para esta caixa d’água, sendo de lá redistribuída.

São Brás é um bom exemplo do que aconteceu com muitos bairros de Belém. Localizado na periferia da cidade e habitado por pequenos agricultores, transformou-se rapidamente com a inauguração da Estação Ferroviária, em 1884, e da caixa d’água, no ano seguinte. Na fotografia de Lohse, vê-se, à esquerda, postes da fiação elétrica e pequenas casas já alinhadas na antiga Estrada da Independência, incluindo a Pharmácia S. Braz, no canto; mas também ainda existia, do outro lado da rua, uma chácara, à direita, como era comum na periferia da cidade. O movimento das pessoas denuncia que era um local de grande circulação: um rapaz olha para o fotógrafo diante dos trilhos do trem, um homem mais velho avança pelo outro lado, dois carregadores levam imensos cestos às costas e pessoas caminham no comércio que já se estrutura nas imediações. Pequenos detalhes, quase imperceptíveis, revelam o contraste que o bairro já vivia: estacas de madeira, possivelmente sendo transportadas em uma carroça, à esquerda, sugerem que obras estavam sendo executadas por perto, enquanto uma galinha aparece sobre o chão, bem junto da locomotiva que avança intrepidamente.

 

 

O bonde puxado por locomotiva aparece em uma outra foto, não assinada nem datada, mas certamente feita por Lohse na mesma época. A foto também foi feita no bairro de São Brás, na Estrada da Independência, ao lado do Museu Goeldi. Em primeiro plano, um homem bem vestido atravessa a rua, em direção a uma padaria. Na sequência, aparecem os trilhos do bonde, os postes de ferro da iluminação pública, algumas mangueiras ainda bem jovens (e que depois se tornariam um dos símbolos de Belém), a rede elétrica, o trem, algumas casas e um sobrado. Sobre a rua, montes de paralelepípedos revelam que obras de calçamento estavam sendo executadas.

 

 

Em uma terceira fotografia, datada de 26 de junho de 1901, Lohse continua a registrar o processo de modernização do bairro de São Brás: ali estão os trilhos do bonde, os paralelepípedos que estavam sendo assentados na rua e a fiação elétrica que cruzava os céus. Essa foto, em particular, feita na esquina da Estrada da Independência com a Travessa Vinte e Dois de Junho (atual Av. Alcindo Cacela), do outro lado do Museu Goeldi, é notável pelo enquadramento e pela composição. Uma enorme árvore plantada no passeio público domina o centro da fotografia (seria remanescente da antiga floresta?), enquanto um homem portando maleta e guarda-sol atravessa os trilhos, carroceiros passam com seus veículos e um garoto sentado no meio da rua sorri para o fotógrafo. Ao fundo, mais mudas de mangueiras aparecem plantadas na calçada e uma grande cerca de madeira sugere a existência de uma chácara.

 

 

Duas outras fotografias merecem destaque por registrarem outro ícone da modernização de Belém, o Ver-o-Peso. Esse mercado existe desde o século XVII, quando foi criado um entreposto fiscal para aferir as mercadorias que chegavam do interior, vendidas ali mesmo, ao lado da “Casa do Haver o Peso” (Cruz, 1962). No final do século XIX, uma grande reforma transformou completamente a feira que se espalhava do Forte do Presépio até o porto da cidade, com a construção de armazéns, de um mercado de carne e outro mercado de peixe. Este último também é conhecido como “mercado de ferro”, pois foi importado da Europa e montado na antiga feira para a comercialização do pescado ali desembarcado. A fotografia de Ernst Lohse, tirada no ano da inauguração desse mercado (1902), mostra uma das laterais do edifício, com suas pequenas lojas voltadas para a rua. Ao fundo, vê-se os mastros dos barcos fundeados na doca, o necrotério e galpões do porto. Os transeuntes, incluindo o cachorro e a mulher que leva um paneiro à cabeça, à esquerda, dão movimento à cena.

A outra foto, reproduzida em papel e em estado de conservação delicado, é um registro bem mais raro. Foi feito pelo botânico suíço Jacques Huber (1867-1914), antes de 1910. Huber apontou a lente da câmera não para o mercado de ferro, mas para a feira que se estendia entre ele e o porto – escolha pouco usual entre os fotógrafos da época. Em primeiro plano, à esquerda, vários carros de mão estão posicionados lado a lado. Não é possível depreender se os homens presentes vendem algum produto ou se aguardam pedidos para transportar algo. À direita, trabalhadores preparam caixas de madeira para serem embarcadas em um navio. Muitas pessoas aparecem ao fundo, assim como um galpão do porto, um pequeno quiosque, mastros, postes de ferro, um cavalo e uma pilha de paneiros, embalagem bastante comum ainda hoje para o transporte de gêneros alimentícios. A mureta que separava a feira da praia, à direita, comprova a data da imagem. Essa mureta existiu até o início das obras de ampliação do porto, a partir de 1907 (Penteado, 1973; Teixeira, 2003).

 

 

 

Os quintais de Belém

Os quintais de Belém foram mencionados por muitos viajantes desde o século XVIII. Por exemplo, o naturalista luso-brasileiro Alexandre Rodrigues Ferreira (1756-1815), que chegou à cidade em 1783, notou a grande diversidade de vegetais cultivados em quintais e chácaras. Ele concluiu, em suas próprias palavras, que eram “espaços de experimentação”, isto é, locais onde as plantas trazidas do interior eram introduzidas e domesticadas pelos colonos (Sanjad, Pataca, Santos, 2021). Podemos considerá-los verdadeiros laboratórios, que cumpriram uma função essencial no processo de globalização de espécies vegetais amazônicas. Ainda hoje são estudados como repositórios de conhecimentos etnobotânicos, como bancos de diversidade genética e local de sociabilidade familiar e feminina (WinklerPrins e Oliveira, 2010; Tourinho e Silva, 2016).

Em Belém restam muito poucos quintais e nenhuma chácara ou “rocinha” – o nome que se dava até meados do século XX para pequenas unidades de produção agrícola, localizadas na periferia da cidade e associadas a uma casa de família (Soares, 1996). Temos, contudo, registros fotográficos desses quintais, feitos no início do XX por Jacques Huber. Na foto abaixo, tirada em 17 de setembro de 1902, vê-se uma esquina da Estrada Boaventura da Silva (atual Rua Boaventura da Silva), onde uma enorme Cassia fastuosa se ergue em flor por trás de uma cerca de estacas. Essa cerca e a rua perpendicular à estrada, sem calçamento e bem arborizada, com alguns poucos transeuntes, dão um ar bucólico à cena, apesar de este quintal estar localizado bem próximo ao centro da cidade.

 

 

As três fotografias abaixo também são registros de quintais, mas das casas ocupadas pelo próprio Museu Goeldi ou pelos seus pesquisadores (Suescun, Sanjad, Okada, 2018). A primeira delas apresenta uma bela composição, com uma cerca de tábuas (tomada por formigueiros), troncos, folhagens, com destaque para os tajás, e, à direita, o canto de uma gaiola. Na foto seguinte, uma cerca também bloqueia a visão do espectador, dando proeminência a um uxizeiro que se ergue à frente, árvore muito comum nos quintais da época, mas, por incrível que pareça, ainda não descrita pelos botânicos. Foi exatamente esse pé de uxi – plantado no pomar da rocinha de Bento José da Silva Santos, que Huber utilizou para descrever a espécie Sacoglottis uchi (atual Endopleura uchi (Huber) Cuatrec.) (Huber, 1898). Finalmente, um pé de urucum (Bixa orellana) tomado por flores e frutos foi registrado em outro quintal. O fruto era (e ainda é) utilizado como condimento e na produção de tintura, matéria-prima do vermelho vibrante utilizado pelos indígenas em pinturas corporais e para colorir artefatos. O homem que aparece bem junto ao arbusto, envolto na folhagem, não foi identificado e muito provavelmente foi ali colocado pelo fotógrafo como escala para a apreensão do real tamanho da planta.

 

 

 

 

A Ilha do Mosqueiro

Mosqueiro é uma das 42 ilhas que compõem o município de Belém. É a maior delas, eleita, desde o final do século XIX, como balneário da elite econômica da cidade. Curiosamente, foram os estrangeiros os primeiros a construir casas para o veraneio nas principais praias da ilha. Atribui-se aos ingleses a urbanização dessas praias, a partir da antiga vila localizada na ponta oeste da ilha (Meira Filho, 1978).

Mosqueiro foi visitada por um grupo de funcionários do Museu Goeldi e suas famílias entre o final de julho e o início de agosto de 1901. Essa é a época do verão amazônico. O objetivo da viagem foi declarado no verso de uma das fotografias tiradas por Ernst Lohse, em expressão anotada por Jacques Huber: “Verlobungsausflug nach Mosqueiro”. O termo Verlobungsausflug é utilizado em países de língua alemã para caracterizar uma “viagem de noivado”, isto é, uma viagem a um local considerado especial, com a intenção de oficializar um pedido de casamento. Os locais prediletos dos nubentes eram praias ao pôr-do-sol e montanhas. O compromisso matrimonial era sacramentado durante caminhadas e piqueniques.

O noivado celebrado em Mosqueiro ocorreu entre o próprio Huber e Sophie Müller (1875-1959), filha de uma família suíça residente em Belém, proprietária de uma escola para imigrantes denominada Colégio Suíço-Brasileiro. De sua viagem de noivado existem quatro registros na coleção fotográfica do Museu Goeldi. As duas primeiras imagens documentam a paisagem da ilha, tanto a costa mais elevada que caracteriza a antiga vila (28/07/1901) quanto uma das praias próximas, em maré baixa, ainda margeada por densa vegetação (04/08/1901).

 

 

 

As outras duas imagens foram, certamente, feitas para a memória familiar. Na primeira, de 4 de agosto de 1901, Emílio Goeldi aparece na praia, com um guarda-sol, acompanhado de seu filho mais velho, Walther Eugen (1890-1960) e de um homem não identificado. A segunda registra parte do grupo que celebrava o noivado, posando sobre rochas próximas à água. Goeldi aparece mais elevado, em pose majestática, olhando para o horizonte. Logo abaixo estão suas três filhas, Mathilde (1894-1983), Cornélia (1891-1975) e Leonie (1892-1965). Ao lado, o casal Sophie e Jacques, em trajes muito formais para uma caminhada na praia, um homem e uma menina não identificados e mais dois filhos de Goeldi, Oswaldo (1895-1961) e Walther Eugen. Foi no verso dessa fotografia que Huber anotou a razão da viagem, confirmando o lugar que Mosqueiro já havia assumido para o sociedade belenense. O casamento de Sophie e Jacques foi celebrado em Belém no dia 7 de dezembro de 1901 (Aerni, 1991).

 

 

 

Cidade-Floresta

No final do século XIX, ainda havia muitas áreas florestadas no entorno de Belém. Emílio Goeldi (1897, p. 23), em um de seus relatórios ao governador do Pará, afirmou não ser “preciso ir muito longe [de Belém] para aprender, investigar e até descobrir”, pois havia, nas proximidades da cidade, florestas repletas de animais e vegetais à espera de pesquisadores. De fato, nas coleções e na documentação preservada no Museu Goeldi são frequentes as menções a coletas feitas nos bairros de São Brás, Pedreira, Sacramenta, Marco da Légua, Val de Cans, Utinga e mesmo Nazaré, hoje completamente urbanizados. Os animais e as plantas coletados nesses locais, assim como as fotografias preservadas no Arquivo Guilherme de La Penha, são testemunhos de ambientes, de uma fauna e de uma flora que não existem mais.

Um dos registros mais importantes dos ecossistemas originais de Belém foi publicado por Jacques Huber em 1900. A foto foi feita na  “mata de Jupatituba”, onde hoje se estende o bairro superpovoado da Terra Firme. Huber quis registrar o ambiente onde a palmeira mumbaca (Astrocaryum gynacanthum) ocorre e o fez com extrema habilidade fotográfica. O local era densamente vegetado, com pouca luz e nenhuma distância entre as plantas. Para fotografar a pequena palmeira de sub-bosque, Huber limpou o terreno à frente da planta e posicionou um homem para fazer as vezes de escala. O resultado é uma imagem com belo jogo de sombras e texturas, com a palmeira ocupando o centro da foto.

 

 

Outro local usualmente frequentado pelos pesquisadores do Museu Goeldi era o entorno do Igarapé do Utinga. Nessa região havia muitas nascentes e o local foi escolhido para a instalação da primeira usina de bombeamento de água de Belém, na década de 1880 (Ramos, 2019). Na primeira foto, feita em 1900 por Gottfried Hagmann (1874-1946), vê-se a casa das máquinas a vapor, alguns trabalhadores vestidos apenas com largas calças e um funcionário do museu, possivelmente Andreas Goeldi. A floresta domina a paisagem. A segunda foto, do mesmo autor e feita na mesma data, mostra algo completamente diferente: uma criança negra posa para o fotógrafo, com uma cabana de madeira e palha ao fundo, além da floresta. Podemos crer que a cabana era a residência da família dessa criança – o que corrobora ser as matas do Utinga local de refúgio de afrodescendentes libertos ou escravizados, desde o século XIX. Atualmente, há pelo menos uma comunidade quilombola reconhecida naquela região, o Quilombo de Abacatal (Sousa, Ribeiro e Sanches, 2020).

 

 

 

No outro lado da cidade, às margens da Baía de Guajará, o Igarapé do Una também era visitado pelos pesquisadores do Museu Goeldi para coletas botânicas e zoológicas. Hoje em dia, a região do entorno desse igarapé é ocupada pelos bairros do Telégrafo, da Sacramenta e do Barreiro, com cursos d’água completamente degradados e nenhuma cobertura vegetal. Há 120 anos, a paisagem era outra: três fotografias de Jacques Huber, tiradas entre junho de 1901 e dezembro de 1902, mostram uma floresta pujante, observada a partir de uma embarcação que margeava a baía e adentrava a Bacia do Una.

 

 

 

 

Um pouco mais ao norte da Foz do Una, também às margens da Baía de Guajará, localizava-se a Fazenda Val-de-Cans, antiga propriedade dos Padres Mercedários, construída no século XVII (Meira Filho, 1976). No final do século XIX, a fazenda pertencia a Joaquim Francisco de Araújo Danin. A partir de 1907, foi sendo desmembrada pelos herdeiros e pelas desapropriações feitas pelo governo em benefício da Estrada de Ferro Belém-Bragança e da companhia inglesa responsável pela construção do porto. Na década de 1930, a área foi escolhida para receber o aeroporto de Belém e, depois, a base aérea norte-americana, durante a Segunda Guerra Mundial. Na década seguinte, ali também foram instalados a Base Naval de Val-de-Cans e o Terminal Petroquímico de Miramar. Todo esse complexo deu origem aos atuais bairros que margeiam o aeroporto e a base naval, como a Maracangalha, o Marex, a Pratinha, o Bengui, a Cabanagem e o Tapanã (Ventura Neto e Moura, 2021; Lopes et al., 2023; Costa, Chagas e Netto, 2025).

Existem alguns poucos registros fotográficos da antiga fazenda que deu origem à toda a região norte de Belém, até o distrito de Icoaraci. O levantamento fotográfico feito por Gottfried Hagmann em julho de 1901 talvez seja o menos conhecido. Aqui apresentamos uma sequência de fotografias feitas durante uma excursão do Museu Goeldi, que documenta a sede da fazenda, as margens da baía e o interior da floresta. Na última delas, Hagmann aparece de pé, com roupas brancas, portando uma espingarda. O outro homem carrega um puçá aos ombros e o menino sentado pesca com uma vara no igarapé.

 

 

 

 

 

Assim como as áreas continentais, as ilhas no entorno de Belém também mereceram a atenção dos pesquisadores do Museu Goeldi. A maior delas é a Ilha do Mosqueiro, já aqui mencionada. A mais populosa é a Ilha de Caratateua, onde fica o distrito de Outeiro. Em todas elas existem ecossistemas complexos, alternando-se entre várzeas, igapós, praias e manguezais (Moreira, 1966; Sales, 2005). As duas fotos abaixo documentam a várzea da Ilha das Onças, que não pertence a Belém, e sim ao município vizinho de Barcarena, embora essa ilha esteja mais próxima e seja mais integrada à economia da capital. Ambas as fotos são de Hagmann, feitas em 1901.

A primeira é um belo registro de um dos igarapés que cortam a ilha, enquadrado a partir do tronco de uma samaumeira, à esquerda. Em primeiro plano, destacam-se a lama característica da várzea amazônica e restos de uma canoa e de uma jangada. Um aningal aparece à margem do outro lado do igarapé. A segunda foto parece ser um igapó ou uma várzea inundada durante uma maré muito alta, com a vegetação parcialmente submersa. Ambas são preciosos documentos de uma paisagem característica de Belém, na qual a água é o elemento preponderante. Hoje essa paisagem desapareceu por completo da cidade, mas as ilhas do entorno, felizmente, pouco mudaram desde que Hagmann lá esteve, há mais de 120 anos.

 

 

 

Floresta-Ruína

De todos os pesquisadores do Museu Goeldi que manejaram a máquina fotográfica no final do século XIX e início do XX, Jacques Huber foi o único que criou um conjunto significativo de imagens, não apenas em razão do número de fotos assinadas ou atribuídas a ele, mas por ter desenvolvido uma técnica e uma estética particulares. Esse mérito já foi reconhecido por historiadores da fotografia e da ciência (Fieschi, 2008; Sanjad, 2016, 2023a, 2023b), não cabendo aqui retomar o assunto. O que importa ressaltar é que a linguagem fotográfica de Huber contrasta com a produção imagética de outro grande fotógrafo da instituição, Ernst Lohse. Isso decorre da posição que ambos ocupavam no museu e dos usos atribuídos por eles à tecnologia fotográfica. Enquanto Lohse aparece como o fotógrafo “oficial” do Museu Goeldi, produzindo imagens que documentam as atividades institucionais e a serviço de demandas da direção do museu ou do próprio governo do estado, Huber, enquanto vice-diretor e depois diretor, tinha muito mais liberdade para experimentar a aplicação da fotografia em suas atividades científicas e até mesmo para forçar os limites dessa tecnologia enquanto meio de expressão e documentação. A série de fotografias do Círio de Nazaré, produzida entre 1902 e 1905, e o álbum iconográfico “Arboretum Amazonicum”, publicado entre 1900 e 1906, têm sido estudados como indícios do poder criativo de Huber e de sua capacidade em expandir a técnica fotográfica e as tecnologias de reprodução de imagens.

Um bom exemplo do contraste entre Lohse e Huber pode ser observado nas fotografias que ambos fizeram de Belém. Lohse, como já vimos, produziu imagens extraordinárias da cidade que se modernizava, com todos os ícones característicos da época: a locomotiva, a arquitetura de ferro, a rede de iluminação pública, o calçamento de ruas, os trabalhadores braçais etc. Huber, por sua vez, ao olhar para Belém, não via uma cidade em expansão ou o processo acelerado de urbanização, mas uma floresta que estava desaparecendo, sendo substituída, se arruinando. Trata-se de uma inversão epistêmica, que repõe, no lugar do humano, o vegetal como o principal protagonista das imagens que ele criou.

Observemos a sequência de fotografias que Huber fez ao redor do próprio museu, à época, localizado na periferia da cidade, o bairro de São Brás, que, como já mencionamos, transformava-se rapidamente. A primeira delas é o registro da Travessa Vinte e Dois de Junho (atual Av. Alcindo Cacela), que passa ao lado do Museu Goeldi. Na foto, produzida em abril de 1896, observamos a larga avenida, ainda ocupada por chácaras de ambos os lados. Alguns poucos transeuntes e uma única carruagem, talvez a do próprio Huber, foram enquadrados, dando a impressão de grande quietude ou pouco movimento urbano. Mas veja o leitor que o destaque não foi dado para a grande rua vazia, uma das muitas abertas em Belém no final do século XIX e que atraíram a atenção de tantos viajantes. Huber utiliza as margens da avenida como ponto de fuga, para dar profundidade à sua foto e para ressaltar o lindo pé de angelim (Andira retusa) “esquecido” no meio fio. Sim, trata-se de um remanescente da floresta que havia naquele local – e que não foi removido por razões imponderáveis. Ele permaneceu ali, no meio do caminho, como árvore-ruína.

 

 

Na Estrada da Constituição (atual Av. Gentil Bittencourt), que passa nos fundos do museu, Huber registrou em junho de 1896 outro habitante da antiga floresta que dominava a cidade: um enorme exemplar de cumaru (Dipteryx odorata), também mantido no meio do caminho da estrada que estava sendo ampliada e rapidamente ocupada por novos habitantes – os humanos. Um pouco mais adiante, já no Largo de São Brás, um visgueiro (Parkia pendula) resiste em meio à construção de várias casas. A foto foi feita em 18 de setembro de 1895. O mesmo acontecia com um segundo visgueiro, também fotografado no Largo de São Brás, mas em data incerta. Nessa terceira imagem, a copa da árvore aparece junto aos postes da fiação elétrica e da iluminação pública, como se já fosse um incômodo ou um obstáculo à expansão da cidade.  Esse antigo habitante da floresta parece deslocado de seu próprio chão.

 

 

 

 

Huber seguiu registrando as árvores-ruína pela Estrada de Ferro Belém-Bragança (atual Av. Almirante Barroso), que saia dali mesmo, do Largo de São Brás. No bairro vizinho do Marco, fotografou um bacurizeiro (Platonia insignis) por trás do edifício da Escola de Agronomia do Pará, do qual só se veem as torres e os prédios anexos. Mais adiante, uma outra árvore permaneceu de pé junto a uma casa, à margem da estrada de ferro. Parece ser o único remanescente da floresta original em toda a redondeza.

 

 

 

Além da solidão de grandes árvores mantidas vivas em meio à cidade, quando todo o seu entorno já havia sido devastado, Huber documentou ecossistemas naturais que ainda existiam na zona urbana. Um deles foi o igapó ao sul do Museu Goeldi, onde hoje está o canal da Travessa Três de Maio. Em junho de 1896, a área ainda não havia sido ocupada pelos humanos: não havia rua, a mata dominava o cenário e o curso d’água corria livremente até o rio Guamá. Ao longo do século XX, o igapó foi drenado e canalizado. Suas águas transformaram-se em esgoto a céu aberto, percorrendo os bairros da Condor e do Guamá. É considerado uma sub-bacia hidrográfica em uma área densamente ocupada (Araújo Júnior, 2014). Nenhuma parcela da vegetação registrada por Huber foi mantida.

Outro igapó preservado até o final do século XIX ficava ao sul da igreja de Nossa Senhora de Nazaré, onde atualmente corre a Travessa Quatorze de Março. Na fotografia de Huber, datada de junho de 1896, um grupo de homens, mulheres e crianças, todos aparentemente negros, aparece em meio à vegetação, em uma área que parece estar em declive até um curso d’água. Ao fundo, vê-se uma igreja com torre única, em área mais elevada. Na legenda da foto, anotada no verso por Huber, lê-se: “Kirche von Nazareth, in vordergrund Igapó” (Igreja de Nazaré; em primeiro plano, igapó). Assim como na Travessa Três de Maio, o igarapé original foi drenado, canalizado e transformado em esgoto a céu aberto. Ele compõe uma outra sub-bacia hidrográfica, indo unir-se aos canais que descem da Avenida Generalíssimo Deodoro e da Travessa Dr. Moraes, para depois desaguar no Rio Guamá pelo canal da Travessa Quintino Bocaiúva (Araújo Júnior, 2014).

 

 

 

O registro das transformações nos ambientes naturais de Belém também foi feito por Ernst Lohse. Por exemplo, em fotografia de 15 de agosto de 1901, feita em local não identificado, um igarapé repleto de ninfeias aparece em primeiro plano, enquanto, ao fundo, à esquerda, um conjunto de edificações começa a substituir a vegetação. O contraste com o ambiente natural é evidente – e anuncia que, em breve, toda aquela mata que aparece à direita desaparecerá, assim como o curso d’água à frente.

 

 

Nessa imagem, assim como no conjunto fotográfico de Huber, a presença humana, seja explícita ou sugerida, como no caso das casas em construção ou de um simples trilho de trem, já caracteriza o entorno como ruína ou resto. A solidão de imensas árvores em ambiente já urbanizado as transforma em destroços, em fantasmas que sobrevivem à destruição. A cidade que se modernizava era, também, a que degradava um mundo de águas e vegetais, um mundo que deixou de existir ou que estava prestes a sucumbir. Através dessas fotografias pode-se contar a história de Belém de uma outra maneira, caso nos permitamos estranhar as narrativas que exaltam a modernidade e se ufanam do progresso.

 

O que as imagens antigas podem nos contar

A leitura que fizemos das 34 fotografias aqui apresentadas é muito particular. Ela tem origem nas investigações que desenvolvemos no Arquivo Guilherme de La Penha, voltadas, simultaneamente, para as técnicas fotográficas utilizadas no Museu Goeldi desde o final do século XIX, para os usos das imagens pelos pesquisadores e administradores da instituição, para a circulação e para o contexto de produção dessas imagens. Nosso universo de pesquisa inclui fotografias produzidas por Emilio Goeldi, Jacques Huber, Ernst Lohse, Gottfried Hagmann, Emilia Snethlage, Andreas Goeldi, Friedrich Katzer, Adolf Ducke, Rodolpho de Siqueira Rodrigues e outros funcionários que sabiam manejar a máquina e a carregavam toda vez que se deslocavam pela cidade de Belém e pelas excursões que faziam no território amazônico.

Os registros produzidos por esses homens e por essas mulheres podem nos contar muito sobre os habitantes da região, humanos e não humanos; sobre as paisagens do passado, a cultura material, a arquitetura de cidades; sobre nosso legado colonial e também sobre nossa perspectiva de futuro. Esperamos que, ao estudar e interpretar esse acervo, possamos valorizá-lo no que ele tem de melhor: a diversidade de olhares e de percepções do mundo que nos rodeia.

 

* Lilian Bayma de Amorim, é jornalista e museóloga; Nelson Sanjad é historiador e Pablo Borges é administrador especialista em gestão pública. São todos servidores do Museu Paraense Emilio Goeldi.

 

Referências:

AERNI, Agathon. Jacques (Jakob) Huber. Schaffhauser Beiträge zur Geschichte (Biographien V), Schaffhausen, v. 68, p. 87-93, 1991.

ARAÚJO JÚNIOR, Antônio Carlos Ribeiro. Áreas de Proteção Permanente ou Áreas de Ocupação Permanente: sub-bacias hidrográficas Quintino e Três de Maio, Belém (PA). Seminário Nacional sobre o Tratamento de Áreas de Preservação Permanente em Meio Urbano e Restrições Ambientais ao Parcelamento do Solo – APPUrbana, Anais. Belém, Universidade Federal do Pará, 2014, s.p.

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COSTA, Antônio Cleison; CHAGAS, Clay Anderson; NETTO, Roberto Magno. Materialidade e resistências na Amazônia urbana: pensando os aspectos socioespaciais da historicidade do bairro Cabanagem em Belém/PA. Revista da Casa da Geografia de Sobral, v. 27, n. 1, p. 161-180, 2025.

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 Repercussão na imprensa do Pará

Na edição do Diário do Pará dos dias 10 e 11 de janeiro de 2026 foi publicado o artigo Belém em imagens raras: acervo histórico ganha primeira exposição digital, com chamada na capa do jornal, sobre a entrada do Museu Paraense Emílio Goeldi na Brasiliana Fotográfica.

Link do artigo: https://dol.com.br/digital/Page?editionId=3342#book/13

 

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Na edição de O Liberal, de 19 de janeiro de 2026, foi publicado o artigo Belém do passado no portal Brasiliana:

 

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Novos acervos: Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE

A Brasiliana Fotográfica, no ano em que celebra 10 anos de existência, anuncia com alegria e entusiasmo a adesão da Fundação Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE) como sua 14ª instituição parceira. A missão principal do IBGE é retratar o Brasil com informações necessárias ao conhecimento da sua realidade e ao exercício da cidadania. Ao longo de seus quase 90 anos de existência, o IBGE acumulou um rico acervo bibliográfico, cartográfico e iconográfico que apresenta o Brasil em seus aspectos econômicos, sociais, culturais e demográficos, entre outros. O primeiro artigo produzido para o portal, Pioneiros do IBGE: um legado nas estatísticas e geociências do Brasil, foi escrito pelas bibliotecárias Luciana F. Lau e Danielle Barreiros; e pelo arquivista Fabio Carvalho, todos do IBGE.

 

Pioneiros do IBGE: um legado nas estatísticas e geociências do Brasil

Luciana F. Lau, Fabio Carvalho e Danielle Barreiros*

 

 

O Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística – IBGE – recebeu com alegria e entusiasmo o convite para integrar o Portal Brasiliana Fotográfica e inicia sua participação com a inclusão de 28 fotografias. Esta é sem dúvida uma excelente oportunidade de ampliar a visibilidade, o acesso e gerar conhecimento acerca dos acervos fotográficos do IBGE, que constituem importantes fontes de informação histórica  e cultural.

Acesse aqui o link para as fotografias do acervo do IBGE disponíveis na Brasiliana Fotográfica

Em virtude de o IBGE estar prestes a comemorar seus 90 anos de criação, selecionamos para nossa primeira postagem uma imagem que celebra e valoriza o legado dos pioneiros que construíram as bases do Instituto. A imagem destacada acima faz parte da Coleção “Eventos Institucionais” e retrata uma reunião ocorrida no ano de 1939.

Entre os presentes no evento estão algumas personalidades que lançaram as bases fundadoras do próprio IBGE, como Mário Augusto Teixeira de Freitas, considerado o idealizador do órgão, José Carlos de Macedo Soares, seu primeiro presidente, Christovam Leite de Castro, entre outros.

Antes de apresentar os precursores é fundamental compreender o contexto de criação do próprio IBGE. Trata-se de um marco na história da estatística brasileira, com raízes que remontam ao período colonial. Mesmo de forma rudimentar, a Coroa portuguesa desde cedo empenhou esforços para coletar dados estatísticos em seus domínios na América, por meio de Ordens Régias, demonstrando uma preocupação em quantificar aspectos da vida colonial. Com a chegada da Corte Portuguesa ao Brasil, em 1808, a necessidade de conhecer melhor o território e a população da nova sede do Império impulsionaram um crescente interesse em organizar e analisar informações relevantes para a administração pública, culminando na criação da Diretoria Geral de Estatística, em 1871, e na realização do primeiro Recenseamento Geral do Brasil, em 1872, considerado um precursor dos esforços sistemáticos que resultariam na criação do IBGE.

Com o início do século XX, o Brasil passou por intensas transformações políticas, sociais e econômicas. A Revolução de 1930 e a ascensão de Getúlio Vargas inauguraram uma nova era, marcada pela modernização do Estado e pela afirmação do país no cenário internacional. Nesse contexto, a criação de um órgão nacional de estatística era vista como um passo fundamental para construir um Estado mais eficiente e capaz de planejar o desenvolvimento nacional. Diante dessa necessidade e para dar unidade e identidade aos órgãos de estatística dos diferentes setores da administração federal e estadual, o Governo, através do Decreto nº 24.609, de 6 de julho de 1934 criou o Instituto Nacional de Estatística. A instalação oficial do INE ocorreu em 29 de maio de 1936, no Palácio do Catete, com José Carlos de Macedo Soares como seu primeiro presidente.

Após sua criação, o INE se dedicou a organizar o sistema estatístico brasileiro e promover a cooperação entre diferentes esferas de governo. A Convenção Nacional de Estatística, realizada em agosto de 1936, estabeleceu as bases para o Conselho Nacional de Estatística, responsável por coordenar os serviços estatísticos em nível nacional. O pensamento vitorioso da Convenção também reconheceu a importância da integração entre serviços estatísticos e geográficos para aumentar a eficiência das atividades no Brasil. Como parte disso, foi criado o Conselho Brasileiro de Geografia pelo Decreto nº 1.527 de 1937, ligado ao Instituto Nacional de Estatística. Este conselho tinha como objetivo coordenar estudos geográficos, promover a cooperação entre órgãos públicos e privados e sistematizar o conhecimento do território nacional. Com sua nova estrutura e atribuições ampliadas, o IBGE se consolidou como o órgão central do sistema estatístico e geográfico brasileiro, desempenhando um papel vital na produção de informações para o governo, a sociedade e a comunidade internacional.

Para garantir harmonia entre as atividades geográficas e estatísticas, o Conselho Brasileiro de Geografia foi renomeado como Conselho Nacional de Geografia, enquanto o Instituto Nacional de Estatística passou a se chamar Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, conforme o Decreto nº 218 de 1938. Guardando cada sistema, em relação ao outro, o máximo de simetria possível, em sua estrutura e organicidade, ambos entrosados sob princípios de colaboração nacional e cooperação interadministrativa, os dois Conselhos passaram a coordenar e impulsionar as atividades geográficas e estatísticas no país.

Quem visita a unidade do IBGE na rua General Canabarro, no bairro Maracanã, pode ver o imponente busto de José Carlos de Macedo Soares (1883-1968), que desperta interesse não somente dos servidores, mas também dos visitantes. Ao conhecer um pouco da história do IBGE, compreende-se esta e outras homenagens do Instituto a um dos responsáveis por sua criação.

 

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Busto de José Carlos de Macedo Soares, localizado na Unidade do IBGE na Rua General Canabarro

 

Macedo Soares ou Embaixador como era conhecido, por também desempenhar a função de Ministro das Relações Exteriores do Brasil por duas vezes, a primeira em 1934 e a segunda em 1955, foi o primeiro presidente do IBGE e o mais longevo, permanecendo por 16 anos à frente do Instituto nos períodos de 1936 até 1951 e depois de 1955 até 1956. Além de embaixador, Macedo Soares também desempenhou outras funções no cenário político brasileiro; foi deputado federal na Assembleia Nacional Constituinte (1930), ministro da Justiça (1937) e interventor federal de São Paulo (1945). Presidiu o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (1939) e a Sociedade Brasileira de Geografia do Rio de Janeiro (1945). Para além do seu notável papel político, também foi uma personalidade no âmbito da literatura, tornando-se presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), em 1942.

 

 

Nas palavras de outra personalidade, Christovam Leite de Castro (1991. p. 277), é possível vislumbrar a pessoa ímpar que foi José Carlos de Macedo Soares.

“Havia o presidente do Instituto, que era o embaixador José Carlos de Macedo Soares, aliás, presidente excepcional, pela sua inteligência, pela sua capacidade de trabalho, pela sua representatividade, pelo seu prestígio, pelo seu patriotismo, pelo conhecimento profundo dos problemas brasileiros. Realmente, era personalidade de excepcional projeção não só no País como no exterior. No País, por exemplo, Macedo Soares foi Presidente do IBGE e ao mesmo tempo Presidente da Academia Brasileira de Letras, do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, e, também, Ministro das Relações Exteriores”.

Um dos exemplos de como Macedo Soares conhecia os problemas brasileiros foi o seu apoio às mulheres na discussão sobre direitos políticos e serviço militar no âmbito do direito ao voto da mulher, o que ocasionou homenagens de feministas ao embaixador, conforme noticiado no Jornal do Brasil, de 21 de julho de 1934. Macedo estava ciente deste e de outros desafios da sociedade brasileira principalmente no contexto da estatística e da geografia do Brasil, o que o conduziu  a concretizar as concepções de Teixeira de Freitas, o idealizador do IBGE.

 

 

Sobre Teixeira de Freitas, Carlos Drummond de Andrade (1902-1987) expressou:

“E se hoje nos conhecemos mais a nós mesmos, se é possível elaborar planos de governo com base em dados positivos, se a iniciativa particular na promoção de riquezas dispõe de elementos essenciais para conhecimento do meio social e econômico, tudo isso se deve a Teixeira de Freitas. Teve antecessores ilustres e colaboradores de grande porte, mas a ideia, repito, é dele, como também a prática, e dele a maior glória” (Correio da Manhã, 25 de fevereiro de 1956, penúltima coluna).

Na década de 30, antes de atuar no IBGE, Teixeira de Freitas colaborou na reforma administrativa buscando com a racionalização dos serviços públicos a modernização das instituições públicas e seus métodos de gestão. Neste período, defendia a importância das estatísticas para a reforma. E defendia também a educação estatística. Certa vez destacou que “E como muitas vezes — ou quase sempre — os leitores dos dados estatísticos não sabem interpretá-los […]” (FREITAS, 1990, p. 29), destacando a importância do letramento estatístico para os cidadãos e para o país. A concepção de integração de Teixeira de Freitas não tinha como objetivo somente a integração do Brasil, por meio do esperanto [1] ele idealizava a comunicação internacional e a paz universal.

 

O idealismo e o Esperanto, 1954 / Acervo IBGE

O Idealismo e o Esperanto, 1954 / Acervo IBGE

 

Nos planos de integração de Teixeira de Freitas, a Geografia possuía um papel importante em conjunto com a Estatística, desta forma, contou com Christovam Leite de Castro como colaborador na área de Geografia.

Christovam Leite de Castro (1904-2002) tem contato com a Geografia em sua atuação no Ministério da Agricultura (1933) como chefe da Seção de Estatística Territorial, da qual tem origem o Conselho Nacional de Geografia, órgão colegiado que junto do Conselho Nacional de Estatística vieram a formar o IBGE. Por suas diversas atividades em favor do progresso da cidade do Rio de Janeiro, recebeu o título de Cidadão Carioca (1970), a Medalha Estado da Guanabara (1975) e o título de Benemérito do Estado do Rio de Janeiro (1987). Essas homenagens se devem principalmente a sua atuação na Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar, iniciada em 1930.

 

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Homenagem no bondinho ao engenheiro Christovam Leite de Castro, 2018 / Foto de Fábio Carvalho

 

Christovam Leite de Castro foi diretor-presidente da Companhia e o responsável por implementar o novo Sistema Teleférico do Pão de Açúcar (1972), tornando possível, assim, que a cidade do Rio de Janeiro passasse a contar com um sistema mais seguro. Na fundação do Conselho Nacional de Geografia, Leite de Castro contou com a colaboração de Fábio de Macedo.

Fábio de Macedo Soares Guimarães (1906-1979) atuou no Serviço de Estatísticas Territoriais do Ministério da Agricultura. Posteriormente, junto com o grupo de especialistas reunidos com o objetivo de unificar o serviço estatístico federal, transfere-se para o Instituto Nacional de Estatística, denominado mais tarde de IBGE. Em 1941, como chefe da Seção de Estudos do Conselho Nacional de Geografia, realizou análises sobre a divisão territorial do País, que passaram a influenciar a divulgação de pesquisas no IBGE, apresentando a partir de então os resultados tabulados de acordo com os estados agrupados, segundo a distribuição dos estados brasileiros em Grandes Regiões (GUIMARÃES, 2006).

 

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Revista Brasileira de Geografia, abr./jun. de 1941. Regiões do Brasil segundo vários autores

 

 

Os estudos de Fábio de Macedo relacionados à divisão regional do Brasil balizaram a divisão regional do Brasil em cinco grandes regiões adotada oficialmente em 1942. Nesse contexto, determinou matematicamente o centro exato do Brasil, que se situa no nordeste de Mato Grosso, e não em Goiás, como se pensava. Atuou de forma marcante nos estudos que recomendaram a localização da nova capital do Brasil. Para colaborar com o trabalho desenvolvido no Conselho Nacional de Geografia, Fábio de Macedo contou com o apoio do consultor Allyrio Hugueney.

Allyrio Hugueney de Mattos (1889- 1975)** inicia como consultor técnico no Conselho Nacional de Geografia em 1939 e assume cargos de relevância, dentre eles o de diretor da Divisão de Cartografia. Torna-se o responsável pelo cumprimento do Decreto-Lei nº 311/1938, conhecido como Lei Geográfica do Estado Novo, que obrigava a criação de mapas para a elaboração da Carta do Brasil. Como orientador da Campanha das Coordenadas Geográficas organizada pelo Conselho Nacional de Geografia (1939), entre outras atividades, determina a localização das sedes municipais por suas coordenadas geográficas e escolhe o sistema de representação cartográfica adequado à elaboração dos mapas. A relevância do trabalho de produção de mapas nesse período se reflete em suas palavras: “O Brasil tem fome de mapas. Diariamente, quer de dentro do país, quer de fora, chegam solicitações de mapas que não existem” (IBGE, 2016).

Nas pesquisas de campo, das quais foi o precursor, atuou utilizando novos equipamentos, o que permitiu a implantação de métodos geodésicos de coordenadas geográficas inovadores, que posteriormente seriam base para o desenvolvimento de projetos nas regiões privadas de cobertura cartográfica. Allyrio Hugueney recebeu diversas homenagens em reconhecimento ao trabalho que desenvolveu, destacando-se entre eles a condecoração da Ordem La Rose Blanche, em 1948, do governo da Finlândia, por colaborar com valorosos serviços durante o eclipse total do sol. E do IBGE recebeu como homenagem a nomeação do marco geodésico [2] norte de número 2250 de Base Allyrio de Mattos, situado em sua cidade natal, Cuiabá.

 

 

Após sua instalação, em 1936, o IBGE tinha somente quatro anos para planejar, estruturar, coordenar e operacionalizar seu primeiro recenseamento de 1940, e para colaborar no que seria um grande feito do Instituto, Macedo Soares convidou o Professor Mortara.

Giorgio Mortara (1885-1967) chegou com sua família ao Brasil, em 1939, fugindo de perseguições na Itália em razão do regime totalitarista. A convite do presidente do Instituto, atuou como consultor-técnico da comissão responsável por preparar e realizar o recenseamento de 1940. Utilizou metodologias inovadoras, até o momento inéditas no País no contexto da ciência demográfica. A criação do Laboratório de Estatística, ligado ao Conselho Nacional de Estatística, foi importante no cenário nacional para a formação de novos profissionais. Por sua contribuição na área de ensino da Estatística e em prol da cultura nacional, recebeu o título de professor Honoris Causa da Universidade do Brasil, em 1953.

 

 

Em 1942, o Brasil decide entrar na Segunda Guerra Mundial após ter navios mercantes torpedeados, declarando assim guerra à Itália e à Alemanha. Segundo as orientações do governo, o professor Mortara e seu filho, que atuava na Divisão da Receita da Comissão de Orçamento da República, deveriam ser enviados para os campos de concentração. Contudo, por influência de Macedo Soares, Teixeira de Freitas, Carneiro Felippe e outros, o professor e seu filho continuaram contribuindo para o desenvolvimento do Brasil, que passou a ser considerado por Mortara como sua segunda pátria. Após o final da guerra, Mortara foi reconduzido à cátedra na Universidade de Roma, porém decidiu permanecer no Brasil a fim de completar o trabalho que lhe fora confiado. Retornou à Itália, em 1956, após segundo convite para regressar à cátedra. Como seus filhos permaneceram no Brasil, Mortara passava longos períodos no Rio de Janeiro, onde veio a falecer, em 1967.

Como vimos, o IBGE não surgiu de forma repentina, mas foi fruto de um longo caminho de debates e articulações políticas.

O fato é que os primeiros anos do IBGE podem ser considerados como anos heroicos, pois foram momentos decisivos para a sua história  e para o desenvolvimento das estatísticas e da geociência no Brasil. Esse heroísmo pode ser atribuído às pessoas que fizeram parte daquele momento especial, como também das próprias decisões que estavam sendo tomadas nas assembleias destes quatro primeiros anos do Conselho Nacional de Estatística.

Esses pioneiros enfrentaram grandes desafios para consolidar o órgão como referência em estatística e geografia no Brasil.

O processo que culminou na criação do IBGE foi resultado da atuação de diversas figuras visionárias que reconheceram a importância da Estatística como ferramenta indispensável para a modernização do Estado brasileiro. Além dos citados, muitos outros profissionais contribuíram e contribuem ainda hoje para o desenvolvimento do IBGE. Entretanto, aos pioneiros o Instituto reserva honrarias especiais devido a tudo que fizeram pelo IBGE e pelo Brasil.

 

[1] O esperanto foi criado em 1887 pelo sábio médico polonês Lázaro Ludovico Zamenhof com o fim de tornar-se uma língua auxiliar internacional, isto é, uma língua segunda que cada nação estudaria ao lado de seu idioma nacional. O Dr. Zamenhof somente procurou criar uma língua artificial depois que se convenceu de que nenhuma das línguas vivas ou mortas poderia preencher o papel de língua internacional. FREITAS, M. A. T. de. O Esperanto no Brasil. Revista Brasileira de Estatística, Rio de Janeiro: IBGE, v. 6, n. 22, p. 197-206, abr./jun. 1945.

[2] As estações geodésicas são caracterizadas por um pequeno monumento de concreto denominado marco com uma pequena chapa metálica encravada em seu topo ou, simplesmente, a chapa metálica encravada em uma base (monumento, degrau de escada de acesso a prédios públicos) que garanta sua preservação. IBGE. Padronização de Marcos Geodésicos. Disponível em: https://www.ibge.gov.br/geociencias/metodos-e-outros-documentos-de-referencia/normas/16466-padronizacao-de-marcos-geodesicos.html?=&t=sobre. Acesso em: Acesso em: 13 dez 2024.

 

* Luciana F. Lau e Danielle Barreiros são bibliotecárias e Fabio Carvalho é arquivista do IBGE.

**Nota da editora: lembramos que Allyrio Hugueney de Mattos era astrônomo e integrou a equipe brasileira, liderada por Henrique Morize (1860-1930), que produziu registros fotográficos do eclipse total do Sol, ocorrido em 29 de maio de 1919, realizados por astrônomos brasileiros do Observatório Nacional e também por cientistas de outros países, em Sobral, no Ceará. Além de Allyrio, integravam a equipe brasileira os também astrônomos Domingos Fernandes da Costa (1882 – 1956) e Lélio Itapuambyra Gama (1892 – 1981), o químico Theophilo Henry Lee (1873 – ?), o meteorologista Luís Rodrigues, o mecânico Arthur de Castro Almeida e o carpinteiro Primo Flores.

 

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MALAVOTA, Leandro Miranda, 1976-. Christovam Leite de Castro e a geografia no Brasil. Rio de Janeiro: IBGE, 2013. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv64829.pdf. Acesso em: 13 dez. 2024.

SENRA, Nelson de Castro. Embaixador Macedo Soares, um príncipe da conciliação: recordando o 1. presidente do IBGE. Rio de Janeiro: IBGE, 2008.  Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv38831.pdf. Acesso em: 13 dez. 2024.

SENRA, Nelson de Castro. História das estatísticas brasileiras. Rio de Janeiro: IBGE, 2008. v. 3. Estatísticas organizadas (c.1936-1972). Prefácio por Angela de Castro Gomes. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv 31573_3.pdf. Acesso em: 13 dez. 2024.

SENRA, Nelson de Castro. Tradição & renovação: uma síntese da história do IBGE. Rio de Janeiro: IBGE, 2016. Disponível em: https://biblioteca.ibge.gov.br/visualizacao/livros/liv99039.pdf. Acesso em: 13 dez. 2024.

Novos acervos: Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB

O artigo Generalíssimo por aclamação é a primeira publicação do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro – IHGB – na Brasiliana Fotográfica. O IHGB é a 12ª instituição parceira do portal, fundado pelo Instituto Moreira Salles e pela Fundação Biblioteca Nacional. O artigo, que destaca duas fotografias produzidas por Francisco Soucasaux (1856-1904), é sobre a comemoração do segundo mês da proclamação da República, realizado no dia 15 de janeiro de 1890, um evento único na história militar brasileira. Foi escrito pelo historiador Thiago Guimarães Pougy sob a orientação do professor Paulo Knauss, vice-presidente do IHGB, fundado, em 1838, inspirado no Instituto Histórico de Paris, criado quatro anos antes. Desde seu início, dom Pedro II (1825-1891) esteve ligado ao IHGB, que foi a primeira instituição no Brasil dedicada à preservação e à pesquisa da cultura, das ciências sociais, da história e da geografia do Brasil. A adesão do IHGB à Brasiliana Fotográfica é mais um passo importante na história do portal.

 

Acesse aqui o link para as fotografias do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

Generalíssimo por aclamação

Thiago Guimarães Pougy sob a orientação do professor Paulo Knauss*

 

A comemoração do segundo mês da República, no dia 15 de janeiro de 1890, ficou marcada por alguns eventos peculiares. Houve uma homenagem ao Ministro da Marinha, o então contra-almirante Eduardo Wandenkolk, que progrediu a uma homenagem ao chefe do Governo Provisório, o marechal-de-campo Manuel Deodoro da Fonseca. Há nela, entretanto, alguns eventos estranhos às homenagens de praxe, como promoções militares feitas por aclamação popular, isto é, do “povo, do Exército e da Armada”; mas também há a percepção de que o hino do Império, de Francisco Manuel da Silva, seria antes nacional que imperial e, portanto, deveria manter a condição de hino oficial.

As fotografias de Francisco Soucasaux, do acervo do Instituto Histórico Geográfico Brasileiro, apresentam a expressão visual desse evento histórico. O que vemos na fotografia é o desfile da Marinha em homenagem a Deodoro da Fonseca em frente ao palácio Itamaraty, então sede do Governo Provisório. Trata-se do momento em que, após promovidos por aclamação, respectivamente, Deodoro a Generalíssimo, Wandenkolk a vice-almirante e Benjamin Constant a brigadeiro, as bandas da Marinha voltam a tocar desfilando em frente ao palácio. Pode-se ver a guarda de honra feita pelos soldados do 23º batalhão de infantaria do Exército separando os marinheiros em desfile dos civis no palácio.

 

 

Nos meses seguidos à Proclamação, houve um movimento de beneficiar os militares que apoiaram o golpe e de reformar os que se opuseram. O aumento do soldo veio em menos de um mês após a ruptura e, em janeiro de 1890, as promoções em massa fariam oficiais subirem dois ou três postos em questão de semanas ou meses.[1] Havia uma preocupação do governo em recompensar os seus partidários e, sobretudo, em valorizar os militares, os quais se consideravam vítimas de uma tradição civilista do Império que nutria antipatia aos valores, às demandas e às instituições castrenses.

Foi nesta conjuntura que ocorreu o evento fotografado. Segundo Raimundo Magalhães Júnior, houve uma espécie de conspiração palaciana em que o capitão-tenente Alexandrino Faria de Alencar almejava homenagear a Wandenkolk e o major Inocêncio Serzedello Correia, a Constant, Ministro da Guerra. Para tal, teriam incluído Deodoro, pensando ser assim mais fácil de convencê-lo a acatar ao pedido.[2] Planejou-se, desse modo, o desfile do quinze de janeiro.

Os jornais diários narram o seu trajeto: entre 11 e 12 horas, o corpo de marinheiros nacionais desembarca no Arsenal da Marinha, tendo a sua frente bandas de música[3]; seguiram, então, por volta de 13h30 e 14h15, para o Clube Naval, passando pela rua Primeiro de Março, pela Rua do Ouvidor até a rua do Theatro, após o Largo de São Francisco, e depois para a praça da Constituição (atual praça Tiradentes), onde se localizava o clube.[4] Após a homenagem a Wandenkolk e saudações generalizadas, este decide se unir ao desfile e seguir até a sede do governo com seu estado maior, por volta das 15h15.[5] A parada continuou pela rua Visconde do Rio Branco, atravessou a praça da Aclamação (atual praça da República) pelo lado da antiga prefeitura e foi para a rua Larga de São Joaquim, onde ficava o Itamaraty, encontrando lá o 23º batalhão de infantaria do Exército fazendo a guarda de honra do palácio.[6] O Diário de Noticias descreveu o aspecto da sede do governo:

 

“As janelas do palácio achavam-se apinhadas de famílias, e nas diversas salas circulava grande número de oficiais de mar e terra, cidadãos ministros do interior, da guerra, da agricultura e da justiça, dr. chefe de polícia e muitas outras pessoas gradas. No saguão do palácio tocavam as bandas de música […]

Na rua a multidão era compacta.” (As festas de hontem. Diario de Notícias, 16/01/1890; p.1)

 

Ao chegarem ao Itamaraty, os marinheiros desfilaram, comandados pelo capitão-tenente Alexandrino, e houve uma saudação a Deodoro, que respondeu à cortesia. Foi quando o major Serzedello, comissionado por outros oficiais, da rua, dirigiu-se ao marechal pedindo permissão para que fossem promovidos – o Ministro da Guerra, o da Armada e o próprio chefe do governo – porque essa era a vontade do povo, do Exército e da Marinha.[7] O Paiz descreve o pedido:

Depois dessa formalidade, cercado de muitos oficiais, na rua, tomou a palavra o talentoso major Serzedello, que em nome do povo, da armada e do exercito, declarou, que, grata aos relevantes serviços prestados, a nação elevava o marechal Deodoro a generalissimo do exercito; o tenente-coronel Benjamin Constant a brigadeiro, e o contra-almirante Wandenkolk a vice-almirante. Ao troar dos canhões e por entre os vivas do povo, assim terminou o orador.

“É essa a vontade do povo e ela é soberana.” (Festa militar: o hymno nacional. O Paiz, 16/01/1890; p.1)

 

 

Embora haja suspeita de que as promoções por aclamação tenham sido planejadas em uma conspiração do oficialato, os homenageados pareceram surpresos. Há relatos de que tanto Deodoro como Constant recearam em receber tais promoções. Afinal, uma promoção de patente por aclamação popular é algo estranho às práticas castrenses. O Diário de Noticias aponta que Deodoro relutou a princípio, mas acedeu após a insistência de Serzedello respondendo “Querem? pois bem, seja feita a vossa vontade”.[8] Já o O Paiz e a Gazeta de Notícias registram que Constant também receou em receber a promoção tendo, inclusive, discursado o porquê de sua recusa no momento.[9] Este jornal publicou o discurso no dia 17 e relata que ao seu fim, “O povo reclama e o Sr. major Serzedello declara que os decretos da população são irrevogáveis”.[10] O major de 29 anos era, à época, o secretário do Ministro da Guerra, que também terminou por acatar à homenagem.[11]

Após as relutâncias, os oficiais foram promovidos por aclamação em meio entusiasmado, as bandas de música voltaram a tocar e as forças de mar a desfilar em frente ao palácio. Acredita-se que foi este o momento das fotografias. Pode-se ver, em uma delas, Deodoro na sacada do palácio; em outra, o desfile dos marinheiros precedido pela banda de música. As fotografias parecem terem sido tomadas em sequência, tendo em vista que muitos dos personagens continuam no mesmo lugar, com a exceção do Generalíssimo. Percebe-se que na fotografia em que Deodoro aparece, o desfile da Marinha ainda não está no enquadramento da foto e muitos dos olhares sugerem a sua chegada pelo canto esquerdo. Supõe-se, por isso, que a fotografia com Deodoro tenha sido tomada no momento anterior.

Em seguida ao momento fotografado, o chefe do governo convidou os oficiais para um almoço solene no palácio. Foi Serzedello, ainda, quem, em nome de oficiais do Exército e da Armada, se dirigiu a Deodoro e a Constant para pedir a manutenção do hino, pois, repetindo o argumento corrente na imprensa[12], se tratava antes de um símbolo da nacionalidade do que da monarquia.[13] O ministro da Guerra respondeu que o governo já havia entendido ser esta a vontade do “[…] povo, do Exército e da Armada”.[14] Havia, no entanto, um concurso agendado para o dia vinte de janeiro, isto é, cinco dias depois, no qual seria eleito um novo hino para a República. Com a escolha da manutenção do hino antigo, houve uma mudança e o concurso elegeria o hino da Proclamação, não mais o da nação.[15] De qualquer forma, as bandas, que antes desfilavam na rua Larga de São Joaquim alternando entre marchas e a Marselhesa, sem despertar entusiasmo do público, com a anuência de Constant passam a tocar o hino de Francisco Manuel da Silva, que levou ao êxtase generalizado dos presentes.[16] A parada terminou por volta da 17h30.

Também digno de nota foram os presentes dados pela Escola Militar aos personagens promovidos por aclamação, buscando, desse modo, endossá-las. Por unanimidade de votos, ofereceram a Deodoro os bordados de Generalíssimo; a Constant o boné de brigadeiro; e a Wandenkolk um mimo que simbolizaria a concórdia entre o Exército e a Marinha.[17] Além disso, o major Serzedello também parece ter sido recompensado por seu empreendimento: ainda em 1890 foi promovido a tenente-coronel e nomeado presidente do Estado do Paraná.[18]

Por fim, quatro importantes questões se impõem à imagem apresentada. A primeira é a de que promoções militares por aclamação popular nas ruas são eventos estranhos à cultura castrense. De acordo com Frank McCann, este foi um evento único na história militar brasileira.[19] Além disso, a imagem da fotografia contrasta com os retratos oficiais da Proclamação, de predominância militar e carência de povo, como descrito por Aristides Lobo. O povo, quer dizer, civis de terno ou casaca, mulheres e crianças, participam do evento e da composição da imagem. As menções na imprensa diária incluindo o povo na aclamação, sempre se referindo à tríade povo, Exército e Armada, também não parece despropositada. O próprio major Serzedello havia salientado a importância de inclusão do elemento civil no Governo Provisório, quando saudou Quintino Bocaiúva no Clube Naval.[20] No Diário Oficial, por exemplo, a inclusão do povo era feita de forma diferente. Os decretos caracterizavam o Governo Provisório como constituído por “Exército e Armada em nome da nação”.[21] A terceira leva em consideração a tradição monárquica de aclamar os novos imperadores. No Brasil, D. João VI, D. Pedro I e D. Pedro II foram aclamados nas ruas. A do primeiro Imperador, inclusive, foi bem próxima à localização do Itamaraty, no Campo de Santana, que passou a ser chamado de praça da Aclamação. Uma aclamação popular a Deodoro dois meses após a Proclamação, em meio à disputa pela reorganização política do país, aparenta expor uma sociedade ainda conformada às distinções típicas do Império. O que leva à última questão: diferentemente das promoções a Wandenkolk e a Constant, a de Deodoro não foi uma ascensão na hierarquia militar propriamente dita. Trata-se, antes, de título distintivo, isto é, que visava à distinção do marechal que também era o governante e o personagem ao qual era atribuída a Proclamação. Ironicamente, o título a distinguir o proclamador da República, Generalíssimo, havia pertencido ao Imperador.[22]

O decreto escrito pelo secretário e sobrinho do chefe de governo, João Severiano da Fonseca Hermes, irmão do futuro Presidente Hermes da Fonseca[23], no dia das aclamações, foi transcrito de diferentes formas para os jornais diários, mas todas respeitando a mesma mensagem. Assim foi apresentado o decreto no Diario de Notícias:

“O povo brazileiro, o exercito e armada nacionaes, representados no governo provisorio, como gratidão eterna aos serviços immorredouros prestados à liberdade e à grandeza da patria, acclamam o marechal de campo Manoel Deodoro da Fonseca generalissimo do mesmo exercito, o contra-almirante Eduardo Wandenkolk, vice-almirante, e o tenente -coronel Benjamin Constant, brigadeiro.” (As festas de hontem. Diario de Notícias, 16/01/1890; 1)

 

[1] McCann, Frank. Soldados da pátria: história do Exército brasileiro, 1889-1937. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo / Rio de Janeiro: Companhia das Letras / Biblioteca do Exército, 2009; 46.

[2] Magalhães Jr, Raimundo. Deodoro: a Espada contra o Império. Volume 2: o galo na torre. São Paulo: São Paulo Editora S/A, 1957; 134-135.

[3] As festas de hontem. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[4] As festas de hontem. Diario de Notícias, 16/01/1890; 1; Manifestação ao marechal Deodoro e ao almirante Wandenkolk. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[5] Acclamação publica. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[6] Manifestação ao marechal Deodoro e ao almirante Wandenkolk. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1; Festa militar: o hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[7] As festas de hontem. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1; Manifestação ao marechal Deodoro e ao almirante Wandenkolk. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[8] As festas de hontem. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[9] Manifestação ao marechal Deodoro da Fonseca. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1; Festa militar: o hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[10] Manifestação ao marechal Deodoro da Fonseca. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1.

[11] Magalhães Jr, op. cit., loc. cit.

[12] Guanabarino, Oscar. O hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1; Carvalho, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. 2ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2017; 123.

[13] As festas de hontem. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1; Manifestação ao marechal Deodoro da Fonseca. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1; Festa militar: o hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[14] Manifestação ao marechal Deodoro da Fonseca. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1.

[15] Carvalho, op. cit., 124.

[16] Carvalho, op. cit., 122-123; McCann, op. cit., loc. cit.

[17] Escola Militar. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1; Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1.

[18] Magalhães Jr, op. cit., 136; McCann, op. cit., 47.

[19] McCann, op. cit., loc. cit.

[20] Manifestação da armada. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1; Festa militar: o hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

[21] Citação presente em qualquer Diário Oficial da União de janeiro de 1890.

[22] McCann, op. cit., loc. Cit.

[23] Lopes, Raimundo Helio. Hermes, Fonseca. Dicionário Histórico-Biográfico da Primeira República. CPDOC, Fundação Getúlio Vargas. Disponível em: https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/HERMES,%20Fonseca.pdf . Acesso em: 25/02/2024.

 

*Thiago Guimarães Pougy é doutorando em História na Universidade Federal Fluminense sob a orientação de Paulo Knauss, sócio titular e vice-presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB).

 

Bibliografia:

Carvalho, José Murilo de. A formação das almas: o imaginário da República no Brasil. 2ª edição. São Paulo: Companhia das Letras, 2017.

Faria, Durland Puppin de; Pedrosa, Fernando Velôzo Gomes. Hierarquia militar brasileira – Exército. IN: Dicionário de história militar do Brasil (1822-2022): volume II. Org. Silva, Francisco Carlos Teixeira da.  [et al.]. Rio de Janeiro: Autografia, 2022.

Lopes, Raimundo Helio. Hermes, Fonseca. Dicionário Histórico-Biográfico da Primeira República. CPDOC, Fundação Getúlio Vargas. Disponível em: https://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/HERMES,%20Fonseca.pdf . Acesso em: 25/02/2024.

Magalhães Jr, Raimundo. Deodoro: a Espada contra o Império. Volume 2: o galo na torre. São Paulo: São Paulo Editora S/A, 1957.

McCann, Frank. Soldados da pátria: história do Exército brasileiro, 1889-1937. Tradução de Laura Teixeira Motta. São Paulo / Rio de Janeiro: Companhia das Letras / Biblioteca do Exército, 2009.

Hemeroteca da Biblioteca Nacional:

Diario de Notícias:

As festas de hontem. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Escola Militar. Diario de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1.

Gazeta de Notícias:

Acclamações. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Hymno da Republica. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Manifestação ao marechal Deodoro e ao almirante Wandenkolk. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1. (Escola Militar)

Manifestação ao marechal Deodoro da Fonseca. Gazeta de Notícias, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1.

Jornal do Commercio:

Acclamação publica. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Hymno nacional. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Manifestação da armada. Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

O Paiz:

Festa militar: o hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 1.

Hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 16/01/1890; 2.

Guanabarino, Oscar. O hymno nacional. O Paiz, Rio de Janeiro, 17/01/1890; 1.

 

Biblioteca Machado de Assis – Acervo histórico do Diário Oficial da União – DOU:

http://museu.in.gov.br/fi/web/dou/dou/-/document_library/kcmautn6AnNs/view/575744?_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_navigation=recent&_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_curFolder=&_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_deltaFolder=&_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_deltaEntry=75&_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_orderByCol=modifiedDate&_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_orderByType=asc&p_r_p_resetCur=false&_com_liferay_document_library_web_portlet_DLPortlet_INSTANCE_kcmautn6AnNs_curEntry=4

Série “Conflitos” VII – Novos acervos: Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC

Com muito entusiasmo a Brasiliana Fotográfica em seu oitavo ano de existência – foi criada em 17 de abril de 2015 pela Fundação Biblioteca Nacional e pelo Instituto Moreira Salles – anuncia a entrada em seu acervo fotográfico de uma nova instituição parceira: a Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC. É mais um passo importante para a preservação da memória da história do Brasil e da fotografia. Com imagens de diversos arquivos pessoais, dentre eles os de Getulio Vargas e de Oswaldo Aranha, o artigo de estreia da Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC foi escrito por sua Equipe de Documentação e é sobre a Revolução de 1930, marco inicial da Segunda República no Brasil. A FGV CPDOC completa hoje 50 anos. Feliz aniversário e parabéns por todas as valiosas realizações! Seja muito bem-vinda à Brasiliana Fotográfica!

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Além das já mencionadas instituições fundadoras e da nova parceira, integram também o portal o Acervo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, o Arquivo Nacional, a Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, a Fiocruz, a Fundação Joaquim Nabuco, o Leibniz-Institut fuer Laenderkunde, o Museu Aeroespacial, o Museu da República e o Museu Histórico Nacional.

 

CPDOC 50 ANOS integra-se à Brasiliana Fotográfica

Equipe de Documentação da Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC

 

No ano em que comemora 50 anos de criação, o CPDOC se integra à Brasiliana Fotográfica, participando de uma rede de instituições parceiras, relevantes para a preservação da memória histórica brasileira. Ao longo dos anos, o Centro sempre priorizou o tratamento, a preservação e a consulta a seu acervo – textual, visual, sonoro e audiovisual. Participar da Brasiliana potencializa a visualização e o acesso público a seus registros visuais. Para essa primeira postagem, foram eleitas as fotografias que retratam a Revolução de 1930. A escolha desse conjunto de imagens foi definida por corresponder ao recorte histórico do CPDOC – história contemporânea do Brasil.  A Revolução de 1930, comandada por Getulio Vargas, instala a nova república no país. As fotografias que compõem esse dossiê integram os arquivos pessoais de Getulio Vargas (GV), Antunes Maciel (AM), Cordeiro de Farias (CFa), Cristiano Machado (CM), Epitácio Cavalcanti Albuquerque (ECA), Geraldo Rocha (GR), Haroldo Pereira (HP), João Antonio Mesplé (JAM), João Batista Pereira (JBP), Luiz Simões Lopes (LSL), Mena Barreto (MBM), Oswaldo Aranha (OA), e Pedro Ernesto Batista (PEB). 

 

 

Acessando o link para as fotografias acerca da Revolução de 1930 pertencentes à Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

A Revolução de 1930

 

Movimento armado, iniciado em 3 de outubro de 1930, com o objetivo imediato de derrubar o governo Washington Luís e impedir a posse de Júlio Prestes, eleito presidente da República em 1º de março de 1930. O movimento tornou-se vitorioso em 24 de outubro e Getulio Vargas assumiu o cargo de presidente provisório no dia 3 de novembro. As mudanças políticas, sociais e econômicas que tiveram lugar na sociedade brasileira no pós-1930 fizeram com que esse movimento revolucionário fosse considerado o marco inicial da Segunda República no Brasil.

 

 

As origens do movimento revolucionário 

 

A oposição dos jovens oficiais do Exército — os “tenentes” — ao sistema político manifestou-se desde a década de 1920. Nas revoltas dos 18 do Forte (1922), de São Paulo e Rio Grande do Sul (1924), e na Coluna Prestes (1925-1927), os “tenentes” defendiam o equilíbrio entre os três poderes – Executivo, Legislativo e Judiciário -, pleiteavam um nacionalismo econômico e a modernização da sociedade.

 

A Aliança Liberal

 

Rompendo com a política do Café com leite, segunda a qual Minas Gerais e São Paulo se revezavam no governo da República, a partir de 1928, o presidente Washington Luís passou a apoiar ostensivamente a candidatura de outro paulista – Júlio Prestes – à sua sucessão. Os presidentes dos estados de Minas Gerais e Rio Grande do Sul opunham-se à candidatura de Júlio Prestes e lançaram os nomes de Getulio Vargas, presidente do Rio Grande do Sul, e João Pessoa, presidente da Paraíba, respectivamente à presidência e à vice-presidência da República.

 

 

No início de agosto de 1929, formou-se a Aliança Liberal. Em 12 de setembro, uma convenção dos partidos dominantes de 17 estados, liderados por São Paulo, homologou as candidaturas de Júlio Prestes e Vital Soares à presidência e vice-presidência da República. Pouco depois, em 20 de setembro, a Aliança Liberal aprovou a chapa Vargas-João Pessoa.

 

 

 

Ainda em 1929, a corrente mais radical da Aliança Liberal passou a admitir a hipótese de um movimento armado em caso de derrota nas urnas. Buscou a colaboração dos “tenentes” pelo passado revolucionário, a experiência militar e o prestígio no interior do Exército. Entretanto, os “tenentes” não tinham uma posição homogênea. Juarez Távora, João Alberto Lins de Barros e Antônio de Siqueira Campos aderiram à ideia de colaborar com a Aliança Liberal, enquanto Luís Carlos Prestes mostrava reservas quanto ao movimento.

 

 

Com a campanha eleitoral em andamento, Getulio Vargas, pouco seguro da vitória, estabeleceu um acordo com o presidente Washington Luís estabelecendo, entre outros entendimentos, que, caso derrotado nas eleições, acataria o resultado e passaria a apoiar o governo constituído. Em contrapartida, Washington Luís e Júlio Prestes se comprometiam a não apoiar elementos divergentes da situação no Rio Grande do Sul. Vargas munia-se assim de um instrumento que lhe permitiria uma saída, qualquer que fosse o resultado eleitoral. Em 2 de janeiro de 1930, ao lado de João Pessoa, Vargas lançou sua plataforma de governo, para uma grande multidão concentrada na Esplanada do Castelo, no Rio de Janeiro.

 

 

 

 

O resultado das eleições em 1º de março de 1930 deu a vitória a Júlio Prestes e Vital Soares, eleitos com 57,7% dos votos, e foi contestado por suspeita de fraude.

 

O movimento eclode

 

Em 19 de março de 1930, o gaúcho Borges de Medeiros, em entrevista publicada no jornal A Noite, reconheceu enfaticamente a vitória de Júlio Prestes. A entrevista provocou forte reação e as articulações para um movimento revolucionário foram retomadas.

 

 

O movimento deveria contar com o apoio de três estados – Rio Grande do Sul, Minas Gerais e Paraíba – e eclodir simultaneamente em todo o Brasil. Em fins de maio, o Congresso aprovou os resultados das eleições, declarando Júlio Prestes presidente eleito. Três momentos impulsionaram o ânimo revolucionário – ainda em maio, a morte em acidente aéreo do ‘tenente’ Siqueira Campos; em junho, o manifesto de Vargas pelos jornais condenando as fraudes eleitorais e as violências pelo governo federal e pelos governos estaduais contra os aliancistas, e o assassinato de João Pessoa em Recife por João Dantas, apoiador do governo federal. Os preparativos militares se aceleraram e a pressão sobre os chefes do movimento.

 

 

 

 

A posição de Vargas, de aparente alheamento ao movimento e muitas vezes contrária à sua deflagração, pode ser interpretada como uma tentativa de não despertar a desconfiança do governo federal. Foi isso exatamente o que ocorreu. O Rio Grande teve condições de preparar o movimento com a quase ignorância do governo federal. Em 25 de setembro, Vargas e Oswaldo Aranha decidiram desencadear a revolução no dia 3 de outubro. Segundo o plano adotado, o movimento deveria irromper simultaneamente no Rio Grande do Sul, Minas e estados do Nordeste. A ação deveria ter início, por escolha de Osvaldo Aranha, às 17h30, no fim do expediente nos quartéis, o que facilitaria a ação militar e a prisão dos oficiais em suas casas.

 

revolução7

Bilhete marcando dia e hora da eclosão do movimento revolucionário, assinado por Lindolfo Collor e Oswaldo Aranha. Porto Alegre (RS), 25 de setembro de 1930 / Acervo FGV CPDOC

 

Efetivamente, a revolução eclodiu nesse horário no Rio Grande do Sul com ataque a posições militares de Porto Alegre e avançando pelos demais estados do Sul.

 

 

Em Belo Horizonte, a revolução eclodiu, no mesmo dia e na mesma hora, e boa parte de sua população aderiu aos batalhões de voluntários que logo se formaram em diversas cidades mineiras. O Norte e o Nordeste do país tiveram a Paraíba como sede do movimento revolucionário, mas o movimento eclodiu na madrugada do dia 4 e se alastrou, pelos outros estados, madrugada adentro.

 

 

 

A 11 de outubro, acompanhados de todo o estado-maior civil e militar da revolução, Getulio Vargas e Góis Monteiro seguiram de trem com destino ao norte do Paraná, prevendo choques violentos com as tropas legalistas. O comboio revolucionário estacionou em Ponta Grossa. Vargas e sua comitiva permaneceram em um dos vagões da composição ferroviária.

 

 

Góis montou seu quartel-general numa das dependências do grupo escolar da cidade, planejou o ataque a ser desfechado sobre São Paulo e foi informado sobre as ações exigindo a renúncia do presidente Washington Luís. Ante a negativa deste, no dia 24 de outubro, os militares determinaram o cerco ao Palácio Guanabara e sua prisão.

 

 

Movimento vitorioso

 

Deposto Washington Luis, assume o governo uma Junta Governativa Provisória composta pelos generais Tasso Fragoso e João de Deus Mena Barreto, e pelo almirante Isaías de Noronha. Com a situação na capital sob controle, a Junta enviou telegramas a Vargas propondo a suspensão total das hostilidades em todo o país. Em 28 de outubro, em proclamação ao país, a Junta Governativa comunicou a decisão de transmitir o poder a Vargas.

 

 

Em 31 de outubro, precedido por três mil soldados gaúchos, Vargas desembarcou no Rio de Janeiro (Distrito Federal), sendo recebido por uma manifestação apoteótica de apoio.

 

 

Finalmente, em 3 de novembro de 1930, Vargas tomou posse como chefe do Governo Provisório e governou o país por 15 anos até ser deposto em 1945.

 

 

 

 

(1) Nota da Editora: Esta mesma foto foi publicada no Correio da Manhã, em 1º de novembro de 1930.

 

 

Acesse aqui o vídeo da Sessão Solene em homenagem aos 50 anos do CPDOC, realizada em 21 de junho de 202, no plenário da Câmara dos Deputados, em Brasília.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Esse artigo passou a integrar a série Conflitos, em 20 de março de 2026.

Novos acervos: Museu Aeroespacial

A Brasiliana Fotográfica abre o ano de 2020, quando completará cinco anos, trazendo para seus leitores seu décimo-primeiro parceiro, o Museu Aeroespacial (Musal), uma organização do Comando da Aeronáutica. Quem faz a apresentação da instituição é o historiador Jefferson Eduardo dos Santos Machado com o artigo “Correio Aéreo Militar e os registros de um “Brasil Distante”. Com mais essa importante adesão, a Brasiliana Fotográfica segue cumprindo um de seus objetivos, o de abordar todos os usos e funções da fotografia brasileira, expandindo seu acervo e possibilitando a seus leitores o acesso a um número cada vez maior de imagens. Seus outros parceiros são o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, o Arquivo Nacional, a Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, a Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, a Fundação Joaquim Nabuco, o Leibniz-Institut fuer Laenderkunde, o Museu Histórico Nacional e o Museu da República, além do Instituto Moreira Salles e da Fundação Biblioteca Nacional, fundadores da Brasiliana Fotográfica.

 

 

Acessando o link para as fotografias do acervo do Museu Aerospacial disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Correio Aéreo Militar e os registros de um “Brasil Distante”

 Jefferson Eduardo dos Santos Machado*

 

No acervo do Arquivo Histórico do Museu Aeroespacial (Musal) encontramos vários álbuns que possuem imagens aéreas das décadas de 1920, 1930 e 1940. Estas fotografias estão ligadas, inicialmente, ao curso de Pilotos e Observadores, que eram ministrados na Escola de Aviação Militar e depois Escola de Aeronáutica. Em relação a seu uso na Aeronáutica, a fotografia aérea possibilitava obter subsídios seguros sobre campos e sobre rotas em geral, ajudando a determinar onde seriam instaladas novas bases de unidades aéreas e a observar eventuais atividades de forças oponentes. Sendo assim, tornavam-se importantes, pois propiciavam o conhecimento, tanto para defesa quanto para o ataque, das bases, de instalações orgânicas e energéticas vitais e de equipamentos aéreos importantes para o poderio inimigo.

Inicialmente, a Escola de Aviação Militar treinava seus profissionais em uma área pré-determinada pelos instrutores da Missão Francesa de Aviação, chamada cilindro. Esta extensão possuía cerca de 10 quilômetros de diâmetro em torno do Campo dos Afonsos. Apesar de já ter havido alguns reides aéreos, esta norma só foi extinta em 12 de junho de 1931. Este fato deu-se devido à inadequação de tal prática à realidade brasileira, por ser um país com uma grande extensão. Com o intuito de terminar com esta limitação, criou-se o Grupo Misto de Aviação que, de certa forma, foi a primeira unidade de combate aéreo do Brasil. Dentro da estrutura deste grupo foi inserida a Esquadrilha de Treinamento, para onde eram alocados os pilotos recém-saídos da Escola de Aviação Militar. Nesse grupamento estavam as aeronaves que possuíam maior autonomia de voo.

No mesmo dia 12 de junho de 1931, os tenentes Casimiro Montenegro Filho (1904 – 2000) e Nelson Freire Lavenère-Wanderley (1909 – 1985) realizaram o primeiro voo do Correio Aéreo Militar. Saíram do Rio de Janeiro com destino a São Paulo, em uma viagem que durou cinco horas e vinte cinco minutos, a bordo de uma aeronave Curtiss Fledgling, matrícula K 263. Esta empreitada fez toda a diferença para a Arma da Aviação, criada em 1927. Com o objetivo de criar novas rotas de correio, a fim de integrar o país e construir novas pistas de voo e unidades da Aviação Militar, os pilotos passaram a voar por todo o Brasil em missões que eram verdadeiras aventuras.

Após sua primeira viagem, o Correio Aéreo Militar, entre os anos de 1931 e 1939, criou rotas que passavam por várias cidades brasileiras tais como Abaeté, Alegrete, Baião, Barra, Belém, Belo Horizonte, Campanário, Carinhanha, Chique-Chique, Conceição do Araguaia, Corinto, Cruz Alta, Curitiba, Curvelo, Fortaleza, Foz do Iguaçu, Goiás, Guaíra, Guarapuava, Iguatu, Ilhéus, Januarinha, Londrina, Mossoró, Natal, Oiapoque, Petrolina, Pirapora, Porto Alegre, Recife, Remanso, Rio Branco, Santa Maria, Santiago do Boqueirão, Santo Ângelo, São Luiz, São Matheus, São Paulo, São Salvador, Teófilo Otoni, Terezina e Uruguaiana. Posteriormente, duas rotas chegaram a países vizinhos, uma que para Concepción, no Paraguai; e outra que chegava a Caiena, na Guiana Francesa. Estes nomes de cidades demonstram quão importante foi a iniciativa da criação do Correio Aéreo para um encurtamento das distâncias que dificultavam o desenvolvimento de várias regiões brasileiras. Com a criação do  Ministério da Aeronáutica, em 20 de janeiro de 1941, o Correio Aéreo Militar juntou-se ao Correio Aéreo Naval, criado pela Marinha, em 1934, formando um novo órgão que passou a ser chamado de Correio Aéreo Nacional.

Uma das grandes rotas foi a Rio de Janeiro – Fortaleza, que seguia pelo Vale do São Francisco. Ela teve início em 1934 e enveredou pelo interior do nordeste criando várias pistas de pouso e possibilitando uma maior comunicação com as cidades mais importantes do país. Esta rota era formada pelas cidades de Belo Horizonte, Curvelo, Corinto, Pirapora, Januarinha, Carinhanha, Rio Branco, Barra, Chique-Chique, Remanso, Petrolina, Juazeiro e Iguatu. Em nosso Arquivo temos imagens de várias destas rotas do CAM. Porém, uma das  mais bem documentadas é esta que ia da Cidade Maravilhosa até a Terra de Iracema.

Acessando o link para as fotografias da rota Rio de Janeiro – Fortaleza do Correio Aéreo Nacional disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

*Jefferson Eduardo dos Santos Machado é historiador do Musal

 

Fontes:

ARAGÃO, Isabel L.. O Correio Aéreo Militar (CAM): uma história de pioneirismo. Rev. UNIFA, Rio de Janeiro, v. 25, n. 31, p. , dez. 2012.

DIAS, Fabiana Costa; MACHADO, Jefferson Eduardo dos Santos. As Transformações Arquitetônicas no Campo dos Afonsos no Período De 1930-1940: A Fotogrametria Como Fonte Para A História Da Arquitetura… In: Anais do 5º Seminário Ibero-americano Arquitetura e Documentação. Anais…Belo Horizonte(MG) UFMG, 2018. Disponível em: <https//www.even3.com.br/anais/arqdoc/71129-AS-TRANSFORMACOES-ARQUITETONICAS-NO-CAMPO-DOS-AFONSOS-NO-PERIODO-DE-1930-1940–A-FOTOGRAMETRIA-COMO-FONTE-PARA-A-H>. Acesso em: 14/11/2019 16:18

INCAER. História Geral da Aeronáutica Brasileira. Rio de Janeiro/Belo Horizonte: INCAER/Itatiaia, 1988, vol.1 e 1990, vol.2

WANDERLEY, Nelson Freire Lavenére. História da Força Aérea Brasileira. MAER, 1975.

Novos acervos: Fundação Joaquim Nabuco

A Brasiliana Fotográfica traz para seus leitores seu décimo parceiro, a Fundação Joaquim Nabuco (Fundaj). Quem faz a apresentação é  Albertina Malta,  historiadora da instituição e responsável pela Coordenação de Documentação e Pesquisa, vinculada ao Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira Rodrigo Mello Franco de Andrade – Cehibra. Nesse primeiro momento, estão sendo disponibilizadas imagens de autoria do fotógrafo Manoel Tondella (1861 – 1921) com a publicação do artigo O fotógrafo pernambucano Manoel Tondella: breve perfil e cronologia, escrito por Andrea Wanderley, editora e pesquisadora do portal. Com mais essa importante adesão, a Brasiliana Fotográfica segue cumprindo um de seus objetivos, o de abordar todos os usos e funções da fotografia brasileira, expandindo seu acervo e possibilitando a seus leitores o acesso a um número cada vez maior de imagens.  Seus outros parceiros são o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, o Arquivo Nacional, a Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, a Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, o Leibniz-Institut fuer Laenderkunde, o Museu Histórico Nacional e o Museu da República, além do Instituto Moreira Salles e da Fundação Biblioteca Nacional, criadores da Brasiliana Fotográfica.

 

 

Novos acervos: Fundação Joaquim Nabuco

Albertina Malta*

A Fundação Joaquim Nabuco passa a integrar, com alegria, o projeto Brasiliana Fotográfica desenvolvido pelo Instituto Moreira Sales e pela Fundação Biblioteca Nacional. Essa parceria possibilita a ampliação dos canais de divulgação de acervos fotográficos brasileiros que contém informações preciosas para a recuperação visual do passado, além de revelarem a produção de artistas muitas vezes desconhecidos.

A Fundação Joaquim Nabuco apresenta, inicialmente, um conjunto de imagens originais de reconhecido valor documental, em bom estado de conservação, de autoria do fotógrafo Manoel Tondella. Trata-se de vistas do Recife produzidas entre 1890 e 1905, em papel fotográfico num tom violeta. Oferecido à Fundação, o conjunto foi adquirido em 1985. Segundo o historiador Fernando Ponce de Leon, então coordenador da Fototeca e responsável pelo processo de aquisição das imagens de Tondella, as vistas “são valiosas por representar intensamente e com boa qualidade os bairros centrais do Recife (o do Recife, o de Santo Antônio, o de São José, o da Boa Vista), além dos arrabaldes e subúrbios quase rurais da cidade… as imagens registram o Recife intacto, antes das demolições e obras de reurbanizações”.

Foi também neste momento da aquisição que dois renomados especialistas – Gilberto Ferrez e Boriz Kossoy – consultados por Ponce de Leon, avaliaram a pertinência da Fundação em adquirir a coleção de Manoel Tondella, especialmente por se tratar de conjunto documental original. E, por serem vistas antigas da cidade, tornavam-se ainda mais raras, paisagens com riscos de se perderem para sempre.

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Manoel Tondella disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

*Albertina Malta é historiadora e responsável pela Coordenação de Documentação e Pesquisa, vinculada ao Centro de Documentação e de Estudos da História Brasileira Rodrigo Mello Franco de Andrade – Cehibra.

 

O fotógrafo pernambucano Manoel Tondella: breve perfil e cronologia

Andrea C. T. Wanderley**

 

 

Breve perfil

 

Manoel Tondella é um dos mais importantes fotógrafos de Pernambuco da segunda metade dos século XIX, período a partir do qual Recife tornou-se referência histórica para a fotografia no Brasil. Nascido em 3 de outubro de 1861, de ascendência portuguesa, Tondella dedicou-se à fotografia da paisagem urbana, documentando em imagens as transformações da cidade, entre os anos 1890 e as duas primeiras décadas do século XX. Foi contemporâneo dos fotógrafos Alfredo Ducasble (18? – 19?)Francisco du Bocage (1860 – 1919), Hermina de Carvalho Menna da Costa (18? – 19?) , considerada a primeira mulher fotógrafa do Recife, Louis Piereck (18? – 1931) e Ludgero Jardim da Costa (18? – 19?) , dentre outros.

Tondella registrou, predominantemente no Recife e em Olinda, as ruas, a estação de trem, os prédios, o Mercado Público de São José, os casebres, as pontes, as igrejas, os ancoradouros, o teatro de Santa Isabel, as praças, a Assembleia Legislativa, o Ginásio Pernambucano, as praias, cemitérios, locomotivas, engenhos, quiosques, feiras, estradas, os bairros centrais e também os subúrbios, com suas casas de taipa, além de vendedores, de pessoas se banhando no rio Beberibe e até um grupo de ciclistas à beira de um açude. São imagens muito ricas em detalhes que se destacam pela beleza, pela qualidade técnica e nos ajudam a entender a vida em Pernambuco no início do século XX. Alguns registros foram inspirados nas antigas litografias que desenhavam o perfil do litoral do Recife, da tradição holandesa ou portuguesa. Muitas imagens foram editadas em cartões-postais.

 

 

Não se sabe, até o momento, quando exatamente Tondella começou a trabalhar como fotógrafo, mas tudo indica não ter sido antes da década de 1890. Em 1895, presenteou o Jornal do Recife com duas fotografias de sua autoria e, nessa época, seu estabelecimento fotográfico ficava na rua da Concórdia, nº 13. Em 1897, já era associado a João José de Oliveira (18? – 19?) no ateliê fotográfico Photographia Popular Oliveira & Tondella, e, em 1889, o estabelecimento ficava, na rua da Imperatriz, 79. Ficaram juntos até 1904 quando a sociedade foi desfeita e Tondella abriu um ateliê na então rua Velha, posteriormente, rua Antônio Carneiro. Oliveira continuou no mesmo endereço. Tondella seguiu trabalhando como fotógrafo até, pelo menos, 1919, tendo falecido em 1921.

 

 

Filho de Manoel Pereira de Figueiredo Tondella, provavelmente português, e de Marcionilla Francisca Soares, o fotógrafo Tondella teve três irmãos: Francisco (18? – 1913), Antônio (18? – 1898) e Maria  (c. 1860 – 1905). Francisco foi proprietário da tipografia Acadêmica e do periódico mensal O Filatelista. Na ocasião do falecimento de uma tia dos Tondella, em 1902, a família foi adjetivada como ilustre e Francisco e Manoel Tondella referidos como seus dignos sobrinhos. Manoel Tondella casou-se com Anna Amelia Celestina Ramos (18? – 19?), em 1892, e não tiveram filhos.

 

 

 Cronologia

 

1854 – O pai do do fotógrafo Tondella, Manoel Pereira de Figueiredo Tondella, provavelmente português, e José Barros Veiga dissolveram amigavelmente a sociedade comercial que possuíam denominada Veiga & Tondella (Diário de Pernambuco, 26 de setembro de 1854, última coluna).

1855 – O Gabinete Português de Leitura decidiu promover uma subscrição em favor da construção de um hospital para atender os portugueses indigentes que não pudessem receber tratamento adequado contra a epidemia que se alastrava por algumas províncias do Brasil e que eles acreditavam que chegaria no Recife. No Bairro do Recife, Manoel Pereira de Figueiredo Tondella era o encarregado pelas subscrições (Diário de Pernambuco, 25 de agosto de 1855, primeira coluna). Fez parte da comissão responsável pela instalação do Hospital Português em Pernambuco para o qual contribuiu com 50 mil reis (Diário de Pernambuco,  7 de setembro de 1855, segunda coluna; e Diário de Pernambuco, 15 de novembro de 1855, penúltima coluna).

1861 / 1862 – O fotógrafo Manoel Tondella, nasceu em 3 de outubro de 1861, filho de Manoel Pereira de Figueiredo Tondella e Marcionilla Francisca Soares, e foi batizado em 1º de janeiro do ano seguinte, na freguesia de Boa Vista, no Recife. A família morava no bairro Capunga, no Recife (Diário de Pernambuco, 3 de outubro de 1862, segunda colunaDiário de Pernambuco, 17 de abril de 1862, segunda coluna; e Diário de Pernambuco, 22 de julho de 1899, segunda coluna).

1863 – José Carneiro de Faria Lins informava ter feitos as pazes com Manoel Pereira de Figueiredo Tondella, a quem teria ofendido em momentos de delírio (Diário de Pernambuco, 22 de abril de 1863, última coluna).

1881 – O irmão de Manoel, Francisco Tondella (18? – 1913), era proprietário da tipografia Acadêmica (Diário de Pernambuco, 12 de abril de 1881, penúltima coluna).

1884 – Casamento de seu irmão Francisco com Francisca Olympia Rodrigues (? – 1891) (Jornal do Recife, 22 de setembro de 1884, última coluna).

1885 - Francisco era sócio da Biblioteca do Club Dramático Familiar (Jornal do Recife, 19 de março de 1885, quinta coluna).

Anúncio do casamento do irmão de Manoel, Antônio Pereira de Figueiredo Tondella com Francelina Maria de França Caldas (Diário de Pernambuco, 5 de novembro de 1895, última coluna).

1886 - Falecimento de uma das avós de Manoel Tondella, Maria Monteiro da Silva, cuja missa de sétimo dia foi celebrada na matriz de Santo Antônio do dia 8 de novembro de 1886 (Jornal do Recife, 5 de novembro de 1886, última coluna). Manoel era irmão de Francisco (18? – 1913), Antônio (18? – 1898) e Maria Tondella (c. 1860 – 1905), que também convidavam para a missa, além da mulher de Francisco, Francisca Olympia Rodrigues (? – 1891) e da tia dos Tondellas, Antônia Monteiro da Silva (1826 – 1902), filha da falecida.

1890 - Era um dos subscritores para os festejos do aniversário de Deodoro da Fonseca contribuindo com 5 mil réis (Jornal do Recife, 7 de agosto de 1890, quarta coluna).

Publicação do primeiro número do periódico mensal O Filatelista, de propriedade de Francisco Tondella, seu irmão, direcionado para os colecionadores de selos  (Jornal do Recife, 17 de outubro de 1890, penúltima coluna)

1891 Falecimento de sua cunhada, Francisca Olympia Rodrigues Tondella, casada com seu irmão Francisco (Jornal do Recife, 10 de abril de 1891, última coluna).

1892 Anúncio de seu casamento com Anna Amelia Celestina Ramos (18? – 19?) (Jornal do Recife, 9 de fevereiro de 1892, última coluna).

Anna Amelia Tondella foi eleita juíza da Sociedade Beneficente Nossa Senhora do Carmo no período de 1892 a 1893 (Jornal do Recife, 20 de julho de 1892, primeira coluna).

1894 – Anunciou com sua mulher e outros parentes a missa pelo 1º ano de falecimento de Lesbina Celestina Ramos (? – 1893), mulher de seu compadre Caetano Ferreira Ramos (? – 1919) e irmã de sua esposa, Anna Amelia (Diário de Pernambuco, 6 de julho de 1894, segunda coluna).

1895 – Presenteou o Jornal do Recife com duas fotografias de sua autoria: uma da estação da Estrada de Ferro Central de Pernambuco e outra da rua Larga do Rosário por ocasião da procissão das Chagas. “Um correto trabalho que muito recomenda o seu autor” (Jornal do Recife, 28 de maio de 1895, quinta coluna). Nessa época, provavelmente seu estabelecimento fotográfico ficava na rua da Concórdia, nº 13.

Seu irmão Antônio casou-se com Francelina Maria de França Caldas (Diário de Pernambuco, 5 de novembro de 1895, última coluna).

1897 - Manoel Tondella enviou ao Diário de Pernambuco 2 exemplares de lindíssimas fotografias em ponto pequeno. É no gênero um trabalho de grande perfeição e cuja apreciação recomendamos ao público (Diário de Pernambuco, 13 de janeiro de 1897, quarta coluna).

Presenteou o Jornal do Recife com três fotografias de quadros de pintores célebres (Jornal do Recife, 14 de janeiro de 1897, sexta coluna).

Estava à venda na Livraria Francesa fotografias de autoria de Tondella do préstito que havia acompanhado o general Artur Oscar no dia 15 de novembro (Jornal do Recife, 23 de novembro de 1897, sexta coluna).

Já existia a sociedade Oliveira & Tondella, entre Manoel e João José de Oliveira (18? – 19?). Tornaram-se devedores de impostos do período entre 1897 e 1898 (Diário de Pernambuco, 3 de junho de 1899, terceira coluna).

1898 - Ele e o sócio importaram uma caixa com objetos de fotografia (Diário de Pernambuco, 20 de fevereiro de 1898, segunda coluna).

Chegou uma caixa de mercadorias para Oliveira & Tondella , do vapor inglês Ile, que vinha de potos da Europa (Diário de Pernambuco, 18 de março de 1898, terceira coluna).

Falecimento do irmão de Manoel Tondella, Antônio (? – 1898). Ele, seu irmão Francisco (? – 1913) e filhos, sua irmã Maria (1860 – 1905), sua tia Antônia Maria Monteiro da Silva  (1826 – 1902) e sua esposa Anna Amelia convidaram para a missa de Sétimo Dia, na matriz de Santo Antônio. Pelo anúncio, Maria não era casada e Manoel e Anna Amélia não tinham filhos. Na missa de trigésimo dia, quem convida é a mulher de Antônio, Francelina França Caldas (Diário de Pernambuco, 27 de agosto de 1898, terceira colunaDiário de Pernambuco, 21 de setembro de 1898, penúltima coluna; e Jornal do Recife, 23 de fevereiro de 1899, quarta coluna).

Anna Amelia era uma das paraninfas da bênção solene da imagem do Santíssimo Coração de Jesus, na Matriz de São José. A solenidade contou com a presença do governador de Pernambuco (Jornal do Recife, 4 de novembro de 1898, segunda coluna).

Oliveira & Tondella importaram álbuns e papel albuminado (Diário de Pernambuco, 30 de novembro de 1898, segunda coluna).

1899 – O estabelecimento dos fotógrafos ficava na rua da Imperatriz, nº 79 (Almanach de Pernambuco, 1900).

Oliveira & Tondella importaram artigos para fotografia (Diário de Pernambuco, 8 de março de 1899, segunda coluna).

Como era assinante da America Illustrada, Revista Nacional de Letras e Artes, a firma Oliveira & Tondella ganhou de brinde um Livro de Ouro do Brasil  na Exposição de 1900 em Paris (Jornal do Recife, 23 de julho de 1899, penúltima coluna).

1900 – Ao longo do ano, Oliveira & Tondella importaram diversas vezes materiais fotográficos, envelopes e cartões.

Tondella foi o fotógrafo responsável pela realização de uma imagem que a Celestial Confraria da Santíssima Trindade ofereceria à Sociedade Musical Charanga do Recife (A Província (PE), 17 de julho de 1900, penúltima coluna).

Encontrava-se exposto no ateliê  Photographia Popular Oliveira & Tondella, na rua da Imperatriz, nº 79, um quadro dos bacharéis da Faculdade de Direito do Recife de 1900 (Jornal do Recife, 22 de novembro de 1900, última coluna)

A firma Oliveira & Tondella realizou um retrato em busto do professor Gaspar Regueira Costa na ocasião de seu aniversário, com o qual o magistério municipal o presentearia (Jornal Pequeno, 20 de dezembro de 1900).

1901 – Ao longo do ano, Oliveira & Tondella importaram diversas vezes materiais fotográficos, cartões, papel para desenho.

 

 

Encontrava-se exposto no ateliê  Photographia Popular Oliveira & Tondella, na rua da Imperatriz, nº 79, um quadro dos bacharéis da Faculdade de Direito do Recife de 1901 (Jornal do Recife, 26 de novembro de 1901, última coluna).

 

 

1902 – Ao longo do ano, Oliveira & Tondella importaram diversas vezes materiais fotográficos.

Na Travessa da Concórdia, nº 13, falecimento da tia de Tondella, Antônia Maria Monteiro da Silva (1826 – 1902). A família foi adjetivada como ilustre e Francisco e Manoel Tondella foram referidos como seus dignos sobrinhos (Jornal do Recife, 18 de junho de 1902, segunda coluna; A Província, 24 de junho, quinta coluna; e Diário de Pernambuco, 18 de junho de 1902, quarta coluna).

Oliveira & Tondella realizaram um retrato em tamanho natural do tenente-coronel Miranda Curio, delegado de saúde do Exército junto ao comando do 2º Distrito Militar, que lhe seria dado como presente de aniversário pelos farmacêuticos do corpo de saúde de Pernambuco (A Província (PE), 22 de agosto de 1902, quarta coluna).

Jornalistas do Diário de Pernambuco fizeram uma visita ao ateliê fotográfico de Oliveira & Tondella e elogiaram os retratos e as vistas expostas e também a amabilidade dos dignos artistas. “Mostraram-nos os mesmos srs. os estereoscópios que acabam de receber, novidade que expõem à venda…” (Diário de Pernambuco, 22 de outubro de 1902, quinta coluna).

 

 

A firma Oliveira & Tondella ofereceu uma fotografia de presente ao Jornal do Recife: uma imagem do general Marinho da Silva passando em revista as tropas federais na Campina do Bode (Jornal do Recife, 28 de novembro de 1902, quarta coluna).

Oliveira & Tondella enviaram ao Jornal do Recife um cartão de boas festas com uma imagem de um trecho do rio Capibaribe próximo aos arrecifes. Além disso, enviaram a fotografia de uma paisagem (Jornal do Recife, 23 de dezembro de 1902, sétima coluna). Enviaram para o periódico A Província uma fotografia do farol de Olinda e uma de uma lancha (A Província (PE), 23 de dezembro de 1902, quarta coluna). E enviaram para o Jornal Pequeno uma fotografia dos bairros do Recife e de Santo Antônio como votos de boas festas (Jornal Pequeno, 23 de dezembro de 1902, primeira coluna).

1903 – Ao longo do ano, Oliveira & Tondella importaram diversas vezes materiais fotográficos.

Um retrato a óleo feito no ateliê de Oliveira & Tondella foi oferecido ao alferes Virgílio Antônio Borba (Diário de Pernambuco, 8 de janeiro de 1903, sexta coluna).

Foi noticiado o novo endereço do ateliê fotográfico de Oliveira & Tondella, devido à mudança do nome da rua da Imperatriz para rua Rosa e Silva. O número, 79, continuou o mesmo. Eles haviam produzido um retrato do conselheiro Rosa e Silva durante um banqueteExpuseram as vistas do salão do banquete, que deveriam ser apreciadas com um estereoscópio (Diário de Pernambuco, 12 de fevereiro de 1903, sexta coluna; e 13 de fevereiro de 1903, última coluna). Expuseram as vistas do salão do banquete, que deveriam ser apreciadas com um estereoscópio (Diário de Pernambuco, 20 de fevereiro de 1903, última coluna).

Os hábeis artistas Oliveira & Tondella produziram uma fotografia da Igreja de Santa Cruz na ocasião da festa do Bom Jesus da Via Sacra, realizada em 3 de maio, e a enviaram de presente para o Jornal do Recife, para o Jornal Pequeno e para o periódico A Província (Jornal Pequeno, 16 de maio de 1903, segunda colunaJornal do Recife, 17 de maio de 1903, terceira coluna; e A Província (PE), 17 de maio de 1903, última coluna).

Casamento de Amália de Oliveira, filha de José Joaquim Oliveira, com Tacito Altino Correia de Araújo (Diário de Pernambuco, 5 de setembro de 1903, sexta coluna).

Leonilla Lusetta de Oliveira, esposa de Joaquim José de Oliveira, sócio de Tondella, faleceu (Jornal Pequeno, 31 de outubro de 1903, terceira coluna).

Oliveira & Tondella presentearam o Jornal Pequeno com fotografias em miniatura da primeira página edição de 28 de junho de 1902 do periódico (Jornal Pequeno, 4 de dezembro de 1903, terceira coluna).

Oliveira & Tondella presentearam o Diário de Pernambuco com fotografias do edifício do referido jornal na rua Duque de Caxias esquina com a Praça da Independência (Diário de Pernambuco, 25 de dezembro de 1903, quarta coluna)

1904 – Oliveira & Tondella enviaram votos de um feliz ano novo para o Jornal do Recife (Jornal do Recife, 1º de janeiro de 1904, quinta coluna).

Chegada, da Inglaterra, de papel fotográfico, de câmaras escuras, de cartões cortados e obras impressas para Oliveira & Tondella (Província (PE), 16 de janeiro de 1904, segunda coluna21 de maio de 1904, terceira coluna, 15 de junho, segunda coluna29 de julho de 1904, terceira coluna; e 31 de agosto de 1904, terceira coluna).

Oliveira & Tondella foram citados pela Diretoria de Contabilidades e Rendas Municipais do Recife. O endereço era av. Rosa e Silva, 79 (Diário de Pernambuco, 4 de fevereiro de 1904, sexta coluna).

A firma Oliveira & Tondella produziu uma fotografia da Companhia dos Bombeiros (Diário de Pernambuco, 6 de março de 1904, sexta coluna).

Tondella abriu, sem sócios, um estabelecimento fotográfico na rua da Velha, 137, no primeiro andar, onde também residia. Anos depois essa rua passou a chamar-se Antônio Carneiro. Na época, oferecia cartões postais da procissão Encontro, que havia saído da Igreja de Santa Cruz, no Recife (Jornal do Recife, 22 de abril de 1904, penúltima coluna; A Província, 13 de setembro de 1904, penúltima coluna). A recente abertura do ateliê do hábil e conhecido fotógrafo foi anunciada. Provisoriamente a entrada seria feita a partir da rua da Alegria (Jornal do Recife, 13 de setembro de 1904, última coluna; e A Província,(PE), 13 de setembro de 1904, penúltima coluna).

 

 

Tondella produziu de uma janela da Igreja de Santa Cruz uma fotografia da Charanga do Recife (A Província, 20 de setembro de 1904, última coluna).

1905 – Com cerca de 45 anos, falecimento de Maria Tondella, irmã de Manoel (A Província, 26 de abril de 1905, primeira colunaJornal do Recife, 6 de maio de 1905, sexta coluna).

Publicação de uma propaganda da Photographia Tondella anunciando o desligamento de Tondella da firma Oliveira & Tondella, realizado no ano anterior (A Província, 16 de julho de 1905, primeira coluna). No mesmo ano, publicação de uma propaganda da Photographia Popular apenas com o nome de Joaquim José de Oliveira no mesmo endereço, na rua da Imperatriz, 79 (Almanach de Pernambuco, 1905).

 

 

Ofertou ao Jornal do Recife a fotografia da canhoneira Pátria e seu trabalho foi considerado perfeitíssimo. Uma fotografia ampliada da mesma canhoneira estava exposta na Livraria Francesa, na rua Primeiro de Março, nº 9 (Jornal do Recife, 21 de setembro de 1905, oitava coluna).

O Jornal Pequeno homenageou Anna Amélia no dia de seu aniversário, 5 de dezembro (Jornal Pequeno, 5 de dezembro de 1905, primeira coluna).

1910 - O nome da rua de seu estabelecimento mudou de rua da Velha para rua Antônio Carneiro (Diário de Pernambuco, 11 de agosto de 1910, quarta coluna).

1913 - Falecimento de sue irmão Francisco, que havia sido livreiro no Recife, proprietário da antiga casa Bolitreau, a Livraria Tondella, Cockles & Co, desde 1897, na rua do Imperador, 46 (Diário de Pernambuco, 13 de fevereiro de 1898, penúltima coluna; e Diário de Pernambuco, 19 de março de 1898, terceira coluna) e que ultimamente trabalhava como contador na Papelaria Brasil. Era pai de Marcionila e de Francisco Tondella Junior (Diário de Pernambuco, 21 de setembro de 1897, penúltima coluna; e Jornal Pequeno, 19 de novembro de 1913, última coluna)

1917 -Morte de sua sobrinha, Marcionila Tondella, filha de seu irmão e comerciante Francisco (já falecido), que também era pai do poeta Tondella Junior (Diário de Pernambuco, 20 de maio de 1917, segunda coluna).

1919 - Falecimento do compadre e cunhado de Tondella, Caetano Ferreira Ramos (? – 1919) (Jornal do Recife, 20 de abril de 1919, última coluna).

Morte de seu sobrinho, o poeta Francisco Tondella Junior, aos 28 anos, filho de seu irmão já falecido, Francisco (Diário de Pernambuco, 15 de junho de 1919, segunda coluna).

Foi publicado um anúncio do estabelecimento fotográfico de Tondella, na rua Antônio Carneiro, 403 (antiga Velha) no qual eram oferecidos retratos Mignon, Visita, Elisabeth, Gabinete, Boudoir, Salão, cartões postais, e fotos de edifícios, de grupos ao ar livre em papel platina ou brilhante, retratos em tamanho natural em preto ou em cor pelo novo sistema americano. Oferecia também uma grande coleção de vistas de Pernambuco. Além disso, consertava máquinas e obturadores e fazia revelação, impressão e retoque em chapas de amador. O mesmo anúncio foi publicado diversas vezes ao longo de 1919 e 1920.

 

 

Foi anunciado que o artista e fotógrafo Manoel Tondella estava diariamente, na rua Velha, 103, à disposição dos assinantes e dos anunciantes de La Revue de revues de l´Amerique du Sud, de Daniel Valenford & C sobre Recife (A Província (PE), 8 de fevereiro de 1920, segunda coluna; e Jornal do Recife, 17 de outubro de 1919, penúltima coluna).

1921 - Foi realizada uma missa fúnebre pela alma de Manoel Tondella, na Igreja de Santa Cruz (A Província (PE), 22 de fevereiro de 1921, primeira coluna).

1922 -Pela última vez foi anunciado o estabelecimento fotográfico de Tondella, na rua Antônio Carneiro, nº 137 (Almanak Laemmert, 1922).

 

 

 

**Andrea C. T. Wanderley é editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

FERREZ, Gilberto. Velhas fotografias pernambucanas: 1851-1890. Rio de Janeiro: Campo Visual, 1988.

GASPAR, Lúcia. As ruas do Recife. Site da Fundaj, 2009

GASPAR, Lúcia; BARBOSA, Virginia. O Recife: uma bibliografia. Recife: Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2008. 360 p.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

MALTA, Albertina – Memória em sais de prata: fotografias do Recife em instituições memoriais. Dissertação para Universidade Federal de Pernambuco, fevereiro de 2013.

MEDEIROS, R. M. H. (Orgs.). Arquivos e coleções fotográficas da Fundação Joaquim Nabuco. Recife: Massangana, 1995.

MENDES, Luciana Cavalcanti. O campo fotográfico em Pernambuco: um resumo do final do XIX até 1930. XXIX Simpósio Nacional de História – Anpuh, 2017.

SILVA, Fabiana Bruce. Entre fotógrafos, modernidade e fotografia no Recife do século XX, uma pesquisa. Apresentado durante XI Encontro Regional Sudeste de História Oral, realizado na Universidade Federal Fluminense, em Niteroi, em julho de 2015

Site da Fundação Joaquim Nabuco

Novos acervos: Museu Histórico Nacional

A Brasiliana Fotográfica apresenta a seus leitores seu nono parceiro, o Museu Histórico Nacional (MHN), com o artigo “Os salesianos, os Bororos e a banda de crianças indígenas que mudou a história”, da historiadora da instituição, Maria Isabel Ribeiro Lenzi, e com a disponibilização das imagens do álbum “Missão em Mato Grosso”que pertence à Coleção Miguel Calmon, ministro da Viação e Obras Públicas no governo do presidente Afonso Pena. Com a adesão desse importante museu, o portal segue cumprindo um de seus objetivos, o de abordar todos os usos e funções da fotografia brasileira. Seus outros parceiros são o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, o Arquivo Nacional, a Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, a Diretoria do Patrimônio Histórico e Documentação da Marinha, o Leibniz-Institut fuer Laenderkunde e o Museu da República, além do Instituto Moreira Salles e da Fundação Biblioteca Nacional, criadores da Brasiliana Fotográfica.

Os salesianos, os Bororos e a banda de crianças indígenas que mudou a história

Maria Isabel Ribeiro Lenzi*

 

O álbum “Missão em Mato Grosso”, de 1908, retrata os trabalhos dos salesianos e das irmãs de Nossa Senhora Auxiliadora com os índios Bororos. São 69 fotografias do início do século XX que documentam o trabalho de educação desenvolvido pelos missionários pelo qual ensinavam música, português, matemática, prática agrícola e ciências, além de promoverem a evangelização. Infelizmente, a autoria das fotografias é desconhecida.

Em missão de paz, os irmãos salesianos chegaram à terra dos Bororos, em Mato Grosso, em 1895. Anteriormente, já havia sido tentado contato com os índios, mas o conflito pela terra provocou muitas mortes, resultando na fuga dos índios, que não aceitavam se submeter, nem abandonar seus costumes. O bispo dom Luiz Lasagna foi o responsável pela implantação dos projetos salesianos em Mato Grosso, porém, com o seu falecimento, coube ao padre Antônio Malan dar continuidade às propostas de dom Luiz Lasagna. Padre Malan foi, então, o primeiro Inspetor da Missão Salesiana em Mato Grosso, tendo fundado colégios em Cuiabá e Corumbá, além das missões do Sagrado Coração do Rio Barreiro, da Imaculada no Rio das Garças e de São José no Sangradouro.

O método salesiano se distinguia das outras abordagens de contato por evitar uma postura de repressão, preferindo se basear na razão, na religião e na bondade. Foram criadas a Colônia Sagrado Coração, num local conhecido como Tachos, e a Colônia Imaculada Conceição, próxima ao Rio das Garças. O padre Antônio Malan, percebendo os aspectos de confluência da religiosidade bororo com o cristianismo, não menosprezou o papel que a cultura daqueles índios poderia exercer no processo de evangelização. A aptidão que demonstravam para a música foi canalizada para a formação de uma banda com os meninos bororos, que acabou tendo importância estratégica para a sobrevivência das sociedades indígenas no Brasil(1).

Acessando o link para as fotografias do álbum “Missão em Mato Grosso” do acervo do Museu Histórico Nacional disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Naquele momento, em 1908, cedendo à pressão social, o presidente Afonso Pena estava prestes a assinar um decreto que avalizava o extermínio dos povos indígenas (2). O padre Antônio Malan encontrou uma maneira inédita de mudar a opinião brasileira a respeito dos índios, valendo-se da vocação musical dos Bororos. Ele levou vinte e um Bororos integrantes da banda de música para tocar no Rio de Janeiro, no Pavilhão de São Paulo no âmbito da Exposição Nacional de 1908, que comemorava o centenário da Abertura dos Portos. A banda tocou ainda no Teatro João Caetano (3), na Câmara dos Deputados, no Senado e, diante do presidente Afonso Pena, no Palácio do Catete, então sede da Presidência da República. Na ocasião, eles interpretaram com primor temas clássicos, inclusive o Hino Nacional. Os jornais de então exaltaram o talento artístico dos Bororos e também abriram suas páginas para o discurso do padre Malan, pedindo a restituição aos índios “de uma pátria que lhes foi roubada em nome de uma falsa civilização conquistadora, liberticida. Pátria, senhores, de que são eles os verdadeiros donos, e que saberão amar, defender e ilustrar, se isso os ensinarmos com nosso esforço e nosso exemplo” (4).

 

 

O presente álbum pertence à Coleção Miguel Calmon, que foi ministro da Viação e Obras Públicas no governo Afonso Pena. De acordo com o jornal O Paiz, o padre Malan projetou fotografias (provavelmente deste álbum) em palestra que proferiu no Museu Comercial (5).

Ainda segundo O Paiz, no dia 10 de outubro de 1908, o padre Malan foi despedir-se do Ministro da Viação (6). Acreditamos que o álbum tenha sido oferecido a Miguel Calmon nesta ocasião, para demonstrar às autoridades os trabalhos que estavam sendo desenvolvidos entre os Bororos, e, sobretudo, comprovar a humanidade dos mesmos. Segundo Nelson Gil Tolentino, “a ação corajosa do padre Malan no Rio de Janeiro foi determinante para a sobrevivência dos índios. Depois disso, o debate sobre o extermínio dos índios, em nível nacional e internacional, foi perdendo a força, e seu respectivo decreto nunca foi promulgado”(7).

 

(1 )TOLENTINO, Nelson Gil.

(2)Idem

(3) O Teatro João Caetano ao qual esse texto se refere é o teatro que existiu na Exposição Nacionalde 1908. O atual Teatro João Caetano, que se localiza na Praça Tiradentes no Rio de Janeiro, só foi assim denominado em 1923. Anteriormente, se chamava Teatro São Pedro de Alcântara**.

(4) NOVAES, Sylvia Caiuby. Jogos de Espelhos. São Paulo: Edusp, 1993. p.171

(5 ) Museu Comercial era uma entidade ligada à propaganda dos produtos, incentivando o comércio entrepaíses. No Brasil, foi criado em 1905 e encampado pelo Departamento Nacional de Comércio em 1931.

(6) O PAIZ. Rio de Janeiro, p. 02, 10/10/1908. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=178691_03&pasta=ano%20190&pesq=padre%20m
alan. Acesso em 28/09/2017

(7 ) TOLENTINO, Nelson Gil.

 

*Maria Isabel Ribeiro Lenzi é Doutora em História pela UFF e historiadora do Arquivo Histórico do Museu Histórico Nacional (IBRAM/MinC)

**Esta nota foi acrescentada em 10 de abril de 2023.

 

BIBLIOGRAFIA:

CAVALHEIRO, Elisangela. Exposição conta a história dos Salesianos de Dom Bosco em estados do Centro-Oeste. In Redação A12.

NOVAES, Sylvia Caiuby. Jogos de Espelhos. São Paulo: Edusp, 1993, p. 171

TOLENTINO, Nelson Gil. Ética Bororo: a sobrevivência de um povo. In: Interações, vol. 10, no 2. Campo Grande, jul/dez. 2009.

 

Notícias sobre a participação da banda dos bororos na Exposição Nacional de 1908

 em comemoração ao centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas 

Andrea C. T. Wanderley**

 

Em 11 de agosto de 1908, foi inaugurada a Exposição Nacional de 1908, na região da Urca, no Rio de Janeiro, em comemoração ao centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas, decretada em 28 de janeiro de 1808, pelo então príncipe regente de Portugal, dom João de Bragança, futuro dom João VI (1767 – 1926)(O Paiz, 11 de agosto de 1908). A exposição exibiu um “inventário” do Brasil através de seus produtos industriais, agrícolas, pastoris e artísticos. Promovida pelo governo federal, apresentou a cidade do Rio de Janeiro, recém urbanizada e saneada pelo então prefeito Francisco Pereira Passos (1936 – 1913) e  pelo cientista Oswaldo Cruz (1872 – 1917), respectivamente. O evento foi encerrado em 15 de novembro de 1908 (O Paiz, 16 de novembro de 1908, sexta coluna).

Iminente embarque do padre Toledo, inspetor das missões salesianas em Mato Grosso, com a banda dos bororos para o Rio de Janeiro, onde a banda tocaria no Pavilhão de São Paulo da Exposição Nacional do Rio de Janeiro. O religioso pretendia apresentar o grupo ao presidente Afonso Pena (1847 – 1909). A banda havia estado em Corumbá, Assunção, Buenos Aires, cidades do sul do Brasil, Santos, São Paulo e Lorena, dentre outras (O Paiz, 24 de setembro de 1908, quarta coluna).

Chegada da banda dos bororos ao Rio de Janeiro (O Paiz, 27 de setembro de 1908, quinta coluna).

Apresentação da banda dos bororos no Palácio do Catete, onde foram recebidos pelo presidente da República, Afonso Pena (Gazeta de Notícias, 23, quarta coluna28 de setembro de 1908, quarta coluna e Matto-Grosso – Revista Mensal de Sciencias, Lettras, Artes e Variedades, outubro de 1908).

Com o padre Toledo, os índios bororos assistiram à inauguração do Pavilhão de São Paulo na Exposição Nacional (Diário de Notícias, 29 de setembro de 1908, segunda coluna). Também fizeram uma visita ao ministro da Viação, Miguel Calmon (O Paiz, 29 de setembro de 1908, última coluna).

A banda dos bororos se apresentou no Colégio São Vicente, em Petrópolis (O Paiz, 1º de outubro de 1908, última coluna).

Publicação do programa que a banda apresentaria na Exposição de 1908 (O Paiz, 3 de outubro de 1908, segunda coluna).

Publicação do programa da apresentação dos bororos no Teatro João Caetano (Jornal do Brasil, 4 de outubro de 1908, terceira coluna).

Anúncio da conferência sobre os bororos que o padre Malan faria no dia seguinte no salão da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro. Antes e depois da conferência, haveria apresentação da banda. A conferência seria ilustrada com projeções luminosas (O Paiz, 5 de outubro de 1908, segunda coluna).

Apresentação da banda dos bororos na Exposição de 1908 com a presença do ministro da Indústria, Miguel Calmon (O Paiz, 5 de outubro de 1908, quinta coluna).

 

Realização de uma festa em benefício dos bororos, no Teatro João Caetano. Foram identificados como recém nascidos na vida civilizada (O Paiz, 8 de outubro de 1908, penúltima coluna).

Notícia da realização da conferência sobre os bororos realizada pelo padre Malan no salão da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro (O Paiz, 8 de outubro de 1908, quinta coluna e Jornal do Brasil, 11 de outubro de 1908, segunda coluna).

Os bororos visitaram a Câmara dos Deputados e o Senado e a frente dos edifícios das duas instituições executou o Hino Nacional (O Paiz, 9 de outubro de 1908, segunda coluna).

Acompanhado por um bororo, o padre Malan foi despedir-se do ministro da Viação, Miguel Calmon. Acredita-se que nessa ocasião o padre teria presenteado o ministro com o álbum “Missão em Mato Grosso” (O Paiz, 10 de outubro de 1908, segunda coluna).

Publicação de uma fotografia da banda dos bororos no Colégio dos Salesianos de Niterói (Fon-Fon, 10 de outubro de 1908).

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Publicação de diversas notícias relativas à temporada dos bororos no Rio de Janeiro (Matto-Grosso – Revista Mensal de Sciencias, Lettras, Artes e Variedades, dezembro de 1908).

 

**Andrea C.T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fonte:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Novos acervos: Museu da República

A Reforma Urbana do Rio de Janeiro na Coleção Família Passos

Magaly Cabral*

No município do Rio de Janeiro, o primeiro grande projeto de intervenção na configuração espacial e funcional da cidade, após a instauração da República, em 1889, se deu na gestão de Francisco Pereira Passos (1836-1913) como prefeito do Distrito Federal (1902-1906). Passos era um engenheiro experiente e foi nomeado para este cargo pelo presidente Rodrigues Alves (1848 – 1919), que governou o Brasil de 1902 a 1906. Sua missão como prefeito era bem definida: transformar o Rio em uma cidade moderna, cosmopolita e civilizada, digna de ser a capital da jovem república brasileira e atrair para cá visitantes, mão-de-obra imigrante e negócios.

A reforma urbana executada por Passos aconteceu em associação com as obras de modernização do porto do Rio de Janeiro e da construção da Avenida Central (atual Rio Branco), promovidas pelo governo federal, visando à melhoria na capacidade de escoamento e circulação de produtos, principalmente os importados. Como a capital federal era a principal consumidora desse tipo de produto e como a União tinha competência exclusiva sobre os impostos de importação, as reformas na cidade eram fundamentais para o equilíbrio orçamentário da federação.

Acessando o link para as fotografias do acervo do Museu da República disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Além das alterações no traçado viário, das melhorias de infraestrutura e das novidades urbanísticas e arquitetônicas na cidade, a “Reforma Passos” também alterou costumes do carioca e suas relações com o espaço. Novas posturas municipais buscaram implementar hábitos de higiene e comportamento na população. O centro da cidade, onde até então moravam muitas pessoas de baixa renda, teve seus cortiços e estreitas vielas coloniais arrasados para se transformar num espaço de cultura, comércio, negócios e governo. A falta de moradia, por sua vez, levou ao processo de favelização dos morros. O grave problema das epidemias foi neutralizado através da vacinação obrigatória, resultando na “Revolta da Vacina” de 1904. O caráter modernizador, mas também excludente, da Reforma Passos (lembrada como “bota-abaixo”) gerou questões que até hoje se impõem quando pensamos nos processos de transformação urbana acontecidos ao longo do século XX e das primeiras décadas do XXI.

 

 

Aqui, iremos apresentar um recorte temático de 118 fotografias pertencentes à Coleção Família Pereira Passos, uma das mais importantes sob guarda do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República. Ela é formada por cerca de 5.592 documentos textuais e 1.147 fotografias, produzidos entre 1806 e 1960, pelo titular e seus familiares. A coleção faz parte do acervo do Museu da República desde 1965, quando a primeira e maior leva de documentos foi doada pela família de Pereira Passos. Em 1966, foi acrescida através de novas doações de sua neta, Maria Passos, e pela transferência de fotos até então pertencentes ao Museu Histórico Nacional, já em 1980. Essa nova contribuição do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República ao projeto Brasiliana Fotográfica soma-se à Coleção Canudos, registrada pela Unesco, em 2009, na categoria Memória do Mundo e já disponível ao público.

O autor da maioria das fotos aqui apresentadas é o alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), contratado por Pereira Passos para documentar a reforma urbana. Essas fotos mostram as obras de mudança no centro da cidade e também em bairros próximos, como Tijuca, Estácio, Cidade Nova, Glória, Catete, Laranjeiras e Botafogo. As fotografias de Luis Musso, sobre a maquete do Teatro Municipal, e finalização de sua construção, também merecem destaque. Musso prestava serviços de documentação para a firma Antônio Januzzi Irmãos e cia, pertencente ao engenheiro italiano de mesmo nome, responsável pela construção da maioria dos prédios da Avenida Central, símbolo das reformas urbanas dos governos Pereira Passos e Rodrigues Alves.

 

Nesse conjunto de fotos, a maioria dos documentos destaca a região central da cidade, a principal área afetada pelas reformas de Pereira Passos. As imagens mostram uma época de tapumes, andaimes e restos de demolições pelas ruas, resgatam a memória de cenários que tiveram que desaparecer para dar lugar a novas ruas e prédios, como é o caso da Igreja de São Joaquim e do chafariz do Largo da Carioca. São lembrados também os elementos da paisagem urbana surgidos naquele momento, mas que já não existem, parcial ou inteiramente, como é o caso dos prédios neoclássicos da Avenida Central e da Avenida Beira-Mar, antes do Aterro do Flamengo.

Embora ruas e prédios pareçam ser as estrelas das fotos, podemos ver nelas a presença do carioca de então. Os operários, os elegantes passeadores das ruas, os homens que se reúnem num quiosque pra conversar e beber e as pessoas que tentam se proteger do calor com sombrinhas em meio a uma inauguração de início de obras. Por falar em pessoas, o próprio Pereira Passos aparece em várias fotos, cortando fitas, sendo homenageado ou em visita à Câmara Municipal, a mesma que permaneceu fechada nos seis primeiros meses de seu mandato, para que ele pudesse, sem obstáculos legislativos, tomar as medidas para a execução de seu ambicioso projeto.

*Magaly Cabral é diretora do Museu da República

Novos acervos: Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz

Fotografia, Ciência e Saúde Pública 

 

 

As imagens aqui apresentadas integram o acervo histórico da Fundação Oswaldo Cruz, instituição de referência internacional na área das ciências biomédicas e cuja trajetória encontra-se intrinsecamente relacionada à formulação, planejamento e execução de políticas públicas de saúde no Brasil. Este acervo encontra-se sob a guarda da Casa de Oswaldo Cruz, unidade da Fiocruz e centro de pesquisa e documentação dedicado à memória, à história das ciências biomédicas e da saúde pública e à educação e divulgação em ciência e saúde.

As origens da Fundação Oswaldo Cruz remetem ao Instituto Soroterápico Federal, criado em 1900, no bairro de Manguinhos, no Rio de Janeiro, com o objetivo de produzir soros e vacinas contra a peste bubônica e que, em curto espaço de tempo, já como Instituto Oswaldo Cruz (IOC) em homenagem ao seu primeiro diretor Oswaldo Cruz (1872 – 1917) -, transformou-se no maior centro de medicina experimental da América Latina. O IOC – considerado o primeiro instituto de pesquisa da história do Brasil a trazer contribuições científicas durante um período constante, e o primeiro a dar ao país uma reputação científica internacional -, proporcionou os fundamentos para o desenvolvimento contínuo das ciências biomédicas no Brasil na primeira metade do século XX.

 

Acessando o link para as fotografias do acervo da Fiocruz disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Desde os primeiros anos de atividade, o IOC já contava com laboratório fotográfico próprio, e integrava em seus quadros funcionais o fotógrafo Joaquim Pinto da Silva, contratado ainda na primeira década do século XX. Desde a origem do Instituto, a produção de registros fotográficos, entre outros suportes de informação tais como plantas arquitetônicas, correspondências, impressos etc, se firmou como uma das mais prolíficas, sendo instituída, formalmente, como um dos setores de produção institucional. A existência de um laboratório próprio no Instituto Oswaldo Cruz denota o interesse e a importância da produção de registros fotográficos para os trabalhos que ali seriam desenvolvidos.

As fotografias foram originadas durante o processo de constituição, institucionalização, crescimento e legitimação do IOC desde sua origem até meados do século passado. Esse período é caracterizado pela expansão e fortalecimento do Instituto Soroterápico Federal a partir de alguns sucessos obtidos. O primeiro deles diz respeito às bem sucedidas campanhas de Oswaldo Cruz contra a febre amarela, a peste bubônica e a varíola na capital da República. Na época, Oswaldo Cruz encontrava-se à frente da Diretoria de Saúde Pública, cargo que acumulou juntamente com a direção do Instituto até 1909. Outra vitória acumulada refere-se ao reconhecimento científico internacional das atividades desenvolvidas no IOC, através da premiação com a medalha de ouro na Exposição de Higiene de Berlim, em 1907, e do anúncio da descoberta de uma nova doença – a doença de Chagas – na Exposição Internacional de Higiene de Dresden, em 1911.

Após a morte de Oswaldo Cruz, seu trabalho à frente do IOC teve continuidade com o médico sanitarista Carlos Chagas (1879 – 1934) que, coincidentemente, também acumulou por um período (1920-1926) a direção do Instituto e da recém-criada Diretoria Nacional de Saúde Pública, restabelecendo mais uma vez uma ligação direta entre aquela instituição e o Estado brasileiro naquilo que se refere à saúde pública. Na gestão de Chagas (1917 – 1934), o IOC já era uma instituição consolidada, com autonomia financeira e administrativa suficientes para garantir uma expansão considerável das atividades de pesquisa, ensino e produção ali desenvolvidas.

 

 

A conformação institucional do IOC nos primeiros anos do século XX teve como consequência uma expansão de seu quadro de funcionários e a contratação de um fotógrafo reforça esse fato. A importância dada aos registros visuais pode ser também aferida pelo espaço que a atividade vai ganhando institucionalmente, seja na ocupação de ambientes considerados “nobres” no principal espaço edificado para abrigar o IOC – o castelo mourisco -, onde ocupou gabinetes específicos destinados à fotografia e à cinematografia, seja pela importância da atividade na hierarquia interna, consubstanciada pela obrigatoriedade de apresentação de um relatório anual de atividades à direção do IOC contendo informações veiculadas na forma de textos e imagens.

Hoje, o acervo fotográfico remanescente desse período inicial de consolidação do Instituto – embora tenha sofrido perdas importantes causadas por crises pelas quais passou o IOC –, é marcante e minucioso na sua potência de registro de uma memória do período. Assim, a série fotográfica ora apresentada diz respeito a três dimensões dos impactos da atuação do IOC no contexto sócio, político e científico do período que compreende as primeiras décadas do século XX: a construção de suas instalações na então pouco conhecida região de Manguinhos e suas articulações com o entorno; a era das expedições científicas ao interior do país visando mapear as condições de vida e saúde da população rural e que originou um importante debate político sobre os males da nova república e seus obstáculos ao “progresso”; e flagrantes do cotidiano da instituição, representados por registros de visitantes ilustres, dos professores e alunos dos cursos que o IOC promovia, de algumas atividades de laboratório e, sobretudo, a vida intramuros da instituição.

 

 

Fontes:

BENCHIMOL, Jaime Larry. Manguinhos, do sonho à vida: a ciência na Belle Epoque. Rio de Janeiro: Fiocruz/COC, 1990.

Fundação Oswaldo Cruz. Casa de Oswaldo Cruz. A ciência a caminho da roça. Imagens das expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao interior do Brasil entre 1911 e 1913. Rio de Janeiro: Fiocruz/Casa de Oswaldo Cruz, 1991.

LACERDA, Aline Lopes de; Mello, Maria Teresa Villela Bandeira de. Imágenes de la salud pública: la institucionalización del Instituto Oswaldo Cruz em Brasil. Dymanis. Acta Hispanica ad Medicinae Scientiarumque Historiam Illustrandam. Vol. 25, 2005, p. 179-198.

THIELEN, Eduardo Vilela. Imagens da saúde pública do Brasil: a fotografia na institucionalização da saúde pública. Dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1992, p.158.

Fotografia, Ciência e Saúde Pública 

 

 

As imagens aqui apresentadas integram o acervo histórico da Fundação Oswaldo Cruz, instituição de referência internacional na área das ciências biomédicas e cuja trajetória encontra-se intrinsecamente relacionada à formulação, planejamento e execução de políticas públicas de saúde no Brasil. Este acervo encontra-se sob a guarda da Casa de Oswaldo Cruz, unidade da Fiocruz e centro de pesquisa e documentação dedicado à memória, à história das ciências biomédicas e da saúde pública e à educação e divulgação em ciência e saúde.

As origens da Fundação Oswaldo Cruz remetem ao Instituto Soroterápico Federal, criado em 1900, no bairro de Manguinhos, no Rio de Janeiro, com o objetivo de produzir soros e vacinas contra a peste bubônica e que, em curto espaço de tempo, já como Instituto Oswaldo Cruz (IOC) em homenagem ao seu primeiro diretor Oswaldo Cruz (1872 – 1917) -, transformou-se no maior centro de medicina experimental da América Latina. O IOC – considerado o primeiro instituto de pesquisa da história do Brasil a trazer contribuições científicas durante um período constante, e o primeiro a dar ao país uma reputação científica internacional -, proporcionou os fundamentos para o desenvolvimento contínuo das ciências biomédicas no Brasil na primeira metade do século XX.

Acessando o link para as fotografias do acervo da Fiocruz disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Desde os primeiros anos de atividade, o IOC já contava com laboratório fotográfico próprio, e integrava em seus quadros funcionais o fotógrafo Joaquim Pinto da Silva, contratado ainda na primeira década do século XX. Desde a origem do Instituto, a produção de registros fotográficos, entre outros suportes de informação tais como plantas arquitetônicas, correspondências, impressos etc, se firmou como uma das mais prolíficas, sendo instituída, formalmente, como um dos setores de produção institucional. A existência de um laboratório próprio no Instituto Oswaldo Cruz denota o interesse e a importância da produção de registros fotográficos para os trabalhos que ali seriam desenvolvidos.

As fotografias foram originadas durante o processo de constituição, institucionalização, crescimento e legitimação do IOC desde sua origem até meados do século passado. Esse período é caracterizado pela expansão e fortalecimento do Instituto Soroterápico Federal a partir de alguns sucessos obtidos. O primeiro deles diz respeito às bem sucedidas campanhas de Oswaldo Cruz contra a febre amarela, a peste bubônica e a varíola na capital da República. Na época, Oswaldo Cruz encontrava-se à frente da Diretoria de Saúde Pública, cargo que acumulou juntamente com a direção do Instituto até 1909. Outra vitória acumulada refere-se ao reconhecimento científico internacional das atividades desenvolvidas no IOC, através da premiação com a medalha de ouro na Exposição de Higiene de Berlim, em 1907, e do anúncio da descoberta de uma nova doença – a doença de Chagas – na Exposição Internacional de Higiene de Dresden, em 1911.

Após a morte de Oswaldo Cruz, seu trabalho à frente do IOC teve continuidade com o médico sanitarista Carlos Chagas (1879 – 1934) que, coincidentemente, também acumulou por um período (1920-1926) a direção do Instituto e da recém-criada Diretoria Nacional de Saúde Pública, restabelecendo mais uma vez uma ligação direta entre aquela instituição e o Estado brasileiro naquilo que se refere à saúde pública. Na gestão de Chagas (1917 – 1934), o IOC já era uma instituição consolidada, com autonomia financeira e administrativa suficientes para garantir uma expansão considerável das atividades de pesquisa, ensino e produção ali desenvolvidas.

 

 

A conformação institucional do IOC nos primeiros anos do século XX teve como consequência uma expansão de seu quadro de funcionários e a contratação de um fotógrafo reforça esse fato. A importância dada aos registros visuais pode ser também aferida pelo espaço que a atividade vai ganhando institucionalmente, seja na ocupação de ambientes considerados “nobres” no principal espaço edificado para abrigar o IOC – o castelo mourisco -, onde ocupou gabinetes específicos destinados à fotografia e à cinematografia, seja pela importância da atividade na hierarquia interna, consubstanciada pela obrigatoriedade de apresentação de um relatório anual de atividades à direção do IOC contendo informações veiculadas na forma de textos e imagens.

Hoje, o acervo fotográfico remanescente desse período inicial de consolidação do Instituto – embora tenha sofrido perdas importantes causadas por crises pelas quais passou o IOC –, é marcante e minucioso na sua potência de registro de uma memória do período. Assim, a série fotográfica ora apresentada diz respeito a três dimensões dos impactos da atuação do IOC no contexto sócio, político e científico do período que compreende as primeiras décadas do século XX: a construção de suas instalações na então pouco conhecida região de Manguinhos e suas articulações com o entorno; a era das expedições científicas ao interior do país visando mapear as condições de vida e saúde da população rural e que originou um importante debate político sobre os males da nova república e seus obstáculos ao “progresso”; e flagrantes do cotidiano da instituição, representados por registros de visitantes ilustres, dos professores e alunos dos cursos que o IOC promovia, de algumas atividades de laboratório e, sobretudo, a vida intramuros da instituição.

 

 

Fontes:

BENCHIMOL, Jaime Larry. Manguinhos, do sonho à vida: a ciência na Belle Epoque. Rio de Janeiro: Fiocruz/COC, 1990.

Fundação Oswaldo Cruz. Casa de Oswaldo Cruz. A ciência a caminho da roça. Imagens das expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao interior do Brasil entre 1911 e 1913. Rio de Janeiro: Fiocruz/Casa de Oswaldo Cruz, 1991.

LACERDA, Aline Lopes de; Mello, Maria Teresa Villela Bandeira de. Imágenes de la salud pública: la institucionalización del Instituto Oswaldo Cruz em Brasil. Dymanis. Acta Hispanica ad Medicinae Scientiarumque Historiam Illustrandam. Vol. 25, 2005, p. 179-198.

THIELEN, Eduardo Vilela. Imagens da saúde pública do Brasil: a fotografia na institucionalização da saúde pública. Dissertação de mestrado, Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, 1992, p.158.

Novos acervos: Arquivo Nacional

 

O Arquivo Nacional e a Brasiliana Fotográfica: primeiro encontro

 Claudia Beatriz Heynemann e Maria do Carmo Rainho*

Participar da Brasiliana Fotográfica representa para o Arquivo Nacional sua integração em rede a grandes acervos públicos ou privados, com os quais necessariamente sempre dialogou no campo da história da fotografia e das instituições de guarda.

 

 

Em diferentes mídias, a imagem fotográfica conservada pela instituição atingiu um público vasto e variado por meio da pesquisa realizada por seus usuários e pelos projetos de difusão como livros, mostras, exposições virtuais, sites e peças gráficas. Transformadas pelo uso e pelas intervenções realizadas existe, por outro lado, algo que é próprio a cada fotografia ou às séries, sempre sujeitas a renovadas interpretações.

Com alguns poucos daguerreótipos provenientes dos fundos Família Werneck e Família Bicalho, a fotografia oitocentista no Arquivo Nacional adquire vulto com os retratos de estúdio que inundaram o mundo todo, produzidos no Brasil por nomes como Joaquim Insley Pacheco, Joaquim Feliciano Alves Carneiro, Alberto Henschel, Guilherme Gaensly e Rodolfo Lindemann reunidos em diversos arquivos privados e na coleção Fotografias Avulsas. Esta inclui formatos como panorama, carte de visite, carte cabinet e estereogramas, numa cronologia que se estende de 1860 a 1964. Encontramos também, nesse conjunto, vistas e cenas urbanas do Brasil, como as paisagens do Rio de Janeiro por Juan Gutierrez, Marc Ferrez, Bippus e Lopes; ruas e prédios históricos da cidade de Ouro Preto, em fotos de J. Brandi; Salvador por Antônio da Silva Lopes Cardoso; e Santa Catarina por Augusto Schmidt. Somam-se ainda álbuns referentes às missões religiosas e à participação brasileira na Exposição Internacional de Filadélfia, em 1876; na Exposição Continental de 1882, em Buenos Aires; e na Exposição Universal de Paris, de 1889, aqui apresentadas.

Acessando o link para as fotografias do acervo do Arquivo Nacional disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Se os próprios álbuns eram dispositivos óticos que integravam o fenômeno das exposições universais, nas últimas décadas do século XIX, evidencia-se a estreita conexão entre os estereogramas e esses eventos, quando a estereoscopia se torna um dos principais meios de propagação da fotografia: em 1851, a técnica cai no gosto popular ao ser apresentada na Exposição Universal de Londres. O estereograma proporcionava ao espectador uma experiência em três dimensões, aproximando-o do real. Vidro e ferro, vitrines, produtos, países, culturas, uma sincronia que alinhava fenômenos análogos em seu esforço de síntese, como os catálogos, enciclopédias, e mesmo as viagens.

As mais antigas estereoscopias a circular no país são da década de 1850, de autoria de Revert Henrique Klumb. Depois de um período de declínio em quase todos os países, entre 1870 e 1880, ela voltou a despertar grande interesse, conhecendo seu apogeu na virada do século XIX para o XX. No Brasil este fomento teve como responsável, entre outros, o conde de Agrolongo que montou, no Rio de Janeiro, a Grande Manufatura de Fumos e Cigarros Marca Veado que distribuía figurinhas com fotografias estereoscópicas de tamanho reduzido (2,5 x 7 cm) em seus maços.

A série de estereogramas selecionadas inclui vistas do Rio de Janeiro retomando perspectivas consagradas em gravuras e aquarelas, mas que comportavam novas tomadas que começavam a desenhar outra cidade. Lembrando o caráter de grande circulação deste gênero de imagem, temos as séries produzidas para difundir a reforma do centro do Rio de Janeiro, particularmente a abertura da Avenida Central e, finalmente, retornando a uma dada origem, os estereogramas da Exposição Nacional de 1908 que destacavam o progresso dos transportes, da iluminação, dos grandes pavilhões e do elegante público afluente.

 

 

Entre os arquivos privados de homens públicos, apresentamos parte do fundo Afonso Pena que contém 445 imagens, dentre elas vistas de localidades brasileiras, em álbuns ou molduras, como Santa Bárbara, em Minas Gerais; Maceió, em Alagoas e Floresta dos Leões, em Pernambuco, estradas de ferro, obras federais, áreas assistidas pela Comissão de Açudes e Irrigação e registros de Afonso Pena com autoridades e em visita a estados brasileiros, como o Amazonas.

Um outro país, que se desenhava nos anos 1920 e 1930 com as lutas femininas pelos direitos civis, se dá a ver no acervo da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada em 1922, por Berta Lutz, no Rio de Janeiro. Seus documentos fotográficos registram as ações para a conquista do voto e da emancipação das mulheres; eventos, congressos, assembleias e conferências feministas nacionais e internacionais; a atuação de Berta Lutz na defesa dos direitos da mulher; seu trabalho como pesquisadora do Museu Nacional; as sufragistas brasileiras e estrangeiras, além de homens públicos envolvidos com a causa do movimento.

Com a inserção das fotografias do Arquivo Nacional, esperamos contribuir para uma nova configuração do universo de pesquisa que a Brasiliana Fotográfica proporciona, permitindo o estabelecimento de conexões entre diferentes acervos e a análise das ocorrências de temas, fotógrafos e técnicas, entre tantos aspectos que permitem uma escrita da história da fotografia.

*Claudia Beatriz Heynemann – Doutora em História | Supervisora de Pesquisa do Arquivo Nacional

* Maria do Carmo Rainho – Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional