A Brasiliana Fotográfica celebra os 477 anos de fundação de Salvador, ocorrida em 29 de março de 1549, destacando imagens do Elevador Lacerda, um dos maiores símbolos da cidade, um dos principais cartões postais da Bahia e o primeiro edifício urbano elevador do mundo. Os registros destacados foram realizados por Guilherme Gaensly (1843 – 1928), Marc Ferrez (1843 – 1923), Pedro Gonsalves da Silva (18?- 19?) e Rodolpho Lindemann (c. 1852 – 19?). Foram produzidos no século XIX e na década de 1910.
As obras fotográficas do suíço Gaensly e do carioca Ferrez já foram diversas vezes abordadas em vários artigos da Brasiliana Fotográfica e sobre ambos foram realizados perfis e cronologias publicados no portal: São Paulo sob as lentes do fotógrafo Guilherme Gaensly (1843 – 1928) e O brilhante cronista visual Marc Ferrez (RJ, 07/12/1843 – RJ, 12/01/1923), respectivamente.
Pouco se sabe até o momento sobre os fotógrafos Pedro Gonsalves da Silva e Rodolpho Lindemann. O primeiro era brasileiro ou português e trabalhou como fotógrafo na Bahia, nas décadas 1880 e 1890. Sucedeu Eduardo del Vechi no estúdio da rua Carlos Gomes, nº 116, em Salvador, que já havia pertencido a Antônio da Silva Lopes Cardoso, e batizou o estabelecimento de Photographia Nacional. Posteriormente, transferiu seu ateliê, denominado Photographia Pedro Gonsalves da Silva, como se lê no verso de uma fotografia de sua autoria (imagem abaixo), para a rua Direita do Palácio, nº 8. Destacou-se como retratista e, também de acordo com a imagem abaixo, seu estabelecimento foi premiado com uma medalha de ouro. É avô do fotógrafo baiano Armínio Archimedes Pedro Gonçalves Kaiser (1925 – 2014), um dos fundadores do Foto Clube de Londrina.
O alemão Rodolpho Frederico Francisco Lindemann tornou-se, na década de 1880, ajudante e, posteriormente, sócio do fotógrafo suíço Guilherme Gaensly (1843 – 1928), em Salvador. Segundo Geraldo da Costa Leal em Um cinema chamado saudade (1997), em 1874, Lindemann já trabalharia com Gaensly. Em 1888, Lindemann casou-se com Alaine, irmã de Gaensly. Em 1894, a próspera empresa Gaensly & Lindemann abriu uma filial em São Paulo. Gaensly foi chefiar a sede paulista e Lindemann permaneceu em Salvador. Terminou a sociedade entre Gaensly & Lindemann, em São Paulo, e Gaensly passou a atuar sozinho na Photographia Gaensly. Lindemann é considerado um grande fotógrafo de paisagens tendo produzido vistas de Salvador, de Alagoas e de Pernambuco. Várias vistas de Salvador produzidas por ele foram incluídas pelo barão do Rio Branco (1845 – 1912) no Album de vues du Brésil, lançado em Paris na ocasião da Exposição Universal de 1889, ocorrida entre 6 de maio e 31 de outubro de 1889, e fazia parte da segunda edição de Le Brésil, extrato da Grande Enciclopédia, trabalho dirigido pelo geógrafo Émile Levasseur (1828-1911), para o qual o barão havia colaborado. Também em 1889 a Photographia Gaensly & Lindemann foi premiada na mencionada exposição.
Foi inaugurada, em 1906, no Rio de Janeiro, uma exposição artística dos quadros de Lindemann (O Pharol (MG), 20 de maio de 1906, segunda coluna). No Almanak Laemmert de 1906, era noticiada a Photographia Gaensly e Lindemann, na Praça Castro Alves. No ano seguinte, a Photo Lindemann ficava na Praça Castro Alves, nº 33, mas pertencia a José Dias da Costa sob a gerência do gráfico Gramacho (Revista do Brasil (BA), 15 de outubro de 1907).
Breve história do Elevador Lacerda
Um grande desafio de engenharia na época, a construção do elevador foi iniciada, em 17 de outubro de 1869, pela Empresa de Trilhos Urbanos. Foi necessária a perfuração de dois túneis em rocha, um vertical, para abrigar a primeira torre, e outro horizontal, para dar acesso à rua. A Empresa de Trilhos Urbanos era comandada por Antônio de Lacerda (1834 – 1885), encarregado de administrar alguns bondes de tração animal em Salvador que, em parceria com seu irmão, o engenheiro Augusto Frederico de Lacerda (1836 – 1931), posteriormente condecorado como comendador da Imperial Ordem da Rosa, foi o responsável pelo empreendimento. Os irmãos nasceram em Valença, na Bahia, e eram filhos de Antonio Francisco de Lacerda (? – 18?) e Angelica Michelina de Sampaio Vianna (? – 18?).
O Elevador Hydraulico da Conceição da Praia, nome de batismo do Elevador Lacerda, foi inaugurado, em 8 de dezembro de 1873, para resolver um grande problema urbano de Salvador – seu desnível. Passou a ser o principal transporte entre a Cidade Baixa a Cidade Alta. Tinha 63 metros de altura, sendo, na época, o elevador mais alto do mundo. Era popularmente conhecido como Parafuso e de suas torres, vê-se a Baía de Todos os Santos, o Mercado Modelo, inaugurado em 1912; e o Forte de São Marcelo, construído no século XVII, outros ícones da paisagem soteropolitana.
Em 1896, por indicação do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, o Elevador passou a se chamar Elevador Antônio de Lacerda. Entre 1906 e 1907, foi eletrificado pela Companhia Linha Circular de Carris da Bahia (Bahia Illustrada, edição 10, 1918, segunda coluna). Em 1930, foram adicionados mais dois elevadores e uma nova torre. Foi nesta reforma, da qual a empresa norte-americana Otis participou, cujos melhoramentos foram inaugurados, em 15 de setembro de 1930, que sua arquitetura passou a ser em estilo art déco. Outras reformas e revisões foram realizadas ao longo de sua existência (Etc (BA), 15 de setembro de 1930; Jornal do Commercio, 15 e 16 de setembro de 1930, quinta coluna; O Jornal, 16 de setembro de 1930).
Em 1955, o Elevador Lacerda foi estatizado pela Prefeitura de Salvador e, em 1º de julho 1961, novos elevadores da Otis foram inaugurados, mais rápidos e dobrando a capacidade por cabine de 16 para 32 pessoas. Em 7 de dezembro de 2006, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Site Iphan).
Entre 2011 e 2013, o elevador foi transformado em um microprocessado — uma tecnologia inédita até então. Seu processo, antes mecânico, foi modificado e passou a funcionar através de uma base que envia informações e comandos para o seu funcionamento. O elevador instalado na modernização foi um projeto especial da empresa Otis para o Elevador Lacerda devido a sua complexidade e avançada tecnologia (Blog da Otis).
Andrea C.T. Wanderley
Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica
Fontes:
Dicionário Histórico-Biográfico da Fotografia
Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional
KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.
Site Academia Feirense de Letras
Site Enciclopédia Itaú Cultural
Site Family Search
TRINCHÃO, Glaucia Maria Costa. O Parafuso: de meio de transporte a cartão-postal. Salvador : Editora da Universidade da Bahia, 2010.
XAVIER, Xavier, Melquisedeque. Elevador Lacerda : Salvador, BA, 1957.


























