Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXII – A Cadeia Velha, que deu lugar ao Palácio Tiradentes

Em seu 22º artigo da Série O Rio de Janeiro desaparecido, a Brasiliana Fotográfica lembra a história da Cadeia Velha, demolida em 1922, que deu lugar ao Palácio Tiradentes, inaugurado, em 1926, com imagens de autoria de Augusto Malta (1864 – 1957), fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro, entre 1903 e 1936; estereoscopias de Guilherme Santos (1871 – 1966) e registros realizados por  fotógrafos ainda não identificados.

 

 

Acessando o link para as fotografias da Cadeia Velha e do Palácio Tiradentes disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

O Palácio Tiradentes foi construído no local onde existia a Casa de Câmara e Cadeia, prédio erguido em torno de 1640, quando os membros do Senado e da Câmara do Rio de Janeiro solicitaram a construção de um edifício para abrigar os trabalhos do legislativo. No século XVII, usualmente, nas cidades coloniais da América portuguesa nesses mesmos prédios ficavam as prisões. Só em 1747 foi inaugurado o edifício colonial da Câmara e da Cadeia Velha. Em 1808, com a chegada de d. João VI (1767 – 1826) ao Brasil, o local serviu de moradia para os empregados da corte.

 

 

Abrigou a Assembleia Nacional Constituinte que tinha como missão elaborar a Constituição do Brasil recém liberto de Portugal, mas foi dissolvida pelo Exército por ordem de dom Pedro ( (1798 – 1834), que não aprovou o texto original do documento. Foi sede da Câmara dos Deputados, entre 1826 e 1914.

 

 

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Edifícios da Cadeia Velha, Palácio Monroe e Biblioteca Nacional, de Ramiro Berbert de Castro

 

Em 1914, o prédio da Cadeia Velha se encontrava em péssimas condições e a Câmara foi transferida para o Palácio Monroe, no fim da rua do Passeio, na avenida Central, atual Rio Branco, ponto mais nobre da capital do Brasil, na Cinelândia.

 

 

Entre 1914 e sua demolição, a Cadeia Velha serviu como depósito. Em 25 de dezembro de 1921, foi aprovado um projeto dos arquitetos cearense Archimedes Memória (1893 – 1960) e do franco-suíço Francisque Couchet (18? – 19?) para a construção do Palácio Tiradentes, no local onde existia a Cadeia Velha (Architectura no Brasil, janeiro de 1922). Os arquitetos trabalhavam no Escritório Técnico Heitor de Mello (1875 – 1920), que havia falecido, em 1920. Memória e Couchet foram sócios até 1929. Segundo a revista Architectura no Brasil, de janeiro de 1922o estilo do palácio é Luiz XVI, moderno.

 

 

Archimedes e Couchet foram também responsáveis pelos projetos do Palácio das Festas e do Palácio das Grandes Indústrias, na Exposição Internacional do Centenário da Independência (1922), um dos maiores eventos internacionais já realizados no Brasil, inaugurada no Rio de Janeiro em 7 de setembro de 1922 e encerrada em 24 de julho do ano seguinte; além dos edifícios do Palácio Pedro Ernesto (1923), cujo projeto foi desenvolvido por eles, já que seu autor, Heitor Mello (1875 – 1920), faleceu em 1920; do Hotel Balneário da Urca (1925), futuro Cassino da Urca e sede da TV Tupi carioca; do Jockey Club Brasileiro, na Gávea (1926), e do Botafogo Futebol e Regatas (1928).

 

 

Augusto Malta, Sentados, da esquerda para a direita: Nestor de Figueiredo, Adollpho Morales de los Rios (pai) e Francisco Cuchet. Em pé, na mesma ordem: Arquimedes Memoria, Adolpho Morales de los /rios (filho), Celestino Severo de Juan e Edgar Vianna, de 7 de setembro de 1922. Rio de Janeiro, RJ / Rio antigo, por Charles Dunlop.

Augusto Malta. Sentados, da esquerda para a direita: Nestor de Figueiredo, Adolpho Morales de los Rios (pai) e Francisque Cuchet. Em pé, na mesma ordem: Archimedes Memoria, Adolpho Morales de los Rios (filho), Celestino Severo de Juan e Edgar Viana, 7 de setembro de 1922. Rio de Janeiro, RJ / Rio Antigo, por Charles Dunlop.

 

O prédio da Cadeia Velha foi demolido em 1922, quando foi lançada, com a presença do presidente da República, Epitácio Pessoa (1865 – 1942), a pedra fundamental do prédio da nova sede do Legislativo (O Combate, 19 de junho de 1922Fon-Fon, 24 de junho de 1922).

 

 

 

 

 

 

Em estilo eclético, inspirado no Grand Palais de Paris, o Palácio Tiradentes foi inaugurado em 6 de maio de 1926, no dia em que se completava Um século de vida legislativa no Brasil. Seu nome homenageia Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746 – 1792), um dos líderes da Inconfidência Mineira, que passou cinco dias na Cadeia Velha, da onde foi levado à forca, em 21 de abril de 1792.

Por ordem do então presidente da Câmara, Arnolfo de Azevedo (1868 – 1942), o Palácio Tiradentes foi construído com muita economia, tendo custado 15 contos de réis, metade do custo do Palácio Pedro Ernesto, inaugurado em 1923. Toda sua estrutura é de concreto e tijolo; as estátuas são de massa. Ricos cafeicultores e o estado de São Paulo foram responsáveis pela doação de vários móveis para a nova Câmara Federal, abrigada no Palácio Tiradentes. A Câmara Federal ali funcionou de 1926 até 1960 (Correio de Manhã, 7 de maio de 1926O Paiz6 de maio e 7 de maio de 1926; Architectura no Brasil, junho/julho de 1926).

 

 

O presidente dos Estados Unidos, Herbert Hoover (1874 – 1964), fez uma visita ao Palácio Tiradentes, em 22 de dezembro de 1928 (Fon-Fon, 29 de dezembro de 1928).

 

 

Abaixo, um imagem de autoria do fotógrafo amador Guilherme Santos (1871 – 1966) no dia da Constituinte de 1934, em 16 de julho de 1934, com a cavalaria e civis diante do Palácio Tiradentes.

 

 

O Parlamento foi fechado pelo presidente Getulio Vargas (1882 – 1954) no período do Estado Novo, de 1937 a 1945, e no Palácio Tiradentes passou a funcionar o Ministério da Justiça e o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão de censura do regime. Com a saída de Vargas, em 1945, o Palácio Tiradentes novamente abrigou uma Assembleia Constituinte.

Quando Brasília tornou-se a capital do Brasil, em 1960, o Palácio Tiradentes passou a abrigar a Assembleia Legislativa do Estado da Guanabara (ALEG) que, com a fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, efetivada em 1975, passou a se chamar Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

CASTRO, Ramiro Berbert de. Edifícios da Cadeia Velha, Palácio Monroe e Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro : Empresa Brasil Editora, 1926.

Diário do Rio

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

O GLOBO, 10 de novembro de 2011

Site Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes

Site Alerj

Site Rio Memórias

 

Links para os outros artigos da Série O Rio de Janeiro desaparecido

 

Série O Rio de Janeiro desaparecido I Salas de cinema do Rio de Janeiro do início do século XXde autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 26 de fevereiro de 2016.

Série O Rio de Janeiro desaparecido II – A Exposição Nacional de 1908 na Coleção Família Passos, de autoria de Carla Costa, historiadora do Museu da República, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 5 de abril de 2018.

Série O Rio de Janeiro desaparecido III – O Palácio Monroe, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 9 de novembro de 2016.

Série O Rio de Janeiro desaparecido IV - A via elevada da Perimetral, de autoria da historiadora Beatriz Kushnir, publicado na Brasiliana Fotográfica em 23 de junho de 2017.

Série O Rio de Janeiro desaparecido V – O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlopde autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portalpublicado na Brasiliana Fotográfica em 20 de julho de 2018.

Série O Rio de Janeiro desaparecido VI – O primeiro Palácio da Prefeitura Municipal do Rio de Janeirode autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de setembro de 2018.

Série O Rio de Janeiro desaparecido VII – O Morro de Santo Antônio na Casa de Oswaldo Cruzde autoria de historiador Ricardo Augusto dos Santos da Casa de Oswaldo Cruzpublicado na Brasiliana Fotográfica em 5 de fevereiro de 2019.

Série O Rio de Janeiro desaparecido VIII – A demolição do Morro do Castelode autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portalpublicado na Brasiliana Fotográfica em 30 de abril de 2019.

Série O Rio de Janeiro desaparecido IX – Estrada de Ferro Central do Brasil: estação e trilhosde autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de novembro de 2019.

Série O Rio de Janeiro desaparecido X – No Dia dos Namorados, um pouco da história do Pavilhão Mourisco em Botafogode autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de junho de 2020.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XI – A Estrada de Ferro do Corcovado e o mirante Chapéu de Sol, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 22 de julho de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XII – o Teatro Lírico (Theatro Lyrico), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 15 de setembro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XIII – O Convento da Ajuda, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de outubro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XIV – O Conselho Municipal, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 19 de novembro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XV – A Praia de Santa Luzia no primeiro dia do verão, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 21 de dezembro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XVI – O prédio da Academia Imperial de Belas Artes, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, publicado na Brasiliana Fotográfica em 13 de janeiro de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XVII – Igreja São Pedro dos Clérigos, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 18 de março de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XVIII – A Praça Onze, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 20 de abril de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XIX – A Igrejinha de Copacabana, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 23 de junho de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XX – O Pavilhão dos Estados, futuro prédio do Ministério da Agricultura, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 26 de julho de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXI – O Chafariz do Largo da Carioca, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 19 de setembro de 2022. 

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXIII e Avenidas e ruas do Brasil XVII - A Praia e a Rua do Russel, na Glória, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 15 de maio de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXIV – O luxuoso Palace Hotel, na Avenida Rio Branco, uma referência da vanguarda artística no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 4 de julho de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXV – O Theatro Phenix, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 5 de setembro de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXVI – Conclusão do arrasamento do Morro do Castelo por Augusto Malta, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 14 de dezembro de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXVII e Série Os arquitetos do Rio de Janeiro V – O Jockey Club e o Derby Club, na Avenida Rio Branco e o arquiteto Heitor de Mello (1875 – 1920), de autoria de Andrea c. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, em 15 de janeiro de 2024

 

Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XIII – O Convento da Ajuda

No 13º artigo da Série O Rio de Janeiro desaparecido, a Brasiliana Fotográfica traz para seus leitores fotografias do Convento da Ajuda produzidas pela Casa Leuzinger, do fotógrafo e editor suíço Georges Leuzinger (1813 – 1892), e por Augusto Malta (1864 – 1957). Leuzinger foi um dos mais importantes fotógrafos e difusores para o mundo da fotografia sobre o Brasil no século XIX, além de pioneiro das artes gráficas no país. Grande empreendedor, montou um sofisticado e diversificado complexo editorial, a Casa Leuzinger, que se tornaria um polo de publicações e de produções fotográficas, alçando o Brasil ao mesmo nível da produção europeia do setor. Malta foi o fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936 e sua relação com a cidade e sua paisagem, construída, inicialmente, por seus deslocamentos com sua bicicleta, se expandiria para a formação de seu significativo legado iconográfico. Foi o mais  importante cronista fotográfico do Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XX.

 

O Convento da Ajuda, como ficou conhecido o Convento de Nossa Senhora da Conceição, que ocupava uma grande parte da área onde atualmente fica a região da Cinelândia, no centro do Rio de Janeiro, foi o primeiro mosteiro feminino da cidade e o terceiro do Brasil. Ficava na rua da Ajuda, uma das importantes vias do Rio Antigo. Teve sua origem, em torno de 1678, quando dona Cecília Barbalho, suas três filhas solteiras e mais duas moças recolheram-se em uma pequena casa, no Campo da Ajuda, construída a partir de uma subscrição pública. Dona Cecília era filha do ex-governador Luis Barbalho Bezerra (1584 – 1644), herói da guerra contra os holandeses no nordeste; e irmã de Jerônimo Barbalho (?-1661), condenado à forca devido a sua atuação na Revolta da Cachaça, contra o governador Salvador Correia de Sá e Benevides (1594 ou 1602 – 1688), em 1660.

Foi fundado por monjas clarissas vindas do Convento de Santa Clara do Desterro da Bahia e construído pelo brigadeiro-engenheiro português José Fernandes Pinto Alpoim (1700 – 1765), sua inauguração, em 30 de março de 1750, aconteceu com grandes festejos populares e foi assistida pelo então governador Antônio Gomes Freire de Andrade(1685 – 1763) , o Conde de Bobadela.

 

 

Acessando o link para as fotografias do Convento da Ajuda disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Já nos primórdios do século XX, havia propostas de construção de um hotel na área do convento. Os engenheiros Morales de los Rios (1858 – 1928) e João Pedreira do Couto Ferraz Junior (1826 – 1913) e Durish & Cia assinaram um contrato comprometendo-se a construir hoteis em algumas áreas da cidade, incluindo o terreno onde se localizava o Convento da Ajuda, o que não se realizou (O Paiz, 1º de abril de 1910, sexta colunaO Paiz, 18 de novembro de 1910, quinta coluna).

O convento foi adquirido pela empresa Brasil Railway Company, que  pertencia ao Sindicato Farquhar, holding liderada pelo capitalista norte-americano Percival Farquhar (1865 – 1953), o que causou polêmica. O empresário era um dos administradores da Rio de Janeiro Light and Power Company (O Paiz, 9 de julho de 1911, primeira coluna; Correio da Manhã, 28 de outubro de 1911, terceira coluna). E assim o casarão, que havia resistido ao bota-abaixo do prefeito Pereira Passos (1836 – 1913), na primeira década do século XX, foi demolido, entre fins de 1911 e 1912 (Correio da Manhã, 12 de janeiro de 1912, quinta coluna).

 

 

Na mesma época, foi construido um novo Convento de Nossa Senhora da Ajuda, em Vila Isabel, para abrigar as freiras, que deixaram o convento durante uma madrugada do mês de outubro de 1911 (O Paiz, 28 de outubro de 1911, primeira coluna). Ficou aberto à visitação pública durante uma semana.

 

 

Foi visitado pelo presidente da República, Hermes da Fonseca (1855 – 1923), recebido pela Irmã Paula (O Paiz, 27 de outubro de 1911, penúltima coluna; Correio da Manhã, 28 de outubro de 1911O Paiz, 5 de novembro de 1911, quarta coluna). O então presidente da Light, Alexander Mackenzie (1860 – 1943), prorrogou o prazo da visitação ao prédio até 9 de novembro, quando os restos mortais de pessoas da família real foram trasladados para o Convento de Santo Antônio, dentre eles os de dona Leopoldina (1797 – 1826), primeira mulher de dom Pedro I (1798 – 1834) (O Paiz, 7 de novembro de 1911, quarta coluna; Correio da Manhã, 10 de novembro de 1911).

 

 

A área ficou abandonada por cerca de nove anos e, eventualmente era ocupada com a realização de eventos (Revista da Semana, 15 de maio de 1915). Entre 1916 e 1918, houve no terreno exposições de pomicultura, de horticultura, de cachorros, de avicultura, além de exercícios de tiro e a realização de uma feira promovida pelo Ministério da Fazenda (Revista da Semana, 15 de julho e 12 de agosto de 1916; 4 de agosto de 1917; 12 de janeiro e 14 de dezembro de 1918).

 

 

 

Na década de 20, o espanhol Francisco Serrador (1872 – 1941), que em 1908 era o dono do Bijou-Theatre, em São Paulo, sucursal da firma Marc Ferrez & Filhos e que foi o primeiro presidente da União dos Importadores Cinematográficos no Brasil, urbanizou a área, onde foram construídos prédios, hotéis e muitos cinemas, dando origem à Cinelândia. Pouco antes, em 1921, o prefeito Carlos Sampaio (1861 – 1930) havia começado o desmonte do Morro do Castelo e havia acontecido na cidade a Exposição do Centenário da Independência do Brasil, em 1922 (O Commercio de São Paulo, 15 de fevereiro de 1908, na primeira coluna).O Imparcial, 8 de dezembro de 1919, na segunda coluna; O Cruzeiro, 9 de setembro de 1950).

A fotografia abaixo mostra a Fonte ou Chafariz  das Saracuras, colocado no pátio que ficava dentro do Convento da Ajuda, em 1795. Em 1911, foi posto pelo cardeal Arcoverde (1850 – 1930) à disposição do então prefeito da cidade, Bento Ribeiro (1856 – 1921) (O Paiz, 25 de outubro de 1911, penúltima coluna). Encontra-se na Praça General Osório, antiga praça Ferreira Vianna, em Ipanema. É uma obra atribuída a Valentim da Fonseca e Silva, o Mestre Valentim (1845 – 1913), um dos principais artistas do Brasil Colônia, e havia sido doado às freiras pelo vice-rei José Luis de Castro (1744 – 1819, o Conde de Resende .

 

 

O Chafariz das Saracunas, em sua localizção atual, na Praça General Osório

O Chafariz das Saracunas, em sua localizção atual, na Praça General Osório

 

Na edição de O Cruzeiro, de 9 de setembro de 1950foi publicada a matéria Biografia da cidade – Do Convento da Ajuda às luzes da Cinelândia , com texto de Raymundo Athayde e fotos de Augusto Malta (1864 – 1957) e do importante fotojornalista Luciano Carneiro (1926 – 1959). Contava a história da Cinelândia e as fotos antigas que ilustraram a reportagem foram produzidas por Malta, em 1911. São imagens do Convento da Ajuda, de sua demolição e do terreno que ocupava após a demolição; e do edifício do antigo Conselho Municipal. As fotografias abaixo estavam entre as que foram publicadas na reportagem.

 

 

 

 

Em um trecho de seu livro Memórias Póstumas de Brás Cubas (1881), Machado de Assis (1839 – 1908) referiu-se ao Convento da Ajuda ao descrever o jantar em comemoração da primeira queda de Napoleão promovido pela família Cubas. A doçaria, uma herança da gastronomia portuguesa, fazia sucesso na mesa dos cariocas, onde fios d’ovos, toucinhos do céu, pés-de-moleque e baba-de-moça, entre outros, eram muito apreciados. O Convento da Ajuda destacava-se pela excepcional qualidade dos doces que produzia.

“Não se contentou a minha família em ter um quinhão anônimo no regozijo público; entendeu oportuno e indispensável celebrar a destituição do imperador com um jantar, e tal jantar que o ruído das aclamações chegasse aos ouvidos de sua Alteza, ou quando menos, de seus ministros. Dito e feito. Veio abaixo toda a velha prataria, herdada do meu avô Luis Cubas; vieram as toalhas de Flandres, as grandes jarras da Índia; matou-se um capado; encomendaram-se às madres de Ajuda as compotas e marmeladas; lavaram-se, areavam-se, poliram-se as salas, escadas, castiçais, arandelas, as vastas mangas de vidro, todos os aparelhos do luxo clássico”.

 

Link para o artigo Série “Avenidas e ruas do Brasil” XI – A rua da Ajuda, no Rio de Janeiro, por Augusto Malta, publicado em 9 de novembro de 2021 na Brasiliana Fotográfica.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

GERSON, Brasil. História das Ruas do Rio. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2013.

CRULS, Gastão. Aparência do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Editora José Olympio, 1965.

DUNLOP, Charles Julius. Convento da Ajuda. Rio Antigo. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo, 1963. (Composto e impresso na Gráfica Laemmert, Ltda.).

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Site CPDOC

Site Memória da Eletricidade

Site Rio de Janeiro aqui

 

Links para os outros artigos da Série O Rio de Janeiro desaparecido

 

Série O Rio de Janeiro desaparecido I Salas de cinema do Rio de Janeiro do início do século XXde autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 26 de fevereiro de 2016.

Série O Rio de Janeiro desaparecido II – A Exposição Nacional de 1908 na Coleção Família Passos, de autoria de Carla Costa, historiadora do Museu da República, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 5 de abril de 2018.

Série O Rio de Janeiro desaparecido III – O Palácio Monroe, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 9 de novembro de 2016.

Série O Rio de Janeiro desaparecido IV - A via elevada da Perimetral, de autoria da historiadora Beatriz Kushnir, publicado na Brasiliana Fotográfica em 23 de junho de 2017.

Série O Rio de Janeiro desaparecido V – O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlopde autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portalpublicado na Brasiliana Fotográfica em 20 de julho de 2018.

Série O Rio de Janeiro desaparecido VI – O primeiro Palácio da Prefeitura Municipal do Rio de Janeirode autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de setembro de 2018.

Série O Rio de Janeiro desaparecido VII – O Morro de Santo Antônio na Casa de Oswaldo Cruzde autoria de historiador Ricardo Augusto dos Santos da Casa de Oswaldo Cruzpublicado na Brasiliana Fotográfica em 5 de fevereiro de 2019.

Série O Rio de Janeiro desaparecido VIII – A demolição do Morro do Castelode autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portalpublicado na Brasiliana Fotográfica em 30 de abril de 2019.

Série O Rio de Janeiro desaparecido IX – Estrada de Ferro Central do Brasil: estação e trilhosde autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de novembro de 2019.

Série O Rio de Janeiro desaparecido X – No Dia dos Namorados, um pouco da história do Pavilhão Mourisco em Botafogode autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de junho de 2020.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XI – A Estrada de Ferro do Corcovado e o mirante Chapéu de Sol, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 22 de julho de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XII – o Teatro Lírico (Theatro Lyrico), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 15 de setembro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XIV – O Conselho Municipal, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 19 de novembro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XV – A Praia de Santa Luzia no primeiro dia do verão, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 21 de dezembro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XVI – O prédio da Academia Imperial de Belas Artes, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, publicado na Brasiliana Fotográfica em 13 de janeiro de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XVII – Igreja São Pedro dos Clérigos, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 18 de março de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XVIII – A Praça Onze, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 20 de abril de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XIX – A Igrejinha de Copacabana, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 23 de junho de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XX – O Pavilhão dos Estados, futuro prédio do Ministério da Agricultura, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 26 de julho de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXI – O Chafariz do Largo da Carioca, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 19 de setembro de 2022. 

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXII – A Cadeia Velha que deu lugar ao Palácio Tiradentes, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 11 de abril de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXIII e Avenidas e ruas do Brasil XVII A Praia e a Rua do Russel, na Glória, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 15 de maio de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXIV – O luxuoso Palace Hotel, na Avenida Rio Branco, uma referência da vanguarda artística no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 4 de julho de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXV – O Theatro Phenix, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 5 de setembro de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXVI – Conclusão do arrasamento do Morro do Castelo por Augusto Malta, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 14 de dezembro de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXVII e Série Os arquitetos do Rio de Janeiro V – O Jockey Club e o Derby Club, na Avenida Rio Branco e o arquiteto Heitor de Mello (1875 – 1920), de autoria de Andrea c. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, em 15 de janeiro de 2024