Destacando uma imagem do Cemitério Israelita de Inhaúma, produzida por Augusto Malta (1864 – 1957), em 11 de abril de 1934, a Brasiliana Fotográfica publica o artigo Você quer saber quem somos nós? O Cemitério Israelita de Inhaúma e seu abandono, de autoria da historiadora Beatriz Kushnir. Inaugurado em 1o de outubro de 1916, lá encontram-se enterrados homens, mulheres e crianças, em um total de 797 pessoas. Mais que em outros cemitérios, uma “regra moral” impõe àquele espaço silêncio e isolamento. Na visão do escritor judeu Bashevis Singer, ali estaria enterrada a “escória” da comunidade judaica carioca: mulheres e homens de origem judaica e que exerciam a atividade da prostituição e da cafetinagem, que não é algo apenas masculino. As prostitutas judias ficaram conhecidas como “as polacas”.
Você quer saber quem somos nós?
O Cemitério Israelita de Inhaúma e seu abandono
Beatriz Kushnir*
No dia 11 de abril de 1934, uma quarta-feira, o fotógrafo Augusto Malta (1864 – 1957) (1) registrou um evento no Cemitério Israelita de Inhaúma. Na foto, homens e mulheres diante de uma lápide. Na tradição judaica, algum tempo após o enterramento, há a cerimônia de sua inauguração, com a colocação da pedra e das informações sobre o/a falecido/a. Possivelmente era isto que acontecia ali. Ao que parece, apenas cinco homens compareceram e, assim, não se seguia o rito religioso que exige um minian – um quórum de dez homens judeus adultos, ou seja, com 13 anos ou mais. Isto é um indício de que talvez o grupo não tivesse tantos homens judeus disponíveis.
A curiosidade do fotógrafo demonstra que as atividades naquele espaço despertavam, há muito, o interesse da sociedade carioca. Seguindo preceitos e ritos milenares, os judeus costumam visitar seus mortos no final de semana entre o Ano Novo (Rosh Hashaná) e o Dia do Perdão (Iom Kipur). Os vários cemitérios judeus, em todo o mundo, ficam lotados nesses dias. Mantendo tal costume, Zelda e sua irmã Celina apareceram no Cemitério Israelita de Inhaúma, em 1992, quando as encontrei. Diferentemente dos demais, lá as visitas são raras.
No subúrbio de Inhaúma, colado ao cemitério municipal, encontram-se enterrados homens, mulheres e crianças, em um total de 797 pessoas (2). Mais que em outros cemitérios, uma “regra moral” impõe àquele espaço silêncio e isolamento. Na visão do escritor judeu Bashevis Singer (1902 – 1991), ali estaria enterrada a “escória” da comunidade judaica carioca: mulheres e homens de origem judaica e que exerciam a atividade da prostituição e da cafetinagem, que não é algo apenas masculino.
As polacas, como ficaram conhecidas, estão presentes na letra de Mestre-Sala dos Mares, homenagem de João Bosco (1946-) e Aldir Blanc (1946 – 2020) a João Cândido (1880 – 1969), o Almirante Negro, líder da Revolta da Chibata (1910): “Foi saudado no porto pelas mocinhas francesas, jovens, polacas e por batalhões de mulatas”. No poema Balada do Mangue, de Vinícius de Moraes (1913 – 1980), publicado em 1946, onde se lê: “Glabras, glúteas cafetinas / Embebidas em jasmim / Jogando cantos felizes / Em perspectivas sem fim. / Cantais maternais hienas / Canções de cefetinizar / Gordas polacas serenas / Sempre prestes a chorar”(3). Nos desenhos de Lasar Segall (1889 – 1957), intitulada Mangue (4), e de Di Cavalcanti (1897 – 1976) (5), e nas fotos de Augusto Malta (6).
Há também a música que Moreira da Silva (1902 – 2000) compôs para uma paixão, Estera Gladkowicer (1927 – 1968), uma polaca de origem russa naturalizada brasileira, nascida em 20 de maio de 1907, solteira e que chega ao Brasil em 1927. Estera era a sócia no 65 da Associação Beneficente Funerária e Religiosa Israelita (ABFRI) e morreu em 1968 por ingestão de barbitúricos. Intitulada Judia Rara, Kid Morengueira declara que “A rosa não se compara/a essa judia rara/criada no meu país/rosa de amor sem espinhos/diz que são meus carinhos/e eu sou um homem feliz/Os olhos dessa judia/cheios de amor e poesia/dorme o mistério da noite/brilha o milagre do dia/A sua boca vermelha/é uma flor singular/e meu desejo uma abelha/em torno dela a bailar” (https://www.youtube.com/watch?v=gXfRBepUV1M).
Quando encontrei Zelda e Celina ali, em 1992, elas vinham visitar seus mortos: a mãe, a sogra de uma irmã, amigos e amigas. Logo me perguntaram: “ah, você quer saber quem somos nós?”. Mas a quem pertence este espaço e por que está isolado? O Cemitério Israelita de Inhaúma materializa a necessidade que esse grupo teve de retirar de si o manto da marginalidade e da exclusão pela via da solidariedade e da sociabilidade com base na religiosidade. Isto porque, dentro dos preceitos religiosos judaicos as prostitutas são enterradas junto ao muro dos cemitérios, reforçando e demarcando o locus da exclusão e do estigma. A partir da vivência comunal religiosa construída por esse grupo, com a aquisição de um cemitério próprio, estes homens e mulheres puderam manter e reforçar sua identidade judaica.
No Rio de Janeiro, o espaço do cemitério revela números – participação feminina e masculina, existência de filhos – e hierarquias. Assim, foi durante a gestão de 1916 que a ABFRI inaugurou o Cemitério Israelita de Inhaúma, em um terreno na rua Piragibe nº 99, com fundos para o Cemitério Municipal de Inhaúma. O processo de aquisição do terreno remonta a fevereiro de 1912, quando a procuradora Norma Pargament reencaminhou um pedido ao prefeito da Cidade do Rio de Janeiro “(…) para que lhe fosse arrematado ou vendido um terreno junto ao Cemitério de Inhaúma, para nele ser instalado o cemitério da mesma Associação a fim de ali serem internados (sic). todos os seus associados”(7).
Em agosto de 1916, o Diretor Geral de Obras e Viação, José Dias Cupertim, aprovou a obra e, às vésperas do décimo aniversário de fundação da ABFRI, se inaugurou o seu cemitério em 1o de outubro de 1916. Este ato representa e corporifica o objetivo central de uma sociedade dessa natureza: a manutenção de uma identidade étnico-religiosa. Contrariamente ao que se poderia supor, os membros da ABFRI não eram ilustres desconhecidos. Tal qual a curiosidade de Malta em 1934, a inauguração de seu cemitério, em 1916, não passou despercebida na imprensa carioca, sendo noticiada na primeira página do jornal A Noite (8), em uma matéria que reproduz as imagens da época quanto aos imigrantes/cáftens/ prostitutas/judeus.
A reportagem, não assinada, foi ilustrada com uma foto do campo de Inhaúma cercado por grades e identificado com uma placa com o nome da Associação, expondo seu caráter ainda precário e o que difere muito do que acontecerá nas duas próximas décadas como a imagem do Malta demonstra.
No tom de uma verdadeira crônica policial, o jornal A Noite faz referências aos homens e mulheres ali presentes, seus trajes e costumes. Narrando o que denominava de bizarro, a notícia conta a história da primeira pessoa a ser ali enterrada “(…) de nome Helena. Coube a essa a primeira cova aberta. Helena. [moradora à] rua do Regente, (…) era austríaca, solteira e tinha 33 anos. Faleceu no dia 22 de outubro deixando uma filha “(…) Eva. Esse foi o nome escolhido por suas irmãs de religião. Mas a [criança] foi gerada da união da pecadora com um soldado naval. O soldado não quis que se chamasse Eva a pequena, nome judaico, e sim que se lhe desse Iracema, nome indígena”(9).
A descrição da “festa macabra” realizada pelo jornal misturava em um mesmo caldeirão todas as referências usualmente feitas ao fenômeno do tráfico de escravas brancas e à atuação de parte da comunidade judaica nessa área. Assim, o jornalista refere-se a uma possível cerimônia de inauguração do campo, no qual um carneiro sacrificado foi enterrado, seguindo-se a uma distribuição de doces e bolos e a um leilão de cargos beneméritos da Associação, mediante pagamento que reverteria para a construção das instalações do cemitério. Tais descrições poderiam se aproximar do capturado pelas lentes de Malta, em 1934. Também ali vemos alimentos e bebidas, que talvez se justifiquem pelo difícil acesso ao local naquele momento. O longo deslocamento de ida e volta exigiria a ingestão de um farnel.
Três dias após a publicação do A Noite, o mesmo órgão de imprensa registrou uma resposta do redator-chefe, David J. Perez, do jornal A Columna – órgão da comunidade israelita carioca. Perez escreveu uma nota negando existir qualquer preceito religioso que regesse a inauguração de um cemitério judeu e justificava a existência e atuação de judeus nesse tipo de ofício pela ausência de uma organização comunal na cidade (A Noite, 2 de novembro de 1916, segunda coluna).
O Cemitério Israelita de Inhaúma foi o primeiro cemitério israelita de caráter particular estabelecido na cidade do Rio de Janeiro. Anteriormente, os judeus desta cidade eram enterrados em quadras delimitadas no Cemitério do Caju, São João Batista ou dos Ingleses, segundo os preceitos religiosos judaicos. Dentro destes preceitos, os suicidas e as prostitutas eram enterrados junto ao muro, demarcando e reconfirmando a marca da exclusão. E foi certamente para sair deste lugar que aqueles homens e mulheres se organizaram associativamente a partir de 1906, em um ato pioneiro dentro do processo imigratório de judeus para o Brasil. Portanto, é errônea a visão segundo a qual, “(…) a municipalidade havia cedido à comunidade judaica uma extensa área, no Bairro de Inhaúma, para que fosse lá localizado um cemitério dentro dos preceitos da sua religião. (…) Aconteceu que os judeus da escravatura branca, chamados de ‘impuros’, quando souberam da concessão governamental, conseguiram das autoridades que seus mortos também fossem enterrados no cemitério de Inhaúma. Esse fato fez com que a comunidade, diante da impossibilidade de revogar a ordem, abandonasse o mencionado cemitério e, na impossibilidade de obter uma outra concessão. Dentro do então Distrito Federal. (…) foi instalado um cemitério em Vila Rosaly, atual município de São João de Meriti, então município de Nova Iguaçu” (Malamud, 1988, p. 83-4).
A ABFRI sobreviveu no século 20. Foi dirigida por mulheres que formavam uma irmandade. A última das quatro irmãs superioras foi Rebecca Freedman, a Becca, que faleceu com 103 anos, em 1984, talvez a verdadeira data de encerramento da associação. Ela havia sido eleita presidente por uma gestão de quatro anos, até 1970, porém nunca foi substituída. Após 62 anos de existência, a ABFRI se “exaure”, como me descreveu o seu contador, Sr. O. As rendas já não cobrem as despesas e as mensalidades já não conseguem ser pagas pelos associados. Diferente de suas companheiras e, certamente, não por sua vontade, Becca foi enterrada no Cemitério Comunal do Caju, pela Sociedade Cemitério Comunal, uma entidade israelita que cuidava até 2020 do Cemitério Israelita de Inhaúma. Mesmo com o fim da Associação, esse cemitério ainda recebeu sepultamentos e, na década de 1960, segundo a Comissão de Cemitérios do Rio de Janeiro, sua média anual era de oito enterros. O Livro de Registro dos óbitos dos associados da ABFRI encerra seus dados em outubro de 1967, embora outros cinco sócios tenham sido sepultados até setembro de 1970. Após esse ano, pela ausência de recursos e de pessoal que cuidasse do cemitério, ele fica abandonado.
As tentativas que membros da ABFRI realizam desde a década de 1960 para solucionar a questão chega a um limite e a transferência dos cuidados do cemitério para outra sociedade israelita me foi narrada pelo Sr. O como um processo longo. Anos mais tarde, já no final da década de 1970, a atual sociedade responsável – Sociedade Cemitério Comunal – procurou o Sr. O. Nos anos 2000, a entidade que assumiu o cemitério teve a intenção de usar as áreas livres restantes para outros enterros que não os dos sócios da ABFRI. Os sócios seriam concentrados em uma área determinada, transladando-se os corpos, o que não é permitido pela religião judaica.
Para que isto não ocorresse, a Prefeitura do Rio tombou o cemitério como um sitio arqueológico (Decreto no 28.463, de 21 de setembro de 2007 e Decreto no 32.993, de 27 de outubro de 2010). Abandonado desde 2020, trancado e impossibilitado de receber visitantes, o espaço pede socorro!
* Beatriz Kushnir é Doutora em História/Unicamp. Autora, entre outros, de Baile de máscaras: mulheres judias e prostituição, as polacas e suas associações de ajuda mútua (Imago). Mantém o blog: http://polacas.blogspot.com
(1) Augusto César Malta de Campos (Mata Grande, 1864 – Rio de Janeiro, 1957) foi fotógrafo com atuação na função oficial do então Distrito Federal entre as décadas de 1900 e 1930, nomeado pelo prefeiro Pereira Passos.
(2) Este dado foi retirado do Livro de Registro de Óbitos dos Adultos e Anjos sepultados no Cemitério da Associação
Beneficente Funerária e Religiosa Israelita – Inhaúma. Esse material foi elaborado por essa entidade e hoje se encontra em um depósito no arquivo da Sociedade Cemitério Comunal – instituição judaica carioca que tomava conta do local até 2020. Esse Livro possui páginas numeradas, 31 até 88, que dão conta do período de 22 de outubro de 1916 até 12 de outubro de 1967.
(3) Vinicius de Moraes, Antologia poética. Lisboa, Publicações D. Quixote, 2006.
(4) Lasar Segall, (Vilna, 1889 – São Paulo, 1957) foi um pintor, escultor e gravurista judeu nascido no território da atual Lituânia. Álbum de desenhos de Mangue foi realizado entre 1925 e 1928, e inclui texto de Mario de Andrade, Manuel Bandeira e Jorge de Lima. A edição de luxo é limitada a 135 exemplares.
(5) Emiliano Augusto Cavalcanti de Albuquerque e Melo, ou Di Cavalcanti, (1897–1976), abordou temas brasileiros em suas obras e, em 1929, pintou o quadro Mangue.
(6) Augusto César Malta de Campos (Mata Grande, 1864 – Rio de Janeiro, 1957) foi fotógrafo com atuação na função oficial do então Distrito Federal entre as décadas de 1900 e 1930, nomeado pelo prefeito Pereira Passos, instituiu um significativo acervo das transformações da então capital do Brasil.
(7) AGCRJ (Vol.4, p. 598, códice 58-3-22).
(8)“Uma festa Macabra – Os exploradores do judaísmo. Os ‘wizugths’ pagam o seu tributo – O destino de Helena”.
Jornal A Noite, RJ, 30/10/1916, p.1.
(9) Op. cit. Nota 8.

































