Rio de encantos mil, por Cristiane d´Avila

Rio de encantos mil

Cristiane d´Avila*

 

Este artigo é uma homenagem à natureza do Rio de Janeiro imortalizada nas belas fotografias e nos negativos de vidro sob a guarda do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz. São imagens da paisagem natural, do início do século XX, registros de um tempo em que a cidade ainda mantinha sua vegetação quase intocada, distante das intervenções urbanísticas que a transformariam. Nelas, é possível viajar no tempo em busca da cidade imaginada, “esfinge amorosa”, como bem definiu o carioca Carlos Lessa. Rio dos cronistas e escritores, músicos e pintores; Rio do encantamento e das ruas que têm alma; Rio cartão-postal, Cidade Maravilhosa, cheia de encantos mil, coração do Brasil.

 

 

Acessando o link para as fotografias das belezas naturais do Rio de Janeiro do  acervo da Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A beleza natural do Rio de Janeiro inspira, há séculos, viajantes e artistas das mais variadas nacionalidades e tendências. Narrada em prosa, cantada em versos, retratada em óleo e aquarela ou revelada pela fotografia, a natureza do Rio jamais deixou de despertar encantamento. Ainda hoje, impressiona pela harmoniosa combinação entre montanhas, mar e vegetação, singularidade reconhecida e admirada no mundo inteiro.

 

 

No século XIX, a paisagem carioca fascinava a Europa por meio das fotografias de Marc Ferrez (1843-1922) e dos panoramas imortalizados por George Leuzinger (1813-1892). Nesse mesmo período, artistas como Émile Taunay (1795-1881), Victor Meirelles (1832-1903) e William Smith (1769-1839) produziram imagens idílicas da Lagoa Rodrigo de Freitas, da Baía de Guanabara, da Floresta da Tijuca, da Gávea, da Praia de Botafogo e de Santa Teresa. Para esses artistas, a natureza estava longe de ocupar um papel estático no imaginário nacional: ela adquiria protagonismo próprio, convertendo-se em expressão viva de uma nação concebida sob os signos da riqueza e exuberância natural.

 

 

O mesmo ardor que exaltava, e ainda hoje celebra, a beleza do Rio de Janeiro, também alimentava movimentos de resistência à degradação de suas riquezas naturais. Moradores e visitantes, movidos por afeição declarada pela paisagem carioca, produziram discursos ora entusiasmados, ora melancólicos, em defesa de sua preservação. Manifestações suscitadas pelo avanço do crescimento urbano sobre sua natureza pujante, porém vulnerável, símbolo da identidade nacional, permanecem até hoje inscritas no imaginário coletivo.

 

 

Segundo o historiador e crítico de arte Giulio Carlo Argan (1909 – 1992), a natureza nunca perdeu o lugar do mito e do sagrado na construção da cidade. Ela compõe o espaço do não construído, não protegido, não organizado, que tremula ao redor do recinto sagrado erguido pela civilização. Representa, para o autor, “o limite, a fronteira entre o habitado e o inabitável, entre a cidade e a selva, entre o espaço geométrico ou mensurável e a dimensão ilimitada, incomensurável do ser”. Daí o símbolo da beleza, a “cidade maravilha”, o emblemático cartão-postal não ter sua imagem suplantada pela do Rio “partido”, na expressão cunhada pelo jornalista Zuenir Ventura (1931 -), o Rio da violência, da degradação ambiental – purgatório do caos.

 

 

Em Cronistas do Rio, a ensaísta Beatriz Resende (1948-) apresenta a cidade como parte integrante e inseparável da vida de seus moradores e motivo de inspiração, de juras apaixonadas e também de indignação diante de sua descaracterização. Resende recupera, nesse contexto, o olhar de Machado de Assis (1839 – 1908) e seu apego “quase provinciano” às marcas autênticas da cidade, perceptível na melancolia com que lamentava, em suas crônicas, a derrubada de uma árvore ou o aterramento de uma praia, ocasionadas pela remodelação urbana do centro do Rio conduzida pelo prefeito Pereira Passos, no início do século XX.

 

 

Em seu Lima Barreto e o Rio de Janeiro em Fragmentos, Beatriz Resende ressalta a paixão do escritor pela cidade. Segundo a autora, a contemplação da paisagem carioca, suas formas, cores e atmosferas naturais, fez com que Lima considerasse a perda de uma casa, uma árvore, o pior dos castigos. Na obra, ela observa ainda que, em seu Diário Íntimo, Lima Barreto (1881 – 1922) descreve sua “amada”, a cidade, em passagens marcadas por uma sensualidade quase erótica, nos quais a natureza é expressada com delicadeza e lirismo: “As ondas verde-claro rebentam antes da praia em franjas de espuma. Pelo ar havia meiguice, e blandícias tinha o vento a sussurrar”.

 

 

No livro de contos Marcovaldo ou As Estações na Cidade, do escritor e jornalista Italo Calvino (1923 – 1985), a natureza está além das fronteiras da cidade, ela está afastada, quase inacessível, destacada do frenesi urbano. No universo fantástico do escritor, acolhe aqueles que escapam à lógica rígida da vida moderna — figuras deslocadas, capazes de perceber o sublime, o ilimitado e tudo aquilo que a cidade tenta conter ou silenciar. Nos contos, o protagonista Marcovaldo transita no espaço urbano sem jamais pertencer inteiramente a ele, como observador suspenso entre dois mundos. Nesta obra de Calvino, a natureza assumirá a função de refúgio e deslocamento, de instrumento capaz de proporcionar instantes de plenitude e efêmera esperança, quase sempre atravessados pela aridez da experiência urbana e a fugacidade da vida moderna.

 

 

A natureza do Rio de Janeiro surge ainda como cenário de acontecimentos singulares e memoráveis vividos pelo jornalista e cronista carioca João do Rio (1881-1921). Durante a passagem da bailarina norte-americana Isadora Duncan (1877-1927) pela cidade, em 1916, ele e o escritor Gilberto Amado (1887-1969) conduziram a artista em um passeio noturno à praia de Ipanema e à Cascatinha da Tijuca. Raimundo Magalhães Júnior (1907 – 1981), primeiro biógrafo do jornalista, rememorou o episódio relatado a ele por Gilberto Amado na obra A vida vertiginosa de João do Rio:

“Foram à Cascatinha, que [Duncan] já vira e queria rever ao clarão da lua. Isadora atordoou-se com o vozeio assombrador da mata”. Segundo Gilberto, a cena culmina na cascata da Floresta da Tijuca, onde a artista se banhou ao luar, nua, em um gesto de entrega e fascínio diante da exuberância natural: “foi acometida de uma espécie de delírio no meio dos sibilos, uivos e gemidos da mata, interrompidos apenas pelo som das ondas quebrando na praia. Oh God!, largou Isadora como que acordando”. Em carta ao amigo português João de Barros, João do Rio declara paixão avassaladora pela bailarina: “passei os 15 dias mais felizes da minha vida no êxtase amoroso, no verdadeiro amor, com uma criatura que é gênio, Bondade divina – tudo. Essa criatura que me olhou que me desejou, que quase me faz secretário humilde foi Isadora. Nunca amei assim! A minha vida está dentro do sol. Meu Deus! Mas é assim o amor? Eu só o senti assim agora aos 35 anos! Foi transfiguração”.

É o Rio de Janeiro que apaixona e arrebata!

 

 

 

*Cristiane d´Avila é é jornalista do Departamento de Arquivo e Documentação Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

Referências:

ARGAN, Giulio Carlo. História da arte como história da cidade. São Paulo: Martins Fontes, 2005, p. 213.

CALVINO, Italo. Marcovaldo ou as estações na cidade. São Paulo: Companhia das Letras, 1994.

LESSA, Carlos. O Rio de todos os Brasis. Rio de Janeiro: Record, 2000.

MAGALHÃES JÚNIOR, Raimundo de. A vida vertiginosa de João do Rio. Brasília: Civilização Brasileira, 1997, p. 267.

RESENDE, Beatriz. Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos. Rio de Janeiro: ed. UFRJ: Ed. UNICAMP, 1993, p. 99.

RESENDE, Beatriz (Org.). Cronistas do Rio. Rio de Janeiro: José Olympio, 1995.

RIO, João do. Cartas de João do Rio: a João de Barros e Carlos Malheiro Dias. Introdução, organização e notas: Cristiane d’Avila. Prefácio: Zuenir Ventura. Rio de Janeiro: FUNARTE, 2012, p. 252.

Série “Hotéis do Brasil” IX, Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” IX e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXXIII – O Hotel Avenida, um ícone da “Belle Époque” carioca, projetado por Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá

Série “Hotéis do Brasil” IX, Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” IX e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXXIII – O Hotel Avenida no Rio de Janeiro, projetado por Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá*

 

Com registros de Augusto Malta (1864-1957), que foi fotógrafo da prefeitura do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936; do fotógrafo amador Guilherme Santos (1871 – 1966) e de Marc Ferrez (1843 – 1923), brilhante cronista visual do Rio de Janeiro; o tema de nosso artigo é o Hotel Avenida, um marco arquitetônico e cultural carioca. Uma das fotografias de Marc Ferrez e as duas de Guilherme Santos são estereografias. Este último foi um entusiasta da fotografia estereoscópica, tendo sido um dos pioneiros dessa técnica no Brasil, ao adquirir, em 1905, na França, o Verascope, um sistema de integração entre câmera e visor, que permitia ver imagens em 3D, produzidas a partir de duas fotos quase iguais, porém tiradas de ângulos um pouco diferentes.

 

Thumbnail
Guilherme Santos. Hotel Avenida, c. 1920. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS

 

 

Acessando o link para as fotografias do Hotel Avenida disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Foi projetado pelo baiano Francisco de Azevedo Monteiro Caminhoá (1838 – 1915) e inaugurado, em julho de 1908 (A Imprensa, 30 de junho, segunda coluna; 2 de julho, segunda coluna), na então recém aberta Avenida Central, posteriormente Avenida Rio Branco.

 

 

Caminhoá, nascido em Santo Amaro da Purificação, em 1838, foi também responsável pelos projetos da Catedral de Petrópolis e da oficina de consertos dos bondes da Companhia de Ferro Carril Jardim Botânico e atual edifício do Instituto dos Arquitetos do Brasil. Havia estudado arquitetura na Academia Imperial de Belas Artes do Rio de Janeiro e recebeu, da Assembleia Provincial da Bahia, em 1855, a subvenção de 200 francos mensais para estudar na Europa, onde frequentou a École de Beaux-Arts de Paris e foi aspirante, em 1857, no ateliê do arquiteto francês Louis-Hyppolyte Lebas (1782 – 1862), um dos mais influentes e populares profissionais de seu tempo. Regressou ao Brasil, em 1867. Faleceu em 14 de outubro de 1915 (Jornal do Commercio, 15 de outubro de 1915, última coluna).

 

 

A localização do luxuoso Hotel Avenida, em estilo eclético, ícone da Belle Époque carioca, e a presença de uma estação de bondes da Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico, proprietária do hotel, diante dele, propiciou que ele fosse muito mais do que um estabelecimento de hospedagem: foi o centro de gravidade de eventos sociais e culturais da cidades, dentre eles o carnaval.

 

 

O Hotel Avenida possuía 220 quartos, todos com telefone; restaurante, salão de jogos, água quente, iluminação elétrica e elevadores, tendo sido, na época de sua inauguração, o mais moderno e importante hotel do Brasil e um dos mais belos da América do Sul. Sua fachada frontal tinha 60 metros e cinco pavimentos. A altura do edifício era de quase 23 metros. Ao longo de sua existência hospedou importantes personalidades do cenário nacional e internacional. Abrigava a Galeria Cruzeiro, assim denominada devido a duas passagens em cruz, que ficava no andar térreo do hotel. Repleta de bares,  restaurantes e cafés, dentre eles o Nacional, o Ao Franziskaner (da Brahma), a Leiteria Mineira e o Laranjada Brasil, atraía um público de turistas, artistas e intelectuais. Ocupava uma quadra delimitada pela Avenida Central, o Largo da Carioca, a então denominada Rua de Santo Antônio, atual Bittencourt da Silva; e a Rua São José.

 

 

 

Por imposição do progresso vai abaixo a velha Galeria Cruzeiro. Essa foi a manchete da primeira página do Diário de Notícias, 2 de março de 1957. A demolição do Hotel Avenida começou em outubro de 1957 (A Noite, 25 de setembro de 1957, terceira colunaO Jornal, 15 de outubro de 1957, primeira coluna). Em seu lugar foi construído o Edifício Avenida Central, com 34 andares e o primeiro em estrutura metálica do Rio de Janeiro, inaugurado em 22 de maio de 1961 (Correio da Manhã, 23 de maio de 1961, primeira colunaManchete, 3 de junho de 1961). Foi projetado pelo Escritório Henrique Mindlin, também responsável pelo Shopping dos Antiquários e pelos hotéis Sheraton e Intercontinental.

Com a demolição do Hotel Avenida, começava na cidade uma transição para uma era de modernização e mudanças urbanas – muitos edifícios históricos foram demolidos e substituídos por construções modernas. Para a despedida, o Jornal do Brasil, a Rádio Jornal do Brasil e a Loja Palermo organizaram uma grande manifestação chamada Adeus à Galeria Cruzeiro, mesmo nome da música de autoria de Edel Ney e Aires Viana, cantada por Leny Eversong (1920 – 1984).

Adeus à Galeria Cruzeiro

Você viu, você leu, você ouviu
O comentário que corre pela cidade?
Você viu, você leu, você ouviu
A dolorosa verdade?

É certo que a Galeria Cruzeiro
Vai desaparecer
É a lei do progresso
Que faz a cidade crescer
Praça Onze, Café Nice

(O samba chorou
E a saudade ficou no coração do sambista)

Galeria (Galeria)

Este samba (triste samba)
É o adeus do artista
Adeus Galeria do chopp gelado

Das noites de boemia
Dos carnavais do passado
Adeus Galeria reduto do samba
De Chico, Noel e de tanta gente bamba

Galeria (adeus)
Galeria (adeus)

No dia da festa caia uma forte chuva na cidade mas personalidades importantes como Ademilde Fonseca (1921 – 2012), Altamiro Carrilho (1924 – 2012), Linda Batista (1919 – 1988), Pixinguinha (1897 – 1973), Pato Preto (1928 – 2005), Risadinha (1921 – 1976) e Silvinha Chioso (1938-), dentre outros, compareceram ao evento, que contou também com a participação de bandas militares e agremiações carnavalescas, como o Cordão da Bola Preta. Milhares de pessoas compareceram (Jornal do Brasil24 de novembro de 1957, sexta coluna, 26 de novembro de 1957, capa e página 13).

 

 

No poema A um hotel em demolição, sobre o desaparecimento do Hotel Avenida, seu autor, o poeta Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987), cita o fotógrafo Augusto Malta.

 

 A um hotel em demolição

 (Publicado no livro A vida passada a limpo (1973))

Carlos Drummond de Andrade

Vai, Hotel Avenida,
vai convocar teus hóspedes
no plano de outra vida.
Eras vasto vermelho,
em cada quarto havias
um ardiloso espelho.

Nele se refletia
cada figura em trânsito
e o mais que se não lia
nem mesmo pela frincha
da porta: o que um esconde,
polpa do eu, e guincha
sem se fazer ouvir.
E advindo outras faces
em contínuo devir,
o espelho eram mil máscaras
mineiroflumenpau-
listas, boas, más; caras.

50 anos-imagem
e 50 de catre
50 de engrenagem
noturna e confidente
que nos recolhe a úrica
verdade humildemente.

(Pois eras bem longevo, Hotel, e no teu bojo
o que era nojo se sorria, em pó, contigo.)

O tardo e rubro alexandrino decomposto.

Casais entrelaçados no sussurro
do carvão carioca, bondes fagulhando, políticos
politicando em mornos corredores
estrelas italianas, porteiros em êxtase
cabineiros

em pânico:
por que tanta suntuosidade se encarcera
entre quatro tabiques de comércio?
A bandeja vai tremulargentina:
desejo café geleia matutinos que sei eu.
A mulher estava nua no centro e recebeu-me
com a gravidade própria aos deuses em viagem:
Stellen Sie es auf den Tisch!

Sim, não fui teu quarteiro, nem ao menos
boy em teu sistema de comunicações louça
a serviço da prandial azáfama diurna.
Como é que vivo então os teus arquivos
e te malsinto em mim que nunca estive
em teu registro como estão os mortos
em seus compartimentos numerados?

Represento os amores que não tive
mas em ti se tiveram foice-coice.
Como escorre
escada serra abaixo a lesma
das memórias

de duzentos mil corpos que abrigaste
ficha ficha ficha ficha ficha
fichchchchch.
O 137 está chamando
depressa que o homem vai morrer
é aspirina? padre que ele quer?
Não, se ele mesmo é padre e está rezando
por conta dos pecados deste hotel
e de quaisquer outros hotéis pelo caminho
que passa de um a outro homem, que em nenhum
ponto tem princípio ou desemboque;
e é apenas caminho e sempre sempre
se povoa de gestos e partidas
e chegadas e fugas e quilômetros.
Ele reza ele morre e solitária
uma torneira
pinga
e o chuveiro
chuvilha
e a chama
azul do gás silva no banho
sobre o Largo da Carioca em flor ao sol.

(Entre tapumes não te vejo
roto desventrado poluído
imagino-te ileso emergindo dos sambas dos dobrados da polícia militar, do coro ululante de torcedores do campeonato mundial pelo rádio
a todos oferecendo, Hotel Avenida,
uma palma de cor nunca esbatida.)

Eras o Tempo e presidias
ao febril reconhecimento de dedos
amor sem pouso certo na cidade
à trama dos vigaristas, à esperança
dos empregos, à ferrugem dos governos,
à vida nacional em termos de indivíduo
e a movimentos de massa que vinham espumar
sob a arcada conventual de teus bondes.

Estavas no centro do Brasil,
nostalgias januárias balouçavam
em teu regaço, capangueiros vinham
confiar-te suas pedras, boiadeiros
pastoreavam rebanhos no terraço
e um açúcar de lágrimas caipiras
era ensacado a todo instante em envelopes
(azuis?) nos escaninhos da gerência
e eras tanto café e alguma promissória.

Que professor professa numa alcova
irreal, Direito das Coisas, doutrinando
a baratas que atarefadas não o escutam?
Que flauta insiste na sonatina sem piano
em hora de silêncio regulamentar?
E as manias de moradores antigos
que recebem à noite a visita do prefeito Passos para discutir novas técnicas urbanísticas?

E teus mortos
incomparavelmente mortos de hotel fraudados
na morte familiar a que aspiramos
como a um não morrer morrido;
mortos que é preciso despachar
rápido, não se contagiem lençóis
e guarda-pires
dessa friúra diversa que os circunda
nem haja nunca memória nesta cama
do que não seja vida na Avenida.

Ouves a ladainha em bolhas intestinas?

Balcão de mensageiros imóveis saveiros
banca de jornais para nunca e mais
alvas lavanderias de que restam estrias
bonbonnières onde o papel de prata
faz serenata em boca de mulheres
central telefônica soturnamente afônica
discos lamentação de partidos meniscos
papelariasconversariaschope da Brahma louco de quem ama
e o Bar Nacional pura afetividade
súbito ressuscita Mário de Andrade.

Que fazer do relógio
ou fazer de nós mesmos
sem tempo sem mais ponto
sem contraponto sem medida de extensão
sem sequer necrológio
enquanto em cinza foge o
impaciente bisão

a que ninguém os chifres
sujigou, aflição?
Ele marcava mar-
cavacava cava cava
e eis-nos sós marcados
de todos os falhados
amores recolhidos
relógio que não ouço
e nem me dá ouvidos
robô de puro olfato
a farejar o imenso
país do imóvel tacto
as vias que corria teu comando fecham-se
nas travessas em I
nos vagos pesadelos
nos sombrios dejetos
em que nossos projetos
se estratificaram. A ti não te destroem
como as térmitas papam
livro terra existência.
Eles sim teus ponteiros
vorazes esfarelam
a túnica de Vênus
o de mais o de menos
este verso tatuado
e tudo que hei andado
por te iludir e tudo
que nas arkademias
institutos autárquicos
históricos astutos
se ensina com malícia
sobre o evolver das coisas
ó relógio hoteleiro
deus do cauto mineiro,
silêncio,
pudicícia.
Mas tudo que moeste
hoje de ti se vinga
por artes
de pensada mandinga.
Deglutimos teu vidro
abafando a linguagem
que das próprias estilhas
se afadiga em pulsar
o minuto de espera
quando cessa na tarde
a brisa de esperar.
 
Rangido de criança nascendo.

Por favor, senhor poeta Martins Fontes, recite mais baixo suas odes enquanto minha senhora acaba de parir no quarto de cima, e o poeta velou a voz, mas quando o bebê aflorou ao mundo é o pai que faz poesia saltarilha e pede ao poeta que eleve o diapasão para celebrarem todos, hóspedes, camareiros e pardais, o grato alumbramento.

Anoitecias. Na cruz dos quatro caminhos, lá embaixo, apanhadores, ponteiros, engole-listas de sete prêmios repousavam degustando garapa.

Mujer malvada, yo te mataré! artistas ensaiavam nos quartos? I wil grind your bones to dust, and with your blood and it I’ll make a paste. Bagaço de cana, lá embaixo.
Todo hotel é fluir. Uma corrente
atravessa paredes, carreando o homem,
suas exalações de substância. Todo hotel
é morte, nascer de novo; passagem; se pombos
nele fazem estação, habitam o que não é de ser habitado
mas apenas cortado. As outras casas prendem
e se deixam possuir ou tentam fazê-lo, canhestras.
O espaço procura fixar-se. A vida se espacializa,
modela-se em cristais de sentimento.
A porta se fecha toda santa noite.
Tu não se encerras, não podes. A cada instante
alguém se despede de teus armários infiéis
e os que chegam já trazem a volta na maleta.
220 Fremdenzimmer e te vês sempre vazio
e o espelho reflete outro espelho
o corredor cria outro corredor
homem quando nudez indefinidamente.

 
No centro do Rio de Janeiro
ausência
no curral da manada dos bondes
ausência
no desfile dos sábados
no esfregar no repinicar dos blocos
ausência
nas cavatinas de Palermo
no aboio dos vespertinos
ausência
verme roendo maçã
verme roído por verme
verme autorroído
roer roendo o roer
e a ânsia de acabar, que não espera
o termo veludoso das ruínas
nem a esvoaçante morte de hidrogênio.
Eras solidão tamoia
vir a ser de casa
em vir a ser de cidade onde lagartos
 

Vem, ó velho Malta,
saca-me uma foto
pulvicinza efialta
desse pouso ignoto.

Junta-lhe uns quiosques
mil e novecentos,
nem iaras nem bosques
mas pobres piolhentos.

Põe como legenda
Q u e i j o I t a t i a i a
e o mais que compreenda
condição lacaia.

Que estas vias feias
muito mais que sujas
são tortas cadeias
conchas caramujas

do burro sem rabo
servo que se ignora
e de pobre-diabo
dentro, fome fora.

Velho Malta, please,
bate-me outra chapa:
hotel de marquise
maior que o rio Apa.

Lá do acento etéreo,
Malta, sub-reptício
inda não te fere o
super edifício

que deste chão surge?
Dá-me seu retrato
futuro, pois urge

documentar as sucessivas posses da terra até o juízo final e mesmo depois dele se há como três vezes três confiamos que haja um supremo ofício de registro imobiliário por cima da instantaneidade do homem e da pulverização das galáxias.

Já te lembrei bastante sem que amasse
uma pedra sequer de tuas pedras
mas teu nome — A V E N I D A — caminhava
à frente de meu verso e era mais amplo
e mais formas continha que teus cômodos
(o tempo os degradou e a morte os salva),
e onde abate o alicerce ou foge o instante
estou comprometido para sempre.

Estou comprometido para sempre,
eu que moro e desmoro há tantos anos
o Grande Hotel do Mundo sem gerência

em que nada existindo de concreto
— avenida, avenida — tenazmente
de mim mesmo sou hóspede secreto

Leia aqui a crônica Galeria, de autoria de Rubem Braga (1913 – 1990), publicada no Correio da Manhã, 10 de abril de 1953, sexta coluna.

A Brasiliana Fotográfica agradece ao jornalista e poeta André Luis Câmara (1965-) por sua colaboração na construção deste artigo.

 

*Este artigo foi escrito a partir de uma sugestão de Flávio Pinheiro, um dos criadores da Brasiliana Fotográfica, e é dedicado a ele.

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Agência Brasil

Dicionário de Belas Artes UFBA

Folha do Centro, junho de 1921

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

PAIVA, Claudia dos Reis. Abrindo passagem para o futuro: Galeria Pio X. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Ambiente Construído da Universidade Federal de Juiz de Fora, como requisito parcial à obtenção do título de Mestre em Ambiente Construído, 2018.

PEREIRA, Sonia  Gomes. O Ensino de Arquitetura e a Trajetória dos Alunos Brasileiros na École des Beaux-Arts em Paris no Século XIX. XXII Colóquio Brasileiro de História da Arte, 2002.

Site Discografia Brasileira – IMS

Site Estilos Arquitetônicos

Site Rio de Janeiro Aqui

Site Urbe Carioca

Youtube – Hotel Avenida

Uma homenagem ao historiador José Murilo de Carvalho (1939 – 2023)

No primeiro parágrafo do artigo Machado de Assis vai à missa, escrito para a Brasiliana Fotográfica por José Murilo de Carvalho, um dos mais importantes historiadores do Brasil, fica evidente sua generosidade e grandeza de espírito na saudação inicial que fez a mim e à minha então recente descoberta da presença de Machado de Assis na fotografia de Antonio Luiz Ferreira da missa de ação de graças pela abolição da escravatura celebrada em 17 de maio de 1888, no Campo de São Cristóvão.

O professor José Murilo de Carvalho havia sido o orientador da tese de doutorado A “Semana Illustrada” e a guerra contra o Paraguai : primórdios da fotorreportagem no Brasil, de Joaquim Marçal Andrade, um dos curadores da Brasiliana Fotográfica, que teve a ideia de convidá-lo para escrever o artigo e que me apresentou a ele. O professor José Murilo se mostrou extremamente solícito e entusiasmado desde o primeiro contato que fiz com ele para colaborar com o portal, naquele momento ainda em seus primeiros meses de atividades.

A Brasiliana Fotográfica se soma às muitas e merecidas homenagens já recebidas e às muitas que ele ainda receberá republicando o referido artigo de 29 de maio de 2015, importante e generosa contribuição de um emérito historiador para a consolidação de um projeto voltado para a pesquisa e reflexão sobre a fotografia como fonte primária e essencial para a escrita da nossa história.

 

 

Brevíssimo perfil de José Murilo de Carvalho (1939 – 2023)

 

Nascido em Andrelândia, Minas Gerais, em 8 de setembro de 1939, José Murilo de Carvalho é bacharel em Sociologia e Política (Universidade Federal de Minas Gerais) e doutor em Ciência Política (Stanford University). Foi professor na UFMG e na Universidade Federal do Rio de Janeiro e  professor visitante nas universidades de Stanford, California-Irvine, Notre Dame (Estados Unidos), Leiden (Holanda), London e Oxford (Inglaterra) e maître de conférence na École des Hautes Études en Sciences Sociales (França). Foi pesquisador visitante do Institute for Advanced Study de Princeton. É professor emérito da Universidade Federal do Rio de Janeiro, pesquisador emérito do CNPq, membro da Academia Brasileira de Ciências e da Academia Brasileira de Letras. Em 2015, recebeu o título de Doutor Honoris Causa da Universidade de Coimbra. É autor de vários livros, entre os quais A construção da ordem e Teatro de sombras (Civilização Brasileira, 2003); Os bestializados: o Rio de Janeiro e a República que não foi (Cia. das Letras, 1987); A formação das almas: o imaginário da República (Cia. das Letras, 1990); Cidadania no Brasil: o longo caminho (Civilização Brasileira, 2001, 2013) e D. Pedro II, ser ou não ser (Cia. das Letras, 2oo7). Faleceu, no Rio de Janeiro, em 13 de agosto de 2023, após complicações de uma infecção por Covid-19.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Machado de Assis vai à missa

29 de maio de 2015

José Murilo de Carvalho

Bendito o olhar de lince de Andrea Wanderley, que identificou o rosto de Machado de Assis na foto de Antonio Luiz Ferreira da missa celebrada em 17 de maio de 1888, no Campo de São Cristóvão, em ação de graças pela passagem da lei do dia 13 desse mês que abolira a escravidão no Brasil.

A foto está disponível no portal Brasiliana Fotográfica, fantástica iniciativa da Biblioteca Nacional em parceria com o Instituto Moreira Salles. Outras figuras são identificáveis, além, naturalmente, da princesa Isabel e do conde d’Eu. O presidente do Conselho de Ministros do Gabinete conservador que fez passar a lei, João Alfredo Correia de Oliveira, está à direita de Isabel, um pouco abaixo.

Os responsáveis pelo portal veem José do Patrocínio à frente do grupo, segurando a mão do filho. Ampliando o foco, deverão aparecer outros políticos e outros militantes da causa abolicionista. Nabuco não foi à missa, mas André Rebouças, quase íntimo da família imperial, estava lá. Também certamente estavam seus companheiros da Confederação Abolicionista, com quem se fizera fotografar na véspera, acompanhados de Ângelo Agostini, João Clapp, presidente da Confederação, Taunay,  grande amigo de Rebouças, Silveira da Mota, filho, Quintino Bocaiúva… Dezenas de outros certamente também estavam presentes e podem ser, eventualmente, identificados.

A escravidão no Brasil foi bastante fotografada, mas a abolição, sobretudo a semana de 13 a 20 de maio, nem tanto, mesmo na capital onde havia muitos fotógrafos.  A razão disso não sei. É quase total a ausência de fotos fora da Corte (há apenas duas), quando se sabe que as festividades ganharam todo o país. Mas a consequência disso é que os poucos registros até agora descobertos, umas 25 fotos, ganham extraordinária importância. E o destaque vai todo para Antônio Luiz Ferreira, autor das 15 fotos com que presenteou Isabel. Sua foto mais espetacular é, sem dúvida, a da sessão da Câmara do dia 10 de maio, quando foi aprovado o projeto da abolição. A foto mais curiosa é a de Luís Stigaard, tirada na colônia Isabel, no Rio Grande do Sul. Retrata dezenas de colonos, imigrantes europeus, disciplinadamente organizados em filas, comemorando a abolição, em contraste com a exuberância das celebrações na capital do Império.

Mas o registro importante hoje é a descoberta de que Machado foi à missa. Não era pessoa de frequentar igrejas. Também não apreciava manifestações multitudinárias. Mas a essa missa, a esse ajuntamento de milhares de pessoas, ele compareceu e fica claro na foto seu esforço para aparecer, prensado entre duas robustas figuras uniformizadas. Anos depois, em crônica (Gazeta de Notícias, 14/5/1893), ele anotou sobre o 13 de maio,  “Verdadeiramente, foi o único dia de delírio público que me lembra ter visto”. A missa foi continuação do delírio e é muito bom saber que o tímido, circunspecto e cético Machado estava lá.

[Ver sobre o assunto, Pedro e Bia Corrêa do Lago, Coleção Princesa Isabel. Fotografia do Século XIXRio de Janeiro: Capivara, 2008.]

 

 

Acessando o link para a fotografia Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da Escravatura no Brasil produzida  Antonio Luiz Ferreira,  disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar a imagem e verificar todos os dados referentes a ela.

 

Acadêmicos lamentam a morte de Jose Murilo de Carvalho

(transcrito do site da Academia Brasileira de Letras)

13/08/2023

Arno Wehling- José Murilo deixa uma obra importante para a compreensão do Brasil. Há temas da história do Império e da República, como o papel das elites, a cultura política e a cidadania para os quais deu contribuições que se incorporaram, definitivamente, à nossa maneira de ver a formação brasileira.

Como pesquisador, além dos trabalhos individuais, soube atuar em equipe e liderar exemplarmente.

Como acadêmico, foi dos mais preocupados com o papel institucional da Academia Brasileira de Letras e com a sua memória, que ele cultivava carinhosa e zelosamente, como diretor do arquivo.

Perdi um amigo que admirava e um convívio intelectual que sempre enriquecia. A Academia perdeu um membro que vivenciava como poucos o seu espírito. E o país perdeu um grande brasileiro. Nos consola o fato de que José Murilo será, cada vez mais, referência para quem quiser entender nossa cultura e nosso modo particular de existir.

Merval Pereira – José Murilo de Carvalho era dos nossos maiores historiadores, que explicou nosso passado desde o Império e, a partir desse conhecimento, analisava a política brasileira recente com requintes históricos que ajudavam a antever o futuro, do qual se desiludiu nos últimos anos. É uma perda não apenas para a ABL, onde tinha sob seus cuidados nossos arquivos, mas para a cultura brasileira.

Cacá Diegues – José Murilo de Carvalho foi um brasileiro inesquecível. Ele nos ensinou o que foi este país e a ficarmos ligados a seu futuro. Ele vai fazer muita falta a ABL.

Arnaldo Niskier – Sou testemunha do quanto o acadêmico José Murilo de Carvalho trabalhou pela cultura do nosso país, como historiador excepcional que foi, mas também no âmbito da Academia Brasileira de Letras, o quanto ele coordenou, com paixão, o nosso arquivo.

Ele deu vida ao arquivo da Academia Brasileira de Letras e, sempre presente, emprestou o brilho da sua inteligência e da sua cultura à casa de Machado de Assis.  Nós estamos sofrendo muito a perda dele, ele na verdade é insubstituível.

Rosiska Darcy de Oliveira – O Acadêmico José Murilo de Carvalho cumpriu com excelência não só sua reconhecida carreira de Historiador . Foi igualmente exemplar na gestão dos Arquivos da ABL, nos anos em que ocupou a Diretoria desse setor responsável pela  preservação da memória da Casa. Nossa gratidão a ele por essa dupla contribuição à Cultura Brasileira

Godofredo de Oliveira Neto - Minha referência nos estudos históricos e meu companheiro de tertúlias pelo nosso bairro do Flamengo se foi. Um grande vazio se abre.Historiador 5 estrelas.Entendi o ambiente machadiano quando li Zé Murilo no início da graduação

Jorge Caldeira – O Brasil perde um de seus maiores historiadores. A ABL, entre outras coisas, uma autoridade em arquivos sem par. Este acadêmico reverencia seu mestre: quando era jovem doutor e José Murilo já titular consagrado, ele aceitou colaborar num projeto que eu dirigia, a coleção Formadores do Brasil. A gigantesca qualidade de seu trabalho em equipe fez toda a diferença. Todos deveram muito a ele – especialmente o jovem diretor. Foi uma honra ser seu par, ainda que por pouco tempo. Com esse pequeno depoimento começo a cumprir a missão acadêmica de preservar a memória

Domício Proença Filho – Foi um privilégio conviver com José Murilo. Deixa um profundo vazio no nosso convívio e na cultura brasileira.

Ricardo Cavaliere – Lamento muito, perdemos um de nossos mais prestigiados historiadores. RIP

Edmar Lisboa Bacha -Com seu enorme cabedal em ciência política e sociologia, José Murilo foi um dos maiores historiadores que o país jamais teve. Revelou as entranhas do Império, fez o elogio a Dom Pedro II, estabeleceu as limitações da República, esclareceu o papel central dos militares na história política do país, entre outros temas. Preocupava-o enormemente a enorme desigualdade social do país que, entranhada, o fazia descrer do futuro do Brasil. Esperemos que não seja assim. Perdem seus amigos, perde a Academia, perde o Brasil. Só nos resta pranteá-lo e homenageá-lo

Ruy Castro – Não apenas nós, seus confrades, perdemos. O Brasil perdeu.

Marco Lucchesi – Jose Murilo, um dos grandes intérpretes do Brasil. Renovou a historiografia a partir da segunda metade do século XX, com livros fundamentais que ocupam espaços assegurados, que nasceram clássicos como “A Formação das Almas”, “Os bestializados”, “A construção da ordem”, e outros livros diversos como “Forças Armadas e Política”, tão atual, como a biografia de D. Pedro II. Realmente aprofundando a históriapolítica do século XIX, compreendeu a formação do século XX, a proclamação da República e todos os defeitos do que ainda resta e dos mecanismo para republicanizar a República para lhe emprestar um conteúdo mais cidadão. Foi das pessoas mais probas, corretas e honestas que jamais conheci na minha vida. Tinha um compromisso ético de que não abria mão. Severo, atento, responsabilíssimo, homem de grande coração. Um homem de grande coração, com grandes saudades me despeço de você, com um abraço muito fraterno e amoroso.

Antonio Torres – Foi muito enriquecedor conviver com José Murilo nestes meus anos de ABL. Para além de seus vastos conhecimentos, adorava o seu bom humor. Sua falta será imensa.

Heloisa Teixeira – Eu não cheguei a conviver muito com ele na ABL mas era uma fidelíssima admiradora de sua obra . Perda enorme essa.

Jose Paulo Cavalcanti – O Brasil perde com essa ausência. Viva José Murilo!

Ana Maria Machado – É uma perda imensa – para o país, para a ABL, para os amigos. Um modelo de historiador e intelectual rigoroso, preparadíssimo, atento a tudo, original, leitor sensível.  Um sábio. Um homem íntegro em que se podia confiar sempre, capaz de somar o senso de humor apurado a uma exigente consciência cidadã, republicana, democrática.  E pessoalmente, fiquei muito abalada. Vou sentir muita falta do amigo, de quem eu gostava muito.

Antônio Carlos Secchin: Uma lástima! Além de grande historiador, um homem leal, ético e corajoso.

Leslie Bethell: Uma grande perda para a ABL, para a historiografia brasileira e para mim pessoalmente. Murilo e eu fomos amigos, colegas e co-autores durante mais de 50 anos.

Geraldo Carneiro: Além de intelectual de primeira linha, José Murilo era uma pessoa encantadora, dono de uma ironia sempre pronta para desmontar qualquer ameaça de solenidade. O Brasil vai sentir falta de sua inteligência e de seu senso de humor.

Dia Internacional da Mulher Negra Latina Americana e Caribenha e Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra

A Brasiliana Fotográfica celebra o Dia Internacional da Mulher Negra Latina Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra com uma seleção de imagens de mulheres produzidas por Alberto Henschel (1827 – 1882), Antônio Lopes Cardoso (18? – ?), Augusto Stahl (1828 – 1877), Carneiro & Gaspar (Joaquim Feliciano Alves Carneiro (18? – 1887) e Gaspar Antonio da Silva Guimarães (18? – 1874) ), Felipe Augusto Fidanza (1844 – 1903), João Goston (18? – ?), Marc Ferrez (1843 – 1923)José Christiano Junior (1832 – 1902) e por fotógrafos ainda não identificados.

Foi no encontro de Mulheres Negras Latino-Americanas e Caribenhas, realizado em Santo Domingo, na República Dominicana, em 1992, cujo objetivo era propor a união entre essas mulheres e denunciar o machismo e o racismo, que nasceu o Dia Internacional da Mulher Negra Latina Americana e Caribenha, reconhecido pela ONU no mesmo ano. Também durante o encontro foi estabelecida a criação da Rede de Mulheres Afro-latino-americanas, Afro-caribenhas e da Diáspora.

 

 

Acessando o link para a seleção de fotografias que foram selecionadas para homenagear o Dia Internacional da Mulher Negra Latina Americana e Caribenha e o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

No Brasil, cerca de 22 anos depois, em 2 de junho de 2014, a Lei 12.987/2014, estabeleceu o dia 25 de julho como o Dia Nacional de Tereza de Benguela e da Mulher Negra. A partir da figura da matriarca quilombola Tereza de Benguela, a data tem o propósito de dar visibilidade ao papel da mulher negra na história brasileira. Tereza de Benguela viveu no século XVIII e foi escravizada pelo capitão Timóteo Pereira Gomes. Foi casada com José Piolho, que era o chefe do Quilombo Quariterê ou Quilombo do Piolho, na fronteira de Mato Grosso com a Bolívia, até ser assassinado por soldados do Estado. A partir de sua morte, a Rainha Tereza, como era chamada, assumiu a chefia do quilombo, que liderou por cerca de 20 anos, resistindo contra o governo escravocrata.

Segundo os anais de Vila Bela da Santíssima Trindade, Tereza:

Governava esse quilombo a modo de parlamento, tendo para o conselho uma casa destinada, para a qual, em dias assinalados de todas as semanas, entravam os deputados, sendo o de maior autoridade, tido por conselheiro, José Piolho, escravo da herança do defunto Antônio Pacheco de Morais. Isso faziam, tanto que eram chamados pela rainha, que era a que presidia e que naquele negral Senado se assentava, e se executavam à risca, sem apelação nem agravo.

 

 

 

O GLOBO, 23 de julho de 2014

O GLOBO, 23 de julho de 2014

 

Antes de ser homenageada com a criação da data, Tereza de Benguela já havia sido, no carnaval de 1994, tema do enredo Tereza de Benguela – Uma Rainha Negra no Pantanal. da Escola de Samba Unidos do Viradouro.

 

Amor, amor, amor…
Sou a viola de cocho dolente
Vim da Pérsia, no Oriente
Para chegar ao Pantanal
Pela Mongólia eu passei
Atravessei a Europa medieval
Nos meus acordes vou contar
A saga de Tereza de Benguela
Uma rainha africana
Escravizada em Vila Bela
O ciclo do ouro iniciava
No cativeiro, sofrimento e agonia
A rebeldia, acendeu a chama da liberdade
No Quilombo, o sonho de felicidade

Ilê Ayê, Ara Ayê Ilu Ayê
Um grito forte ecoou (bis)
A esperança, no quariterê
O negro abraçou

No seio de Mato Grosso, a festança começava
Com o parlamento, a rainha negra governava
Índios, caboclos e mestiços, numa civilização
O sangue latino vem na miscigenação

A invasão gananciosa, um ideal aniquilava
A rainha enlouqueceu, foi sacrificada
Quando a maldição, a opressão exterminou
No infinito uma estrela cintilou

Vai clarear, oi vai clarear
Um Sol dourado de Quimera (bis)
A luz de Tereza não apagará
E a Viradouro brilhará na nova era

 

 

Voltou a ser homenageada por uma escola de samba, a Barroca Zona Sul, de São Paulo, desta vez em 2020, com o enredo Benguela… A Barroca Clama a Ti, Tereza.

 

Axé, Tereza
Divina alteza, meu tambor foi te chamar
Sua luz nessa avenida
Incorpora a chama, Yabá
Da magia irmanada por Odé
Não sucumbe a fé, traz a luta de Angola
E a corrente arrastou pro sofrimento
Um sentimento, valentia quilombola
Reluz o ouro que brota em seu chão
Desperta ambição, mas há de raiar o dia
Do Guaporé, ser voz de preservação

Em plena floresta, auê, auê!
Resistência na aldeia, Quariterê!
Na mata, sou mestiço, guardião
O meu grito de guerra é por libertação!

O nosso canto não é apenas um lamento
A coragem vem da alma de quem ergueu o parlamento
Do castigo na senzala à miséria da favela
O povo não se cala, ó Tereza de Benguela!
Vem plantar a paz por essa terra
A emoção que se liberta
E a pele negra faz a gente refletir
Nossa força, nossa luta
De tantas Terezas por aí!

No caminho do amanhã, Obatalá!
É a luz que vem do céu, clareia!
Vem de Benguela o clamor de liberdade
Barroca pede tolerância e igualdade!

 

Uma curiosidade: assim como a ilutração acima foi adotada para representar Tereza de Benguela, a fotografia abaixo, produzida por Alberto Henschel, em torno de 1870, é frequentemente associada a Luiza Mahin, que viveu no século XIX e foi mãe do poeta, advogado e abolicionista Luís Gama, e liderança da Revolta dos Malês, um dos maiores levantes de escravizados promovidos no Brasil, em Salvador, em 1835. Para saber mais sobre essa história, acesse o artigo A mulher negra de turbante, de Alberto Henschel, de autoria de Aline Montenegro Magalhães e Maria do Carmo Rainho, publicada na Brasiliana Fotográfica, em 13 de maio de 2020.

 

 

Acesse aqui a pesquisa Visível e Invisível: A Vitimização de Mulheres no Brasil, realizado pelo Datafolha a pedido do Fórum Brasileiro de Segurança Pública e divulgada em 2 de março de 2023.

 

Montagem feita pelo fotógrafo Januário Garcia (1943 - 2021) com fotos de sua autoria  para o Dia de 2015

Montagem feita por Januário Garcia (1943 – 2021) com fotos de sua autoria para o Dia Internacional da Mulher Negra Latina Americana e Caribenha de 2015

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Fontes:

BANDEIRA, Maria de Lourdes. Território Negro Em Espaço Branco. São Paulo : Brasiliense, 1988.

LACERDA, Thays de Campos. Tereza de Benguela: identidade e representatividade negra. Revista de Estudos Acadêmicos de Letras.

NUNES, Dimalice. Teresa de Benguela: a heroica rainha do Quilombo Quariterê. Aventura da História, 20 de novembro de 2019.

O GLOBO

Portal Geledés

Site Fiocruz

Site ONU Mulheres

Site Senado Federal

Site Sipad

Site Universidade Federal do Recôncavo Baiano

Uma homenagem da Casa Granado ao casal imperial sob as lentes de Marc Ferrez

 

A Brasiliana Fotográfica destaca um registro da fachada da Farmácia Granado produzido por Marc Ferrez (1843 – 1921). No topo da imagem há um quadro a óleo retratando dom Pedro II (1825 – 1891) e a imperatriz Teresa Cristina (1822 – 1889), com o neto primogênito, Pedro Augusto de Saxe-Coburgo e Bragança (1866 – 1934). Foi encomendado pela farmácia ao artista alemão Frederico Steckel (c. 1834 -1921), em homenagem ao “feliz regresso” do casal ao Brasil, em 22 de agosto de 1888 (Gazeta de Notícias, 23 de agosto de 1888, primeira coluna). Em 1880, dom Pedro II havia concedido à drogaria o título de Farmácia Oficial da Família Imperial Brasileira. A Granado, uma das únicas marcas brasileiras que existe desde o reinado de dom Pedro II, completa 150 anos e é o tema da exposição “A história da botica mais tradicional do Brasil”, aberta em 15 de janeiro último, no Museu Histórico Nacional, uma das instituições parceiras do portal. Ficará em cartaz até 3 de maio de 2020.

 

A farmácia dos senhores Granado, conhecido estabelecimento da rua Primeiro de Março, número 12, encomendou ao artista Frederico Antônio Steckel uma decoração especial. A pintura a óleo, reprodução de uma fotografia tirada depois do restabelecimento de D. Pedro, exibia em tamanho natural os avós e o neto: “o favorito”. No alto da grossa moldura, as armas imperiais. Em seda carmesim, tremulavam sobre o quadro os dizeres em letras douradas: “Feliz Regresso de Suas Majestades  Imperiais”. A novidade era a iluminação a gás que fazia brilhar as estrelas do Cruzeiro e as colunas do quadro. Embasbacados, os passantes se amontoavam na vitrine.”(1)

 

 

Acessando o link para a fotografia Pharmacia Drogaria Granado and Ca, produzida em 1888 por Marc Ferrez disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar a imagem e verificar todos os dados referentes a ela.

 

Frederico Steckel, autor da decoração da fachada da Granado

Frederico Steckel, autor da decoração da fachada fotografada por Ferrrez /Acervo de Fernando Argeu Murta

 

 

O casal imperial havia viajado em 30 de junho de 1887 para a Europa. Estiveram inicialmente em Portugal e, de lá, seguiram para Paris. Aconselhado por médicos, dom Pedro II foi para Baden-Baden, e retornou a Paris, onde visitou intelectuais, entre eles, Louis Pasteur. Fez um cruzeiro pela Riviera italiana e foi para a estação de cura de Aix-les-Bains, na França. Também visitou, atendendo a um desejo de sua esposa, as ruínas de Pompeia (Gazeta de Notícias, 17 de junho de 1888, quarta coluna).

A Casa Granado foi fundada por José de Barros Franco e pelo português José Antônio Coxito Granado com o nome “Botica de Barros Franco” e ficava na então denominada rua Direita, uma das mais movimentadas do centro do Rio de Janeiro, atual rua Primeiro de Março, onde permanece até hoje. Em 1876, Barros Franco retirou-se da sociedade e Pedro Gonçalves Bastos tornou-se sócio até 1878 (A Reforma, 16 de setembro de 1876, primeira coluna; Gazeta de Notícias, 19 de maio de 1878, penúltima coluna). A loja tornou-se ponto de encontro de personalidades ilustres como o prefeito Pereira Passos (1836 – 1913) e Rui Barbosa (1849 – 1923). Em 1903, João Bernardo Granado, irmão de Coxito, criou um dos produtos mais populares da botica: o polvilho antisséptico, cuja fórmula teve registro aprovado pelo cientista Oswaldo Cruz. Em 1915, lançamento de outro produto pioneiro: o sabonete de glicerina.

 

(1) PRIORI, Mary del. O Príncipe Maldito. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de autoria de Sérgio Burgi, um dos curadores da Brasiliana Fotográfica, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica,  publicada em 29 de junho de 2018

Série “O Rio de Janeiro desaparecido” V – O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 

Os 180 anos da invenção do daguerreótipo – Os álbuns da Comissão Geológica do Império com fotografias de Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 19 de agosto de 2019

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 4 de dezembro de 2019

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado 6 de março de 2020

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 16 de março de 2020

Bambus, por Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 5 de junho de 2020

O Baile da Ilha Fiscal: registro raro realizado por Marc Ferrez e retrato de Aurélio de Figueiredo diante de sua obra, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 9 de novembro de 2020

O Palácio de Cristal fotografado por Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 2 de fevereiro de 2021

A Estrada de Ferro do Paraná, de Paranaguá a Curitiba, pelos fotógrafos Arthur Wischral (1894 – 1982) e Marc Ferrez (1843 – 1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 22 de março de 2021

Dia dos Pais – Julio e Luciano, os filhos do fotógrafo Marc Ferrez, e outras famílias, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 6 de agosto de 2021

No Dia da Árvore, mangueiras fotografadas por Ferrez e Leuzinger, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 21 de setembro de 2021

Retratos de Pauline Caroline Lefebvre, sogra do fotógrafo Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 28 de abril de 2022

A Serra dos Órgãos: uma foto aérea e imagens realizadas pelos mestres Ferrez, Leuzinger e Klumb, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 30 de junho de 2022

O centenário da morte do fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 12 de janeiro de 2023

O Observatório Nacional pelas lentes de Marc Ferrez, amigo de vários cientistas, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 29 de maio de 2023

No Dia Mundial do Meio Ambiente, a potente imagem da Cachoeira de Paulo Afonso, por Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 5 de junho de 2023

A Fonte Adriano Ramos Pinto por Guilherme Santos e Marc Ferrez, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 18 de julho de 2023

Os 180 anos de nascimento do fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 7 de dezembro de 2023

 

 

 

Fontes:

CARVALHO, José Murilo. Pedro II: ser ou não ser. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

GIANETTI, Ricardo. Frederico Steckel: pintor-decorador do Império e da República. IV Colóquio Internacional. A Casa Senhorial: Anatomia dos Interiores, Universidade de Pelotas no Rio Grande do Sul, 2017

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

PRIORI, Mary del. O Príncipe Maldito. Rio de Janeiro: Objetiva, 2017.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. As barbas do Imperador: D. Pedro II, um monarca nos trópicos. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Site da Granado

ilustração

A Gruta da Imprensa

A Brasiliana Fotográfica destaca uma imagem da Gruta da Imprensa, localizada na Niemeyer, uma das mais bonitas avenidas do Rio de Janeiro. O registro foi produzido por Augusto Malta ( 1864 – 1957), fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro, de 1903 a 1937, e pertence ao Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, uma das instituições parceiras do portal. A Gruta da Imprensa foi inaugurada pelo prefeito Carlos Sampaio (1861 – 1930), dias antes do início da viagem dos reis da Bélgica ao Brasil, em 1920, e sua denominação foi uma homenagem do prefeito à imprensa carioca (Correio da Manhã, 19 de setembro de 1920, na segunda coluna e O Globo, 10 de março de 1926, sob o título “Loucura que passou”).

“Em meio dessa avenida, a comitiva fez alto para inaugurar a “Gruta da Imprensa”, delicada homenagem do Sr. Prefeito. Trata-se de uma gigantesca laje, que da margem da avenida se aprofunda no oceano, deixando , por um capricho da natureza, larga abertura, formando gruta, de fácil acesso, onde o mar irrompe violento sem, contudo, oferecer perigo. Uma longa escadaria com balaustrada foi construída levando a gruta à entrada da qual o Sr. Carlos Sampaio fez colocar em cimento o dístico: – Gruta da Imprensa” (Jornal do Brasil, 18 de setembro de 1920, na quinta coluna).

Tornou-se, na época, um concorrido ponto turístico. Em 1926, foi cogitada a construção de um bar no local, mas os técnicos responsáveis pelas vistorias alegaram falta de segurança na região e alertaram para o iminente desaparecimento da Gruta, devido à “fácil deterioração pela ação da água” (O Globo, 10 de março de 1926, sob o título “Loucura que passou”). Contrariando as previsões de destruição, a Gruta da Imprensa continua lá, mas já não é uma área de lazer utilizada pelos cariocas. Sua presença foi de novo notada na ocasião do desabamento da Ciclovia Tim Maia, justamente na altura da Gruta da Imprensa, em 21 de abril de 2016, cerca de três meses após sua inauguração.

Durante as corridas de automóveis do Circuito da Gávea ou Trampolim do Diabo, concorrido acontecimento social e esportivo que acontecia no entorno do Morro Dois Irmãos e da Avenida Niemeyer, entre os anos 1933 e 1954, e chegava a reunir até 300 mil espectadores, alguns jornalistas esportivos acompanhavam as provas apoiados na mureta da gruta. Em 1935, a Associação Brasileira de Imprensa (ABI) foi presenteada pelo pintor Álvaro de Almeida com um quadro retratando a Gruta da Imprensa. Na ocasião, o gesto foi saudado pelo conselheiro da ABI, jornalista Carlos Maul: “É um quadro que tem para nós dupla valia: a de ser uma obra de beleza e a de fixar um dos mais formosos aspectos da paisagem carioca em que um governo da cidade perpetuou o nome da nossa classe. Esse quadro avivará em nosso espírito a memória do símbolo que ele exprime: a resistência heroica a todas as tempestades” (O Globo, 27 de abril de 2016).

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

 

A beleza das baianas na fotografia do século XIX no Brasil

A Brasiliana Fotográfica homenageia a beleza das baianas na fotografia do século XIX no Brasil na data da comemoração do Dia Nacional da Baiana de Acarajé, publicando imagens produzidas por Alberto Henschel (1827 – 1882) e por Marc Ferrez (1843 – 1923). Estas fotografias da segunda metade do século XIX, período ainda de vigência do trágico regime de escravidão que marcou e moldou a história de nosso país, nos colocam face a face com mulheres que vivenciaram diretamente a sociedade daquele momento em todas as suas contradições, algumas libertas, outras ainda na condição de escravizadas, todas, entretanto, integrantes da construção deste legado de cultura e de resistência. Os registros revelam sua beleza, dignidade e altivez.

A baiana, oriunda das ruas de Salvador, tornou-se ao longo da história uma figura emblemática e tradicional da cultura brasileira. Dá nome, inclusive, a uma ala obrigatória das escolas de samba do país. Foi na casa de uma baiana, Hilária Batista de Almeida, a Tia Ciata (1854 – 1924), no coração da Pequena África, apelido da Praça XI, que o samba nasceu, no Rio de Janeiro. Foi em 27 de novembro de 1916 que o compositor Donga (1889 – 1974) registrou na Biblioteca Nacional a música “Pelo telefone”, considerada o primeiro samba, composta em uma das festas da casa de Tia Ciata.

Acessando o link para as fotografias de baianas de autoria de Alberto Henschel e de Marc Ferrez disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

O Dia Nacional da Baiana de Acarajé foi instituído pela Lei nº 12.206, de 19 de janeiro de 2010, e é, desde então, comemorado anualmente, no dia 25 de novembro, em todo o país. Anteriormente só era festejado na Bahia. O ofício das baianas de acarajé é considerado patrimônio cultural imaterial do Brasil, um reconhecimento oficial e da sociedade à importância da atividade.

“Este bem cultural de natureza imaterial, inscrito no Livro dos Saberes em 2005, é uma prática tradicional de produção e venda, em tabuleiro, das chamadas comidas de baiana, feitas com azeite de dendê e ligadas ao culto dos orixás, amplamente disseminadas na cidade de Salvador, Bahia. Dentre as comidas de baiana destaca-se o acarajé, bolinho de feijão fradinho preparado de maneira artesanal, na qual o feijão é moído em um pilão de pedra (pedra de acarajé), temperado e posteriormente frito no azeite de dendê fervente. Sua receita tem origens no Golfo do Benim, na África Ocidental, tendo sido trazida para o Brasil com a vinda de escravos dessa região.”

Alguns dos aspectos abordados quando o ofício foi registrado foram a indumentária da baiana, a preparação do tabuleiro e locais onde se instalam e os significados atribuídos pelas baianas ao seu ofício.

 

 

 

Link para o artigo O enigma da “negra da Bahia”, de Hanayrá Negreiros, publicado em 16 de março de 2021, na Revista de Fotografia Zum*

*Essa informação foi inserida no artigo em 17 de março de 2021.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Diamantina, Chichico Alkmim (1886 – 1978) e Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987)

A Brasiliana Fotográfica homenageia Diamantina, cidade mineira fundada em 6 de março de 1831, com uma seleção de imagens produzidas no século XIX e nas primeiras décadas do século XX. As fotografias do século XIX são de autoria de Augusto Riedel e foram produzidas durante uma expedição pelo interior do Brasil acompanhando a comitiva de D. Luis Augusto Maria Eudes de Saxe Coburgo Gotha e por seu irmão D. Luis Philippe, em 1868.

Os registros produzidos entre as décadas de 1910 e 1950 são do mineiro Chichico Alkmim (1886 – 1978), autodidata e pioneiro da fotografia em Diamantina. A gestão do acervo do fotógrafo, de 5.549 negativos de vidro, foi transferida para o Instituto Moreira Salles, em 2015. A obra de Chichico, que compreende imagens da arquitetura diamantinense, sua religiosidade, costumes, ritos e retratos de seus habitantes, é uma das principais referências da memória visual de Minas Gerais. Foi o mestre do fotógrafo Assis Horta(1918 – 2018), mineiro de Diamantina, que se tornou conhecido por registrar a classe trabalhadora na era Vargas.

Além disso, a Brasiliana Fotográfica oferece a seus leitores a crônica Encanto de Diamantina, do poeta e escritor mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987), publicada no Jornal do Brasil, de 19 de outubro de 1972 (Jornal do Brasil, 19 de outubro de 1972, última coluna).

 

“Encanto de Diamantina”

Carlos Drummond de Andrade

De Diamantina se pode dizer o que em Diamantina se diz musicalmente no famoso tim-tim:

Quem não gosta dela,

de quem gostará?

Quem, conhecendo Diamantina, será capaz de não gostar de Diamantina? Mesmo não conhecendo: ouvindo falar. Pois, entre outras excelências, povo de Diamantina é povo que canta, e isto significa riqueza de coração. Canta, sem necessidade de festival de canção, essa psicose do grito que já começa a invadir cidades mineiras.

À noite, depois do batente – é Aires da Mata Machado Filho que informa – há sempre um barzinho aberto a pessoas de temperamento melódico. Finda a libação mais ou menos discreta – o que depende antes do frio do que da vontade – os cidadãos saem para a rua, providos de violão, clarineta, saxofone, flauta. Saem “cantando à toa”. Pelo prazer de cantar. Depois é que se lembram, aniversário de Fulano? Então vamos lá? Vamos. Em frente à janela fechada de Fulano – fechada, parece, deliberadamente, para o gosto de abrir-se às lufadas de música – a turma bate um castelo. Pode ser noite alta, olha lá a janela se abrindo feliz. Havendo modinha, Diamantina ignora o sono. Acabada a cantoria, pensam que os seresteiros vão dormir? Aí começa a segunda parte, mais íntima, de ternura ou dor-de-cotovelo: eles se dispersam, mas em direção a outras janelas, atrás das quais dormem (ou esperam) suas respectivas amadas. Nesse deambular já de madrugada, os seresteiros voltam a encontrar-se, cruzando os caminhos do sentimento. Assim é a noite em Diamantina: música por todos os lados, abrindo janela e alma, entre o chão e os sobrados. E, em boa parte, música de tradição local, obra de compositores e poetas diamantinenses, conhecidos ou anônimos, que desafiam o tempo.

O peixe-vivo, marca de Diamantina, que cobre vasta região mineira, conta-nos o mesmo Aires, foi enriquecido de trovas feitas no Rio de Janeiro, por volta de 1939. Manuel Bandeira fez quatro, a primeira delas aproveitada, com variante, na Lira dos Cinquent´anos:

Vi uma estrela tão alta,

Vi uma estrela tão fria.

Estrela, por que me deixas

sem a tua companhia?

Vinícius de Morais fez duas por conta própria, e uma de parceria com Pedro Nava. Este, por sua vez, compôs duas e mais uma quintilha. Ouçamos Nava:

Dom Diniz, o rei poeta,

derrotou a mouraria

para merecer um pouco

dessa tua companhia.

E Carlos Sá, cearense-mineiro:

Vivo alegre na tristeza

vivo triste na alegria,

no desejo e na saudade

dessa tua companhia.

Mas Diamantina não é apenas serenata e coreto. Como nas boas cidades antigas de Minas, tem tesouro escondido, como por exemplo “duas garrafas de ouro e três chifres de diamante”, e quem cavar junto ao córrego Pururuca, atrás do quartel do III BP, é capaz de encontrá-los: segredos de padre, à espera de decifrador. Lendas, festas religiosas e populares que teimam em resistir na medida do possível à descaracterização universal da sociedade mercantil. Igrejas antigas de fino acabamento artístico, sobrados que a gente desejaria ver em pé para sempre, não vá o progresso arrasá-los. Diamantina enfrenta o problema da industrialização. Precisa criar riquezas outras além das que derivam do temperamento amável de seus filhos. Lá se fala agora em incentivos fiscais, energia elétrica, e até já se exporta a flor da sempre-viva para outros países.

Que Deus conserve Diamantina gostosa, musical e hospitaleira depois que subir nas asas do chamado desenvolvimento. É o voto que faço depois de ler Dias e Noites em Diamantina, livro que o bom Aires acaba de publicar corajosamente em edição de autor, e tão chamativo, tão cheio de graça e apelo sensorial, que dá vontade de sair correndo, e:

_ Rápido, uma passagem para Diamantina, mas de ida só, porque eu fico por lá!

 

Acessando o link para as fotografias de Diamantina disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Pequeno histórico de Diamantina

A formação de Diamantina está ligada à exploração de diamante e de ouro.  Foi  Jerônimo Gouvêa que, a partir da descoberta de uma grande quantidade de ouro nas confluências do Rio Piruruca e do Rio Grande, deu início à ocupação do território. O povoado, então denominado Arraial do Tejuco, começou a ser formado nas primeiras décadas do século XVIII, sempre seguindo as margens dos rios que eram garimpados. Aos poucos foi surgindo o conjunto urbano de Diamantina. O Arraial do Tijuco emancipou-se do município do Serro, em 1831, e passou a se chamar Diamantina.

Uma das cidades históricas mais conhecidas e visitadas do Brasil, Diamantina, o Portal do Vale do Jequitinhonha, é  também o ponto inicial da Estrada Real, que levava ouro e diamantes até Paraty, no Rio de Janeiro. A cidade conserva o casario colonial, as edificações históricas e as igrejas seculares. Em 1938, o conjunto arquitetônico de seu centro histórico foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, e, em 1999,  recebeu da Unesco o título de Patrimônio Cultural da Humanidade. Além do patrimônio construído, a cidade possui um rico patrimônio natural e cultural, com uma marcante tradição religiosa, folclórica e musical.

Foi em Diamantina, na época Arraial do Tijuco, que a escrava alforriada Chica da Silva (c. 1732-1796) viveu. É também a cidade natal do ex-presidente do Brasil, Juscelino Kubitschek (1902-1976).

 

Publicações relacionadas a Chichico Alkmim:

 

Família, texto de Silviano Santiago sobre uma fotografia de autoria de Chichico Alkmim

O anfitrião de Chichico, por Elvia Bezerra.

O retratista de Diamantina, por Manya Millen

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica