Os 200 anos do Jardim da Luz, em São Paulo

Com cinco fotografias produzidas pelo suíço Guilherme Gaensly (1843-1928) e uma pelo francês Fréderic Manuel (1868-1961) a Brasiliana Fotográfica celebra os 200 anos do Jardim da Luz, em São Paulo. Os registros dos dois fotógrafos estrangeiros foram realizados na década de 1900. O Jardim da Luz foi criado por uma Ordem Régia da Coroa Portuguesa, de 19 de novembro de 1798, e suas obras foram iniciadas, no ano seguinte. Foi inaugurado, em 1825, como Jardim Botânico (Império do Brasil: Diário Fluminense, 17 de outubro de 1825, primeira coluna).

 

 

Em 1838, foi denominado Jardim Público. Em 1916, recebeu oficialmente a denominação de Jardim da Luz devido a sua proximidade com o Convento da Luz. É o mais antigo parque paulistano, tendo sido o primeiro espaço de lazer da cidade. Até o final do século XIX era a principal atração de São Paulo.

 

 

Entre os últimos anos dos oitocentos e os primeiros do século XX, no auge da economia cafeeira, o Jardim da Luz passou por uma grande reforma. Teve períodos de degradação e, em 1981, foi tombado pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico do Estado de São Paulo – CONDEPHAATE. Em 1999, foi iniciado seu restauro.

 

Acesse aqui o link para as fotografias do Jardim da Luz disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

Suas principais  atrações são suas vegetação e fauna; suas esculturas, dentre elas obras de Lasar Segall (1889-1957), Maria Martins (1894-1973) e Victor Brecheret (1894-1955); e a Herma de Garibaldi com um busto de autoria de Emilio Gallori (1846-1924), inaugurada, em 1910, pelo poeta Olavo Bilac (1865-1918), em homenagem a Giuseppe Garibaldi (1807-1882). Também destacam-se seu coreto, sua gruta e cascata, um aquário subterrâneo, um antigo ponto de bonde e a Casa do Administrador.

 

 

 

O Jardim da Luz tem 113 400 m² e está localizado na Avenida Tiradentes. É atualmente um importante espaço de lazer e cultura da cidade de São Paulo. Fica ao lado da Estação da Luz, cujo edifício atual, projeto do britânico Charles Henry Driver (1832-1900), foi inaugurado em 1º de março de 1901. No Jardim, encontra-se o edifício sede do mais antigo museu da cidade, a Pinacoteca de São Paulo, criada pelo governo estadual paulista, em 1905.

 

 

 

Brevíssimos perfis dos fotógrafos Fréderic Manuel e Guilherme Gaensly

 

Frédéric Manuel (1868 – 1961)

 

As fotografias paulistanas do francês Frédéric Manuel (1868-1961), sobre quem há ainda pouquíssima informação, foram realizadas, em 1906, para Menotti Levi (18? – 19?), editor do Guia Levi, publicado, em São Paulo, de 1899 a meados até 1984 (Jornal do Brasil, 19 de novembro de 1900, penúltima colunaA Notícia (RJ), 27 e 28 de agosto de 1906, segunda coluna), cuja utilidade já está comprovada pela aceitação que o público lhe dispensa (Correio Paulistano, 5 de fevereiro de 1905, penúltima coluna). O Guia Levi era uma publicação mensal de horários de trens, de bondes e outras informações úteis (Correio Paulistano, 8 de agosto de 1908, penúltima coluna), Uma curiosidade: o grande arquiteto e urbanista paulistano Rino di Menotti Levi (1901 – 1965) é filho de Menotti Levi.

 

Guilherme Gaensly (1843-1928)

 

 

O suíço Guilherme Gaensly nasceu em 1843, em Wellhausen, cantão de Thurgau, na Suíça.  Foi para Salvador, na Bahia, aos 5 anos de idade. Em 1871, após um período de aprendizado no ateliê de Alberto Henschel (1827 – 1882) na capital baiana, estabeleceu-se como fotógrafo. Destacou-se como retratista e como fotógrafo de paisagens urbanas e rurais. Em 1882, Rodolpho Lindemann (c. 1852 – 19?) tornou-se seu sócio e, em 1894, a próspera empresa Gaensly & Lindemann abriu uma filial em São Paulo, onde Gaensly foi morar. Foi o autor de importantes registros do estado e da cidade de São Paulo, vendidos como fotografias em papel albuminado e colotipias impressas na Suíça e comercializadas em álbuns. Foi o mais importante divulgador da nova imagem do estado como líder do Brasil.

Ao lado de seu contemporâneo Marc Ferrez (1843 – 1923), Gaensly foi provavelmente o fotógrafo mais publicado em postais no Brasil. Em 1899, a empresa The São Paulo Railway, Light and Power Company, o contratou como fotógrafo oficial, função que exerceu até 1925, três anos antes de sua morte, ocorrida em 20 de junho de 1928.

Para conhecer mais a vida e a obra de Gaensly, acesse o artigo São Paulo sob as lentes de Guilherme Gaensly (1843-1928), publicado na Brasiliana Fotográfica, em 25 de janeiro de 2017.

 

Fontes:

Folder Parque Jardim da Luz

GLUECK, Silvia Costa; RIBEIRO, Monica Cristina; GIOSA, Celia Rolim; DIAS, André Camili. A Casa do Administrador. Prefeitura do Estado de São Paulo, março de 2008.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

OTAHKE. Ricardo; DIAS, Carlos. Jardim da Luz. Um museu a céu aberto. Senac São Paulo, 2011.

PEREIRA, Fabio Mariano Cruz. Luzes da impressão – Oficinas tipográficas nas antigas fotografias de São Paulo, in Brasiliana Fotográfica, 16 de outubro de 2024.

Portal de Educação Ambiental

Site Cidade de São Paulo

Site CONDEPHAATE

Site Pinacoteca de São Paulo

WANDERLEY, Andrea C. T. São Paulo sob as lentes de Guilherme Gaensly (1843-1928), in Brasiliana Fotográfica, 25 de janeiro de 2017.

 

Oswaldo Cruz, o Dr. Photographo, em Paris

No artigo de hoje, de autoria da jornalista Cristiane d´Avila e da historiadora Ana Luce Girão, ambas da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, são divulgadas imagens inéditas de Paris, realizadas em 1907, “frutos do olhar de um célebre autor: Oswaldo Cruz”.

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Oswaldo Cruz produzidas em Paris, em 1907, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

O cientista flanou pelas ruas de Paris e produziu fotografias estereoscópicas com um Verascope Richard, sistema de integração entre câmera e visor, que permitia ver imagens em 3D, produzidas a partir de duas fotos quase iguais, porém tiradas de ângulos um pouco diferentes. Eram impressas em uma placa de vidro e reproduziam a sensação de profundidade de maneira bem próxima da visão real. No Brasil se destacaram na produção de registros estereoscópicos o comerciante, colecionador de selos e pinturas e fotógrafo amador carioca Guilherme dos Santos (1871 – 1966) e o francês Revert Henrique Klumb (1826 – c. 1886), “Photographo da Casa Imperial”, favorito da imperatriz Teresa Christina e professor de fotografia da princesa Isabel. A Casa Leuzinger também produziu fotografias estereoscópicas. A técnica da estereoscopia foi desenvolvida pelo escocês David Brewster (1781 – 1868), em 1844, poucos anos após a invenção da fotografia. O lançamento do Verascope, pela Maison Richard, na França, em 1893, contribuiu para que a estereoscopia voltasse a se proliferar, atraindo a atenção de fotógrafos amadores e de foto clubes europeus.

 

 

Oswaldo Cruz, o Dr. Photographo, em Paris

 Cristiane d’Avila e Ana Luce Girão*

 

 

Entre os meses de abril e dezembro deste ano, Brasil e França realizam uma série de eventos, em ambos os países, para reforçar as relações diplomáticas bilaterais e as parcerias entre instituições brasileiras e francesas. Trata-se da Temporada Brasil-França, ano cultural estabelecido pelos presidentes Luiz Inácio Lula da Silva (1945-) e Emmanuel Macron (1977-), que coincide com os dez anos do Acordo de Paris e a COP 30, em Belém do Pará, em dezembro próximo. A proposta é debater temas referentes a clima e transição ecológica, diversidade, democracia e globalização equitativa.

Motivado pela celebração, o Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz traz a público imagens estereoscópicas inéditas de Paris, sob a guarda do arquivo histórico, datadas de 1907. O ineditismo, nesse caso, tem duplo sentido: além de não divulgadas até então, as imagens são frutos do olhar de um célebre autor: Oswaldo Cruz (1872-1917), em suas deambulações pelas ruas da capital francesa. Neste artigo, seguiremos o caminhante Dr. Photographo, alcunha carinhosamente atribuída ao médico por estudantes da Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro, em sua flânerie pela cidade-luz, durante a qual registrou suas emblemáticas praças e monumentos.

 

 

“Em Paris não se escreve, vive-se.”, sentenciou o genial João do Rio, pseudônimo mais famoso do jornalista e cronista Paulo Barreto (1881-1921), em carta ao amigo português, o poeta e pedagogo João de Barros (1881-1960), em fevereiro de 1909[i]. O sentimento captado pelo flâneur da alma encantadora das ruas pode ter igualmente arrebatado seu contemporâneo na Academia Brasileira de Letras, o cientista Oswaldo Cruz , que viveu a cidade-luz registrando suas praças e monumentos por estereoscópio[ii]. Homem de seu tempo atento aos avanços tecnológicos da modernidade, Oswaldo parece ter se deslumbrado com a capital francesa, lócus da belle époque por excelência, o que o declara nas imagens aqui publicadas.

 

 

O périplo acadêmico-científico do médico, então diretor do Instituto Soroterápico Federal (que logo passou a Instituto Oswaldo Cruz, embrião da Fiocruz), foi iniciado em Paris, de onde rumou para outras capitais da Europa, Estados Unidos e México. Como de costume à época, o roteiro do cientista pelo continente europeu começou em Lisboa, onde o “Avon”, navio transatlântico da grandiosa companhia de transporte britânica Royal Mail Steam Packet Company, aportou em 7 de agosto de 1907.

 

 

A bordo do navio, ainda em alto-mar, Cruz escreveu duas longas cartas à esposa Emília, a quem carinhosamente chamava de Miloca ou Miloquinha. Nas missivas, o cientista queixou-se: “O spleen que me devora em palavras representadas por estes garranchos (…) evade-me o espírito e assenhora-se por completo de mim”. O comentário melancólico, tão ao gosto do Decadentismo baudelairiano e dos estrangeirismos, não impediu que Oswaldo observasse que o “flirt” (flerte) “imperava em todos os cantos” do “Avon”.

 

Após desembarcar em Lisboa, onde ficou tempo suficiente para visitar a cidade serrana de Sintra e almoçar no famoso restaurante Leão D’Ouro, partiu no mesmo dia para Paris, permanecendo alguns dias na cidade. Da capital francesa foi para Berlim e, posteriormente, Nova Iorque, Washington e Cidade do México.

O sucesso em Berlim

A viagem foi motivada pelo convite do governo alemão para que o Brasil participasse do XIV Congresso Internacional de Higiene e Demografia, que se reuniria em Berlim, em setembro daquele ano. Representando o Brasil, o então Instituto Soroterápico Federal apresentou uma exposição composta, entre outras coisas, por peças anátomo- patológicas, coleções de mosquitos, imagens do expurgo dos mosquitos nas residências e modelo de isolamento hospitalar dos pacientes de febre amarela. No evento, os cientistas demonstraram como se deu o combate vitorioso contra a febre amarela no Rio de Janeiro.

 

 

A exposição do Instituto Soroterápico Federal recebeu o 1º prêmio, representado por uma medalha de ouro oferecida pela Imperatriz alemã Augusta Vitória de Schleswig-Holstein (1858 – 1921). A enorme repercussão deste prêmio no Brasil trouxe um grande prestígio para Oswaldo Cruz e para o instituto que dirigia. Isso fez com que sua viagem se estendesse.

 

 

Assim, por designação do governo brasileiro, seguiu para a Cidade do México (passando antes para conhecer Nova Iorque) para participar da 3ª Convenção Sanitária Internacional das Repúblicas Americanas. Da capital mexicana partiu para Washington, uma vez que o então embaixador brasileiro, Joaquim Nabuco (1849 – 1910), agendara um encontro dele com o presidente Theodore Roosevelt (1858 – 1919). O objetivo da missão era comunicar ao chefe estadunidense a extinção da febre amarela no Rio de Janeiro.

Nessa mesma temporada, da América cruzou mais uma vez o Atlântico Norte para visitas às Escolas de Higiene e Medicina Tropical de Londres e Liverpool. Na carta que escreve de Liverpool à esposa, em 21 de dezembro de 1907, Oswaldo diz que pretende finalizar sua viagem em Paris, para descansar e comprar os presentes e vestidos que ela havia encomendado a ele. Outra ‘missão’ que deveria cumprir na capital era a promessa, também feita a Miloca, de depositar uma placa comemorativa na Igreja de Notre Dame des Victoires por uma graça recebida.

Em 19 de outubro escreveu a Egydio Salles Guerra (1858 – 1945), seu amigo e posterior biógrafo: “Depois de ter percorrido uma longa via sacra estou instalado no meu antigo “quartier dos Champs Elysées: Avda • Marignan, 17, num pequeno rez de chaussée mais ou menos confortável!”[iv].

 

 

Em carta seguinte, datada de 5 de janeiro de 1908, se congratula com a esposa pelo aniversário de casamento de ambos, dá notícias sobre o andamento das encomendas de vestidos e chapéus, e informa que partirá de Paris em 24 do mesmo mês, devendo finalmente chegar ao Rio de Janeiro em 10 de fevereiro (Gazeta de Notícias, 10 de fevereiro de 1908, sétima coluna).

O retorno a Paris, de fato, teria sido sugestão de Salles Guerra, muito preocupado com a saúde de Oswaldo Cruz. Salles Guerra havia sugerido que Oswaldo fosse para a Suíça e permanecesse algum tempo no Sanatório de Val Mont, em Montreaux para tratar de uma nefrite, recentemente diagnosticada, motivo de grande preocupação de sua família e amigos. Conselho que o amigo e “paciente” não acatou, afirmando ter horror a sanatórios.

Na última carta da série (iniciada em agosto de 1907), datada de 14 de janeiro de 1908, escrita de Paris, vê-se um Oswaldo Cruz circunspecto, que evita contatos formais e sofre com o rigor do inverno parisiense. Imerso em grande nostalgia do tempo em que morou com a esposa e os três filhos mais velhos na Rue Marbeuf, entre 1897 e 1898, relata que os lagos do Bois de Boulogne estão congelados, atraindo muitos patinadores, e pede para Miloca informar às crianças que o circo da Avenue des Champs Elysée[v] já não existe mais.

 

[i] RIO, João do. Cartas de João do Rio a João de Barros e Carlos Malheiro Dias. Org.: Cristiane d’Avila. Prefácio: Zuenir Ventura. Rio de Janeiro: Funarte, 2013, p.75.

[ii] Para saber mais sobre a estereoscopia, ver o interessante artigo A estereoscopia e o olhar da modernidade de Maria Isabela Mendonça dos Santos na Brasiliana Fotográfica.

[iii] As cartas de Oswaldo Cruz para sua esposa compõem este Dossiê e parte delas está transcrita em Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz – Acervos

[iv] SALES GUERRA, Egydio. Oswaldo Cruz. Primeira Edição. Rio de Janeiro: Casa Editora Vecchi Limitada, 1940, p.391.

[v] Cirque d’Été, demolido em 1900.

 

* Cristiane  d’Avila é jornalista e Ana Luce Girão é historiadora do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)

Série “Conflitos” X – Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963), fotógrafo e cinegrafista da FEB

Com fotografias do Cemitério de Pistoia, na Itália, pertencentes ao acervo do Museu da República, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, e um pequeno perfil e cronologia do autor dos registros, Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963), fotógrafo e cinegrafista da Força Expedicionária Brasileira (FEB), o portal lembra os 80 anos do Dia da Vitória na Europa, ocorrido em 8 de maio de 1945, data formal da derrota dos nazistas e da vitória das forças aliadas na Segunda Guerra Mundial. No cemitério foram sepultados os corpos dos integrantes da FEB durante a Segunda Guerra Mundial.  A cronologia de Horacio é a 69ª publicada pelo portal, que acredita que este trabalho seja uma importante contribuição para a historiografia da fotografia brasileira.

 

 

Acessando aqui o link para as fotografias de autoria de Horacio Coelho disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Os restos mortais dos integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) permaneceram no Cemitério de Pistoia até 5 de outubro de 1960, quando foram transladados para o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, localizado no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Em junho de 1965, em substituição ao cemitério, foi erguido no local o Monumento Votivo Militar Brasileiro (MVMB) como homenagem aos expedicionários brasileiros que morreram durante a guerra.

Inicialmente, o Brasil se manteve neutro na Segunda Guerra Mundial, porém, com o afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães, em 1942, o então presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) alinhou o país às nações aliadas, declarando guerra ao países do Eixo.

 

 

 

Brevíssimo perfil de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963)

 

“A tomada de Monte Castelo, os terríveis combates de Montese, tudo foi gravado em celulóide e perpetuado em sal de prata, imagem por imagem, graças a objetiva de Horacio Coelho, sua picareta de trabalho na paz e sua arma de combate na guerra”.

Revista da Semana, 7 de setembro de 1945

 

 

Nasceu em Fernando de Noronha, em Pernambuco, em 2 de setembro de 1890, Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho, filho de Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836 – 1902) e Francisca Cavalcanti de Souza Leão Coelho (c.1859 – 1929). Era neto do português Joaquim José Coelho (1797 – 1860), o Barão da Vitória. Teve com Maria Emilia Coelho (1894 – 1948), com quem foi casado, seis filhos: Pojucan, Rômulo, Rêmulo, Maria Clementina, Murilo e Alberto.

Como cinegrafista e fotógrafo do Ministério da Guerra participou como correspondente da Segunda Guerra Mundial, operando junto à Força Expedicionária Brasileira, na Itália. Foi nomeado pelo marechal Mascarenhas de Moraes (1883 – 1968) (Diário de Pernambuco, 8 de junho de 1944, segunda coluna). Algumas de suas fotos foram publicadas em artigos da Revista da SemanaOs brasileiros combatem sob a neve com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 10 de março de 1945) e Onde a cobra fuma (Revista da Semana, 24 de março de 1945). Outros correspondentes de guerra contemporâneos de Horacio que trabalharam para a imprensa brasileira foram: Allan Fischer (1913 – 1988) (fotógrafo do escritório do Coordenador de Assuntos Econômicos Interamericanos), Egídio Squeff (1911 – 1973) (O Globo), Fernando Stamato (1917 – 1993) (cinematografista do DIP), Frank Norall (19? – ?) (Escritório do Coordenador de Assuntos Interamericanos), Henry Bagley (19? – ?) (Associated Press), Joel Silveira (1918 – 2007) (Diários Associados), Raul Brandão (19? – ?) (Correio da Manhã), Rubem Braga  (1913 – 1990) (Diário Carioca) e Thassilo Mitke (19? – ?) (DIP).

Foi um dos correspondentes de guerra condecorados com a Medalha de Campanha, em 1945 (Diário de Notícias, 6 de dezembro de 1945, segunda coluna). Dois anos depois, em 1947, foi agraciado com uma Medalha de Guerra em uma solenidade realizada no Quartel do Batalhão de Guardas (Correio da Manhã, 20 de março de 1947, segunda coluna).

Com sua aposentadoria, na década de 1950, o cargo de cinegrafista do Exército foi extinto, em 1956 (Portal da Câmara dos Deputados).

Em 8 de maio de 1958, participou da solenidade comemorativa do 13º ano do fim da Segunda Guerra Mundial, realizada na Associação Brasileira de Imprensa quando os correspondentes de guerra foram homenageados. Rubem Braga e Fernando Stamato, dentre outros também estiveram presentes (Diário de Notícias, 9 de maio de 1958, última coluna).

Faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de agosto de 1963, e foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier (Jornal do Commercio, 10 de agosto de 1963, segunda coluna).

Uma curiosidade: Na foto abaixo, o último ajoelhado da esquerda para a direita é Fernando Stamato, filho do fotógrafo e pioneiro do cinema nacional João Stamato (1886 – 1951), que participou da viagem científica promovida pelo Instituto Oswaldo Cruz, em que um grupo de cientistas e engenheiros, entre setembro de 1911 e fevereiro de 1912, percorreu os vales do São Francisco e Tocantins, documentando a jornada, registrando as casas, costumes e pessoas, demonstrando conhecimento das técnicas, além de sensibilidade para fotografar a vida naqueles sertões. O cineasta Fernando Stamato seguiu os caminhos do pai, tendo sido cinegrafista da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra, trabalhando como correspondente na Itália. Viúvo, partiu para os campos da batalha para documentar os movimentos das tropas brasileiras. Sua esposa Lourdes Soares Dutra (1917-1941) havia falecido no parto da filha, que também não resistiu. Durante o conflito mundial, em pleno front, Fernando se apaixonou pela italiana Rossana Bonfatti. Casaram-se em Pistóia (Itália) e, no final da guerra, tiveram uma menina, nascida em 14 de setembro de 1945. No ano seguinte, nasceria outro filho.

 

 

Acesse aqui a cronologia de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963)

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Esse artigo passou a integrar a série Conflitos, em 20 de março de 2026.

 

Fontes:

Allan Fischer Photo

Atlas Histórico do Brasil – FGV

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MORADO, Maria de Fátima. O Cemitério de Pistoia e a memória dos combatentes da FEB in Brasiliana Fotográfica, 18 de fevereiro de 2022.

O GLOBO, 14 de junho de 2015

Portal da Câmara dos Deputados

SANTOS, Ricardo Augusto. João Stamato, um fotógrafo nos sertões in Brasiliana Fotográfica, 9 de fevereiro de 2021.

Site Family Search

Site INPI

Site Memorial da FEB

Portal Domínio Público

Cronologia de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963)

Cronologia de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963)

 

 

1890 – Em 2 de setembro, nascimento, no Presídio de Fernando de Noronha, em Pernambuco, de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho, filho de Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836- 1902) e Francisca Cavalcanti de Souza Leão Coelho (c. 1859 – 1929). Na ocasião, seu pai era diretor do presídio (Diário de Pernambuco8 de junho de 1890, primeira coluna13 de julho de 1890, última coluna).

 

Certidão de nascimento de Horacio de Gusmão / Family Search

Certidão de nascimento de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho / Site Family Search

 

Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836 – 1902), pai de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho  / Site Family Search

 

 

Era neto de Joaquim José Coelho (1797 – 1860) e de Maria Bernardina de Gusmão (1783 – 1885), barão e baronesa da Vitória.

 

 

 

1902 – Falecimento de seu pai, Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836 – 1902) (A Província (PE), 15 de maio de 1902, quarta coluna).

No Colégio Porto Carrero, no Recife, foi aprovado com distinção na segunda série da aula infantil (A Província (PE), 11 de dezembro de 1902, terceira coluna).

1905 / 1906 Estudava no Colégio Diocesano São José, no Rio de Janeiro (A União, 17 de agosto de 1905, segunda colunaJornal do Brasil, 25 de dezembro de 1905, quinta colunaCorreio da Manhã, 15 de abril de 1906, terceira coluna).

1911 - Foi nomeado pelo governador do Amazonas, Antonio Clemente Ribeiro Bittencourt (1853 – 1926), com a permissão do ministro da Guerra, Dantas Barreto (1850 – 1931), auxiliar e fotógrafo da Comissão Amazonense de Limites (Jornal do Commercio (AM), 10 de julho de 1911, primeira coluna).

Chegou no Recife, vindo de Manaus, a bordo do vapor Ceará (A Província (PE), 11 de outubro de 1911, última coluna).

 

 

1913 – Casou-se com Maria Emilia Coelho (1894 – 1948) e tiveram seis filhos: Pojucan (19 -?), Rômulo (1918 – 1971), Rêmulo (1921 – 1985), Maria Clementina (1928- 2016), Murilo (1929 – 1970) e Alberto (19? – ?).(Diário de Pernambuco, 26 de fevereiro, de 1913, quarta coluna).

1915 - Era guarda do corpo administrativo da Escola de Estado Maior, na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro (Almanak Laemmert, 1915, última coluna).

1918 – Por ordem do ministro da Guerra, José Caetano de Faria (1855 – 1936), o inspetor de alunos Horacio de Gusmão Coelho passou a servir no 1º Distrito de Artilharia de Costa (Jornal do Commercio, 12 de janeiro de 1918, terceira coluna).

1920 - Devido à iminente reabertura da Escola de Estado Maior, na Praia Vermelha, no Rio de Janeiro, o ministro da Guerra, João Pandiá Calógeras (1870 – 1934) pediu que se apresentassem alguns funcionários adidos de instituições subordinadas ao ministério da Guerra, dentre eles Horacio (O Paiz, 13 de fevereiro de 1920, sexta coluna).

Horacio foi identificado como empregado da Light. Teria arrendado o teatro Politheama e sido passado para trás no negócio* (O Paiz, 3 de outubro de 1920, quarta colunaO Jornal, 3 de outubro de 1930, terceira coluna).

1921 – Foi nomeado pelo ministro da Guerra, Pandiá Calógeras, conservador preparador do gabinete fotográfico da Escola de Estado Maior (O Paiz, 10 de setembro de 1921, quinta colunaGazeta de Notícias, 10 de setembro de 1921, quarta coluna).

1923 – Identificado como empregado público, pediu ao Ministério da Agricultura privilégio para uma nova armação giratória destinada a diversões públicas. A patente foi concedida* (Jornal do Commercio18 de abril de 1923, quinta coluna5 de junho de 1923, penúltima coluna).

 

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1925 – Ficou ferido em uma explosão em um barracão nos fundos de um prédio na Rua Emerenciana, em São Cristóvão, quando eram manipulados petardos por dinamiteiros (O Imparcial, 6 de maio de 1925, segunda coluna).

Por abandono de emprego, foi exonerado do cargo de conservador preparador do gabinete fotográfico da Escola de Estado Maior (O Paiz, 19 de junho de 1925, penúltima coluna).

1926 – O ministro da Fazenda, Aníbal Freire da Fonseca (1884 – 1970), enviou ao ministro da Guerra, Fernando Setembrino de Carvalho (1861 – 1947) o processo originado pelo requerimento da esposa de Horacio, Maria Emilia Coelho, solicitando o recolhimento das contribuições para o montepio devidas por Horacio, cujo paradeiro era ignorado (Jornal do Commercio, 1º de janeiro de 1926, primeira coluna).

1928 – Ele e sua esposa compareceram à missa de sétimo dia do ex-ministro da Fazenda, Esmeraldino Bandeira (1865 – 1928) (Jornal do Commercio, 12 de abril de 1928, quarta coluna).

1929 – Falecimento de sua mãe, Francisca Cavalcanti de Souza Leão Coelho (c. 1859 – 1929), na residência de Horacio, no Rio de Janeiro (Diário da Manhã (PE), 13 de agosto de 1929, sexta colunaJornal do Recife, 14 de agosto de 1929, última colunaDiário da Manhã (PE), 17 de agosto de 1929, primeira coluna).

1931 – Pelo chefe do governo provisório, Getúlio Vargas (1882 – 1954), foi considerado readmitido no cargo de conservador preparador do gabinete fotográfico da Escola de Estado Maior, desde 13 de novembro do ano anterior (Jornal do Brasil, 10 de janeiro de 1931, primeira coluna).

Esteve presente na missa de sétimo dia do general Xavier de Brito (1866 – 1930) (Correio da Manhã, 10 de abril de 1930, antepenúltima coluna).

1933 – Integrou a comitiva presidencial que viajou para o Norte do país no navio Almirante Jaceguay (Diário de Notícias, 13 de outubro de 1933, sexta coluna).

1934 – Foi nomeado pelo ministro da Guerra, Goes Monteiro (1891 – 1963), desenhista, cartógrafo da Escola de Estado Maior (Jornal do Commercio, 23 de junho de 1934, penúltima coluna).

1935 – Foi posto pelo ministro da Guerra, Goes Monteiro, à disposição do ministro das Relações Exteriores, José Carlos de Macedo Soares (1883 – 1968), para atuar como fotógrafo na Comissão de Limites da Seção Sul (Correio de Manhã, 18 de janeiro de 1935, quarta coluna).

1938 – Com o secretário do Interior de Pernambuco, Arthur de Moura, e outras autoridades visitou Fernando de Noronha (Diário de Pernambuco, 28 de julho de 1938, segunda coluna).

1940 - Publicação de uma fotografia de Maria Clementina, filha de Horacio e Maria Emilia (Revista da Semana, 24 de fevereiro de 1940).

1942 – O presidente da República, Getúlio Vargas, assinou um decreto com várias promoções em diversos ministérios. Horacio foi um dos promovidos (Correio da Manhã, 21 de janeiro de 1942, quarta coluna).

1943 – Publicação de fotografias de autoria de Horacio de uma viagem entre Recife e Rio de Janeiro na reportagem Nossa Terra (Revista da Semana, 31 de julho de 1946).

1944/1945 – No relatório das atividades de 1944 apresentado ao ministro da Educação, Gustavo Capanema, por Roquette-Pinto, diretor do Instituto Nacional de Cinema Educativo, foi informado que a instituição havia dado toda assistência técnica para o manejo e aquisição de câmeras 16mm pelo sr. Horacio Coelho, cinematografista do Ministério da Guerra que seguiu com as forças expedicionárias brasileiras tendo o INCE examinado o material adquirido, fornecido filmes e câmeras para o treinamento do mesmo cinegrafista, que fica assim habilitado a desempenhar toda e qualquer filmagem em operações de guerra (A Noite, 13 de março de 1945, segunda coluna).

Como cinegrafista e fotógrafo do Ministério da Guerra participou como correspondente da Segunda Guerra Mundial, operando junto à Força Expedicionária Brasileira, na Itália. Foi posto pelo ministro da Guerra, Eurico Gaspar Dutra (1883 – 1974), à disposição do marechal Mascarenhas de Moraes (1883 – 1968) (A Noite, 7 de junho de 1944, quarta colunaDiário de Pernambuco, 8 de junho de 1944, segunda coluna).

 

 

Publicação da reportagem Os brasileiros combatem sob a neve com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 10 de março de 1945).

Publicação da reportagem Onde a cobra fuma com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 24 de março de 1945).

Publicação da reportagem Onde a cobra está fumando com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 31 de março de 1945).

Publicação da reportagem Senta a Púa avestruz com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 14 de abril de 1945).

Na reportagem A Batalha de Castelnuevo, publicação da fotografia abaixo (Revista da Semana, 14 de abril de 1945).

 

 

No suplemento de guerra da Revista da Semana, de 5 de maio de 1945, publicação de fotos enviadas especialmente da Itália por Horacio Coelho (Revista da Semana, 5 de maio de 1945).

Publicação da reportagem Visões de uma guerra que passou com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 30 de junho de 1945).

Publicação da reportagem Depois da vitória Veneza com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 14 de julho de 1945).

Publicação da reportagem A volta de nosso correspondente com fotos de autoria de Horacio e do próprio Horacio em frente ao Café Petrarca, em Veneza (Revista da Semana, 7 de setembro de 1945).

Outros correspondentes de guerra contemporâneos de Horacio que trabalharam para a imprensa brasileira foram: Allan Fischer (1913 – 1988) (fotógrafo do escritório do Coordenador de Assuntos Econômicos Interamericanos), Egídio Squeff (1911 – 1973) (O Globo), Fernando Stamato (1917 – 1993) (cinematografista do DIP), Frank Norall (19? – ?) (Escritório do Coordenador de Assuntos Interamericanos), Henry Bagley (19? – ?) (Associated Press), Joel Silveira (1918 – 2007) (Diários Associados), Raul Brandão (19? – ?) (Correio da Manhã), Rubem Braga  (1913 – 1990) (Diário Carioca) e Thassilo Mitke (19? – ?) (DIP).

 

 

Uma mensagem de Horacio elogiando seus companheiros de imprensa foi lida em um programa de rádio (Jornal do Commercio, 4 de julho, quinta coluna).

Foi um dos correspondentes de guerra condecorados com a Medalha de Campanha (Diário de Notícias, 6 de dezembro de 1945, segunda coluna).

 

 

1946 - Fazia parte do quadro de civis permanentes do ministério da Guerra e foi promovido por merecimento na carreira de desenhista (Correio da Manhã, 11 de maio de 1946, sexta coluna).

Com o tenente João Brito Jorge, adjunto da SS Cine da Secretaria Geral de Guerra, foi para Resende filmar as manobras da Escola Militar (Correio da Manhã. 18 de setembro de 1946, segunda coluna).

1947 - Foi um dos correspondentes de guerra que atuaram junto à FEB na Segunda Guerra Mundial convidados pela Embaixada dos Estados Unidos para uma reunião no Serviço Cultural e Informativo dos Estados Unidos da América, quando foi exibido um longa-metragem sobre a atuação dos brasileiros na guerra (Correio da Manhã, 25 de janeiro de 1947, penúltima coluna).

Foi agraciado com uma Medalha de Guerra em uma solenidade realizada no Quartel do Batalhão de Guardas (Correio da Manhã, 20 de março de 1947, segunda coluna).

1948 - Em 24 de fevereiro, falecimento de sua esposa Maria Emilia, a Miluca (Correio da Manhã, 29 de fevereiro de 1948).

 

 

Década de 1950 – Aposentou-se do cargo de cinegrafista na década de 1950.

1958 – Em 8 de maio, participou da solenidade comemorativa do 13º ano do fim da Segunda Guerra Mundial, realizada na Associação Brasileira de Imprensa, quando os correspondentes de guerra foram homenageados. Rubem Braga (1913 – 1990) e Fernando Stamato (1917 – 1993), dentre outros, também estiveram presentes (Diário de Notícias, 9 de maio de 1958, última coluna).

1963 -  Faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de agosto, e foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier (Jornal do Commercio, 10 de agosto de 1963, segunda coluna).

 

 

 

*A pesquisa não conseguiu confirmar se trata-se do mesmo Horacio ou se é um homônimo.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

 

 

Série “Hotéis do Brasil” VIII e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXXI – O Hotel dos Estrangeiros, no Flamengo, e o Dia da Literatura Brasileira

Hoje comemora-se o Dia da Literatura Brasileira em homenagem à data de nascimento do cearense José de Alencar (1829-1877),  importante escritor do Romantismo brasileiro, autor de clássicos como O Guarani (1857), Lucíola (1862), Iracema (1865) e Senhora (1875). Sua estátua, no bairro do Flamengo, no Rio de Janeiro, foi registrada por Marc Ferrez (1843 – 1923), em torno de 1897; e por Augusto Malta (1864 – 1957), em 1906. O Dia da Literatura Brasileira seria, a princípio, o tema central deste artigo. Mas, nas fotos do monumento, aparece o Hotel dos Estrangeiros. O artigo passou então a ser também sobre o hotel e a ser o 31º da série O Rio de Janeiro desaparecido e o 8º da série Hotéis do Brasil.

 

 

 

O Hotel dos Estrangeiros* foi inaugurado, provavelmente, em 1849, ano em que foi mencionado pela primeira vez nos jornais da época, e ficava na Rua do Catete, nº 1 (Jornal do Commercio, 8 de maio de 1849, quarta coluna).

 

 

 

Foi demolido em 1951 e em seu lugar, foi construído o edifício Simon Bolivar (A Noite, 16 de abril de 1951, última colunaCorreio da Manhã, 17 de junho de 1951, quarta coluna, A Noite, 26 de junho de 1952, quarta coluna).

 

 

 

 

Breve histórico do Hotel dos Estrangeiros no Catete

 

 

Um dos pioneiros na história da hotelaria carioca, o Hotel dos Estrangeiros era, quando inaugurado, dirigido por Milliet Chesnay, William Coute e Lafourcade pertencia a Francisco Lumau e ficava na confluência das atuais ruas Senador Vergueiro e Barão do Flamengo, em frente à atual Praça José de Alencar. Oferecia uma vista magnífica para o mar, e reúne todas as comodidades para banhos (Almanak Laemmert, 1850).

 

 

Ao longo da década de 1850, eram vendidos no hotel ingressos para espetáculos teatrais e esportivos (Diário do Rio, 8 de novembro de 1853, última coluna; Courrier du Brésil, 31 de outubro de 1858, última coluna). Em 1856, pertencia a João Mayall, que plantou as quatro figueiras em frente ao edifício, que encantavam os visitantes e que foram tema do poema As quatro irmãs, de Odete de São Felix Simonsen (Almanak Laemmert, 1856; Correio da Manhã, 4 de junho de 1950, quarta coluna).

Em torno de 1860, diplomatas norte-americanos passaram a residir no hotel (Revista da Semana, 7 de novembro de 1942, segunda coluna).

Em 1896, foi anunciado que ele havia passado por uma reforma. Tinha instalações bonitas e higiênicas, um bom restaurante e dispensava a seus clientes um tratamento diferenciado.

 

 

“Esse hotel que foi completamente restaurado, situa-se na melhor parte da cidade, recebendo ar e luz por todos os lados, próximo a mais limpa praia da cidade e cercado por um grande jardim. Possui quartos grandes e confortáveis e bem mobilhados, bons chuveiros, e banhos quentes, desinfetantes na água, armários, água potável filtrada pelo sistema Pasteur, bom serviço de mesa, e é considerado o primeiro hotel dessa capital. Possui ainda suntuosos salões, e serviço de mesa esplendido para baquetes. O restaurante e serviços não podem ser superados”.

Tornou-se a moradia de autoridades nacionais, chefes de estado em visita ao Rio de Janeiro e personalidades importantes nacionais e estrangeiras.

 

 

Foi um ponto de importantes reuniões e encontros, tanto de natureza social quanto política. Foi lá que Prudente de Moraes (1841 – 1902), primeiro presidente civil e eleito no Brasil, foi morar com sua família quando veio de São Paulo, em 1894 (Gazeta de Notícias, 8 de novembro de 1894, segunda coluna). E também foi lá que nasceu a candidatura do marechal Hermes da Fonseca (1855 – 1923) à Presidência da República, cargo que exerceu entre 1910 e 1914.

Foi cenário, em 8 de setembro de 1915, do assassinato do senador José Gomes Pinheiro Machado (1851 – 1915), importante e poderoso político da República Velha. Foi apunhalado por Manso de Paiva (c. 1886 – década de 1960), no saguão do hotel, aonde visitaria o político Rubião Junior (1851-1915), do Partido Republicano Paulista. Suas últimas palavras teriam sido: “Ah, canalha! Apunhalaram-me!” (Careta, 11 de setembro de 1915A Noite, 24 de janeiro de 1934; O Cruzeiro, 8 de julho de 1944).

Meses antes, Pinheiro Machado previra sua própria morte em entrevista ao jornalista João do Rio: “Morro na luta. Matam-me pelas costas, são uns ‘pernas finas’. Pena que não seja no Senado, como César…”

 

 

Foi noticiado o despejo do hotel em fins de 1949 e, em 5 de abril de 1950, foi requerida por seus credores a decretação de sua falência (Diário da Noite, 14 de dezembro de 1949, segunda coluna;Correio da Manhã, 5 de abril de 1950, sexta coluna; Correio da Manhã, 4 de junho de 1950). Em setembro do mesmo ano, foi alugado pela Justiça Eleitoral (A Manhã, 9 de setembro de 1950, terceira coluna). Em fevereiro de 1951, foi anunciado um baile de carnaval em suas dependências. Poucos meses depois foi demolido: uma tradição do Rio que mergulha no esquecimento para sempre (Gazeta de Notícias, 17 de dezembro de 1949, última colunaCorreio da Manhã, 18 de janeiro de 1951, quarta coluna).

 

estrangeiros

 

Dia da Literatura Brasileira

 

Para homenagear o Dia da Literatura Brasileira, como já mencionado o ponto de partida deste artigo, o portal destaca, ainda, três imagens de importantes escritores brasileiros, todos fundadores da Academia Brasileira de Letras: Joaquim Nabuco (1849-1910), Lucio de Mendonça (1854-1909) e Machado de Assis (1839-1908). As fotografias foram produzidas por Augusto Malta, José Ferreira Guimarães (1841-1924) e por Joaquim Insley Pacheco (1830-1912) com Marc Ferrez, respectivamente. Lembramos aqui que, por escolha de Machado de Assis, José de Alencar é o patrono da cadeira n. 23 da Academia Brasileira de Letras.

 

 

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A propósito, o Hotel dos Estrangeiros foi citado em dois romances e em um conto de Machado de Assis:

“- Tenho de jantar com um amigo, no Hotel dos Estrangeiros. Depois, talvez, ou amanhã. Vá, vá tranquilizar a baronesa, e os rapazes. Os rapazes estarão em paz? Esses brigam, com certeza; vá pô-los em ordem”.

Esaú e Jacó (1904)

 

“Cheguei ao Hotel de Estrangeiros ao declinar da tarde. Minha mulher esperava-me para jantar. Eu, ao entrar no quarto, peguei-lhe das mãos, e perguntei-lhe:

- O que é eterno, Iaiá Lindinha?

Ela, suspirando:

- Ingrato! É o amor que te tenho.

Jantei sem remorsos; ao contrário, tranquilo e jovial. Cousas do Tempo! Dá-se-lhe um punhado de lodo, ele o restitui em diamantes…”

 

Eterno! (1899) – conto

 

“25 de junho

Campos e Aguiar queriam, à sua vez, que o jovem casal viesse aposentar-se em casa deles, e alegaram a razão de ser por poucos dias, pois que tinham de embarcar. Tristão e Fidélia recusaram e foram para o Hotel dos Estrangeiros. A razão alegada por estes foi a mesma dos poucos dias, e eu creio que era verdadeira, mas principalmente seria a de não dar preferência a um nem a outro.

Não escrevo o que lá se passou para me não demorar a dizer tudo, que é muito. Vi-os felizes a todos quatro. D. Carmo parecia esconder a tristeza da viagem que se aproxima, ou temperá-la com a ideia da volta, a que aludia frequentemente e a propósito de tudo, como a avivar a obrigação. Assim correram as horas depressa. Saí com eles até o hotel; dali seguiu Campos para Botafogo e vim eu para o Catete”.

Memorial de Aires (1908)

 

De acordo com o portal machadodeassis.net:

Segundo o Almanaque Laemmert de 1888, havia dois hotéis com esse nome: um em francês (Hôtel des Étrangers), pertencente a Pedro Lemgruber, que ficava na rua da Assembleia, 54; outro em português (Hotel dos Estrangeiros), pertencente a João Mayall, que ficava “no caminho Velho de Botafogo, em frente ao largo do Catete”, isto é, na confluência da rua Senador Vergueiro com a rua Barão do Flamengo, no bairro do Flamengo, na zona Sul da cidade do Rio de Janeiro, em frente à atual praça José de Alencar. O contexto da ficção machadiana sugere que se trata do segundo, que era um estabelecimento de grande prestígio à época.

 

O monumento a José de Alencar, no Flamengo

 

 

O monumento a José de Alencar, no Flamengo, obra do escultor Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931), foi inaugurado em 1º de maio de 1897, no Largo do Catete, que passou nesta data a se chamar Praça José de Alencar – era anteriormente denominada Praça Ferreira Vianna. Foi o primeiro monumento erguido no Brasil para homenagear um escritor brasileiro e é composto por uma estátua de José de Alencar, quatro relevos e quatro medalhões em bronze, dispostos em uma base octogonal, onde estão gravadas cenas dos romances Iracema, O Gaúcho O Guarani e O Sertanejo, de autoria do homenageado.

Sua inauguração contou com a presença do então presidente da República, Prudente de Moraes, do prefeito Francisco Furquim Werneck de Almeida (1846 – 1908) e de diversas autoridades e, apesar do sol e imenso calor, a praça e as imediações estavam apinhadas. Sua viúva, filhos, seu irmão, o barão de Alencar (1832 – 1921); e outros familiares também estiveram presentes à cerimônia. Na ocasião, discursaram Ferreira de Araújo (1848 – 1900), fundador da Gazeta de Notícias; os escritores Coelho Neto (1864 – 1934) e Olavo Bilac (1865 – 1918), além de políticos presentes (Gazeta de Notícias, 2 de maio de 1897, terceira colunaO Paiz, 2 de maio de 1897, terceira colunaRevista da Semana, 9 de maio de 1942).

 

“Bernardelli deu a José de Alencar (mais conhecido ainda hoje como político do que como romancista) a mais bela e duradoura das consagrações, já agora é possível que a profissão das letras mereça mais respeito, uma vez que o povo está vendo que um homem de letras merece também a homenagem devida aos heróis e aos benfeitores da pátria.

E não seria justo que o nome do escultor não fosse entregue ao aplauso público, ao lado do nome do escritor glorificado.
E que este dia (o primeiro dia em que o governo do meu país dá uma demonstração pública de que deseja honrar a arte e a literatura do Brasil, vindo assistir a essa festa de homens de letras) possa iniciar uma era nova de florescimento intelectual.”
Trecho do discurso de Olavo Bilac

 

A ideia da construção do monumento partiu dos redatores do Monitor Sul Mineiro, da cidade de Campanha, em Minas Gerais, que abriram uma subscrição para esse fim. A família do jornalista Evaristo da Veiga (1799 – 1837) incumbiu a divulgação da ideia à Gazeta de Notícias (Gazeta de Notícias, 20 de janeiro de 1880, segunda coluna). Foram feitos diversos donativos e, em 1º de dezembro de 1894, foi realizado um concerto, no Cassino Fluminense, para arrecadar dinheiro para a construção da estátua (Gazeta de Notícias, 1º de dezembro de 1894).

 

* Não confundir com o Hotel dos Estrangeiros que existiu anteriormente na Rua da Cadeia, 69 (Diário do Rio de Janeiro, 9 de julho de 1846, terceira coluna).

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

 

Almanaque Gaúcho

Aventuras na História

DUNLOP, Charles. Rio Antigo, volume II. Rio de Janeiro : Cia. Editora e Comercial F. Lemos, 1956.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Nosso Século 1910/1930 – Anos de crise e de criação. São Paulo : Editora Abril, 1980

SILVA, Maria do Carmo Couto da. Escultura e literatura nacional: o monumento a José de Alencar (1897). 

Site Arqueologia Histórica do Rio de Janeiro

WANDERLEY, Andrea C.T. A fundação da Academia Brasileira de Letras  in Brasiliana Fotográfica, 20 de julho de 2022.