O fotógrafo Augusto Stahl (Itália 23/05/1828 – França, 30/10/1877)

Théophile Auguste Stahl é considerado um dos mais importantes fotógrafos que atuaram no Brasil no século XIX, tendo se dedicado tanto aos retratos como às paisagens – rurais e urbanas -, sempre com uma alta qualidade técnica e estética. Também destacou-se na reportagem etnográfica. Nascido em Bergamo, na Itália, em 23 de maio de 1828, originário de uma família da Alsácia, na França, pouco se sabe sobre sua vida na Europa antes de vir para o Brasil, onde desembarcou do vapor inglês Thames, na cidade do Recife, em 31 de dezembro de 1853. Não se sabe com quem e onde aprendeu a fotografar.  É autor de uma obra importante e abrangente e foi um dos primeiros fotógrafos a produzir cartões de visita, os cartes de visite, no país. Teve estúdios no Recife e, a partir de 1862, estabeleceu-se no Rio de Janeiro. Foi agraciado por d. Pedro II (1825 – 1891) com o título de “Fotógrafo de S.M , o Imperador”. O ex-curador de fotografia do Museu Getty, na Califórnia, e do Museu Metropolitano de Nova York, Weston Naef (1942 – ), no livro Pioneer photographers of Brazil, de 1976, referiu-se a Stahl como um dos fotógrafos da vanguarda dos anos 1850 … a acuidade de sua visão e notável aptidão para descobrir o ângulo mais apropriado para fotografar um tema o coloca entre os 12 mais importantes fotógrafos de todos os tempos….

Acessando o link para as fotografias de Augusto Stahl disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

No Recife, onde ficou de 1853 a 1861, teve três estúdios: na rua do Crespo, na rua Nova e no Aterro da Boa Vista, posteriormente rebatizada como rua da Imperatriz. Além de produzir retratos, fotografou as paisagens do Recife, de Olinda, de Goiana e do interior de Pernambuco. Também registrou a estrada de ferro Recife – São Francisco. Em 1858, associou-se ao químico fotógrafo Adolpho Schmidt e ao artista pintor Germano Wahnschaffe, alemão de Hamburgo. Uma das pinturas de Germano, a Cachoeira de Paulo Afonso, foi publicada no artigo O interesse de d. Pedro II pelo rio São Francisco, da Brasiliana Iconográfica.

Em 1859, mesmo ano em que Schmidt deixou a sociedade, dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina (1822 – 1889) visitaram o norte do país. No Recife, Stahl fotografou o evento e o próprio casal real, em 1º de dezembro. Stahl inovou registrando a chegada e o desembarque dos monarcas na direção contrária, ou seja, do mar para a terra. Stahl & C. receberam de Pedro II a licença de usar o título de Fotógrafo de Sua Majestade Imperial.

 

 

O imperador sugeriu que ele fotografasse as quedas de Paulo Afonso, no norte da Bahia. Uma imagem que ele produziu de Paulo Afonso é considerada muito importante na história da fotografia no Brasil. Segundo Bia Correa do Lago, no livro Os fotógrafos do império: ...Justapõe dois negativos para transmitir plenamente – dentro dos limites técnicos da época – toda a monumentalidade do fenômeno natural , e escolhe deliberadamente como personagem central, para aumentar a escala, uma criança negra.

Stahl participou de diversas mostras, tendo sido premiado com uma menção honrosa na Primeira Exposição Nacional, em 1861. Na Segunda Exposição Nacional, em 1866, participou com fotografias, retratos da família real em fotopintura por Ulrich Steffen, retratos de negros, vistas de subúrbios e um panorama do Rio de Janeiro. Foi premiado com a medalha de prata.

 

 

Em 4 de fevereiro de 1862, embarcou para o Rio de Janeiro a bordo do vapor Paraná e deixou como sucessor, no Recife, Leon Chapelin. Estabeleceu-se na rua do Ouvidor, 117 , e, nos cerca de oito anos durante os quais possuiu estúdio no Rio de Janeiro, fez inúmeros e importantes registros da cidade, sendo o Panorama em cinco partes da cidade do Rio de Janeiro vista da Ilha das Cobras, produzida em torno de 1863, considerada uma de suas obras-primas. Stahl & Wahnschaffe foram agraciados, em 21 de abril de 1862, com o título de “Fotógrafos da Casa Imperial”. Entre 1862 e 1863, Stahl voltou à Europa, onde se casou com Marie Julie Bing (1835 – 1921), nascida em Ostheim, na Alsácia. O casal teve dois filhos, Olga Marie e Paul Theodor Waldemar, ambos nascidos no Rio de Janeiro, em 1864 e 1865, respectivamente.

 

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Augusto Stahl e sua esposa Marie Julie Bing, c. 1863 / Site Family Search

Em 1865, Stahl produziu para a missão científica Thayer, chefiada pelo naturalista suíço naturalizado norte-americano Louis Agassiz (1807 – 1873), retratos de “tipos” do país: portraits e fotografias antropométricas de chineses que residiam no Rio de Janeiro e de escravizados negros. A obra Voyage au Brésil – 1865 – 1866 foi resultado dessa missão, realizada sob os auspícios de dom Pedro II. 

Provavelmente, as atividades do estúdio de Stahl & Wahnschaffe terminaram em 1870, já que o estabelecimento não foi anunciado pelo Almanaque Laemmert de 1871. Os equipamentos foram vendidos para os fotógrafos Cypriano & Silveira (Jornal do Commercio, 22 de maio de 1870). A família de Stahl retornou à Europa. Em 1875, ele partiu do Rio de Janeiro no paquete francês Senegal (O Globo, 26 de julho de 1875, na primeira coluna). Augusto Stahl faleceu em 30 de outubro de 1877, no Estabelecimento Público de Saúde Alsace Nord.

 

 

Link para a Cronologia de Augusto Stahl (1828 – 1877)

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Catalogue de la troisième exposition de la Société Française de Photographie

ERMAKOFF , George. Rio de Janeiro 1840 – 1900 – Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

FERREZ, Gilberto. A Fotografia no Brasil: 1840-1900 / Gilberto Ferrez; [prefácio por Pedro Vasquez] – 2ª ed. – Rio de Janeiro: FUNARTE: Fundação Nacional Pró-Memória, 1985.

FERREZ, Gilberto; NAEF, Weston J.. Pioneer Photographers of Brazil, 1840-1920. New York: Center for Inter-American Relations, 1976.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

LAGO, Bia Correia do. Augusto Stahl: obra completa em Pernambuco e Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Editora Capivara, 2001.

LAGO, Bia Corrêa do;LAGO, Pedro Corrêa do. Coleção Princesa Isabel: fotografia do século XIX. Rio de Janeiro: Capivara, 2008.432p.:il., retrs.

LAGO, Bia Corrêa do;LAGO, Pedro Corrêa do. Os Fotógrafos do Império. Rio de Janeiro: Capivara, 2005. 240p.:il

LAGO, Pedro Corrêa do. Brasiliana Itaú: uma grande coleção dedicada ao Brasil / curadoria da coleção: Pedro Corrêa do Lago, Ruy Souza e Silva. Rio de Janeiro: Capivara, 2009.

MARTIM, Ricardo (pseudônimo de Guilherme Auler). Dom Pedro II e a fotografia. Tribuna de Petrópolis. Petrópolis, 1 de abril de 1956.

MEIRELLES, Victor. “Photographia” In BRASIL. Exposição Nacional. Relatório da Segunda Exposição Nacional de 1866, publicado […] pelo Dr. Antonio José de Souza Rego, 1o secretário da Commissão Directora. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1869, 2ª parte, pp. 158-170

MELLO, José Antonio Gonsalves de. Diário de Pernambuco: arte e natureza no Segundo Reinado. Recife:Fundação Joaquim Nabuco/Editora Massangana, 1985.

Site Encilopédia Itaú Cultural

Site Instituto Moreira Salles

Site Société Française de Photographie

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo: 1839/1889. Prefácio Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Funarte. Rocco, 1995. 309 p., il. p&b. (Coleção Luz & Reflexão, 4). ISBN 85-85781-08-4.

VASQUEZ, Pedro Karp. Mestres da fotografia no Brasil. Centro Cultural do Banco do Brasil Rio de Janeiro, 1995.

 

Para uma história da Fotografia Médica, no Brasil

Como seria a nossa vida, hoje, sem os diagnósticos médicos por imagem?

E qual tem sido a contribuição da fotografia no processo de ensino e aprendizagem da medicina, no Brasil, desde o século XIX?

Cabe aos pesquisadores da história da imagem médica e, mais especificamente, da fotografia médica – no Brasil – respondê-la.

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O que se vê acima são detalhes de fotografias que integram um conjunto maior, já amplamente divulgado, a partir de 1997, quando iniciou-se a itinerância da exposição A coleção do imperador – fotografia brasileira e estrangeira no século XIX que, no Brasil, foi apresentada no Rio de Janeiro (Centro Cultural do Banco do Brasil)  e em São Paulo (Pinacoteca do Estado).

Mas as perguntas persistem: foram feitas a pedido de quem, e para que usos? Como funcionava o sistema local de produção de fotografias para o campo da medicina, ao final dos oitocentos?

Façamos uma leitura preliminar destas imagens, levando em conta o que se segue: em meados da década de 1880 e a pedido de um médico, supõe-se, o jovem cidadão compareceu ao estúdio fotográfico de João Xavier de Oliveira Menezes, instalado à rua da Quitanda, no Centro do Rio de Janeiro. O estabelecimento estava configurado para produzir retratos – vide o tapete, a cena campestre no fundo pintado e a coluna ornada, sobre a qual o paciente apoiou as suas calças e pousou, de braços cruzados, revelando certa deformidade nos membros inferiores. O formato da fotografia, uma carte-cabinet, ainda era popular, naqueles tempos em que a democratização do fazer fotográfico não havia se cumprido. Observe-se a marca do fotógrafo, incluindo as palavras-chave “portrait” e “álbum.”

Tempos depois de submetido a tratamento, supõe-se, o paciente voltou ao estúdio para novo registro – desta vez, o fotógrafo tomou certos cuidados (técnicos) e desprezou outros (estéticos), realizando uma fotografia mais fria e objetiva, montada em um cartão neutro; observe-se, ainda, a base de um aparelho de pose, atrás de seus pés. O instrumento era utilizado para conferir maior estabilidade ao retratado, no ato da tomada da foto. Quase nada sabemos acerca da atuação do fotógrafo J. Meneses no campo médico.

Segundo o Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro de Boris Kossoy, J. Menezes era então proprietário da “antiga casa Christiano Junior & Pacheco” o que nos leva a indagar: teria sido ele o sucessor de Christiano Junior no atendimento à classe médica da corte? Pois o álbum Elephantiasis (que também integra o repositório deste portal) mostra pacientes nus, com hipertrofia e espessamento de tecidos decorrentes dessa doença (a filariose) e teria sido realizado por Christiano Junior durante seu período de atuação no Rio de Janeiro, antes de prosseguir para Buenos Aires – onde realizou estupendo trabalho documental daquele país e de seu povo, já estudado por Abel Alexander e Luis Priamo.[1]

No catálogo da primeira exposição do Club Industrial de Buenos Aires, em 1877, Christiano Junior escreveu [acerca de suas fotos médicas, realizadas no Brasil] que “segundo o parecer dos médicos nacionais e estrangeiros, nenhum fotógrafo, até aquela data [1866] havia tirado do natural um trabalho semelhante.”

Entre a década de 1860 e a virada do século, há registros da atuação de José Christiano de Freitas Henriques Junior em Maceió AL (onde teria iniciado as suas atividades), Rio de Janeiro RJ, Desterro SC, Mercedes (Uruguai) e diversas cidades argentinas por onde passou, antes de vir a falecer em Assunção, Paraguai, em 1902. Foi um dos maiores e mais versáteis fotógrafos dos oitocentos, além de empresário atuante em diversos ramos.

 

Acessando o link para as fotografias médicas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

Voltemos à fotografia médica. É na coleção de fotografias formada pelo último imperador do Brasil, guardada em sua maior parte na Biblioteca Nacional e inscrita no programa Memória do Mundo, da Unesco, que encontra-se um dos possíveis pontos de partida a motivar mais investigação neste campo. “Nasci para consagrar-me às letras e às ciências”, anotou em seu diário, em 1862. Natural, assim, que a medicina estivesse entre os seus interesses. Na biografia de d. Pedro II por José Murilo de Carvalho, encontramos alguns desses indícios. As reuniões anuais da Academia de Medicina eram realizadas no Paço Imperial. Também gostava de assistir aos concursos públicos da Faculdade de Medicina. Doou 100 mil francos para a criação do Instituto Pasteur, em Paris.

Detalhes das fotomicrografias de sedimentos da urina humana, realizadas pelo dr. Ultzmann, de Viena – à esquerda, o ácido úrico “proveniente de cálculos urinários” e à direita, “precipitado pelo ácido clorídrico da urina normal.”

Os detalhes reproduzidos acima foram extraídos de fotomicrografias integrantes de um álbum de sua coleção. Foram realizadas pelo médico húngaro Robert Utzmann, importante referência mundial no campo da urologia, investigador e professor na Universidade de Viena. D. Pedro não perdia uma oportunidade para dialogar com a classe médica, aqui ou no exterior, mantendo-se a par dos progressos – inclusive das interseções com a fotografia. Bem sabemos que ele era dotado de profunda consciência e fascínio pelo conhecimento que certos aparatos de visão proporcionavam, tais como os telescópios e os microscópios, aproximando-o de outros mundos, invisíveis a olho nu.

No final de sua vida, exilado em Paris, d. Pedro II seguiu acompanhando de perto os progressos no campo das tecnologias da imagem (inclusive da fotografia a cores) mas não teve tempo de vivenciar o fascínio do “ver através’: quando Wilhelm Conrad Roentgen descobriu os raios-X, em 1895, ele havia falecido, havia poucos anos.

Sobre o emprego dos raios-X no campo médico, vale lembrar, o Brasil também deu importante contribuição. Hoje um tanto esquecida – mas ainda cultuada – a abreugrafia, uma radiografia do tórax em dimensões reduzidas  idealizada em 1936 pelo dr. Manoel de Abreu – cujo nome integra o panteão dos indicados ao Prêmio Nobel de Medicina de 1946, 51 e 53 –  já foi exame obrigatório do trabalhador brasileiro, visando a detecção da tuberculose em indivíduos aparentemente sadios, já que a doença é assintomática, em sua fase inicial.

Encerro este texto com a firme esperança de que médicos e demais interessados na história da imagem médica no Brasil se manifestem – através deste blog – comentando, corrigindo ou acrescentando informações relacionadas a estas imagens históricas. Precisamos avançar neste campo, cuja constituição e trajetória pouco conhecemos.

Seleção de imagens de Fotografia Médica na Brasiliana Fotográfica

 

 

Joaquim Marçal Ferreira de Andrade

Curador, pela FBN, do portal Brasiliana Fotográfica

 

[1] Un país en transición : fotografías de Buenos Aires, Cuyo y el Noroeste, 1867/1883 – Christiano Junior. Buenos Aires [Argentina] : Ediciones Fundación Antorchas, 2000.

 

 

O retratista português Joaquim Insley Pacheco (31 de março de 1830 – 14 de outubro de 1912)

Um dos mais prestigiados e famosos retratistas do Brasil no século XIX, o fotógrafo e pintor português Joaquim José Pacheco, posteriormente Joaquim Insley Pacheco, nasceu em Cabeceiras de Bastos, em 31 de março de 1830. Era muito requisitado pela corte imperial brasileira e, além de ter sido muito procurado para a execução de retratos, era reconhecido por seu trabalho com fotopintura.

Uma crônica do poeta e jornalista Faustino Xavier de Novais (1820 – 1869), de 24 de outubro de 1863, chamava atenção para a popularidade de Insley Pacheco no Rio de Janeiro:

“…Pouco distante do meu pouso eleva-se uma casa cuja fachada pintada de cores vivas provoca a atenção dos que passam. É aí o palácio do fotógrafo mais afamado da capital, J. Insley Pacheco, que tem tido a honra de copiar todos os narizes do Rio…”

No fim dos anos 1840, já estava em Fortaleza, capital do Ceará, onde teve contato com a fotografia com o daguerreotipista e mágico irlandês Frederick Walter (1811- 18?)*, uma das figuras mais pitorescas do início da fotografia no Brasil, que tornou-se seu mestre. Insley produzia desenhos para as exibições de mágica de Walter e, em troca, Walter ensinava a ele a arte da daguerreotipia. Segundo Mello Moraes Filho, Insley possuía uma natureza em demasia curiosa, índole decidida e aventureira. De acordo com o mesmo autor, Insley foi o introdutor da ambrotipia no Brasil. Ele teria adquirido, de um capitão de navio ancorado no porto do Rio de Janeiro, fórmulas e máquinas do referido processo.

O primeiro estabelecimento fotográfico de Insley de que se tem notícia ficava na rua Formosa, em Fortaleza. Entre 1950 e 1951, viajou pelos Estados Unidos, onde estudou com os fotógrafos Mathew Brady (c.1822 – 1896), Jeremiah Gurney (1812 – 1895) e Henry E. Insley (1811 – 1894). Acredita-se que em homenagem a esse último adotou o sobrenome Insley.

 

Acessando o link para as fotografias de Joaquim Insley Pacheco disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

Em 1851, após uma breve passagem por São Luís, no Maranhão, voltou à Fortaleza e seu estúdio ficava na rua da Palma (O Cearense, 9 de maio de 1851, na última coluna).  Um ano depois, vendeu por menos de seu valor todos os utensílios pertencentes a sua profissão de retratista (Pedro II (CE), 21 de agosto de 1852, na terceira coluna). Partiu para Sobral (Pedro II (CE), 8 de dezembro de 1852) e depois de uma rápida permanência em Pernambuco, em 1854, onde seu ateliê ficava no Aterro da Boa Vista, nº 4, no Recife, foi para o Rio de Janeiro e anunciava, em 1855, sua Novíssima e esplêndida galeria de retratos pelo sistema cristalotipo, em seu novo estúdio fotográfico, na rua do Ouvidor, nº 31, posteriormente 40 (Jornal do Commercio  7 de fevereiro de 1855 e Correio Mercantil, 9 de fevereiro de 1855 ). Já assinava com o sobrenome Insley. No estabelecimento, também eram comercializados quadros, caixas, molduras e alfinetes (Jornal do Commercio, 2 de agosto de 1855). O ateliê também funcionava, eventualmente, como uma galeria para exposições de artes plásticas.

Insley Pacheco fotografou, em 10 de agosto de 1855, o imperador Pedro II (1825 – 1891), a imperatriz Teresa Cristina (1822 – 1829) e a filha do casal, princesa Leopoldina (1847 – 1871), na Quinta da Boa Vista (Diário do Rio de Janeiro, 9 de janeiro de 1856). Segundo Guilherme Auler (1914-1965), sob o pseudônimo de Ricardo Martim, em dois artigos publicados na Tribuna de Petrópolis, em 1º e 8 de abril de 1956, Insley teria sido agraciado com o título de “Fotógrafo da Casa Imperial”, em 22 de dezembro de 1855. Mas o fato só foi noticiado em 19 de dezembro 1857, no Diário do Rio de Janeiro. Foi também agraciado com a Ordem de Cavaleiro Real da Ordem de Cristo.

 

 

Tudo isso contribuiu para que seu público fosse consistentemente de representantes da elite e retratos realizados em seu estabelecimento eram presenças constantes em álbuns fotográficos de famílias da alta sociedade do século XIX.

Em 1858, foi anunciado um grande passo na arte fotográfica no ateliê de Insley Pacheco: É o ambrotipo e a pintura dando-se as mãos para reunirem a fidelidade da cópia à duração e à persistência das cores (Diário do Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 1858, na quarta coluna). No mesmo ano, em um anúncio de seu estabelecimento, apresentava-se como primeiro e único retratista em vidro (Jornal do Commercio, 13 de maio de 1858).

Em 1860, a firma Pacheco e Irmão Ambrotypista da Augusta Caza Imperial abriu um estúdio em Salvador, que fecharia no mesmo ano, e outro em São Luís, fechado em 1861. Em 1863, abriu um novo estabelecimento, na rua do Ouvidor, nº 102, no Rio de Janeiro (Diário do Rio de Janeiro , 1º de abril de 1863, na quarta coluna).

Após diversas tentativas fracassadas, o Ministério do Império, com o decreto 5613, de 25 de abril, concedeu privilégio de cinco anos a Joaquim Insley Pacheco, para fazer fotografias de sua invenção, aplicadas à porcelana, vidro opalino e marfim (Diário do Rio de Janeiro, 15 de maio de 1874, na última coluna).

Insley Pacheco foi condecorado pelo governo português com a Ordem de Cristo  (Semana Ilustrada, 3 de março de 1866) e participou das exposições universais de Paris (1867 e 1889), de Viena (1873), e da Filadéfia (1876) e de outras exposições internacionais como as do Porto (1865), de Santiago do Chile (1875), de Buenos Aires (1882) e de Chicago (1893). No Brasil, esteve presente em diversas exposições nacionais e também em várias exposições da Academia Imperial de Belas Artes.

Em torno de 1892, na folha de proteção sobreposta às suas fotografias, Insley Pacheco identificava-se como Fotógrafo e pintor. Cavaleiro da Real Ordem de Cristo. Premiado com a Menção de Honra nas exposições de Vienna e mais 16 medalhas nas exposições de Philadelphia, Porto, Brazil, Chile, Buenos Aires e Chicago. Novo sistema de platinotipia – Rua dos Ourives, 38 – Rio de Janeiro.

Nas artes plásticas, seu mestre foi o pintor Arsênio da Silva (1833 – 1883) e seus quadros foram muitas vezes premiados. Eram adquiridos por destacadas figuras da sociedade como o Barão do Rio Branco (1845 – 1912). Insley Pacheco foi, em 1903, o primeiro presidente da Associação dos Aquarelistas. Em seu ateliê foram realizadas diversas exposições de pintores como Firmino Monteiro (1855 – 1888) e Pedro Weingarten (1853 – 1929).

Em 14 de outubro de 1912, faleceu Joaquim Insley Pacheco, o fotógrafo tradicional do Rio (Jornal do Brasil, 15 de outubro de 1912 e O Paiz, 16 de outubro de 1912, ambos na penúltima coluna).

 

 

Comentário de Boris Kossoy sobre o retrato acima: …um retrato do imperador, entretanto, datado de 1883, isto é, quando contava 58 anos de idade, é particularmente interessante pelo “clima” tropical criado no ateliê: cenário de natureza “plantada” como fundo para o retrato (bem ao contrário dos tradicionais fundos com paisagens europeias complementados por uma mescla de mobiliário vitoriano e clássico, recursos tão utilizados pelos fotógrafos no século XIX). Com a nova montagem do velho teatro tem-se explicitada a ideologia de uma civilização nos trópicos” (KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.).

 

Acesse aqui a Cronologia de Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912)

 

 

*Segundo Mello Moraes Filho  (1844 – 1919), Frederick Walter “desembarcara no Ceará, trazendo consigo um aparelho de daguerreótipo, que usava durante o dia, e um gabinete de mágica, que funcionava à noite nos teatrinhos“. Walter tornou-se o mestre do jovem Pacheco.

 

 

O nome abrasileirado do mestre irlandês de Insley era Guilherme Frederico Walter e ele havia trabalhado, em 1840, no Rio de Janeiro, com o mágico Jacomo Luiz Marques (18?-?); e, em 1846, no Recife, como assistente do mágico inglês George Sutton (18? -?) (Jornal do Commercio, 12 de setembro de 1840, penúltima coluna; e Diário de Pernambuco, 9 de maio de 1846, última coluna).

 

 

 

Após as apresentações no Recife, Walter seguiu para São Luís, capital do Maranhão, onde aprendeu a daguerreotipia com o norte-americano Charles DeForest Fredericks (1823 – 1894) que, na ocasião, estava trabalhando na cidade (O Espelho de Papel – A fotografia de Insley Pacheco na coleção do IHGB (2025)). Em 1849, no Recife, Walter estabeleceu sua galeria de daguerreótipos na Rua da Cadeia de Santo Antônio, nº 26, no segundo andar (Diário de Pernambuco, 21 de fevereiro de 1849, última coluna).

Segundo História da fotografia no Ceará (Edição do Autor, 2019), de Ary Bezerra Leite, Pacheco pintava cenários para os espetáculos de magia do seu professor/empregador e, em troca, recebia dele aulas de daguerreotipia.  Guilherme Frederico Walter chegou ao Ceará, em 30 de maio de 1848, e anunciou, poucos dias depois, que tirava retratos pelo daguerreótipo com toda a perfeição. Assim começava a história da fotografia no Ceará (O Cearense, 8 de junho de 1848, última coluna).

 

O Cearense, 8 de junho de 1848

O Cearense, 8 de junho de 1848 ( no anúncio está escrito, erradamente, 1849)

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ERMAKOFF , George. Rio de Janeiro 1840 – 1900 – Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

FÁBIO, Flávia. Insley Pacheco: um álbum imaginário. Tese de Mestrado em Multimeios, Universidade Estadual de Campinas, 2005.

FERREZ, Gilberto. A Fotografia no Brasil: 1840-1900 / Gilberto Ferrez; [prefácio por Pedro Vasquez] – 2ª ed. – Rio de Janeiro: FUNARTE: Fundação Nacional Pró-Memória, 1985.

FERREZ, Gilberto; NAEF, Weston J.. Pioneer Photographers of Brazil, 1840-1920. New York: Center for Inter-American Relations, 1976.

GONÇALVES, Joaquim Castro. O fotógrafo do imperador. O Castro Manco, 9 de fevereiro de 2016.

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

LAGO, Bia Corrêa do;LAGO, Pedro Corrêa do. Coleção Princesa Isabel: fotografia do século XIX. Rio de Janeiro: Capivara, 2008.432p.:il., retrs.

MEIRELLES, Victor. “Photographia” In BRASIL. Exposição Nacional. Relatório da Segunda Exposição Nacional de 1866, publicado […] pelo Dr. Antonio José de Souza Rego, 1o secretário da Commissão Directora. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1869, 2ª parte, pp. 158-170

MORAES FILHO, Melo. Artistas do meu tempo. Rio de Janeiro: Garnier, 1904.

PINHO, Wanderley. Salões e Damas do Segundo Reinado. São Paulo:Martins, 1942.

Site Emerald Insight

Site Encilopédia Itaú Cultural

Site Family Search

Site O Castro Manco

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo: 1839/1889. Prefácio Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Funarte. Rocco, 1995. 309 p., il. p&b. (Coleção Luz & Reflexão, 4). ISBN 85-85781-08-4.

VASQUEZ, Pedro Karp. Mestres da fotografia no Brasil. Centro Cultural do Banco do Brasil Rio de Janeiro, 1995.

VASQUEZ, Pedro Karp. O Brasil na fotografia oitocentista. Editora Metalivros, 2003.

A Brasiliana Fotográfica também pesquisou em diversos periódicos na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

O Palácio Real de São Cristóvão

O Palácio Real de São Cristóvão*

 

 

A Brasiliana Fotográfica destacou fotografias do Palácio Real de São Cristóvão, que atualmente abriga o Museu Nacional da Universidade do Rio de Janeiro, produzidas por  Augusto Malta (1864 – 1957), Augusto Stahl (1828 – 1877), Georges Leuzinger (1813 – 1892), Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912)Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) . O Palácio Real ou Paço Real, localizado no bairro de São Cristóvão, no Rio de Janeiro, havia sido um casarão de um rico comerciante, o traficante de escravos Elias Antônio Lopes, que possuía a área da Quinta da Boa Vista. Devido à carência de espaços residenciais no Rio de Janeiro, Elias doou sua propriedade ao então príncipe regente dom João quando ele chegou ao Brasil, em 1808. A partir de 1817, transformou-se na moradia da família real até 1889, quando foi proclamada a República no Brasil e a família partiu para Portugal (Gazeta de Notícias, edição de 18 de novembro de 1889, sob o título “O Embarque do Imperador”, na segunda coluna). Após a proclamação, o palácio sediou os trabalhos da Assembleia Nacional que resultaram na Constituição Brasileira promulgada em 24 de fevereiro de 1891 (Gazeta de Notícias, 25 de fevereiro de 1891, na primeira coluna).

Em 1892, o Museu Nacional do Brasil, criado em 6 de junho de 1818 por dom João VI e sediado no Campo de Santana, mudou-se para o Palácio da Quinta (O Paiz, 13 de março de 1892, na terceira coluna). Hoje é chamado Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro e é um um dos maiores museus de antropologia e de história natural das Américas.

Acessando o link para as fotografias do Palácio Imperial de São Cristóvão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

O Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, a mais antiga instituição científica do Brasil e da própria cultura do país, foi atingido, em 2 de setembro de 2018, por um incêndio de grandes proporções, foi atingido por um incêndio de grandes proporções, que consumiu cerca de 85% de 20 milhões de itens, incluindo múmias, fósseis de dinossauros e muitos objetos que contribuíam para a história do Brasil e de outros países.

Em março de 2020, foi criado o Projeto Museu Nacional Vive, que coordena a reconstrução do Paço, a reforma da Biblioteca Central e a implementação do Campus de Pesquisa e Ensino Museu Nacional / UFRJ. Trata-se de uma cooperação técnica entre a UFRJ, a UNESCO e ao Instituto Cultural Vale. No ano seguinte, ornamentos históricos e artísticos que sobreviveram ao incêndio foram higienizados e protegidos; réplicas foram produzidas; artefatos foram resgatados a partir do monitoramento arqueológico e o restauro das fachadas e coberturas do Paço começou pelo bloco histórico. Quatorze mil novos itens foram conquistados para o Museu. Em 2022, na celebração do bicentenário da independência, sua fachada principal estava inteiramente restaurada e as obras de restauração continuam avançando.

Em 21 junho de 2026, foram inauguradas, no Museu Nacional, duas exposições temporárias: Bastidores da Ciência e Rescaldo das Memórias. A primeira, desenvolvida pelas equipes do Museu e do Projeto Museu Nacional Vive, apresenta os processos, técnicas e práticas envolvendo a produção do conhecimento científico. Na segunda, o artista visual Vik Muniz (1961-) transformou cinzas e fragmentos do incêndio em 11 fotografias e 9 esculturas.

 

 

 

Vik Muniz. Museu Nacional da série Museu das cinzas

Vik Muniz. Museu Nacional da série Museu das cinzas

 

Link para o artigo O Museu Nacional, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 3 de setembro de 2018.

Link para a página “Redescobrindo a casa do imperador”, no site do Museu Nacional.

 

*Esse artigo foi atualizado em 24 de junho de 2026.

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica