Joaquim Insley Pacheco: nauta entre Portugal e o Brasil e entre o Império e a República por Pedro Karp Vasquez

Publicamos hoje, quando completam-se 200 anos do nascimento de dom Pedro II (1825 – 1892), o artigo Joaquim Insley Pacheco: nauta entre Portugal e o Brasil e entre o Império e a República, de autoria do escritor e fotógrafo Pedro Karp Vasquez, sobre o fotógrafo português, um dos agraciados, ainda na década de 1850, pelo imperador, um entusiasta da fotografia, com o título de Fotógrafo da Casa Imperial. Disponibilizamos também uma cronologia atualizada sobre o fotógrafo realizada pela editora da Brasiliana Fotográfica, Andrea C. T. Wanderley.

 

 

Em 10 de agosto de 1855, Insley Pacheco fotografou o monarca, sua esposa, a imperatriz Teresa Cristina (1822 – 1889); e uma das filhas do casal, a princesa Leopoldina (1847 – 1871), na Quinta da Boa Vista (Diário do Rio de Janeiro, 9 de janeiro de 1856). Ao longo de sua trajetória fotografou diversos outros membros da Família Imperial como a Princesa Isabel (1846 – 1921) e seu marido, o Conde d´Eu (1842 – 1922); e realizou vistas da Quinta da Boa Vista e do Paço Imperial, dez das quais integram a coleção do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, e foram incluídas pelo historiador Daniel Rebouças no livro recentemente lançado pela Editora Capivara: O espelho de papel: A fotografia de Insley Pacheco na coleção do IHGB.

 

O espelho de papel: A fotografia de Insley Pacheco na coleção do IHGB, 2025

O espelho de papel: A fotografia de Insley Pacheco na coleção do IHGB, 2025

 

No artigo, além de destacarmos as fotografias de autoria de Insley recentemente incluídas no acervo fotográfico do portal e que pertencem ao IHGB, reunimos também imagens realizadas pelo fotógrafo provenientes de outros acervos presentes na Brasiliana Fotográfica: da Fundação Biblioteca Nacional e do Instituto Moreira Salles, suas instituições fundadoras; e do Arquivo Nacional e da Leibniz-Institut fuer Laenderkunde, suas parceiras.

 

Acessando aqui o link para as fotografias de autoria de Joaquim Insley Pacheco do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

Acessando aqui o link para todas as fotografias de autoria de Joaquim Insley Pacheco disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

 

JOAQUIM INSLEY PACHECO: NAUTA ENTRE PORTUGAL E O BRASIL E ENTRE O IMPÉRIO E A REPÚBLICA

Pedro Karp Vasquez*

 

 

 

A finalidade de um retrato não deve ser a de esclarecer,

mas de contornar, sugerindo o enigma.

De esforço em esforço, atingir a fisionomia plena,

mas com o seu segredo, que é o que importa.

Lúcio Cardoso

 

Queremos a ilusão grande do mar,

multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,

uma solidão para todos os lados,

uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do

mundo,

e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

Cecília Meireles

 

NAVEGAR É PRECISO…

Joaquim José Pacheco nasceu na vila portuguesa de Cabeceiras de Basto, no distrito de Braga, em 31 de março de 1830 e faleceu no Rio de Janeiro em 14 de outubro de 1912, famoso sob o nome de Insley Pacheco. Foi agraciado com o prestigioso titulo de Fotógrafo da Casa Imperial, na década de 1850, sendo igualmente Cavalheiro da Ordem de Christo de Portugal, pois seu talento também foi reconhecido em vida na pátria natal. O que destoa favoravelmente da situação da maioria dos fotógrafos estrangeiros que atuaram no Brasil durante o século XIX, desfrutando de maior ou menor celebridade entre nós, porém permanecendo no anonimato em seus países de origem.

 

 

Assim como muitos dos seus compatriotas que vieram tentar a sorte no Brasil, Joaquim José não teve vida fácil: órfão de pai e mãe, veio se juntar ao irmão mais velho, Bernardo José, no Recife, em 1843, sendo logo seguido pela irmã, Joaquina. Em algum momento da mesma década, mudou-se para Fortaleza, onde, em 1847, conheceu o daguerreotipista irlandês Frederick Walter (1811 – 18?) que contrabalançava a clientela rarefeita da época com o pitoresco ofício de mágico. Segundo Ary Bezerra Leite, em História da fotografia no Ceará (Edição do Autor, 2019), o jovem Pacheco trocou lições de daguerreotipia pela pintura de cenários para os espetáculos de magia do seu professor/empregador.

De temperamento perfeccionista, Joaquim José Pacheco rumou para Nova York no segundo semestre de 1950, depois de ter atuado por conta própria em Fortaleza e na capital maranhense. Nos Estados Unidos, estudou com dois grandes profissionais que se tornariam emblemáticos em virtude da documentação da Guerra Civil norte-americana (1861-1865), hoje conservada na Biblioteca do Congresso dos EUA: Jeremiah Gurney e Mathew Brady. Sendo que este último montou uma equipe para o registro simultâneo de diferentes frentes de batalha para oferecer abrangente documentação do conflito em consonância com sua ambição de ser “testemunha ocular da história”. Pacheco estudou também com Henry Earle Insley, que não se tornou tão célebre quanto os dois professores citados, mas foi um retratista extremamente popular, mantendo um estúdio na Broadway durante duas décadas, a partir de 1840. Foi ele quem, certamente, causou impressão mais profunda no jovem Joaquim José, de tal forma que, após regressar ao Brasil, ele aposentou o José de origem em benefício do Insley, com o qual pretendia homenagear o mestre.

De volta ao Brasil em 1851, Pacheco se instalou no Ceará dos seus primeiros passos na carreira, trabalhando em Fortaleza e Sobral. Depois fotografou também no Recife antes de buscar a clientela mais ampla e estável da Corte Imperial, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1855. Montou estúdio primeiro em um sobrado da rua do Ouvidor número 31, passando depois, quando já havia conquistado grande clientela, para um ateliê mais amplo e luxuoso no número 102 da mesma rua. Mas ocupou também, ao longo das seis décadas subsequentes, outros endereços na área central da cidade, que durante todo o século XIX concentrou a metade dos estúdios fotográficos do país. Pelo visto a adoção do Insley lhe deu sorte, pois depois de retratar belamente os principais membros da Família Imperial, Dom Pedro II, a imperatriz Thereza Christina e as princesas Isabel e Leopoldina, Insley Pacheco foi alçado, como foi dito, à honrosa condição de Fotógrafo da Casa Imperial. Manteve relacionamento pessoal e profissional com toda a família, inclusive com aqueles que se tornaram maridos das princesas, o conde d’Eu e o duque de Saxe, assim como os filhos de ambos os casais.

 

 

 

 

Merecem destaque dois retratos que fez do imperador e da imperatriz que se tornaram antológicos não só pela mestria técnica demonstrada como também pelo uso original e inesperado de uma ambientação com diversas plantas evocativas da exuberante natureza tropical brasileira. Isso, quando a moda, em todo o mundo, era o uso de fundos pintados para sugerir ambientes domésticos ou campestres europeus, já que a maioria desses acessórios vinha de cidades europeias, sobretudo Paris, Viena e Londres.

 

 

 

Insley Pacheco também retratou os membros da Família Imperial, assim como a maioria dos seus clientes, com o fundo neutro do estúdio e o mobiliário destinado a criar a ilusão de um ambiente caseiro abastado e que, nos primeiros tempos, servia para os retratados se apoiarem durante as longas sessões de pose: cadeiras, poltronas, balaustradas, colunas, assim como cortinas e tapetes destinados a acentuar a atmosfera doméstica.

 

 

 

 

Recebeu do imperador a autorização de comercializar esses retratos, o que, além de lhe proporcionar bons ganhos, permitiu que a sociedade tivesse um vislumbre mais fidedigno dos integrantes da Família Imperial, cujas fisionomias só eram conhecidas até então por intermédio dos processos de gravura, em particular da litografia, também usada na impressão de livros e periódicos. Seu bom relacionamento com Dom Pedro II fez com que ele aceitasse uma encomenda fora do seu padrão: a realização de vistas da Quinta da Boa Vista e do Paço Imperial, dez das quais integram a coleção do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (que possui um total de 397 fotos de Pacheco) e foram incluídas pelo historiador Daniel Rebouças no livro recentemente lançado pela Editora Capivara: O espelho de papel: A fotografia de Insley Pacheco na coleção do IHGB. A importância destas raras vistas de Pacheco já havia sido comprovada por sua inclusão pelo barão do Rio Branco no livro Le Brésil, de Levasseur, impresso em Paris, em 1889.

 

 

 

As sólidas raízes de Cabeceiras de Basto, “uma terra antiga e por isso uma terra sábia”, fizeram de Joaquim José Pacheco um gajo rijo e longevo que chegou aos 82 anos, em uma época na qual a expectativa de vida ao nascer era apenas de 30 anos e o próprio imperador faleceu três dias após fazer 66 anos. Hoje Pacheco seria certamente centenário, mas tal longevidade tanto pode ser encarada como uma bênção quanto como uma provação, já que o destino do idoso é viver em uma continua despedida dos entes queridos. Com Pacheco isso não foi diferente: ele, que já havia perdido na juventude uma filhinha com apenas 18 meses, Emília, perdeu depois a esposa, Elvira Laura, o filho, Alfredo Henrique, e duas netas, Maria e Maria de Lourdes. É como bem lembrou Lúcio Cardoso em seu Diário: “Podemos não sentir a idade, mas ela se faz presente, através dos mortos que vai semeando em torno de nós”.

ARLEQUIM SERVIDOR DE DOIS AMOS

Além de excelente fotógrafo, Joaquim Insley Pacheco foi também pintor e aquarelista, desmentindo o mito do antagonismo entre pintura e fotografia na fase inicial dessa nova disciplina. Foi, inclusive, aluno de pintura de outro dublê de fotógrafo e pintor, Arsênio da Silva, que documentou o casamento da princesa Isabel, em 15 de outubro de 1864. É muito provável que ele tenha tido notícia do daguerreotipista alemão, Francisco Napoleão Bautz, o primeiro a se dividir entre pintura e fotografia entre nós, e muito certamente conheceu outro profissional na mesma condição, Karl Ernest Papf, que chegou ao Brasil para realizar as fotopinturas da Photographia Allemã, de Albert Henschel, no Recife, mas depois se radicou em Petrópolis, onde abriu estúdio próprio no qual foi assistido pelo filho, Jorge Henrique, mais tarde autor de um impressionante panorama de 360 graus da Cidade Imperial.

Além de se aperfeiçoar na técnica do guache com Arsênio da Silva, Pacheco também foi aluno de pintura de Karl Linde e François-René Moreaux. Quando Silva faleceu, praticamente esquecido, em 1883, o discípulo deu uma bela prova de afeição pelo mestre: organizou uma ampla retrospectiva do seu trabalho no Salão Insley Pacheco, que foi prestigiada inclusive pelo imperador no dia 18 de outubro do mesmo ano, fato merecedor de registro na capa da Revista Illustrada (Número 358), na qual Angelo Agostini retratou o fotógrafo acompanhando Dom Pedro II na referida visita. Ressaltou ainda na legenda o fato de que Arsênio teria sido completamente esquecido se não fosse pela homenagem prestada por Insley Pacheco.

 

 

A prática do retrato fotográfico é tão fascinante quanto excruciante, pois é preciso admitir que o ser humano às vezes pode ser insuportável e as crianças, que têm índole melhor, costumam ser irrequietas, de tal forma que Pacheco chegou a anunciar na imprensa no começo da carreira sua especialidade no trato dos pequenos inevitavelmente enfastiados com as longas sessões de pose dos primórdios da fotografia. Para descansar das caras e bocas da prática cotidiana do retrato fotográfico, na pintura Insley Pacheco optou por se concentrar na produção de paisagens, com acentuado pendor pelas marinhas, que ele pintou em ambos os lados da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro e em Niterói, cujas belas praias seriam também a temática de predileção do Grupo Grimm, capitaneado pelo professor alemão Georg Grimm entre os anos de 1884 e 1886, em um capítulo fundamental do paisagismo na pintura brasileira.

 

 

Bom pintor, Insley Pacheco não era, no entanto, fenomenal, não podendo se igualar a alguns dos integrantes do Grupo Grimm, como seu próprio líder, Giovanni Battista Castagneto, Domingo García y Vásquez e Antônio Parreiras. Mas, no âmbito da fotografia, era insuperável, como um talento inegável e um domínio técnico invejável, do mesmo nível que os maiores profissionais europeus e norte-americanos de seu tempo. Dominava uma série admirável de processos e Mello Morais Filho, seu contemporâneo, afirmou em Artistas do meu tempo (H. Garnier, Livreiro-Editor, 1904) ter sido ele o pioneiro da ambrotipia no Brasil, além de “Introdutor incontestável da platinotipia no Brasil (1883), os seus planos vingaram desde logo, sendo o sistema adotado sem reservas pela generalidade dos nossos fotógrafos.” O empenho de Pacheco em se aperfeiçoar e se modernizar manteve intacto até o fim da vida, de tal forma que, mais tarde os anúncios publicados por ele na imprensa carioca alardearam o surgimento de um processo de sua invenção denominado “ambro-cromo-tipo”, assim como de “hallotypo”, e, finalmente, em 1909, a tipocromia “um novíssimo e interessante invento”. Constando também entre suas inovações a criação da “Diafonografia”, a respeito da qual nada sabemos.

 A PARTICIPAÇÃO DE INSLEY PACHECO NAS GRANDES EXPOSIÇÕES NACIONAIS E INTERNACIONAIS

Como Insley Pacheco foi ombreado apenas por Marc Ferrez o fotógrafo do Império que mais participou de exposições, tanto no Brasil quanto no exterior, é oportuno reproduzir aqui, à guisa de referência, um trecho do meu livro Fotografia escrita: Nove ensaios sobre a produção fotográfica no Brasil (Senac, 2014) sobre a matéria:

Foi em 1859 que ele participou pela primeira vez da Exposição Geral de Belas-Artes da Academia Imperial, na qual figuravam expoentes das nossas artes, como Jean-Baptiste Debret (incluído em caráter póstumo) e Victor Meirelles, bem como grandes mestres internacionais como Nicolas Poussin, Pieter Paul Rubens, Michelangelo Merisi da Caravaggio e Rafael Sanzio de Urbino.

Dois anos mais tarde, em 1861, Insley Pacheco obteve sua primeira premiação, uma medalha de cobre da I Exposição Nacional, evento em que participou com retratos fotográficos (inclusive de membros da família imperial), e com pinturas de paisagens. No ano seguinte, participou da primeira mostra internacional, a prestigiosa Exposição Universal de Londres, onde mostrou apenas retratos. Categoria em que figuravam também dois dos maiores especialistas franceses: Nadar (Gaspard Félix Tournachon et Maillet, 1820-1910) e Etienne Carjat (1828-1906). Outros importantes mestres da fotografia francesa que também expuseram na ocasião foram Louis-Alphonse Davanne (1824-1912), um dos membros fundadores, e depois presidente, da Société Française de Photographie, e Louis-Alphonse Poitevin (1819-1882), também membro da SFP e inventor de processos de impressão de imagens a partir do daguerreótipo. Contudo a presença mais ilustre dentre todas foi, inquestionavelmente, a do inventor inglês da fotografia, William Henry Fox Talbot (1800-1877), em sua primeira e última participação num evento dessa natureza.

Em 1864 Pacheco voltou a mostrar suas imagens fotográficas na Exposição Geral de Belas-Artes da Academia Imperial. E, no ano seguinte, teve participação destacada na Exposição Internacional do Porto, na qual conquistou a Medalha de Primeira Classe. Não deixando de participar também da Exposição Geral de Belas-Artes da Academia Imperial, no Rio de Janeiro. Em 1866 Insley Pacheco obteve medalhas de prata tanto por suas fotografias (na II Exposição Nacional), quanto por suas paisagens pintadas (na Exposição Geral de Belas-Artes da Academia Imperial). Em 1867, ele enviou retratos, inclusive em fotopintura, para a Exposição Universal de Paris, que também contou com a participação de Etienne Carjat. E, como sempre, compareceu à Exposição Geral de Belas-Artes da Academia Imperial, mostrando paisagens pintadas e fotografias, repetindo a dose com ambas as técnicas em 1868 também.

Joaquim Insley Pacheco teve destacada participação na III Exposição Nacional, em 1873, conquistado duas premiações: medalha de prata e medalha de cobre. Neste mesmo ano foi premiado também na Exposição Universal de Viena, com uma menção honrosa, sendo interessante mencionar que esse evento contou com expressiva participação de fotógrafos sediados no Brasil, tais como: Henschel & Benque, George Leuzinger, Augusto Riedel, Marc Ferrez, Fleiuss Irmãos & Linde, Júlio Balla, Antonio Ricardi e João Ferreira Vilella. Em 1875, ele participou da IV Exposição Nacional (com desenhos e pinturas), e da Exposição Geral de Belas-Artes da Academia Imperial, com retratos fotográficos e uma série de paisagens pintadas em técnicas diversas, como óleo, guache, aquarela e fusain, numa impressionante comprovação de sua versatilidade como pintor.

Em 1876, Insley Pacheco participou da Exposição Internacional da Filadélfia, comemorativa do primeiro centenário da independência dos Estados Unidos e da qual Dom Pedro II foi o convidado de honra, ocasião em que ocorreu o conhecido episódio do teste do telefone com seu inventor, Graham Bell, do qual nosso imperador foi um dos primeiros clientes e seguramente seu maior “garoto propaganda”. Consta inclusive que Pacheco teria sido premiado na ocasião, mas não consegui obter comprovação disto. Outro prêmio ainda indefinido foi aquele por ele obtido em 1882 na Exposição Continental de Buenos Aires, que Insley Pacheco fez questão de mencionar no verso de seus cartões-suporte a partir desta data, sem especificar no entanto que prêmio teria sido esse. A exemplo do que ocorreu também na Exposição Universal de Paris, de 1889. Esse foi o ano de inauguração da Tour Eiffel e Paul Nadar (Paul Tournachon, 1856-1939), filho do célebre Nadar também participou da exposição deste ano, bem como o suíço Frédéric Boissonnas (1858-1946). O Brasil também teve presença importante, com Albert Richard Dietze, Alfredo Ducasble, Marc Ferrez, Felipe Augusto Fidanza, Rodolpho Lindemann, Nicholson & Ferreira, José Tomás Sabino, José Ferreira Guimarães, George Leuzinger, Alfredo Ducasble e Paulo Robin & Cia.

Para concluir, é importante ressaltar que Joaquim Insley Pacheco não encerrou sua dupla carreira, na fotografia e na pintura, no período imperial. Extraordinariamente ativo, ele se manteve criativo e produtivo até o fim dos seus dias, com sua última presença em um evento público ocorrendo em 1910, ano em que participou da décima-sétima edição da Exposição Geral de Belas Artes com uma série de pinturas a guache (A Imprensa, 29 de setembro de 1910, primeira coluna).

 

*Pedro Karp Vasquez é escritor, fotógrafo e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

 

Acesse aqui a Cronologia de Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912) por Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

No Dia dos Namorados, o álbum “Vistas de Petrópolis” e o fotógrafo alemão Pedro Hees (1841-1880)

No Dia dos Namorados, a Brasiliana Fotográfica traz para seus leitores imagens da bela e romântica Petrópolis, a cidade imperial. Nos últimos anos da década de 1860, o alemão Phillip Peter Hees, que ficou conhecido como Pedro Hees (1841 – 1880), produziu o álbum Vistas de Petrópolis, que pertence à Coleção Thereza Christina, da Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras do portal. O álbum possui 15 fotografias em papel albuminado que mostram aspectos da cidade, sua ocupação e registros de suas construções e natureza. São fotos do Palácio Imperial, da Igreja da Matriz, do cemitério, da Cascata do Itamaraty, da Cascatinha do Retiro e de diversas ruas, dentre elas a rua do Imperador, que foi o tema do segundo artigo da série Avenidas e ruas do Brasil, publicada pelo portal.

 

 

Acessando o link para as fotografias do álbum Vistas de Petrópolis, de autoria de Pedro Hees disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

É de sua autoria um retrato do imperador Pedro II (1825 – 1891), destacado abaixo, que não faz parte do álbum.

 

 

Mas as belezas de Petrópolis também foram retratadas por outros importantes fotógrafos do sécculo XIX.

Entre 1864 e 1865 foi residir na cidade o francês Revert Henrique Klumb ( c.1826 – c.1886), na rua dos Artistas. Ele havia sido agraciado com o título de Fotógrafo da Casa Imperial, em 1861. Fotografou ruas como a do Imperador, a Tereza e a Joinville; o interior e o exterior do Palácio Imperial, os hotéis Beresford, Brangança e Inglês, o Retiro da Cascatinha, o rio Quitandinha, palacetes e casas, a princesa Isabel (1846 – 1921) e o conde D´Eu (1842 – 1922), além de vistas gerais.  Também fotografou a paisagem urbana de Petrópolis, acrescentando efeitos noturnos, uma importante inovação. Essa série é considerada extremamente significativa do ponto de vista estético, formal e dos limites da linguagem na época. Foi o autor do livro Doze horas em diligência. Guia do viajante de Petrópolis a Juiz de Fora, publicado em 1872, única obra do Brasil do século XIX a ser idealizada, fotografada, escrita e publicada por uma só pessoa. Foi o primeiro livro de fotografia inteiramente litografado e produzido no país. Pedro Hees era considerado seu maior concorrente.

 

 

Ainda em Petrópolis, foram contemporâneos de Klumb e de Hees, na década de 1860, João Meyer Filho e João Nogueira de Sousa (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1865, segunda coluna).

O fotógrafo e editor suíço Georges Leuzinger (1813 – 1892) também retratou Petrópolis. Em 1865, foi aberto o ateliê de fotografia da Casa Leuzinger, no Rio de Janeiro, especializado em “vistas da cidade, Tijuca, Petrópolis, Teresópolis e rio Amazonas”, como se lê no verso de uma de suas cartes de visite.

Em 1865 montou então Georges Leuzinger um completo ateliê fotográfico, com todos os aparelhos necessários para viagens para o interior do Brasil, tendo para esse fim contratado um habilíssimo artista fotógrafo para dirigi-lo, que em companhia de vários auxiliares fizeram excursões por essa capital, Petrópolis, Teresópolis, etc., tirando fotografias de tudo o que de mais interessante se encontra na pujante natureza daquelas belíssimas regiões“.

Ernesto Senna em O Velho Comércio do Rio de Janeiro

 

 

Outro importante fotógrafo que realizou registros de Petrópolis foi Augusto Stahl (1828 – 1877), também agraciado com o título de Fotógrafo da Casa Imperial, em 21 de abril de 1862. Entre 1863 e 1870, seu estabelecimento fotográfico ficava no Rio de Janeiro.

 

 

Lembramos que, em torno de 1885, o brasileiro e filho de franceses Marc Ferrez (1843 – 1923) realizou o Álbum Vistas de Petrópolis e Rio de Janeiro, com 30 imagens de Petrópolis seus canais, casarões, escolas, estação de trem, fábricas, jardins, paisagens, palacetes e ruas, além de imagens do Palácio de Cristal, do Palácio do Grão-Pará, da avenida Koeller e da construção de uma ferrovia.

 

 

 Breve perfil de Pedro Hees (1841 – 1880)

 

Nascido na região de Hunsruek, na Alemanha, em 1841, Pedro Hees chegou em Petrópolis com 4 anos de idade, em 1845, com sua mãe, Anne Catharine Michel, e com seu pai, o colono alemão Christian Sebastian Hees, marceneiro e entalhador, que trabalhou na construção do Palácio Imperial da cidade, iniciada em 1845 e concluída em 1862. Eles integraram a primeira leva de colonos alemães que chegaram a Petrópolis.

 

 

Pedro casou-se com a alemã Maria Glasow Hees (1843 – 1928), em 22 de janeiro de 1861, e tiveram 11 filhos: Ana Catarina Hees (1861-1944), Edmundo Frederico Nicolau Hees (1862-1944), Fernando Jacob Hees (1865-1866), Fernando Mauricio Hees (1867-1893), João Batista Hees (1868-1876), Otto Hees (1870-1941), Elisa Matilde Hees (1872-1932), Maria Olga Hees (1872-1958), Joana Teresa Hees (1874-1900), Numa Augusto Hees (1877-1961) e Isabel Emma Hees (1878-1943). No site Sou Petrópolis há uma foto de Maria, realizada em 12 de setembro de 1915, com 27 netos (A Noite, 23 de junho de 1922, quarta colunaSou Petrópolis e Geneanet).

 

 

Antes de se interessar por fotografia, o que aconteceu em meados da década de 1860, Pedro trabalhou no comércio como sapateiro, na rua do Bourbon e na rua dom Affonso. Ambas foram fotografadas por ele e fazem parte do álbum Vistas de Petrópolis (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1962, primeira coluna; Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1964, segunda coluna; Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1965, segunda coluna). Na mesma rua dom Afonso, passou a ter uma ferraria, em 1866 (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1866, segunda coluna).

 

 

 

 

Em 1868,  já possuía um estúdio fotográfico, a Photographia Popular, na Praça Dom Afonso, atual Praça da Liberdade, que tornou-se bastante conhecido e era frequentado pela nobreza, por políticos, diplomatas e também por comerciantes e artesãos imigrantes. Petrópolis era, na época, muito frequentada pela família imperial (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1868, segunda coluna).

 

 

Em 1870, Pedro Hees era o secretário da Sociedade Alemã de Beneficência Bruderbund (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1868, segunda coluna).

Em março de 1876, faleceu seu filho João Baptista Numa Hees, aos 7 anos, de pleuro-pneumonia (O Mercantil, 29 de março de 1876, terceira coluna). Em 16 de agosto do mesmo ano, tornou-se Fotógrafo da Casa Imperial. Segundo Boris Kossoy, recebeu do conde e da condessa d´Eu “a graça de usar o título de Photographo de sua Imperial Caza e de collocar na porta do seu estabelecimemnto as respectivas armas”. O documento foi assinado por Benedicto Torres, mordomo do conde d’Eu e da princesa Isabel.

Faleceu jovem, aos 39 anos, de entero-mezenterite (O Mercantil, 14 de agosto de 1880, última coluna). Seu estabelecimento fotográfico foi arrendado ao fotógrafo Antonio Henrique da Silva Heitor (18?-?), que, posteriormente, recebeu o título de Fotógrafo da Casa Imperial em 2 de março de 1885, outorgado por dom Pedro II. Sob o nome de Hees & Irmãos, o estúdio foi assumido pelos filhos de Pedro Hees – Numa Augusto  e Otto -, em torno de 1890. Existiu até 1915. Otto foi o autor de uma importante fotografia que tudo indica ter sido o último registro da família imperial antes da proclamação da República, em 15 de novembro de 1889. Também fotografou a assinatura do Tratado de Petrópolis, na residência do Barão do Rio Branco, em 1903; e os netos de Pedro II.

 

 

 Acesse aqui a Cronologia de Pedro Hees (1841 – 1880).

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

CARMONA, João Sêco. Iconografia do Brasil Imperial. Génese do Museu Imperial de Petrópolis e os registos fotográficos. Anais do 5º Seminário Internacional Museografia e Arquitetura de Museus Fotografia e Memória, 2016.

Enciclopédia Itaú Cultural

FERREZ, Gilberto. A fotografia no Brasil: 1840- 1900. Prefácio Pedro Karp Vasquez. 2. ed. Rio de Janeiro: Funarte, 1985.

FERREZ, Gilberto. Um passeio a Petrópolis em companhia do fotógrafo Marc Ferrez. Separata do Anuário do Museu Imperial – 1948.

Google Arts & Culture

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

LAGO, Bia Corrêa do. Os fotógrafos do Império: a fotografia brasileira no Século XIX. Rio de Janeiro: Capivara, 2005.

Site Geneanet

Site Library of Congress

Site Museu Imperial de Petrópolis

Tribuna de Petrópolis, 1º de julho de 2016

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 1985.

Wikipedia

 

Outras publicações da Brasiliana Fotográfica no Dia dos Namorados:

Fotografia e namoro, de autoria de Elvia Bezerra, publicado, em 12 de junho de 2018 .

Série “O Rio de Janeiro desaparecido” X – No Dia dos Namorados, um pouco da história do Pavilhão Mourisco em Botafogo, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 12 de junho de 2020.

 

Fernando Skarke (1858 – 1935), Fotógrafo da Casa Imperial

O fotógrafo austríaco Ferdinand (Fernando) Adolf Skarke (1858 – 1935) veio para o Brasil com seus pais Johann e Theresa Skarke. Seu pai imigrou para trabalhar em Campinas em obras de engenharia hidráulica. Já na década de 1880, Fernando possuía um ateliê fotográfico em Piracicaba. Em novembro de 1886, dom Pedro II (1825 – 1891)  e dona Teresa Cristina (1822 – 1889) fizeram uma visita à cidade e, no mês seguinte, em 14 de dezembro de 1886, o imperador concedeu a Fernando o título de Fotógrafo da Casa Imperial. Acredita-se, até o momento, que ele tenha sido o único da província de São Paulo a receber essa distinção. De temperamento alegre e comunicativo, tinha vários amigos como, por exemplo, o poeta santista José Martins Fontes (1884-1937) e o empresário Conrado Wessel (1891 – 1993). Só saiu do Brasil, já idoso, para visitar Viena.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Skarke disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Por volta de 1888, foi para Santos onde teve estabelecimentos fotográficos em três diferentes endereços: rua General Jardim, 80; na Praça da República, 16; e na rua São Leopoldo, 14. Na virada do século XIX para o XX, Santos prosperava e a demanda por fotografias na cidade aumentava. Os profissionais disputavam a freguesia local e o ateliê de Skarke, na Praça da República, era o mais luxuoso da cidade: montado com todo o capricho, tendo um magnífico e espaçoso salão, com excelente luz; dispõe também das melhores e mais modernas máquinas, tendo uma grande variedade de ornamentos e fundos, tanto paisagens, como de salão, e mobília.

 

 

Segundo sua filha Mellita (1894 – ?), Skarke emulsionava papéis fotográficos com produtos químicos, usava albumina de ovo e nos dias ensolarados distribuía caixas de madeira com negativos de vidro e papel para serem sensibilizados pela luz natural. O sistema de iluminação natural do estúdio era composto por uma série de janelas de vidro, incluindo partes altas do telhado, que eram recobertas por cortinas em trilhos. Ajustes eram feitos para obter-se a iluminação desejada.

Sua neta Elisa Dias de Toledo Pitombo, filha de Mellita, relatou que Fernando teria feito fortuna produzindo retratos de famílias de imigrantes, principalmente, de comerciantes portugueses abastados que gostavam de enviar esses registros para seus parentes. “Com a fotografia ele ganhou muito dinheiro e morou num palacete que depois virou hotel, a casa começava na rua da praia e ia até o morro“.

Em 1890, Skarke casou-se com a alemã Meta Gesine. O primeiro filho do casal faleceu ainda bebê. A primogênita, Melitta, nasceu na Alemanha, e, os demais, em Santos:  Thereza (1896 – ?), Hugo Fernando (1898 – 197?), que o sucedeu na Photo Skarke; Regina (c. 1900 – ?) e Erna (c. 1902 – ?).

Faleceu, vítima de arteriosclerose, em 18 de abril de 1935, aos 76 anos, em São Paulo, na casa de seu filho Hugo, à rua Tupi, no bairro de Santa Cecília. Foi enterrado no Cemitério do Redentor.

 

Fernando Skarke. Hugo Skarke, c. 1905 / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

Fernando Skarke. Hugo Skarke, c. 1905 / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

 

Cronologia de Fernando Skarke (1858 – 1935)

 

 

1858 - Ferdinand (Fernando) Adolf Skarke nasceu em 17 de outubro de 1858, filho de Johann e Theresa Skarke. Em sua certidão de óbito consta que ele teria nascido na Tchecoslováquia embora, segundo seu bisneto Luiz Henrique Pitombo, a família sempre tenha considerado a Áustria como sua terra natal. O pai de Fernando Skarke imigrou para o Brasil, onde trabalhou em obras de engenharia hidráulica em Campinas, no estado de São Paulo.

1886 – Fernando Skarke possuía um ateliê fotográfico em Piracibaca. Dom Pedro II(1825 – 1891) e dona Teresa Cristina (1822 – 1889) visitaram a cidade em novembro de 1886. Skarke presenteou o imperador com uma fotografia panorâmica da cidade, montada a partir da união de imagens de várias chapas. Ficaram hospedados na casa do empresário e um dos fundadores da Companhia Ituana de Navegação, nos rios Tietê e Piracicaba, Estevão Ribeiro de Souza Rezende (1840 – 1909). Ele também foi o fundador do Engenho Geral de Piracicaba, em 1881, além de escritor e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Por ter lutado na Guerra do Paraguai foi agraciado com a Ordem de Cristo. Também participaram da visita imperial o ministro da Agricultura, Antônio da Silva Prado (1840 – 1929); e o presidente da Província de São Paulo, Antônio de Queirós Teles (1831 – 1888) (Correio Paulistano, 13 de novembro de 1886, primeira coluna).

 

Pedro II e TEresa Cristina em Piracicaba, 1886. Piracicaba, SP / Acervo de Luiz henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

Fernando Skarke. Pedro II e Teresa Cristina em Piracicaba, 1886. Piracicaba, SP / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

Em 14 de dezembro de 1886, Skarke foi agraciado pelo imperador com o título de Fotógrafo da Casa Imperial, tendo sido, provavelmente, o único da província de São Paulo a receber a condecoração. Abaixo, estão reproduzidos o envelope e a carta da concessão do título, do acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto de Skarke.

 

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Envelope e carta da concessão do título de fotógrafo da Casa Imperial concedido a Fernando Skarke por dom Pedro II / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

1887 – Skarke produziu três vistas fotográficas da enchente do rio Piracicaba que, na ocasião, apresentou um aspecto tão formidável e pitoresco ( L´Italia, 15/16 de janeiro de 1887, terceira colunaJornal do Commercio, 22 de janeiro de 1887, última coluna).

Neste mesmo ano, Skarke fotografou o bebê Emilia Diehl Muller, em Piracicaba (Site Coisas Antigas):

 

 

c. 1888 – Em Santos, seu estabelecimento fotográfico ficava na rua General Jardim, 80.

1890 – Casou-se, em São Paulo, com a alemã, de Bremen, Meta Gesine, que trabalhava como preceptora dos filhos de um casal abastado em Piracicaba. Nos primeiros anos dessa década, o casal teve o primeiro filho, que faleceu. 

 

Fernando e Skarke / Acervo de Luiz Henrique Skarke, bisneto do fotógrafo

O casal Fernando Skarke e Meta Gesine / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

1891 – Em 1891, Verano Alonso enviou seu retrato, produzido por Fernando Skarke, para José Joaquim de Miranda. No verso do cartão, Skarke anuncia “aparelhos especiais para grupos“, “novidades para retratos de crianças” e informa que “conserva-se chapas para reproduções e tendo as mesmas um abatimento de 25%“.

 

 

 

1892 – Fez propaganda de suas novas instalações, dotadas de “um magnífico e espaçoso salão, com excelente luz”, além de máquinas modernas e vários fundos, entre eles as paisagens” (Folha da Tarde, 22 de março de 1892). Na ocasião, seu ateliê ficava na Praça da República, 16, em Santos.

 

Verso de um cartão imperial, de Fernando Skarke / Acervo de Marjorie C.F. Medeiros)

Verso de um cartão de Fernando Skarke / Acervo de Marjorie C.F. Medeiros)

 

 

1894 - Meta decidiu ter o segundo filho junto à mãe, Gesine Schwarting, na Alemanha. Em Lesum, perto de Bremen, nascimento da filha primogênita do casal, Melitta. Um ano depois, as três vieram para o Brasil.

Todos os demais filhos de Skarke nasceram em Santos: Thereza (1896 – ?), Hugo Fernando (1898 – 197?), Regina (c. 1900 – ?) e Erna (c. 1902 – ?).

 

Os cinco filhos de Fernando e Meta Gersine Skarke, c. 1905 / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

Fernando Skarke. Os cinco filhos de Fernando e Meta Gersine Skarke, c. 1905 / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

1908 a 1911 - Seu ateliê, em Santos, ficava na rua São Leopoldo, 14. Nessa mesma época, além da Société Photographique Internacional, atuavam na cidade outros fotógrafos como Carlos W. Weize (18? – 19?), Gustavo Paiva (18? – 19?), Emílio Gottschalk  (18? – 19?), o alemão Hermann Eckman (18? – 19?) e J. Marques Pereira (18? – 19?) –  no Almanak Laemmert o nome deste último fotógrafo aparece como J. Moraes Pereira (Almanak Laemmert, 1908, última colunaAlmanak Laemmert, 1910, segunda coluna; Almanak Laemmert, 1911, primeira coluna).

 

 

1912 - Skarke fotografou o passe-partout, desenhado pelo apreciado pintor Waldemir Alfaya, das diplomandas de 1911 da Associação Feminina Santista. A imagem foi publicada em A Fita, revista humorística, literária e ilustrada, fundada em 1911 e dirigida por Bento de Andrade e Manoel Pompílio dos Santos (A Fita, 1º de maio de 1912).

 

 

1914 – Fotografou Um almoço de caridade, oferecido, no Natal de 1913, aos presos da Cadeia Pública de Santos, pela Associação das Mães Cristãs (A Fita, 15 de janeiro de 1914).

 

 

Neste ano, durante a Primeira Guerra Mundial, Hugo Fernando (1898 – 197?), sucessor do pai na Photo Skarke, estava estudando, provavelmente, fotografia, na Alemanha.

c. 1930 - A Photo Skarke ficava no Largo Santa Ifigênia, 12, em São Paulo, endereço conhecido por seu comércio sofisticado, frequentado pelas famílias do bairro Campos Elísios.

1931 - Uma fotografia realizada pela Photo Skarke da feminista Maria Prestia (? – 1988) foi enviada por ela a então presidente da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, a cientista Bertha Lutz (1894 – 1976).

 

 

1935 - Fernando Skarke faleceu, vítima de arteriosclerose, em 18 de abril de 1935, aos 76 anos, em São Paulo, na casa de seu filho Hugo, à rua Tupi, no bairro de Santa Cecília. Foi enterrado no Cemitério do Redentor.

 

Fernando Skarke. Erna, sua filha, c. 1905. Santos, SP / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrado

Fernando Skarke. Erna, filha de Fernando Skarke, c. 1905. Santos, SP / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrado

 

A Brasiliana Fotográfica agradece ao bisneto de Fernando Skarke, Luiz Henrique D. T. Pitombo que, generosamente, forneceu informações importantes acerca da Photo Skarke, além de ter cedido imagens para essa publicação.

Agradecimentos também à pesquisadora Maria Isabel Lenzi e à arquivista Daniella Gomes dos Santos, ambas do Museu Histórico Nacional, que viabilizaram, para essa publicação, a digitalização das imagens da referida instituição e de sua disponibilização no acervo da Brasiliana Fotográfica.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. Origens e expansão da fotografia no Brasil : século XIX. Prefácio Boris Kossoy. Rio de Janeiro: Funarte, 1980. 128 p.

FERREZ, Gilberto. A Fotografia no Brasil: 1840-1900 / Gilberto Ferrez; [prefácio por Pedro Vasquez] – 2ª ed. – Rio de Janeiro: FUNARTE: Fundação Nacional Pró-Memória, 1985.

PITOMBO, Luiz Henrique D. T. Fernando Skarke – fotógrafo pioneiro.

Site Câmara de Piracicaba

Site Coisas Antigas

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site Fundação Conrado Wessel

Site Novo Milênio

Site Secretaria de Cultura e Turismo de Piracicaba

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho: Companhia Internacional de Seguros: Ed. Index, 1985.

João Ferreira Villela, um dos primeiros fotógrafos pernambucanos

João Ferreira Villela, um dos primeiros fotógrafos pernambucanos* 

 

Contemporâneo no Recife dos estrangeiros Augusto Stahl (1828 – 1877) e Alberto Henschel (1827 – 1882), João Ferreira Villela (18? – ?) é considerado, até hoje, um dos primeiros fotógrafos pernambucanos, tendo sido antecedido por Cincinato Mavignier (1826 – 1868), pensionista de S.M. o Imperador, que anunciou, em 9 de junho de 1854, uma Galeria de retratos a óleo e daguerreótipo, no Aterro da Boa Vista, nº 82, primeiro e segundo andares, em 1854, um ano antes de Villela (1).

A biografia de Villela é ainda bastante desconhecida. Iniciou sua vida profissional como taquígrafo mas foi como retratista e paisagista que se notabilizou. Seu primeiro ateliê, aonde permaneceu de 1855 a 1858, ficava no Aterro da Boa Vista nº 4, mesmo endereço onde anteriormente trabalharam os fotógrafos norte-americanos Charles DeForest Fredricks (1823 – 1894), em 1851 e, em 1854, Augustin Lettarte (18? – ?) e o português Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912). Desse último, Villela afirmava ser o único discípulo. Sempre demonstrou interesse em ter máquinas modernas para a realização dos trabalhos de seu estabelecimento e prometia, como resultado, a perfeição.

 

 

Em fins de 1858, transferiu-se para a rua Nova, nº 18, primeiro andar.  No ano seguinte, quando dom Pedro II(1825 – 1891) visitou Recife, Villela ofereceu a ele seis molduras douradas com imagens obtidas sobre chapas metálicas. Na ocasião, o monarca encomendou a Villela vistas de locais no interior de Pernambuco que havia conhecido durante sua viagem pelo nordeste. Em 18 de setembro de 1860, Villela tornou-se o único pernambucano a ser agraciado por dom Pedro II com o título de Fotógrafo Imperial. No fim de 1860, o casal real foi padrinho de uma de suas filhas. Na cerimônia, realizada na Igreja Paroquial de Santo Antônio, fizeram-se representar pelo Presidente da Província de Pernambuco, Ambrósio Leitão da Cunha, o Barão de Mamoré (1825 – 1898), e sua esposa.

 

Acessando o link para as fotografias de João Ferreira Villela disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Inaugurou seu novo ateliê na rua do Cabugá, nº 18, em 1861. Oferecia retratos por ambrótipos e por melainótipos sobre panos encerados próprios para remeter dentro de cartas ou sobre malacacheta ou talco especiais para alfinetes ou cassoletas, além de retratos transparentes, oferecendo o mesmo retrato em duas vistas, uma colorida e outra em preto e branco, além de retratos dos principais personagens da Europa, vistas estereoscópicas, vidros para ambrótipos e químicas fotográficas. Nesse mesmo ano, assinou alguns artigos da coluna “Palestra sobre o Theatro”, do jornal pernambucano O Constitucional: jornal político, religioso, científico e literário.

Em 7 de abril de 1870, após 10 meses de obras, o estabelecimento de Villela na rua do Cabugá, agora denominado Photographia Imperial, foi reinaugurado. A reforma teve como modelo o ateliê do fotógrafo Insley Pacheco, na rua do Ouvidor, 102, no Rio de Janeiro, que Villela havia visitado em 1868. A partir de 1870, o pintor alemão Jorge Augusto Roth (c. 1840 – 1893), passou a colaborar no ateliê de Ferreira Villela como encarregado de colorir as cópias fotográficas. A última notícia sobre seu estabelecimento fotográfica é de 1873. Acredita-se que depois dessa data ele tenha se dedicado exclusivamente à produção de tintas de escrever indeléveis e produtos farmacêuticos.

 

 

Ferreira Villela participou de diversas exposições, dentre elas as Exposições Provinciais de Pernambuco de 1861, 1866 e 1872; da II Exposição Nacional do Rio de Janeiro de 1866, quando recebeu com Leon Chapelin a 3ª menção honrosa; da III Exposição Nacional no Rio de Janeiro de 1873, expondo produtos farmacêuticos e tintas de escrever, tendo sido premiado com as medalhas de prata e de bronze; e da IV Exposição Nacional no Rio de Janeiro de novo com tintas de escrever, quando ganhou uma medalha de mérito. No exterior, participou da Exposição Universal de Viena de 1873 com produtos farmacêuticos, tendo sido premiado com a medalha de mérito e com uma menção honrosa; dois anos depois, da Exposição Internacional de Santiago do Chile, com tintas de escrever, tendo conquistado o segundo prêmio; e, finalmente da Exposição Universal da Filadélfia, ocorrida entre 10 de maio e 10 de novembro de 1876, também com tintas de escrever, quando conquistou a medalha de honra. Dessas duas últimas constou como expositor do Rio de Janeiro. Teria ido viver na corte?

 

 

Cronologia de João Ferreira Villela (18? – ?)

1840 – O aluno João Ferreira Villela, do Colégio Pernambucano, foi aprovado na prova geral de primeiras letras e gramática nacional (Diário de Pernambuco, 23 de dezembro de 1840, última coluna).

1841 – João Ferreira Villela foi aprovado na prova de História, seção de História Sagrada, do Colégio Pernambucano (Diário de Pernambuco, 18 de dezembro de 1841, segunda coluna).

1849 – João Ferreira Villela requereu à Assembleia Provincial de Pernambuco uma gratificação para que ele pudesse concluir o curso de taquigrafia. Ele e outro aluno, Joaquim Izidoro Simões, receberam uma gratificação de  400 mil réis cada um, e o professor de arte recebeu 800 (Diário de Pernambuco, 30 de maio de 1849, primeira coluna; e Diário de Pernambuco, 23 de junho de 1849, primeira coluna).

1850 – Fez outro requerimento à Assembleia Provincial de Pernambuco em relação a financiamento para seu curso de taquigrafia e passou a ser adido da secretaria da assembleia (Diário de Pernambuco, 25 de maio de 1850, primeira coluna, e Diário de Pernambuco, 2 de julho de 1850, primeira coluna).

1851 – João Ferreira Villela e Joaquim Izidoro Simões solicitaram a criação de lugares de taquígrafos na Assembleia Provincial de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 13 de março de 1851, terceira coluna).

1852 – Foi concedida uma licença de um mês e 24 dias para João Ferreira Villela, praticante de taquigrafia, ir à Paraíba (Diário de Pernambuco, 11 de maio de 1852, quinta coluna).

No dia 13 de novembro, a bordo do vapor brasileiro Mucury, Villela chegou ao Rio de Janeiro (O Globo, 20 de novembro de 1852, primeira coluna).

1853 – O então taquígrafo João Ferreira Villela voltou para Pernambuco, em 12 de novembro, no vapor Guanabara e informou que não devia nada nesta praça (Diário do Rio de Janeiro, 9 de novembro de 1853, primeira coluna; e Diário do Rio de Janeiro, 13 de novembro de 1853, última coluna).

1855 – Inicialmente, segundo Boris Kossoy, sem anunciar seu nome, João Ferreira Villela possuía um ateliê de fotografia no Aterro da Boa Vista, nº4, mesmo endereço onde anteriormente trabalharam os fotógrafos norte-americanos Charles DeForest Fredricks (1823 – 1894), em 1851 (Diário de Pernambuco, 23 de julho de 1851, última coluna), e, em 1854, Augustin Lettarte (18? – ?) (Diário de Pernambuco, 6 de fevereiro de 1854, segunda coluna) e o português Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912) (Diário de Pernambuco, 29 de março de 1854, na terceira coluna). O ateliê de Villela oferecia retratos de pessoas idosas, de crianças e anunciava que iria a qualquer lugar para tirar retratos de pessoas mortas. Anunciava também tirar retratos em stereoscopo, isto é de maneira a apresentar a pessoa em relevo e ao natural e incumbiam-se de tirar cópias em daguerreótipo (Diário de Pernambuco, 10 de dezembro de 1855, penúltima coluna).

1856 – Vendia-se no estabelecimento de Villela um grande sortimento de objetos para a colocação de retratos que lá se tiravam com a maior perfeição tanto pelo sistema francês como pelo norte-americano (Diário de Pernambuco, 3 de outubro de 1856, primeira coluna).

 

1857 – Publicação de propaganda da Grande Oficina de Galeria de Daguerreótipo informando a chegada de produtos de Nova York e também informando os preços dos retratos (Diário de Pernambuco, 13 de junho de 1857, terceira coluna).

1858 –  Recém chegado à cidade, no vapor Oyapock, o retratista J. Villela abriu seu novo estabelecimento de daguerreotipia à rua Nova, nº 18, primeiro andar. Anunciava possuir o mais completo sortimento de caixinhas, molduras pretas, douradas e jóias para a colocação dos retratos. Anunciava também que iria a qualquer parte tirar retrato de família ou de pessoa morta (Diário de Pernambuco, 15 de dezembro de 1858, segunda coluna).

1859 –  Em uma propaganda de seu estabelecimento, Villela divulgou sua habilidade como restaurador de daguerreótipos (Diário de Pernambuco, 7 de setembro de 1859).

Quando dom Pedro II visitou Recife, em outubro, Villela ofereceu a ele seis molduras douradas com imagens obtidas sobre chapas metálicas: do Pavilhão construído a mando da Câmara Municipal para a recepção do imperador, do porto de desembarque do imperador com quiosque, dois barracões, chafariz e cais do Colégio; da continuação da citada vista com o mastro norte do pavilhão da Câmara e mosqueiro com todas as embarcações ali fundeadas; de uma marinha, do Templo dos Ingleses, na rua da Aurora; e do fim da rua da Cruz com o princípio do arsenal de Marinha. S. Majestade, com a bondade que todos conhecem, dignou-se receber o mimo, declarar que conhecia todas as vistas e achava bom o trabalho. O monarca encomendou a Villela vistas de locais no interior de Pernambuco que havia conhecido. Ficou combinado que seriam remetidas para o Rio de Janeiro. É mais uma prova do quanto nosso adorado monarca aprecia e anima as artes assim como do valor e importância que dá ao que é nosso (Diário de Pernambuco, 26 de dezembro de 1859, quarta coluna; e Correio Mercantil (RJ), 7 de janeiro de 1860, quarta coluna).

1860 – Sobre a foto abaixo, produzida por Villela em torno de 1860, Luis Felipe de Alencastro comentou no livro História da vida privada no Brasil Império: a corte e a modernidade nacional, publicado pela Companhia das Letras, em 1998:

 

Imagem representativa da obra

João Ferreira Villela. Augusto Gomes Leal com a Ama-de-Leite Mônica, c. 1860. Recife. Pernambuco / Acervo da Fundação Joaquim Nabuco

 

A fotografia feita no Recife por volta de 1860. Na época era preciso esperar no mínimo um minuto e meio para se fazer uma foto. Assim, preferia-se fotografar as crianças de manhã cedo, quando elas estavam meio sonolentas, menos agitadas. O menino veio com a sua mucama, enfeitada com a roupa chique, o colar e o broche emprestado pelos pais dele. Do outro lado, além do fotógrafo Villela, podiam estar a mãe, o pai e outros parentes do menino. Talvez por sugestão do fotógrafo, talvez porque tivesse ficado cansado na expectativa da foto, o menino inclinou-se e apoiou-se na ama. Segurou-a com as duas mãozinhas. Conhecia bem o cheiro dela, sua pele, seu calor. Fora no vulto da ama, ao lado do berço ou colado a ele nas horas diurnas e noturnas da amamentação, que os seus olhos de bebê haviam se fixado e começado a enxergar o mundo. Por isso ele invadiu o espaço dela: ela era coisa sua, por amor e por direito de propriedade. O olhar do menino voa no devaneio da inocência e das coisas postas em seu devido lugar. Ela, ao contrário, não se moveu. Presa à imagem que os senhores queriam fixar, aos gestos codificados de seu estatuto. Sua mão direita, ao lado do menino, está fechada no centro da foto, na altura do ventre, de onde nascera outra criança, da idade daquela. Manteve o corpo ereto, e do lado esquerdo, onde não se fazia sentir o peso do menino, seu colo, seu pescoço, seu braço escaparam da roupa que não era dela, impuseram à composição da foto a presença incontida de seu corpo, de sua nudez, de seu ser sozinho, da sua liberdade. O mistério dessa foto feita há 130 anos chega até nós. A imagem de uma união paradoxal mas admitida. Uma união fundada no amor presente e na violência pregressa. A violência que fendeu a alma da escrava, abrindo o espaço afetivo que está sendo invadido pelo filho do senhor. Quase todo o Brasil cabe nessa foto‘.

Em propaganda de sua oficina e galeria da rua Nova, 18, anúncio de que Ferreira Villela já havia tirado mais de cinco mil retratos em quatro anos (Diário de Pernambuco, 22 de maio de 1860, terceira coluna).

 

 

Lado a lado, propagandas dos estabelecimentos fotográficos de Villela e de Augusto Stahl (1828 – 1877) (Diário de Pernambuco, 3 de fevereiro de 1860).

 

 

Embarcou no vapor Oyapock rumo aos portos do sul (Diário de Pernambuco, 6 de agosto de 1860, quarta coluna).

Embarcou, no Rio de Janeiro, no paquete Cruzeiro do Sul, rumo a Pernambuco (Correio Mercantil(RJ), 13 de setembro de 1860, penúltima coluna). Anunciou seu retorno, a iminência da inauguração de seu novo estabelecimento fotográfico, na rua do Cabugá, nº 18, e identificou-se como único discípulo de Insley Pacheco. Oferecia retratos por ambrótipo, daguerreótipo e ambrocromótipo. Este último sistema, invenção do distinto professor Insley Pacheco, de quem o anunciante é o único discípulo (Diário de Pernambuco, 4 de outubro de 1860).

 

 

De acordo com Guilherme Auler (6/1/1914 – 27/12/1965), sob o pseudônimo de Ricardo Martim, em dois artigos publicados na Tribuna de Petrópolis, em 1º e 8 de abril de 1956, segundo o livro O Brasil na fotografia oitocentista, de Pedro Vasquez, João Ferreira Villela, teve seu título de Fotógrafo Imperial concedido por dom Pedro II(1825 – 1891), em 18 de setembro de 1860. Foi o primeiro e único pernambucano agraciado. Antes dele, os fotógrafos Buvelot & Prat e Joaquim Insley Pacheco, ambos da província do Rio de Janeiro, haviam recebido o título em 8 de março de 1851 e em 22 de dezembro de 1855, respectivamente.

Os padrinhos de uma de suas filhas foram dom Pedro II e dona Teresa Cristina (1822 – 1889), que se fizeram representar pelo Presidente da Província de Pernambuco, Ambrósio Leitão da Cunha (1825 – 1898) e sua esposa. Muitas autoridades estavam presentes à cerimônia, na Igreja Paroquial de Santo Antônio, e também à festa na casa de Ferreira Villela (Diário de Pernambuco, 18 de dezembro de 1860, penúltima coluna; e Diário do Rio de Janeiro, 29 de dezembro de 1860, penúltima coluna).

1861 –  No Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial da Província de Pernambuco de 1861 , Villela foi listado como taquígrafo e, com Augusto Stahl, como fotógrafo.

 

taquigrafo

 

 AUGUSTO

 

Apresentou-se como Retratista da Augusta Casa Imperial em anúncio de seu estabelecimento fotográfico na rua do Cabugá, nº 18 (Diário de Pernambuco, 13 de abril de 1861).

 

 

Oferecia retratos por ambrótipos e por melainótipos sobre panos encerados próprios para remeterem-se dentro de cartas ou sobre malacacheta ou talco especiais para alfinetes ou cassoletas, além de retratos transparentes, oferecendo o mesmo retrato em duas vistas, uma colorida e outra em preto e branco (Diário de Pernambuco, 22 de junho de 1861).

Durante 1861, assinou alguns artigos da coluna “Palestra sobre o Theatro”, do jornal pernambucano O Constitucional: jornal político, religioso, científico e literário: em 31 de julho, 7 de agosto, 14 de agosto, 21 de agosto, 4 de setembro, 18 de setembro, e 25 de setembro.

Abaixo, uma reclamação do bilheteiro do Teatro de Santa Isabel sobre Ferreira Villela que identificou como hábil em daguerreotipar os defeitos alheios. Há também uma resposta do diretor e regente da orquestra, Francisco Libânio Colás ( 1827 – 1885) a crítica feita a ele no O Constitucional de 7 de agosto de 1861 (Diário de Pernambuco, 8 de agosto de 1861, segunda coluna).

 

 

Villela deu um esclarecimento sobre a reclamação do bilheteiro do Teatro de Santa Isabel, o Cunha  (Diário de Pernambuco, 9 de agosto de 1861, primeira coluna).

Em seu estabelecimento eram oferecidos retratos dos principais personagens da Europa, vistas estereoscópicas, vidros para ambrótipos e químicas fotográficas (Diário de Pernambuco, 26 de outubro de 1861, terceira coluna).

Participou com uma coleção de retratos pelo sistema ambrótipo da Exposição Provincial de Pernambuco, inaugurada em 16 de novembro de 1861, no Palácio do Governo (Diário de Pernambuco, 18 de novembro de 1861, última coluna e Jornal do Recife, 19 de novembro de 1861). Sua esposa, Idalina Teixeira Leal Ferreira Villela, participou expondo uma caixa envidraçada contendo um grupo de frutas de cera (Jornal do Recife, 23 de novembro de 1861, primeira coluna).

 

 

1862 – Villela ofereceu retratos a dom Pedro II, que haviam sido exibidos na Exposição Nacional (Boletim do Expediente do Governo: Ministério do Império, janeiro de 1862).

Foi qualificado como juiz de fato (Diário de Pernambuco, 7 de fevereiro de 1862, terceira coluna).

Anunciou a decoração de seu estabelecimento fotográfico com retratos dos imperadores, das princesas imperiais e de pessoas importantes do Recife. Afirmava que os preços dos retratos eram os mais razoáveis da cidade (Diário de Pernambuco, 17 de julho de 1862, última coluna).

Nessa mesma época, atuava no Recife o retratista norte-americano Augusto W. Osborn, na rua do Imperador (Diário de Pernambuco, 5 de agosto de 1862).

 

 

1864 – Candidatou-se a vereador (Diário de Pernambuco, 26 de agosto de 1864, penúltima coluna).

 

 

1866 – Participou com uma coleção de retratos da Exposição Provincial de Pernambuco e ganhou a medalha de cobre. Era na época o único fotógrafo brasileiro no Recife. Os outros eram estrangeiros (Diário de Pernambuco, 5 de dezembro de 1866, primeira coluna).

 

 

Participou da II Exposição Nacional do Rio de Janeiro quando recebeu com Leon Chapelin a 3ª menção honrosa (Diário do Rio de Janeiro, 1º de fevereiro de 1867, última coluna).

Sobre eles, o pintor Victor Meirelles (1832 – 1903), que assinou em nome do júri do quarto grupo – onde se incluía a fotografia – comentou no Relatório da II Exposição Nacional do Rio de Janeiro:

‘Os trabalhos fotográficos que esses senhores apresentaram não são absolutamente sem defeitos e, salvo algumas provas mais felizes, pecam em geral pela aparência que têm de dureza, e pouca transparência nas sombras, tendo alguns retratos os fundos pouco convenientes, e de modo que prejudicam antes o relevo das figuras, por não lhes dar maior destaque.

O efeito do contraste bem calculado é uma das qualidades essenciais, de que nem todos sabem tirar bom partido, e que requer mesmo muito estudo’.

Seu ateliê fotográfico continuava funcionando na rua do Cabugá, 18 (Diário de Pernambuco, 21 de dezembro de 1866).

 

 

1867 – Villela informou que havia comprado o material fotográfico do estabelecimento fotográfico de Eugênio & Maurício que ficava na rua Nova, 25 (Diário de Pernambuco, 1º de março de 1867).

Na coluna “Revista Diária”, muitos elogios foram feitos ao trabalho de Villela (Diário de Pernambuco, 12 de agosto de 1867, penúltima coluna).

Publicação de anúncios dos estabelecimentos fotográficos de Ferreira Villela e do berlinense Alberto Henschel (1827 – 1882) (Diário de Pernambuco, 25 de outubro de 1867).

 

 

1868 – Ferreira Villela publicou um convite para a missa de sétimo dia de sua mãe (Diário de Pernambuco, 15 de fevereiro de 1868, última coluna).

Em propaganda anunciava seus cartões de visita sem o menor retoque de lápis ou de nanquim e chamava a atenção do público para os retratos expostos no salão de cortar cabelos do sr. José Ricardo Coelho e na livraria do sr. Nogueira de Souza (Diário de Pernambuco, 27 de fevereiro de 1868, última coluna).

Anunciou uma liquidação de vistas estereoscópicas de países da Europa e também de estereoscopos (Diário de Pernambuco, 21 de março de 1868, última coluna).

Anunciou a venda de retratos do bispo dom Francisco Cardoso Ayres (1821 – 1870). Anunciou também a utilização sem economia de uma lavagem sobre os retratos para extrair todo o hipossulfito de soda, causa da alteração das provas (Diário de Pernambuco, 4 de junho de 1868, última coluna).

Após uma temporada no Rio de Janeiro, para onde havia ido a fim de conhecer e examinar os melhores estabelecimentos fotográficos da corte, tendo passado um mês estudando e aproveitando as lições do fotógrafo Insley Pacheco, retornou ao Recife no dia 7 de dezembro e retomou a direção de seu ateliê (Diário de Pernambuco, 23 de dezembro de 1868, terceira coluna).

1869 – No Almanak Administrativo, Mercantil, Industrial e Agrícola de Pernambuco de 1869 , Villela foi listado como taquígrafo e, com Alberto Henschel (1827 – 1882), como fotógrafo.

 

taquigrafo

 

Anunciou que estava sempre em dia com os melhoramentos e progressos que na América do Norte, na Europa ou no Rio de Janeiro se consegue na arte fotográfica e para alcançarmos tal fim nunca poupamos despesas nem sacrifícios de sorte que nossos numerosos fregueses podem ter a certeza de que sempre encontrarão em nosso estabelecimento tudo quanto a arte e a moda oferecer de bom no novo e velho mundo aos amantes da fotografia (Diário de Pernambuco, 22 de janeiro de 1869).

 

 

Após 10 meses de reforma em seu estabelecimento, anunciou o fim das obras para a primeira quinzena do mês de dezembro de 1869. A reforma teve como modelo o ateliê fotográfico de Insley Pacheco, na rua do Ouvidor, 102, no Rio de Janeiro, que Villela visitou em 1868. Em 16 de dezembro, informou um novo prazo para a conclusão das obras: 7 de janeiro de 1870 (Diário de Pernambuco, 24 de novembro de 1869, terceira coluna; Diário de Pernambuco, 16 de dezembro de 1869, terceira coluna; e O Liberal, 2 de setembro de 1870, última coluna).

 

 

1870 – Em 7 de abril, após uma grande reforma, abertura da Photographia Imperial e Galeria de Pintura de João Ferreira Villela, no mesmo endereço, rua do Cabugá, 18 (Diário de Pernambuco, 7 de abril de 1870, terceira colunaDiário de Pernambuco, 23 de junho de 1870, terceira coluna; e O Liberal, 2 de setembro de 1870, última coluna).

 

 

A partir desse ano, o pintor alemão Jorge Augusto Roth (18? – ?), no Brasil desde 1868, quando desembarcou do vapor francês Extremadure (Diário de Pernambuco, 13 de junho de 1868, penúltima coluna) passou a colaborar no ateliê de Ferreira Villela, como encarregado de colorir as cópias fotográficas (Diário de Pernambuco, 3 de junho de 1870, segunda coluna; Diário de Pernambuco, 22 de agosto de 1870).

Na livraria francesa dos srs. Lalhacar & C., na rua do Crespo, exposição de quatro retratos produzidos no estabelecimento de Ferreira Villela (Diário de Pernambuco, 27 de julho, quarta coluna).

A Photographia Imperial anunciava os Retratos Timbre-posts, excelentes para circulares, convites, ou simplesmente para cartas a amigos (Diário de Pernambuco, 14 de novembro de 1871, terceira coluna).

A Photographia Imperial anunciava retratos de grupos de cinco a 100 pessoas (Diário de Pernambuco, 25 de novembro de 1871, última coluna).

1872 – A Photographia Imperial anunciava a grande novidade dos cartões de visita e afirmava ser o único estabelecimento que possuía as máquinas e os aparelhos precisos para preparar esses cartões (Diário de Pernambuco, 16 de fevereiro de 1872, segunda coluna).

Villela participou da Exposição Provincial de Pernambuco, inaugurada em 20 de outubro (Diário de Pernambuco, 21 de outubro de 1872, primeira coluna), com um quadro a óleo (fotopintura?), dois quadros com fotografias no formato carte de visite e 3 quadros de retratos a óleo (fotopinturas?). O fotógrafo alemão Alberto Henschel (1827 – 1882) também participou com 2 quadros de fotografias. Ambos ganharam medalhas de prata. Villela expôs também uma variada coleção de produtos químicos de seu fabrico que revelam uma capacidade artística congênita e de uma força de vontade digna de toda animação (Diário de Pernambuco, 20 de fevereiro de 1873, segunda coluna; e Diário de Pernambuco, 21 de fevereiro de 1873, última coluna).

Como relator da Comissão da Sociedade dos Artistas Mecânicos e Liberais de Pernambuco, fez o discurso na sessão fúnebre que o Club Popular do Recife celebrou em homenagem à memória de Antônio Rangel de Torres Bandeira (Diário de Pernambuco, 27 de dezembro de 1872, primeira coluna).

1873 – Ele e o fotógrafo Leon Chapelin eram integrantes avulsos da loja Capitular União e Beneficência da maçonaria de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 9 de janeiro de 1873, segunda coluna).

Participou da III Exposição Nacional no Rio de Janeiro com produtos farmacêuticos e tintas de escrever, tendo sido premiado com as medalhas de prata e de bronze.

Participou da Exposição Universal de Viena com produtos farmacêuticos, tendo sido premiado com a medalha de mérito e com uma menção honrosa.

A Photographia Imperial anunciou ter cartões de visitas coloridos ao natural (Diário de Pernambuco, 18 de junho de 1873, última coluna).

A Photographia Imperial anunciou possuir retratos do papa Pio IX (1792 – 1878), de outros religiosos e da infeliz Maria da Conceição, assassinada pelo desembargador Pontes Visgueiro (Diário de Pernambuco, 12 de novembro de 1873, primeira coluna).

1874 – Estava na lista de devedores de um imposto de 4% cobrados a alguns estabelecimentos comerciais (Diário de Pernambuco, 7 de abril de 1874, quarta coluna).

Em 8 de abril de 1874, foi veiculado uma propaganda do estabelecimento de Lopes & C, na rua do Barão da Vitória, 14, denominado Photographia Imperial, mesmo nome do estabelecimento de Villela. Note-se que a última propaganda da Photographia Imperial de Villela foi veiculada em novembro de 1873 (Diário de Pernambuco, 8 de abril de 1874 e Diário de Pernambuco, 9 de abril, segunda coluna).

Participou de uma reunião do Instituto Arqueológico e Geográfico e na ocasião ofertou à entidade duas fotografias: da fortaleza do Brum e do porto de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 21 de agosto de 1874, segunda coluna; e Jornal do Recife, 21 de agosto de 1874, penúltima coluna).

Chegou ao Rio de Janeiro a bordo do paquete a vapor Pará (O Globo, 2 de setembro de 1874, última coluna).

1875 - Participou da IV Exposição Nacional no Rio de Janeiro com tintas de escrever e ganhou uma medalha de mérito (O Globo, 4 de fevereiro de 1876, segunda coluna; e Diário de Pernambuco, 14 de fevereiro de 1876, terceira coluna).

Participou da Exposição Internacional de Santiago do Chile, ocorrida entre 16 de setembro de 1875 e 16 de janeiro de 1876, com tintas de escrever, tendo conquistado o segundo prêmio (O Globo, 4 de maio de 1876, primeira coluna). Na listagem dos premiados, apareceu como expositor do Rio de Janeiro. Teria se mudado para a corte?

1876 – Participou da Exposição Universal da Filadélfia, ocorrida entre 10 de maio e 10 de novembro de 1876, com tintas de escrever, e conquistou a medalha de honra (O Novo Mundo, setembro de 1876, quarta coluna; e O Novo Mundo, janeiro de 1877, quarta coluna). Da mesma forma como na listagem dos premiados na Exposição Internacional de Santiago do Chile, apareceu como expositor do Rio de Janeiro. Teria ido viver na corte?

 

 

(1) Em 1845, há o registro da atuação de um daguerreotipista no Recife, que se anunciava como Mr. Roberto, provavelmente estrangeiro (Diário de Pernambuco, 20 de setembro de 1845, terceira coluna). Os outros, de quem se têm notícia até  hoje e que também atuaram na cidade na década de 1840, eram com certeza estrangeiros: os norte-americanos Joseph Evans (? -18?) e Charles DeForest Fredricks (1823 – 1894). Na década de 1850, quando Villela começou a trabalhar como fotógrafo, foi o segundo pernambucano na profissão. O primeiro foi Cincinato Mevignier que, em junho de 1854, identificava-se-se como retratista e pensionista de S.M. o Imperador e possuía uma Galeria de retratos a óleo e daguerreótipo, no Aterro da Boa Vista, nº 82, primeiro e segundo andares. Anunciava ter encomendado da Europa uma máquina extraordinária daguerreótipo…será sem dúvida maior que tem de se apresentar-se nessa capital e mesmo em todas as outras províncias do império…Também, na mesma propaganda, afirmou ser pernambucano o que o torna o primeiro daguerreotipista nascido no referido estado conhecido até os dias de hoje: “Pernambucanos! a nossa província tão bela e tendo em si os melhores golpes de vista pra os astistas que sabem apreciar a natureza…” (Diário de Pernambuco, 9 de junho de 1854, segunda coluna). O primeiro registro de Villela como daguerreotipista é de 1855.

 

*Esse artigo foi atualizado em 25 de julho de 2019.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ALENCASTRO, Luis Felipe de. História da vida privada no Brasil Império: a corte e a modernidade nacional. São Paulo: Companhia das Letras, 1998.

Enciclopédia Itaú Cultural

FERREZ, Gilberto. Velhas fotografias pernambucanas: 1851-1890. Rio de Janeiro: Campo Visual, 1988.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. Origens e expansão da fotografia no Brasil : século XIX. Prefácio Boris Kossoy. Rio de Janeiro: Funarte, 1980.

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: A fotografia e as exposições na era do espetáculo (1839 – 1889). Rio de Janeiro: Funarte/Rocco, 1995.

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho: Companhia Internacional de Seguros: Ed. Index, 1985.

VASQUEZ, Pedro Karp. Mestres da fotografia no Brasil: Coleção Gilberto Ferrez. Tradução Bill Gallagher. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 1995.

VASQUEZ, Pedro Karp. O Brasil na fotografia oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.

O fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 30/01/1924)

 

No Arquivo Nacional, o estúdio de José Ferreira Guimarães

Claudia Beatriz Heynemann e Maria do Carmo Rainho*

 

Uma pequena e significativa série de retratos originados no prestigiado estúdio do fotógrafo José Ferreira Guimarães, instalado na rua dos Ourives ou no endereço da rua Gonçalves Dias, integra a coleção Fotografias Avulsas e o fundo Afonso Pena no Arquivo Nacional. O conjunto, resultado acidental da trajetória do ateliê até a incorporação em um arquivo público, é de todo modo significativo em face de outras séries de fotógrafos oitocentistas com número inferior de exemplares no acervo. Significativa também é a galeria de retratados em que figuram juristas, políticos do Império, alguns identificados na década de 1880, outros que passam aos quadros republicanos, e uma representante feminina, ligada ao declínio monárquico e ao exílio da família imperial. Nesse conjunto de imagens, não figuram crianças, tampouco casais. Os retratos etnográficos, como aqueles produzidos por Marc Ferrez, Alberto Henschel e Cristiano Junior, não eram foco de atenção de Guimarães.

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de José Ferreira Guimarães que pertencem ao acervo do Arquivo Nacional e estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Em formato carte de visite, carte cabinet, as imagens deslizam entre os planos da vida pública e da esfera privada, transferidas de sua singularidade no estúdio do Guimarães até sua organização nos arquivos. Entre as funções cumpridas por esses artefatos, a representação social e os laços pessoais confundem-se em dedicatórias e cartas. Assim o retrato de Maria Amanda de Paranaguá Dória, a baronesa de Loreto, é um indexador do lugar da fotografia no âmbito da vida familiar, tal como descrito no estudo de caso desenvolvido pelos historiadores Ana Maria Mauad e Itan Cruz, no qual as cartas e os retratos trocados entre a dama de companhia da princesa Isabel e a imperatriz Tereza Cristina nos permitem identificar a presença da fotografia nas relações sentimentais do século XIX, sobretudo com o crescimento da produção da modalidade carte de visite, a partir dos anos de 1870, na corte do Rio de Janeiro. No período em que as cartas foram trocadas, fotógrafos estabelecidos nas principais capitais do país eram responsáveis por uma produção significativa de retratos em estúdio voltados para a frequência da aristocracia imperial. [1]

 

 

O retrato de Maria Amanda, que se encontra no artigo citado, pertence à coleção da Fundação Joaquim Nabuco e foi realizado no estúdio de José Ferreira Guimarães no Rio de Janeiro, muito provavelmente na mesma sessão em que o exemplar ora apresentado; diferem pelo ângulo, aqui com a cabeça voltada para o lado, no outro, com o olhar dirigido às lentes, ambos nas características molduras em formato oval e com a mesma roupa e penteado.[2] Formava-se de modo mais ou menos evidente uma trama que passava por esse álbum de família estendido, caso de Domingos Farani, outro retratado por Guimarães, que chegou ao Brasil acompanhando a mudança da futura imperatriz, a napolitana d. Teresa Cristina. Joalheiro da Casa Imperial, ele estava entre os amigos mais próximos dos Ribeiro Avelar, viscondessa e visconde de Ubá, na corte, como evidencia a troca de cartas e retratos que eram parte constitutiva dos vínculos mantidos entre esses atores. Como observa a historiadora Mariana Muaze somente [fotos das] crianças pertencentes ao grupo familiar ou filhos de amigos muitíssimos próximos como Domingos Farani, por exemplo, foram colecionadas pela viscondessa.[3] Farani, como era comum no meio, se fez retratar também no endereço de Guimarães à rua Gonçalves Dias em um busto oval que excluía o cenário do estúdio, concentrando-se na fisionomia e expressão dos indivíduos e de insígnias, como a ostentada na lapela, provavelmente relacionada ao título de comendador, e mesmo o alfinete, que ostentava o ofício de origem.

 

 

No ateliê de Guimarães entraram obrigatoriamente bacharéis e políticos do Império e da República, personagens paradigmáticos da passagem do século XIX ao XX, como Saldanha Marinho, pernambucano formado na Faculdade de Direito de Olinda em 1836 e que, entre muitos cargos, foi deputado federal pelo Rio de Janeiro, presidente de província de Minas Gerais e de São Paulo, um dos fundadores do Clube Republicano no Rio de Janeiro, signatário do Manifesto Republicano, redator de A República, firmando-se como um dos protagonistas dos momentos iniciais do novo regime.[4] Saldanha Marinho, fotografado com barba exuberante, não aparada, seguia a tendência dos homens da segunda metade do oitocentos quando o rosto barbeado era visto com suspeição, denotando pouca seriedade. Conforme Gilda de Mello e Souza, o fim do século XVII e o século XVIII talvez por causa das perucas, foram tempos de cara raspada, mas, no princípio do século XIX os bigodes e suíças se espalham pelos exércitos de Napoleão, e já em 1810 Tkackeray nos apresenta aos sensacionais moustachios de Jos Sedley. A moda, durante algum tempo privilégio dos militares e símbolo de ferocidade, difunde-se rapidamente, e em breve o homem se entrega a uma desenfreada decoração capilar.[5]

 

 

Roupas escuras, barba e bigode também compuseram o retrato de Carlos Augusto de Carvalho: formado na faculdade de Direito de São Paulo em 1873, responsável, como presidente de província no Paraná, pela eclosão da Revolta do Vintém, Carvalho iria se destacar como ministro das Relações Exteriores nos anos 1890 reivindicando a ilha de Trindade aos ingleses, contando então com o apoio de Raul Pompeia e de Joaquim Portela, que, na época, eram diretores da Biblioteca Nacional e do Arquivo Público, provendo-o de informações. Em 1904 volta à cena, arbitrando o conflito entre o Brasil e a Bolívia.[6] Nesse retrato, Carlos de Carvalho não se circunscreve ao oval delimitado: está cercado pela névoa indefinida que é também uma das marcas do período, a volta de um tom crepuscular ao qual se referiu Walter Benjamin, em um artifício utilizado para reviver a aura dos primeiros tempos da fotografia, partilhado nos ateliês fotográficos das grandes capitais, superando distâncias de diferentes ordens.

 

 

Pelo estúdio fotográfico de Guimarães também passaram militares como Henrique Pedro Carlos de Beaurepaire Rohan, o visconde de Beaurepaire, entre outros não identificados, todos com suas fardas e condecorações. Em fotos de busto ou corpo inteiro, nas poses rígidas, como se espera desses retratados, evidencia-se o desejo de registrar para a posteridade o lugar social e, sobretudo, demarcar hierarquias. A fotografia de Beaurepaire, gentil-homem da Imperial Câmara, grã-cruz da Imperial Ordem de Avis, dignitário da Imperial Ordem da Rosa e comendador da Imperial Ordem de Cristo, uniformizado, portando algumas dessas condecorações, como a Imperial Ordem da Rosa e a Ordem de Cristo, nos anos 1890, é exemplar também de alguém que, sob o regime republicano, deixava clara a sua vinculação com o governo imperial.

 

 

Ana Mauad, observa que o sucesso do retrato carte-de-visite deve-se justamente à capacidade de adaptar o cliente a moldes preestabelecidos e de possível escolha através de um catálogo de objetos e situações; o estúdio do fotógrafo passa a ser um depósito de complementos escolhidos para caracterizar diferentes papéis sociais que se quer fabricar. […] O próprio cliente se converteu, ele mesmo, num acessório de estúdio, suas poses obedeciam a padrões estabelecidos e já institucionalizados de acordo com a sua posição social.[7] Nas imagens de busto, como a de Beaurapaire ou no “retrato de homem fardado, dos anos 1880, o fotografado posiciona-se mais próximo da câmera; as expressões faciais ganham destaque, o tronco elevado revela mais claramente elementos como insígnias e condecorações. Já nos retratos de corpo inteiro, como a intitulada “fotografia homem fardado”, além das dragonas e das condecorações, da exibição do conjunto do uniforme, da pose altiva, alguns elementos chamam a atenção como a barretina com penacho apoiada em uma banqueta e a espada e seu fiador em uma das mãos. Os elementos cenográficos, comuns aos retratos de meio corpo ou corpo inteiro são acessórios; não roubam a centralidade do retratado.

Outro registro interessante produzido por Guimarães é a de Lúcio de Mendonça, em 1896. Advogado, jornalista, magistrado, escritor, idealizador da Academia Brasileira de Letras, seu retrato, a começar pelas roupas e pose, denota despojamento e uma despreocupação em perenizar a imagem de homem sofisticado. A ausência de elementos decorativos, adornos, a simplicidade mesma do paletó escuro e camisa branca estão sob medida para um republicano, um burguês que, diferente da aristocracia num passado recente, não necessitava fazer da moda um elemento de distinção. E a dedicatória à Ferreira do Araújo, fundador da Gazeta de Notícias, e por quem Lúcio possuía grande admiração, evidencia a inscrição do fotografado no círculo dos intelectuais da segunda metade do século XIX.

 

 

Além das dedicatórias, algumas das imagens aqui apresentadas, trazem, no verso, dados referentes ao estúdio de Guimarães, sua participação em exposições, seus títulos – Fotógrafo da Casa Imperial, Cavaleiro da Ordem da Rosa – seus prêmios. Como era comum a fotógrafos da sua envergadura, essas informações, ao mesmo tempo em que o distinguia dos concorrentes, o aproximava da sua clientela, homens e mulheres da boa sociedade que aumentavam seu capital simbólico justamente por se darem a ver através das suas lentes.

 

[1] MAUAD, Ana Maria, RAMOS, Itan Cruz. Fotografias de família e os itinerários da intimidade na História. Acervo, Rio de Janeiro, v. 30, n. 1, p. 155-178, jan./jun. 2017, p. 159.

[2] Outro retrato da baronesa de Loreto produzido por Insley Pacheco e igualmente parte da coleção do Arquivo Nacional, pode ser visto neste portal. Disponível em https://brasilianafotografica.bn.gov.br/brasiliana/handle/20.500.12156.1/5027

[3] MUAZE, Mariana de Aguiar F. O império do retrato: família, riqueza e representação social no Brasil oitocentista (1840-1889). Tese de doutorado. Programa de Pós graduação em História da Universidade Federal Fluminensse, 2006, p. 296.

[4] Cf. Alzira Alves de ABREU et al (coords.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. In: http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/MARINHO,%20Saldanha.pdf Acesso em: 20/11/2017.

[5] Ver SOUZA, Gilda de Mello e. O espírito das roupas: a moda no século XIX, São Paulo: Cia. das Letras, 1087, p. 75.

[6] Cf. Alzira Alves de ABREU et al (coords.). Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro – Pós-1930. Rio de Janeiro: CPDOC, 2010. In: http://cpdoc.fgv.br/sites/default/files/verbetes/primeira-republica/CARVALHO,%20Carlos%20Augusto%20de.pdf Acesso em: 20/11/2017

[7] MAUAD, Ana. Poses e flagrantes: ensaios sobre história e fotografias. Rio de Janeiro: EDUFF, 2008, p. 129-130.

 

*Claudia Beatriz Heynemann – Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

*Maria do Carmo Rainho – Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

 

 

Breve perfil e cronologia do fotógrafo português José Ferreira Guimarães (1841 – 30/01/1924)

  Andrea C. T. Wanderley**

 

 

Um dos fotógrafos preferidos da corte brasileira, amigo do imperador d. Pedro II (1825 – 1891), o português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924), nascido em Guimarães, chegou ao Brasil com 11 anos, a bordo de um veleiro carregado de repolhos. Foi lavador de pratos, servente em tascas na beira do porto e vendedor de armarinhos. Começou sua carreira de fotógrafo associando-se a Eduardo Isidoro Van Nyvel, no Rio de Janeiro, em 1862. Quatro anos depois, passou a anunciar-se sozinho no mesmo ateliê na Rua dos Ourives, 40. Em 13 de setembro de 1866, recebeu o título de Fotógrafo da Casa Imperial. Fez, assim como o fotógrafo Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912), fortuna com seus retratos em foto-pintura – retrato ampliado pintado a óleo ou guache ou pastel por um pintor. Guimarães ia frequentemente à Europa e aos Estados Unidos para comprar equipamentos e se atualizar com o que havia de mais moderno no campo da fotografia. Além disso, inventou o Relâmpago Guimarães.

José Ferreira Guimarães foi comendador da Ordem de Cristo e da Ordem da Rosa. Foi premiado com a medalha de prata na Exposição Geral de Belas Artes da Academia Imperial de 1865, 1866 e 1867; e na Exposição Nacional de 1866 e de 1873.  Após uma passagem pela rua do Ourives, 38, inaugurou, em 1886, um novo ateliê que, segundo Gilberto Ferrez, era um verdadeiro palácio da fotografia. Foi a maior casa fotográfica brasileira do século XIX e ficava na rua Gonçalves Dias, nº 2, esquina com a rua da Assembleia.

Passava temporadas na Europa mas, foi durante a década de 1910, que, provavelmente, transferiu-se definitivamente para a França, onde morou em um palacete nos arredores de Paris, na rue de La Paix, 21, em Bois Colombe. A casa enorme, apelidada pela esposa de Guimarães, Virginia Prata Guimarães, de Little Castle, foi construída em um estilo acastelado, que tornou-se moda entre os paulistas endinheirados pela cafeicultura, nas primeiras décadas do século XX.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de José Ferreira Guimarães disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Nas palavras do fotógrafo Benedito Junqueira Duarte (1910 – 1995), seu discípulo e sobrinho neto de sua esposa, José Ferreira Guimarães era um tipo humano raro e versátil, além de ter uma invejável agilidade mental e ser de uma honestidade a toda prova. Era muito bem relacionado e foi amigo íntimo do fotógrafo francês Félix Nadar(1820 – 1910) e também do peruano Léopold-Émile Reutlinger (1863 – 1937). Segundo Junqueira Duarte, Guimarães era vaidoso e tinha longas barbas branquíssimas, sempre impecavelmente aparadas, era ereto e elegante, apesar da idade, e tinha um riso de tolerância e compreensão a esconder-se por detrás de fartos bigodes.

Sobre a obra de Guimarães e a invenção do Relâmpago Guimarães, Junqueira Duarte escreveu:

…Pela qualidade e refinamento de seu trabalho e rigor profissional que manipulava sua obra, do retoque a bico de lápis à apresentação formal de seus retratos, da viragem a ouro à técnica do esmalte a fogo dos medalhões que produzia – pareciam pequenos camafeus colorido a mão – desfrutou de grande prestígio na aristocracia brasileira e fez uma vultosa fortuna…Com José Ferreira Guimarães, desaparecia um homem de inteligência privilegiada, de espírito criador incomum, a quem deve a fotografia de todos os povos uma de suas grandes invenções – o engenho produtor de luz artificial em ambiente fechado, a partir da combustão instantânea do magnésio, própria para impressionar, em fração mínima de segundo, uma chapa fotográfica. A esse aparelho que encenava em si a luz do sol, deu ele o nome sugestivo e profético de Relâmpago Guimarães, apresentado com grande êxito na famosa Exposição Universal de Paris, em 1900. Muitos anos mais tarde, meio que por volta de 1935 ou 36, aperfeiçoado, miniaturizado e industrializado pelos norte-americanos, o engenho de José Ferreira Guimarães, surgiram no comércio fotográfico as lâmpadas (ou bulbos) em todo o mundo e em breve conhecidas sob o nome de Flash, ou seja, Relâmpago.

Não creio que algum historiador da fotografia, da arte e de sua técnica, tenha mencionado em seus livros, como legítimo inventor do processo flash o nome de José Ferreira Guimarães, o pequeno emigrante português que tronou grande sua arte, criador original da enorme gaiola de vidro, munido de grosso tubo exaustor para a saída da fumaça de magnésio e de um ventilador aspirante, destinado a apressar a evacuação dos pesados rolos de fumo produzidos pela incandescência da mistura química geradora de fortíssimo lampejo azulado…

…Que de benefícios trouxe a engenhosa invenção de José Ferreira Guimarães para a Humanidade, no estudo minucioso da Dinâmica dos corpos, na ilustração de variadas pesquisas científicas realizadas com a fotografia feita em curtíssima exposição, como a documentação endoscópica, ou a do fundo do olho, para apenas citar esses dois exemplos, colhidos por entre a incessante atividade dos documentaristas na Medicina e a Cirurgia!…

 

Cronologia de José Ferreira Guimarães

 

 

1841 – Nascimento de José Ferreira Guimarães, em Guimarães, na região do Minho, em Portugal.

c. 1852 – Aos 11 anos, emigrou sozinho para o Brasil, a bordo de um veleiro carregado de repolhos.

1860 – Guimarães radicou-se no Rio de Janeiro.

1862 – Provavelmente, nesse ano iniciou sua trajetória como fotógrafo, associando-se a Eduardo Isidoro Van Nyvel (18? – ?), na rua do Ouvidor, nº 75. Anunciaram que em seu estabelecimento fotográfico, aberto há poucos dias, executava-se retratos pelos sistemas do ambrótipo e cartões de visita (Jornal do Commercio, 9 de setembro de 1862).

1863 – Publicação de uma propaganda do estabelecimento fotográfico de Van Nyvel e Guimarães no qual anunciaram ter recebido de Alexandre Ken, o primeiro fotógrafo do globo, o processo de cartões de visita, além de uma máquina…para fazer oito retratos em um só vidro e outra que com um único tubo tira quatro posições diferentes em um vidro (Jornal do Commercio, 10 de junho de 1863).

 

 

1864 - Van Nyvel e Guimarães mudaram-se para a rua do Ourives, nº 40 (Jornal do Commercio, 22 de março de 1864, primeira coluna).

1865 – Guimarães ganhou a medalha de prata na Exposição Geral de Belas Artes da Academia Imperial.

1866 – Passou a anunciar-se sozinho no mesmo endereço, rua do Ourives, nº 40. Em outubro de 1866, Van Nyvel abriu um novo estabelecimento na Rua dos Ouvires, 65 (Jornal do Commercio, 2 de outubro de 1866, terceira coluna).

Foi agraciado por d. Pedro II com o título de fotógrafo da Casa Imperial, em 13 de setembro.

Ganhou a medalha de prata na 2ª Exposição Nacional. Sobre ele, o pintor Victor Meirelles, representando o júri do quarto grupo, onde se incluía a fotografia, escreveu no relatório do evento:

‘1ª Medalha de Prata – José Ferreira Guimarães (1841 – 1924):

Cabe a honra de ser classificado em primeiro lugar, obtendo a medalha de prata, o sr. J. F. Guimarães, estabelecido na rua dos Ourives, nº 40, por seus retratos de cartões de visita, e chapas de diferentes dimensões. Os trabalhos do Sr. Guimarães sobressaem-se pela fineza, nitidez e perfeição dos objetos representados e também pelo vigor dos tons que são bem calculados e de uma cor agradável, posições escolhidas com gosto e naturalidade.’

1867 - Produziu um retrato em tamanho natural no formato de 2 x 1,35 m, a maior fotografia realizada no Brasil até então.

Ganhou a medalha de prata na Exposição Geral de Belas Artes da Academia Imperial.

Informava ter partido para a Europa (Jornal do Commercio, 25 de julho de 1867, sexta coluna).

De volta de Paris, anunciou uma exposição de retratos sobre placas de porcelana na casa do Sr. Bernasconi & Moncada (Jornal do Commercio, 15 de novembro de 1867; Correio Mercantil, 15 de novembro de 1867, quinta coluna).

 

 

1869 – Anunciou ter regressado da Europa, aonde havia ido pela terceira vez, e também a abertura de seu novo estabelecimento na rua do Ourives, nº 38, segundo andar (Jornal do Commercio, 10 de outubro de 1869, página 3, Segunda Folha).  

1872 – Fotografou a pintura Combate Naval do Riachuelo, de Victor Meirelles (1832 – 1903), empregando seu sistema de ampliação para fazer reproduções de obras de arte de grande formato. Produziu a fotografia em placa de porcelana pelo processo inalterável…Para execução dessa fotografia serviu-se o habilísssimo fotógrafo José Ferreira Guimarães de placa denominada pelos fotógrafos “negativo”…Foram tirados e distribuídos alguns “positivos” sobre papel albuminado…(Relatório da Repartição dos Negócios do Império, 1882).

1873 – Ganhou a medalha de prata na 3ª Exposição Nacional.

Teria voltado, nesse ano, a sua cidade natal, Guimarães.

1875 - Retratou Marie Caroline Lefebvre (c. 1849 – 1914), mulher do fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923).

Na coluna “Folhetim da Gazeta de Notícias –  Bellas Artes”, o português Julio Huelva (1840 – 1904), pseudônimo do músico e arquiteto Alfredo Camarate, elogiou a fotografia produzida no Brasil e destacou os trabalhos dos ateliês de José Ferreira Guimarães  (1841 –1924), Joaquim  Insley Pacheco (1830 – 1912) e de Albert Henchel (1827 – 1892) e Franz (Francisco) Benque (1841-1921). O autor cobrou também a presença de fotógrafos do Rio de Janeiro na Exposição Universal da Filadélfia, que se realizaria em 1876 (Gazeta de Notícias, 21 de dezembro de 1875).

Década de 1880 - Durante esta década, o fotógrafo Valério Vieira (1862 – 1941) trabalhou como assistente no estúdio do fotógrafo José Ferreira Guimarães.

1882 - No Almanack Laemmert, foi veiculado um anúncio de Guimarães: Retratos vitrificados fixados a fogo, como as porcelanas de Sèvres. Perpétua duração, constituindo por isso uma verdadeira e imorredoura relíquia de família (Almanaque Laemmert, 1882).

Segundo relatório do diretor da Academia das Belas Artes, a instituição comprou a fotografia produzida por Guimarães da primeira versão da pintura Combate Naval do Riachuelo, de Victor Meirelles, perdida durante a Exposição Internacional da Filadéfia, em 1876 (Relatório da Repartição dos Negócios do Império, 1882).

Segundo consta em um de seus cartões, foi premiado com a medalha de ouro na Exposição Continental de Buenos Aires, inaugurada em 15 de março de 1882 – a seção brasileira foi inaugurada no dia 1º de abril, ocupando uma área de 600 m2 (Diário de Pernambuco, 10 de julho de 1882, terceira coluna).

1884 – Recebeu o título de Comendador da Ordem da Rosa.

Guimarães anunciou que Waldemar Lange executava fotografias de grupos de família pelo sistema americano de John Carbutt, da Filadélfia (Jornal do Commercio, 17 de julho de 1884, na página 8). Segundo Boris Kossoy, Lange havia sido associado na Bahia ao fotógrafo Guilherme Gaensly (1843 – 1928). Na época, seu ateliê ficava na rua dos Ourives, nº 38.

 

 

Participou da Exposição da Academia de Belas Artes com esmaltes, platinotipos e algumas fotografias instantâneas, obtidas pelo processo denominado gelatino bromureto de prata  (Jornal do Commercio, 26 de setembro de 1884, segunda coluna).

A fotografia produzida por Guimarães da turma do sexto ano dos doutorandos de medicina foi exposta na casa de Narciso & Arthur Napoleão. É um trabalho, como todos os deste artista, muito notável (Diario Portuguez, 20 de dezembro de 1884, segunda coluna).

1885 – Foi encomendado à casa Guimarães um retrato a óleo de Francisco de Assis Mascarenhas. Foi realizado por Victor Meirelles e exposto na galeria Moncada. Os dois artistas foram referidos, na nota do jornal, como comendadores (Jornal do Commercio, 2 de agosto de 1885, sexta coluna).

 

 

1886 – A Casa Guimarães, na rua do Ourives, nº 38, foi substituída pela Photographia Americana, passando a pertencer a Roltgen, antigo retocador da Casa Guimarães, e do sr. Silva, antigo sócio-gerente da fotografia Carneiro & Tavares (O Paiz, 31 de julho de 1886, primeira coluna).

 

 

Guimarães inaugurou um verdadeiro palácio da fotografia, a maior casa fotográfica brasileira do século XIX, na rua Gonçalves Dias, nº 2, esquina com a rua da Assembleia. A casa, de 4 andares, foi durante algum tempo o mais alto prédio do Rio de Janeiro e foi construída expressamente para sediar o estabelecimento fotográfico de Guimarães. Os três primeiros pavimentos abrigavam as diversas seções de fotografia e o último servia de moradia do fotógrafo (Revista do Iphan, 1946, p. 199 e O Rio de Janeiro, 8 de agosto de 1886, quarta coluna).

 

 

Uma menina se acidentou quando passou em frente à casa fotográfica de Guimarães e uma tábua que servia de andaime caiu sobre sua cabeça. O fotógrafo prestou assistência à acidentada e responsabilizou-se pelo ocorrido (O Paiz, 18 de agosto de 1886, na última coluna).

1877 – Guimarães participou com fotografias das obras mais importantes da estrada de D. Pedro II da Exposição Internacional de Caminhos de Ferro no Bois de Vincennes, em Paris, em comemoração ao cinquentenário das ferrovias na França. Essas fotografias e também outras, de autoria de Marc Ferrez (1843 – 1923), foram expostas no Liceu de Artes e Ofícios (O Paiz, 18 de julho de 1887, terceira coluna).

Na casa Chameaux, exposição de uma pintura a óleo, de autoria do artista francês Battu, realizado com muita suavidade a partir de uma fotografia produzida pelo distinto fotógrafo Guimarães de uma menina vestida à moda das camponesas do norte de Portugal (Jornal do Commercio, 26 de julho de 1887, sétima coluna).

1888 – No salão do jornal O Paiz, exposição de um retrato do apregoado atirador Bento Moraes, produzido por Guimarães. Moraes era a primeira figura de uma companhia de variedades que se apresentaria no Polytheama (O Paiz, 13 de março de 1888, sétima coluna).

A Casa Guimarães, na rua de Gonçalves Dias, canto da da Assembleia foi enfeitada para participar dos festejos da cidade pelo retorno do imperador Pedro II (1825 – 1891) e da imperatriz Teresa Cristina (1822 – 1889), que ficaram ausentes do Brasil por quase um ano, na terceira viagem do soberano à Europa. Haviam partido em 30 de junho de 1887 (Diário de Notícias, 23 de agosto de 1888, terceira coluna).

 

 

1890 – Antes de cometer suicídio, o português e guarda-livros José Custódio de Oliveira enviou uma carta a Guimarães (Diário de Notícias, 22 de jumho de 1890, segunda coluna).

1891 - A partir de janeiro, José Ferreira Guimarães estaria até o fim da estação, às segundas e terças-feiras, em seu ateliê de Petrópolis (Jornal do Commercio, 11 de janeiro de 1891).

1894 – A Photographia Guimarães funcionava em Petrópolis, aos domingos, segundas e terças-feiras, em um chalé ao lado do Hotel Orleans (Gazeta de Petrópolis, 7 de março de 1894, terceira coluna).

Estava exposto na casa Palais Royal um quadro com os retratos dos doutorandos de 1894, produzido pela Photographia Guimarães (Gazeta de Notícias, 7 de novembro de 1894, na penúltima coluna).

Alguns membros da comissão da República Oriental do Uruguai, em visita ao Brasil, iriam ser fotografados na Photographia Guimarães (A Notícia, 8 e 9 de novembro de 1894, terceira coluna).

1895 – Na primeira página do Jornal do Brasil, era noticiado que a Photographia Guimarães & C continuava a merecer o favor público pela excelência de seus trabalhos artísticos (Jornal do Brasil, 10 de março de 1895, quarta coluna).

 

 

1896 – Na edição 36 de A Bruxa, foi publicada uma fotografia de F. Guimarães, conhecido proprietário da Photographia Guimarães (Commercio de São Paulo, 13 de outubro de 1896, última coluna). A Bruxa foi uma revista dirigida pelo poeta Olavo Bilac  (1865-1918) e pelo ilustrador português Julião Machado (1863 – 1930), entre 1896 e 1897.

Foi noticiado que a Photographia Guimarães produziria fotografias das salas do Club dos Repórteres com convidados por um processo novo de notável sucesso na arte fotográfica cuja primeira experiência foi realizada ontem (A Notícia, 24 e 25 de outubro de 1896, segunda coluna).

Estava exposto na vitrine da casa Colussi, na rua do Ouvidor, uma fotografia do presidente Prudente de Morais (1841 – 1902), produzida pela Photographia Guimarães. De acordo com a notícia, poderia se dizer que a obra é uma nova descoberta da photographia pois que o retrato…é feito em esmalte photográphico vitrificado a fogo, tão inalterável como as pinturas da porcelana de Sèvres e de Limoges… (Jornal do Brasil, 8 de novembro de 1896, quinta coluna).

1897 – O fotógrafo Alfredo Musso, irmão de Luis Musso, trabalhava na Photographia Guimarães (Jornal do Commercio, 1º de fevereiro de 1897, penúltima coluna).

Luis Musso, sócio da Photographia Guimarães, levou de presente à redação do Jornal do Brasil uma fotografia em platinotipia de um grupo de jornalistas que haviam assistido à inauguração da luz artificial para obter fotografias instantâneas (Jornal do Brasil, 12 de março de 1897, segunda coluna). Luis Musso havia sido o primeiro operador da Companhia Photographica Brazileira, dirigida pelo fotógrafo Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897), desde sua fundação, em 1892, até 31 de março de 1894 (Jornal do Commercio, 13 de fevereiro de 1898, na última coluna). Em 1905, os irmãos Musso estavam estabelecidos na rua Uruguayana sob a razão social L. Musso & C, que também se anunciava como Photographia Brazileira.

Foi encomendada à Photographia Guimarães um retrato do engenheiro e primeiro diretor da Estrada de Ferro Pedro II, Christiano Ottoni (1811 – 1896), que seria ofertado à Escola Naval por seu filho, o industrial Julio Ottoni (Jornal do Brasil, 17 de setembro, sétima coluna).

1898 – Herrero Vargas, empregado da Photographia Guimarães, retratou um grupo da Estudantina do Cassino Espanhol em excursão a Santa Teresa (Gazeta de Notícias, 28 de fevereiro de 1898, primeira coluna).

O presidente da República, Prudente de Morais (1841 – 1902), presenteou o redator-chefe da Cidade do Rio, José do Patrocínio (1854 – 1905), fotografias de sua família produzidas pela Photographia Guimarães (Cidade do Rio, 10 de novembro de 1898, terceira coluna).

Na Casa Merino, estavam expostas três fotografias em platinotipia produzidas pela Photographia Guimarães: do presidente e do vice-presidente da República, Campos Salles (1841 – 1913) e Rosa e Silva (1857 – 1929), respectivamente, e do novo ministério do governo (Jornal do Commercio, 15 de novembro de 1898, sexta coluna).

1899 – O Sr. Musso, da Photografia Guimarães, registraria o cruzador italiano Fieramosca (A Notícia, 5 e 6 de agosto de 1899, segunda coluna).

Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912), Marc Ferrez (1843 – 1923) e José Ferreira Guimarães foram nomeados para formar a comissão de propaganda da classe de fotografia da Exposição do Quarto Centenário do Brasil, em 1900, promovida pela Sociedade Propagadora das Belas Artes (A Imprensa, 31 de outubro de 1899, quarta coluna).

1900 – Horacio Garcia Vidal trabalhava na Photographia Guimarães (Cidade do Rio, 24 de janeiro de 1900, na última coluna).

Publicada na Revista da Semana, de 22 de julho de 1900, um instantâneo do Largo da Carioca, tirado do segundo andar da afamada Photographia Guimarães.

Apresentou na Exposição Universal de Paris o Relâmpago Guimarães, uma espécie de flash que permitia tirar fotografias em ambientes obscurecidos ou no período da noite.

A luz produzida por ele é exatamente a necessária para substituir a claridade do dia, suprindo-a em todo o seu vigor, mas permitindo respeitar as nuances do modelo, por mais delicado que seja.

O acolhimento que foi feito na Europa à invenção de nosso compatriota, proprietário da afamada Photographia Guimarães, deve ser muito lisonjeiro para os fotógrafos nacionais‘ (Revista da Semana, 12 de agosto de 1900).

 

 

1901 – Guimarães era sócio de Luis Musso e Julio D. Roltgen (Almanak Laemmert, 1901).

Julio Roltgen, da Photographia Guimarães, foi o autor do registro do “batismo da Salamina”, festa realizada no club de Regatas Botafogo. A imagem foi publicada na revista quinzenal Brasil Náutico, número 4, e foi considerada a nota elegante da edição (A Notícia, 8 e 9 de maio de 1901, terceira coluna).

Um retrato do senador do Império, Cândido Mendes de Almeida (1818 – 1881), executado pela Photographia Guimarães e emoldurado pela fábrica Martins Seabra & C., foi ofertado ao Jornal do Brasil (Jornal do Brasil, 31 de maio de 1901, sétima coluna).

Foi noticiado que o Relâmpago Guimarães havia obtido a medalha de 1ª classe na Exposição Universal de Paris de 1900. A Photographia Guimarães foi referida como admirável estabelecimento da rua Gonçalves Dias, esquina do largo da Carioca e, devido ao Relâmpago Guimarães estava executando trabalhos de inigualável perfeição. Os retratos produzidos na Casa Guimarães eram verdadeiras maravilhas de arte pela naturalidade da pose e pela incomparável nitidez (Gazeta de Notícias, 4 de julho de 1901, sétima coluna).

Por encomenda do presidente da República, Campos Sales (1841 – 1913), a Photographia Guimarães produziu um quadro medindo 1 metro por 80 centímetros com as fotografias do governo provisório da República organizado em 15 de novembro de 1889. O quadro ficaria no salão de despachos do Palácio do Catete (A Notícia, 26 e 27 de novembro de 1901, segunda coluna).

1902 – Na Igreja da Candelária, foi rezada uma missa pela turma de guardas-marinha de 1879. Nove deles estiveram presentes à cerimônia e depois foram retratados na Photographia Guimarães (Gazeta de Notícias, 9 de março de 1902, sétima coluna).

Luis Musso estava na direção da Photographia Guimarães (Jornal do Brasil, 24 de julho, sexta coluna).

1903 – Em anúncio, a Photographia J.F. Guimarães & C afirmava acreditar que nada devia à praça e pedia que, caso houvesse qualquer reclamação, que fosse levada a seu proprietário até o dia 10 de dezembro de 1903 (Jornal do Brasil, 6 de dezembro de 1903, primeira coluna).

1904 – Tendo deixado de trabalhar na Photographia Guimarães, Alfredo e Luis Musso e Julio D. Beltgen anunciaram a abertura de um novo estabelecimento fotográfico, na rua Uruguaiana, nº 10 (Gazeta de Notícias, 21 de fevereiro de 1904, terceira coluna).

Recém chegado da Europa, Guimarães anunciou a reabertura de seus ateliers modelos onde o high life poderia encontrar o chic da fotografia moderna (Jornal do Brasil, 24 de fevereiro de 1904, quinta coluna e Gazeta de Notícias , 21 de fevereiro, terceira coluna).

 

 

1905 – Estava exposta na Photographia Guimarães uma fotografia de Oswaldo Cruz (1872 – 1917), diretor da Saúde Pública, com um tamanho que nunca se fez entre nós (Gazeta de Notícias, 12 de abril, sexta coluna).

A Photographia Guimarães continuava na rua Gonçalves Dias (A Notícia, 10 e 11 de junho de 1905, quarta coluna).

1906 – A Photographia Guimarães funcionava sob a direção de José Ferreira Guimarães e A. Pinto, na rua da Assembleia, 78 (A Notícia, 25 e 26 de outubro, segunda coluna). Novo anúncio, no mês seguinte, só menciona Guimarães na direção do estabelecimento fotográfico (A Notícia, 6 e 7 de novembro de 1906, quinta coluna).

1907 – A Photographia Guimarães informava não ter nem funcionários ambulantes nem filiais pelo Brasil. As encomendas deveriam ser feitas na rua da Assembleia, 78 (A Notícia, 31 de janeiro e 1º de fevereiro de 1907, segunda coluna).

A turma de formandos em Odontologia e Medicina encomendaram quadros alegóricos na Photographia Guimarães. Seriam feitos em Paris, sob a supervisão do comendador Guimarães, que mais uma vez daria provas de seu bom gosto artístico (A Notícia, 27 e 28 de julho de 1907, quarta coluna).

A Photographia Guimarães anunciou que o funcionário Augusto Cezar Osório não trabalhava mais no estabelecimento (Jornal do Brasil, 14 de setembro de 1907, sétima coluna).

Exposição, na Photographia Guimarães de uma fotografia de Oswaldo Cruz (1872 – 1917), diretor da Saúde Pública (A Notícia, 4 e 5 de novembro de 1907, terceira coluna).

1909 / 1910 / 1911 / 1912 /1913 - A Photographia Guimarães funcionava em um sobrado, na rua da Assembleia, 100 (A Notícia, 22 e 23 de maio de 1909, terceira coluna e Almanak Laemmert, 1911, terceira coluna).

1909 – Publicação na revista Careta, 21 de agosto de 1909, de duas fotografias do escritor Euclides da Cunha (1866 – 1909), produzidas na Photographia Gumarães. Pouco antes de sua morte, o escritor havia oferecido ao jornalista Ernesto Senna (1858-1913) uma fotografia sua produzida na Photographia Guimarães (Correio Paulistano, 17 de agosto de 1909, primeira coluna).

Década de 1910 – Provavelmente, durante essa década, mudou para a França, onde morou em Bois Colombe.

1911 – Publicação de um retrato do cientista Carlos Chagas (1879 – 1934), produzido na Photographia Guimarães (A Noite, 8 de agosto e 9 de agosto de 1911).

1912 – Do terceiro andar da Photographia Guimarães, o comandante Souza Aguiar dirigia o trabalho dos bombeiros para debelar um grande incêndio no coração da cidade (O Paiz, 25 de março de 1912, na última coluna).

Proprietário e empregados de estabelecimentos fotográficos requisitaram que os mesmos não mais abrissem aos domingos. Dois empregados da Photographia Guimarães participaram do abaixo-assinado endereçado aos vereadores da cidade do Rio de Janeiro (A Imprensa, 13 de abril de 1912, segunda coluna).

1913 – Foi roubada uma mercadoria – papel sensibilizado – destinada a José Ferreira Guimarães (Correio da Manhã, 23 de janeiro de 1913, segunda coluna).

Uma dúzia de retratos de Boudoir, última novidade, criação da afamada Photographia Guimarães, seria o 2º Prêmio do Grande Concurso Extraordinário D, promovido pelo semanário O Tico-Tico: Jornal das Crianças (O Tico-Tico, 4 de junho de 1913).

1914 - Pela última vez a Photographia Guimarães foi anunciada no Almanak Laemmert.

Uma dúzia de retratos da Photographia Guimarães foi o 1º prêmio do Grande Concurso Extraordinário K, promovido pelo semanário O Tico-Tico: Jornal das Crianças (O Tico-Tico, 7 de outubro de 1914).

1915 – A capa do Jornal das Moças foi ilustrada com uma imagem de Carolina Pereira dos Santos, filha de um empresário do Rio de Janeiro. O trabalho fotográfico foi da Casa Guimarães e a gravura foi realizada no ateliê de Alois Fabien (Jornal das Moças, 1º de março de 1915).

1916 – Um dos prêmios sorteados pelo semanário O Tico-Tico seriam retratos da Photographia Guimarães (O Tico-Tico, 9 de fevereiro de 1916).

Após longos anos na Europa, José Ferreira Guimarães voltou a dirigir seu estabelecimento fotográfico no
Rio de Janeiro (A Noite, 5 de agosto de 1916, quinta coluna).

 

 

 

1917 – Foi anunciado que o segundo andar da Photographia Guimarães poderia ser alugado para dentista ou negócio de luxo. O prédio, que possuia elevador, foi referido como aristocrático (Jornal do Brasil, 28 de julho de 1917, quarta coluna). Nesse mesmo ano, foi anunciado que A Photographia Huebner & Amaral havia reaberto em 11 de setembro, na rua da Assembleia, 100, antigo endereço da Photographia Guimarães (Jornal do Commercio, 9 de setembro de 1917).

1919 - Neste ano, Maria Aparecida, uma sobrinha neta de sua esposa, foi residir com eles, na França.

1921 – O sobrinho neto de sua mulher, Benedito Junqueira Duarte (1910 – 1995), viajou para Paris, tornando-se discípulo de Guimarães. Posteriormente, Benedito trabalhou na Seção de Fotografia do Departamento de Cultura de São Paulo a convite de Mário de Andrade (1893 – 1945), além de ter sido sócio-fundador do Foto Cine Clube Bandeirante.

1924 – José Ferreira Guimarães faleceu na França, em 30 de janeiro, provavelmente, de infecção pulmonar. Foi enterrado no cemitério de Bois Colombe.

 

**Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

AULER, Guilherme, sob o pseudônimo de Ricardo Martim, em dois artigos publicados na Tribuna de Petrópolis. Petrópolis, 1º e 8 de abril de 1956.

ERMAKOFF , George. Rio de Janeiro 1840 – 1900 – Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

DUARTE, Benedito J. José Ferreira Guimarães, fotógrafo da Corte Imperial. O Estado de São Paulo. São Paulo, 4 dez, 1977 (Suplemento Cultural).

FERNANDES JUNIOR, Rubens. B.J. Duarte Invenção e modernidade na fotografia documental.

FERREZ, Gilberto. A fotografia no Brasil: 1840- 1900. Prefácio Pedro Karp Vasquez. 2. ed. Rio de Janeiro: Funarte, 1985. 248 p. (História da fotografia no Brasil, 1).

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. Origens e expansão da fotografia no Brasil : século XIX. Prefácio Boris Kossoy. Rio de Janeiro: Funarte, 1980. 128 p.

Site da Enciclopédia Itaú Cultural

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho: Companhia Internacional de Seguros: Ed. Index, 1985. 243 p.

VASQUEZ, Pedro Karp. O Brasil na fotografia oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.

Abram-Louis Buvelot (Suíça, 03/03/1814 – Austrália, 30/05/1888)

Suíço, nascido em Morges, o pintor e fotógrafo Abram-Louis Buvelot (1814 – 1888), chegou ao Brasil, em 1835, e foi, com seu associado, o francês Prat (? – 1852), o primeiro fotógrafo no Brasil a receber o real patrocínio de um monarca quando, em 8 de março de 1851, d. Pedro II autorizou o uso das armas imperiais na fachada do estabelecimento fotográfico Buvelot & Prat, na rua dos Latoeiros, no centro do Rio de Janeiro. Buvelot pintou, sob encomenda da imperatriz dona Teresa Cristina, uma paisagem de floresta brasileira, que foi exibida na Exposição Geral de Belas Artes de 1846. A obra agradou muito a d. Pedro II, que o agraciou com o título de Cavaleiro da Imperial Ordem do Rosa, em 1847 (Diário Novo, 22 de março de 1847, na segunda coluna). A imperatriz dava de presente a suas irmãs em Nápoles, Paris e Viena quadros de Buvelot.

 

 

Buvelot foi aluno do pintor suíço Marc Louis Arlaud (1772 – 1845), na Escola de Desenho de Lausanne, de Jean-George Volmar (1769 – 1831), em Berna, e do francês Camille Flers (1802 – 1868), em Paris. Este último havia passado uma temporada no Rio de Janeiro, onde trabalhou como cozinheiro, pintor e bailarino.

Em  Salvador, sua primeira residência no Brasil, Buvelot foi professor de pintura. Em 1840, passou a morar no Rio de Janeiro e produziu vistas, cenas de costumes urbanos da cidade que estão no álbum litográfico Rio de Janeiro Pitoresco, realizado com o pintor francês Louis Auguste Moreaux (1818 – 1877) e publicado em fascículos entre 1942 e 1945, ano em que foi publicado, na íntegra, pela Heaton & Rensburg. Foi o primeiro álbum de gravuras impresso no Brasil (de que se tem notícia até hoje) e possuía 18 pranchas com dezenas de imagens litografadas, dentre elas registros da Ladeira de Santa Teresa e Santa Luzia, do Chafariz do Aragão, do Largo do Paço, além de cenas de escravizados e de outros personagens da cena carioca.

Entre 1840 e 1852, participou de todas as exposições da Academia Imperial de Belas Artes, exceto nos anos de 1842, 1845 e 1851. Fundou, em torno de 1845, um estabelecimento fotográfico na rua dos Latoeiros, 36 (atual Gonçalves Dias), tornando-se um dos primeiros profissionais da daguerreotipia no Rio de Janeiro. A oficina de Buvelot prestou diversos serviços para a Casa Imperial, dentre eles a produção de retratos de d. Pedro II, dona Teresa Cristina e de sua filha, a princesa Isabel, que integram a Coleção de Dom Pedro de Orleans e Bragança. Com seu associado, Prat, realizou, em 1851, uma série de daguerreótipos de Petrópolis – todos desaparecidos. Estiveram na cidade entre 25 de fevereiro a 1º de março e entre 9 e 15 de abril para fotografar aspectos da então colônia imperial e receberam da mordomia imperial 2:595$000. Foram pagos 92$000 ao Hotel Suíço de Francisco Gabriel Chifelli e ao colono Davi Heiderich pelo aluguel de carros que os transportou do Porto da Estrela a Petrópolis. Esses daguerreótipos estão desaparecidos. Segundo o historiador Guilherme Auler (1914-1965), alguns foram descritos por d. Pedro II em um dos manuscritos que estão no Arquivo da Casa Imperial. Seriam a descrição dos registros do palácio, ainda não concluído; do Hotel Suíço, da serraria, da residência do ministro da Rússia, além de aspectos da rua do Imperador e da rua Dona Francisca, dentre outros. Auler levantou a hipótese dessas fotografias terem sido ofertadas a Dona Francisca, a Princesa de Joinville que semestralmente recebia de maneira oficial, com correspondência da Mordomia da Casa Imperial ao Ministro brasileiro em Paris, caixas de doce de abacaxi, farinha de mandioca, feijão preto, barril de aguardente, caixas de goiabada e sementes de quiabo… A feijoada recordava o Brasil. E se havia o cuidado de remeter tais coisas, para o culto da saudade, certamente um daguerreótipo representava muito mais (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957). 

Em 1852, Buvelot retornou à Suíça, onde tentou, sem sucesso se estabelecer como fotógrafo. Em 1865, fixou-se na Austrália, onde tornou-se um dos maiores pintores paisagistas do país. Entre 1866 e 1882, contribuiu com paisagens em várias exposições nacionais e internacionais. Faleceu em 30 de maio de 1888.

Em uma carta enviada em 1877 para um de seus amigos mais próximos, o pintor francês Eugene Girardet (1853 – 1907), refletindo sobre as circunstâncias de sua vida e seu envelhecimento, Buvelot escreveu:
Apenas uma faculdade persiste em força total e esta é um sentimento pela natureza que unido a um coração sempre jovem para amar e valorizar aqueles que escolheu…me faz encontrar um charme na vida.

Cronologia de Abram-Louis Buvelot (1814 – 1888)

 

 

1814 – Nascimento de Abram-Louis Buvelot, em 3 de março, em Morges, na Suíça, segundo filho de François-Simeon (? – 1848), funcionário do Correio, e de Jeanne-Louise-Marguerite Heizer (? – 1856), diretora escolar. Tinha um irmão, Eugene-Jean-Louis-Henri (c. 1820- 1852), gravador e litógrafo. A família Buvelot havia se estabelecido em Morges em 1677, onde chegou como refugiada protestante da cidade de Condé-en-Barrois, na França.

1830 – Em dezembro, Buvelot deixou sua cidade natal, provavelmente para estudar na Escola de Desenho de Lausanne, dirigida pelo pintor suíço Marc Louis Arlaud (1772 – 1845), que havia sido aluno do célebre pintor francês Louis David (1748-1825).

1834 – Provavelmente, deixou a Suíça e passou alguns meses em Paris, onde foi aluno do pintor francês Camille Flers (1802 – 1868). Flers havia vivido no Rio de Janeiro entre 1821 e 1823.

1835 - Buvelot chegou em Salvador, na Bahia, onde deu aulas de pintura. Seu tio, François Buvelot (1777 – ?) possuía uma plantação de café no estado entre 1825 e 1842. Buvelot permaneceu em Salvador até 1840 e os quadros que pintou da cidade, intitulados Vista da Bahia e Vista das Fortalezas da Entrada da Bahia, além de um retrato de Minerva Candida d’Albuquerque, o destacou entre as famílias europeias abastadas que viviam na Bahia.

1839 – Anunciou ao público ter aberto uma casa onde desenhava paisagens, retratos de todos os tamanhos e tudo quanto diz respeito a essa arte (Correio Mercantil, 9 de fevereiro de 1939, na segunda coluna).

1840 – Anunciou com o pintor francês Louis Auguste Moreau (1818 – 1877) aulas de desenho e pintura na rua Direita do Palácio, nº 65 (Correio Mercantil, 29 de janeiro, na segunda coluna, e 4 de fevereiro de 1840, na segunda coluna).

Em outubro, chegou ao Rio de Janeiro, a bordo do patacho Minerva. Três dias depois, compareceu à Polícia e no livro de legitimação de passaportes identificou-se como Luis Buvelot, suíço, solteiro, 27 anos, retratista. Como a maioria dos imigrantes, viveu um tempo no Hotel Pharoux, e depois teve várias moradias, dentre elas na ruas do Rosário, do Cano, Santa Teresa e Ourives (Jornal do Commercio, 31 de outubro de 1840, na terceira coluna e Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957). 

Em dezembro, participou da III Exposição Geral de Belas Artes com duas paisagens representando a praia de Santa Luzia e o Saco da Gamboa com o cemitério inglês (Jornal do Commercio, 16 de dezembro de 1840 e Diário de Pernambuco, 13 de janeiro de 1841, na primeira coluna). Na ocasião, Zeferino Ferrez (1797 – 1951), pai do fotógrafo Marc Ferrez, foi condecorado.

1841 – Foi anunciada a venda de uma litografia de Heaton & Rensburg representando a coroação e a sagração de d. Pedro II, quando ele se apresentou ao povo na varanda Largo do Paço, baseada em um desenho do pintor francês Louis Auguste Moreaux (1818 – 1877) e Buvelot. Estava à venda nas lojas de Georges Leuzinger (1813 – 1892) e Laemmert, dentre outras (Jornal do Commercio, 4 de agosto de 1841, na segunda coluna).

Participou da Exposição Geral de Belas Artes com quadros representando a Lagoa Rodrigo de Freitas e Botafogo (Jornal do Commercio, 6 de janeiro de 1842, na terceira coluna).

1842 – Foi publicado o primeiro número do Rio de Janeiro Pitoresco com seis estampas de vistas e figuras desenhadas por Buvelot e pelo pintor francês Louis Auguste Moreaux (1818 – 1877). Estava à venda nas lojas de Georges Leuzinger (1813 – 1892) e Laemmert (Jornal do Commercio, 24 de março de 1842, na terceira coluna).

Embarcou no navio Bom Sucesso, rumo a Vila Viçosa e Campos (Jornal do Commercio, 17 de novembro de 1842, na última coluna).

1843 - Em novembro, Buvelot casou-se com a parisiense Marie-Félicité Lalouette (1816 – ?), filha de Nicolas-Joseph e Appaline-Rosalie Piquet, meses depois do nascimento de Jeanne-Louise-Sophie, única filha do casal, em 24 de fevereiro.

Ele e o pintor cearense José dos Reis Carvalho (1800 – 1872) ganharam medalha de ouro na Exposição Geral de Belas Artes.

1844 – A imperatriz dona Teresa Cristina, que havia chegado ao Rio de Janeiro, em 3 de setembro de 1843, comprou todos os quadros de Buvelot expostos na Exposição do Rio de Janeiro: Cemitério Inglês na Gamboa, Vista do Convento de Santo Antônio, Canto do Beco do Cairu, Vista da Cidade do Rio de Janeiro observado do Andaraí Pequeno e Vista de Nossa Senhora da Glória observada dos aquedutos. O recibo, no valor de 300$000, de 1º de fevereiro de 1844, encontra-se no Arquivo da Casa Imperial. (Jornal do Commercio, 23 de fevereiro de 1844, na primeira coluna e Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

Buvelot participou da Exposição Geral de Belas Artes com quatro quadros: Vista da cidade e da Baía observada da Fábrica de Rapé, no Andaraí; Vista da passagem da Boa Vista observada do mesmo lugar; Vista do Corcovado e da Lagoa Rodrigo de Freitas observada da Boa Vista da Gávea;Vista de Botafogo observada do caminho novo da praia Vermelha (Jornal do Commercio, 21 de dezembro de 1844, na primeira coluna e Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

c. 1845 – Fundou seu estabelecimento fotográfico, na rua dos Latoeiros (atual rua Gonçalves Dias), tornando-se um dos primeiros profissionais da daguerreotipia no Rio de Janeiro.

1845 – Foi publicado pela Heaton & Rensburg o álbum litográfico Rio de Janeiro Pitoresco, realizado por Buvelot e pelo pintor francês Louis Auguste Moreaux (1818 – 1877). Reunia três séries de gravuras realizadas desde 1842 (Anuário do Museu Imperial, 1960).

Consta dos livros de fevereiro da mordomia imperial um recibo no valor de 500$000 para o pagamento de uma vista da Lagoa Rodrigo de Freitas, de autoria de Buvelot (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

Francisco Buvelot, provavelmente François Buvelot, o tio de Louis Buvelot, partiu para a França, na barca francesa Emile (Jornal do Commercio, 20 de junho de 1845, na última coluna).

1846 – Era o professor de desenho do Colégio de São Pedro de Alcântara (Jornal do Commercio, 18 de outubro de 1846, na segunda coluna).

Pintou, sob encomenda da imperatriz dona Teresa Cristina, uma paisagem de floresta brasileira, Vista de mato virgem, que foi exibida na Exposição Geral de Belas Artes de 1846. Pelo quadro, foram pagos 300$000 conforme recibo de 4 de dezembro de 1846 existente no Arquivo da Casa Imperial (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

1847D. Pedro II o agraciou com o título de Cavaleiro da Imperial Ordem do Rosa  pelo mesmo decreto que tornou Grandjean de Montigny (1776 – 1850) Oficial da mesma Ordem (Diário Novo, 22 de março de 1847, na segunda coluna).

Apresentou uma aquarela na Exposição Geral de Belas Artes (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

1848 – Apresentou seis pinturas na Exposição Geral de Belas Artes: Vista de uma casa nas Laranjeiras, Vista de uma choupana, Vista do caminho dos aquedutos, Vista de uma casa em Catumbi, Vista da Gávea observada da Lagoa; e Vista das Laranjeiras (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

1848 a 1951 – Seu estabelecimento, intitulado Louis Buvelot  foi anunciado na seção de “Pintores e Retratistas” do Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro de 1848, 1849, 1950 e 1951. Em 1951, foi anunciado também na seção de “Daguerreótipos”, no mesmo endereço, mas intitulado Officina de Buvelot, 6, & Prat, r. dos Latoeiros, 36.

1849 – Em 30 de novembro, a Família Real pagou a Buvelot  544$000 pela realização de 19 retratos e pelo fornecimento de 20 estojos de daguerreótipos (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

Buvelot foi saudado como o artista que melhor sente e executa a natureza do Brasil, na Exposição da Academia de Belas Artes. Ele apresentou duas vistas (Correio Mercantil, 18 de dezembro de 1849, na terceira coluna).

1850 – Uma conta de 404$000 de retratos de d. Pedro II foi paga pela mordomia imperial, em setembro. A partir dessa informação, o historiador Guilherme Auler concluiu que o retrato do imperador que se encontra no Palácio do Grã-Pará é de autoria de Buvelot & Prat e sua data é 1850 (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

Em uma crítica às obras apresentadas na Exposição da Academia de Belas Artes, foi escrito: as paisagens do sr. Buvelot não podem ser mais naturais! Lamentamos que esse homem não seja brasileiro ou ao menos lente de paisagem da academia, que a esse respeito está muito mal servida… Ele apresentou duas aquarelas (Gazeta Mercantil, 17 de dezembro de 1850, na segunda coluna e Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

1851 – Buvelot e Prat estiveram em Petrópolis entre 25 de fevereiro a 1º de março e entre 9 e 15 de abril para fotografar aspectos da então colônia imperial e receberam da mordomia imperial 2:595$000. Foram pagos 92$000 ao Hotel Suíço de Francisco Gabriel Chifelli e ao colono Davi Heiderich pelo aluguel de carros que os transportou do Porto da Estrela a Petrópolis. Esses daguerriótipos estão desaparecidos. Segundo o historiador Guilherme Auler, alguns foram descritos por d. Pedro II em um dos 114 manuscritos que estão no Arquivo da Casa Imperial. Seriam a descrição dos registros do palácio, ainda não concluído; do Hotel Suíço, da serraria, da residência do ministro da Rússia, além de aspectos da rua do Imperador e da rua Dona Francisca, dentre outros. Auler levantou a hipótese dessas fotografias terem sido ofertadas a Dona Francisca, a Princesa de Joinville que semestralmente recebia de maneira oficial, com correspondência da Mordomia da Casa Imperial ao Ministro brasileiro em Paris, caixas de doce de abacaxi, farinha de mandioca, feijão preto, barril de aguardente, caixas de goiabada e sementes de quiabo… A feijoada recordava o Brasil. E se havia o cuidado de remeter tais coisas, para o culto da saudade, certamente um daguerreótipo representava muito mais  (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

Foi o primeiro fotógrafo no Brasil, com seu associado Prat, a receber o real patrocínio de um monarca quando, em 8 de março de 1851, d. Pedro II autorizou o uso das armas imperiais na fachada do estabelecimento fotográfico Buvelot & Prat.

 

 

1852 – O estabelecimento fotográfico foi anunciado no Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro como Officina Imperial de Buvelot, 6, & Prat, r. dos Latoeiros, 36.

Apresentou  um quadro na Exposição Geral de Belas Artes (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

Buvelot retornou à Suíça por motivos de saúde, provavelmente havia contraido malária. Porém, no livro Famous Australian Artists, de Lois Hunter, publicado na Austrália, em 2003, foi mencionado que o motivo real de Buvelot ter deixado o Brasil teria sido a pressão pública devido a um escândalo desencadeado por um caso que ele teria tido com uma estudante. Algumas fontes informam que o ano foi 1851.

Viveu entre julho de 1852 e dezembro de 1853 em Vevey, Vaud, onde tentou, sem sucesso, se estabelecer como retratista.

1853 - Em dezembro, mudou-se com Marie-Felicité e sua filha Jeanne-Louise-Sophie (1844 – ?) para Lausanne. 

1854 – Foi com o artista austríaco Ferdinand Krumholtz (1810 – 1878), que ele havia conhecido no Rio de Janeiro, para Calcutá, na Índia, onde tentaram as carreiras de pintor e fotógrafo.

1855 - Buvelot teria ido para a Escócia antes de voltar à Suíça (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957). Começou a trabalhar como desenhista na Escola de Design em La Chaux-de-Fonds, Neuchâtel. Permaneceu na cidade com sua mulher e filha até setembro de 1864. Nesse período, contribuiu inúmeras vezes em exposições organizadas pela Sociedade dos Amigos das Artes de Neuchâtel.

1856 – Participou da Exposição de Berna com a pintura de uma paisagem.

Pela última vez a Oficinna Imperial Buvelot & Prat foi anunciada no Almanaque Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro. O último anúncio  publicado no Correio Mercantil e Instrutivo, Político, Universal foi publicado em 21 de janeiro de 1956, na terceira coluna.

1857 – A oficina foi anunciada no Auxiliador da Administração do Correio da Tarde de 1857.

1859/1860 – Buvelot participou da Exposição Geral de Belas Artes de 1859 e de 1860 (Revista Popular, janeiro a março de 1861).

1864 – Buvelot trabalhou em um comitê que estabeleceu o Museu de Belas Artes em La Chaux-de-Fonds.

Segundo informação do dicionário de Emmanuel Bénézit (1854 – 1920), Buvelot teria voltado ao Brasil durante esse ano (Jornal do Brasil, 2 de junho de 1957).

Em setembro, deixou sua família em La Chaux-de-Fonds e, dois meses depois, partiu de Liverpool para a Austrália acompanhado de Caroline-Julie Beguin (? – 1902), que havia sido sua colega como professora de francês na Escola de Design de La Chaux-de-Fonds. Viveram juntos até a morte de Buvelot, em 1888.

1865 – Chegou em 18 de fevereiro em Melbourne, em Vitória, estado da Austrália, onde comprou um estúdio fotográfico na rua Bourke, nº 92.

1866 – Mudou-se para a rua La Trobe, nº 88 e retomou sua carreira de pintor. Caroline-Julie dava aulas de francês para ajudá-lo a se estabelecer como artista em Melbourne. Tornou-se conhecido, recebeu diversos prêmios, tendo-se notabilizado por suas paisagens. Entre 1866 e 1882, contribuiu com paisagens em várias exposições nacionais e internacionais. Segundo o crítico de arte do jornal australiano Argus, James Smith, ele reproduzia integralmente as paisagens australianas nas mais diversas técnicas: aquarelas, óleos e crayons.

1868 - Inscreveu-se para ser o instrutor das aulas de arte na Galeria Nacional de Vitória, sem sucesso. Dois anos depois, o austríaco Eugen von Guerad (1811 – 1901) foi designado para o cargo.

1869 – Em torno desse ano sua reputação como o principal pintor das paisagens da colônia australiana estava firmada.

Foi professor de desenho de paisagens na Escola de Design de Artisan, em Carlton, subúrbio de Melbourne.

Os quadros Winter morning near Heidelberg and Summer afternoon, Templestowe foram adquiridos pela Biblioteca Pública, como parte dos preparativos da Coleção Australiana para a Galeria Nacional de Vitória.

1870 / 1874 – Serviu no comitê da Academia de Artes de Vitória e também participou de exibições do grupo.

1873 –  O casal Buvelot mudou-se para o cottage Ma Retrait, na rua George, em Fitzroy, um subúrbio de Melborne.

1884 - Devido a problemas na visão e nas mãos, deixou de pintar.

1888 – A Academia de Belas Artes do Brasil adquiriu uma paisagem de Buvelot (Brasil. Ministério do Império, 1888).

Buvelot faleceu, em 30 de maio, na Austrália. Foi enterrado no cemitério de Kew, onde foi construído um memorial em sua homenagem.

1890 – Seu quadro, Vista da Gamboa, participou da Exposição Geral de Belas Artes de 1890 (Catálogo da Exposição Geral de Belas Artes de 1890).

1894 – A Galeria Grosvenor da Galeria Nacional de Vitória passou a chamar-se Galeria Buvelot.

 

Foster e  Martin. Retrato de Louis Buvelot, c. 1883

Foster e Martin. Retrato de Louis Buvelot, c. 1883 / La Trobe Picture Collection, Biblioteca de Vitória, Austrália

 

1953 – Integrou a mostra A Paisagem Brasileira até 1900, organizada por Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898 – 1969) para a II Bienal de São Paulo.

1961 – Na Biblioteca Estadual da Guanabara, foi um dos pintores expostos na mostra O Rio na Pintura Brasileira.

1962 – Foi um dos artistas da mostra Pintura Australiana: colonial, impressionista e contemporânea, realizada em Perth e em Adelaide, na Austrália.

1976 – Integrou a exposição Arte Australiana nos 1870s, em Melbourne e em Sidney, na Austrália.

1977 - Integrou a exposição Aspectos da Paisagem Brasileira: 1816-1916, no Museu Nacional de Belas Artes.

1982 – Integrou a mostra 150 Anos de Pintura de Marinha na História da Arte Brasileira, realizada no Museu Nacional de Belas Artes.

1983 - Integrou a exposição Arcádia Australiana, em Sidney, na Austrália.

1992 – Integrou a mostra Natureza: Quatro Séculos de Arte no Brasil, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Acesse as obras de Buvelot disponíveis no acervo da Brasiliana Iconográfica.

Fontes:

AULER, Guilherme. O Paisagista e Retratista Buvelot, Jornal do Brasil, 2 Junho de 1957, Rio de Janeiro.

Australian Dictionary of Biography

CAMPOFIORITO, Quirino. História da pintura brasileira no século XIX. Prefácio Carlos Roberto Maciel Levy. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1983. 292 p., il. p&b. color.

COLMAN, Anne. Buvelot, the Migrant Artist. Interpreting New Worlds in Brazil and Australia. Austrália: La Trobe Journal, 2005.

ERMAKOFF , George. Rio de Janeiro 1840 – 1900 – Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

FREIRE, Laudelino. Um século de pintura: apontamentos para a história da pintura no Brasil de 1816-1916. Rio de Janeiro: Fontana, 1983. 677 p.

FOREL, M. F. Louis Buvelot, Peintre Vaudois. Gazette de Lausanne, 31 de março de 1906.

GRAY, J. R. Louis Buvelot His Life and Work. Tese de mestrado. Universidade de Melbourne, 1968.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

LAGO, Pedro Corrêa do. Brasiliana Itaú: uma grande coleção dedicada ao Brasil / curadoria da coleção: Pedro Corrêa do Lago, Ruy Souza e Silva. Rio de Janeiro: Capivara, 2009.

LEVY, Carlos Roberto Maciel. Exposições gerais da Academia Imperial e da Escola Nacional de Belas Artes: período monárquico, catálogo de artistas e obras entre 1840 e 1884. Rio de Janeiro: Pinakotheke, 1990. 317 p. / v.1

MELO JUNIOR, Donato. Buvelot no Brasil i (apontamentos 1963) e Buvelot no Brasil ii (novos apontamentos à guisa de adendo 1986). Boletim do Museu Nacional de Belas Artes. Rio de Janeiro, 5 (13–5): 9–15, jan.-dez. 1986. il.

PONTUAL, Roberto. Dicionário das artes plásticas no Brasil. Texto Mário Barata, Lourival Gomes Machado, Carlos Cavalcanti et al. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1969. 559 p.

RAPPAPORT, Helen. Queen Victoria: A Biographical Companion. Santa Barbara, California:ABC – CLIO Biographical Companions, 2013.

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STICKEL, Erico João Siriuba. Uma pequena biblioteca particular – Subsídios para o estudo da iconografia no Brasil. São Paulo:Editora da Universidade de São Paulo – Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2004.

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo: 1839/1889. Prefácio Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Funarte. Rocco, 1995. 309 p., il. p&b. (Coleção Luz & Reflexão, 4). ISBN 85-85781-08-4.

VASQUEZ, Pedro Karp. O Brasil na fotografia oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho, 1985.

Site da Enciclopédia Itaú Cultural

O fotógrafo Augusto Stahl (Itália 23/05/1828 – França, 30/10/1877)

Théophile Auguste Stahl é considerado um dos mais importantes fotógrafos que atuaram no Brasil no século XIX, tendo se dedicado tanto aos retratos como às paisagens – rurais e urbanas -, sempre com uma alta qualidade técnica e estética. Também destacou-se na reportagem etnográfica. Nascido em Bergamo, na Itália, em 23 de maio de 1828, originário de uma família da Alsácia, na França, pouco se sabe sobre sua vida na Europa antes de vir para o Brasil, onde desembarcou do vapor inglês Thames, na cidade do Recife, em 31 de dezembro de 1853. Não se sabe com quem e onde aprendeu a fotografar.  É autor de uma obra importante e abrangente e foi um dos primeiros fotógrafos a produzir cartões de visita, os cartes de visite, no país. Teve estúdios no Recife e, a partir de 1862, estabeleceu-se no Rio de Janeiro. Foi agraciado por d. Pedro II (1825 – 1891) com o título de “Fotógrafo de S.M , o Imperador”. O ex-curador de fotografia do Museu Getty, na Califórnia, e do Museu Metropolitano de Nova York, Weston Naef (1942 – ), no livro Pioneer photographers of Brazil, de 1976, referiu-se a Stahl como um dos fotógrafos da vanguarda dos anos 1850 … a acuidade de sua visão e notável aptidão para descobrir o ângulo mais apropriado para fotografar um tema o coloca entre os 12 mais importantes fotógrafos de todos os tempos….

Acessando o link para as fotografias de Augusto Stahl disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

No Recife, onde ficou de 1853 a 1861, teve três estúdios: na rua do Crespo, na rua Nova e no Aterro da Boa Vista, posteriormente rebatizada como rua da Imperatriz. Além de produzir retratos, fotografou as paisagens do Recife, de Olinda, de Goiana e do interior de Pernambuco. Também registrou a estrada de ferro Recife – São Francisco. Em 1858, associou-se ao químico fotógrafo Adolpho Schmidt e ao artista pintor Germano Wahnschaffe, alemão de Hamburgo. Uma das pinturas de Germano, a Cachoeira de Paulo Afonso, foi publicada no artigo O interesse de d. Pedro II pelo rio São Francisco, da Brasiliana Iconográfica.

Em 1859, mesmo ano em que Schmidt deixou a sociedade, dom Pedro II e a imperatriz Teresa Cristina (1822 – 1889) visitaram o norte do país. No Recife, Stahl fotografou o evento e o próprio casal real, em 1º de dezembro. Stahl inovou registrando a chegada e o desembarque dos monarcas na direção contrária, ou seja, do mar para a terra. Stahl & C. receberam de Pedro II a licença de usar o título de Fotógrafo de Sua Majestade Imperial.

 

 

O imperador sugeriu que ele fotografasse as quedas de Paulo Afonso, no norte da Bahia. Uma imagem que ele produziu de Paulo Afonso é considerada muito importante na história da fotografia no Brasil. Segundo Bia Correa do Lago, no livro Os fotógrafos do império: ...Justapõe dois negativos para transmitir plenamente – dentro dos limites técnicos da época – toda a monumentalidade do fenômeno natural , e escolhe deliberadamente como personagem central, para aumentar a escala, uma criança negra.

Stahl participou de diversas mostras, tendo sido premiado com uma menção honrosa na Primeira Exposição Nacional, em 1861. Na Segunda Exposição Nacional, em 1866, participou com fotografias, retratos da família real em fotopintura por Ulrich Steffen, retratos de negros, vistas de subúrbios e um panorama do Rio de Janeiro. Foi premiado com a medalha de prata.

 

 

Em 4 de fevereiro de 1862, embarcou para o Rio de Janeiro a bordo do vapor Paraná e deixou como sucessor, no Recife, Leon Chapelin. Estabeleceu-se na rua do Ouvidor, 117 , e, nos cerca de oito anos durante os quais possuiu estúdio no Rio de Janeiro, fez inúmeros e importantes registros da cidade, sendo o Panorama em cinco partes da cidade do Rio de Janeiro vista da Ilha das Cobras, produzida em torno de 1863, considerada uma de suas obras-primas. Stahl & Wahnschaffe foram agraciados, em 21 de abril de 1862, com o título de “Fotógrafos da Casa Imperial”. Entre 1862 e 1863, Stahl voltou à Europa, onde se casou com Marie Julie Bing (1835 – 1921), nascida em Ostheim, na Alsácia. O casal teve dois filhos, Olga Marie e Paul Theodor Waldemar, ambos nascidos no Rio de Janeiro, em 1864 e 1865, respectivamente.

 

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Augusto Stahl e sua esposa Marie Julie Bing, c. 1863 / Site Family Search

Em 1865, Stahl produziu para a missão científica Thayer, chefiada pelo naturalista suíço naturalizado norte-americano Louis Agassiz (1807 – 1873), retratos de “tipos” do país: portraits e fotografias antropométricas de chineses que residiam no Rio de Janeiro e de escravizados negros. A obra Voyage au Brésil – 1865 – 1866 foi resultado dessa missão, realizada sob os auspícios de dom Pedro II. 

Provavelmente, as atividades do estúdio de Stahl & Wahnschaffe terminaram em 1870, já que o estabelecimento não foi anunciado pelo Almanaque Laemmert de 1871. Os equipamentos foram vendidos para os fotógrafos Cypriano & Silveira (Jornal do Commercio, 22 de maio de 1870). A família de Stahl retornou à Europa. Em 1875, ele partiu do Rio de Janeiro no paquete francês Senegal (O Globo, 26 de julho de 1875, na primeira coluna). Augusto Stahl faleceu em 30 de outubro de 1877, no Estabelecimento Público de Saúde Alsace Nord.

 

 

Link para a Cronologia de Augusto Stahl (1828 – 1877)

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Catalogue de la troisième exposition de la Société Française de Photographie

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Site Encilopédia Itaú Cultural

Site Instituto Moreira Salles

Site Société Française de Photographie

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O retratista português Joaquim Insley Pacheco (31 de março de 1830 – 14 de outubro de 1912)

Um dos mais prestigiados e famosos retratistas do Brasil no século XIX, o fotógrafo e pintor português Joaquim José Pacheco, posteriormente Joaquim Insley Pacheco, nasceu em Cabeceiras de Bastos, em 31 de março de 1830. Era muito requisitado pela corte imperial brasileira e, além de ter sido muito procurado para a execução de retratos, era reconhecido por seu trabalho com fotopintura.

Uma crônica do poeta e jornalista Faustino Xavier de Novais (1820 – 1869), de 24 de outubro de 1863, chamava atenção para a popularidade de Insley Pacheco no Rio de Janeiro:

“…Pouco distante do meu pouso eleva-se uma casa cuja fachada pintada de cores vivas provoca a atenção dos que passam. É aí o palácio do fotógrafo mais afamado da capital, J. Insley Pacheco, que tem tido a honra de copiar todos os narizes do Rio…”

No fim dos anos 1840, já estava em Fortaleza, capital do Ceará, onde teve contato com a fotografia com o daguerreotipista e mágico irlandês Frederick Walter (1811- 18?)*, uma das figuras mais pitorescas do início da fotografia no Brasil, que tornou-se seu mestre. Insley produzia desenhos para as exibições de mágica de Walter e, em troca, Walter ensinava a ele a arte da daguerreotipia. Segundo Mello Moraes Filho, Insley possuía uma natureza em demasia curiosa, índole decidida e aventureira. De acordo com o mesmo autor, Insley foi o introdutor da ambrotipia no Brasil. Ele teria adquirido, de um capitão de navio ancorado no porto do Rio de Janeiro, fórmulas e máquinas do referido processo.

O primeiro estabelecimento fotográfico de Insley de que se tem notícia ficava na rua Formosa, em Fortaleza. Entre 1950 e 1951, viajou pelos Estados Unidos, onde estudou com os fotógrafos Mathew Brady (c.1822 – 1896), Jeremiah Gurney (1812 – 1895) e Henry E. Insley (1811 – 1894). Acredita-se que em homenagem a esse último adotou o sobrenome Insley.

 

Acessando o link para as fotografias de Joaquim Insley Pacheco disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

Em 1851, após uma breve passagem por São Luís, no Maranhão, voltou à Fortaleza e seu estúdio ficava na rua da Palma (O Cearense, 9 de maio de 1851, na última coluna).  Um ano depois, vendeu por menos de seu valor todos os utensílios pertencentes a sua profissão de retratista (Pedro II (CE), 21 de agosto de 1852, na terceira coluna). Partiu para Sobral (Pedro II (CE), 8 de dezembro de 1852) e depois de uma rápida permanência em Pernambuco, em 1854, onde seu ateliê ficava no Aterro da Boa Vista, nº 4, no Recife, foi para o Rio de Janeiro e anunciava, em 1855, sua Novíssima e esplêndida galeria de retratos pelo sistema cristalotipo, em seu novo estúdio fotográfico, na rua do Ouvidor, nº 31, posteriormente 40 (Jornal do Commercio  7 de fevereiro de 1855 e Correio Mercantil, 9 de fevereiro de 1855 ). Já assinava com o sobrenome Insley. No estabelecimento, também eram comercializados quadros, caixas, molduras e alfinetes (Jornal do Commercio, 2 de agosto de 1855). O ateliê também funcionava, eventualmente, como uma galeria para exposições de artes plásticas.

Insley Pacheco fotografou, em 10 de agosto de 1855, o imperador Pedro II (1825 – 1891), a imperatriz Teresa Cristina (1822 – 1829) e a filha do casal, princesa Leopoldina (1847 – 1871), na Quinta da Boa Vista (Diário do Rio de Janeiro, 9 de janeiro de 1856). Segundo Guilherme Auler (1914-1965), sob o pseudônimo de Ricardo Martim, em dois artigos publicados na Tribuna de Petrópolis, em 1º e 8 de abril de 1956, Insley teria sido agraciado com o título de “Fotógrafo da Casa Imperial”, em 22 de dezembro de 1855. Mas o fato só foi noticiado em 19 de dezembro 1857, no Diário do Rio de Janeiro. Foi também agraciado com a Ordem de Cavaleiro Real da Ordem de Cristo.

 

 

Tudo isso contribuiu para que seu público fosse consistentemente de representantes da elite e retratos realizados em seu estabelecimento eram presenças constantes em álbuns fotográficos de famílias da alta sociedade do século XIX.

Em 1858, foi anunciado um grande passo na arte fotográfica no ateliê de Insley Pacheco: É o ambrotipo e a pintura dando-se as mãos para reunirem a fidelidade da cópia à duração e à persistência das cores (Diário do Rio de Janeiro, 17 de janeiro de 1858, na quarta coluna). No mesmo ano, em um anúncio de seu estabelecimento, apresentava-se como primeiro e único retratista em vidro (Jornal do Commercio, 13 de maio de 1858).

Em 1860, a firma Pacheco e Irmão Ambrotypista da Augusta Caza Imperial abriu um estúdio em Salvador, que fecharia no mesmo ano, e outro em São Luís, fechado em 1861. Em 1863, abriu um novo estabelecimento, na rua do Ouvidor, nº 102, no Rio de Janeiro (Diário do Rio de Janeiro , 1º de abril de 1863, na quarta coluna).

Após diversas tentativas fracassadas, o Ministério do Império, com o decreto 5613, de 25 de abril, concedeu privilégio de cinco anos a Joaquim Insley Pacheco, para fazer fotografias de sua invenção, aplicadas à porcelana, vidro opalino e marfim (Diário do Rio de Janeiro, 15 de maio de 1874, na última coluna).

Insley Pacheco foi condecorado pelo governo português com a Ordem de Cristo  (Semana Ilustrada, 3 de março de 1866) e participou das exposições universais de Paris (1867 e 1889), de Viena (1873), e da Filadéfia (1876) e de outras exposições internacionais como as do Porto (1865), de Santiago do Chile (1875), de Buenos Aires (1882) e de Chicago (1893). No Brasil, esteve presente em diversas exposições nacionais e também em várias exposições da Academia Imperial de Belas Artes.

Em torno de 1892, na folha de proteção sobreposta às suas fotografias, Insley Pacheco identificava-se como Fotógrafo e pintor. Cavaleiro da Real Ordem de Cristo. Premiado com a Menção de Honra nas exposições de Vienna e mais 16 medalhas nas exposições de Philadelphia, Porto, Brazil, Chile, Buenos Aires e Chicago. Novo sistema de platinotipia – Rua dos Ourives, 38 – Rio de Janeiro.

Nas artes plásticas, seu mestre foi o pintor Arsênio da Silva (1833 – 1883) e seus quadros foram muitas vezes premiados. Eram adquiridos por destacadas figuras da sociedade como o Barão do Rio Branco (1845 – 1912). Insley Pacheco foi, em 1903, o primeiro presidente da Associação dos Aquarelistas. Em seu ateliê foram realizadas diversas exposições de pintores como Firmino Monteiro (1855 – 1888) e Pedro Weingarten (1853 – 1929).

Em 14 de outubro de 1912, faleceu Joaquim Insley Pacheco, o fotógrafo tradicional do Rio (Jornal do Brasil, 15 de outubro de 1912 e O Paiz, 16 de outubro de 1912, ambos na penúltima coluna).

 

 

Comentário de Boris Kossoy sobre o retrato acima: …um retrato do imperador, entretanto, datado de 1883, isto é, quando contava 58 anos de idade, é particularmente interessante pelo “clima” tropical criado no ateliê: cenário de natureza “plantada” como fundo para o retrato (bem ao contrário dos tradicionais fundos com paisagens europeias complementados por uma mescla de mobiliário vitoriano e clássico, recursos tão utilizados pelos fotógrafos no século XIX). Com a nova montagem do velho teatro tem-se explicitada a ideologia de uma civilização nos trópicos” (KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.).

 

Acesse aqui a Cronologia de Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912)

 

 

*Segundo Mello Moraes Filho  (1844 – 1919), Frederick Walter “desembarcara no Ceará, trazendo consigo um aparelho de daguerreótipo, que usava durante o dia, e um gabinete de mágica, que funcionava à noite nos teatrinhos“. Walter tornou-se o mestre do jovem Pacheco.

 

 

O nome abrasileirado do mestre irlandês de Insley era Guilherme Frederico Walter e ele havia trabalhado, em 1840, no Rio de Janeiro, com o mágico Jacomo Luiz Marques (18?-?); e, em 1846, no Recife, como assistente do mágico inglês George Sutton (18? -?) (Jornal do Commercio, 12 de setembro de 1840, penúltima coluna; e Diário de Pernambuco, 9 de maio de 1846, última coluna).

 

 

 

Após as apresentações no Recife, Walter seguiu para São Luís, capital do Maranhão, onde aprendeu a daguerreotipia com o norte-americano Charles DeForest Fredericks (1823 – 1894) que, na ocasião, estava trabalhando na cidade (O Espelho de Papel – A fotografia de Insley Pacheco na coleção do IHGB (2025)). Em 1849, no Recife, Walter estabeleceu sua galeria de daguerreótipos na Rua da Cadeia de Santo Antônio, nº 26, no segundo andar (Diário de Pernambuco, 21 de fevereiro de 1849, última coluna).

Segundo História da fotografia no Ceará (Edição do Autor, 2019), de Ary Bezerra Leite, Pacheco pintava cenários para os espetáculos de magia do seu professor/empregador e, em troca, recebia dele aulas de daguerreotipia.  Guilherme Frederico Walter chegou ao Ceará, em 30 de maio de 1848, e anunciou, poucos dias depois, que tirava retratos pelo daguerreótipo com toda a perfeição. Assim começava a história da fotografia no Ceará (O Cearense, 8 de junho de 1848, última coluna).

 

O Cearense, 8 de junho de 1848

O Cearense, 8 de junho de 1848 ( no anúncio está escrito, erradamente, 1849)

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ERMAKOFF , George. Rio de Janeiro 1840 – 1900 – Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

FÁBIO, Flávia. Insley Pacheco: um álbum imaginário. Tese de Mestrado em Multimeios, Universidade Estadual de Campinas, 2005.

FERREZ, Gilberto. A Fotografia no Brasil: 1840-1900 / Gilberto Ferrez; [prefácio por Pedro Vasquez] – 2ª ed. – Rio de Janeiro: FUNARTE: Fundação Nacional Pró-Memória, 1985.

FERREZ, Gilberto; NAEF, Weston J.. Pioneer Photographers of Brazil, 1840-1920. New York: Center for Inter-American Relations, 1976.

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MEIRELLES, Victor. “Photographia” In BRASIL. Exposição Nacional. Relatório da Segunda Exposição Nacional de 1866, publicado […] pelo Dr. Antonio José de Souza Rego, 1o secretário da Commissão Directora. Rio de Janeiro: Typ. Nacional, 1869, 2ª parte, pp. 158-170

MORAES FILHO, Melo. Artistas do meu tempo. Rio de Janeiro: Garnier, 1904.

PINHO, Wanderley. Salões e Damas do Segundo Reinado. São Paulo:Martins, 1942.

Site Emerald Insight

Site Encilopédia Itaú Cultural

Site Family Search

Site O Castro Manco

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo: 1839/1889. Prefácio Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Funarte. Rocco, 1995. 309 p., il. p&b. (Coleção Luz & Reflexão, 4). ISBN 85-85781-08-4.

VASQUEZ, Pedro Karp. Mestres da fotografia no Brasil. Centro Cultural do Banco do Brasil Rio de Janeiro, 1995.

VASQUEZ, Pedro Karp. O Brasil na fotografia oitocentista. Editora Metalivros, 2003.

A Brasiliana Fotográfica também pesquisou em diversos periódicos na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional.

Revert Henrique Klumb, o fotógrafo da família real do Brasil

Um dos primeiros fotógrafos estrangeiros a se estabelecer no Brasil, o francês Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) foi o fotógrafo preferido da família imperial brasileira, tendo sido agraciado com o título de “Fotógrafo da Casa Imperial”, em 1861. Um dos pioneiros na produção comercial de imagens sobre papel fotográfico e uso de negativo de vidro em colódio no Brasil, inaugurou seu estabelecimento fotográfico em 1855 ( Correio Mercantil , de 4 de novembro de 1855, na última coluna ). Foi professor de fotografia da princesa Isabel e, provavelmente, o introdutor da técnica estereoscópica no Brasil, com a qual entre os anos de 1855 e 1862 produziu ampla documentação sobre o Rio de Janeiro.

Foi também o autor do livro Doze horas em diligência. Guia do viajante de Petrópolis a Juiz de Fora, única obra do Brasil do século XIX a ser idealizada, fotografada, escrita e publicada por uma só pessoa. Também foi o primeiro livro de fotografia inteiramente litografado e produzido no país. Dois exemplares estão conservados na Divisão de Obras Raras da Biblioteca Nacional.

Doze horas em diligência descreve o trajeto  entre Petrópolis e Juiz de Fora, realizado entre seis horas da manhã e seis horas da tarde, duração padrão do percurso nas diligências da Companhia União e Indústria. O fotógrafo dedicou o livro a sua protetora, a imperatriz Teresa Cristina (1822 – 1889): “Quando concebi o projeto de escrever esse pequeno livro, meu primeiro pensamento foi que só a VOSSA MAJESTADE me era permitido dedicar este simples ensaio descritivo de uma das mais belas estradas do Império. Sou talvez muito presunçoso ousando oferecer a Vossa Majestade a dedicatória deste opúsculo; no entanto ouso esperar que VOSSA MAJESTADE me fará a graça insigne de aceital-o, ainda que não fosse mais senão para servir ao sentimento que me inspirou. No benévolo acolhimento de VOSSA MAJESTADE – que já se dignou a fazer tanto por mim – procurarei os meios para realizar trabalhos mais importantes que tenciono fazer no futuro…”.

No prefácio, Klumb afirmou: …Num trabalho feito a galope, não se pode esperar encontrar estilo elegante e florido, mas sim uma ligeira descrição dos lugares notáveis, atravessados por uma estrada magnífica. Essa obra não tem o merecimento senão o de ser: o primeiro guia do viajante, feito no país, guia ilustrado de desenhos copiados da fotografia …

São de autoria de Klumb diversas imagens da família imperial brasileira, que deixam clara sua proximidade com a realeza. No Rio de Janeiro, fotografou tanto a natureza como a paisagem urbana da cidade. Registrou edifícios e logradouros públicos, como o Passeio Público, o Jardim Botânico e a Floresta da Tijuca; monumentos, hotéis e residências, tendo sido pioneiro na realização de uma sistemática e abrangente documentação das paisagens cariocas. Registrou tanto a fábrica de gás como a ferrovia de Irineu Evangelista de Souza, o barão de Mauá ( 1813 – 1889 ). Também fotografou a paisagem urbana de Petrópolis, acrescentando efeitos noturnos, uma importante inovação. Essa série é considerada extremamente significativa do ponto de vista estético, formal e dos limites da linguagem na época.

Link para o comentário “Os efeitos de Klumb”,  por Sérgio Burgi, curador do portal Brasiliana Fotográfica e Coordenador de Fotografia do Instituto Moreira Salles.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Revert Henrique Klumb disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

Breve cronologia de Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886)

 

c. 1826 – Nascimento de Revert Henry Klumb, no Departamento de Seine e Oise, na França, filho de lavradores-proprietários. Alguns estudiosos afirmam que ele teria nascido em Berlim, na Alemanha. Porém, em um documento que está no Arquivo Nacional, conforme publicado no livro Rio de Janeiro – 1840 -1900 – Uma crônica fotográfica, de 2006, de George Ermakoff, Klumb se reconhece como francês. Também em uma matéria do Jornal do Commercio, de 1859, foi identificado como francês (Jornal do Commercio, de 27 de junho de 1859, na quinta coluna).

1852 / 1853 – Klumb chegou ao Rio de Janeiro com Affonso Rouel, trazendo uma máquina fotográfica. Eles eram, segundo consta no livro Artistas de meu tempo, de Mello Morais Filho, fugitivos do exército francês. Em algum momento de sua estadia no país, Klumb aportuguesou seu nome do meio para Henrique.

1855 – Anúncio do estabelecimento Photographia de François Rene Moreaux, Klumb e Cia, na rua do Rosário, 134 (Diário de Rio de Janeiro, 16 de março de 1855, na segunda coluna). Klumb e Rouel se associaram a Moreaux e, segundo Melo Moraes Filho em seu livro Artistas do meu tempo, foram os primeiros a produzir fotografias sobre papel no Brasil.

Já em novembro, foi publicado um anúncio da abertura da galeria de exposição de Klumb, na rua dos Ourives, 64 , atual rua Miguel Couto ( Correio Mercantil , de 4 de novembro de 1855, na última coluna, além do anúncio).

 

 

Foi anunciado que um quadro de autoria de Manuel Araujo de Porto Alegre (1806 – 1879), diretor da Academia Imperial de Belas Artes, seria copiado em ponto pequeno na officina photographica do sr. Klumb (A Semana, 8 de dezembro de 1855).

Em anúncio do estabelecimento de Klumb, foi noticiada a presença do artista M. Muller no ateliê, responsável pelos serviços de pintura e desenho (Jornal do Commercio, 10 de julho de 1956, na sexta coluna)

1856 – Anúncio do estabelecimento fotográfico de Klumb, com aprovação do governo imperial (Gazeta Mercantil, de 6 de fevereiro de 1856, na primeira coluna).

Propaganda do estabelecimento fotográfico de Klumb, anunciando a descoberta por ele de um novo processo por meio do qual obtem-se retratos em fumo e coloridos, da mais absoluta perfeição, podendo-se entrega-los depois de um quarto de hora (Gazeta Mercantil, de 18 de julho de 1856, na quarta coluna).

Klumb anunciou a venda do retrato do marquês do Paraná (1801 – 1856), em seu leito de morte, produzido em 3 de setembro de 1856,  que serviu como base para uma litografia de Clement Bernard Louis Thérier (Jornal do Commercio, de 16 de novembro de 1856). Thérier havia chegado ao Rio de Janeiro, em fevereiro de 1853, contratado por Francisco de Paula Brito (1809 – 1861) para trabalhar na Marmota Fluminense.

1857 - Anúncio do leilão da casa de fotografia de Klumb (Jornal do Commercio, de 20 de janeiro de 1857, na última coluna).

Sob o título “Lições de Photographia”, Klumb anunciava-se como professor de fotografia na ladeira do Castello, nº 18, onde residia ( Jornal do Commercio, de 29 de janeiro de 1857, na segunda coluna).

Klumb trabalhou como empregado no estabelecimento do fotógrafo Pierre Benoit Loup, na rua dos Latoeiros, 60 ( Jornal do Commercio, de 7 de março de 1857, na quarta coluna ).

1858 – Klumb embarcou para São João da Barra ( Jornal do Commercio, de 9 de fevereiro de 1858, na terceira coluna, sob o título “Movimento do Porto” )

1859 – Klumb viajou para Campos, e foi identificado como francês (Jornal do Commercio, de 27 de junho de 1859, na quinta coluna ).

1860 -Participou do Salão Imperial da Academia de Belas Artes, inaugurado em 23 de dezembro, expondo 15 fotografias: 6 retratos, duas vistas do dique da Ilha das Cobras, duas reproduções de estátuas em gesso, uma vista da Floresta da Tijuca, uma vista da Cascatinha da Tijuca, uma vista de uma chácara na Tijuca, uma vista de uma chácara às margens do rio Paraíba, em Campos; e um quadro contendo vistas estereocópicas e três retratos no formato carte de visite.  No catálogo do evento constava “Sr. Henrique Klumb, photographo da Academia. Rua dos Latoeiros, nº 44″.

1861 – Foi publicada uma crítica sobre o Salão Imperial da Academia de Belas Artes com elogios a Klumb (Diário do Rio de Janeiro, 31 de janeiro de 1861 ).

Com a presença de Pedro II e da imperatriz Teresa Cristina, foi realizada a cerimônia de premiação dos artistas que participaram do Salão Imperial da Academia de Belas Artes de 1860. Klumb foi agraciado com uma Menção Honrosa (O Correio da Tarde, 8 de julho de 1861, na segunda coluna).

Em 23 de julho, Klumb documentou a inauguração da estrada União Indústria e as comemorações que se seguiram em Juiz de Fora na casa do construtor Mariano Procópio Ferreira Lage (1821 – 1872), com a presença da família imperial brasileira. A União Indústria foi a primeira estrada de rodagem macadamizada do Brasil, além de ter sido a maior obra de engenharia da América Latina, na época. Na sua construção não foi utilizada mão de obra escrava.

Em 24 de agosto, foi agraciado com o título de “Fotógrafo da Casa Imperial”.

No segundo semestre, começou a dar aulas de fotografia para a princesa Isabel.

Por encomenda de dom Pedro II, fotografou os interiores do Palácio de São Cristóvão, remodelado pelo decorador italiano Mario Bragaldi ( 1809 – 1873) e pelo arquiteto da Casa Imperial, Teodoro Marx.

1862 - Vendeu vistas estereoscópicas para as princesas Isabel e Leopoldina.

1864 – Anúncio da Photographia Brazileira, de Klumb, na rua São José, 94 e 96 (Jornal do Commercio,  de outubro de 1864, na quarta coluna).

1865 –  A imperatriz Teresa Cristina, uma das melhores clientes de Klumb, gastou 480 mil réis em retratos, vistas e esteoroscopias de sua autoria.

Anúncio da oficina do litógrafo Paul Théodore Robin (? – 1897), dirigida por Klumb, na Rua São José, 96 ( Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, de 1865 ). Klumb  foi sucedido no local por Marc Ferrez (1843 – 1923), então com 22 anos.

“O francês Paul Théodore Robin (-1897) deve ter chegado ao Rio de Janeiro em 1853 ou mesmo 1854, já com experiência litográfica, pois nesse último, conforme se observou, formou a sociedade Alfredo Martinet & Paulo Robin, com litografia na Rua da Ajuda, 113, embora com a duração de apenas alguns meses. Reencontrar-se-á Robin em 1860 com ateliê de “fotografia e ambrotipia” na Rua dos Ourives, 117, primeiro andar, na sociedade Maupoint & Robin, uma prática que iria beneficiá-lo futuramente, quando montasse oficina de fotogravador. A sociedade com Maupoint não foi além de 1861: em 1862 já possuía seu próprio ateliê fotográfica, na Rua São José, 94 e 96, a “Officina de Paulo Robin, dirigida por Henrique Klumb”, que foi dos mais estimados fotógrafos do Brasil”(FERREIRA, 1994).

1865 / 1866 – Klumb foi morar em Petrópolis, na rua dos Artistas, nº 10, em frente à praça Coblenz. Fez uma extensa documentação da paisagem urbana da cidade, inclusive com efeitos noturnos – uma grande inovação na época. Devido a problemas financeiros, no período em que residiu em Petrópolis, também trabalhou no comércio de vinho.

1872 – Anúncio da abertura da Photographia Franceza, de Klumb e outros fotógrafos, na residência do sr. Figueira de Melo, na rua do Ouvidor, nº 49 (Jornal do Commercio, 22 de maio de 1872, na última coluna ).

Foi publicado o livro Doze horas em diligência – Guia do viajante de Petrópolis e Juiz  de Fora, editado na Casa do Editor J.J.da Costa Pereira Braga, na rua Nova do Ouvidor, 25 e 26. Foi um dos primeiros livros de fotografia produzidos no Brasil.

 

klumb

Doze horas em diligência – Guia do viajante de Petrópolis e Juiz de Fora, dedicado à princesa Isabel

 

1873 – Crítica ao livro Doze horas em diligência – Guia do viajante de Petrópolis e Juiz  de Fora ( A Vida Fluminense, 19 de julho de 1873, na segunda coluna).

Anúncio da venda do livro Doze horas em diligência – Guia do Viajante de Petrópolis a Juiz de Fora (Jornal do Commercio, de 26 de julho de 1873, na última coluna).

 

 

1874 - Publicação do livro Petrópolis e seus arrabaldes, com fotografias produzidas por Klumb.

1875 – Anúncio e crítica da exposição de fotografias de Petrópolis, de autoria de Klumb, em Petrópolis (O Globo, de 10 de janeiro de 1875 , na segunda coluna, O Mercantil, de 6 e 9 janeiro de 1875  e de 6 de fevereiro de 1875).

Dom Pedro II e a imperatriz Tereza Cristina visitaram a exposição (O Mercantil, de 10 de janeiro de 1875, na terceira coluna).

Klumb anunciou seus serviços de fotógrafo na cidade Petrópolis aos domingos, segundas, terças e dias santos na rua D. Januária (O Mercantil, de 17 de fevereiro de 1875, na terceira coluna).

A exposição de fotografias de Klumb foi anunciada como uma das atrações de Petrópolis (O Mercantil, de 22 de dezembro de 1875, na primeira coluna).

Entre 1875 e 1886 – Nesse período, de cerca de 10 anos, não há notícias sobre Klumb.

1886Klumb estava em Paris e de lá escreveu à imperatriz Teresa Cristina pedindo que ela financiasse a volta dele e de sua família para o Brasil. Era casado com a baiana Hermelinda Barreto, com quem tinha duas filhas. O pedido foi deferido, e ele e sua família deveriam embarcar para o Brasil em outubro de 1886. Porém, não se sabe se ele chegou a vir para o Brasil. Essa é a última notícia que se tem, até o momento, sobre Klumb.

 1952 – Foi publicado o artigo Segredos e Revelações da História do Brasil – Primeiro Guia Turístico do Brasil, sobre Doze horas em diligência – Guia do Viajante de Petrópolis a Juiz de Foraescrito pelo criador e primeiro diretor do Museu Histórico Nacional, Gustavo Barroso (1888-1959) (O Cruzeiro, de 1º de novembro de 1952).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Outros artigos publicados na Brasiliana Fotográfica em torno da obra de Revert Henrique Klumb:

As versões diurna e noturna na fotografia de Revert Henrique Klumb, 28 de dezembro de 2018

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, 16 de março de 2020

“Doze horas em diligência”, o primeiro guia turístico do Brasil, por Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886), 8 de maio de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” II – A rua do Imperador em Petrópolis por Klumb, Leuzinger e Stahl, 16 de junho de 2020.

O Hotel Pharoux por Revert Henrique Klumb, em 15 de junho de 2022

 

Fontes:

BRITTO PEREIRA, Cecilia Duprat. Revert Henrique Klumb – Fotógrafo da Família Imperial Brasileira. Rio de Janeiro: Anais da Biblioteca Nacional, 1982.

ERMAKOFF , George. Rio de Janeiro 1840 – 1900 – Uma crônica fotográfica. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2006.

FERREIRA, Orlando da Costa. Imagem e Letra – Introdução à Bibliografia Brasileira: A Imagem Gravada. 2ª ed. São Paulo: Edusp, 1994.

FERREZ, Gilberto. Fotografia no Brasil e um de seus mais dedicados servidores : Marc Ferrez ( 1843 – 1923 ). Rio de Janeiro: Revista do IPHAN, nº 26, 1997.

FERREZ, Gilberto; NAEF, Weston J.. Pioneer Photographers of Brazil, 1840-1920. New York: Center for Inter-American Relations, 1976.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil(1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. ISBN 85-86707-07-4

LAGO, Bia Corrêa do;LAGO, Pedro Corrêa do. Coleção Princesa Isabel: fotografia do século XIX. Rio de Janeiro: Capivara, 2008.432p.:il., retrs.

LAGO, Bia Corrêa do;LAGO, Pedro Corrêa do. Os Fotógrafos do Império. Rio de Janeiro: Capivara, 2005. 240p.:il

MARTIM, Ricardo (pseudônimo de Guilherme Auler). Dom Pedro II e a fotografia. Tribuna de Petrópolis. Petrópolis, 1 de abril de 1956.

MORAES FILHO, Alexandre de Mello. Artistas do meu tempo. Rio de Janeiro: Garnier, 1905.

SCARRONE, Marcelo. Doze horas numa diligência. Rio de Janeiro: Revista de História, 14/06/2008.

Site do Instituto Moreira Salles

Site da Enciclopédia Itaú Cultural

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo: 1839/1889. Prefácio Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Funarte. Rocco, 1995. 309 p., il. p&b. (Coleção Luz & Reflexão, 4). ISBN 85-85781-08-4.

TURAZZI, Maria Inez. Paisagem construída – fotografia e memória dos “melhoramentos urbanos” na cidade do Rio de JaneiroVaria história, vol.22 no.35. Belo Horizonte. Jan/Junho 2006

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Introdução João de Orleans e Bragança. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho : Cis, [1985]. 243 p., fotos p&b.

VASQUEZ, Pedro Karp. Fotógrafos Alemães no Brasil do Século XIX: Deutsche Fotografen des 19. Jahrhunderts in Brasilien. Apresentação Winston Fritsch; prefácio Joaquim Marçal; projeto editorial Pedro Karp Vasquez, Ronaldo Graça Couto; projeto gráfico Victor Burton. São Paulo: Metalivros, 2000. 203 p., il. p&b. ISBN 85-85371-28-5.

VASQUEZ, Pedro Karp. Mestres da fotografia no Brasil: Coleção Gilberto Ferrez. Traducao Bill Gallagher. Rio de Janeiro: Centro Cultural Banco do Brasil, 1995. 272 p., il. p&b. ISBN 85-85688-04-1.

VASQUEZ, Pedro Karp. Revert Henrique Klumb: um alemão na Corte Imperial brasileira. Apresentação Joaquim Marçal, Demosthenes Madureira de Pinho Filho; coordenação de coleção Pedro Corrêa do Lago; coordenação editorial Pedro Corrêa do Lago, Luiz Eduardo Meira de Vasconcellos; design Victor Burton; fotografia César Barreot, Miguel Pacheco e Chaves; pesquisa Pedro Karp Vasquez; tradução Carlos Luís Brown Scavarda. Rio de Janeiro: Capivara, 2001 229p., il. p&b. (Visões do Brasil, 4). ISBN 85-86011-49-5.

VASQUEZ, Pedro Karp. A fotografia no Império. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2002. 72 p., il. p&b.

O fotógrafo Juan Gutierrez de Padilla (c. 1860 – 28/6/1897)

 

Juan Gutierrez de Padilla foi um dos mais importantes fotógrafos paisagistas dos oitocentos, no Brasil. Foi, ao lado de Marc Ferrez (1843 – 1923) e George Leuzinger (1813 – 1892), ambos do século XIX, e de Augusto Malta (1864 – 1957), já no século XX, um dos maiores cronistas visuais do Rio de Janeiro. Foi um dos fotógrafos principais da transição da cidade imperial para a cidade republicana. Entre 1892 e 1896, produziu a maior parte de suas fotografias de paisagens do Rio de Janeiro, que eram vendidas para estrangeiros que visitavam a cidade. Registrou a Revolta da Armada, entre 1893 e 1894, e, em 1895, produziu as fotografias do álbum  Recordação das festas nacionais, em homenagem aos cinco anos da proclamação da República brasileira.

 

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Verso do cartão-suporte da Photographia União

 

Em 1889, já trabalhava na Photographia União, localizada na rua da Carioca, nº114 . Nesse mesmo ano, em 3 de agosto, recebeu o título de “Fotógrafo da Casa Imperial. Em 1º de janeiro de 1892,  foi inaugurado o edifício da Companhia Photographica Brazileira, na rua Gonçalves Dias, 40, sob a direção técnica de Juan Gutierrez (Jornal do Commercio, 2 de janeiro de 1892, na sétima coluna sob o título “Companhia Photographica” ). Noticiou-se que, pela primeira vez, fotografias perfeitas eram produzidas no Rio de Janeiro e que isso se devia ao talento e ao trabalho de Gutierrez (O Combate, 27 de fevereiro de 1892, na quinta coluna). Em 17 de junho, a sociedade da Companhia Photographica Brazileira foi dissolvida e o maior credor do empreendimento, o conselheiro Francisco de Paula Mayrink, recebeu os imóveis sociais e demais ativos da empresa. Em 29 de setembro, Gutierrez solicitou à Junta Comercial do Rio de Janeiro permissão para a abertura de uma nova firma, chamada J. Gutierrez, no mesmo endereço da anterior.

 

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Verso do cartão-suporte do ateliê fotográfico J. Gutierrez, sucessor da Companhia Photographica do Brazil

 

Gutierrez foi beneficiado pelos avanços técnicos da fotografia: utilizou as chapas secas de gelatina e prata que permitiam a tomada de instantâneos e eram de manejo mais fácil, além de mais sensíveis que as chapas de colódio úmido. Suas fotografias revelam uma visão única da topografia carioca e, também, de sua natureza. O periódico A Cigarra, de 29 de agosto de 1895 elogiou a arte do fotógrafo: “Que homem este Gutierrez! Tenacidade, talento, amor e trabalho!”.

 

 

Gutierrez registrou a Revolta da Armada ( 1893 – 1894), tornando-se um dos pioneiros da fotografia dos conflitos armados no Brasil. Em 1896, eclodiu o conflito de Canudos e foi por seu entusiamo republicano que, após a derrota da expedição comandada pelo coronel Moreira César (1850 – 1897), decidiu incorporar-se como ajudante de ordens do general João da Silva Barbosa. Foi ferido mortalmente, em 28 de junho de 1897. Sua trágica morte o tornou, talvez, o primeiro repórter fotográfico morto durante um trabalho de campo, no Brasil, apesar de, até hoje, não se conhecer nenhum registro fotográfico que ele tenha feito do conflito.

 

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Juan Gutierrez. Bateria Fonseca Ramos, Revolta da Armada, 1893. NIterói, Rio de Janeiro / Acervo FBN

 

Gutierrez tinha um temperamento boêmio e entre seus amigos estavam alguns dos mais importantes artistas e escritores do Rio de Janeiro, como Olavo Bilac (1865 – 1918) e José do Patrocínio (1854 – 1905). Foi descrito por Artur Azevedo (1855 – 1908) como …Cavalheiroso, insinuante, folgazão e liberal, era uma das figuras mais sympathicas da sociedade fluminense… (A Estação, 31 de julho de 1897, sob o título “Chroniqueta”).

Acessando o link para as fotografias de Juan Gutierrez de Padilla disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Cronologia de Juan Gutierrez de Padilla (c. 1860 – 1897)

 

c. 1860 – O espanhol Juan Gutierrez de Padilla nasceu, provavelmente, nas Antilhas, na época, uma colônia espanhola. Porém, outras fontes afirmam que ele teria nascido em Cuba ou na África.

1885 / 1887- Período provável de sua chegada ao Brasil, vindo da cidade do Porto, Portugal.

1889 – Trabalhava na Photographia União, localizada na rua da Carioca, nº 114.

Em 3 de agosto, recebeu o título de “Fotógrafo da Casa Imperial”.

Participou do movimento pela Proclamação da República como tenente da Guarda Nacional.

Gutierrez naturalizou-se brasileiro, aproveitando o decreto de Deodoro da Fonseca (1827 – 1892), o primeiro presidente do Brasil, que concedeu aos estrangeiros que residiam no país na data de 15 de novembro, quando a República foi proclamada, a nacionalidade brasileira.

1890 – Foi concedida licença para que Gutierrez usasse as armas da República no seu estabelecimento, a Photographia União (Diário de Notícias, 18 de julho de 1890, na quinta coluna, sob o título “Armas da República”).

Em 29 de setembro, foi constituída uma sociedade anônima denominada Companhia Photographica Brazileira, com 31 acionistas. Gutierrez foi eleito diretor técnico do negócio. De um total de cinco mil ações, era proprietário de 100 ações do empreendimento (Jornal do Commercio, 30 de setembro de 1890, na primeira coluna).

Agregou às atividades do estabelecimento, o comércio de produtos e equipamentos fotográficos. Foi anunciada a incorporação da Companhia Photographica Brazileira pelo Banco Constructor (Diário do Commercio, 25 de setembro de 1890).

Foi publicada a ata da instalação da Companhia Photographica Brazileira (Gazeta da Tarde, 24 de outubro de 1894, na primeira coluna).

1891 – Gutierrez anunciou a venda da Photographia União (Jornal do Commercio, 17 de dezembro de 1891, na quarta coluna, sob o título “Photographia à venda“).

1892 – Em 1º de janeiro, foi inaugurado o edifício da Companhia Photographica Brazileira, na rua Gonçalves Dias, 40, sob a direção técnica de Juan Gutierrez (Jornal do Commercio, 2 de janeiro de 1892, na sétima coluna sob o título “Companhia Photographica” ).

Foi noticiada a inauguração das oficinas de fototipia da Companhia Photographica Brazileira. De acordo com a notícia, pela primeira vez fotografias perfeitas eram produzidas no Rio de Janeiro e isso se devia ao talento e ao trabalho de Gutierrez (O Combate, 27 de fevereiro de 1892, na quinta coluna).

Em 17 de junho, a sociedade da Companhia Photographica Brazileira foi dissolvida e o maior credor da empresa, o conselheiro Francisco de Paula Mayrink, recebeu os imóveis sociais e demais ativos do empreendimento.

Em 29 de setembro, Gutierrez solicitou à Junta Comercial do Rio de Janeiro permissão para a abertura de uma nova firma, chamada J. Gutierrez, no mesmo endereço da anterior.

1893 - Foi fundado o semanário O Álbum e Gutierrez tornou-se responsável pelos trabalhos fotográficos. Artur Azevedo (1855 – 1908) era o diretor literário da publicação. Na edição de maio, Castro Soromenho dedicou-lhe o poema “Desegaño”, no qual confessava seu amor pelo fotógrafo. Imediatamente o poeta foi impedido de frequentar a redação de O Álbum e, em 12 de junho, foi definitivamente afastado do periódico.

Em 6 de setembro, início da Revolta da Armada, comandada pelo almirante Custódio de Mello (1840 – 1902), amplamente fotografada por Gutierrez.

1894 - Em 13 de março, fim da Revolta da Armada.

Foi noticiada a exposição, no ateliê de Gutierrez, de um quadro fotográfico retratando o marechal Eneas Galvão (1832 – 1895) rodeado por seus ajudantes de ordem. O quadro seria ofertado ao marechal, que foi ministro da Guerra durante o governo de Floriano Peixoto (1839 – 1895) (O Paiz, 23 de maio de 1894, na segunda coluna).

O primeiro número da publicação quinzenal Illustração Sul-Americana trazia diversos retratos de autoria de Gutierrez: do marechal Floriano Peixoto (1839 – 1895), de Affonso Pena (1847 – 1909), do presidente da República Prudente de Moraes (1841 – 1902), do capitão-tenente José Carlos de Carvalho e do jornalista Artur Azevedo (1855 – 1908) (O Paiz, de 21 de julho de 1894, nas sexta e sétima colunas).

Em 17 de setembro, foi inaugurada a Confeitaria Colombo, ao lado do ateliê de Gutierrez, onde ele, além de trabalhar, residia. Logo a confeitaria tornou-se um dos pontos mais concorridos da cidade, contribuindo para o aumento do movimento em torno da casa fotográfica de Gutierrez.

Em novembro, Gutierrez foi o fotógrafo do álbum Recordação das festas nacionais, em homenagem aos cinco anos da proclamação da República brasileira. Registrou grandes manifestações populares em vários pontos da cidade: banquetes, desfiles militares , além de cerimônias cívicas e inaugurações de monumentos. Esse trabalho pode ser considerado um exemplo precursor da linguagem da fotografia jornalística.

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Foi publicada uma propaganda dos cigarros Bouquet: “em cada carteira contem o retrato de uma das notabilidades brazileiras ou estrangeiras, perfeição, creditadas pela casa J. Gutierrez & C., sucessora da Companhia Photographica. A colecção completa comprehenderá 200 RETRATOS” (O Paiz, 14 de novembro de 1894).

1895 – O periódico A Cigarra, de 29 de agosto de 1895 elogiou a arte do fotógrafo: Que homem este Gutierrez! Tenacidade, talento, amor e trabalho!1896 – Foi publicado um elogio às fotografias produzidas por Gutierrez  pela técnica da platinotipia: “…nada há mais perfeito do que o trabalho de Gutierrez…” (O Paiz, 3 de junho de 1896, na última coluna, sob o título “Commercio, Industria e Arte).

Eclodiu o conflito em Canudos e, após a derrota da expedição comandada pelo coronel Moreira César (1850 – 1897), Gutierrez decidiu incorporar-se como ajudante de ordens do general João da Silva Barbosa.

1897 – Antes de partir para Canudos, Gutierrez lavrou seu testamento e nomeou como testamenteiros e inventariantes Manoel Rodrigues Monteiro de Azevedo, Francisco de Paula Mayrink, José Carlos de Carvalho e José do Patrocínio (1853 – 1905). Suas beneficiárias foram sua mãe, Francisca Vicente Vandrel e sua amiga, a viúva Orlandina Aurora Rosani.

Juan Gutierrez foi promovido de tenente a capitão da Guarda Nacional (O Paiz, 19 de fevereiro de 1897, na sexta coluna).

Desembarcou em Salvador, em 2 de abril, e seguiu para  Canudos.

Sua ida para Canudos foi um dos assuntos da coluna “Semanaes”, de Anselmo Ribas (A Notícia, 10 e 11 de julho de 1897).

Em 28 de junho, foi mortalmente ferido (Jornal do Commercio, 13 de julho de 1897, na terceira coluna sob o título “Expedição de Canudos” e O Paiz, 7 de setembro de 1897, na primeira coluna).

Sua morte foi também noticiada no O Paiz, de 14 de julho de 1897, na primeira página, com um artigo de Luiz Murat (1861 – 1929) em sua homenagem.  No livro Os Sertões, Euclides da Cunha (1866 – 1909) referiu-se a ele como um Oficial honorário, um artista que fora até lá atraído pela estética sombria das batalhas.

Foi publicado o que um dos amigos mais próximos de Gutierrez, o tenente Frederico Luiz da Costa, escreveu a respeito dele (O Paiz, de 23 de julho de 1897, na primeira coluna).

Foram realizadas na Igreja de São Francisco de Paula, as missas em sufrágio da alma de Juan Gutierrez. Foi celebrada pelo monsenhor Amorim, ajudado pelo cônego Polinca e pelos padres Teixeira, Colaço, Próspero, Guimarães e Pitta. Uma multidão lotou a igreja, onde a marcha fúnebre foi executada por uma banda militar. No dia anterior, na mesma igreja, havia sido celebrada uma missa na intenção de Gutierrez por Antônio Costa e Orlandina Aurora Rosani, que recebeu um terço dos bens do fotógrafo (O Paiz, 19 de agosto de 1897, na quarta coluna e 20 de agosto de 1897, na sexta coluna).

Fim da Guerra de Canudos, em 5 de outubro de 1897.

1898 – O ateliê fotográfico de Juan Gutierrez encontrava-se em processo de liquidação (O Paiz, 3 de janeiro de 1898, na última coluna). Havia uma disputa em torno do estabelecimento envolvendo Frederico Luiz da Costa, Alfredo Franco e Luis Musso ( O Paiz, 12 de fevereiro de 1898, na quarta coluna).

A Associação dos Empregados do Comércio do Rio de Janeiro comprou o prédio da Gonçalves Dias, nº 40, onde havia funcionado o ateliê fotográfico de Gutierrez (O Paiz, 15 de junho de 1898, na quinta coluna).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BITTENCOURT, José Neves. Em Portugal, Denise (org). O Rio de Janeiro de Juan Gutierrez. Rio de Janeiro: Museu Histórico Nacional, 1997. CD-ROM.

ERMAKOFF, George. Juan Gutierrez. Rio de Janeiro: Editora Capivara, 2001.

FERNANDES JUNIOR, Rubens;LAGO, Pedro Corrêa do.O século XIX na Fotografia Brasileira.Coleção Pedro Corrêa do Lago. São Paulo: Fundação Armando Alvares Penteado, 2000.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: IMS, 2002.

LAGO, Bia Corrêa do;LAGO, Pedro Corrêa do. Coleção Princesa Isabel: fotografia do século XIX. Rio de Janeiro: Capivara, 2008.432p.:il., retrs.

LAGO, Bia Corrêa do;LAGO, Pedro Corrêa do. Os Fotógrafos do Império. Rio de Janeiro: Capivara, 2005. 240p.:il

VASQUEZ, Pedro. Fotógrafos Pioneiros no Rio de Janeiro: V. Frond, G. Leuzinger, M. Ferrez e J. Gutierrez / por Pedro Vasquez. – Rio de Janeiro: Dazibao, 1990.

 

Link para o artigo O Rio de Janeiro de Juan Gutierrez, publicado na Brasiliana Fotográfica em 1º de março de 2019.