Category Archives: Biografia

O fotógrafo, desenhista e engenheiro alemão Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890)

 

Franz Keller-Leuzinger /  Xilogravura de Adolf Cloß publicada no livro , em 1874

Franz Keller-Leuzinger / Xilogravura de Adolf Cloß publicada no livro Do Amazonas ao Madeira, em 1874

O  engenheiro, fotógrafo e desenhista alemão Franz (Francisco) Keller-Leuzinger nasceu em Mannhein, em 30 de agosto de 1835, e foi um dos primeiros viajantes estrangeiros a documentar a região amazônica. Chegou ao Rio de Janeiro com seu pai, o também engenheiro Joseph (José) Keller (1811 – 1877), em 27 de dezembro de 1855, vindos do Havre, na galera francesa Dom Pedro II. 

Ao longo da década de 60, Franz acompanhou o pai em levantamentos do rio Paraná, na região entre Campo Belo e Barra do Piraí; dos vales do rio Paraíba e Pomba, dos rios Iguaçu, Paranapanema e Tibagi. Dessas investigações resultaram relatórios publicados pelo Ministério da Agricultura (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1865O Cearense, 2 de dezembro de 1865, terceira colunaDezenove de Dezembro, 20 de dezembro de 1865, última coluna). Nessas expedições, como na que participou à Amazônia, em 1867, Franz registrava em notas, desenhos e aquarelas, vistas locais da fauna e flora, aspectos arqueológicos e etnográficos das regiões por onde passava.

Em junho de 1867, ele e seu pai estudavam mapas e planos da expedição ao Paraná quando foram comissionados pelo Ministério da Agricultura, Comércio e Obras para explorar os rios Amazonas e Madeira para sondar a possibilidade da construção de uma ferrovia, a Madeira-Mamoré, costeando suas margens para contornar corredeiras que tornavam impossível a navegação a vapor em parte dos rios. A comissão da expedição pelo governo imperial foi motivada pela abertura da navegação do rio Amazonas para as nações estrangeiras, estabelecido pelo Decreto Imperial nº 3749 ,de 7 de dezembro de 1866, e pelo novo acordo sobre fronteiras e comércio com a Bolívia firmado, em 27 de março de 1867, pelo diplomata pernambucano, o Conselheiro Felipe Lopez Netto (1814 – 1895) (Publicação do Governo do Amazonas, 24 de agosto de 1868Jornal do Commercio, 15 de julho de 1872, quinta coluna).

Franz e Joseph embarcaram no Rio de Janeiro rumo ao Pará, em 15 de novembro de 1867, no paquete Paraná. O fotógrafo Christoph Albert Frisch (1840 – 1918), comissionado por seu patrão, o fotógrafo e editor suíço Georges Leuzinger (1813 – 1892), acompanhou a expedição até Manaus, levando um escravizado. Também estavam no navio a esposa de Franz, Sabine Christine Leuzinger (1842-1915), e sua irmã, Pauline.  Sabine era a filha primogênita de Leuzinger (Diário do Povo, de 15 de novembro de 1867, primeira coluna). Algumas fontes informam que Franz teria, em meados da década de 60, assumido a seção de fotografia da empresa de seu sogro, criada em 1865, e que teria, inclusive, ensinado a Marc Ferrez (1843 – 1923) a arte da fotografia. Porém, a participação de Franz Keller no ateliê fotográfico de Leuzinger é questionável e, na verdade, até hoje não foi comprovada. Lembramos que na década de 1860, como já mencionado, Franz fez diversas viagens pelo Brasil com seu pai, explorando rios do país sob contrato do governo imperial, o que tornaria difícil a possibilidade dele dirigir o estabelecimento fotográfico de seu sogro.

Voltando à expedição amazônica. Frisch acompanhou os engenheiros somente até Manaus e permaneceu na Amazônia até novembro de 1868, tendo realizado, no período, a impressionante e pioneira série de 98 fotografias na Amazônia: foram os primeiros registros que chegaram até nós de índios brasileiros da região, além de aspectos da fauna e da flora e de barqueiros de origem boliviana que atuavam como comerciantes itinerantes nos rios amazônicos. Esse trabalho começou a ser comercializado a partir de um catálogo publicado pela Casa Leuzinger, Resultat d’une expédition phographique sur le Solimões ou Alto Amazonas et Rio Negro.

 

fresco3

Acervo FBN

 

A expedição dos Keller durou até dezembro de 1868, quando voltaram ao Rio de Janeiro. Apresentaram propostas prevendo a construção de um sistema de planos inclinados capaz de permitir aos navios a superação dos declives do leito do Madeira e Mamoré, a abertura de um canal de navegação na margem direita das cachoeiras ou a construção de uma estrada de ferro entre Santo Antônio e Guajará-Mirim.

Em 1874, já de volta à Alemanha, Franz publicou o livro ilustrado Do Amazonas ao Madeira, com anotações, desenhos e aquarelas da expedição de 1867/1868. Foi editado em Londres pela Chapman & Hall e também foi feita uma edição alemã. No livro, descreveu o rio e seus afluentes, as tribos nativas que encontraram, além dos animais e vegetações da floresta virgem dos rios Amazonas e Madeira. A expedição dos Keller se expandiu até o leste da Bolívia. Franz dedicou um capítulo aos índios Mojo daquela região e à história de suas interações com as missões jesuíticas.

 

 

Na introdução a seus relatos, Franz chamava a atenção das autoridades brasileiras para a adoção de três providências que ele considerava prioritárias para o progresso do país: a abolição da escravatura, o incentivo à imigraçao de colonos da Alemanha para desenvolver a agricultura e a modernização dos meios de transportes para integrar o território nacional. Também assumia a autoria das ilustrações.

 

“As ilustrações, que considero suplementos indispensáveis à descrição de cenas que nos são tão estranhas, originam-se de esboços feitos no local e que, para preservar-lhes a mais alta fidelidade, desenhei eu mesmo”.

 

 

Franz Keller-Leuzinger esteve no Brasil na década de 1880 e faleceu em Munique, na Alemanha, em 18 de julho de 1890.

Acessando o link para as fotografias de Franz Keller-Leuzinger disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Cronologia de Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890)

 

 

1835 - Nascimento de Franz Keller, em Mannheim, na Alemanha, em 30 de agosto de 1835, filho do cartógrafo, desenhista e engenheiro Joseph (José) Keller (1811 – 1877), diplomado pela Universidade de Karlsruhe, que havia trabalhado como inspetor de estrada do Grão Ducado de Baden. Franz era irmão do pintor Ferdinand (Fernando) Keller (1842 – 1922).

 

 

1855 - Chegou, em 27 de dezembro, ao Rio de Janeiro com seu pai. Vieram do Havre, na galera francesa Dom Pedro II. Diversas fontes afirmam que Ferdinand, seu irmão, teria vindo com eles, mas nas notícias de jornal só constam os nomes de Joseph e Franz. Certamente Ferdinand passou um período no Brasil, mas provavelmente veio depois de seu pai e irmão (Correio da Tarde, 27 de dezembro de 1855, última colunaDiário do Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1855, última coluna; Correio Mercantil, 28 de dezembro de 1855, segunda coluna).

 

 

1856 - No Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro de 1856, foi mencionado que Joseph Keller poderia ser contratado para a construção da estrada de Mangaratiba ou da de Ubatuba caso o desembargador J.J. Pacheco, presidente da Companhia da Estrada de Mangaratiba, fizesse um contrato com o presidente de São Paulo para uma outra estrada de carros de Taubaté a Ubatuba.

Joseph e um ajudante trabalharam para o Governo da Província do Rio de Janeiro para a ratificação de plantas para a estrada de Petrópolis ao Parahybuna . Franz seria o ajudante? (Correio Mercantil, 21 de abril de 1856, quarta coluna).

Incitados pela lisonjeira recepção que fizemos a seus compatriotas, os engenheiros Keller, vários arquitetos da Escola Politécnica de Karslruhe, no Grão Ducado de Baden, vieram para o Brasil, dentre eles Theodore Marx (1833 – 1890), que viria a ser um dos construtores do Palácio da Quinta da Boa Vista (Correio Mercantil, 12 de junho de 1856, terceira coluna).

1857 – Seu pai, como engenheiro, e ele e Carlos Keller como ajudantes, haviam sido contratados pela Companhia União Indústria. Qual seria o parentesco de Carlos Keller com eles? Sobrinho e primo? Filho e irmão? Ou seria o filho de Johann Nepomuk Keller, o engenheiro Carlos Keller (1839 – 1928), futuro reitor do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe? Uma coincidência: o pai do fotógrafo Chistophe Albert Frisch (1840 – 1918), tinha Nepomuk em seu sobrenome: chamava-se Johanes Nepomuk Frisch. Caso isso indique algum parentesco, Frisch e Franz Keller possivelmente já se conheciam antes de virem para o Brasil.

O diretor-presidente da Companhia União Indústria era o comendador Mariano Procópio Ferreira Lage (1821 – 1872). A capacidade de Joseph Keller já era abonada pelos trabalhos executados na Europa sob sua direção (Relatório Companhia União Indústria, 24 de agosto de 1857). Sobre o trabalho para o qual havia sido contratado, uma linha de estrada entre  Pedro do Rio e a villa da Parahyba, Três Barras e a ponte do Parahybuna, apresentou um relatório ao comendador (Relatório Companhia União Indústria, 24 de agosto de 1857; Jornal do Commercio, 31 de agosto de 1857, quarta coluna).

 

 

 

1861 / 1862 – Em 30 de abril de 1861, Joseph Keller apresentou ao comendador Mariano Procópio um relatório sobre o estado da estrada entre a ponte do Paraíba e Juiz de Fora (Relatório da Companhia União Indústria, 15 de junho de 1861). Foi expedida pelo Ministério da Agricultura a ordem para o pagamento dos engenheiros Joseph e Franz Keller pela exploração do rio Paraíba (Boletim do Expediente do Governo: Ministério do Império, novembro de 1861); Correio Mercantil, 7 de abril de 1862, terceira coluna; Boletim do Expediente do Governo: Ministério do Império, junho de 1862). Entre esse ano e 1867, Franz acompanhou o pai em levantamentos no mencionado rio, na região entre Campo Belo e Barra do Piraí; nos vales do rio Paraíba e Pomba, nos rios Iguaçu, Paranapanema e Tibagi. Dessas investigações resultam relatórios publicados pelo Ministério da Agricultura (Diário do Rio de Janeiro, 17 de junho de 1864, quaarta colunaAlmanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1865; O Cearense, 2 de dezembro de 1865, terceira coluna; Dezenove de Dezembro, 20 de dezdembro de 1865, última coluna; Dezenove de Dezembro, 13 de janeiro de 1866, primeira coluna).

1862 – Seu irmão, Ferdinand, voltou do sul do Brasil, a bordo do patacho Guasca (Jornal do Commercio, 26 de fevereiro de 1862, terceira coluna). Retornou à Alemanha e ingressou na Academia de Belas Artes de Karlsruhe, estudando sob a tutela do paisagista alemão Johann Wilhelm Schirmer (1807 – 1863).

Franz fotografou a Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão.

 

c. 1863 –  O fotógrafo carioca Marc Ferrez (1843 – 1923) retornou da Europa ao Brasil. Segundo seu neto, o historiador Gilberto Ferrez (1908 – 2000), Marc teria aprendido a arte da fotografia com Franz Keller (1835 – 1890), que em torno dessa data teria assumido a seção de fotografia da empresa de seu sogro, o fotógrafo e editor suíço Georges Leuzinger (1813 – 1892), criada em 1865. Uma carta enviada em 17 de janeiro de 1923 por um amigo de Ferrez, Luiz Carlos Franco, a seus filhos Julio e Luciano, após a a morte do fotógrafo, confirma que Ferrez havia trabalhado para Leuzinger. Porém, a participação de Franz Keller como diretor do ateliê fotográfico de Leuzinger é questionável e, na verdade, até hoje não foi comprovada. Além disso, na década de 1860, como já mencionado, Franz fez diversas viagens pelo Brasil com seu pai explorando rios do país sob contrato do governo imperial, o que tornaria difícil a possibilidade dele dirigir o estabelecimento fotográfico de seu sogro.

1864 – Franz e seu pai, Joseph, embarcaram rumo a Campos no vapor Ceres (Correio Mercantil, 1º de maio de 1864, segunda coluna).

Em ato oficial, de 24 de dezembro de 1864, do ministro de Estado dos Negócios da Agricultura Comércio e Obras Públicas, assinado pelo ministro Jesuino Marcondes de Oliveira e Sá (1827 – 1903), Franz e Joseph Keller foram encarregados de estudar o rio Ivahy (Correio Mercantil, 1º de janeiro de 1865, segunda colunaJornal do Recife, 22 de novembro de 1865, última coluna).

 

 

Franz Keller chegou a Santos na companhia de um criado, no vapor Dom Affonso, procedente de Santa Catarina com escalas (Correio Paulistano, 29 de outubro de 1865, primeira coluna).

Integrou-se à Expedição do Avaí, quando produziu aquarelas da região.

1865 – Foram publicadas notícias sobre o relatório elaborado pelos engenheiros Keller sobre a navegabilidade do rio Paraiba (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1865).

1866 – Foram publicadas notícias sobre o relatório elaborado pelos engenheiros Keller sobre a navegabilidade do rio Ivahy (Correio Mercantil, 16 de janeiro de 1866, penúltima coluna).

Joseph e Franz foram contratados pelo governo do Paraná para a realização do levantamento e da impressão da carta corográfica do estado (Dezenove de Dezembro, 28 de março de 1966, primeira coluna).

No dia 24 de julho, Franz e Joseph Keller partiram de Curitiba para explorar o rio Iguaçu. Também faziam parte do grupo o agrimensor Julio Kalkman e o intérprete Fructuoso Antonio de Moraes Dutra, além de 24 tripulantes das oito canoas da expedição (Dezenove de Dezembro, 14 de abril de 1866, última coluna; Dezenove de Dezembro, 4 de julho de 1866, primeira colunaCorreio Mercantil, 30 de julho de 1866, última coluna).

Em 7 de dezembro, o Decreto Imperial nº 3749 autorizou a abertura da navegação do rio Amazonas para outras nações, após pressões internacionais, vindas principalmente dos Estados Unidos. Foi nesse contexto que, no ano seguinte, Franz e Joseph Keller foram encarregados pelo Império do Brasil para a exploração de rios do Norte do país.

DECRETO Nº 3.749, DE  7 DE DEZEMBRO DE 1866

 

“Abrindo os rios Amazonas, Tocantins, Tapajós, Madeira, Negro e S. Francisco á navegação dos navios mercantes de todas as nações.

No intuito de promover o engrandecimento do Imperio, facilitando cada vez mais as suas relações internacionaes, e animando a navegação e o commercio do rio Amazonas e seus affluentes, dos rios Tocantins e S. Francisco, ouvido o Meu Conselho de Estado, Hei por bem Decretar o seguinte:

    Art. 1º Ficará aberta, desde o dia 7 de Setembro de 1867, aos navios mercantes de todas as nações, a navegação do rio Amazonas até á fronteira do Brasil, do rio Tocantins até Cametá, do Tapajós até Santarem, do Madeira até Borba, e do rio Negro até Manáos.

    Art. 2º Na mesma data fixada no art. 1º ficará igualmente aberta a navegação do rio S. Francisco até á Cidade do Penedo.

    Art. 3º A navegação dos affluentes do Amazonas, na parte em que só uma das margens pertence ao Brasil, fica dependendo de prévio ajuste com os outros Estados ribeirinhos sobre os respectivos limites e regulamentos policiaes e fiscaes.

    Art. 4º As presentes disposições em nada alterão a observancia do que prescrevem os Tratados vigentes de navegação e commercio com as Republicas do Perú e de Venezuela, conforme os regulamentos já expedidos para esse fim.

    Art. 5º Os Meus Ministros e Secretarios de Estado, pelas Repartições competentes, promoveráõ os ajustes de que trata o art. 3º, e expediráõ as ordens e regulamentos necessarios para a effectiva execução deste Decreto.

    Antonio Coelho de Sá e Albuquerque, do Meu Conselho, Senador do Imperio, Ministro e Secretario de Estado dos Negocios Estrangeiros, assim o tenha entendido e faça executar.

Palacio do Rio de Janeiro em sete de Dezembro de mil oitocentos sessenta e seis, quadragesimo quinto da Independencia e do Imperio.

Com a Rubrica de Sua Magestade o Imperador.

Antonio Coelho de Sá e Albuquerque.

Este texto não substitui o original publicado no Coleção de Leis do Império do Brasil de 1866″

 

1867 – O presidente da província do Paraná mandou sustar a exploração do rio Iguassu, cujos encarregados eram Joseph e Franz Keller (Diário de São Paulo, 23 de janeiro de 1867, primeira coluna).

Foi assinado, em 27 de março, e selado, em 23 de novembro, o Tratado de Ayacucho, entre o Brasil e a Bolívia, que definia os limites entre os dois países.

Franz casou-se com Sabine Christine Leuzinger (1842-1915), filha primogênita do fotógrafo, livreiro e editor suíço Georges Leuzinger (1813-1892), adotando também o sobrenome do sogro, passando a assinar Franz Keller-Leuzinger.

Por portaria de 10 de outubro de 1867, Franz e seu pai, Joseph Keller, foram incumbidos pelo governo imperial de explorar o rio Madeira na parte encachoeirada dele, desde Santo Antonio até a barra do rio Mamoré, e de elaborar os projetos mais apropriados para o melhoramento dessa importante via de comunicação com a província de Mato Grosso e a república da Bolívia. Relatório da exploração do rio Madeira na parte compreendida ente a cachoeira de Santo Antônio e a barra do Mamoré (Diário de Belém, 10 de outubro de 1869, última coluna).

Em 15 de novembro, embarcaram no Rio de Janeiro rumo ao Pará (Diário do Povo, de 15 de novembro de 1867,  primeira coluna).

O fotógrafo Christoph Albert Frisch (1840 – 1918) seguiu com os engenheiros rumo à Amazônia, comissionado por Leuzinger, em cujo ateliê fotográfico trabalhava. Levava um escravizado. A esposa de Franz, Sabine, e sua irmã, Pauline Keller, também estavam no paquete Paraná, assim como o engenheiro José Manoel da Silva, integrante da expedição (Diário do Povo, 15 de novembro de 1867, primeira coluna; Jornal do Commercio, 16 de novembro de 1867, terceira coluna).

 

 

 

Frisch acompanhou os engenheiros somente até Manaus e … percorreu 400 léguas pelo rio Amazonas e seus afluentes durante 5 meses…, num barco acompanhado por dois remadores, desde Tabatinga até Manaus. Produziu, na ocasião, uma pioneira série de 98 fotografias com os primeiros registros que chegaram até nós de índios brasileiros da região, além de aspectos de fauna e flora e de barqueiros de origem boliviana, que atuavam como comerciantes itinerantes nos rios amazônicos. Segundo o livro de Ernesto Senna, O velho commercio do Rio de Janeiro, a expedição fotográfica de Frisch à Amazônia foi fruto de uma solicitação feita pelo suíço Louis Agassiz (1807 – 1873) a Leuzinger.

Satisfazendo ao pedido de Agassiz, fez Leuzinger tirar vistas até Tabatinga, na fronteira do Amazonas com a República do Peru, vistas que serviram não só para os trabalhos científicos daqule sábio, como também para ilustrações europeias. Quando o engenheiro Keller foi em comissão explorar os rios Madeira e Mamoré, Georges Leuzinger mandou um fotógrafo da casa acompanhar a expedição, que trouxe depois daquelas incomparáveis regiões graande cópia de clichês, da flora, da fauna, de paisagens, e fotograafias de silvícolas e de suas tabas, aldeamentos, instruentos, armas, etc. Estas coleções, de grande valor para estudos etnográficos, eram muito interessantes sob qualquer ponto de vista e muito procuradas por viajantes estrangeiros”.

Agassiz havia, entre 1865 e 1866, comandado a Comissão Thayer no Brasil, que percorreu boa parte do território brasileiro entre o Rio de Janeiro e a Amazônia, viagem que deu origem ao livro A journey in Brazil, editado em Boston, em 1868. A Comissão Thayer foi financiada pelo empresário e filantropo norte-americano Nathaniel Thayer, Jr. (1808-1883), ex-aluno de Agassiz no Museu de Zoologia Comparada, em Harvard. Vale lembrar que Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), o futuro chefe da Comissão Geológica do Império (1875 – 1878), integrada pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843-1923), participou da Comissão ou Expedição Thayer – foi a primeira vez que esteve no Brasil.

A expedição à Amazônia liderada pelos Keller, com 32 volumes, alcançou Belém, em 1º de dezembro, e seguiu para Manaus, onde chegou no dia 10 do mesmo mês, no vapor Belém (Jornal do Pará, 11 de dezembro de 1867,terceira coluna; Jornal do Rio Negro, 11 de dezembro de 1867, segunda coluna).

 

 

1868 – No Anexo X do Relatório do Ministro da Agricultura de 1868, Joseph e Franz Keller fizeram comentários sobre a formação geológica do solo brasileiro. Em alguns pontos concordaram com o geógrafo, naturalista e explorador alemão Barão de Humboldt (1769- 1859), que havia participado de uma expedição pela América do Sul entre 1799 e 1804.(Jornal do Recife, de 12 de agosto de 1882, primeira coluna; Jornal do Recife, 13 de janeiro de 1883, primeira coluna).

 

geologiaJornal do Recife, de 1883

Jornal do Recife, 13 de janeiro de 1883

 

O governador do Amazonas, José Coelho da Gama e Abreu (1832 – 1906), o barão de Marajó,  submeteu ao governador do Pará, Joaquim Raimundo de Lamare (1811 – 1889), um ofício sobre a comissão dos Keller, que havia sido enviado pelo ministro da Agricultura, Zacarias de Góis e Vasconcelos (1815 – 1877) (Amazonas, 25 de abril de 1868, última coluna; Amazonas, 9 de maio de 1968, última coluna).

Foram concedidas às irmãs Sabine Leuzinger-Keller e a Pauline Keller concessão de passagens de Estado em embarcação da Companhia do Amazonas, de Manaus a Belém do Pará com as despesas pagas pelo Ministério da Agricultura. Joseph e Franz Keller foram recomendados pelo governo do Amazonas ao comandante do Forte Príncipe da Beira,  no Mato Grosso, para onde iriam com o objetivo de explorar o Rio Madeira, conforme comissão do governo brasileiro (Amazonas, 30 de maio de 1868, segunda coluna).

Sabine e Pauline chegaram ao Rio de Janeiro em 19 de junho, a bordo do paquete a vapor Guará (Correio Mercantil, 20 de junho de 1868, última coluna).

O fotógrafo Frisch retornou ao sul do Brasil, a bordo do vapor Cruzeiro do Sul (Jornal Pedro II, 24 de novembro de 1868, na quarta coluna). No ano seguinte, as imagens produzidas por ele durante a expedição pela Amazônia começaram a ser comercializadas a partir de um catálogo publicado pela Casa Leuzinger, Resultat d’une expédition phographique sur le Solimões ou Alto Amazonas et Rio Negro.

 

 

Em 9 de dezembro, o tenente -coronel José Wilkens de Mattos (1822 – 1889), governador do Amazonas, respondendo a um ofício enviado pelos Keller e pelo engenheiro José Manoel da Silva, autorizou a tesouraria de Fazenda a receber objetos que estavam com os requerentes, referentes à comissão que cumpriram no rio Madeira;  tomou ciência de que uma canoa adquirida na Bolívia pelos Keller e por José Manoel seria utilizada por João Martins da Silva Coutinho na comissão de exploração do rio Branco; e informou que os Keller e José Manoel teriam seu transporte a bordo do vapor Belém, de Manaus a Belém, em 10 de dezembro de 1868, custeado pelo Ministério da Agricultura. Poderiam utilizar o espaço de bagagem, duas toneladas, destinado ao governo. O trabalho comissionado pelo governo imperial havia sido concluído e eles voltariam para o Rio de Janeiro no mesmo vapor (Diário de Belém, 28 de dezembro de 1868, quarta colunaAmazonas, 5 de janeiro de 1869, primeira coluna).

 

 

 

1869 No dia 4 de janeiro de 1869, Joseph e Franz Keller e o ajudante José Manuel da Silva chegaram ao Rio de Janeiro a bordo do paquete Paraná. Franz estava enfraquecido pelas febres e queimado pelo sol. Segundo o pesquisador Frank Kohl, ele havia contraido malária (Diário do Rio de Janeiro, 5 de janeiro de 1869, quinta coluna).

Fez o retrato da filha de Leuzinger, Gabrielle Marie (1853 – 1869), que faleceu em 23 de abril de 1869 (Jornal do Commercio, 29 de abril de 1869, última coluna).

Após sua morte, ela estava quase sorridente, uma figura de anjo e tão branca quanto os lençóis de seu leito. Franz Keller fez seu retrato de perfil para nosso espanto o perfil perfeito de Mathilde quando tinha sua idade, 16 anos, 6 dias e 21 horas e meia” (Carta de Georges Leuzinger para seu filho Paul, que estava vivendo na França, de 2 de junho de 1969).

Esteve algumas vezes no Paço Imperial cumprimentando o imperador Pedro II (1825 – 1891) (Diário de Rio de Janeiro, 14 de setembro; 19 de outubro29 de novembro6 de dezembro e 21 de dezembro de 1869, primeiras colunas).

Na seção de 14 de setembro do Instituto Politécnico Brasileiro, fez um discurso agradecendo sua nomeação para sócio correspondente da instituição. Além dele, discursaram Luiz Filipe de Saldanha da Gama (1846 – 1895) e Antônio Augusto Fernandes Pinheiro (18? – ?). Augusto Teixeira Coimbra (18? – ?) também foi, na ocasião, nomeado sócio correspondente (Jornal do Commercio, 24 de setembro de 1869, segunda colunaRevista do Instituto Politécnico Brasileiro, 1869).

1870 – Na seção de 14 de junho de 1870 do Instituto Politécnico Brasileiro, sob a presidência do conde d´Eu (1842 – 1922), J.M. da Silva anunciou que Franz Keller havia viajado para a Europa (Revista do Instituto Politécnico Brasileiro, 1874).

Foi autorizada a venda em hasta pública dos objetos comprados para a exploração dos rios Iguaçu, Ivahy, Paranapanema e Tibagi, entregues por Joseph e Franz Keller a Serafim Carvalho Baptista e José Feliciano da Silva (Dezenove de Dezembro, 12 de outubro de 1870, última coluna).

1872 – Joseph Keller ainda se encontrava no Brasil (Jornal do Commercio, 7 de abril de 1872, sétima coluna).

Em julho, Franz Keller (1835-1890) estava na Suíça.

1873 – Retornou à Alemanha para tratar da saúde, fixando residência na cidade alemã de Karlsruhe. Conforme hjá mencionado, segundo o pesquisador Frank Kohl, Franz havia contraído malária no Amazonas e justamente por isto não pode aceitar o convite do coronel americano George Earl Church (1835-1910) para participar da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, que utilizou os dados levantados pelos Keller naquela região. Church havia recebido do governo brasileiro a concessão para a construção da ferrovia. Porém, por diversos motivos, Church não concluiu o empreendimento (Revista do Instituto Politécnico Brasileiro, fevereiro de 1874).

“A magnitude e a expectativa que despertaram os projetos de Church provocaram o acre zelo e a oposição daqueles que detinham o monopólio comercial da área, os comerciantes da Costa do Pacífico, na medida em que se propunha a abrir rota concorrente de comércio. De repente descobriram que uma companhia americana detinha um empreendimento que prometia penetrar pelo centro da América do Sul e transformar seu comércio. Ao utilizar a rede fluvial, afetaria poderosamente as relações políticas e inter comerciais de vários Estados hispano-americanos. Ferozes interesses contrariados se aliaram amplamente. A English Construction Company denunciou o contrato e aliou-se aos seus acionistas em um ataque ao fundo fiduciário ferroviário, que eles vincularam por liminar ao Tribunal de Chancelaria. O governo boliviano tentou apreender o fundo. O coronel Church lutou contra esses pesados ataques, defendendo o terreno a cada polegada que houvesse para sustentar ganhou batalha após batalha entre 1873 a 1878. O comitê dos detentores de títulos subornou o presidente boliviano Daza com £ 20.000 para tomar partido ao seu favor e instaurou um novo processo para revogação da concessão boliviana. Mesmo neste novo processo, o coronel Church ganhou no Tribunal de Primeira Instância. A Câmara dos Lordes finalmente resolveu a questão declarando impraticável o empreendimento, embora meses antes o governo brasileiro tivesse dado seu apoio inabalável ao coronel Church. A seu pedido foi decretado um complemento ao fundo existente com o montante necessário para concluir as obras ferroviárias. Na época em que a empresa faliu havia 1.200 homens trabalhando na linha férrea e uma locomotiva em tráfego no primeiro trecho inaugurado”.

A Madeira-Mamoré e a notícia biográfica de George Earl Church feita por Clements Markham,

por  Dante Ribeiro da Fonseca

 

1874 –  Franz Keller (1835-1890) publicou o livro ilustrado Do Amazonas ao Madeira (Jornal do Commercio, de 31 de janeiro de 1874, na última coluna). Na edição alemã, ficou registrado na folha de rosto que as ilustrações da obra, reconstruídas com base nos esboços de Franz, foram gravadas em madeira na oficina gráfica de Adolf Clob (1840 – 1894). Franz, no prefácio do livro, agradece a seu pai, “meu fiel companheiro e colega de ciência nessa cansativa jornada, além de também agradecer ao meu irmão, professor Ferdinand Keller, especialista em pinturas históricas, cuja consultoria quanto às ilustrações me foram de inestimável valor”. O livro também foi editado em Londres pela Chapman & Hall, no mesmo ano, e possuia 68 ilustrações.

 

 

Com uma carta enviada de Karslruhe, datada de 1º de maio de 1874, Franz respondeu ao opúsculo intitulado Estudo sobre o Rio Madeira (1873), do engenheiro baiano Eduardo José de Moraes (1830 – 1895). O autor afirmava que a expedição para a exploração do rio Madeira não havia atendido às instruções do governo imperial, o que Franz rebateu (Jornal do Commercio, 15 de julho de 1874, quinta coluna).

1876 – Gravuras do livro Do Amazonas ao Madeira foram publicadas na revista Illustração Brasileira, fundada pelo litógrafo alemão Henrique Fleuiss (1823-1882) e muito importante na história da imprensa no Brasil. Seu modelo eram as revistas francesa L´Illustration e a inglesa The Illustrated London News. Para Joaquim Marçal Ferreira de Andrade, um dos curadores do portal Brasiliana Fotográfica e coordenador da BN Digital, as páginas do artigo de Franz Keller-Leuzinger foram um marco na história do projeto gráfico das páginas das revistas ilustradas do Brasil, “mesmo considerando-se que as matrizes eram alemãs”(Illustração Brasileira, 1º de julho e 15 de julho de 1876).

 

Kellerlivro

 

kellerlivro1

 

 

 

Em Karlsruhe, na Alemanha, dom Pedro II (1825 – 1891), durante sua segunda viagem à Europa, encontrou-se com Franz  Keller (Novo e completo Índice Cronológico da História do Brasil). Na ocasião, Franz, que vivia na época de seus trabalhos artísticos, escreveu uma carta ao monarca, na qual expunha seus planos para o futuro em um possível retorno ao Brasil. Dentre seus projetos, pedia o monopólio para explorar o sal no Paraná e se voluntariava para intermediar a venda da pólvora da Alemanha para o Brasil.

Voltando desse modo outra vez as belas praias da Terra de Santa Cruz, isto é, acompanhando em pessoa um carregamento de pólvora e se necessário fosse de armamento ao Rio de Janeiro. V. M. I. dignasse talvez de encarregar-me outra vez com trabalhos técnicos como antigamente. Me seja permitido, afora os trabalhos de exploração dos rios, alinhamento de estradas e caminhos de ferro e o levantamento de mapas geográficos, citar a elaboração de projetos de abastecimento da capital com água potável, que dia a dia fica mais urgente“.

Carta de Franz Keller-Leuzinger a D. Pedro II, 29 de julho de 1876.

Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional

 

Parece que esses projetos nunca se realizaram.

Tanto ele como seu pai eram sócios correspondentes do Instituto Politécnico Brasileiro (Revista do Instituto Politécnico Brasileiro, outubro de 1876).

1877 – Foi publicado, no primeiro número do jornal O Vulgarisador, a imagem do encontro de Franz com os índios Caripunas, do livro Do Amazonas ao Madeira (O Vulgarisador, 1ª edição, 1877).

 

 

 “Eram criaturas fortes, bem conformadas e de estatura mediana; traziam pendentes comprimidos cabelos pretos; um dos homens apenas usava-os enrolados em trança. Um dente de anta atravessava-lhes as pontas das orelhas, e tinha, além disto, em outro buraco na separação de nariz, um pequeno molho de penas encarnadas de tucano. Não traziam armas, a esta circunstancia junto à presença de uma de suas mulheres na embarcação, respondia-nos pela benevolência de suas intenções” (O Vulgarisador, 1ª edição, 1877).

 

 

Sobre o livro, o editor de O Vulgarisador, o poeta, escritor e jornalista português Augusto Emilio Zaluar (1826 – 1882), comentou: “deve interessar a todos que ligam a verdadeiro apreço aos trabalhos desta natureza, que, infelizmente, ainda tanto escasseiam entre nós”. Ele emigrou para o Brasil, em 1849, e, sete anos depois, naturalizou-se cidadão brasileiro. Em 1876, recebeu a comenda da Ordem da Rosa e era amigo de escritores como Machado de Assis (1839 – 1908) e José de Alencar (1829 – 1877). Colaborou em diversos periódicos como A Época, Espelho e Álbum SemanalO Vulgarizador circulou entre 1877 e 1881, no Rio de Janeiro. Seus livros mais conhecidos são Peregrinações pela Província de São Paulo (1860-1861) (1862) e Doutor Benignus (1875). Este último é considerado a primeira ficção científica brasileira.

 

 

Falecimento de Joseph (José) Keller (1811 – 1877).

Década de 1880 - Durante essa década, Franz Keller, esteve no Brasil, mas voltou à Alemanha.

1881 - Aquarelas de Joseph Keller fizeram parte da exposição História do Brasil, da Biblioteca Nacional.

1889 – Franz Keller continuava sendo sócio correspondente do Instituto Politécnico Brasileiro (Revista do Instituto Politécnico Brasileiro, 1889).

1890 - Franz Keller-Leuzinger faleceu em Munique, na Alemanha, em 18 de julho de 1890.

 

Roteiro da Expedição à Amazônia segundo o Relatório da exploração do rio Madeira na parte compreendida entre a cachoeira de Santo Antônio e a barra do Mamoré

 

Mapa desenhado por Franz Keller-Leuzinger reproduzindo o percurso de sua viagem, no livro Do Amazonas ao Madeira

Mapa desenhado por Franz Keller-Leuzinger reproduzindo o percurso de sua viagem, no
livro Do Amazonas ao Madeira

 

1967

10 de outubro – Foi assinada pelo governo imperial uma portaria incumbindo os engenheiros Franz e Joseph Keller em de explorar o rio Madeira na parte encachoeirada dele, desde Santo Antonio até a barra do rio Mamoré, e de elaborar os projetos mais apropriados para o melhoramento dessa importante via de comunicação com a província de Mato Grosso e a república da Bolívia.

15 de novembro – A expedição parte do Rio de Janeiro. Além dos Keller, embarcaram no paquete Paraná o fotógrafo Christoph Albert Frisch (1840 – 1918), a esposa e a irmã de Franz, repectivamente, Sabine Christine Leuzinger (1842-1915), filha do fotógrafo e editor suíço Georges Leuzinger (1813 – 1892); e Pauline.

1º de dezembro – Chegada em Belém.

10 de dezembro – Chegada em Manaus, a bordo do vapor Belém. A expedição levava 32 volumes. O governador do Amazonas, José Coelho da Gama e Abreu, o barão de Marajó (1832 – 1906), os avisou que a subida das cachoeiras e o estudo do rio das enchentes difícil e penoso. Fizeram então o levantamento. O governador os encarregou de fazer um levantamento de parte da planta do Rio Negro e da cidade de Manaus. O ajudante José Manoel da Silva fez o levantamento da planta de Manaus. Devido à falta de remeiros, o trabalho do Rio Negro não pode ser realizado. Foi feito então um projeto e orçamento para a reconstrução de uma ponte manauara que estava em ruínas.

 

 1868

 

9 de fevereiro – José Coelho da Gama e Abreu, o barão de Marajó (1832 – 1906) foi sucedido no governo do Amazonas por Jacinto Pereira do Rego que não atendeu às solicitações necessárias para a expedição: nem forneceu o número de guardas nem o vapor Jurupensen que poderia ter levado o pessoal e o trem da expedição até Santo Antônio.

fevereiro / maio – Com o propósito de levar a cabo a missão, procuraram o vice-cônsul da Bolívia, Ignacio Araus, que encontrava-se em Manaus. Ele ofereceu toda a ajuda necessária e falou de um comerciante boliviano que iria para o Pará e, de lá, para a Bolívia. Dessa forma uma comissão ao mando do governo imperial seguiu viagem sob os auspícios de um particular.

Compraram, em Serpa, uma canoa de lotação de 300 arrobas mal construída e em mal estado por não haver outra, do major Dalmazo de Souza Barriga.

30 de maio – A comissão Keller partiu de Serpa, no Amazonas, atrás do comerciante boliviano, com sete tripulantes quando a canoa demandava ao menos 12. A embarcação levava mantimentos para 4 meses, ferramentas para a construção e conserto de canoa, instrumentos de medição, armamentos, toldos e barracas.

9 de junho – Chegada à Borba com menos dois remeiros, que haviam fugido.

10 a 13 de junho – Passaram por Sapucaia-oroca, dos índios Mura; a Ilha das Araras e pela barra do rio Aripuanã.

madrugada de 14 para 15 de junho – Conserto de uma canoa, que perigava afundar.

15 de junho – Passaram pelas pedras de Aruá.

18 de junho – Chegaram ao engenho de Ignacio Araus, onde o comerciante boliviano os aguardava com impaciência. Transferiram a carga para uma canoa mais apropriada.

21 de junho – Continuaram a viagem. A comitiva tinha 70 índios bolivianos das missões do Mamoré como remeiros e pilotos de sete canoas e de oito brancos.

30 de junho – Encontraram uma família de índios Mura. Por alguns dias, seguiram a expedição. Compraram tartarugas dos índios.

início de julho – Acima de um lugar denominado Três Casas visitaram a barraca de alguns seringueiros bolivianos que com os índios Moxos exploravam a resina.

5 de julho – Chegaram ao Crato, uma estância para a criação de gado. Lá se encontrava o destacamento de Santo Antônio que, nessa época do ano, princípio da estação de chuvas, se retirava de Santo Antônio para um lugar mais salubre. Foram recebidos com cordialidade pelo comandante do destacamento que os apresentou ao dono do lugar, o capitão Tenório.

10 a 15 de julho – Passaram à Ilha das Abelhas, à barra do Pirapitanga e a do Jamary, muito rica em peixes mas infestada pelas febres de caráter maligno.

16 de julho – Chegaram à Ilha dos Mutuns e à praia dos Tamanduás, onde, no mês de setembro, milhares de tartarugas vêm desovar. Na mesma época, seringueiros e pescadores vêm para o local, onde juntam os ovos das tartarugas para a fabricação de manteiga e levam tartarugas, causando grande destruição.

Chegada à Cachoeira de Santo Antônio. Foi necessário descarregar as canoas e transportar tudo para 450 metros acima dos rochedos da margem esquerda..

18 de julho – Chegaram na correnteza dos Macacos da qual já se descobre a fumaça que levanta o salto do Theotônio.

22 de julho – Chegaram à Cachoeira dos Morrinhos, que tinha dois saltos distintos.

25 de julho – Entre Morrinhos e o Caldeirão do Inferno encontraram canoas construídas com cascas de Jatubá pelo índios Caripunas, que habitavam aquela altura do rio. Foram convidados por eles para visitarem suas malocas e foram presenteados com raízes de mandioca e milhos em espiga. Ofertaram aos índios facas, tesouras e anzóis. Dias depois, encontraram outros Caripunas, de quem compraram uma anta e um porco do mato. Esses encontros transcorreram, segundo o relatório da expedição, sempre em um clima de amizade e harmonia.

26 de julho – Chegaram à parte inferior da perigosa Cachoeira do Caldeirão do Inferno. Muitas cruzes rodeavam o local, onde diversos barcos haviam naufragado e pessoas morrido de febres malignas. O engenheiro peruano Maldonado foi uma das vítimas de um naufrágio na região. Um dos índios remeiros da comissão Keller faleceu no local devido a uma inflamação intestinal.

27 de julho – Avistaram os morros ao pé do Salto do Girão. Durante quatro dias foi feito o transporte das cargas e a varação das canoas.

31 de julho e 1º de agosto – Continuaram a viagem e chegaram a Pedras de Amolar, nome dado ao local por navegantes devido às camadas de gres argiloso (arenito). À tarde, chegaram à correnteza mais forte dos Três Irmãos, com uma  queda de menos de um metro.

3 e 4 de agosto – Chegada à Cachoeira do Paredão, com uma queda divida em duas partes.

5 de agosto – Chegada à Cachoeira Pederneira, assim chamada devido a presença de veias de quartzo nas fendas do rochedo. Rio acima, a cacheira mais próxima era a das Araras. Pouco acima da Pederneira, se acha à margem esquerda a barra do rio Abuná.

9 a 15 de agosto – Chegaram à Cachoeira do Ribeirão onde ficaram até dia 15. Ela é formada por cinco saltos. Foi observado que os riscos das pedras em um dos saltos formam uma paralela interessante com a representação tosca de objetos celestes e de animais nos rochedos do Orenoco, descritos por Humboldt.

15 a 18 de agosto – Chegaram à Cachoeira do Madeira e à Cachoeira das Lages.

19 de agosto – Chegada ao Salto das Bananeiras. A passagem do salto durou dois dias, as canoas tiveram que ser descarregadas e transportadas por cima dos rochedos.

21 a 22 de agosto – Após uma seca extraordinária, chuva forte e queda da temperatura para 11º.

23 de agosto – Chegada à Cachoeira do Guajará-Guassu. As cargas foram transportadas por terra e as canoas por água a sirga (puxadas por cordas).

24 de agosto – Chegada à Cachoeira Guajará-Mirim. Encontraram 10 canoas bolivianas carregadas com couros e sebo, Por seu dono, de Santa Cruz de la Sierra, enviaram ofícios e cartas para o Rio de Janeiro e para o Pará. No mesmo dia, chegaram à barra do Ribeirão da Paca Nova, ao pé da serra homônima. As canoas estavam quase todas defeituosas. Foram tiradas da água e calafetadas.

1º de setembro – A expedição chegou na junção do rio Mamoré com o Guaporé, onde habitava uma tribo indígena. Seguiram para o Serrito, sítio do brasileiro Antônio de Barros Cardoso, que morava na Bolívia há cerca de 15 anos e recebeu a expedição com a maior afabilidade. Ele já havia ajudado anteriormente, no início da década de 1850, o explorador Lardner Gibbon (1820 – 1910), tenente da Marinha dos Estados Unidos. Ele acompanhou a expedição até Exaltacion de la Santa Cruz, na Bolívia, uma antiga missão dos jesuitas.

10 de setembro – Chegada a Exaltacion de la Santa Cruz, onde Franz foi recebido pelas autoridades bolivianas. Com o prefeito da cidade, A. Morant, conversou sobre a o engajamento de índios remeiros para integrar a expedição. A essa altura já havia sido feita a aquisição de canoas e mantimentos.

15 de outubro – Partida para o sítio do Serrito, onde permaneceram até dia 19 de outubro. O comboio era formado por cinco embarcações de diferentes tamanhos – uma galeota, duas ubás, uma montaria e uma igarité – com uma tripulação total de 32  remeiros.

21 de outubro – Chegada à barra do Mamoré, onde ficaram dois dias medindo o volume cúbico das águas dos rios Mamoré e Guaporé.

24 de outubro – Estavam nas Ilhas Cavalo Marinho onde iniciaram uma medição detalhada com o micrômetro. À noite, houve uma tempestade.

25 de outubro – Realização da exploração e sondagem do rio Guajará-Mirim.

27 de outubro –  Passaram o Salto das Bananeiras e, devido ao mau tempo, as embarcações chegaram a encostar e um rochedo. Alguns dos índios assim como um dos engenheiros da expedição tiveram uma febre intermitente e foram tratados com sulfato de quinino. Terá sido Franz o engenheiro já que se sabe que ele provavelmente contraiu malária durante a expedição? Fazia muito calor e à noite houve um temporal.

30 de outubro – Haviam chegado com a medição até a Cachoeira do Pao-Grande.

2 a 7 de novembro – Estavam na barra do rio Beni, onde entraram para realizar a medição de suas águas. Passaram pela Cachoeira do Madeira, pela passagem do Ribeirão, pelos Periquitos e pelas Araras. No dia 7, devido às chuvas, foram obrigados a parar e armar os toldos e as barracas.

8 de novembro – Chegada ao Paredão.

11 e 12 de novembro – Passaram por Três Irmãos e pelo Salto do Girão.

13 a 15 de novembro – Passaram pelo Caldeirão do Inferno e reencontraram os índios Carapunas. Encontram também outra tribo indígena. Uma das canoas da expedição quase naufragou.

16 de novembro – Passaram pela barra do Jassiparaná e chegaram, à tarde, à Cachoeira dos Morrinhos.

17 e 18 de novembro – Chegaram ao Salto do Theotônio.

19 e 20 de novembro – Passaram pela correnteza dos Macacos e pela Cachoeira de Santo Antônio.

21 de novembro – Chegada ao Crato, primeiro ponto onde se encontram alguns recursos. Deixaram com o comandante do destacamento de Santo Antônio uma das ubás para ser devolvida ao brasileiro Antônio de Barros Cardoso, a quem pertencia.

25 de novembro – Passaram o Manicoré e chegaram ao sítio de J. Arans, onde deixaram uma das embarcações e parte da tripulação. Seguiram viagem com três canoas. Na aldeia dos Muras fizeram uma medição do volume cúbico das águas do rio Madeira.

26 de novembro – Chegaram à vila de Borba.

30 de novembro – Chegada a Serpa. Remeteram as canoas ao major Damazo de Souza Barriga e deram conhecimento desse ato ao presidente da província.

Passaram em Manaus onde entregaram no depósito do trem bélico armamentos e utensílios. Encontraram-se com o presidente da província.

14 de dezembro – Chegada no Pará.

 

1969

4 de janeiro – Chegada ao Rio de Janeiro.

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Acervo do IMS- Cartas de Georges Leuzinger

ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira de. A trajetória de Henrique Fleiuss, da Semana Ilustrada: subsídios para uma biografia. In: KNAUSS, Paulo et alli (org.) Revistas Ilustradas: modos de ler e ver no Segundo Reinado. Rio de Janeiro: MAUAD; FAPERJ, p.53-66, 2011.

BELLUZZO, Ana Maria de Moraes. O Brasil dos Viajantes. Vol.2. São Paulo: Metalivros, 1994.

Dicionário de Verbetes AGCRJ

Enciclopédia Itaú Cultural

FERREZ, Gilberto. A fotografia no Brasil: 1840-1900. 2ª edição. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1985.

FASOLATO, Jorge Douglas Alves. Estrada União e Indústria: paisagem, intervenção e fotografias de Revert Henry Klumb na perspectiva de uma rota cultural. Fundação Casa de Rui Barbosa Programa de Pós-Graduação em Memória e Acervos Mestrado Profissional em Memória e Acervos, 2020.

FONSECA, Dante Ribeiro da. A Madeira-Mamoré e a notícia biográfica de George Earl Church feita por Clements Markham. Gente de Opinião, 29 de outubro de 2019.

Biblioteca de jornais digitais da Biblioteca Nacional

KELLER-LEUZINGER, Franz. Os rios Amazonas e Madeira : esboços e descrições do caderno de um explorador . Londres: Chapman & Hall, 1874.

KELLER-LEUZINGER, Franz (1835-1890). Os Rios Amazonas e Madeira: esboços e relatos de um explorador / Franz Keller-Leuzinger; tradução, apresentação e notas de Adriano Gonçalves Feitosa – Belo Horizonte : Editora Dialética, 2021.

KOHL, Frank Stephan. Um jovem mestre da fotografia na Casa LeuzingerCadernos de Fotografia Brasileira/IMS, n.3, p.185-214, 2006.

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

PESSOA, Ana; SANTOS, Ana Lucia Vieira dos. Th. Marx, um arquiteto na corte de D. Pedro II. 3° Congresso Internacional de História da Construção Luso-Brasileira (CIHCLB), realizado em Salvador (BA) nos dias 3 a 6 de setembro de 2019

Relatório da exploração do rio Madeira na parte compreendida entre a cachoeira de Santo Antônio e a barra do Mamoré (Diário de Belém, 10 de outubro de 1869, última coluna; 12 de outubro de 1869, primeira coluna; 13 de outubro, terceira coluna; 14 de outubro de 1869, primeira coluna; 15 de outubro, segunda coluna; 16 de outubro de 1869, terceira coluna).

SENNA, Ernesto. O Velho Comércio do Rio de Janeiro. 2ª edição. Rio de Janeiro: G Ermakoff, 2006.

Site Biblioteca Digital Mundial

Site Infoescola

Site Mast

Stolberg-Wernigerode, Otto: New German Biography . Berlim: Editor Fritz Wagner, 1997.

VASQUEZ, Pedro Karp. Fotógrafos Alemães no Brasil do século XIX. São Paulo: Metalivros, 2000. p.77.

VERGARA, Moema de Rezende. A Exploração dos rios Amazonas e Madeira no Império Brasileiro por Franz Keller-Leuzinger: imprensa e nação. Almanack. Guarulhos, n.06, p.81-94, 2º semestre de 2013.

Cronologia de Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890)

 

Cronologia de Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890)

 

 

1835 - Nascimento de Franz Keller, em Mannheim, na Alemanha, em 30 de agosto de 1835, filho do cartógrafo, desenhista e engenheiro Joseph (José) Keller (1811 – 1877), diplomado pela Universidade de Karlsruhe, que havia trabalhado como inspetor de estrada do Grão Ducado de Baden. Franz era irmão do pintor Ferdinand (Fernando) Keller (1842 – 1922).

 

 

1855 - Chegou, em 27 de dezembro, ao Rio de Janeiro com seu pai. Vieram do Havre, na galera francesa Dom Pedro II. Diversas fontes afirmam que Ferdinand, seu irmão, teria vindo com eles, mas nas notícias de jornal só constam os nomes de Joseph e Franz. Certamente Ferdinand passou um período no Brasil, mas provavelmente veio depois de seu pai e irmão (Correio da Tarde, 27 de dezembro de 1855, última colunaDiário do Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1855, última colunaCorreio Mercantil, 28 de dezembro de 1855, segunda coluna).

 

 

1856 - No Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro de 1856, foi mencionado que Joseph Keller poderia ser contratado para a construção da estrada de Mangaratiba ou da de Ubatuba caso o desembargador J.J. Pacheco, presidente da Companhia da Estrada de Mangaratiba, fizesse um contrato com o presidente de São Paulo para uma outra estrada de carros de Taubaté a Ubatuba.

Joseph e um ajudante trabalharam para o Governo da Província do Rio de Janeiro para a ratificação de plantas para a estrada de Petrópolis ao Parahybuna . Franz seria o ajudante? (Correio Mercantil, 21 de abril de 1856, quarta coluna).

Incitados pela lisonjeira recepção que fizemos a seus compatriotas, os engenheiros Keller, vários arquitetos da Escola Politécnica de Karslruhe, no Grão Ducado de Baden, vieram para o Brasil, dentre eles Theodore Marx (1833 – 1890), que viria a ser um dos construtores do Palácio da Quinta da Boa Vista (Correio Mercantil, 12 de junho de 1856, terceira coluna).

1857 – Seu pai, como engenheiro, e ele e Carlos Keller como ajudantes, haviam sido contratados pela Companhia União Indústria. Qual seria o parentesco de Carlos Keller com eles? Sobrinho e primo? Filho e irmão? Ou seria o filho de Johann Nepomuk Keller, o engenheiro Carlos Keller (1839 – 1928), futuro reitor do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe? Uma coincidência: o pai do fotógrafo Chistophe Albert Frisch (1840 – 1918), tinha Nepomuk em seu sobrenome: chamava-se Johanes Nepomuk Frisch. Caso isso indique algum parentesco, Frisch e Franz Keller possivelmente já se conheciam antes de virem para o Brasil.

O diretor-presidente da Companhia União Indústria era o comendador Mariano Procópio Ferreira Lage (1821 – 1872). A capacidade de Joseph Keller já era abonada pelos trabalhos executados na Europa sob sua direção (Relatório Companhia União Indústria, 24 de agosto de 1857). Sobre o trabalho para o qual havia sido contratado, uma linha de estrada entre  Pedro do Rio e a villa da Parahyba, Três Barras e a ponte do Parahybuna, apresentou um relatório ao comendador (Relatório Companhia União Indústria, 24 de agosto de 1857Jornal do Commercio, 31 de agosto de 1857, quarta coluna).

 

 

 

1861 / 1862 – Em 30 de abril de 1861, Joseph Keller apresentou ao comendador Mariano Procópio um relatório sobre o estado da estrada entre a ponte do Paraíba e Juiz de Fora (Relatório da Companhia União Indústria, 15 de junho de 1861). Foi expedida pelo Ministério da Agricultura a ordem para o pagamento dos engenheiros Joseph e Franz Keller pela exploração do rio Paraíba (Boletim do Expediente do Governo: Ministério do Império, novembro de 1861); Correio Mercantil, 7 de abril de 1862, terceira colunaBoletim do Expediente do Governo: Ministério do Império, junho de 1862). Entre esse ano e 1867, Franz acompanhou o pai em levantamentos no mencionado rio, na região entre Campo Belo e Barra do Piraí; nos vales do rio Paraíba e Pomba, nos rios Iguaçu, Paranapanema e Tibagi. Dessas investigações resultam relatórios publicados pelo Ministério da Agricultura (Diário do Rio de Janeiro, 17 de junho de 1864, quaarta colunaAlmanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1865O Cearense, 2 de dezembro de 1865, terceira colunaDezenove de Dezembro, 20 de dezdembro de 1865, última colunaDezenove de Dezembro, 13 de janeiro de 1866, primeira coluna).

1862 – Seu irmão, Ferdinand, voltou do sul do Brasil, a bordo do patacho Guasca (Jornal do Commercio, 26 de fevereiro de 1862, terceira coluna). Retornou à Alemanha e ingressou na Academia de Belas Artes de Karlsruhe, estudando sob a tutela do paisagista alemão Johann Wilhelm Schirmer (1807 – 1863).

Franz fotografou a Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão.

 

c. 1863 –  O fotógrafo carioca Marc Ferrez (1843 – 1923) retornou da Europa ao Brasil. Segundo seu neto, o historiador Gilberto Ferrez (1908 – 2000), Marc teria aprendido a arte da fotografia com Franz Keller (1835 – 1890), que em torno dessa data teria assumido a seção de fotografia da empresa de seu sogro, o fotógrafo e editor suíço Georges Leuzinger (1813 – 1892), criada em 1865. Uma carta enviada em 17 de janeiro de 1923 por um amigo de Ferrez, Luiz Carlos Franco, a seus filhos Julio e Luciano, após a a morte do fotógrafo, confirma que Ferrez havia trabalhado para Leuzinger. Porém, a participação de Franz Keller como diretor do ateliê fotográfico de Leuzinger é questionável e, na verdade, até hoje não foi comprovada. Além disso, na década de 1860, como já mencionado, Franz fez diversas viagens pelo Brasil com seu pai explorando rios do país sob contrato do governo imperial, o que tornaria difícil a possibilidade dele dirigir o estabelecimento fotográfico de seu sogro.

1864 – Franz e seu pai, Joseph, embarcaram rumo a Campos no vapor Ceres (Correio Mercantil, 1º de maio de 1864, segunda coluna).

Em ato oficial, de 24 de dezembro de 1864, do ministro de Estado dos Negócios da Agricultura Comércio e Obras Públicas, assinado pelo ministro Jesuino Marcondes de Oliveira e Sá (1827 – 1903), Franz e Joseph Keller foram encarregados de estudar o rio Ivahy (Correio Mercantil, 1º de janeiro de 1865, segunda colunaJornal do Recife, 22 de novembro de 1865, última coluna).

 

 

Franz Keller chegou a Santos na companhia de um criado, no vapor Dom Affonso, procedente de Santa Catarina com escalas (Correio Paulistano, 29 de outubro de 1865, primeira coluna).

Integrou-se à Expedição do Avaí, quando produziu aquarelas da região.

1865 – Foram publicadas notícias sobre o relatório elaborado pelos engenheiros Keller sobre a navegabilidade do rio Paraiba (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1865).

1866 – Foram publicadas notícias sobre o relatório elaborado pelos engenheiros Keller sobre a navegabilidade do rio Ivahy (Correio Mercantil, 16 de janeiro de 1866, penúltima coluna).

Joseph e Franz foram contratados pelo governo do Paraná para a realização do levantamento e da impressão da carta corográfica do estado (Dezenove de Dezembro, 28 de março de 1966, primeira coluna).

No dia 24 de julho, Franz e Joseph Keller partiram de Curitiba para explorar o rio Iguaçu. Também faziam parte do grupo o agrimensor Julio Kalkman e o intérprete Fructuoso Antonio de Moraes Dutra, além de 24 tripulantes das oito canoas da expedição (Dezenove de Dezembro, 14 de abril de 1866, última colunaDezenove de Dezembro, 4 de julho de 1866, primeira colunaCorreio Mercantil, 30 de julho de 1866, última coluna).

Em 7 de dezembro, o Decreto Imperial nº 3749 autorizou a abertura da navegação do rio Amazonas para outras nações, após pressões internacionais, vindas principalmente dos Estados Unidos. Foi nesse contexto que, no ano seguinte, Franz e Joseph Keller foram encarregados pelo Império do Brasil para a exploração de rios do Norte do país.

DECRETO Nº 3.749, DE  7 DE DEZEMBRO DE 1866

 

“Abrindo os rios Amazonas, Tocantins, Tapajós, Madeira, Negro e S. Francisco á navegação dos navios mercantes de todas as nações.

No intuito de promover o engrandecimento do Imperio, facilitando cada vez mais as suas relações internacionaes, e animando a navegação e o commercio do rio Amazonas e seus affluentes, dos rios Tocantins e S. Francisco, ouvido o Meu Conselho de Estado, Hei por bem Decretar o seguinte:

    Art. 1º Ficará aberta, desde o dia 7 de Setembro de 1867, aos navios mercantes de todas as nações, a navegação do rio Amazonas até á fronteira do Brasil, do rio Tocantins até Cametá, do Tapajós até Santarem, do Madeira até Borba, e do rio Negro até Manáos.

    Art. 2º Na mesma data fixada no art. 1º ficará igualmente aberta a navegação do rio S. Francisco até á Cidade do Penedo.

    Art. 3º A navegação dos affluentes do Amazonas, na parte em que só uma das margens pertence ao Brasil, fica dependendo de prévio ajuste com os outros Estados ribeirinhos sobre os respectivos limites e regulamentos policiaes e fiscaes.

    Art. 4º As presentes disposições em nada alterão a observancia do que prescrevem os Tratados vigentes de navegação e commercio com as Republicas do Perú e de Venezuela, conforme os regulamentos já expedidos para esse fim.

    Art. 5º Os Meus Ministros e Secretarios de Estado, pelas Repartições competentes, promoveráõ os ajustes de que trata o art. 3º, e expediráõ as ordens e regulamentos necessarios para a effectiva execução deste Decreto.

    Antonio Coelho de Sá e Albuquerque, do Meu Conselho, Senador do Imperio, Ministro e Secretario de Estado dos Negocios Estrangeiros, assim o tenha entendido e faça executar.

Palacio do Rio de Janeiro em sete de Dezembro de mil oitocentos sessenta e seis, quadragesimo quinto da Independencia e do Imperio.

Com a Rubrica de Sua Magestade o Imperador.

Antonio Coelho de Sá e Albuquerque.

Este texto não substitui o original publicado no Coleção de Leis do Império do Brasil de 1866″

 

1867 – O presidente da província do Paraná mandou sustar a exploração do rio Iguassu, cujos encarregados eram Joseph e Franz Keller (Diário de São Paulo, 23 de janeiro de 1867, primeira coluna).

Foi assinado, em 27 de março, e selado, em 23 de novembro, o Tratado de Ayacucho, entre o Brasil e a Bolívia, que definia os limites entre os dois países.

Franz casou-se com Sabine Christine Leuzinger (1842-1915), filha primogênita do fotógrafo, livreiro e editor suíço Georges Leuzinger (1813-1892), adotando também o sobrenome do sogro, passando a assinar Franz Keller-Leuzinger.

Por portaria de 10 de outubro de 1867, Franz e seu pai, Joseph Kellerforam incumbidos pelo governo imperial de explorar o rio Madeira na parte encachoeirada dele, desde Santo Antonio até a barra do rio Mamoré, e de elaborar os projetos mais apropriados para o melhoramento dessa importante via de comunicação com a província de Mato Grosso e a república da Bolívia. Relatório da exploração do rio Madeira na parte compreendida ente a cachoeira de Santo Antônio e a barra do Mamoré (Diário de Belém, 10 de outubro de 1869, última coluna).

Em 15 de novembro, embarcaram no Rio de Janeiro rumo ao Pará (Diário do Povo, de 15 de novembro de 1867,  primeira coluna).

O fotógrafo Christoph Albert Frisch (1840 – 1918) seguiu com os engenheiros rumo à Amazônia, comissionado por Leuzinger, em cujo ateliê fotográfico trabalhava. Levava um escravizado. A esposa de Franz, Sabine, e sua irmã, Pauline Keller, também estavam no paquete Paraná, assim como o engenheiro José Manoel da Silva, integrante da expedição (Diário do Povo, 15 de novembro de 1867, primeira coluna; Jornal do Commercio, 16 de novembro de 1867, terceira coluna).

 

 

 

Frisch acompanhou os engenheiros somente até Manaus e … percorreu 400 léguas pelo rio Amazonas e seus afluentes durante 5 meses…, num barco acompanhado por dois remadores, desde Tabatinga até Manaus. Produziu, na ocasião, uma pioneira série de 98 fotografias com os primeiros registros que chegaram até nós de índios brasileiros da região, além de aspectos de fauna e flora e de barqueiros de origem boliviana, que atuavam como comerciantes itinerantes nos rios amazônicos. Segundo o livro de Ernesto Senna, O velho commercio do Rio de Janeiro, a expedição fotográfica de Frisch à Amazônia foi fruto de uma solicitação feita pelo suíço Louis Agassiz (1807 – 1873) a Leuzinger.

Satisfazendo ao pedido de Agassiz, fez Leuzinger tirar vistas até Tabatinga, na fronteira do Amazonas com a República do Peru, vistas que serviram não só para os trabalhos científicos daqule sábio, como também para ilustrações europeias. Quando o engenheiro Keller foi em comissão explorar os rios Madeira e Mamoré, Georges Leuzinger mandou um fotógrafo da casa acompanhar a expedição, que trouxe depois daquelas incomparáveis regiões graande cópia de clichês, da flora, da fauna, de paisagens, e fotograafias de silvícolas e de suas tabas, aldeamentos, instruentos, armas, etc. Estas coleções, de grande valor para estudos etnográficos, eram muito interessantes sob qualquer ponto de vista e muito procuradas por viajantes estrangeiros”.

Agassiz havia, entre 1865 e 1866, comandado a Comissão Thayer no Brasil, que percorreu boa parte do território brasileiro entre o Rio de Janeiro e a Amazônia, viagem que deu origem ao livro A journey in Brazil, editado em Boston, em 1868. A Comissão Thayer foi financiada pelo empresário e filantropo norte-americano Nathaniel Thayer, Jr. (1808-1883), ex-aluno de Agassiz no Museu de Zoologia Comparada, em Harvard. Vale lembrar que Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), o futuro chefe da Comissão Geológica do Império (1875 – 1878), integrada pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843-1923), participou da Comissão ou Expedição Thayer – foi a primeira vez que esteve no Brasil.

A expedição à Amazônia liderada pelos Keller, com 32 volumes, alcançou Belém, em 1º de dezembro, e seguiu para Manaus, onde chegou no dia 10 do mesmo mês, no vapor Belém (Jornal do Pará, 11 de dezembro de 1867,terceira colunaJornal do Rio Negro, 11 de dezembro de 1867, segunda coluna).

 

 

1868 – No Anexo X do Relatório do Ministro da Agricultura de 1868, Joseph e Franz Keller fizeram comentários sobre a formação geológica do solo brasileiro. Em alguns pontos concordaram com o geógrafo, naturalista e explorador alemão Barão de Humboldt (1769- 1859), que havia participado de uma expedição pela América do Sul entre 1799 e 1804.(Jornal do Recife, de 12 de agosto de 1882, primeira coluna; Jornal do Recife, 13 de janeiro de 1883, primeira coluna).

 

geologiaJornal do Recife, de 1883

Jornal do Recife, 13 de janeiro de 1883

 

O governador do Amazonas, José Coelho da Gama e Abreu (1832 – 1906), o barão de Marajó,  submeteu ao governador do Pará, Joaquim Raimundo de Lamare (1811 – 1889), um ofício sobre a comissão dos Keller, que havia sido enviado pelo ministro da Agricultura, Zacarias de Góis e Vasconcelos (1815 – 1877) (Amazonas, 25 de abril de 1868, última colunaAmazonas, 9 de maio de 1968, última coluna).

Foram concedidas às irmãs Sabine Leuzinger-Keller e a Pauline Keller concessão de passagens de Estado em embarcação da Companhia do Amazonas, de Manaus a Belém do Pará com as despesas pagas pelo Ministério da Agricultura. Joseph e Franz Keller foram recomendados pelo governo do Amazonas ao comandante do Forte Príncipe da Beira,  no Mato Grosso, para onde iriam com o objetivo de explorar o Rio Madeira, conforme comissão do governo brasileiro (Amazonas, 30 de maio de 1868, segunda coluna).

Sabine e Pauline chegaram ao Rio de Janeiro em 19 de junho, a bordo do paquete a vapor Guará (Correio Mercantil, 20 de junho de 1868, última coluna).

O fotógrafo Frisch retornou ao sul do Brasil, a bordo do vapor Cruzeiro do Sul (Jornal Pedro II, 24 de novembro de 1868, na quarta coluna). No ano seguinte, as imagens produzidas por ele durante a expedição pela Amazônia começaram a ser comercializadas a partir de um catálogo publicado pela Casa Leuzinger, Resultat d’une expédition phographique sur le Solimões ou Alto Amazonas et Rio Negro.

 

 

Em 9 de dezembro, o tenente -coronel José Wilkens de Mattos (1822 – 1889), governador do Amazonas, respondendo a um ofício enviado pelos Keller e pelo engenheiro José Manoel da Silva, autorizou a tesouraria de Fazenda a receber objetos que estavam com os requerentes, referentes à comissão que cumpriram no rio Madeira;  tomou ciência de que uma canoa adquirida na Bolívia pelos Keller e por José Manoel seria utilizada por João Martins da Silva Coutinho na comissão de exploração do rio Branco; e informou que os Keller e José Manoel teriam seu transporte a bordo do vapor Belém, de Manaus a Belém, em 10 de dezembro de 1868, custeado pelo Ministério da Agricultura. Poderiam utilizar o espaço de bagagem, duas toneladas, destinado ao governo. O trabalho comissionado pelo governo imperial havia sido concluído e eles voltariam para o Rio de Janeiro no mesmo vapor (Diário de Belém, 28 de dezembro de 1868, quarta colunaAmazonas, 5 de janeiro de 1869, primeira coluna).

 

 

 

1869 No dia 4 de janeiro de 1869, Joseph e Franz Keller e o ajudante José Manuel da Silva chegaram ao Rio de Janeiro a bordo do paquete Paraná. Franz estava enfraquecido pelas febres e queimado pelo sol. Segundo o pesquisador Frank Kohl, ele havia contraido malária (Diário do Rio de Janeiro, 5 de janeiro de 1869, quinta coluna).

Fez o retrato da filha de Leuzinger, Gabrielle Marie (1853 – 1869), que faleceu em 23 de abril de 1869 (Jornal do Commercio, 29 de abril de 1869, última coluna).

Após sua morte, ela estava quase sorridente, uma figura de anjo e tão branca quanto os lençóis de seu leito. Franz Keller fez seu retrato de perfil para nosso espanto o perfil perfeito de Mathilde quando tinha sua idade, 16 anos, 6 dias e 21 horas e meia” (Carta de Georges Leuzinger para seu filho Paul, que estava vivendo na França, de 2 de junho de 1969).

Esteve algumas vezes no Paço Imperial cumprimentando o imperador Pedro II (1825 – 1891) (Diário de Rio de Janeiro, 14 de setembro; 19 de outubro29 de novembro6 de dezembro e 21 de dezembro de 1869, primeiras colunas).

Na seção de 14 de setembro do Instituto Politécnico Brasileiro, fez um discurso agradecendo sua nomeação para sócio correspondente da instituição. Além dele, discursaram Luiz Filipe de Saldanha da Gama (1846 – 1895) e Antônio Augusto Fernandes Pinheiro (18? – ?). Augusto Teixeira Coimbra (18? – ?) também foi, na ocasião, nomeado sócio correspondente (Jornal do Commercio, 24 de setembro de 1869, segunda colunaRevista do Instituto Politécnico Brasileiro, 1869).

1870 – Na seção de 14 de junho de 1870 do Instituto Politécnico Brasileiro, sob a presidência do conde d´Eu (1842 – 1922), J.M. da Silva anunciou que Franz Keller havia viajado para a Europa (Revista do Instituto Politécnico Brasileiro, 1874).

Foi autorizada a venda em hasta pública dos objetos comprados para a exploração dos rios Iguaçu, Ivahy, Paranapanema e Tibagi, entregues por Joseph e Franz Keller a Serafim Carvalho Baptista e José Feliciano da Silva (Dezenove de Dezembro, 12 de outubro de 1870, última coluna).

1872 – Joseph Keller ainda se encontrava no Brasil (Jornal do Commercio, 7 de abril de 1872, sétima coluna).

Em julho, Franz Keller (1835-1890) estava na Suíça.

1873 – Retornou à Alemanha para tratar da saúde, fixando residência na cidade alemã de Karlsruhe. Conforme hjá mencionado, segundo o pesquisador Frank Kohl, Franz havia contraído malária no Amazonas e justamente por isto não pode aceitar o convite do coronel americano George Earl Church (1835-1910) para participar da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, que utilizou os dados levantados pelos Keller naquela região. Church havia recebido do governo brasileiro a concessão para a construção da ferrovia. Porém, por diversos motivos, Church não concluiu o empreendimento (Revista do Instituto Politécnico Brasileiro, fevereiro de 1874).

“A magnitude e a expectativa que despertaram os projetos de Church provocaram o acre zelo e a oposição daqueles que detinham o monopólio comercial da área, os comerciantes da Costa do Pacífico, na medida em que se propunha a abrir rota concorrente de comércio. De repente descobriram que uma companhia americana detinha um empreendimento que prometia penetrar pelo centro da América do Sul e transformar seu comércio. Ao utilizar a rede fluvial, afetaria poderosamente as relações políticas e inter comerciais de vários Estados hispano-americanos. Ferozes interesses contrariados se aliaram amplamente. A English Construction Company denunciou o contrato e aliou-se aos seus acionistas em um ataque ao fundo fiduciário ferroviário, que eles vincularam por liminar ao Tribunal de Chancelaria. O governo boliviano tentou apreender o fundo. O coronel Church lutou contra esses pesados ataques, defendendo o terreno a cada polegada que houvesse para sustentar ganhou batalha após batalha entre 1873 a 1878. O comitê dos detentores de títulos subornou o presidente boliviano Daza com £ 20.000 para tomar partido ao seu favor e instaurou um novo processo para revogação da concessão boliviana. Mesmo neste novo processo, o coronel Church ganhou no Tribunal de Primeira Instância. A Câmara dos Lordes finalmente resolveu a questão declarando impraticável o empreendimento, embora meses antes o governo brasileiro tivesse dado seu apoio inabalável ao coronel Church. A seu pedido foi decretado um complemento ao fundo existente com o montante necessário para concluir as obras ferroviárias. Na época em que a empresa faliu havia 1.200 homens trabalhando na linha férrea e uma locomotiva em tráfego no primeiro trecho inaugurado”.

A Madeira-Mamoré e a notícia biográfica de George Earl Church feita por Clements Markham,

por  Dante Ribeiro da Fonseca

 

1874 –  Franz Keller (1835-1890) publicou o livro ilustrado Do Amazonas ao Madeira (Jornal do Commercio, de 31 de janeiro de 1874, na última coluna). Na edição alemã, ficou registrado na folha de rosto que as ilustrações da obra, reconstruídas com base nos esboços de Franz, foram gravadas em madeira na oficina gráfica de Adolf Clob (1840 – 1894). Franz, no prefácio do livro, agradece a seu pai, “meu fiel companheiro e colega de ciência nessa cansativa jornada, além de também agradecer ao meu irmão, professor Ferdinand Keller, especialista em pinturas históricas, cuja consultoria quanto às ilustrações me foram de inestimável valor”. O livro também foi editado em Londres pela Chapman & Hall, no mesmo ano, e possuia 68 ilustrações.

 

 

Com uma carta enviada de Karslruhe, datada de 1º de maio de 1874, Franz respondeu ao opúsculo intitulado Estudo sobre o Rio Madeira (1873), do engenheiro baiano Eduardo José de Moraes (1830 – 1895). O autor afirmava que a expedição para a exploração do rio Madeira não havia atendido às instruções do governo imperial, o que Franz rebateu (Jornal do Commercio, 15 de julho de 1874, quinta coluna).

1876 – Gravuras do livro Do Amazonas ao Madeira foram publicadas na revista Illustração Brasileira, fundada pelo litógrafo alemão Henrique Fleuiss (1823-1882) e muito importante na história da imprensa no Brasil. Seu modelo eram as revistas francesa L´Illustration e a inglesa The Illustrated London News. Para Joaquim Marçal Ferreira de Andrade, um dos curadores do portal Brasiliana Fotográfica e coordenador da BN Digital, as páginas do artigo de Franz Keller-Leuzinger foram um marco na história do projeto gráfico das páginas das revistas ilustradas do Brasil, “mesmo considerando-se que as matrizes eram alemãs”(Illustração Brasileira1º de julho e 15 de julho de 1876).

 

Kellerlivro

 

kellerlivro1

 

 

 

Em Karlsruhe, na Alemanha, dom Pedro II (1825 – 1891), durante sua segunda viagem à Europa, encontrou-se com Franz  Keller (Novo e completo Índice Cronológico da História do Brasil). Na ocasião, Franz, que vivia na época de seus trabalhos artísticos, escreveu uma carta ao monarca, na qual expunha seus planos para o futuro em um possível retorno ao Brasil. Dentre seus projetos, pedia o monopólio para explorar o sal no Paraná e se voluntariava para intermediar a venda da pólvora da Alemanha para o Brasil.

Voltando desse modo outra vez as belas praias da Terra de Santa Cruz, isto é, acompanhando em pessoa um carregamento de pólvora e se necessário fosse de armamento ao Rio de Janeiro. V. M. I. dignasse talvez de encarregar-me outra vez com trabalhos técnicos como antigamente. Me seja permitido, afora os trabalhos de exploração dos rios, alinhamento de estradas e caminhos de ferro e o levantamento de mapas geográficos, citar a elaboração de projetos de abastecimento da capital com água potável, que dia a dia fica mais urgente“.

Carta de Franz Keller-Leuzinger a D. Pedro II, 29 de julho de 1876.

Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional

 

Parece que esses projetos nunca se realizaram.

Tanto ele como seu pai eram sócios correspondentes do Instituto Politécnico Brasileiro (Revista do Instituto Politécnico Brasileiro, outubro de 1876).

1877 – Foi publicado, no primeiro número do jornal O Vulgarisador, a imagem do encontro de Franz com os índios Caripunas, do livro Do Amazonas ao Madeira (O Vulgarisador, 1ª edição, 1877).

 

 

 “Eram criaturas fortes, bem conformadas e de estatura mediana; traziam pendentes comprimidos cabelos pretos; um dos homens apenas usava-os enrolados em trança. Um dente de anta atravessava-lhes as pontas das orelhas, e tinha, além disto, em outro buraco na separação de nariz, um pequeno molho de penas encarnadas de tucano. Não traziam armas, a esta circunstancia junto à presença de uma de suas mulheres na embarcação, respondia-nos pela benevolência de suas intenções” (O Vulgarisador, 1ª edição, 1877).

 

 

Sobre o livro, o editor de O Vulgarisador, o poeta, escritor e jornalista português Augusto Emilio Zaluar (1826 – 1882), comentou: “deve interessar a todos que ligam a verdadeiro apreço aos trabalhos desta natureza, que, infelizmente, ainda tanto escasseiam entre nós”. Ele emigrou para o Brasil, em 1849, e, sete anos depois, naturalizou-se cidadão brasileiro. Em 1876, recebeu a comenda da Ordem da Rosa e era amigo de escritores como Machado de Assis (1839 – 1908) e José de Alencar (1829 – 1877). Colaborou em diversos periódicos como A ÉpocaEspelho e Álbum SemanalO Vulgarizador circulou entre 1877 e 1881, no Rio de Janeiro. Seus livros mais conhecidos são Peregrinações pela Província de São Paulo (1860-1861) (1862) e Doutor Benignus (1875). Este último é considerado a primeira ficção científica brasileira.

 

 

Falecimento de Joseph (José) Keller (1811 – 1877).

Década de 1880 - Durante essa década, Franz Keller, esteve no Brasil, mas voltou à Alemanha.

1881 - Aquarelas de Joseph Keller fizeram parte da exposição História do Brasil, da Biblioteca Nacional.

1889 – Franz Keller continuava sendo sócio correspondente do Instituto Politécnico Brasileiro (Revista do Instituto Politécnico Brasileiro, 1889).

1890 - Franz Keller-Leuzinger faleceu em Munique, na Alemanha, em 18 de julho de 1890.

 

Roteiro da Expedição à Amazônia segundo o Relatório da exploração do rio Madeira na parte compreendida entre a cachoeira de Santo Antônio e a barra do Mamoré

 

Mapa desenhado por Franz Keller-Leuzinger reproduzindo o percurso de sua viagem, no livro Do Amazonas ao Madeira

Mapa desenhado por Franz Keller-Leuzinger reproduzindo o percurso de sua viagem, no
livro Do Amazonas ao Madeira

 

1967

10 de outubro – Foi assinada pelo governo imperial uma portaria incumbindo os engenheiros Franz e Joseph Keller em de explorar o rio Madeira na parte encachoeirada dele, desde Santo Antonio até a barra do rio Mamoré, e de elaborar os projetos mais apropriados para o melhoramento dessa importante via de comunicação com a província de Mato Grosso e a república da Bolívia.

15 de novembro – A expedição parte do Rio de Janeiro. Além dos Keller, embarcaram no paquete Paraná o fotógrafo Christoph Albert Frisch (1840 – 1918), a esposa e a irmã de Franz, repectivamente, Sabine Christine Leuzinger (1842-1915), filha do fotógrafo e editor suíço Georges Leuzinger (1813 – 1892); e Pauline.

1º de dezembro – Chegada em Belém.

10 de dezembro – Chegada em Manaus, a bordo do vapor Belém. A expedição levava 32 volumes. O governador do Amazonas, José Coelho da Gama e Abreu, o barão de Marajó (1832 – 1906), os avisou que a subida das cachoeiras e o estudo do rio das enchentes difícil e penoso. Fizeram então o levantamento. O governador os encarregou de fazer um levantamento de parte da planta do Rio Negro e da cidade de Manaus. O ajudante José Manoel da Silva fez o levantamento da planta de Manaus. Devido à falta de remeiros, o trabalho do Rio Negro não pode ser realizado. Foi feito então um projeto e orçamento para a reconstrução de uma ponte manauara que estava em ruínas.

 

 1868

 

9 de fevereiro – José Coelho da Gama e Abreu, o barão de Marajó (1832 – 1906) foi sucedido no governo do Amazonas por Jacinto Pereira do Rego que não atendeu às solicitações necessárias para a expedição: nem forneceu o número de guardas nem o vapor Jurupensen que poderia ter levado o pessoal e o trem da expedição até Santo Antônio.

fevereiro / maio – Com o propósito de levar a cabo a missão, procuraram o vice-cônsul da Bolívia, Ignacio Araus, que encontrava-se em Manaus. Ele ofereceu toda a ajuda necessária e falou de um comerciante boliviano que iria para o Pará e, de lá, para a Bolívia. Dessa forma uma comissão ao mando do governo imperial seguiu viagem sob os auspícios de um particular.

Compraram, em Serpa, uma canoa de lotação de 300 arrobas mal construída e em mal estado por não haver outra, do major Dalmazo de Souza Barriga.

30 de maio – A comissão Keller partiu de Serpa, no Amazonas, atrás do comerciante boliviano, com sete tripulantes quando a canoa demandava ao menos 12. A embarcação levava mantimentos para 4 meses, ferramentas para a construção e conserto de canoa, instrumentos de medição, armamentos, toldos e barracas.

9 de junho – Chegada à Borba com menos dois remeiros, que haviam fugido.

10 a 13 de junho – Passaram por Sapucaia-oroca, dos índios Mura; a Ilha das Araras e pela barra do rio Aripuanã.

madrugada de 14 para 15 de junho – Conserto de uma canoa, que perigava afundar.

15 de junho – Passaram pelas pedras de Aruá.

18 de junho – Chegaram ao engenho de Ignacio Araus, onde o comerciante boliviano os aguardava com impaciência. Transferiram a carga para uma canoa mais apropriada.

21 de junho – Continuaram a viagem. A comitiva tinha 70 índios bolivianos das missões do Mamoré como remeiros e pilotos de sete canoas e de oito brancos.

30 de junho – Encontraram uma família de índios Mura. Por alguns dias, seguiram a expedição. Compraram tartarugas dos índios.

início de julho – Acima de um lugar denominado Três Casas visitaram a barraca de alguns seringueiros bolivianos que com os índios Moxos exploravam a resina.

5 de julho – Chegaram ao Crato, uma estância para a criação de gado. Lá se encontrava o destacamento de Santo Antônio que, nessa época do ano, princípio da estação de chuvas, se retirava de Santo Antônio para um lugar mais salubre. Foram recebidos com cordialidade pelo comandante do destacamento que os apresentou ao dono do lugar, o capitão Tenório.

10 a 15 de julho – Passaram à Ilha das Abelhas, à barra do Pirapitanga e a do Jamary, muito rica em peixes mas infestada pelas febres de caráter maligno.

16 de julho – Chegaram à Ilha dos Mutuns e à praia dos Tamanduás, onde, no mês de setembro, milhares de tartarugas vêm desovar. Na mesma época, seringueiros e pescadores vêm para o local, onde juntam os ovos das tartarugas para a fabricação de manteiga e levam tartarugas, causando grande destruição.

Chegada à Cachoeira de Santo Antônio. Foi necessário descarregar as canoas e transportar tudo para 450 metros acima dos rochedos da margem esquerda..

18 de julho – Chegaram na correnteza dos Macacos da qual já se descobre a fumaça que levanta o salto do Theotônio.

22 de julho – Chegaram à Cachoeira dos Morrinhos, que tinha dois saltos distintos.

25 de julho – Entre Morrinhos e o Caldeirão do Inferno encontraram canoas construídas com cascas de Jatubá pelo índios Caripunas, que habitavam aquela altura do rio. Foram convidados por eles para visitarem suas malocas e foram presenteados com raízes de mandioca e milhos em espiga. Ofertaram aos índios facas, tesouras e anzóis. Dias depois, encontraram outros Caripunas, de quem compraram uma anta e um porco do mato. Esses encontros transcorreram, segundo o relatório da expedição, sempre em um clima de amizade e harmonia.

26 de julho – Chegaram à parte inferior da perigosa Cachoeira do Caldeirão do Inferno. Muitas cruzes rodeavam o local, onde diversos barcos haviam naufragado e pessoas morrido de febres malignas. O engenheiro peruano Maldonado foi uma das vítimas de um naufrágio na região. Um dos índios remeiros da comissão Keller faleceu no local devido a uma inflamação intestinal.

27 de julho – Avistaram os morros ao pé do Salto do Girão. Durante quatro dias foi feito o transporte das cargas e a varação das canoas.

31 de julho e 1º de agosto – Continuaram a viagem e chegaram a Pedras de Amolar, nome dado ao local por navegantes devido às camadas de gres argiloso (arenito). À tarde, chegaram à correnteza mais forte dos Três Irmãos, com uma  queda de menos de um metro.

3 e 4 de agosto – Chegada à Cachoeira do Paredão, com uma queda divida em duas partes.

5 de agosto – Chegada à Cachoeira Pederneira, assim chamada devido a presença de veias de quartzo nas fendas do rochedo. Rio acima, a cacheira mais próxima era a das Araras. Pouco acima da Pederneira, se acha à margem esquerda a barra do rio Abuná.

9 a 15 de agosto – Chegaram à Cachoeira do Ribeirão onde ficaram até dia 15. Ela é formada por cinco saltos. Foi observado que os riscos das pedras em um dos saltos formam uma paralela interessante com a representação tosca de objetos celestes e de animais nos rochedos do Orenoco, descritos por Humboldt.

15 a 18 de agosto – Chegaram à Cachoeira do Madeira e à Cachoeira das Lages.

19 de agosto – Chegada ao Salto das Bananeiras. A passagem do salto durou dois dias, as canoas tiveram que ser descarregadas e transportadas por cima dos rochedos.

21 a 22 de agosto – Após uma seca extraordinária, chuva forte e queda da temperatura para 11º.

23 de agosto – Chegada à Cachoeira do Guajará-Guassu. As cargas foram transportadas por terra e as canoas por água a sirga (puxadas por cordas).

24 de agosto – Chegada à Cachoeira Guajará-Mirim. Encontraram 10 canoas bolivianas carregadas com couros e sebo, Por seu dono, de Santa Cruz de la Sierra, enviaram ofícios e cartas para o Rio de Janeiro e para o Pará. No mesmo dia, chegaram à barra do Ribeirão da Paca Nova, ao pé da serra homônima. As canoas estavam quase todas defeituosas. Foram tiradas da água e calafetadas.

1º de setembro – A expedição chegou na junção do rio Mamoré com o Guaporé, onde habitava uma tribo indígena. Seguiram para o Serrito, sítio do brasileiro Antônio de Barros Cardoso, que morava na Bolívia há cerca de 15 anos e recebeu a expedição com a maior afabilidade. Ele já havia ajudado anteriormente, no início da década de 1850, o explorador Lardner Gibbon (1820 – 1910), tenente da Marinha dos Estados Unidos. Ele acompanhou a expedição até Exaltacion de la Santa Cruz, na Bolívia, uma antiga missão dos jesuitas.

10 de setembro – Chegada a Exaltacion de la Santa Cruz, onde Franz foi recebido pelas autoridades bolivianas. Com o prefeito da cidade, A. Morant, conversou sobre a o engajamento de índios remeiros para integrar a expedição. A essa altura já havia sido feita a aquisição de canoas e mantimentos.

15 de outubro – Partida para o sítio do Serrito, onde permaneceram até dia 19 de outubro. O comboio era formado por cinco embarcações de diferentes tamanhos – uma galeota, duas ubás, uma montaria e uma igarité – com uma tripulação total de 32  remeiros.

21 de outubro – Chegada à barra do Mamoré, onde ficaram dois dias medindo o volume cúbico das águas dos rios Mamoré e Guaporé.

24 de outubro – Estavam nas Ilhas Cavalo Marinho onde iniciaram uma medição detalhada com o micrômetro. À noite, houve uma tempestade.

25 de outubro – Realização da exploração e sondagem do rio Guajará-Mirim.

27 de outubro –  Passaram o Salto das Bananeiras e, devido ao mau tempo, as embarcações chegaram a encostar e um rochedo. Alguns dos índios assim como um dos engenheiros da expedição tiveram uma febre intermitente e foram tratados com sulfato de quinino. Terá sido Franz o engenheiro já que se sabe que ele provavelmente contraiu malária durante a expedição? Fazia muito calor e à noite houve um temporal.

30 de outubro – Haviam chegado com a medição até a Cachoeira do Pao-Grande.

2 a 7 de novembro – Estavam na barra do rio Beni, onde entraram para realizar a medição de suas águas. Passaram pela Cachoeira do Madeira, pela passagem do Ribeirão, pelos Periquitos e pelas Araras. No dia 7, devido às chuvas, foram obrigados a parar e armar os toldos e as barracas.

8 de novembro – Chegada ao Paredão.

11 e 12 de novembro – Passaram por Três Irmãos e pelo Salto do Girão.

13 a 15 de novembro – Passaram pelo Caldeirão do Inferno e reencontraram os índios Carapunas. Encontram também outra tribo indígena. Uma das canoas da expedição quase naufragou.

16 de novembro – Passaram pela barra do Jassiparaná e chegaram, à tarde, à Cachoeira dos Morrinhos.

17 e 18 de novembro – Chegaram ao Salto do Theotônio.

19 e 20 de novembro – Passaram pela correnteza dos Macacos e pela Cachoeira de Santo Antônio.

21 de novembro – Chegada ao Crato, primeiro ponto onde se encontram alguns recursos. Deixaram com o comandante do destacamento de Santo Antônio uma das ubás para ser devolvida ao brasileiro Antônio de Barros Cardoso, a quem pertencia.

25 de novembro – Passaram o Manicoré e chegaram ao sítio de J. Arans, onde deixaram uma das embarcações e parte da tripulação. Seguiram viagem com três canoas. Na aldeia dos Muras fizeram uma medição do volume cúbico das águas do rio Madeira.

26 de novembro – Chegaram à vila de Borba.

30 de novembro – Chegada a Serpa. Remeteram as canoas ao major Damazo de Souza Barriga e deram conhecimento desse ato ao presidente da província.

Passaram em Manaus onde entregaram no depósito do trem bélico armamentos e utensílios. Encontraram-se com o presidente da província.

14 de dezembro – Chegada no Pará.

 

1969

4 de janeiro – Chegada ao Rio de Janeiro.

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Fernando Skarke (1858 – 1935), Fotógrafo da Casa Imperial

O fotógrafo austríaco Ferdinand (Fernando) Adolf Skarke (1858 – 1935) veio para o Brasil com seus pais Johann e Theresa Skarke. Seu pai imigrou para trabalhar em Campinas em obras de engenharia hidráulica. Já na década de 1880, Fernando possuía um ateliê fotográfico em Piracicaba. Em novembro de 1886, dom Pedro II (1825 – 1891)  e dona Teresa Cristina (1822 – 1889) fizeram uma visita à cidade e, no mês seguinte, em 14 de dezembro de 1886, o imperador concedeu a Fernando o título de Fotógrafo da Casa Imperial. Acredita-se, até o momento, que ele tenha sido o único da província de São Paulo a receber essa distinção. De temperamento alegre e comunicativo, tinha vários amigos como, por exemplo, o poeta santista José Martins Fontes (1884-1937) e o fotógrafo Conrado Wessel (1891 – 1993). Só saiu do Brasil, já idoso, para visitar Viena.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Skarke disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Por volta de 1888, foi para Santos onde teve estabelecimentos fotográficos em três diferentes endereços: rua General Jardim, 80; na Praça da República, 16; e na rua São Leopoldo, 14. Na virada do século XIX para o XX, Santos prosperava e a demanda por fotografias na cidade aumentava. Os profissionais disputavam a freguesia local e o ateliê de Skarke, na Praça da República, era o mais luxuoso da cidade: montado com todo o capricho, tendo um magnífico e espaçoso salão, com excelente luz; dispõe também das melhores e mais modernas máquinas, tendo uma grande variedade de ornamentos e fundos, tanto paisagens, como de salão, e mobília.

 

 

Segundo sua filha Mellita (1894 – ?), Skarke emulsionava papéis fotográficos com produtos químicos, usava albumina de ovo e nos dias ensolarados distribuía caixas de madeira com negativos de vidro e papel para serem sensibilizados pela luz natural. O sistema de iluminação natural do estúdio era composto por uma série de janelas de vidro, incluindo partes altas do telhado, que eram recobertas por cortinas em trilhos. Ajustes eram feitos para obter-se a iluminação desejada.

Sua neta Elisa Dias de Toledo Pitombo, filha de Mellita, relatou que Fernando teria feito fortuna produzindo retratos de famílias de imigrantes, principalmente, de comerciantes portugueses abastados que gostavam de enviar esses registros para seus parentes. “Com a fotografia ele ganhou muito dinheiro e morou num palacete que depois virou hotel, a casa começava na rua da praia e ia até o morro“.

Em 1890, Skarke casou-se com a alemã Meta Gesine. O primeiro filho do casal faleceu ainda bebê. A primogênita, Melitta, nasceu na Alemanha, e, os demais, em Santos:  Thereza (1896 – ?), Hugo Fernando (1898 – 197?), que o sucedeu na Photo Skarke; Regina (c. 1900 – ?) e Erna (c. 1902 – ?).

Faleceu, vítima de arteriosclerose, em 18 de abril de 1935, aos 76 anos, em São Paulo, na casa de seu filho Hugo, à rua Tupi, no bairro de Santa Cecília. Foi enterrado no Cemitério do Redentor.

 

Fernando Skarke. Hugo Skarke, c. 1905 / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

Fernando Skarke. Hugo Skarke, c. 1905 / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

 

Cronologia de Fernando Skarke (1858 – 1935)

 

 

1858 - Ferdinand (Fernando) Adolf Skarke nasceu em 17 de outubro de 1858, filho de Johann e Theresa Skarke. Em sua certidão de óbito consta que ele teria nascido na Tchecoslováquia embora, segundo seu bisneto Luiz Henrique Pitombo, a família sempre tenha considerado a Áustria como sua terra natal. O pai de Fernando Skarke imigrou para o Brasil, onde trabalhou em obras de engenharia hidráulica em Campinas, no estado de São Paulo.

1886 – Fernando Skarke possuía um ateliê fotográfico em Piracibaca. Dom Pedro II(1825 – 1891) e dona Teresa Cristina (1822 – 1889) visitaram a cidade em novembro de 1886. Skarke presenteou o imperador com uma fotografia panorâmica da cidade, montada a partir da união de imagens de várias chapas. Ficaram hospedados na casa do empresário e um dos fundadores da Companhia Ituana de Navegação, nos rios Tietê e Piracicaba, Estevão Ribeiro de Souza Rezende (1840 – 1909). Ele também foi o fundador do Engenho Geral de Piracicaba, em 1881, além de escritor e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Por ter lutado na Guerra do Paraguai foi agraciado com a Ordem de Cristo. Também participaram da visita imperial o ministro da Agricultura, Antônio da Silva Prado (1840 – 1929); e o presidente da Província de São Paulo, Antônio de Queirós Teles (1831 – 1888) (Correio Paulistano, 13 de novembro de 1886, primeira coluna).

 

Pedro II e TEresa Cristina em Piracicaba, 1886. Piracicaba, SP / Acervo de Luiz henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

Fernando Skarke. Pedro II e Teresa Cristina em Piracicaba, 1886. Piracicaba, SP / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

Em 14 de dezembro de 1886, Skarke foi agraciado pelo imperador com o título de Fotógrafo da Casa Imperial, tendo sido, provavelmente, o único da província de São Paulo a receber a condecoração. Abaixo, estão reproduzidos o envelope e a carta da concessão do título, do acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto de Skarke.

 

skarketitulo1

 

skarketitulo

Envelope e carta da concessão do título de fotógrafo da Casa Imperial concedido a Fernando Skarke por dom Pedro II / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

1887 – Skarke produziu três vistas fotográficas da enchente do rio Piracicaba que, na ocasião, apresentou um aspecto tão formidável e pitoresco ( L´Italia, 15/16 de janeiro de 1887, terceira colunaJornal do Commercio, 22 de janeiro de 1887, última coluna).

Neste mesmo ano, Skarke fotografou o bebê Emilia Diehl Muller, em Piracicaba (Site Coisas Antigas):

 

 

c. 1888 – Em Santos, seu estabelecimento fotográfico ficava na rua General Jardim, 80.

1890 – Casou-se, em São Paulo, com a alemã, de Bremen, Meta Gesine, que trabalhava como preceptora dos filhos de um casal abastado em Piracicaba. Nos primeiros anos dessa década, o casal teve o primeiro filho, que faleceu. 

 

Fernando e Skarke / Acervo de Luiz Henrique Skarke, bisneto do fotógrafo

O casal Fernando Skarke e Meta Gesine / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

1891 – Em 1891, Verano Alonso enviou seu retrato, produzido por Fernando Skarke, para José Joaquim de Miranda. No verso do cartão, Skarke anuncia “aparelhos especiais para grupos“, “novidades para retratos de crianças” e informa que “conserva-se chapas para reproduções e tendo as mesmas um abatimento de 25%“.

 

 

 

1892 – Fez propaganda de suas novas instalações, dotadas de “um magnífico e espaçoso salão, com excelente luz”, além de máquinas modernas e vários fundos, entre eles as paisagens” (Folha da Tarde, 22 de março de 1892). Na ocasião, seu ateliê ficava na Praça da República, 16, em Santos.

 

Verso de um cartão imperial, de Fernando Skarke / Acervo de Marjorie C.F. Medeiros)

Verso de um cartão de Fernando Skarke / Acervo de Marjorie C.F. Medeiros)

 

 

1894 - Meta decidiu ter o segundo filho junto à mãe, Gesine Schwarting, na Alemanha. Em Lesum, perto de Bremen, nascimento da filha primogênita do casal, Melitta. Um ano depois, as três vieram para o Brasil.

Todos os demais filhos de Skarke nasceram em Santos: Thereza (1896 – ?), Hugo Fernando (1898 – 197?), Regina (c. 1900 – ?) e Erna (c. 1902 – ?).

 

Os cinco filhos de Fernando e Meta Gersine Skarke, c. 1905 / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

Fernando Skarke. Os cinco filhos de Fernando e Meta Gersine Skarke, c. 1905 / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

1908 a 1911 - Seu ateliê, em Santos, ficava na rua São Leopoldo, 14. Nessa mesma época, além da Société Photographique Internacional, atuavam na cidade outros fotógrafos como Carlos W. Weize (18? – 19?), Gustavo Paiva (18? – 19?), Emílio Gottschalk  (18? – 19?), o alemão Hermann Eckman (18? – 19?) e J. Marques Pereira (18? – 19?) –  no Almanak Laemmert o nome deste último fotógrafo aparece como J. Moraes Pereira (Almanak Laemmert, 1908, última colunaAlmanak Laemmert, 1910, segunda coluna; Almanak Laemmert, 1911, primeira coluna).

 

 

1912 - Skarke fotografou o passe-partout, desenhado pelo apreciado pintor Waldemir Alfaya, das diplomandas de 1911 da Associação Feminina Santista. A imagem foi publicada em A Fita, revista humorística, literária e ilustrada, fundada em 1911 e dirigida por Bento de Andrade e Manoel Pompílio dos Santos (A Fita, 1º de maio de 1912).

 

 

1914 – Fotografou Um almoço de caridade, oferecido, no Natal de 1913, aos presos da Cadeia Pública de Santos, pela Associação das Mães Cristãs (A Fita, 15 de janeiro de 1914).

 

 

Neste ano, durante a Primeira Guerra Mundial, Hugo Fernando (1898 – 197?), sucessor do pai na Photo Skarke, estava estudando, provavelmente, fotografia, na Alemanha.

c. 1930 - A Photo Skarke ficava no Largo Santa Ifigênia, 12, em São Paulo, endereço conhecido por seu comércio sofisticado, frequentado pelas famílias do bairro Campos Elísios.

1931 - Uma fotografia realizada pela Photo Skarke da feminista Maria Prestia (? – 1988) foi enviada por ela a então presidente da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, a cientista Bertha Lutz (1894 – 1976).

 

 

1935 - Fernando Skarke faleceu, vítima de arteriosclerose, em 18 de abril de 1935, aos 76 anos, em São Paulo, na casa de seu filho Hugo, à rua Tupi, no bairro de Santa Cecília. Foi enterrado no Cemitério do Redentor.

 

Fernando Skarke. Erna, sua filha, c. 1905. Santos, SP / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrado

Fernando Skarke. Erna, filha de Fernando Skarke, c. 1905. Santos, SP / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrado

 

A Brasiliana Fotográfica agradece ao bisneto de Fernando Skarke, Luiz Henrique D. T. Pitombo que, generosamente, forneceu informações importantes acerca da Photo Skarke, além de ter cedido imagens para essa publicação.

Agradecimentos também à pesquisadora Maria Isabel Lenzi e à arquivista Daniella Gomes dos Santos, ambas do Museu Histórico Nacional, que viabilizaram, para essa publicação, a digitalização das imagens da referida instituição e de sua disponibilização no acervo da Brasiliana Fotográfica.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

KOSSOY, Boris. Origens e expansão da fotografia no Brasil : século XIX. Prefácio Boris Kossoy. Rio de Janeiro: Funarte, 1980. 128 p.

FERREZ, Gilberto. A Fotografia no Brasil: 1840-1900 / Gilberto Ferrez; [prefácio por Pedro Vasquez] – 2ª ed. – Rio de Janeiro: FUNARTE: Fundação Nacional Pró-Memória, 1985.

PITOMBO, Luiz Henrique D. T. Fernando Skarke – fotógrafo pioneiro.

Site Câmara de Piracicaba

Site Coisas Antigas

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site Fundação Conrado Wessel

Site Novo Milênio

Site Secretaria de Cultura e Turismo de Piracicaba

VASQUEZ, Pedro Karp. Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho: Companhia Internacional de Seguros: Ed. Index, 1985.

Cronologia de Fernando Skarke (1858 – 1935)

Cronologia de Fernando Skarke (1858 – 1935)

 

 

1858 - Ferdinand (Fernando) Adolf Skarke nasceu em 17 de outubro de 1858, filho de Johann e Theresa Skarke. Em sua certidão de óbito consta que ele teria nascido na Tchecoslováquia embora, segundo seu bisneto Luiz Henrique Pitombo, a família sempre tenha considerado a Áustria como sua terra natal. O pai de Fernando Skarke imigrou para o Brasil, onde trabalhou em obras de engenharia hidráulica em Campinas, no estado de São Paulo.

1886 – Fernando Skarke possuía um ateliê fotográfico em Piracibaca. Dom Pedro II (1825 – 1891) e dona Teresa Cristina (1822 – 1889) visitaram a cidade em novembro de 1886. Skarke presenteou o imperador com uma fotografia panorâmica da cidade, montada a partir da união de imagens de várias chapas. Ficaram hospedados na casa do empresário e um dos fundadores da Companhia Ituana de Navegação, nos rios Tietê e Piracicaba, Estevão Ribeiro de Souza Rezende (1840 – 1909). Ele também foi o fundador do Engenho Geral de Piracicaba, em 1881, além de escritor e sócio do Instituto Histórico e Geográfico de São Paulo. Por ter lutado na Guerra do Paraguai foi agraciado com a Ordem de Cristo. Também participaram da visita imperial o ministro da Agricultura, Antônio da Silva Prado (1840 – 1929); e o presidente da Província de São Paulo, Antônio de Queirós Teles (1831 – 1888) (Correio Paulistano, 13 de novembro de 1886, primeira coluna).

 

Pedro II e TEresa Cristina em Piracicaba, 1886. Piracicaba, SP / Acervo de Luiz henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

Fernando Skarke. Pedro II e Teresa Cristina em Piracicaba, 1886. Piracicaba, SP / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

Em 14 de dezembro de 1886, Skarke foi agraciado pelo imperador com o título de Fotógrafo da Casa Imperial, tendo sido, provavelmente, o único da província de São Paulo a receber a condecoração. Abaixo, estão reproduzidos o envelope e a carta da concessão do título, do acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto de Skarke.

 

skarketitulo1

 

skarketitulo

Envelope e carta da concessão do título de fotógrafo da Casa Imperial concedido a Fernando Skarke por dom Pedro II / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

1887 – Skarke produziu três vistas fotográficas da enchente do rio Piracicaba que, na ocasião, apresentou um aspecto tão formidável e pitoresco ( L´Italia, 15/16 de janeiro de 1887, terceira colunaJornal do Commercio, 22 de janeiro de 1887, última coluna).

Neste mesmo ano, Skarke fotografou o bebê Emilia Diehl Muller, em Piracicaba (Site Coisas Antigas):

 

 

c. 1888 – Em Santos, seu estabelecimento fotográfico ficava na rua General Jardim, 80.

1890 – Casou-se, em São Paulo, com a alemã, de Bremen, Meta Gesine, que trabalhava como preceptora dos filhos de um casal abastado em Piracicaba. Nos primeiros anos dessa década, o casal teve o primeiro filho, que faleceu. 

 

Fernando e Skarke / Acervo de Luiz Henrique Skarke, bisneto do fotógrafo

O casal Fernando Skarke e Meta Gesine / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

1891 – Em 1891, Verano Alonso enviou seu retrato, produzido por Fernando Skarke, para José Joaquim de Miranda. No verso do cartão, Skarke anuncia “aparelhos especiais para grupos“, “novidades para retratos de crianças” e informa que “conserva-se chapas para reproduções e tendo as mesmas um abatimento de 25%“.

 

 

 

1892 – Fez propaganda de suas novas instalações, dotadas de “um magnífico e espaçoso salão, com excelente luz”, além de máquinas modernas e vários fundos, entre eles as paisagens” (Folha da Tarde, 22 de março de 1892). Na ocasião, seu ateliê ficava na Praça da República, 16, em Santos.

 

Verso de um cartão imperial, de Fernando Skarke / Acervo de Marjorie C.F. Medeiros)

Verso de um cartão de Fernando Skarke / Acervo de Marjorie C.F. Medeiros)

 

 

1894 - Meta decidiu ter o segundo filho junto à mãe, Gesine Schwarting, na Alemanha. Em Lesum, perto de Bremen, nascimento da filha primogênita do casal, Melitta. Um ano depois, as três vieram para o Brasil.

Todos os demais filhos de Skarke nasceram em Santos: Thereza (1896 – ?), Hugo Fernando (1898 – 197?), Regina (c. 1900 – ?) e Erna (c. 1902 – ?).

 

Os cinco filhos de Fernando e Meta Gersine Skarke, c. 1905 / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

Fernando Skarke. Os cinco filhos de Fernando e Meta Gersine Skarke, c. 1905 / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrafo

 

1908 a 1911 - Seu ateliê, em Santos, ficava na rua São Leopoldo, 14. Nessa mesma época, além da Société Photographique Internacional, atuavam na cidade outros fotógrafos como Carlos W. Weize (18? – 19?), Gustavo Paiva (18? – 19?), Emílio Gottschalk  (18? – 19?), o alemão Hermann Eckman (18? – 19?) e J. Marques Pereira (18? – 19?) –  no Almanak Laemmert, o nome deste último fotógrafo aparece como J. Moraes Pereira (Almanak Laemmert, 1908, última colunaAlmanak Laemmert, 1910, segunda coluna; Almanak Laemmert, 1911, primeira coluna).

 

 

1912 - Skarke fotografou o passe-partout, desenhado pelo apreciado pintor Waldemir Alfaya, das diplomandas de 1911 da Associação Feminina Santista. A imagem foi publicada em A Fita, revista humorística, literária e ilustrada, fundada em 1911 e dirigida por Bento de Andrade e Manoel Pompílio dos Santos (A Fita, 1º de maio de 1912).

 

 

1914 – Fotografou Um almoço de caridade, oferecido, no Natal de 1913, aos presos da Cadeia Pública de Santos, pela Associação das Mães Cristãs (A Fita, 15 de janeiro de 1914).

 

 

Neste ano, durante a Primeira Guerra Mundial, Hugo Fernando (1898 – 197?), sucessor do pai na Photo Skarke, estava estudando, provavelmente, fotografia, na Alemanha.

c. 1930 - A Photo Skarke ficava no Largo Santa Ifigênia, 12, em São Paulo, endereço conhecido por seu comércio sofisticado, frequentado pelas famílias do bairro Campos Elísios.

1931 - Uma fotografia realizada pela Photo Skarke da feminista Maria Prestia (? – 1988) foi enviada por ela a então presidente da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, a cientista Bertha Lutz (1894 – 1976).

 

 

1935 - Fernando Skarke faleceu, vítima de arteriosclerose, em 18 de abril de 1935, aos 76 anos, em São Paulo, na casa de seu filho Hugo, à rua Tupi, no bairro de Santa Cecília. Foi enterrado no Cemitério do Redentor.

 

Fernando Skarke. Erna, sua filha, c. 1905. Santos, SP / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrado

Fernando Skarke. Erna,  filha de Fernando Skarke, c. 1905. Santos, SP / Acervo pessoal de Luiz Henrique Pitombo, bisneto do fotógrado

 

 

A Brasiliana Fotográfica agradece ao bisneto de Fernando Skarke, Luiz Henrique D. T. Pitombo que, generosamente, forneceu informações importantes acerca da Photo Skarke, além de ter cedido imagens para essa publicação.

Agradecimentos também à pesquisadora Maria Isabel Lenzi e à arquivista Daniella Gomes dos Santos, ambas do Museu Histórico Nacional, que viabilizaram, para essa publicação, a digitalização das imagens da referida instituição e de sua disponibilização no acervo da Brasiliana Fotográfica.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

O centenário da morte de João do Rio (1881 – 1921), o cronista da “belle époque” carioca

Em sua época, Paulo Barreto (1881 – 1921), o João do Rio, era considerado o príncipe dos cronistas brasileiros: “Era um espírito de escol, educado, viajado, e enobreceu, quanto pode, as letras do país conquistando um nome imortal pela glória constante do trabalho (Bahia Illustrada, junho de 1921). Foi o primeiro grande repórter da imprensa brasileira do século XX e sua produção oscilava entre a reportagem e o conto.

Morou, a partir de fins da década de 1910, em uma casa na praia de Ipanema, na rua Vieira Souto, nº 476, registrada por Chapelin (18? – 19?), fotógrafo sobre o qual se sabe muito pouco. Anteriormente, João do Rio morava na rua Gomes Freire, na Lapa. Segundo o jornalista e historiador Raimundo Magalhães Junior (1907 – 1981), a casa deve ter sido adquirida, a preço de propaganda, desse espírito empreendedor o esquecido Raul Kennedy de Lemos (1880 – 1951), fundador da Companhia Construtora Ipanema. João do Rio comprou outra casa para sua mãe, também em Ipanema, na rua Prudente de Moraes, 391.

 

 

Pouco antes, ele havia escrito a crônica Praia Maravilhosa em homenagem ao bairro (O Paiz, 23 de maio de 1917). O título faz uma referência à expressão Cidade Maravilhosa – La Ville Merveilleuse -, nome do livro onde os poemas Amor ao Rio, de autoria da francesa Jane Catulle-Mendès (1867 – 1955), foram publicados em 1913. Ela havia passado uma temporada, de setembro a dezembro de 1911, no Rio de Janeiro, quando se encantou pela cidade (O Paiz, 20 de setembro, quarta coluna; e 6 de dezembro, primeira coluna de 1911).

 

 

Voltando à crônica de João do Rio sobre Ipanema. Nela, ele evidencia seu entusiasmo pela beleza assim como traça o perfil do bairro, ainda recente e pouco habitado. Sobre a crônica, Magalhães Junior comentou que dava a “impressão de um prospecto predial. É claro que não poderia ter sido coisa desinteressada, pois João do Rio não era ingênuo ao ponto de se deixar arrastar por alguém cujo interesse estava perfeitamente caracterizado: criar ambiente favorável à venda de lotes de terreo e de casa a prestações”. Mas tudo indica que os elogios do cronista eram sinceros tanto que pouco tempo depois mudou-se para o bairro.

 

 praia

praia2

praia3

 

Um pouco da história de Ipanema

José Antônio Moreira Filho (1830-1899), o barão e conde de Ipanema, comprou, em 1878, do tabelião e empresário Francisco José Fialho (1820? – 1885), um lote de terras que ia desde a atual rua Barão de Ipanema até o atual Canal do Jardim de Alah. Criou, então, um novo bairro, que batizou de “Villa Ipanema”, em homenagem a seu pai, o primeiro barão e conde de Ipanema, o paulista João Antônio Moreira (1797 – 1879). O nome Ipanema significa em tupi água ruim e foi inspirado por uma das propriedades do barão, em Minas Gerais.

A Villa Ipanema foi inaugurada, em 15 de abril de 1894, pelo barão e por seu sócio José Silva com a presença do prefeito Henrique Valladares, que no mesmo dia inaugurou a ampliação das linhas de bonde da empresa de Ferro Carril do Jardim Botânico, da Praça Malvino Reis, atual Serzedelo Correia, até a ponta da Igrejinha, que era a Igreja de Nossa Senhora de Copacabana, erguida no século XVIII e derrubada em 1918, próxima à rua Francisco Otaviano (Gazeta de Notícias, 16 de abril de 1894, terceira coluna). Em 26 de abril de 1894, foi assinada a ata de fundação definitiva do bairro Villa Ipanema, com a presença do então prefeito Henrique Valadares e do barão e conde de Ipanema, que lançou, em seus terrenos, um enorme loteamento, berço do que é ainda hoje um dos bairros mais valorizados da cidade do Rio de Janeiro. No princípio, foram abertas 13 ruas, uma avenida e duas praças no areal sem valor, tomado por pitangueiras, cajueiros e araçazeiros. Até hoje essas vias são as mais importantes artérias do bairro. Entre elas, a avenida Vieira Souto e as ruas Prudente de Moraes e Visconde de Pirajá, essa última batizada inicialmente de Vinte de Novembro. Ipanema conservou a denominação de vila até a década de 20. Apesar de alguns autores considerarem outras datas, o dia 26 de abril de 1894 é a data mais aceita como marco de referência da fundação do bairro. Ipanema tornou-se, ao longo do século XX, reduto de artistas, intelectuais, jornalistas e boêmios, um dos símbolos do comportamento de vanguarda, exportando a moda e os costumes cariocas para o resto do país.

 

Um pouco da vida de Paulo Barreto, o João do Rio (1881 – 1921)

 

 

“Qual de vós já passou a noite em claro ouvindo o segredo de cada rua? Qual de vós já sentiu o mistério, o sono, o vício, as idéias de cada bairro?”

João do Rio em  A Alma Encantadora das Ruas (1908)

 

Carioca, filho do matemático positivista Alfredo Coelho Barreto e da dona de casa Florência Cristóvão dos Santos Barreto, João Paulo Alberto Coelho Barreto nasceu em 5 de agosto de 1881. Em 1899, iniciou sua carreira no jornalismo, tendo colaborado, ao longo de sua vida, em diversas publicações, dentre elas O Paiz, A Noite, A Pátria, Revista Ilustrada, Rio-Jornal e a Gazeta de Notícias, onde ficou de 1903 a 1915, e onde assinou pela primeira vez como João do Rio, pseudônimo pelo qual tornou-se mais conhecido, no artigo O Brasil lê, publicado em 26 de novembro de 1903, uma enquete dos autores preferidos dos cariocas. Teve outros pseudônimos, dentre eles Claude, Caran d’Ache, Joe e José Antônio José. Assinou colunas importantes como “A cidade” (1903 a 1904), “O instante”(1912 a 1916), À margem do dia”(1913 a 1915), “Cinematógrafo” (1907 a 1910), todas na Gazeta de Notícias; “Pall-Mall Rio” (1915 a 1917), em O Paiz; “A Semana Elegante” (1916), na Revista Ilustrada; e “Notas de Teatro” (1918), no Rio-Jornal. Seus mais importantes personagens foram a cidade do Rio de Janeiro e ele mesmo, um dândi nos trópicos.

 

 

Entre 1902 e 1906, o Rio de Janeiro teve como prefeito Francisco Pereira Passos (1836 – 1913) que realizou na cidade uma significativa reforma urbana. Para saneá-la e modernizá-la realizou diversas demolições, conhecidas popularmente como a política do “bota-abaixo”, que contribuiu fortemente para o surgimento do Rio de Janeiro da Belle Époque. Em sua obra, que fundia a crônica com a reportagem, João do Rio escrevia sobre essas transformações, contribuindo para a formação da imagem desse novo Rio de Janeiro.

 

“Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem…É vagabundagem? Talvez. Flanar é a distinção de perambular com inteligência. Nada como o inútil para ser artístico. Daí o desocupado flâneur ter sempre na mente dez mil coisas necessárias, imprescindíveis, que podem ficar eternamente adiadas. “

João do Rio em  A Alma Encantadora das Ruas (1908)

 

Em 1902, tentou ingressar no Itamaraty mas foi recusado pelo Barão do Rio Branco (1845 – 1912)  que justificou a decisão dizendo que as nomeações para a vaga pleiteada por João do Rio na comissão que estava organizando para tratar das questões da fronteira entre Brasil e Colômbia já haviam sido preenchidas por Enéias Martins, que chefiaria a missão. Segundo o professor Renato Cordeiro Gomes em seu livro João do Rio: vielas do vício, ruas da graça, na verdade teria sido recusado por ser “gordo, amulatado e homossexual“. O Brasil perdeu um diplomata e ganhou um notável jornalista/escritor. Sobre o trabalho na imprensa, em sua coluna “Cinematógrafo”, o definiu como “o voluntário cativeiro para o qual não há abolição possível” (Gazeta de Notícias, 10 de maio de 1908, sexta coluna). Produziu para a Gazeta de Notícias, as séries de reportagem  Religiões do Rio , em 1904, e O Momento Literário, em 1905, que foram posteriomente compiladas e publicadas pela Garnier.

Em 12 de agosto de 1910,  tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras, tendo sido recebido por Coelho Neto (1864 – 1934)(Site da ABL).

 

 

Foi o responsável pelo texto do álbum Theatro Municipal do Rio de Janeiro, de 1913, com fotografias produzidas pelo ateliê Photographia Musso, também editor do livro. O teatro, inaugurado em 14 de julho de 1909, é uma das mais importantes salas de espetáculo da América do Sul, seu prédio é um dos mais bonitos e imponentes da cidade e sua história mistura-se à trajetória cultural do Brasil.

 

 

Link para o pdf do álbum Theatro Municipal do Rio de Janeiro (1913) com texto de Paulo Barreto, o João do Rio, e imagens produzidas pela Photo Musso, também editora do livro.

A Photographia Musso, dirigida por Alfredo Musso, ficava na rua Uruguaiana, nº 12 (Almanak Laemmert, 1913, primeira coluna). Alfredo era irmão de Luis Musso (18? – 1908), que havia sido sócio do estabelecimento fotográfico do português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924), onde Alfredo havia trabalhado (Jornal do Commercio, 1º de fevereiro de 1897, penúltima colunaO Paiz, 19 de outubro de 1900, sexta coluna). Luis Musso havia sido o primeiro operador da Companhia Photographica Brazileira, dirigida pelo fotógrafo Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897), desde sua fundação, em 1892, até 31 de março de 1894 (Jornal do Commercio, 13 de fevereiro de 1898, na última coluna). Em 1904, tendo deixado de trabalhar na Photographia Guimarães, Alfredo e Luis Musso e Julio D. Beltgen anunciaram a abertura de um novo estabelecimento fotográfico, na rua Uruguaiana, nº 10 (Gazeta de Notícias, 21 de fevereiro de 1904, terceira coluna). Em 1905, os irmãos Musso estavam estabelecidos sob a razão social L. Musso & C, que também se anunciava como Photographia Brazileira. Quando o álbum do Theatro Municipal foi publicado Luis Musso já havia falecido (O Paiz, 1º de agosto de 1908, sexta coluna).

Voltando a João do Rio. Em 8 de agosto de 1916, sob o pseudônimo José Antônio José, publicou na coluna “Pall-Mall-Rio” a crônica Clic! Clac! O fotógrafo!, em que discorreu sobre a “loucura da fotografia” (O Paiz, 8 de agosto de 1916, sexta coluna).

 

 

Em 1917, foi um dos fundadores e passou a dirigir a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais – Sbat. Em 1920, fundou o jornal A Pátria, onde defendia os interesses da colônia portuguesa, que seria prejudicada pela nacionalização da pesca. Por seu posicionamento, foi muitas vezes ofendido, tendo sido surrado por nacionalistas – o capitão de fragata Frederico Vilar e cinco jovens oficiais – quando almoçava sozinho em um de seus restaurantes preferidos, o da Brahma (O Paiz, 3 de outubro de 1920, terceira coluna).

Faleceu em 23 de junho de 1921, quando teve um enfarte dentro de um táxi na rua Bento Lisboa (O Paiz, 24 de junho e 25 de junho de 1921). Foi velado na redação do jornal A Pátria. Seu enterro, um dos mais concorridos realizados no Brasil, só comparável aos do presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954), da cantora Carmen Miranda (1909 – 1955) e do estudante Edson Luis (1950 – 1968), foi acompanhado por cerca de 100 mil pessoas. Seus restos mortais estão sepultados em uma tumba de mármore italiano e bronze, no Cemitério de São João Batista e é considerado um dos mais belos trabalhos de arte funerária no Rio de Janeiro (O Paiz, 27 de junho de 1921, terceira colunaGazeta de Notícias, 27 de junho de 1921; O Paiz, 28 de junhvido de 1921, primeira coluna). Sua biblioteca foi doada por sua mãe ao Real Gabinete Português de Leitura.

João do Rio deixou uma vasta obra e entre seus livros mais importantes, destacam-se  A alma encantadora das ruas (1908),  Vida vertiginosa (1911) e Rosário da Ilusão (1919). Como teatrólogo, seu maior sucesso foi A bela madame Vargas, que estreou em 22 de outubro de 1912, no Teatro Municipal (Correio da Manhã, 22 de outubro de 1922Revista da Semana, 26 de outubro de 1912). Outras de suas peças foram Chic-chic (1906) e Clotilde (1907). Traduziu obras do escritor e dramaturgo irlandês Oscar Wilde (1854 – 1900).

 

 

rosario

vidaverti

 

Ao longo de sua vida viajou quatro vezes à Europa e conviveu com importantes personalidades do mundo cultural e artístico, dentre elas a bailarina Isadora Duncan (1877 – 1927), que esteve no Rio de Janeiro, em 1916 (Revista da Semana, 9 de setembro de 1916). ”…relatos de Gilberto Amado revelam a cumplicidade dos dois (Isadora e João do Rio): conversavam em várias línguas e não se desgrudavam. Isadora fez até uma apresentação exclusiva para o amigo e seu protegido na Cascatinha da Tijuca: tirou não só o sapato mas a roupa inteira, bailando envolta em filó”Em suas memórias, Isadora diz: ”Aí conheci o poeta João do Rio, muito querido pela mocidade do Rio, onde aliás todos parecem poetas. Quando passeávamos, éramos seguidos pela rapaziada que gritava: ‘Viva Isadora!’, ‘Viva João do Rio!”’ (O Globo, 13 de abril de 1996).

 

 

Apesar de sua grande popularidade, segundo seu biógrafo, João Carlos Rodrigues,  João do Rio “teve muitos desafetos que o atacavam por sua afrodescendência e homossexualidade“. Logo no primeiro número de O Gato, Álbum de Caricaturas, em julho de 1911, revista desenhada por Seth (1891 – 1949) – pseudônimo de Álvaro Martins – e Hugo Leal – pseudônimo do português Vasco Lima (1883 – 1973) – foi caricaturado ao lado do poeta Olavo Bilac (1865 – 1918) apreciando uma escultura do imperador Heliogábalo nu. Na legenda, um suposto diálogo entre os dois escritores, que haviam estado recentemente na Itália: “- Soberbo, hein? – Que delicioso seria se todos os homens fossem assim!”.

 

 

O Globo, 13 de abril de 1996

O Globo, 13 de abril de 1996

 

A professora e feminista portuguesa Mariana Coelho, personagem do artigo Série “Feministas, graças a Deus!” IX – Mariana Coelho (1857 – 1954), a “Beauvoir tupiniquim”, publicou uma homenagem a João do Rio, na ocasião da morte do escritor:

 

 

joaodoriofim

 

Link para a crônica João do Rio na vitrina, de autoria de Carlos Drummond de Andrade (1987 – 1902), publicada no Jornal do Brasil de 13 de agosto de 1981, na ocasião do centenário de nascimento de João do Rio, quando a Biblioteca Nacional, uma das fundadoras do portal Brasiliana Fotográfica, realizou uma exposição em homenagem ao aniversariante.

 

 

A Rua

João do Rio

Eu amo a rua. Esse sentimento de natureza toda íntima não vos seria revelado por mim se não julgasse, e razões não tivesse para julgar, que este amor assim absoluto e assim exagerado é partilhado por todos vós. Nós somos irmãos, nós nos sentimos parecidos e iguais; nas cidades, nas aldeias, nos povoados, não porque soframos, com a dor e os desprazeres, a lei e a polícia, mas porque nos une, nivela e agremia o amor da rua. É este mesmo o sentimento imperturbável e indissolúvel, o único que, como a própria vida, resiste às idades e às épocas. Tudo se transforma, tudo varia o amor, o ódio, o egoísmo. Hoje é mais amargo o riso, mais dolorosa a ironia. Os séculos passam, deslizam, levando as coisas fúteis e os acontecimentos notáveis. Só persiste e fica, legado das gerações cada vez maior, o amor da rua.

A rua! Que é a rua? Um cançonetista de Montmartre fá-la dizer:

         Je suis la rue, femme éternellement verte,

         Je n’ai jamais trouvé d’autre carrière ouverte

         Sinon d’être la rue, et, de tout temps, depuis

         Que ce pénible monde est monde, je la suis…

(Eu sou a rua, mulher eternamente verde, jamais encontrei outra carreira aberta senão a de ser a rua e, por todo o tempo; desde que este penoso mundo é mundo, eu a sou…)

A verdade e o trocadilho! Os dicionários dizem: “Rua, do latim ruga, sulco. Espaço entre as casas e as povoações por onde se anda e passeia.” E Domingos Vieira, citando as Ordenações: “Estradas e rua pruvicas antigamente usadas e os rios navegantes se som cabedaes que correm continuamente e de todo o tempo pero que o uso assy das estradas e ruas pruvicas.” A obscuridade da gramática e da lei! Os dicionários só são considerados fontes fáceis de completo saber pelos que nunca os folhearam. Abri o primeiro, abri o segundo, abri dez, vinte enciclopédias, manuseei in-fólios especiais de curiosidade. A rua era para eles apenas um alinhado de fachadas, por onde se anda nas povoações…

Ora, a rua é mais do que isso, a rua é um fator da vida das cidades, a rua tem alma! Em Benares ou em Amsterdã, em Londres ou em Buenos Aires, sob os céus mais diversos, nos mais variados climas, a rua é a agasalhadora da miséria. Os desgraçados não se sentem de todo sem o auxílio dos deuses enquanto diante dos seus olhos uma rua abre para outra rua. A rua é o aplauso dos medíocres, dos infelizes, dos miseráveis da arte. Não paga ao Tamagno para ouvir berros atenorados de leão avaro, nem à velha Patti para admitir um fio de voz velho, fraco e legendário. Bate, em compensação, palmas aos saltimbancos que, sem voz, rouquejam com fome para alegrá-la e para comer. A rua é generosa. O crime, o delírio, a miséria não os denuncia ela. A rua é a transformadora das línguas. Os Cândido de Figueiredo do universo estafam-se em juntar regrinhas para enclausurar expressões; os prosadores bradam contra os Cândido. A rua continua, matando substantivos, transformando a significação dos termos, impondo aos dicionários as palavras que inventa, criando o calão que é o patrimônio clássico dos léxicons futuros. A rua resume para o animal civilizado todo o conforto humano. Dá-lhe luz, luxo, bem-estar, comodidade e até impressões selvagens no adejar das árvores e no trinar dos pássaros.

A rua nasce, como o homem, do soluço, do espasmo. Há suor humano na argamassa do seu calçamento. Cada casa que se ergue é feita do esforço exaustivo de muitos seres, e haveis de ter visto pedreiros e canteiros, ao erguer as pedras para as frontarias, cantarem, cobertos de suor, uma melopeia tão triste que pelo ar parece um arquejante soluço. A rua sente nos nervos essa miséria da criação, e por isso é a mais igualitária, a mais socialista, a mais niveladora das obras humanas. A rua criou todas as blagues e todos os lugares-comuns. Foi ela que fez a majestade dos rifões, dos brocardos, dos anexins, e foi também ela que batizou o imortal Calino. Sem o consentimento da rua não passam os sábios, e os charlatães, que a lisonjeiam e lhe resumem a banalidade, são da primeira ocasião desfeitos e soprados como bolas de sabão. A rua é a eterna imagem da ingenuidade. Comete crimes, desvaria à noite, treme com a febre dos delírios, para ela como para as crianças a aurora é sempre formosa, para ela não há o despertar triste, e quando o sol desponta e ela abre os olhos esquecida das próprias ações, é, no encanto da vida renovada, no chilrear do passaredo, no embalo nostálgico dos pregões – tão modesta, tão lavada, tão risonha, que parece papaguear com o céu e com os anjos…

A rua faz as celebridades e as revoltas, a rua criou um tipo universal, tipo que vive em cada aspecto urbano, em cada detalhe, em cada praça, tipo diabólico que tem dos gnomos e dos silfos das florestas, tipo proteiforme, feito de risos e de lágrimas, de patifarias e de crimes irresponsáveis, de abandono e de inédita filosofia, tipo esquisito e ambíguo com saltos de felino e risos de navalha, o prodígio de uma criança mais sabida e cética que os velhos de setenta invernos, mas cuja ingenuidade é perpétua, voz que dá o apelido fatal aos potentados e nunca teve preocupações, criatura que pede como se fosse natural pedir, aclama sem interesse, e pode rir, francamente, depois de ter conhecido todos os males da cidade, poeira d’oiro que se faz lama e torna a ser poeira – a rua criou o garoto!

Essas qualidades nós as conhecemos vagamente. Para compreender a psicologia da rua não basta gozar-lhe as delícias como se goza o calor do sol e o lirismo do luar. É preciso ter espírito vagabundo, cheio de curiosidades malsãs e os nervos com um perpétuo desejo incompreensível; é preciso ser aquele que chamamos flâneur e praticar o mais interessante dos esportes – a arte de flanar: É fatigante o exercício?

Para os iniciados sempre foi grande regalo. A musa de Horácio, a pé, não fez outra coisa nos quarteirões de Roma. Sterne e Hoffmann proclamavam-lhe a profunda virtude, e Balzac fez todos os seus preciosos achados flanando. Flanar! Aí está um verbo universal sem entrada nos dicionários, que não pertence a nenhuma língua! Que significa flanar? Flanar é ser vagabundo e refletir, é ser basbaque e comentar, ter o vírus da observação ligado ao da vadiagem. Flanar é ir por aí, de manhã, de dia, à noite, meter-se nas rodas da populaça, admirar o menino da gaitinha ali à esquina, seguir com os garotos o lutador do Cassino vestido de turco, gozar nas praças os ajuntamentos defronte das lanternas mágicas, conversar com os cantores de modinha das alfurjas da Saúde, depois de ter ouvido dilettanti, de casaca, aplaudirem o maior tenor do Lírico numa ópera velha e má; é ver os bonecos pintados a giz nos muros das casas, após ter acompanhado um pintor afamado até a sua grande tela paga pelo Estado; é estar sem fazer nada e achar absolutamente necessário ir até um sítio lôbrego, para deixar de lá ir, levado pela primeira impressão, por um dito que faz sorrir, um perfil que interessa, um par jovem cujo riso de amor causa inveja…

                                                  A alma encantadora das ruas (1908)

 

Caricatura de João do Rio, de Cássio Loredano

Caricatura de João do Rio, de Cássio Loredano

 

Link para o filme sobre a vida de João do Rio, De lá prá cá, parte 1 e parte 2.

Link  para cartas enviadas por João do Rio para o político e pensador português João de Barros (1881 – 1960), publicadas no Correio IMS.

A jornalista Cristiane d´Avila, da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, uma das instituições parceiras do portal, organizou um site textos inéditos de João do Rio onde estão disponibilizadas s 52 colunas “Bilhete” do jornal A Pátria, fundado pelo escritor. Acesse aqui.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANTELO, Raul. João do Rio – O dândi e a especulação. Rio de Janeiro : Livraria Taurus-Timbre Editores, 1989.

COSTA, Luis Ricardo Araújo. O Cinematographo de João do Rio; fotogramas de uma cidade em movimento, trabalho realizado sob a orientação do professor Ricardo Gomes, do Departamento de Comunicação Social da PUC-RJ.

Enciclopédia Itaú Cultural 

GAWRYSZEWSKI, Alfredo (organizador). Imagem: Artefato cultural. Londrina : Eduel, 2017.

GOMES, Renato Cordeiro. João do Rio: vielas do vício, ruas da graças. Rio de Janeiro: Relume-Dumará: Prefeitura, 1996. Série Perfis do Rio, n. 13.

GOMES, Renato Cordeiro. João do Rio. Rio de Janeiro : Agir, 2005.

Hemeroteca da Biblioteca Nacional

MAGALHÃES JUNIOR, Raimundo. A Vida Vertiginosa de João do Rio. Rio de Janeiro : Civilização Brasileira, 1978.

O Globo, 19 de junho de 2021

O Globo, 23 de junho de 2021 – Coluna de Joaquim Ferreira dos Santos.

RODRIGUES, João Carlos. João do Rio: vida, paixão e obra. Rio de Janeiro : Topbooks, 1996.

RODRIGUES, João Gabriel. João do Rio e as representações do Rio de Janeiro: o artista, o repórter e o artifício, trabalho realizado sob a orientação do professor Ricardo Gomes, do Departamento de Comunicação Social da PUC-RJ.

SCHAPOCHNIK, Nelson. João do Rio, um dândi na cafelândia. São Paulo : Boitempo Editorial, 2004.

Site da Academia Brasileira de Letras

Série “Feministas, graças a Deus!” IX – Mariana Coelho (1857 – 1954), a “Beauvoir tupiniquim”

 

Série “Feministas, graças a Deus!” IX – Mariana Coelho (1857 – 1954), a “Beauvoir tupiniquim”

 

“Por que somos feministas? Eis uma pergunta ingênua de que várias vezes temos sido alvo, por parte do sexo masculino. Respondemos: porque é impossível a realização do progresso sem a vitória da evolução; e o nosso fim principal é precisar e fomentar o progresso feminino”.

 

Mariana Coelho foi uma das mais importantes escritoras e intelectuais do Paraná. Portuguesa, nascida em 10 de setembro de 1857, em Sabrosa, Distrito de Vila Real, imigrou para o Brasil, com sua família, em fins do século XIX, tendo naturalizando-se brasileira em 1939. Espírito brilhante, educadora de prestígio, reconhecida por sua competência profissional e erudição, foi diretora do Colégio Santos Dumont, em Curitiba, de 1902 a 1917.

 

 

“O sexo feminino, da mesma forma que o masculino pode, socialmente falando, subir a escada do progresso. Sendo convenientemente preparada, poderá também exercer livremente qualquer profissão. Senhores oposicionistas da emancipação feminina, aguentem e sem protesto, que já nada vale perante a eloquência desta frase profética, cujo conceito em tudo se vê maravilhosamente realizado: le monde marche! [o mundo caminha]”

Diário da Tarde (PR), 1º de março de 1901

Defendeu o direito da mulher ao voto e acreditava na educação como passaporte para a emancipação feminina, tendo dedicado sua vida ao ensino e à literatura. De formação positivista, em sua poesia, em fins do século XIX, criou a metáfora mar de amor, que representaria o amor à humanidade, o desejo do progresso associado à aquisição de cultura e de instrução. Feminista e pacifista, foi uma trabalhadora incansável. Integrava a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF) e, entre 1923 e 1940, trocou várias cartas com Bertha Lutz (1894 – 1973), presidente da FBPF, uma referência dentro do movimento feminista brasileiro, sobretudo na luta pelo voto da mulher. Mariana também mantinha relações com as feministas Maria Sabina Albuquerque (1898-1991) e Maria Amália Bastos de Miranda Jordão, ambas ligadas à federação.

 

“Permitir, hoje, que a mulher permaneça amarrada ao deplorável poste da ignorância equivale a arriscá-la criminosamente à probabilidade de receber em compensação do seu mais nobre e espontâneo afeto o completo aniquilamento da alma – o que quer dizer a sua principal ruína”.

Breviário, agosto de 1900

Em um dos seus ensaios sobre escritoras, a professora Zahidé Luppinaci Muzart (1939 – 2015) a chamou de Beauvoir tupiniquim, em uma alusão à filósofa, escritora e feminista francesa Simone de Beauvoir (1908 – 1986).

 

 

Em 1908, Mariana adotou no Colégio Santos Dumont o Método João de Deus, do pedagogo português João de Deus de Nogueira Ramos (1830 – 1896), a partir do qual aprendia-se em quatro meses a ler e escrever corretamente. Um professor habilitado veio de Lisboa para ministrar aulas do método. Além disso, promovia no colégio saraus artísticos, literários e musicais. Em 1916, o Colégio foi visitado pelo próprio Santos Dumont (1873 – 1932). Posteriormente, Mariana dirigiu a Escola Profissional Feminina República Argentina, onde trabalhou até meados da década de 40, quando se aposentou.

 

 

 

Também em 1908 foi lançado o livro Paraná Mental, de sua autoria, com prefácio do historiador Rocha Pombo (1857 – 1933), sobre os prosadores e poetas do Paraná. Foi impresso pelo governo paranaense para ser apresentado como documento na Exposição Nacional de 1908, no Rio de Janeiro, tendo recebido, no evento, a medalha de prata. Mariana também participou da exposição com delicada manufatura onde sobressaem os bordados brancos e com uma aquarela de flores. Recebeu uma medalha de prata na sessão de Artes Aplicadas.

 

Livro Paraná Mental, de Mariana Coelho

Livro Paraná Mental, de Mariana Coelho

 

 

Em 1933, foi publicado o mais importante de seus livros, A Evolução do Feminismo: subsídios para a sua história, com prefácio de Rocha Pombo, sobre a emancipação da mulher, a mulher na religião, o civismo da mulher na guerra, a ação da mulher na imprensa, nas artes, nas ciências e nas letras, além de um capítulo dedicado à mulher nas diversas modalidades do amor. Fez também uma retrospectiva histórica do feminismo no Ocidente, trazendo à tona nome de mulheres notáveis na luta pelos direitos femininos.

 

Livro A Evolução do Feminino", de Mariana Coelho, relançado em 2002

Livro A Evolução do Feminino”, de Mariana Coelho, relançado em 2002

 

Seus outros livros foram O Discurso (1902)Um Brado de Revolta contra a Morte Violenta (1935), Linguagem (1937),  Cambiantes: contos e fantasias (1940), ilustrados com desenhos do italiano Guido Viaro (1897 – 1971) e prefaciado por Leôncio Correia (1865 – 1950); e a obra póstuma Palestras Educativas (1956). É patrona da Cadeira nº 30 da Academia Paranaense de Poesia e da Cadeira nº 28  da Academia Feminina de Letras do Paraná. Era sócia do Centro de Letras do Paraná e do Centro Paranaense de Cultura Feminina.

Colaborou em diversos jornais brasileiros como A República (PR) e O Beijo; e também em revistas paranaenses como A PennaGaláxiaVitrix O Breviário. Entre 1900 e 1901, assinou a coluna “Chronica da Moda”, na Folha da Tarde do Paraná. Em Portugal, escreveu para os jornais O Comercio de Vila RealJornal da Manhã e A Voz Pública.

 

 Cronologia de Mariana Coelho (1857 – 1954)

 

“Ora, a mulher que apenas sabe ser dona de casa, é incapaz de viver do seu trabalho, não se pode tornar independente – está fatalmente condenada a ser escrava – ou dos parentes ou dos estranhos, quando não consiga uma miserável pensão para não morrer de fome!” 

                                                                                                                                                     A Evolução do Feminismo

 

1857 – Mariana Teixeira Coelho nasceu em Sabrosa, no Distrito de Vila Real, em Portugal, em 10 de setembro de 1857. A data foi comprovada com a publicação de sua certidão de batismo na tese de Dyeinne Cristina Tomé, de 2020. Antes os anos 1872 ou 1880 eram considerados como possíveis anos de seu nascimento.

Mariana, filha de Manoel Antonio Ribeiro Coelho e sua mulher D. Maria do Carmo Teixeira Coelho, nepta paterna de Felix Ribeiro e Maria Amallia Coelho (já defunto o primeiro) de Lamas da freguezia do mesmo nome de Orelhão, Bispado de Bragança, materna de Antonio Joze de Meireles e Maria Engracia de Valcovo freguesia de Santa Comba da Ermida, nasceo dia dez de setembro de mil oitocentos e cincoenta e sete e foi solemnemente por mim baptizada nesta pia baptismal da Igreja de Cumieira dia vinte cinco do mesmo mez e anno, com imposição dos santos óleos. Foram seus padrinhos: Padre Joze Candido de Carvalho por seu procurador Jeronimo Joze Correa Botelho, que apresentou a competente procuração que reconheço, e D. Mariana Maxima Correa Botelho mulher deste procurador. E para constar fiz este termo que assigno. Cumieira vinte e quatro de setembro de 1857 – (ARQUIVO DISTRITAL DE VILA REAL, 1857, fl. 69verso)”

Era filha do farmacêutico Manoel Antônio Ribeiro Coelho (c. 1832 – 1882) e de Maria do Carmo Teixeira Coelho (18? – 1911), e irmã do capitão Thomaz Alberto Teixeira Coelho (1859 – 1934), do professor Carlos Alberto Teixeira Coelho (1863 – 1926), de Rita do Rosário Teixeira Coelho (1865 -1888) e de Maria Natividade Teixeira Coelho (1870 – 19?).

1871 – Seu irmão, Thomaz Alberto Teixeira Coelho (1859 – ?), imigrou para o Brasil para suceder seu tio, o próspero comerciante que atuava em Curitiba, José Natividade Teixeira de Meireles.

1882 – Falecimento de seu pai, Manoel Antônio Ribeiro Coelho, em 7 de setembro de 1882, em Portugal.

1888 – Falecimento de sua irmã, Rita do Rosário Teixeira Coelho, em 2 de junho de 1888, em Portugal.

1892 – Devido a problemas financeiros, imigrou para o Brasil com sua mãe e com sua irmã, Maria Natividade Teixeira Coelho, fixando-se em Curitiba, no Paraná. Partiram do Rio de Janeiro, em 18 de agosto, no paquete Arlindo em direção a Porto Alegre com escalas (Gazeta de Notícias, 29 de agosto de 1892, última coluna).

1893 –  Sua primeira poesia, Madrigal, foi publicada em agosto na Revista Azul, cujo dono e diretor era Júlio Pernetta (1869 – 1921), irmão do escritor Emiliano Pernetta (1866 – 1921), e o redator, Dario Vellozo (1869 – 1937). Emiliano e Dario, assim como Nestor de Castro e Rocha Pombo, com quem Mariana manteria relações próximas, faziam parte do Movimento Simbolista do Paraná.

Seu irmão, Carlos Alberto Teixeira Coelho (1866 – 1926), imigrou para o Brasil com sua esposa, Júlia da Conceição Monteiro (c.1872 – ?) e com sua filha, Maria da Conceição, na época com 8 meses. Foi morar em Ponta Grossa, no Paraná. Foi dono de periódicos associados aos ideais do livre-pensamento, do anticlericalismo e do anarquismo.

1895 – Era uma das colaboradoras do Suplemento Literário do jornal A República (PR) (A República (PR), 27 de outubro de 1895, primeira coluna).

Integrava como oradora a diretoria do Grêmio das Violetas (A República (PR), 29 de dezembro de 1895, quinta coluna).

1897 – Publicou o artigo A Noiva, no jornal literário A Penna, dirigido por Romário Martins (1874 – 1948) e Julio Pernetta (1869 – 1921) (A Penna, 18 de abril de 1897).

Escreveu um artigo sobre o livro Alma Penitente, de Dario Velloso (1885 – 1937), na revista Galáxia, do Centro Literário (A República (PR), 28 de novembro de 1897, quinta coluna).

1898 – Colaborou na parte literária do Almanach Paranaense, em seu quarto ano de publicação (O Sapo (PR), 18 de dezembro de 1898, primeira coluna).

1899 - Lançamento, em 21 de dezembro, do jornal literário O Beijo, provavelmente o primeiro dirigido, no Paraná, por uma mulher, Mariana Coelho (Diário da Tarde, 6 de janeiro de 1950, quarta coluna).

1900 – Seu retrato, acompanhado de uma ligeira biografia, ilustrava a página da oitava edição de O Beijo (A República (PR), 19 de abril de 1900, segunda coluna). Era sua redatora-chefe (A República (PR), 29 de julho de 1900, segunda coluna).

Tocou violão em um sarau musical e dançante do Grêmio das Violetas, nos salões do Club Curitibano (Diário da Tarde (PR), 23 de outubro de 1900, terceira coluna).

Sob a direção de Romário Martins (1874 – 1948) e Alfredo Coelho (18? – 19?), em agosto, lançamento, em Curitiba, da revista de arte Breviário, com a participação da prosa de Mariana Coelho. Publicação de artigo de sua autoria, Emancipação da mulher (A Imprensa (RJ), 31 de agosto de 1900, segunda coluna; O Breviário, agosto de 1900, páginas 7 e 8).

 

emancipação

emancipação1

 

Começou a assinar a coluna “Chronica da Moda”, do Jornal da Tarde do Paraná (Jornal da Tarde (PR), 17 de setembro de 1900, segunda colunaJornal da Tarde (PR), 1º de outubro de 1900, segunda coluna). Antes colaborava com a Gazeta do Povo.

1901 – Na coluna “Chronica da Moda” abordou a luta pelo direito ao voto da mulher, iniciando uma polêmica na imprensa paranaense (Diário da Tarde (PR), 1º de março de 1901, segunda coluna). Na edição do dia seguinte, a poetisa brasileira nascida na Bélgica Georgina Mongruel (1861 – 1953) comentou sobre o texto, divergindo das opiniões de Mariana, que respondeu a ela na edição de 6 de março. Também foi contestada por Jean Jacques, pseudônimo usado por Nestor de Castro (1867-1906) , considerado um dos maiores jornalistas do Paraná (Diário da Tarde (PR), 21 de março de 1901, segunda colunaDiário da Tarde (PR), 29 de março de 1901, penúltima coluna). E a discussão continuou com a publicação do artigo Emancipação da Mulher, de Mariana, e do artigo Feminismo, de Nestor de Castro (Diário da Tarde (PR), 2 de abril de 1901, terceira colunaDiário da Tarde (PR), 4 de abril de 1901, quinta coluna).

 

 

Outra polêmica, desta vez sobre o uso do chapéu, foi iniciada em um artigo de Erasto. Mariana respondeu dias depois e Nestor de Castro também escreveu dois artigos sobre o tema (Diário da Tarde (PR), 2 de abril de 1901, quinta colunaDiário da Tarde (PR), 9 de abril de 1901, quarta colunaDiário da Tarde (PR), 12 de abril de 1901, última colunaDiário da Tarde (PR), 15 de abril de 1901, penúltima coluna).

Como decidiu se dedicar ao magistério, passou no final desse ano a escrever apenas esporadicamente para a coluna “Chronica da Moda”. Destacamos aqui um artigo onde Mariana discorreu sobre a importância da beleza da mulher (Diário da Tarde (PR), 5 de outubro de 1901, segunda coluna).

1902 – Mariana Coelho inaugurou, em 2 de janeiro de 1902, e passou a dirigir o Colégio Santos Dumont, na rua Quinze de Novembro, 105, em Curitiba. Também era a professora de francês da instituição (Diário da Tarde (PR), 10 de dezembro de 1901, quarta coluna).

 

 

Discursou na sessão magna de regulamentação da loja maçônica Filhas da Acácia. Essa sua fala foi publicada no folheto O Discurso (Diário da Tarde (PR), 22 de maio de 1902, quarta coluna). Provavelmente, herdou sua ligação com a maçonaria de seu tio, José Natividade Teixeira de Meireles, e de seu irmão mais velho, Thomaz Alberto Teixeira Coelho.

Fazia parte da redação da revista de arte Vitrix, dirigida por Emiliano Pernetta (1866 – 1921) (A República (PR), 4 de setembro de 1902, quarta colunaDiário da Tarde (PR), 19 de dezembro de 1903, segunda coluna).

 

 

1903 – Publicação de uma fotogravura do Colégio Santos Dumont, para meninos e meninas, dirigido por Mariana Coelho, em Curitiba (O Malho, nº 36, 1903).

 

 

1904 – Era colaboradora do Diário da Tarde do Paraná e foi publicada uma crítica de sua autoria sobre a obra Velhas Páginas, do escritor Euclides Bandeira (1876 – 1947) (Diário da Tarde (PR), 20 de fevereiro de 1904, primeira coluna).

O Colégio Santos Dumont, que ela dirigia, já tinha 40 alunos e conquistava cada vez mais prestígio em Curitiba (A República (PR), 8 de julho de 1904, terceira coluna).

Juntou-se aos protestos em relação à decisão tomada pelo Supremo Tribunal Federal sobre a fronteira entre o Paraná e Santa Catarina (Diário da Tarde (PR), 12 de julho de 1904, terceira coluna).

Compareceu com suas alunas à inauguração da estátua do Marechal Floriano (A República (PR), 21 de dezembro de 1904).

1905 – O Colégio Santos Dumont ficava na rua Coronel Luiz Xavier, 105 (Diário da Tarde (PR), 29 de dezembro de 1905).

 

 

1907 – O Colégio Santos Dumont passou a funcionar no prédio do sr. José Rodrigues de Almeida à rua 15, desta capital, canto da rua 1º de março (A Notícia (PR), 30 de agosto de 1907, última coluna).

Ofereceu à Biblioteca da Associação Cívica a coleção do Mundo Elegante (A Notícia (PR), 27 de novembro de 1907, quarta coluna).

1908 – Esteve presente com suas alunas à missa que a colônia portuguesa de Curitiba mandou celebrar pela morte do rei Carlos I de Portugal (1863 – 1908) (A Notícia (PR), 10 de fevereiro de 1908, quinta coluna).

Um professor habilitado veio de Lisboa para ministrar aulas sobre o Método João de Deus, do pedagogo português João de Deus de Nogueira Ramos (1830 – 1896), a partir do qual aprendia-se em quatro meses a ler e escrever corretamente e que seria adotado no Colégio Santos Dumont. Haveria 80 vagas para professores interessados. O Método João de Deus foi inaugurado no Santos Dumont, em 5 de julho de 1908 (A República (PR), 24 de junho de 1908, sexta colunaDiário da Tarde (PR), 3 de julho, terceira colunaDiário da Tarde (PR), 6 de julho de 1908, primeira colunaDiário da Tarde (PR), 16 de julho de 1908, quarta coluna).

 

 

Publicação da história do Método João de Deus (A Notícia (PR), de junho de 1908, terceira coluna).

Lançamento do livro Paraná Mental, de sua autoria, com prefácio do historiador Rocha Pombo (1857 – 1933), sobre os prosadores e poetas do Paraná. Foi impressa pelo governo paranaense para ser apresentado como documento na Exposição Nacional de 1908. Foi premiado com a medalha de prata pelo Júri do Distrito Federal (Diário da Tarde (PR), 17 de agosto de 1908, quarta colunaA República (PR), 23 de abril de 1909, quinta coluna).

Também participou do evento com delicada manufatura onde sobressaem os bordados brancos e com uma aquarela de flores. Recebeu uma medalha de prata na sessão de Artes Aplicadas (A República (PR), 25 de junho de 1908, quarta colunaO Paiz, 16 de julho de 1908, sexta colunaDiário da Tarde (PR), 17 de agosto de 1908, primeira colunaA República, 26 de agosto de 1908, primeira colunaJornal do Brasil, 21 de novembro de 1908, quinta colunaA República (PR), 25 de novembro de 1908, terceira colunaDiário da Tarde (PR), 22 de dezembro de 1908, primeira coluna).

 

 

No livro Paraná Mental, não deixou de abordar o tema da emancipação da mulher:

 

“A despeito das muitas e várias opiniões retrógradas, em todos os grandes centros do mundo civilizado, a par dos graves problemas sociais que têm convulsionado a nossa época, há muito que ventila franca e entusiasticamente a questão da emancipação da mulher, a que o grande movimento feminista, que abrange o novo e velho mundos, tem dado impulso e determinada importância, alimentando com denodo e convicção este desideratum”. 

 

Publicação de uma crítica a seu o livro Paraná Mental. Ela escreveu respondendo à crítica (A República (PR), 4 de setembro de 1908, quinta colunaA República (PR), 19 de setembro de 1908, quarta coluna; A Repúbica (PR), 21 de setembro de 1908, quarta coluna). Polêmica em torno de uma crítica ao livro (Diário da Tarde (PR), de 7 de setembro de 1908, quarta colunaDiário da Tarde (PR), 11 de setembro, terceira coluna); Diário da Tarde (PR), 12 de setembro, segunda colunaDiário da Tarde (PR), 21 de setembro de 1908, terceira coluna).

Foi oferecido à aluna que mais se distinguiu nos exames do Colégio Santos Dumont na 2ª série do 1º grau o prêmio denominado Mariana Coelho (A República (PR), 21 de dezembro de 1908, sexta coluna).

1909 – Reprodução da crítica favorável de Eloy Pontes sobre o livro de Mariana Coelho, Paraná Mental, publicada na Folha Moderna, em novembro de 1908 (A República (PR), 4 de janeiro de 1909, segunda coluna).

Publicação de uma crítica a seu livro, Paraná Mental (A República (PR), 26 de fevereiro de 1909, quinta coluna).

Contribuiu financeiramente para a visita que o escritor português Guerra Junqueiro (1850 – 1923) faria ao Brasil no ano seguinte (A República (PR), 13 de fevereiro de 1909, primeira coluna).

1910 – Na Câmara Municipal de Curitiba, houve uma reunião de associações femininas em prol da unidade do estado do Paraná. Mariana Coelho foi eleita por aclamação primeira secretária do Comitê Central de Senhoras, presidido por Francisca Cavalcante (Correio Paulistano, 3 de janeiro de 1910, quarta colunaA República (PR), 18 de janeiro de 1910, quinta coluna).

Promovia no Colégio Santos Dumont saraus artísticos, literários e musicais (A República (PR), 19 de dezembro de 1910, terceira coluna).

1911 – Em propaganda do Colégio Santos Dumont foi mencionado que o estabelecimento de instrução e educação havia conquistado medalhas de ouro e de prata na Exposição Nacional de 1908, no Rio de Janeiro. Ficava na praça Carlos Gomes, nº 5 (A República (PR), 5 de janeiro de 1911).

 

 

Em maio, falecimento de sua mãe, Maria do Carmo Teixeira Coelho. Em sua homenagem, publicou para a revista Fanal, de janeiro de 1912, a poesia Morreu!.

 

morreu

 

Participou do Congresso de Geografia realizado em Curitiba (Diário da Tarde (PR), 2 de setembro de 1911, primeira colunaA República (PR), 8 de setembro de 1911).

 

 

Fazia parte da comissão para a venda de ingressos do festival do Teatro Politeama para ajudar as vítimas das inundações ocorridas no Paraná, em Santa Catarina e no Rio Grande do Sul (Diário da Tarde (PR), 27 de outubro de 1911, última coluna).

1912  – Os cursos de alfabetização pelo Método João de Deus e o de prendas domésticas são destacados como os principais do Colégio Santos Dumont, referido como uma importante influência na educação em Curitiba (A República (PR), 31 de outubro de 1912, terceira coluna).

Em 19 de dezembro, criação do Centro de Letras do Paraná, do qual tornou-se sócia (Diário da Tarde (PR), 19 de dezembro de 1959, primeira coluna).

1913 – O Colégio Santos Dumont ficava na rua da Misericórdia, nº 84 (A República (PR), 11 de janeiro de 1913, primeira coluna).

1914 – Durante o concerto do maestro amazonense, o conde José Sabbatini (18? – 19?), na época diretor da escola de música do Paraná, realizado no Clube Curitibano, foram distribuidos folhetos com versos escritos por Mariana (Diário da Tarde (PR), 19 de fevereiro de 1914, última coluna).

 

 

 

1916 – Seu colégio ficava na rua José Loureiro, 27 (Diário da Tarde (PR), 28 de janeiro de 1916, última coluna).

 

 

O inventor Alberto Santos Dumont (1873 – 1932), em visita à Curitiba, foi ao Colégio Santos Dumont, onde foi recebido por Mariana. Logo na entrada, as alunas jogaram pétalas de flores sobre o ilustre visitante, que chegou com o secretário do Interior, Enéas Marques dos Santos. O cônsul de Portugal, o irmão de Mariana e professor Carlos Alberto Teixeira Coelho, professores do colégio, além de outros convidados, participaram do encontro. Uma orquestra executou o Hino Santos Dumont (A República (PR), 4 de maio de 1916, quinta colunaA República (PR), 8 de maio de 1916, quinta coluna; Diário da Tarde (PR), 8 de maio de 1916, terceira coluna).

 

 

 

Na ocasião, uma das alunas do colégio proferiu o seguinte discurso:

Ilustre Dr. Santos Dumont. – Meus Senhores. O âmbito de nosso peito é por demais acanhado para conter todo o jubilo que agita os nossos innocentes corações em face da honrosa presença do querido patrono do nosso collegio. Este formo palpitar de intima alegria, porém, não póde deixar de ser turbado pela saudade em que já nos envolve a vossa rapida passagem por esta capital e por que.., talvez não tenhamos a ventura de nos tornar a ver! O vosso retrato, senhor, aqui nos anima na principal sala de trabalhos escolares, a prosseguir nossos estudos, desde a fundação do estabelecimento que há 15 annos e que usa o vosso nome celebrado – orgulhando-se de que Santos Dumont seja um dos mais scintillantes astros que fulguram nos dominios da sciencia moderna. Por certo a nossa diretora, nos momentos mais angustiosos da sua lucta pela existência, busca e encontra na vossa veneranda effigie o alento para continuar a manter esta escola a que deu o vosso nome ilustre – prestando d’esta forma uma pallida homenagem á grande beleza de vossa alma e do vosso raro talento. É vossa, é unicamente vossa honra de descobrirdes a diribilidade do balão – assombroso progresso para a humanidade, mas hoje, infelizmente, transformada em machina homicida no seu contingente de morte, que o impelle a uma guerra sem procedentes, e cuja acabrunhadora fatalidade muito deve a amargurar uma alma nobilissima como a vossa! Ah! Como desejariamos subir comvosco na vossa bella aeronave e experimentar as emoções do espaço! Termino, illustre Dr., desejando em nome d’esta escolla, que a felicidade vos acompanhe por toda a parte – do que tão digno sois por todos os motivos, e pedindo-vos que nunca esqueçaes o Collegio Santos Dumont que tão sinceramente vos estima e admira” (A República (PR), 8 de maio de 1916).

O poeta Olavo Bilac (1865 – 1918) enviou um belo autógrafo para o Colégio Santos Dumont (A República (PR), 26 de dezembro de 1916, terceira coluna).

 

 

1917 – Proferiu um discurso durante a sessão em que foi eleita a primeira diretoria efetiva da recém criada Cruz Vermelha Paranaense (Diário da Tarde (PR), 2 de junho de 1917, primeira coluna).

Era a encarregada do registro das pessoas que iriam se vacinar no recém inaugurado posto de vacinação da Cruz Vermelha Paranaense (Diário da Tarde (PR), 12 de outubro de 1917, última coluna).

Devido à epidemia de tifo em Curitiba, Mariana decidiu suspender as aulas no Colégio Santo Dumont (A República (PR), 23 de outubro de 1917, quinta coluna).

1918 – Começou a trabalhar como secretária e professora da Escola Profissional Feminina.

Foi dedicado a ela, pelo escritor paranaense José Cadilhe (1880 – 1942), o poema Portugal (A República (PR), 27 de abril de 1918).

 

 

 

1919 – Fazia parte da comissão escolar encarregada de promover atividades infantis para arrecadar fundos para ajudar os flagelados da seca do Nordeste (A República (PR), 21 de maio de 1919, terceira coluna).

Era a terceira secretária da diretoria eleita para a Cruz Vermelha do Paraná (A República (PR), 3 de janeiro de 1919, última coluna).

1921 – Escreveu um artigo em homenagem a João do Rio, pseudônimo de Paulo Barreto (1881 – 1921), recentemente falecido (A República (PR), 29 de junho de 1921, segunda coluna).

1922 – Como segunda secretária do Centro Republicano Português participou da sessão solene, no Teatro Guayra, em celebração da primeira travessia aérea do Atlântico Sul, realizada pelos aviadores portugueses Carlos Viegas Gago Coutinho (1869 -1959) e Artur de Sacadura Freire Cabral (1881 – 1924). Haviam partido de Lisboa em 30 de março de 1922 e chegado ao Brasil em 17 de junho do mesmo ano (A República (PR), 19 de junho de 1922, última coluna).

 

 

1923 – Publicou o artigo O civismo da mulher na guerra (Commercio do Paraná, 23 de janeiro de 1923, quarta coluna).

Iniciou uma troca de correspondências, que manteve até 1940, com a feminista Bertha Lutz (1894 – 1973), presidente da Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher, fundada em 9 de agosto de 1922.

1925 – Foram publicados os trechos intitulados Renovação social da Tuquia e Flagrante flutuação de seu livro, ainda inédito, Evolução de Feminismo (Commercio do Paraná, 6 de janeiro de 1925, penúltima colunaSempre-Viva, 15 de maio de 1925).

Tornou-se associada da Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher, tendo recebido em 3 de março, a notificação de seu efetivo ingresso na entidade.

Escreveu um artigo sobre a escritora e crítica literária berlinense Carolina Michaelis de Vasconcellos (1851 – 1925), recentemente falecida. Ela foi a primeira mulher a lecionar em uma universidade portuguesa, a Universidade de Coimbra (O Estado do Paraná, 22 de novembro de 1925, primeira coluna).

 

 

1926 - Continuava  trabalhando na Escola Profissional Feminina, em Curitiba (O Estado do Paraná, 19 de janeiro de 1926, quarta coluna).

Falecimento de seu irmão, o professor e um dos mais importantes filólogos de sua geração, Carlos Alberto Teixeira Coelho (1866 – 1926), em 28 de janeiro (O Dia (PR), 29 de janeiro de 1926, segunda coluna).

A professora, poeta e jornalista catarinense Maura de Senna Pereira (1904 – 1991) dedicou a ela o poema Nesgas (A República (SC), 12 de dezembro de 1926, segunda coluna).

 

 

1927 – Mariana esteve no Rio de Janeiro, na Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher apresentou os originais do livro A Evolução do Feminismo, onde fazia uma imparcial crítica histórica ao papel da mulher. Bertha Luz (1894 – 1971) e Maria Amalia Bastos de Miranda Jordão, respectivamente, presidente e secretária da associação, ofereceram a ela um chá na Confeitaria Colombo (Jornal do Brasil, 19 de julho de 1927, quarta colunaO Dia (PR), 17 de agosto de 1927, primeira coluna).

1930 – Na “Página Literária”, publicação de um artigo de sua autoria, O Feio, sobre a valorização da beleza da mulher (A República (PR), 20 de janeiro de 1930, primeira coluna).

Foi uma das intelectuais do Paraná que se declarou favorável à eleição de Julio Prestes (1882 – 1946) à presidência da República, apoiando a Ação Intelectual Brasileira. Ele foi eleito em 1º de março, mas não tomou posse devido à Revolução de 30, liderada por Getúlio Vargas (1882 – 1954) (A República (PR), 12 de fevereiro de 1930).

Foi nomeada diretora da Escola Profissional Feminina – que recebeu, em 1933, o nome de Escola Profissional Feminina República Argentina -, onde ficou até se aposentar. O local atualmente é o Centro Estadual de Capacitação em Artes Guido Viaro, no Capão da Imbuia (A República (PR), 19 de junho de 1930, primeira coluna).

1931 – Foi efetivada nos cargos de professora e diretora da Escola Profissional Feminina  (O Dia (PR), 25 de março de 1931, primeira colunaO Dia (PR), 10 de setembro de 1932, primeira coluna).

 

1933 – No artigo A mulher paranaense, de Rachel Prado, foi mencionada como uma das mais importantes escritoras do estado (Brasil Feminino, maio de 1933).

Participou no Centro de Letras do Paraná da sessão em homenagem ao escritor e historiador paranaense José Francisco da Rocha Pombo (1857 – 1933), recentemente falecido (O Dia (PR), 8 de julho de 1933, terceira coluna).

 

 

Publicação do mais importante de seus livros, A Evolução do Feminismo: subsídios para a sua história, com prefácio de Rocha Pombo, sobre a emancipação da mulher, a mulher na religião, o civismo da mulher na guerra, a ação da mulher na imprensa, nas artes, nas ciências e nas letras, além de um capítulo dedicado à mulher nas diversas modalidades do amor (O Dia (PR), 29 de agosto de 1933, primeira colunaO Dia (PR), 9 de setembro de 1933, primeira coluna;  Diário da Tarde (PR), 14 de outubro de 1933, quarta colunaJornal do Brasil, 19 de outubro de 1933, sexta colunaO Dia (PR), 9 de novembro de 1933, última coluna).

 

 

Na reunião quinzenal do Centro de Letras do Paraná, Mariana Coelho foi cogitada para ocupar uma das cadeiras da casa. Foi empossada em 30 de novembro (O Dia (PR), 21 de setembro de 1933, segunda colunaO Dia (PR), 24 de novembro de 1933, segunda colunaO Dia (PR), 1º de dezembro de 1933, quinta colunaO Dia (PR), 7 de dezembro de 1933, quarta coluna).

1934 – Seu livro, A Evolução do Feminismo, foi elogiado pelo professor Antonio Austregésilo (1876 – 1960), da Academia Brasileira de Letras; e pelo crítico literário, também membro da Academia Brasileira de Letras, João Ribeiro (1860 – 1934)(A Noite, 13 de janeiro de 1934, primeira colunaJornal do Brasil, 14 de março de 1934, segunda colunaWalkyrias, agosto de 1934).

 

 

Mariana ofereceu livros para a Biblioteca do Centro Paraense da Cultura Feminina, criado no ano anterior pelas advogadas Rosy Pinheiro e Ilnah Pacheco Secundino e pela médica Delohé Falce Scalco (O Dia (PR), 5 de dezembro de 1933, sexta colunaO Dia (PR), 25 de fevereiro de 1934, última coluna).

Falecimento de seu irmão, Thomaz Alberto Teixeira Coelho (1859 – 1934), que na época residia no Rio de Janeiro (O Dia (PR), 20 de abril de 1934, terceira coluna).

Passou férias no Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 7 de julho de 1934, segunda colunaDiário da Tarde (PR), 19 de julho de 1934, segunda coluna).

Em reunião do Centro de Letras do Paraná, Mariana falou sobre o feminismo diante do amor, um dos temas de seu livro A Evolução do Feminismo (O Dia (PR), 16 de outubro de 1934, primeira coluna).

Foi convidada para fazer uma conferência literária na ocasião da comemoração do primeiro ano de fundação do Centro Paraense da Cultura Feminina. Foi saudada pela oradora da associação, Ophir Athayde Leite. Mariana discorreu sobre o tema Um brado de alarme contra a guerra, os suicídios e a pena de morte (O Dia (PR), 7 de dezembro de 1934, quarta coluna).

 

 

1935 – Participou da Semana Emiliano, um festival de arte que o Centro de Letras do Paraná organizou em homenagem ao poeta curitibano Emiliano Pernetta (1866 – 1921), um dos fundadores do simbolismo no Brasil e considerado o maior poeta paranaense de seu tempo. Recitou o poema Felicidade, da coleção Setembro. (O Dia (PR), 22 de janeiro de 1935, sexta coluna).

 

 

Publicou o livro Um Brado de Revolta contra a Morte Violenta e destinou 50% da venda para a construção de um mounumento em homenagem aos historiador Rocha Pombo (1857 – 1933) (O Dia (PR), 25 de abril de 1935Diário da Tarde (PR), 9 de maio de 1935O Dia (PR), 13 de julho de 1935, primeira coluna).

 

 

O cientista paranaense Victor Amaral (1862 – 1953) escreveu sobre o livro Um Brado de Revolta contra a Morte Violenta (Diário da Tarde (PR), 19 de agosto de 1935, terceira coluna).

Dirigia a Escola Profissional República Argentina (O Dia (PR), 12 de fevereiro de 1936, terceira coluna).

1936 - Foi convidada para participar do Congresso das Academias de Letras e Sciencias de Cultura Literária realizado, em maio, no Rio de Janeiro, promovido pela Academia Carioca de Letras e sua tese, Linguagem, foi apresentada no evento. No ano seguinte, a tese foi publicada (Diário da Tarde (PR), 3 de março de 1936, penúltima colunaJornal do Commercio, 6 de maio de 1936, sexta colunaO Dia (PR), 25 de abril de 1937, penúltima colunaDiário Carioca, 17 de julho de 1937, primeira coluna). Era amiga do médico, escritor e militante anarquista Fábio Lopes dos Santos Luz (186? – 1938) que desde 1934 ocupava uma cadeira da Academia Carioca de Letras.

 

 

Mariana Coelho, após defender em sua tese a simplificação da língua portuguesa, passou a assinar Mariana com apenas uma letra n, em oposição ao modo como foi registrada, com duas letras n.

Preencheu a ficha para o 3.º Congresso Nacional Feminino, que ocorreu no Rio de Janeiro, em setembro de 1936, promovido pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, mas a pesquisa não encontrou evidência de sua participação no evento. A representante do Paraná foi a presidente do Centro Paraense de Cultura Feminina, a advogada Ilnah Pacheco Secundino (O Dia (PR), 26 de julho de 1936, quinta colunaO Dia (PR), 1º de outubro de 1936, terceira coluna).

1937 - Publicação do artigo O feminismo no Brasil, de sua autoria, no qual apontava Nizia Floresta (c. 1810 – 1885) como a primeira mulher, no Brasil, que reivindicou direitos femininos. Nisia Floresta, o pseudônimo de Dionísia Gonçalves Pinto, a educadora e poetisa nascida no Rio Grande do Norte, é considerada a primeira feminista brasileira. A dentista Isabel de Mattos Dillon, primeira mulher a conseguir autorização para votar no Brasil, em 1880, também foi mencionada no artigo como outra importante feminista. A Lei Saraiva, promulgada naquele mesmo ano, dizia que todo brasileiro com um título científico poderia votar. Isabel acionou essa lei para solicitar sua inclusão na lista de pessoas eleitoras do Rio Grande do Sul (Correio da Manhã, 3 de janeiro de 1937).

 

 

 

Na apuração final do plebiscito Qual a mulher intelectual merece a consagração da imortalidade?, Mariana tinha 106 votos. Foi vencida por Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (1883 – 1966) com 2.512 votos (O Malho, 14 de janeiro de 1937).

 

 

O filólogo José de Sá Nunes (18? – 1955)  escreveu sobre a tese Linguagem (1937) de autoria de Mariana Coelho. Outras personalidades também a felicitaram por sua tese (O Dia (PR), 1º de outubro de 1937).

1938 – Concorreu mas não foi eleita para ocupar uma das cadeiras da Academia Paranaense de Letras (O Estado (PR), 1º de fevereiro de 1938).

Foi homenageada por professores, funcionários e alunos da Escola Profissional República Argentina. Na ocasião, foi inaugurado um retrato de Mariana na sala em que trabalhava como diretora do colégio (O Dia (PR), 4 de outubro de 1938, terceira coluna).

1939 – Naturalizou-se brasileira (Jornal do Brasil, 31 de agosto de 1939, penúltima colunaDiário da Tarde (PR), 8 de novembro de 1939, segunda coluna).

1940 - Foi eleita como sócia efetiva do Instituto Histórico e Geográfico do Paraná (O Dia (PR), 23 de fevereiro de 1940, segunda coluna).

Publicou o livro Cambiantes: contos e fantasias, ilustrados com desenhos do italiano Guido Viaro (1897 – 1971) e prefaciado por Leôncio Correia (1865 – 1950) (ODia (PR), 14 de julho de 1940, segunda colunaO Malho, fevereiro de 1941O Dia (PR), 24 de setembro de 1941, penúltima coluna).

O poeta, escritor e empresário Heitor Stockler (1888 – 1975) relembra a trajetória de Mariana Coelho como educadora e escritora (Diário da Tarde (PR), 14 de agosto de 1940, penúltima coluna).

1941 – Devido a problemas de saúde, não pode mais trabalhar, tendo se aposentado do cargo de diretora da Escola Feminina República Argentina.

Leôncio Correia (1865 – 1950) dedicou seu poema O Coração em Voo a várias pessoas, dentre elas Mariana Coelho (O Dia (PR), 14 de setembro de 1941, primeira coluna).

 

 

Ela, com Cambiantes, Plácido e Silva (1892 – 1973) com História do Macambira; e Angelo Guarinelo (1876 – 1959) com Ressurreição se inscreveram para concorrer a um prêmio da Academia Brasileira de Letras:(O Dia (PR), 14 de ooutubro de 1941, sexta coluna).

 

 

 

1943 – Inauguração da Estante Mariana Coelho durante a celebração do sétimo ano da fundação da Academia Paranaense de Letras. Foi saudada por José Gelbcke (1879 – 1960). Mariana havia doado para a biblioteca da entidade cerca de 200 livros (O Dia (PR), 25 de setembro de 1943O Dia (PR), 28 de setembro de 1943, segunda coluna).

 

 

Fez uma visita ao ministro da Educação, Gustavo Capanema (1900 – 1985) (O Dia (PR), 26 de outubro de 1943, primeira coluna).

1946 – Foi uma das 13 escritoras do Paraná que participaram da primeira Exposição do Livro Feminino Brasileiro, realizada no Palace Hotel, no Rio de Janeiro, em fevereiro (O Dia (PR), 7 de setembro de 1946, terceira coluna).

1949 – Seus livros Cambiantes e Um Brado de Revolta contra a Morte Violenta integraram a Exposição Inter-americana do Livro, no Rio de Janeiro (O Dia (PR), 17 de agosto de 1949, terceira coluna).

Mariana Coelho foi atropelada por um caminhão (Diário da Tarde (PR), 23 de novembro de 1949, penúltima coluna).

O jornalista e escritor italiano radicado no Brasil desde o início dos anos 20, Francisco Stobbia (1881 – 1961),  escreveu um artigo sobre Mariana e sua obra, A Evolução do Feminismo (Diário da Tarde (PR), 6 de dezembro de 1949, penútima coluna).

Era uma das colaboradoras da Revista do Centro de Letras do Paraná (O Dia (PR), 30 de janeiro de 1951, terceira coluna).

1954 – Falecimento de Mariana Coelho, em 29 de novembro de 1954, em sua casa, na rua Presidente Taunay, em Curitiba. Foi sepultada no Cemitério Municipal São Francisco de Paula (Diário da Tarde(PR), 29 de novembro de 1954, sexta colunaO Dia(PR), 30 de novembro de 1954, terceira coluna).

 

 

Em sua homenagem, seu retrato foi inaugurado no Centro de Letras do Paraná. O Centro Paranense Feminino de Cultura também participaria do evento (Diário da Tarde (PR), 8 de dezembro de 1954, penútima colunaO Dia (PR), 12 de dezembro de 1954, sexta coluna).

1955 – Publicação de um artigo do jornalista Otávio Secundino exaltando as qualidades de Mariana Coelho (Diário da Tarde (PR), 7 de janeiro de 1955, quinta coluna).

Publicação de um artigo de  Francisco Stobbia (1881 – 1961) sobre A Evolução do Feminismo (Diário da Tarde, 15 de janeiro de 1955, primeira coluna).

 

 

1956 – Foi publicada sua obra póstuma Palestras Educativas (Diário do Paraná, 11 de setembro de 1956, primeira colunaDiário da Tarde (PR), 15 de setembro de 1956, quinta coluna).

1957 – Publicação do conto Um Urso, do livro Cambiantes: contos e fantasias (Diário do Paraná, 7 de abril de 1957).

1959 – Publicação de seu poema Saudade (O Dia (PR), 19 de julho de 1959).

 

 

A professora Maria Nicolas (1899 – 1988) publicou um artigo exaltando o papel de Mariana Coelho como educadora, escritora e feminista (Diário da Tarde (PR), 1º de maio de 1959, penúltima coluna).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ALVES, Branca Moreira, Ideologia e feminismo: a luta das mulheres pelo voto no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1980

BUENO, Alexandra Padilha. Educação e participação política: a visão de formação feminina de Mariana CoelhoDissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Educação da Universidade Federal do Paraná, 2010.

COELHO, Mariana. A evolução do feminismo, subsídios para a sua história. 2 ed. Org. Zahidé L. Muzart. Curitiba, Imprensa Oficial do Paraná, 2002.

DINIZ, Aires Antunes. Mariana Coelho: uma educadora feminista luso-brasileira. Portugal: Penagrafica, 2015.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KAMITA, Rosana Cássia. Resgates e ressonâncias: Mariana Coelho. Tese de Doutorado. Curso de Pós-Graduação em Literatura da Universidade Federal de Santa Catarina, 2004.

KARAWEJCZYK, Monica. As filhas de Eva querem votar: uma história da conquista do sufrágio feminino no Brasil. Tese (Doutorado em História), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2013.

MUZART, Zahidé L. Resgates e ressonâncias: uma beauvoir tupiniquim. In: BRANDÃO, Izabel; MUZART, Zahidé L.  e  BOLAÑOS, Aimée González (orgs.). Refazendo nós: ensaios sobre mulher e literatura. Florianópolis: Ed. Mulheres; Santa Cruz do Sul: EDUNISC, 2003.

Revista dos Cursos de Letras – Universidade do Paraná, abril de 1955

RIBEIRO, Leonardo Soares Madeira Iorio. Mariana Coelho: a educadora feminista. Rio de Janeiro : Editora Lumen Juris, 2015.

SHUMAHER, Schuma; BRAZIL, Erico Vital (organizadores). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., 2000.

Site Academia Brasileira de Letras

Site A Memória dos Esquecidos

Site Centro de Documentaação de Literatura de Autoria Feminina Paranaense

Site Instituto Terra, Trabalho e Cidadania

Site Universidade Federal do Paraná

TOMÉ, Dyeinne Cristina. Mariana Coelho e a educação das mulheres: uma escritora feminista no campo intelectual (1893 – 1940). Tese de Doutorado. Universidade Estadual de Ponta Grossa Setor de Ciências Humanas, Letras e Artes Programa de Pós-Graduação em Educação, 2020.

 

Leia também os outros artigos da série “Feministas, graças a Deus”:

Série “Feministas, graças a Deus!” I – Elvira Komel, a feminista mineira que passou como um meteoro, publicado em 25 de julho de 2020, de autoria da historiadora Maria Silvia Pereira Lavieri Gomes, do Instituto Moreira Salles, em parceria com Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” II  – Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993), o jequitibá da floresta, publicado em 20 de agosto de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” III  – Bertha Lutz e a campanha pelo voto feminino: Rio Grande do Norte, 1928, publicado em 29 de setembro de 2020, de autoria de Maria do Carmo Rainha, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” IV  – Uma sufragista na metrópole: Maria Prestia (? – 1988), publicado em 29 de outubro de 2020, de autoria de Claudia Heynemann, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” V – Feminista do Amazonas: Maria de Miranda Leão (1887 – 1976), publicado em 26 de novembro de 2020, de autoria de Maria Elizabeth Brêa Monteiro, mestre em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” VI – Júlia Augusta de Medeiros (1896 – 1972) fotografada por Louis Piereck (1880 – 1931), publicado em 9 de dezembro de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VII – Almerinda Farias Gama (1899 – 1999), uma das pioneiras do feminismo no Brasil, publicado em 26 de fevereiro de 2021, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VIII – A engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001), publicado em 6 de abril de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus”! VIII – A engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001)

 

“Acho que nasci feminista. Por isso não me lembro quando nem por que – estava na Escola Politécnica, isso eu sei – resolvi assumir esse meu lado contestatório e reivindicatório”.

 

 

A fotografia acima foi produzida pelo Serviço Fotográfico de Vida Doméstica e é muito semelhante a um registro publicado na edição de agosto de 1931 da revista. A dedicatória na foto é de novembro de 1931 e refere-se ao II Congresso Internacional Feminista, realizado no Rio de Janeiro, em junho de 1931, do qual Carmen foi a secretária-geral.

 

 

Nascida em Corumbá, no Mato Grosso, em 26 de janeiro de 1903, Carmen Velasco Portinho foi uma militante das causas feministas como o sufrágio feminino, além de ativista pela educação das mulheres e pela valorização do trabalho feminino fora da esfera doméstica, tendo sido a terceira mulher a se formar em Engenheira Civil (1925) e a primeira a obter o título de urbanista (1939) no Brasil. Sempre na vanguarda, foi uma mulher graciosa, cheia de energia, culta, inteligente, dinâmica, tenaz, considerada simpática e afável. E, segundo a própria, apesar de ter tido uma vida de muito trabalho, sempre se divertiu.

Viveu quase todo o século XX, tendo falecido em 2001. Conheceu pessoas influentes do Brasil e do mundo como o empresário norte-americano Nelson Rockfeller (1908 – 1979), o escritor francês André Malraux (1901 – 1976), os arquitetos Le Corbusier (1887 – 1965), Lúcio Costa (1902 – 1998), Mies Van Der Hohe (1886 – 1969), Oscar Niemeyer (1907 – 2012), e Walter Gropius (1883 – 1969), além de artistas como André Lhote (1885 – 1962), Candido Portinari (1903 – 1962), Cícero Dias (1907 – 2003), Edith Behring (1916 – 1996), José Pancetti (1902 – 1958), Maria Martins (1894 – 1973) e Roberto Burle Marx (1909 – 1994).

Foi amiga e trabalhou com diversas feministas, dentre elas a advogada Almerinda Farias Gama (1899 – 1999), a também engenheira civil Amélia Sapienza, a bióloga Bertha Lutz  (1894 – 1976), Déa Torres Paranhos (1915 – 2001), uma das primeiras mulheres registradas como arquiteta no CREA, em 1935; a advogada Elvira Komel (1906 – 1932), a naturalista e ornitóloga alemã Emilia Snethlage (1868-1929), a professora Heloisa Marinho (1903 – 1994), as médicas Herminia de Assis e Juana Lopes; a enfermeira Jeronyma Mesquita (1880 – 1972), a mecenas Laurinda Santos Lobo (1878 – 1946), as advogadas Maria Alexandrina Ferreira Chaves, Maria Ester Correia Ramalho e Myrthes de Campos ( 1875 – 1965); a escritora Maria Eugênia Celso (1886 – 1963), a advogada Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993), Orminda Ribeiro Bastos (1899 – 1971), formada em Ciências Jurídicas; e Stella Guerra Duval (1879 – 1971).

 

 

Viajou muito, participou de congressos, seminários, programas de rádio, criou e escreveu para revistas e jornais, foi curadora e suas principais atividades sempre estiveram ligadas à engenharia, ao urbanismo, ao desenho industrial e às artes. Declarou em uma entrevista, em 1951, que suas paixões eram a matemática e a jardinagem. Vamos tentar nesse artigo traçar um perfil dessa mulher notável que deixou, a partir de suas ações, uma marca indelével na história do Brasil e na história da emancipação da mulher brasileira.

 

Acessando o link para as fotografias de Carmen Portinho disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Filha da boliviana Maria Velasco Blanco (1877 – 1958), conhecida como Mamita, com o gaúcho Francisco Sertório Portinho (1871 – 1925), conhecido como coronel Portinho, ainda criança, em 1911, mudou-se com os pais para o Rio de Janeiro. Era a primogênita de nove irmãos: as advogadas Branca (? – 1966) e Rosita (? – 1996) – que como ela nasceram em Corumbá – e os já nascidos no Rio de Janeiro, o engenheiro e jornalista José Velasco Portinho  (? – 1986), que foi diretor de O Jornal; os advogados Teresa (? – 1950), Carlos (? – 1991) e Luzia (? – c. 2005),  Maria de Lourdes (c. 1918 – 1962), que chegou a cursar os primeiros anos de Engenharia; e o também advogado Paulo (? – 2007). Luzia e Branca, se tornaram, por concurso, funcionárias da Câmara dos Deputados.

 

Maria Blanco Portinho e Francisco Sertório Portinho, os pais de Carmen

Maria Blanco Portinho e Francisco Sertório Portinho, os pais de Carmen / Correio da Manhã, 17 de julho de 1958Carmen Portinho – Por toda a minha vida

 

Começou a cursar, em 1920, Engenharia na Escola Politécnica da Universidade do Brasil. Ingressou também na Escola Nacional de Belas Artes, que cursou durante dois anos. Estudou escultura e desenho a mão livre com professores como o escultor Celso Antônio de Menezes (1896 – 1984) e o pintor Lucílio de Albuquerque (1877 – 1939). Foi na Escola de Belas Artes que Carmen conheceu e tornou-se amiga do arquiteto Lúcio Costa (1902 – 1998) e do pintor Candido Portinari (1903 – 1962) (O Jornal, 17 de maio de 1962, primeira coluna).

Em 9 de agosto de 1922, ela, Bertha Lutz  (1894 – 1976), Jeronyma Mesquita (1880 – 1972) e Stella Guerra Duval (1879 – 1971) fundaram a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, que no mesmo ano recebeu a medalha de ouro na Exposição Internacional do Centenário da Independência. A iniciativa estava vinculada ao movimento sufragista internacional, principal tendência do feminismo no início do século XX. As outras reivindicações eram de igualdade entre os sexos e de independência da mulher.  Carmen foi tesoureira e vice-presidente da entidade. Inicialmente, a sede da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino ficava na avenida Rio Branco, 117 (Revista da Semana, 2 de julho de 1932).

Em 1924, formou-se como engenheira geógrafa e, ainda cursando Engenharia Civil na Escola Politécnica da Universidade do Brasil, para aumentar o rendimento familiar, dava aulas de matemática no Colégio Pedro II, um internato masculino, o que foi considerado um escândalo. O então ministro da Justiça, Augusto Viana do Castelo (1874 – 1953), tentou, sem sucesso, impedi-la. Conversaram, ela apresentou suas justificativas e o rendimento de seus alunos, tendo seguido lecionando por mais três a quatro anos no colégio, quando decidiu pedir demissão.

Seu pai, Francisco Sertório Portinho (1871 – 1925), que havia sido superintendente da Limpeza Pública do Distrito Federal, faleceu, em 1925 (O Paiz, 21 de outubro de 1925, última colunaJornal do Brasil, 29 de outubro, de 1925, sétima coluna). Nessa época, Carmen montou uma loja para suas irmãs trabalharem como datilógrafas.

 

A emancipação econômica da mulher é a base de sua emancipação social e política.

 

Formou-se, em 1925, como a terceira mulher engenheira civil do Brasil. Foi antecedida por Edwiges Becker e por Maria Ester Correia Ramalho e, em 1926, na cerimônia de colação de grau de engenheiros civis e de engenheiros geógrafos formados no anterior na Escola Politécnica, foi a responsável pela leitura do compromisso solene. Ao final de seu discurso, o orador da turma de engenheiros civis, Gentil Ferreira de Souza, prestou uma homenagem a ela oferecendo uma corbeille de flores. O paraninfo foi o engenheiro e político Mauricio Joppert (1890 – 1985), que foi, posteriormente presidente do Clube de Engenharia do Rio de Janeiro e ministro dos Transportes do governo do presidente José Linhares (1886 – 1957). O paraninfo da turma dos engenheiros geógrafos foi o engenheiro e astrônomo Henrique Morize (1860 – 1930), com quem o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923) havia realizado experiências cinematográficas em 1897. Morize foi diretor do Observatório Nacional entre 1908 e 1929 e o primeiro presidente da Academia Brasileira de Ciências, de 1916 a 1926. Os ministro da Justiça e da Agricultura, Afonso Pena Junior (1879 – 1968) e Miguel Calmon (1912 – 1967), respectivamente, e o prefeito do Distrito Federal, Alaor Prata (1882 – 1964), estavam presentes à solenidade (O Paiz, 30 de abril de 1926Jornal do Brasil, 4 de maio de 1926, primeira colunaA União, 9 de maio de 1926, última coluna). Além dos já citados professores, ao longo do curso, Carmen foi aluna de Manuel Amoroso Costa (1885 – 1928) e José Matoso de Sampaio Correia (1875 – 1942), dentre outros.

 

 

Seu professor de Hidráulica, Mauricio Joppert (1890 – 1985), a convidou, com mais dois alunos, para trabalhar com ele em uma obra federal na Ilha das Cobras, prevista para durar dois anos. Declinou do convite devido à sua nomeação pelo então prefeito, Alaor Prata (1882 – 1964), ao quadro técnico da Diretoria de Obras e Viação da prefeitura do Distrito Federal do Brasil. Seu diretor, um engenheiro que não confiava na competência feminina, deu a ela como primeira tarefa a vistoria de um para-raios instalado no alto de um edifício da prefeitura. Seria um teste. Sua passagem pelo Centro Excursionista Brasileiro, quando escalava diversos morros cariocas, na companhia de amigas como Clotilde Cavalcanti (1904 – 1984), a ajudou a passar no teste. Segundo a própria: “Peguei uma escada, subi ao teto, vi o que o para-raios tinha e resolvi o problema. Foi uma maneira de enfrentar o preconceito“…”difícil mesmo foi aprender como se consertava um para-raios… (Jornal do Brasil, 20 de dezembro de 1999, última coluna). A partir desse dia, adotou calças compridas para o trabalho.

Em 1928, foi promovida a auxiliar técnico da Diretoria de Obras da Prefeitura do Distrito Federal (Correio Paulistano, 15 de abril de 1928, primeira coluna). Ainda nesse ano, ela, Bertha Lutz  (1894 – 1976) e Maria Amélia de Faria, tesoureira, presidente e secretária da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, respectivamente, sobrevoaram o Rio de Janeiro fazendo propaganda pelo voto feminino, lançando folhetos e cartões em cima dos edifícios da Câmara, do Senado e em diversas ruas do centro da cidade (Correio da Manhã, 12 de maio de 1928, sexta colunaCorreio Paulistano, 12 de maio de 1928, primeira coluna).

 

 

Foi uma das signatárias da Declaração dos Direitos da Mulher distribuído pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Outras que também assinaram o manifesto foram Bertha Lutz  (1894 – 1976), a mecenas da Belle Époque carioca, Laurinda Santos Lobo (1878 – 1946); a escritora Maria Eugênia Celso (1886 – 1963) e Maria de Lourdes Lamartine de Faria (1906 – 1992) (Correio da Manhã, 15 de junho de 1928).

 

 

 

 

 

Participou do banquete oferecido pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino à Julia Alves Barbosa (1898 – 1943), identificada como a primeira eleitora brasileira e uma das fundadoras da Associação de Eleitoras Norte-Rio-Grandenses. Na verdade, a primeira eleitora brasileira foi Celina Guimarães Viana (1890 – 1972) (O Paiz, 23 de junho de 1928, última colunaO Paiz, 24 de junho de 1928, Fundaj).

 

 

Abaixo a mesma foto, que faz parte do acervo do Arquivo Nacional:

 

 

Era, com Bertha Lutz  (1894 – 1976) e Orminda Ribeiro Bastos (1899 – 1971), responsável pela coluna “Feminismo”, de O Paiz (O Paiz, 4 de novembro de 1928).

Estava presente e foi fotografada na recepção a Lou Henry Hoover (1874 – 1944), mulher do então presidente eleito dos Estados Unidos, Herbert Hoover (1874 – 1964), ofereceu, no Palácio Guanabara, a associações feministas (O Paiz, 23 de dezembro de 1928).

 

 

Abaixo, a mesma foto, que pertence ao acervo do Arquivo Nacional. Carmen Portinho é a terceira, da direita para a esquerda.

 

 

Sob sua direção foi criada a União Universitária Feminina, no Rio de Janeiro, em 13 de janeiro de 1929, que congregava mulheres com ensino superior em prol da defesa dos direitos femininos. As outras criadoras da entidade foram a também engenheira civil Amélia Sapienza, a bióloga Bertha Lutz  (1894 – 1976),  a advogada Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993), a naturalista e ornitóloga alemã Emilia Snethlage (1868-1929), a professora Heloisa Marinho (1903 – 1994), as médicas Herminia de Assis e Juana Lopes, as advogadas Maria Alexandrina Ferreira Chaves, Maria Ester Correia Ramalho e Myrthes de Campos ( 1875 – 1965); e Orminda Ribeiro Bastos (1899 – 1971), formada em Ciências Jurídicas (O Paiz, 14 de janeiro de 1929, terceira colunaO Imparcial, 15 de janeiro de 1929, primeira colunaGazeta de Notícias, 15 de janeiro de 1929, quarta colunaA Noite, 5 de abril de 1930, primeira colunaManchete, 30 de janeiro de 1971).

 

 

 

 

Também em 1929, foi promovida a engenheira de segunda classe no quadro técnico da Diretoria de Obras da Prefeitura do Distrito Federal. Como era sempre preterida nas promoções, foi falar diretamente com o presidente da República, Washington Luís (1869 – 1957), que interferiu por ela. Ele teria dito ao comandante Braz Veloso, que o acompanhava nas audiências públicas: “Tome nota e providencie o pedido da moça“.

Desde seu ingresso na diretoria já havia fiscalizado as obras da Escola Modelo Soares Pereira, remodelado o Asilo Francisco de Assis, e estava incumbida da instalação elétrica de todos os próprios municipais, incluindo instalação em quase de todas as escolas públicas, fator este que favoreceu a inauguração de cursos noturnos que deixavam de funcionar por falta de iluminação. Havia sido também responsável por melhoramentos em escolas profissionais (A Noite, 9 de março de 1929, segunda colunaO Paiz, 9 de março de 1929, primeira colunaO Paiz, 10 de março de 1929, primeira coluna). Suas primeiras construções foram realizadas ao longo da década de 30: uma escola em Ricardo de Albuquerque, subúrbio carioca, e a sede da Polícia Municipal, na rua do Rezende, no centro do Rio de Janeiro; ambos projetos de Affonso Eduardo Reidy (1909 – 1964), de quem, anos depois, tornou-se companheira. Segundo Lúcio Costa (1902 – 1998), como arquiteto Reidy foi o mais elegante e civilizado de sua geração.

 

 

 

Para Carmen, Reidy projetou duas casas: a Casa Carmen Portinho, em Jacarepaguá, e a Casa Reidy-Portinho (1959), no Vale do Cuiabá, em Itaipava.

A Casa Carmen Portinho foi construída entre 1949 e 1952, concebida para que ele e Carmen vivessem lá. Ela foi a engenheira responsável (Diário Carioca, 11 de março de 1953, última coluna).

 

 

Ficou conhecida como Residência Carmen Portinho e foi tombada a nível municipal pelo Decreto nº 35.874 de 05 de julho de 2012, devido à sutileza plástica de sua arquitetura, na qual foram utilizadas técnicas inovadoras para sua época, tem sua presença destacada na cultura arquitetônica carioca.

 

 

 

Foi uma das idealizadoras da criação da Casa do Estudante do Brasil, inaugurada em 13 de agosto de 1929, durante uma assembleia promovida peo Centro Acadêmico Cândido de Oliveira, da Faculdade Nacional de Direito, reunindo estudantes universitários das escolas superiores do Rio de Janeiro e de representantes das escolas Naval e Militar. A poetisa e Rainha dos Estudantes, Ana Amélia Carneiro de Mendonça (1896 – 1971), foi aclamada presidente da entidade e o escritor Pascoal Carlos Magno (1906 – 1980), secretário (O Jornal, 13 de agosto de 1952, quinta colunaTribuna da Imprensa, 9 de março de 1956).

Na Escola Nacional de Música, Carmen esteve presente nas conferências realizadas pelo arquiteto francês Le Corbusier (1887 – 1965), em dezembro de 1929, a convite do arquiteto espanhol Morales de los Rios Filho (1887 – 1973). Foi a primeira visita de Le Corbusier ao Rio de Janeiro. Em pauta, urbanismo e revolução arquitetônica. Le Corbusier, considerado um dos mais importantes arquitetos do século XX, exerceu grande influência sobre a arquitetura moderna brasileira (O Jornal, 3 de dezembro de 1929, última colunaO Jornal, 4 de dezembro de 1929, quarta colunaO Jornal, 6 de dezembro de 1929, segunda colunaO Jornal, 8 de dezembro de 1929, quarta coluna). Foi com a construção do Ministério da Educação, no Rio de Janeiro, a partir de 1937, encomendado pelo ministro Gustavo Capanema (1900 – 1985), que no Brasil puseram-se em prática as teorias do arquiteto como brise soleil (proteção contra raios solares), pan de verre (fachada envidraçada) e pilotis (estacarias). O prédio é um ícone da arquitetura moderna brasileira.

No início da década de 30, foi uma das engenheiras responsáveis, sem cobrar por isso, pela adaptação de um sobrado na rua do Passeio, que havia sido sede do Clube dos Diários e da sociedade carnavalesca Democráticos, para abrigar a Associação Brasileira de Imprensa (Boletim da Associação Brasileira de Imprensa, agosto de 1956 e julho de 1961).

Representou o governo do Rio Grande do Norte no IV Congresso Pan-americano de Arquitetos, realizado no Rio de Janeiro entre 19 e 30 de junho de 1930. O estado ganhou na exposição promovida pelo congresso a medalha de prata por seu plano de remodelação de Natal. A tese da qual Carmen foi uma das vogais era Parques escolares, universitário, hospitalares, esportivos e de diversões (Jornal do Brasil, 28 de junho de 1930Mensagens do Governo do Rio Grande do Norte, 1930Correio da Manhã, 24 de junho de 1930, última coluna).

A bordo no navio Southern Prince, partiu para os Estados Unidos, onde participaria do Congresso Internacional de Estradas de Rodagem, em Washington, como delegada do Automóvel Clube do Brasil. Conheceu o Canadá e ficou hospedada com umas primas, em Nova York (Correio da Manhã, 15 de outubro de 1930, terceira colunaA Gazeta (SP), 14 de outubro de 1930, segunda coluna).

A Federação Brasileira pelo Progresso Feminino  organizou o II Congresso Internacional Feminista, no Rio de Janeiro, inaugurado, em junho, no Automóvel Club. Carmen foi uma das encarregadas pela organização e pela programação do evento, cujos temas foram educação feminina, proteção às mães e à infância, trabalho feminino, direitos das mulheres e estreitamento das relações pan-americanas e internacionais (Correio da Manhã, 5 de março de 1931, primeira colunaJornal do Brasil, 19 de junho de 1931O Jornal, 19 de junho de 1931, primeira colunaCorreio da Manhã, 26 de junho de 1931O Malho, 27 de junho de 1931; Correio da Manhã, 1º de julho de 1931O Malho, 11 de julho de 1931Vida Doméstica, agosto de 1931).

 

 

 

Finalmente, o Decreto nº 21.076, de 24 de fevereiro de 1932 instituiu o Código Eleitoral Provisório e reconheceu o direito de voto às mulheres. Sobre essa conquista, em entrevista, declarou que deveria ser um estímulo para outros avanços: “Obtivemos a nossa emancipação política, mas esse direito assim isolado, de que nos serve?” (A Noite, 17 de agosto de 1933, última coluna).

Casou-se, em 11 de março de 1932, com o irmão da feminista Bertha Lutz, Gualter Adolpho Lutz (1903 – 1969), que viria a ser especialista em medicina legal, tornando-se catedrático da Escola Nacional de Medicina. Separaram-se poucos anos depois (Revista da Semana, 5 de março de 1932, primeira coluna).

 

 

Foi uma das fundadoras da Revista da Diretoria de Engenharia – posteriormente Revista Municipal de Engenharia -, cuja primeira edição foi publicada em julho de 1932. Foi criada por sugestão dada por ela ao então secretário de Obras do Rio de Janeiro, Delso Mendes da Fonseca (1899 – 1984). Seu diretor-geral era Everardo Backheuser e seu editor Armando de Godoy. A revista, técnica, divulgava as realizações da prefeitura, de engenheiros e de arquitetos. Carmen foi inicialmente secretária e posteriormente foi também redatora e diretora da publicação. Foi na Revista da Diretoria de Engenharia da Prefeitura do Distrito Federal que surgiram os primeiros ensaios sobre a arquitetura moderna no Brasil. No primeiro número foram publicados artigos sobre o primeiro projeto de Affonso Eduardo Reidy (1909 – 1964), sobre o projeto de Lúcio Costa e Warchavshick para apartamentos na Gamboa e dois artigos de Carmen, A arquitetura moderna na Holanda e Influência do nosso clima na arquitetura das prisões. Nas páginas da revista foram, portanto, publicados os primeiros ensaios sobre a arquitetura moderna no Brasil, que seria, anos depois, uma das mais importantes expressões da criatividade do país.

 

 

Foi a capa da revista Brasil Feminino de novembro de 1932.

 

 

Acompanhou a comissão do Ministério da Viação de obras contra a seca no Nordeste, a convite do ministro José Américo de Almeida (1887 – 1980). A comissão era presidida por Sampaio Correia (1875 – 1942) e contava com alguns de seus antigos professores como Mauricio Joppert (1890 – 1985) e Hildebrando de Góes (1899 – 1980). Durante a viagem, visitou as filiais da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino na Bahia, em Pernambuco, no Ceará e no Rio Grande do Norte (Jornal do Brasil, 30 de novembro de 1932, sexta coluna; Jornal do Recife, 7 de dezembro de 1932, penúltima colunaCorreio da Manhã, 10 de dezembro de 1932, terceira colunaJornal do Brasil, 14 de dezembro de 1932, terceira colunaJornal do Brasil, 15 de dezembro, segunda colunaJornal do Brasil, 23 de dezembro de 1932, terceira coluna).

Ela e Bertha Lutz  (1894 – 1976) participaram da Conferência Pan-americana, em Montevidéu, no Uruguai. Seguiram para o evento em companhia do diplomata Arno Konder (1882 – 1942), futuro cônsul do Brasil em Washington e na Alemanha (Correio da Manhã, 30 de novembro de 1933, quinta colunaJornal do Brasil, 2 de dezembro de 1933, sexta colunaCorreio da Manhã, 9 de dezembro de 1933, terceira coluna).

Em 1934, era a segunda secretária do Sindicato Central de Engenheiros, do qual, em 1938, tornou-se vice-presidente  (Jornal do Brasil, 7 de janeiro de 1934, primeira colunaRevista Municipal de Engenharia, setembro de 1938Correio da Manhã, 8 de outubro de 1938, primeira coluna). Também em 1934, foi nomeada engenheira-chefe da prefeitura (Jornal do Brasil, 16 de agosto de 1934, primeira coluna).

Ingressou, em 1936, no curso de pós-graduação do Curso de Urbanismo e Arquitetura da Universidade do Distrito Federal. Em 22 de dezembro de 1938, Carmen defendeu sua tese, Plano da futura capital do Brasil (Jornal do Brasil, 14 de dezembro de 1938, quinta colunaCorreio da Manhã, 18 de dezembro de 1938, segunda coluna).

 

 

Tornou-se, em 1939, a primeira mulher a obter o título de urbanista no Brasil (Correio da Manhã, 17 de janeiro de 1939, primeira coluna e sua tese foi publicada nas edições de março e maio da Revista Municipal de Engenharia. A primeira turma do curso era composta por oito alunos: Carmen Portinho, Déa Torres de Paranhos  (1915 – 2001), Albino dos Santos, Dante Jorge Albuquerque, Ricardo José Antunes Júnior, Paulo de Camargo e Almeida, João Lourenço da Silva e Adhemar Marinho da Cunha (O Imparcial, 7 de agosto de 1938, última coluna). Todos, menos ela, eram arquitetos. Teve como professores Mário de Andrade (1893 – 1945), de História da Arte; Candido Portinari (1903 – 1962), de Pintura; e Celso Antônio de Menezes (1896 – 1984), de Escultura, dentre outros. Foi nessa ocasião que conheceu Edith Behring (1916 – 1996), que se tornaria uma das mais importantes gravadoras brasileiras e futura responsável pelo Ateliê de Gravura do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro.

Por iniciativa de Carmen e de outras engenheiras, foi fundada, em 19 de julho de 1937, a Associação Brasileira de Engenheiras e Arquitetas (ABEA), para incentivar mulheres formadas a ingressar no mercado de trabalho. Ela foi sua primeira presidente (Correio da Manhã, 27 de julho de 1937, terceira coluna).

 

 

Lista de Presença da Fundação da ABEA / Fonte: Revista da ABEA Nacional – Ano 1 no. 1, 2011.

Lista de Presença da Fundação da ABEA /
Fonte: Revista da ABEA Nacional – Ano 1 no. 1, 2011.

 

Foi eleita, em 1940, membro do Conselho Diretor do Club de Engenharia, presidido por José Matoso de Sampaio Corrêa (1875 – 1942) (Jornal do Commercio, 16 de junho de 1940, segunda coluna).

Em 1945, foi uma das organizadoras, com Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993), Maria Luisa Dória de Bittencourt (1910 – 2001), primeira deputada da Bahia; Maria Rita Soares de Andrade (1904 – 1998) e outras mulheres, de uma coligação democrática para apoiar a candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes (1896 – 1981) à presidência da República (Diário de Notícias, 24 de fevereiro de 1945, quinta coluna).

Viajou para a Inglaterra, em agosto de 1945, por ter recebido uma bolsa do Conselho Britânico para estagiar junto às comissões de reurbanização das cidades inglesas destruídas pela guerra. A viagem durou 24 dias de navio. Em setembro, já em Londres, ela ofereceu uma recepção na sede do British Council. Em outubro, foi homenageada com um almoço na residência do embaixador do Brasil em Londres, José Joaquim de Lima e Silva Muniz de Aragão (1887 – 1974). Em 21 de dezembro, foi oferecido em homenagem a seu regresso ao Brasil um cocktail na sede da Sociedade de Engenheiros da Prefeitura do Distrito Federal. Segundo ela, foi nesse período que aprendeu o conceito de unidade de habitação. Esteve também na Escócia e em Paris, quando encontrou-se com Beata Vettori (1909 – 1994), diplomata e sua antiga companheira na Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Também, em Paris, encontrou-se com Le Corbusier (1887 – 1965) e lhe mostrou as transparências e as plantas da sede do Ministério da Educação (A Noite, 6 de setembro de 1945, terceira colunaO Jornal, 6 de outubro de 1945, primeira coluna; O Jornal, 6 de outubro de 1945, primeira colunaJornal do Commercio, 7 de outubro de 1945, quinta colunaCorreio da Manhã, 15 de dezembro de 1945, sexta colunaRevista da Semana, 10 de abril de 1948Jornal do Commercio, 21 de dezembro de 1945, sexta coluna). 

Foi criado, em 1946, o Departamento de Habitação Popular da Secretaria de Viação e Obras Públicas da Prefeitura do Distrito Federal e Carmen foi nomeada sua chefe (Diário de Notícias, 5 de abril de 1946Correio da Manhã, 5 de abril de 1946, quarta colunaDiário de Notícias, 16 de abril de 1946, quarta colunaCorreio da Manhã, 17 de fevereiro de 1948, sétima colunaDiário Carioca, 3 de março de 1948, quinta coluna). Em 1951 foi destituída do cargo, para o qual foi e reconduzida em 1952. Em 1961, foi substituída pelo engenheiro Stelio Emmanuel de Alencar Roxo (1925 – ?), nomeado por Carlos Lacerda (1914 – 1977), que havia sido empossado no governo da Guanabara, em 5 de dezembro de 1960. Carmen tinha divergências políticas irreconciliáveis com Lacerda. Aposentou-se do serviço público (Diário Carioca, 4 de janeiro de 1961, quinta coluna).

No período que atuou à frente do departamento, lutou pela implementação de um programa de habitação popular na cidade do Rio de Janeiro. Liderou uma equipe de assistentes sociais, arquitetos e engenheiros que idealizaram e construíram quatro conjuntos residenciais, importantes e seminais na trajetória do urbanismo e da arquitetura no Brasil.

1 – O Conjunto Residencial do Pedregulho, cujos primeiros 54 apartamentos foram inaugurados com a presença do prefeito Ângelo Mendes de Moraes (1894 – 1990) e de diversas autoridades. Na ocasião, Carmen proferiu uma palestra sobre a construção (A Noite, 20 de junho de 1950, primeira coluna; Correio da Manhã, 21 de junho de 1950). O projeto de Reidy conquistou o  prêmio de Organização de Grandes Áreas ou de Urbanismo na Bienal Internacional de São Paulo de 1951 (Última Hora, 24 de agosto de 1951, quarta colunaCorreio da Manhã, 6 de dezembro de 1951, primeira coluna).

 

 

 

2 – O Conjunto Residencial da Gávea, outro projeto de Reidy. O prefeito Dulcidio Espírito Santo Cardoso (1896 – 1978) extinguiu a comissão de Planejamento e Direção das Obras do Parque Proletário na rua Marquês de São Vicente, na Gávea, que ficou a cargo de Carmen Portinho. Publicação de uma entrevista com ela (Jornal do Commercio, 16 de janeiro de 1953, primeira colunaA Noite, 17 de janeiro de 1953). Devido à sua aposentadoria, em 1961, não concluiu a obra.

 

 

 

3 – O Conjunto Habitacional Paquetá,  projeto de Francisco Bolonha (1923 – 2006), inaugurado em 1952 (Correio da Manhã, 30 de março de 1952, segunda coluna).

 

 

4 – O Conjunto Residencial de Vila Isabel , cuja concorrência foi aberta em 1954. Foi também um projeto do arquiteto Francisco Bolonha voltado para funcionários municipais (Diário de Notícias, 16 de janeiro de 1954, quinta colunaA Noite, 1º de outubro de 1956Jornal do Commercio, 18 de outubro de 2003, última coluna).

 

 

Entre 27 de setembro e 1º de outubro de 1947, participou, como delegada do Brasil, do Congresso Internacional de Mulheres, organizado pela Entente Mondiale pour la Paix, na sede da Unesco, onde ficava anteriormente o Hotel Majestic. Retornou em 24 de outubro e, em 5 de novembro, proferiu uma palestra sobre o evento, na Casa do Estudante do Brasil (Correio da Manhã, 18 de julho de 1947, terceira colunaCorreio da Manhã, 27 de agosto de 1947, quinta coluna; Correio da Manhã, 28 de setembro de 1947, última coluna; O Jornal, 28 de setembro de 1947, sexta colunaCorreio da Manhã, 25 de outubro de 1947, última colunaJornal do Commercio, 5 de novembro de 1947, primeira colunaRevista da Semana, 6 de dezembro de 1947).

Em 21 de março de 1951, foi eleita e tomou posse a nova diretoria do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro, fundado em 1948: Raymundo de Castro Maya (1894 – 1968) – presidente -, Francisco de San Thiago Dantas  (1911 – 1964) – vice-presidente -, Niomar Moniz Sodré Bittencourt (1916 – 2003) – diretora executiva , Carmen Portinho – diretora executiva adjunta -, Maria Barreto (diretora secretária) e Walther Moreira Salles (1912 – 2001) (tesoureiro). Permaneceu no cargo até 1966. Nesses 15 anos, participou ativamente das atividades do museu, tendo apoiado, curado ou organizado importantes exposições de artistas como Portinari, Cícero Dias e Pancetti.

 

 

Foi a engenheira de sua sede definitiva, projeto de Reidy, no Aterro do Flamengo. O início das obras se deu em 9 de dezembro de 1954, quando o bate-estaca da obra foi acionado pelo então presidente Café Filho (1899 – 1970). Uma cápsula do tempo foi enterrada junto às fundações, contendo marcas do período, como moedas, notas e recortes de jornal. A pedido de Carmen, a artista plástica Lygia Clark decorou a barraca do museu com amostras do material que seria usado nas obras, com um painel de exposição na entrada, entre a sala de trabalho e de reuniões (Correio da Manhã, 9 de dezembro de 1954Tribuna da Imprensa, 10 de dezembro de 1954, penúltima colunaCorreio da Manhã, 16 de dezembro de 1954, terceira colunaVida Doméstica, janeiro de 1955).

 

 

Filme Reidy, a construção da utopia

 

Foi inaugurada em 27 de janeiro de 1958, com uma exposição permanente de seu acervo, uma mostra do inglês Ben Nicholson (1894 – 1982) e uma de escultores ingleses.  (Última Hora, 4 de janeiro de 1958, primeira colunaCorreio da Manhã, 5 de janeiro de 1958Correio da Manhã, 28 de janeiro de 1958Última Hora, 28 de janeiro de 1958, quarta colunaO Jornal, 30 de janeiro de 1958, última coluna).

 

 

O projeto do arquiteto Affonso Eduardo Reidy (1909 – 1964) é reconhecido internacionalmente como um marco da arquitetura moderna mundial. Seus jardins são de autoria de Roberto Burle Marx (1909 – 1994), que também integrou a equipe que realizou, alguns anos depois, o paisagismo do Parque Flamengo, contíguo ao museu.

 

 

 

Em 8 e 9 de setembro de 1966, respectivamente o presidente e o vice-presidente do Museu de Arte Moderna, Gustavo Capanema (1900 – 1985) e João Carlos Vital (1900 – 1984) pediram demissão. A crise no museu foi ocasionada pelo convite feito ao então ministro das Relações Exteriores, Juracy Magalhães (1905 – 2001), para visitar o museu na ocasião da exposição do artista português Bernardo Marques (1898 – 1962). Juracy era um desafeto de Niomar Moniz Sodré Bittencourt (1916 – 2003), então presidente de honra do museu. Em 27 de setembro foi realizada uma reunião do Conselho Deliberativo e por aclamação foi eleita uma nova diretoria. Assim, após 15 anos, Carmen Portinho deixou o cargo de diretora executiva adjunta do MAM-RJ, que exerceu desde 1951. Por não concordarem com esta resolução, os conselheiros Raymundo de Castro Maya (1894 – 1968), Rodrigo de Mello Franco (1898 – 1969) e Leonídio Ribeiro pediram demissão  (Correio da Manhã, 9 de setembro de 1966, primeira colunaCorreio da Manhã, 29 de setembro de 1966Jornal do Brasil, 14 de setembro de 1978, quinta colunaJornal do Brasil, 8 de julho de 1979).

Foi convidada, em 1967, pelo então governador da Guanabara, Francisco Negrão de Lima (1901 – 1981), para ser diretora da Escola Superior de Desenho Industrial – Esdi –, cargo que exerceu por 20 anos. A Esdi havia sido criada pelo Decreto 1.443, de 25 de dezembro de 1962, e publicado no Diário Oficial do Estado da Guanabara de 4 de janeiro de 1963, durante a gestão do governador Carlos Lacerda (1914 – 1977). Foi instalada à Rua Evaristo da Veiga 95, estendendo-se o terreno até a Rua do Passeio, onde tem o nº 80. Iniciou suas atividades de ensino em 1963, como instituição isolada, pertencente à estrutura da Secretaria de Educação e Cultura da Guanabara. Dada à fusão dos estados do Rio de Janeiro e Guanabara, foi integrada pelo decreto n°67, de 11 de abril de 1975, à nascente UERJ, antiga UEG (O Jornal, 1º de abril de 1967, quinta coluna; O Jornal, 11 de abril de 1967, primeira coluna; Leitura, agosto de 1967; Jornal do Brasil, 26 de setembro de 1977, primeira coluna). 

 

 

 

Foi sob sua direção que, em 1970, a Esdi foi oficializada pelo Conselho Nacional de Educação (Jornal dos Sports, 20 de maio de 1970, primeira coluna). Em 1986, Carmen conseguiu unanimidade na Câmara dos Vereadores do Rio de Janeiro na contestação do veto do prefeito Saturnino Braga (1931 – ) ao projeto de preservação da área ocupada pela Esdi, impedindo o despejo da escola (Jornal do Commercio, 6 de julho de 1986, sexta coluna).

Em 1987, foi convidada pelo Conselho Nacional dos Direitos da Mulher (CDNM) a entregar ao presidente da Câmara dos Deputados, Ulysses Guimarães (1916 – 1992), ao lado de outras mulheres, a Carta das Mulheres aos constituintes, com propostas para a Constituição que estava sendo escrita (Correio Braziliense, 27 de março de 1987, segunda coluna).

Foi convidada, em 1988, para trabalhar como assessora do Centro de Tecnologia e Ciências da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Recebeu o Prêmio Gonzaga Duque, da Associação Brasileira de Críticos de Arte, destinado a crítico associado, pela sua atuação ou publicação de livro. O troféu é uma escultura de Haroldo Barroso (1935 – 1989). Foi eleita presidente da Associação Brasileira de Críticos de Arte, cargo que ocupou até 1990, quando foi substituída por Esther Emilio Carlos. Uma curiosidade: foi por sugestão de Mario Pedrosa (1900 – 1981) que passou a fazer parte da Associação Brasileira de Críticos de Arte, em torno de 1967 (Jornal do Commercio, 3 de outubro de 1988, quinta colunaJornal do Commercio, 3 de outubro de 1990, quarta coluna).

Em 1991, passou a fazer parte da Comissão Técnica de Arte da Bienal Internacional de São Paulo (Jornal do Commercio, 22 de fevereiro de 1991, quinta coluna). Carmen Portinho, em 1993, era então a mais antiga engenheira do Brasil e coordenava as unidades do Centro de Tecnologia e Ciências da Universidade Estadual do Rio de Janeiro (O Globo, 27 de abril de 1993).

Em 1999, trabalhava como consultora do Centro de Tecnologia e Ciências da Universidade Estadual do Rio de Janeiro. Foram lançados os livros Carmen Portinho, de autoria de Ana Luiza Nobre; e de Carmen Portinho – por toda a minha vida, um depoimento dela a Geraldo Edson de Andrade (Jornal do Brasil, 24 de novembro de 1999, terceira colunaJornal do Brasil, 18 de dezembro de 1999, última coluna).

Carmen faleceu no dia 25 de julho de 2001, aos 98 anos (Jornal do Brasil, 26 de julho de 2001). Não teve filhos, mas adotou informalmente uma menina de 6 anos, filha de sua irmã Maria de Lourdes (c. 1918 – 1962), morta precocemente – por coincidência, também chamada Carmen, irmã da atriz e cineasta Ana Maria Magalhães.

Em 2019, foi homenageada com a declaração do Ano Institucional Carmen Portinho da UERJ.

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANDRADE, Geraldo Edson; PORTINHO, Carmen. Por toda a minha vida. Rio de Janeiro : UERJ, 1999.

Cavalcanti, Lucas. Conhecendo Tilde Canti. Rio de Janeiro ; UFRJ, 2020

DEL PRIORE, Mary (Org.). História das mulheres no Brasil. Coordenação de textos de Carla Bassanesi. São Paulo: Contexto, 1997

DEL PRIORI, Mary. História e conversas de mulher. São Paulo: Planeta Brasil, 2014

Filme Reidy, a construção da utopia (2009), de Ana Maria Magalhães

Filme Carmen Portinho e a UERJ (2019) / Programa Campus – TV UERJ

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

HEYNEMANN, Claudia; RAINHO, Maria do Carmo. Memória das lutas feministas in Brasiliana Fotográfica, 8 de agosto de 2017.

Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro

NASCIMENTO, Flávia de Brito do. Carmen Portinho e o habitar moderno – Teoria e trajetória de uma urbanista. R. B. Estudos Urbanos e regionais v.9, Nn.1 / maio 2007

NOBRE, Ana Luiza. Carmen Portinho. Rio de Janeiro : Relume Dumará, 1999

PINTO, Celi Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo (coleção história do povo brasileiro) 2003.

Portal Câmara dos Deputados

Portal MultiRio

Portal Senado Federal

Revista Brasileira de Enfermagem, volume 55, nº 3. Brasília jan/fev de 2002

Revista Casa Claudia, 22 de agosto de 2017

Revista Projeto, junho de 1988

Revista Vitruvius, janeiro de 2007agosto de 2001

SERRANO, Cinthia Lobato. Arquitetura e Gênero: o resgate de pioneiras no cenário profissional. Dissertação do curso de Arquitetura e Urbanismo da Universidade Federal Fluminense, 25 de março de 2013.

SHUMAHER, Schuma; BRAZIL, Erico Vital (organizadores). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., 2000.

SILVA, Raquel Coutinho M. da. Carmen Portinho: engenheira da prefeitura do Distrito Federal, difusora do urbanismo e uma feminista avant-gardeRevista do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

Site ArqFashion

Site Bienal de São Paulo

Site Casas Brasileiras

Site CPDOC

Site Cronologia do Pensamento Urbanístico

Site Democracia e Mundo do Trabalho

Site Esdi

Site Mulher 500 anos atrás dos panos

Site Unifei

 

Leia também os outros artigos da série “Feministas, graças a Deus”:

Série “Feministas, graças a Deus!” I – Elvira Komel, a feminista mineira que passou como um meteoro, publicado em 25 de julho de 2020, de autoria da historiadora Maria Silvia Pereira Lavieri Gomes, do Instituto Moreira Salles, em parceria com Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” II  – Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993), o jequitibá da floresta, publicado em 20 de agosto de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” III  – Bertha Lutz e a campanha pelo voto feminino: Rio Grande do Norte, 1928, publicado em 29 de setembro de 2020, de autoria de Maria do Carmo Rainha, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” IV  – Uma sufragista na metrópole: Maria Prestia (? – 1988), publicado em 29 de outubro de 2020, de autoria de Claudia Heynemann, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” V – Feminista do Amazonas: Maria de Miranda Leão (1887 – 1976), publicado em 26 de novembro de 2020, de autoria de Maria Elizabeth Brêa Monteiro, mestre em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” VI – Júlia Augusta de Medeiros (1896 – 1972) fotografada por Louis Piereck (1880 – 1931), publicado em 9 de dezembro de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VII – Almerinda Farias Gama (1899 – 1999), uma das pioneiras do feminismo no Brasil, publicado em 26 de fevereiro de 2021, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” IX – Mariana Coelho (1857 – 1954), a “Beauvoir tupiniquim”, publicado em 15 de junho de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

 

A Estrada de Ferro do Paraná, de Paranaguá a Curitiba, pelos fotógrafos Arthur Wischral e Marc Ferrez

 

 

Arthur Júlio Wischral (1894 – 1982) foi um importante fotógrafo do Paraná, tendo realizado trabalhos para a imprensa e também para o governo do estado onde atuou. Em 1928, foi contratado pela Rede Viação Paraná – Santa Catarina e registrou o dia a dia das obras de manutenção da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá assim como as dificuldades enfrentadas por seus trabalhadores. Um álbum, editado pelo próprio fotógrafo e por J. J. Wischral, foi produzido com esses registros.

 

 

 

Acessando o link para o Álbum de Photografias da Ferrovia de Curytiba a Paranaguá, de autoria de Arthur Wischral, disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

No final do artigo, há uma cronologia da vida de Wischral.

 

Um pouco da história da ferrovia Curitiba-Paranaguá, cuja construção foi registrada pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923)

 

 

O surgimento dos trens de ferro e a expansão das ferrovias eram no século XIX um evidente sinal de modernidade. Significavam a vitória, o triunfo do homem a partir da tecnologia e tinham como uma de suas consequências o desenvolvimento econômico. A ideia da construção da Ferrovia do Paraná surgiu após a emancipação do estado do Paraná, em 29 de agosto de 1853, a partir da Lei Imperial nº 704, assinada por dom Pedro II(1825 – 1891). Era um desafio escoar a erva-mate, importante produto para a economia do estado, para os portos do litoral. Por essa razão, foi autorizada a contratação de uma via férrea a partir da Lei Provincial nº 11, de 30 de abril de 1856 (Dezenove de Dezembro, 22 de outubro de 1856).

 

Acessando o link das imagens do Álbum da Estrada de Ferro do Paraná, de autoria de Marc Ferrez, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Porém, só no início da década de 1870, os engenheiros Francisco Monteiro Tourinho (1837 – 1885), Antônio Pereira Rebouças (1839 – 1874) e Maurício Schwartz (18? -?) solicitaram ao Império um pedido de concessão para a construção da ferrovia. Eles já haviam construído a Estrada da Graciosa, também no Paraná. A estrada de ferro do Paraná sairia, a princípio, da cidade de Antonina. Após muita polêmica, o Decreto Imperial de 1.º de maio de 1875 decidiu que o trem partiria de Paranaguá. O argumento foi que a profundidade da baía de Antonina não comportaria navios de grande porte.

O projeto da ferrovia, arrojado e muito avançado para a época, foi dos irmãos e engenheiros André Rebouças (1838 – 1898) – também abolicionista – e Antônio Pereira Rebouças (1839 – 1874), considerados, até hoje, os primeiros afrodescendentes formados em Engenharia no Brasil. Para realizá-lo, os irmãos fizeram um estudo detalhado da Serra do Mar e elaboraram um traçado cheio de pontes, túneis e viadutos.

 

 

Em 1873, por não conseguir cumprir os prazos estabelecidos para o início das obras, Antônio Rebouças cedeu seus direitos ao Barão de Mauá (1813 – 1889), que também não cumpriu as exigências do contrato. Em 1877, foi aprovado um novo traçado baseado nos originais de Rebouças e com adaptações dos engenheiros Rodolpho Alexandre Helh e Luiz da Rocha Dias. Pelo Decreto n° 7420 de 12 de agosto de 1879, assinado por João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, o Visconde de Sinimbu (1810 – 1906), foi autorizada a transferência de todos os direitos e obrigações dos, desde 1875, concessionários da ferrovia, José Gonçalves Pecego Junior e José Maria da Silva Lemos, à companhia francesa Compagnie Général de Chemins de Fer Brésiliens, que não tinha expertise em relação à construção de estradas de ferro, o que sua companhia associada, a empreiteira belga Société Anonyme de Travaux Dyle et Bacalan, tinha. Ficou, então, encarregada das obras.

 

 

O diretor dos novos serviços para a construção, um marco da engenharia do Brasil, foi o comendador Antônio Ferrucci (c. 1830 – ?), um dos principais chefes de seu planejamento que, com outros membros da comissão de engenharia da estrada, chegou ao Rio de Janeiro, em 8 de fevereiro de 1880, no paquete francês Gironde (Gazeta de Notícias, 10 de fevereiro de 1880, sétima coluna). Ferrucci comandou as obras até fins de 1881. A partir de 20 de janeiro de 1882, o representante no Brasil da Société Anonyme des Travaux Dyle et Bacalan, o engenheiro Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), futuro prefeito do Rio de Janeiro, entregou a chefia das obras ao engenheiro brasileiro João Teixeira Soares (1848 – 1927), que concluiu a construção da ferrovia, sendo o seu primeiro diretor.

 

 

A construção da ferrovia para a qual, entre brasileiros e estrangeiros – franceses, italianos, belgas, suíços, suecos e poloneses -, foram empregados cerca de nove mil trabalhadores, alavancou o desenvolvimento de Curitiba assim como a história da economia do Paraná.

Em 5 de junho de 1880, com a presença de dom Pedro II (1825 – 1891), em sua primeira e única visita ao Paraná, foi lançada a pedra fundamental das obras da ferrovia (Dezenove de Dezembro, 24 de maio de 1880Dezenove de Dezembro, 9 de junho de 1880, segunda coluna). A inauguração do tráfego regular da primeira seção, o trecho de Paranaguá a Morretes, ocorreu em 17 de novembro de 1883. O da segunda seção, entre Morretes e Borda do Campo ou Roça Nova, em 1884.

 

 

Em 13 de dezembro de 1884, a princesa Isabel (1846 – 1921), seus filhos, o governador do Paraná, Brasílio Augusto de Machado Oliveira (1848 – 1919); além de outras autoridades viajaram na ferrovia do Paraná, entre Curitiba e Paranaguá, onde a princesa embarcaria para Antonina e depois para Santa Catarina, onde encontraria seu marido, o conde d´Eu (1842 – 1922), em Joinville (Gazeta de Notícias, 14 de dezembro de 1884, primeira colunaDezenove de Dezembro, 14 de dezembro de 1884, primeira colunaO Paiz, 14 de dezembro de 1884, segunda coluna).

 

 

No dia 1º de fevereiro de 1885,  partiu da cidade de Curitiba um trem especial com destino à Paranaguá. Nele viajaram o dr. Brasilio Machado (1848 – 1919), presidente da Província; o chefe da Polícia, o senador Pedro Leão Veloso (1828 – 1902), o engenheiro João Teixeira Soares (1848 – 1927), dentre outras autoridades. Em Paranaguá, pelo vapor América, fretado pela Compagnie Général de Chemins de Fer Brésiliens, chegaram da Corte, no dia seguinte pela manhã, entre outros, o ministro da Agricultura, Manoel Pinto de Souza Dantas (1831 – 1894);  os ministros da Bélgica, da Rússia e da França; o Visconde de Paranaguá (1821 – 1912) e o Conselheiro Sinimbu (1810 – 1906) (Dezenove de Dezembro, 4 de fevereiro de 1885).

 

O vapor do mar, em galas, saudava a locomotiva, vapor de terra. Fulton abraçava Stephenson.

 

O fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), que fotografou a ferrovia na época de sua construção, estava presente no evento (Dezenove de Dezembro, 4 de fevereiro de 1885, terceira coluna).

 

 

Ainda na manhã de 2 de fevereiro, às 10h, o trem inaugural da Ferrovia do Paraná partiu de Paranaguá, fez uma parada em Morretes e, às 14h, em Cadeado, onde os convidados almoçaram. Houve uma série de saudações, uma delas feita pelo engenheiro Pereira Passos (1836 – 1913).

 

 

Depois de mais uma parada, na estação de Piraquara, o comboio chegou, às 19h, à Curitiba, tendo sido recepcionado por cerca de cinco mil pessoas que o aguardavam. Às 20:20, a Compagnie Général de Chemins de Fer Brésiliens ofereceu um banquete aos convidados da Corte, em um dos armazéns da estação, ornamentada com as bandeiras belga, brasileira, francesa, italiana e russa. Havia também uma exposição de utensílios dos operários que haviam trabalhado na construção da ferrovia.

 

 

 

 

 

 

Pereira Passos (1836 – 1913) presenteou dom Pedro II (1825 – 1891) com 14 fotografias e um álbum de autoria de Ferrez das obras da ferrovia, Estrada de Ferro do Paraná. O álbum integra a coleção Thereza Christina Maria, mantida na Biblioteca Nacional do Brasil, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica.

 

 

Em 1886, em uma reunião da Sociedade Central de Immigração, da qual faziam parte, entre outros, o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), o pintor italiano Nicolau Facchinetti (1824 – 1900), e o político Alfredo d´Escragnolle Taunay (1843 – 1899), foram apresentadas por esse último, presidente da associação, fotografias da ferrovia do Paraná, de autoria de Ferrez (A Immigração, agosto de 1886).

 

álbum

 

Acesse aqui o pdf do Álbum da Estrada de Ferro do Paraná, de autoria de Marc Ferrez, com 33 imagens.

Sobre o viaduto São João, considerado o mais importante de toda a linha, inaugurado em 26 de junho de 1884 e registrado na fotografia abaixo, o engenheiro Teixeira Soares (1848 – 1927) comentou:

 

 

“Os três vãos pequenos são vencidos com vigas de alma cheia. Só o vão central é de treliça. Assenta sobre pilares de ferro batido, apoiados em base de alvenaria de pedra. A estrutura metálica é fabricada na Bélgica. Fornecemos os perfis do terreno natural e do greide. Eles projetam cada ponte ou viaduto de acordo com o trem de carga especificado. Aqui fazemos a montagem, que não é fácil. Para muita gente pode parecer desperdício pilares metálicos, se estamos rodeados de granito e de gnaisse em abundância. Acontece que a experiência europeia concluiu que, a partir de 30 metros, o ferro torna-se mais econômico do que a alvenaria de pedra. O alojamento e a manutenção do numeroso pessoal necessário à execução de importantes maciços de alvenaria acarretam dificuldades. Embora isso, os pilares metálicos devem ser embutidos em bases de alvenaria, com certa altura. Não só impedem que a unidade provoque a corrosão do metal, como evitam que suba até a estrutura metálica. Para vãos inferiores a 15 metros, os europeus recomendam vigas de alma cheia. Mais afoitos, os americanos as empregam até vãos de 35 metros. Seu inconveniente é a rebitagem. Trabalho insano. Como estamos sujeitos ao mercado europeu, acima de 15 metros usamos vigas em treliça, a exemplo do vão central. As treliças simples são três. Em “V”, conhecidas por vigas ‘Warren’, do nome do engenheiro inglês que primeiro as usou no seu país. Em “N”, ou Monier, nome do engenheiro belga que as patenteou em 1858, na Alemanha. Finalmente as Neville, nome tirado do engenheiro americano que as inventou, mas que não passam de um tipo misto das anteriores. Aqui, dada a extensão do vão, os belgas projetaram uma treliça múltipla dupla.”

 

Pequena cronologia da carreira de Marc Ferrez como fotógrafo no setor ferroviário

 

 

1880 – Entre 1880 e 1890,  fotografou as construções ferroviárias no Brasil, quando produziu um grande panorama da paisagem brasileira de sua época.

1882 – Fotografou as obras da ferrovia Dom Pedro II, em São Paulo e em Minas Gerais, tendo registrado a presença do imperador Pedro II e de sua comitiva na entrada do túnel da Serra da Mantiqueira (Gazeta de Notícias, 27 de junho de 1882, na quarta coluna).

 

1883 – O Club de Engenharia ofereceu uma recepção ao engenheiro hidráulico holandês J. Dirks, o grande especialista da época em portos e canais, que estava de passagem pelo Rio de Janeiro e seguiria para Valparaíso, no Chile. Na ocasião, foi realizada uma exposição de fotografias das estradas de ferro, de autoria de Marc Ferrez (Revista de Engenharia, 14 de abril de 1883).

c. 1884 – Fotografou as obras da ferrovia do Paraná (Paranaguá – Curitiba. O gerente da firma Société Anonyme des Travaux Dyle et Bacalan, empreiteira belga encarregada pelas obras, o futuro prefeito do Rio de Janeiro, o engenheiro Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), presenteou dom Pedro II com 14 fotografias e um álbum de autoria de Ferrez com registros da ferrovia e da província do Paraná.

1884 - Exposição de fotografias da estrada de ferro Teresa Cristina, na A la Glacê Elegante (Gazeta da Tarde, 11 de novembro de 1884, na quinta coluna).

1885 – Ferrez participou da inauguração da ferrovia do Paraná, a estrada de ferro Paranaguá – Curitiba (Dezenove de Dezembro, 4 de fevereiro de 1885, na terceira coluna).

1886 – Em uma reunião da Sociedade Central de Immigração, da qual faziam parte, entre outros, o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), o pintor italiano Nicolau Facchinetti (1824 – 1900), e o político Alfredo d´Escragnolle Taunay (1843 – 1899), foram apresentadas por esse último, presidente da associação, fotografias da ferrovia do Paraná, de autoria de Ferrez (A Immigração, agosto de 1886).

O Club de Engenharia aprovou a proposta de Marc Ferrez e de E. de Mascheuk para a execução de “diversos trabalhos concernentes à exposição dos caminhos de ferro” (Revista de Engenharia, 14 de dezembro de 1886, na primeira coluna).

Ferrez fotografou a ferrovia Dom Pedro II, em Juiz de Fora.

1887 - Entre 2 de julho e 2 de agosto, nos salões do Liceu de Artes e Ofícios, por uma iniciativa do Club de Engenharia, realizou-se a Exposição dos Caminhos de Ferro Brasileiros, com a exibição de fotografias de Ferrez (Revista de Engenharia, 14 de agosto de 1887). Estiveram presentes no encerramento da exposição, no dia 2 de agosto, a princesa Isabel(1845 – 1921) e o conde d´Eu (1842 – 1922), além de outras autoridades. O conselheiro Sinimbu (1810 – 1906) leu o relatório do júri da exposição, do qual também fazia parte o visconde de Mauá (1813 – 1889), Pedro Betim Paes Leme (1846 – 1918), Christiano Benedicto Ottoni (1811 – 1896), Carlos Peixoto de Mello (1871 – 1917), Álvaro Joaquim de Oliveira (1840 – 1922) e Manoel José Alves Barbosa (1845 – 1907). Ferrez foi contemplado com uma menção honrosa pelas “magníficas fotografias de importantes trechos de nossas vias férreas, com que concorreu não só para abrilhantar a Exposição como até para suprir algumas lacunas sensíveis de estradas que se não fizeram representar” (Jornal do Commercio, 3 de agosto de 1887, na terceira coluna e Revista de Estradas de Ferro, 31 de agosto de 1887, na primeira coluna).

1888 – Em 25 de novembro, foi inaugurado o tráfego entre as estações de Alcântara e Rio do Ouro da estrada de ferro de Maricá. Marc Ferrez fotografou “instantaneamente ” um grupo de convidados da diretoria das estradas na estação Santa Izabel (Revista de Engenharia, 28 de dezembro de 1888, na primeira coluna).

1890 – Em setembro, Ferrez integrou a comitiva convidada para a  inauguração das obras da ferrovia Benevente -Minas, de Carangola a Benevente, atual Anchieta, no Espírito Santo (Diário de Notícias, 28 de setembro de 1890, quinta coluna).

1891 – Na Revista de Engenharia, 28 de dezembro de 1890, foi publicado um anúncio: “Marc Ferrez – Fotógrafo da Marinha Nacional. Especialista de vistas de estradas de ferro e em geral das grandes obras públicas. Reprodução de plantas com traços pretos sobre fundo branco. Rua São José 8″. O mesmo anúncio voltou a ser veiculado na edição de 14 de agosto de 1891.

1892 – Foi determinado que nas estradas de ferro subvencionadas pelo governo federal fossem liberados passes de ida e volta para Marc Ferrez e um ajudante para que pudessem “levantar fotografias em diversas localidades para o serviço da Exposição Universal Colombiana de Chicago”, que aconteceu entre 1º de maio e 30 de outubro de 1893 para celebrar os 400 anos da chegada do navegador genovês Cristóvão Colombo (1451 – 1506) ao Novo Mundo, em 1492 (Jornal do Brasil, 21 de agosto de 1892, na quinta coluna).

1895 – Em novembro, Ferrez fotografou, em Búzios, os convidados e a comissão responsável pela construção da Estrada de Ferro Rio de Janeiro-Minas, que uniria o povoado de Búzios a Paquequer, no estado de Minas Gerais (A Notícia, 11 de novembro de 1895, segunda coluna).

1900 – Revista da Semana de 21 de outubro de 1900, publicou uma litogravura da Estação Central da Estrada de Ferro da Central do Brasil baseada em uma fotografia de autoria de Marc Ferrez.

 

 

1904 - Exposição de fotografias da estrada de ferro Central do Brasil de autoria de Ferrez, no Club de Engenharia (O Commentario, março de 1904).

1908 – A Casa Marc Ferrez produziu filmes sobre obras em estradas de ferro do Brasil.

 

Cronologia do fotógrafo Arthur Júlio Wischral

 

 

1894 - Em Curitiba, nascimento de Arthur Júlio Wischral, descendente de alemães.

c. 1910 - Com uma máquina fotográfica emprestada de um amigo, Arthur Wischral procurou orientação do fotógrafo alemão Germano Fleury (1873 – 1945), estabelecido em Curitiba, durante a década de 1900. Além de fotografar, Fleury comercializava artigos fotográficos. Na cidade havia, na época, estúdios fotográficos utilizando as últimas técnicas trazidas da Europa e aonde também eram vendidos cartões postais e materiais fotográficos. Com Fleury, Wischral teve as primeiras noções de fotografia profissional. Segundo ele, quando começou a fotografar gostava de registrar cenas incomuns das reuniões familiares (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1912 – Fotografou o primeiro bonde elétrico de Curitiba, que saiu da praça Ouvidor Pardinho com destino ao Portão (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1913 - Ganhou de seu pai uma máquina fotográfica com todas as inovações que as indústrias de Dresden haviam conquistado até então. Custando 120 mil réis, a câmara apresentava fole, movas dimensões 13 x 18 cm – e vários outros recursos que possibilitavam um trabalho ainda mais sensível e de qualidade (Diário do Paraná, 21 de junho de 1975). Antes, seu pai havia tentado demovê-lo da ideia de ser fotógrafo. Queria que o filho se dedicasse ao violino.

O amador fotográfico Arthur Wischral fotografou os enterros de Mário de Castro e de Francisco de Luccas, em Curitiba (Diário da Tarde (PR), 14 de maio de 1913, quinta coluna).

Trabalhava como repórter fotográfico do jornal A República, do Paraná, e produziu registros de manobras militares realizadas pelo Regimento de Segurança na invernada do Campo Comprido (A República (PR), 26 de maio de 1913, sexta coluna).

Fotografou uma horrível catástrofe quando 26 tamboretes de explosivos de guerra explodiram nos armazéns da Rede Ferroviária, na praça Eufrásio Correia, causando a morte de 8 soldados, 3 operários e uma criança, deixando vários feridos e produzindo grandes danos materiais. As fotos foram vendidas para jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo (A República (PR), 2 de julho de 1913, primeira coluna; Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

Pelo jornal A República (PR), ele e Seraphin França acompanharam o governador do Paraná,  Carlos Cavalcanti (1864 – 1935), em uma viagem a cidades do litoral do estado (A República (PR), 14 de julho de 1913, terceira coluna; A República (PR), 22 de julho de 1913, sexta coluna).

Wischral era o repórter fotográfico da revista ilustrada, humorística e literária A Bomba (PR), publicada nos dias 10, 20 e 30 de cada mês. Era de propriedade de Marcello Bittencourt (A Bomba, 30 de julho de 1913, primeira coluna).

Além de Wischral, a Photographia Volk passou a integrar a equipe de reportagem fotográfica da revista A Bomba (PR) (A Bomba (PR), 10 de setembro de 1913, segunda coluna).

 

 

1914 – Estava presente à inauguração do ramal Serrinha – Nova Restinga, da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande (A República (PR), 19 de fevereiro de 1914, última coluna).

Em 5 de abril, fotografou o primeiro voo de avião realizado em Curitiba. O piloto foi Cícero Martins (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

Já estava na Alemanha e não era repórter fotográfico de A República (PR) (A República (PR), 30 de outubro de 1914, última coluna). A conselho de seu pai, havia viajado para aprender novas técnicas fotográficas. Ficou no país até depois do fim da Primeira Guerra Mundial. Empregou-se num estabelecimento que prestava serviços fotográficos para amadores. Fez um estágio no laboratório na Universidade de Würzburg e aprendeu a técnica do retoque com um fotógrafo da cidade, dominada por poucos profissionais em Curitiba. Em Würburg, encontrou-se uma vez com o futuro papa Pio XII a quem perguntou onde poderia encontrar pessoas que falassem português e ele lhe indicou uma escola onde estavam alguns feridos de guerra. Eram portugueses e estranharam o sotaque dele.  Durante sua estada na Alemanha, trabalhou durante seis anos no jornal Franken Warte. No período em que ficou na Europa viajou para diversos países do continente (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1921 – Voltou a Curitiba e por volta dessa época começou a prestar serviços para o governo e para empresas. Fotografou o interior do Paraná, realizando uma série de imagens que integrariam o estande do estado na exposição comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro.

1922 – Fotografou a exposição comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro.

Voltou ao Rio de Janeiro, onde fotografou os primeiros prédios da orla carioca e também os arredores de Petrópolis.

1924 - Esteve no Palácio do governador do Paraná, Caetano Munhoz da Rocha (1879 – 1944) (O Dia, 13 de fevereiro de 1924, terceira coluna).

O hábil fotógrafo Arthur Wischral realizou na Villa Olga uma sessão de projeção de fotografias (O Dia (PR), 30 de março de 1924).

 

 

1926 – No artigo Uma audaciosa excursão ao Marumby, escrito por Affonso Wischral, de 9 de julho de 1926, foi mencionado que o autor e Arthur Wischral haviam fotografado aspectos do passeio que poderiam ser vistos na loja “O Pequeno Paris“, na rua 15, nº 58 (O Dia (PR), 26 de julho de 1926, última coluna).

1928 – Foi contratado pela Rede Viação Paraná – Santa Catarina e registrou o dia a dia das obras, as dificuldades dos trabalhadores e as obras de manutenção da estrada de ferro Curitiba – Paranaguá, inaugurada em 1885 e considerada um marco na história da engenharia no Brasil. Um álbum, editado pelo próprio fotógrafo e por J. J. Wischral, foi produzido com esses registros. O endereço deles era avenida Silva Jardim, nº 175.

 

 

Acessando o link para o Álbum de Fotografias da Ferrovia de Curitiba a Paranaguá, de autoria de Arthur Wischral, disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

1929/1931 - Durante cerca de um ano e meio, Wischral permaneceu na Bahia onde documentou, contratado pelas Empresas Elétricas Brasileiras S.A, a construção da Barragem Jerry O´Connell, em Bananeiras. Uma das fotografias da barragem foi publicada no Estado de Florianópolis, 26 de julho de 1930.

 

O contrato previa também a produção de uma série de imagens de Salvador e do interior da Bahia que foram, posteriormente, reunidas em uma publicação de quatro volumes intitulada Desenvolvimento, Geologia e Produtos Agrícolas, Indústria do Cacau, feita pelas Empresas Elétricas Brasileiras S.A.

Wischral montou, com imagens de sua estada na Bahia, um álbum pessoal com cerca de 500 fotografias.

1934 - Registrou-se para receber algum pagamento da prefeitura de Curitiba (Correio do Paraná, 21 de fevereiro de 1934, quinta coluna).

1935 – Na ocasião do cinquentenário da Estrada de Ferro do Paraná, Wischral, identificado como veterano dessas empreitadas estéticas e artista da Kodak, deu um depoimento, publicado no jornal O Dia (PR), 9 de janeiro de 1935.

Foi contratado para acompanhar e documentar a expedição do coronel Raul Bandeira de Mello ao sudoeste do Paraná. As fotos e o relatório deram origem ao livro de mais de 400 páginas Ensaios de Geobélica Brasileira, editado pela Imprensa Nacional em 1938. O nome do fotógrafo não foi citado. A expedição registrou fatos e imagens desde Palmas até 7 Quedas e é um documento formidável da vida naquelas paragens nos anos 30. Eles documentaram os lugares das batalhas da revolução de 1924 e a situação de pontes, estradas e as defesas militares brasileiras na região. Também indígenas e até um chocante registro de uma família de deficientes físicos gerados por um casal de irmãos, imagens que correram o Brasil à época. Ao final uma cena bucólica com o comandante da expedição em meio aos hóspedes do hotel argentino das cataratas, constando do acervo até uma carta de “vinos” e menu, com a assinatura de todos os presentes. São mais de 90 fotos e mapas que mereciam uma exposição e uma edição fac-símile da obra, ou pelo menos das suas fotografias. Os originais encontram-se com Paulo José da Costa, proprietário da Fígaro Loja de Cultura Sebo e Antiquário, de Curitiba (Página Arthur Wishcral no Facebook).

 

geobélia

 

1936 - A matéria Capricho ou punição da natureza, sobre as consequências da sífilis, trazia uma fotografia de uma família com 4 filhos portadores de deficiência física , produzida por Wischral quando esteve no sertão de Guarapuava (O Estado (SC), 2 de setembro de 1936, primeira coluna).

1937 – Uma fotografia de sua autoria foi publicada no artigo A Floresta Brasileira (O Observador Econômico e Financeiro, agosto de 1937). 

 

 

Década de 1940 – No início dessa década, Wischral foi contratado pela prefeitura de Curitiba e documentou detalhadamente as obras do Plano Agache. Ao longo de três décadas fotografou a transformação da cidade, a urbanização dos bairros, o alargamento das ruas, a construção de praças ajardinadas e dos primeiros grandes edifícios.

Seu laboratório ficava na rua Desembargador Westphalen.

1950 – A mesma fotografia publicada na edição de agosto de 1937 da revista Observador Econômico e Financeiro foi de novo publicada na edição de julho de 1950 da mesma revista. No ano seguinte, um leitor da revista, Martim Zipperer, de Curitiba, curioso acerca da autoria da fotografia que, segundo ele, foi produzida no rio dos Bugres, no município de São Bento do Sul, em Santa Catarina, a pedido de um de seus parentes, procurou a revista. Havia fotografado o mesmo local e a imagem foi publicada em Observador Econômico e Financeiro, abril de 1951. Segundo a reportagem “o confronto dessas fotografias, representando duas épocas, é um dos mais impressionantes documentos que se poderia divulgar sobre os males causados pela economia predatória que vem sido exercida sobre as nossas reservas florestais!”

 

 

1964 - Uma fotografia de 1912 ou 1914, de autoria de Wischral foi publicada (Correio do Paraná, 23 de fevereiro de 1964, penúltima coluna).

 

 

1967 - Com texto de Sérgio Augusto e fotografias de Arthur Wischral, publicação do artigo A maravilhosa Curitiba-Paranaguá (Diário do Paraná, 15 de julho de 1967).

Publicação da matéria Era uma vez um vapor chamado Pery, com texto de Sérgio Augusto e fotos cedidas por Wischral (Diário do Paraná, 6 de agosto de 1967).

Com fotografias dos arquivos de César Pinto e de Arthur Wischral, publicação da matéria Prefeitura -Século XX (I – Parte Primeira – Do aluguel de 200 mil réis à casa própria (Diário do Paraná, 10 de setembro de 1967).

1975 – Publicação da matéria Curitiba em dois tempos, com fotos antigas produzidas por Wischral e com atuais do fotógrafo Mário Nunes do Nascimento (Diário do Paraná, 21 de junho de 1975). Dias depois, publicação de uma matéria sobre sua vida (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1978 - Publicação de um artigo com fotografias de carnavais antigos sob as lentes de Wischral (Diário do Paraná, 3 de fevereiro de 1978).

1979 - Na Casa Romário Martins, em Curitiba, realização da exposição Imagens e paisagens que Curitiba perdeu, com registros de Wischral e de outros fotógrafos (Diário do Paraná, 10 de junho de 1979, primeira coluna).

 

 

1982 – Na Sala Funarte, em Curitiba, realização da exposição Paraná de ontem com fotografias de Wischral e de Alberto Weiss, dentre outros (Diário do Paraná, 4 de maio de 1982, terceira coluna).

O fotógrafo Arthur Wischral faleceu, em setembro.

Década de 1990 – Em fins dessa década, A Universidade Federal da Bahia comprou da família do fotógrafo o álbum montado por ele com cerca de 500 imagens de sua estada na Bahia em torno de 1930.

1994 – Foi um dos fotógrafos com obras expostas no evento Curitiba Capital Nacional de Fotografia, entre 14 e 21 de agosto (Jornal do Brasil, 27 de julho de 1994).

2020 – O Instituto Moreira Salles adquiriu em leilão 91 imagens de um conjunto de registros de Salvador e de outras localidades, realizadas em 1931, por ocasião das obras da construção da usina hidrelétrica de Bananeiras, todas de autoria de Wischral. Complementam o trabalho do fotógrafo presente no acervo do IMS, que já possuía o álbum Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá, de 1928.

 

Link para um pequeno filme realizado pelo Paraná Portal sobre Arthur Wischral

Link para o filme Ferrovia Curitiba Paranaguá vista por Arthur Wischral

Link para a cronologia de Marc Ferrez, publicada na Brasiliana Fotográfica, em 7 de dezembro de 2016

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

A construção do trem da Serra do Mar entre Curitiba e o Litoral em 1885, TV Bandeirantes, Youtube

Blog de Paulo José da Costa

Boletim Casa Romário Martins. O acervo Wischral: documentos de um olhar / pesquisa e texto por Maria Luiza Baracho e Marcelo Saldanha Sutil; apresentação por João Urban. Curitiba : Fundação Cultural de Curitiba, vol 31, n. 134, abril de 2007.

CERON, Ileana Pradilla Ceron. Marc Ferrez – uma cronologia da vida e da obra. São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2018.

Estrada de Ferro Paranaguá Curitiba, Youtube

Facebook

Ferrovia Paranaguá-Curitiba 130 Anos – Documentário, Youtube

Gazeta do Povo

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

Site Artes na Web

Site Biblioteca Digital Mundial

Site Clube dos Amantes da Ferrovia

Site Inbec-Pós-graduação

Site Paraná Portal

Site Patrimônio belga no Brasil

Site Prefeitura de Curitiba

TURAZZI, Maria Inez. Cronologia. In O Brasil de Marc Ferrez – São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2005.

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicado em 

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), publicado em 4 de dezembro de 2019

Uma homenagem da Casa Granado ao casal imperial sob as lentes de Marc Ferrez, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, publicado 6 de março de 2020

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, publicado em 16 de março de 2020

Bambus, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2020

O Baile da Ilha Fiscal: registro raro realizado por Marc Ferrez e retrato de Aurélio de Figueiredo diante de sua obra, publicado em 9 de novembro de 2020

O Palácio de Cristal fotografado por Marc Ferrez, publicado em 2 de fevereiro de 2021

Dia dos Pais – Julio e Luciano, os filhos do fotógrafo Marc Ferrez, e outras famílias, publicada em 6 de agosto de 2021

 

Cronologia de Arthur Júlio Wischral (1894 – 1982)

Cronologia do fotógrafo Arthur Júlio Wischral (1894 – 1982)

 

 

1894 – Em Curitiba, nascimento de Arthur Júlio Wischral, descendente de alemães.

c. 1910 – Com uma máquina fotográfica emprestada de um amigo, Arthur Wischral procurou orientação do fotógrafo alemão Germano Fleury (1873 – 1945), estabelecido em Curitiba, durante a década de 1900. Além de fotografar, Fleury comercializava artigos fotográficos. Na cidade havia, na época, estúdios fotográficos utilizando as últimas técnicas trazidas da Europa e aonde também eram vendidos cartões postais e materiais fotográficos. Com Fleury, Wischral teve as primeiras noções de fotografia profissional. Segundo ele, quando começou a fotografar gostava de registrar cenas incomuns das reuniões familiares (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1912 – Fotografou o primeiro bonde elétrico de Curitiba, que saiu da praça Ouvidor Pardinho com destino ao Portão (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1913 – Ganhou de seu pai uma máquina fotográfica com todas as inovações que as indústrias de Dresden haviam conquistado até então. Custando 120 mil réis, a câmara apresentava fole, movas dimensões 13 x 18 cm – e vários outros recursos que possibilitavam um trabalho ainda mais sensível e de qualidade (Diário do Paraná, 21 de junho de 1975). Antes, seu pai havia tentado demovê-lo da ideia de ser fotógrafo. Queria que o filho se dedicasse ao violino.

amador fotográfico Arthur Wischral fotografou os enterros de Mário de Castro e de Francisco de Luccas, em Curitiba (Diário da Tarde (PR), 14 de maio de 1913, quinta coluna).

Trabalhava como repórter fotográfico do jornal A República, do Paraná, e produziu registros de manobras militares realizadas pelo Regimento de Segurança na invernada do Campo Comprido (A República (PR), 26 de maio de 1913, sexta coluna).

Fotografou uma horrível catástrofe quando 26 tamboretes de explosivos de guerra explodiram nos armazéns da Rede Ferroviária, na praça Eufrásio Correia, causando a morte de 8 soldados, 3 operários e uma criança, deixando vários feridos e produzindo grandes danos materiais. As fotos foram vendidas para jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo (A República (PR), 2 de julho de 1913, primeira colunaDiário do Paraná, 28 de junho de 1975).

Pela jornal A República (PR), ele e Seraphin França acompanharam o governador do Paraná,  Carlos Cavalcanti (1864 – 1935), em uma viagem a cidades do litoral do estado (A República (PR), 14 de julho de 1913, terceira coluna; A República (PR), 22 de julho de 1913, sexta coluna).

Wischral era o repórter fotográfico da revista ilustrada, humorística e literária A Bomba (PR), publicada nos dias 10, 20 e 30 de cada mês. Era de propriedade de Marcello Bittencourt (A Bomba, 30 de julho de 1913, primeira coluna).

Além de Wischral, a Photographia Volk passou a integrar a equipe de reportagem fotográfica da revista A Bomba (PR) (A Bomba (PR), 10 de setembro de 1913, segunda coluna).

 

 

1914 – Estava presente à inauguração do ramal Serrinha – Nova Restinga, da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande (A República (PR), 19 de fevereiro de 1914, última coluna).

Em 5 de abril, fotografou o primeiro voo de avião realizado em Curitiba. O piloto foi Cícero Martins (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

Já estava na Alemanha e não era repórter fotográfico de A República (PR) (A República (PR), 30 de outubro de 1914, última coluna). A conselho de seu pai, havia viajado para aprender novas técnicas fotográficas. Ficou no país até depois do fim da Primeira Guerra Mundial. Empregou-se num estabelecimento que prestava serviços fotográficos para amadores. Fez um estágio no laboratório na Universidade de Würzburg e aprendeu a técnica do retoque com um fotógrafo da cidade, dominada por poucos profissionais em Curitiba. Em Würburg, encontrou-se uma vez com o futuro papa Pio XII a quem perguntou onde poderia encontrar pessoas que falassem português e ele lhe indicou uma escola onde estavam alguns feridos de guerra. Eram portugueses e estranharam o sotaque dele.  Durante sua estada na Alemanha, trabalhou durante seis anos no jornal Franken Warte. No período em que ficou na Europa viajou para diversos países do continente (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1921 – Voltou a Curitiba e por volta dessa época começou a prestar serviços para o governo e para empresas. Fotografou o interior do Paraná, realizando uma série de imagens que integrariam o estande do estado na exposição comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro.

1922 – Fotografou a exposição comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro.

Voltou ao Rio de Janeiro, onde fotografou os primeiros prédios da orla carioca e também os arredores de Petrópolis.

1924 - Esteve no Palácio do governador do Paraná, Caetano Munhoz da Rocha (1879 – 1944) (O Dia, 13 de fevereiro de 1924, terceira coluna).

hábil fotógrafo Arthur Wischral realizou na Villa Olga uma sessão de projeção de fotografias (O Dia (PR), 30 de março de 1924).

 

 

1926 – No artigo Uma audaciosa excursão ao Marumby, escrito por Affonso Wischral, de 9 de julho de 1926, foi mencionado que o autor e Arthur Wischral haviam fotografado aspectos do passeio que poderiam ser vistos na loja “O Pequeno Paris“, na rua 15, nº 58 (O Dia (PR), 26 de julho de 1926, última coluna).

1928 – Foi contratado pela Rede Viação Paraná – Santa Catarina e registrou o dia a dia das obras, as dificuldades dos trabalhadores e as obras de manutenção da estrada de ferro Curitiba – Paranaguá, inaugurada em 1885 e considerada um marco na história da engenharia no Brasil. Um álbum, editado pelo próprio fotógrafo e por J. J. Wischral, foi produzido com esses registros. O endereço deles era avenida Silva Jardim, nº 175.

 

 

Acessando o link para o Álbum de Fotografias da Ferrovia de Curitiba a Paranaguá, de autoria de Arthur Wischral, disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

1929/1931 - Durante cerca de um ano e meio, Wischral permaneceu na Bahia onde documentou, contratado pelas Empresas Elétricas Brasileiras S.A, a construção da Barragem Jerry O´Connell, em Bananeiras. Uma das fotografias da barragem foi publicada no Estado de Florianópolis, 26 de julho de 1930.

 

 

O contrato previa também a produção de uma série de imagens de Salvador e do interior da Bahia que foram, posteriormente, reunidas em uma publicação de quatro volumes intitulada Desenvolvimento, Geologia e Produtos Agrícolas, Indústria do Cacau, feita pelas Empresas Elétricas Brasileiras S.A.

Wischral montou, com imagens de sua estada na Bahia, um álbum pessoal com cerca de 500 fotografias.

1934 - Registrou-se para receber algum pagamento da prefeitura de Curitiba (Correio do Paraná, 21 de fevereiro de 1934, quinta coluna).

1935 – Na ocasião do cinquentenário da Estrada de Ferro do Paraná, Wischral, identificado como veterano dessas empreitadas estéticas e artista da Kodak, deu um depoimento, publicado no jornal O Dia (PR), 9 de janeiro de 1935.

Foi contratado para acompanhar e documentar a expedição do coronel Raul Bandeira de Mello ao sudoeste do Paraná. As fotos e o relatório deram origem ao livro de mais de 400 páginas Ensaios de Geobélica Brasileira, editado pela Imprensa Nacional em 1938. O nome do fotógrafo não foi citado. A expedição registrou fatos e imagens desde Palmas até 7 Quedas e é um documento formidável da vida naquelas paragens nos anos 30. Eles documentaram os lugares das batalhas da revolução de 1924 e a situação de pontes, estradas e as defesas militares brasileiras na região. Também indígenas e até um chocante registro de uma família de deficientes físicos gerados por um casal de irmãos, imagens que correram o Brasil à época. Ao final uma cena bucólica com o comandante da expedição em meio aos hóspedes do hotel argentino das cataratas, constando do acervo até uma carta de “vinos” e menu, com a assinatura de todos os presentes. São mais de 90 fotos e mapas que mereciam uma exposição e uma edição fac-símile da obra, ou pelo menos das suas fotografias. Os originais encontram-se com Paulo José da Costa, proprietário da Fígaro Loja de Cultura Sebo e Antiquário, de Curitiba (Página Arthur Wishcral no Facebook).

 

geobélia

 

1936 - A matéria Capricho ou punição da natureza, sobre as consequências da sífilis, trazia uma fotografia de uma família com 4 filhos portadores de deficiência física , produzida por Wischral quando esteve no sertão de Guarapuava (O Estado (SC), 2 de setembro de 1936, primeira coluna).

1937 – Uma fotografia de sua autoria foi publicada no artigo A Floresta Brasileira (O Observador Econômico e Financeiro, agosto de 1937). 

 

 

Década de 1940 – No início dessa década, Wischral foi contratado pela prefeitura de Curitiba e documentou detalhadamente as obras do Plano Agache. Ao longo de três décadas fotografou a transformação da cidade, a urbanização dos bairros, o alargamento das ruas, a construção de praças ajardinadas e dos primeiros grandes edifícios.

Seu laboratório ficava na rua Desembargador Westphalen.

1950 – A mesma fotografia publicada na edição de agosto de 1937 da revista Observador Econômico e Financeiro foi de novo publicada na edição de julho de 1950 da mesma revista. No ano seguinte, um leitor da revista, Martim Zipperer, de Curitiba, curioso acerca da autoria da fotografia que, segundo ele, foi produzida no rio dos Bugres, no município de São Bento do Sul, em Santa Catarina, a pedido de um de seus parentes, procurou a revista. Havia fotografado o mesmo local e a imagem foi publicada em Observador Econômico e Financeiro, abril de 1951. Segundo a reportagem “o confronto dessas fotografias, representando duas épocas, é um dos mais impressionantes documentos que se poderia divulgar sobre os males causados pela economia predatória que vem sido exercida sobre as nossas reservas florestais!”

 

 

1964 - Uma fotografia de 1912 ou 1914, de autoria de Wischral foi publicada (Correio do Paraná, 23 de fevereiro de 1964, penúltima coluna).

 

 

1967 - Com texto de Sérgio Augusto e fotografias de Arthur Wischral, publicação do artigo A maravilhosa Curitiba-Paranaguá (Diário do Paraná, 15 de julho de 1967).

Publicação da matéria Era uma vez um vapor chamado Pery, com texto de Sérgio Augusto e fotos cedidas por Wischral (Diário do Paraná, 6 de agosto de 1967).

Com fotografias dos arquivos de César Pinto e de Arthur Wischral, publicação da matéria Prefeitura -Século XX (I – Parte Primeira – Do aluguel de 200 mil réis à casa própria (Diário do Paraná, 10 de setembro de 1967).

1975 – Publicação da matéria Curitiba em dois tempos, com fotos antigas produzidas por Wischral e com atuais do fotógrafo Mário Nunes do Nascimento (Diário do Paraná, 21 de junho de 1975). Dias depois, publicação de uma matéria sobre sua vida (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1978 - Publicação de um artigo com fotografias de carnavais antigos sob as lentes de Wischral (Diário do Paraná, 3 de fevereiro de 1978).

1979 - Na Casa Romário Martins, em Curitiba, realização da exposição Imagens e paisagens que Curitiba perdeu, com registros de Wischral e de outros fotógrafos (Diário do Paraná, 10 de junho de 1979, primeira coluna).

 

 

1982 – Na Sala Funarte, em Curitiba, realização da exposição Paraná de ontem com fotografias de Wischral e de Alberto Weiss, dentre outros (Diário do Paraná, 4 de maio de 1982, terceira coluna).

O fotógrafo Arthur Wischral faleceu, em setembro.

Década de 1990 – Em fins dessa década, A Universidade Federal da Bahia comprou da família do fotógrafo o álbum montado por ele com cerca de 500 imagens de sua estada na Bahia em torno de 1930.

1994 – Foi um dos fotógrafos com obras expostas no evento Curitiba Capital Nacional de Fotografia, entre 14 e 21 de agosto (Jornal do Brasil, 27 de julho de 1994).

2020 – O Instituto Moreira Salles adquiriu em leilão 91 imagens de um conjunto de registros de Salvador e de outras localidades, realizadas em 1931, por ocasião das obras da construção da usina hidrelétrica de Bananeiras, todas de autoria de Wischral. Complementam o trabalho do fotógrafo presente no acervo do IMS, que já possuía o álbum Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá, de 1928.

 

Link para um pequeno filme realizado pelo Paraná Portal sobre Arthur Wischral

Link para o filme Ferrovia Curitiba Paranaguá vista por Arthur Wischral

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus” VII – Almerinda Farias Gama (1899 – 1999), uma das pioneiras do feminismo no Brasil

A advogada e sindicalista alagoana Almerinda Farias Gama (1899 – 1999) foi uma das primeiras mulheres negras a atuar na política brasileira numa época em que tanto o machismo como o racismo eram ainda mais presentes na sociedade brasileira do que são hoje. Nasceu em Maceió, em 16 de maio de 1899, passou parte da infância no Pará, onde escreveu para o jornal A Província e formou-se em datilografia. Foi para o Rio de Janeiro, em fevereiro de 1929, quando descobriu que o salário de datilógrafas mulheres eram bem menores do que o dos homens.

 

 

“A inteligência não tem sexo”

 

Assim que chegou à cidade, filiou-se à Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher (FBPM), presidido por Bertha Lutz (1894 – 1976), e iniciou sua luta pela emancipação da mulher, especialmente pelo voto feminino, que para ela uma arma que nós tínhamos para poder ingressar no recinto onde se discutia esses assuntos. Tornou-se uma das pioneiras na história do feminismo brasileiro. Leitora assídua, inspirou-se em grandes mulheres do passado para sua luta pelos direitos femininos.

 

 

Foi de Bertha a ideia de criar o Sindicato dos Datilógrafas e Taquígrafas, reconhecido em 1933, associação da qual Almerinda tornou-se a primeira presidente. Ainda nesse ano, em junho, participou do II Congresso Internacional Feminista, no Automóvel Club, no Rio de Janeiro, organizado pela FBPM.

 

“Eu sempre, por instinto, me revoltei contra a desigualdade de direitos entre homem e mulher”

 

Em 20 de julho de 1933, indicada pelo Sindicato das Datilógrafas e Taquígrafas, como delegada sindical, votou na escolha da bancada classista para a Assembléia Nacional Constituinte de 1934, tendo sido a única representante feminina presente. Compareceu com uma máquina de escrever com a qual, durante a votação, confecciou numerosas chapas para os colegas que as solicitavam. Ainda em 1933, um manifesto de autoria de Bertha Lutz (1894 – 1976) e assinado por ela, por Carmen Portinho (1903 – 2001), pela tradutora Lina Hirsh e pela advogada Maria Luisa Dória de Bittencourt (1910 – 2001) foi apresentado à seção de Legislação da Conferência Nacional de Proteção à Infância. Estava à frente do movimento de renovação cívica Ala Moça do Brasil, uma associação de cunho social e político, instalado em 28 de novembro de 1933, na sede da Ordem Mystica do Pensamento. Na época era bacharelanda de Direito.

Em 18 de fevereiro de 1934, foi inaugurado o Ginásio Almerinda Gama, educandário dirigido por Laurentino Garrido, na rua Maria Emília, nº 50, em São João do Meriti. Foi batizado em homenagem à Almerinda, responsável por uma infatigável agitação das causas do ensino. Ainda em 1934, foi uma das feministas que enviou à Assembleia Nacional o pedido de voto para artigos da futura Constituição que contemplavam os direitos da mulher.

Foi uma das dirigentes do Partido Socialista Proletário do Brasil, fundado em agosto de 1934. Foi candidata à deputada pela legenda Decreto ao Direito ao Trabalho (Congresso Master) nas eleições para a Câmara de Deputados e para o Senado, realizadas em outubro de 1934, mas não foi eleita.

No panfleto de Almerinda, lia-se:

Advogada consciente dos direitos das classes trabalhadoras, jornalista combativa e feminista de ação. Lutando pela independência econômica da mulher, pela garantia legal do trabalhador e pelo ensino obrigatório e gratuito de todos os brasileiros em todos os graus“.

 

almerinda3

 

Era também poetisa e participava de saraus no Studio Eros Volusia, boite da rua São José, onde tantas figuras do nosso meio artístico têm recebido os aplausos da elite carioca. Também se apresentou como atriz. Foi professora e tradutora de francês, inglês e espanhol. Publicou, em 1942, o livro de poesias Zumbi, no qual também foi a responsável pelas ilustrações. Em 1943, foi contratada como escrevente do 9º Ofício de Notas, onde trabalhou até 1967. Era a tesoureira da diretoria do Curso Popular Chiquinha Gonzaga, em 1947. Em 1956, trabalhava no jornal O Dia e foi uma das dirigentes dos trabalhos realizados na instalação da Comissão de apoio à Conferência de Mulheres Trabalhadoras, na Associação Brasileira de Imprensa. Em 1992, gravou uma pequena entrevista para a organização feminista ComMulher.

Sua data de morte era até pouco tempo desconhecida e foi revelada pela pesquisa realizada por Patrícia Cibele Tenório para a elaboração de sua dissertação de Mestrado em História, no Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade de Brasília, A trajetória de vida de Almerinda Farias Gama (1899-1999) – feminismo, sindicalismo e identidade política (2020): Almerinda faleceu em 31 de março de 1999, em São Paulo.

 

Cronologia de Almerinda Farias Gama (1899 – 1999)

 

 

1899 – Almerinda Farias Gama nasceu em Maceió, em Alagoas, em 16 de maio de 1899, filha de José Antônio Gama, dono de casas proletárias, e de Eulália da Rocha Gama, dona de casa. Tinha um irmão, o jornalista José da Silva Gama (c. 1891 – 1941) e uma irmã, mais velha do que ela, cerca de dois anos.

c. 1907 – Ficou órfã e, aos oito anos, foi morar com uma tia no Pará. Ficou nove anos sem frequentar nenhuma escola, período em que sua tia a ensinou prendas domésticas, como corte e costura, e música.

c. 1920 – Quando pode receber a herança de seu pai, voltou a estudar, mas já no segundo ano do curso de datilografia custeava seus estudos como monitora. Frequentou a Escola Prática de Comércio, em Belém, e tornou-se datilógrafa profissional (Estado do Pará, 11 de junho de 1920, quarta coluna). Escrevia crônicas para o jornal A Província (PA). 

1923 – Casou-se, em março, com um primo, o poeta e escritor Benigno Farias Gama (c. 1897 – 1925), que contribuia para vários periódicos paraenses, autor dos livros Epopeia acreana e Águas e selvas, dentre outros. Com ele teve um filho, que faleceu de doença não identificada, entre esse ano e 1925.

1925 – Benigno morreu, em 1925, de tuberculose (O Paiz, 20 de dezembro de 1925, quinta coluna).

1929 - Quando descobriu que o salário de datilógrafas mulheres era um terço do que o pago aos homens, mudou-se, em fevereiro, para o Rio de Janeiro.

1930 – Iniciou seu ativismo feminista, filiando-se à Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher (FBPM), presidido pela bióloga Bertha Lutz (1894 – 1976). Integrou a comissão organizadora de uma homenagem da associação ao governador do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine de Faria (1874 – 1956) (A Gazeta, 2 de julho de 1930, quarta coluna).

Recitou poesias na inauguração do Centro de Sócias da FBPM (O Paiz, 17 de setembro de 1930, penúltima coluna).

Publicação da Carta aberta ao senhor Humberto de Campos, de sua autoria, onde questionava o voto contrário do escritor e político ao ingresso das mulheres na Academia Brasileira de Letras (O Jornal, 6 de março de 1930, primeira coluna).

Inaugurou a sessão Perspectivas, dentro  da coluna “Para a mulher no lar”, dirigida por Sylvia Serafim (1902 – 19936), em O Jornal. Sylvia havia assassinado o jornalista Roberto Rodrigues (1906 – 1929), na redação do jornal a Crítica, em 26 de dezembro de 1929. O estopim do crime foi a publicação na primeira página do jornal da notícia do pedido de seu desquite do médico João Thibau Júnior, com quem Silvia tinha dois filhos, acompanhado de um desenho. O jornal a acusava de estar tendo um caso com o médico Manuel Dias de Abreu (1894 – 1962), futuro inventor da abreugrafia. Foi absolvida em agosto de 1930 pelo advogado Clóvis Dunshee de Abranches, de quem Almerinda seria secretária. Em sua crônica inaugural, Almerinda escreveu sobre o caso de uma esposa que depois de seis meses de casamento, por não aguentar os maus tratos do marido, havia se incendiado (O Jornal, 4 de maio de 1930, terceira coluna).

Publicação de seu poema, A Nossa História (O Jornal, 22 de junho de 1930).

 

 

Em suas crônicas na seção Perspectivas, de O Jornal, comentou um caso de incesto seguido de infanticício, do suicídio de uma mulher, a não candidatura de Maria de Lourdes Lamartine à Câmara, dentre outros assuntos (O Jornal, 13 de julho de 1930, terceira coluna; O Jornal, 20 de julho de 1930, terceira coluna; O Jornal, 3 de agosto de 1930, terceira  coluna; O Jornal, 12 de outubro de 1930, terceira coluna; O Jornal, 19 de outubro de 1930, terceira coluna; O Jornal, 2 de novembro de 1930, terceira coluna; O Jornal, 26 de abril de 1931, terceira coluna).

Publicação de um pequeno perfil de Almerinda (O Jornal, 21 de dezembro de 1930).

Publicação de uma pequena crônica de sua autoria, Films do écran e da plateia (A Esquerda, 6 de dezembro de 1930, segunda coluna). No mesmo jornal, publicou o artigo Cultura Feminina, no qual critica a falta de estímulo, no Brasil, para a publicação de livros escritos por mulheres; e também a posição da Academia Brasileira de Letras que, alegando tradição, não aceitava mulheres (A Esquerda, 13 de dezembro de 1930, penúltima coluna).

Acompanhou a escritora Sylvia Serafim (1902 – 1936) em uma viagem à Belo Horizonte (A Esquerda, 18 de dezembro de 1930, quarta coluna).

Foi publicado na edição de dezembro da Revista A.E.C, da Associação dos Empregados do Comércio, um artigo de sua autoria, A doutrina de Malthus (Correio da Manhã, 27 de dezembro de 1930, segunda coluna).

1931 – Por ideia de Bertha Lutz (1894 – 1976), criação do Sindicato dos Datilógrafas e Taquígrafas, do qual Almerinda foi a primeira presidente.

Trabalhava como auxiliar no 9º Cartório, na rua do Rosário (Almanak Laemmert, 1931).

Publicou o artigo Cartas sem endereço (O Jornal, 11 de janeiro de 1931, terceira coluna).

Ela e Sylvia Serafim (1902 – 1936) foram entrevistadas pelo jornal A Batalha. Em pauta, a concessão de direitos políticos da mulher (A Batalha, 13 de março de 1931, primeira coluna).

Suas observações acerca da moda foram citadas no artigo No império da moda (O Jornal, 29 de março de 1931, primeira coluna).

Publicação de seu poema Da tristeza que mora nos meus olhos (O Jornal, 12 de abril  de 1931A Batalha, 19 de abril de 1931).

 

 

Foi uma das filiadas da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino que encantaram com belos números de arte as participantes da celebração do Dia do Trabalho, organizado pela associação (A Noite, 4 de maio de 1931, primeira coluna).

Publicação de seus poemas Moderna afronta e Felicidade (O Jornal, 17 de maio de 1931, penúltima coluna; O Jornal, 31 de maio de 1931, prenúltima coluna).

Em junho, participou do II Congresso Internacional Feminista, no Automóvel Club, no Rio de Janeiro, organizado pela FBPM (O Jornal, 19 de junho de 1931, primeira coluna; Correio da Manhã, 24 de junho de 1931, primeira colunaO Malho, 27 de junho de 1931O Malho, 11 de julho de 1931Vida Doméstica, agosto de 1931). Com um grupo de senhoras que participavam do encontro, foi visitar a Usina de Ribeirão das Lajes, a convite da Rio de Janeiro Light & Power. Depois, visitaram a Maternidade Suburbana, em Cascadura (Jornal do Commercio, 30 de junho de 1931, última coluna).

Publicação do conto Tatuagem, de sua autoria (O Jornal, 6 de setembro, segunda colunaRevista da Semana, 12 de setembro de 1931).

Cartões ilustrados com versos da poetisa  Almerinda Gama e de outros nomes em evidência nos meios literários foram distribuídos como propaganda da Suipa, Sociedade União Infantil Protetora dos Animais. Na reunião organizadora dessa associação, realizada na Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher, Almerinda foi eleita secretária da diretoria provisória (A Esquerda, 7 de setembro de 1931, quinta coluna).

Trabalhava como secretária no escritório do advogado Clóvis Dunshee de Abranches (Jornal do Brasil, 16 de setembro de 1931, quarta coluna).

Foi a responsável pela leitura na Rádio Sociedade nos cinco minutos feministas de um texto de autoria de Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (1886-1963), vice-presidente da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (Diário de Notícias, 23 de setembro de 1931, terceira coluna).

1932 O Decreto nº 21.076, de 24 de fevereiro de 1932, instituiu o Código Eleitoral Provisório e reconheceu o direito de voto às mulheres.

Por iniciativa do Congresso Feminino de 1931 foi criada uma data para a comemoração do Dia das Mães. O Decreto nº 21.366, de 5 de maio de 1932, assinado pelo presidente Getúlio Vargas (1884 – 1954), consagrou o segundo domingo de maio para a celebração anual da data no Brasil. No primeiro ano de sua comemoração, Almerinda escreveu um artigo sobre a importância da efeméride (Diário de Notícias, 24 de abril de 1932, penúltima coluna).

Publicação do poema de sua autoria Meu amor é a incarnação do vento (Diário de Notícias, 21 de agosto de 1932).

 

 

Ela, Alice Coimbra e Sylvia Patrício formavam a comissão nomeada pela Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher para atender à solicitação do Centro Cândido de Oliveira no sentido de combater o sensacionalismo na repressão ao crime (Correio da Manhã, 23 de setembro de 1932, última coluna).

Almerinda esteve na redação do jornal A Batalha para falar sobre a conquista do voto da mulher e sobre o alistamento eleitoral feminino (A Batalha, 24 de setembro de 1932, penúltima coluna).

Publicação do artigo Divórcio: um bem ou um mal?, de sua autoria (Diário de Notícias, 30 de novembro de 1932, penúltima coluna).

Foi publicado o artigo Lendas Amazonenses – A Gênese das Frutas, de sua autoria (Diário de Notícias, 4 de dezembro de 1932, penúltima coluna).

Publicação de seu artigo Feminismo e Serviço Militar (Diário de Notícias, 9 de dezembro de 1932, penúltima coluna).

Escreveu um artigo sobre Eros Volúsia (1914 – 2004), filha dos poetas Rodolfo de Melo Machado (1884 – 1923) e Gilka Machado (1893 – 1980), uma dançarina arrojada, que se notabilizou por suas coreografias inspiradas na cultura brasileira (Diário de Notícias, 11 de dezembro de 1932, primeira coluna).

 

 

1933 - Publicação de seu poema Meu Carnaval (Diário de Notícias, 5 de março de 1933, penúltima coluna).

Publicação do poema Ele falou, de sua autoria (Diário de Notícias, 19 de março de 1933, penúltima coluna).

Participou, como secretária, da Convenção Nacional de Eleitoras, realizado na sede da Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher, quando foi lançada pela educadora Alba Canizares (1893 – 1944) a candidatura de Bertha Lutz (1894 – 1976) à Constituinte.

 

 

Diversas feministas estavam presente no evento, dentre elas a engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001), Orminda Ribeiro Bastos (1899-1971), Maria Luisa Dória Bittencourt (1910 – 2001), Maria Sabina de Albuquerque (1898 – 1991), filha do cientista João Pedro de Albuquerque (1874 – 1934) ; e Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (1886-1963) (Diário de Notícias, 4 de abril de 1933, primeira colunaO Dia (PR), 4 de abril de 1933, primeira coluna; Jornal do Commercio, 5 de abril de 1933, segunda coluna; Diário de Notícias, 5 de abril de 1933).

 

 

Publicação de uma poesia de Almerinda em homenagem à poetisa Gilka Machado (1893 – 1980) (O Malho, 15 de abril de 1933).

 

 

 

Participou como atriz da peça inédita Rumo à Turquia, de Jorge Murad (1910 – 1998), apresentada no Studio Eros Volusia, boite da rua São José, onde tantas figuras do nosso meio artístico têm recebido os aplausos da elite carioca (A Noite, 20 de abril de 1933, terceira coluna).

 

 

Participou de mais uma tarde de arte do Studio Eros Volúsia e seu melhor número foi a apresentação da lenda amazonense do boto (Diário de Notícias, 30 de abril de 1933, primeira coluna). Meses depois, Almerinda voltou a se apresentar no Studio Eros Volusia, recitando as poesias de sua autoria O inverno chegou e O que eu pediria ao amor (Correio de Manhã, 12 de julho de 1933, primeira coluna).

Publicação de seu poema, Viandante que passas…, ilustrado por Odelli Castello Branco(Diário de Notícias, 21 de maio de 1933).

Reconhecimento pelo Ministério do Trabalho do Sindicato de Datilógrafas e Taquígrafas, do qual Almerinda era presidente (O Radical, 3 de junho de 1933, primeira coluna).

Em 20 de julho de 1933, indicada pelo Sindicato das Datilógrafas e Taquígrafas, como delegada sindical, votou na escolha da bancada classista para a Assembléia Nacional Constituinte de 1934, tendo sido a única representante feminina presente. Compareceu com uma máquina de escrever com a qual, durante a votação, confecciou numerosas chapas para os colegas que as solicitavam (A Nação, 21 de julho de 1933, segunda coluna; O Radical, 21 de julho de 1933, última coluna; Jornal do Commercio, 21 de julho de 1933, primeira coluna; A Batalha, 21 de julho de 1933, primeira coluna).

 

 

Publicação da poesia Fogueira, de sua autoria (O Malho (RJ), 3 de agosto de 1933).

 

 

Pronunciou-se, em reunião presidida por ela na Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher, sobre a situação das garçonetes, devido à execução do decreto 24.417, de 17 de maio de 1932, proibindo o trabalho de mulheres em estabelecimentos públicos após as 22h (A Noite, 19 de agosto de 1933, penúltima coluna).

 

 

Um manifesto de autoria de Bertha Lutz (1894 – 1976) e assinado por ela, por Carmen Portinho (1903 – 2001), pela tradutora Lina Hirsh e pela advogada Maria Luisa Dória de Bittencourt (1910 – 2001), que em 1935 tornou-se a primeira deputada estadual da Bahia; foi apresentado à seção de Legislação da Conferência Nacional de Proteção à Infância (Jornal do Brasil, 23 de setembro de 1933, penúltima colunaCorreio da Manhã, 23 de setembro de 1933, quinta coluna).

Publicação de seu poema Cântico de Yara, ilustrado por Odelli (Correio de Manhã, 24 de setembro de 1933, primeira coluna).

Foi uma das oradoras na celebração do primeiro ano de fundação do partido político Centro Cívico 4 de Novembro, no Sindicato dos Proprietários de Padarias. O partido havia sido fundado em 11 de novembro de 1932 (O Radical, 7 de novembro de 1933, penúltima coluna).

Estava à frente do movimento de renovação cívica Ala Moça do Brasil, uma associação de cunho social e político, instalado em 28 de novembro de 1933, na sede da Ordem Mystica do Pensamento, na avenida Suburbana, nº 2.618. Na época era bacharelanda de Direito (Diário da Noite, 24 de novembro de 1933, segunda coluna; Jornal do Brasil, 24 de novembro de 1933, quinta coluna; A Batalha, 30 de novembro de 1933, segunda coluna).

 

 

Era a encarregada, no Brasil, de prestar informações sobre o concurso que a Nero History Society promovia para estudantes matriculados em universidades, escolas secundárias e de ensino superior da América do Sul, América Central, México, Antilhas e ilhas adjacentes ao continente sul-americano (Jornal do Brasil, 29 de dezembro de 1933, última coluna).

1934 – Como presidente da Ala Moças do Brasil participou de uma reunião da sede do jornal O Proletário, em São João do Meritipara a discussão de providências em relação à educação e à saúde da classe de trabalhadores  do referido bairro. Almerinda providenciaria junto ao interventor do Estado do Rio, o comandante Ari Parreiras (1890 – 1945), a abertura de dois postos de socorro para o atendimento de trabalhadores em São João do Meriti, José Bulhões e Xerém. Também pediria que o Ginásio Almerinda Gama fosse aberto no dia 21 de janeiro. Lá funcionaria um educandário para crianças pobres de ambos os sexos, dirigido por Laurentino Garrido. Antônio Hermont havia cedido um barracão na rua Maria Emília, nº 50, em São João do Meriti, para sediá-lo (O Paiz, 3 de janeiro de 1934, última coluna). A inauguração do ginásio aconteceu em 18 de fevereiro, foi batizado em homenagem à Almerinda, responsável por uma infatigável agitação das causas do ensino (A Batalha, 17 de fevereiro de 1934, segunda coluna; Jornal do Brasil, 17 de fevvereiro de 1934, terceira coluna; Correio da Manhã, 17 de fevereiro de 1934, segunda coluna).

Participou da recepção oferecida pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino à jornalista norte-americana Marjorie Schuler (O Paiz, 17 de janeiro de 1934, terceira coluna).

Foi uma das feministas que enviou à Assembleia Nacional o pedido de voto para artigos da futura Constituição que contemplavam os direitos da mulher (Jornal do Brasil, 23 de março de 1934, penúltima coluna).

Publicação do artigo Casamentos para todos os gostos, de sua autoria (A Batalha, 10 de junho de 1934, primeira coluna).

Participou da homenagem prestada pela Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher ao poeta paraibano Antônio Joaquim Pereira da Silva (1876 – 1944) admitido na Academia Brasileira de Letras (Jornal do Commercio, 23 de junho de 1934, terceira coluna).

Falando em nome do Sindicato das Datilógrafas e Taquígrafas e de outros sindicatos de trabalhadores do Rio de Janeiro, Almerinda fez um discurso, muito aplaudido, durante a inauguração da sede do Sindicato dos Vendedores Lotéricos, no Beco das Cancelas, nº 8. O interventor do Distrito Federal, Pedro Ernesto (1884 – 1942), estava presente na solenidade (O Paiz, 5 de julho de 1934, quinta coluna).

Dentre outras, ela, Bertha Lutz (1894 – 1976) e Carmen Portinho (1903 – 2001) foram referidas como pioneiras do feminismo no Brasil (Walkyrias, agosto de 1934).

Foi uma das dirigentes do Partido Socialista Proletário do Brasil, fundado em agosto de 1934 até 1937, quando foi instaurado o Estado Novo (Diário da Noite, 4 de agosto de 1934, segunda coluna).

 

 

Já formada em Direito, foi candidata à deputada pela legenda Decreto ao Direito ao Trabalho (Congresso Master) nas eleições para a Câmara de Deputados e para o Senado, realizadas em outubro de 1934. Por esse motivo foi afastada do Partido Socialista Proletariado do Brasil (Diário de Notícias, 22 de setembro de 1934, terceira coluna).

A outra mulher que também concorreu pelo partido foi Guilly (Jornal do Brasil, 27 de setembro de 1934, quinta coluna; Jornal do Brasil, 5 de outubro de 1934, terceira coluna; Jornal do Brasil, 9 de outubro de 1934, quarta coluna). Não foram eleitas.

No panfleto de Almerinda, lia-se:

 

Advogada consciente dos direitos das classes trabalhadoras, jornalista combativa e feminista de ação. Lutando pela independência econômica da mulher, pela garantia legal do trabalhador e pelo ensino obrigatório e gratuito de todos os brasileiros em todos os graus“.

 

almerinda3

 

1935Passou a viver com um engenheiro com quem teve um filho, mas ambos faleceram antes dela.

1936 – Publicação de seus poemas Passeio de Automóvel e Aspiração (A Gazeta (SC), 25 de setembro de 1936; A Gazeta (SC), 26 de setembro de 1936).

 

 

 

1937 – Identificada como conhecedora de altos ensinos esotéricos, Almerinda proferiu a palestra Viver para si, na Tattwa Fraternidade Exotérica (A Nação, 21 de fevereiro de 1937, quinta coluna).

Participou e foi uma das oradoras de uma festa em homenagem a Catulo da Paixão Cearense (1863 – 1946), na casa do compositor, em Engenho de Dentro (Gazeta de Notícias, 25 de agosto de 1937, segunda coluna).

Foi identificada como uma das nossas poetisas humoristas mais interessantes. Um de seus textos, Corrida da bicicleta, foi lido pelo poeta Renato Lacerda, no programa radiofônico Hora do Guri, na Rádio Tupi (Gazeta de Notícias, 29 de agosto de 1937, primeira coluna)

1938 – Escreveu as crônicas  Raça, Eu e o meu Brasil e Mamãe (A Notícia (SC), 1º de maio de 1938, penúltima coluna; A Notícia, 3 de maio de 1938, terceira coluna; A Notícia (SC), 22 de junho de 1938, penúltima coluna).

1939 – Era professora em um estabelecimento de ensino particular (Jornal do Brasil, 8 de agosto de 1939, terceira coluna).

1941 – Foi publicado um anúncio em que Almerinda oferecia seus serviços de datilógrafa, de redatora e de tradutora de francês, inglês e espanhol (Jornal do Brasil, 23 de junho de 1940, sétima coluna; Jornal do Brasil, 5 de janeiro de 1941, sexta coluna).

Ela e S. Moura ofereciam cursos de datilografia e caligrafia individual ou coletivo, na Escola Prática de Comércio Avalfred, de dia e à noite (Jornal do Brasil, 12 de janeiro de 1941, sexta coluna).

Almerinda anunciou realizar cópias a máquina em qualquer língua (Jornal do Brasil, 13 de abril de 1941, sétima coluna). No ano seguinte, voltou a anunciar seus serviços (Jornal do Brasil, 7 de junho de 1942, quarta coluna).

Enviou um telegrama felicitando o presidente da República, Getúlio Vargas (1884 – 1954), pela promulgação da lei de proteção à família (Jornal do Commercio, 7 de maio de 1941, primeira coluna).

Falecimento de seu irmão, José da Silva Gama (c. 1891 – 1941) (Diário da Noite, 11 de setembro de 1941, última coluna).

1942 – Publicação do artigo de sua autoria, Não quero ser doutor (Jornal das Moças, 6 de agosto de 1942).

Publicou, em 1942, o livro de poesias Zumbi. Foi também a responsável pelas ilustrações (Careta, 30 de janeiro de 1943).

 

 

Ofertou 15 exemplares do livro Zumbi para o leilão promovido pelo Diário da Noite para a compra do  Arará, um avião Catalina PBY-5 da Força Aérea Brasileiraque se tornaria o primeiro avião brasileiro a afundar um submarino do Eixo, o U-199, ao largo da costa do Rio de Janeirom, em 31 de julho de 1943. Foi batizado Arará em homenagem ao navio de carga brasileiro homônimo que havia sido torpedeado no litoral da Bahia, em 17 de agosto de 1943, pelo submarino alemão U-507 (Diário da Noite, 25 de setembro de 1942, sexta coluna).

 

 

1943 - Zumbi foi inscrito para concorrer ao Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras (Jornal do Commercio, 24 de junho de 1943, última coluna).

Foi membro da Associação dos Escreventes da Justiça do Distrito Federal, tendo sido nomeada escrevente juramentada do Tabelião do 9º Ofício de Notas. Desde o ano anterior ocupava o cargo, interinamente (Diário de Pernambuco, 16 de julho de 1943, segunda colunaGazeta de Notícias, 2 de fevereiro de 1944, segunda coluna).

 

 

1944 – Seu poema, Como é triste a prisão, fez parte da programação do festival da bailarina de oito anos, Sally Loretti (c. 1934 -?), no Teatro Carlos Gomes (Jornal do Brasil, 14 de maio de 1944, quinta coluna). No mesmo ano, a canção Quem chora comigo, música de Hilda Matos e letra de Almerinda, foi apresentada na edição do festival de Sally Loretti em benefício do músico Assis Valente (1911 – 1958), que estava doente (A Noite, 19 de novembro de 1944, primeira coluna).

1946- Publicação do poema Figurinha de Quadro Americana, de sua autoria (O Jornal, 12 de maio de 1946).

 

 

1947 - Participou da festa de arte no Esporte Clube Minerva, promovida pela escritora Hecilda Clark (1909 – ?) e Leocádia Silva, presidentes das Uniões Femininas Lapa-Esplanada do Senado e Catumbi-Rio Comprido, respectivamente (Tribuna Popular, 10 de junho de 1947, penúltima coluna).

Era a tesoureira da diretoria do Curso Popular Chiquinha Gonzaga, na rua do Riachuelo, sob a responsabilidade jurídica de Hecilda Clark (1909 – ?). Participou de um show em benefício da criação de um ambulatório popular promovido pela entidade e também de uma festa de artistas na sede da Associação Cristã dos Moços, na rua Araújo Porto Alegre, nº 36 (Diário de Notícias, 7 de junho de 1947, terceira coluna; Diário de Notícias, 12 de junho de 1947, quinta colunaDiário Carioca, 12 de novembro de 1947, sexta coluna; Jornal do Commercio, 26 de novembro de 1947, primeira coluna).

1949 – A entrevista que deu ao Diário de Notícias sobre a oficialização da Justiça foi manchete de primeira página: Justiça para o povo é gênero de primeira necessidade (Diário de Notícias, 22 de maio de 1949).

 

 

1955 - Foi uma das jornalistas que assinou um telegrama enviado ao presidente da República reclamando a inscrição na Ordem do Mérito Aeronáutico do nome de Victorino de Oliveira (1882 – 1964), idealizador e fundador, em 14 de outubro de 1911, do Aeroclube do Brasil. Ele havia sido redator do jornal A Noite (Correio da Manhã, 19 de outubro de 1955, quarta colunaDiário Carioca, 20 de janeiro de 1962, primeira coluna).

1956 - Foi uma das dirigentes dos trabalhos realizados na instalação da Comissão de apoio à Conferência de Mulheres Trabalhadoras, na Associação Brasileira de Imprensa. Trabalhava no jornal O Dia (Imprensa Popular, 28 de janeiro de 1956, penúltima coluna).

1958 – Foi acusada de ter cometido irregularidades como escrevente em uma escritura de compra e venda de imóvel, em Caxias, do qual seria a beneficiada. Teria falsificado a assinatura de Hans Bertold Stochaussen, falecido em 8 de julho de 1947. A Comissão de Investigações levou o inquérito para a Corregedoria. Almerinda sempre afirmou que a transação havia sido legal, o que disse que provaria em juízo (Jornal do Brasil, 15 de outubro de 1958, terceira coluna; A Noite, 7 de março de 1961, quinta colunaCorreio da Manhã, 9 de outubro de 1964, quinta coluna).

1961 – Publicação do artigo Sapato – Artigo de Luxo, de sua autoria, sobre a incidência de verminoses nos trabalhadores (O Dia (PR), 19 de abril de 1961).

1964 – Publicação de O dedo de Luciano, de autoria de Almerinda. A iniciativa foi da Companhia Antárctica Paulista que o distribuiria gratuitamente em todo o país como contribuição à divulgação dos ensinamentos de higiene, em benefício da saúde pública (Jornal do Brasil, 18 de novembro de 1964, última coluna).

1967 - Almerinda foi demitida do cargo de escrevente juramentada do 9º Ofício de Notas (Correio da Manhã, 16 de março de 1967, segunda coluna).

1984 - Em 8 de junho de 1984, foi entrevistada por Angela Maria de Castro Gomes e Eduardo Navarro Stotz no contexto do projeto “Velhos Militantes”, em vigência entre os anos de 1983 e 1986, sendo parte integrante do livro homônimo publicado pela Zahar Editores em 1988. A escolha da entrevistada se justificou por sua atuação como militante de movimento feminista nos anos de 1930 e de movimento sindical pró-Getúlio Vargas (FGV – CPDOC).

1989 - Publicação de uma foto de Almerinda votando no segundo turno da eleição presidencial (Jornal do Brasil, 18 de dezembro de 1989).

 

 

1991 – Foi entrevistada por Joel Zito de Araújo (1954 – ) que produziu o média-metragem Almerinda, uma Mulher de Trinta (1991), premiado no Festival Guarnicê de Cinema, realizado no Maranhão.

1992 - Gravou uma pequena entrevista para o documentário Memória de Mulheres, dirigido por Maria Angélica Lemos (1958 – ), para a organização feminista ComMulher. Na época, morava em uma casa em um subúrbio carioca. É a última notícia que se tem de Almerinda.

 

 

1999 - Sua data de morte era até pouco tempo desconhecida e foi revelada pela pesquisa realizada por Patrícia Cibele Tenório para a elaboração de sua dissertação de Mestrado em História, no Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade de Brasília, A trajetória de vida de Almerinda Farias Gama (1899-1999) – feminismo, sindicalismo e identidade política (2020): Almerinda faleceu em 31 de março de 1999, em São Paulo.

2016 – Foi instituido pela prefeitura de São Paulo o Prêmio Almerinda Farias Gama, de incentivo a iniciativas em comunicação social ligadas à defesa da população negra.

premio

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Fontes:

Almerinda, uma mulher de 30 Produção: Tapiri Vídeos, SOS CORPO/ TV VIVA – A Sua Imagem/CCLF Direção: Angela Freitas e Joel Zito Araújo, 1991.

Blog Mulheres Notáveis

Almerinda, a luta continua. Filme realizado na 2ª Oficina de Produção Audiovisual do Núcleo de Audiovisual e Documentário FGV/CPDOC. Direção: Cibele Tenório

DEL PRIORE, Mary (Org.). História das mulheres no Brasil. Coordenação de textos de Carla Bassanesi. São Paulo: Contexto, 1997

DEL PRIORI, Mary. História e conversas de mulher. São Paulo: Planeta Brasil, 2014

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

HEYNEMANN, Claudia; RAINHO, Maria do Carmo. Memória das lutas feministas in Brasiliana Fotográfica, 8 de agosto de 2017.

Marques, Teresa Cristina de Novaes. “Enfim, eleitoras”. O voto feminino no Brasil 2ª ed. Brasília: Edições Câmara, 2018.

PINTO, Celi Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo (coleção história do povo brasileiro) 2003.

SHUMAHER, Schuma; BRAZIL, Erico Vital (organizadores). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., 2000.

Site CPDOC

Site Democracia e Mundo do Trabalho

Site Festival Guarnicê de Cinema

Site Mulher 500 anos atrás dos panos

Site Poder Naval

TENÓRIO, Patrícia Cibele da Silva. A vida na ponta dos dedos: A trajetória de vida de Almerinda Farias Gama (1899-1999) – feminismo, sindicalismo e identidade política. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade de Brasília. Brasília, 2020.

 

Leia também os outros artigos da série “Feministas, graças a Deus”

Série “Feministas, graças a Deus!” I – Elvira Komel, a feminista mineira que passou como um meteoro, publicado em 25 de julho de 2020, de autoria da historiadora Maria Silvia Pereira Lavieri Gomes, do Instituto Moreira Salles, em parceria com Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” II  – Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993), o jequitibá da floresta, publicado em 20 de agosto de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” III  – Bertha Lutz e a campanha pelo voto feminino: Rio Grande do Norte, 1928, publicado em 29 de setembro de 2020, de autoria de Maria do Carmo Rainha, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” IV  – Uma sufragista na metrópole: Maria Prestia (? – 1988), publicado em 29 de outubro de 2020, de autoria de Claudia Heynemann, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” V – Feminista do Amazonas: Maria de Miranda Leão (1887 – 1976), publicado em 26 de novembro de 2020, de autoria de Maria Elizabeth Brêa Monteiro, mestre em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” VI – Júlia Augusta de Medeiros (1896 – 1972) fotografada por Louis Piereck (1880 – 1931), publicado em 9 de dezembro de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VIII – A engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001), publicado em 6 de abril de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” IX – Mariana Coelho (1857 – 1954), a “Beauvoir tupiniquim”, publicado em 15 de junho de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica