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Ignacio Fernandes Mendo (18? – ?), um Fotógrafo da Casa Imperial pelas províncias do Nordeste do Brasil

Pouco se sabe, até hoje, sobre a vida, tanto pessoal como profissional, do fotógrafo brasileiro, provavelmente maranhense, Ignacio Fernandes Mendo (18? – ?). Fotógrafo itinerante, trabalhou em várias províncias da região Nordeste do Brasil e foi o último profissional a receber o título de Fotógrafo da Casa Imperial, concedido em 6 de agosto de 1889, por dom Pedro II (1825 – 1891), um entusiasta da fotografia. Ainda não se sabe que tipo de contato ele teve com o monarca e nem de como suas obras poderiam ter chegado para a apreciação do imperador.

Era também compositor e dedicou uma música às cataratas de Paulo Afonso. Sua cronologia é a 73ª publicada na seção Cronologia de Fotógrafos da Brasiliana Fotográfica, que reuniu as imagens de autoria de Mendo disponíveis em seu acervo fotográfico para que seus leitores conheçam um pouco do legado fotográfico deixado por ele. São fotos da Estrada de Ferro de Paulo Afonso, produzidas em 1880, e pertencem ao acervo fotográfico da Fundação Biblioteca Nacional (FBN), uma das fundadoras do portal. É também o autor de uma das raras  fotografias existentes sobre as comemorações da abolição da escravidão no Brasil: registrou uma celebração realizada na Bahia no domingo seguinte à divulgação da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888.

 

O historiador Pedro Vasquez observou a respeito de Mendo em seu livro O Brasil na Fotografia Oitocentista (2003):

“É interessante notar que as mudanças de razão social da empresa espelham uma segurança profissional crescente [em Mendo]: começa com a Photographia Popular, em Sobral; passa para Photographia Maranhense, em Aracaju; e termina com a Photographia Universal, em Salvador, no ano de 1888 […] Particularmente interessantes são as vistas de Porto de Piranhas, onde já haviam precedido dois bons fotógrafos na década anterior, Abílio Coutinho e Augusto Riedel, transformando assim a distante e modesta vila situada às margens do Rio São Francisco numa referência para fotografia brasileira oitocentista”.

 

Nas fotografias destacadas nestes artigo, Mendo retratou a Estrada de Ferro de Paulo Afonso (EFPA ), que começou a ser construída justamente em Piranhas, em Alagoas, em 23 de outubro de 1878, tendo sido aberta ao tráfego dois anos depois, em 1880. O trecho final foi inaugurado em 2 de agosto de 1883, em Jatobá de Tacaratu, atual Petrolândia, em Pernambuco. Sua construção foi uma iniciativa do governo imperial  e objetivava conjugar interiorização e crescimento econômico. A EFPA havia sido idealizada pelo engenheiro militar e empresário abolicionista André Rebouças (1838 – 1898) com o propósito de ligar baixo e médio São Francisco, e socorrer os flagelados da terrível seca de 1877. O planejamento ficou a cargo do norte-americano William Milnor Roberts (1810 – 1881) e a autorização da obra foi dada por João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu (1810 – 1906), o Visconde de Sinimbu, alagoano e Conselheiro do Império.

 

 

Os registros de Mendo nos convidam a um passeio, passando pelo porto de Piranhas, por casas , cortes na mata, por trabalhadores e casas no caminho da estrada de ferro.

 

 

 

Acessando o link para as fotos de autoria de Ignacio Fernandes Mendo disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

De acordo com um anúncio de sua Photographia Popular, Mendo produzia fotografias pelos sistemas mais modernos adotados nas principais capitais da América e da Europa (Sobralense, 14 de março de 1875).

Mendo foi um dos fotógrafos cujas imagens integraram a exposição A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX, realizada entre 29 de janeiro e 23 de março de 1997, pela Biblioteca Nacional, no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Ainda em 1997, a exposição foi apresentada na Pinacoteca de São Paulo e no Museu Nacional de Belas Artes de Buenos Aires, na Argentina. Em 2000, foi apresentada no Centro Português de Fotografia, no Porto, em Portugal. Integraram também a exposição registros de autoria de Albert Frisch (1840 – 1918), Albert Richard Dietze (1838 – 1906), Arsênio da Silva (1833 – 1883), Augusto Amoretty (1845 – 1906), Augusto Riedel (1836 – ?), Benjamin R. Mulock (1829 – 1863), Felipe Augusto Fidanza (1844 – 1903), Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890), Henrique Rosen (1840 – 1892), Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912), Louis Niemeyer, Luis Terragno, Marc Ferrez (1843 – 1923), Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) e Victor Frond (1821 – 1881), dentre outros.

 

 

Cronologia de Ignacio Fernandes Mendo (18? – ?)

 

 

1866 – Ignacio Fernandes Mendo começou a atuar como fotógrafo provavelmente neste ano (SILVA, 2009).

Esteve, nos anos 1860, no Piauí (BASTOS, 1994), onde também atuavam, na referida década, os fotógrafos Joaquim Joze Avellino (18? -?), que abriu seu estabelecimento fotográfico, em Teresina, em 1865; Miguel Carlos (18? -?), que, em julho de 1868, anunciava ter um bom sortimento para o trabalho de fotografia; e Justino Rocha Pereira (18? -?), fotógrafo itinerante que, em 1860, esteve em Teresina (Liga e Progresso (PI), 3 de abril de 1865A Imprensa (PI), 18 de julho de 1868; e O Propagador (PI), 22 de abril de 1860).

1875 - Mendo anunciava os serviços de sua Photographia Popular, instalada na Rua Boa Vista, nº 15, em Sobral, no Ceará (Sobralense, 14 de março de 1875). Foi contemporâneo, no Ceará, de Joaquim Antônio Correia (18? – ?), autor de um conjunto de fotografias que pertence, atualmente, ao acervo da Biblioteca Nacional de vítimas da seca de 1877-1878.  São imagens chocantes, em formato de cartes de visite, e retratam crianças, homens e mulheres desnutridos e maltrapilhos, de aparência doentia. Também atuavam no estado, nos anos 1870, Pinto de Sampaio (18? -?), o prussiano Carlos Frederico Johann Reeckel (18? – c. 189?), do dinamarquês Niels Olsen (1843 –  1911) e o norte-americano R. H. Furmann (18? -?), dentre outros. Este último anunciou, em 1876, que era o único fotógrafo no Brasil que usava o Método Rembrant e o de porcelana para produzir fotografias (O Cearense, 21 de dezembro de 1871, primeira coluna; 2 de julho de 1874, terceira coluna; 30 de setembro de 1875, última coluna; 12 de março de 1876, terceira coluna; 25 de abril de 1879, terceira coluna12 de setembro de 1880, última coluna).

 

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Sobralense, 14 de março de 1875 / Transcrição copiada de BEZERRA (2019)

 

Meses depois, a Photographia Popular estava estabelecida, na Rua da Palma, nº 17, em Fortaleza (Pedro II (CE), 7 de novembro de 1875).

1876 - Passou por Açu, no Rio Grande do Norte (Correio do Assú, 25 de outubro de 1876).

 

Correio do Assu, 25 de setembro de 1876

Correio do Assu, 25 de setembro de 1876 / Transcrição copiada de BEZERRA (2019)

 

1878 - Encontrava-se em Alagoas, onde realizou uma série de vistas da cachoeira e da Estrada de Ferro de Paulo Afonso, e também do porto de Piranhas (BEZERRA, 2019). Viajantes estrangeiros, como Augusto Stahl (1828 – 1877) e Augusto Riedel (1836 – ?), e depois o brasileiro Marc Ferrez (1843 – 1923) também fotografaram a Cachoeira de Paulo Afonso.

 

 

1881 – Anunciou a abertura de seu estabelecimento fotográfico, a Photographia Maranhense, em Aracaju (Echo Sergipano, 24 de abril de 1881).

 

 

Correio do Assu,

Echo Sergipano, 24 de abril de 1881 / Transcrição copiada de BEZERRA (2019)

 

1884 – Seu estabelecimento fotográfico, a Photographia Maranhense, ficava na Rua Conde d´Eu, em Feira de Santana, na Bahia (Jornal da Feira (BA), 1º de agosto de 1884, primeira coluna).

 

 

1885 – Seu nome aparece na lista de estudantes da Faculdade de Medicina da Bahia para os exames da primeira série de Farmácia (BEZERRA, 2019).

1886 – Estava trabalhando em Cachoeira, mas tinha a intenção de se mudar para Salvador. Anunciava um processo rápido ideal para os retratos de pessoas nervosas ou crianças (A Ordem (Cachoeira, BA), 14 de abril de 1886).

1888 – Estava estabelecido na Photographia Universal, na rua Direita do Colégio, esquina com rua São José, em Salvador. Também atuavam como fotográfos, nos anos 1880, na cidade, o alemão Alberto Henschel (1827 – 1882) e o suíco Guilherme Gaensly (1843 – 1928), dentre outros.

 

 

Produziu uma das raras fotografias existentes sobre as comemorações da abolição da escravidão no Brasil, feita na Bahia, logo no domingo seguinte à divulgação da Lei Áurea (VASCONCELLOS, 2006).

 

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Phot. Universal de Ignacio Mendo. Cópia sobre cartão “Grande Missa Campal no adro do Bonfim, em ação de Graças pela redempção dos escravos no Brazil, em 13 de maio de 1888, celebrada pelo Padre Arsenio Pereira da Fonseca, deputado provincial pelo 1º districto e capellão da Libertadora Bahiana, sendo pregador o conego Dr. João Nepomuceno deputado pelo 4º districto e promovida por E. Carigé e o Club José Bonifácio” / Acervo Museu de Arte da Bahia

 

“O público da missa evidencia a diversidade social da cidade. Nesse primeiro plano, próximo ao fotógrafo, concentraram-se os homens afrodescendentes e brancos. Usam o mesmo modelo de paletó, gravata, chapéu e bigode. Isso demonstra que, fora do estúdio, homens afrodescendentes e brancos usavam os mesmos modelos de traje, enquanto as mulheres pretas se distinguiam pelo uso do turbante branco”.

 Christiane Silva de Vasconcellos

em O  circuito social da fotografia da gente negra Salvador 1860-1916, página 111

 

Anunciou que havia obtido diversas medalhas de ouro e que seguia produzindo retratos com perfeição e modicidade em preços (Folha Nova (BA), 4ª semana de setembro de 1888, primeira colunaA Locomotiva (BA), 13 de dezembro de 1888).

 

 

 

“Aos olhos do mundo civilizado apresentamos nessa página de honra a gravura que representa o edifício onde funciona a popularíssima fábrica Leite & Alves, nesta capital, à Caçada do Bom-fim, nº 95, cópia de uma bela fotografia do sr. Ignacio Mendo (A Locomotiva, 2 de dezembro de 1888).

 

 

 

1889 – Uma cópia fiel de uma fotografia da Grande Fábrica de Cigarros a Vapor de Martins Fernandes de sua autoria foi publicada (A Locomotiva, 13 de janeiro de 1889, primeira coluna).

 

 

 

Compôs uma música em homenagem às cataratas de Paulo Afonso: “Recebemos a polca Cachoeira Paulo Afonso – brilhante produção do nosso simpático amigo Ignacio Mendo, acreditado fotógrafo desta capital” (A Locomotiva (BA), 9 de fevereiro de 1889, primeira coluna).

 

 

Foi agraciado por dom Pedro II (1825 – 1891), um entusiasta da fotografia, com o título de Fotógrafo da Casa Imperial, em 6 de agosto de 1889, cerca de três meses antes da Proclamação da República no Brasil, em 15 de novembro do mesmo ano. No dia seguinte, 16 de novembro, a família real portuguesa foi banida do país (Decreto nº 2, 16 de novembro de 1889). Ainda não se sabe nem se ele teve contato com o imperador nem de como sua obra teria chegado à apreciação do monarca.

1997 – Foi um dos fotógrafos cujas imagens integraram a exposição A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX, realizada entre 29 de janeiro e 23 de março de 1997, pela Biblioteca Nacional, no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Integraram também a exposição registros de autoria de Albert Frisch (1840 – 1918), Albert Richard Dietze (1838 – 1906), Arsênio da Silva (1833 – 1883), Augusto Amoretty (1845 – 1906), Augusto Riedel (1836 – ?), Benjamin R. Mulock (1829 – 1863), Felipe Augusto Fidanza (1844 – 1903), Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890), Henrique Rosen (1840 – 1892), Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912), Louis Niemeyer, Luiz Terragno, Marc Ferrez (1843 – 1923), Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) e Victor Frond (1821 – 1881), dentre outros.

 

 

Entre 20 de abril e 25 de maio, foi apresentada na Pinacoteca de São Paulo.

Entre 4 e 31 de julho, foi apresentada no Museu Nacional de Belas Artes, em Buenos Aires, na Argentina.

2000 - A exposição A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX, foi realizada entre 8 de junho e 30 de julho de 2000, no Centro Português de Fotografia, no Porto, em Portugal.

2020 – Apresentação de A experiência da aceleração: paisagem, infraestrutura e o imaginário da modernidade no Brasil (1870/1910),  de Felipe Ziotti Narita, trabalho de pós-doutorado, ao Departamento de Sociologia e ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) como requisito para conclusão de pesquisa junto ao Programa de Pós-Doutorado (PPD/UFSCar).

Sobre o álbum das obras da Estrada de Ferro Paulo Afonso, produzido por Ignacio Mendo, Narita comentou:

“Ignacio Mendo foi fotógrafo da Casa Imperial nos anos 1880, quando também acompanhou as obras da Estrada de Ferro de Paulo Afonso. O álbum, com vapores e caminhos de ferro cruzando casebres precários e construções muitos dispersas, além de assinalar as condições de um território ermo, privilegia paisagens e perspectivas abertas, realçando um esvaziamento da própria figura humana. Exceto pequenas aparições de trabalhadores dos trechos ferroviários na paisagem vazia (Figura 125), predomina um desenho temático completamente ausente de movimento (Figuras 126, 127 e 128). A atmosfera estacionária do vazio oferece o material bruto a partir do qual as linhas de força do sistema-mundo moderno subsumia os mais remotos rincões à lógica social da circulação e da produção”.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BASTOS, Cláudio. Dicionário histórico e geográfico do Piauí. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1994.

BEZERRA, Ari Leite. História da fotografia no Ceará do século XIX. Edição do autor, 2019. Página 152

CASTRO, Danielle Ribeiro de. PHOTOGRAPHOS DA CASA IMPERIAL A Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX. Monografia apresentada ao curso de PósGraduação em História da Arte da Fundação Armando Álvares Penteado, como exigência parcial para obtenção do certificado de conclusão, sob a orientação de Rubens Fernandes Junior, 2010.

Enciclopédia Itaú Cultural

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

——————-Origens e expansão da fotografia no Brasil: século XIX. Rio de Janeiro: Funarte, 1980

NARITA, Felipe Ziotti. A experiência da aceleração: paisagem, infraestrutura e o imaginário da modernidade no Brasil (1870/1910). Relatório de pós-doutorado apresentado ao Departamento de Sociologia e ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) como requisito para conclusão de pesquisa junto ao Programa de Pós-Doutorado (PPD/UFSCar), 2020.

OLIVEIRA, Evelina Antunes. Nos Trilhos da História do Baixo São Francisco: um ensaio sobre a Estrada de Ferro Paulo Afonso in Mneme Revista de Humanidades, V.4 – N.8 – abr./set. de 2003– Semestral.

SILVA, TELMA Cristina Damasceno. A fotografia artística na Bahia e sua inserção nos salões oficiais de arte. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, Escola de Belas Artes, Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Artes Visuais., 2009.

VASCONCELLOS, Christiane Silva de. O  circuito social da fotografia da gente negra Salvador 1860-1916. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em História sob a orientação da Prof. Dr. Joao Jose Reis, 2006.

VASQUEZ, Pedro Karp. A fotografia no Império. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

—————————Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho: Companhia Internacional de Seguros: Ed. Index, 1985.

—————————O Brasil na Fotografia Oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.

Cronologia de Ignacio Fernandes Mendo (18? – ?)

Cronologia de Ignacio Fernandes Mendo (18? – ?)

 

 

1866 – Ignacio Fernandes Mendo começou a atuar como fotógrafo provavelmente neste ano (SILVA, 2009).

Esteve, nos anos 1860, no Piauí (BASTOS, 1994), onde também atuavam, na referida década, os fotógrafos Joaquim Joze Avellino (18? -?), que abriu seu estabelecimento fotográfico, em Teresina, em 1865; Miguel Carlos (18? -?), que, em julho de 1868, anunciava ter um bom sortimento para o trabalho de fotografia; e Justino Rocha Pereira (18? -?), fotógrafo itinerante que, em 1860, esteve em Teresina (Liga e Progresso (PI), 3 de abril de 1865A Imprensa (PI), 18 de julho de 1868; e O Propagador (PI), 22 de abril de 1860).

1875 - Mendo anunciava os serviços de sua Photographia Popular, instalada na Rua Boa Vista, nº 15, em Sobral, no Ceará (Sobralense, 14 de março de 1875). Foi contemporâneo, no Ceará, de Joaquim Antônio Correia (18? – ?)autor de um conjunto de fotografias que pertence, atualmente, ao acervo da Biblioteca Nacional de vítimas da seca de 1877-1878.  São imagens chocantes, em formato de cartes de visite, e retratam crianças, homens e mulheres desnutridos e maltrapilhos, de aparência doentia. Também atuavam no estado, nos anos 1870, Pinto de Sampaio (18? -?), o prussiano Carlos Frederico Johann Reeckel (18? – c. 189?), do dinamarquês Niels Olsen (1843 –  1911) e o norte-americano R. H. Furmann (18? -?), dentre outros. Este último anunciou, em 1876, que era o único fotógrafo no Brasil que usava o Método Rembrant e o de porcelana para produzir fotografias (O Cearense21 de dezembro de 1871, primeira coluna2 de julho de 1874, terceira coluna30 de setembro de 1875, última coluna12 de março de 1876, terceira coluna25 de abril de 1879, terceira coluna12 de setembro de 1880, última coluna).

 

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Sobralense, 14 de março de 1875 / Transcrição copiada de BEZERRA (2019)

 

Meses depois, a Photographia Popular estava estabelecida, na Rua da Palma, nº 17, em Fortaleza (Pedro II (CE), 7 de novembro de 1875).

1876 - Passou por Açu, no Rio Grande do Norte (Correio do Assú, 25 de outubro de 1876).

 

Correio do Assu, 25 de setembro de 1876

Correio do Assu, 25 de setembro de 1876 / Transcrição copiada de BEZERRA (2019)

 

1878 - Encontrava-se em Alagoas, onde realizou uma série de vistas da cachoeira e da Estrada de Ferro de Paulo Afonso, e também do porto de Piranhas (BEZERRA, 2019). Viajantes estrangeiros, como Augusto Stahl (1828 – 1877) e Augusto Riedel (1836 – ?), e depois o brasileiro Marc Ferrez (1843 – 1923) também fotografaram a Cachoeira de Paulo Afonso.

 

 

1881 – Anunciou a abertura de seu estabelecimento fotográfico, a Photographia Maranhense, em Aracaju (Echo Sergipano, 24 de abril de 1881).

 

 

Correio do Assu,

Echo Sergipano, 24 de abril de 1881 / Transcrição copiada de BEZERRA (2019)

 

1884 – Seu estabelecimento fotográfico, a Photographia Maranhense, ficava na Rua Conde d´Eu, em Feira de Santana, na Bahia (Jornal da Feira (BA), 1º de agosto de 1884, primeira coluna).

 

 

1885 – Seu nome aparece na lista de estudantes da Faculdade de Medicina da Bahia para os exames da primeira série de Farmácia (BEZERRA, 2019).

1886 – Estava trabalhando em Cachoeira, mas tinha a intenção de se mudar para Salvador. Anunciava um processo rápido ideal para os retratos de pessoas nervosas ou crianças (A Ordem (Cachoeira, BA), 14 de abril de 1886).

1888 – Estava estabelecido na Photographia Universal, na rua Direita do Colégio, esquina com rua São José, em Salvador. Também atuavam como fotográfos, nos anos 1880, na cidade, o alemão Alberto Henschel (1827 – 1882) e o suíco Guilherme Gaensly (1843 – 1928), dentre outros.

 

 

Produziu uma das raras fotografias existentes sobre as comemorações da abolição da escravidão no Brasil, feita na Bahia, logo no domingo seguinte à divulgação da Lei Áurea (VASCONCELLOS, 2006).

 

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Phot. Universal de Ignacio Mendo. Cópia sobre cartão “Grande Missa Campal no adro do Bonfim, em ação de Graças pela redempção dos escravos no Brazil, em 13 de maio de 1888, celebrada pelo Padre Arsenio Pereira da Fonseca, deputado provincial pelo 1º districto e capellão da Libertadora Bahiana, sendo pregador o conego Dr. João Nepomuceno deputado pelo 4º districto e promovida por E. Carigé e o Club José Bonifácio” / Acervo Museu de Arte da Bahia

 

“O público da missa evidencia a diversidade social da cidade. Nesse primeiro plano, próximo ao fotógrafo, concentraram-se os homens afrodescendentes e brancos. Usam o mesmo modelo de paletó, gravata, chapéu e bigode. Isso demonstra que, fora do estúdio, homens afrodescendentes e brancos usavam os mesmos modelos de traje, enquanto as mulheres pretas se distinguiam pelo uso do turbante branco”.

 Christiane Silva de Vasconcellos

em O  circuito social da fotografia da gente negra Salvador 1860-1916, página 111

 

Anunciou que havia obtido diversas medalhas de ouro e que seguia produzindo retratos com perfeição e modicidade em preços (Folha Nova (BA), 4ª semana de setembro de 1888, primeira colunaA Locomotiva (BA), 13 de dezembro de 1888).

 

 

“Aos olhos do mundo civilizado apresentamos nessa página de honra a gravura que representa o edifício onde funciona a popularíssima fábrica Leite & Alves, nesta capital, à Caçada do Bom-fim, nº 95, cópia de uma bela fotografia do sr. Ignacio Mendo (A Locomotiva, 2 de dezembro de 1888).

 

 

 

1889 – Uma cópia fiel de uma fotografia da Grande Fábrica de Cigarros a Vapor de Martins Fernandes de sua autoria foi publicada (A Locomotiva, 13 de janeiro de 1889, primeira coluna).

 

 

 

Compôs uma música em homenagem às cataratas de Paulo Afonso: “Recebemos a polca Cachoeira Paulo Afonso – brilhante produção do nosso simpático amigo Ignacio Mendo, acreditado fotógrafo desta capital” (A Locomotiva (BA), 9 de fevereiro de 1889, primeira coluna).

 

 

Foi agraciado por dom Pedro II (1825 – 1891), um entusiasta da fotografia, com o título de Fotógrafo da Casa Imperial, em 6 de agosto de 1889, cerca de três meses antes da Proclamação da República no Brasil, em 15 de novembro do mesmo ano. No dia seguinte, 16 de novembro, a família real portuguesa foi banida do país (Decreto nº 2, 16 de novembro de 1889). Ainda não se sabe nem se ele teve contato com o imperador nem de como sua obra teria chegado à apreciação do monarca.

1997 – Foi um dos fotógrafos cujas imagens integraram a exposição A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX, realizada entre 29 de janeiro e 23 de março de 1997, pela Biblioteca Nacional, no Centro Cultural do Banco do Brasil, no Rio de Janeiro. Integraram também a exposição registros de autoria de Albert Frisch (1840 – 1918), Albert Richard Dietze (1838 – 1906), Arsênio da Silva (1833 – 1883), Augusto Amoretty (1845 – 1906), Augusto Riedel (1836 – ?), Benjamin R. Mulock (1829 – 1863), Felipe Augusto Fidanza (1844 – 1903), Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890), Henrique Rosen (1840 – 1892), Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912), Louis Niemeyer, Luiz Terragno, Marc Ferrez (1843 – 1923), Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886) e Victor Frond (1821 – 1881), dentre outros.

 

 

Entre 20 de abril e 25 de maio, foi apresentada na Pinacoteca de São Paulo.

Entre 4 e 31 de julho, foi apresentada no Museu Nacional de Belas Artes, em Buenos Aires, na Argentina.

2000 - A exposição A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX, foi realizada entre 8 de junho e 30 de julho de 2000, no Centro Português de Fotografia, no Porto, em Portugal.

2020 – Apresentação de A experiência da aceleração: paisagem, infraestrutura e o imaginário da modernidade no Brasil (1870/1910),  de Felipe Ziotti Narita, trabalho de pós-doutorado, ao Departamento de Sociologia e ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) como requisito para conclusão de pesquisa junto ao Programa de Pós-Doutorado (PPD/UFSCar).

Sobre o álbum das obras da Estrada de Ferro Paulo Afonso, produzido por Ignacio Mendo, Narita comentou:

“Ignacio Mendo foi fotógrafo da Casa Imperial nos anos 1880, quando também acompanhou as obras da Estrada de Ferro de Paulo Afonso. O álbum, com vapores e caminhos de ferro cruzando casebres precários e construções muitos dispersas, além de assinalar as condições de um território ermo, privilegia paisagens e perspectivas abertas, realçando um esvaziamento da própria figura humana. Exceto pequenas aparições de trabalhadores dos trechos ferroviários na paisagem vazia (Figura 125), predomina um desenho temático completamente ausente de movimento (Figuras 126, 127 e 128). A atmosfera estacionária do vazio oferece o material bruto a partir do qual as linhas de força do sistema-mundo moderno subsumia os mais remotos rincões à lógica social da circulação e da produção”.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BASTOS, Cláudio. Dicionário histórico e geográfico do Piauí. Teresina: Fundação Cultural Monsenhor Chaves, 1994.

BEZERRA, Ari Leite. História da fotografia no Ceará do século XIX. Edição do autor, 2019. Página 152

CASTRO, Danielle Ribeiro de. PHOTOGRAPHOS DA CASA IMPERIAL A Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX. Monografia apresentada ao curso de PósGraduação em História da Arte da Fundação Armando Álvares Penteado, como exigência parcial para obtenção do certificado de conclusão, sob a orientação de Rubens Fernandes Junior, 2010.

Enciclopédia Itaú Cultural

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

——————-Origens e expansão da fotografia no Brasil: século XIX. Rio de Janeiro: Funarte, 1980

NARITA, Felipe Ziotti. A experiência da aceleração: paisagem, infraestrutura e o imaginário da modernidade no Brasil (1870/1910). Relatório de pós-doutorado apresentado ao Departamento de Sociologia e ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Universidade Federal de São Carlos (UFSCar) como requisito para conclusão de pesquisa junto ao Programa de Pós-Doutorado (PPD/UFSCar), 2020.

SILVA, TELMA Cristina Damasceno. A fotografia artística na Bahia e sua inserção nos salões oficiais de arte. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Artes Visuais, Escola de Belas Artes, Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para obtenção do grau de Mestre em Artes Visuais., 2009.

VASCONCELLOS, Christiane Silva de. O  circuito social da fotografia da gente negra Salvador 1860-1916. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-graduação em História da Universidade Federal da Bahia, como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em História sob a orientação da Prof. Dr. Joao Jose Reis, 2006.

VASQUEZ, Pedro Karp. A fotografia no Império. Rio de Janeiro: Jorge Zahar, 2002.

—————————Dom Pedro II e a fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Fundação Roberto Marinho: Companhia Internacional de Seguros: Ed. Index, 1985.

—————————O Brasil na Fotografia Oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.

Breves perfis e cronologias dos irmãos e fotógrafos Malta: Aristógiton (1904-1954) e Uriel (1910 – 1994)

Hoje a Brasiliana Fotográfica publica breves perfis e as 70ª e 71ª cronologias de fotógrafos presentes no acervo fotográfico do portal. São dos irmãos e fotógrafos Aristógiton e Uriel Malta. As cronologias estão todas reunidas na página inicial da Brasiliana Fotográfica na aba Cronologia de Fotógrafos. Aristógiton e Uriel são filhos de Augusto Malta (1864 – 1957), que foi fotógrafo da Prefeitura do Rio de Janeiro, entre 1903 e 1936. O cargo foi criado para ele, que tornou-se o principal cronista visual da cidade nas primeiras décadas do século XX. Disponibilizamos hoje também uma versão revisada e ampliada do artigo O alagoano Augusto Malta, fotógrafo oficial do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936, e da Cronologia de Augusto Malta, originalmente publicados no portal, em 10 de julho de 2015.

O trabalho de Aristógiton e Uriel ficou durante muitas décadas à sombra da extraordinária obra de seu pai. A publicação, em 27 de janeiro de 2026, do livro digital Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945) , com fotografias produzidas pelos filhos de Augusto Malta pertencentes ao acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro, resgatam a importância do trabalho deles, que fotografaram os últimos anos da belle époque carioca assim como seu desaparecimento.

 

Aristógiton Malta (1904-1954)

 

 

Aristógiton nasceu em 25 de agosto de 1904, no Rio de Janeiro, e era filho da primeira esposa de Augusto Malta, Laura Oliveira Campos (1874 – 1905). De temperamento alegre e afável, era um desportista e praticou remo durante muitos anos. Casou-se com Helena de Freitas Moutinho (1906 – 1975), no início da década de 1930. Tiveram sete filhos: Marcus Moitinho Malta (1933 – 1977), Maryse Malta Muller (1935 – ), Mauro Moitinho Malta (1937 – ), Marcelo Moitinho Malta (1940 – 2020), Marcio Moitinho Malta (1946 -), Antonio Carlos Moitinho Malta (1947 – 1950) e Monica Moitinho Malta (1952 -1952).

 

Aristógiton e Helena com Maryse, Marcus,

O casal Aristógiton e Helena com os filhos Maryse, Marcus, Mauro e Marcelo no colo da mãe, 1940 / Acervo pessoal de Maryse Muller

 

Em 1932, foi contratado como fotógrafo assistente da Prefeitura do Rio de Janeiro. Em 25 de agosto de 1936, Augusto Malta aposentou-se da Prefeitura e foi substituído por Aristógiton, a partir de 9 de setembro do mesmo ano. Em 1938, o presidente da República, Getúlio Vargas (1882 – 1954), visitou a “Feira de Amostras”,  uma exposição de diversas secretarias da Prefeitura do Rio de Janeiro. Um dos stands de maior sucesso foi o da Secretaria de Viação, Trabalho e Obras Públicas, que expôs fotos de Augusto e Aristógiton. Em 1953, foi noticiado que uma foto de sua autoria do Estádio do Maracanã estava nas paredes de todas as repartições da Prefeitura, no hall do Banco da Prefeitura, e também em hotéis em países da Europa, da América do Sul e dos Estados Unidos. Faleceu em 15 de agosto de 1954.

 

Aristogiton Malta (1896-1954) / Site Family Search

Aristógiton Malta, s/d / Site Family Search

 

Acesse aqui a Cronologia de Aristógiton Malta (1904 – 1954)

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Aristógiton Malta disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Uriel Malta (1910 – 1994)

 

 

Uriel Malta nasceu, em 28 de setembro de 1910, no Rio de Janeiro, filho da segunda esposa de Augusto, Celina Augusta Verscheuren (1884 – 1969). Passou a trabalhar com o irmão, Aristógiton, no Serviço de Fotografia da Prefeitura, em 1937. Casou-se com Hilda de Abreu Malta (1908 – 1976), em 1944. Tiveram pelo menos três filhos: Claudius Vinicius de Abreu Malta (1945-2010), Lelia Sandra de Abreu Malta (19? – ?) e Lelia Egle de Abreu Malta (19? – ?). Foi fotógrafo da Prefeitura até fins da década de 1960 e, em 1970, teve assinada a apostila fixando os proventos anuais de inatividade. Uriel faleceu, em Magé, em 5 de agosto de 1994.

 

Acesse aqui a Cronologia de Uriel Malta (1910- 1994)

 

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Uriel Malta disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Augusto Malta (1864 – 1957)

 

 

Acesse aqui a publicação O alagoano Augusto Malta, fotógrafo oficial do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936 e a Cronologia de Augusto Malta (1864 – 1957), revisadas e ampliadas.

 

Agradeço à colaboração generosa da filha de Aristógiton Malta, Maryse Muller, e de uma de suas netas, Christiana Malta, que me deram um depoimento fundamental para a elaboração deste artigo, em 20 de março de 2026.

 

Christiana Malta e Maryse Muller, neta e filha de Aristógiton Malta

Christiana Malta e Maryse Muller, neta e filha de Aristógiton Malta, respectivamente, comigo, Andrea Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, 20 de março de 2026. Rio de Janeiro

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Achados e Perdidos (livro eletrônico): Imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945)/Eliseu Santiago de Souza…(Et.Al.) — 1ª edição. Rio de Janeiro: Aprazível Edições e Arte e UQ Editions, 2025 PDF. Outros autores: Pedro Marreca, Rafael Martins, Leonel Kaz.

Blogspot Domingos Moitinho

DUNLOP, Charles Julius. Rio Antigo, volume II. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo, 1956.

ERMAKOFF, George. Augusto Malta e o Rio de Janeiro: 1903-1936 / George Ermakoff; tradução para o inglês Carlos Luís Brown Scavarda. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2009. 288p. : il.; 28cm

FROSSARD, Heloisa (org.) Augusto Malta – Catálogo da série Negativo em vidro Aristógiton Malta. Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro – Coleção Biblioteca Carioca, 1994.

HEEREN, Alice. Affective Rhetorics of Contagion – Augusto Malta in Belle Époque Rio de Janeiro, 2020.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Nosso Século. São Paulo; Abril Cultural, 1980. vol. 1 (1900-1910)

Portal Augusto Malta do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

Site A Casa Senhorial

WANDERLEY, Andrea C. T. “Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945)”, do acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Destaque para a identificação da casa de Tia Ciata in Brasiliana Fotográfica, 10 de fevereiro de 2026

Cronologia de Uriel Malta (1910 – 1994)

Cronologia de Uriel Malta (1910 – 1994)

 

Uriel Malta / Site Family Search

Uriel Malta / Site Family Search

 

1910 – Uriel Malta nasceu, em 28 de setembro de 1910, no Rio de Janeiro, filho do importante fotógrafo alagoano Augusto Malta (1864 – 1957) e da belga Celina Augusta Verscheuren (16/03/1884 – 1969) (Registro Civil do Rio de Janeiro, Site Family Search; O Jornal, 28 de setembro de 1926, segunda coluna). Augusto Malta foi fotógrafo da Prefeitura do Rio de Janeiro de 1903 até 1936 – o cargo foi criado para ele.

Augusto Malta, que havia ficado viúvo, em 1905, com o falecimento de Laura Oliveira Campos (1874 – 1905), passou a viver maritalmente com Celina, mãe de Uriel, em torno de 1906. Ela trabalhava desde os 15 anos como babá dos filhos de Malta e Laura. Com Celina, Malta teve, além de Uriel, quatro filhas: Dirce (1907 – 10/1971), Eglé (20/09/1909 – 11/1941) e Amalthea (12/12/1912 – 12/03/2007). Celina era de origem belga e ela e sua irmã ficaram órfãs de pai e mãe, ainda menores. Foram internadas em um pensionato na Glória. Com 15 anos, como já mencionado, Celina foi trabalhar na casa da família Malta. Sua irmã tornou-se professora.

 

Uriel e sua irmã, Amalthea, s/d. / Acervo  Jean Jacques Malta CArlini

Uriel e sua irmã, Amalthea, s/d. / Acervo Jean Jacques Malta Carlini

Os irmãos de Uriel do primeiro casamento de seu pai eram Luthgardes (05/01/1896 – 05/02/1928), Arethusa (1898-31/03/1913), Callisthene (26/07/1900 – 20/02/1919), Aristocléa (21/06/1903 – 03/1934), e Aristógiton (25/08/1904 – 15/08/1954).
1920 – Com nove anos, Uriel sofreu um acidente em casa e teve duas fraturas (Gazeta de Notícias, 19 de junho de 1920, sexta coluna).

1921 – Foi batizado em 13 de março de 1921 e seus padrinhos foram João Augusto de Godoy e Adélia Godoy de Almeida (Site Family Search).

 

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Certidão de Batismo de Uriel Malta / Site Family Search

 

1926 - O aniversário do menino Uriel Malta foi noticiado (O Jornal, 28 de setembro de 1926, segunda coluna).

1931 - Viajou para São Paulo no vapor Raul Soares, vindo do Rio de Janeiro (Tribuna (SP), 4 de agosto de 1931, última coluna).

1935 - Foi noticiado que ele estava envolvido em um caso policial sobre o sequestro de meninos para trabalho em um garimpo ilegal no Mato Grosso. O crime foi denunciado pelos pais de um dos menores encontrados na casa do inglês Harold Bold, suposto chefe da quadrilha. Uriel foi inicialmente identificado como um dos menores, mas na verdade já tinha 24 anos. Ele seria o cinegrafista do grupo. Foi preso, interrogado e solto (Gazeta de Notícias4 de julho de 1935, terceira coluna6 de julho de 1935, última coluna11 de julho de 1935, quarta colunaJornal do Brasil3 de julho de 1935, quinta colunaO Jornal, 4 de julho de 1935, terceira colunaDiário Carioca, 3 de julho de 1935Diário de Notícias, 4 de julho de 1935, quarta coluna).

 

 

Uriel foi à redação do jornal A Manhã e fez uma declaração sobre o caso, desmentindo a notícia. Bold declarou que ele chefiaria uma expedição aventureira pelo Mato Grosso, onde elaboraria um filme e  se lançaria à aventura dos garimpos (A Manhã, 4 de julho de 1935, primeira coluna).

 

 

1937 – Passou a trabalhar com o irmão, Aristógiton, no Serviço de Fotografia da Prefeitura (Jornal do Brasil, 12 de março de 1937, primeira coluna). Entre este ano e a década de 1950, os irmãos fotografaram exaustivamente as reformas urbanas realizadas no Rio de Janeiro.

1941 – Foi chamado para preencher uma proposta na Caixa Reguladora de Empréstimos da Prefeitura (Correio da Manhã, 19 de abril de 1941, primeira coluna).

1944 – Casou-se com a carioca Hilda de Abreu Malta (1908 – 1976), em 15 de abril. Tiveram pelo menos três filhos: Claudius Vinicius de Abreu Malta (1945-2010), Lelia Sandra de Abreu Malta (19? – ?) e Lelia Egle de Abreu Malta (19? – ?) (Registro Civil do Rio de Janeiro, Site Family Search; O Fluminense, 13 de agosto de 1960, segunda colunaO Fluminense, 17 de agosto de 1960, segunda coluna).

 

Certidão de Casamento Civil / Site Family Search

Certidão de Casamento Civil / Site Family Search

 

1945 – A Prefeitura concedeu a Uriel salário-família (Diário de Notícias, 20 de março de 1945, segunda coluna).

A Prefeitura fixou os proventos de Uriel (Diário de Notícias, 8 de junho de 1945, terceira coluna).

Em um anúncio, Uriel seria a pessoa a ser procurada para receber ofertas em relação à venda de lotes em Jacarepaguá e também em Paquetá (Correio da Manhã, 15 de setembro de 1945, sexta coluna; 16 de setembro de 1945, terceira coluna).

1950 – Foi concedido pela Prefeitura salário-família para Uriel (Correio da Manhã, 19 de julho de 1950, sexta coluna).

Na década de 1950, seu pai, Augusto, recebia muitas visitas de compradores de suas fotografias e um dos mais constantes era o colunista Arthur Faveret (? – 1968), que fazia diversas encomendas de vistas da cidade. Como laboratorista, Uriel ajudava o pai, produzindo as cópias solicitadas.

1953 - Foi designado pelo prefeito, Dulcídio do Espírito Santo Cardoso (1896 – 1978), para a Secretaria de Viação e Obras, cujo secretário-geral o designou para o Departamento de Propaganda Urbanística (Correio da Manhã, 3 de fevereiro de 1953, terceira coluna; Diário de Notícias, 11 de fevereiro de 1953, segunda coluna).

1955 – Foi designado para a Secretaria de Administração da Prefeitura (Diário de Notícias, 31 de março de 1955, segunda coluna).

1957 – A Prefeitura concedeu a Uriel nove meses de licença (Jornal do Brasil, 28 de junho de 1957, última coluna).

A Prefeitura aumentou o salário de Uriel em 20% (Jornal do Commercio, 6 de setembro de 1957, quinta coluna).

1959 - A filha de Uriel e Hilda, Lélia Eglé, participou do baile de debutantes do Clube Central (O Fluminense, 19 de agosto de 1959, segunda coluna).

A Prefeitura requisitou seu comparecimento urgente (Diário de Notícias, 28 de novembro de 1959, quarta coluna).

Seu pagamento de montepio foi deferido (Diário de Notícias, 17 de dezembro de 1959, quarta coluna).

1964 - Foi designado para a Secretaria de Turismo da Prefeitura (O Jornal, 14 de novembro de 1964, quarta coluna).

Foi colocado à disposição da Assembleia Legislativa (Diário de Notícias, 21 de maio de 1964, quarta coluna).

1965 – Foi designado para a Secretaria de Obras Públicas da Prefeitura (Diário de Notícias, 27 de fevereiro de 1965, primeira coluna).

1968 - Por ter completado o tempo de serviço exigido pela lei, ganhou uma licença-prêmio de nove meses. Foi promovido (Diário de Notícias, 3 de abril de 1968, terceira colunaDiário de Notícias, 20 de outubro de 1968, primeira coluna). 

1969 – A Prefeitura concedeu a Uriel um aumento trienal (Diário de Notícias, 31 de janeiro de 1969, terceira coluna).

1970 – Teve assinada a apostila fixando os proventos anuais de inatividade (Diário de Notícias, 7 de abril de 1970, última coluna).

1976 - Falecimento de sua esposa, Hilda de Abreu Malta.

 

O GLOBO, 5 de agosto de 1976

O GLOBO, 5 de agosto de 1976

 

1994 – Uriel faleceu, em Magé, em 5 de agosto de 1994 (Registro Civil do Rio de Janeiro, Site Family Search)

2026 – Em 27 de janeiro, sob a presidência do internacionalista e doutor em Ciência Política, Eliseu Santiago, em parceria com a Aprazível Edições, do jornalista, editor de livros, curador de museus e exposições, Leonel Kaz, o Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro lançou o livro digital Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945)que revela um valioso e inédito acervo iconográfico da cidade do Rio no período do Estado Novo, sob a presidência de Getúlio Vargas (1882 – 1954). São fotografias inéditas produzidas por Aristógiton e Uriel. As imagens do livro resgatam a importância do trabalho dos filhos de Augusto Malta, que fotografaram os últimos anos da belle époque carioca assim como seu desaparecimento.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus” XXI – Uma alemã que amava a Amazônia: Emília Snethlage no Museu Goeldi

No 21º artigo da série Feministas, graças a Deus, do historiador Nelson Sanjad, do Museu Paraense Emílio Goeldi, que é, desde o início de 2026, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, vamos conhecer a espetacular trajetória da alemã Emília Snethlage, nascida em 13 de abril de 1868. Foi uma cientista pioneira, que chegou ao Brasil, em 1905, e a primeira mulher diretora do Museu Goeldi, cargo que exerceu entre 1914 e 1921. Em 1926, tornou-se membro correspondente da Academia Brasileira de Ciências (O Paiz, 28 de outubro de 1926, penúltima coluna).

Suas escolhas foram sempre avançadas: estudou zoologia, quando a entrada de mulheres em universidades era ou proibida ou mal vista; decidiu não casar e veio para um país estrangeiro. Decisões feministas.

 

 

Em 1926, foi uma das signatárias da mensagem em apoio à candidatura de Washington Luis (1869 – 1957) à presidência da República da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, dirigida pela bióloga Bertha Lutz  (1894 – 1976) (Jornal do Brasil, 2 de fevereiro de 1926, segunda coluna).

Foi convidada para integrar o conselho da União Universitária Feminina, fundada, no Rio de Janeiro, em 13 de janeiro de 1929, sob a direção da engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001). As outras criadoras ou conselheiras da entidade foram: a engenheira civil Amélia Sapienza (? -19?), Bertha Lutz, a advogada Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993),  a professora Heloisa Marinho (1903 – 1994), as médicas Herminia de Assis (? -19?) e Juana Lopes (? -19?), as advogadas Maria Alexandrina Ferreira Chaves (? -19?), Maria Ester Correia Ramalho (? -19?), Myrthes de Campos ( 1875 – 1965) e Orminda Ribeiro Bastos (1899 – 1971) (Correio da Manhã, 15 de janeiro de 1929, quinta coluna).

Emília Snethlage faleceu, em Porto Velho, capital de Rondônia, em 25 de novembro de 1929. Trabalhava desde 1922 no Museu Nacional (Correio da Manhã, 28 de novembro de 1929, primeira coluna).

 

 

Série “Feministas, graças a Deus” XXI – Uma alemã que amava a Amazônia: Emília Snethlage no Museu Goeldi

Nelson Sanjad*

Emília Snethlage (1868-1929) é dessas figuras que causam comoção: sua trajetória ainda surpreende pelas escolhas que tomou ao longo da vida, sobretudo quando decidiu estudar zoologia – em uma época em que o acesso das mulheres à universidade era proibido ou mal visto; quando decidiu não se casar; quando quis trabalhar em um país estrangeiro num ofício dominado por homens – a pesquisa científica; e quando aceitou o desafio de dirigir um museu de história natural, o Museu Goeldi, em 1914, feito que talvez nenhuma outra mulher havia experimentado antes dela.

Como se isso não bastasse, Snethlage, que trocou a Alemanha pelo Brasil aos 37 anos, em 1905, gostava de viajar sozinha ou com apenas um acompanhante pelos rincões do interior do país. Era exímia coletora de aves, sendo responsável pelo acréscimo de muitos milhares de exemplares à coleção ornitológica do Museu Goeldi. E também produziu uma obra científica atualmente considerada fundacional para a ciência brasileira, especialmente para a taxonomia de aves e a biogeografia. No século XX, apenas cinco cientistas (homens), descreveram mais espécies de aves do que ela: os norte- americanos Frank Chapman (1864 – 1945), John Zimmer (1889 – 1957) e Walter Todd (1874 – 1969); o austríaco Carl Hellmayr (1878-1944) e o alemão Hans von Berlepsch (1850 – 1915). Ela foi a única a trabalhar em instituições brasileiras – o Museu Goeldi e o Museu Nacional – e criou 46 nomes de aves válidos atualmente, descritos entre 1906 e 1928. Por fim, foi ela quem delineou uma agenda de investigações que perdura até nossos dias, dedicada à compreensão do papel dos grandes rios na distribuição de espécies de aves pelo território nacional.

Acessando o link para as fotos de Emília Snethlage disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A esta longa lista de qualificativos, podemos acrescentar mais alguns: Emília Snethlage foi a primeira pessoa não-indígena a explorar um interflúvio amazônico, percorrendo a pé, em companhia de sete indígenas Kuruaya, o divisor de águas entre o Xingu e o Tapajós, em 1909. Posteriormente, em 1914, revisitou aquele mesmo povo indígena, e mais os Xipaya, reunindo uma coleção com mais de 150 artefatos. Snethlage inscreveu seu nome na história da antropologia por ter não apenas feito a primeira (e única) coleção etnográfica de ambos os povos, como também por ter sido a primeira mulher a fazer uma etnografia e a coletar em aldeias indígenas na Amazônia. Antes dela, somente a princesa Teresa da Baviera vinculou seu nome a uma coleção etnográfica, mas esta não foi obtida em aldeias e nem junto a indígenas, mas comprada nos mercados das cidades amazônicas por onde viajou na década de 1880.

Esses episódios vêm sendo explorados por pesquisadoras e pesquisadores capturados pela memória de Emília Snethlage. Nos últimos 25 anos, brasileiros e alemães revisitaram publicações, relatórios, cartas, fotografias, desenhos, mapas, coleções e toda sorte de documentos relacionados a Snethlage, com motivações diversas, mas todos movidos – ou comovidos – pela extraordinária vida de Snethlage e pelo imenso legado que ela deixou. A lista é longa, mas faço questão de registrar os nomes (em ordem alfabética) para que o/a leitor/a tenha a dimensão desse recente movimento de construção historiográfica: Aline Ariela Pereira, Beatrix Hoffmann-Ihde, Carla Bedran, Cilene Trindade Rohr, Diana Alberto, Gabriel Ramos Pacheco, Gleice Mere, Leila Mourão Miranda, Lilian Bayma de Amorim, Luiz Felipe Santos, Marcelo de Castro Silva, Marco Crozariol, Matheus Camilo Coelho, Miriam Junghans, Nelson Sanjad, Pablo Borges, Peter Schroeder, Reinhard Michael Arnegger, Rosanne Castelo Branco e possivelmente outros. Esses nomes se uniram a pesquisadores mais antigos, pioneiros no estudo da vida e da obra de Snethlage, como Osvaldo Cunha e Marisa Corrêa.

Já é possível registrar alguns avanços significativos no conhecimento da vida e do legado de Snethlage: Junghans (2009) e Coelho (2026) fizeram  belas análises das viagens e do trabalho de campo da ornitóloga; Hoffmann-Ihde (2015) fez o mais importante estudo das coleções Kuruaya e Xipaya, preservadas no Ethnologisches Museum Berlin; Pereira (2024) seguiu os passos (literalmente) de Snethlage pelo Ceará e revisitou as coleções ornitológicas que ela formou, semelhante ao que Santos e colegas (2024, 2025) fizeram, mas para o caso da Amazônia; Alberto (2022) introduziu Snethlage nos estudos de gênero, enquanto Sanjad (2019) mapeou as relações científicas que ela estabeleceu entre os etnólogos (homens) alemães; por fim, Crozariol (2025) lançou luz sobre as circunstâncias da morte de Snethlage, graças à descoberta de documentos inéditos do Museu Nacional do Rio de Janeiro, felizmente salvos do grande incêndio de 2018. Vale registrar, ainda, os esforços para divulgar importantes trabalhos de Snethlage, como os seus estudos etnográficos, pouco lidos e quase nunca citados, traduzidos ao português, pela primeira vez, por Michael Arnegger e Nelson Sanjad (Snethlage, 2023a) e por Cilene Rohr e Rosanne Castelo Branco (Snethlage, 2023b). Todas as referências bibliográficas seguem listadas abaixo para a devida orientação do/a leitor/a.

O desenvolvimento da historiografia, na dimensão e com a qualidade aqui demonstrados, só é possível com bons levantamentos documentais e com coleções bem preservadas em museus e arquivos. Com esse horizonte, o Arquivo Guilherme de La Penha, do Museu Goeldi, organizou e inventariou toda a documentação produzida e recebida pela instituição entre 1914 e 1921, anos em que Snethlage esteve à frente da direção do museu; e também desenvolveu a Coleção Especial Emília Snethlage, que reúne cartas pessoais conservadas no próprio arquivo do museu e cópias digitais de documentos preservados pela Família Snethlage, residente na Alemanha, e por outras instituições, como o Museum für Naturkunde Berlin, Ethnologisches Museum Berlin, Philipps-Universität Marburg, Albert-Ludwigs-Universität Freiburg, Natural History Museum London, Staatsarchiv des Kantons Basel-Stadt e Naturhistorisches Museum Wien. Esses documentos vêm sendo reunidos há pelo menos 15 anos por Nelson Sanjad, Beatrix Hoffmann-Ihde, Miriam Junghans, Rotger Snethlage e Gleice Mere.

Esse enorme conjunto documental dará origem a duas publicações: o livro “Emília Snethlage no Arquivo Guilherme de La Penha”, contendo o Catálogo Descritivo da Gestão Emília Snethlage no Museu Goeldi (1914-1921) e o Catálogo Descritivo da Coleção Especial Emília Snethlage (1907-1924), ambos organizados por Lilian Bayma de Amorim, Pablo Borges e Nelson Sanjad, com previsão de publicação em 2026; e o livro “Emília Snethlage: cartas e inéditos”, contendo a transcrição e tradução das cartas e dos textos inéditos de Snethlage encontrados até o momento, organizados por Nelson Sanjad, Beatrix Hoffmann-Ihde, Rotger Snethlage e Marco Aurélio Crozariol, com previsão de publicação em 2027.

Essas são notícias alvissareiras para celebrarmos o aniversário de Emília Snethlage neste 13 de abril de 2026, quando se completam 158 anos de seu nascimento – alvissareiras porque os documentos a serem publicados certamente darão ensejo a novos estudos, ampliando ainda mais o conhecimento que dispomos sobre a biografia de Snethlage e a construção de sua obra científica.

Nesta postagem, adiantamos a publicação de algumas fotos preservadas no Arquivo Guilherme de La Penha, devidamente contextualizadas com o auxílio de outros documentos. A primeira delas é o célebre retrato das funcionárias do Museu Goeldi, tirado em março de 1907 por pessoa não identificada. Snethlage aparece de pé, com suas características roupas claras, mangas bufantes e cabelo preso. Ela trabalhava há um ano e meio como assistente de Emílio Goeldi na Seção de Zoologia, tendo sido indicada ao cargo pelo ornitólogo alemão Anton Reichenow (1847-1941), curador do Museum für Naturkunde Berlin, que assegurou sua competência e habilidade nos trabalhos museais (Sanjad, 2010). Quando Goeldi se retirou de volta para a Suíça, em 1907, Snethlage assumiu a chefia da seção e depois, com o falecimento de Jacques Huber (1867-1914), a direção do próprio museu, ali permanecendo até 1921 (com exceção de um breve período em que precisou se afastar em razão da Primeira Guerra Mundial).

 

 

As moças sentadas são Anna de Aragão Carreira (1894-?), à esquerda, e Abigayl Esther de Mattos (1889-1958), à direita. Ambas foram contratadas em 1907, após o secretário José Lobo Pessanha ser demitido e seu salário dividido em dois, sendo uma parte paga para Anna Carreira, como encarregada de confeccionar os rótulos e as etiquetas das coleções, e a outra para Abigayl Mattos, encarregada da secretaria e da biblioteca. As duas moças, uma com 13 e a outra com 18 anos, passaram a desempenhar as mesmas funções que Pessanha, somadas às atividades incessantes de apoio às coleções, mas recebiam apenas a metade do salário do antigo “oficial de secretaria”. A ideia foi apresentada pelo sucessor de Goeldi, Jacques Huber, como uma medida muito inteligente, “permitindo assim obter maior soma de trabalho sem acréscimo notável de despesas” (Huber, 1909, p. 4).

Ainda que esse experimento trabalhista nos soe como um disparate e muito injusto, a iniciativa de Goeldi e Huber foi inovadora para a época. Snethlage foi a primeira funcionária pública do Estado do Pará, logo seguida pelas outras duas, sendo a mais nova (Anna, 13) contratada como “aprendiz”. O Museu Goeldi talvez seja a primeira instituição científica do país onde as mulheres passaram a ocupar funções finalísticas, como Snethlage, e administrativas, incluindo aí um programa de estágio para adolescentes, denominado “Jovens Aprendizes”. A avaliação da experiência de inserir mulheres no ambiente de trabalho, feita por Huber (1909, p. 4), foi bastante positiva:

Felizmente esta experiência, ainda que única no Pará, deu resultados de todo satisfatórios para o Museu, sendo de louvar o zelo e a aplicação com que as ditas funcionárias se houveram no desempenho de suas funções. Provavelmente o nosso Museu é o único na América latina onde o trabalho feminino seja tão largamente aproveitado.

As próximas quatro fotos foram feitas em dezembro de 1908, por pessoa não identificada, mas que certamente carregava uma máquina portátil. Essas fotos fazem parte de um conjunto maior, somando oito negativos de vidro produzidos quando uma chimpanzé chegou no Museu Goeldi. Essa história é muito curiosa: o animal pertencia ao médico Harold Wolferstan Thomas  (1875–1931), chefe da missão da Escola de Medicina Tropical de Liverpool em Manaus. Em 17 de novembro de 1908, ele escreveu a Huber perguntando se ele poderia cuidar da chimpanzé enquanto viajava à Europa. Ela já era adulta, estava cativa há dois anos, era “bem mança e accostumada com gente” [sic]. Dr. Thomas foi prontamente atendido por Huber, mas quem recebeu e cuidou do animal foi Snethlage, responsável pelo zoológico da instituição, e seu assistente preparador, João Batista de Sá (?-1909). São eles que aparecem acolhendo a chimpanzé: na primeira foto, Sá, vergado e segurando um balde (com comida?), dá a outra mão ao animal – que parece estranhar o ambiente. Snethlage está observando a cena logo atrás, com as mãos na cintura. Huber está bem no fundo, de paletó branco e chapéu, mas um de seus filhos quis se aproximar da nova moradora do parque. É o menino que aparece à esquerda, de branco (o outro menino, atrás de Snethlage, não foi identificado).

 

 

Na sequência, a chimpanzé aparece agarrada às grades da jaula dos pequenos felinos. Ela provavelmente emite algum som, enquanto uma jaguatirica a observa atentamente à esquerda. Snethlage, com cabelos bem mais esbranquiçados do que na foto tirada no ano anterior, ainda mantêm distância da chimpanzé, com Sá ao seu lado (cujo corpo é apenas parcialmente visível).

Na próxima foto, a chimpanzé já está junto à jaula dos macacos barrigudos, identificada por uma plaqueta que pende à direita, em cima. Dois deles permanecem empoleirados, enquanto um terceiro desce para ver de perto a visitante. Nesse momento, Snethlage inclina-se, permitindo-nos ver seus longos cabelos arrumados em um coque. Ela toca as costas da chimpanzé, enquanto Sá, do outro lado, parece estar de prontidão para conter o animal. A chimpanzé vira-se para Snethlage – e quase podemos ouvi-la chiar agudamente. A cena é terna e tensa ao mesmo tempo.

Na quarta foto, ainda junto à jaula dos macacos barrigudos, Snethlage e Sá permitem que a chimpanzé suba em uma tábua, talvez para interagir melhor com os macacos, que parecem se movimentar no interior. O balde volta às mãos de Sá, enquanto Snethlage encosta-se no guarda-corpo, dizendo algo para o fotógrafo.

 

 

 

 

 

 

Em 25 de junho de 1909, Dr. Thomas escreve de Liverpool: “How is my chimpazee behaving in the museum?” – e anuncia a sua volta para novembro do mesmo ano. Huber respondeu em agosto, em tom bem humorado: “A chimpanzé fêmea está prosperando em sua nova residência; ela é a principal atração do zoológico e está plenamente consciente de sua importância. Agora, ela está mais forte e mais animada do que nunca.”

Em outra fotografia, podemos ver Snethlage novamente em ação no zoológico do Museu Goeldi, junto a uma equipe de tratadores de animais. Desta vez, eles estão ocupados com uma onça, que aparece amarrada atrás das grades. Dois homens tencionam uma corda, sendo um deles João Batista de Sá, mais próximo à jaula. Snethlage olha a cena, vestida como de costume, mas com chapéu (estava chegando da rua?). É difícil decifrar o que está acontecendo, mas é certamente algo que demanda cuidado e atenção. Além da longa corda tencionada e que se enrola pelo chão, um terceiro homem, ao lado de Sá, puxa uma segunda corda, mais fina e menor, que talvez estivesse contendo as patas traseiras da onça; e um quarto homem, ao lado de Snethlage, também segura uma corda, com um laço na ponta, certamente utilizado no pescoço do animal. Podemos imaginar que uma onça estava chegando no museu, tendo sido transportada completamente amarrada. Os homens parecem estar no processo de desamarrá-la, enquanto a onça rosna e esperneia do lado de dentro.

 

 

Alguns autores já escreveram sobre a intimidade dos funcionários do museu e de suas famílias com os animais residentes no zoológico. A chegada da chimpanzé mobilizou toda a instituição, pois na série de fotos é possível ver os funcionários e familiares que acorreram para testemunhar a entrada do animal no museu. Por sua vez, Suescún Florez e colegas (2018) analisaram o Museu Goeldi como local para a sociabilidade dos funcionários e das suas famílias, chegando a divulgar uma foto dos filhos de Huber brincando dentro do viveiro de jabotis, montando nos animais como se fossem cavalos, enquanto uma tia ri alegremente.

A tese de Alberto (2022) dá ênfase à relação de afeto que Snethlage mantinha com os animais. Apesar de ser exímia caçadora, não hesitando em apertar o gatilho para abater o animal que desejasse, Snethlage cuidava com zelo e carinho dos habitantes do zoológico, convivendo com alguns deles dentro de casa. Por exemplo, em um diário de viagem ao rio Tocantins que ela mandou para a família, na Alemanha, em 1907, Snethlage dá notícias de como encontrou o zoológico ao retornar ao museu:

Estava tudo bem também com a maioria dos bichos; naturalmente, alguns casos de animais mortos, mas nenhum dos mais valiosos. Em compensação, recebemos nesse tempo três onças jovens, sujeitos muito cândidos, de fisionomia simpática e movimentos desengonçados. Ainda tentarei tornar-me amiga delas, embora sejam bem ariscas e pouco afeitas a seres humanos. Encontrei bem espertas as minhas duas corujinhas. A menor transformou-se de lá para cá e está com a aparência tão imponente quanto sua companheira mais velha. Também reencontrei os dois gatos maracajás jovens. Um fica muito tempo no meu quarto e, no começo, deixava as corujas apavoradas, especialmente quando pulava sobre as gaiolas e mostrava sua avidez por restos de carne. Agora, elas já estão mais acostumadas e deixaram o gato um pouco de lado (Sanjad e colegas, 2013, p. 210).

Um desses maracajás ainda vivia em 1912. Em uma carta ao irmão Viktor Snethlage, datada de 18 de julho, Emília conta como o gato a fez relembrar um episódio de infância:

Ontem não houve como eu não me lembrar da história do teu pardal. Precisei deixar meu gato maracajá sozinho em casa por algumas horas e, quando voltei, ele tinha aberto uma gaiola e liquidado um de meus roedores, que eu criava já fazia um ano e meio (um sauiá, não o rato vermelho).  Também isso estava bem perto de acontecer, mesmo que houvesse um roedor só. Claro que não posso pôr a culpa no gato, senão em mim mesma, mas a gaiola estava muito bem trancada.

Temos a sorte de poder conhecer esse gato maracajá, que gostava de assustar corujinhas e apreciava comer sauiás. Ele talvez fosse o mais querido entre os animais silvestres criados por Snethlage entre o seu quarto de dormir e os viveiros do zoológico: por volta de 1907 ou pouco depois, Jacques Huber registrou em uma foto o carinho de Snethlage pelo gato. Eles estão junto à porta dos fundos do pavilhão de exposições, conhecido como Rocinha. Snethlage, sempre de branco e com cabelos amarrados, olha ternamente para o animal em seu colo. A foto comove pelo inusitado da cena: o desejo dela em documentar seu afeto por um animal silvestre, e bem junto ao corpo, como um abraço.

 

 

* Nelson Sanjad é historiador e servidor do Museu Paraense Emílio Goeldi

 

Referências:

ALBERTO, Diana. Emília Snethlage e Heloisa Alberto Torres: gênero, ciência e turismo na Amazônia do século XX. Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Pará, Belém, 2022.

COELHO, Matheus Camilo. Ciência em campo: patronato e redes de conhecimento na Amazônia (1894-1918). Tese (Doutorado em História) – Universidade Federal do Pará, Belém, 2026.

CROZARIOL, Marco Aurélio. O último voo: documentos inéditos relativos ao falecimento e ao espólio de Emília Snethlage, 1868-1929. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 32, e202501, 2025.

HOFFMANN-IHDE, Beatrix. 100 Jahre Xipaya- und Kuruaya- Sammlung im Ethnologischen Museum, Staatliche Museen zu Berlin. Baessler-Archiv, v. 62, p. 45-66, 2015.

HUBER, Jacques. Relatório sobre a marcha do Museu Goeldi no ano de 1907 apresentado ao Exmo. Snr. Dr. Secretário do Estado da Justiça, Interior e Instrução Pública pelo Dr. J. Huber, Diretor do Museu. Boletim do Museu Goeldi (Museu Paraense) de História Natural e Ethnopgraphia, v. 6, p. 1-21, 1909.

JUNGHANS, Miriam. Avis Rara: a trajetória científica da naturalista alemã Emília Snethlage (1868-1929) no Brasil. Dissertação (Mestrado em História das Ciências e da Saúde) – Fundação Oswaldo Cruz, Rio de Janeiro, 2009. Disponível em:

PEREIRA, Aline Ariela. Seguindo os passos de Emilia Snethlage no Ceará (1910 e 1915): uma análise comparativa e atual. Dissertação (Mestrado em Ciência Biológicas) – Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2024.

SANJAD, Nelson. A coruja de minerva: o Museu Paraense entre o Império e a República (1866-1907). Brasília: Instituto Brasileiro de Museus; Belém: Museu Paraense Emílio Goeldi; Rio de Janeiro: Fundação Oswaldo Cruz, 2010.

SANJAD, Nelson. Nimuendajú, a Senhorita Doutora e os ‘etnógrafos berlinenses’: rede de conhecimento e espaços de circulação na configuração da etnologia alemã na Amazônia no início do século XX. Asclepio, v. 71, n. 2, p273, 2019.

SANJAD, Nelson; SNETHLAGE, Rotger; JUNGHANS, Miriam; OREN, David. Emília Snethlage (1868-1929): um inédito relato de viagem ao rio Tocantins e o obituário de Emil-Heinrich Snethlage. Boletim do Museu Paraense Emílio Goeldi. Ciências Humanas, v. 8, p. 195-221, 2013.

SANTOS, Luiz Felipe Farias; SANJAD, Nelson; AMORIM, Lilian Bayma. Redes de conhecimento e representações: um estudo das coleções ornitológicas formadas por Emília Snethlage no Museu Paraense Emílio Goeldi entre 1905 e 1921. Revista Eletrônica História em Reflexão, v. 20, p. 131–160, 2024.

SANTOS, Luiz Felipe Farias; AMORIM, Lilian Bayma. Coleções e redes de intercâmbios na Amazônia do início do século XX: considerações sobre o legado de Emília Snethlage. Boletim do Museu Paraene Emílio Goeldi: Ciências Humanas, v. 20, e20230097, 2025.

SNETHLAGE, Emilia. Sobre a Etnografia dos Xipaya e Kuruaya. Tradução de Reinhard Michael Eugen Arnegger e Nelson Sanjad. Cadernos de Tradução, v. 41, n. esp. 1, p. 366-418, 2023a.

SNETHLAGE, Emilia. As  etnias  indígenas do Médio Xingu: em especial a Xipaya e a Kuruaya. Tradução de Cilene Trindade Rohr e Rosanne Castelo Branco. Cadernos de Tradução, v. 41, n. esp. 1, p. 423-503, 2023b.

SUESCÚN-FLOREZ, Lilian; SANJAD, Nelson; OKADA, Wanda. Construção do espaço museal: ciência, educação e sociabilidade na gênese do Parque Zoobotânico do Museu Goeldi (1895-1914). Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, v. 26, p. 1-67, 2018.

Joaquim Insley Pacheco: nauta entre Portugal e o Brasil e entre o Império e a República por Pedro Karp Vasquez

Publicamos hoje, quando completam-se 200 anos do nascimento de dom Pedro II (1825 – 1892), o artigo Joaquim Insley Pacheco: nauta entre Portugal e o Brasil e entre o Império e a República, de autoria do escritor e fotógrafo Pedro Karp Vasquez, sobre o fotógrafo português, um dos agraciados, ainda na década de 1850, pelo imperador, um entusiasta da fotografia, com o título de Fotógrafo da Casa Imperial. Disponibilizamos também uma cronologia atualizada sobre o fotógrafo realizada pela editora da Brasiliana Fotográfica, Andrea C. T. Wanderley.

 

 

Em 10 de agosto de 1855, Insley Pacheco fotografou o monarca, sua esposa, a imperatriz Teresa Cristina (1822 – 1889); e uma das filhas do casal, a princesa Leopoldina (1847 – 1871), na Quinta da Boa Vista (Diário do Rio de Janeiro, 9 de janeiro de 1856). Ao longo de sua trajetória fotografou diversos outros membros da Família Imperial como a Princesa Isabel (1846 – 1921) e seu marido, o Conde d´Eu (1842 – 1922); e realizou vistas da Quinta da Boa Vista e do Paço Imperial, dez das quais integram a coleção do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, e foram incluídas pelo historiador Daniel Rebouças no livro recentemente lançado pela Editora Capivara: O espelho de papel: A fotografia de Insley Pacheco na coleção do IHGB.

 

O espelho de papel: A fotografia de Insley Pacheco na coleção do IHGB, 2025

O espelho de papel: A fotografia de Insley Pacheco na coleção do IHGB, 2025

 

No artigo, além de destacarmos as fotografias de autoria de Insley recentemente incluídas no acervo fotográfico do portal e que pertencem ao IHGB, reunimos também imagens realizadas pelo fotógrafo provenientes de outros acervos presentes na Brasiliana Fotográfica: da Fundação Biblioteca Nacional e do Instituto Moreira Salles, suas instituições fundadoras; e do Arquivo Nacional e da Leibniz-Institut fuer Laenderkunde, suas parceiras.

 

Acessando aqui o link para as fotografias de autoria de Joaquim Insley Pacheco do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

Acessando aqui o link para todas as fotografias de autoria de Joaquim Insley Pacheco disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

 

JOAQUIM INSLEY PACHECO: NAUTA ENTRE PORTUGAL E O BRASIL E ENTRE O IMPÉRIO E A REPÚBLICA

Pedro Karp Vasquez*

 

 

 

A finalidade de um retrato não deve ser a de esclarecer,

mas de contornar, sugerindo o enigma.

De esforço em esforço, atingir a fisionomia plena,

mas com o seu segredo, que é o que importa.

Lúcio Cardoso

 

Queremos a ilusão grande do mar,

multiplicada em suas malhas de perigo.

Queremos a sua solidão robusta,

uma solidão para todos os lados,

uma ausência humana que se opõe ao mesquinho formigar do

mundo,

e faz o tempo inteiriço, livre das lutas de cada dia.

Cecília Meireles

 

NAVEGAR É PRECISO…

Joaquim José Pacheco nasceu na vila portuguesa de Cabeceiras de Basto, no distrito de Braga, em 31 de março de 1830 e faleceu no Rio de Janeiro em 14 de outubro de 1912, famoso sob o nome de Insley Pacheco. Foi agraciado com o prestigioso titulo de Fotógrafo da Casa Imperial, na década de 1850, sendo igualmente Cavalheiro da Ordem de Christo de Portugal, pois seu talento também foi reconhecido em vida na pátria natal. O que destoa favoravelmente da situação da maioria dos fotógrafos estrangeiros que atuaram no Brasil durante o século XIX, desfrutando de maior ou menor celebridade entre nós, porém permanecendo no anonimato em seus países de origem.

 

 

Assim como muitos dos seus compatriotas que vieram tentar a sorte no Brasil, Joaquim José não teve vida fácil: órfão de pai e mãe, veio se juntar ao irmão mais velho, Bernardo José, no Recife, em 1843, sendo logo seguido pela irmã, Joaquina. Em algum momento da mesma década, mudou-se para Fortaleza, onde, em 1847, conheceu o daguerreotipista irlandês Frederick Walter (1811 – 18?) que contrabalançava a clientela rarefeita da época com o pitoresco ofício de mágico. Segundo Ary Bezerra Leite, em História da fotografia no Ceará (Edição do Autor, 2019), o jovem Pacheco trocou lições de daguerreotipia pela pintura de cenários para os espetáculos de magia do seu professor/empregador.

De temperamento perfeccionista, Joaquim José Pacheco rumou para Nova York no segundo semestre de 1950, depois de ter atuado por conta própria em Fortaleza e na capital maranhense. Nos Estados Unidos, estudou com dois grandes profissionais que se tornariam emblemáticos em virtude da documentação da Guerra Civil norte-americana (1861-1865), hoje conservada na Biblioteca do Congresso dos EUA: Jeremiah Gurney e Mathew Brady. Sendo que este último montou uma equipe para o registro simultâneo de diferentes frentes de batalha para oferecer abrangente documentação do conflito em consonância com sua ambição de ser “testemunha ocular da história”. Pacheco estudou também com Henry Earle Insley, que não se tornou tão célebre quanto os dois professores citados, mas foi um retratista extremamente popular, mantendo um estúdio na Broadway durante duas décadas, a partir de 1840. Foi ele quem, certamente, causou impressão mais profunda no jovem Joaquim José, de tal forma que, após regressar ao Brasil, ele aposentou o José de origem em benefício do Insley, com o qual pretendia homenagear o mestre.

De volta ao Brasil em 1851, Pacheco se instalou no Ceará dos seus primeiros passos na carreira, trabalhando em Fortaleza e Sobral. Depois fotografou também no Recife antes de buscar a clientela mais ampla e estável da Corte Imperial, no Rio de Janeiro, em fevereiro de 1855. Montou estúdio primeiro em um sobrado da rua do Ouvidor número 31, passando depois, quando já havia conquistado grande clientela, para um ateliê mais amplo e luxuoso no número 102 da mesma rua. Mas ocupou também, ao longo das seis décadas subsequentes, outros endereços na área central da cidade, que durante todo o século XIX concentrou a metade dos estúdios fotográficos do país. Pelo visto a adoção do Insley lhe deu sorte, pois depois de retratar belamente os principais membros da Família Imperial, Dom Pedro II, a imperatriz Thereza Christina e as princesas Isabel e Leopoldina, Insley Pacheco foi alçado, como foi dito, à honrosa condição de Fotógrafo da Casa Imperial. Manteve relacionamento pessoal e profissional com toda a família, inclusive com aqueles que se tornaram maridos das princesas, o conde d’Eu e o duque de Saxe, assim como os filhos de ambos os casais.

 

 

 

 

Merecem destaque dois retratos que fez do imperador e da imperatriz que se tornaram antológicos não só pela mestria técnica demonstrada como também pelo uso original e inesperado de uma ambientação com diversas plantas evocativas da exuberante natureza tropical brasileira. Isso, quando a moda, em todo o mundo, era o uso de fundos pintados para sugerir ambientes domésticos ou campestres europeus, já que a maioria desses acessórios vinha de cidades europeias, sobretudo Paris, Viena e Londres.

 

 

 

Insley Pacheco também retratou os membros da Família Imperial, assim como a maioria dos seus clientes, com o fundo neutro do estúdio e o mobiliário destinado a criar a ilusão de um ambiente caseiro abastado e que, nos primeiros tempos, servia para os retratados se apoiarem durante as longas sessões de pose: cadeiras, poltronas, balaustradas, colunas, assim como cortinas e tapetes destinados a acentuar a atmosfera doméstica.

 

 

 

 

Recebeu do imperador a autorização de comercializar esses retratos, o que, além de lhe proporcionar bons ganhos, permitiu que a sociedade tivesse um vislumbre mais fidedigno dos integrantes da Família Imperial, cujas fisionomias só eram conhecidas até então por intermédio dos processos de gravura, em particular da litografia, também usada na impressão de livros e periódicos. Seu bom relacionamento com Dom Pedro II fez com que ele aceitasse uma encomenda fora do seu padrão: a realização de vistas da Quinta da Boa Vista e do Paço Imperial, dez das quais integram a coleção do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (que possui um total de 397 fotos de Pacheco) e foram incluídas pelo historiador Daniel Rebouças no livro recentemente lançado pela Editora Capivara: O espelho de papel: A fotografia de Insley Pacheco na coleção do IHGB. A importância destas raras vistas de Pacheco já havia sido comprovada por sua inclusão pelo barão do Rio Branco no livro Le Brésil, de Levasseur, impresso em Paris, em 1889.

 

 

 

As sólidas raízes de Cabeceiras de Basto, “uma terra antiga e por isso uma terra sábia”, fizeram de Joaquim José Pacheco um gajo rijo e longevo que chegou aos 82 anos, em uma época na qual a expectativa de vida ao nascer era apenas de 30 anos e o próprio imperador faleceu três dias após fazer 66 anos. Hoje Pacheco seria certamente centenário, mas tal longevidade tanto pode ser encarada como uma bênção quanto como uma provação, já que o destino do idoso é viver em uma continua despedida dos entes queridos. Com Pacheco isso não foi diferente: ele, que já havia perdido na juventude uma filhinha com apenas 18 meses, Emília, perdeu depois a esposa, Elvira Laura, o filho, Alfredo Henrique, e duas netas, Maria e Maria de Lourdes. É como bem lembrou Lúcio Cardoso em seu Diário: “Podemos não sentir a idade, mas ela se faz presente, através dos mortos que vai semeando em torno de nós”.

ARLEQUIM SERVIDOR DE DOIS AMOS

Além de excelente fotógrafo, Joaquim Insley Pacheco foi também pintor e aquarelista, desmentindo o mito do antagonismo entre pintura e fotografia na fase inicial dessa nova disciplina. Foi, inclusive, aluno de pintura de outro dublê de fotógrafo e pintor, Arsênio da Silva, que documentou o casamento da princesa Isabel, em 15 de outubro de 1864. É muito provável que ele tenha tido notícia do daguerreotipista alemão, Francisco Napoleão Bautz, o primeiro a se dividir entre pintura e fotografia entre nós, e muito certamente conheceu outro profissional na mesma condição, Karl Ernest Papf, que chegou ao Brasil para realizar as fotopinturas da Photographia Allemã, de Albert Henschel, no Recife, mas depois se radicou em Petrópolis, onde abriu estúdio próprio no qual foi assistido pelo filho, Jorge Henrique, mais tarde autor de um impressionante panorama de 360 graus da Cidade Imperial.

Além de se aperfeiçoar na técnica do guache com Arsênio da Silva, Pacheco também foi aluno de pintura de Karl Linde e François-René Moreaux. Quando Silva faleceu, praticamente esquecido, em 1883, o discípulo deu uma bela prova de afeição pelo mestre: organizou uma ampla retrospectiva do seu trabalho no Salão Insley Pacheco, que foi prestigiada inclusive pelo imperador no dia 18 de outubro do mesmo ano, fato merecedor de registro na capa da Revista Illustrada (Número 358), na qual Angelo Agostini retratou o fotógrafo acompanhando Dom Pedro II na referida visita. Ressaltou ainda na legenda o fato de que Arsênio teria sido completamente esquecido se não fosse pela homenagem prestada por Insley Pacheco.

 

 

A prática do retrato fotográfico é tão fascinante quanto excruciante, pois é preciso admitir que o ser humano às vezes pode ser insuportável e as crianças, que têm índole melhor, costumam ser irrequietas, de tal forma que Pacheco chegou a anunciar na imprensa no começo da carreira sua especialidade no trato dos pequenos inevitavelmente enfastiados com as longas sessões de pose dos primórdios da fotografia. Para descansar das caras e bocas da prática cotidiana do retrato fotográfico, na pintura Insley Pacheco optou por se concentrar na produção de paisagens, com acentuado pendor pelas marinhas, que ele pintou em ambos os lados da Baía de Guanabara, no Rio de Janeiro e em Niterói, cujas belas praias seriam também a temática de predileção do Grupo Grimm, capitaneado pelo professor alemão Georg Grimm entre os anos de 1884 e 1886, em um capítulo fundamental do paisagismo na pintura brasileira.

 

 

Bom pintor, Insley Pacheco não era, no entanto, fenomenal, não podendo se igualar a alguns dos integrantes do Grupo Grimm, como seu próprio líder, Giovanni Battista Castagneto, Domingo García y Vásquez e Antônio Parreiras. Mas, no âmbito da fotografia, era insuperável, como um talento inegável e um domínio técnico invejável, do mesmo nível que os maiores profissionais europeus e norte-americanos de seu tempo. Dominava uma série admirável de processos e Mello Morais Filho, seu contemporâneo, afirmou em Artistas do meu tempo (H. Garnier, Livreiro-Editor, 1904) ter sido ele o pioneiro da ambrotipia no Brasil, além de “Introdutor incontestável da platinotipia no Brasil (1883), os seus planos vingaram desde logo, sendo o sistema adotado sem reservas pela generalidade dos nossos fotógrafos.” O empenho de Pacheco em se aperfeiçoar e se modernizar manteve intacto até o fim da vida, de tal forma que, mais tarde os anúncios publicados por ele na imprensa carioca alardearam o surgimento de um processo de sua invenção denominado “ambro-cromo-tipo”, assim como de “hallotypo”, e, finalmente, em 1909, a tipocromia “um novíssimo e interessante invento”. Constando também entre suas inovações a criação da “Diafonografia”, a respeito da qual nada sabemos.

 A PARTICIPAÇÃO DE INSLEY PACHECO NAS GRANDES EXPOSIÇÕES NACIONAIS E INTERNACIONAIS

Como Insley Pacheco foi ombreado apenas por Marc Ferrez o fotógrafo do Império que mais participou de exposições, tanto no Brasil quanto no exterior, é oportuno reproduzir aqui, à guisa de referência, um trecho do meu livro Fotografia escrita: Nove ensaios sobre a produção fotográfica no Brasil (Senac, 2014) sobre a matéria:

Foi em 1859 que ele participou pela primeira vez da Exposição Geral de Belas-Artes da Academia Imperial, na qual figuravam expoentes das nossas artes, como Jean-Baptiste Debret (incluído em caráter póstumo) e Victor Meirelles, bem como grandes mestres internacionais como Nicolas Poussin, Pieter Paul Rubens, Michelangelo Merisi da Caravaggio e Rafael Sanzio de Urbino.

Dois anos mais tarde, em 1861, Insley Pacheco obteve sua primeira premiação, uma medalha de cobre da I Exposição Nacional, evento em que participou com retratos fotográficos (inclusive de membros da família imperial), e com pinturas de paisagens. No ano seguinte, participou da primeira mostra internacional, a prestigiosa Exposição Universal de Londres, onde mostrou apenas retratos. Categoria em que figuravam também dois dos maiores especialistas franceses: Nadar (Gaspard Félix Tournachon et Maillet, 1820-1910) e Etienne Carjat (1828-1906). Outros importantes mestres da fotografia francesa que também expuseram na ocasião foram Louis-Alphonse Davanne (1824-1912), um dos membros fundadores, e depois presidente, da Société Française de Photographie, e Louis-Alphonse Poitevin (1819-1882), também membro da SFP e inventor de processos de impressão de imagens a partir do daguerreótipo. Contudo a presença mais ilustre dentre todas foi, inquestionavelmente, a do inventor inglês da fotografia, William Henry Fox Talbot (1800-1877), em sua primeira e última participação num evento dessa natureza.

Em 1864 Pacheco voltou a mostrar suas imagens fotográficas na Exposição Geral de Belas-Artes da Academia Imperial. E, no ano seguinte, teve participação destacada na Exposição Internacional do Porto, na qual conquistou a Medalha de Primeira Classe. Não deixando de participar também da Exposição Geral de Belas-Artes da Academia Imperial, no Rio de Janeiro. Em 1866 Insley Pacheco obteve medalhas de prata tanto por suas fotografias (na II Exposição Nacional), quanto por suas paisagens pintadas (na Exposição Geral de Belas-Artes da Academia Imperial). Em 1867, ele enviou retratos, inclusive em fotopintura, para a Exposição Universal de Paris, que também contou com a participação de Etienne Carjat. E, como sempre, compareceu à Exposição Geral de Belas-Artes da Academia Imperial, mostrando paisagens pintadas e fotografias, repetindo a dose com ambas as técnicas em 1868 também.

Joaquim Insley Pacheco teve destacada participação na III Exposição Nacional, em 1873, conquistado duas premiações: medalha de prata e medalha de cobre. Neste mesmo ano foi premiado também na Exposição Universal de Viena, com uma menção honrosa, sendo interessante mencionar que esse evento contou com expressiva participação de fotógrafos sediados no Brasil, tais como: Henschel & Benque, George Leuzinger, Augusto Riedel, Marc Ferrez, Fleiuss Irmãos & Linde, Júlio Balla, Antonio Ricardi e João Ferreira Vilella. Em 1875, ele participou da IV Exposição Nacional (com desenhos e pinturas), e da Exposição Geral de Belas-Artes da Academia Imperial, com retratos fotográficos e uma série de paisagens pintadas em técnicas diversas, como óleo, guache, aquarela e fusain, numa impressionante comprovação de sua versatilidade como pintor.

Em 1876, Insley Pacheco participou da Exposição Internacional da Filadélfia, comemorativa do primeiro centenário da independência dos Estados Unidos e da qual Dom Pedro II foi o convidado de honra, ocasião em que ocorreu o conhecido episódio do teste do telefone com seu inventor, Graham Bell, do qual nosso imperador foi um dos primeiros clientes e seguramente seu maior “garoto propaganda”. Consta inclusive que Pacheco teria sido premiado na ocasião, mas não consegui obter comprovação disto. Outro prêmio ainda indefinido foi aquele por ele obtido em 1882 na Exposição Continental de Buenos Aires, que Insley Pacheco fez questão de mencionar no verso de seus cartões-suporte a partir desta data, sem especificar no entanto que prêmio teria sido esse. A exemplo do que ocorreu também na Exposição Universal de Paris, de 1889. Esse foi o ano de inauguração da Tour Eiffel e Paul Nadar (Paul Tournachon, 1856-1939), filho do célebre Nadar também participou da exposição deste ano, bem como o suíço Frédéric Boissonnas (1858-1946). O Brasil também teve presença importante, com Albert Richard Dietze, Alfredo Ducasble, Marc Ferrez, Felipe Augusto Fidanza, Rodolpho Lindemann, Nicholson & Ferreira, José Tomás Sabino, José Ferreira Guimarães, George Leuzinger, Alfredo Ducasble e Paulo Robin & Cia.

Para concluir, é importante ressaltar que Joaquim Insley Pacheco não encerrou sua dupla carreira, na fotografia e na pintura, no período imperial. Extraordinariamente ativo, ele se manteve criativo e produtivo até o fim dos seus dias, com sua última presença em um evento público ocorrendo em 1910, ano em que participou da décima-sétima edição da Exposição Geral de Belas Artes com uma série de pinturas a guache (A Imprensa, 29 de setembro de 1910, primeira coluna).

 

*Pedro Karp Vasquez é escritor, fotógrafo e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro.

 

Acesse aqui a Cronologia de Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912) por Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XX – Na janela de sua residência na Rua do Curvelo, em Santa Teresa, o poeta Manuel Bandeira fotografado por Horacio Coppola

Série Avenidas e ruas do Brasil XX – Na janela de sua residência na Rua do Curvelo, em Santa Teresa, o poeta Manuel Bandeira fotografado por Horacio Coppola*

 

O poeta e escritor pernambucano Manuel Bandeira (1886 – 1968), expoente da literatura brasileira e presença essencial na consolidação da poesia modernista, foi retratado na Rua do Curvelo, em Santa Teresa, pelo fotógrafo argentino Horacio Coppola (1906 – 2012), provavelmente, segundo os professores Jorge Schwarcz (1944-) e Mauricio Lissovsky (1958 – 2022) (1), em 1931, quando, voltando da Europa, esteve no Rio de Janeiro, em Santos e em Salvador. Os dois registros de Coppola que destacamos no vigésimo artigo da série Avenidas e ruas do Brasil, fazem parte do acervo do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica. Há ainda, no fim do artigo, uma seleção de fotografias de autoria de Georges Leuzinger (1813 – 1892) e de Marc Ferrez (1843 – 1923) produzidas a partir da Rua do Curvelo, além de uma produzida por Augusto Malta (1864 – 1957).

 

 

Além de um conjunto clássico das fotografias de Buenos Aires feitas por Coppola na década de 1930, o IMS guarda registros das esculturas de Aleijadinho (1738 – 1814) e outras imagens do Brasil.

 

Acesse aqui as fotos disponíveis no portal do IMS das esculturas de Aleijadinho realizadas por Coppola durante sua viagem a Congonhas do Campo e Ouro Preto, em 1945.

 

Bandeira foi retratado na janela de sua moradia, na Rua do Curvelo, nº 51, em Santa Teresa, no Rio de Janeiro. As duas fotografias foram tiradas de cima, da casa nº56 da Rua do Curvelo, onde residiam a psiquiatra Nise da Silveira (1905 – 1999), e seu marido, o médico sanitarista Mário Magalhães da Silveira (1905 – 1986).

 

 

Em uma das imagens, o poeta está sorrindo; na outra, estende a mão para uma moça que olha para Coppola:

Na calçada, uma jovem negra para diante da janela em que o poeta apareceu de pijama, com uma xícara de café. Coppola observa tudo à distância do outro lado da rua. Não sabemos sobre o que conversaram a moça e o poeta. Também não sabemos se Coppola ouviu falar das cidades mineiras naquele momento ou se algum dia leu o soneto que Bandeira escandiu em alexandrinos rimados. Mas percebemos pela fotografia que a noite já vinha chegando “de mansinho”, e que as mãos do poeta e da moça se tocam sobre o beiral da janela. Ela olha para o fotógrafo bem na hora do clique. Sua sombra desliza na calçada da Rua do Curvelo enquanto avulta sobre as pedras lavradas de Ouro Preto, a sombra descomunal da mão do Aleijadinho (LISSOVSKY, 2019).

 

 

Àquela altura, o poeta, no ano em que completou 45 anos, já havia publicado os importantes livros A Cinza das Horas (1917), Horas (1917), Carnaval (1919), Poesias, reunindo os dois primeiros acrescido de Ritmo Dissoluto (1924); e Libertinagem (1930). Neste último, estão os poemas Evocação ao Recife e Vou-me embora pra Pasárgada. Também em 1930, o artista pernambucano Cícero Dias (1907 – 2003) pintou o Retrato de Manuel Bandeira. Também fez  um desenho contemplando a Pasárgada e seu autor.

 

 

Foi, provavelmente, Bandeira quem apresentou Coppola ao poeta, ficcionista, ensaísta e musicista paulistano Mário de Andrade (1893 – 1945) e a outros artistas do Modernismo brasileiro, em 1931.

Alguns anos depois, em 1940, Bandeira tornou-se membro da Academia Brasileira de Letras. Foi o terceiro ocupante da Cadeira 24, tendo sido eleito em 29 de agosto de 1940, na sucessão de Luís Guimarães Filho. Foi recebido, em 30 de novembro de 1940, pelo acadêmico Ribeiro Couto (1898 – 1963), seu vizinho em Santa Teresa. Faleceu em 13 de outubro de 1968. Produziu, ao longo de seus 82 nos de vida, uma vasta obra que se tornou uma referência da literatura brasileira. Foi também professor e tradutor.

 

 

A Rua do Curvelo e o modernismo brasileiro

 

A Rua do Curvelo foi aberta, pelo decreto de 17 de junho de 1869, nas terras de Joaquim José de Meireles Ferreira, o barão do Curvelo. Passou a chamar-se Dias de Barros, em 15 de abril de 1931, pelo decreto de alteração de denominações nº 3647.

Em 1920, com 34 anos, Bandeira foi morar na Rua do Curvelo, aonde residiria até 1933. Inicialmente, ocupou a casa nº 53. Em 1923, morava na mesma rua, mas no número 43. No ano seguinte, seu endereço era rua do Curvelo, 51

“O morro do Curvelo (2) entrava, sem saber, na tradição literária. Um grande poeta ali morava: ali tomaria contato com a vida popular, observando, morro abaixo, os quintais efervescentes da rua Cassiano; ali permaneceria os melhores anos e os mais fecundo da criação poética”.

Rui Ribeiro Couto (3),

De menino doente a rei de Pasárgada in Três retratos de Manuel Bandeira, 2004

 

 

“A rua do Curvelo ensinou-me muitas coisas. Couto foi avisada testemunha disso e sabe que o elemento de humilde cotidiano que começou desde então a se fazer sentir em minha poesia não resultava de nenhuma intenção modernista. Resultou, muito simplesmente, do ambiente do morro do Curvelo”.

 Manuel Bandeira,

Itinerário de Pasárgada in Poesia e Prosa, 1958

 

Segundo Elvia Bezerra, pesquisadora de literatura brasileira e autora do livro A trinca do Curvelo (2026), os anos em que residiu na Rua do Curvelo foram fundamentais na formação e no destino de Manuel Bandeira.

“Bandeira era um homem da intensidade, mas não do exagero. Se ele disse que aquela rua foi tão importante na sua formação e no seu destino de poeta, vale a pena investigar o que tinha nessa rua. O que aconteceu de muito especial é que o humilde cotidiano, como ele designou, da rua do Curvelo veio ao encontro das tendências modernistas – tanto que ele diz que foi modernista da maneira mais natural possível, e é a pura verdade. É um casamento da rua com a tendência modernista e com a personalidade do próprio Bandeira, que era um homem simples. Ele se divertia com a vida que havia naquele momento e que o chamava lá fora”.

Elvia Bezerra, janeiro de 2026

 

Cronologia de Manuel Bandeira

 

Manuel Bandeira por Cássio Loredano

Manuel Bandeira por Cássio Loredano

 

A cronologia abaixo foi baseada na estabelecida pelo próprio poeta em 1966 e foi na publicada pela Folha de São Paulo, em 13 de outubro de 2008, data que marcava os 40 anos da morte de Bandeira

1886 - Nasce no Recife, em 19 de abril.
1896-1902 – No Rio de Janeiro, cursa o Externato do Ginásio Nacional (depois, Colégio Pedro II). Encontro fortuito com Machado de Assis, com quem conversa sobre Camões. Publicação do primeiro poema, um soneto alexandrino, na primeira página do Correio da Manhã.
1903-1904 – Vai para São Paulo, onde se matricula na Escola Politécnica. Adoece do pulmão no fim do ano letivo (1904) e abandona os estudos.
1913 - Embarca em junho para a Europa, a fim de tratar sua tuberculose no sanatório de Clavadel (de onde retorna em 1914). Organiza seu primeiro livro, Poemetos Melancólicos, mas esquece os originais no sanatório.
1916 - Falece a mãe.
1917 – Publica seu primeiro livro – A Cinza das Horas, edição de 200 exemplares, custeada pelo autor.
1918 – Falece a irmã, que tinha sido sua enfermeira desde 1904.
1919 – Publicação de Carnaval, custeada pelo pai. O livro entusiasma a geração paulista que iniciava a revolução modernista.
1920 – Falece o pai. Muda-se para a rua do Curvelo, onde já morava Ribeiro Couto.
1921 – Conhece Mário de Andrade.
1922 – Falece o irmão.
1924 – Publicação do volume Poesias, incluindo os dois livros anteriores acrescidos de O Ritmo Dissoluto.
1930 – Publicação de Libertinagem. Edição de 500 exemplares, custeada pelo poeta.
1936 - Publicação de A Estrela da Manhã (47 exemplares) e Crônicas da Província do Brasil. Por iniciativa dos amigos, sai o livro Homenagem a Manuel Bandeira, no cinquentenário do poeta.
1937 – Publicação, pela Civilização Brasileira, das Poesias Escolhidas, selecionadas pelo poeta, que também ouviu conselhos de Mário de Andrade. Sai a Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Romântica. Ganha o prêmio de poesia da Sociedade Felipe d’Oliveira.
1938 – Nomeado professor de literatura do Colégio Pedro II. Publicação da Antologia dos Poetas Brasileiros da Fase Parnasiana e do Guia de Ouro Preto.
1940 – Ingresso na Academia Brasileira de Letras. Primeira publicação, pela Cia. Carioca de Artes Gráficas, das Poesias Completas, com o acréscimo de Lira dos Cinqüent’Anos. Publicação de Noções de História das Literaturas e, em separata, de A Autoria das Cartas Chilenas.
1943 - Deixa o Colégio Pedro II e é nomeado professor de literatura hispano-americana na Faculdade Nacional de Filosofia.
1944 - Nova edição das Poesias Completas.
1945 – Publica Poemas Traduzidos, com ilustrações de Guignard.
1946 – Publica Apresentação da Poesia Brasileira e Antologia dos Poetas Bissextos Contemporâneos.
1948 - Nova edição das Poesias Completas, pela Casa do Estudante do Brasil, com o acréscimo de Belo Belo. Nova edição das Poesias Escolhidas, pela Pongetti. Primeira edição de Mafuá do Malungo, impressa em Barcelona por João Cabral de Melo Neto. Nova edição aumentada dos Poemas Traduzidos (Editora Globo, de Porto Alegre). Edição crítica das Rimas, de José Albano.
1949 - Publica Literatura Hispano-Americana. Traduz sóror Juana Inés de la Cruz (El Divino Narciso).
1952 – Publica Opus 10, pela Editora Hipocampo.
1954 - Publica os livros Itinerário de Pasárgada e De Poetas e de Poesia.
1955 - Publica 50 Poemas Escolhidos Pelo Autor (MEC). Traduz Maria Stuart, de Schiller. Nova edição das Poesias Completas, pela José Olympio.
1956 – Escreve para a Enciclopédia Delta-Larousse um estudo sobre a versificação em língua portuguesa. Traduz Macbeth, de Shakespeare.
1957 – Publicação do livro de crônicas Flauta de Papel. Embarca em julho para a Europa. Visita a Holanda, Londres e Paris. Regressa ao Rio em novembro.
1958 - A Aguilar edita as obras completas em dois volumes: Poesia (que contém a primeira edição de Estrela da Tarde) e Prosa.
1963 – A José Olympio reedita Estrela da Tarde, acrescida de muitos poemas. Traduz O Círculo de Giz Caucasiano, de Brecht.
1966 – Primeira publicação da Estrela da Vida Inteira, pela José Olympio. Pela mesma casa, sai, organizada por Carlos Drummond de Andrade, Andorinha, Andorinha, reunião de crônicas do poeta.
1968 – Falece no Rio de Janeiro, no dia 13 de outubro.

 

Brevíssimo perfil de Horacio Coppola (1906 – 2012)

 

 

Voltamos a Horacio Coppola, autor das duas fotografias de Bandeira publicadas neste artigo. Filho de imigrantes italianos, nasceu em Buenos Aires, em 31 de julho de 1906. Autodidata, começou a fotografar por influência de seu irmão, Armando, em fins da década de 1920, tendo como referência nomes como Félix Nadar (1820 – 1910) e Edward Weston (1886 – 1958). Em 1929, participou do primeiro salão modernista da capital argentina. Na ocasião, a palestra proferida pelo arquiteto suíço Le Corbusier (1887 – 1965), La mirada de las casas tradicionales de Buenos Aires como formas abstractas, influenciou decisivamente seu trabalho. “A partir daí, incorporou permanentemente, em suas fotografias, a noção modernista da perspectiva e dos pontos de fuga, enfatizando as linhas e os ângulos geométricos das fachadas, passeios e terraços do centro que se urbanizava” (Portal IMS). Também, em 1929, foi o fundador, com o cineasta León Klimovsk (1906 – 1996), do primeiro cineclube argentino.

“Eles são os olhos que viram um século.” Assim o descreveu certa vez Juan Manuel Bonet, responsável pela exposição que se realizou no Instituto Valenciano de Arte Moderna (IVAM) em 1996, exposição que catapultou a sua obra para os mais prestigiados museus e galerias da Europa” (La Nation, 2011).

Suas primeiras fotos de Buenos Aires, realizadas em 1929, ilustraram a primeira edição do ensaio Evaristo Carriego (1930), de autoria do poeta Jorge Luis Borges (1899 – 1986), de quem era amigo.

 

 

Em 1932, em sua segunda viagem a Europa, fixou-se em Berlim, onde estudou no Departamento de Fotografia da Bauhaus, dirigido por  Walter Peterhans (1897 – 1960). Realizou com o diretor de teatro Walter Auerbach (1905 – 1975) o curta-metragem Traum (1933) e trabalhou no Studio ringl + pit com a fotógrafa alemã Greta Stern (1904 – 1999), uma das fundadoras do estabelecimento e sua futura esposa. A outra fundadora foi Ellen Auerbach (1906 – 2004).

 

 

Em 1933, a Bauhaus foi fechada e o casal deixou a Alemanha temendo a perseguição nazista. Stern se estabeleceu em Londres, onde realizou fotografias que se tornaram icônicas como, por exemplo, as de Bertold Brecht (1898 – 1956) e Karl Korsch (1886 – 1961). Após viajar pela Europa, Coppola se juntou a Stern em Londres, onde buscou uma linguagem modernista para suas fotografias da cidade, onde alternavam-se preocupação social e atmosfera surrealista.

Ele fotografou obras de arte suméria nos museus do Louvre e Britânico e este material foi publicado no livro L’Art de la Mesopotamie, em 1935, ano em que ele e Stern se casaram e passaram a viver em Buenos Aires. O casal importou as lições da Bauhaus para a América Latina. Realizaram a convite de Victoria Ocampo (1890 – 1979), então a primeira dama da cultura e das artes na Argentina, uma exposição nos escritórios da revista de vanguarda Sur, anunciando a chegada da fotografia moderna na Argentina.

Horacio produziu, a pedido da prefeitura, o álbum Buenos Aires 1936 (Visão Fotográfica) (1936), comemorativo dos 400 anos da cidade. O livro foi prefaciado por Alberto Presbisch (1899 – 1970), precursor da arquitetura moderna argentina; e pelo escritor Ignacio Anzoátegui (1905 – 1978).

 

 

Em 1937, ele e Greta abriram um estúdio fotográfico. Se separaram em 1943 e, dois anos depois, Coppola fotografou as obras de Aleijadinho nas cidades históricas mineiras, no Brasil. Recebeu, em 1985, o Grande Prêmio do Fundo Nacional para as Artes, em reconhecimento a sua carreira. Em 2003, foi agraciado com o título de Cidadão Ilustre da Cidade de Buenos Aires. Quando completou 100 anos, em 2006, foi realizada uma retrospectiva de sua obra no Museu Malba, em Buenos Aires, cidade onde faleceu, em 18 de junho de 2012.

Algumas de suas mais importantes exposições foram Quarenta Anos de Fotografia, no Museu Nacional de Belas Artes, em 1969; Minha fotografia, na Fundação San Telmo, em 1984; Antologia fotográfica 1927-1992, nMuseu Nacional de Belas Artes, em 1992; e El Buenos Aires de Horacio Coppola, no Instituto Valenciano de Arte Moderna, Centro Julio González, em Valência, entre 1996 e 1997. Em 2005, a Galeria Jorge Mara-La Ruche expôs fotografias realizadas por Coppola na década de 1930 na feira de arte espanhola ARCO e também na ArteBA. Entre 17 de maio e 4 de outubro de 2015, foi realizada, no Museu de Arte Moderna de Nova York MoMa, a exposição From Bauhaus to Buenos Aires: Grete Stern and Horacio Coppola.

 

Fotos realizadas a partir da Rua do Curvelo por Georges Leuzinger e Marc Ferrez, além de uma de autoria de Augusto Malta

 

A partir da Rua do Curvelo revela-se uma das mais paisagens do bairro da Glória e da Baía da Guanabara, fato que não passou despercebido para os fotógrafos Georges Leuzinger e Marc Ferrez.

 

 

Acessando o link para as fotografias realizadas por Leuzinger e por Ferrez a partir da Rua do Curvelo disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

 

 

 

(1) O historiador, roteirista e professor de fotografia Mauricio Lissovsky nasceu em 29 de março de 1958, era membro da Escola de Comunicação da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e dedicou grande parte de sua trajetória profissional à história visual e à teoria da imagem, com ênfase em fotografia, arquitetura, cinema e política. Entre seus nove livros sobre fotografia e história da imagem, destacamos Pausas do Destino: Teoria, Arte e História da Fotografia (2014), Refúgio do Olhar: a fotografia de Kurt Klagsbrunn no Brasil dos anos 1940 (com Márcia Mello)(2013) e Escravos Brasileiros do Século XIX na Fotografia de Christiano Jr (com Paulo César Azevedo)(1988). Faleceu em 25 de agosto de 2022. Em sua homenagem, entre 13 e 16 de agosto de 2024, foi realizada a primeira Jornada Mauricio Lissovsky de Fotografia (JMLF) no Fórum de Ciência e Cultura da UFRJ.

(2) A Rua Dias de Barros desemboca no largo conhecido como Curvelo. A região em torno da rua e do largo ficou conhecida como Curvelo.

(3) Refere-se ao poeta e amigo Rui Ribeiro Couto (1898 – 1963), que também morou na Rua do Curvelo.

 

Leia aqui o artigo do escritor Daniel Galera (1979-), O que se pode afirmar, sobre a foto de Bandeira por Coppola, publicado na seção “Por Dentro dos Acervos”, no site do IMS, em 8 de maio de 2020.

 

* O título desse artigo foi alterado e alguns acréscimos foram feitos, em 9 de fevereiro de 2026, a partir da leitura do extraordinário livro A trinca do Curvelo (2026), de Elvia Bezerra, publicado em 1995, foi relançado em 2026 em uma edição revista e ampliada. Os componentes da trica, além de Bandeira, era o poeta paulista Rui Ribeiro Couto e a psiquiatra alagoana Nise da Silveira, que revolucionou o tratamento mental no Brasil, também moradores da Rua do Curvelo.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

AITA, Giovanna. Due poeti brasiliani contemporanei: Manuel Bandeira & Ribeiro Couto. Napoli: Libreria Scientifica Editrice, 1953.

BEZERRA, Elvia. A trinca do Curvelo – os afetos de Manuel Bandeira. São Paulo : Todavia, 2026.

Folha de São Paulo, 13 de outubro de 2008

Folha de São Paulo, 26 de janeiro de 2026

GORELIK, Adrian. Um fotógrafo e uma cidade in Ciência Hoje.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LISSOVSKY, Mauricio. Coppola em Congonhas: um fotógrafo, três olhares. ANPUH – Brasil. 30º Simpósio Nacional de História. Recife, 2019.

Metromod.net

MIGLIACIO, Luciano. Obra de Horacio Coppola evidencia o diálogo entre o modernismo brasileiro e o argentino. Ciência e Cultura, vol. 65, nº 1. São Paulo, janeiro de 2013.

O GLOBO, 6 de julho de 2012

O GLOBO, 7 de fevereiro de 2026

Portal Enciclopédia Itaú Cultural

Portal IMS

SCHWARTZ, Jorge. O poeta entre profetas in Revista Serrote, Edição Especial para a Flip, 2009, páginas 8 a 15.

SENNA, Homero. Viagem a Pasárgada.

Site Academia Brasileira de Letras

Site Ibran

Site La Nation

Site MoMa

Site Museu Malba

WANDERLEY, Andrea. Série “1922 – Hoje, há 100 anos” II – A Semana de Arte Moderna in Brasiliana Fotográfica, 13 de fevereiro de 2022.

Wikipedia

A princesa Leopoldina do Brasil (1847 – 1871)

Com oito fotografias do acervo fotográfico da Biblioteca Nacional e uma do Instituto Moreira Salles, as instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, o portal destaca registros da princesa Leopoldina (1847 – 1871). As duas imagens em que ela está sozinha não têm data precisa e são de autoria de fotógrafos ainda não identificados. As duas em que está com sua irmã, a princesa Isabel  (1846 – 1921), e as três da visita da família real à quinta de Mariano Procópio Lage são de autoria do francês Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886). A do Palácio Leopoldina foi produzida por Klumb com Paul Théodore Robin (18? – 1897). O registro do mausoléu à serenissima Princeza do Brazil e Duqueza de Saxe a Senhora D. Leopoldina de Coburgo e Gotha, produzido no Recife, provavelmente em 1871, é de autoria do fotógrafo pernambucano João Ferreira Villela (18?-?).

Klumb foi um dos primeiros fotógrafos estrangeiros a se estabelecer no Brasil e foi o fotógrafo preferido da família imperial brasileira, tendo sido agraciado com o título de “Fotógrafo da Casa Imperial”, em 1861. Um dos pioneiros na produção comercial de imagens sobre papel fotográfico e uso de negativo de vidro em colódio no Brasil, inaugurou seu estabelecimento fotográfico em 1855 ( Correio Mercantil , de 4 de novembro de 1855, na última coluna). Foi professor de fotografia da princesa Isabel e, provavelmente, o introdutor da técnica estereoscópica no Brasil, com a qual entre os anos de 1855 e 1862 produziu ampla documentação sobre o Rio de Janeiro.

Contemporâneo no Recife dos estrangeiros Augusto Stahl (1828 – 1877) e Alberto Henschel (1827 – 1882), João Ferreira Villela (18? – ?) é considerado, até hoje, um dos primeiros fotógrafos pernambucanos. Sua biografia é ainda bastante desconhecida. Iniciou sua vida profissional como taquígrafo mas foi como retratista e paisagista que se notabilizou. Seu primeiro ateliê, aonde permaneceu de 1855 a 1858, ficava no Aterro da Boa Vista nº 4, mesmo endereço onde anteriormente trabalharam os fotógrafos norte-americanos Charles DeForest Fredricks (1823 – 1894), em 1851 e, em 1854, Augustin Lettarte (18? – ?) e o português Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912). Desse último, Villela afirmava ser o único discípulo. Sempre demonstrou interesse em ter máquinas modernas para a realização dos trabalhos de seu estabelecimento e prometia, como resultado, a perfeição.

 

 

A princesa Leopoldina, a segunda filha de dom Pedro II (1825 – 1891) e dona Teresa Cristina (1822 – 1889), nasceu em 13 de julho de 1847. Sua irmã, a princesa Isabel, havia nascido cerca de um ano antes, em 29 de julho de 1946 (Diário do Rio de Janeiro, edição de 30 de julho de 1846, sob o título “Parte official”Diário do Rio de Janeiro, de 14 de julho de 1847, sob o título “O Diário”). Os irmãos das princesas, os príncipes imperiais Afonso Pedro de Bragança (1845 – 1847) e Pedro Afonso de Bragança (1848 – 1850) faleceram precocemente.

 

 

Acessando o link para as fotografias da princesa Leopoldina do Brasil disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

Entre as duas irmãs aconteceu uma bem sucedida troca de noivos! Gastão de Orleáns (1842 – 1922), o Conde d’Eu, e seu primo, o duque Luís Augusto de Saxe-Coburgo-Gota (1845 – 1907) desembarcaram no Rio de Janeiro em 2 de setembro de 1864 e hospedaram-se no paço da cidade (Diário do Rio de Janeiro, 3 de setembro de 1864, terceira coluna). No Palácio de São Cristóvão, residência da família imperial brasileira conheceram as princesas Isabel e Leopoldina. Os casais previamente idealizados seriam formados por dom Gastão e a princesa Leopoldina, e pelo duque de Saxe e a princesa Isabel. Mas, após alguns dias, devido a afinidades, os casais se rearranjaram. Isabel e Gastão casaram-se em 15 de outubro de 1864, na Capela Imperial, no Rio de Janeiro (Diário do Rio de Janeiro, edição de 16 de outubro de 1864). Dois meses depois, em 15 de dezembro, foi realizado o casamento da princesa Leopoldina com o duque de Saxe, também na Capela Imperial (Diário do Rio de Janeiro, de 16 de dezembro de 1864). Na ocasião o duque de Saxe recebeu a grã-cruz de todas as ordens do Império. Leopoldina deixou de ser uma princesa brasileira, tornando-se duquesa de Saxe.

 

 

O casal seguiu, após a cerimônia, para o Palácio Imperial de Petrópolis. Foram, posteriormente, morar em um palacete adquirido em junho de 1865 e batizado como Palácio Leopoldina, vizinho ao Palácio de São Cristóvão, na Quinta da Boa Vista, onde residia dom Pedro II.

 

 

Passaram a viver entre o Brasil e a Europa, sempre retornando à terra natal para o nascimento de seus filhos Pedro Augusto (1866 – 1934), Augusto Leopoldo (1867 – 1922) e José Fernando (1869 – 1888). O caçula, Luis Gastão (1870 – 1942), nasceu na Áustria.

 

 

 

 

Leopoldina faleceu, com apenas 23 anos, no Palácio Coburg, em Viena, na Áustria, em 7 de fevereiro de 1871, provavelmente de febre tifóide (Diário de Notícias, 7 de março de 1871, primeira coluna).

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Aventuras na História

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

WANDERLEY, Andrea C.T.  A imperatriz Teresa Cristina Maria, a mãe dos brasileiros (Itália, 14/03/1822 – Portugal, 28/12/1889) in Brasiliana Fotográfica, 27 de dezembro de 2016

WANDERLEY, Andrea C.T. Dom Pedro II ( RJ, 2/12/1825 – Paris, 5/12/1891), um entusiasta da fotografia in Brasiliana Fotográfica, 2 de dezembro de 2016

WANDERLEY, Andrea C.T. Princesa Isabel (RJ, 29 de julho de 1846 – Eu,14 de novembro de 1921) in Brasiliana Fotográfica, 21 de julho de 2015

WANDERLEY, Andrea C.T. Série “1922 – Hoje, há 100 anos” VII – A morte de Gastão de Orleáns, o conde d´Eu (Neuilly-sur-Seine, 28/04/1842 – Oceano Atlântico 28/08/1922) in Brasiliana Fotográfica, 28 de agosto de 2022

 

Arthur Azevedo (1855 – 1908), entusiasta e incentivador do teatro brasileiro

Há 170 nos, em 7 de julho de 1855, nascia o teatrólogo, comediógrafo, jornalista, contista e poeta maranhense Arthur Nabantino Gonçalves de Azevedo, o Arthur Azevedo. Generoso e muito ativo, foi um importante intelectual da cena artístico-cultural brasileira na virada do século XIX para XX. Figura muito querida e admirada no Rio de Janeiro, onde passou a viver nos anos 1870, foi o autor de mais de 70 peças teatrais e seu trabalho foi um dos principais pontos de partida da dramaturgia nacional, da qual era grande entusiasta. Destacamos neste artigo registros de Arthur Azevedo produzidos por fotógrafos ainda não identificados e por Luis Musso (18? – 19?) – todas do acervo fotográfico da Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica.

 

Acessando o link para as fotografias de Arthur Azevedo disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

Sua primeira peça encenada em um teatro público foi  Amor por Anexins, uma comédia em um ato, que escreveu, em 1870, com apenas 15 anos (Diário de Pernambuco, 18 de fevereiro de 1875, segunda coluna). Incentivou a encenação de obras brasileiras e consolidou a comédia de costumes, tendo sido no Brasil o principal autor do teatro de revista em sua primeira fase. De sua obra, destacaram-se A almanjarra (1888)A Capital Federal (1897), A filha de Maria Angu (1875)O Dote (1907), O Mambembe (1904), O Tribofe (1891) Véspera de Reis (1876). O cotidiano da vida, os usos e costumes dos habitantes da então capital federal, o Rio de Janeiro, foram a matéria-prima de suas peças e contos. Entre 1876 e 1908, também atuou como tradutor e adaptou dramas, comédias e operetas.

 

 

Nasceu em São Luís, no Maranhão, em 7 de julho de 1855, filho do vice-cônsul português Davi Gonçalves de Azevedo (1816 – 1878) e de Emília Amália Pinto Guimarães (1818 – 1888), também portuguesa. Sua mãe havia sido casada com o comerciante Antônio Joaquim Branco, de quem se separou com pouco mais de um ano de casamento. Com Davi, teve quatro filhos além de Arthur: o escritor Aluísio de Azevedo (1857 – 1913), Emília (1860 -?), Camila Amália (1858 -?) e o teatrólogo Américo Garibaldi (1863 – 1900).

 

 

Quando faleceu, em 1908, era casado com a artista gravadora Carolina Adelaide Leconflé (18? – 1936) com que teve quatro filhos: Arthur (c. 1886 – 19?), Rodolfo (c. 1898 – 19?), Américo (c. 1902 – 19?) e Aluísio (c. 1904 – 19?). Eram seus enteados Luiz, José, Fernando e Lucinda Cordeiro. Havia sido casado anteriormente com Carlota de Morais (18? -?) (O Paiz, 23 de outubro de 1908, segunda coluna; Diário Carioca, 18 de novembro de 1936, quarta coluna).

 

 

Ainda em São Luiz, adolescente, publicou, em 1871, seu primeiro livro de poemas, Carapuças, trabalhou no comércio e fundou o jornal O Domingo. Depois foi trabalhar na administração provincial, da qual foi demitido devido a publicações de sátiras contra autoridades governamentais. Concorreu e foi classificado para uma vaga de amanuense da Fazenda. Transferiu-se para o Rio de Janeiro, em 1873. Inicialmente, trabalhou como professor de Português no Colégio Pinheiro e escreveu para o jornal A Reforma. Em 1875, obteve um emprego na Secretaria da Agricultura.

Era abolicionista e defendia a causa em seus artigos e em suas peças, dentre elas A Família Salazar, escrita com o acadêmico baiano Urbano Duarte de Oliveira (1855 – 1902), que foi proibida pela censura imperial. Foi, posteriormente, publicada com o título O Escravocrata (1884).

Uma peça traduzida por ele, a comédia Escola de Maridos (1661), do célebre dramaturgo francês Molière (1622 – 1673), foi uma das atrações da noite de 15 de julho de 1889, no Theatro Sant´Anna, no Rio de Janeiro, quando Dom Pedro II (1825 – 1891) foi alvo de um atentado na saída do teatro (Cidade do Rio, 16 de julho de 1889). Em um dos intervalos, Arthur foi chamado ao camarote do imperador, que felicitou seu trabalho e manifestou o desejo de possuir uma cópia de sua excelente tradução (Gazeta de Notícias, 16 de julho de 1889, quarta coluna).

Foi um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, em 20 de julho de 1897.  Ocupou a cadeira nº 29, que tem como patrono o diplomata e dramaturgo carioca Martins Pena (1819 – 1848), considerado o Molière brasileiro.

 

 

 

Fundou as seguintes revistas: em 1879, com Lopes Cardoso (18? – ?), a Revista do Teatro; Gazetinha, com Antônio Vicente da  Fontoura Xavier (1856 – 1922) e Anibal Falcão (1859 – 1900), em 1880; em 1893, O Álbum, com Francisco de Paula Ney (1858-1897)e A Vida Moderna, em 1886, com Luiz Murat (1861 – 1929) e outros. Colaborou em A Estação, ao lado de Machado de Assis (1839 – 1908), seu companheiro na Secretaria da Viação; e no jornal Novidades, onde seus companheiros eram Alcindo Guanabara (1865 – 1918), Coelho Neto (1864 – 1934), Francisco Moreira Sampaio (1851 – 1901) e Olavo Bilac (1865 – 1918).

Teve colunas em diversos jornais, dentre elas “A Palestra”, em O Paiz; “De Palanque”, no Diário de Notícias; e o folhetim “O Teatro”, em A Notícia, tendo escrito milhares de artigos sobre eventos artísticos, com ênfase no teatro. Escreveu também em O Século, em O Mequetrefe, na Kosmos e no Correio de Manhã. Usou diversos pseudônimos, dentre eles Batista, o trocista; CosimoDorante, Elói, o herói; FrivolinoGavroche, JuvenalPetrônio.

Em 1889, reuniu alguns de seus contos no livro Contos possíveis, dedicado a Machado de Assis. Posteriormente, publicou outros livros, dentre eles Contos fora de moda (1894), Contos efêmeros (1897) e Contos em versos (1898).

Em 1908, por ocasião da Exposição Nacional Comemorativa do 1º Centenário da Abertura dos Portos do Brasil, no Rio de Janeiro, inaugurada, em 11 de agosto de 1908, na região da Urca, no Rio de Janeiro, o então Teatro Constitucional ergueu, no local do evento, um pavilhão temporário para apresentar peças e concertos para o público. Vários espetáculos de Arthur Azevedo foram montados nesse espaço confortável, batizado de Teatro João Caetano, organizado em platéia, galeria e camarotes. O teatro tinha  870m2 e sua decoração interna, em tons de verde e ouro, foi idealizada por Raul Pederneiras (1874 – 1953).

 

 

Foi um dos maiores entusiastas da construção do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, mas faleceu nove meses antes de sua inauguração, ocorrida em 14 de julho de 1909. Em 1904, foi aberta uma concorrência pública, durante a gestão do prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), para a escolha do projeto arquitetônico do futuro teatro (Gazeta de Notícias, 20 de março de 1904, na quarta coluna e na última coluna). Em 20 de setembro de 1904, Arthur integrou a subcomissão formada pelo diretor da Estrada de Ferro Central do Brasil, José de Andrade Pinto, pelo arquiteto Adolfo Morales de los Rios (1858 – 1928), pelo escultor Rodolfo Bernardelli (1852 – 1931) e pelo industrial Carlos Hargreaves que se reuniu para estudar os projetos apresentados (Gazeta de Notícias, 21 de setembro de 1904, na quinta coluna). Finalmente, a comissão encarregada para a escolha do melhor projeto decidiu pelo empate entre os projetos Áquila e Isadora (Gazeta de Notícias, 22 de setembro de 1904, sétima coluna). O autor do primeiro foi o engenheiro Francisco de Oliveira Passos (1878 – 1958), filho do prefeito, e, o do segundo, o arquiteto francês Albert Guilbert (1866 – 1949), vice-presidente da Associação dos Arquitetos Franceses. Sua peça, O Mambembe”, foi um dos espetáculos apresentados dentro das comemorações dos 50 anos do Teatro Municipal, em 1959. Foi encenado pelo Teatro dos Sete e uma das atrizes foi Fernanda Montenegro (1929-) (O Cruzeiro, 19 de dezembro 1959).

 

 

Pouco antes de falecer, foi nomeado Diretor da Contabilidade Geral do Ministério da Viação e Obras Públicas (Fon-Fon, 17 de outubro de 1908; Relatório do Ministério da Viação e Obras Públicas (1910 a 1927)). Faleceu em 21 de outubro de 1908 (O Paiz, 22 de outubro de 1908; O Século, 22 de outubro de 1908).

 

 

 

 

 

 

 

Alguns teatros do Brasil foram batizados com o nome de Arthur Azevedo. Em São Luís, um dos teatros mais antigos do Brasil, inaugurado, em 1º de junho de 1817, muito antes de seu nascimento, teve seu nome trocado para Teatro Arthur Azevedo, nos anos 1920 (Governo do Maranhão). Em São Paulo, foi criado o Teatro Arthur Azevedo, em 2 de agosto de 1952 (Secretaria Municipal de São Paulo de Economia e Cultura Criativa, 2 de agosto de 2022). Em agosto de 1956, foi inaugurado o Teatro Arthur Azevedo, em Campo Grande, no Rio de Janeiro, pelo embaixador Francisco Negrão de Lima, então prefeito do Distrito Federal, durante o governo do presidente Juscelino Kubitschek (Correio da Manhã, 7 de julho de 1956, sexta coluna).

 

 

 

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BARROS, Maria Pia Fontes Lins de; WANDERLEY, Andrea C. T. Agenda do Centro de Documentação da TV Globo

Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos

COUTINHO, Afrânio; SOUSA, José Galante de. Enciclopédia de literatura brasileira. Rio de Janeiro: Fundação Biblioteca Nacional; Academia Brasileira de Letras, 2001.

Depoimento de Emília Amália Pinto Magalhães a Dunshee de Abranches, biógrafo de Arthur Azevedo

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MAGALDE, Sábato. Panorama do Teatro Brasileiro. São Paulo: Global, 1997.

MAGALHÃES JUNIOR, Raimundo. Arthur Azevedo e sua época. São Paulo : Martins, 1955.

MERCARELLI, Fernando Antonio. Cena aberta: a absolvição de um bilontra e o teatro de revista de Arthur Azevedo. Campinas : Editora da Unicamp, 1999.

PEREIRA, Margareth da Silva. A exposição de 1908 ou o Brasil visto por dentro.

Portal MultiRio

Siciliano, Tatiana. O guerreiro do Theatro Municipal in Open Editions Books

Site Academia Brasileira de Letras

Site Enciclopédia Itaú Cultural

WANDERLEY, Andrea C. T. Academia Brasileira de Letras in Brasiliana Fotográfica, 20 de julho de 2022.

WANDERLEY, Andrea C. T. Após encantar-se com Molière e Giulietta Dionesi, o imperador Pedro II sofre um atentado in Brasiliana Fotográfica, 15 de julho de 2020.

WANDERLEY, Andrea C. T. Série “Teatros e cinemas do Brasil” III – A inauguração do Theatro Municipal do Rio de Janeiro in Brasiliana Fotográfica, 14 de julho de 2017.

 

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” VIII – O prédio do Supremo Tribunal Federal, atual Centro Cultural da Justiça Federal; o Museu Nacional de Belas Artes e o arquiteto Adolfo Morales de los Rios (1858 – 1928)

Com fotografias produzidas por Augusto Malta (1864 – 1957)Jorge Kfuri (1893 – 1965), Luiz Musso (18? – 19?), Marc Ferrez (1843 – 1923), pela Papelaria e Typographia Botelho e por fotógrafos ainda não identificados, a Brasiliana Fotográfica publica o oitavo artigo da série Os arquitetos do Brasil, sobre o antigo prédio do Supremo Tribunal Federal, atual Centro Cultural da Justiça Federal; e sobre o Museu Nacional de Belas Artes. Também conta um pouco da história de seu arquiteto, o espanhol Adolfo Morales de los Rios y Garcia de Pimentel  (1858 – 1928). Dos 17 prédios projetados por ele para a Avenida Central, no início do século XX, esses, que são os temas desse artigo, são os únicos que não foram demolidos. Além de arquiteto, Morales de los Rios foi urbanista, professor e historiador. Desempenhou um importante papel na modernização arquitetônica do Brasil em fins do século XIX e primeiras décadas do XX.

 

Edifício do Supremo Tribunal Federal, atual Centro Cultural da Justiça Federal

 

 

A construção do edifício do Supremo Tribunal Federal (STF) foi iniciada, em 1905, e estava integrada ao projeto de reurbanização do Rio de Janeiro, então a capital federal. A princípio, o prédio abrigaria a Mitra Arquiepiscopal, mas foi adquirido pelo governo federal para abrigar o STF, instalado em 3 de abril de 1909 (Brazilian Review, 21 de novembro de 1905, segunda colunaGazeta de Notícias, 2 de abril de 1909, terceira coluna). O edifício é um dos mais importantes testemunhos da arquitetura eclética do Brasil.

 

 

O prédio abrigou o STF até 1960, quando o tribunal foi transferido para Brasília, a nova capital do Brasil. Desde então, o edifício sediou o Superior Tribunal Eleitoral, o Tribunal de Alçada e varas da Justiça Federal de 1ª Instância. Após obras de restauração que duraram cerca de sete anos, o prédio foi aberto ao público, em 4 de abril de 2001, como Centro Cultural da Justiça Federal. Foi inaugurado com a exposição permanente Justiça e Cidadania e com a mostra temporária sobre a obra do importante fotógrafo cearense Chico Albuquerque (1917 – 2000), pioneiro da publicidade brasileira na década de 1940. Havia também uma exposição mostrando o prédio antes e depois da restauração (Jornal do Brasil, 4 de abril de 2001, primeira coluna).

 

Acesse aqui o link para as fotografias do antigo prédio do Supremo Tribunal Federal, atual Centro Cultural da Justiça Federal disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

Edifício do Museu Nacional de Belas Artes

 

 

Em 1908, a sede da Academia Nacional de Belas Artes foi transferida para um edifício também na Avenida Central e também projetado por Adolfo Morales de los Rios. Acredita-se que o desenho original de Morales de los Rios tenha sido modificado pelo escultor Rodolfo Bernadelli (1852 – 1931), que era diretor da escola. De acordo com o “afrancesamento” da Avenida Central, a fachada principal do prédio baseou-se em uma das alas do Museu do Louvre, projetada pelo arquiteto francês Hector-Martin Lefuel (1810 – 1880), que trabalhava para Napoleão III (1808 – 1873). Apresenta medalhões pintados por Henrique Bernardelli (1857 – 1936) retratando integrantes da Missão Francesa e outros artistas brasileiros, além de frontões, colunatas e relevos em terracota representando as grandes civilizações da antiguidade. As fachadas laterais são inspiradas no renascimento italiano e trazem mosaicos realizados pelo francês Félix Gaudin (1851 – 1930), com retratos de artistas famosos.

Em 1931, a Escola Nacional de Belas Artes foi incorporada à Universidade do Rio de Janeiro, futura Universidade do Brasil, e, a partir de 1937, dividiu o prédio com o Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), criado em 13 de janeiro de 1937 por iniciativa de Gustavo Capanema (1900 – 1985), ministro da Educação do governo de Getúlio Vargas (1882 – 1954), e inaugurado em 19 de agosto de 1938. O MNBA possui o maior acervo de obras de arte do século XIX no Brasil, sendo um dos mais importantes museus de arte do país. O edifício foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 24 de maio de 1973. Está fechado ao público desde 2020 e passa por uma reforma. Sua reabertura está prevista para fins de 2025. A atual Escola de Belas Artes foi, entre 1974 e 1975, transferida para o prédio Jorge Machado Moreira projetado para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), no campus do Fundão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

Acesse aqui o link para as fotografias do Museu Nacional de Belas Artes disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

 

Brevíssimo perfil do arquiteto Adolfo Morales de los Rios (1858 – 1928)

 

 

O arquiteto, urbanista, historiador e professor espanhol Adolfo Morales de los Rios y Garcia de Pimentel nasceu em Sevilha, em 10 de março de 1858, filho do capitão-general da Extremadura, de Granada e da Galícia, Adolfo Morales de los Rios e de Salud Pimentel y Garcia de Ambues. Trabalhou, inicialmente, na França, onde conheceu o arquiteto Viollet-le-Duc (1814 – 1879), um dos precursores da arquitetura moderna. Cursou arquitetura na Escola de Belas Artes de Paris, entre 1877 e 1882. Retornou à Espanha onde foi o responsável pelos projetos do Cassino de San Sebastián, do Gran Teatro de Cadiz e do Banco da Espanha, em Madri. Em 1889, aceitou o convite para fundar uma escola de arquitetura no Chile. Passou pelo Brasil para onde retornou, em 1890, devido a problemas políticos que impediram seu estabelecimento no Chile. Veio a convite do arquiteto belga mr. de Mot, encarregado da urbanização de Teresópolis (Correio da Manhã, 4 de setembro de 1928, quinta coluna).

 

“Fui e continuo a ser um bom brasileiro, sem deixar de ser um bom espanhol”.

Adolfo Morales de los Rios y Garcia de Pimentel

 

No Brasil, participou de obras de saneamento, de construção de estradas, tendo sido presidente e diretor da Companhia Auto-Viação Centro de Minas. Em 1897, passou a lecionar na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Em 1901, Morales de los Rios lançou a ideia de fazer uma ponte em estrutura metálica para ligar o Rio a Niterói, mas o projeto não saiu do papel.

Na primeira década do século XX, participou da construção da Avenida Central, cuja abertura foi uma das principais marcas da reforma urbana que ficou conhecida como o bota-abaixo, realizada, entre 1902 e 1906, pelo então prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos (1836 – 1913). Essas transformações foram definidas por Alberto Figueiredo Pimentel (1869-1914), autor da seção “Binóculo”, da Gazeta de Notícias, com a máxima “O Rio civiliza-se”, que se tornou o slogan da reforma urbana carioca. Essa intervenção urbana tornou o Rio uma cidade cosmopolita, moderna. Dos mais de 80 prédios da Avenida Central, 17 saíram da prancheta de Morales de los Rios – hoje de seus projetos para a avenida só restaram os prédios que são os tema deste artigo.

 

 

Morales de los Rios era também interessado em antropologia e tentou compreender ritos de feitiçaria, mitologia e história, e métodos construtivos dos “povos primitivos”, e entre estes estavam os índios brasileiros, que ocuparam um espaço especial em seus estudos, sobretudo em “Ôka, Taba, Tabajara” (MORALES DE LOS RIOS, Adolfo. Ôka, Taba, Tabajara. Documentação manuscrita, IHGB): um “tratado” sobre a arquitetura indígena.

Em janeiro de 1915, publicou seis artigos intitulados Uma questão importante – A primitiva fundação da cidade no jornal A Noite – 25 de janeiro26 de janeiro27 de janeiro28 de janeiro30 de janeiro e 31 de janeiro. Na seção “Reportagens Íntimas” da revista Fon-Fon, publicação de uma entrevista com Morales de los Rios (Fon-Fon, 18 de agosto de 1917).

Projetou cerca de quatro mil obras no Brasil, dentre elas a Basílica do Imaculado Coração de Maria, no Méier, tombada pelo município, em 2009, e única igreja em estilo neomourisco na cidade; o Palácio São Joaquim, na Rua da Glória, em estilo eclético e construído, em 1918, para ser a residência do primeiro arcebispo do Rio, cardeal pernambucano dom Joaquim Arcoverde Cavalcanti de Albuquerque (1850 – 1930).

 

 

Faleceu em 3 de setembro de 1928, na Casa de Saúde Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, e foi enterrado no Cemitério São João Batista (Correio da Manhã, 4 de setembro de 1928, quinta colunaO Paiz, 5 de setembro de 128, primeira colunaRevista da Semana, 8 de setembro de 1928). Foi casado com Maria Cuadras (18? -19?) e teve um filho, o também arquiteto Adolfo Morales de los Rios Filho (1887-1973), e duas filhas, Eugênia (18? -19?) e Margarita (18? -19?).

 

 

 

 

Outros prédios projetados por Adolfo Morales de los Rio representados no acervo fotográfico da Brasiliana Fotográfica

 

Jornal O Paiz (demolido)

 

Parque de Diversões da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil, em 1922 (demolido)

 

A convite dos organizadores da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil, realizada, em 1922, no Rio de Janeiro, escreveu o artigo Resumo monográfico da evolução da arquitetura no Brasil (1922/1923), que foi publicado no Livro de Ouro Comemorativo do Centenário da Independência e da Exposição Internacional do Rio de Janeiro – pág 97 a 103.

 

Palácio São Joaquim, construído entre 1912 e 1918

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

O GLOBO, 3 de janeiro de 2016 e 30 de junho de 2024

RAMOS, Renato Menezes (org.). O Restaurante Assyrio é Persa… e o Café Mourisco também, de Adolfo Morales de los Rios: Comentários e Anotações. 19&20, Rio de Janeiro, v. VI, n. 2, abr./jun. 2011

RICCI, Claudia Thurler. Sob a inspiração de Clio: O Historicismo na obra de Morales de los Rios19&20Rio de Janeiro, v. II, n. 4, out. 2007.

Site Centro Cultural da Justiça Federal

Site Enciclopédia Itáu Cultural

Site Ibram

Site Instituto Moreira Salles

Site Museus do Rio