Série “Feministas, graças a Deus!” X – Maria Luiza Dória Bittencourt (1910 – 2001), a primeira deputada da Bahia

 

Série “Feministas, graças a Deus!” X – Maria Luiza Dória Bittencourt (1910 – 2001), a eloquente primeira deputada da Bahia

“Quando a fina silhueta de Maria Luiza Doria Bittencourt assomou à tribuna para os dez minuros da prova de eloquência, todo o auditório sentiu que se achava ali diante de um especimen novo de individualidade feminina, o expoente de uma nova concepção de Eva moderna: a mulher valor-intelectual”.

Maria Eugênia Celso Caneiro de Mendonça

sobre Maria Luiza Dória Bittencourt

Jornal do Brasil, 16 de outubro de 1929

 

A imagem abaixo pertence ao acervo fotográfico do Arquivo Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica.

 

 

A advogada e feminista Maria Luiza Dória Bittencourt nasceu em Paripe, subúrbio de Salvador, em 1910, filha de Luiz de Lima Bittencourt e Isaura Dória Bittencourt. Estudou no Rio de Janeiro, para onde se mudou com sua família e residia em um palacete na Praia Vermelha. Na década de 20, já era filiada à Federação Brasileira para o Progresso Feminino e à União Universitária Feminina, presididas por Bertha Lutz (1894 – 1976) e Carmen Portinho (1903 – 2001), respectivamente.

Em 1929, venceu a etapa do Rio de Janeiro de um concurso de oratória promovido pelo Instituto dos Advogados, cujo tema foi a Constituição Federal. Foi a única mulher entre os seis finalistas da etapa nacional, e ficou em segundo lugar no concurso, cujo vencedor foi o acadêmico mineiro Jovert de Souza Lima.

Foi uma das fundadoras, com a feminista e poetisa Anna Amélia Carneiro de Mendonça (1896 – 1971), presidente da associação, e o teatrólogo Paschoal Carlos Magno  (1906 – 1980), dentre outros, da Casa do Estudante do Brasil, em 13 de agosto de 1929.

Participou do Congresso Penal Penitenciário Brasileiro, realizado, no Rio de Janeiro, entre 15 e 22 de junho de 1930, quando apresentou a tese Reformatório de Mulheres Criminosas. A mesma tese foi apresentada no 10º Congresso Penitenciário e Penal Internacional, em Praga, em agosto do mesmo ano.

Formou-se, em 1931, na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, onde havia ingressado, em 1927, e foi, anos depois, em 1942, a primeira colocada no concurso para a livre-docência em Legislação do Trabalho e Direito Industrial da instituição, tornando-se a primeira mulher docente da história da referida faculdade.

Apoiada pelo grupo do então interventor da Bahia, Juracy Magalhães (1905 – 2001), concorreu a uma vaga de deputada estadual, em 14 de outubro de 1934. Pouco antes, em agosto, havia sido realizada, em Salvador, a Segunda Convenção Feminista, promovida pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Durante o evento foi recomendado aos partidos nomes de mulheres a candidatas às constituintes estaduais e dado apoio a candidatos comprometidos com os interesses femininos.

 

 

Elegeu-se como primeira suplente de Humberto Pacheco Miranda, que havia sido prefeito de Cachoeira, município baiano. Em 6 maio de 1935, assumiu o mandato, tornando-se a primeira deputada estadual baiana e uma das primeiras do Brasil, após o Decreto nº 21.076, de 24 de fevereiro de 1932, que instituiu o Código Eleitoral Provisório e reconheceu o direito de voto às mulheres. Outras pioneiras foram Carlota Pereira de Queiróz (1892 – 1992), em São Paulo; Bertha Lutz (1894 – 1976), no Rio de Janeiro; Lili Lages (1907 – 2003), em Alagoas; Quintina Diniz de Oliveira (1878 – 1942), em Sergipe; e Maria de Miranda Leão (1887 – 1976), no Amazonas. Todas as citadas foram eleitas em 1934, exceto Carlota Pereira de Queiróz, eleita em 1933.

Em janeiro de 1936, Maria Luiza seguiu para os Estados Unidos por ter ganho o prêmio Fellowship da Universidade Radcliffe. Retornou ao Brasil em julho do mesmo ano e, em dezembro, integrou a delegação brasileira que foi à Conferência Interamericana de Consolidação da Paz, em Buenos Aires. Durante o evento, proferiu um discurso e sua participação foi muito festejada e elogiada pela imprensa.

Durante seu mandato como deputada estadual da Bahia, Maria Luiza integrou o grupo responsável pela elaboração do texto constitucional e foi a relatora dos capítulos da Educação e Ordem Econômica e Social. Em 1937, apoiou a candidatura de José Américo de Almeida (1887 – 1980) à Presidência da República, tendo participado da Convenção dos delegados apoiadores do governo, no Palácio Monroe. Recepcionou o candidato em sua viagem à Bahia.

Segundo o Dicionário Mulheres do Brasil, foi de Maria Luiza a última voz que se manifestou na Assembléia Legislativa do Estado da Bahia em um discurso na defesa da democracia, antes do fechamento do legislativo determinado pela instauração do Estado Novo, pelo presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954), em 10 de novembro de 1937.

Em 1938, tinha um escritório de advocacia, na rua da Quitanda, no centro do Rio de Janeiro, com a feminista sergipana Maria Rita Soares Andrade (1904 – 1998), que se tornaria, em 1967, a primeira juíza federal do Brasil. Continuava ligada às atividades da Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher, da União Universitária Feminina e da Casa do Estudante do Brasil.

Provavelmente, casou-se em torno de 1943, pois em uma reportagem de janeiro de 1944 foi identificada como Maria Luiza Dória Bittencourt Mello Neto.

Em 1945, com Natércia da Cunha Silveira (1903 – 1993)Carmen Portinho  e Maria Rita Soares de Andrade, foi uma das organizadoras de uma coligação democrática para apoiar a candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes (1896 – 1981) à presidência da República, tendo sido uma das fundadoras da UDN – União Democrática Nacional.

Em 19 de janeiro de 1947, concorreu a uma vaga de vereadora do Distrito Federal pela Esquerda Democrática, mas não se elegeu. No ano seguinte, foi noticiado que o Curso de Geografia Econômica, ministrado gratuitamente por ela, na sede do Partido Socialista Brasileiro, na rua Buenos Aires, 57, seria reiniciado.

Em 1954, morava em São Paulo e foi identificada em uma matéria do Jornal do Brasil como advogada, esposa e mãe exemplar. Em fins da década de 60, como integrante do Conselho Patrimonial da Casa do Estudante do Brasil, foi uma das oradoras na comemoração dos 40 anos da entidade, marcada pela reinauguração da Biblioteca Artur Ramos e pela realização de um Almoço de Confraternização Universitária.

Em 1979, no auditório do MEC, Maria Luiza e o engenheiro L.A. Falcão Bauer fizeram palestras sobre o entrosamento profissional entre homens e mulheres dentro da programação da Segunda Reunião Latino-Americana de Mulheres Universitárias. Nove anos depois, em 1988, recebeu, na Associação Brasileira de Mulheres Universitárias, o diploma do Mérito Ruy Barbosa por ter sido a primeira mulher constituinte da Bahia.

Faleceu em 2001.

 

Cronologia de Maria Luiza Dória Bittencourt

 

 

1910 – Nascimento de Maria Luiza Dória Bittencourt, em Paripe, subúrbio de Salvador, capital da Bahia. Era filha de Isaura Dória Bittencourt e Luiz de Lima Bittencourt.  

1923 - Estudava na Escola Leitão da Cunha, no Rio de Janeiro, e participou do concurso Esther Pereira de Mello, promovido pela Escola Deodoro para a escolha, dentre as alunas que se destacaram em seus exames finais, da mais inteligente (Jornal do Commercio, 16 de dezembro de 1923, segunda coluna; e A Noite, 24 de dezembro de 1923, terceira coluna).

No final do ano, foi chamada para prestar exames de preparatório no Colégio Pedro II (Jornal do Brasil, 6 de dezembro de 1923, terceira coluna; e 24 de dezembro,primeira coluna de 1923).

1925 - Foi reprovada no exame de preparatória de Aritmética, no Colégio Pedro II (Jornal do Brasil, 19 de março de 1925, quinta coluna).

1926 – Na Bahia, falecimento de seu avô paterno, Valentim Antônio da Rocha Bittencourt (Jornal do Brasil, 9 de fevereiro de 1926, terceira coluna).

1927 – Ingressou na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro (Correio da Manhã, 30 de novembro de 1927, quarta coluna).

Na Seção Acadêmica da Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, Maria Luiza proferiu uma palestra sobre assuntos jurídicos (Jornal do Brasil, 23 de setembro de 1927, quarta coluna).

A escritora Rosalina Coelho Lisboa (1900 – 1975) foi coroada como Rainha dos Estudantes, no Teatro João Caetano. Maria Luiza foi uma das oradoras do evento, onde se encontrava todo o escol social do Rio de Janeiro, dentre eles o escritor Coelho Neto (1864 – 1934), considerado o Príncipe dos Prosadores Brasileiros, numa votação realizada no ano seguinte pela revista O Malho; e o teatrólogo, ator e poeta Paschoal Carlos Magno (1906 – 1980)(O Paiz, 24 de setembro de 1927, segunda coluna).

 

 

1928 - Foi um dos acadêmicos de Direito que assinaram uma mensagem enviada ao Congresso da Mocidade Católica de São Paulo (A Cruz, 26 de setembro de 1928, quinta coluna).

1929 - Ainda como estudante, foi secretária da União Universitária Feminina, fundada por Carmen Portinho (1903 – 2001), no Rio de Janeiro, em 13 de janeiro de 1929 (O Paiz, 14 de janeiro de 1929, terceira colunaO Imparcial, 15 de janeiro de 1929, primeira colunaGazeta de Notícias, 15 de janeiro de 1929, quarta colunaO Jornal, 3 de outubro de 1929, quinta coluna).

Era filiada à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (FBPF), fundada por Bertha Lutz (1894 – 1976), em 1922.

Com a tese As liberdades e as garantias constitucionais venceu o concurso de oratória realizado entre os alunos da Faculdade de Direito do Rio de Janeiro. Concorreu com os acadêmicos Alvim Horcades Filho e Deocleciano Martins de Oliveira (Jornal do Brasil, 1º de setembro de 1929, quinta coluna; O Paiz, 31 de agosto de 1929, quarta coluna).

Integrando a celebração da Independência do Brasil promovida pela FBPF e pela a União Universitária Feminina, Maria Luiza proferiu o discurso Independência política, independência moral, na Rádio Sociedade do Rio de Janeiro, representando a União Universitária Feminina. Pela FBPF, proferiram discursos as duas vencedoras norte-americanas de um concurso de oratória realizado nos Estados Unidos. Participou do chá de despedida oferecido pela FBPF, no Pão de Açúcar, a essas estudantes (O Paiz, 7 de setembro, sexta coluna; 14 de setembro de 1929, penúltima coluna, de 1929).

Na casa de seu pai, dr. Lima Bittencourt, descrito como um palacete na Praia Vermelha, também ofereceu um chá ao grupo (Revista da Semana, 21 de setembro de 1929).

 

 

Por seu intermédio, o Instituto Histórico e Geográfico enviou vários livros para a Feira dos Livros. Foi fotografada participando do evento, em benefício da Casa do Estudante do Brasil, criada em 13 de agosto de 1929, da qual foi uma das fundadoras, assim como a importante poetisa e feminista Anna Amélia Carneiro de Mendonça (1896 – 1971), presidente da associação, e o ator, poeta e teatrólogo Paschoal Carlos Magno  (1906 – 1980), dentre outros (Correio da Manhã, 24 de setembro de 1929, sétima coluna; Revista da Semana, 28 de setembro de 1929; Diário de Notícias, 2 de junho de 1940, quarta coluna; Annuario Brasileiro de Literatura, 1943; Tribuna da Imprensa, 9 de março de 1956Correio da Manhã, 14 de agosto de 1969, quarta coluna).

 

 

Uma curiosidade: Anna Amélia de Queiroz Carneiro de Mendonça foi casada com Marcos Carneiro de Mendonça (1894 – 1988), goleiro do Fluminense e o primeiro goleiro da seleção brasileira. O casal teve quatro filhos e um deles foi Bárbara Heliodora (1923 – 2015), crítica teatral e uma das maiores especialistas em Shakespeare do Brasil.

 

Maria Luiza participou da Festa dos Balões, em prol da construção da Casa do Estudante do Brasil (Revista da Semana, 5 de outubro de 1929).

 

 

Maria Luiza foi uma das promotoras e discursou durante a programação da Festa da Primavera, organizada pela mocidade feminina carioca, realizada no Teatro Municipal do Rio de Janeiro. O presidente Washington Luis (1869 – 1957) foi homenageado (O Paiz, 28 de setembro de 1929, terceira coluna; A Manhã, 28 de setembro de 1928, primeira coluna).

Publicação de um artigo da escritora e feminista Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (1886 – 1963), filha do historiador, político e poeta conde de Afonso Celso (1860 – 1938),  elogiando as qualidades intelectuais e pessoais de Maria Luiza (Jornal do Brasil, 16 de outubro de 1929, primeira coluna).

 

 

Na reunião mensal da União Universitária Feminina, presidida por Carmen Portinho (1903 – 2001), solicitou que a associação apoiasse a construção da Casa do Estudante do Brasil, ajudando na venda de entradas para a peça Orpheu, no estádio do Fluminense. Na mesma ocasião, foi nomeada com Luiza Sapienza e Esther Corrêa Ramalho, uma das primeiras engenheiras brasileiras, para integrar a comissão do desenvolvimento da biblioteca da União Universitária Feminina (O Jornal, 3 de outubro de 1929, quinta coluna; e O Paiz, 20 de outubro de 1929, última coluna).

Foi uma das finalistas, a única mulher, representando o Rio de Janeiro, no concurso nacional de oratória promovido pela Instituto dos Advogados entre estudantes de Direito do Brasil, cujo tema foi a Constituição Federal. Realizado no Salão da Associação dos Empregados do Comércio, foi vencido pelo acadêmico mineiro Jovert de Souza Lima. Maria Luiza conquistou o segundo lugar, seguida por Hermes Barroso, representante do Ceará (O Jornal 11 de outubro, quarta coluna13 de outubro e 18 de outubro de 1929; A Gazeta (SP), 16 de outubro de 1929, quarta coluna; Revista da Semana, 19 de outubro de 1929; Fon-Fon, 19 de outubro de 1929Excelsior, novembro de 1929).

 

 

 

Sob os auspícios da Federação Brasileira para o Progresso Feminino, na Rádio Club do Brasil, apresentação de Maria Luiza, oradora e acadêmica de Direito, falando sobre Os direitos políticos femininos em face das leis do Brasil (Jornal do Brasil, 8 de novembro de 1929, quinta coluna).

Foi citada, elogiosamente, no artigo Oratória Feminina, do conde de Afonso Celso (1860 – 1938) (Jornal Pequeno, 16 de dezembro de 1929, segunda coluna).

“Na senhorita Maria Luiza Dória Bittencourt fulge, porém, deveras, um dos mais auspiciosos talentos verbais da presente geração acadêmica”. 

1930 – Participou do Congresso Penal Penitenciário Brasileiro, realizado, no Rio de Janeiro, entre 15 e 22 de junho. Apresentou a tese Reformatório de Mulheres Criminosas. A mesma tese foi apresentada no 10º Congresso Penitenciário e Penal Internacional, em Praga, em agosto (O Jornal, 30 de março, sexta coluna; 11 de abril, quinta coluna; e 2 de setembro, sexta coluna, de 1930;  Jornal do Commercio, 24 de maio, primeira coluna; 16 e 17 de junho, quinta coluna, de 1930; Correio da Manhã, 5 de julho de 1931, terceira coluna).

 

 

Participou de um almoço em homenagem à advogada sergipana Maria Rita Soares de Andrade (1904 – 1998), que se tornaria, em 1967, a primeira juíza federal do Brasil. Na foto abaixo, além de Maria Luiza e Maria Rita, a bibliotecária Luiza Sapienza, a escritora Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (1886 – 1963), a bióloga Bertha Lutz (1894 – 1976), Mary Corbett, Marianna Gurjão, a advogada Maria Alexandrina Ferreira Chaves, a maestrina Joanidia Sodré (1903 – 1975) e Anna Guttrie (Vida Doméstica, agosto de 1930).

 

 

Na Aliança Internacional pelo Sufrágio Feminino, que reunia associações femininas de 44 países, representou a Federação Brasileira pelo Progresso Feminino no assunto de Igualdade de Condições de Trabalho do Homem e da Mulher (Correio da Manhã, 15 de agosto de 1930, última coluna).

Integrava a comissão formada pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino para recepcionar a escritora portuguesa Maria Amélia Teixeira, diretora da revista Portugal Feminino (A Gazeta (SP), 27 de agosto de 1930, quarta coluna).

Participou, no Hotel Glória, da Festa da Primavera promovida por Anna Amélia Carneiro de Mendonça (1896 – 1971), fundadora da Casa do Estudante do Brasil, com a presença da Miss Universo, Yolanda Pereira (1910 – 2001) (Revista da Semana, 20 de setembro de 1930Correio da Manhã, 23 de setembro de 1930, sétima coluna).

 

 

Fazia parte da comissão de recepção da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino nas homenagens ao cardeal Sebastião Leme (1882 – 1942) (Correio da Manhã, 19 de outubro de 1930, penúltima coluna).

No Teatro João Caetano, a Casa do Estudante do Brasil promoveu uma homenagem aos estudantes soldados da revolução hospedados no Rio de Janeiro. Maria Luiza, Olegário Mariano (1889 – 1958), Paschoal Carlos Magno (1906 – 1980) e Eugênia Alvaro Moreyra (1898 – 1948), dentre outros, faziam parte da programação da noite (Correio da Manhã, 14 de novembro de 1930, sétima coluna).

1931 – Criação da Federação Baiana pelo Progresso Feminino (A Noite, 9 de abril de 1932, quinta coluna).

Publicação do artigo O feminismo na Bahia, de sua autoria, em que apresenta a Federação Baiana pelo Progresso Feminino e a União Universitária Feminina (Diário de Notícias (BA), 26 de março de 1931).

Após uma temporada na Bahia, retornou ao Rio de Janeiro (Correio da Manhã, 12 de abril de 1931, primeira coluna).

Ela, Bertha Lutz e a advogada e jornalista Orminda Ribeiro Bastos (1899 – 1971) foram as autoras da mensagem da FBPF à subcomissão de direitos eleitorais, encarregada pela redação do ante-projeto da Legislação Eleitoral (Correio da Manhã, 24 de maio de 1931, primeira coluna).

 

 

 

Participou do Segundo Congresso Feminista Internacional, realizado entre 20 e 30 de junho, no Automóvel Club, no Rio de Janeiro, apresentando uma tese sobre o regime de família no Direito Civil Brasileiro. Foi a relatora da Comissão de Polícia Feminina. Na ocasião declarou que a mulher aceita a participação na vida pública, não como um direito a fruir, mas como um dever a desempenhar conscienciosamente. Fez um eloquente discurso sobre as futuras diretrizes do movimento feminista. Em um documento elaborado pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino pleiteando a criação de uma Polícia Feminina, seu nome foi sugerido para integrar a Comissão de Polícia Feminina, que seria presidida por Eunice Weavers (1902 – 1969 (Jornal do Brasil, 20 de junho de 1931, primeira colunaCorreio da Manhã, 20 de junho de 1931A Batalha, 24 de junho de 1931, penúltima coluna; Jornal das Moças, 25 de junho de 1931Para Todos, 27 de junho de 1931;Correio da Manhã, 1º de julho de 1931, sexta coluna; A Noite, 1º de julho de 1931Correio da Manhã, 11 de julho de 1931, última colunaVida Doméstica, agosto de 1931).

 

 

 

 

 

A sessão de Educação e Instrução ficou sob a responsabilidade da União Universitária Feminina, composta por Carmen Portinho, Orminda Ribeiro Bastos, Luiza Sapienza, Maria Luiza Doria Bittencourt e Maria Werneck de Castro. Entre as conclusões da comissão: promoção junto aos poderes competentes a propaganda das ideias modernas sobre a organização do ensino normal, considerando que da sua eficiência depende o progresso da educação popular no Brasil e apelar para a Associação de Educação para que organizem campanha tenaz, persistente e eminentemente patriótica, com determinação precisa de objetivos e métodos em torno da educação moral e cívica da criança e do adolescente.

Participou de um almoço de adesões em homenagem ao advogado e escritor Gilberto Amado (1887 – 1969)(Correio da Manhã, 28 de junho de 1931, quarta coluna).

Em nome da União Universitária Feminina, discursou durante uma homenagem a Assis Brasil (1857 – 1938), realizada no Cassino Beira-Mar (Correio da Manhã, 2 de agosto de 1931, quarta coluna; Fon-Fon, 8 de agosto de 1931).

 

 

Integrava com Carmen Portinho (1903 – 2001), Ignez Mathiessen e Carmen de Carvalho a comissão da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino que foi ao Ministério da Viação e Obras solicitar ao ministro José Américo de Almeida (1887 – 1980) a readmissão das mulheres nas repartições dos Correios (Diário Nacional, 15 de agosto de 1931, primeira coluna; Correio da Manhã, 15 de agosto de 1931, última coluna).

 

 

Foi roubada no ateliê fotográfico Annunciato, que ficava no Edifício Guinle, e aonde havia ido com sua amiga, a engenheira civil Nidia Moura, buscar algumas fotografias que ahvai encomendado (A Noite, 25 de agosto de 1931, quarta coluna).

Formou-se na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro. Era a única bacharelanda (Correio da Manhã, 10 de setembro de 1931, terceira coluna; Revista da Semana, 12 de setembro de 1931).

 

 

Foi homenageada na reunião mensal da União Universitária Feminina, da qual era secretária-geral, e também em uma reunião da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (Correio da Manhã, 4 de setembro de 1931, penúltima coluna; Correio da Manhã, 10 de setembro de 1931, terceira coluna; Correio da Manhã, 24 de setembro de 1931, quinta coluna; Para Todos, 19 de setembro de 1931).

 

 

Durante o curso de Direito, tentou ingressar no Centro de Estudos Jurídicos e Socias, o CAJU, do qual faziam parte, entre outros, Américo Lacombe (1909 – 1974), Antonio Galloti (1908 – 1986), Gilson Amado (1908 – 1979), Otávio de Faria (1908 – 1980), Plínio Doyle (1906 – 2000), San Tiago Dantas (1911 – 1964) e Vinícius de Morais (1913 – 1980). Para ser membro desse grupo era necessário defender uma tese. Ela apresentou um trabalho sobre extradição. Sua tese foi discutida em várias sessões, mas ela não foi aceita. Conforme depoimento de Vicente Chermont de Miranda (1909 – 2000), também aluno e membro do CAJU, foi discriminada por ser mulher.

Apresentou-se na Rádio Educadora dentro da programação em homenagem à inauguração do Cristo Redentor (Correio da Manhã, 6 de outubro de 1931, segunda coluna).

Compareceu ao enterro de Francisca Praguer Fróes (1872 – 1931), presidente da diretoria da União Universitária Feminina da Bahia (Correio da Manhã, 24 de novembro de 1931, terceira coluna).

 

 

1932 – Na conferência que realizou na reunião da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, Adelaide da Silva Cortes, primeira titular da comissão de imprensa da FBPF, mencionou a palestra Conceitos Feministas, proferida por Maria Luiza, na qual ela atacou os anti-feministas classificando-os de materialistas (Correio da Manhã, 3 de janeiro de 1932, última coluna).

Fazia parte da diretoria da União Universitária Feminina (Correio da Manhã, 13 de janeiro de 1932, terceira coluna; A Noite, 14 de janeiro de 1932, quarta coluna).

Em 24 de fevereiro de 1932, foi sancionado o Código Eleitoral pelo Decreto nº 21.076, que garantiu oficialmente às mulheres acima de 21 anos os direitos de votar e serem votadas no Brasil.

Em Salvador, Maria Luiza realizou uma palestra durante a comemoração de um ano da criação da Federação Baiana pelo Progresso Feminino (A Noite, 9 de abril de 1932, quinta coluna).

Na Rádio Sociedade, proferiu uma palestra em prol da Sociedade de Assistência aos Lázaros (Correio da Manhã, 6 de junho de 1932, sexta coluna).

Foi convidada para votar no concurso Qual o maior poeta moço do Brasil? Na ocasião era segunda vice-presidente da União Universitária Feminina (Brasil Feminino, julho de 1932; Revista da Semana, 9 de julho de 1932).

Bertha Lutz (1894 – 1976) havia viajado para os Estados Unidos para usufruir o prêmio de viagem que lhe concedeu a Carnegie Endowment for International Peace, por intermédio da União Pan Americana e da Associação Americana de Museus, para estudar o papel educativo dos museus americanos. Em dois meses e meio, ela percorreu vinte cidades e visitou 58 museus, saindo de Nova York em direção a St. Louis e dali para Chicago, gradualmente retornando a Nova York. Após três meses de viagem, voltou para o Brasil, em julho, e foi saudada por Maria Luisa (Correio da Manhã, 22 de julho, penúltima coluna, e 31 de julho de 1932).

Participou da II Conferência Nacional de Educação, quando expôs um trabalho sobre o ensino primário com a proposta de regulamentação da divisão de competência entre União e os estados.

Já como bacharel, fez uma prova de Direito Internacional Privado, na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro (Correio da Manhã, 10 de agosto de 1932, segunda coluna).

Ela, Orminda Ribeiro Bastos (1899 – 1971) e Maria de Lourdes Pinto Ribeiro integravam o escritório jurídico da União Universitária Feminina (Jornal do Commercio, 18 de setembro de 1932, segunda coluna).

Participou da Quinzena de Estudos Práticos da Constituição Futura, evento que comemorou os 10 anos de existência da Federação Brasileira para o Progresso Feminino (Correio da Manhã, 18 de outubro de 1932).

Presidiu a conferência de encerramento do primeiro curso de educação política promovido pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. O conde de Afonso Celso (1860 – 1938) proferiu a palestra Vida internacional, arbitramento internacional e interno, A Guerra fora da lei, Autorização para firmar convênios e tratados internacionais, Direitos do estrangeiro naturalizado e do estrangeiro no Brasil (Correio da Manhã, 1º de novembro de 1932, segunda coluna).

Foi uma das secretárias da primeira reunião realizada na sede da FBPF, presidida por Bertha Lutz, para receber sugestões da mulher brasileira para a nova Constituição. Apesar de ser a favor do divórcio, esclareceu que esta não seria uma matéria constitucional e sim pertinente ao Direito Civil (Correio da Manhã, 25 de novembro de 1932, sexta coluna).

1933 - Esteve em São Paulo trabalhando em prol de uma cruzada de educação política (A Cigarra, janeiro de 1933).

 

 

Estava presente à instalação do posto eleitoral da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (A Noite, 13 de fevereiro de 1933, quarta coluna).

Seguiu participando de reuniões pertinentes a sugestões à nova Constituição. Ela, Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (1886 – 1963) e a educadora Alba Canizares do Nascimento (1893 – 1944) propuseram o nome de Bertha Lutz como candidata mulher única à Assembléia Nacional Constituinte, nas eleições de 3 de maio (Diário de Notícias, 23 de abril de 1933, penúltima colunaCorreio da Manhã, 4 de abril de 1933, primeira coluna; Diário Carioca, 26 de abril de 1933, última coluna).

 

 

 

Maria Luiza foi eleita primeira vice-presidente da União Universitária Feminina (Correio da Manhã, 26 de abril de 1933, terceira coluna).

Além de Bertha, foram candidatas para deputadas constituintes pelo Rio de Janeiro a advogada Natércia Cunha Silveira (1905 – 1993), a escritora Anna César Vieira, a escritora socialista Ilka Labarthe e Georgina de Azevedo Lima de quem, segundo a reportagem publicada na Revista da Semana, não se sabia de trabalhos feministas. Na matéria da Revista da Semana, a professora baiana Leolinda Daltro (1859 – 1935), também candidata e uma das precursoras do feminismo no Brasil, declarou-se satisfeita por testemunhar a candidatura de mulheres a cargos políticos no país (Brasil Feminino, abril de 1933; O Malho, 15 de abril de 1933Correio da Manhã, 26 de abril de 1933, terceira colunaRevista da Semana, 20 de maio de 1933). Nenhuma delas foi eleita. Bertha obteve 15.756 votos, Natércia obteve 3.22o votos, Georgina Azevedo Lima, 14.093; e Ilka Labarthe, 3.869. Neste pleito, a médica paulista Carlota Pereira de Queiroz (1892 – 1982) foi eleita a primeira mulher constituinte.

 

 

Era uma das professoras do Curso de Educação Feminina, inaugurado na Universidade Livre da Capital Federal (Correio da Manhã, 26 de maio de 1933, quarta coluna).

Colaborou com a consultora jurídica da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, Orminda Ribeiro Bastos (1899 – 1971), na redação do programa da FBPF de reivindicações femininas da nova Constituição (Correio da Manhã, 22 de julho de 1933, sexta coluna).

 

 

Defendeu, no Tribunal Superior de Justiça Eleitoral, a causa de Bertha Lutz que pleiteava a suplência geral, pelo critério majoritário, por ter ficado em 11º lugar, e não apenas a diplomação como suplente do Partido Autonomista. Bertha assumiu o mandato em julho de 1936 (A Noite, 5 de setembro de 1933, última coluna).

 

 

Foi uma das signatárias de um manifesto de autoria de Bertha Lutz (1894 – 1976),  apresentado à seção de Legislação da Conferência Nacional de Proteção à Infância. Além dela, assinaram o manifesto a advogada Almerinda Farias Gama (1899 – 1999), a engenheira e urbanista  Carmen Portinho (1903 – 2001) e a tradutora Lina Hirsh (Jornal do Brasil, 23 de setembro de 1933, penúltima colunaCorreio da Manhã, 23 de setembro de 1933, quinta coluna).

Foi eleita consultora jurídica da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (A Noite, 18 de outubro de 1933, quinta coluna).

1934 – Presidia a Liga Eleitoral Independente da Bahia.

A presidente da Federação Alagoana para o Progresso Feminino, Hilda Calheiros, enviou uma carta ao então presidente da república, Getúlio Vargas, pedindo a nomeação de Maria Luiza Doria Bittencourt como representante feminina do Instituto de Amparo Social.

Foi uma das organizadoras da comemoração do Dia Pan-Americano, no restaurante da Casa do Estudante do Brasil, na rua da Carioca 11, 1º andar (A Noite, 10 de abril de 1934, terceira coluna).

No Automóvel Clube do Brasil, a Federação Brasileira para o Progresso Feminino promoveu a Festa da Vitória, celebrando a s conquistas femininas na nova Constituição Brasileira. Representando a União Universitária Feminina, Maria Luiza fez um discurso (Correio da Manhã, 9 de junho de 1934, terceira coluna; Correio da Manhã, 27 de junho de 1934, sétima colunaAs Walkyrias, agosto de 1934; Correio da Manhã, 26 de setembro de 1936, quarta coluna).

 

 

 

discurso

discurso1

 

Participava da Cruzada Nacional de Educação, sob a presidência de Gustavo Ambrust (1879 – 1953) (Correio da Manhã, 17 de junho de 1934, quarta coluna).

Foi eleita primeira secretária do diretório do Partido Autonomista da Paróquia de São José, filiado ao Partido Autonomista do Distrito Federal (Jornal do Brasil, 24 de junho de 1934, quinta coluna).

Criação do Conselho de Previdência e Cultura do Distrito Federal, pleiteado por Bertha Lutz e por Maria Luiza à Assembléia Nacional Constituinte. Em setembro, Maria Luiza foi eleita secretária do Conselho, presidido por Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (A Noite, 12 de julho de 1934, quinta colunaCorreio da Manhã, 18 de setembro de 1934, penúltima coluna; Jornal do Brasil, 23 de setembro de 1934, segunda coluna).

 

 

Representando várias associações femininas,  participou da posse do novo ministro das Relações Exteriores, José Carlos de Macedo Soares (1883 – 1968) (A Noite, 27 de julho de 1934).

Era uma das feministas empenhadas na campanha para interessar a mocidade feminina para o voto (Correio da Manhã, 16 de agosto de 1934, segunda coluna).

Em Salvador, foi promovida, pela Fundação Brasileira pelo Progresso Feminino, a Segunda Convenção Feminista, entre 27 de agosto e 1º de setembro. Na época, Edith Mendes da Gama e Abreu (1903 – 1982) era a presidente da filial baiana da FBPF.

 

 

 

 

Maria Luiza participou elaborando a programação do evento, cujo objetivo foi organizar o programa post-constitucional de reivindicações de pautas do interesse das mulheres e articular as federações femininas existentes no sentido de apontar as candidatas para as eleições de outubro. Foi decidido que a federação promoveria a organização de filiais nos estados, que qualquer cerimônia da federação seria precedida pela execução de um hino cuja letra foi composta por Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (1886 – 1963) e a música, pela maestrina Joanídia Sodré (1903 – 1975). Foi também formulado o Decálogo Feminista com 10 princípios básicos (Correio da Manhã, 15 de agosto de 1934, última colunaJornal do Brasil, 19 de agosto de 1934, sexta colunaA Nação, 1º de setembro de 1934, penúltima coluna; Correio da Manhã, 1º de setembro de 1934, sexta colunaCorreio da Manhã, 4 de setembro de 1934, sexta coluna; Jornal do Brasil, 8 de setembro de 1934, quarta coluna).

 

decalogo

 

Seu nome foi incluído na chapa à Constituinte Estadual do Partido Social Democrático da Bahia, ligado ao interventor do estado Juracy Magalhães (1905 – 2001). Aloisio de Castro afirmou que seu nome foi substituido pelo de Maria Luiza devido a uma recomendação do presidente Getúlio Vargas, fato negado por Juracy (O Jornal, 10 de maio de 1946, quarta coluna). Outras mulheres foram candidatas em outros estados do Brasil (Correio da Manhã, 8 de setembro de 1934, penúltima colunaGazeta de Notícias, 3 de outubro de 1934, segunda coluna).

Maria Luiza embarcou para Salvador em um hidroavião da Panair (Correio da Manhã, 8 de setembro de 1934, oitava coluna; e 25 de setembro e 1934, sexta coluna, de 1934; A Noite, 10 de setembro de 1934, quinta coluna).

 

 

Foi duramente criticada no artigo Feminismo ou burla?, do poeta e advogado Heitor Lima (1887 – 1945), que a chamou de prodigioso papagaio de quitanda, capaz de falar cinco horas a fio sem dizer nada que se aproveite (Correio da Manhã, 29 de setembro de 1934, primeira coluna).

Fez campanha pelo interior da Bahia acompanhada por Juracy Magalhães e, nas eleições de 14 de outubro, Maria Luiza elegeu-se como primeira suplente do deputado estadual e engenheiro Humberto Pacheco Miranda (Correio da Manhã, 4 de outubro de 1934, terceira coluna; Jornal do Commercio, 3 de outubro, terceira coluna; e 8 e 9 de outubro, quarta coluna, de 1934; Correio da Manhã, 22 de novembro de 1934, sétima coluna; Jornal do Commércio, 11 e 12 de fevereiro, terceira coluna, de 1935).

 

 

Foi a advogada de acusação no ruidoso processo de cassação do mandato do deputado Ernesto Pereira Carneiro (1877 – 1954) (A Noite, 9 de novembro de 1934, penúltima coluna).

Na Casa do Estudante do Brasil, instalação dos conselhos patrimoniais e consultivos. Na ocasião, Maria Luiza, membro do conselho consultivo, leu os nomes dos empossados nos conselhos (Correio da Manhã, 29 de dezembro de 1934).

 

 

1935 - Foi uma das assinantes de um manifesto em defesa de Bertha Lutz, acusada de fraude nas eleições de outubro de 1934. Foi cassado o mandato do deputado Ernesto Pereira Carneiro (1877 – 1954) e ordenada a posse de Bertha Lutz, como suplente do Partido Autonomista (Gazeta de Notícias, 29 de dezembro de 1934, primeira coluna; A Noite, 11 de janeiro de 1935, terceira coluna; A Noite, 19 de janeiro de 1935).

 

 

Em maio, com o afastamento de Humberto Pacheco Miranda, nomeado superintendente da Viação Bahiana de São Francisco, Maria Luiza Bittencourt tomou posse como deputada estadual (Correio da Manhã, 9 de maio de 1935, última coluna).

Integrou a Assembleia Constituinte da Bahia e foi uma das responsáveis pela elaboração de seu texto, tendo sido a relatora dos capítulos sobre ordem econômica e social, e também sobre educação (Gazeta de Notícias, 17 de maio de 1935, quarta coluna; Gazeta de Notícias, 14 de agosto de 1935, quinta coluna).

Na Assembleia Legislativa da Bahia, foi uma das nomeadas para integrar a comissão para dar o parecer sobre o orçamento do estado (Gazeta de Notícias, 3 de setembro de 1935, terceira coluna).

O Tribunal Superior de Justiça Eleitoral julgou os últimos recursos e o relatório final sobre o pleito baiano com as alterações decorrentes das eleições suplementares. Os deputados estaduais Waldomiro Lins de Albuquerque  e João Mendes da Costa Filho foram substituidos por Maria Luiza e Gilberto Valente (A Noite, 20 de setembro de 1935, terceira coluna).

Conquistou o prêmio Fellowship da Universidade de Radcliffe, nos Estados Unidos, onde cursou uma especialização em economia social , finanças e racionalização (Diário de Notícias, 10 de setembro de 1935, terceira colunaCorreio da Manhã, 12 de setembro de 1935, primeira coluna).

 

 

Foi homenageada na Casa do Estudante do Brasil (Diário de Notícias, 12 de setembro de 1935).

 

 

1936 - Foi recebida no Itamaraty pelo ministro das Relações Exteriores,  José Carlos de Macedo Soares (1883 – 1968), e embarcou para os Estados Unidos para a Universidade de Radcliffe (Correio da Manhã, 16 de janeiro de 1936, terceira coluna; A Noite, 16 de janeiro de 1935, penúltima coluna).

 

 

Foi elogiada em uma reportagem do New York Sun (Gazeta de Notícias, 6 de fevereiro de 1936, última coluna; Gazeta de Notícias, 18 de fevereiro de 1936, terceira coluna).

 

 

Regressou ao Brasil, em julho (A Noite, 3 de julho de 1936, quarta coluna).

Integrou uma comissão da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino que visitou o presidente da República, Getúlio Vargas (1882 – 1954), no Palácio do Catete. Na pauta, o III Congresso Nacional Feminista, que se realizaria, no Rio de Janeiro, em outubro (Correio da Manhã, 18 de agosto de 1936, terceira coluna).

Por sua indicação, Nair Guimarães Lacerda foi nomeada pelo governador Juracy Magalhães para o cargo de prefeita do município baiano Urandi.

Foi uma das mulheres cujo nome foi cogitado para ingressar na Academia Brasileira de Letras. A primeira mulher imortal foi Rachel de Queiroz (1910 – 2003), eleita 41 anos depois, em 1977 (Fon-Fon, 12 de setembro de 1936).

No Rio de Janeiro, participou do III Congresso Nacional Feminista, realizado entre 20 de setembro e 9 de outubro e, como membro da FBPF, defendeu a proposta de reformulação do estatuto jurídico da mulher brasileira que havia redigido. O documento, que ficou conhecido como o Estatuto da Mulher, foi a base para o projeto de lei apresentado, no ano seguinte, por Bertha Lutz no Legislativo Federal. Foi também decidido, por ideia de Alba Canizares do Nascimento (1893 – 1944), delegada do Distrito Federal, que a FBPF organizaria o movimento panamericano pelo progresso feminino (Correio da Manhã, 4 de outubro, última coluna; 6 de outubro, terceira coluna; 8 de outubro, sétima coluna;  9 de outubro, sexta coluna11 de outubro, sexta coluna, 15 de outubro, quarta coluna, de 1936; A Noite, 9 de outubro de 1936, segunda coluna; Gazeta de Notícias, 15 de setembro de 1936, primeira colunaGazeta de Notícias, 11 de outubro de 1936, sexta coluna).

Integrou a delegação brasileira que foi à Conferência Interamericana de Consolidação da Paz, em Buenos Aires, realizada em dezembro. Antes de partir, foi homenageada pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Durante a conferência, após o discurso do embaixador Oswaldo Aranha, Maria Luiza falou, em nome das Associações Feministas Americanas Pró-Paz. Sua atuação foi elogiada pela imprensa e por seus companheiros de trabalho. Regressou ao Brasil, em 29 de dezembro (A Noite, 9 de novembro de 1936, terceira colunaCorreio da Manhã, 21 de novembro de 1936, terceira coluna; e 27 de novembro, quarta coluna, 6 de dezembro, quarta coluna, 30 de dezembro, sétima coluna, de 1936; A Noite, 19 de dezembro de 1936, primeira colunaA Noite, 24 de dezembro de 1936, segunda coluna; Jornal do Brasil, 16 de dezembro, quinta coluna; Jornal do Brasil, 1º de janeiro de 1937, penúltima coluna).

 

 

1937 - Fez uma palestra sobre A Conferência de Buenos Aires, no Studio Nicolas, promovida pelo Club Universitário do Rio de Janeiro (A Noite, 8 de janeiro de 1937, terceira coluna).

Como um dos membros fundadores, fazia parte do conselho consultivo da Casa do Estudante do Brasil (A Noite, 27 de janeiro de 1937, penúltima coluna).

 

 

Apoiou a candidatura de José Américo de Almeida (1887 – 1980) à Presidência da República, tendo participado da Convenção dos delegados apoiadores do governo, no Palácio Monroe. Recepcionou o candidato em sua viagem à Bahia, durante a qual, no interior do estado, ela e outros integrantes do grupo que o acompanhava tiveram suas carteiras roubadas (A Noite, 25 de maio de 1937, primeira coluna; A Noite, 26 de maio de 1937Correio da Manhã, 26 de maio de 1937, segunda coluna; 25 de agosto, quinta coluna, de 1937; Jornal do Brasil, 29 de agosto de 1937, sexta colunaA Noite, 30 de agosto de 1937, primeira coluna).

 

 

Segundo o Dicionário Mulheres do Brasil, foi dela o último discurso proferido na Assembleia Legislativa da Bahia, cujo tema era a defesa da democracia, antes da instauração do Estado Novo, em 10 de novembro, pelo presidente Getúlio Vargas (1882- 1954), fato que interrompeu sua carreira parlamentar (Correio da Manhã, 11 de novembro de 1937).

Em uma reportagem da Revista da Semana, 11 de janeiro de 1947, foi noticiado que após o golpe do Estado Novo, ela teria sido presa por suas tendências socialistas.

 

 

1938 - Lançamento do livro Trabalho Feminino, de sua autoria.

Participou de um ciclo de palestras no departamento intelectual da União Universária Feminina (Correio da Manhã, 6 de maio de 1938, primeira coluna).

Em um escritório na rua da Quitanda, no centro do Rio de Janeiro, trabalhava como advogada com a feminista sergipana Maria Rita Soares Andrade (1904 – 1998) (Correio da Manhã, 6 de agosto de 1938, sexta coluna).

 

 

Ela e Mrs Stevens, Diretora da União Inter-Americana de Mulheres foram as entrevistadas da reportagem Privilégios para a mulher ou a mulher igual ao homem? (A Noite, 13 de outubro de 1938).

1939 - Foi entrevistada sobre o imposto sobre os solteiros. Na ocasião, estava estudando para dois concursos: ao de livre docência da cadeira de Legislação do Trabalho da Faculdade Nacional de Direito e à cátedra da mesma matéria na Faculdade da Bahia (A Noite, 2 de janeiro de 1939).

 

 

Participou do ciclo de palestras O Brasil visto pelas brasileiras, promovido pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, realizando uma conferência sobre Riqueza e Trabalho, no Palace Hotel (Correio da Manhã, 28 de novembro de 1939, segunda coluna).

 

 

1940 - Presidiu uma sessão do Conselho Consultivo da Casa do Estudante do Brasil (Diário de Notícias, 2 de junho de 1940, quarta coluna).

Durante a festa do Grêmio Literário do Colégio Batista Brasileiro, Maria Luiza, paraninfa do grupo, foi homenageada (A Noite, 13 de setembro de 1940, terceira coluna).

1941 - Foi uma das entrevistadas, a única mulher, sobre a possibilidade de uma paralisação completa das atividades forenses, proposta classificada como necessária por advogados mineiros. Na opinião de Maria Luiza, as férias coletivas seriam contraproducentes: “que cada advogado escolha, todo ano, a época que lhe parecer mais propícia para um repouso” (Diário de Notícias, 22 de julho de 1941, quinta coluna).

Presidiu a comissão julgadora do Concurso de Literatura de 1940, do Colégio Universitário, propriedade de Lelio Gomes. Compunham a comissão o poeta Murilo Araújo (1894 – 1980) e a escritora Maria Sabina de Albuquerque (1898 – 1991). Os prêmios foram ofertados pela Editora José Olympio (Diário de Notícias, 14 de setembro de 1941, terceira coluna).

1942 - Por ocasião da realização da Conferência Continental, no Rio de Janeiro, a União Universitária Feminina, da qual Maria Luiza fazia parte, entregou à delegação americana uma moção de apoio aos princípios que orientavam a solidariedade continental (Jornal do Brasil, 20 de janeiro de 1942, quinta coluna).

Foi a única mulher na lista dos candidatos a professor no concurso que seria realizado na Escola de Comércio do Rio de Janeiro (Diário de Notícias, 10 de julho de 1942, sexta coluna).

Foi uma das oradoras da sessão realizada no Gabinete Português de Leitura. Em pauta, o envolvimento do Brasil na Segunda Guerra Mundial (Jornal do Brasil, 28 de agosto de 1942).

Foi a primeira colocada no concurso para a livre-docência em Legislação do Trabalho e Direito Industrial na Faculdade de Direito da Universidade do Rio de Janeiro, tornando-se a primeira mulher docente da história da referida faculdade. Pela conquista foi homenageada, no Cineac Trianon, com Maria Luisa Castelo Branco e Leda de Albuquerque, que haviam vencido o primeiro prêmio de Peças Teatrais, promovido pelo Ministério do Trabalho (Jornal do Brasil, 25 de novembro de 1942, quinta colunaO Jornal, 28 de novembro de 1942, primeira coluna; Correio da Manhã, 11 de dezembro de 1942; A Noite, 12 de dezembro de 1942, terceira coluna).

 

 

“Porque é principalmente através do Direito que podemos preparar os homens para fazer justiça àqueles que até hoje não têm sido senão párias sociais e só atravé do Direito bem compreendido e bem aplicado se poderá evitar a revolta e a explosão de sentimento de consequências lastimais para a sociedade”

Correio da Manhã de 11 de dezembro de 1942

1943 – Na sede da União Universitária Feminina, foi uma das sócias que recepcionaram Mary Cannon, da Divisão Feminina do Departamento de Trabalho dos Estados Unidos (A Manhã, 8 de janeiro de 1943, penúltima coluna).

Maria Luiza posicionou-se a favor do ensino misto (O Radical, 20 de março de 1943, primeira coluna).

 

 

Na Escola Nacional de Música, participou da Festa Pan-americana, comemorativa do Dia do Juramento Feminino de Lealdade Americana, promovida pela representação brasileira da Confederação Feminina dre Paz Americana, presidida pela escritora Iveta Ribeiro (1886 – 1962) (Correio da Manhã, 21 de abril de 1943, primeira coluna).

Provavelmente, casou-se neste ano, pois em uma reportagem de janeiro de 1944 foi identificada como Maria Luiza Dória Bittencourt Mello Neto (Gazeta de Notícias, 28 de janeiro de 1944, quarta coluna).

1944 - Participou da homenagem póstuma a Rachel Prado (1891 – 1943), pseudônimo da feminista curitibana Virgília Stella da Silva Cruz, fundadora do Clube das Mulheres Jornalistas, realizada no Conservatório de Música (Gazeta de Notícias, 28 de janeiro de 1944, quarta coluna).

 

Rachel Prado (1891 - 1943) / Brasil Feminino, 1933

Rachel Prado (1891 – 1943) / Brasil Feminino, 1933

 

1945 – Foi uma das professoras homenageadas durante a colação de grau dos bacharelandos da Faculdade de Economia e Finanças, realizada no Palácio Tiradentes (Correio da Manhã, 16 de janeiro de 1945, quinta coluna).

Com Natércia da Cunha Silveira (1903 – 1993), Carmen Portinho (1903 – 2001) e Maria Rita Soares de Andrade (1904 – 1998, foi uma das organizadoras de uma coligação democrática para apoiar a candidatura do brigadeiro Eduardo Gomes (1896 – 1981) à presidência da República (Diário de Notícias, 24 de fevereiro de 1945, quinta coluna).

Seu nome estava na lista dos fundadores da UDN – União Democrática Nacional  (O Jornal, 8 de abril de 1945, última coluna; Diário de Pernambuco, 10 de abril de 1945, primeira coluna).

Foi uma das signatárias de um manifesto de apoio de advogados à candidatura de Eduardo Gomes (Diário Carioca, 28 de junho de 1945, última coluna).

Foi uma das oradoras do comício do candidato Eduardo Gomes, em Salvador, na Bahia (Correio da Manhã, 24 de agosto de 1945, quarta coluna; 25 de agosto, primeira coluna; 28 de agosto, terceira coluna; de 1945; Diário de Notícias, 28 de agosto de 1945, quarta coluna).

1946 - Fazia parte da Comissão Pró-Constituição Democrática assim como Evandro Lins e Silva (1912 – 2002), Orígenes Lessa (1903 – 1986) e Oscar Niemeyer (1907 – 2012), dentre outros(Correio da Manhã, 29 de março de 1946, terceira coluna).

Foi uma das mulheres que entregou ao Comitê Parlamentar da Sociedade de Amigos da Democracia Portuguesa uma mensagem endereçada ao presidente de Portugal, Oscar Carmona (1869 – 1951), no sentido de libertar mulheres portuguesas detidas por motivos políticos (Diário Carioca, 11 de maio de 1946, primeira coluna).

Foi escolhida para integrar, como secretária, a comissão executiva da II Convenção Nacional da União Democrátia Nacional, UDN (Correio da Manhã, 15 de maio de 1946, penúltima coluna; O Jornal, 15 de maio de 1946, primeira coluna).

Participou de um comício da Esquerda Democrática no Campo de São Cristóvão e no Largo do Humaitá, em Botafogo; e foi, pelo partido, candidata a vereadora no Distrito Federal. Era, na época, livre docente da Faculdade Nacional de Direito e professora da Faculdade de Administração e Finanças (Diário de Notícias, 20 de novembro, quinta coluna; e 29 de dezembro, penúltima coluna, de 1946; Diário Carioca, 13 de dezembro de 1946, quinta coluna).

 

 

1947 - Participou, com outros candidatos da Esquerda Democrática, de um comício, no Jardim de Marechal Hermes. As eleições gerais foram realizadas em 19 de janeiro, mas Maria Luiza não foi eleita, tendo recebido 55 votos (Revista da Semana, 11 de janeiro de 1947Diário de Notícias, 14 de janeiro de 1947, última coluna; Correio da Manhã, 6 de fevereiro de 1947, quarta coluna).

Participou com várias outras feministas de uma reunião realizada na Casa do Estudante do Brasil. Em pauta, a realização do Congreso Internacional de Mulheres, entre setembro e outubro, em Paris. Foi uma das integrantes do Comitê Brasileiro do Congresso (Diário de Notícias, 18 de julho, quinta coluna; 17 de agosto, terceira coluna, de 1947).

Foi uma das oradoras da comemoração dos 18 anos da Casa do Estudante do Brasil (Diário de Notícias, 9 de agosto de 1947, segunda coluna; Tribuna Popular, 12 de agosto de 1947, sexta coluna; Revista da Semana, 23 de agosto de 1947).

1948 – O escritor pernambucano Mario Sette (1886 – 1950) realizou na Casa do Estudante do Brasil a palestra Velhas estampas que contam as histórias de uma cidade. A sessão foi presidida pelo acadêmico Mucio Leão (1898 – 1969), que foi saudado por Maria Luiza, então diretora da entidade (Diário de Pernambuco, 21 de março de 1948, segunda coluna).

O Curso de Geografia Econômica, ministrado gratuitamente por Maria Luiza, na sede do Partido Socialista Brasileiro, na rua Buenos Aires, 57, seria reiniciado (Correio da Manhã, 15 de maio de 1948, sétima coluna).

1950 – Foi noticiado que Maria Luiza seria uma das candidatas do Partido Socialista Brasileiro para a Câmara Municipal do Rio de Janeiro (Revista da Semana, 11 de março de 1950, segunda coluna).

1951 – Como presidente em exercício da Casa do Estudante do Brasil assinou uma saudação à Embaixada Universitária de Coimbra e ofereceu uma feijoada aos estudantes portugueses (Tribuna da Imprensa, 28 de agosto de 1951, primeira colunaDiário Carioca, 28 de agosto de 1951, sexta colunaA Manhã, 1º de setembro de 1951, antepenúltima coluna).

1952 – Foi noticiado na coluna de Gilberto Trompovski que Maria Luiza havia sido uma das convidadas de uma recepção oferecida por Anna Amélia e Marcos Carneiro de Mendonça (O Jornal, 13 de abril de 1952, segunda coluna).

1954 – Morava em São Paulo e foi identificada em uma matéria do Jornal do Brasil como advogada, esposa e mãe exemplar (Jornal do Brasil, 29 de outubro de 1954, sexta coluna).

1956 – Em uma entrevista, a advogada Maria Rita Soares de Andrade (1904 – 1998), perguntada sobre a possibilidade da mulher exercer uma profissão e ser uma boa mãe de família, declarou: “Não conheço esposa e mãe mais abnegada e heróica do que Maria Luiza Bittencourt, advogada e ex-deputada estadual na Bahia” (Jornal do Brasil, 4 de novembro de 1956).

1961 - Foi a tradutora Introdução à Eloquência, do professor Charles Brown (Jornal do Brasil, 18 de maio de 1961, quinta coluna).

Diretoras da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino disseram ao professor Orlando Gomes, encarregado da reforma do Código Civil que era “uma pena que o presidente da República não tenha constituido um Grupo de Trabalho de advogados mulheres como Maria Luiza Bittencourt e Esther Figueiredo Ferraz para redigir o direito de família” (Tribuna da Imprensa, 9 de agosto de 1961, última coluna).

1964 – Foi noticiado que ela e Maria Rita Soares de Andrade (1904 – 1998) haviam sido as inventariantes de Cecilia Meireles (1901 – 1964) após a morte do primeiro marido da escritora, o artista plástico Fernando Correia Dias (1892 – 1935) (Jornal do Brasil, 11 de novembro de 1964, quarta coluna).

1969 - Integrante do Conselho Patrimonial da Casa do Estudante do Brasil, foi uma das oradoras na comemoração dos 40 anos da entidade, marcada pela reinauguração da Biblioteca Artur Ramos e pela realização de um Almoço de Confraternização Universitária (Correio da Manhã, 14 de agosto de 1969, quarta coluna; O Jornal, 14 de agosto de 1969, segunda coluna; O Jornal, 17 de agosto de 1969, penúltima coluna).

1970 – Escreveu um artigo para a revista Rumo, cuja edição foi dedicada à Casa do Estudante do Brasil (O Jornal, 24 de maio de 1970, quarta coluna).

1979 - No auditório do MEC, Maria Luiza e o engenheiro L.A. Falcão Bauer fizeram palestras sobre o entrosamento profissional entre homens e mulheres dentro da programação da Segunda Reunião Latino-Americana de Mulheres Universitárias (Jornal do Brasil, 11 de dezembro de 1979, quinta coluna).

1981 – Foi entrevistada quando estava, na véspera do Dia de Finados, visitando o Cemitério São João Batista (Jornal do Brasil, 2 de novembro de 1981, terceira coluna).

1983 – Foi citada como uma personalidade importante na conquista dos direitos femininos no Brasil em duas colunas de Alfio Ponzi (1914 – 1985) (Jornal do Commercio, 29 de março, última coluna; e 11 e 12 de setembro, segunda coluna, de 1983).

1988 – Recebeu, na Associação Brasileira de Mulheres Universitárias, o diploma do Mérito Ruy Barbosa da diretoria da Casa da Bahia por ter sido a primeira mulher constituinte da Bahia (Jornal do Brasil, 29 de abril de 1988, segunda coluna).

2001 – Falecimento de Maria Luiza.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ALVES, Branca Moreira, Ideologia e feminismo: a luta das mulheres pelo voto no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1980.

Arquivo Nacional. Série Mulheres e o Arquivo: Maria Luiza Bittencourt, 28 de outubro de 2020.

BONATO, Nailda Marinho da Costa; COELHO, Ligia Martha Coimbra da Costa. CONCEPÇÕES DE EDUCAÇÃO INTEGRAL NA DÉCADA DE 30: AS TESES DO II CONGRESSO INTERNACIONAL FEMINISTA SECOND CONGRESS FEMINIST INTERNATIONAL – 1931 

COSTA, Ana Alice Alcântara. As donas do poder. Mulher e política na Bahia. Salvador: NEIM/UFBa – Assembléia Legislativa da Bahia. 1998 – (Coleção Bahianas; 02)

Faculdade Nacional de Direito – UFRJ

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KARAWEJCZYK, Monica. As filhas de Eva querem votar: uma história da conquista do sufrágio feminino no Brasil. Tese (Doutorado em História), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2013.

LIMA, Thais de Souza. Federação Alagoana pelo Progresso Feminino: a luta pela ampliação da democracia e pelo direito ao voto feminino (1927-1932). 

MARQUES, Teresa Cristina de Novaes. Bertha Lutz – Perfil parlamentar. Brasília : Editora da Câmara

Mulher: 500 anos atrás dos pano

Portal Academia Brasileira de Letras

REGIS, Caren Victorino. A Casa do Estudante do Brasil – O Pavilhão Feminino: uma reivindicação de 1931. Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, dezembro de 2008.

REGIS, Caren Victorino. Relatório científico do subprojeto O ensino superior para as mulheres: concepções da União Universitária Feminina. Rio de Janeiro : UNIRIO, 2008.

SCHUMAHER, Schuma; BRAZIL, Erico Vital (organizadores). Dicionário Mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., 2000.

Site do Senado Federal

VANIN, Iole Macedo. A produção intelectual das médicas formadas na Bahia: o feminismo na tese de Ítala Oliveira. Diásporas, Diversidades, Deslocamentos, 23 a 26 de agosto de 2010.

 

Outros artigos da Série “Feministas, graças a Deus!

Série “Feministas, graças a Deus!” I – Elvira Komel, a feminista mineira que passou como um meteoro, publicado em 25 de julho de 2020, de autoria da historiadora Maria Silvia Pereira Lavieri Gomes, do Instituto Moreira Salles, em parceria com Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” II  – Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993), o jequitibá da floresta, publicado em 20 de agosto de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” III  – Bertha Lutz e a campanha pelo voto feminino: Rio Grande do Norte, 1928, publicado em 29 de setembro de 2020, de autoria de Maria do Carmo Rainha, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” IV  – Uma sufragista na metrópole: Maria Prestia (? – 1988), publicado em 29 de outubro de 2020, de autoria de Claudia Heynemann, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” V – Feminista do Amazonas: Maria de Miranda Leão (1887 – 1976), publicado em 26 de novembro de 2020, de autoria de Maria Elizabeth Brêa Monteiro, mestre em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” VI – Júlia Augusta de Medeiros (1896 – 1972) fotografada por Louis Piereck (1880 – 1931), publicado em 9 de dezembro de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VII – Almerinda Farias Gama (1899 – 1999), uma das pioneiras do feminismo no Brasil, publicado em 26 de fevereiro de 2021, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VIII – A engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001), publicado em 6 de abril de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” IX – Mariana Coelho (1857 – 1954), a “Beauvoir tupiniquim”, publicado em 15 de junho de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XI e série “1922 – Hoje, há 100 anos” VI – A fundação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, publicado em 9 de agosto de 2022, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XII e série “1922 – Hoje, há 100 anos” XI – A 1ª Conferência para o Progresso Feminino, publicado em 19 de dezembro de 2022, de autoria de Maria Elizabeth Brêa Monteiro, historiadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” XIII – E as mulheres conquistam o direito do voto no Brasil!, publicado em 24 de fevereiro de 2023, de autoria de Andrea C T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XIV – No Dia Internacional da Mulher, Alzira Soriano, a primeira prefeita do Brasil e da América Latina, publicado em 8 de março de 2023, de autoria de Andrea C T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XV – No Dia dos Povos Índígenas, Leolinda Daltro,”a precursora do feminismo indígena” e a “nossa Pankhurst, publicado em 19 de abril de 2023, de autoria de Andrea C T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Série “Feministas, graças a Deus” VII – Almerinda Farias Gama (1899 – 1999), uma das pioneiras do feminismo no Brasil

A advogada e sindicalista alagoana Almerinda Farias Gama (1899 – 1999) foi uma das primeiras mulheres negras a atuar na política brasileira numa época em que tanto o machismo como o racismo eram ainda mais presentes na sociedade brasileira do que são hoje. Nasceu em Maceió, em 16 de maio de 1899, passou parte da infância no Pará, onde escreveu para o jornal A Província e formou-se em datilografia. Foi para o Rio de Janeiro, em fevereiro de 1929, quando descobriu que o salário de datilógrafas mulheres eram bem menores do que o dos homens.

 

 

“A inteligência não tem sexo”

 

Assim que chegou à cidade, filiou-se à Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher (FBPM), presidido por Bertha Lutz (1894 – 1976), e iniciou sua luta pela emancipação da mulher, especialmente pelo voto feminino, que para ela uma arma que nós tínhamos para poder ingressar no recinto onde se discutia esses assuntos. Tornou-se uma das pioneiras na história do feminismo brasileiro. Leitora assídua, inspirou-se em grandes mulheres do passado para sua luta pelos direitos femininos.

 

 

Foi de Bertha a ideia de criar o Sindicato dos Datilógrafas e Taquígrafas, reconhecido em 1933, associação da qual Almerinda tornou-se a primeira presidente. Ainda nesse ano, em junho, participou do II Congresso Internacional Feminista, no Automóvel Club, no Rio de Janeiro, organizado pela FBPM.

 

“Eu sempre, por instinto, me revoltei contra a desigualdade de direitos entre homem e mulher”

 

Em 20 de julho de 1933, indicada pelo Sindicato das Datilógrafas e Taquígrafas, como delegada sindical, votou na escolha da bancada classista para a Assembléia Nacional Constituinte de 1934, tendo sido a única representante feminina presente. Compareceu com uma máquina de escrever com a qual, durante a votação, confecciou numerosas chapas para os colegas que as solicitavam. Ainda em 1933, um manifesto de autoria de Bertha Lutz (1894 – 1976) e assinado por ela, por Carmen Portinho (1903 – 2001), pela tradutora Lina Hirsh e pela advogada Maria Luisa Dória de Bittencourt (1910 – 2001) foi apresentado à seção de Legislação da Conferência Nacional de Proteção à Infância. Estava à frente do movimento de renovação cívica Ala Moça do Brasil, uma associação de cunho social e político, instalado em 28 de novembro de 1933, na sede da Ordem Mystica do Pensamento. Na época era bacharelanda de Direito.

Em 18 de fevereiro de 1934, foi inaugurado o Ginásio Almerinda Gama, educandário dirigido por Laurentino Garrido, na rua Maria Emília, nº 50, em São João do Meriti. Foi batizado em homenagem à Almerinda, responsável por uma infatigável agitação das causas do ensino. Ainda em 1934, foi uma das feministas que enviou à Assembleia Nacional o pedido de voto para artigos da futura Constituição que contemplavam os direitos da mulher.

Foi uma das dirigentes do Partido Socialista Proletário do Brasil, fundado em agosto de 1934. Foi candidata à deputada pela legenda Decreto ao Direito ao Trabalho (Congresso Master) nas eleições para a Câmara de Deputados e para o Senado, realizadas em outubro de 1934, mas não foi eleita.

No panfleto de Almerinda, lia-se:

Advogada consciente dos direitos das classes trabalhadoras, jornalista combativa e feminista de ação. Lutando pela independência econômica da mulher, pela garantia legal do trabalhador e pelo ensino obrigatório e gratuito de todos os brasileiros em todos os graus“.

 

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Era também poetisa e participava de saraus no Studio Eros Volusia, boite da rua São José, onde tantas figuras do nosso meio artístico têm recebido os aplausos da elite carioca. Também se apresentou como atriz. Foi professora e tradutora de francês, inglês e espanhol. Publicou, em 1942, o livro de poesias Zumbi, no qual também foi a responsável pelas ilustrações. Em 1943, foi contratada como escrevente do 9º Ofício de Notas, onde trabalhou até 1967. Era a tesoureira da diretoria do Curso Popular Chiquinha Gonzaga, em 1947. Em 1956, trabalhava no jornal O Dia e foi uma das dirigentes dos trabalhos realizados na instalação da Comissão de apoio à Conferência de Mulheres Trabalhadoras, na Associação Brasileira de Imprensa. Em 1992, gravou uma pequena entrevista para a organização feminista ComMulher.

Sua data de morte era até pouco tempo desconhecida e foi revelada pela pesquisa realizada por Patrícia Cibele Tenório para a elaboração de sua dissertação de Mestrado em História, no Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade de Brasília, A trajetória de vida de Almerinda Farias Gama (1899-1999) – feminismo, sindicalismo e identidade política (2020): Almerinda faleceu em 31 de março de 1999, em São Paulo.

 

Cronologia de Almerinda Farias Gama (1899 – 1999)

 

 

1899 – Almerinda Farias Gama nasceu em Maceió, em Alagoas, em 16 de maio de 1899, filha de José Antônio Gama, dono de casas proletárias, e de Eulália da Rocha Gama, dona de casa. Tinha um irmão, o jornalista José da Silva Gama (c. 1891 – 1941) e uma irmã, mais velha do que ela, cerca de dois anos.

c. 1907 – Ficou órfã e, aos oito anos, foi morar com uma tia no Pará. Ficou nove anos sem frequentar nenhuma escola, período em que sua tia a ensinou prendas domésticas, como corte e costura, e música.

c. 1920 – Quando pode receber a herança de seu pai, voltou a estudar, mas já no segundo ano do curso de datilografia custeava seus estudos como monitora. Frequentou a Escola Prática de Comércio, em Belém, e tornou-se datilógrafa profissional (Estado do Pará, 11 de junho de 1920, quarta coluna). Escrevia crônicas para o jornal A Província (PA). 

1923 – Casou-se, em março, com um primo, o poeta e escritor Benigno Farias Gama (c. 1897 – 1925), que contribuia para vários periódicos paraenses, autor dos livros Epopeia acreana e Águas e selvas, dentre outros. Com ele teve um filho, que faleceu de doença não identificada, entre esse ano e 1925.

1925 – Benigno morreu, em 1925, de tuberculose (O Paiz, 20 de dezembro de 1925, quinta coluna).

1929 - Quando descobriu que o salário de datilógrafas mulheres era um terço do que o pago aos homens, mudou-se, em fevereiro, para o Rio de Janeiro.

1930 – Iniciou seu ativismo feminista, filiando-se à Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher (FBPM), presidido pela bióloga Bertha Lutz (1894 – 1976). Integrou a comissão organizadora de uma homenagem da associação ao governador do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine de Faria (1874 – 1956) (A Gazeta, 2 de julho de 1930, quarta coluna).

Recitou poesias na inauguração do Centro de Sócias da FBPM (O Paiz, 17 de setembro de 1930, penúltima coluna).

Publicação da Carta aberta ao senhor Humberto de Campos, de sua autoria, onde questionava o voto contrário do escritor e político ao ingresso das mulheres na Academia Brasileira de Letras (O Jornal, 6 de março de 1930, primeira coluna).

Inaugurou a sessão Perspectivas, dentro  da coluna “Para a mulher no lar”, dirigida por Sylvia Serafim (1902 – 19936), em O Jornal. Sylvia havia assassinado o jornalista Roberto Rodrigues (1906 – 1929), na redação do jornal a Crítica, em 26 de dezembro de 1929. O estopim do crime foi a publicação na primeira página do jornal da notícia do pedido de seu desquite do médico João Thibau Júnior, com quem Silvia tinha dois filhos, acompanhado de um desenho. O jornal a acusava de estar tendo um caso com o médico Manuel Dias de Abreu (1894 – 1962), futuro inventor da abreugrafia. Foi absolvida em agosto de 1930 pelo advogado Clóvis Dunshee de Abranches, de quem Almerinda seria secretária. Em sua crônica inaugural, Almerinda escreveu sobre o caso de uma esposa que depois de seis meses de casamento, por não aguentar os maus tratos do marido, havia se incendiado (O Jornal, 4 de maio de 1930, terceira coluna).

Publicação de seu poema, A Nossa História (O Jornal, 22 de junho de 1930).

 

 

Em suas crônicas na seção Perspectivas, de O Jornal, comentou um caso de incesto seguido de infanticício, do suicídio de uma mulher, a não candidatura de Maria de Lourdes Lamartine à Câmara, dentre outros assuntos (O Jornal, 13 de julho de 1930, terceira coluna; O Jornal, 20 de julho de 1930, terceira coluna; O Jornal, 3 de agosto de 1930, terceira  coluna; O Jornal, 12 de outubro de 1930, terceira coluna; O Jornal, 19 de outubro de 1930, terceira coluna; O Jornal, 2 de novembro de 1930, terceira coluna; O Jornal, 26 de abril de 1931, terceira coluna).

Publicação de um pequeno perfil de Almerinda (O Jornal, 21 de dezembro de 1930).

Publicação de uma pequena crônica de sua autoria, Films do écran e da plateia (A Esquerda, 6 de dezembro de 1930, segunda coluna). No mesmo jornal, publicou o artigo Cultura Feminina, no qual critica a falta de estímulo, no Brasil, para a publicação de livros escritos por mulheres; e também a posição da Academia Brasileira de Letras que, alegando tradição, não aceitava mulheres (A Esquerda, 13 de dezembro de 1930, penúltima coluna).

Acompanhou a escritora Sylvia Serafim (1902 – 1936) em uma viagem à Belo Horizonte (A Esquerda, 18 de dezembro de 1930, quarta coluna).

Foi publicado na edição de dezembro da Revista A.E.C, da Associação dos Empregados do Comércio, um artigo de sua autoria, A doutrina de Malthus (Correio da Manhã, 27 de dezembro de 1930, segunda coluna).

1931 – Por ideia de Bertha Lutz (1894 – 1976), criação do Sindicato dos Datilógrafas e Taquígrafas, do qual Almerinda foi a primeira presidente.

Trabalhava como auxiliar no 9º Cartório, na rua do Rosário (Almanak Laemmert, 1931).

Publicou o artigo Cartas sem endereço (O Jornal, 11 de janeiro de 1931, terceira coluna).

Ela e Sylvia Serafim (1902 – 1936) foram entrevistadas pelo jornal A Batalha. Em pauta, a concessão de direitos políticos da mulher (A Batalha, 13 de março de 1931, primeira coluna).

Suas observações acerca da moda foram citadas no artigo No império da moda (O Jornal, 29 de março de 1931, primeira coluna).

Publicação de seu poema Da tristeza que mora nos meus olhos (O Jornal, 12 de abril  de 1931A Batalha, 19 de abril de 1931).

 

 

Foi uma das filiadas da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino que encantaram com belos números de arte as participantes da celebração do Dia do Trabalho, organizado pela associação (A Noite, 4 de maio de 1931, primeira coluna).

Publicação de seus poemas Moderna afronta e Felicidade (O Jornal, 17 de maio de 1931, penúltima coluna; O Jornal, 31 de maio de 1931, prenúltima coluna).

Em junho, participou do II Congresso Internacional Feminista, no Automóvel Club, no Rio de Janeiro, organizado pela FBPM (O Jornal, 19 de junho de 1931, primeira coluna; Correio da Manhã, 24 de junho de 1931, primeira colunaO Malho, 27 de junho de 1931O Malho, 11 de julho de 1931Vida Doméstica, agosto de 1931). Com um grupo de senhoras que participavam do encontro, foi visitar a Usina de Ribeirão das Lajes, a convite da Rio de Janeiro Light & Power. Depois, visitaram a Maternidade Suburbana, em Cascadura (Jornal do Commercio, 30 de junho de 1931, última coluna).

Publicação do conto Tatuagem, de sua autoria (O Jornal, 6 de setembro, segunda colunaRevista da Semana, 12 de setembro de 1931).

Cartões ilustrados com versos da poetisa  Almerinda Gama e de outros nomes em evidência nos meios literários foram distribuídos como propaganda da Suipa, Sociedade União Infantil Protetora dos Animais. Na reunião organizadora dessa associação, realizada na Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher, Almerinda foi eleita secretária da diretoria provisória (A Esquerda, 7 de setembro de 1931, quinta coluna).

Trabalhava como secretária no escritório do advogado Clóvis Dunshee de Abranches (Jornal do Brasil, 16 de setembro de 1931, quarta coluna).

Foi a responsável pela leitura na Rádio Sociedade nos cinco minutos feministas de um texto de autoria de Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (1886-1963), vice-presidente da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino (Diário de Notícias, 23 de setembro de 1931, terceira coluna).

1932 O Decreto nº 21.076, de 24 de fevereiro de 1932, instituiu o Código Eleitoral Provisório e reconheceu o direito de voto às mulheres.

Por iniciativa do Congresso Feminino de 1931 foi criada uma data para a comemoração do Dia das Mães. O Decreto nº 21.366, de 5 de maio de 1932, assinado pelo presidente Getúlio Vargas (1884 – 1954), consagrou o segundo domingo de maio para a celebração anual da data no Brasil. No primeiro ano de sua comemoração, Almerinda escreveu um artigo sobre a importância da efeméride (Diário de Notícias, 24 de abril de 1932, penúltima coluna).

Publicação do poema de sua autoria Meu amor é a incarnação do vento (Diário de Notícias, 21 de agosto de 1932).

 

 

Ela, Alice Coimbra e Sylvia Patrício formavam a comissão nomeada pela Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher para atender à solicitação do Centro Cândido de Oliveira no sentido de combater o sensacionalismo na repressão ao crime (Correio da Manhã, 23 de setembro de 1932, última coluna).

Almerinda esteve na redação do jornal A Batalha para falar sobre a conquista do voto da mulher e sobre o alistamento eleitoral feminino (A Batalha, 24 de setembro de 1932, penúltima coluna).

Publicação do artigo Divórcio: um bem ou um mal?, de sua autoria (Diário de Notícias, 30 de novembro de 1932, penúltima coluna).

Foi publicado o artigo Lendas Amazonenses – A Gênese das Frutas, de sua autoria (Diário de Notícias, 4 de dezembro de 1932, penúltima coluna).

Publicação de seu artigo Feminismo e Serviço Militar (Diário de Notícias, 9 de dezembro de 1932, penúltima coluna).

Escreveu um artigo sobre Eros Volúsia (1914 – 2004), filha dos poetas Rodolfo de Melo Machado (1884 – 1923) e Gilka Machado (1893 – 1980), uma dançarina arrojada, que se notabilizou por suas coreografias inspiradas na cultura brasileira (Diário de Notícias, 11 de dezembro de 1932, primeira coluna).

 

 

1933 - Publicação de seu poema Meu Carnaval (Diário de Notícias, 5 de março de 1933, penúltima coluna).

Publicação do poema Ele falou, de sua autoria (Diário de Notícias, 19 de março de 1933, penúltima coluna).

Participou, como secretária, da Convenção Nacional de Eleitoras, realizado na sede da Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher, quando foi lançada pela educadora Alba Canizares (1893 – 1944) a candidatura de Bertha Lutz (1894 – 1976) à Constituinte.

 

 

Diversas feministas estavam presente no evento, dentre elas a engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001), Orminda Ribeiro Bastos (1899-1971), Maria Luisa Dória Bittencourt (1910 – 2001), Maria Sabina de Albuquerque (1898 – 1991), filha do cientista João Pedro de Albuquerque (1874 – 1934) ; e Maria Eugênia Celso Carneiro de Mendonça (1886-1963) (Diário de Notícias, 4 de abril de 1933, primeira colunaO Dia (PR), 4 de abril de 1933, primeira coluna; Jornal do Commercio, 5 de abril de 1933, segunda coluna; Diário de Notícias, 5 de abril de 1933).

 

 

Publicação de uma poesia de Almerinda em homenagem à poetisa Gilka Machado (1893 – 1980) (O Malho, 15 de abril de 1933).

 

 

 

Participou como atriz da peça inédita Rumo à Turquia, de Jorge Murad (1910 – 1998), apresentada no Studio Eros Volusia, boite da rua São José, onde tantas figuras do nosso meio artístico têm recebido os aplausos da elite carioca (A Noite, 20 de abril de 1933, terceira coluna).

 

 

Participou de mais uma tarde de arte do Studio Eros Volúsia e seu melhor número foi a apresentação da lenda amazonense do boto (Diário de Notícias, 30 de abril de 1933, primeira coluna). Meses depois, Almerinda voltou a se apresentar no Studio Eros Volusia, recitando as poesias de sua autoria O inverno chegou e O que eu pediria ao amor (Correio de Manhã, 12 de julho de 1933, primeira coluna).

Publicação de seu poema, Viandante que passas…, ilustrado por Odelli Castello Branco(Diário de Notícias, 21 de maio de 1933).

Reconhecimento pelo Ministério do Trabalho do Sindicato de Datilógrafas e Taquígrafas, do qual Almerinda era presidente (O Radical, 3 de junho de 1933, primeira coluna).

Em 20 de julho de 1933, indicada pelo Sindicato das Datilógrafas e Taquígrafas, como delegada sindical, votou na escolha da bancada classista para a Assembléia Nacional Constituinte de 1934, tendo sido a única representante feminina presente. Compareceu com uma máquina de escrever com a qual, durante a votação, confecciou numerosas chapas para os colegas que as solicitavam (A Nação, 21 de julho de 1933, segunda coluna; O Radical, 21 de julho de 1933, última coluna; Jornal do Commercio, 21 de julho de 1933, primeira coluna; A Batalha, 21 de julho de 1933, primeira coluna).

 

 

Publicação da poesia Fogueira, de sua autoria (O Malho (RJ), 3 de agosto de 1933).

 

 

Pronunciou-se, em reunião presidida por ela na Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher, sobre a situação das garçonetes, devido à execução do decreto 24.417, de 17 de maio de 1932, proibindo o trabalho de mulheres em estabelecimentos públicos após as 22h (A Noite, 19 de agosto de 1933, penúltima coluna).

 

 

Um manifesto de autoria de Bertha Lutz (1894 – 1976) e assinado por ela, por Carmen Portinho (1903 – 2001), pela tradutora Lina Hirsh e pela advogada Maria Luisa Dória de Bittencourt (1910 – 2001), que em 1935 tornou-se a primeira deputada estadual da Bahia; foi apresentado à seção de Legislação da Conferência Nacional de Proteção à Infância (Jornal do Brasil, 23 de setembro de 1933, penúltima colunaCorreio da Manhã, 23 de setembro de 1933, quinta coluna).

Publicação de seu poema Cântico de Yara, ilustrado por Odelli (Correio de Manhã, 24 de setembro de 1933, primeira coluna).

Foi uma das oradoras na celebração do primeiro ano de fundação do partido político Centro Cívico 4 de Novembro, no Sindicato dos Proprietários de Padarias. O partido havia sido fundado em 11 de novembro de 1932 (O Radical, 7 de novembro de 1933, penúltima coluna).

Estava à frente do movimento de renovação cívica Ala Moça do Brasil, uma associação de cunho social e político, instalado em 28 de novembro de 1933, na sede da Ordem Mystica do Pensamento, na avenida Suburbana, nº 2.618. Na época era bacharelanda de Direito (Diário da Noite, 24 de novembro de 1933, segunda coluna; Jornal do Brasil, 24 de novembro de 1933, quinta coluna; A Batalha, 30 de novembro de 1933, segunda coluna).

 

 

Era a encarregada, no Brasil, de prestar informações sobre o concurso que a Nero History Society promovia para estudantes matriculados em universidades, escolas secundárias e de ensino superior da América do Sul, América Central, México, Antilhas e ilhas adjacentes ao continente sul-americano (Jornal do Brasil, 29 de dezembro de 1933, última coluna).

1934 – Como presidente da Ala Moças do Brasil participou de uma reunião da sede do jornal O Proletário, em São João do Meritipara a discussão de providências em relação à educação e à saúde da classe de trabalhadores  do referido bairro. Almerinda providenciaria junto ao interventor do Estado do Rio, o comandante Ari Parreiras (1890 – 1945), a abertura de dois postos de socorro para o atendimento de trabalhadores em São João do Meriti, José Bulhões e Xerém. Também pediria que o Ginásio Almerinda Gama fosse aberto no dia 21 de janeiro. Lá funcionaria um educandário para crianças pobres de ambos os sexos, dirigido por Laurentino Garrido. Antônio Hermont havia cedido um barracão na rua Maria Emília, nº 50, em São João do Meriti, para sediá-lo (O Paiz, 3 de janeiro de 1934, última coluna). A inauguração do ginásio aconteceu em 18 de fevereiro, foi batizado em homenagem à Almerinda, responsável por uma infatigável agitação das causas do ensino (A Batalha, 17 de fevereiro de 1934, segunda coluna; Jornal do Brasil, 17 de fevvereiro de 1934, terceira coluna; Correio da Manhã, 17 de fevereiro de 1934, segunda coluna).

Participou da recepção oferecida pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino à jornalista norte-americana Marjorie Schuler (O Paiz, 17 de janeiro de 1934, terceira coluna).

Foi uma das feministas que enviou à Assembleia Nacional o pedido de voto para artigos da futura Constituição que contemplavam os direitos da mulher (Jornal do Brasil, 23 de março de 1934, penúltima coluna).

Publicação do artigo Casamentos para todos os gostos, de sua autoria (A Batalha, 10 de junho de 1934, primeira coluna).

Participou da homenagem prestada pela Federação Brasileira pelo Progresso da Mulher ao poeta paraibano Antônio Joaquim Pereira da Silva (1876 – 1944) admitido na Academia Brasileira de Letras (Jornal do Commercio, 23 de junho de 1934, terceira coluna).

Falando em nome do Sindicato das Datilógrafas e Taquígrafas e de outros sindicatos de trabalhadores do Rio de Janeiro, Almerinda fez um discurso, muito aplaudido, durante a inauguração da sede do Sindicato dos Vendedores Lotéricos, no Beco das Cancelas, nº 8. O interventor do Distrito Federal, Pedro Ernesto (1884 – 1942), estava presente na solenidade (O Paiz, 5 de julho de 1934, quinta coluna).

Dentre outras, ela, Bertha Lutz (1894 – 1976) e Carmen Portinho (1903 – 2001) foram referidas como pioneiras do feminismo no Brasil (Walkyrias, agosto de 1934).

Foi uma das dirigentes do Partido Socialista Proletário do Brasil, fundado em agosto de 1934 até 1937, quando foi instaurado o Estado Novo (Diário da Noite, 4 de agosto de 1934, segunda coluna).

 

 

Já formada em Direito, foi candidata à deputada pela legenda Decreto ao Direito ao Trabalho (Congresso Master) nas eleições para a Câmara de Deputados e para o Senado, realizadas em outubro de 1934. Por esse motivo foi afastada do Partido Socialista Proletariado do Brasil (Diário de Notícias, 22 de setembro de 1934, terceira coluna).

A outra mulher que também concorreu pelo partido foi Guilly (Jornal do Brasil, 27 de setembro de 1934, quinta coluna; Jornal do Brasil, 5 de outubro de 1934, terceira coluna; Jornal do Brasil, 9 de outubro de 1934, quarta coluna). Não foram eleitas.

No panfleto de Almerinda, lia-se:

 

Advogada consciente dos direitos das classes trabalhadoras, jornalista combativa e feminista de ação. Lutando pela independência econômica da mulher, pela garantia legal do trabalhador e pelo ensino obrigatório e gratuito de todos os brasileiros em todos os graus“.

 

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1935Passou a viver com um engenheiro com quem teve um filho, mas ambos faleceram antes dela.

1936 – Publicação de seus poemas Passeio de Automóvel e Aspiração (A Gazeta (SC), 25 de setembro de 1936; A Gazeta (SC), 26 de setembro de 1936).

 

 

 

1937 – Identificada como conhecedora de altos ensinos esotéricos, Almerinda proferiu a palestra Viver para si, na Tattwa Fraternidade Exotérica (A Nação, 21 de fevereiro de 1937, quinta coluna).

Participou e foi uma das oradoras de uma festa em homenagem a Catulo da Paixão Cearense (1863 – 1946), na casa do compositor, em Engenho de Dentro (Gazeta de Notícias, 25 de agosto de 1937, segunda coluna).

Foi identificada como uma das nossas poetisas humoristas mais interessantes. Um de seus textos, Corrida da bicicleta, foi lido pelo poeta Renato Lacerda, no programa radiofônico Hora do Guri, na Rádio Tupi (Gazeta de Notícias, 29 de agosto de 1937, primeira coluna)

1938 – Escreveu as crônicas  Raça, Eu e o meu Brasil e Mamãe (A Notícia (SC), 1º de maio de 1938, penúltima coluna; A Notícia, 3 de maio de 1938, terceira coluna; A Notícia (SC), 22 de junho de 1938, penúltima coluna).

1939 – Era professora em um estabelecimento de ensino particular (Jornal do Brasil, 8 de agosto de 1939, terceira coluna).

1941 – Foi publicado um anúncio em que Almerinda oferecia seus serviços de datilógrafa, de redatora e de tradutora de francês, inglês e espanhol (Jornal do Brasil, 23 de junho de 1940, sétima coluna; Jornal do Brasil, 5 de janeiro de 1941, sexta coluna).

Ela e S. Moura ofereciam cursos de datilografia e caligrafia individual ou coletivo, na Escola Prática de Comércio Avalfred, de dia e à noite (Jornal do Brasil, 12 de janeiro de 1941, sexta coluna).

Almerinda anunciou realizar cópias a máquina em qualquer língua (Jornal do Brasil, 13 de abril de 1941, sétima coluna). No ano seguinte, voltou a anunciar seus serviços (Jornal do Brasil, 7 de junho de 1942, quarta coluna).

Enviou um telegrama felicitando o presidente da República, Getúlio Vargas (1884 – 1954), pela promulgação da lei de proteção à família (Jornal do Commercio, 7 de maio de 1941, primeira coluna).

Falecimento de seu irmão, José da Silva Gama (c. 1891 – 1941) (Diário da Noite, 11 de setembro de 1941, última coluna).

1942 – Publicação do artigo de sua autoria, Não quero ser doutor (Jornal das Moças, 6 de agosto de 1942).

Publicou, em 1942, o livro de poesias Zumbi. Foi também a responsável pelas ilustrações (Careta, 30 de janeiro de 1943).

 

 

Ofertou 15 exemplares do livro Zumbi para o leilão promovido pelo Diário da Noite para a compra do  Arará, um avião Catalina PBY-5 da Força Aérea Brasileiraque se tornaria o primeiro avião brasileiro a afundar um submarino do Eixo, o U-199, ao largo da costa do Rio de Janeirom, em 31 de julho de 1943. Foi batizado Arará em homenagem ao navio de carga brasileiro homônimo que havia sido torpedeado no litoral da Bahia, em 17 de agosto de 1943, pelo submarino alemão U-507 (Diário da Noite, 25 de setembro de 1942, sexta coluna).

 

 

1943 - Zumbi foi inscrito para concorrer ao Prêmio Olavo Bilac da Academia Brasileira de Letras (Jornal do Commercio, 24 de junho de 1943, última coluna).

Foi membro da Associação dos Escreventes da Justiça do Distrito Federal, tendo sido nomeada escrevente juramentada do Tabelião do 9º Ofício de Notas. Desde o ano anterior ocupava o cargo, interinamente (Diário de Pernambuco, 16 de julho de 1943, segunda colunaGazeta de Notícias, 2 de fevereiro de 1944, segunda coluna).

 

 

1944 – Seu poema, Como é triste a prisão, fez parte da programação do festival da bailarina de oito anos, Sally Loretti (c. 1934 -?), no Teatro Carlos Gomes (Jornal do Brasil, 14 de maio de 1944, quinta coluna). No mesmo ano, a canção Quem chora comigo, música de Hilda Matos e letra de Almerinda, foi apresentada na edição do festival de Sally Loretti em benefício do músico Assis Valente (1911 – 1958), que estava doente (A Noite, 19 de novembro de 1944, primeira coluna).

1946- Publicação do poema Figurinha de Quadro Americana, de sua autoria (O Jornal, 12 de maio de 1946).

 

 

1947 - Participou da festa de arte no Esporte Clube Minerva, promovida pela escritora Hecilda Clark (1909 – ?) e Leocádia Silva, presidentes das Uniões Femininas Lapa-Esplanada do Senado e Catumbi-Rio Comprido, respectivamente (Tribuna Popular, 10 de junho de 1947, penúltima coluna).

Era a tesoureira da diretoria do Curso Popular Chiquinha Gonzaga, na rua do Riachuelo, sob a responsabilidade jurídica de Hecilda Clark (1909 – ?). Participou de um show em benefício da criação de um ambulatório popular promovido pela entidade e também de uma festa de artistas na sede da Associação Cristã dos Moços, na rua Araújo Porto Alegre, nº 36 (Diário de Notícias, 7 de junho de 1947, terceira coluna; Diário de Notícias, 12 de junho de 1947, quinta colunaDiário Carioca, 12 de novembro de 1947, sexta coluna; Jornal do Commercio, 26 de novembro de 1947, primeira coluna).

1949 – A entrevista que deu ao Diário de Notícias sobre a oficialização da Justiça foi manchete de primeira página: Justiça para o povo é gênero de primeira necessidade (Diário de Notícias, 22 de maio de 1949).

 

 

1955 - Foi uma das jornalistas que assinou um telegrama enviado ao presidente da República reclamando a inscrição na Ordem do Mérito Aeronáutico do nome de Victorino de Oliveira (1882 – 1964), idealizador e fundador, em 14 de outubro de 1911, do Aeroclube do Brasil. Ele havia sido redator do jornal A Noite (Correio da Manhã, 19 de outubro de 1955, quarta colunaDiário Carioca, 20 de janeiro de 1962, primeira coluna).

1956 - Foi uma das dirigentes dos trabalhos realizados na instalação da Comissão de apoio à Conferência de Mulheres Trabalhadoras, na Associação Brasileira de Imprensa. Trabalhava no jornal O Dia (Imprensa Popular, 28 de janeiro de 1956, penúltima coluna).

1958 – Foi acusada de ter cometido irregularidades como escrevente em uma escritura de compra e venda de imóvel, em Caxias, do qual seria a beneficiada. Teria falsificado a assinatura de Hans Bertold Stochaussen, falecido em 8 de julho de 1947. A Comissão de Investigações levou o inquérito para a Corregedoria. Almerinda sempre afirmou que a transação havia sido legal, o que disse que provaria em juízo (Jornal do Brasil, 15 de outubro de 1958, terceira coluna; A Noite, 7 de março de 1961, quinta colunaCorreio da Manhã, 9 de outubro de 1964, quinta coluna).

1961 – Publicação do artigo Sapato – Artigo de Luxo, de sua autoria, sobre a incidência de verminoses nos trabalhadores (O Dia (PR), 19 de abril de 1961).

1964 – Publicação de O dedo de Luciano, de autoria de Almerinda. A iniciativa foi da Companhia Antárctica Paulista que o distribuiria gratuitamente em todo o país como contribuição à divulgação dos ensinamentos de higiene, em benefício da saúde pública (Jornal do Brasil, 18 de novembro de 1964, última coluna).

1967 - Almerinda foi demitida do cargo de escrevente juramentada do 9º Ofício de Notas (Correio da Manhã, 16 de março de 1967, segunda coluna).

1984 - Em 8 de junho de 1984, foi entrevistada por Angela Maria de Castro Gomes e Eduardo Navarro Stotz no contexto do projeto “Velhos Militantes”, em vigência entre os anos de 1983 e 1986, sendo parte integrante do livro homônimo publicado pela Zahar Editores em 1988. A escolha da entrevistada se justificou por sua atuação como militante de movimento feminista nos anos de 1930 e de movimento sindical pró-Getúlio Vargas (FGV – CPDOC).

1989 - Publicação de uma foto de Almerinda votando no segundo turno da eleição presidencial (Jornal do Brasil, 18 de dezembro de 1989).

 

 

1991 – Foi entrevistada por Joel Zito de Araújo (1954 – ) que produziu e dirigiu com Ângela Freitas o média-metragem Almerinda, uma Mulher de Trinta (1991), premiado no Festival Guarnicê de Cinema, realizado no Maranhão.

1992 - Gravou uma pequena entrevista para o documentário Memória de Mulheres, dirigido por Maria Angélica Lemos (1958 – ), para a organização feminista ComMulher. Na época, morava em uma casa em um subúrbio carioca. É a última notícia que se tem de Almerinda.

 

 

1999 - Sua data de morte era até pouco tempo desconhecida e foi revelada pela pesquisa realizada por Patrícia Cibele Tenório para a elaboração de sua dissertação de Mestrado em História, no Programa de Pós-Graduação em História, da Universidade de Brasília, A trajetória de vida de Almerinda Farias Gama (1899-1999) – feminismo, sindicalismo e identidade política (2020): Almerinda faleceu em 31 de março de 1999, em São Paulo.

2016 – Foi instituído pela prefeitura de São Paulo o Prêmio Almerinda Farias Gama, de incentivo a iniciativas em comunicação social ligadas à defesa da população negra.

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Veja aqui o documentário Almerinda, a luta continua, dirigido por Cibele Tenório e produzido pela FGV CPDOC Núcleo de Audiovisual e Documentário

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Fontes:

 

Almerinda, uma mulher de 30 Produção: Tapiri Vídeos, SOS CORPO/ TV VIVA – A Sua Imagem/CCLF Direção: Angela Freitas e Joel Zito Araújo, 1991.

Blog Mulheres Notáveis

Almerinda, a luta continua. Filme realizado na 2ª Oficina de Produção Audiovisual do Núcleo de Audiovisual e Documentário FGV/CPDOC. Direção: Cibele Tenório

DEL PRIORE, Mary (Org.). História das mulheres no Brasil. Coordenação de textos de Carla Bassanesi. São Paulo: Contexto, 1997

DEL PRIORI, Mary. História e conversas de mulher. São Paulo: Planeta Brasil, 2014

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

HEYNEMANN, Claudia; RAINHO, Maria do Carmo. Memória das lutas feministas in Brasiliana Fotográfica, 8 de agosto de 2017.

Marques, Teresa Cristina de Novaes. “Enfim, eleitoras”. O voto feminino no Brasil 2ª ed. Brasília: Edições Câmara, 2018.

PINTO, Celi Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo (coleção história do povo brasileiro) 2003.

SCHUMAHER, Schuma; BRAZIL, Erico Vital (organizadores). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., 2000.

Site CPDOC

Site Democracia e Mundo do Trabalho

Site Festival Guarnicê de Cinema

Site Mulher 500 anos atrás dos panos

Site Poder Naval

TENÓRIO, Patrícia Cibele da Silva. A vida na ponta dos dedos: A trajetória de vida de Almerinda Farias Gama (1899-1999) – feminismo, sindicalismo e identidade política. Dissertação (Mestrado em História) – Programa de Pós-Graduação em História, Universidade de Brasília. Brasília, 2020.

 

Outros artigos da Série “Feministas, graças a Deus!

Série “Feministas, graças a Deus!” I – Elvira Komel, a feminista mineira que passou como um meteoro, publicado em 25 de julho de 2020, de autoria da historiadora Maria Silvia Pereira Lavieri Gomes, do Instituto Moreira Salles, em parceria com Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” II  – Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993), o jequitibá da floresta, publicado em 20 de agosto de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” III  – Bertha Lutz e a campanha pelo voto feminino: Rio Grande do Norte, 1928, publicado em 29 de setembro de 2020, de autoria de Maria do Carmo Rainha, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” IV  – Uma sufragista na metrópole: Maria Prestia (? – 1988), publicado em 29 de outubro de 2020, de autoria de Claudia Heynemann, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” V – Feminista do Amazonas: Maria de Miranda Leão (1887 – 1976), publicado em 26 de novembro de 2020, de autoria de Maria Elizabeth Brêa Monteiro, mestre em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” VI – Júlia Augusta de Medeiros (1896 – 1972) fotografada por Louis Piereck (1880 – 1931), publicado em 9 de dezembro de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VIII – A engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001), publicado em 6 de abril de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” IX – Mariana Coelho (1857 – 1954), a “Beauvoir tupiniquim”, publicado em 15 de junho de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” X – Maria Luiza Dória Bittencourt (1910 – 2001), a eloquente primeira deputada da Bahia, publicado em 25 de março de 2022, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XI e série “1922 – Hoje, há 100 anos” VI – A fundação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, publicado em 9 de agosto de 2022, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XII e série “1922 – Hoje, há 100 anos” XI – A 1ª Conferência para o Progresso Feminino, publicado em 19 de dezembro de 2022, de autoria de Maria Elizabeth Brêa Monteiro, historiadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” XIII – E as mulheres conquistam o direito do voto no Brasil!, publicado em 24 de fevereiro de 2023, de autoria de Andrea C T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XIV – No Dia Internacional da Mulher, Alzira Soriano, a primeira prefeita do Brasil e da América Latina, publicado em 8 de março de 2023, de autoria de Andrea C T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XV – No Dia dos Povos Índígenas, Leolinda Daltro,”a precursora do feminismo indígena” e a “nossa Pankhurst, publicado em 19 de abril de 2023, de autoria de Andrea C T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” V – Feminista do Amazonas: Maria de Miranda Leão (1887 – 1976)

Série “Feministas, graças a Deus!” V – Feminista do Amazonas: Maria de Miranda Leão (1887 – 1976)

 

Maria de Miranda Leão (1887 – 1976), pioneira na participação feminina na política da região Norte do Brasil, eleita pela Liga Católica, em 1934, deputada estadual na Assembleia Constituinte (1935-1937), é o personagem do quinto artigo da série “Feministas, graças a Deus!, escrito pela pesquisadora Maria Elizabeth Brêa Monteiro, do Arquivo Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica. A feminista Maria de Miranda Leão foi professora, enfermeira e assistente social, tendo vinculado sua vida com talento e cultura ao ensino e à solidariedade. Em dezembro de 1922, foi uma das fundadoras de Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, seção Amazonas, meses após a fundação da FBPF, iniciativa de Bertha Lutz (1894 – 1976), em 9 de agosto do mesmo ano.

Foi descrita em uma matéria do Jornal do Brasil de 1936 como “Uma dessas inteligências femininas que se sente ao contato do seu verbo fluente, emotivo, todo saturado por esse amor imenso esse encanto arrebatado pela natureza mágica e caraterística da Amazônia.” Segundo Maria Elizabeth Brêa Monteiro, na fotografia destacada nesse artigo, produzida pela Photographia Alemã, “é possível perceber um perfil de austeridade que parece caracterizar a vida pública de Maria de Miranda e suas vinculações fortes com a igreja católica e com uma ação assistencial”.

 

Feminista do Amazonas: Maria de Miranda Leão

Maria Elizabeth Brêa Monteiro*

 

Conclamando as mulheres à paz e à guerra, Maria de Miranda Leão proferiu seu discurso na sessão inaugural do 3º Congresso Nacional Feminista, realizado na sede do Automóvel Club, no Rio de Janeiro, entre os dias 1°e 8 de outubro de 1936. Delegada da Liga Católica do Amazonas junto ao Congresso Eucarístico Nacional e designada representante da Federação Amazonense pelo Progresso Feminino e de outras agremiações de Manaus pelo governador Álvaro Maia para o Congresso Nacional Feminino [1], o Jornal do Brasil em sua edição de 2 de outubro de 1936 descreve Maria de Miranda como “uma dessas inteligências femininas que se sente ao contato do seu verbo fluente, emotivo, todo saturado por esse amor imenso esse encanto arrebatado pela natureza mágica e caraterística da Amazônia.”[2]

Maria de Miranda Leão nasceu em 1887 em uma família de longa atuação no Amazonas nos vários setores da atividade humana: no magistério, no comércio, nas ciências, na política. O patriarca, coronel José Coelho de Miranda Leão, foi deputado que havia se notabilizado por combater os cabanos em Mundurucânia, em 1839. Era filha do professor e jornalista Manoel de Miranda Leão, deputado provincial da Assembleia Legislativa (1886) e um crítico do cenário da instrução pública no Amazonas, identificando a falta de experiência e de dedicação no magistério como um dos principais problemas a enfrentar. Professora, enfermeira, assistente social e uma pioneira na participação feminina na política da região Norte, Maria de Miranda primou, segundo Agnello Bittencourt, pelo talento e pela cultura, tendo vinculado sua vida ao ensino e à caridade.[3]

Ingressou, em 1922, no Serviço Federal de Profilaxia Rural e nesse mesmo ano criou a Sociedade de Amparo à Maternidade e à Infância, núcleo que deu origem ao Hospital Infantil Casa Dr. Fajardo, onde trabalhou como enfermeira e chefe dos serviços internos.

A partir das primeiras décadas do século XX, Manaus não mais se assemelhava à Paris dos Trópicos dos anos de pujança da exportação da borracha. A derrocada do comércio extrativista impeliu levas de seringueiros a se dirigirem com suas famílias para as cidades que enfrentavam as consequências da depressão econômica, assoladas por doenças como paludismo, verminose, disenteria, enterite, gripe e outras. Nesse contexto as crianças compunham o grupo mais vulnerável, identificado no elevado índice da mortalidade infantil. Todavia, o estado do Amazonas e, em particular, a cidade de Manaus não possuíam uma instituição oficial de atendimento hospitalar exclusivo para crianças. Esse atendimento era realizado pela Casa Dr. Fajardo, instituição particular, fundada em 1922 pelo médico Samuel Uchôa, diretor do Serviço de Profilaxia Rural do Amazonas, com a finalidade de receber crianças órfãs ou desamparadas acometidas por paludismo e verminose. Além do tratamento médico prestado, essa instituição tinha uma preocupação pedagógica, principalmente em relação às questões de higiene das crianças e das famílias, no intuito de resgatá-las de uma condição depauperada e libertá-las, segundo o próprio Dr. Uchoa, “da tirania das doenças destruidoras”, preparando-as para o trabalho.[4]

Vem desse período, durante o qual Maria de Miranda realizou atividades de assistência às crianças e às camadas mais empobrecidas da população amazonense, o apelido pelo qual ficou conhecida: Mãezinha.

Com apoio do Serviço de Profilaxia Rural do Amazonas, durante a administração do governador Ephigênio Salles, criou o primeiro preventório do Brasil, voltado para o cuidado dos filhos dos portadores de hanseníase.

Maria de Miranda teve também relevante atuação para a profissionalização e regularização das atividades de serviço social. Em 1940, com apoio do bispo d. Basílio Manoel Olímpio Pereira, realizou, no Rio de Janeiro, os cursos de “Ação Católica e Serviço Social”, o que favoreceu a criação da Escola de Serviço Social de Manaus, subordinada, inicialmente, ao Juízo Tutelar de Menores, onde foi professora de Assistência Social.

Essa orientação pela assistência e cuidados mobilizou sempre Maria de Miranda ao longo de sua vida. Como secretária-geral e enfermeira chefe da Cruz Vermelha no Amazonas, ficou encarregada da entrega de correspondências aos prisioneiros de guerra (japoneses, italianos e alemães) e foi, de 1946 a 1951, diretora do Instituto Benjamin Constant, criando nele a primeira Escola Normal Rural do Amazonas.

Paralelamente ao trabalho assistencial, Maria de Miranda destacou-se no movimento feminista, sendo membro da Federação Feminista Amazonense e uma das fundadoras da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Liderou o movimento feminino católico de incentivo à participação das mulheres nas eleições e na política de modo geral, fato que, por certo, contribuiu para seu sucesso nas urnas aos 48 anos, quando foi eleita pela Liga Católica, em 1934, deputada estadual na Assembleia Constituinte (1935-1937), onde também atuou nas comissões de Educação e de Poderes e leis.

Em carta para Bertha Lutz de 20 de junho de 1935, Maria de Miranda informa sobre sua atuação na Constituinte na defesa da atuação da mulher em todos os setores de ação social, moral e político, e não mais apenas dedicada a servir o lar, “coser meias e embalar meninos”. Nessa mesma carta, Maria envia uma fotografia dedicada a Bertha na qual se identifica como sua admiradora e a convida a visitar o estado e ver “como o nosso Amazonas é grandioso, com suas florestas encantadas e seus rios caudalosos. Seria ocasião de sentir as aspirações da mulher amazonense e que a cultura e a mentalidade da cabocla morena do rio Negro não envergonham as irmãs do Sul.”[5] Nessa fotografia é possível perceber um perfil de austeridade que parece caracterizar a vida pública de Maria de Miranda e suas vinculações fortes com a igreja católica e com uma ação assistencial.

Essas linhas de ação de Maria de Miranda se conjugavam com os temas discutidos na Assembleia Nacional Constituinte. A organização da assistência social foi defendida pela representante feminina, Carlota Pereira de Queiroz, médica eleita com apoio da Liga Católica, que considerava a educação e a saúde do povo as duas questões fundamentais de uma nação e tinha a proteção à maternidade e à infância como diretrizes prioritárias de seu mandato.

A Liga Eleitoral Católica, movimento gerado em defesa dos ideais cristãos e em resposta à secularização da cultura e à fundação do Partido Comunista do Brasil, congregava intelectuais como Alceu do Amoroso Lima, o advogado Sobral Pinto, além outros representantes de segmentos da classe média, e teve expressiva participação nas eleições para a Assembleia Nacional Constituinte. No Amazonas, seus principais dirigentes eram o bispo dom João da Mata e Jatir Pucu de Aguiar, do Partido Liberal. Maria de Miranda exerceu os cargos de secretária-geral da Liga Eleitoral Católica, ao lado de Maria Julia Lima, e, em 1935, foi nomeada para a presidência.

Maria de Miranda acompanhou de perto a mobilização das mulheres pelo sufrágio feminino no Brasil. Foi uma das fundadoras de Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, seção Amazonas, em 18 de dezembro de 1922. Trabalhou para organizar uma série de atividades com o objetivo de sensibilizar as mulheres para o alistamento eleitoral, direito conquistado pelas brasileiras em fevereiro de 1932 com a promulgação do novo código eleitoral que concedeu pela primeira vez o direito de voto às mulheres. Participou de todos os eventos nacionais promovidos pela FBPF na década de 1930.

A Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, fundada em 9 de agosto de 1922, por iniciativa da Bertha Lutz e outras mulheres com diferentes abordagens de prioridades na construção de agenda entre elas, tinha como principal bandeira a busca pelo sufrágio universal e a promoção do avanço da mulher no espaço público através da reivindicação de seus direitos políticos, das melhorias de suas condições de trabalho, de saúde e educação. Esses foram temas discutidos nos congressos organizados pela FBPF, sob a presidência de Bertha. Mudar a visão da sociedade brasileira em relação à mulher considerada como a “rainha do lar”, debater sobre a formação do magistério, a nacionalização do ensino público, o acesso da mulher ao mercado de trabalho e igualdade salarial orientavam a atuação da Federação ao lado de postulados sustentados pela Liga Católica no sentido do ensino religioso nas escolas e da indissolubilidade do matrimônio. A questão da cidadania constituía-se no debate em torno de direitos civis, que englobava o acesso ao voto e ao divórcio, maternidade, igualdade salarial e proibição do trabalho noturno às mulheres, e se misturavam com perspectivas de proteção e de conquista de direitos.[6]

As lideranças feministas das maiores organizações constituídas – FBPF, Aliança Nacional de Mulheres, Liga Eleitoral Católica e suas derivadas regionais – argumentavam que era possível assegurar a agregação de mulheres na política, pois isso não ofereceria risco de concorrência para os ocupantes dos cargos públicos eletivos nem ocasionaria instabilidade social ou para as famílias.

Mesmo com ambiguidades presentes no movimento feminista, as mulheres iam introduzindo mudanças nos mecanismos de conquista de direitos. Empunhando, assim, a bandeira do voto feminino, a Federação rumava de maneira cordial para a defesa da emancipação da mulher e à conquista de direitos. Essa postura, identificada por pesquisadores, com um “feminismo bem comportado”, voltado para os anseios das mulheres das classes média e alta, de alguma forma se contrapunha ao feminismo sustentado por Maria Lacerda de Moura, tido como “mal comportado” ao atentar para os direitos das trabalhadoras das classes baixas e para a liberdade sexual.[7]

 

 

 

Nesse contexto realiza-se no Rio de Janeiro o 3º Congresso Nacional Feminista, que contou com a presença de autoridades como o presidente da República, Getúlio Vargas, e o governador do Rio de Janeiro, Protogenes Guimarães. Maria de Miranda foi a oradora da sessão inaugural que apresentou um discurso intitulado “A missão da mulher no momento atual”, no qual fazia “a defesa do regime, a manutenção da ordem, a salvação da honra e da tradição, contra o sacrilégio devastador do comunismo”. Ficam evidentes os princípios católicos da família indissolúvel como alicerce da nação e a luta feminista como uma “cruzada santa”. Maria de Miranda deixa claro seu alinhamento à igreja católica condenando “a política sem Deus e contra Deus, ambiciosa e libertina”. Antecedido por um preâmbulo de cunho regionalista, mencionando as belezas e riquezas do Amazonas, em que cita os pacíficos e ordeiros Barés e os combativos Maués, Maria de Miranda enfatiza em seu discurso o caráter pacífico da “guerra” a ser empreendida pela mulher, “poder moderador capaz de trazer o homem à razão, quando levado pelos ímpetos próprios de sua natureza combativa, muitas vezes se afastada de caminho traçado.”. E conclui, em sua visão, o objetivo do congresso:

“Um dos pontos fundamentais é, por certo, a defesa do regime, a manutenção da ordem, a salvação da honra e da tradição contra o sacrilégio devastador do comunismo. (…) Se procura nos seduzir, garantindo à mulher todos os campos de ação social, a igualdade de valores e trabalhos com o homem, não nos deixaremos enganar. Queremos a vitória das nossas reivindicações, a nossa igualdade política e social, salário igual para trabalho igual. Mas a mulher do Brasil coloca acima de tudo Deus, a Fé, a honra, a dignidade, a força moral e a integridade da Pátria. (…) É essa a promessa, a clarinada guerreira, o juramento inflexível que a Mulher Amazonense vos manda por minha voz: Ouviremos a voz do Brasil e na luta estaremos na linha de frente, na brecha por Deus, pela Pátria, pela Raça.”[8]

Nesse congresso foi votado o Estatuto da Mulher, a ser apresentado na forma de projeto de lei em outubro de 1937 à Câmara dos Deputados, por iniciativa das deputadas Bertha Lutz e Carlota Pereira de Queirós. Em seus 150 artigos, o projeto tinha como objetivo regulamentar os dispositivos constitucionais de proteção às mães e às crianças, tratava, em essência, de nacionalidade, direitos políticos, trabalho.[9]

O mandato de Maria de Miranda como deputada estadual foi interrompido em 1937 quando Getúlio Vargas fechou o legislativo federal e os estaduais, dando início ao Estado Novo que perdurou até 1945. Com a democratização, tentou a reeleição, pelo Partido Social Democrático (PSD), em 1947, não obtendo êxito.

Sua atuação política e social foi reconhecida pelas autoridades amazonenses que lhe concederam o título de Cidadã Benemérita de Manaus, em 1957, e a Medalha Cidade de Manaus, em 1969. Pelos serviços prestados, foi condecorada pela Cruz Vermelha do Amazonas.

Maria de Miranda Leão faleceu em 1976, no mesmo ano de sua “distinta patrícia” Bertha Lutz, com quem batalhou pela ampliação dos espaços de poder e decisão da mulher na sociedade e pela garantia de direitos conquistados.

 

[1] Telegrama do governo do Estado do Amazonas comunicando que a Federação Amazonense pelo Progresso Feminino designou a deputada Maria de Miranda Leão como representante do Amazonas no 3º Congresso Nacional Feminino. Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Arquivo Nacional. Rio de Janeiro.3 de julho de 1936. BR RJANRIO Q0.ADM, COR.A936.74

[2] Jornal do Brasil. Edição 232, 2 de outubro de 1936. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=030015_05&pasta=ano%20193&pesq=%22miss%C3%A3o%20da%20mulher%20no%20momento%20atual%E2%80%9D&pagfis=69211

[3] Bittencourt, Agnello. Dicionário Amazonense de Biografias: vultos do passado. Rio de Janeiro, Conquista, 1973. p. 359. Disponível em https://issuu.com/bibliovirtualsec/docs/dicionario_amazonense_de_biografias

[4] Schweickardt, Júlio Cesar. Ciência, nação e região: as doenças tropicais e o saneamento no Estado do Amazonas (1890-1930). Manaus: Fiocruz/Casa de Oswaldo Cruz, 2009. p. 345. Disponível em http://ppghcs.coc.fiocruz.br/images/teses/tesejuliochweickardt.pdf.

[5] Cartas de Maria de Miranda Leão. Federação Brasileira pelo Progresso Feminino. Arquivo Nacional. Rio de Janeiro. BR_RJANRIO_Q0_ADM_COR_A935_0066_d0001

[6] Fraccaro, Glaucia Cristina Candian. Uma história social do feminismo – Diálogos de um campo político brasileiro (1917-1937). Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 31, nº 63, p. 7-26, janeiro-abril 2018, p. 18. Disponível em http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/71642

[7] Dultra, Eneida Vinhaes Bello. Direitos das mulheres na Constituinte de 1933-1934: disputas, ambiguidades e omissões. Tese em Direito, Estado e Constituição. UnB, 2018. Disponível em https://repositorio.unb.br/bitstream/10482/34535/1/2018_EneidaVinhaesBelloDultra.pdf

[8] Jornal do Brasil. Edição 248, 18 de outubro de 1936. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=030015_05&pasta=ano%20193&pesq=%22miss%C3%A3o%20da%20mulher%20no%20momento%20atual%E2%80%9D&pagfis=69211

[9] Potechi, Bruna. As mulheres dos estatutos no Congresso Nacional Brasileiro. Revista Estudos Feministas, v. 27, n. 1, Florianópolis, 2019. Disponível em https://www.scielo.br/pdf/ref/v27n1/1806-9584-ref-27-01-e50110.pdf

 

Maria Elizabeth Brêa Monteiro é Mestre em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

 

Outros artigos da Série “Feministas, graças a Deus!

Série “Feministas, graças a Deus!” I – Elvira Komel, a feminista mineira que passou como um meteoro, publicado em 25 de julho de 2020, de autoria da historiadora Maria Silvia Pereira Lavieri Gomes, do Instituto Moreira Salles, em parceria com Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” II  – Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993), o jequitibá da floresta, publicado em 20 de agosto de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” III  – Bertha Lutz e a campanha pelo voto feminino: Rio Grande do Norte, 1928, publicado em 29 de setembro de 2020, de autoria de Maria do Carmo Rainha, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” IV  – Uma sufragista na metrópole: Maria Prestia (? – 1988), publicado em 29 de outubro de 2020, de autoria de Claudia Heynemann, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” VI – Júlia Augusta de Medeiros (1896 – 1972) fotografada por Louis Piereck (1880 – 1931), publicado em 9 de dezembro de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VII – Almerinda Farias Gama (1899 – 1999), uma das pioneiras do feminismo no Brasil, publicado em 26 de fevereiro de 2021, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VIII – A engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001), publicado em 6 de abril de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” IX – Mariana Coelho (1857 – 1954), a “Beauvoir tupiniquim”, publicado em 15 de junho de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” X – Maria Luiza Dória Bittencourt (1910 – 2001), a eloquente primeira deputada da Bahia, publicado em 25 de março de 2022, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XI e série “1922 – Hoje, há 100 anos” VI – A fundação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, publicado em 9 de agosto de 2022, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XII e série “1922 – Hoje, há 100 anos” XI – A 1ª Conferência para o Progresso Feminino, publicado em 19 de dezembro de 2022, de autoria de Maria Elizabeth Brêa Monteiro, historiadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” XIII – E as mulheres conquistam o direito do voto no Brasil!, publicado em 24 de fevereiro de 2023, de autoria de Andrea C T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XIV – No Dia Internacional da Mulher, Alzira Soriano, a primeira prefeita do Brasil e da América Latina, publicado em 8 de março de 2023, de autoria de Andrea C T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XV – No Dia dos Povos Índígenas, Leolinda Daltro,”a precursora do feminismo indígena” e a “nossa Pankhurst, publicado em 19 de abril de 2023, de autoria de Andrea C T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” IV – Uma sufragista na metrópole: Maria Prestia (? – 1988)

Série “Feministas, graças a Deus!” IV – Uma sufragista na metrópole: Maria Prestia (? – 1988)

 

No quarto artigo da Série “Feministas, graças a Deus!”, Claudia Beatriz Heynemann, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, escreveu sobre a feminista Maria Prestia (? – 1988) e sobre o próprio movimento feminista no Brasil. Além disso, abordou a questão da circulação dos retratos, “um aspecto frequentemente negligenciado na reflexão teórica sobre a fotografia, em detrimento das análises sobre o modo de representação tecnológico que a fotografia introduziu e, portanto, sobre o lugar do referente na fotografia, esse vínculo de indexação que ela mantém com o objeto“.

 

 

Uma sufragista na metrópole: Maria Prestia

Claudia Beatriz Heynemann*

 

 

No início do século XX o endereço da Santa Ifigênia em São Paulo era conhecido por seu comércio sofisticado, no qual predominavam lojas de chapéus, peles e tecidos, frequentado pelas famílias do bairro Campos Elísios. Nessa área central, onde inicialmente se instalaram os cafeicultores enriquecidos, funcionava o ateliê Photo Skarke, de propriedade de Hugo Skarke (1898 – 197?) [1] cujo fundador, Fernando Skarke (1858 – 1935), foi, possivelmente, o único na província de São Paulo a ser distinguido com o título de fotógrafo da Casa Imperial em 1886, funcionando em Piracicaba [2] e posteriormente em Santos.

Esses fundos e cenários, com opções de mobiliário e outros acessórios, tão comuns no século XIX, continuaram em voga no início do XX. Por trás do busto recortado em oval de Maria Prestia,  [3]  distingue-se uma paisagem que envolve a sua face compenetrada. No retrato de Maria Prestia, o Photo Skarke empregou o recurso da colorização, criada por André Adolphe Eugène Disdéri, também responsável pela invenção das carte de visite, por volta de 1863 e que pode ser encontrado no Brasil pouco tempo depois. Bastante disseminada no país, apesar das críticas recebidas, a fotopintura “fornecia um ar aristocrático à fotografia, aproximando-a dos quadros pintados a óleo”  [4]  O gênero iria se perpetuar por muitas décadas da primeira metade do século XX em retratos de família, chegando ao gosto popular. Contudo, nesse momento da virada da década dos anos 1920, a técnica parece indicar uma escolha refinada, aplicada para realçar as joias e o batom, em uma fotografia que apresentava sua titular ao meio profissional e político em que circulava.

O retrato de Maria Prestia, possivelmente enviado para sua amiga Bertha Lutz pelo correio, produz sua presença no evento em que faltaria, mas não interrompe ali a sua trajetória. Uma legenda em inglês a identifica como líder de um minoritário grupo de feministas de S. Paulo, e aponta para o caráter internacional do movimento sufragista. Atesta da mesma forma a sua passagem a documento público com todos os deslocamentos que o arquivo promove, em uma primeira inflexão, considerando-se que integra o fundo Federação para o Progresso Feminino sob a custódia do Arquivo Nacional. De natureza privada, esse conjunto dialoga com o universo documental da Instituição, predominantemente público, interpelando as esferas de ação política e comportamento daquelas primeiras décadas do século XX.

A circulação do retrato, evidenciada nesse exemplar, é um aspecto frequentemente negligenciado na reflexão teórica sobre a fotografia, em detrimento das análises sobre o modo de representação tecnológico que a fotografia introduziu, e, portanto, sobre o lugar do referente na fotografia, esse vínculo de indexação que ela mantém com o objeto. No entanto, não se deve esquecer outra característica, a separação entre imagem fotográfica e referente, na perspectiva da circulação, quando as fotografias ganham uma mobilidade que seu referente nunca possuiu e circulam em espaço e tempo separados, como sintetiza Tom Gunning. [5] Assim é que a fotografia é um índice da modernidade, compartilhando com a moeda e o capitalismo a possibilidade de transformar objetos em simulacros transportáveis, um equivalente universal. A partir das carte de visite sobretudo, as imagens fotográficas, em formatos cada vez mais intercambiáveis e passíveis de serem colecionados, transitam do estúdio às vitrines, aos álbuns, às famílias, aos arquivos e às redações dos jornais.

O retrato que acompanha a correspondência vinha emoldurado em generoso passe-partout onde caberia a dedicatória “À distinta amiga Bertha Lutz, o meu apoio à grande causa. S. Paulo, 19/6/1931”. A data coincide com a da abertura do II Congresso Internacional Feminista no Rio de Janeiro, que contou com a presença do presidente Getúlio Vargas no salão do Automóvel Club do Brasil e ao qual Prestia deveria comparecer. O Diário de Notícias, [6] assim como outros jornais, deu espaço ao encontro que durou mais de dez dias e incluiu uma série de passeios e visitas a pontos turísticos da capital, teatros e instituições tradicionais como o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro. Ela era representante da filial da Federação em S. Paulo, inserção recente como se pode acompanhar pela correspondência oficial da FBPF que cita o cartão enviado por Maria Prestia, no qual havia se pronunciado “em prol dos nossos ideais, nos meios femininos dessa capital”, formulando votos pelo sucesso da causa. Na mesma carta ela é convidada a participar do “Congresso Feminista” [7], embora não fosse ainda filiada aos quadros da Federação conforme correspondência posterior ao congresso, de 27 de agosto de 1931, quando é ressaltada a sua “simpatia” pela causa feminista [8]

A “causa feminista” a que se referem nesses documentos foi, como é característico nos movimentos identitários, um território de disputas atravessado por uma série de outras condições, a principal delas a das classes sociais, dos movimentos de trabalhadores, das tendências políticas. Apesar disso a atuação da FBPF e de Bertha Lutz domina a narrativa consolidada sobre os movimentos das mulheres brasileiras, encobrindo um cenário bastante mais fragmentado, como alerta Mª Margareth Lopes:

“Em suas múltiplas faces, a diversidade dos feminismos brasileiros incluía mulheres que partilhavam concepções conflitantes de feminismos, de conotações ideológicas e prioridades variadas, diferentes credos religiosos ou nenhum; diversas opções políticas, teóricas, regionais, partidárias. Tais mulheres repensaram as relações de gênero no país, inseridas em maior ou menor grau em um contexto internacional de movimentos feministas, sufragistas, modernistas, cientificistas, pacifistas, anarquistas, comunistas, de reivindicações e lutas por diretos das mulheres”. [9]

Não são essas as diferenças assinaladas na correspondência de Maria para Bertha, acerca do Congresso Feminista no Rio de Janeiro. Em carta de 3 de junho ela se desculpa pelo silêncio e conta ter estado muito doente, mas, uma vez recuperada, iria “colaborar para que S. Paulo possa apresentar uma prova real do trabalho operoso de suas mulheres”. Menciona em seguida ter consigo “uma amiga de ideal, a escritora Lila Escobar de Camargo”, uma possível militante. Trata-se aqui de uma referência significativa; autora de Caracteres femininos, de 1920, Camargo era ligada ainda à escritora Albertina Bertha, membro de organizações como a Associação da Mulher Brasileira, uma leitora de Nietzsche, conhecida por seus livros centrados em personagens femininos. Da mesma forma que Albertina, de quem Tristão de Athayde diria tender “a um delírio da individualidade”, Lila Escobar retratava, para o crítico, o “artifício requintado das cidades no interior das quais ganharia cada vez mais espaço a afirmação das individualidades femininas”. [10]

Qualquer que fosse a avaliação de Athayde, podemos entrever por essa descrição da escritora Lila Escobar, algo da identidade feminina de Prestia, suas afinidades, bem como de sua sociabilidade em um ambiente literário, intelectual, indo além dos círculos da assistência social nos quais iria se sobressair. Seu espaço na grande imprensa paulista foi conquistado como presidente da Federação Internacional Feminina, com representação na Praça da Sé, entidade que tinha como objetivo central a “assistência à mulher e à criança”. Prestia recebeu atenção nos jornais, no ano seguinte ao congresso feminista, durante a Revolução constitucionalista de 1932, quando não teria relegado o “soldado que na trincheira luta e morre por São Paulo”. A diretoria da Federação criou o Curso de Enfermagem, a Casa do Trabalho, a Casa da Criança e os “bilhetes para eles”. [11]. Logo no ano seguinte, finda a Revolução, é a Casa da Criança que recebe a atenção do Correio de São Paulo, que ouviu a presidente e a secretaria da Federação sobre o que consideraram “o testemunho inegável do espírito filantrópico da sociedade paulista”. Em suas declarações Maria Prestia assegurou que no amparo à infância, a federação, voltada à família paulista, as educaria “de acordo com os preceitos da pedagogia moderna, tendo paralelamente ao ensino a higiene que não faltará a esta casa. Além do ensino primário ministraremos o ensino religioso, o amor pelo trabalho, fazendo-as aprender desde o trabalho agrícola até o Industrial e tudo, afinal, que as torna capazes de engrandecer com o seu concurso a nossa amada pátria.” [12]

Esses enunciados jogam luz sobre o perfil político do movimento encabeçado pela FBPF, eminentemente sufragista, mas não só, que em análises mais tradicionais representaria, assim, uma primeira onda do feminismo no Brasil. A Federação operaria apartada das lutas sindicais, lutando exclusivamente pelo direito ao voto e pelos direitos civis,  não atendia a muitas trabalhadoras e intelectuais que não se reconheciam em Bertha e suas seguidoras. Não encontrava acolhida por exemplo junto às comunistas que iriam fundar a União Feminina do Brasil. O conflito de classes e as diferentes condições de vida das mulheres trabalhadoras não parecia ecoar nas preocupações e estratégias da Federação. Ainda hoje, diz Glaucia Fraccaro, procura-se “compreender como um movimento desse caráter pretendia lutar pelos direitos das mulheres sem alterar os direitos dos homens, atuando por dentro das instituições governamentais”. A explicação encontrada, não satisfatória para essa autora, varia entre tratá-las como um “feminismo difuso”, ou ainda como um “feminismo tático” [13].

Em 26 de junho, ainda no decorrer do II Congresso Internacional Feminista, Maria Prestia informa a Bertha Lutz que não poderia comparecer, enviando uma representante em seu lugar e recomenda destaque ao relatório que havia produzido. Mesmo que considerando o documento incompleto, ela pondera ter percorrido todas as repartições onde os diretores seriam favoráveis ao feminismo – “a semente que florescerá em breve”, acrescentando que “as moças funcionárias, dizem que são contra o feminismo pois elas pensam erradamente, não tem noção do verdadeiro feminismo”, sem que o defina, refletindo sobre o obstáculo representado por um “certo egoísmo entre as mulheres”. Conclui contando ter recebido “insistentes convites para visitar fábricas e instituições onde há interesses femininos. Por falta de tempo, só visitei algumas e mais tarde atendendo aos inúmeros pedidos irei trabalhando. Farei o que for possível. Aqui em S. Paulo a mulher já venceu naturalmente, ela ocupa lugares importantes, falta-lhes agora saber compreender sua missão de amparar e proteger” [14]

O ativismo de Prestia movia-se entre o apoio resoluto à “grande causa” e o que aparenta ser um distanciamento em relação aos “interesses femininos” que ela poderia encontrar nas fábricas, uma suposição da “vitória” das mulheres paulistas e de seu poder exercido em S. Paulo, “onde os homens são governados suavemente pelas mulheres”. A despeito dessas crenças, que em si já seriam portadoras de um juízo conservador sobre as mulheres, Prestia faz parte da história das lutas feministas, devendo-se lembrar que a Federação acabaria por endossar reivindicações que incluíam as trabalhadoras como a pauta da equiparação dos salários entre homens e mulheres. De seu retrato, alinhado aos cânones da fotografia de estúdio e de seus padrões femininos, a filha do imigrante italiano ressurge nas páginas da memória de Zelia Gattai, e figura, assim, contestadora e militante no que é também a sua experiência urbana:

“Berta Lutz, por essa época, conclamava as mulheres à luta pela emancipação feminina. Mamãe e Wanda haviam recebido uma visita de Maria Préstia, filha mais velha de uma família italiana numerosa, habitante antiga do bairro, convidando-as a tomar parte em manifestação feminista. Maria Préstia era exaltada discípula de Berta Lutz, mas parece que não conseguiu nada lá em casa”. [15]

 

[1] Almanak Laemmert : Administrativo, Mercantil e Industrial (RJ) – 1891 a 1940. Ano 1931, vol. II, p. 664.
Disponível em

http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=313394&pesq=skarke&pagfis=36563

[2] KOSSOY, Boris. Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: IMS, 2002, p.296

[3] Retrato de Maria Prestia. Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Arquivo Nacional. BR_RJANRIO_Q0_ADM_CPA_VFE_FOT_0024_d0001de0001.

[4] MAUAD, Ana Maria. Imagem e autoimagem do Segundo Reinado. In: ALENCASTRO, Luiz Felipe de (Org). História da vida privada no Brasil: Império. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 194.

[5] GUNNING, Tom. O retrato do corpo humano: a fotografia, os detetives e os primórdios do cinema. In: CHARNEY, Leo, SCHWARTZ, Vanessa R. (Orgs.). O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: Cosac & Naify, 2001

[6] Instala-se hoje o segundo congresso internacional Feminista. Diário de Notícias. 20/6/31. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=093718_01&pasta=ano%20193&pesq=%22Congresso%20Internacional%20Feminista%22&pagfis=5890

[7] Correspondência entre a FBPF e Maria Prestia. Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Arquivo Nacional. Rio de Janeiro, 18 de abril de 1931. OOAdm Cor A931.54, p.138.

[8] Correspondência entre a FBPF e Maria Prestia. Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Arquivo Nacional. Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1931. OOAdm Cor A931.54, p.186

[9] LOPES, Maria Margaret. Proeminência na mídia, reputação em ciências: a construção de uma feminista paradigmática e cientista normal no Museu Nacional do Rio de Janeiro. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.15, supl., p.73-95, jun. 2008. Disponível em https://www.scielo.br/pdf/hcsm/v15s0/04.pdf

[10] TOLENTINO, Thiago Lenine Tito. Do ceticismo aos extremos: cultura intelectual brasileira nos escritos de Tristão de Athayde (1916-1928). Tese (doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2016, p. 221. Disponível em https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/BUOS-AQ8PMU

[11] Na Federação Internacional Feminina foram inscritas as primeiras madrinhas dos órfãos da revolução constitucionalista. Diário Nacional – 17/8/1932. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=213829&pesq=Federa%C3%A7%C3%A3o%20Feminina%20Internacional&pagfis=15759

[12] Uma agradável visita à Casa da Criança. Correio de São Paulo. 8/6/1933. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=720216&Pesq=Federa%c3%a7%c3%a3o%20Feminina%20Internacional&pagfis=1773

[13] FRACCARO, Glaucia Cristina Candian. Uma história social do feminismo – Diálogos de um campo político brasileiro (1917-1937). Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 31, nº 63, p. 7-26, janeiro-abril 2018, p. 10. Disponível em http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/71642

[14] Carta de Maria Prestia a Bertha Lutz. São Paulo, 26 de junho de 1931. Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Arquivo Nacional. BR_RJANRIO_Q0_ADM_COR_A931_0086_d0001de0001, p. 4.

[15] GATTAI, Zelia. Anarquistas, graças a Deus. Ed. Record, 1979, p. 245.

 

*Claudia Beatriz Heynemann é Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

 

Outros artigos da Série “Feministas, graças a Deus!

Série “Feministas, graças a Deus!” I – Elvira Komel, a feminista mineira que passou como um meteoro, publicado em 25 de julho de 2020, de autoria da historiadora Maria Silvia Pereira Lavieri Gomes, do Instituto Moreira Salles, em parceria com Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” II  – Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993), o jequitibá da floresta, publicado em 20 de agosto de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” III  – Bertha Lutz e a campanha pelo voto feminino: Rio Grande do Norte, 1928, publicado em 29 de setembro de 2020, de autoria de Maria do Carmo Rainha, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” V – Feminista do Amazonas: Maria de Miranda Leão (1887 – 1976), publicado em 26 de novembro de 2020, de autoria de Maria Elizabeth Brêa Monteiro, mestre em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” VI – Júlia Augusta de Medeiros (1896 – 1972) fotografada por Louis Piereck (1880 – 1931), publicado em 9 de dezembro de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VII – Almerinda Farias Gama (1899 – 1999), uma das pioneiras do feminismo no Brasil, publicado em 26 de fevereiro de 2021, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VIII – A engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001), publicado em 6 de abril de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” IX – Mariana Coelho (1857 – 1954), a “Beauvoir tupiniquim”, publicado em 15 de junho de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” X – Maria Luiza Dória Bittencourt (1910 – 2001), a eloquente primeira deputada da Bahia, publicado em 25 de março de 2022, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XI e série “1922 – Hoje, há 100 anos” VI – A fundação da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, publicado em 9 de agosto de 2022, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XII e série “1922 – Hoje, há 100 anos” XI – A 1ª Conferência para o Progresso Feminino, publicado em 19 de dezembro de 2022, de autoria de Maria Elizabeth Brêa Monteiro, historiadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” XIII – E as mulheres conquistam o direito do voto no Brasil!, publicado em 24 de fevereiro de 2023, de autoria de Andrea C T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XIV – No Dia Internacional da Mulher, Alzira Soriano, a primeira prefeita do Brasil e da América Latina, publicado em 8 de março de 2023, de autoria de Andrea C T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” XV – No Dia dos Povos Índígenas, Leolinda Daltro,”a precursora do feminismo indígena” e a “nossa Pankhurst, publicado em 19 de abril de 2023, de autoria de Andrea C T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” III – Bertha Lutz (1894 – 1976) e sua luta pelo voto feminino

Série “Feministas, graças a Deus!” III – Bertha Lutz (1894 – 1976) 

 

O terceiro artigo da série “Feministas, graças a Deus”, Bertha Lutz e a campanha pelo voto feminino: Rio Grande do Norte, 1928 é de autoria da historiadora Maria do Carmo Rainho, do Arquivo Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica. Bertha Lutz (1894 – 1976) foi a fundadora da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, em 1922, iniciativa vinculada ao movimento sufragista internacional, principal tendência do feminismo no início do século XX. As outras reivindicações eram de igualdade entre os sexos e de independência da mulher. Em 1932, Bertha foi uma das duas mulheres nomeadas para integrar a comissão para elaborar o ante-projeto da nova Constituição – a outra foi a advogada Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993) – tema do segundo artigo da série do portal. Em 1936, Bertha assumiu o mandato de deputada na Câmara Federal. Sempre ocupou importantes cargos públicos, dentre eles a chefia do setor de Botânica do Museu Nacional, cargo no qual se aposentou em 1964. Sua vida sempre esteve ligada à ciência e à luta pela emancipação da mulher. Nasceu em São Paulo, no dia 2 de agosto de 1894, filha da enfermeira inglesa Amy Marie Gertrude Fowler (1869 – 1922 ) e do cientista e pioneiro da Medicina Tropical, Adolpho Lutz (1855 – 1940).

 

 

 Bertha Lutz e a campanha pelo voto feminino: Rio Grande do Norte, 1928

Maria do Carmo Rainho*

 

O acervo da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, custodiado pelo Arquivo Nacional, foi constituído a partir de doações realizadas entre 1976 e 1986. Contemplando 25 metros lineares de documentos textuais e 537 itens iconográficos, dentre estes, 478 fotografias produzidas nas décadas de 1910-1970, o fundo privado conserva também cartazes, cartões-postais, desenhos e gravuras. Conjunto expressivo de fotografias registra eventos nacionais e internacionais promovidos pela Federação ou com a participação de Bertha Lutz e integrantes da entidade, como o I Congresso Internacional Feminista (Rio de Janeiro, 1922) e o IX Congresso da Aliança Internacional pelo Sufrágio Feminino (Roma, 1923). Registros de cerimônias públicas; audiências com autoridades; almoços, jantares, recepções, além de retratos variados (políticos, feministas do Brasil e do exterior) também se destacam. Para este artigo foram selecionadas algumas das fotografias que registram a movimentação em torno do sufrágio feminino no Rio Grande do Norte, a partir de 1927; a atuação de Juvenal Lamartine nesse sentido e, a viagem de Bertha Lutz àquele estado em 1928, em campanha pelo alistamento das mulheres.

 

Acessando o link para as fotografias de Bertha Lutz disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Conforme observa June Hahner, “a campanha sufragista no Brasil nunca se tornou um movimento de massas – existem poucos destes na história do Brasil -, mas, apesar disso, teve o mérito de se caracterizar por sua excelente organização, bem maior do que a da maioria dos movimentos semelhantes que a seguiram na América Latina.”(1) Essa organização se deve, em grande parte, a Bertha Lutz, por ter fundado, em 1919, a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher- LEIM, precursora da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino – FBPF, de 1922; pelo modo como constituiu as entidades e articulou suas integrantes; e, sobretudo, pelas estratégias utilizadas na busca pela extensão do direito do voto às mulheres.

Estratégicas também foram a preservação e a organização dos documentos da Liga e da Federação, que somados ao amplo material publicado pela imprensa referente às campanhas pelo sufrágio feminino nos anos 1920, nos possibilitam traçar uma parte importante da trajetória de Bertha Lutz, por meio da análise das relações que ela vai construindo e de como atua no espaço social.

Nosso ponto de partida foram as fotografias referentes à viagem que Bertha empreendeu ao Rio Grande do Norte, nos meses de julho e agosto de 1928, em campanha pelo alistamento, após a aprovação do voto feminino naquele estado, em 1927. Somam-se a elas registros das primeiras eleitoras e das primeiras eleitas, e dos eventos, muitos deles, relacionados a Juvenal Lamartine, político potiguar que desde o início da década se dedicou à causa. As fotografias nos levaram à documentação textual do fundo FBPF e às matérias publicadas pela imprensa, dando a ver o alcance da campanha de alistamento, o protagonismo de Bertha Lutz no processo e as conexões que a uniam a Lamartine, então governador do estado.

Esses documentos também possibilitaram analisar as estratégias empregadas por ela, aquilo que Celi Pinto qualificou de “feminismo bem comportado”(2) ; o “bom feminismo”, conforme a própria Bertha, ou, a nosso juízo, o feminismo pragmático, que, no lugar do confronto visando expor as desigualdades de gênero – tática utilizada por Leolinda Daltro – preferia se associar a lideranças masculinas que defendiam o voto das mulheres, como Lamartine, Justo Chermont, Adolfo Gordo e Maurício de Lacerda, entre outros.

Em 1921, a LEIM inaugurou a prática de enviar cartas e telegramas aos deputados solicitando a atenção a projetos que possibilitassem às mulheres o direito ao voto; cópias dessas correspondências eram encaminhadas também à imprensa. Naquele ano, Bertha Lutz entrou em contato pela primeira vez com Lamartine, deputado federal pelo Rio Grande do Norte desde 1906, e este lhe prometeu “destacar a emenda sobre o voto feminino do projeto de reforma eleitoral, para que ele próprio desse parecer.”(3) No entanto, após o adiamento da votação, em novembro de 1921, um novo projeto foi apresentado na Câmara dos Deputados, permitindo o alistamento eleitoral de mulheres com mais de 21 anos, as quais poderiam também ser votadas. Integrante da Comissão de Constituição e Justiça e relator do projeto, Juvenal Lamartine expressou vivamente o seu apoio à causa das mulheres, em texto embasado, no qual elencava as conquistas femininas no século XX e os países nos quais elas já podiam votar(4).

 

 

A partir de então, ele participa de reuniões e eventos da Federação e torna-se alvo frequente de suas homenagens.(5) De fato, o apoio a Juvenal Lamartine ganhou corpo quando, em sua plataforma para o governo do Rio Grande do Norte, em 1927, ele incluiu o voto feminino. E mais ainda, logo após a sua eleição, ao enviar telegrama ao então governador, José Augusto Bezerra de Medeiros, para que constasse na Lei que regulava o serviço eleitoral que poderiam “votar e ser votados, sem distinção de sexo, todos os cidadãos que reunirem as condições exigidas”(6).

A relação entre Bertha e Juvenal era simétrica e de mão dupla: ao mesmo tempo em que recebia o apoio dele em sua campanha pelo sufrágio feminino, ela colaborava para a construção da imagem pública de Lamartine como um governante moderno, associado a pautas progressistas. Pesquisando-se os jornais do ano de 1927 e 1928 é possível perceber o espaço que ele ocupava nas matérias que tratavam especificamente do voto feminino e da Federação de modo geral. Bertha também se encarregava de citá-lo constantemente na coluna “Feminismo”, publicada pelo jornal O Paiz, redigida juntamente com Orminda Bastos. A relação entre eles é tão estreita e o nome de Lamartine tão associado ao voto feminino que Bertha, convidada a enviar material para a exposição “A mulher, o movimento feminista e a imprensa”, realizada na Alemanha, em abril de 1928, encaminha um quadro dedicado ao Rio Grande do Norte, incluindo foto de Lamartine, do eleitorado feminino, e da primeira eleitora daquele estado, a professora de matemática Júlia Barbosa.(7) Esta será uma figura importante para o alistamento feminino no Rio Grande do Norte e uma das responsáveis pela viagem de Bertha Lutz ao estado. Conforme a correspondência trocada entre elas, Júlia expressa o desejo de Lamartine de que se organizasse uma entidade filiada à Federação; ao mesmo tempo, revela um desinteresse das mulheres potiguares, por terem “alcançado ingresso na vida política do nosso Estado sem trabalho e sem lutas”. (8) A solução, segundo ela, estaria na viagem de Bertha. Nas cartas e telegramas evidencia-se que Júlia é uma das interlocutoras da presidente da Federação para os assuntos relativos aos direitos das mulheres no Rio Grande do Norte: é solicitada a lhe enviar dados, como o número de eleitoras por município; informa Bertha sobre a decisão do diretor do Departamento de Educação de excluir do magistério as mulheres casadas; comenta a eleição para o Senado do ex-governador José Augusto, na qual haviam votado as eleitoras alistadas há mais de 60 dias. (9) Por sua vez, pede o apoio de Bertha para a construção de uma maternidade em Natal. Torna-se colaboradora na coluna “Feminismo”, de O Paiz e, em junho de 1928, funda a Associação Eleitoral Feminina. Por sua atuação é homenageada pela Federação com um almoço no Hotel Glória, no Rio de Janeiro.(10)

Em 6 de julho de 1928, Bertha Lutz, acompanhada por seu pai, o cientista Adolpho Lutz, parte para o Rio Grande do Norte; ambos em missão de pesquisa da flora local mas, Bertha, a serviço, primordialmente, do sufrágio feminino. Ao longo da viagem prospectos em favor da propaganda do voto feminino são jogados do avião em cidades de oito estados, dentre elas Vitória, Caravelas, Recife, Maceió e Natal. Bertha repetia a ação realizada em maio, no Rio de Janeiro, quando sobrevoou a cidade com Carmen Portinho (1903 – 2001) e Amélia Bastos lançando panfletos “na Câmara, no Senado, no Palácio da Presidência, nas redações de jornais, nas grandes artérias da capital” (11).

 

 

Até 24 de agosto, véspera do seu retorno ao Rio, Bertha percorrerá inúmeros municípios daquele estado. Em Natal, onde permanece a maior parte do tempo, cumpre uma extensa programação que inclui a recepção pela Associação Eleitoral Feminina; um evento promovido pelas associações operárias, presidida por Juvenal Lamartine no teatro estadual; festa no Palácio do governo; a inauguração do curso de botânica na Escola Normal; a Festa Matuta, organizada pelos intelectuais natalenses; a inauguração da sede social do Clube Paissandu. Também participa do almoço oferecido por Juvenal Lamartine, no palacete da Assembleia Legislativa, aos aviadores italianos Arturo Ferrarin e Carlo del Prete, (12) evento no qual o governador conseguiu reunir expoentes de dois importantes pilares da sua administração: a aviação (13) e o feminismo.

A partir de Natal, Bertha viaja, geralmente, acompanhada por outras mulheres às cidades de Macaíba, São José de Mipibu, Ceará- Mirim, Acari, Seridó, Santa Cruz, Currais Novos, Caicó, visando ao alistamento das eleitoras, além de participar de almoços, banquetes, lanches e inaugurações. Nesses locais encontram-se os círculos sociais frequentados por Bertha Lutz, integrados por mulheres das camadas médias e altas, escolarizadas, em sua maioria, professoras. E embora aqui e ali haja algumas menções à presença de operárias em eventos, habitualmente, o que se noticia é a participação de “altas autoridades civis, militares e eclesiásticas”; “a elite natalense”; os “chefes políticos locais”; o “juiz eleitoral”; “o prefeito”. É interessante registrar também que, a despeito de se tratar de uma temática feminista, parcela da imprensa, ao elencar as mulheres alistadas em Macaíba, por exemplo, ainda as apresentam de forma anônima: são “as senhoras do prefeito, do juiz de direito, do diretor de mesa de rendas, do promotor e de outras autoridades.”(14)

 

 

As relações que Bertha estabelece com as elites locais, para além de evidenciarem o lugar que ocupa no espaço social, reforçam uma tática adotada por ela: “a necessidade de se legitimar aos olhos do público, procurando para isto mobilizar mulheres cuja posição social fosse de indiscutível respeitabilidade.”(15) A viagem ao Rio Grande do Norte também evidencia a importância da sociabilidade, dos encontros, palestras, almoços e jantares nos quais ela circula e discursa e estimula as mulheres ao alistamento. E a importância que ela, àquela altura já havia alcançado, no que tange ao fomento de associações e grupos de mulheres envolvidos com a causa do sufrágio. Não é por acaso que, em 9 de agosto de 1928, é fundada a Associação das Eleitoras Norte-Riograndenses(16) e que, um ano após a aprovação do voto feminino, 10% do eleitorado daquele estado fosse constituído por mulheres.

 

 

No registro do encontro das feministas com a primeira eleitora vemos a produção de sentido pelas fotografias ou como construímos o mundo visualmente. Não passa despercebido o fato de todas as mulheres estarem elegantemente vestidas, em uma imponência a que podemos chamar autonomia. São figuradas, conforme a “última moda”, exibindo roupas e cabelos mais curtos, estes no estilo “à la garçonne”, embora escondidos nos chapéus cloche. Os vestidos com modelagem solta e cintura baixa, não aprisionam o corpo, as pernas à mostra também estão livres. Mas cabem algumas perguntas: as feministas se deixavam subjugar pela moda? Ou os cuidados de si eram, naquele momento, imprescindíveis para ocupar espaços? Se a moda de cabelos e roupas mais curtas é onipresente, das fotos das feministas às revistas populares, talvez ela expressasse os desejos que as mulheres compartilhavam de ocupar novas posições. Nesse sentido, haveria pouco espaço para roupas com armações ou espartilhos. Mas, pensando a contrapelo, é preciso refletir se a emancipação estava à disposição de todas ou se roupas e cabelos mais curtos não eram, eles também, elementos de distinção social, evidenciando que, se as mudanças ocorrem, elas nunca ocorrem todas de uma vez e nem para todas.

(1) HAHNER, June E. Emancipação do sexo feminino. A luta pelos direitos da mulher no Brasil, 1850-1940. Florianópolis : EDUNISC, 2003, p.333.

(2) PINTO, Celia Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003, p. 6.

(3) KARAWEJCZYK, Monica. As filhas de Eva querem votar: uma história da conquista do sufrágio feminino no Brasil. Tese (Doutorado em História), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2013, p. 219-220.

(4) “Nada justifica mais, na época atual, essa restrição que é uma sobrevivência dos tempos em que a mulher era considerada incapaz de exercer os direitos civis e políticos.” Anais, vol. XIX, 1925, p. 40, apud KARAWEJCZYK, Monica, op. cit., p. 223.

(5) Em 1925, Lamartine foi convidado pela FBPF para evento alusivo às datas cívicas nacionais, discorrendo sobre a concessão dos direitos políticos à mulher nas democracias modernas. Em 1927, a entidade promoveu uma manifestação comemorativa da sua eleição ao governo do Rio Grande do Norte. Em 1928, ao viajar a então capital do país, para tratar de assuntos referentes à administração daquele estado, foi recebido no desembarque por expressivo grupo de mulheres. No discurso da representante da FBPF, Orminda Bastos, Juvenal é qualificado de “estadista liberal e administrador eminente”.“Ecos da chegada do presidente Juvenal Lamartine”, O Paiz, 7 e 8 de maio de 1928, p. 5.

(6) Lei n. 600, de 25 de outubro de 1927.

(7) “A Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e a exposição de imprensa de Colônia”, O Paiz, 18 de abril de 1928, p. 2.

(8) Carta de Julia Barbosa para Bertha Lutz, Natal, 23 de janeiro de 1928. Arquivo Nacional, FBPF, BR RJANRIO Q0.ADM, COR.A928.107.

(9) “Dessa eleição dependerá, tacitamente, a resolução do problema feminino no Brasil inteiro, pois se o Senado “engolir” os votos que eu e as minhas conterrâneas demos ao dr. José Augusto…”. Carta de Julia Barbosa para Bertha Lutz, Natal, 9 de abril de 1928. Arquivo Nacional, FBPF, BR RJANRIO Q0.ADM, COR.A928.107.

(10) “O primeiro banquete político feminino”, O Paiz, 24 de junho de 1928, p. 10.

(11) “A propaganda feminista por via aérea”, O Paiz, 14 e 15 de maio de 1928, p. 8.

(12) Os pilotos se notabilizaram por realizar a primeira travessia do Atlântico em avião, sem escalas, entre a Europa e a América Latina, indo de Montecelio, na Itália, a Touros, no Rio Grande do Norte.

(13) Natal, assim como Dakar, no Senegal, por sua posição geográfica, interessava vivamente às empresas de aviação – dentre elas, a francesa Latécoère – que desejavam expandir suas rotas para os países da América do Sul (Brasil, Argentina, Chile). Foi em um avião da companhia que Bertha Lutz se deslocou do Rio de Janeiro a Natal e de volta ao Rio, em 1928; a empresa também cedeu um aparelho a Juvenal Lamartine quando da inauguração dos campos de aterrisagem de Acari e Caicó no mesmo ano. As rotas e suas respectivas escalas envolviam interesses tanto econômicos quanto por prestígio, dos países de origem das empresas e dos locais que deveriam fazer parte dos itinerários estabelecidos. Lamartine soube capitalizar a importância da aviação comercial naquele momento e, em especial, da cidade de Natal como escala em um circuito mundial de navegação aérea. Nesse sentido, entende-se, também, a inauguração do Aeroclube de Natal em 1928. TEIXEIRA, Rubenilson B. “Por mar, terra e ar: Dakar, Natal e as conexões transatlânticas (1880-1940)”, Cahiers des Amériques Latines, vol. 76, 2014, p. 131-157. Disponível em: https://journals.openedition.org/cal/3327 Acesso em 27 de setembro de 2020.

(14) “Em efervescência o alistamento feminino no Rio Grande do Norte”, Correio da Manhã, 24 de julho de 1928, p. 2.

(15) ALVES, Branca Moreira, Ideologia e feminismo: a luta das mulheres pelo voto no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1980, p.100.

(16) Filiada à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, a Associação era presidida por Francisca Bezerra Dantas. A data da fundação era uma homenagem ao aniversário de Juvenal Lamartine e aos 6 anos de fundação da FBPF.

 

*Maria do Carmo Rainho é Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

 

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