O fotógrafo, desenhista e engenheiro alemão Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890)

 

Franz Keller-Leuzinger /  Xilogravura de Adolf Cloß publicada no livro , em 1874

Franz Keller-Leuzinger / Xilogravura de Adolf Cloß publicada no livro Do Amazonas ao Madeira, em 1874

O  engenheiro, fotógrafo e desenhista alemão Franz (Francisco) Keller-Leuzinger nasceu em Mannhein, em 30 de agosto de 1835, e foi um dos primeiros viajantes estrangeiros a documentar a região amazônica. Chegou ao Rio de Janeiro com seu pai, o também engenheiro Joseph (José) Keller (1811 – 1877), em 27 de dezembro de 1855, vindos do Havre, na galera francesa Dom Pedro II. 

Ao longo da década de 60, Franz acompanhou o pai em levantamentos do rio Paraná, na região entre Campo Belo e Barra do Piraí; dos vales do rio Paraíba e Pomba, dos rios Iguaçu, Paranapanema e Tibagi. Dessas investigações resultaram relatórios publicados pelo Ministério da Agricultura (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1865O Cearense, 2 de dezembro de 1865, terceira colunaDezenove de Dezembro, 20 de dezembro de 1865, última coluna). Nessas expedições, como na que participou à Amazônia, em 1867, Franz registrava em notas, desenhos e aquarelas, vistas locais da fauna e flora, aspectos arqueológicos e etnográficos das regiões por onde passava.

Em junho de 1867, ele e seu pai estudavam mapas e planos da expedição ao Paraná quando foram comissionados pelo Ministério da Agricultura, Comércio e Obras para explorar os rios Amazonas e Madeira para sondar a possibilidade da construção de uma ferrovia, a Madeira-Mamoré, costeando suas margens para contornar corredeiras que tornavam impossível a navegação a vapor em parte dos rios. A comissão da expedição pelo governo imperial foi motivada pela abertura da navegação do rio Amazonas para as nações estrangeiras, estabelecido pelo Decreto Imperial nº 3749 ,de 7 de dezembro de 1866, e pelo novo acordo sobre fronteiras e comércio com a Bolívia firmado, em 27 de março de 1867, pelo diplomata pernambucano, o Conselheiro Felipe Lopez Netto (1814 – 1895) (Publicação do Governo do Amazonas, 24 de agosto de 1868Jornal do Commercio, 15 de julho de 1872, quinta coluna).

Franz e Joseph embarcaram no Rio de Janeiro rumo ao Pará, em 15 de novembro de 1867, no paquete Paraná. O fotógrafo Christoph Albert Frisch (1840 – 1918), comissionado por seu patrão, o fotógrafo e editor suíço Georges Leuzinger (1813 – 1892), acompanhou a expedição até Manaus, levando um escravizado. Também estavam no navio a esposa de Franz, Sabine Christine Leuzinger (1842-1915), e sua irmã, Pauline.  Sabine era a filha primogênita de Leuzinger (Diário do Povo, de 15 de novembro de 1867, primeira coluna). Algumas fontes informam que Franz teria, em meados da década de 60, assumido a seção de fotografia da empresa de seu sogro, criada em 1865, e que teria, inclusive, ensinado a Marc Ferrez (1843 – 1923) a arte da fotografia. Porém, a participação de Franz Keller no ateliê fotográfico de Leuzinger é questionável e, na verdade, até hoje não foi comprovada. Lembramos que na década de 1860, como já mencionado, Franz fez diversas viagens pelo Brasil com seu pai, explorando rios do país sob contrato do governo imperial, o que tornaria difícil a possibilidade dele dirigir o estabelecimento fotográfico de seu sogro.

Voltando à expedição amazônica. Frisch acompanhou os engenheiros somente até Manaus e permaneceu na Amazônia até novembro de 1868, tendo realizado, no período, a impressionante e pioneira série de 98 fotografias na Amazônia: foram os primeiros registros que chegaram até nós de índios brasileiros da região, além de aspectos da fauna e da flora e de barqueiros de origem boliviana que atuavam como comerciantes itinerantes nos rios amazônicos. Esse trabalho começou a ser comercializado a partir de um catálogo publicado pela Casa Leuzinger, Resultat d’une expédition phographique sur le Solimões ou Alto Amazonas et Rio Negro.

 

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Acervo FBN

 

A expedição dos Keller durou até dezembro de 1868, quando voltaram ao Rio de Janeiro. Apresentaram propostas prevendo a construção de um sistema de planos inclinados capaz de permitir aos navios a superação dos declives do leito do Madeira e Mamoré, a abertura de um canal de navegação na margem direita das cachoeiras ou a construção de uma estrada de ferro entre Santo Antônio e Guajará-Mirim.

Em 1874, já de volta à Alemanha, Franz publicou o livro ilustrado Do Amazonas ao Madeira, com anotações, desenhos e aquarelas da expedição de 1867/1868. Foi editado em Londres pela Chapman & Hall e também foi feita uma edição alemã. No livro, descreveu o rio e seus afluentes, as tribos nativas que encontraram, além dos animais e vegetações da floresta virgem dos rios Amazonas e Madeira. A expedição dos Keller se expandiu até o leste da Bolívia. Franz dedicou um capítulo aos índios Mojo daquela região e à história de suas interações com as missões jesuíticas.

 

 

Na introdução a seus relatos, Franz chamava a atenção das autoridades brasileiras para a adoção de três providências que ele considerava prioritárias para o progresso do país: a abolição da escravatura, o incentivo à imigraçao de colonos da Alemanha para desenvolver a agricultura e a modernização dos meios de transportes para integrar o território nacional. Também assumia a autoria das ilustrações.

 

“As ilustrações, que considero suplementos indispensáveis à descrição de cenas que nos são tão estranhas, originam-se de esboços feitos no local e que, para preservar-lhes a mais alta fidelidade, desenhei eu mesmo”.

 

 

Franz Keller-Leuzinger esteve no Brasil na década de 1880 e faleceu em Munique, na Alemanha, em 18 de julho de 1890.

Acessando o link para as fotografias de Franz Keller-Leuzinger disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Cronologia de Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890)

 

 

1835 - Nascimento de Franz Keller, em Mannheim, na Alemanha, em 30 de agosto de 1835, filho do cartógrafo, desenhista e engenheiro Joseph (José) Keller (1811 – 1877), diplomado pela Universidade de Karlsruhe, que havia trabalhado como inspetor de estrada do Grão Ducado de Baden. Franz era irmão do pintor Ferdinand (Fernando) Keller (1842 – 1922).

 

 

1855 - Chegou, em 27 de dezembro, ao Rio de Janeiro com seu pai. Vieram do Havre, na galera francesa Dom Pedro II. Diversas fontes afirmam que Ferdinand, seu irmão, teria vindo com eles, mas nas notícias de jornal só constam os nomes de Joseph e Franz. Certamente Ferdinand passou um período no Brasil, mas provavelmente veio depois de seu pai e irmão (Correio da Tarde, 27 de dezembro de 1855, última colunaDiário do Rio de Janeiro, 28 de dezembro de 1855, última coluna; Correio Mercantil, 28 de dezembro de 1855, segunda coluna).

 

 

1856 - No Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro de 1856, foi mencionado que Joseph Keller poderia ser contratado para a construção da estrada de Mangaratiba ou da de Ubatuba caso o desembargador J.J. Pacheco, presidente da Companhia da Estrada de Mangaratiba, fizesse um contrato com o presidente de São Paulo para uma outra estrada de carros de Taubaté a Ubatuba.

Joseph e um ajudante trabalharam para o Governo da Província do Rio de Janeiro para a ratificação de plantas para a estrada de Petrópolis ao Parahybuna . Franz seria o ajudante? (Correio Mercantil, 21 de abril de 1856, quarta coluna).

Incitados pela lisonjeira recepção que fizemos a seus compatriotas, os engenheiros Keller, vários arquitetos da Escola Politécnica de Karslruhe, no Grão Ducado de Baden, vieram para o Brasil, dentre eles Theodore Marx (1833 – 1890), que viria a ser um dos construtores do Palácio da Quinta da Boa Vista (Correio Mercantil, 12 de junho de 1856, terceira coluna).

1857 – Seu pai, como engenheiro, e ele e Carlos Keller como ajudantes, haviam sido contratados pela Companhia União Indústria. Qual seria o parentesco de Carlos Keller com eles? Sobrinho e primo? Filho e irmão? Ou seria o filho de Johann Nepomuk Keller, o engenheiro Carlos Keller (1839 – 1928), futuro reitor do Instituto de Tecnologia de Karlsruhe? Uma coincidência: o pai do fotógrafo Chistophe Albert Frisch (1840 – 1918), tinha Nepomuk em seu sobrenome: chamava-se Johanes Nepomuk Frisch. Caso isso indique algum parentesco, Frisch e Franz Keller possivelmente já se conheciam antes de virem para o Brasil.

O diretor-presidente da Companhia União Indústria era o comendador Mariano Procópio Ferreira Lage (1821 – 1872). A capacidade de Joseph Keller já era abonada pelos trabalhos executados na Europa sob sua direção (Relatório Companhia União Indústria, 24 de agosto de 1857). Sobre o trabalho para o qual havia sido contratado, uma linha de estrada entre  Pedro do Rio e a villa da Parahyba, Três Barras e a ponte do Parahybuna, apresentou um relatório ao comendador (Relatório Companhia União Indústria, 24 de agosto de 1857; Jornal do Commercio, 31 de agosto de 1857, quarta coluna).

 

 

 

1861 / 1862 – Em 30 de abril de 1861, Joseph Keller apresentou ao comendador Mariano Procópio um relatório sobre o estado da estrada entre a ponte do Paraíba e Juiz de Fora (Relatório da Companhia União Indústria, 15 de junho de 1861). Foi expedida pelo Ministério da Agricultura a ordem para o pagamento dos engenheiros Joseph e Franz Keller pela exploração do rio Paraíba (Boletim do Expediente do Governo: Ministério do Império, novembro de 1861); Correio Mercantil, 7 de abril de 1862, terceira coluna; Boletim do Expediente do Governo: Ministério do Império, junho de 1862). Entre esse ano e 1867, Franz acompanhou o pai em levantamentos no mencionado rio, na região entre Campo Belo e Barra do Piraí; nos vales do rio Paraíba e Pomba, nos rios Iguaçu, Paranapanema e Tibagi. Dessas investigações resultam relatórios publicados pelo Ministério da Agricultura (Diário do Rio de Janeiro, 17 de junho de 1864, quaarta colunaAlmanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1865; O Cearense, 2 de dezembro de 1865, terceira coluna; Dezenove de Dezembro, 20 de dezdembro de 1865, última coluna; Dezenove de Dezembro, 13 de janeiro de 1866, primeira coluna).

1862 – Seu irmão, Ferdinand, voltou do sul do Brasil, a bordo do patacho Guasca (Jornal do Commercio, 26 de fevereiro de 1862, terceira coluna). Retornou à Alemanha e ingressou na Academia de Belas Artes de Karlsruhe, estudando sob a tutela do paisagista alemão Johann Wilhelm Schirmer (1807 – 1863).

Franz fotografou a Quinta da Boa Vista, em São Cristóvão.

 

c. 1863 –  O fotógrafo carioca Marc Ferrez (1843 – 1923) retornou da Europa ao Brasil. Segundo seu neto, o historiador Gilberto Ferrez (1908 – 2000), Marc teria aprendido a arte da fotografia com Franz Keller (1835 – 1890), que em torno dessa data teria assumido a seção de fotografia da empresa de seu sogro, o fotógrafo e editor suíço Georges Leuzinger (1813 – 1892), criada em 1865. Uma carta enviada em 17 de janeiro de 1923 por um amigo de Ferrez, Luiz Carlos Franco, a seus filhos Julio e Luciano, após a a morte do fotógrafo, confirma que Ferrez havia trabalhado para Leuzinger. Porém, a participação de Franz Keller como diretor do ateliê fotográfico de Leuzinger é questionável e, na verdade, até hoje não foi comprovada. Além disso, na década de 1860, como já mencionado, Franz fez diversas viagens pelo Brasil com seu pai explorando rios do país sob contrato do governo imperial, o que tornaria difícil a possibilidade dele dirigir o estabelecimento fotográfico de seu sogro.

1864 – Franz e seu pai, Joseph, embarcaram rumo a Campos no vapor Ceres (Correio Mercantil, 1º de maio de 1864, segunda coluna).

Em ato oficial, de 24 de dezembro de 1864, do ministro de Estado dos Negócios da Agricultura Comércio e Obras Públicas, assinado pelo ministro Jesuino Marcondes de Oliveira e Sá (1827 – 1903), Franz e Joseph Keller foram encarregados de estudar o rio Ivahy (Correio Mercantil, 1º de janeiro de 1865, segunda colunaJornal do Recife, 22 de novembro de 1865, última coluna).

 

 

Franz Keller chegou a Santos na companhia de um criado, no vapor Dom Affonso, procedente de Santa Catarina com escalas (Correio Paulistano, 29 de outubro de 1865, primeira coluna).

Integrou-se à Expedição do Avaí, quando produziu aquarelas da região.

1865 – Foram publicadas notícias sobre o relatório elaborado pelos engenheiros Keller sobre a navegabilidade do rio Paraiba (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1865).

1866 – Foram publicadas notícias sobre o relatório elaborado pelos engenheiros Keller sobre a navegabilidade do rio Ivahy (Correio Mercantil, 16 de janeiro de 1866, penúltima coluna).

Joseph e Franz foram contratados pelo governo do Paraná para a realização do levantamento e da impressão da carta corográfica do estado (Dezenove de Dezembro, 28 de março de 1966, primeira coluna).

No dia 24 de julho, Franz e Joseph Keller partiram de Curitiba para explorar o rio Iguaçu. Também faziam parte do grupo o agrimensor Julio Kalkman e o intérprete Fructuoso Antonio de Moraes Dutra, além de 24 tripulantes das oito canoas da expedição (Dezenove de Dezembro, 14 de abril de 1866, última coluna; Dezenove de Dezembro, 4 de julho de 1866, primeira colunaCorreio Mercantil, 30 de julho de 1866, última coluna).

Em 7 de dezembro, o Decreto Imperial nº 3749 autorizou a abertura da navegação do rio Amazonas para outras nações, após pressões internacionais, vindas principalmente dos Estados Unidos. Foi nesse contexto que, no ano seguinte, Franz e Joseph Keller foram encarregados pelo Império do Brasil para a exploração de rios do Norte do país.

DECRETO Nº 3.749, DE  7 DE DEZEMBRO DE 1866

 

“Abrindo os rios Amazonas, Tocantins, Tapajós, Madeira, Negro e S. Francisco á navegação dos navios mercantes de todas as nações.

No intuito de promover o engrandecimento do Imperio, facilitando cada vez mais as suas relações internacionaes, e animando a navegação e o commercio do rio Amazonas e seus affluentes, dos rios Tocantins e S. Francisco, ouvido o Meu Conselho de Estado, Hei por bem Decretar o seguinte:

    Art. 1º Ficará aberta, desde o dia 7 de Setembro de 1867, aos navios mercantes de todas as nações, a navegação do rio Amazonas até á fronteira do Brasil, do rio Tocantins até Cametá, do Tapajós até Santarem, do Madeira até Borba, e do rio Negro até Manáos.

    Art. 2º Na mesma data fixada no art. 1º ficará igualmente aberta a navegação do rio S. Francisco até á Cidade do Penedo.

    Art. 3º A navegação dos affluentes do Amazonas, na parte em que só uma das margens pertence ao Brasil, fica dependendo de prévio ajuste com os outros Estados ribeirinhos sobre os respectivos limites e regulamentos policiaes e fiscaes.

    Art. 4º As presentes disposições em nada alterão a observancia do que prescrevem os Tratados vigentes de navegação e commercio com as Republicas do Perú e de Venezuela, conforme os regulamentos já expedidos para esse fim.

    Art. 5º Os Meus Ministros e Secretarios de Estado, pelas Repartições competentes, promoveráõ os ajustes de que trata o art. 3º, e expediráõ as ordens e regulamentos necessarios para a effectiva execução deste Decreto.

    Antonio Coelho de Sá e Albuquerque, do Meu Conselho, Senador do Imperio, Ministro e Secretario de Estado dos Negocios Estrangeiros, assim o tenha entendido e faça executar.

Palacio do Rio de Janeiro em sete de Dezembro de mil oitocentos sessenta e seis, quadragesimo quinto da Independencia e do Imperio.

Com a Rubrica de Sua Magestade o Imperador.

Antonio Coelho de Sá e Albuquerque.

Este texto não substitui o original publicado no Coleção de Leis do Império do Brasil de 1866″

 

1867 – O presidente da província do Paraná mandou sustar a exploração do rio Iguassu, cujos encarregados eram Joseph e Franz Keller (Diário de São Paulo, 23 de janeiro de 1867, primeira coluna).

Foi assinado, em 27 de março, e selado, em 23 de novembro, o Tratado de Ayacucho, entre o Brasil e a Bolívia, que definia os limites entre os dois países.

Franz casou-se com Sabine Christine Leuzinger (1842-1915), filha primogênita do fotógrafo, livreiro e editor suíço Georges Leuzinger (1813-1892), adotando também o sobrenome do sogro, passando a assinar Franz Keller-Leuzinger.

Por portaria de 10 de outubro de 1867, Franz e seu pai, Joseph Keller, foram incumbidos pelo governo imperial de explorar o rio Madeira na parte encachoeirada dele, desde Santo Antonio até a barra do rio Mamoré, e de elaborar os projetos mais apropriados para o melhoramento dessa importante via de comunicação com a província de Mato Grosso e a república da Bolívia. Relatório da exploração do rio Madeira na parte compreendida ente a cachoeira de Santo Antônio e a barra do Mamoré (Diário de Belém, 10 de outubro de 1869, última coluna).

Em 15 de novembro, embarcaram no Rio de Janeiro rumo ao Pará (Diário do Povo, de 15 de novembro de 1867,  primeira coluna).

O fotógrafo Christoph Albert Frisch (1840 – 1918) seguiu com os engenheiros rumo à Amazônia, comissionado por Leuzinger, em cujo ateliê fotográfico trabalhava. Levava um escravizado. A esposa de Franz, Sabine, e sua irmã, Pauline Keller, também estavam no paquete Paraná, assim como o engenheiro José Manoel da Silva, integrante da expedição (Diário do Povo, 15 de novembro de 1867, primeira coluna; Jornal do Commercio, 16 de novembro de 1867, terceira coluna).

 

 

 

Frisch acompanhou os engenheiros somente até Manaus e … percorreu 400 léguas pelo rio Amazonas e seus afluentes durante 5 meses…, num barco acompanhado por dois remadores, desde Tabatinga até Manaus. Produziu, na ocasião, uma pioneira série de 98 fotografias com os primeiros registros que chegaram até nós de índios brasileiros da região, além de aspectos de fauna e flora e de barqueiros de origem boliviana, que atuavam como comerciantes itinerantes nos rios amazônicos. Segundo o livro de Ernesto Senna, O velho commercio do Rio de Janeiro, a expedição fotográfica de Frisch à Amazônia foi fruto de uma solicitação feita pelo suíço Louis Agassiz (1807 – 1873) a Leuzinger.

Satisfazendo ao pedido de Agassiz, fez Leuzinger tirar vistas até Tabatinga, na fronteira do Amazonas com a República do Peru, vistas que serviram não só para os trabalhos científicos daqule sábio, como também para ilustrações europeias. Quando o engenheiro Keller foi em comissão explorar os rios Madeira e Mamoré, Georges Leuzinger mandou um fotógrafo da casa acompanhar a expedição, que trouxe depois daquelas incomparáveis regiões graande cópia de clichês, da flora, da fauna, de paisagens, e fotograafias de silvícolas e de suas tabas, aldeamentos, instruentos, armas, etc. Estas coleções, de grande valor para estudos etnográficos, eram muito interessantes sob qualquer ponto de vista e muito procuradas por viajantes estrangeiros”.

Agassiz havia, entre 1865 e 1866, comandado a Comissão Thayer no Brasil, que percorreu boa parte do território brasileiro entre o Rio de Janeiro e a Amazônia, viagem que deu origem ao livro A journey in Brazil, editado em Boston, em 1868. A Comissão Thayer foi financiada pelo empresário e filantropo norte-americano Nathaniel Thayer, Jr. (1808-1883), ex-aluno de Agassiz no Museu de Zoologia Comparada, em Harvard. Vale lembrar que Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), o futuro chefe da Comissão Geológica do Império (1875 – 1878), integrada pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843-1923), participou da Comissão ou Expedição Thayer – foi a primeira vez que esteve no Brasil.

A expedição à Amazônia liderada pelos Keller, com 32 volumes, alcançou Belém, em 1º de dezembro, e seguiu para Manaus, onde chegou no dia 10 do mesmo mês, no vapor Belém (Jornal do Pará, 11 de dezembro de 1867,terceira coluna; Jornal do Rio Negro, 11 de dezembro de 1867, segunda coluna).

 

 

1868 – No Anexo X do Relatório do Ministro da Agricultura de 1868, Joseph e Franz Keller fizeram comentários sobre a formação geológica do solo brasileiro. Em alguns pontos concordaram com o geógrafo, naturalista e explorador alemão Barão de Humboldt (1769- 1859), que havia participado de uma expedição pela América do Sul entre 1799 e 1804.(Jornal do Recife, de 12 de agosto de 1882, primeira coluna; Jornal do Recife, 13 de janeiro de 1883, primeira coluna).

 

geologiaJornal do Recife, de 1883

Jornal do Recife, 13 de janeiro de 1883

 

O governador do Amazonas, José Coelho da Gama e Abreu (1832 – 1906), o barão de Marajó,  submeteu ao governador do Pará, Joaquim Raimundo de Lamare (1811 – 1889), um ofício sobre a comissão dos Keller, que havia sido enviado pelo ministro da Agricultura, Zacarias de Góis e Vasconcelos (1815 – 1877) (Amazonas, 25 de abril de 1868, última coluna; Amazonas, 9 de maio de 1968, última coluna).

Foram concedidas às irmãs Sabine Leuzinger-Keller e a Pauline Keller concessão de passagens de Estado em embarcação da Companhia do Amazonas, de Manaus a Belém do Pará com as despesas pagas pelo Ministério da Agricultura. Joseph e Franz Keller foram recomendados pelo governo do Amazonas ao comandante do Forte Príncipe da Beira,  no Mato Grosso, para onde iriam com o objetivo de explorar o Rio Madeira, conforme comissão do governo brasileiro (Amazonas, 30 de maio de 1868, segunda coluna).

Sabine e Pauline chegaram ao Rio de Janeiro em 19 de junho, a bordo do paquete a vapor Guará (Correio Mercantil, 20 de junho de 1868, última coluna).

O fotógrafo Frisch retornou ao sul do Brasil, a bordo do vapor Cruzeiro do Sul (Jornal Pedro II, 24 de novembro de 1868, na quarta coluna). No ano seguinte, as imagens produzidas por ele durante a expedição pela Amazônia começaram a ser comercializadas a partir de um catálogo publicado pela Casa Leuzinger, Resultat d’une expédition phographique sur le Solimões ou Alto Amazonas et Rio Negro.

 

 

Em 9 de dezembro, o tenente -coronel José Wilkens de Mattos (1822 – 1889), governador do Amazonas, respondendo a um ofício enviado pelos Keller e pelo engenheiro José Manoel da Silva, autorizou a tesouraria de Fazenda a receber objetos que estavam com os requerentes, referentes à comissão que cumpriram no rio Madeira;  tomou ciência de que uma canoa adquirida na Bolívia pelos Keller e por José Manoel seria utilizada por João Martins da Silva Coutinho na comissão de exploração do rio Branco; e informou que os Keller e José Manoel teriam seu transporte a bordo do vapor Belém, de Manaus a Belém, em 10 de dezembro de 1868, custeado pelo Ministério da Agricultura. Poderiam utilizar o espaço de bagagem, duas toneladas, destinado ao governo. O trabalho comissionado pelo governo imperial havia sido concluído e eles voltariam para o Rio de Janeiro no mesmo vapor (Diário de Belém, 28 de dezembro de 1868, quarta colunaAmazonas, 5 de janeiro de 1869, primeira coluna).

 

 

 

1869 No dia 4 de janeiro de 1869, Joseph e Franz Keller e o ajudante José Manuel da Silva chegaram ao Rio de Janeiro a bordo do paquete Paraná. Franz estava enfraquecido pelas febres e queimado pelo sol. Segundo o pesquisador Frank Kohl, ele havia contraido malária (Diário do Rio de Janeiro, 5 de janeiro de 1869, quinta coluna).

Fez o retrato da filha de Leuzinger, Gabrielle Marie (1853 – 1869), que faleceu em 23 de abril de 1869 (Jornal do Commercio, 29 de abril de 1869, última coluna).

Após sua morte, ela estava quase sorridente, uma figura de anjo e tão branca quanto os lençóis de seu leito. Franz Keller fez seu retrato de perfil para nosso espanto o perfil perfeito de Mathilde quando tinha sua idade, 16 anos, 6 dias e 21 horas e meia” (Carta de Georges Leuzinger para seu filho Paul, que estava vivendo na França, de 2 de junho de 1969).

Esteve algumas vezes no Paço Imperial cumprimentando o imperador Pedro II (1825 – 1891) (Diário de Rio de Janeiro, 14 de setembro; 19 de outubro29 de novembro6 de dezembro e 21 de dezembro de 1869, primeiras colunas).

Na seção de 14 de setembro do Instituto Politécnico Brasileiro, fez um discurso agradecendo sua nomeação para sócio correspondente da instituição. Além dele, discursaram Luiz Filipe de Saldanha da Gama (1846 – 1895) e Antônio Augusto Fernandes Pinheiro (18? – ?). Augusto Teixeira Coimbra (18? – ?) também foi, na ocasião, nomeado sócio correspondente (Jornal do Commercio, 24 de setembro de 1869, segunda colunaRevista do Instituto Politécnico Brasileiro, 1869).

1870 – Na seção de 14 de junho de 1870 do Instituto Politécnico Brasileiro, sob a presidência do conde d´Eu (1842 – 1922), J.M. da Silva anunciou que Franz Keller havia viajado para a Europa (Revista do Instituto Politécnico Brasileiro, 1874).

Foi autorizada a venda em hasta pública dos objetos comprados para a exploração dos rios Iguaçu, Ivahy, Paranapanema e Tibagi, entregues por Joseph e Franz Keller a Serafim Carvalho Baptista e José Feliciano da Silva (Dezenove de Dezembro, 12 de outubro de 1870, última coluna).

1872 – Joseph Keller ainda se encontrava no Brasil (Jornal do Commercio, 7 de abril de 1872, sétima coluna).

Em julho, Franz Keller (1835-1890) estava na Suíça.

1873 – Retornou à Alemanha para tratar da saúde, fixando residência na cidade alemã de Karlsruhe. Conforme hjá mencionado, segundo o pesquisador Frank Kohl, Franz havia contraído malária no Amazonas e justamente por isto não pode aceitar o convite do coronel americano George Earl Church (1835-1910) para participar da construção da ferrovia Madeira-Mamoré, que utilizou os dados levantados pelos Keller naquela região. Church havia recebido do governo brasileiro a concessão para a construção da ferrovia. Porém, por diversos motivos, Church não concluiu o empreendimento (Revista do Instituto Politécnico Brasileiro, fevereiro de 1874).

“A magnitude e a expectativa que despertaram os projetos de Church provocaram o acre zelo e a oposição daqueles que detinham o monopólio comercial da área, os comerciantes da Costa do Pacífico, na medida em que se propunha a abrir rota concorrente de comércio. De repente descobriram que uma companhia americana detinha um empreendimento que prometia penetrar pelo centro da América do Sul e transformar seu comércio. Ao utilizar a rede fluvial, afetaria poderosamente as relações políticas e inter comerciais de vários Estados hispano-americanos. Ferozes interesses contrariados se aliaram amplamente. A English Construction Company denunciou o contrato e aliou-se aos seus acionistas em um ataque ao fundo fiduciário ferroviário, que eles vincularam por liminar ao Tribunal de Chancelaria. O governo boliviano tentou apreender o fundo. O coronel Church lutou contra esses pesados ataques, defendendo o terreno a cada polegada que houvesse para sustentar ganhou batalha após batalha entre 1873 a 1878. O comitê dos detentores de títulos subornou o presidente boliviano Daza com £ 20.000 para tomar partido ao seu favor e instaurou um novo processo para revogação da concessão boliviana. Mesmo neste novo processo, o coronel Church ganhou no Tribunal de Primeira Instância. A Câmara dos Lordes finalmente resolveu a questão declarando impraticável o empreendimento, embora meses antes o governo brasileiro tivesse dado seu apoio inabalável ao coronel Church. A seu pedido foi decretado um complemento ao fundo existente com o montante necessário para concluir as obras ferroviárias. Na época em que a empresa faliu havia 1.200 homens trabalhando na linha férrea e uma locomotiva em tráfego no primeiro trecho inaugurado”.

A Madeira-Mamoré e a notícia biográfica de George Earl Church feita por Clements Markham,

por  Dante Ribeiro da Fonseca

 

1874 –  Franz Keller (1835-1890) publicou o livro ilustrado Do Amazonas ao Madeira (Jornal do Commercio, de 31 de janeiro de 1874, na última coluna). Na edição alemã, ficou registrado na folha de rosto que as ilustrações da obra, reconstruídas com base nos esboços de Franz, foram gravadas em madeira na oficina gráfica de Adolf Clob (1840 – 1894). Franz, no prefácio do livro, agradece a seu pai, “meu fiel companheiro e colega de ciência nessa cansativa jornada, além de também agradecer ao meu irmão, professor Ferdinand Keller, especialista em pinturas históricas, cuja consultoria quanto às ilustrações me foram de inestimável valor”. O livro também foi editado em Londres pela Chapman & Hall, no mesmo ano, e possuia 68 ilustrações.

 

 

Com uma carta enviada de Karslruhe, datada de 1º de maio de 1874, Franz respondeu ao opúsculo intitulado Estudo sobre o Rio Madeira (1873), do engenheiro baiano Eduardo José de Moraes (1830 – 1895). O autor afirmava que a expedição para a exploração do rio Madeira não havia atendido às instruções do governo imperial, o que Franz rebateu (Jornal do Commercio, 15 de julho de 1874, quinta coluna).

1876 – Gravuras do livro Do Amazonas ao Madeira foram publicadas na revista Illustração Brasileira, fundada pelo litógrafo alemão Henrique Fleuiss (1823-1882) e muito importante na história da imprensa no Brasil. Seu modelo eram as revistas francesa L´Illustration e a inglesa The Illustrated London News. Para Joaquim Marçal Ferreira de Andrade, um dos curadores do portal Brasiliana Fotográfica e coordenador da BN Digital, as páginas do artigo de Franz Keller-Leuzinger foram um marco na história do projeto gráfico das páginas das revistas ilustradas do Brasil, “mesmo considerando-se que as matrizes eram alemãs”(Illustração Brasileira, 1º de julho e 15 de julho de 1876).

 

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Em Karlsruhe, na Alemanha, dom Pedro II (1825 – 1891), durante sua segunda viagem à Europa, encontrou-se com Franz  Keller (Novo e completo Índice Cronológico da História do Brasil). Na ocasião, Franz, que vivia na época de seus trabalhos artísticos, escreveu uma carta ao monarca, na qual expunha seus planos para o futuro em um possível retorno ao Brasil. Dentre seus projetos, pedia o monopólio para explorar o sal no Paraná e se voluntariava para intermediar a venda da pólvora da Alemanha para o Brasil.

Voltando desse modo outra vez as belas praias da Terra de Santa Cruz, isto é, acompanhando em pessoa um carregamento de pólvora e se necessário fosse de armamento ao Rio de Janeiro. V. M. I. dignasse talvez de encarregar-me outra vez com trabalhos técnicos como antigamente. Me seja permitido, afora os trabalhos de exploração dos rios, alinhamento de estradas e caminhos de ferro e o levantamento de mapas geográficos, citar a elaboração de projetos de abastecimento da capital com água potável, que dia a dia fica mais urgente“.

Carta de Franz Keller-Leuzinger a D. Pedro II, 29 de julho de 1876.

Seção de Manuscritos da Biblioteca Nacional

 

Parece que esses projetos nunca se realizaram.

Tanto ele como seu pai eram sócios correspondentes do Instituto Politécnico Brasileiro (Revista do Instituto Politécnico Brasileiro, outubro de 1876).

1877 – Foi publicado, no primeiro número do jornal O Vulgarisador, a imagem do encontro de Franz com os índios Caripunas, do livro Do Amazonas ao Madeira (O Vulgarisador, 1ª edição, 1877).

 

 

 “Eram criaturas fortes, bem conformadas e de estatura mediana; traziam pendentes comprimidos cabelos pretos; um dos homens apenas usava-os enrolados em trança. Um dente de anta atravessava-lhes as pontas das orelhas, e tinha, além disto, em outro buraco na separação de nariz, um pequeno molho de penas encarnadas de tucano. Não traziam armas, a esta circunstancia junto à presença de uma de suas mulheres na embarcação, respondia-nos pela benevolência de suas intenções” (O Vulgarisador, 1ª edição, 1877).

 

 

Sobre o livro, o editor de O Vulgarisador, o poeta, escritor e jornalista português Augusto Emilio Zaluar (1826 – 1882), comentou: “deve interessar a todos que ligam a verdadeiro apreço aos trabalhos desta natureza, que, infelizmente, ainda tanto escasseiam entre nós”. Ele emigrou para o Brasil, em 1849, e, sete anos depois, naturalizou-se cidadão brasileiro. Em 1876, recebeu a comenda da Ordem da Rosa e era amigo de escritores como Machado de Assis (1839 – 1908) e José de Alencar (1829 – 1877). Colaborou em diversos periódicos como A Época, Espelho e Álbum SemanalO Vulgarizador circulou entre 1877 e 1881, no Rio de Janeiro. Seus livros mais conhecidos são Peregrinações pela Província de São Paulo (1860-1861) (1862) e Doutor Benignus (1875). Este último é considerado a primeira ficção científica brasileira.

 

 

Falecimento de Joseph (José) Keller (1811 – 1877).

Década de 1880 - Durante essa década, Franz Keller, esteve no Brasil, mas voltou à Alemanha.

1881 - Aquarelas de Joseph Keller fizeram parte da exposição História do Brasil, da Biblioteca Nacional.

1889 – Franz Keller continuava sendo sócio correspondente do Instituto Politécnico Brasileiro (Revista do Instituto Politécnico Brasileiro, 1889).

1890 - Franz Keller-Leuzinger faleceu em Munique, na Alemanha, em 18 de julho de 1890.

 

Roteiro da Expedição à Amazônia segundo o Relatório da exploração do rio Madeira na parte compreendida entre a cachoeira de Santo Antônio e a barra do Mamoré

 

Mapa desenhado por Franz Keller-Leuzinger reproduzindo o percurso de sua viagem, no livro Do Amazonas ao Madeira

Mapa desenhado por Franz Keller-Leuzinger reproduzindo o percurso de sua viagem, no
livro Do Amazonas ao Madeira

 

1967

10 de outubro – Foi assinada pelo governo imperial uma portaria incumbindo os engenheiros Franz e Joseph Keller em de explorar o rio Madeira na parte encachoeirada dele, desde Santo Antonio até a barra do rio Mamoré, e de elaborar os projetos mais apropriados para o melhoramento dessa importante via de comunicação com a província de Mato Grosso e a república da Bolívia.

15 de novembro – A expedição parte do Rio de Janeiro. Além dos Keller, embarcaram no paquete Paraná o fotógrafo Christoph Albert Frisch (1840 – 1918), a esposa e a irmã de Franz, repectivamente, Sabine Christine Leuzinger (1842-1915), filha do fotógrafo e editor suíço Georges Leuzinger (1813 – 1892); e Pauline.

1º de dezembro – Chegada em Belém.

10 de dezembro – Chegada em Manaus, a bordo do vapor Belém. A expedição levava 32 volumes. O governador do Amazonas, José Coelho da Gama e Abreu, o barão de Marajó (1832 – 1906), os avisou que a subida das cachoeiras e o estudo do rio das enchentes difícil e penoso. Fizeram então o levantamento. O governador os encarregou de fazer um levantamento de parte da planta do Rio Negro e da cidade de Manaus. O ajudante José Manoel da Silva fez o levantamento da planta de Manaus. Devido à falta de remeiros, o trabalho do Rio Negro não pode ser realizado. Foi feito então um projeto e orçamento para a reconstrução de uma ponte manauara que estava em ruínas.

 

 1868

 

9 de fevereiro – José Coelho da Gama e Abreu, o barão de Marajó (1832 – 1906) foi sucedido no governo do Amazonas por Jacinto Pereira do Rego que não atendeu às solicitações necessárias para a expedição: nem forneceu o número de guardas nem o vapor Jurupensen que poderia ter levado o pessoal e o trem da expedição até Santo Antônio.

fevereiro / maio – Com o propósito de levar a cabo a missão, procuraram o vice-cônsul da Bolívia, Ignacio Araus, que encontrava-se em Manaus. Ele ofereceu toda a ajuda necessária e falou de um comerciante boliviano que iria para o Pará e, de lá, para a Bolívia. Dessa forma uma comissão ao mando do governo imperial seguiu viagem sob os auspícios de um particular.

Compraram, em Serpa, uma canoa de lotação de 300 arrobas mal construída e em mal estado por não haver outra, do major Dalmazo de Souza Barriga.

30 de maio – A comissão Keller partiu de Serpa, no Amazonas, atrás do comerciante boliviano, com sete tripulantes quando a canoa demandava ao menos 12. A embarcação levava mantimentos para 4 meses, ferramentas para a construção e conserto de canoa, instrumentos de medição, armamentos, toldos e barracas.

9 de junho – Chegada à Borba com menos dois remeiros, que haviam fugido.

10 a 13 de junho – Passaram por Sapucaia-oroca, dos índios Mura; a Ilha das Araras e pela barra do rio Aripuanã.

madrugada de 14 para 15 de junho – Conserto de uma canoa, que perigava afundar.

15 de junho – Passaram pelas pedras de Aruá.

18 de junho – Chegaram ao engenho de Ignacio Araus, onde o comerciante boliviano os aguardava com impaciência. Transferiram a carga para uma canoa mais apropriada.

21 de junho – Continuaram a viagem. A comitiva tinha 70 índios bolivianos das missões do Mamoré como remeiros e pilotos de sete canoas e de oito brancos.

30 de junho – Encontraram uma família de índios Mura. Por alguns dias, seguiram a expedição. Compraram tartarugas dos índios.

início de julho – Acima de um lugar denominado Três Casas visitaram a barraca de alguns seringueiros bolivianos que com os índios Moxos exploravam a resina.

5 de julho – Chegaram ao Crato, uma estância para a criação de gado. Lá se encontrava o destacamento de Santo Antônio que, nessa época do ano, princípio da estação de chuvas, se retirava de Santo Antônio para um lugar mais salubre. Foram recebidos com cordialidade pelo comandante do destacamento que os apresentou ao dono do lugar, o capitão Tenório.

10 a 15 de julho – Passaram à Ilha das Abelhas, à barra do Pirapitanga e a do Jamary, muito rica em peixes mas infestada pelas febres de caráter maligno.

16 de julho – Chegaram à Ilha dos Mutuns e à praia dos Tamanduás, onde, no mês de setembro, milhares de tartarugas vêm desovar. Na mesma época, seringueiros e pescadores vêm para o local, onde juntam os ovos das tartarugas para a fabricação de manteiga e levam tartarugas, causando grande destruição.

Chegada à Cachoeira de Santo Antônio. Foi necessário descarregar as canoas e transportar tudo para 450 metros acima dos rochedos da margem esquerda..

18 de julho – Chegaram na correnteza dos Macacos da qual já se descobre a fumaça que levanta o salto do Theotônio.

22 de julho – Chegaram à Cachoeira dos Morrinhos, que tinha dois saltos distintos.

25 de julho – Entre Morrinhos e o Caldeirão do Inferno encontraram canoas construídas com cascas de Jatubá pelo índios Caripunas, que habitavam aquela altura do rio. Foram convidados por eles para visitarem suas malocas e foram presenteados com raízes de mandioca e milhos em espiga. Ofertaram aos índios facas, tesouras e anzóis. Dias depois, encontraram outros Caripunas, de quem compraram uma anta e um porco do mato. Esses encontros transcorreram, segundo o relatório da expedição, sempre em um clima de amizade e harmonia.

26 de julho – Chegaram à parte inferior da perigosa Cachoeira do Caldeirão do Inferno. Muitas cruzes rodeavam o local, onde diversos barcos haviam naufragado e pessoas morrido de febres malignas. O engenheiro peruano Maldonado foi uma das vítimas de um naufrágio na região. Um dos índios remeiros da comissão Keller faleceu no local devido a uma inflamação intestinal.

27 de julho – Avistaram os morros ao pé do Salto do Girão. Durante quatro dias foi feito o transporte das cargas e a varação das canoas.

31 de julho e 1º de agosto – Continuaram a viagem e chegaram a Pedras de Amolar, nome dado ao local por navegantes devido às camadas de gres argiloso (arenito). À tarde, chegaram à correnteza mais forte dos Três Irmãos, com uma  queda de menos de um metro.

3 e 4 de agosto – Chegada à Cachoeira do Paredão, com uma queda divida em duas partes.

5 de agosto – Chegada à Cachoeira Pederneira, assim chamada devido a presença de veias de quartzo nas fendas do rochedo. Rio acima, a cacheira mais próxima era a das Araras. Pouco acima da Pederneira, se acha à margem esquerda a barra do rio Abuná.

9 a 15 de agosto – Chegaram à Cachoeira do Ribeirão onde ficaram até dia 15. Ela é formada por cinco saltos. Foi observado que os riscos das pedras em um dos saltos formam uma paralela interessante com a representação tosca de objetos celestes e de animais nos rochedos do Orenoco, descritos por Humboldt.

15 a 18 de agosto – Chegaram à Cachoeira do Madeira e à Cachoeira das Lages.

19 de agosto – Chegada ao Salto das Bananeiras. A passagem do salto durou dois dias, as canoas tiveram que ser descarregadas e transportadas por cima dos rochedos.

21 a 22 de agosto – Após uma seca extraordinária, chuva forte e queda da temperatura para 11º.

23 de agosto – Chegada à Cachoeira do Guajará-Guassu. As cargas foram transportadas por terra e as canoas por água a sirga (puxadas por cordas).

24 de agosto – Chegada à Cachoeira Guajará-Mirim. Encontraram 10 canoas bolivianas carregadas com couros e sebo, Por seu dono, de Santa Cruz de la Sierra, enviaram ofícios e cartas para o Rio de Janeiro e para o Pará. No mesmo dia, chegaram à barra do Ribeirão da Paca Nova, ao pé da serra homônima. As canoas estavam quase todas defeituosas. Foram tiradas da água e calafetadas.

1º de setembro – A expedição chegou na junção do rio Mamoré com o Guaporé, onde habitava uma tribo indígena. Seguiram para o Serrito, sítio do brasileiro Antônio de Barros Cardoso, que morava na Bolívia há cerca de 15 anos e recebeu a expedição com a maior afabilidade. Ele já havia ajudado anteriormente, no início da década de 1850, o explorador Lardner Gibbon (1820 – 1910), tenente da Marinha dos Estados Unidos. Ele acompanhou a expedição até Exaltacion de la Santa Cruz, na Bolívia, uma antiga missão dos jesuitas.

10 de setembro – Chegada a Exaltacion de la Santa Cruz, onde Franz foi recebido pelas autoridades bolivianas. Com o prefeito da cidade, A. Morant, conversou sobre a o engajamento de índios remeiros para integrar a expedição. A essa altura já havia sido feita a aquisição de canoas e mantimentos.

15 de outubro – Partida para o sítio do Serrito, onde permaneceram até dia 19 de outubro. O comboio era formado por cinco embarcações de diferentes tamanhos – uma galeota, duas ubás, uma montaria e uma igarité – com uma tripulação total de 32  remeiros.

21 de outubro – Chegada à barra do Mamoré, onde ficaram dois dias medindo o volume cúbico das águas dos rios Mamoré e Guaporé.

24 de outubro – Estavam nas Ilhas Cavalo Marinho onde iniciaram uma medição detalhada com o micrômetro. À noite, houve uma tempestade.

25 de outubro – Realização da exploração e sondagem do rio Guajará-Mirim.

27 de outubro –  Passaram o Salto das Bananeiras e, devido ao mau tempo, as embarcações chegaram a encostar e um rochedo. Alguns dos índios assim como um dos engenheiros da expedição tiveram uma febre intermitente e foram tratados com sulfato de quinino. Terá sido Franz o engenheiro já que se sabe que ele provavelmente contraiu malária durante a expedição? Fazia muito calor e à noite houve um temporal.

30 de outubro – Haviam chegado com a medição até a Cachoeira do Pao-Grande.

2 a 7 de novembro – Estavam na barra do rio Beni, onde entraram para realizar a medição de suas águas. Passaram pela Cachoeira do Madeira, pela passagem do Ribeirão, pelos Periquitos e pelas Araras. No dia 7, devido às chuvas, foram obrigados a parar e armar os toldos e as barracas.

8 de novembro – Chegada ao Paredão.

11 e 12 de novembro – Passaram por Três Irmãos e pelo Salto do Girão.

13 a 15 de novembro – Passaram pelo Caldeirão do Inferno e reencontraram os índios Carapunas. Encontram também outra tribo indígena. Uma das canoas da expedição quase naufragou.

16 de novembro – Passaram pela barra do Jassiparaná e chegaram, à tarde, à Cachoeira dos Morrinhos.

17 e 18 de novembro – Chegaram ao Salto do Theotônio.

19 e 20 de novembro – Passaram pela correnteza dos Macacos e pela Cachoeira de Santo Antônio.

21 de novembro – Chegada ao Crato, primeiro ponto onde se encontram alguns recursos. Deixaram com o comandante do destacamento de Santo Antônio uma das ubás para ser devolvida ao brasileiro Antônio de Barros Cardoso, a quem pertencia.

25 de novembro – Passaram o Manicoré e chegaram ao sítio de J. Arans, onde deixaram uma das embarcações e parte da tripulação. Seguiram viagem com três canoas. Na aldeia dos Muras fizeram uma medição do volume cúbico das águas do rio Madeira.

26 de novembro – Chegaram à vila de Borba.

30 de novembro – Chegada a Serpa. Remeteram as canoas ao major Damazo de Souza Barriga e deram conhecimento desse ato ao presidente da província.

Passaram em Manaus onde entregaram no depósito do trem bélico armamentos e utensílios. Encontraram-se com o presidente da província.

14 de dezembro – Chegada no Pará.

 

1969

4 de janeiro – Chegada ao Rio de Janeiro.

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Acervo do IMS- Cartas de Georges Leuzinger

ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira de. A trajetória de Henrique Fleiuss, da Semana Ilustrada: subsídios para uma biografia. In: KNAUSS, Paulo et alli (org.) Revistas Ilustradas: modos de ler e ver no Segundo Reinado. Rio de Janeiro: MAUAD; FAPERJ, p.53-66, 2011.

BELLUZZO, Ana Maria de Moraes. O Brasil dos Viajantes. Vol.2. São Paulo: Metalivros, 1994.

Dicionário de Verbetes AGCRJ

Enciclopédia Itaú Cultural

FERREZ, Gilberto. A fotografia no Brasil: 1840-1900. 2ª edição. Rio de Janeiro: FUNARTE, 1985.

FASOLATO, Jorge Douglas Alves. Estrada União e Indústria: paisagem, intervenção e fotografias de Revert Henry Klumb na perspectiva de uma rota cultural. Fundação Casa de Rui Barbosa Programa de Pós-Graduação em Memória e Acervos Mestrado Profissional em Memória e Acervos, 2020.

FONSECA, Dante Ribeiro da. A Madeira-Mamoré e a notícia biográfica de George Earl Church feita por Clements Markham. Gente de Opinião, 29 de outubro de 2019.

Biblioteca de jornais digitais da Biblioteca Nacional

KELLER-LEUZINGER, Franz. Os rios Amazonas e Madeira : esboços e descrições do caderno de um explorador . Londres: Chapman & Hall, 1874.

KELLER-LEUZINGER, Franz (1835-1890). Os Rios Amazonas e Madeira: esboços e relatos de um explorador / Franz Keller-Leuzinger; tradução, apresentação e notas de Adriano Gonçalves Feitosa – Belo Horizonte : Editora Dialética, 2021.

KOHL, Frank Stephan. Um jovem mestre da fotografia na Casa LeuzingerCadernos de Fotografia Brasileira/IMS, n.3, p.185-214, 2006.

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

PESSOA, Ana; SANTOS, Ana Lucia Vieira dos. Th. Marx, um arquiteto na corte de D. Pedro II. 3° Congresso Internacional de História da Construção Luso-Brasileira (CIHCLB), realizado em Salvador (BA) nos dias 3 a 6 de setembro de 2019

Relatório da exploração do rio Madeira na parte compreendida entre a cachoeira de Santo Antônio e a barra do Mamoré (Diário de Belém, 10 de outubro de 1869, última coluna; 12 de outubro de 1869, primeira coluna; 13 de outubro, terceira coluna; 14 de outubro de 1869, primeira coluna; 15 de outubro, segunda coluna; 16 de outubro de 1869, terceira coluna).

SENNA, Ernesto. O Velho Comércio do Rio de Janeiro. 2ª edição. Rio de Janeiro: G Ermakoff, 2006.

Site Biblioteca Digital Mundial

Site Infoescola

Site Mast

Stolberg-Wernigerode, Otto: New German Biography . Berlim: Editor Fritz Wagner, 1997.

VASQUEZ, Pedro Karp. Fotógrafos Alemães no Brasil do século XIX. São Paulo: Metalivros, 2000. p.77.

VERGARA, Moema de Rezende. A Exploração dos rios Amazonas e Madeira no Império Brasileiro por Franz Keller-Leuzinger: imprensa e nação. Almanack. Guarulhos, n.06, p.81-94, 2º semestre de 2013.

A Estrada de Ferro do Paraná, de Paranaguá a Curitiba, pelos fotógrafos Arthur Wischral e Marc Ferrez

 

 

Arthur Júlio Wischral (1894 – 1982) foi um importante fotógrafo do Paraná, tendo realizado trabalhos para a imprensa e também para o governo do estado onde atuou. Em 1928, foi contratado pela Rede Viação Paraná – Santa Catarina e registrou o dia a dia das obras de manutenção da estrada de ferro Curitiba-Paranaguá assim como as dificuldades enfrentadas por seus trabalhadores. Um álbum, editado pelo próprio fotógrafo e por J. J. Wischral, foi produzido com esses registros.

 

 

 

Acessando o link para o Álbum de Photografias da Ferrovia de Curytiba a Paranaguá, de autoria de Arthur Wischral, disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

No final do artigo, há uma cronologia da vida de Wischral.

 

Um pouco da história da ferrovia Curitiba-Paranaguá, cuja construção foi registrada pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923)

 

 

O surgimento dos trens de ferro e a expansão das ferrovias eram no século XIX um evidente sinal de modernidade. Significavam a vitória, o triunfo do homem a partir da tecnologia e tinham como uma de suas consequências o desenvolvimento econômico. A ideia da construção da Ferrovia do Paraná surgiu após a emancipação do estado do Paraná, em 29 de agosto de 1853, a partir da Lei Imperial nº 704, assinada por dom Pedro II(1825 – 1891). Era um desafio escoar a erva-mate, importante produto para a economia do estado, para os portos do litoral. Por essa razão, foi autorizada a contratação de uma via férrea a partir da Lei Provincial nº 11, de 30 de abril de 1856 (Dezenove de Dezembro, 22 de outubro de 1856).

 

Acessando o link das imagens do Álbum da Estrada de Ferro do Paraná, de autoria de Marc Ferrez, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Porém, só no início da década de 1870, os engenheiros Francisco Monteiro Tourinho (1837 – 1885), Antônio Pereira Rebouças (1839 – 1874) e Maurício Schwartz (18? -?) solicitaram ao Império um pedido de concessão para a construção da ferrovia. Eles já haviam construído a Estrada da Graciosa, também no Paraná. A estrada de ferro do Paraná sairia, a princípio, da cidade de Antonina. Após muita polêmica, o Decreto Imperial de 1.º de maio de 1875 decidiu que o trem partiria de Paranaguá. O argumento foi que a profundidade da baía de Antonina não comportaria navios de grande porte.

O projeto da ferrovia, arrojado e muito avançado para a época, foi dos irmãos e engenheiros André Rebouças (1838 – 1898) – também abolicionista – e Antônio Pereira Rebouças (1839 – 1874), considerados, até hoje, os primeiros afrodescendentes formados em Engenharia no Brasil. Para realizá-lo, os irmãos fizeram um estudo detalhado da Serra do Mar e elaboraram um traçado cheio de pontes, túneis e viadutos.

 

 

Em 1873, por não conseguir cumprir os prazos estabelecidos para o início das obras, Antônio Rebouças cedeu seus direitos ao Barão de Mauá (1813 – 1889), que também não cumpriu as exigências do contrato. Em 1877, foi aprovado um novo traçado baseado nos originais de Rebouças e com adaptações dos engenheiros Rodolpho Alexandre Helh e Luiz da Rocha Dias. Pelo Decreto n° 7420 de 12 de agosto de 1879, assinado por João Lins Vieira Cansanção de Sinimbu, o Visconde de Sinimbu (1810 – 1906), foi autorizada a transferência de todos os direitos e obrigações dos, desde 1875, concessionários da ferrovia, José Gonçalves Pecego Junior e José Maria da Silva Lemos, à companhia francesa Compagnie Général de Chemins de Fer Brésiliens, que não tinha expertise em relação à construção de estradas de ferro, o que sua companhia associada, a empreiteira belga Société Anonyme de Travaux Dyle et Bacalan, tinha. Ficou, então, encarregada das obras.

 

 

O diretor dos novos serviços para a construção, um marco da engenharia do Brasil, foi o comendador Antônio Ferrucci (c. 1830 – ?), um dos principais chefes de seu planejamento que, com outros membros da comissão de engenharia da estrada, chegou ao Rio de Janeiro, em 8 de fevereiro de 1880, no paquete francês Gironde (Gazeta de Notícias, 10 de fevereiro de 1880, sétima coluna). Ferrucci comandou as obras até fins de 1881. A partir de 20 de janeiro de 1882, o representante no Brasil da Société Anonyme des Travaux Dyle et Bacalan, o engenheiro Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), futuro prefeito do Rio de Janeiro, entregou a chefia das obras ao engenheiro brasileiro João Teixeira Soares (1848 – 1927), que concluiu a construção da ferrovia, sendo o seu primeiro diretor.

 

 

A construção da ferrovia para a qual, entre brasileiros e estrangeiros – franceses, italianos, belgas, suíços, suecos e poloneses -, foram empregados cerca de nove mil trabalhadores, alavancou o desenvolvimento de Curitiba assim como a história da economia do Paraná.

Em 5 de junho de 1880, com a presença de dom Pedro II (1825 – 1891), em sua primeira e única visita ao Paraná, foi lançada a pedra fundamental das obras da ferrovia (Dezenove de Dezembro, 24 de maio de 1880Dezenove de Dezembro, 9 de junho de 1880, segunda coluna). A inauguração do tráfego regular da primeira seção, o trecho de Paranaguá a Morretes, ocorreu em 17 de novembro de 1883. O da segunda seção, entre Morretes e Borda do Campo ou Roça Nova, em 1884.

 

 

Em 13 de dezembro de 1884, a princesa Isabel (1846 – 1921), seus filhos, o governador do Paraná, Brasílio Augusto de Machado Oliveira (1848 – 1919); além de outras autoridades viajaram na ferrovia do Paraná, entre Curitiba e Paranaguá, onde a princesa embarcaria para Antonina e depois para Santa Catarina, onde encontraria seu marido, o conde d´Eu (1842 – 1922), em Joinville (Gazeta de Notícias, 14 de dezembro de 1884, primeira colunaDezenove de Dezembro, 14 de dezembro de 1884, primeira colunaO Paiz, 14 de dezembro de 1884, segunda coluna).

 

 

No dia 1º de fevereiro de 1885,  partiu da cidade de Curitiba um trem especial com destino à Paranaguá. Nele viajaram o dr. Brasilio Machado (1848 – 1919), presidente da Província; o chefe da Polícia, o senador Pedro Leão Veloso (1828 – 1902), o engenheiro João Teixeira Soares (1848 – 1927), dentre outras autoridades. Em Paranaguá, pelo vapor América, fretado pela Compagnie Général de Chemins de Fer Brésiliens, chegaram da Corte, no dia seguinte pela manhã, entre outros, o ministro da Agricultura, Manoel Pinto de Souza Dantas (1831 – 1894);  os ministros da Bélgica, da Rússia e da França; o Visconde de Paranaguá (1821 – 1912) e o Conselheiro Sinimbu (1810 – 1906) (Dezenove de Dezembro, 4 de fevereiro de 1885).

 

O vapor do mar, em galas, saudava a locomotiva, vapor de terra. Fulton abraçava Stephenson.

 

O fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), que fotografou a ferrovia na época de sua construção, estava presente no evento (Dezenove de Dezembro, 4 de fevereiro de 1885, terceira coluna).

 

 

Ainda na manhã de 2 de fevereiro, às 10h, o trem inaugural da Ferrovia do Paraná partiu de Paranaguá, fez uma parada em Morretes e, às 14h, em Cadeado, onde os convidados almoçaram. Houve uma série de saudações, uma delas feita pelo engenheiro Pereira Passos (1836 – 1913).

 

 

Depois de mais uma parada, na estação de Piraquara, o comboio chegou, às 19h, à Curitiba, tendo sido recepcionado por cerca de cinco mil pessoas que o aguardavam. Às 20:20, a Compagnie Général de Chemins de Fer Brésiliens ofereceu um banquete aos convidados da Corte, em um dos armazéns da estação, ornamentada com as bandeiras belga, brasileira, francesa, italiana e russa. Havia também uma exposição de utensílios dos operários que haviam trabalhado na construção da ferrovia.

 

 

 

 

 

 

Pereira Passos (1836 – 1913) presenteou dom Pedro II (1825 – 1891) com 14 fotografias e um álbum de autoria de Ferrez das obras da ferrovia, Estrada de Ferro do Paraná. O álbum integra a coleção Thereza Christina Maria, mantida na Biblioteca Nacional do Brasil, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica.

 

 

Em 1886, em uma reunião da Sociedade Central de Immigração, da qual faziam parte, entre outros, o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), o pintor italiano Nicolau Facchinetti (1824 – 1900), e o político Alfredo d´Escragnolle Taunay (1843 – 1899), foram apresentadas por esse último, presidente da associação, fotografias da ferrovia do Paraná, de autoria de Ferrez (A Immigração, agosto de 1886).

 

álbum

 

Acesse aqui o pdf do Álbum da Estrada de Ferro do Paraná, de autoria de Marc Ferrez, com 33 imagens.

Sobre o viaduto São João, considerado o mais importante de toda a linha, inaugurado em 26 de junho de 1884 e registrado na fotografia abaixo, o engenheiro Teixeira Soares (1848 – 1927) comentou:

 

 

“Os três vãos pequenos são vencidos com vigas de alma cheia. Só o vão central é de treliça. Assenta sobre pilares de ferro batido, apoiados em base de alvenaria de pedra. A estrutura metálica é fabricada na Bélgica. Fornecemos os perfis do terreno natural e do greide. Eles projetam cada ponte ou viaduto de acordo com o trem de carga especificado. Aqui fazemos a montagem, que não é fácil. Para muita gente pode parecer desperdício pilares metálicos, se estamos rodeados de granito e de gnaisse em abundância. Acontece que a experiência europeia concluiu que, a partir de 30 metros, o ferro torna-se mais econômico do que a alvenaria de pedra. O alojamento e a manutenção do numeroso pessoal necessário à execução de importantes maciços de alvenaria acarretam dificuldades. Embora isso, os pilares metálicos devem ser embutidos em bases de alvenaria, com certa altura. Não só impedem que a unidade provoque a corrosão do metal, como evitam que suba até a estrutura metálica. Para vãos inferiores a 15 metros, os europeus recomendam vigas de alma cheia. Mais afoitos, os americanos as empregam até vãos de 35 metros. Seu inconveniente é a rebitagem. Trabalho insano. Como estamos sujeitos ao mercado europeu, acima de 15 metros usamos vigas em treliça, a exemplo do vão central. As treliças simples são três. Em “V”, conhecidas por vigas ‘Warren’, do nome do engenheiro inglês que primeiro as usou no seu país. Em “N”, ou Monier, nome do engenheiro belga que as patenteou em 1858, na Alemanha. Finalmente as Neville, nome tirado do engenheiro americano que as inventou, mas que não passam de um tipo misto das anteriores. Aqui, dada a extensão do vão, os belgas projetaram uma treliça múltipla dupla.”

 

Pequena cronologia da carreira de Marc Ferrez como fotógrafo no setor ferroviário

 

 

1880 – Entre 1880 e 1890,  fotografou as construções ferroviárias no Brasil, quando produziu um grande panorama da paisagem brasileira de sua época.

1882 – Fotografou as obras da ferrovia Dom Pedro II, em São Paulo e em Minas Gerais, tendo registrado a presença do imperador Pedro II e de sua comitiva na entrada do túnel da Serra da Mantiqueira (Gazeta de Notícias, 27 de junho de 1882, na quarta coluna).

 

1883 – O Club de Engenharia ofereceu uma recepção ao engenheiro hidráulico holandês J. Dirks, o grande especialista da época em portos e canais, que estava de passagem pelo Rio de Janeiro e seguiria para Valparaíso, no Chile. Na ocasião, foi realizada uma exposição de fotografias das estradas de ferro, de autoria de Marc Ferrez (Revista de Engenharia, 14 de abril de 1883).

c. 1884 – Fotografou as obras da ferrovia do Paraná (Paranaguá – Curitiba. O gerente da firma Société Anonyme des Travaux Dyle et Bacalan, empreiteira belga encarregada pelas obras, o futuro prefeito do Rio de Janeiro, o engenheiro Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), presenteou dom Pedro II com 14 fotografias e um álbum de autoria de Ferrez com registros da ferrovia e da província do Paraná.

1884 - Exposição de fotografias da estrada de ferro Teresa Cristina, na A la Glacê Elegante (Gazeta da Tarde, 11 de novembro de 1884, na quinta coluna).

1885 – Ferrez participou da inauguração da ferrovia do Paraná, a estrada de ferro Paranaguá – Curitiba (Dezenove de Dezembro, 4 de fevereiro de 1885, na terceira coluna).

1886 – Em uma reunião da Sociedade Central de Immigração, da qual faziam parte, entre outros, o astrônomo belga Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), o pintor italiano Nicolau Facchinetti (1824 – 1900), e o político Alfredo d´Escragnolle Taunay (1843 – 1899), foram apresentadas por esse último, presidente da associação, fotografias da ferrovia do Paraná, de autoria de Ferrez (A Immigração, agosto de 1886).

O Club de Engenharia aprovou a proposta de Marc Ferrez e de E. de Mascheuk para a execução de “diversos trabalhos concernentes à exposição dos caminhos de ferro” (Revista de Engenharia, 14 de dezembro de 1886, na primeira coluna).

Ferrez fotografou a ferrovia Dom Pedro II, em Juiz de Fora.

1887 - Entre 2 de julho e 2 de agosto, nos salões do Liceu de Artes e Ofícios, por uma iniciativa do Club de Engenharia, realizou-se a Exposição dos Caminhos de Ferro Brasileiros, com a exibição de fotografias de Ferrez (Revista de Engenharia, 14 de agosto de 1887). Estiveram presentes no encerramento da exposição, no dia 2 de agosto, a princesa Isabel(1845 – 1921) e o conde d´Eu (1842 – 1922), além de outras autoridades. O conselheiro Sinimbu (1810 – 1906) leu o relatório do júri da exposição, do qual também fazia parte o visconde de Mauá (1813 – 1889), Pedro Betim Paes Leme (1846 – 1918), Christiano Benedicto Ottoni (1811 – 1896), Carlos Peixoto de Mello (1871 – 1917), Álvaro Joaquim de Oliveira (1840 – 1922) e Manoel José Alves Barbosa (1845 – 1907). Ferrez foi contemplado com uma menção honrosa pelas “magníficas fotografias de importantes trechos de nossas vias férreas, com que concorreu não só para abrilhantar a Exposição como até para suprir algumas lacunas sensíveis de estradas que se não fizeram representar” (Jornal do Commercio, 3 de agosto de 1887, na terceira coluna e Revista de Estradas de Ferro, 31 de agosto de 1887, na primeira coluna).

1888 – Em 25 de novembro, foi inaugurado o tráfego entre as estações de Alcântara e Rio do Ouro da estrada de ferro de Maricá. Marc Ferrez fotografou “instantaneamente ” um grupo de convidados da diretoria das estradas na estação Santa Izabel (Revista de Engenharia, 28 de dezembro de 1888, na primeira coluna).

1890 – Em setembro, Ferrez integrou a comitiva convidada para a  inauguração das obras da ferrovia Benevente -Minas, de Carangola a Benevente, atual Anchieta, no Espírito Santo (Diário de Notícias, 28 de setembro de 1890, quinta coluna).

1891 – Na Revista de Engenharia, 28 de dezembro de 1890, foi publicado um anúncio: “Marc Ferrez – Fotógrafo da Marinha Nacional. Especialista de vistas de estradas de ferro e em geral das grandes obras públicas. Reprodução de plantas com traços pretos sobre fundo branco. Rua São José 8″. O mesmo anúncio voltou a ser veiculado na edição de 14 de agosto de 1891.

1892 – Foi determinado que nas estradas de ferro subvencionadas pelo governo federal fossem liberados passes de ida e volta para Marc Ferrez e um ajudante para que pudessem “levantar fotografias em diversas localidades para o serviço da Exposição Universal Colombiana de Chicago”, que aconteceu entre 1º de maio e 30 de outubro de 1893 para celebrar os 400 anos da chegada do navegador genovês Cristóvão Colombo (1451 – 1506) ao Novo Mundo, em 1492 (Jornal do Brasil, 21 de agosto de 1892, na quinta coluna).

1895 – Em novembro, Ferrez fotografou, em Búzios, os convidados e a comissão responsável pela construção da Estrada de Ferro Rio de Janeiro-Minas, que uniria o povoado de Búzios a Paquequer, no estado de Minas Gerais (A Notícia, 11 de novembro de 1895, segunda coluna).

1900 – Revista da Semana de 21 de outubro de 1900, publicou uma litogravura da Estação Central da Estrada de Ferro da Central do Brasil baseada em uma fotografia de autoria de Marc Ferrez.

 

 

1904 - Exposição de fotografias da estrada de ferro Central do Brasil de autoria de Ferrez, no Club de Engenharia (O Commentario, março de 1904).

1908 – A Casa Marc Ferrez produziu filmes sobre obras em estradas de ferro do Brasil.

 

Cronologia do fotógrafo Arthur Júlio Wischral

 

 

1894 - Em Curitiba, nascimento de Arthur Júlio Wischral, descendente de alemães.

c. 1910 - Com uma máquina fotográfica emprestada de um amigo, Arthur Wischral procurou orientação do fotógrafo alemão Germano Fleury (1873 – 1945), estabelecido em Curitiba, durante a década de 1900. Além de fotografar, Fleury comercializava artigos fotográficos. Na cidade havia, na época, estúdios fotográficos utilizando as últimas técnicas trazidas da Europa e aonde também eram vendidos cartões postais e materiais fotográficos. Com Fleury, Wischral teve as primeiras noções de fotografia profissional. Segundo ele, quando começou a fotografar gostava de registrar cenas incomuns das reuniões familiares (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1912 – Fotografou o primeiro bonde elétrico de Curitiba, que saiu da praça Ouvidor Pardinho com destino ao Portão (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1913 - Ganhou de seu pai uma máquina fotográfica com todas as inovações que as indústrias de Dresden haviam conquistado até então. Custando 120 mil réis, a câmara apresentava fole, movas dimensões 13 x 18 cm – e vários outros recursos que possibilitavam um trabalho ainda mais sensível e de qualidade (Diário do Paraná, 21 de junho de 1975). Antes, seu pai havia tentado demovê-lo da ideia de ser fotógrafo. Queria que o filho se dedicasse ao violino.

O amador fotográfico Arthur Wischral fotografou os enterros de Mário de Castro e de Francisco de Luccas, em Curitiba (Diário da Tarde (PR), 14 de maio de 1913, quinta coluna).

Trabalhava como repórter fotográfico do jornal A República, do Paraná, e produziu registros de manobras militares realizadas pelo Regimento de Segurança na invernada do Campo Comprido (A República (PR), 26 de maio de 1913, sexta coluna).

Fotografou uma horrível catástrofe quando 26 tamboretes de explosivos de guerra explodiram nos armazéns da Rede Ferroviária, na praça Eufrásio Correia, causando a morte de 8 soldados, 3 operários e uma criança, deixando vários feridos e produzindo grandes danos materiais. As fotos foram vendidas para jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo (A República (PR), 2 de julho de 1913, primeira coluna; Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

Pelo jornal A República (PR), ele e Seraphin França acompanharam o governador do Paraná,  Carlos Cavalcanti (1864 – 1935), em uma viagem a cidades do litoral do estado (A República (PR), 14 de julho de 1913, terceira coluna; A República (PR), 22 de julho de 1913, sexta coluna).

Wischral era o repórter fotográfico da revista ilustrada, humorística e literária A Bomba (PR), publicada nos dias 10, 20 e 30 de cada mês. Era de propriedade de Marcello Bittencourt (A Bomba, 30 de julho de 1913, primeira coluna).

Além de Wischral, a Photographia Volk passou a integrar a equipe de reportagem fotográfica da revista A Bomba (PR) (A Bomba (PR), 10 de setembro de 1913, segunda coluna).

 

 

1914 – Estava presente à inauguração do ramal Serrinha – Nova Restinga, da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande (A República (PR), 19 de fevereiro de 1914, última coluna).

Em 5 de abril, fotografou o primeiro voo de avião realizado em Curitiba. O piloto foi Cícero Martins (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

Já estava na Alemanha e não era repórter fotográfico de A República (PR) (A República (PR), 30 de outubro de 1914, última coluna). A conselho de seu pai, havia viajado para aprender novas técnicas fotográficas. Ficou no país até depois do fim da Primeira Guerra Mundial. Empregou-se num estabelecimento que prestava serviços fotográficos para amadores. Fez um estágio no laboratório na Universidade de Würzburg e aprendeu a técnica do retoque com um fotógrafo da cidade, dominada por poucos profissionais em Curitiba. Em Würburg, encontrou-se uma vez com o futuro papa Pio XII a quem perguntou onde poderia encontrar pessoas que falassem português e ele lhe indicou uma escola onde estavam alguns feridos de guerra. Eram portugueses e estranharam o sotaque dele.  Durante sua estada na Alemanha, trabalhou durante seis anos no jornal Franken Warte. No período em que ficou na Europa viajou para diversos países do continente (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1921 – Voltou a Curitiba e por volta dessa época começou a prestar serviços para o governo e para empresas. Fotografou o interior do Paraná, realizando uma série de imagens que integrariam o estande do estado na exposição comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro.

1922 – Fotografou a exposição comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro.

Voltou ao Rio de Janeiro, onde fotografou os primeiros prédios da orla carioca e também os arredores de Petrópolis.

1924 - Esteve no Palácio do governador do Paraná, Caetano Munhoz da Rocha (1879 – 1944) (O Dia, 13 de fevereiro de 1924, terceira coluna).

O hábil fotógrafo Arthur Wischral realizou na Villa Olga uma sessão de projeção de fotografias (O Dia (PR), 30 de março de 1924).

 

 

1926 – No artigo Uma audaciosa excursão ao Marumby, escrito por Affonso Wischral, de 9 de julho de 1926, foi mencionado que o autor e Arthur Wischral haviam fotografado aspectos do passeio que poderiam ser vistos na loja “O Pequeno Paris“, na rua 15, nº 58 (O Dia (PR), 26 de julho de 1926, última coluna).

1928 – Foi contratado pela Rede Viação Paraná – Santa Catarina e registrou o dia a dia das obras, as dificuldades dos trabalhadores e as obras de manutenção da estrada de ferro Curitiba – Paranaguá, inaugurada em 1885 e considerada um marco na história da engenharia no Brasil. Um álbum, editado pelo próprio fotógrafo e por J. J. Wischral, foi produzido com esses registros. O endereço deles era avenida Silva Jardim, nº 175.

 

 

Acessando o link para o Álbum de Fotografias da Ferrovia de Curitiba a Paranaguá, de autoria de Arthur Wischral, disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

1929/1931 - Durante cerca de um ano e meio, Wischral permaneceu na Bahia onde documentou, contratado pelas Empresas Elétricas Brasileiras S.A, a construção da Barragem Jerry O´Connell, em Bananeiras. Uma das fotografias da barragem foi publicada no Estado de Florianópolis, 26 de julho de 1930.

 

O contrato previa também a produção de uma série de imagens de Salvador e do interior da Bahia que foram, posteriormente, reunidas em uma publicação de quatro volumes intitulada Desenvolvimento, Geologia e Produtos Agrícolas, Indústria do Cacau, feita pelas Empresas Elétricas Brasileiras S.A.

Wischral montou, com imagens de sua estada na Bahia, um álbum pessoal com cerca de 500 fotografias.

1934 - Registrou-se para receber algum pagamento da prefeitura de Curitiba (Correio do Paraná, 21 de fevereiro de 1934, quinta coluna).

1935 – Na ocasião do cinquentenário da Estrada de Ferro do Paraná, Wischral, identificado como veterano dessas empreitadas estéticas e artista da Kodak, deu um depoimento, publicado no jornal O Dia (PR), 9 de janeiro de 1935.

Foi contratado para acompanhar e documentar a expedição do coronel Raul Bandeira de Mello ao sudoeste do Paraná. As fotos e o relatório deram origem ao livro de mais de 400 páginas Ensaios de Geobélica Brasileira, editado pela Imprensa Nacional em 1938. O nome do fotógrafo não foi citado. A expedição registrou fatos e imagens desde Palmas até 7 Quedas e é um documento formidável da vida naquelas paragens nos anos 30. Eles documentaram os lugares das batalhas da revolução de 1924 e a situação de pontes, estradas e as defesas militares brasileiras na região. Também indígenas e até um chocante registro de uma família de deficientes físicos gerados por um casal de irmãos, imagens que correram o Brasil à época. Ao final uma cena bucólica com o comandante da expedição em meio aos hóspedes do hotel argentino das cataratas, constando do acervo até uma carta de “vinos” e menu, com a assinatura de todos os presentes. São mais de 90 fotos e mapas que mereciam uma exposição e uma edição fac-símile da obra, ou pelo menos das suas fotografias. Os originais encontram-se com Paulo José da Costa, proprietário da Fígaro Loja de Cultura Sebo e Antiquário, de Curitiba (Página Arthur Wishcral no Facebook).

 

geobélia

 

1936 - A matéria Capricho ou punição da natureza, sobre as consequências da sífilis, trazia uma fotografia de uma família com 4 filhos portadores de deficiência física , produzida por Wischral quando esteve no sertão de Guarapuava (O Estado (SC), 2 de setembro de 1936, primeira coluna).

1937 – Uma fotografia de sua autoria foi publicada no artigo A Floresta Brasileira (O Observador Econômico e Financeiro, agosto de 1937). 

 

 

Década de 1940 – No início dessa década, Wischral foi contratado pela prefeitura de Curitiba e documentou detalhadamente as obras do Plano Agache. Ao longo de três décadas fotografou a transformação da cidade, a urbanização dos bairros, o alargamento das ruas, a construção de praças ajardinadas e dos primeiros grandes edifícios.

Seu laboratório ficava na rua Desembargador Westphalen.

1950 – A mesma fotografia publicada na edição de agosto de 1937 da revista Observador Econômico e Financeiro foi de novo publicada na edição de julho de 1950 da mesma revista. No ano seguinte, um leitor da revista, Martim Zipperer, de Curitiba, curioso acerca da autoria da fotografia que, segundo ele, foi produzida no rio dos Bugres, no município de São Bento do Sul, em Santa Catarina, a pedido de um de seus parentes, procurou a revista. Havia fotografado o mesmo local e a imagem foi publicada em Observador Econômico e Financeiro, abril de 1951. Segundo a reportagem “o confronto dessas fotografias, representando duas épocas, é um dos mais impressionantes documentos que se poderia divulgar sobre os males causados pela economia predatória que vem sido exercida sobre as nossas reservas florestais!”

 

 

1964 - Uma fotografia de 1912 ou 1914, de autoria de Wischral foi publicada (Correio do Paraná, 23 de fevereiro de 1964, penúltima coluna).

 

 

1967 - Com texto de Sérgio Augusto e fotografias de Arthur Wischral, publicação do artigo A maravilhosa Curitiba-Paranaguá (Diário do Paraná, 15 de julho de 1967).

Publicação da matéria Era uma vez um vapor chamado Pery, com texto de Sérgio Augusto e fotos cedidas por Wischral (Diário do Paraná, 6 de agosto de 1967).

Com fotografias dos arquivos de César Pinto e de Arthur Wischral, publicação da matéria Prefeitura -Século XX (I – Parte Primeira – Do aluguel de 200 mil réis à casa própria (Diário do Paraná, 10 de setembro de 1967).

1975 – Publicação da matéria Curitiba em dois tempos, com fotos antigas produzidas por Wischral e com atuais do fotógrafo Mário Nunes do Nascimento (Diário do Paraná, 21 de junho de 1975). Dias depois, publicação de uma matéria sobre sua vida (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1978 - Publicação de um artigo com fotografias de carnavais antigos sob as lentes de Wischral (Diário do Paraná, 3 de fevereiro de 1978).

1979 - Na Casa Romário Martins, em Curitiba, realização da exposição Imagens e paisagens que Curitiba perdeu, com registros de Wischral e de outros fotógrafos (Diário do Paraná, 10 de junho de 1979, primeira coluna).

 

 

1982 – Na Sala Funarte, em Curitiba, realização da exposição Paraná de ontem com fotografias de Wischral e de Alberto Weiss, dentre outros (Diário do Paraná, 4 de maio de 1982, terceira coluna).

O fotógrafo Arthur Wischral faleceu, em setembro.

Década de 1990 – Em fins dessa década, A Universidade Federal da Bahia comprou da família do fotógrafo o álbum montado por ele com cerca de 500 imagens de sua estada na Bahia em torno de 1930.

1994 – Foi um dos fotógrafos com obras expostas no evento Curitiba Capital Nacional de Fotografia, entre 14 e 21 de agosto (Jornal do Brasil, 27 de julho de 1994).

2020 – O Instituto Moreira Salles adquiriu em leilão 91 imagens de um conjunto de registros de Salvador e de outras localidades, realizadas em 1931, por ocasião das obras da construção da usina hidrelétrica de Bananeiras, todas de autoria de Wischral. Complementam o trabalho do fotógrafo presente no acervo do IMS, que já possuía o álbum Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá, de 1928.

 

Link para um pequeno filme realizado pelo Paraná Portal sobre Arthur Wischral

Link para o filme Ferrovia Curitiba Paranaguá vista por Arthur Wischral

Link para a cronologia de Marc Ferrez, publicada na Brasiliana Fotográfica, em 7 de dezembro de 2016

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

A construção do trem da Serra do Mar entre Curitiba e o Litoral em 1885, TV Bandeirantes, Youtube

Blog de Paulo José da Costa

Boletim Casa Romário Martins. O acervo Wischral: documentos de um olhar / pesquisa e texto por Maria Luiza Baracho e Marcelo Saldanha Sutil; apresentação por João Urban. Curitiba : Fundação Cultural de Curitiba, vol 31, n. 134, abril de 2007.

CERON, Ileana Pradilla Ceron. Marc Ferrez – uma cronologia da vida e da obra. São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2018.

Estrada de Ferro Paranaguá Curitiba, Youtube

Facebook

Ferrovia Paranaguá-Curitiba 130 Anos – Documentário, Youtube

Gazeta do Povo

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

Site Artes na Web

Site Biblioteca Digital Mundial

Site Clube dos Amantes da Ferrovia

Site Inbec-Pós-graduação

Site Paraná Portal

Site Patrimônio belga no Brasil

Site Prefeitura de Curitiba

TURAZZI, Maria Inez. Cronologia. In O Brasil de Marc Ferrez – São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2005.

 

Publicações da Brasiliana Fotográfica em torno da obra do fotógrafo Marc Ferrez 

 

O Rio de Janeiro de Marc Ferrez, publicada em 30 de junho de 2015

Obras para o abastecimento no Rio de Janeiro por Marc Ferrez , publicada em 25 de janeiro de 2016

O brilhante cronista visual Marc Ferrez (7/12/1843 – 12/01/1923), publicada em 7 de dezembro de 2016

Do natural ao construído: O Rio de Janeiro na fotografia de Marc Ferrez, de Sérgio Burgi, publicada em 19 de dezembro de 2016

No primeiro dia da primavera, as cores de Marc Ferrez (1843 – 1923), publicada em 22 de setembro de 2017

Marc Ferrez , a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), publicada em 29 de junho de 2018

O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlop, publicada em 20 de julho de 2018

Uma homenagem aos 175 anos de Marc Ferrez (7 de dezembro de 1843 – 12 de janeiro de 1923), publicada em 7 de dezembro de 2018 

Pereira Passos e Marc Ferrez: engenharia e fotografia para o desenvolvimento das ferrovias, publicado em 5 de abril de 2019

Fotografia e ciência: eclipse solar, Marc Ferrez e Albert Einstein, publicado em 

Celebrando o fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), publicado em 4 de dezembro de 2019

Uma homenagem da Casa Granado ao casal imperial sob as lentes de Marc Ferrez, publicada em 7 de fevereiro de 2020

Ressaca no Rio de Janeiro invade o porão da casa do fotógrafo Marc Ferrez, em 1913, publicado 6 de março de 2020

Petrópolis, a Cidade Imperial, pelos fotógrafos Marc Ferrez e Revert Henrique Klumb, publicado em 16 de março de 2020

Bambus, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2020

O Baile da Ilha Fiscal: registro raro realizado por Marc Ferrez e retrato de Aurélio de Figueiredo diante de sua obra, publicado em 9 de novembro de 2020

O Palácio de Cristal fotografado por Marc Ferrez, publicado em 2 de fevereiro de 2021

Dia dos Pais – Julio e Luciano, os filhos do fotógrafo Marc Ferrez, e outras famílias, publicada em 6 de agosto de 2021

 

Cronologia de Arthur Júlio Wischral (1894 – 1982)

Cronologia do fotógrafo Arthur Júlio Wischral (1894 – 1982)

 

 

1894 – Em Curitiba, nascimento de Arthur Júlio Wischral, descendente de alemães.

c. 1910 – Com uma máquina fotográfica emprestada de um amigo, Arthur Wischral procurou orientação do fotógrafo alemão Germano Fleury (1873 – 1945), estabelecido em Curitiba, durante a década de 1900. Além de fotografar, Fleury comercializava artigos fotográficos. Na cidade havia, na época, estúdios fotográficos utilizando as últimas técnicas trazidas da Europa e aonde também eram vendidos cartões postais e materiais fotográficos. Com Fleury, Wischral teve as primeiras noções de fotografia profissional. Segundo ele, quando começou a fotografar gostava de registrar cenas incomuns das reuniões familiares (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1912 – Fotografou o primeiro bonde elétrico de Curitiba, que saiu da praça Ouvidor Pardinho com destino ao Portão (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1913 – Ganhou de seu pai uma máquina fotográfica com todas as inovações que as indústrias de Dresden haviam conquistado até então. Custando 120 mil réis, a câmara apresentava fole, movas dimensões 13 x 18 cm – e vários outros recursos que possibilitavam um trabalho ainda mais sensível e de qualidade (Diário do Paraná, 21 de junho de 1975). Antes, seu pai havia tentado demovê-lo da ideia de ser fotógrafo. Queria que o filho se dedicasse ao violino.

amador fotográfico Arthur Wischral fotografou os enterros de Mário de Castro e de Francisco de Luccas, em Curitiba (Diário da Tarde (PR), 14 de maio de 1913, quinta coluna).

Trabalhava como repórter fotográfico do jornal A República, do Paraná, e produziu registros de manobras militares realizadas pelo Regimento de Segurança na invernada do Campo Comprido (A República (PR), 26 de maio de 1913, sexta coluna).

Fotografou uma horrível catástrofe quando 26 tamboretes de explosivos de guerra explodiram nos armazéns da Rede Ferroviária, na praça Eufrásio Correia, causando a morte de 8 soldados, 3 operários e uma criança, deixando vários feridos e produzindo grandes danos materiais. As fotos foram vendidas para jornais do Rio de Janeiro e de São Paulo (A República (PR), 2 de julho de 1913, primeira colunaDiário do Paraná, 28 de junho de 1975).

Pela jornal A República (PR), ele e Seraphin França acompanharam o governador do Paraná,  Carlos Cavalcanti (1864 – 1935), em uma viagem a cidades do litoral do estado (A República (PR), 14 de julho de 1913, terceira coluna; A República (PR), 22 de julho de 1913, sexta coluna).

Wischral era o repórter fotográfico da revista ilustrada, humorística e literária A Bomba (PR), publicada nos dias 10, 20 e 30 de cada mês. Era de propriedade de Marcello Bittencourt (A Bomba, 30 de julho de 1913, primeira coluna).

Além de Wischral, a Photographia Volk passou a integrar a equipe de reportagem fotográfica da revista A Bomba (PR) (A Bomba (PR), 10 de setembro de 1913, segunda coluna).

 

 

1914 – Estava presente à inauguração do ramal Serrinha – Nova Restinga, da Estrada de Ferro São Paulo – Rio Grande (A República (PR), 19 de fevereiro de 1914, última coluna).

Em 5 de abril, fotografou o primeiro voo de avião realizado em Curitiba. O piloto foi Cícero Martins (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

Já estava na Alemanha e não era repórter fotográfico de A República (PR) (A República (PR), 30 de outubro de 1914, última coluna). A conselho de seu pai, havia viajado para aprender novas técnicas fotográficas. Ficou no país até depois do fim da Primeira Guerra Mundial. Empregou-se num estabelecimento que prestava serviços fotográficos para amadores. Fez um estágio no laboratório na Universidade de Würzburg e aprendeu a técnica do retoque com um fotógrafo da cidade, dominada por poucos profissionais em Curitiba. Em Würburg, encontrou-se uma vez com o futuro papa Pio XII a quem perguntou onde poderia encontrar pessoas que falassem português e ele lhe indicou uma escola onde estavam alguns feridos de guerra. Eram portugueses e estranharam o sotaque dele.  Durante sua estada na Alemanha, trabalhou durante seis anos no jornal Franken Warte. No período em que ficou na Europa viajou para diversos países do continente (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1921 – Voltou a Curitiba e por volta dessa época começou a prestar serviços para o governo e para empresas. Fotografou o interior do Paraná, realizando uma série de imagens que integrariam o estande do estado na exposição comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro.

1922 – Fotografou a exposição comemorativa do Centenário da Independência do Brasil, no Rio de Janeiro.

Voltou ao Rio de Janeiro, onde fotografou os primeiros prédios da orla carioca e também os arredores de Petrópolis.

1924 - Esteve no Palácio do governador do Paraná, Caetano Munhoz da Rocha (1879 – 1944) (O Dia, 13 de fevereiro de 1924, terceira coluna).

hábil fotógrafo Arthur Wischral realizou na Villa Olga uma sessão de projeção de fotografias (O Dia (PR), 30 de março de 1924).

 

 

1926 – No artigo Uma audaciosa excursão ao Marumby, escrito por Affonso Wischral, de 9 de julho de 1926, foi mencionado que o autor e Arthur Wischral haviam fotografado aspectos do passeio que poderiam ser vistos na loja “O Pequeno Paris“, na rua 15, nº 58 (O Dia (PR), 26 de julho de 1926, última coluna).

1928 – Foi contratado pela Rede Viação Paraná – Santa Catarina e registrou o dia a dia das obras, as dificuldades dos trabalhadores e as obras de manutenção da estrada de ferro Curitiba – Paranaguá, inaugurada em 1885 e considerada um marco na história da engenharia no Brasil. Um álbum, editado pelo próprio fotógrafo e por J. J. Wischral, foi produzido com esses registros. O endereço deles era avenida Silva Jardim, nº 175.

 

 

Acessando o link para o Álbum de Fotografias da Ferrovia de Curitiba a Paranaguá, de autoria de Arthur Wischral, disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

1929/1931 - Durante cerca de um ano e meio, Wischral permaneceu na Bahia onde documentou, contratado pelas Empresas Elétricas Brasileiras S.A, a construção da Barragem Jerry O´Connell, em Bananeiras. Uma das fotografias da barragem foi publicada no Estado de Florianópolis, 26 de julho de 1930.

 

 

O contrato previa também a produção de uma série de imagens de Salvador e do interior da Bahia que foram, posteriormente, reunidas em uma publicação de quatro volumes intitulada Desenvolvimento, Geologia e Produtos Agrícolas, Indústria do Cacau, feita pelas Empresas Elétricas Brasileiras S.A.

Wischral montou, com imagens de sua estada na Bahia, um álbum pessoal com cerca de 500 fotografias.

1934 - Registrou-se para receber algum pagamento da prefeitura de Curitiba (Correio do Paraná, 21 de fevereiro de 1934, quinta coluna).

1935 – Na ocasião do cinquentenário da Estrada de Ferro do Paraná, Wischral, identificado como veterano dessas empreitadas estéticas e artista da Kodak, deu um depoimento, publicado no jornal O Dia (PR), 9 de janeiro de 1935.

Foi contratado para acompanhar e documentar a expedição do coronel Raul Bandeira de Mello ao sudoeste do Paraná. As fotos e o relatório deram origem ao livro de mais de 400 páginas Ensaios de Geobélica Brasileira, editado pela Imprensa Nacional em 1938. O nome do fotógrafo não foi citado. A expedição registrou fatos e imagens desde Palmas até 7 Quedas e é um documento formidável da vida naquelas paragens nos anos 30. Eles documentaram os lugares das batalhas da revolução de 1924 e a situação de pontes, estradas e as defesas militares brasileiras na região. Também indígenas e até um chocante registro de uma família de deficientes físicos gerados por um casal de irmãos, imagens que correram o Brasil à época. Ao final uma cena bucólica com o comandante da expedição em meio aos hóspedes do hotel argentino das cataratas, constando do acervo até uma carta de “vinos” e menu, com a assinatura de todos os presentes. São mais de 90 fotos e mapas que mereciam uma exposição e uma edição fac-símile da obra, ou pelo menos das suas fotografias. Os originais encontram-se com Paulo José da Costa, proprietário da Fígaro Loja de Cultura Sebo e Antiquário, de Curitiba (Página Arthur Wishcral no Facebook).

 

geobélia

 

1936 - A matéria Capricho ou punição da natureza, sobre as consequências da sífilis, trazia uma fotografia de uma família com 4 filhos portadores de deficiência física , produzida por Wischral quando esteve no sertão de Guarapuava (O Estado (SC), 2 de setembro de 1936, primeira coluna).

1937 – Uma fotografia de sua autoria foi publicada no artigo A Floresta Brasileira (O Observador Econômico e Financeiro, agosto de 1937). 

 

 

Década de 1940 – No início dessa década, Wischral foi contratado pela prefeitura de Curitiba e documentou detalhadamente as obras do Plano Agache. Ao longo de três décadas fotografou a transformação da cidade, a urbanização dos bairros, o alargamento das ruas, a construção de praças ajardinadas e dos primeiros grandes edifícios.

Seu laboratório ficava na rua Desembargador Westphalen.

1950 – A mesma fotografia publicada na edição de agosto de 1937 da revista Observador Econômico e Financeiro foi de novo publicada na edição de julho de 1950 da mesma revista. No ano seguinte, um leitor da revista, Martim Zipperer, de Curitiba, curioso acerca da autoria da fotografia que, segundo ele, foi produzida no rio dos Bugres, no município de São Bento do Sul, em Santa Catarina, a pedido de um de seus parentes, procurou a revista. Havia fotografado o mesmo local e a imagem foi publicada em Observador Econômico e Financeiro, abril de 1951. Segundo a reportagem “o confronto dessas fotografias, representando duas épocas, é um dos mais impressionantes documentos que se poderia divulgar sobre os males causados pela economia predatória que vem sido exercida sobre as nossas reservas florestais!”

 

 

1964 - Uma fotografia de 1912 ou 1914, de autoria de Wischral foi publicada (Correio do Paraná, 23 de fevereiro de 1964, penúltima coluna).

 

 

1967 - Com texto de Sérgio Augusto e fotografias de Arthur Wischral, publicação do artigo A maravilhosa Curitiba-Paranaguá (Diário do Paraná, 15 de julho de 1967).

Publicação da matéria Era uma vez um vapor chamado Pery, com texto de Sérgio Augusto e fotos cedidas por Wischral (Diário do Paraná, 6 de agosto de 1967).

Com fotografias dos arquivos de César Pinto e de Arthur Wischral, publicação da matéria Prefeitura -Século XX (I – Parte Primeira – Do aluguel de 200 mil réis à casa própria (Diário do Paraná, 10 de setembro de 1967).

1975 – Publicação da matéria Curitiba em dois tempos, com fotos antigas produzidas por Wischral e com atuais do fotógrafo Mário Nunes do Nascimento (Diário do Paraná, 21 de junho de 1975). Dias depois, publicação de uma matéria sobre sua vida (Diário do Paraná, 28 de junho de 1975).

1978 - Publicação de um artigo com fotografias de carnavais antigos sob as lentes de Wischral (Diário do Paraná, 3 de fevereiro de 1978).

1979 - Na Casa Romário Martins, em Curitiba, realização da exposição Imagens e paisagens que Curitiba perdeu, com registros de Wischral e de outros fotógrafos (Diário do Paraná, 10 de junho de 1979, primeira coluna).

 

 

1982 – Na Sala Funarte, em Curitiba, realização da exposição Paraná de ontem com fotografias de Wischral e de Alberto Weiss, dentre outros (Diário do Paraná, 4 de maio de 1982, terceira coluna).

O fotógrafo Arthur Wischral faleceu, em setembro.

Década de 1990 – Em fins dessa década, A Universidade Federal da Bahia comprou da família do fotógrafo o álbum montado por ele com cerca de 500 imagens de sua estada na Bahia em torno de 1930.

1994 – Foi um dos fotógrafos com obras expostas no evento Curitiba Capital Nacional de Fotografia, entre 14 e 21 de agosto (Jornal do Brasil, 27 de julho de 1994).

2020 – O Instituto Moreira Salles adquiriu em leilão 91 imagens de um conjunto de registros de Salvador e de outras localidades, realizadas em 1931, por ocasião das obras da construção da usina hidrelétrica de Bananeiras, todas de autoria de Wischral. Complementam o trabalho do fotógrafo presente no acervo do IMS, que já possuía o álbum Estrada de Ferro Curitiba-Paranaguá, de 1928.

 

Link para um pequeno filme realizado pelo Paraná Portal sobre Arthur Wischral

Link para o filme Ferrovia Curitiba Paranaguá vista por Arthur Wischral

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

João Stamato, um fotógrafo nos sertões

                                    Um fotógrafo nos sertões                                   

  Ricardo Augusto dos Santos*  

 

Acho que me comecei a ser historiador ouvindo minha avó contar estórias. Passou o tempo e, adulto, passei a perseguir memórias de outras pessoas. Grande parte da historiografia tende a ignorar algumas vozes e, quando não negligencia, valoriza demasiadamente determinados discursos. Também ocorre que, em busca dos homens no tempo, alguns personagens fiquem vagando pelas estantes, mexendo nos livros e papéis. Vários pesquisadores narram esse fenômeno. Um dos que me perturbam, e fascinam, é o João Stamato (1886-1951).

Acessando o link para as fotografias de João Stamato disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Tomei contato com este fotógrafo, quando participei da pesquisa e redação do álbum fotográfico A Ciência a Caminho da Roça. Trata-se de um livro editado em 1992, contendo fotografias das cinco expedições científicas que o Instituto Oswaldo Cruz promoveu pelo interior do país entre 1911 e 1913. Stamato participou da viagem em que um grupo de cientistas e engenheiros, entre setembro de 1911 e fevereiro de 1912, percorreu os vales do São Francisco e Tocantins. Junto com os funcionários da Estrada de Ferro Central do Brasil e do IOC, responsáveis pelos estudos da linha que, partindo de Pirapora (Minas Gerais), deveria alcançar Belém (Pará), Stamato documentou a jornada, registrando as casas, costumes e pessoas, demonstrando conhecimento das técnicas, além de sensibilidade para fotografar a vida naqueles sertões.

 

 

A expedição era liderada por Adolfo Pereira Dias, engenheiro chefe do serviço de exploração da Central do Brasil, Astrogildo Machado e Antônio Martins, respectivamente, cientista e farmacêutico do IOC. Dentre os demais participantes da aventura, além de engenheiros e operários, estavam João Stamato e Cipriano Segur, ajudante do fotógrafo. Admirador das fotografias de Stamato, iniciei na década de 1990 as primeiras pesquisas. As informações indicavam que ele fora cineasta no Rio e em São Paulo. Hoje, podemos acrescentar alguns dados. Natural de São Carlos (SP), João Stamato faleceu no Rio de Janeiro. Era filho do italiano Giuseppe Stamato (1861-1935) e Felicia Stamato (1870-1952). Dessa união, nasceram 12 filhos. Dentre eles, João Stamato.

Em 1915, João casou-se com Thereza Funari Stamato, tendo cinco filhos. O cineasta Fernando Stamato (1917-1993) seguiria os caminhos do pai. Apesar das trajetórias relevantes, apenas os aficcionados por cinema conhecem João e Fernando. Este também teve uma carreira importante. Fernando foi cinegrafista da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra, trabalhando como correspondente na Itália. Viúvo, partiu para os campos da batalha para documentar os movimentos das tropas brasileiras. Sua esposa Lourdes Soares Dutra (1917-1941) havia falecido no parto da filha, que também não resistiu. Durante o conflito mundial, em pleno front, Fernando se apaixonou pela italiana Rossana Bonfatti. Casaram-se em Pistóia (Itália) e, no final da guerra, tiveram uma menina, nascida em 14 de setembro de 1945. No ano seguinte, nasceria outro filho.

 

 

 

João Stamato foi um pioneiro do cinema nacional. Esteve presente em dezenas de produções cinematográficas. Filmes de ficção, documentários e desenhos animados. Em 1910, antes de viajar pelos sertões na expedição do IOC, ele participara do primeiro documentário em longa-metragem realizado no Brasil, o Imigração e Colonização no Estado de São Paulo. No mesmo ano, ele filmou o Terceiro Match de Futebol Corinthians e Brasileiros. Trata-se de um curta-metragem, registrando um jogo de futebol entre o time Corinthians inglês e o Atletic, no Velódromo Paulistano, com o resultado de 8 x 2 para o Corinthians.

Em 1917, vinte anos após a morte de Diogo da Rocha Figueira, conhecido como Dioguinho (1863-1897), um criminoso do interior de São Paulo, foi lançado um filme que contava as façanhas do “bandido elegante”. Após uma perseguição policial, foi dado como morto, mas seu cadáver, no entanto, jamais foi encontrado. Esta produção, rodada em 1916, com fotografia de João Stamato, possui duração de 72 minutos. Produzido pelo estúdio Paulista Filme, direção de Guelfo Andaló e com elenco formado por Antônio Latari, Elvira Latari, Georgina Marchiani e Antônio Rolando.

cena

Contudo, na década seguinte, Stamato colaborou num grande sucesso. Um desenho animado com o estilo dos irmãos Fleischer, conhecidos por criarem a Betty Boop. Trata-se do filme Macaco Feio, Macaco Bonito. Narra a história de um macaco que foge do zoológico. Após beber, é procurado pela polícia. Consegue despistar seus algozes atirando caixas de ovos e batatas, até ser amparado por uma família. De Luiz Seel e João Stamato, o icônico Macaco Feio, Macaco Bonito (1929) é o primeiro curta-metragem de animação efetivamente preservado. O primeiro filme animado feito no Brasil, O Kaiser (1917) é um curta que satiriza a Alemanha e seus sonhos imperiais de dominar o mundo. Entretanto, este documento está perdido. Exibido no Cine Pathé, na Cinelândia, palco do iniciante cinema nacional, deste primeiro desenho animado criado por um brasileiro, restou apenas um fotograma.

A lista de produções de Stamato é formada por vários curtas e longas que marcaram a história do cinema, de ficção, animado e documentários. Vamos citar algumas produções que J. Stamato esteve envolvido: A Viuvinha (1916), Coração de Gaúcho (1920), Ubirajara (1919), Amor de Perdição (1918), A Quadrilha do Esqueleto (1917), Pátria Brasileira (1917) e Perdida (1916). João e Fernando trabalharam muito. O pai chegou a ter uma produtora. Os descendentes narram com orgulho as contribuições dos Stamatos para a história do cinema e da fotografia.

 

 

Seth, pseudônimo de Álvaro Marins (1891-1949) foi um desbravador da animação brasileira. Produziu charges e caricaturas. Seth dirigiu o filme Kaiser, a primeira animação brasileira exibida nos cinemas. O cartunista acrescentou movimento ao desenho e fez o imperador Guilherme II contracenar com um globo terrestre. Dessa primeira experiência restou um único fotograma. Portanto, o mais antigo filme animado preservado é Macaco Feio, Macaco Bonito, com o nosso João Stamato. 

 

 

 

*Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz

 

Cronologia do fotógrafo João Stamato (1886 – 1951), pioneiro do cinema nacional

Andrea C. T. Wanderley

 

 

1886 – Em 28 de fevereiro, nascimento de João Stamato, em São Carlos, em São Paulo, um dos 12 filhos do italiano Giuseppe Stamato (1861-1935) e Felicia Chiffoni Stamato (1870-1952). Eram seus irmãos Antenor, Carlos, Júlio (? – 1914), Leonor (? – 1927), Luisa, Maria de Lourdes (? – 1927), Mariana, Matilde, Olga, Rafael, Ricardina e a irmã adotiva Ida Ricardi.

1905 – Em São Paulo, abriu um pequeno estúdio fotográfico com laboratório.

1907 – Foi o fotógrafo do curta-metragem Dançarina Descalça, dirigido pelo italiano Guelfo Andalo (? – 1945), estrelado por Cristiano Reis e Anita Pelisser.

Atuava como fotógrafo em São Paulo e enviou para a redação do Correio Paulistano registros do funeral de Miranda de Azevedo, realizado na Matriz de Santa Cecília (Correio Paulistano, 14 de março de 1907, quarta coluna).

Participou de um suntuoso almoço oferecido pela Câmara Municipal de Santos ao então governador de São Paulo, Jorge Tibiriçá Piratininga (1855 – 1928)(Correio Paulistano, 28 de agosto de 1907, quinta coluna).

1909 - Na coluna de “Crônica Social”, foi anunciado seu aniversário e ele foi identificado como fotógrafo (Correio Paulistano, 28 de fevereiro de 1909, sexta coluna).

Fechou seu estúdio fotográfico, comprou uma câmera Pathê e tornou-se o cinegrafista oficial do cinema Radium, na rua São Bento, 59, em São Paulo. A sala de exibição havia passado por uma transformação completa (Correio Paulistano, 2 de junho de 1909, primeira coluna).

Dirigiu e foi o fotógrafo do documentário Revista Militar do Campo da Mooca, de 24 minutos e estrelado por Manoel Joaquim de Albuquerque Lins.

1910 - Fundou a São Paulo Film e foi o produtor de Imigração e Colonização no Estado de São Paulo, primeiro documentário de longa-metragem do cinema brasileiro.

Dirigiu e foi o fotógrafo dos documentários Segunda-feira de Páscoa na Cantareira e Terceiro Match de Futebol Corinthians e Brasileiros. Esse último foi um curta-metragem, registrando um jogo de futebol entre o time Corinthians inglês e o Atlectic, no Velódromo Paulistano, com o resultado de 8 x 2 para o Corinthians.

Era o cinegrafista oficial da Comissão Geológica e Geográfica do Estado de São Paulo.

Mudou-se para o Rio de Janeiro.

Por volta deste ano, foi contratado pelo fotógrafo e diretor de cinema Alfredo Musso (18? – 19?) e passou uma temporada no Rio Grande do Sul, onde produziu registros de temas agrícolas que, em 1911, foram enviados para a Exposição Internacional de Agricultura em Roma e em Turim.

1911/1912 - Stamato participou da viagem em que um grupo de cientistas e engenheiros, entre setembro de 1911 e fevereiro de 1912, percorreu os vales do São Francisco e Tocantins. Junto com os funcionários da Estrada de Ferro Central do Brasil e do Instituto Oswaldo Cruz, responsáveis pelos estudos da linha que, partindo de Pirapora (Minas Gerais), deveria alcançar Belém (Pará), Stamato documentou a jornada, registrando as casas, costumes e pessoas, demonstrando conhecimento das técnicas, além de sensibilidade para fotografar a vida naqueles sertões. Seu assistente era Cipriano Segur (Estado do Pará, 20 de janeiro de 1912, última coluna).

Segundo uma nota do artigo Expedições científicas, fotografia e intenção documentária: as viagens do Instituto Oswaldo Cruz (1911-1913):

“Uma sequência de imagens de um batelão vencendo uma corredeira sugere que João Stamato, na Expedição Machado e Martins, ao contrário de seus colegas das outras viagens, pode ter recorrido a filmes flexíveis de nitrato de celulose, já disponíveis em escala comercial desde 1902. O uso de placas de vidro teria dificultado significativamente a rápida operação de substituição das placas, que uma sequência desse tipo requereria. Cabe observar também que não são conhecidos negativos em vidro dessa expedição”

Uma das fotografias de sua autoria, Fazendo farinha, produzida durante essa viagem, em 1911, em Itagary, na Bahia, é, de certa forma, muito semelhante a uma fotografia de autoria de Flávio de Barros, realizada durante a Guerra de Canudos, também na Bahia, em 1897.

 

 

 

Viajou com o ministro da Agricultura, Pedro Manuel de Toledo (1860 -1935), a Montevidéu. Voltou ao Brasil a bordo do paquete alemão Cap Arcona (Gazeta de Notícias, 30 de maio de 1912, sexta coluna).

1913 – Esteve em Cataguazes, em Minas Gerais, contratado pela empresa Paschoal, onde filmou vários aspectos da cidade. O resultado seria exibido em poucos dias no Cinema Recreio Cataguazense (O Paiz, 9 de março de 1913, quarta coluna).

Montou um laboratório na Praça XV.

1914 – Seu irmão, Júlio Stamato, faleceu a caminho da Europa, no navio Duca di Genova, em 2 de fevereiro (O Imparcial: Diário Illustrado do Rio de Janeiro, 23 de junho de 1914, sexta coluna).

Conheceu Luiz de Barros (1893 – 1982), que havia chegado da Itália com sua mulher, a atriz italiana Gita de Barros (1897 – 1994). Em seu livro, Minhas Memórias (1978), Barros escreveu:

“…conheci o saudoso João Stamato, que tinha um rudimentar laboratório instalado numa dependência da Academia do Comércio ali na Rua Sete de Setembro, esquina da Praça 15, onde, por muito tempo, existiu um vendedor de pássaros. Aquele laboratório me encantou. Revelava-se, então, enrolando o filme em volta de grandes tambores engradados, cabendo a eles, geralmente, de 50 a 160 metros de filme de cada vez. e numas grandes banheiras côncavas, com os banhos, o rolo era colocado de forma que a parte de baixo entrava no banho e a gente, com uma manivela, rodava o mesmo para que o filme, em cada volta, fosse mergulhado no revelador. Uma beleza!”

Stamato foi o fotógrafo de A viuvinha, filme baseado no livro de José de Alencar (1829 – 1877), sob a direção de Luiz de Barros (1893 – 1982) e estrelado por Linda Bianchi, pela italiana Gita de Barros (1897–1994) e pelo próprio Luiz de Barros. A maior parte do filme foi realizado no Clube Dramático da rua 24 de maio.

1915 – Casou-se com  Thereza Funari Stamato, em Taquaritinga, ativo agente nesta praça da Companhia Cinema Color de São Paulo (O Imparcial: Diário Illustrado do Rio de Janeiro, 6 de março de 1915, segunda coluna). Tiveram cinco filhos.

Foi o fotógrafo do documentário Polyterpsia, filmado em Niterói.

1916 - Foi o fotógrafo do filme Perdida, dirigido por Luiz de Barros (1893–1982) e estrelado por Leopoldo Froes (1882–1932), Érico Braga (1889 – 1962) e Yole Burlini (18? – 19?). Ele e o diretor brigaram e ele foi substituído por Paulino Botelho.

Também foi o fotógrafo de Entre o amor e a arte, que estreou no Cine Avenida em 16 de novembro, sob a direção de Charles F. MacLaren e estrelado por Duque, Gaby, Miss Ray, Francisco Marzullo e Emilio Campos.

 

 

Stamato era o operador da Anglo Brazilian Cinematographic Co (A Notícia, 15 de julho de 1916, última coluna).

Sua irmã Mathilde casou-se com Francisco Perrone, recém formado na Faculdade de Medicina (Jornal do Commercio, 11 de dezembro de 1916, terceira coluna).

1917 - Nascimento de seu filho, o futuro cineasta Fernando Stamato (1917-1993)(O Imparcial: Diário Illustrado do Rio de Janeiro, 28 de junho de 1917, segunda coluna).

Vinte anos após a morte de Diogo da Rocha Figueira, conhecido como Dioguinho (1863-1897), um criminoso do interior de São Paulo, foi lançado o filme Dioguinho, que contava as façanhas do “bandido elegante”. Após uma perseguição policial, foi dado como morto, mas seu cadáver, no entanto, jamais foi encontrado. Esta produção, rodada em 1916, com fotografia de João Stamato, possui duração de 72 minutos. Produzido pelo estúdio Paulista Filme, direção do italiano Guelfo Andaló (? – 1945) e com elenco formado por Antônio Latari, Elvira Latari, Georgina Marchiani e Antônio Rolando.

Estreia em 24 maio do filme Pátria Brasileira, do qual foi o fotógrafo. A direção foi do italiano Guelfo Andalo (? – 1945) e os atores foram Antônio Latarim Elvira Latari e Georgina Marchiani. O poeta Olavo Bilac (1865 – 1918) dirigiu uma das cenas do filme (Para Todos, primeira quinzena de novembro de 1956).

Foi também o fotógrafo do filme A Quadrilha do Esqueleto, dirigido por Eduardo Arouca e estrelado pelo próprio, além de Mário Assunção e Nella Berti.

Casamento da irmã adotiva de Stamato, Ida Ricardi, com o comerciante João Campello Junior (Jornal do Commercio, edição da tarde, 6 de outubro de 1917, segunda coluna).

Ladrões invadiram a casa onde Stamato residia com a família, na rua Riachuelo, 156, e roubaram uma máquina fotográfica e outros objetos de valor (O Paiz, 25 de outubro de 1917, terceira coluna).

1918 - Baseado na obra do escritor português Camilo Castelo Branco (1825–1890), lançamento do filme Amor de Perdição, sob a direção de José Vianna, com fotografia de João Stamato, estrelado por Eduardo Arouca, João Ayres e Esther Cordeiro.

1919 – Em junho, estreia do filme Ubirajara, baseado na obra de José de Alencar (1829 – 1877), dirigido por Luiz de Barros (1893–1982), com quem havia se reconciliado, e estrelado por Otília Amorim (1894–1970), Manoel F. Araujo (1880 – 1940) e pelo próprio Luiz de Barros. Produzido pela Guanabara-Film, foi o filme de estreia do ator e futuro dono da Cinédia, Adhemar Gonzaga (1901 – 1978).

 

 

Stamato, identificado como antigo operador da Guanabara Film, e Antonio Couto Sobrinho desligaram-se da empresa, mas continuariam a produzir filmes sob a marca Rio Film (A Época, 28 de setembro de 1919, quarta coluna).

1920 – Em 28 de janeiro, estreia do curta-metragem Convém martelar, do qual Stamato foi o fotógrafo. Com duração de 20 minutos, foi dirigido por Manoel F. Araujo (1880  1940) e pelo português Antonio Silva (1886 – 1971). Foi estrelado pelo próprio Araújo, por Carlos Barbosa e por Adhemar Gonzaga (1901 – 1978). Na época, era associado da Amazônia Film.

Em 26 de abril, estreia de Coração de Gaúcho, do qual Stamato também foi o fotógrafo. Baseado na obra de José de Alencar (1829 – 1877), dirigido por Luiz de Barros (1893–1982) e estrelado por Antônia Denegri (1900 – 1935), Manoel F. Araujo (1880 – 1940) e pelo próprio Luiz de Barros.

 

 

Ele e Vicente Capelaro foram identificados como artistas que no silêncio de seus laboratórios e sem os “reclamos bombásticos” têm-nos dados sempre produções artísticas elevando a cinematografia nacional ao nível em que deve estar (Correio da Manhã, 14 de outubro de 1920, penúltima coluna).

Nascimento de José, filho de João e Thereza Stamato (Jornal do Commercio, edição da tarde, 30 de outubro de 1920, segunda coluna).

1921/1922 – Repassou seus equipamentos e laboratório para a Brasília Filme, de Salvador Aragão. Na companhia, que era também uma escola de cinema, realizou algumas reportagens e fez créditos e intertítulos para filmes estrangeiros.

1923 - Era o proprietário da Ita-Film, produtora cinematográfica nacional, e recebeu profissionais da Gazeta de Notícias em sua empresa (Gazeta de Notícias, 25 de abril de 1923, quinta coluna).

1927 – Falecimento de sua irmã, Leonor Stamato (A Noite, 9 de maio de 1927, primeira coluna).

Em São Paulo, falecimento de sua irmã, Maria de Lourdes Stamato (A Noite, 30 de agosto de 1927, segunda coluna).

1928 - A Belo Horizonte Films, sob a direção de Thiers Teóphilo do Bom Conselho e do professor Manoel Tallon, tentou contratar João como operador (Cinearte, 18 de julho de 1928).

1929 - Ele e Luiz Seel dirigiram o icônico Macaco Feio, Macaco Bonito (1929), o primeiro curta-metragem de animação brasileiro efetivamente preservado. Seu estilo é semelhante ao dos irmãos norte-americanos Max (1883 – 1972) e Dave Fleischer (1894 – 1979), responsáveis pela transformação de personagens de história em quadrinhos em desenhos animados como Betty Boop, Popeye e Super-Homem. O primeiro filme animado feito no Brasil, O Kaiser (1917), produzido pelo cartunista Álvaro Marins (1891 – 1949), também conhecido como Seth, é um curta que satiriza a Alemanha e seus sonhos imperiais de dominar o mundo. Estreou no Cinema Pathé, na Cinelândia. Entretanto, este documento está perdido.

macaco feio

 

Era o responsável pelos trabalhos de câmera e laboratório do filme de estreia de Gentil Roiz (1889 – 1975) no Rio, na época intitulado A Religião do Amor, estrelado por Gina Cavallieri, Neusa Dora e Raul Schnoor e produzido pela Aurora Film. Foi anunciado que quando terminassem essas filmagem, produziria pela Ita Film, de sua propriedade, um filme sob a direção de Manoel F. Araújo (1880 – 1940) (Cinearte, 9 de janeiro 1929Cinearte, 17 de abril de 1929 e Cinearte, 16 de outubro de 1929).

 

 

1930 - O cinematógrafo de João Stamato ficava no Beco da Carioca, nº 24 (Almanak Laemmert, 1930).

Colaborou com Gentil Roiz (1899 – 1975) em Paralelos da Vida, filme inacabado.

Auxiliou a filmagem de um filme dirigido por Álvaro Marins (1891 – 1949), conhecido como Seth, sobre a teoria do funcionamento do serviço telefônico automático (Cinearte, 28 de maio de 1930). Seth foi, como já mencionado, o autor do primeiro desenho animado brasileiro, Kaiser, exibido em 1917.

Um incêndio no laboratório da Ita-Film, de sua propriedade, destruiu alguns trechos do filme Paralelos da Vida, que ele estava fotografando para a Aurora Film e todo o seu material de filmagem (Cinearte, 3 de dezembro de 1930).

1932 – Com sede na rua da Lapa, 95, fundação, em 1º de fevereiro, da Associação Brasileira de Produtores Cinematográficos. Stamato, Fausto Moniz e Luiz Leal eram do conselho fiscal da entidade, presidida por Armando Carijó, tendo como vice-presidente Adhemar Gonzaga e, como tesoureiro, Alberto Botelho. O secretário era Eurico de Oliveira (Diário Carioca, 27 de janeiro de 1932, primeira colunaCinearte, 16 de março de 1932).

Stamato integrava uma comissão da Associação Brasileira de Produtores Cinematográficos que foi ao Palácio Rio Negro, em Petrópolis, entregar ao presidente da República, Getúlio Vargas (1882 – 1954), o título de presidente de honra da entidade. Os outros diretores eram Adhemar Gonzaga, Alberto Botelho, Antão Correia da Silva, Armando Valle, Carlos Eugênio, Eurico Oliveira, Humberto Mauro, Jayme Pinheiro, Luis Seel e Oduvaldo Vianna (Diário Nacional: a Democracia em Marcha (SP), 4 de março de 1932, quarta coluna).

Em 4 de abril, promulgação do Decreto nº 21.240, de 4 de Abril de 1932 – “Nacionalizar o serviço de censura dos filmes cinematográficos, cria a “Taxa Cinematográfica para a educação popular e dá outras providências”.

“Após anos de reivindicações daqueles que desempenhavam as atividades cinematográficas, em 1932 o Decreto-lei nº. 21.240 foi aprovado por Getúlio Vargas e trata da nacionalização do serviço de censura dos filmes, cria a “Taxa Cinematográfica para a Educação Popular”, obriga as salas de cinema a exibirem um complemento nacional em cada sessão e dá outras providências. Esta primeira “reserva de mercado” para o produto nacional garantiu uma pequena sobrevida financeira dos estúdios e laboratórios da época, que presenciou também o surgimento de produtores nacionais independentes. Esse é o marco do início da intervenção do Estado na atividade cinematográfica nacional. Até hoje há dúvidas se a promulgação desse Decreto por esse governo foi uma medida que visava à produção nacional de fato ou se já buscava a manutenção do cinema como ferramenta da política populista” (O Estado e a produção audiovisual).

A composição da direção da Associação Brasileira  de Produtores Cinematográficos havia mudado: presidente, Jayme Carijó; vice-presidente, Alberto Botelho; secretário, Adhemar Gonzaga; tesoureiro, Jayme Pinheiro; procurador, Armando Walls; conselheiros fiscais, Fausto Muniz, Luiz Seel e Stamato; bibliotecário, William Schoucair (Cinearte, 3 de agosto de 1932).

1933 - João Stamato filmou aspectos da chegada ao Rio de Janeiro de Luiz Severiano Ribeiro (1886 – 1974), principal figura da organização dos Exibidores Reunidos ao Rio de Janeiro. Julio Marc Ferrez (1881 – 1946), filho do grande fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), pelo Sindicato dos Exibidores Cinematográficos, foi um dos presentes à chegada de (A Nação, 16 de fevereiro de 1933).

Lançamento de Brasil Jornal, com filmes nacionais produzidos pelos cinematógrafos Stamato e Antão Corrêa da Silva. O ministro da Marinha, Protógenes Pereira Guimarães (1876 – 1938), foi à preview do programa de atualidades.

 

 

O ministro da Educação, Washington Ferreira Pires (1892 – 1970), deferiu o requerimento de João Stamato que pedia a isenção da taxa de censura para o filme nacional Evitando o perigo. O filme sobre uma excursão a Sete Quedas e às Cataratas do Iguaçu, do Touring Club do Brasil, também foi beneficiado (Diário da Noite, 5 de setembro de 1933, sexta coluna).

1934 – Criou uma série de curtas-metragens exibida nas edições do cinejornal Lanterna Mágica, que fez escola na maneira de angular as cenas.

Era diretor da produtora cinematográfica Brasil Jornal Ltda. Além dele, eram sócios da empresa Antão Correia da Silva e Leônidas Detsi Filho (Jornal do Commercio, 21 de junho de 1934, quarta colunaCorreio da Manhã, 8 de julho de 1934).

 

 

No Cinema Alhambra, a Associação Brasileira de Produtores Cinematográficos promoveu a exibição de vários filmes nacionais. Trabalhos de João Stamato foram exibidos (Jornal do Brasil, 4 de novembro de 1934, primeira coluna).

Era proprietário da produtora João & Stamato (Cinearte, 15 de novembro de 1934).

Produziu o curta-metragem Copacabana, o bairro encantador (Cinearte, 1º de dezembro de 1934).

1935 - Estreou no Palácio Teatro o Lanterna Mágica nº 5, sobre os jardins do Rio de Janeiro. “Fotografia de João Stamato que inegavelmente está se tornando um de nossos melhores cinegrafistas”(Cinearte, 1º de março de 1935).

Falecimento de José Stamato, pai de João (Diário da Manhã, 16 de abril de 1935, segunda coluna).

Ele, A. F. Castro e Edgar Brasil, considerados três dos melhores cinegrafistas do Brasil, participavam da Cinédia “o complemento brasileiro preferido pelos exibidores” (Cinearte, 1º de dezembro de 1935).

 

 

1936 - Representando a Lanterna Mágica, Stamato participou de uma reunião no Departamento de Propaganda, presidida por Lourival Fontes (1899 – 1967), seu diretor (Diário Carioca, 15 de janeiro de 1936).

 

 

Foi o cinegrafista de dois novos e lindos complementos da Cinédia: São Paulo em 1936 e Filmando Copacabana (Cinearte, 1º de maio de 1936).

Havia chegado há pouco tempo de uma viagem ao Norte onde, para a Cinédia, filmou Recife, Bahia, Paraíba e a Cachoeira de Paulo Afonso (Cinearte, 1º de junho de 1936).

Seu filme Lanterna Mágica nº 13 ficou em terceiro lugar no concurso promovido pelo Mês do Cinema Nacional. O primeiro e o segundo lugares foram conquistados por Rio, propagandista da beleza brasileira, da Waldow Film S.A, produzido por Wallace Downey (1902 – 1967) com texto de Cesar Ladeira (1910 – 1969); e por Cachoeira de Paulo Afonso, da Cinédia, filmado por Stamato com texto proferido pelo locutor Dilo Guardia, respectivamente (Diário Carioca, 24 de maio de 1936, quarta coluna; A Noite, 24 de maio de 1936, segunda coluna).

 

 

Estava trabalhando como operador no filme Bonequinha de Luxo, da Cinédia, e dirigido por Oduvaldo Vianna (1892 – 1972) (A Noite, 30 de junho de 1936, quarta coluna).

O ator Manoel F. Araújo (1880 – 1940), que participou de muitos filmes com João Stamato, declarou sua admiração pelo cinegrafista (Cinearte, 1º de setembro de 1936).

Viajou para as Cataratas do Iguaçu com um grupo de excursionistas do Touring Club do Brasil (Gazeta de Notícias, 22 de setembro de 1936, segunda coluna).

1937 - Em matéria da Cinearte, Stamato foi elogiado. Também foi lembrado que a Cinédia o cedeu para que ele trabalhasse com o ator, cantor e diretor de cinema brasileiro, Raul Roulien (1905 – 2000), no curta-metragem O meu colégio. Roulien é considerado o primeiro galã brasileiro em Hollywood (Cinearte, 1º de janeiro de 1937).

 

 

Ele e Edgar Brasil foram os fotógrafos de Vozes da Floresta, novo complemento de valor da Cinédia (Cinearte, 1º e março de 1937).

No Palácio, na Cinelândia, apresentação do curta-metragem do Lanterna Mágica nº 19, Rumando ao Rio, de J0ão Stamato. Nunca se viram tão lindos aspectos de nossa cidade-sublimes como estes (Jornal do Brasil, 16 de março de 1937, penúltima coluna).

No concurso do Mês do Cinema Brasileiro, instituído pela Associação Cinematográfica de Produtores Brasileiros, o curta-metragem de João Stamato, Lanterna Mágica nº 21, ficou em terceiro lugar (A Noite, 27 de março de 1937, primeira coluna).

Trabalhava para a Cinédia e também por conta própria (Dom Casmurro, 17 de junho de 1937, primeira coluna).

Estava em cartaz no Glória o curta-metragem Proteção à Saúde Escolar, de João Stamato (Jornal do Brasil, 12 de outubro de 1937, quinta coluna; Gazeta de Notícias, 12 de outubro de 1937, primeira coluna).

Pela Cinédia, Stamato estava em Corumbá, no Mato Grosso, acompanhando as manobras militares pelo general Deschamps Cavalcanti (Gazeta de Notícias, 20 de outubro de 1937, terceira coluna).

Era o responsável pela nova Revista Cinédia (Fon-Fon, 18 de dezembro de 1937).

 

 

1938 - Para documentar a visita do presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) à sua terra natal, Stamato embarcou para o Sul (O Imparcial, 9 de janeiro de 1938, última coluna).

Seu filho, Fernando, funcionário do Departamento Nacional de Propaganda, ficou noivo de Lourdes Sales Soares Dutra (Diário Carioca, 25 de junho de 1938, terceira coluna). Casaram-se no dia 8 de dezembro do ano seguinte (Diário Carioca, 8 de dezembro de 1939, terceira coluna).

Ele e Jaime de Andrade Pinheiro, proprietário da Pan-Film do Brasil, formavam uma comissão que estava convocando profissionais de cinema para uma reunião na sede da Associação Brasileira de Produtores Cinematográficos quando seriam discutidos temas referentes aos interesses dos trabalhadores do setor assim como o desenvolvimento técnico e artístico do cinema nacional (Jornal do Brasil, 5 de agosto de 1938).

1940 – Recebeu elogios por seu curta-metragem Vida de Antônio Parreiras (Jornal dos Sports, 11 de janeiro de 1940).

As Bodas de Prata de João e Thereza Stamato foram comemoradas com a realização de uma missa em ação de graças na Igreja de Santo Antônio dos Pobres (Diário Carioca, 27 de fevereiro de 1940, quinta coluna).

Stamato foi identificado como destacado produtor de cinejornais e curtas-metragens. Fez um acordo com a Distribuidora de Filmes Brasileiros Ltda (A Batalha, 19 de junho de 1940, quinta coluna).

 

 

Falecimento de sua avó materna, Ricarda Giffone (A Noite, 4 de dezembro de 1940, sétima coluna).

1941 – Trabalhava como cinematografista do Departamento de Imprensa e Propaganda e embarcou para Manaus (Diário de Pernambuco, 25 de novembro de 1941, última coluna).

Sua nora, Lourdes Soares Dutra (1917-1941), casada com seu filho, Fernando, faleceu no parto da filha.

1942 - Operou com Firmo Neto (1916 – 1998) O Coelho sai, primeiro filme falado do cinema pernambucano, dirigido por Newton Paiva, estrelado por Alvarenga (1911 – 1978) e produzido pela Meridional Filmes S.A. Era um musical em peto e branco que contava a história da saudade de uma jovem pelo Recife, tendo como pano de fundo a cultura e o carnaval pernambucanos. A música do filme era do maestro Nelson Ferreira (1902 – 1976) e originou o nome do longa (Scena Muda, 2 de fevereiro de 1943; Cinema Pernambucano).

Foi o fotógrafo do curta-metragem Debret e o Rio de hoje (Diário de Pernambuco, 16 de abril de 1942).

 

 

Foi publicada a ata de uma reunião da Distribuidora de Filmes Brasileiros S.A., realizada em 7 de abril (O Jornal, 8 de agosto de 1942).

1944 – Como cinegrafista do Serviço de Informação Agrícola do Ministério da Agricultura, onde foi contratado para substituir Lafayette Cunha,  filmou aspectos da reunião de técnicos agrícolas, no Recife (Diário de Pernambuco, 12 de maio de 1944, quinta coluna).

1945 – Era cinegrafista do serviço de Documentação do Ministério da Agricultura (A Manhã, 23 de junho de 1945, segunda coluna).

Fernando foi cinegrafista da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra, trabalhando como correspondente na Itália. Viúvo, partiu para os campos da batalha para documentar os movimentos das tropas brasileiras. Durante o conflito mundial, em pleno front, se apaixonou pela italiana Rossana Bonfatti. Casaram-se em Pistóia (Itália) e, no final da guerra, tiveram uma menina, nascida em 14 de setembro de 1945. No ano seguinte, nasceria outro filho.

 

 

João Stamato foi o responsável pela filmagem da Cachoeira Dourada, em Goiânia, uma parceria entre o governo de Goiás e o Ministério da Agricultura (A Manhã, 7 de outubro de 1945, quinta coluna).

1946 – Trabalhando para o Ministério da Agricultura, realizou um documentário sobre a extração de gás e de petróleo na Bahia (O Jornal, 18 de janeiro de 1946, quinta coluna).

Realizou também os documentários Aspectos da economia goianaGoiânia e Goiás de ontem e de hoje, além do curta-metragem Nem te ligo (A Manhã, 20 de março de 1946, última coluna).

1947 - Foi publicado o artigo Como nasceu o cinema, de João Stamato (O Jornal, 5 de outubro de 1947).

1948 – Foi o responsável por uma sequência do filme Mãe, produzido pela Cinédia. Publicação de uma crítica do filme (O Jornal, 12 de outubro de 1948).

1950 – Embarcou para Porto Alegre (Diário Carioca, 26 de outubro de 1950, última coluna).

1951 – Faleceu no Rio de Janeiro, em 25 de outubro de 1951, vítima de uma síncope do coração, quando saía do Ministério da Agricultura. Foi enterrado no Cemitério João Batista e sua missa de sétimo dia realizou-se na Igreja de São Francisco de Paula. Na épica era cinegrafista do Ministério da Agricultura e havia chegado há pouco tempo do Norte do país onde filmou os trabalhos da Usina Hidroelétrica de São Francisco. Pela primeira havia filmado a cores, um dos maiores desejos de sua vida (O Jornal, 26 de outubro de 1951; Diário Carioca, 26 de outubro de 1951, última colunaA Noite, 27 de outubro de 1951, quinta coluna; Diário de Notícias, 30 de outubro de 1951, última coluna).

 

 

O crítico de cinema Pedro Lima escreveu o artigo Para a história do cinema brasileiro sobre a vida de João Stamato (O Jornal, 4 de novembro de 1951).

1957 – Em artigos João Stamato foi citado como um dos pioneiros do cinema nacional (Gazeta Esportiva, 11 de janeiro de 1957 e Fon-Fon, 12 de março de 1957).

 

Filmografia de João Stamato no Dicionário de Fotógrafos do Cinema Brasileiro

 

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Fontes da cronologia:

BARROS, Luiz de. Minhas Memórias de Cineasta. Rio de Janeiro : Artenova, 1978.

Fundação Oswaldo Cruz. Casa de Oswaldo Cruz. A ciência a caminho da roça. Imagens das expedições científicas do Instituto Oswaldo Cruz ao interior do Brasil entre 1911 e 1913. Rio de Janeiro: Fiocruz/Casa de Oswaldo Cruz, 1991.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MELLO, Maria Teresa Bandeira de; Pires-Alves, Fernando A. Expedições científicas, fotografia e intenção documentária: as viagens do Instituto Oswaldo Cruz (1911-1913)História, Ciências, Saúde-Manguinhos, vol 16 supl.1 Rio de Janeiro, julho de 2009.

RAMOS, Fernão; MIRANDA, Luiz Felipe (orgs). Enciclopédia do Cinema Brasileiro. São Paulo : SENAC, 2000.

Revista de História da Biblioteca Nacional, 1º de dezembro de 2007

Revista Fime Cultura - Rio de Janeiro: Instituto Nacional de Cinema. Ano II – nº 8 – 6 de março de 1968
SILVA NETO, Antônio Leão da. Dicionário de Fotógrafos do Cinema Brasileiro. São Paulo : Imprensa Oficial do Estado de São Paulo, 2010.

Site Cinemateca Brasileira

Site Cinematema Pernambucana

Site IMDB

SOARES, Natália de Castro. A cor do cinema silencioso do Brasil 1913 – 1931: produção e linguagem (dissertação). Escola de Comunicação e Artes da Universidade de São Paulo, 2014.

SOUZA, José Inácio Melo. Retomando o trabalho com jornais da tela (ensaio).

TOMAIN, Cássio dos Santos. “Janela da Alma” Cinejornal e Estado Novo – Fragmentos de um discurso totalitário. São Paulo: Annablume; Fapesp, 2006.

A cidade de São Paulo e Tebas (1721 – 1811), reconhecido como arquiteto, em 2018, mais de 100 anos após sua morte

Hoje, no dia em que São Paulo completa 467 anos, a Brasiliana Fotográfica publica um artigo sobre um homem escravizado conhecido em seu tempo como o mestre pedreiro Tebas (1721 – 1811), que se destacou na cidade, no século XVIII, por criar projetos de edifícios, principalmente religiosos, tornando-se por sua atuação um ícone da arquitetura colonial no Brasil. Essencial para a renovação do estilo arquitetônico da cidade de São Paulo no século XVIII, foi o mais afamado oficial de cantaria de pedra, técnica de talhar pedras em formas geométricas, e era também mestre nas técnicas de alvenaria e hidráulica. Apesar da importância de seu legado, só foi reconhecido como arquiteto, em 2018, quando foi inserido no quadro associativo do Sindicato dos Arquitetos no Estado de São Paulo. Era dado, então, mais um passo para acabar com a invisibilidade da trajetória desse importante personagem da história de São Paulo e do Brasil.

 

 

Nascido em 1721, em Santos, seu nome era Joaquim Pinto de Oliveira. Aprendeu seu ofício com o português Bento de Oliveira Lima (? – 1769), seu proprietário e renomado mestre de obras da cidade. Passaram a ser chamados para trabalhar na cidade de São Paulo, onde atuaram em diversas obras. Foram responsáveis pela restauração da antiga Catedral da Sé, demolida em 1911. Tebas já havia construido a torre da igreja em 1750. Lima morreu, em 1769, antes da conclusão da reforma da Sé, deixando sua viúva, Antônia Maria Pinta, endividada. No inventário de Lima, Tebas valia 400 mil réis enquanto seus outros três artífices escravizados valiam 100mil. Segundo o pesquisador do IPHAN, Carlos Gutierrez Cerqueira, a alforria de Tebas aconteceu entre 1777 e 1778, em ação judicial movida por Tebas contra a viúva de Bento, sob orientação de Matheus Lourenço de Carvalho, arcebispo da Sé.

 

 

 

 

Entre os trabalhos de Tebas estão a pedra fundamental da fachada da antiga igreja do Mosteiro de São Bento, um cubo de 22 centímetros “com relíquias e um Agnus Dei na base do cunhal”, pela qual teria recebido, em 1766, seis tostões. Além disso, segundo o arquiteto Carlos Lemos, “lavrou também a portaria de pedra da igreja, encimada por um frontão em forma de concha. Por todo o trabalho de cantaria lavrada – portada principal, três janelas do coro e cruz romana de remate da fachada – recebeu ele do mosteiro, no mesmo ano de 1766, a quantia de 286$040 réis.”

 

 

Também construiu o Chafariz da Misericórdia (1792), primeiro chafariz público da capital paulista, erguido onde hoje encontra-se a rua Direita. Na época era ponto de trabalho e de encontro do povo, especialmente da população negra da cidade. Na época, por permitir o acesso à água, os chafarizes eram fundamentais para a dinâmica de funcionamento das cidades.

Segundo o livro A mão afro-brasileira: significado da contribuição artística e histórica (1988), organizado pelo artista plástico baiano, que a partir de 2004 passaria a ser diretor curador do Museu Afro Brasil, Emanoel Araújo (1940 – ), o chafariz foi “transferido para o distante Largo de Santa Cecília, talvez para servir de bebedouro de cavalos. Ficou por ali até os anos da I Grande Guerra. Depois, foi desmontado e largado num dos depósitos da prefeitura e, segundo informações que tivemos, até há uns quinze ou vinte anos atrás, ainda permanecia semi-enterrado entre os escombros e velhos postes de iluminação pública abandonados.” A transferência ocorreu em 1886.

 

 

 

Outras obras realizadas com a participação de Tebas foram as partes frontais da igreja da Ordem Terceira do Carmo (1775 – 1776) e da igreja da Ordem Terceira do Seráfico São Francisco (1783).

 

 

Construiu a torre do Recolhimento de Santa Teresa e foi também o responsável pelo Cruzeiro Franciscano da cidade de Itu (1795), que integra o Centro Histórico de Itu, e foi tombado em 2004 pelo Conselho de Defesa do Patrimônio Histórico, Arqueológico, Artístico e Turístico de São Paulo. Considerado um monumento raro, só é comparável aos cruzeiros da Igreja de São Francisco, em João Pessoa; e o do Convento de Nossa Senhora das Neves, em Olinda.

 

 

Ainda trabalhava em obras quando faleceu, em 11 de janeiro de 1811, de gangrena. Foi velado e sepultado na Igreja de São Gonçalo, na Praça João Mendes, em São Paulo.

O primeiro registro escrito sobre Tebas de que se tem notícia é de 1899 em uma cronologia da história paulistana, Chronologia paulista ou relação histórica dos factos mais importantes ocorridos em S. Paulo, desde a chegada de Martim Affonso de Souza a S. Vicente até 1898, elaborada pelo cronista maranhense José Jacinto Ribeiro (1846 – 1910), filiado ao Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Em 1935, Nuto Sant’Anna, chefe da Seção de Documentação Histórica do Departamento Municipal de Cultura de São Paulo, publicou o artigo Thebas: subsídios inéditos para a reconstituição da personalidade do célebre arquiteto paulistano do século XVIII, na Revista do Arquivo Municipal de São Paulo. Dois anos depois, escreveu o romance Tebas, o escravo, publicado em 1939.

Nas páginas iniciais do livro de Sant´Anna, há explicações preliminares:

 

PERSONAGENS

LENDÁRIO

Tebas, escravo pedreiro.

FICÇÃO

José Vaz, Mestre de Campo e D. Cotinha, sua mulher; Padre Justino, cônego; Gregório dos Anjos, feitor; Luiza, mulher do administrador do Quebra Lombo; Maria das Dores, Carolina, Tião, Juvêncio, Quitéria, Joana, Tibúrcio e Barnabé, escravos.

(…)

ENTRECHO

Dizem historiadores e cronistas que as tôrres das igrejas do Convento de Santa Teresa e da Sé foram construidas por Thebas. Thebas (Joaquim Pinto de Oliveira Thebas) trabalhou efetivamente nas obras do chafariz do largo da Misericórdia. O sítio do Tapanhoim existiu nas baixadas do ribeirão do Lavapés. A chácara do Quebra Lombo é também história. Os nomes das ruas e os aspectos ligeiramente delineados são reais.

O mestre de campo José Vaz é o dono do sítio do Tapanhoim e de tudo o que há nele, incluindo Tebas, protagonista da estória, e as demais pessoas ali escravizadas. O antagonista é o feitor Gregório dos Anjos, impedido por Tebas, a golpes de capoeira, de estuprar Maria das Dores, “mulatinha esguia, de saliências naturais bem feitas. Uns bonitos dentes. E uma certa vivacidade encantadora” nunca vista “nas outras crioulas” (p. 31).

Nesse tempo, a construção das pontes, a edifi cação de prédios altos, a erecção da tôrre das igrejas, constituiam verdadeiros problemas. Obras Tebas e o Tempo 15 difíceis e custosas. Os artífi ces da terra sentiam-se quasi incapazes de as realizar. O Convento de Santa Teresa, que, da beira do morro abrupto, espiava para a várzea, tinha já a sua igrejinha – mas sem tôrre; a da Sé também não a possuia; e a da igreja do Colégio, era pequenina e baixa. (p. 69)

Interessado nas habilidades de Tebas como pedreiro, padre Justino, cônego da Sé, o adquire junto ao mestre de campo José Vaz, sob a condição de libertá-lo assim que a obra estivesse concluída. Justino morre antes do início das obras, mas ainda tem tempo de ordenar o cumprimento da promessa e de determinar os ganhos (uma pataca e meia) do mestre pedreiro escravizado. Terminada a torre, o agora livre e respeitado Tebas juntara dinheiro para propor ao seu ex-senhor a compra de Maria das Dores. Mas é surpreendido por José Vaz, que lhe oferece de presente o amor de sua vida. Joaquim Pinto de Oliveira e Maria das Dores se casam um mês depois.

FIM

São Paulo, de 20 a 30 de junho de 1937

 (transcrito do livro Tebas, um negro arquiteto na São Paulo escravocrata, páginas 14 e 15)

 

O compositor paulistano Geraldo Filme (1927 – 1995) cantou a história do arquiteto no samba de 1974, da extinta escola de samba Paulistano da Glória, que, com o enredo, conquistou o vice-campeonato do Grupo de Acesso. Ouça aqui.

 

Praça da Sé, Sua Lenda, Seu Passado, Seu Presente

Geraldo Filme

Tébas negro escravo
Profissão alvenaria
Construiu a velha sé
Em troca da carta de alforria
Trinta mil ducados que lhe deu padre Justino
Tornou seu sonho realidade
Daí surgiu a velha Sé
Que hoje é o marco zero da cidade
Exalto no cantar de minha gente
A sua lenda, seu passado, seu presente
Praça que nasceu do ideal
E braço escravo, é praça do povo
Velho relógio, encontro dos namorados
Me lembro ainda do bondinho de tostão
Engraxate batendo na lata de graxa
E o camelô fazendo pregão
O tira-teima dos sambistas do passado
Bixiga, Barra Funda e Lavapés
O jogo da tiririca era formado
O ruim caía, o bom ficava de pé
No meu São Paulo, olê olê, era moda
Vamos na sé que hoje tem samba de roda
No meu São Paulo, olê olê, era moda
Vamos na sé que hoje tem samba de roda

 

Sobre o apelido e a vida de Tebas, segue um depoimento de Geraldo Filme:

 

 

Em 1988, no já mencionado livro A mão afro-brasileira: significado da contribuição artística e histórica,  foi publicado o artigo Thebas, do arquiteto Carlos Lemos, professor da Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU) da USP. Em 2011, Carlos Gutierrez Cerqueira, pesquisador do IPHAN, colocou no ar o blog Resgate – história e arte, a fim de divulgar suas pesquisas sobre Tebas, no artigo Tebas: vida e atuação na S. Paulo colonial; e também o resultado das suas mais de três décadas de trabalho no IPHAN. Em 2018, foi lançado o livro Tebas: Um Negro Arquiteto na São Paulo Escravocrata, organizado pelo jornalista Abilio Ferreira e fundamental para a elaboração desse artigo.

Foi inaugurado, em 20 de novembro de 2020, Dia da Consciência Negra, um monumento em homenagem a Tebas. A estátua, de autoria do artista plástico Lumumba Afroindígena e da arquiteta Francine Moura, está exposta na praça Clóvis Bevilaqua, entre as igrejas da Sé e do Carmo, em São Paulo.

 

 

“A natureza coletiva do seu legado o libertou do esquecimento”.

 

 

Como não existe nenhuma pintura ou desenho de Tebas, o quadro Cabeça de negro (1934), de Cândido Portinari (1903 – 1962), é muitas vezes associado à imagem do arquiteto. Fenômeno semelhante foi abordado no artigo A mulher negra de turbante, de Alberto Henscheldas historiadoras Aline Montenegro Magalhães e Maria do Carmo Rainho, publicado aqui no portal em 13 de maio de 2020. Nele é mencionado a frequência com que a imagem de Luiza Mahin, mãe do poeta, advogado e abolicionista Luís Gama (1830 – 1882), e liderança da Revolta dos Malês, um dos maiores levantes de escravizados promovidos no Brasil, em Salvador, em 1835, é associada à fotografia Mulher de turbante, produzida em torno de 1870, no Rio de Janeiro, pelo fotógrafo alemão Alberto Henschel (1827 – 1882).

 

 

Uma curiosidade: Tebas era uma gíria usada pela populaçao paulista, no século XIX, para designar algo que era bom ou o melhor. Segundo o livro A capital da solidão: uma história de São Paulo das origens a 1900 (2003), do jornalista Roberto Pompeu de Toledo: “Foi tal a fama de Tebas, considerado, além de pedreiro exímio, corajoso e desenvolto, que até a primeira metade do século XX seu nome, em São Paulo, era sinônimo tanto de valentão, quanto de habilidoso. “Fulano é um Tebas”, dizia-se, e a palavra, com tais acepções, até hoje está nos dicionários. Alguns afirmam que o adjetivo “tebas” não vem do Tebas, e sim do idioma quimbundo – mas o simples fato de outros o atribuírem ao artesão paulista já é indicativo de sua reputação”.

A história de Tebas foi lembrada no documentário AmarElo – É tudo pra ontem (2020) em torno de um show do rapper Emicida (1985 – ), realizado no Theatro Municipal de São Paulo, em 27 de novembro de 2019. No filme, é resgatada parte da história da cultura e dos movimentos dos negros no Brasil. Sobre Tebas: foi decisivo na renovação estilística pela qual São Paulo passou no século XVIII.

 

O livro  Tebas, um negro arquiteto na São Paulo escravocrata, organizado por Abilio Ferreira e lançado em 2018, foi fundamental para a elaboração desse artigo.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ARAUJO, Emanoel (Org.). A mão afrobrasileira: significado da contribuição artística e histórica. 2. ed. rev. e ampl. São Paulo: Imprensa Oficial do Estado de São Paulo/ Museu Afro Brasil, 2010.

Arch Daily, 27 de novembro de 2020

Aventuras na História, 27 de outubro de 2020

Documentário AmarElo – É tudo pra ontem

FERREIRA, Abilio (org.); CERQUEIRA, Carlos Gutierrez; YOUNG, Emma; JACINO, Ramatis; CHIARETTI, Maurilio. Tebas, um negro arquiteto na São Paulo escravocrata. São Paulo ; Idea, 2018.

Google Arts and Culture

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional 

O Estado de São Paulo

Outras palavras, 5 de abril de 2019

Projeto Tebas

Revista Galileu, 30 de junho de 2020

Revista Projeto, 14 de setembro de 2020

Site Cidade On

Site Prefeitura da Instância Turística de Itu

Site Cidade de São Paulo Cultura

Site IHGB

Site Secretaria de Cultura da Cidade de São Paulo

Site X Special Design

Veja São Paulo

 

Links para outro artigo relativo à fundação de São Paulo publicado na Brasiliana Fotográfica:

São Paulo sob as lentes do fotógrafo Guilherme Gaensly (1843 – 1928), publicado em 25 de janeiro de 2017.

O “artista fotógrafo” Louis Piereck (1880 – 1931)

 

O “artista fotógrafo” Louis Piereck (1880 – 1931)

 

 

O fotógrafo Louis Jacques Piereck (1880- 1931) é o autor do retrato destacado no sexto artigo da série “Feministas, graças a Deus”, sobre Júlia Medeiros (1896 – 1972), publicado na Brasiliana Fotográfica, em 9 de dezembro de 2020. De origem austríaca e nascido em Campinas, em 13 de outubro de 1880, ele atuou no Recife, entre fins do século XIX e nas primeiras décadas do XX. Pernambuco, a partir da década de 1850, com a chegada de vários fotógrafos estrangeiros e o estabelecimento de diversos ateliês fotográficos, tornou-se uma referência importante na história da fotografia no Brasil. Piereck foi contemporâneo do português Francisco du Bocage (1860 – 1919) e do pernambucano Manoel Tondella (1861 – 1921), dentre outros. Considerado talentoso, tinha muito prestígio na sociedade pernambucana e, em seu estabelecimento, a Photographia Piereck, eram produzidos “os mais perfeitos trabalhos“. Anunciava como sua especialidade “retratos, grupos de criança e o bello sexo“.

 

 

Muito provavelmente Louis aprendeu seu ofício de fotógrafo convivendo com profissionais em estabelecimentos fotográficos onde seu pai, o pintor acadêmico austríaco Ferdinand (Fernando) Piereck (1844 – 1925), trabalhou como, por exemplo, os ateliês de Henrique Rosén (1840 – 1892), em Campinas; Alberto Henschel (1827 – 1882), no Recife; e o de Carlos Hoenen (18? – ?), em São Paulo. Em 1870, Ferdinand esteve pela primeira vez no Brasil, onde todos os seus cinco filhos, que teve com a tcheca Elizabeth Taussig (1855 – 19?), nasceram: Wilhelmine Ernestine (Guilhermina Christiani) (1878 – 19?), Ferdinand Junior (1879 – ?), Louis (1880 – 1931), Babette (Elizabeth White) (1881 – 19?) e Laura Correia (1882 – 19?). Naturalizou-se brasileiro em 1896. A motivação de sua vinda para o Brasil é incerta. Teria vindo atraido pela natureza tropical? À procura de uma clientela desejosa de que sua prosperidade fosse retratada?

 

 

Em 1904, após uma estadia na Europa, Louis Piereck avisava a amigos, a antigos fregueses e ao público em geral que seu ateliê, a Photographia Piereck, no número 54 da rua dr. Rosa e Silva (1), antiga rua da Imperatriz, no Recife, tinha todos os requisitos necessários a fim de bem servi-los (Jornal Pequeno, 30 de abril de 1904, primeira coluna). Era o mesmo endereço onde havia se localizado o ateliê do fotógrafo Flosculo de Magalhães (18? – 19?).

Casou-se, no Recife, com Hermínia Bastos Tigre (? – 1949), em 31 de janeiro de 1907, e tiveram cinco filhos, Luiz (c. 1907 – 1923), Edgard (1909 – 1993), Carmelita (19? -19?) – que faleceu ainda criança de crupe em uma das viagens da família à Europa -, Helena (19? – 19?) e Hermínia (Baby) (1917 – 1987) (Jornal Pequeno, 31 de janeiro de 1907, quarta coluna).

Louis Piereck conquistou o Grande Prêmio na Exposição Nacional de 1908 e medalhas de ouro na Exposição Internacional de Bruxelas de 1910, na Exposição Internacional de Turim de 1911, na Exposição Internacional do Trabalho de Milão de 1915, e na Exposição Internacional do Centenário da Independência, no Rio de Janeiro, em 1922. Seu estabelecimento fotográfico era uma Casa honrada com a preferência da alta sociedade pernambucana, onde além de produzir e expor fotografias, Piereck vendia equipamentos fotográficos. Frequentemente ia à Europa, de onde trazia as “novidades da arte“.

“Essa conhecida casa, de que é proprietário o habilíssimo e competente artista sr. Luiz Piereck, acaba de ser dotada de importantes melhoramentos e novidades da arte, tonando-se desta sorte o principal estabelecimento do gênero desta capital”

Jornal Pequeno, 20 de fevereiro de 1913

 

A Photographia Piereck também foi palco de exposições de artistas plásticos como Vicente do Rego Monteiro (1899 – 1970), que se tornaria um pintor de renome internacional, e do chargista e caricaturista paraibano Fausto Silvério Monteiro, (? – 1935), o Fininho, pioneiro nas produções de materiais gráficos do cinema pernambucano (Diário de Pernambuco, 7 de janeiro de 1920, primeira colunaDiário de Pernambuco, 27 de agosto de 1922, quinta coluna).

 

 

Acessando o link para as fotografias de Louis Piereck disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Cerca de um ano antes de sua morte, Piereck foi o responsável pela última fotografia do então governador da Paraíba, João Pessoa  (1878 – 1930) que, no dia em que foi assassinado, 26 de julho de 1930, pelo jornalista João Dantas (1888 – 1930), no Recife, esteve na Photographia Piereck, onde tirou novas fotografias a fim de atender a pedidos que constantemente lhe eram feitos por jornalistas, amigos e parentes. O governador estava com o ex-deputado e futuro governador de Pernambuco, Agamenon Magalhães (1893 – 1952), e com o jornalista Caio Lima Cavalcanti (1898 – 1975). Piereck era grande admirador de Pessoa e, segundo noticiado no Correio da Manhã, o encontro dos dois se deu com grande emoção. O assassinato é considerado um dos estopins da Revolução de 30.

 

 

Link para o Hino a João Pessoa (o político), composto por Eduardo Souto e Oswaldo Santiago, cantado por Francisco Alves

O assassino de João Pessoa, João Dantas, e o engenheiro Augusto Caldas, seu cunhado, foram presos na Casa de Detenção do Recife, onde foram encontrados mortos em 6 de outubro (Diário de Pernambuco, 7 de outubro de 1930, primeira coluna). O motivo oficial das morte foi suicídio mas, anos depois, a descoberta de registros fotográficos produzidos por Piereck contribuíram para desacreditar essa versão.

Assim como Júlia de Medeiros, Louis Piereck teve um fim de vida trágico: suicidou-se, em 1931, ingerindo uma alta dose de oxianureto de mercúrio. Além da fotografia de Júlia, que pertence ao acervo do Arquivo Nacional, a Brasiliana Fotográfica disponibiliza 12 imagens produzidas por Piereck que pertencem ao acervo da Fundação Joaquim Nabuco. Ambas são instituições parceiras do portal.

 

 assinatura

 

Cronologia de Louis Piereck (1880 – 1931)

 

O fotógrafo Louis Piereck / Blog de Fernando Machado

O fotógrafo Louis Piereck / Acervo da família Piereck

 

1844 – Em Viena, na Áustria, nascimento do pintor Ferdinand (Fernando) Piereck (1844 – 1925), pai de Louis, em 10 de setembro.

1870 – Em 15 de outubro, Ferdinand chegou ao Rio de Janeiro, a bordo do paquete francês Amazone (Jornal do Commercio, 16 de outubro de 1870, sexta coluna).

1875 - Em Viena, em 13 de março, casamento de Ferdinand com Elizabeth Taussig (05/11/1855 – ?), nascida em Praga, de origem judaica. Os dois primeiros filhos do casal, Wilhelmine Ernestine (Guilhermina Christiani) (1878 – 19?) e Ferdinand Junior (1879 – ?), nasceram em Pernambuco. O fotógrafo Louis (1880 – 1931), Babette (Elizabeth White) (1881 – 19?) e Laura Correia (1882 – 19?), em São Paulo.

 

Louis Piereck. Ferdiand e Elizabeth Piereck com três filhos de Louis Piereck: Louis, Edgard e Hermínia (Baby), c. 19?

Ferdinand e Elizabeth Piereck e três de seu netos: Louis, Edgard e Hermínia (Baby), fotografados por Louis Piereck em torno de 1920/ Acervo da família Piereck

 

1876 – Ferdinand partiu do Rio de Janeiro para Pernambuco (O Globo, 1º de janeiro de 1876, quinta coluna). Foi contratado para trabalhar na Photographia Allemã de  Alberto Henschel (1827 – 1882) no Recife (Jornal do Recife, 14 de janeiro de 1876).

1877 – Ferdinand  foi contratado para ser o responsável pela pela policromia das fotopinturas a óleo e aquarela da Photographia Allemã, de Carlos Hoenen (18?-?), inaugurada em 1º de setembro de 1875, na rua do Carmo, 74, em São Paulo (Correio Paulistano, 31 de agosto de 1875, última coluna; Correio Paulistano, 23 de novembro de 1877).

1878 – Ferdinand ainda trabalhava no estabelecimento de Hoenen (Correio Paulistano, 30 de julho de 1878) e foi, muito provavelmente, o autor da pintura do teto de um dos cômodos do Grande Hotel, da Rua São Bento (Revista do IPHAN, nº 10, 1946), de propriedade de dois comerciantes: o teuto-suíço Frederico Glette (? – 1886) e o alsaciano Victor Nothmann (? – 1905).

 

 

Foi também o autor de uma pintura de tema religioso realizada para a Igreja da Penha (A Província de São Paulo, 28 de julho de 1878).

Transferiu-se para Campinas, onde trabalhou no ateliê Photographia Campinense, do sueco Henrique Rosén (1840 – 1892), na época o mais importante fotógrafo do interior paulista, que, posteriormente, em janeiro de 1890, foi nomeado cônsul do Brasil da Suécia e da Noruega (Relatório do Ministério das Relações Exteriores, 1891; Jornal do Brasil, 12 de junho de 1891, primeira coluna). A expansão cafeeira no oeste paulista fez com que vários fazendeiros alojassem em suas casas artistas que retratavam suas famílias. Ferdinand pintou diversos barões do café e, neste ano, pintou o retrato de dom Pedro II, que está no casarão da Fazenda  Pinhal, em São Carlos, São Paulo.

 

 

Sua primeira filha, Wilhelmine (Guilhermina) (1878 -?), nasceu em Pernambuco.

1879 – Nascimento do segundo filho do casal Ferdinand e Elizabeth, Ferdinand Junior, em Pernambuco.

1880 – Nascimento de Louis Piereck, em 13 de outubro, em Campinas (Jornal Pequeno, 13 de outubro de 1919, terceira coluna; Jornal do Recife, 13 de outubro de 1923, primeira coluna; Diário de Pernambuco, 14 de outubro de  1930, sexta coluna). Algumas fontes informam o ano de nascimento 1878, e, por vezes, indicam como local de seu nascimento a Áustria ou a Suíça, mas documentação enviada da Áustria para familiares do fotógrafo apontam 1880 e Campinas como o ano e o local corretos do nascimento do fotógrafo.

1881 – 1882 – Em São Paulo, nascimento dos últimos filhos do casal Ferdinand e Elizabeth: Elizabeth (Babette) (1881 – 19?) e Laura (1882 – 19?) .

1886 - Ferdinand Piereck, que havia voltado de Viena, foi contratado pela Photographia Allemã, de Albert Henschel (1827 – 1882), localizada na rua do Barão da Vitória, nº 52, no Recife. O gerente do estabelecimento era o também austríaco Constantino Barza (Jornal do Recife, 3 de março de 1886).

 

 

1887 – Segundo passaporte emitido na Áustria, em 16 de abril de 1887, para Ferdinand (Fernando) Piereck, com validade de três anos, ele estava em Viena, e viria ainda naquele ano para o Brasil. Aqui, após ter visitado as principais galerias durante sua viagem, voltou a trabalhar na Photographia Allemã, ficando encarregado dos retratos a óleo (Jornal do Recife, 26 de maio de 1887, quarta coluna).

1892 – De acordo com propaganda veiculada em 1910, a fundação do ateliê fotográfico de Louis Piereck teria ocorrido neste ano (Jornal Pequeno, 14 de novembro de 1910). Em janeiro de 1892, foi inaugurada a Photographia Brazil, de Flosculo de Magalhães (18? – 19?),  na rua da Imperatriz 54 A (que em 1895 passou a chamar-se rua dr. Rosa e Silva), primeiro estabelecimento do gênero no bairro da Boavista (Jornal do Recife, 6 de janeiro de 1892, terceira coluna). Em 1901, 1902 e 1903 continuava a funcionar no mesmo endereço. Flosculo mudou-se, em 1904, com a família para o Rio de Janeiro (A Província, 6 de novembro de 1901, quinta colunaA Província, 21 de janeiro de 1902, penúltima colunaA Província, 30 de janeiro de 1904, segunda colunaA Província, 1º de setembro de 1904, segunda coluna). É o mesmo endereço que, a partir de 1904, foi anunciado como o da Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 30 de abril de 1904, primeira coluna). Teriam os fotógrafos trabalhado juntos ou Piereck teria sucedido Flosculo no mesmo endereço?

1895 – Louis enviou um cartão de felicitações a sra. H. Barza. Seria uma parente de Constantino Barza (18? – ?), que havia sido o gerente da Photographia Allemã, de Henschel (1827 – 1882)? (Jornal do Recife, 1º de novembro de 1895, terceira coluna.

1896 - Seu pai, Ferdinand (Fernando) Piereck, naturalizou-se brasileiro, em 22 de maio de 1896 (Gazeta de Notícias, 25 de maio de 1896, quinta coluna).

1899 - Fazia parte de um Club de Photographia que distribuiu prêmios durante o ano de 1899 e 1900. O primeiro sorteio premiou o sócio Tito Rosas e o segundo, Alfredo Garcia (Jornal Pequeno, 2 de janeiro de 1899, terceira coluna).

Morava no Entroncamento nº 37 (Jornal do Recife, 30 de julho de 1899, sexta coluna).

1900 - Possuía um estabelecimento fotográfico, em Campina Grande, na Paraíba.

1904 – Seu estabelecimento fotográfico, a Photographia Piereck, ficava no número 54 A  da rua dr. Rosa e Silva (1), antiga rua da Imperatriz, no Recife, mesmo endereço onde havia se localizado anteriormente o ateliê do fotógrafo Flosculo de Magalhães (18? – 19?). Foi anunciado que Piereck havia chegado há pouco da Europa onde havia se dedicado com esmero à arte fotográfica. Avisava a amigos, a antigos fregueses e ao público em geral que seu ateliê tinha todos os requisitos necessários a fim de bem servi-los (Jornal Pequeno, 30 de abril de 1904, primeira coluna).

 

 

Na mesma rua dr. Rosa e Silva, no número 39, ficava a Modern Photograph, de Manoel Ribeiro Filho (18? – 19?) (Diário de Pernambuco, 20 de fevereiro de 1904, terceira coluna).

Piereck retratou a atriz e cantora Vittorina Cesana (1896? – 19?) caracterizada para o papel de militar da opereta Os 28 dias de Clarinha. Durante a apresentação da peça, no Teatro Santa Izabel, no Recife, esta fotografia foi distribuida aos espectadores (Jornal Pequeno, 21 de julho de 1904, terceira colunaDiário de Pernambuco, 23 de julho de 1904, penúltima coluna).

Na Photographia Piereck e na Maison Chic estavam sendo vendidos exemplares de A Linguagem dos selos pelo cartão postal ou o dicionário do amor pelo correio (Jornal Pequeno, 12 de outubro de 1904).

 

 

Seu pai, o pintor acadêmico Ferdinand (Fernando) Piereck, trabalhava na Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 20 de outubro de 1904, quarta coluna).

1905 - Foi anunciada uma grande exposição artística na Photographia Piereck (A Província, 8 de abril de 1905).

Houve uma liquidaçao de cartões-postais em seu estabelecimento (Jornal Pequeno, 14 de junho de 1905, segunda coluna).

1906 – Estavam em exposição na Photographia Piereck o retrato de todos os presidentes da Câmara de Deputados Estaduais de Pernambuco desde a proclamação da República: José Maria, Moreira Alves, José Marcelino, Elpidio Figueireido, Mota Silveira e João Coimbra (Jornal do Recife, 20 de fevereiro de 1906, sétima coluna).

Anunciava seu estabelecimento fotográfico como uma Casa honrada com a preferência da alta sociedade pernambucana (Jornal do Recife, 23 de fevereiro de 1906, oitava coluna).

Anúncio da contratação do casamento com Hermínia Bastos Tigre, irmã do poeta, bibliotecário, publicitário e jornalista Manuel Bastos Tigre (1882 – 1957), filha do negociante Delfino Tigre (18? – 1932) e de Maria Leontina Bastos Tigre (18? – 1926) e publicação das proclamas (Diário de Pernambuco, 5 de outubro de 1906, penúltima coluna; e Jornal do Recife, 25 de dezembro de 1906, quarta coluna). Uma curiosidade: o cunhado de Piereck, Manuel Bastos Tigre, foi o responsável pelo slogan da Bayer que se tornou famoso em todo o mundo: “Se é Bayer é bom“. É também o autor da letra da música Chopp em Garrafa, com música de Ary Barroso (1903 – 1964), que foi interpretada por Orlando Silva (1915 – 1978). Foi inspirada no produto que a Brahma passou a engarrafar. Sucesso do carnaval de 1934, é considerado o primeiro jingle publicitário do Brasil. O Dia do Bibliotecário, 12 de março, dia de seu nascimento, foi instituído, em 1980, em sua homenagem.

1907 – Louis Piereck produziu as fotografias da turma de bacharéis de 1906 (Jornal Pequeno, 5 de janeiro de 1907, primeira coluna).

 

 

 

Casou-se, no Recife, com Hermínia Bastos Tigre (? – 1949), em 31 de janeiro de 1907, e tiveram cinco filhos, Luiz (c. 1907 – 1923), Edgard (1909 – 1993), Carmelita (19? -19?) – que faleceu ainda criança de crupe em uma das viagens da família à Europa -, Helena (19? – 19?) e Hermínia (Baby) (1917 – 1987) (Jornal Pequeno, 31 de janeiro de 1907, quarta coluna).

 

família piereck 2

Da esquerda para a direita: Louis (filho primogênito do fotógrafo), Hermínia, sua mulher; Edgard (seu filho), o fotógrafo Louis Piereck, duas irmãs de Hermína e a mãe de Hermínia, Maria Leontina Bastos Tigre, em um navio indo para a Europa, década de 10 / Acervo da família Piereck

 

Anunciava utilizar na Photografia Piereck o processo Van Bosch, garantido para os climas tropicais (Jornal Pequeno, 24 de maio de 1907).

 

 

Anunciou a Alta Novidade Photo-Pintura-Esmaltada como exclusividade da Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 9 de dezembro de 1907). Com esta técnica foram realizados os retratos do desembargador Sigismundo Gonçalves (1845 – 1915) e do senador Rosa e Silva (1847 – 1929), expostos no depósito da Fábrica Lafayette (Jornal Pequeno, 13 de dezembro de 1907, primeira coluna).

1908 – A Photographia Piereck ficou incumbida pelo retrato do príncipe Luiz Felipe de Portugal (1887 – 1908), assassinado em 1º de fevereiro de 1908, que seria colocado na galeria do Real Hospital Português de Pernambuco (Jornal do Recife, 22 de fevereiro de 1908, oitava coluna).

Exposição na Fábrica Lafayette, na rua 1º de Março, do retrato em photo-pintura-esmaltada do coronel Cornélio Padilha (18? – 19?), realizado pela Photographia Piereck. O retrato seria dado ao coronel por amigos na ocasião de sua chegada da Europa (Jornal do Recife, 16 de setembro de 1908, última coluna).

A Photographia Piereck conquistou o Grande Prêmio na Exposição Nacional de 1908 (Diário de Pernambuco, 10 de dezembro de 1908, primeira colunaGutemberg, 31 de dezembro de 1908Jornal Pequeno, 3 de junho de 1909, última coluna).

 

 

1909 – Foi publicada uma lista de personalidades fotografadas pelo sistema “Esmalte Piereck” (Jornal Pequeno, 3 de junho de 1909).

 

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Exposição de um retrato do ex-presidente Afonso Pena (1847 – 1909) na Photographia Piereck (Diário de Pernambuco, 24 de junho de 1909, penúltima coluna).

Louis Piereck embarcou, em 10 de outubro, para a Europa, a bordo do Aragon, e anunciou que seu ateliê fotográfico continuaria funcionando. Retornou em 9 de dezembro de 1909 (A Província, 10 de outubro de 1909, terceira colunaJornal do Recife, 24 de outubro de 1909, terceira colunaA Província, 10 de dezembro de 1909, quinta coluna).

1910 – Na Fábrica Lafayette, exposição de retratos produzidos por Piereck, feitos por um novo e belíssimo processo, o mais moderno da arte fotográfica, imitação de fina gravura em relevo (A Província, 14 de janeiro de 1910, última coluna).

Venda de quadros e molduras a varejo e no atacado na Photographia Piereck (A Província, 30 de maio de 1910, quinta coluna).

A Photographia Piereck conquistou a Medalha de Ouro na Exposição Internacional de Bruxelas, realizada entre 23 de abril e 1º de novembro de 1910 (Diário de Pernambuco, 1º de novembro de 1910, última coluna). Também participaram da exposição os pintores brasileiros Lucilio de Albuquerque (1877 – 1939) e Antônio Parreiras (1860 – 1937). O encarregado pelos concertos de música brasileira no evento foi o maestro cearense Alberto Nepomuceno (1864 – 1920), então diretor do Instituto Nacional de Música. O pavilhão brasileiro foi projetado pelo arquiteto belga Franz van Ophen (18? – 19?).

 

 

Em 15 de novembro de 1910, foi inaugurada a instalação elétrica da Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 14 de novembro de 1910).

 

 

O quadro das novas professoras formadas no Colégio Prytaneu foi confeccionado e exposto na Photographia Piereck (A Província, 28 de novembro de 1910, segunda coluna).

1911 A Photographia Piereck ganhou a Medalha de Ouro na Exposição de Turim, realizada entre 29 de abril e 19 de novembro de 1911 (Almanach de Pernambuco, 1912).

 

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Medalha de Ouro da Exposição de Turim / Acervo da família Piereck

 

Nessa mesma exposição, o fotógrafo amador alagoano Luis Lavènere Wanderley (1868 – 1966) também foi premiado com uma Medalha de Ouro exibindo fotografias sobre madeira, sobre porcelana e quadros de gênero  (Leituras para todos, janeiro de 1912).

 

 

O fotógrafo austríaco radicado no Brasil Otto Rudolf Quaas (c. 1862 – c. 1930) recebeu a Medalha de Prata. Segundo artigo de Boris Kossoy, publicado no O Estado de São Paulo, de 4 de março de 1973,  o fotógrafo Valério Vieira (1862 – 1941) participou da Exposição Universal de Turim, durante a qual foi agraciado com a comenda de Cavaleiro da Coroa, concedida pelo rei da Itália, por sua defesa da causa da imigração italiana para o fotógrafo Valério Vieira (1862 – 1941).

 

 

Em uma exposição do quadro de bacharéis em Ciências Jurídicas e Sociais da Faculdade de Direito na Photographia Piereck, a iluminação do ateliê foi descrita e referida como responsável por um surpreendente efeito luminoso. O evento, muito concorrido, contou com a apresentação da banda do 49º Batalhão de Caçadores (A Província, 6 de dezembro de 1911, quarta coluna).

1912 –  Exposição de um retrato de Eudoro Correia (1869 – 1961), prefeito do Recife, na Photographia Piereck. O retrato seria ofertado ao prefeito pelos carvoeiros da casa Cory Brothers (Jornal do Recife, 19 de abril de 1912).

Mais uma vez, o quadro de retratos das novas professoras formadas no Colégio Prytaneu foi confeccionado e exposto na Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 16 de maio de 1912, quarta coluna).

A Photographia Piereck também confeccionava elegantes e custosas molduras (Jornal Pequeno, 20 de junho de 1912, última coluna).

Em julho, Louis Piereck foi passar uma temporada na Europa e deixou na direção de seu estabelecimento seu antigo auxiliar J. de Oliveira Lopes. Seu amigo Delfino da Silva Tigre cuidaria de seus assuntos particulares e comerciais (Jornal do Recife, 18 de julho de 1912, terceira coluna).

1913 – A bordo do Araguaya, Louis Piereck retornou de uma viagem à Europa quando visitou vários estabelecimentos fotográficos, especialmente em Viena e em Berlim. Comprou a patente para o processo fotográfico esmalte ouro para a América do Sul. Além disso, adquiriu uma utilíssima e magnífica máquina para operação em atelier, tipo 1912, a mais aperfeiçoada invenção e dotada de uma fina objetiva do importante cabricante Carl Zeiss…esse aparelho é o único que consegue apanhar clichês representando a maior naturalidade e nitidez, visto como o fotografado não vê diante de si a câmara, mas um grande espelho, onde se reflete a sua imagem, podendo desta natureza o artista, no momento crítico, apanhar uma fisionomia com a expressçao mais viva e natural. No interior da máquina  existe um aparelho instantâneo automático, de maneira que a pessoa que está sendo fotografada, por mais nervosa que seja, não pode modificar a expressão do rosto, evitando assim as tão frequentes reclamações de que “o trabalho não está bom a cópia não foi fiel”. Trouxe também fundos e decorações, uma coleção de animais para fotos com crianças, um projetor automático e elétrico, o maior do gênero em Pernambuco, que permitia apanhar no dia mais escuro qualquer clichê e um graduador automático de regulamentação de luz nas provas. Finalmente, comprou também uma rica e elegante cartonagem para a produção de um belíssimo efeito no acabamento dos retratos (Jornal do Recife, 1º de fevereiro de 1913, penúltima colunaJornal Pequeno, 20 de fevereiro de 1913, segunda coluna; e A Província, 25 de fevereiro de 1913, quarta coluna).

 

 

“Essa conhecida casa, de que é proprietário o habilíssimo e competente artista sr. Luiz Piereck, acaba de ser dotada de importantes melhoramentos e novidades da arte, tonando-se desta sorte o principal estabelecimento do gênero desta capital”.

Louis Piereck anunciou que havia reassumido a direção técnica de seu estabelecimento e a nova máquina fotográfica adquirida na Europa foi exposta na Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 26 de fevereiro de 1913, terceira colunaJornal Pequeno, 1º de março de 1913, primeira coluna).

Anunciou possuir os aparatos mais modernos e necessários para transformar seu ateliê em um interior de igreja para os atos de 1ª Comunhão, casamentos e batizados (Jornal Pequeno, 7 de abril de 1913, primeira coluna).

 

A Photographia Piereck inaugurou seu serviço fotográfico noturno sem o processo do magnésio (Jornal Pequeno, 13 de junho de 1913, penúltima coluna).

 

 

A Photographia Piereck foi contratada para realizar o quadro dos formandos da Escola de Farmácia (A Província, 24 de julho de 1913, terceira coluna).

Em 14 de novembro, no Teatro Santa Izabel, no Recife, foi entregue a Medalha de Ouro conquistada por Louis Piereco, na Exposição Internacional de Turim, em 1911 (Jornal Pequeno, 15 de novembro de 1913, terceira coluna).

 

 

Foi noticiado que Louis Piereck embarcaria para a Europa com a família. Teria aceito a incumbência de realizar para o Jornal Pequeno reportagens fotográficas nas principais cidades que visitasse (Jornal Pequeno, 29 de novembro de 1913, segunda colunaJornal do Recife, 18 de abril de 1915, segunda coluna).

Na Photographia Piereck, exposição de um quadro com retratos da tripulação vencedora, do Club Náutico, do páreo de honra da última regata (Jornal Pequeno, 13 de dezembro de 1913, última coluna).

1914 – Exposição do quadro das professoras da Escola Normal Pinto Junior, confeccionado no ateliê fotográfico de Piereck que foi decorado, para o evento, em estilo japonês. Na ocasião, houve a apresentação de uma banda militar (A Província, 21 de novembro de 1914, última colunaJornal do Recife, 24 de novembro de 1914, última coluna).

1915 – Ganhou o Grande Prêmio de Honra e uma Medalha de Ouro na Exposição Internacional do Trabalho em Milão.

 

Grande Prêmio de Honra, em Milão, 1915 / Arquivo da família Piereck

Grande Prêmio de Honra, Milão, 1915 / Acervo da família Piereck

 

Após uma longa viagem pela Europa, iniciada em fins de 1913, quando esteve em Viena, Paris e Berlim, Louis Piereck e sua família voltaram para o Recife, a bordo do transatlântico Avon. Trouxe para seu ateliê recentes descobertas fotográficas, dentre elas o processo de Pigment ou carvon verdadeiro, em que se notam nas provas 20 e tantas cores diferentes. Adquiriu também aparelhos para a execução de trabalhos esmaltados em moldura de diversos formatos – ovais, medalhões, redondos, quadrados, dentre outros – , e máquinas fotográficas para a realização de instantâneos de toda natureza … podendo apanhar as imagens com a rapidez de 2500 de segundo (Jornal do Recife, 18 de abril de 1915, segunda coluna; A Província, 23 de abril de 1915, segunda coluna; A Província, 27 de abril de 1915, quinta colunaJornal Pequeno, 28 de maio de 1915, penúltima coluna). Reassumiu seu estabelecimento fotográfico em 1º de junho (A Província, 27 de maio de 1915, segunda coluna).

Era o único depositário para todo o Brasil do medicamento Expulsin, fabricado em Berlim para o combate à gota, reumatismo e artrite (A Província, 27 de junho de 1915, primeira coluna; A Província, 17 de março de 1917, última coluna).

O inspetor de higiente, dr. Gouveia de Barros, foi retratado na Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 4 de agosto de 1915, última coluna).

Inauguração de diversos e importantes melhoramentos na Photographia Piereck, dentre eles o aumento da iluminação elétrica. Havia no ateliê um espaçoso laboratório para lavagem, revelação e fixagem de chapas, uma prensa automática e elétrica para a impressão de provas e também um aparelho para o serviço de ampliação. Havia também a seção de colagem, cortagem de cartão e abertura de firma da casa e outros distintivos, além da sala de fotografia e da seção de molduras. Nesta ocasião, trabalhavam no ateliê os artistas Gustavo Fischer e o alemão Phil Schafer, que havia trabalhado no ateliê Hubart & Cia, no Rio de Janeiro (Jornal Pequeno, 29 de dezembro de 1915, última coluna).

1916 - Piereck esteve por cerca de três meses na Europa e reassumiu a direção artística de seu ateliê, em 30 de junho de 1916. Trouxe para seu estabelecimento um aparelho para fotografias noturnas usado nas grandes casas da Europa. Adquiriu também uma belíssima cartonagem, o que havia de mais chic e novo no gênero (Jornal Pequeno, 1º de julho de 1916, última coluna).

Viajou a passeio para o Rio de Janeiro (Jornal Pequeno, 22 de agosto de 1916, última coluna).

1917 - Em um aviso publicado no jornal A Província, Piereck denunciou fotógrafos que, usando de má fé, apresentavam-se como seus representante (A Província, 3 de abril de 1917, última coluna).

 

 

Devido à manifestações contra a Alemanha ocorridas no Recife, Piereck procurou a redação do Jornal do Recife e declarou, mostrando documentos, ser brasileiro (Jornal do Recife, 12 de abril de 1917, primeira coluna).

A Photograhia Piereck foi escolhida para realizar o quadro de retratos dos bacharelandos de Direito de 1917 (Jornal Pequeno, 26 de maio de 1917, última coluna).

Anúncio da instalação, na Photographia Piereck, de uma importante e bem montada oficina para o fabrico de molduras, a cargo de competentes artistas (Jornal Pequeno, 26 de julho de 1917).

No quarto e mais importante páreo da regata promovida pelo Club Sportivo Almirante Barroso, foi disputado pela primeira vez o rico e elegante brinde “Photo Piereck”, oferecido pela conceituada Photographia Piereck  (Jornal Pequeno, 4 de agosto de 1917, quinta coluna).

 

medalhão

 

Foi noticiado que Gustavo Fischer havia deixado de ser o auxiliar de Louis Piereck, por sua livre e espontânea vontade. Ele passou a gerenciar a Photographia Chic (Diário de Pernambuco, 23 de outubro de 1917, primeira colunaJornal Pequeno, 24 de outubro de 1917, última coluna).

1918 - Mais uma vez, a Photographia Piereck foi a responsável pela realização do quadro de bacharéis da Faculdade de Direito (A Província, 7 de fevereiro de 1918, segunda coluna).

 

 

Exposição de diversos retratos na Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 2 de agosto de 1918, terceira coluna).

1919 – As capas da revista Vida Moderna passaram a trazer fotografias cedidas pela Photographia Piereck (Vida Moderna (PE), 5 de julho de 1919).

 

 

Inauguração na Photographia Piereck do quadro dos engenheiros formados em 1919 na Escola Livre de Engenharia. O passe-partout havia sido confeccionado pelo artista Moser (Jornal do Recife, 16 de agosto de 1919, penúltima coluna).

Realização de um magnífico trabalho na Photographia Piereck. Quadro do corpo médico e da junta administrativa de 1948, do Hospital Português (Jornal Pequeno, 20 de agosto de 1919, segunda coluna).

Foi anunciada a venda, na Photographia Piereck, de novas tintas para artistas pintores (Jornal Pequeno, 7 de outubro de 1919, primeira coluna).

A Photographia Piereck foi, de novo, a responsável pela realização do quadro de bacharéis da Faculdade de Direito (A Província, 10 de dezembro de 1919, penúltima coluna).

Na Photographia Piereck, inauguração do quadro de retratos dos professores da Escola Normal: Julio Pires Ferreira, França Pereira, Arthur Cavalcanti e José Ferreira Muniz (A Província, 13 de dezembro de 1919, quarta coluna).

1920 – O pintor Vicente do Rego Monteiro (1899 – 1970) fez uma exposição de ilustrações e aquarelas na Photographia Piereck (Diário de Pernambuco, 7 de janeiro de 1920, primeira coluna). Rego Monteiro trouxe para o Recife, em 1930, uma exposição de artistas da Escola de Paris, que foi a primeira mostra internacional de arte moderna realizada no Brasil, com artistas ligados às grandes inovações nas artes plásticas, como o cubismo e o surrealismo. Foram expostas, dentre outras, obras de Fernand Léger (1881 – 1955), Georges Braque (1882 – 1963), Joan Miró (1893 – 1983) e Pablo Picasso (1881 – 1973), além de trabalhos dele.

 

 

Estavam à venda na Photographia Piereck, as chapas fotográficas de fabricação alemã que, devido à guerra e a consequente interrupção das exportações, passaram muito tempo em falta. Outros produtos fotográficos também eram vendidos no ateliê (A Província, 22 de julho de 1920, primeira colunaA Província, 20 de agosto de 1920, última coluna).

 

 

A Photographia Piereck foi escolhida para realizar o quadro de retratos dos formandos em odontologia (Jornal do Recife, 7 de agosto de 1920, quinta coluna).

Os retratos do presidente do Brasil, Epitácio Pessoa (1865 – 1942), e do governador de Pernambuco, José Rufino Bezerra Cavalcanti (1865 – 1922), realizados pela Photographia Piereck, foram expostos durante a realização da comemoração do primeiro ano de governo de Bezerra CAvalcanti (A Província, 18 de dezembro de 1920, quarta coluna).

1921 – A Photographia Piereck realizou o quadro de retratos dos formandos da Faculdade de Direito e dos farmacêuticos (Jornal do Recife, 13 de janeiro de 1921, sexta colunaA Província, 3 de dezembro de 1921, segunda coluna).

Piereck Irmãos vendiam carros (Diário de Pernambuco, 20 de janeiro de 1921).

A Photographia Piereck recebeu da Alemanha cartonagem para retratos de formatos visita e álbum em cores sortidas com os seus respectivos envelopes transparentes (A Província, 30 de janeiro de 1921, quarta coluna).

Exposição de diversos retratos na Photographia Piereck, uma das melhores de nosso país (A Província, 11 de fevereiro de 1921, primeira coluna).

Louis Piereck reassumiu, em 15 de setembro, a direção de seu estabelecimento (A Província, 20 de setembro de 1921, última coluna).

Phil Schafer, gerente da Photographia Piereck, anunciou que havia se desligado do estabelecimento e oferecia seus serviços profissionais de ampliação, sua especialidade, assim como outros ligados à fotografia. Posteriormente abriu um estabelecimento fotográfico na rua da Imperatriz, 285, bem perto da Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 20 de setembro de 1921, última colunaAlmanak Laemert, 1927, última coluna).

O Club Sportivo Almirante Barroso conquistou algumas taças nas regatas realizadas na baciaa do Capiberibe, uma delas a Taça Photo Piereck (A Província, 20 de setembro de 1921, segunda coluna).

Houve um incêndio na Photographia Piereck devido a um curto-circuito na fiação elétrica (Jornal Pequeno, 6 de dezembro de 1921, quinta colunaA Província, 7 de dezembro de 1921, última coluna).

1922 – Foi premiado com a Medalha de Ouro na Exposição Internacional do Centenário da Independência, realizada no Rio de Janeiro (A Província, 11 de julho de 1924, primeira coluna).

A Photo Piereck anunciou a chegada de uma nova remessa de chapas alemães do afamado fabricante Schleussner. No mesmo anúncio aconselhava os fotógrafos e amadores: só usem chapas preparadas com emulsão tropical  (Diário de Pernambuco, 19 de janeiro de 1922, terceira coluna). No mesmo ano, foi anunciada a chegada de uma remessa da tinta Helios, especiais para a pintura de tecidos (Diário de Pernambuco, 14 de juho de 1922, terceira coluna).

A Photographia Piereck realizou o quadro de retratos das professoras formadas na Escola Normal de Pernambuco (Diário de Pernambuco, 2 de fevereiro de 1922, sexta coluna).

Nascimento de Fernando Carlos, filho de Elizabeth Piereck White, irmã de Louis, que era casada com Fernando White (Jornal Pequeno, 16 de fevereiro de 1922, quinta coluna).

Durante as exéquias celebradas, na basílica Nossa Senhora da Penha, em memória de José Rufino Bezerra Cavalcanti (1865 – 1922), foi exibido um retrato a óleo, realizado pela Photographia Piereck na época em que ele foi ministro da Agricultura, entre 1915 e 1917 (Diário de Pernambuco, 28 de abril de 1922, quarta coluna).

Após concorrer com o fotógrafo Fidanza – curiosamente, mesmo sobrenome do fotógrafo português Felipe Augusto Fidanza (c. 1847 – 1903) – , foi escolhido para realizar o quadro de retratos dos bacharéis da Faculdade de Direito (A Província, 12 de maio de 1922, quinta coluna).

Na Photographia Piereck, exposição do chargista e caricaturista paraibano Fausto Silvério Monteiro, (? – 1935), Fininho, pioneiro nas produções de materiais gráficos do cinema pernambucano. Pode ser considerado como um dos primeiros artistas gráficos a trabalhar para o cinema no Brasil (Diário de Pernambuco, 27 de agosto de 1922, quinta coluna).

 

 

A Photo Piereck anunciava-se como a única importadora em Pernambuco de produtos fotográficos.

 

 

Foi, de novo, o responsável pela realização do quadro de retrato de bacharéis da Faculdade de Direito (Diário de Pernambuco, 15 de dezembro de 1922, quinta coluna).

1923 - Ferdinand Piereck Junior noticiou que seu irmão, Louis Piereck, estava se retirando da firma Piereck Irmãos, que ficava na Praça da Independência 31 e que havia há pouco anunciado a venda de tintas e anilinas de Brauns (A Província, 24 de abril de 1923, segunda coluna).

Exposição na Photographa Piereck do retrato do senador Manoel Borba (1864 – 1928), que seria colocado na Prefeitura de Jaboatão (Jornal Pequeno, 9 de junho de 1923, primeira coluna).

Eram vendidas na Photographia Piereck máquinas fotográficas Kodack Goerz, além de outros produtos fotográficos da marca Gevaert (Jornal Pequeno, 16 de janeiro de 1923, última colunaJornal Pequeno, 10 de julho de 1923, segunda coluna).

 

 

O alemão Martin Schumann dirigia a seção de retratos a óleo, pastel, aquarelas e ampliações fotográficas da Photographia Piereck. Anteriormente, já havia dirigido uma academia em Dresden onde ensinava essas técnicas. Em homenagem à data da independência do Brasil, foi realizada uma exposição na Photo Piereck de quadros a óleo e trabalhos outros do gênero (Jornal Pequeno, 5 de setembro de 1923, quinta colunaA Província, 7 de setembro de 1923, quarta coluna).

 

 

Morte do primogênito de Louis e Hermínia Piereck, Luiz, que estudava no Colégio Synodal, em Santa Cruz, no Rio Grande do Sul (Jornal Pequeno, 30 de novembro de 1923, primeira coluna).

Publicação de propagandas das lentes Goerz, vendidas na Photographia Piereck (Diário de Pernambuco9  e 30 de dezembro de 1923).

 

 

“A memória nem sempre é fiel….É recem-casado?…De futuro a sua alegria será enorme” – de uma propaganda da Photo Piereck (Jornal Pequeno, 31 de dezembro de 1923, última coluna).

 

 

1924 - Mário Araújo Sobrino e Felipe Nery dos Santos trabalhavam como auxiliares na Photographia Piereck  (Diário de Pernambuco, 14 de fevereiro, segunda coluna; e Diário de Pernambuco, 27 de maio de 1924, terceira coluna).

Realizou o quadro de retratos dos bacharéis em ciências comerciais (A Província, 29 de março de 1924, quarta coluna).

Exposição, na Photographia Piereck, do quadro de retratos dos formandos da Escola de Engenharia de Pernambuco. O passe-partout foi de autoria do pintor H. Moser  (Diário de Pernambuco, 5 de abril de 1924, quarta coluna).

Na Photographia Piereck eram vendidos diversos equipamentos fotográficos (Jornal Pequeno, 21 de maio de 1924).

 

 

Exposição na vitrine da Photographia Piereck de um magnífico retrato busto em tamanho natural enfaixado em rica moldura do abastado comerciante e nosso particular amigo coronel Othon Mendes Bezerra de Mello (Jornal Pequeno, 2 de setembro de 1924, segunda coluna).

Ganhou uma Medalha de Ouro do Instituto Agrícola,  no Rio de Janeiro.

1925 – Inauguração, na Photographia Piereck, do quadro de retratos de bacharéis da Faculdade de Direito (Diário de Pernambuco, 12 de março de 1925, primeira coluna).

 

 

Publicação de fotografias de Piereck na Revista de Pernambuco (Revista de Pernambuco, março de 1925).

 

 

Anunciou a venda de vários produtos “Para photografia!” como prensa de copiar 13:18 9:12, bacias de porcelana e ágata, copas de graduar, balanças, vidros finos despolidos, rubi e calibres diversos. Vendia também papéis mate e brilhantes de diversos fabricantes, além de cartolinas (Diário de Pernambuco, 31 de maio de 1925, terceira colunaDiário de Pernambuco, 4 de julho de 1925, primeira coluna).

A Photographia Piereck foi responsável pelo quadro de retratos da primeira turma de médicos formados na Faculdade de Medicina do Recife (A Província, 6 de dezembro de 1925, terceira coluna).

Falecimento de seu pai, Ferdinand, em sua casa na estrada dos Aflitos, 192 (Jornal do Recife, 12 de dezembro de 1925, segunda coluna).

1926 – Falecimento da sogra de Piereck, Maria Leontina Bastos Tigre (Jornal Pequeno, 4 de janeiro de 1926)

A Photo Piereck anunciava uma grande novidade, o metallon, um papel fotográfico ideal para efeitos artísticos (Diário de Pernambuco, 28 de março de 1926).

 

 

O chargista  e caricaturista Fausto Silvério Monteiro (? – 1935), Fininho, trabalhava na Photographia Piereck, na rua da Imperatriz, 198  (Jornal do Recife, 10 de abril de 1926, quinta coluna).

A Photographia Piereck produziu o quadro de retrato das primeiras diplomadas em Comércio do Instituto Nossa Senhora do Carmo (Jornal do Recife, 20 de novembro de 1926, quarta coluna).

1927 – Foi o responsável pelo quadro de retratos da Turma do Centenário da Faculdade de Direito do Recife (Diário de Pernambuco, 21 de abril de 1927, sexta coluna).

Foi noticiada uma reforma na Seção de amadores da Photo Piereck (Jornal Pequeno, 18 de julho de 1927, última coluna).

1928 – Anunciou a chegada novas remessas de papel Leonar, chapas Eisenberger (Jornal Pequeno, 8 de março de 1928, última coluna).

A Photographia Piereck realizou a fotografia de dom Miguel de Lima Valverde (1872 – 1951), arcebispo de Olinda e Recife (Diário de Pernambuco, 22 de julho de 1928, quarta coluna).

Em um anúncio, convidava os fotógrafos amadores a ver a nova Vest pocket à venda na Photographia Piereck (Jornal Pequeno, 22 de novembro de 1928, segunda coluna)

1929 - Também eram vendidos na Photographia Piereck produtos da Kodak, da Agfa, da Hauff e de outros fabricantes (Jornal Pequeno, 2 de janeiro de 1929, segunda coluna).

Um retrato da Photographia Piereck era um dos prêmios oferecidos à vencedora do concurso de beleza que elegeu a Miss Pernambuco, Connie Brás da Cunha (Jornal Pequeno, 21 de março de 1929, quarta coluna).

A professora e feminista Júlia Augusta de Medeiros (1896 – 1972) ofereceu à feminista e presidente da Federação Brasileira para o Progresso Feminino, Bertha Lutz (1894 – 1976), uma fotografia sua produzida por Louis Piereck, datada de 5 de maio de 1929.

 

 

1930 - No dia em que foi assassinado, 26 de julho de 1930, pelo jornalista João Dantas (1888 – 1930), no Recife, o então governador de Paraíba, João Pessoa (1878 – 1930), esteve na Photographia Piereck, onde tirou novas fotografias a fim de atender a pedidos que constantemente lhe eram feitos por jornalistas, amigos e parentes. O governador estava com Agamenon Magalhães (1893 – 1952), na época ex-deputado e futuro governador de Pernambuco; e com o jornalista Caio Lima Cavalcanti. Piereck era grande admirador de Pessoa e segundo o Correio da Manhã, o encontro dos dois se deu com grande emoção. Na ocasião, Piereck teria contado a Pessoa que tivera um pesadelo com a morte dele (Diário Carioca, 29 de julho de 1930, penúltima colunaCorreio da Manhã, 29 de julho de 1930, penúltima coluna). O assassinato é considerado um dos estopins da Revolução de 30.

 

 

Segundo o jornalista Domingos Meirelles em seu livro Órfãos da revolução, ao preparar os equipamentos, Piereck notou que João Pessoa continuava tenso, olhos baixos, expressão congelada, com tristeza na face. Produziu um segundo retrato, segundo o pesquisador Edival Varandas, ao se dar conta que as luvas no bolso do paletó do presidente estavam desalinhadas e, subitamente, solicitando que não se movesse, ajeitou as luvas, pediu que esboçasse um leve sorriso e tirou o outro retrato, que viria a ser o último de Pessoa (O Dia (PR)21 de novembro de 1931, quarta coluna).

O assassino de João Pessoa, João Dantas, e o engenheiro Augusto Caldas, seu cunhado, foram presos na Casa de Detenção do Recife, onde foram encontrados mortos em 6 de outubro (Diário de Pernambuco, 7 de outubro de 1930, primeira coluna). O motivo oficial das morte foi suicídio mas, anos depois, a descoberta de registros fotográficos produzidos por Piereck contribuiu para desacreditar essa versão:

 “João Dantas e seu cunhado Augusto Caldas estavam detidos, desde a morte de João Pessoa, na penitenciária em Recife, quando, na tarde de 6 de outubro, foram encontrados mortos. A notícia oficial apontou suicídio, e assim foi divulgado na imprensa. Somente após a morte do fotógrafo Piereck foi que uma nova versão para a morte foi trazida ao público – tratava-se de outras fotografias desconhecidas e que estavam guardadas no cofre do fotógrafo. Conta-se que Piereck, sabendo do que ocorrera, fotografou o local, mas foi obrigado a tirar novas fotos em que, num novo cenário fotografado, esconderia os sinais de luta e de assassinato. Essa versão se encontra no livro do irmão de Augusto Caldas, que foi recentemente publicado pela ONG “Parahyba Verdade”” e editado pela Gráfica e Editora Imprell  (Trecho da dissertação de mestrado Sacrifício, heroísmo e imortalidade: a arquitetura da construção da imagem do Presidente João Pessoa, de Genes Duarte Ribeiro – página 100).

Essas fotografias foram publicadas no livro de Joaquim Inojosa Andrade, A República de Princesa (José Pereira x João Pessoa, -1930) e reproduzidas no site princesapb.com.

 

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1931 – Piereck suicidou-se em 19 de novembro, ingerindo uma alta dose de oxianureto de mercúrio em sua residência, na avenida Rosa e Silva, 192. Desesperada, sua mulher, Herminia Tigre Piereck, também tentou se matar ingerindo ácido arsênico. O casal tinha, na época, dois filhos, Edgard e Herminia “Baby” Piereck. O primogênito, Luiz, havia falecido em 1923 (Diário de Pernambuco, 20 de novembro de 1931, penúltima colunaJornal Pequeno, 20 de novembro de 1931, quinta coluna; Diário de Pernambuco, 20 de novembro de 1931, sexta coluna).

“A dolorosa ocorrência repercutiu tristemente em nosso meio, onde o sr. Louis Piereck se tornara um homem popular, pela sua bondade, pelos seus dotes morais. E o seu gesto,não foi só uma desagradável surpresa para os que apenas o conheciam mas também para os que pertenciam a sua família que, de momento, não podiam atinar onde essa causa tão forte, que levava o chefe a praticar o ato de desespero que lhe roubara a vida. Entretanto, ao que se sabe, o sr.Louis Piereck, antes de objetivar a sua macabra resolução, teria escrito uma longa carta a seu filho de nome Edgard Piereck expondo-lhe com pormenores as causas que o levaram a procurar a morte de uma maneira tão violenta”.

Jornal Pequeno, 20 de novembro de 1931

 

Era diretor do Jockey Club e as corridas foram suspensas no domingo seguinte a seu falecimento. Estiveram presentes a seu enterro o interventor federal e figuras da maior represetação da alta sociedade pernambucana (Jornal Pequeno, 21 de novembro de 1931, primeira coluna).

1932 – Foi publicado um anúncio convocando todos os credores da Photographia Piereck a fim de se entenderem com Edgard Piereck, filho de Louis (Diário de Pernambuco, 5 e fevereiro de 1932).

O estabelecimento foi a leilão judicial, em abril de 1932.

 

 

1949 – Falecimento da esposa de Louis Piereck, Hermínia, no Rio de Janeiro (Diário de Pernambuco, 17 de setembro de 1949, última coluna).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

(1) De acordo com Lúcia Gaspar, da Fundaj, “curiosamente, a rua da Imperatriz Tereza Cristina mudou de nome três vezes. Em 1895, foi denominada Dr. Rosa e Silva. Passou para Floriano Peixoto. Finalmente, por meio da Lei nº 1.336, de 13 de março de 1923, voltou ao nome tradicional. De maneira espontânea, a população reduziu a sua denominação para Rua da Imperatriz, como é conhecida até hoje”. Por isso, apesar de entre 1904 e 1931 a Photographia Piereck ter existido no mesmo lugar, o endereço variou: rua dr. Rosa e Silva, 54; rua Floriano Peixoto, 54; rua Floriano Peixoto, 198; e rua da Imperatriz, 198.

 

Agradeço muitíssimo à família de Louis Piereck, especialmente à sua neta, Eliane Piereck, por inúmeras informações e pela cessão de registros do acervo pessoal da família.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANDRADE, Joaquim Inojosa. República da Princesa (José Pereira x João Pessoa – 1930). Rio de janeiro/Brasília: Civilização Brasileira/INL-MEC, 1980.

Blog do Juan Esteves

BEZERRA, Dinarte Varela. 1930, a Paraíba e o inconsciente político da revolução: a narrativa como ato socialmente simbólico. 2009. 227 f. Tese (Doutorado em Desenvolvimento Regional; Cultura e Representações) – Universidade Federal do Rio Grande do Norte, Natal, 2009.

CALDAS, Joaquim Moreira. Porque João Dantas assassinou João Pessoa: o delito do “Glória” e a tragédia da penitenciária do Recife em 1930. João Pessoa: Gráfica e Editora Imprell, 2008.

CAMPOS, Eudes. O antigo Beco da Lapa e o Grande Hotel. Informativo Arquivo Histórico Municipal, 4 (24): maio/jul. 2009

Google Arts and Culture

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002.

MEIRELLES, Domingos. Órfãos da revolução. Editora Record : Rio de Janeiro, 2006

RIBEIRO, Genes Duarte. Sacrifício, heroísmo e imortalidade: a arquitetura da construção da imagem do Presidente João Pessoa. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal da Paraíba, 2009.

Site CPDOC

Site Dezenovevinte.net

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site Imigração Histórica

Site Silvia Matos Ateliê de Criatividade

Site princesapb.com

Site Propagandas Históricas

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo: 1839/1889. Prefácio Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Funarte. Rocco, 1995. 309 p., il. p&b. (Coleção Luz & Reflexão, 4). ISBN 85-85781-08-4.

VARANDAS, Edival Toscano. O último retrato do presidente João Pessoa.

Série “Feministas, graças a Deus!” VI – Júlia Augusta de Medeiros (1896 – 1972) fotografada por Louis Piereck (1880 – 1931)

Série “Feministas, graças a Deus!” VI – Júlia Augusta de Medeiros (1896 – 1972) fotografada por Louis Piereck (1880 – 1931)

 

A Brasiliana Fotográfica publica o sexto artigo da Série “Feministas, graças a Deus”, desta vez sobre Júlia Augusta de Medeiros (1896 – 1972), uma das pioneiras no jornalismo, na educação e no feminismo no Rio Grande do Norte, destacando um retrato produzido pelo fotógrafo Louis Piereck (1880 – 1931), que será o tema do próximo artigo do portal.

Na imagem de Júlia Augusta de Medeiros, um expoente da cultura no Seridó, há uma dedicatória à líder feminista e bióloga Bertha Lutz (1894 – 1976): Dona Bertha, uma forma de minha admiração – Julia Medeiros, Caicó, 2 de maio de 1929. Bertha já foi o assunto do terceiro artigo da série “Feministas, graças a Deus“, de autoria da historiadora Maria do Carmo Rainho, do Arquivo Nacional, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 29 de setembro de 2020. Bertha Lutz fez uma visita ao Caicó, cidade natal de Júlia, em 1928. Tornaram-se amigas e iniciaram uma frequente troca de cartas. Além disto, Júlia acompanhava as atividades de Bertha pelos jornais. Em dezembro de 1929, Júlia, visitou, no Rio de Janeiro, a sede da Federação Brasileira para o Progresso Feminino, presidido por Bertha.

 

 

Ao lado de mulheres como Dolores Cavalcante (1885 – 1968), Maria Carolina Wanderley Caldas (1876 – 1954), a Sinhazinha Wanderley; e a poeta e jornalista Palmyra Wanderley (1894 – 1978), desempenhou um papel fundamental para a conquista do direito à educação das mulheres do Rio Grande do Norte. Também lutou pelo voto feminino. Era uma idealista e sua atuação contribuiu para a construção da educação e do direito da cidadania da mulher.

Não era, apesar de suas posições a favor de mudanças e conquistas para as mulheres, uma ativista feminista exaltada. Para Júlia, a vitória do feminismo viria com a preparação da mulher a partir da educação, cultivando seu caráter forte e tornando-a amante da família e do lar. Essa noção denota seu comprometimento com os paradigmas do patriarcado nordestino e também com os princípios de sua formação católica. Lutava pela emancipação feminina, por uma maior participação da mulher no mundo moderno, sempre a partir do incremento de sua formação intelectual. Porém, de acordo com suas ideias, isto não poderia prejudicar o papel da mulher na família.

Não pretendia igualar-se aos homens: “a missão da mulher poderá se estender além do lar, cujo programa será sempre a dedicação, não procurando vencer senão pela virtudea nossa força e o nosso prestígio representam a modéstia e a delicadeza inerentes ao próprio sexo”. Neste mesmo texto, intitulado A missão da mulher e publicado na edição de setembro/outubro de 1925 da Revista Pedagogium levantou seu “brado de revolta contra os antigos preconceitos que nos escravizavam ao mais baixo nível da civilização”.

Anos depois, no Jornal das Moças, de 19 de abril de 1928, publicou:

“O feminismo educado e moralizado será a dinâmica das gerações novas. Hoje, vemos na pátria de Washington as mulheres exercendo funções públicas, jumas legislam na Câmara, outras são advogadas e uma chegou a governar um dos Estados daqueles singulares Estados Unidos. Vendo e percrustando a marcha do feminismo, não podemos deixar de encorajar as sertanejas, que aliam suas virtudes cívicas ao seu devotamento extremo e nobreza de sentimentos. Que a vitória seja o prêmio dos vossos esforços”.

Júlia Augusta de Medeiros nasceu, na Fazenda Umari, em Caicó, em 28 de agosto de 1896, filha de Antônio Cesino (18? – 1926) e Ana Célia Amélia Medeiros. Segundo Guerra Filho, foi “quem sabe a mulher do século de Caicó“. Ana Célia Amélia era a segunda esposa de Antônio Cesino. Júlia, segunda de uma prole de seis irmãs e um irmão, foi batizada, por seu tio, Ambrósio Florentino de Medeiros, e sua avó paterna, Ana Vieira Mimosa, em 10 de outubro do ano de seu nascimento.

Sua família pertencia à elite rural, tinha origem na ilha de São Miguel, nos Açores, Portugal, e teria vindo para o sertão nordestino no século XVIII. Seu pai, conhecido como “Tonho do Umari”, era um proeminente produtor de algodão, proprietário de terras, com destaque para a Fazenda Umari, uma das maiores do Seridó. A cotonicultura era uma atividade econômica importante no Rio Grande do Norte. Era também dono dos sítios Curral Queimados e Currulim, em Caicó, e do sítio Carrapateira, em São José do Sabugi. Herdou suas terras de seu pai, Francisco Antônio de Medeitos, o “Chico do Umari”. Foi eleito intendente de Caicó, cargo que exerceu entre 1914 e 1916 (Relatórios dos Presidentes dos Estados Brasileiros – RN – 1890-1930).

Júlia foi alfabetizada em casa por Misael de Barros, um professor particular, denominado mestre-escola, um privilégio da elite rural. Diferentemente da maioria dos homens de sua época, o pai de Júlia não fazia distinção de sexo no tocante à educação. Todas as suas filhas tiveram acesso à educação em uma época em que, na maioria das famílias, só os filhos homens recebiam instrução. A primeira instituição de ensino para mulheres em Caicó foi inaugurada em 15 de janeiro de 1926 e chamava-se Colégio Santa Terezinha, da Congregação Filhas do Amor Divino. Lá as moças da elite aprendiam prendas domésticas, francês, canto, dança e piano.

Para tornar-se professora, ainda adolescente e já órfã de mãe, Júlia foi estudar no Colégio Nossa Senhora da Conceição, em Natal, onde morou com o professor de português Joca Vicente, amigo de sua família. Em 1921, aos 25 anos, foi estudar na Escola Normal, também na capital. O curso compreendia as seguintes matérias:

 

listacursos

 

Já em 1925, ano em que se formou, escrevia para a revista Pedagogium (1921 – 1925), da Associação dos Professores do Rio Grande do Norte. Sua formatura aconteceu em 30 de janeiro de 1926, no Teatro Carlos Gomes, na Ribeira.

 

Lembrança da colação de grau de Júlia Medeiros / Acervo particular de Maria Julieta Dantas

Lembrança da colação de grau de Júlia Medeiros / Acervo particular de Maria Julieta Dantas

 

Nos anos em que morou em Natal, além de estudar, Júlia participava das atividades culturais e sociais da cidade. Era amiga da poetisa Palmyra Wanderley (1894 – 1978), do deputado, senador e governador do Rio Grande do Norte entre 1924 e 1927, José Augusto Bezerra de Medeiros (1884 – 1971), nascido como Júlia em Caicó e que durante sua gestão priorizou a educação no estado; de Juvenal Lamartine (1874 – 1956), governador do estado entre 1928 e 1930 e patrono do voto feminino no Brasil; e do professor e jornalista Amphilóquio Câmara (1899 – 1957), dentre outros.

Júlia retornou ao Caicó, em 1926, e, apesar da desvalorização do magistério pelo abandono dos homens desta profissão, tornando-se professora Júlia pode atuar na vida pública da cidade. De personalidade forte e considerada muito inteligente, culta e elegante, seu comportamento em Caicó era revolucionário: ela vestia roupas que mostravam costas e pernas e usava a cor preta fora do luto. Os cabelos, curtos. A moda era um indício de sua busca pela emancipação feminina.

 

 

Frequentava o Café Comercial, considerado um espaço masculino, e fazia discursos em público. Também dirigia automóvel, um Ford 1929, o que reforçava seu caráter de independência; ia ao Cine-Teatro Avenida, inaugurado em 1925, e, mais tarde, ao Cine Pax, aberto em 1936, e era assídua nos bailes e nas Festas de Sant´Anna, padroeira de Caicó, estando sempre presente na cena cultural e boêmia de sua cidade

Já em 1926, passou a dar aulas particulares na casa de sua irmã, Julieta Medeiros. Neste mesmo ano, assumiu, como interina, a cadeira Infanto-Misto Suplementar, do Grupo Escolar Senador Guerra, sob a direção do Professor Joaquim Coutinho. O Grupo Escolar havia sido criado por decreto em 16 de fevereiro de 1909 e seu nome foi uma homenagem ao padre Francisco de Brito Guerra (1777 – 1845), fundador da Escola de Latim, em 1832, em Caicó, na época Vila do Príncipe. Cerca de um ano depois da inauguração da sede própria do Grupo Escolar, ocorrida em 22 de setembro de 1925, com a presença do governardor José Augusto Bezerra de Medeiros (1884 – 1971), Júlia iniciou suas atividades na escola em 1º de julho de 1926, tendo sido efetivada em 30 de setembro do mesmo ano. Começava ali uma história de dedicação ao magistério, onde ela se destacou por suas práticas pedagógicas em busca de uma sociedade mais igualitária.

 

 

Segundo relatos de ex-alunos, as aulas de Júlia eram divertidas e ela era disciplinadora, afetuosa, dinâmica e enérgica. Usava a Nova Cartilha Analítico-Sintética e a Cartilha Ensino-Rápida de Leitura, ambas do educador paulista Mariano de Oliveira (1869 -19?). Em outubro de 1926, tornou-se 2ª secretária da Associação Educadora Caicoense (O Paiz, 13 de outubro de 1926, quarta coluna).

Sobre Júlia Medeiros:

“Conheço bem de perto a distinta perfilada que, hoje, não escapa à curiosidade de meu lápis. É uma das ilustres filhas desta boa terra, que à vista de seus esforços acaba de conquistar um título com o que muito há de lucrar o magistério do nosso estado. Possuidora de um excelente coração traz sempre um sorriso nos lábios, deixando-nos a impressão de que “A vida é um lago azul. Ela é bastante decidida em suas resoluções, gosta muito de trocar ideias e os seus verdes olhos nos dizem que tem o espírito dado a fantasias”.

                                                                                                                                              Jornal das Moças, 11 de abril de 1926

 

“Risonha e boa, de uma inteligência clara, com um coração que diz bem dos seus invulgares predicados. É uma das criaturas mais simpáticas da nossa elite que a estima na conta de um dos seus mais finos elemento de destaque. Hoje, dedica-se ao magistério e ao Jornal das Moças”. 

                                                                                                                                            Jornal das Moças, 29 de agosto de 1926

 

Erudita e excelente oradora, representava as professoras nas festividades do colégio e estava sempre presente nos eventos em torno de visitas de pessoas importantes à cidade como em agosto de 1926, na ocasião da visita do presidente eleito Washington Luis, à cidade, especificamente ao Educandário Santa Terezinha, organizada por uma de suas irmãs, Otávia Benigna (Diário de Pernambuco, 8 de agosto de 1926, segunda coluna); da feminista e bióloga Bertha Lutz (1894 – 1976), em campanha pelo voto feminino, em agosto de 1928 (O Paiz, 2 de setembro de 1928, última coluna), mesma época em que discursou na inauguração, no Sítio do Arroz, da primeira pista de pouso da cidade, quando aterrissou em Caicó um avião trazendo a bordo o governador do Rio Grande do Norte, Juvenal Lamartine (1874 – 1956); e do presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954), em 1933 (Diário de Pernambuco, 13 de setembro de 1933, segunda coluna). Em outra passagem pela cidade, o governador Lamartine foi de novo saudado por Júlia (Gazeta de Notícias, 29 de setembro de 1929, terceira coluna).

Foi colaboradora, redatora e gerente do Jornal das Moças, que existiu em Caicó de 1926 a 1932. Fundado, em 7 de fevereiro de 1926, por Georgina Pires e inicialmente gerenciado por Dolores Diniz, o jornal pretendia trazer um espírito de modernidade à cidade. Segundo Júlia:

 

“Não me surpreendeu o gesto de minhas dignas conterrâneas, lançando um jornal à apreciação de nosso público, no momento atual, em que o problema do feminismo vem preocupando as camadas sociais. O Jornal das Moças será, portanto, o porta-voz de uma plêiade de jovens que, tratando de desenvolver o seu espírito tão rico de inteligência, ocupe-se, de modo particular, pelo progresso e desenvolvimento de nossa terra”.

Jornal das Moças, 28 de fevereiro de 1926

O Jornal das Moças, responsável pela inserção da mulher no jornalismo em Caicó, também promovia festivais culturais, além de concursos de graciosidade e simpatia. Outros de seus redatores foram Santinha Araújo, Maria Leonor Cavalcante, Julinda Gurgel, Renato Dantas, Janúncio Bezerra da Nóbrega e José Gurgel de Araújo, sob o pseudônimo Flor de Lis.

Começou a publicar artigos de sua autoria no ano de fundação do periódico, 1926. Júlia advogava e representava a conquista do direito à educação para as mulheres e o acesso às letras. Os assuntos mais abordados em seus artigos para o jornal eram sobre modernidade e a mulher na sociedade, religiosidade e fé, e sentimentos como o amor e a solidão. Também reivindicava a participação feminina no jornalismo.

 

“O jornalismo feito por nós viverá, porque para tal lhe foi emprestado o brilho, a tenacidade e a força de vontade desse punhado de conterrâneas, que certamente lhe vão bordar as colunas dos mais agradáveis artiguetes. Agradáveis sim, porque a mulher tem o espírito talhado para fantasias, para o amor e para as coisas de pureza de ideal. De pureza digo bem, porque elas primam por manter de pé essa rara elegância de espírito, essa rara elegância mental, ela, só elas, sabem mais do que todos e sustenta alto, bem alto, esses princípios que lhe dão encanto e formosura na sociedade”.

                                                                                                                                               Jornal das Moças, 8 de julho de 1926

 

Júlia foi a primeira mulher de Caicó a se alistar (O Paiz, 9 de dezembro de 1927, penúltima coluna) e a votar, o que ocorreu nas eleições de 5 de abril de 1928. O sufrágio feminino era uma de suas lutas. Júlia recebeu um telegrama de Bertha Lutz (1894 – 1976), datado de 4 de março de 1928, felicitando-a pelo alistamento e a convidando para tornar-se sócia da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, presidido por ela.

 

votando

Júlia Medeiros votando em 5 de abril de 1928 / Arquivo da Universidade de Brasília – UnB / Essa foto foi publicada no jornal O Paiz, de 4 de novembro de 1928

 

Apesar de, do ponto de vista eleitoral, o estado do Rio Grande do Norte ter reconhecido esta igualdade, faltava, porém, a concretização do “voto de saias”, o que ocorreu nas eleições municipais realizadas no dia 05 de abril de 1928. Em Natal votaram Antônia Fontoura, Carolina Wanderley, Júlia Barbosa e Lourdes Lamartine. Em Mossoró, além de Celina Guimarães, votaram Beatriz Leite e Eliza da Rocha Gurgel. Em Apodi as primeiras eleitoras foram Maria Salomé Diógenes e Hilda Lopes de Oliveira. Em Pau dos Ferros, Carolina Fernandes Negreiros, Clotilde Ramalho, Francisca Dantas e Joana Cacilda Bessa. Ainda em Caicó e Acari, respectivamente, Júlia Medeiros e Martha Medeiros. Além de votar, algumas mulheres, a exemplo de Júlia Alves Barbosa em Natal e Joana Cacilda de Bessa em Pau dos Ferros,  foram também eleitas para o cargo de intendente municipal, equivalente a vereador atualmente.

Centro de Memória do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte

 

O Rio Grande do Norte foi também o primeiro estado no Brasil a eleger uma prefeita mulher: Alzira Teixeira Soriano (1897 – 1963), na cidade de Lages, em setembro de 1928, venceu com 60% dos votos (O Paiz, 1º e 2 de outubro de 1928, penúltima colunaJornal Pequeno, 13 de outubro de 1928, segunda coluna).

Em torno de 1940, Júlia passou a administrar o Hospital do Seridó – inaugurado pelo presidente Washington Luís em 7 de agosto de 1926 -, tendo sido a primeira mulher a atuar  na administração pública de uma instituição de Caicó. Ficou no cargo por volta de quatro anos. Aos 55 anos, afastou-se do Grupo Escolar Senador Guerra e candidatou-se a vereadora nas eleições de 1951. Foi eleita e reeleita para o mandato de 1954-1958. Encerrou sua carreira política e, na época, por estar cansada e doente – com lapsos de memória e indícios de insanidade mental – afastou-se de todas as suas atividades, ficando reclusa em sua casa, na rua de Seridó, 157.

 

 

Em 1960, sua família a transferiu para Natal, onde foi morar na rua da Misericórdia, no bairro da Cidade Alta. Ganhou o apelido de “Rocas-Quintas“.

“Natal, década de 60, em algum lugar entre os bairros das Rocas e Quintas. Garotos se divertem provocando uma senhora trôpega, suja e maltrapilha. Os meninos fazem coro: “Rocas-Quintas”! E ela, com o dedo em riste, revida: “Me respeitem, que eu tive vida importante”! A zombaria continua, e a mulher, que se tornou folclórica por fazer todo santo-dia, a pé, o mesmo itinerário da linha de ônibus Rocas-Quintas (daí o apelido), retoma as passadas ligeiras e nervosas, parando sempre para catar lixo e restos de coisas podres” (Jornal Folha Regional, 19 de junho de 2017)

Faleceu, em 29 de agosto de 1977, no Hospital das Clínicas, de Natal. Em sua certidão de óbito a causa de morte é envenenamento, seguido da interrogação: suicídio? Assim terminava a vida de Júlia de Medeiros, uma vida entre a visibilidade e o anonimato.

 

morte

Certidão de óbito de Júlia Medeiros / 4º Ofício de Notas de Natal (RN)

 

Foi homenageada postumamente dando nome à Escola Profissionalizante Professora Júlia Medeiros, inaugurada em 16 de abril de 1975, na rua Coronel Bem Bem, nº 145, no bairro Paraíba; e também a rua Professora Júlia Medeiros, no centro de Caicó.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Centro de Memória do Tribunal Regional Eleitoral do Rio Grande do Norte

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Jornal Folha Regional

LOBO, Yolanda. Bertha Lutz. Pernambuco : Fundação Joaquim Nabuco, Editora Massangana, 2010.

MELO, Elisângela de Araújo Nogueira; MORAIS, Maria Arisnette Câmara. Contribuição feminina à história da educação no Rio Grande do Norte: Maria Dolores Bezerra Cavalcanti. Departamento de Educação, Universidade Federal do Rio Grande do Norte, 2003

OLIVEIRA, Larissa Constantino Martins de; ARAGÃO, Isabella Ribeiro. Apontamentos históricos sobre material de divulgação e cartelas dos filmes do Ciclo do Recife: A filha do advogado e Aitaré da praiaAnais do 9º Congresso Internacional de Design da Informação | CIDI 2019.

Portal da História do Ceará

Portal Instituto Federal Rio Grande do Norte

ROCHA NETO, Manoel Pereira. A educação da mulher norte-rio-grandense segundo Júlia Medeiros (1920 – 1930). Centro de Ciências Sociais Aplicadas / Programa de Pós-Graduação em Educação : Universidade Federal do Rio Grande Norte, 2005.

ROCHA NETO, Manoel Pereira. Júlia Medeiros – Uma trajetória entre a Educação e a Imprensa no Rio Grande do Norte. Rio Grande do Norte : Infinita Imagem, 2013.

Site CPDOC

Site Curiozzzo.com

Site Mulher 500 anos atrás dos panos

Site Tok de História

SOLANO, Loriany; FAGUNDES, Flaviane; ALVES, Jussara; LOPES, Leyliane; LIMA, Caroline; ROCHA NETO, Manoel Pereira. Júlia Medeiros: uma mulher a frente do seu tempo. Universidade Potiguar, Rio Grande do Norte. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação X Congresso de Ciências da Comunicação na Região Nordeste – São Luis, MA – 12 a 14 de junho de 2008.

 

Leia também os outros artigos da série “Feministas, graças a Deus”:

Série “Feministas, graças a Deus!” I – Elvira Komel, a feminista mineira que passou como um meteoro, publicado em 25 de julho de 2020, de autoria da historiadora Maria Silvia Pereira Lavieri Gomes, do Instituto Moreira Salles, em parceria com Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” II  – Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993), o jequitibá da floresta, publicado em 20 de agosto de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” III  – Bertha Lutz e a campanha pelo voto feminino: Rio Grande do Norte, 1928, publicado em 29 de setembro de 2020, de autoria de Maria do Carmo Rainha, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” IV  – Uma sufragista na metrópole: Maria Prestia (? – 1988), publicado em 29 de outubro de 2020, de autoria de Claudia Heynemann, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” V – Feminista do Amazonas: Maria de Miranda Leão (1887 – 1976), publicado em 26 de novembro de 2020, de autoria de Maria Elizabeth Brêa Monteiro, mestre em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” VII – Almerinda Farias Gama (1899 – 1999), uma das pioneiras do feminismo no Brasil, publicado em 26 de fevereiro de 2021, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VIII – A engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001), publicado em 6 de abril de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” IX – Mariana Coelho (1857 – 1954), a “Beauvoir tupiniquim”, publicado em 15 de junho de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Henrique Rosén (1840 – 1892), um fotógrafo sueco no interior de São Paulo

 

 

A Brasiliana Fotográfica destaca oito imagens produzidas pelo fotógrafo sueco Henrique Rosén (1840 – 1892) para a divulgação publicitária da Olaria, ferraria e oficina mecânica a vapor e água de propriedade de Antônio Carlos Sampaio Peixoto, inaugurada em 2 de dezembro de 1867, em Campinas (Correio Paulistano, 13 de outubro de 1867, primeira coluna; Correio Paulistano, 18 de janeiro de 1868, segunda coluna; Gazeta de Campinas, 1º de dezembro de 1870, primeira coluna; Gazeta de Campinas, 6 de janeiro de 1870, penúltima coluna). No período em que viveu em Campinas, o francês Hercule Florence (1904 – 1879),  inventor de um dos primeiros métodos de fotografia do mundo, também morava na cidade.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Henrique Rosén disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Rosén é considerado um dos mais importantes fotógrafos do interior de São Paulo, no período em que atuou: entre as décadas de 1860 e 1880. Foi, com os franceses Valentin Favreu e Louis Robin e com os brasileiros Militão Augusto de Azevedo (1837 – 1905), Candido Alvares Machado de Vasconcelos e Virgílio Gomes Guimarães, pioneiro da fotografia em São Paulo. Na década de 1860, já atuavam no Brasil os fotógrafos inglês A.W. Osborne (18?-?), o francês Leon Chapelin (18? – ?) e o alemão Alberto Henschel (1827 – 1882), no Recife; o português José Ferreira Guimarães (1841 – 1924) e o brasileiro, filho de franceses, Marc Ferrez (1843 – 1923), no Rio de Janeiro; o português Felipe Augusto Fidanza (c. 1847 – 1903), em Belém; o italiano Luiz Terragno (? – 1891), em Porto Alegre; o inglês Benjamin Mulock (1829 – 1863), em Salvador; o alemão Augusto Riedel (1836 – ?), em Alagoas, Bahia, Minas e Sergipe; e o brasileiro, filho de alemães, Pedro Hees (1841 – 1880), em Petrópolis, dentre outros.

Rosén, foi também um dos precursores do uso do ampliador no Brasil, tendo anunciado, em 1875, possuir uma câmara solar, como era então conhecida esta machina de augmentar retratos (Correio Paulistano, 8 de dezembro de 1875). No período em que permaneceu em Campinas, fez algumas viagens à Europa, da onde trazia o que havia de mais moderno para a arte da fotografia.

 

 

Retratou vários membros da aristocracia brasileira como, por exemplo, o fazendeiro Euclides Egídio de Sousa Aranha (1864 – 1929) e Luiza Jacques de Freitas Vale Aranha, pais do futuro ministro das Relações Exteriores, Oswaldo Aranha (1894 – 1960); e personalidades como o jornalista e político Quintino Bocaiuva (1836 – 1912).

Provavelmente, iniciou sua carreira de fotógrafo no Brasil, em Santos, entre julho e 15 de agosto de 1862.

todos os dias, independente de qualquer tipo, retratos das 8 horas da manhã às 2 da tarde. Durante o tempo de sua estada n’esta trabalhará a preços muito módicos, sendo as suas obras feitas com a maior perfeição e asseio possível; consistem elas em grupos de família, cartões de visita, retratos grandes, ditos pequenos para pulseiras, broches e medalhões, tanto sobre papel e vidro, como sobre encerado; vistas para cartas de 3 a 4$000 etc. As pessoas que quiserem honrá-lo com sua confiança acharão no seu gabinete grande número de amostras e serão servidas a contento“.                                                                              

                                                                                                                        Revista Commercial (Santos), 19 de julho de 1862

 

Voltou à cidade em outras ocasiões, quando montava estúdios provisórios.

Em 1862, transferiu-se para Campinas, na época povoada por fazendeiros abastados e, auxiliado pelo vereador dinamarquês Otto Langaard e pelo dr. Dupfer, conseguiu uma máquina fotográfica e tornou-se fotógrafo ambulante. Neste mesmo ano, um ilustre morador da cidade, o francês Hercule Florence (1804 – 1877), inventor de um dos primeiros métodos de fotografia do mundo, redigiu o manuscrito Les Intérêtes materiéles. Florence e Rosén conheceram o escritor, engenheiro militar e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras, Alfredo d´Escragnolle Taunay (1843 – 1899), na ocasião em que ele esteve em Campinas, em 1865, integrando Corpo Expedicionário em Operação no Sul de Mato Grosso, que atuaria na Guerra do Paraguai.

Rosén fundou, ainda em 1862, um dos pioneiros estabelecimentos fotográficos da cidade, a Photographia Campinense, na rua Direita, nº 28. Mas continuava a viajar por outras cidades de São Paulo como, por exemplo, Rio Claro, onde esteve, em 1866 (Correio Paulistano, 25 de agosto de 1866, segunda coluna). Casou-se com Luzia Rosén, que se tornou sua colaboradora. Em 1868, anunciou o Processo Crozat de fotografia em cores e a venda de retratos de indígenas, de Santos e de outras cidades, além de um grande sortimentos de álbuns, quadros e vistas estereocopos (O Ypiranga, 20 de dezembro de 1868, última coluna). Em 1878, contratou o pintor austríaco Ferdinand (Fernando) Piereck  (1844 – 1925) para trabalhar em seu ateliê fotográfico em Campinas. Ferdinand é o pai do fotógrafo Louis Piereck (1880 – 1931).

 

Chama-se, pois, a atenção das pessoas de bom gosto para as seguintes Especialidades: 1o . Retratos de tamanho natural; 2o . Retratos inalteráveis sobre porcelana (não imitação) coloridos ou em cores, transparentes e duma delicadeza excepcional, próprios para presentes em dias de anos, para o natal e ano bom, etc; 3o . Retratos Boudoir e Promenade há pouco tempo introduzidos em Paris, e muito estimados, próprios para as exmas. senhoras e toilettes elegantes; 4o . Retratos de crianças que são tirados instantaneamente, com a maior facilidade, por uma nova combinação química; 5o . Retratos coloridos a pastel, tamanho grande, reproduzidos de qualquer retrato antigo, por mais estragado que esteja; 6o . Grupos grandes de famílias e sociedades, por mais numerosas que sejam, tendo para isso máquinas de construção especial; 7o . Heliominiaturas, por processos aperfeiçoados; 8o . Vistas fotográficas ou desenhadas ou coloridas a aquarela, de fazendas, chácaras, jardins, etc. Os preços serão ao alcance de todos e com 20 por cento de abatimento para as exmas. famílias que preferirem pagar a vista”.

A Província de São Paulo, 3 de novembro de 1880

 

Em janeiro de 1890, Rosén foi nomeado cônsul do Brasil da Suécia e da Noruega (Relatório do Ministério das Relações Exteriores, 1891Jornal do Brasil, 12 de junho de 1891, primeira coluna). Faleceu em 5 de janeiro de 1892.

 

 

 

 

 

Cronologia de Henrique Rosén (1840 – 1892)

 

1840 – Em Vadstena, na região de Gotalândia, na Suécia, nascimento de Henrik Gustaf Jacob Rosén, em 19 de junho filho de Eric Herman Rosén e Sofia Charlotta Falkman.

1862 – Após ficar entre julho e agosto em Santos, o fotógrafo sueco Henrique Rosén inaugurou, em Campinas, a Photographia Campinense, na rua Direita. nº 28.

1865Em abril de 1865, em meio ao clima outonal, a rica população da Campinas dos Barões de Café, de fazendeiros, de comerciantes e de escravos, foi tomada de surpresa e de êxtase com a chegada aos seus longínguos rincões dos soldados imperiais formando o Corpo Expedicionário em Operação no Sul de Mato Grosso. Acabara de eclodir a Guerra do Paraguai e D. Pedro II criara duas forças para enfrentar Solano López. Os expedicionários atacariam pelo flanco Norte, sob o comando do coronel Manuel Pedro Drago. Durante 66 dias, as tropas permaneceram acampadas no Largo Santa Cruz, hoje no bairro do Cambuí, um local sagrado e profano. E traziam no Corpo de Engenheiros a jovem figura heroica e diverida de Alfredo Maria Adriano d’Escragnolle Taunay – o posterior Visconde de Taunay -, que proclama em seu livro A Retirada de Laguna: “A! Campinas”. Foram 66 dias de festas, banquetes, regabofes, bailes e flertes com as moças campineiras. Uma espécie de antessala no céu, antes da dança no inferno da Laguna!”(Retiro antes de Laguna em Campinas).

Nessa ocasião, Rosén conheceu Alfredo d´Escragnolle Taunay (1843 – 1899), escritor, engenheiro militar e um dos fundadores da Academia Brasileira de Letras que muito o impressionou como o mesmo registrou em suas memórias (Correio Paulistano, 11 de abril de 1865, segunda coluna; O Sete de Setembro, 13 de abril de 1865, primeira coluna; Jornal do Brasil, 28 de setembro de 1948, segunda coluna; Suplemento Literário, 15 de outubro de 1960, quarta coluna). Taunay também conheceu, na ocasião, o inventor francês radicado em Campinas, Hercule Florence.

 

 

1866 – Houve um desmoronamento de uma das paredes da matriz nova de Campinas, que estava em obras. Rosén foi um dos homens que participou dos trabalhos de salvamento de operários que ficaram soterrados (Correio Mercantil, e Instructivo, Político, Universal,  7 de fevereiro de 1866, quarta coluna).

Entre maio e junho, esteve na região do rio da Prata, para onde foi e voltou no paquete inglês Arno. Embarcou e desembarcou no porto do Rio de Janeiro (Correio Mercantile Instructivo, Político, Universal,  7 de maio de 1866, quinta coluna; Correio Mercantile Instructivo, Político, Universal,  4 de junho de 1866, quinta coluna).

Esteve em Rio Claro, cidade do interior de São Paulo e despediu-se agradecendo ao modo generoso e obsequioso que foi recebido e prometendo voltar no próximo ano (Correio Paulistano, 25 de agosto de 1866, segunda coluna).

1867 - Anunciou seus serviços, em Santos, inicialmente em um imóvel alugado na rua de Santo Antônio, 27, e depois no Hotel Millon (Revista Comercial (Santos), 12 de outubro de 1867).

1868 – Anunciou o Processo Crozat de fotografia em cores e a venda de retratos de indígenas, de Santos e de outras cidades, além de um grande sortimentos de álbuns, quadros e vistas estereocopos (O Ypiranga, 20 de dezembro de 1868, última coluna).

1869 – Casou-se, no Brasil, em 30 de janeiro, com a sueca Lovisa Mathilda Ladau.

O fotógrafo Joaquim Feliciano Alves Carneiro (18? – 188?), um dos sócios do estabelecimento Carneiro & Gaspar, no Rio de Janeiro e em São Paulo, percorreu o estado de São Paulo e ficou algum tempo em Campinas, quando Rosén pode conhecer o que se usava de mais moderno em termos de fotografia na capital do Brasil. Uma curiosidade: com a morte do português Gaspar Antonio da Silva Guimarães (18? – 1875) e com a venda da parte de Joaquim Feliciano Alves Carneiro, Militão Augusto de Azevedo (1837 – 1905), autor do “Álbum comparativo da cidade de São Paulo 1862-1887″, que era sócio-gerente da Photographia Academica de Carneiro & Gaspar, em São Paulo, tornou-se seu proprietário. Localizava-se na rua da Imperatriz, 58 (Correio Paulistano, 28 de novembro de 1875, segunda coluna).

Produziu a divulgação publicitária da Olaria, ferraria e oficina mecânica a vapor e água de propriedade de Antônio Carlos Sampaio Peixoto, que a Brasiliana Fotográfica destaca neste artigo. A fábrica havia sido inaugurada em 2 de dezembro de 1867, em Campinas (Correio Paulistano, 13 de outubro de 1867, primeira colunaCorreio Paulistano, 18 de janeiro de 1868, segunda coluna; Gazeta de Campinas, 1º de dezembro de 1870, primeira colunaGazeta de Campinas, 6 de janeiro de 1870, penúltima coluna).

1870 – Anunciou que a especialidade da Photographia Campinense, a mais antiga da província, era o processo novo de Crozat, belíssimos retratos a cores. Tira-se retratos todos os dias mesmo nos chuvosos, às horas do costume. (Gazeta de Campinas, 1º de janeiro de 1870, primeira coluna; Gazeta de Campinas, 27 de fevereiro de 1870, segunda coluna).

 

 

1871 - Anunciou a Photographia Campinense como a mais antiga da província (Gazeta de Campinas, 1º de janeiro de 1871, segunda coluna).

 

 

Foi um dos subscritores da obra humanitária em favor dos franceses vítimas da guerra franco-prussiana (Gazeta de Campinas, 19 de março de 1871, última coluna).

Anunciou a produção de retratos Bombés, novo processo, e também a produção de retratos de cavaleiros montados, em qualquer tamanho, tendo para isso os arranjos necessários (Gazeta de Campinas, 6 de abril de 1871, primeira coluna; Gazeta de Campinas, 31 de agosto de 1871, última coluna).

1872 – O retratista e pintor a óleo J. Stewart, de passagem em Campinas, anunciou que provas de seu trabalho estariam disponíveis na Photographia Campinense. O artista estava hospedado no Hotel Oriental (Gazeta de Campinas, 28 de março de 1872, segunda coluna; Gazeta de Campinas, 2 de maio de 1872, primeira coluna).

Rosén anunciou a chegada da Europa de um bonito sortimento de tudo o que pertence à arte fotográfica a seu estabelecimento. Chamava atenção para os retratos em cartão Victoria (Gazeta de Campinas, 19 de maio de 1872, segunda coluna).

 

 

Reproduziu em cartão o retrato a óleo de Joaquim Saldanha Marinho (1816 – 1895), que havia sido governador de São Paulo. O trabalho foi feito pelo sistema mezzo-tinto (Gazeta de Campinas, 15 de setembro de 1872, primeira coluna).

Anunciou uma grande redução nos preços de retratos. Destacava que os processos Victoria e Mezzo-Tinto só eram realizados, em Campinas, no seu estabelecimento  (Gazeta de Campinas, 8 de dezembro de 1872, segunda coluna).  

1873 - Publicou uma mensagem do Consulado Geral da Suécia e da Noruega no Rio de Janeiro: havia sido comissionado para receber de todos os suecos e noruegueses que vivessem em Campinas e em suas redondezas uma declaração de submissão ao rei Oscar II (1829 – 1907), que havia iniciado seu reinado em setembro de 1872. Para tal, dispunha de formulários (Gazeta de Campinas, 10 de janeiro de 1873).

 

 

Foi elogiado por sua inteligência e critério profissionais (Gazeta de Campinas, 1º de novembro de 1873, última coluna).

 

 

1875 – Anunciou que devido aos melhoramentos no salão de vidro da Photographia Campinense seriam tirados retratos das 7 horas da manhã às 5 horas da tarde, sendo preferíveis os dias cobertos e chuvosos. Anunciou também a filial do ateliê em São João do Rio Claro, na rua do Commercio, 20 (Gazeta de Campinas, 6 de janeiro de 1875).

Declarou que não tinha nenhuma dívida e que não se responsabilizaria por nenhuma compra feita em seu nome. Pedia que quem se considerasse seu credor se apresentasse a ele até 15 de maio (Gazeta de Campinas, 9 de maio de 1875, última coluna).

Chegou ao Rio de Janeiro, vindo de Santos, no paquete a vapor Conde d´Eu (Jornal do Commercio, 23 de maio de 1875, última coluna). Foi anunciada sua partida e também a de Augusta Florence (1859 – ?), filha do francês Hercule Florence (1804 – 1877), inventor de um dos primeiros métodos de fotografia do mundo – que morava em Campinas desde 1829 – e da alemã Carolina Krug (1828 – 1913), para a Europa. Ela iria aperfeiçoar seus estudos na Alemanha (Gazeta de Campinas, 27 de maio de 1875, penúltima coluna).

A Photographia Campinense anunciava a venda de vistas lindíssimas da cidade (Gazeta de Campinas, 1º de agosto de 1875, segunda coluna).

Retornou da Europa no paquete inglês Mondego (O Globo, 20 de novembro de 1875, última coluna). Anunciou que que havia estudados os principais estabelecimentos fotográfico de Londres, Paris e Berlim e que estava prestes a receber “grande sortimento de tudo que pertence à minha arte“. Informava também ter comprado o processo Lambertypie, que produzia “retratos grandes, sem retoques, de um efeito belíssimo” e mencionava todas as técnicas de que dispunha seu ateliê. Outra novidade foi a aquisição de uma câmara solar, como era então conhecida a “machina de augmentar retratos”, que o tornou pioneiro nessa técnica no Brasil. Seu ateliê ficava na rua Direita, nº 50 e possuia numerosas galerias abertas à visitação. Chamava atenção para o fato de que algumas técnicas de que seu ateliê dispunha não haviam sido introduzidas disponíveis na capital do Império. (Correio Paulistano, 8 de dezembro de 1875Almanach Litterario Paulista para 1876, 1875).

 

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1876 – Contratou seu irmão, Carlos Rosén, como auxiliar de seu ateliê.

1878 –  Contratou o pintor austríaco Ferdinand (Fernando) Piereck  (1844 – 1925) para trabalhar em seu ateliê fotográfico em Campinas. Ferdinand é o pai do fotógrafo Louis Piereck (1880 – 1931).

Chegou ao Rio de Janeiro, com sua mulher, Luiza, no vapor alemão Santos (O Cruzeiro, 28 de julho de 1878, terceira coluna).

1879 – O prussiano Jacques Vigier (1839 – ?), que havia chegado no Brasil em 1861, foi  sócio de Rosén, entre esse ano e 1880, quando fundou a Photographia de Jacques Vigier, na mesma rua Direita onde ficava o estabelecimento de Rosén.

1880 – Informava que havia chegado da Europa há pouco tempo. No anúncio, seu estabelecimento ficava na rua Direita, 48, e tinha o nome de Photographia Campineira. O “retrato em tamanho natural” continuava sendo uma das atrações e Rosén também oferecia tecnologia para retratos coletivos e de crianças, além de Retratos Boudoir e Promenade, há pouco introduzidos em Paris, o que conferia a seu estabelecimento uma aura de elegância e modernidade. Prometia a partir da foto-pintura, “retratos coloridos a pastel, tamanho grande, reproduzidos de qualquer retrato antigo, por mais estragado que esteja” (Almanach Campinense, 1880). No mesmo local, Rosén vendia pianos fabricados para o clima do Brasil (Almanach Campinense, 1880).

 

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1881 – Rosén  tornou-se sócio de B. Munchs.

Expôs na Casa Garraux, em São Paulo, uma coleção de retratos da atriz Lucinda (Correio Paulistano, 15 de novembro de 1881, última coluna).

1882 – A Fotografia Campineira abriu uma filial em Santos, nas instalações do estúdio do fotógrado Augusto Pinto de Oliveira (18? – ?) (Diário de Santos, 16 de abril de 1882; Diário de Santos, 7 de maio de 1882). Meses depois, em um anúncio, Rosén agradecia às “as pessoas que honraram com a sua confiança” a permanência de um representante seu na cidade, acrescentando que esperava que “sua volta no próximo ano” tivesse “a mesma aceitação” (Diário de Santos, 5 de setembro de 1882). Uma curiosidade: havia na cidade a chapelaria de Friederich Hempel, cuja vitrine era disputada pelos fotógrafos, dentre eles, Rosén (Diário de Santos, 13 de maio de 1882).

1883 -  B. Munchs foi sucedido pelo alemão Julius Nickelsen na sociedade com Henrique Rosén. Nickelsen havia trabalhado na casa Henschel & Benque, no Rio de Janeiro, entre 1878 e 1883.

 

 

1884 – Nickelsen e o português Bernardino Francisco Ferreira compraram a Photographia Campineira de Rosén e mudaram o nome do estabelecimento para Photographia Campinense. Bernardino havia trabalhado como funcionário do ateliê do fotógrafo açoriano Christiano Junior (1832 – 1902) – entre 1866 e 1870 – e também de Henschel & Benque – entre 1870 e 1884 -, ambos no Rio de Janeiro.

1890 - Em janeiro, Rosén foi nomeado cônsul do Brasil da Suécia e da Noruega e passou a residir em Estocolmo (Relatório do Ministério das Relações Exteriores, 1891Jornal do Brasil, 12 de junho de 1891, primeira coluna). A nomeação deveu-se, provavelmente, ao relacionamento de Rosén com dois campineiros que faziam parte do governo de Deodoro da Fonseca: o ministro da Justiça, Campos Salles (1841 – 1913); e o ministro da Agricultura, Francisco Glicério Cerqueira Leite (1846 – 1916) (Jornal do Brasil, 12 de junho de 1891, primeira coluna).

1891 –  Informou ao ministro da Agricultura que o número de imigrantes da Suécia para o Brasil seria avultado, a seu ver, devido à decisão do governo brasileiro de lhes dar passagens gratuitas  (O Tempo, 22 de maio de 1891, sexta coluna; Jornal do Brasil, 12 de junho de 1891, primeira coluna).

1892 – Falecimento de Rosén, em 5 de janeiro. No mesmo ano, sua mulher, Lovisa Mathilda Ladau, também faleceu.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Enciclopédia Itaú Cultural

FERREIRA, Dirceu Franco. Narrando viagens e invenções. Hercule Florence: amigo das artes na periferia do capitalismo. São Paulo : Anais do Museu Paulista: História e Cultura Material, volume 2, julho/dezembro 2014.

FERREZ, Gilberto. A Fotografia no Brasil: 1840-1900 / Gilberto Ferrez; [prefácio por Pedro Vasquez] – 2ª ed. – Rio de Janeiro: FUNARTE: Fundação Nacional Pró-Memória, 1985.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

TAUNAY, Afonso d’Escragnolle. Mémorias de Hércules Florence, in Jornal do Commercio, Rio de Janeiro, 20 janeiro 1946.

KOUTSOUKOS,Sandra Sofia Machado. No estúdio do fotógrafo: representação e autorepresentação de negros livres, forros e escravos no Brasil da segunda metade do século XIX. / Sandra Sofia Machado Koutsoukos . – Campinas, SP: [s.n.], 2006.

LAPA, José Roberto do Amaral Lapa. A cidade: os cantos e os antros : Campinas, 1850-1900. São Paulo ; Editora da Universidade de São Paulo, 1996.

REY, Luis Roberto Saviani. Retiro antes de Laguna em Campinas. Campinas : Ponte Editores, 2013.

Site Fundação Getúlio Vargas

Site Novo Milênio

TURAZZI, Maria Inez. Poses e trejeitos: a fotografia e as exposições na era do espetáculo: 1839/1889. Prefácio Pedro Karp Vasquez. Rio de Janeiro: Funarte. Rocco, 1995. 309 p., il. p&b. (Coleção Luz & Reflexão, 4). ISBN 85-85781-08-4.

 

A fotografia abaixo foi um dos fatores que motivou Marco Aurélio de Camargo Marques a pesquisar a genealogia de sua família. Nela, está retratado seu bisavô, Eulalio Augusto Alves de Camargo (1864 – 1940). Marco Aurélio contribuiu para esse artigo com algumas informações biográficas de Rósen: data exata e local de seu nascimento, data de seu casamento e nome completo da cônjuge. A Brasiliana Fotográfica agradece, publica e credita sua colaboração. *

 

Retrato produzido por Henrique Rósen, 1882.  Campinas, SP

Henrique Rósen. Eulalio Augusto Alves de Camargo (sentado) ao lado do cunhado João Franco Bueno, 1882. Campinas, SP

 

* Esse parágrafo foi inserido em 6 de julho de 2021.

Série “Feministas, graças a Deus!” IV – Uma sufragista na metrópole: Maria Prestia (? – 1988)

Série “Feministas, graças a Deus!” IV – Uma sufragista na metrópole: Maria Prestia (? – 1988)

 

No quarto artigo da Série “Feministas, graças a Deus!”, Claudia Beatriz Heynemann, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, escreveu sobre a feminista Maria Prestia (? – 1988) e sobre o próprio movimento feminista no Brasil. Além disso, abordou a questão da circulação dos retratos, “um aspecto frequentemente negligenciado na reflexão teórica sobre a fotografia, em detrimento das análises sobre o modo de representação tecnológico que a fotografia introduziu e, portanto, sobre o lugar do referente na fotografia, esse vínculo de indexação que ela mantém com o objeto“.

 

 

Uma sufragista na metrópole: Maria Prestia

Claudia Beatriz Heynemann*

 

 

No início do século XX o endereço da Santa Ifigênia em São Paulo era conhecido por seu comércio sofisticado, no qual predominavam lojas de chapéus, peles e tecidos, frequentado pelas famílias do bairro Campos Elísios. Nessa área central, onde inicialmente se instalaram os cafeicultores enriquecidos, funcionava o ateliê Photo Skarke, de propriedade de Hugo Skarke (1898 – 197?) [1] cujo fundador, Fernando Skarke (1858 – 1935), foi, possivelmente, o único na província de São Paulo a ser distinguido com o título de fotógrafo da Casa Imperial em 1886, funcionando em Piracicaba [2] e posteriormente em Santos.

Esses fundos e cenários, com opções de mobiliário e outros acessórios, tão comuns no século XIX, continuaram em voga no início do XX. Por trás do busto recortado em oval de Maria Prestia,  [3]  distingue-se uma paisagem que envolve a sua face compenetrada. No retrato de Maria Prestia, o Photo Skarke empregou o recurso da colorização, criada por André Adolphe Eugène Disdéri, também responsável pela invenção das carte de visite, por volta de 1863 e que pode ser encontrado no Brasil pouco tempo depois. Bastante disseminada no país, apesar das críticas recebidas, a fotopintura “fornecia um ar aristocrático à fotografia, aproximando-a dos quadros pintados a óleo”  [4]  O gênero iria se perpetuar por muitas décadas da primeira metade do século XX em retratos de família, chegando ao gosto popular. Contudo, nesse momento da virada da década dos anos 1920, a técnica parece indicar uma escolha refinada, aplicada para realçar as joias e o batom, em uma fotografia que apresentava sua titular ao meio profissional e político em que circulava.

O retrato de Maria Prestia, possivelmente enviado para sua amiga Bertha Lutz pelo correio, produz sua presença no evento em que faltaria, mas não interrompe ali a sua trajetória. Uma legenda em inglês a identifica como líder de um minoritário grupo de feministas de S. Paulo, e aponta para o caráter internacional do movimento sufragista. Atesta da mesma forma a sua passagem a documento público com todos os deslocamentos que o arquivo promove, em uma primeira inflexão, considerando-se que integra o fundo Federação para o Progresso Feminino sob a custódia do Arquivo Nacional. De natureza privada, esse conjunto dialoga com o universo documental da Instituição, predominantemente público, interpelando as esferas de ação política e comportamento daquelas primeiras décadas do século XX.

A circulação do retrato, evidenciada nesse exemplar, é um aspecto frequentemente negligenciado na reflexão teórica sobre a fotografia, em detrimento das análises sobre o modo de representação tecnológico que a fotografia introduziu, e, portanto, sobre o lugar do referente na fotografia, esse vínculo de indexação que ela mantém com o objeto. No entanto, não se deve esquecer outra característica, a separação entre imagem fotográfica e referente, na perspectiva da circulação, quando as fotografias ganham uma mobilidade que seu referente nunca possuiu e circulam em espaço e tempo separados, como sintetiza Tom Gunning. [5] Assim é que a fotografia é um índice da modernidade, compartilhando com a moeda e o capitalismo a possibilidade de transformar objetos em simulacros transportáveis, um equivalente universal. A partir das carte de visite sobretudo, as imagens fotográficas, em formatos cada vez mais intercambiáveis e passíveis de serem colecionados, transitam do estúdio às vitrines, aos álbuns, às famílias, aos arquivos e às redações dos jornais.

O retrato que acompanha a correspondência vinha emoldurado em generoso passe-partout onde caberia a dedicatória “À distinta amiga Bertha Lutz, o meu apoio à grande causa. S. Paulo, 19/6/1931”. A data coincide com a da abertura do II Congresso Internacional Feminista no Rio de Janeiro, que contou com a presença do presidente Getúlio Vargas no salão do Automóvel Club do Brasil e ao qual Prestia deveria comparecer. O Diário de Notícias, [6] assim como outros jornais, deu espaço ao encontro que durou mais de dez dias e incluiu uma série de passeios e visitas a pontos turísticos da capital, teatros e instituições tradicionais como o Instituto Histórico Geográfico Brasileiro. Ela era representante da filial da Federação em S. Paulo, inserção recente como se pode acompanhar pela correspondência oficial da FBPF que cita o cartão enviado por Maria Prestia, no qual havia se pronunciado “em prol dos nossos ideais, nos meios femininos dessa capital”, formulando votos pelo sucesso da causa. Na mesma carta ela é convidada a participar do “Congresso Feminista” [7], embora não fosse ainda filiada aos quadros da Federação conforme correspondência posterior ao congresso, de 27 de agosto de 1931, quando é ressaltada a sua “simpatia” pela causa feminista [8]

A “causa feminista” a que se referem nesses documentos foi, como é característico nos movimentos identitários, um território de disputas atravessado por uma série de outras condições, a principal delas a das classes sociais, dos movimentos de trabalhadores, das tendências políticas. Apesar disso a atuação da FBPF e de Bertha Lutz domina a narrativa consolidada sobre os movimentos das mulheres brasileiras, encobrindo um cenário bastante mais fragmentado, como alerta Mª Margareth Lopes:

“Em suas múltiplas faces, a diversidade dos feminismos brasileiros incluía mulheres que partilhavam concepções conflitantes de feminismos, de conotações ideológicas e prioridades variadas, diferentes credos religiosos ou nenhum; diversas opções políticas, teóricas, regionais, partidárias. Tais mulheres repensaram as relações de gênero no país, inseridas em maior ou menor grau em um contexto internacional de movimentos feministas, sufragistas, modernistas, cientificistas, pacifistas, anarquistas, comunistas, de reivindicações e lutas por diretos das mulheres”. [9]

Não são essas as diferenças assinaladas na correspondência de Maria para Bertha, acerca do Congresso Feminista no Rio de Janeiro. Em carta de 3 de junho ela se desculpa pelo silêncio e conta ter estado muito doente, mas, uma vez recuperada, iria “colaborar para que S. Paulo possa apresentar uma prova real do trabalho operoso de suas mulheres”. Menciona em seguida ter consigo “uma amiga de ideal, a escritora Lila Escobar de Camargo”, uma possível militante. Trata-se aqui de uma referência significativa; autora de Caracteres femininos, de 1920, Camargo era ligada ainda à escritora Albertina Bertha, membro de organizações como a Associação da Mulher Brasileira, uma leitora de Nietzsche, conhecida por seus livros centrados em personagens femininos. Da mesma forma que Albertina, de quem Tristão de Athayde diria tender “a um delírio da individualidade”, Lila Escobar retratava, para o crítico, o “artifício requintado das cidades no interior das quais ganharia cada vez mais espaço a afirmação das individualidades femininas”. [10]

Qualquer que fosse a avaliação de Athayde, podemos entrever por essa descrição da escritora Lila Escobar, algo da identidade feminina de Prestia, suas afinidades, bem como de sua sociabilidade em um ambiente literário, intelectual, indo além dos círculos da assistência social nos quais iria se sobressair. Seu espaço na grande imprensa paulista foi conquistado como presidente da Federação Internacional Feminina, com representação na Praça da Sé, entidade que tinha como objetivo central a “assistência à mulher e à criança”. Prestia recebeu atenção nos jornais, no ano seguinte ao congresso feminista, durante a Revolução constitucionalista de 1932, quando não teria relegado o “soldado que na trincheira luta e morre por São Paulo”. A diretoria da Federação criou o Curso de Enfermagem, a Casa do Trabalho, a Casa da Criança e os “bilhetes para eles”. [11]. Logo no ano seguinte, finda a Revolução, é a Casa da Criança que recebe a atenção do Correio de São Paulo, que ouviu a presidente e a secretaria da Federação sobre o que consideraram “o testemunho inegável do espírito filantrópico da sociedade paulista”. Em suas declarações Maria Prestia assegurou que no amparo à infância, a federação, voltada à família paulista, as educaria “de acordo com os preceitos da pedagogia moderna, tendo paralelamente ao ensino a higiene que não faltará a esta casa. Além do ensino primário ministraremos o ensino religioso, o amor pelo trabalho, fazendo-as aprender desde o trabalho agrícola até o Industrial e tudo, afinal, que as torna capazes de engrandecer com o seu concurso a nossa amada pátria.” [12]

Esses enunciados jogam luz sobre o perfil político do movimento encabeçado pela FBPF, eminentemente sufragista, mas não só, que em análises mais tradicionais representaria, assim, uma primeira onda do feminismo no Brasil. A Federação operaria apartada das lutas sindicais, lutando exclusivamente pelo direito ao voto e pelos direitos civis,  não atendia a muitas trabalhadoras e intelectuais que não se reconheciam em Bertha e suas seguidoras. Não encontrava acolhida por exemplo junto às comunistas que iriam fundar a União Feminina do Brasil. O conflito de classes e as diferentes condições de vida das mulheres trabalhadoras não parecia ecoar nas preocupações e estratégias da Federação. Ainda hoje, diz Glaucia Fraccaro, procura-se “compreender como um movimento desse caráter pretendia lutar pelos direitos das mulheres sem alterar os direitos dos homens, atuando por dentro das instituições governamentais”. A explicação encontrada, não satisfatória para essa autora, varia entre tratá-las como um “feminismo difuso”, ou ainda como um “feminismo tático” [13].

Em 26 de junho, ainda no decorrer do II Congresso Internacional Feminista, Maria Prestia informa a Bertha Lutz que não poderia comparecer, enviando uma representante em seu lugar e recomenda destaque ao relatório que havia produzido. Mesmo que considerando o documento incompleto, ela pondera ter percorrido todas as repartições onde os diretores seriam favoráveis ao feminismo – “a semente que florescerá em breve”, acrescentando que “as moças funcionárias, dizem que são contra o feminismo pois elas pensam erradamente, não tem noção do verdadeiro feminismo”, sem que o defina, refletindo sobre o obstáculo representado por um “certo egoísmo entre as mulheres”. Conclui contando ter recebido “insistentes convites para visitar fábricas e instituições onde há interesses femininos. Por falta de tempo, só visitei algumas e mais tarde atendendo aos inúmeros pedidos irei trabalhando. Farei o que for possível. Aqui em S. Paulo a mulher já venceu naturalmente, ela ocupa lugares importantes, falta-lhes agora saber compreender sua missão de amparar e proteger” [14]

O ativismo de Prestia movia-se entre o apoio resoluto à “grande causa” e o que aparenta ser um distanciamento em relação aos “interesses femininos” que ela poderia encontrar nas fábricas, uma suposição da “vitória” das mulheres paulistas e de seu poder exercido em S. Paulo, “onde os homens são governados suavemente pelas mulheres”. A despeito dessas crenças, que em si já seriam portadoras de um juízo conservador sobre as mulheres, Prestia faz parte da história das lutas feministas, devendo-se lembrar que a Federação acabaria por endossar reivindicações que incluíam as trabalhadoras como a pauta da equiparação dos salários entre homens e mulheres. De seu retrato, alinhado aos cânones da fotografia de estúdio e de seus padrões femininos, a filha do imigrante italiano ressurge nas páginas da memória de Zelia Gattai, e figura, assim, contestadora e militante no que é também a sua experiência urbana:

“Berta Lutz, por essa época, conclamava as mulheres à luta pela emancipação feminina. Mamãe e Wanda haviam recebido uma visita de Maria Préstia, filha mais velha de uma família italiana numerosa, habitante antiga do bairro, convidando-as a tomar parte em manifestação feminista. Maria Préstia era exaltada discípula de Berta Lutz, mas parece que não conseguiu nada lá em casa”. [15]

 

[1] Almanak Laemmert : Administrativo, Mercantil e Industrial (RJ) – 1891 a 1940. Ano 1931, vol. II, p. 664.
Disponível em

http://memoria.bn.br/docreader/DocReader.aspx?bib=313394&pesq=skarke&pagfis=36563

[2] KOSSOY, Boris. Dicionário Histórico-Fotográfico Brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: IMS, 2002, p.296

[3] Retrato de Maria Prestia. Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Arquivo Nacional. BR_RJANRIO_Q0_ADM_CPA_VFE_FOT_0024_d0001de0001.

[4] MAUAD, Ana Maria. Imagem e autoimagem do Segundo Reinado. In: ALENCASTRO, Luiz Felipe de (Org). História da vida privada no Brasil: Império. São Paulo: Companhia das Letras, 1997, p. 194.

[5] GUNNING, Tom. O retrato do corpo humano: a fotografia, os detetives e os primórdios do cinema. In: CHARNEY, Leo, SCHWARTZ, Vanessa R. (Orgs.). O cinema e a invenção da vida moderna. São Paulo: Cosac & Naify, 2001

[6] Instala-se hoje o segundo congresso internacional Feminista. Diário de Notícias. 20/6/31. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=093718_01&pasta=ano%20193&pesq=%22Congresso%20Internacional%20Feminista%22&pagfis=5890

[7] Correspondência entre a FBPF e Maria Prestia. Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Arquivo Nacional. Rio de Janeiro, 18 de abril de 1931. OOAdm Cor A931.54, p.138.

[8] Correspondência entre a FBPF e Maria Prestia. Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Arquivo Nacional. Rio de Janeiro, 27 de agosto de 1931. OOAdm Cor A931.54, p.186

[9] LOPES, Maria Margaret. Proeminência na mídia, reputação em ciências: a construção de uma feminista paradigmática e cientista normal no Museu Nacional do Rio de Janeiro. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.15, supl., p.73-95, jun. 2008. Disponível em https://www.scielo.br/pdf/hcsm/v15s0/04.pdf

[10] TOLENTINO, Thiago Lenine Tito. Do ceticismo aos extremos: cultura intelectual brasileira nos escritos de Tristão de Athayde (1916-1928). Tese (doutorado) – Universidade Federal de Minas Gerais, Faculdade de Filosofia e Ciências Humanas, 2016, p. 221. Disponível em https://repositorio.ufmg.br/handle/1843/BUOS-AQ8PMU

[11] Na Federação Internacional Feminina foram inscritas as primeiras madrinhas dos órfãos da revolução constitucionalista. Diário Nacional – 17/8/1932. Disponível em http://memoria.bn.br/DocReader/docreader.aspx?bib=213829&pesq=Federa%C3%A7%C3%A3o%20Feminina%20Internacional&pagfis=15759

[12] Uma agradável visita à Casa da Criança. Correio de São Paulo. 8/6/1933. Disponível em: http://memoria.bn.br/DocReader/DocReader.aspx?bib=720216&Pesq=Federa%c3%a7%c3%a3o%20Feminina%20Internacional&pagfis=1773

[13] FRACCARO, Glaucia Cristina Candian. Uma história social do feminismo – Diálogos de um campo político brasileiro (1917-1937). Estudos Históricos. Rio de Janeiro, vol. 31, nº 63, p. 7-26, janeiro-abril 2018, p. 10. Disponível em http://bibliotecadigital.fgv.br/ojs/index.php/reh/article/view/71642

[14] Carta de Maria Prestia a Bertha Lutz. São Paulo, 26 de junho de 1931. Federação Brasileira para o Progresso Feminino. Arquivo Nacional. BR_RJANRIO_Q0_ADM_COR_A931_0086_d0001de0001, p. 4.

[15] GATTAI, Zelia. Anarquistas, graças a Deus. Ed. Record, 1979, p. 245.

 

*Claudia Beatriz Heynemann é Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

 

Leia também os outros artigos da série “Feministas, graças a Deus”:

Série “Feministas, graças a Deus!” I – Elvira Komel, a feminista mineira que passou como um meteoro, publicado em 25 de julho de 2020, de autoria da historiadora Maria Silvia Pereira Lavieri Gomes, do Instituto Moreira Salles, em parceria com Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” II  – Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993), o jequitibá da floresta, publicado em 20 de agosto de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” III  – Bertha Lutz e a campanha pelo voto feminino: Rio Grande do Norte, 1928, publicado em 29 de setembro de 2020, de autoria de Maria do Carmo Rainha, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” V – Feminista do Amazonas: Maria de Miranda Leão (1887 – 1976), publicado em 26 de novembro de 2020, de autoria de Maria Elizabeth Brêa Monteiro, mestre em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” VI – Júlia Augusta de Medeiros (1896 – 1972) fotografada por Louis Piereck (1880 – 1931), publicado em 9 de dezembro de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VII – Almerinda Farias Gama (1899 – 1999), uma das pioneiras do feminismo no Brasil, publicado em 26 de fevereiro de 2021, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VIII – A engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001), publicado em 6 de abril de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” IX – Mariana Coelho (1857 – 1954), a “Beauvoir tupiniquim”, publicado em 15 de junho de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” III – Bertha Lutz (1894 – 1976) e sua luta pelo voto feminino

Série “Feministas, graças a Deus!” III – Bertha Lutz (1894 – 1976) 

 

O terceiro artigo da série “Feministas, graças a Deus”, Bertha Lutz e a campanha pelo voto feminino: Rio Grande do Norte, 1928 é de autoria da historiadora Maria do Carmo Rainho, do Arquivo Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica. Bertha Lutz (1894 – 1976) foi a fundadora da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, em 1922, iniciativa vinculada ao movimento sufragista internacional, principal tendência do feminismo no início do século XX. As outras reivindicações eram de igualdade entre os sexos e de independência da mulher. Em 1932, Bertha foi uma das duas mulheres nomeadas para integrar a comissão para elaborar o ante-projeto da nova Constituição – a outra foi a advogada Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993) – tema do segundo artigo da série do portal. Em 1936, Bertha assumiu o mandato de deputada na Câmara Federal. Sempre ocupou importantes cargos públicos, dentre eles a chefia do setor de Botânica do Museu Nacional, cargo no qual se aposentou em 1964. Sua vida sempre esteve ligada à ciência e à luta pela emancipação da mulher. Nasceu em São Paulo, no dia 2 de agosto de 1894, filha da enfermeira inglesa Amy Marie Gertrude Fowler (1869 – 1922 ) e do cientista e pioneiro da Medicina Tropical, Adolpho Lutz (1855 – 1940).

 

 

 Bertha Lutz e a campanha pelo voto feminino: Rio Grande do Norte, 1928

Maria do Carmo Rainho*

 

O acervo da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, custodiado pelo Arquivo Nacional, foi constituído a partir de doações realizadas entre 1976 e 1986. Contemplando 25 metros lineares de documentos textuais e 537 itens iconográficos, dentre estes, 478 fotografias produzidas nas décadas de 1910-1970, o fundo privado conserva também cartazes, cartões-postais, desenhos e gravuras. Conjunto expressivo de fotografias registra eventos nacionais e internacionais promovidos pela Federação ou com a participação de Bertha Lutz e integrantes da entidade, como o I Congresso Internacional Feminista (Rio de Janeiro, 1922) e o IX Congresso da Aliança Internacional pelo Sufrágio Feminino (Roma, 1923). Registros de cerimônias públicas; audiências com autoridades; almoços, jantares, recepções, além de retratos variados (políticos, feministas do Brasil e do exterior) também se destacam. Para este artigo foram selecionadas algumas das fotografias que registram a movimentação em torno do sufrágio feminino no Rio Grande do Norte, a partir de 1927; a atuação de Juvenal Lamartine nesse sentido e, a viagem de Bertha Lutz àquele estado em 1928, em campanha pelo alistamento das mulheres.

 

Acessando o link para as fotografias de Bertha Lutz disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Conforme observa June Hahner, “a campanha sufragista no Brasil nunca se tornou um movimento de massas – existem poucos destes na história do Brasil -, mas, apesar disso, teve o mérito de se caracterizar por sua excelente organização, bem maior do que a da maioria dos movimentos semelhantes que a seguiram na América Latina.”(1) Essa organização se deve, em grande parte, a Bertha Lutz, por ter fundado, em 1919, a Liga para a Emancipação Intelectual da Mulher- LEIM, precursora da Federação Brasileira pelo Progresso Feminino – FBPF, de 1922; pelo modo como constituiu as entidades e articulou suas integrantes; e, sobretudo, pelas estratégias utilizadas na busca pela extensão do direito do voto às mulheres.

Estratégicas também foram a preservação e a organização dos documentos da Liga e da Federação, que somados ao amplo material publicado pela imprensa referente às campanhas pelo sufrágio feminino nos anos 1920, nos possibilitam traçar uma parte importante da trajetória de Bertha Lutz, por meio da análise das relações que ela vai construindo e de como atua no espaço social.

Nosso ponto de partida foram as fotografias referentes à viagem que Bertha empreendeu ao Rio Grande do Norte, nos meses de julho e agosto de 1928, em campanha pelo alistamento, após a aprovação do voto feminino naquele estado, em 1927. Somam-se a elas registros das primeiras eleitoras e das primeiras eleitas, e dos eventos, muitos deles, relacionados a Juvenal Lamartine, político potiguar que desde o início da década se dedicou à causa. As fotografias nos levaram à documentação textual do fundo FBPF e às matérias publicadas pela imprensa, dando a ver o alcance da campanha de alistamento, o protagonismo de Bertha Lutz no processo e as conexões que a uniam a Lamartine, então governador do estado.

Esses documentos também possibilitaram analisar as estratégias empregadas por ela, aquilo que Celi Pinto qualificou de “feminismo bem comportado”(2) ; o “bom feminismo”, conforme a própria Bertha, ou, a nosso juízo, o feminismo pragmático, que, no lugar do confronto visando expor as desigualdades de gênero – tática utilizada por Leolinda Daltro – preferia se associar a lideranças masculinas que defendiam o voto das mulheres, como Lamartine, Justo Chermont, Adolfo Gordo e Maurício de Lacerda, entre outros.

Em 1921, a LEIM inaugurou a prática de enviar cartas e telegramas aos deputados solicitando a atenção a projetos que possibilitassem às mulheres o direito ao voto; cópias dessas correspondências eram encaminhadas também à imprensa. Naquele ano, Bertha Lutz entrou em contato pela primeira vez com Lamartine, deputado federal pelo Rio Grande do Norte desde 1906, e este lhe prometeu “destacar a emenda sobre o voto feminino do projeto de reforma eleitoral, para que ele próprio desse parecer.”(3) No entanto, após o adiamento da votação, em novembro de 1921, um novo projeto foi apresentado na Câmara dos Deputados, permitindo o alistamento eleitoral de mulheres com mais de 21 anos, as quais poderiam também ser votadas. Integrante da Comissão de Constituição e Justiça e relator do projeto, Juvenal Lamartine expressou vivamente o seu apoio à causa das mulheres, em texto embasado, no qual elencava as conquistas femininas no século XX e os países nos quais elas já podiam votar(4).

 

 

A partir de então, ele participa de reuniões e eventos da Federação e torna-se alvo frequente de suas homenagens.(5) De fato, o apoio a Juvenal Lamartine ganhou corpo quando, em sua plataforma para o governo do Rio Grande do Norte, em 1927, ele incluiu o voto feminino. E mais ainda, logo após a sua eleição, ao enviar telegrama ao então governador, José Augusto Bezerra de Medeiros, para que constasse na Lei que regulava o serviço eleitoral que poderiam “votar e ser votados, sem distinção de sexo, todos os cidadãos que reunirem as condições exigidas”(6).

A relação entre Bertha e Juvenal era simétrica e de mão dupla: ao mesmo tempo em que recebia o apoio dele em sua campanha pelo sufrágio feminino, ela colaborava para a construção da imagem pública de Lamartine como um governante moderno, associado a pautas progressistas. Pesquisando-se os jornais do ano de 1927 e 1928 é possível perceber o espaço que ele ocupava nas matérias que tratavam especificamente do voto feminino e da Federação de modo geral. Bertha também se encarregava de citá-lo constantemente na coluna “Feminismo”, publicada pelo jornal O Paiz, redigida juntamente com Orminda Bastos. A relação entre eles é tão estreita e o nome de Lamartine tão associado ao voto feminino que Bertha, convidada a enviar material para a exposição “A mulher, o movimento feminista e a imprensa”, realizada na Alemanha, em abril de 1928, encaminha um quadro dedicado ao Rio Grande do Norte, incluindo foto de Lamartine, do eleitorado feminino, e da primeira eleitora daquele estado, a professora de matemática Júlia Barbosa.(7) Esta será uma figura importante para o alistamento feminino no Rio Grande do Norte e uma das responsáveis pela viagem de Bertha Lutz ao estado. Conforme a correspondência trocada entre elas, Júlia expressa o desejo de Lamartine de que se organizasse uma entidade filiada à Federação; ao mesmo tempo, revela um desinteresse das mulheres potiguares, por terem “alcançado ingresso na vida política do nosso Estado sem trabalho e sem lutas”. (8) A solução, segundo ela, estaria na viagem de Bertha. Nas cartas e telegramas evidencia-se que Júlia é uma das interlocutoras da presidente da Federação para os assuntos relativos aos direitos das mulheres no Rio Grande do Norte: é solicitada a lhe enviar dados, como o número de eleitoras por município; informa Bertha sobre a decisão do diretor do Departamento de Educação de excluir do magistério as mulheres casadas; comenta a eleição para o Senado do ex-governador José Augusto, na qual haviam votado as eleitoras alistadas há mais de 60 dias. (9) Por sua vez, pede o apoio de Bertha para a construção de uma maternidade em Natal. Torna-se colaboradora na coluna “Feminismo”, de O Paiz e, em junho de 1928, funda a Associação Eleitoral Feminina. Por sua atuação é homenageada pela Federação com um almoço no Hotel Glória, no Rio de Janeiro.(10)

Em 6 de julho de 1928, Bertha Lutz, acompanhada por seu pai, o cientista Adolpho Lutz, parte para o Rio Grande do Norte; ambos em missão de pesquisa da flora local mas, Bertha, a serviço, primordialmente, do sufrágio feminino. Ao longo da viagem prospectos em favor da propaganda do voto feminino são jogados do avião em cidades de oito estados, dentre elas Vitória, Caravelas, Recife, Maceió e Natal. Bertha repetia a ação realizada em maio, no Rio de Janeiro, quando sobrevoou a cidade com Carmen Portinho (1903 – 2001) e Amélia Bastos lançando panfletos “na Câmara, no Senado, no Palácio da Presidência, nas redações de jornais, nas grandes artérias da capital” (11).

 

 

Até 24 de agosto, véspera do seu retorno ao Rio, Bertha percorrerá inúmeros municípios daquele estado. Em Natal, onde permanece a maior parte do tempo, cumpre uma extensa programação que inclui a recepção pela Associação Eleitoral Feminina; um evento promovido pelas associações operárias, presidida por Juvenal Lamartine no teatro estadual; festa no Palácio do governo; a inauguração do curso de botânica na Escola Normal; a Festa Matuta, organizada pelos intelectuais natalenses; a inauguração da sede social do Clube Paissandu. Também participa do almoço oferecido por Juvenal Lamartine, no palacete da Assembleia Legislativa, aos aviadores italianos Arturo Ferrarin e Carlo del Prete, (12) evento no qual o governador conseguiu reunir expoentes de dois importantes pilares da sua administração: a aviação (13) e o feminismo.

A partir de Natal, Bertha viaja, geralmente, acompanhada por outras mulheres às cidades de Macaíba, São José de Mipibu, Ceará- Mirim, Acari, Seridó, Santa Cruz, Currais Novos, Caicó, visando ao alistamento das eleitoras, além de participar de almoços, banquetes, lanches e inaugurações. Nesses locais encontram-se os círculos sociais frequentados por Bertha Lutz, integrados por mulheres das camadas médias e altas, escolarizadas, em sua maioria, professoras. E embora aqui e ali haja algumas menções à presença de operárias em eventos, habitualmente, o que se noticia é a participação de “altas autoridades civis, militares e eclesiásticas”; “a elite natalense”; os “chefes políticos locais”; o “juiz eleitoral”; “o prefeito”. É interessante registrar também que, a despeito de se tratar de uma temática feminista, parcela da imprensa, ao elencar as mulheres alistadas em Macaíba, por exemplo, ainda as apresentam de forma anônima: são “as senhoras do prefeito, do juiz de direito, do diretor de mesa de rendas, do promotor e de outras autoridades.”(14)

 

 

As relações que Bertha estabelece com as elites locais, para além de evidenciarem o lugar que ocupa no espaço social, reforçam uma tática adotada por ela: “a necessidade de se legitimar aos olhos do público, procurando para isto mobilizar mulheres cuja posição social fosse de indiscutível respeitabilidade.”(15) A viagem ao Rio Grande do Norte também evidencia a importância da sociabilidade, dos encontros, palestras, almoços e jantares nos quais ela circula e discursa e estimula as mulheres ao alistamento. E a importância que ela, àquela altura já havia alcançado, no que tange ao fomento de associações e grupos de mulheres envolvidos com a causa do sufrágio. Não é por acaso que, em 9 de agosto de 1928, é fundada a Associação das Eleitoras Norte-Riograndenses(16) e que, um ano após a aprovação do voto feminino, 10% do eleitorado daquele estado fosse constituído por mulheres.

 

 

No registro do encontro das feministas com a primeira eleitora vemos a produção de sentido pelas fotografias ou como construímos o mundo visualmente. Não passa despercebido o fato de todas as mulheres estarem elegantemente vestidas, em uma imponência a que podemos chamar autonomia. São figuradas, conforme a “última moda”, exibindo roupas e cabelos mais curtos, estes no estilo “à la garçonne”, embora escondidos nos chapéus cloche. Os vestidos com modelagem solta e cintura baixa, não aprisionam o corpo, as pernas à mostra também estão livres. Mas cabem algumas perguntas: as feministas se deixavam subjugar pela moda? Ou os cuidados de si eram, naquele momento, imprescindíveis para ocupar espaços? Se a moda de cabelos e roupas mais curtas é onipresente, das fotos das feministas às revistas populares, talvez ela expressasse os desejos que as mulheres compartilhavam de ocupar novas posições. Nesse sentido, haveria pouco espaço para roupas com armações ou espartilhos. Mas, pensando a contrapelo, é preciso refletir se a emancipação estava à disposição de todas ou se roupas e cabelos mais curtos não eram, eles também, elementos de distinção social, evidenciando que, se as mudanças ocorrem, elas nunca ocorrem todas de uma vez e nem para todas.

(1) HAHNER, June E. Emancipação do sexo feminino. A luta pelos direitos da mulher no Brasil, 1850-1940. Florianópolis : EDUNISC, 2003, p.333.

(2) PINTO, Celia Regina Jardim. Uma história do feminismo no Brasil. São Paulo: Editora Fundação Perseu Abramo, 2003, p. 6.

(3) KARAWEJCZYK, Monica. As filhas de Eva querem votar: uma história da conquista do sufrágio feminino no Brasil. Tese (Doutorado em História), Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2013, p. 219-220.

(4) “Nada justifica mais, na época atual, essa restrição que é uma sobrevivência dos tempos em que a mulher era considerada incapaz de exercer os direitos civis e políticos.” Anais, vol. XIX, 1925, p. 40, apud KARAWEJCZYK, Monica, op. cit., p. 223.

(5) Em 1925, Lamartine foi convidado pela FBPF para evento alusivo às datas cívicas nacionais, discorrendo sobre a concessão dos direitos políticos à mulher nas democracias modernas. Em 1927, a entidade promoveu uma manifestação comemorativa da sua eleição ao governo do Rio Grande do Norte. Em 1928, ao viajar a então capital do país, para tratar de assuntos referentes à administração daquele estado, foi recebido no desembarque por expressivo grupo de mulheres. No discurso da representante da FBPF, Orminda Bastos, Juvenal é qualificado de “estadista liberal e administrador eminente”.“Ecos da chegada do presidente Juvenal Lamartine”, O Paiz, 7 e 8 de maio de 1928, p. 5.

(6) Lei n. 600, de 25 de outubro de 1927.

(7) “A Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e a exposição de imprensa de Colônia”, O Paiz, 18 de abril de 1928, p. 2.

(8) Carta de Julia Barbosa para Bertha Lutz, Natal, 23 de janeiro de 1928. Arquivo Nacional, FBPF, BR RJANRIO Q0.ADM, COR.A928.107.

(9) “Dessa eleição dependerá, tacitamente, a resolução do problema feminino no Brasil inteiro, pois se o Senado “engolir” os votos que eu e as minhas conterrâneas demos ao dr. José Augusto…”. Carta de Julia Barbosa para Bertha Lutz, Natal, 9 de abril de 1928. Arquivo Nacional, FBPF, BR RJANRIO Q0.ADM, COR.A928.107.

(10) “O primeiro banquete político feminino”, O Paiz, 24 de junho de 1928, p. 10.

(11) “A propaganda feminista por via aérea”, O Paiz, 14 e 15 de maio de 1928, p. 8.

(12) Os pilotos se notabilizaram por realizar a primeira travessia do Atlântico em avião, sem escalas, entre a Europa e a América Latina, indo de Montecelio, na Itália, a Touros, no Rio Grande do Norte.

(13) Natal, assim como Dakar, no Senegal, por sua posição geográfica, interessava vivamente às empresas de aviação – dentre elas, a francesa Latécoère – que desejavam expandir suas rotas para os países da América do Sul (Brasil, Argentina, Chile). Foi em um avião da companhia que Bertha Lutz se deslocou do Rio de Janeiro a Natal e de volta ao Rio, em 1928; a empresa também cedeu um aparelho a Juvenal Lamartine quando da inauguração dos campos de aterrisagem de Acari e Caicó no mesmo ano. As rotas e suas respectivas escalas envolviam interesses tanto econômicos quanto por prestígio, dos países de origem das empresas e dos locais que deveriam fazer parte dos itinerários estabelecidos. Lamartine soube capitalizar a importância da aviação comercial naquele momento e, em especial, da cidade de Natal como escala em um circuito mundial de navegação aérea. Nesse sentido, entende-se, também, a inauguração do Aeroclube de Natal em 1928. TEIXEIRA, Rubenilson B. “Por mar, terra e ar: Dakar, Natal e as conexões transatlânticas (1880-1940)”, Cahiers des Amériques Latines, vol. 76, 2014, p. 131-157. Disponível em: https://journals.openedition.org/cal/3327 Acesso em 27 de setembro de 2020.

(14) “Em efervescência o alistamento feminino no Rio Grande do Norte”, Correio da Manhã, 24 de julho de 1928, p. 2.

(15) ALVES, Branca Moreira, Ideologia e feminismo: a luta das mulheres pelo voto no Brasil. Petrópolis: Vozes, 1980, p.100.

(16) Filiada à Federação Brasileira pelo Progresso Feminino, a Associação era presidida por Francisca Bezerra Dantas. A data da fundação era uma homenagem ao aniversário de Juvenal Lamartine e aos 6 anos de fundação da FBPF.

 

*Maria do Carmo Rainho é Doutora em História | Pesquisadora do Arquivo Nacional

 

Leia também os outros artigos da série “Feministas, graças a Deus”:

Série “Feministas, graças a Deus!” I – Elvira Komel, a feminista mineira que passou como um meteoro, publicado em 25 de julho de 2020, de autoria da historiadora Maria Silvia Pereira Lavieri Gomes, do Instituto Moreira Salles, em parceria com Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” II  – Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993), o jequitibá da floresta, publicado em 20 de agosto de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” IV  – Uma sufragista na metrópole: Maria Prestia (? – 1988), publicado em 29 de outubro de 2020, de autoria de Claudia Heynemann, doutora em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” V – Feminista do Amazonas: Maria de Miranda Leão (1887 – 1976), publicado em 26 de novembro de 2020, de autoria de Maria Elizabeth Brêa Monteiro, mestre em História e pesquisadora do Arquivo Nacional

Série “Feministas, graças a Deus!” VI – Júlia Augusta de Medeiros (1896 – 1972) fotografada por Louis Piereck (1880 – 1931), publicado em 9 de dezembro de 2020, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VII – Almerinda Farias Gama (1899 – 1999), uma das pioneiras do feminismo no Brasil, publicado em 26 de fevereiro de 2021, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” VIII – A engenheira e urbanista Carmen Portinho (1903 – 2001), publicado em 6 de abril de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “Feministas, graças a Deus!” IX – Mariana Coelho (1857 – 1954), a “Beauvoir tupiniquim”, publicado em 15 de junho de 2021, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, pesquisadora e editora do portal Brasiliana Fotográfica