A Frente Negra Brasileira

“O preconceito da cor no Brasil só nós os negros podemos sentir”

 Isaltino Veiga dos Santos (1901 – 1966)

 

 

Com a publicação de fotografias da Frente Negra Brasileira pertencentes à Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, contamos neste artigo um pouco da história desta associação, fundada em São Paulo, em 16 de setembro de 1931, que foi, depois da Abolição da Escravatura no Brasil, ocorrida há exatos 136 anos, como movimento de massas, a mais importante organização que os negros lograram, segundo Abdias do Nascimento (1914 – 2011), importante voz do ativismo do Movimento Negro no Brasil.

 

“Minhas primeiras experiências de luta foram na Frente Negra Brasileira. Alguns dos dirigentes da FNB desde a década de vinte se esforçavam tentando articular um movimento. Houve, assim, um projeto de reunir o Congresso da Mocidade Negra, em 1928, em São Paulo, o que não chegou a se concretizar. Somente em 1938 eu e outros cinco jovens negros realizamos o I Congresso Afro-Campineiro e, em 1950, o Teatro Experimental do Negro promoveu o I Congresso do Negro Brasileiro, no Rio de Janeiro.

As pessoas e as idéias já vinham de antes, mas foi nos inícios dos anos trinta que o movimento se institucionalizou na forma da Frente Negra Brasileira. Entre seus fundadores estavam Arlindo Veiga dos Santos e José Correia Leite e, como movimento de massas, foi a mais importante organização que os negros lograram após a abolição da escravatura em 1888.

A Frente fazia protestos contra a discriminação racial e de cor em lugares públicos… sob a perspectiva de integrar os negros na sociedade nacional. Dessa forma combatia a FNB os hotéis, bares, barbeiros, clubes, guarda-civil, departamentos de polícia, etc. que vetavam a entrada ao negro, o que lembrava muito o movimento pelos direitos civis dos negros norte-americanos.

Uma perspectiva que eu hoje critico. Minhas lembranças não são muito seguras, mas acho que o movimento ia além das reivindicações citadas. Eu não podia me envolver profundamente na ação, pois estava servindo o exército, cujo regulamento disciplinar proibia qualquer participação em atividades sociais e políticas. Assim minha participação era mais simbólica e espiritual.

Mas me lembro de O Clarim da Alvorada, o jornal que transcrevia notícias e artigos do movimento que Marcus Garvey, o grande negro jamaicano, desencadeara nos Estados Unidos sob o lema da Volta à África. Apesar da barreira da língua, da pobreza dos meios de comunicação, a FNB permanecia alerta a todos os gestos emancipacionistas acontecidos em outros países.

Foi uma vanguarda com o objetivo de preparar o negro para assumir uma posição política e econômica na representação do povo brasileiro ao Congresso Nacional. E o movimento se espalhou de São Paulo para outros Estados com significativa população negra: Bahia, Pernambuco, Rio Grande do Sul, Rio de Janeiro, Minas Gerais, Maranhão… O chamado Estado Novo ou a ditadura de Getúlio Vargas, instaurada em 1937, fechou a FNB juntamente com todos os partidos políticos então existentes.

A Frente, como qualquer outra instituição de massas, teve seus problemas internos de orientação e liderança, o que aliás é um bom índice da sua vitalidade. O dirigente Arlindo Veiga dos Santos se achava ligado ao Movimento Patrianovista, de orientação de direita, enquanto José Correia Leite se filiava ao pensamento socialista. Tal polarização levaria inevitavelmente ao fracionamento que ocorreu. Entretanto, não creio que o fato teve qualquer ligação ou influência com o Partido Comunista”.

 

Abdias do Nascimento em Memórias do Exílio (1976)

 

 

Acessando o link para as fotografias da Frente Negra Brasileira disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Por cerca de 350 anos, o Brasil – destino de cerca de 4,5 milhões de escravizados africanos – foi o maior território escravagista do Ocidente, mantendo este sistema tanto no campo como na cidade. O lugar de trabalho era o lugar do escravizado. A escravidão foi abolida, em 13 de maio de 1888, após seis dias de votações e debates no Congresso, quando a princesa Isabel (1846 – 1921) assinou a Lei Áurea, que decretava a libertação dos escravizados no país (O Paiz, 14 de maio de 1888 e A Gazeta de Notícias, 14 de maio de 1888).

 

“A escravidão foi o processo mais violento, mais cruel, mas mais eficiente de obter, conservar, preservar e explorar o trabalho alheio. Ele não via em quem ele escravizava um semelhante, mas via um adversário e um ser inferior a ele.”

Alberto da Costa e Silva, diplomata, escritor e africanólogo

 

 

O propósito fundamental da Frente Negra Brasileira era discutir a questão do racismo, promover melhores condições de vida e a união política e social da “gente negra nacional”.  Teve filiais em diversas cidades paulistas e nos estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Segundo uma nota escrita por Isaltino Veiga dos Santos (1901 – 1966), então secretário-geral da associação, em 1932, a FNB tinha 45 mil associados (A Gazeta, 16 de julho de 1932, segunda coluna). No site do ,IpeAfro, fala-se em cerca de 100 mil associados (Site IpeAfro).

Sob a liderança de Arlindo Veiga dos Santos (1902 – 1978), José Correia Leite (1909 – 1989), Aristides Barbosa (1920 -?) e Francisco Lucrécio (1909 – 2001), dentre outros, a FNB desenvolvia diversas atividades de caráter cultural, educacional, político e social para os seus associados. Promovia bailes, cursos de alfabetização, festas, festivais musicais e literários, oficinas de costuras, palestras e seminários.

Foi presidida por Arlindo Veiga dos Santos até 1934. Ele foi sucedido por Justiniano Costa, que ocupou o cargo até a extinção da FNB, em 1937.

Inicialmente, a sede da associação ficava em uma sala do Palacete Santa Helena, mas em março de 1932, cerca de seis meses após sua fundação, devido ao crescimento do número de filiados, mudou-se para a Rua da Liberdade, n° 196.

 

“A Frente Negra Brasileira foi a primeira organização no país a falar que o então chamado ‘preconceito de cor’ era um problema nacional e estrutural. Hoje isso é consenso, mas nos anos 1930 não era”.

Petrônio Domingues, historiador e

autor de livros sobre questões raciais, como Protagonismo Negro em São Paulo

 

A FNB se organizou, em 1935, como partido político. Foi o primeiro e único partido negro da história do país, mas não participou de nenhuma eleição. Em novembro de 1937, o Estado Novo do presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) fechou todos as associações e partidos políticos. A Frente Negra Brasileira, declarada ilegal, foi dissolvida.

 

 

 

A Frente Negra Brasileira – Breve cronologia de 1931 a 1938

 

 

1931

 

No salão da Associação das Classes Laboriosas, em São Paulo, fundação, em 16 de setembro de 1931, da Frente Negra Brasileira, sob a presidência de Arlindo da Veiga Santos (1902 – 1978), que dirigiu os trabalhos da assembleia. Estavam presentes: Alfredo Eugenio da Silva, Ari Cananéa da Silva, Cantidio Alexandre, Constantino Nóbrega, David Soares, Francisco Costa Santos, Gervásio de Moraes, Horácio Arruda, Isaltino Veiga dos Santos, João Francisco de Araújo, Jorge Rafael, José Benedito Ferraz, Justiniano Costa, Leopoldo de Oliveira, Lindolfo Claudino, Messias Marques do Nascimento, Olavo Luciano Nardy, Oscar de Barros Leite, Raul de Moraes, Raul Joviano do Amaral (1914 – 1988), Roque Antonio dos Santos e Vitor de Sousa. Durante a fundação, falaram o professor Christiano Brasil e Alberto Orlando. Adalgisa Correa Lobo leu uma mensagem às mulheres negras brasileiras (Diário Nacional, 17 de setembro de 1931, última colunaDiário da Noite, 18 de setembro de 1931, quarta colunaJornal do Brasil, 30 de setembro de 1931, terceira coluna).

 

 

 

Em outubro, foi anunciado que sua primeira sede havia sido instalada na sala 127 do primeiro andar do Palacete Santa Helena, localizado na Praça da Sé, e projetado pelos arquitetos italianos Giacomo Corberi e Giuseppe Sacchetti (1874 – 1955), em 1925. O edifício foi demolido em 1971 (Diário Nacional, 5 de outubro de 1931, segunda coluna).

 

 

Realização da primeira reunião do Grande Conselho da Frente Negra Brasileira quando o conselho diretor da associação tomou posse sob a presidência de Arlindo da Veiga Santos. O secretário da FNB era Isaltino Veiga dos Santos, irmão de Arlindo (Jornal do Brasil, 16 de outubro de 1931, última colunaDiário Nacional, 18 de outubro de 1931, segunda coluna).

Realização da quarta e última reunião de arregimentação da Frente Negra Brasileira que iniciaria agora sua ação (Diário Nacional, 20 de outubro de 1931, primeira coluna).

Em uma reunião da FNB, inauguração do Minuto Literário em homenagem a Ventura da Silva, autor do livro O Encarcerado. Houve também a apresentação da orquestra do professor João de Deus Conegundes, que executou várias peças, dentre elas o Hino da Gente Negra Brasileira e a marcha Palmares (Diário Nacional, 15 de novembro de 1931, terceira coluna).

A FNB fez um comunicado à imprensa protestando contra o ato racista de proprietários de rinks de patinação, proibindo a entrada de negros em seus estabelecimentos (Jornal do Brasil, 8 de dezembro de 1931, quinta coluna).

O interventor de São Paulo, Manuel Rabelo (1873 – 1945), enviou um telegrama à Frente Negra Brasileira prestando solidariedade à associação (Jornal do Brasil, 22 de dezembro de 1931, penúltima coluna).

José Correia Leite (1900 – 1989), um dos fundadores da FNB, rompeu com a entidade devido a conflitos políticos e ideológicos.

“Em 23 de dezembro de 1931, ele enviou uma carta aos membros do Conselho daquela entidade solicitando seu desligamento do colegiado. Nesse documento, Correia Leite apontava como causa do pedido de afastamento sua “incompatibilidade com o personalismo, clericalismo”, monarquismo e posições políticas “ultranacionalistas” do presidente da FNB. Além disso, esse dissidente fazia questão de declarar que condenava a monarquia, a religião cristã e a “república aristocrática”, tendo como sonho a construção do “socialismo democrático”. Apesar de sua defecção do cargo de direção, Leite escrevia que ainda se dispunha a continuar nas “fileiras” da organização como “soldado” (DOMINGUES, 2004).

Passou a fazer oposição à FNB, tendo fundado o Clube Negro de Cultura Social, idealizado com José de Assis Barbosa Leite. Em 6 de janeiro de 1924, juntamente com Jayme de Aguiar, Correia Leite havia fundado o Clarim, jornal renomeado como O Clarim da Alvorada, publicado até 13 de maio de 1932. Houve uma edição em 1940 (Clarim da Alvorada, 28 de setembro de 1940). Este jornal foi fundamental para fortalecer o incipiente movimento da cultura negra no Brasil e também para a formação da Frente Negra Brasileira.

 

 

 

1932

 

Isaltino Veiga dos Santos enviou ao interventor de São Paulo, coronel Manuel Rabelo (1878 – 1945), um ofício em nome da Frente Negra Brasileira protestando contra o não cumprimento do decreto que se refere à preferência que devem merecer em todas as colocações os brasileiros natos (Diário Nacional, 8 de janeiro de 1932, última coluna).

A FNB promoveu uma reunião durante a qual o poeta e escritor Joaquim Dutra da Silva proferiu a palestra Educação. Também foi realizada a apresentação da orquestra do professor João de Deus Conegundes*. Foram convidados para o evento o interventor de São Paulo, coronel Manuel Rabelo (1878 – 1945) e o chefe da Polícia, Oswaldo Cordeiro de Farias (1901 – 181), além da imprensa (Diário Nacional, 10 de janeiro de 1932, segunda coluna).

Houve um desentendimento entre Augusto Euzébio Oliveira e a direção da Frente Negra Brasileira (Diário Nacional23 de janeiro de 1932, quarta coluna; 24 de janeiro de 1932, quarta coluna).

Publicação do poema Preconceito, de Deocleciano Nascimento (? – 1967), dedicado à Frente Negra Brasileira (O Malho, 6 de fevereiro de 1932).

 

 

 

Na coluna “Actualidades”, a Frente Negra Brasileira foi criticada por inventar um problema: o conflito de raças (Diário Nacional, 13 de fevereiro de 1932, segunda coluna).

Publicação de um artigo sobre a história da FNB, suas delegações e estatuto (Correio da Manhã, 13 de fevereiro de 1932, quinta coluna)

Duas delegações da Frente Negra Brasileira foram instaladas no Rio de Janeiro (Diário de Notícias, 16 de fevereiro de 1932, primeira colunaJornal do Brasil, 23 de fevereiro de 1932, antepenúltima coluna).

Publicação de um artigo de Austregésilo de Athayde (1898 – 1993) contra a Frente Negra Brasileira (Diário da Noite, 25 de fevereiro de 1932, primeira coluna).

A sede da FNB foi transferida do Palacete Santa Helena para a Rua da Liberdade, 196 (Diário Nacional, 4 de março de 1932, sexta coluna).

 

 

A redação do jornal Chibata, que fazia várias críticas à FNB, foi empastelado. Suspeitou-se que a ação tivesse sido feita por filiados à associação (Diário Nacional, 20 de março de 1932, terceira coluna).

A Frente Negra Brasileira aderiu ao Club 3 de Outubro, organização política fundada, no Rio de Janeiro, em 1931, por pessoas vinculadas ao movimento tenentista, em apoio ao Governo Provisório de Getúlio Vargas (Jornal do Commercio, 30 de março de 1932, quinta coluna).

Estavam abertas na sede da FNB a matrícula para o Tiro de Guerra. Já estavam em funcionamento o consultório dentário e o salão de barbeiro (Diário Nacional, 7 de abril de 1932, penúltima coluna).

A FNB promoveu um festival artístico com a representação da comédia Contra-Veneno, de Isaltino Veiga dos Santos, e com a apresentação da palestra O negro e o momento pelo advogado baiano Joaquim Guaraná de Santana. A renda do evento seria revertida para o Departamento de Educação Frentenegrino (Diário Nacional, 20 de abril de 1932, penúltima coluna).

Estavam abertas as matrículas para os cursos primário, ginasial e técnico da escola fundada pela Frente Negra Brasileira (Diário Nacional, 6 de maio de 1932, quinta coluna).

A FNB inaugurou uma sub sede em Barra Funda e também o Departamento de Arte Culinária. Posteriomente, passaram a funcionar na sub sede os departamentos de comércio, desenho, mecânicos, motoristas, pedreiros e de pintura (Diário Nacional, 10 de maio de 1932, terceira colunaDiário Nacional, 24 de maio de 1932, primeira coluna).

Para marcar o dia 13 de maio, a Frente Negra Brasileira promoveu a realização de uma missa na Igreja Nossa Senhora dos Remédios e uma passeata. Quando chegaram ao Largo do Arouche, onde fica a herma do advogado Luis Gama (1830 – 1882) – concebida por Yolando Mallozzi e inaugurada em 1931 -, foi feita uma parada e o presidente da FNB, Arlindo Veiga dos Santos, e o orador Vicente Ferreira (? – 1934) fizeram discursos em homenagem ao grande patrono da raça. A campanha pela construção da herma de Luis Gama foi  liderada pelo jornal Progresso, representante da imprensa negra.

 

 

O préstito seguiu para o Cemitério da Consolação onde o túmulo de Luiz Gama e de outros abolicionistas foram visitados. À noite, na sede da FNB, foi inaugurado um retrato do jornalista e abolicionista José do Patrocínio (1853 – 1905), de autoria de Olavo Xavier (Diário Nacional, 14 de maio de 1932).

 

 

A Frente Negra Brasileira promoveu um jogo de futebol entre os selecionados “preto” e “branco”, no campo do São Paulo Futebol Clube (Diário Nacional, 26 de maio de 1932, sexta colunaCorreio Paulistano, 28 de novembro de 1934, última coluna).

Foi anunciada a comemoração pelo primeiro ano da fundação da FNB, que ocorreria em sua sede em 16 de setembro (Correio de S. Paulo, 29 de junho de 1932, quinta colunaDiário Nacional, 29 de junho de 1932, segunda coluna).

Nos salões da Lega Lombarda, sociedade italiana fundada em São Paulo, em 1897, realização de um festival de artes promovido pela FNB, em 7 de julho, no Largo São Paulo, n° 18 (Correio de S. Paulo, 4 de julho de 1932, quinta coluna).

A Revolução Constitucionalista de 1932, movimento armado liderado por São Paulo contra o governo provisório de Getúlio Vargas e pela defesa de uma nova Constituição para o Brasileclodiu em 9 de julho. A Frente Negra Brasileira, que sempre apoiou Getúlio mas tinha sua sede em São Paulo, divulgou uma nota pública se dizendo neutra no conflito.

A Frente Negra Brasileira, União Político-Social da Raça, com a finalidade dupla de lutar pela grandeza da Pátria unida e de trabalhar, sem esmorecimento, pelo alevantamento moral e intelectual do negro no Brasil, pela primeira vez, depois do movimento armado, que se acha de pé e em cuja vanguarda se encontra o grande Estado de São Paulo, […] declara que todos os Frentenegrinos, residentes nesta Capital, no Interior do Estado; já foram cientificados de que a sua liberdade de pensar e agir não está, absolutamente, sujeita a quaisquer imposições da Frente Negra Brasileira, neste momento, mesmo porque não tem ela a mínima ligação com este ou aquele partido político, seja de civis ou militares, estando, porém, sempre solidária com as grandes causas, que venham ao encontro das aspirações nacionais.

A Gazeta, 16 de julho de 1932

 

Parte dos militantes ficou indignada com a posição, rompeu com a FNB e formou a chamada Legião Negra, em 14 de julho. A nova entidade era liderada pelo advogado baiano Joaquim Guaraná Santana e pelo capitão Gastão Goulart. Foi lançada uma “Proclamação a todos os negros do Brasil”. Estima-se que a Legião Negra tenha enviado cerca de 2 mil homens  à guerra. Ficaram conhecidos como os Pérolas Negras. O conflito terminou, em 2 de outubro de 1932, com a rendição do Exército Constitucionalista (A Gazeta, 23 de julho de 1932).

Arlindo Veiga dos Santos, presidente da FNB, os cabos Isaltino Veiga dos Santos e Mario Silva Junior; e o conselheiro Inacio Braga participaram do Congresso Revolucionário, no Rio de Janeiro, promovido pela Legião Cívica 5 de julho. Durante o evento, a Frente Negra Brasileira foi acusada de ter ligações com a Ação Integralista Brasileira e com a Ação Patrianovista. Isaltino Veiga dos Santos afirmou que a FNB tinha aliança unicamente com o Clube 3 de Outubro  (Correio de S. Paulo, 15 de novembro de 1932, quarta colunaO Radical, 15 de novembro de 1932O Radical, de 15 novembro de 1932, quinta coluna; O Radical, 22 de novembro de 1932, quinta coluna).

 

 

 

Isaltino Veiga dos Santos, secretário-geral da FNB,  enviou ao interventor de São Paulo, Waldomiro Lima (1873 – 1938), e ao presidente do Brasil, Getúlio Vargas (1882 – 1954), cartas explicando o posicionamento da Frente Negra Brasileira em relação à Revolução Constitucionalista de 1932, em São Paulo (O Radical, 25 de outubro de 1932O Radical, 18 de novembro de 1932, primeira coluna).

Isaltino enviou também uma mensagem aos operários associando-se ao movimento de solidariedade trabalhista ao Governo Provisório (O Radical, 29 de outubro de 1932, terceira coluna).

Publicação de uma entrevista com Sebastião Schiffini, delegado da FNB e futuro diretor da Frente Negra Brasileira Socialista, fundada em março do ano seguinte (O Radical, 31 de outubro de 1932, terceira coluna).

Publicação de uma entrevista com Arlindo Veiga dos Santos, presidente da FNB, onde ele explica os pontos de vista da Frente Negra Brasileira de S. Paulo em face do atual momento nacional  (A Batalha, 12 de dezembro de 1932, antepenúltima coluna).

 

 

Foi anunciada a realização de uma parada cívica promovida pela FNB em 1°de janeiro de 1933 (Correio de S. Paulo, 24 de dezembro de 1932, terceira coluna).

Atendendo a um pedido da Frente Negra Brasileira, o coronel Waldomiro Lima (1873- 1938), interventor em São Paulo, admitiu na Guarda Civil  50 homens filiados à agremiação (O Radical, 26 de dezembro de 1932, penúltima coluna).

 

1933

 

A FNB se pronunciou sobre um caso de racismo ocorrido no Rio de Janeiro. O acadêmico, sibarita deflorador João Abrão havia sido absolvido, atendendo à razão absurda de ser a vítima negra e humilde (Correio de S. Paulo, 16 de janeiro de 1933, terceira coluna).

Filena Veiga dos Santos, esposa de Isaltino Veiga dos Santos, enviou uma mensagem de agradecimento à primeira-dama Darci Vargas (1895 – 1968) em nome das mulheres da Gente Negra de São Paulo. Foi mencionado que Isaltino havia sido recebido por Getúlio Vargas no Palácio Rio Negro, em Petrópolis, e que ele teria atendido às reivindicações feitas por Isaltino em relação ao favorecimento de estrangeiros em detrimento da população negra (Diário de Notícias, 9 de fevereiro de 1933, quinta coluna).

Em 10 de fevereiro, falecimento de Francisco Costa Santos (? – 1933), um dos fundadores da Frente Negra Brasileira (A Voz da Raça, 17 de fevereiro de 1934, segunda coluna).

Foi noticiado o apoio da FNB à Ação Integralista Brasileira na disputa das eleições constituintes (Correio de S. Paulo, 14 de fevereiro de 1933, última coluna).

“O integralismo tinha um apelo por conta de sua narrativa de inclusão da população negra. Essas ideologias estavam circulando por aqui e influenciando diversos grupos”, explicou o cientista social Márcio Macedo, coordenador de diversidade da Escola de Administração de Empresas da Fundação Getúlio Vargas, em entrevista recente à BBC News Brasil.

“Uma ideia que nasce com os integralistas, e que foi cara à FNB, era o conceito de segunda abolição. Isso significa que a abolição da escravatura não havia sido completa, porque não se pensou em políticas de integração e de auxílio à população que fora liberta. Seria necessária uma segunda abolição para que essas medidas fossem implementadas.”

Site da BBC, 13 de junho de 2020

 

Foi publicada uma entrevista com Isaltino Veiga dos Santos, secretário-geral da FNB, sobre o posicionamento político e também sobre o funcionamento do posto de alistamento eleitoral na sede da Frente Negra Brasileira, referida na reportagem como uma das mais perfeitas organizações sociais aparecidas nestes últimos tempos (Correio de S. Paulo, 17 de fevereiro de 1933, primeira coluna).

 

 

Foi anunciada a criação do Liceu Palmares, sob a direção de Arlindo Veiga dos Santos destinado a desenvolver a cultura intelectual dos nossos patrícios. O Liceu Palmares aceita alunos, mesmo que não sejam sócios da FNB, assim como brancos, brasileiros ou não. O nome do instituto de ensino foi proposto por Isaltino Veiga dos Santos (Correio de S. Paulo, 7 de março de 1933, terceira colunaA Voz da Raça, 25 de março de 1933, terceira coluna).).

Publicação da primeira edição do jornal A Voz da Raça, em 18 de março de 1933, semanário órgão oficial da Frente Negra Brasileira. O redator era Deocleciano Nascimento (? – 1967); seu secretário, Pedro Paulo Barbosa e A. de Campos era o gerente. Na edição foi publicada o quadro demonstrativo de receitas e despesas da FNB, de outubro de 1931 a setembro de 1932. Na época, Justiniano Costa era o tesoureiro e Deocleciano Nascimento, o guarda-livros da associação (A Voz da Raça, 18 de março de 1933).

 

 

A Secretaria Geral da FNB informava que em sua sede estava em funcionamento a Escola de Alfabetização para ministrar instrução aos negros de ambos os sexos; o departamento de musical, de costura e de alistamento eleitoral (A Voz da Raça, 25 de março de 1933, última colunaA Voz da Raça, 25 de março de 1933, terceira coluna).

 

 

Arlindo Veiga dos Santos comentou sobre a alegação de que a FNB teria um objetivo puramente monárquico. Arlindo havia sido o fundador, em 1932, da Ação Imperial Patrianovista Brasileira, que pregava o retorno dos moldes monárquicos e a valorização do catolicismo (A Voz da Raça, 1º de abril de 1933, terceira coluna).

 

 

Deocleciano Nascimento (? – 1967), que foi o criador do jornal O Menelik, em 1915, fez uma doação de livros, na maioria clássicos nas línguas francesa, inglesa e portuguesa, para a Biblioteca da FNB (A Voz da Raça, 8 de abril de 1933, última coluna).

A FNB publicou um chamado ao Patrício Negro (A Voz da Raça, 8 de abril de 1933, quarta coluna).

 

 

Foram publicadas informações sobre a Caixa Beneficente da FNB (A Voz da Raça, 8 de abril de 1933, segunda coluna).

Publicação de um protesto dos Frentenegrinos contra ingratos que eram opositores da direção dos irmãos Veiga dos Santos e de outros diretores à frente da FNB (A Voz da Raça, 8 de abril de 1933)

Em um artigo de Henrique Dias, a fundação da FNB é citada como uma iniciativa poderosa para a construção do Brasil-Nação. A FNB é uma pequena mostra de brasilidade, de patriotismo! De novo, foi publicado um protesto dos Frentenegrinos contra ingratos que eram opositores da direção dos irmãos Veiga dos Santos e de outros diretores à frente da FNB (A Voz da Raça, 15 de abril de 1933, segunda coluna).

Publicação dos estatutos da Frente Negra Brasileira (A Voz da Raça, 15 de abril de 1933, primeira coluna).

O Partido Socialista Brasileiro de São Paulo apresentou franca solidariedade à Ala Socialista da Frente Negra Brasileira (Correio de S. Paulo, 20 de abril de 1933, segunda coluna).

Publicação do artigo A União faz a Força, de José Bueno Feliciano, sobre as divergências de grupos dentro da FNB (A Voz da Raça, 22 de abril de 1933, terceira coluna).

Foi publicado que no carnaval de 1933 a FNB havia oferecido a Taça Arthur Friedenreiche aos Cordões Carnavalescos das Gente Negra Paulista (A Voz da Raça, 22 de abril de 1933, quarta coluna).

Publicação de uma reportagem sobre o livro Canto da Raça Negra, de Isaltino Veiga dos Santos (1901 – 1966), um dos fundadores da FNB (A Voz da Raça, 22 de abril de 1933, quarta coluna).

O presidente da FNB, Arlindo Veiga dos Santos, lançou-se candidato avulso à Constituinte. Resumiu seu programa com as seguintes palavras: a Terra, o Sangue, o Trabalho, o Espírito (A Voz da Raça, 29 de abril de 1933Correio de S. Paulo, 1º de maio de 1933Correio de S. Paulo, 2 de maio de 1933, primeira coluna).

 

 

 

Publicação da cópia do registro da Fundação Negra Brasileira (A Voz da Raça, 29 de abril de 1933, penúltima coluna).

Foi mencionada no artigo Milicianos de Fé, de Olavo Xavier, a criação de uma milícia da Frente Negra Brasileira (A Voz da Raça, 29 de abril de 1933, penúltima coluna).

A FNB celebrou com diversos eventos o 13 de maio, um deles foi a promoção de um festival literário e musical no Cine no Theatro Roma, com a apresentação do espetáculo Marietta, a heroína, em 6 de maio (Correio de S. Paulo, 13 de maio de 1933, quinta coluna; A Voz da Raça, 20 de maio de 1933, segunda coluna).

A vitória moral do candidato Arlindo Veiga dos Santos à eleição constituinte foi celebrada na primeira página de A Voz da Raça de 6 de maio de 1933.

 

 

Publicação do artigo A espiritualidade Frentenegrina, de João B. Mariano (A Voz da Raça, 6 de maio de 1933).

Publicação do artigo Liberdade Utópica, de Isaltino Veiga dos Santos, identificado como o Gandhi brasileiro,  onde a FNB é citada (A Voz da Raça, 13 de maio de 1933).

 

 

Foi noticiado que a FNB tinha um corpo cênico (A Voz da Raça, 3 de junho de 1933, última coluna).

Na sede da Frente Negra Brasileira funcionavam uma seção de proteção jurídico-social, curso de alfabetização, caixa beneficente, clínica dentária, barbearia, cabeleireiro, departamento teatral, musical e festivo, oficina de costura, sessões instrutivas de educação moral e cívica, domingueiras, etc (A Voz da Raça, 10 de junho de 1933, penúltima coluna)

Foi publicado um chamado para a Milícia Frentenegrina (A Voz da Raça, 17 de junho de 1933)

 

 

No artigo A vitória do negro está no livro, João B. Mariano afirmou que para a vitória final da raça negra no Brasil duas coisas são indispensáveis  O LIVRO e a UNIÃO (A Voz da Raça, 17 de junho de 1933, última coluna).

A Frente Negra Brasileira Socialista, formada por dissidentes da FNB, realizou, em 26 de junho, eleições para seu diretório e conselho fiscal, na sede do Partido Socialista Brasileiro de São Paulo. Manoel dos Passos era o presidente da FNBS (A Noite, 2 de junho de 1933, primeira colunaCorreio de S. Paulo, 26 de junho de 1933, penúltima colunaCorreio de S. Paulo, 5 de julho de 1933, terceira coluna).

Foi denunciado que pessoas da Frente Negra Brasileira Socialista, ao realizar cobranças, diziam que a citada entidade era filiada à Frente Negra Brasileira (A Voz da Raça, 1° de julho de 1933, segunda coluna).

Mais uma vez, publicação de artigos, abordando divergências na Frente Negra Brasileira (A Voz da Raça, 15 de julho de 1933, primeira coluna2 de setembro de 1933).

O comitê organizador da Associação de Ex-Combatentes de São Paulo enviou um ofício à Frente Negra Brasileira prestando uma homenagem à raça preta, salientando o papel importante que ela sempre ocupou nos grandes feitos da nacionalidade, inclusive no movimento paulista de 1932 (Correio de S. Paulo, 21 de julho de 1933, terceira coluna).

A Frente Negra Brasileira iniciou uma campanha para a compra de uma sede própria (A Voz da Raça, 28 de outubro de 1933).

Em 18 de novembro, no Salão da Lega Lombarda, no Largo São Paulo, 14, apresentação de um grupo sertanejo com acompanhamento de cavacos e de violões organizado pelo Corpo Cênico da Frente Negra Brasileira (A Voz da Raça, 11 de novembro de 1933).

A FNB enviou ao presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) um protesto contra a contínua entrada de imigrantes estrangeiros quando nada se faz para melhorar a situação da infinidade de negros desempregados (Correio de S.  Paulo, 25 de dezembro de 1933, terceira coluna).

 

1934

 

A Frente Negra Brasileira realizou a Grande Reunião de Unificação da Raça, em sua sede paulistana (Correio de S. Paulo, 1º de janeiro de 1934, segunda coluna).

A Frente Negra Brasileira desmentiu que houvesse enviado um representante ao Congresso do Partido Socialista. Publicação no jornal A Voz da Raça de um artigo sobre a Frente Negra Brasileira Socialista (Correio de S. Paulo, 12 de janeiro de 1934, terceira coluna; A Voz da Raça, 20 de janeiro de 1934, primeira colunaA Voz da Raça, 20 de janeiro de 1934, primeira coluna).

O primeiro ano de existência do jornal A Voz da Raça foi comemorado com um Festival Lítero-Dramático-Dançante, na Lega Lombarda. Amadores do Corpo Cênico da Frente Negra Brasileira participaram do evento (A Voz da Raça, 17 de fevereiro de 1934).

A Frente Negra Brasileira estava empenhada em construir uma casa própria: a Casa do Negro (A Voz da Raça, 17 de fevereiro de 1934, primeira coluna).

O conselheiro da FNB, Roque Antonio dos Santos, foi nomeado Comissário dos Cabos da Associação substituindo Mario da Silva Junior, que passou a ser Visitador das Delegações (Correio de S. Paulo, 19 de fevereiro de 1934, última coluna). 

Em 7 de abril, realização de um Grande Festival Dançante, na Lega Lombarda, para a entrega das Taças e Medalhas para os Cordões Carnavalescos Negros do Concurso da Frente Negra Brasileira no Carnaval de 1934 (A Voz da Raça, 31 de março de 1934, primeira coluna).

O curso de alfabetização da FNB contava com cerca de 70 alunos frequentes (Correio de S. Paulo, 22 de maio de 1934, primeira coluna).

Arlindo Veiga dos Santos deixou a presidência da Frente Negra Brasileira e passou a integrar o Grande Conselho Frentenegrino com o cargo de consultor jurídico. Justiniano Costa assumiu a presidência e Francisco Lucrécio (1909 – 2001) tornou-se  primeiro secretário. Justiniano havia sido o primeiro tesoureiro da FNB e pertencia à Irmandade de Nossa Senhora do Rosário dos Homens Pretos. Era também funcionário público. Lucrécio havia migrado de Campinas para São Paulo para cursar a Escola Livre de Odontologia, em 1931. Foi morar com seus tios que eram ligados à FNB e logo começou a participar da entidade, tornando-se uma de suas lideranças (Correio Paulistano, 3 de julho de 1934, última coluna; Correio Paulistano, 4 de dezembro de 1934, última coluna).

 

 

Anúncio do funcionamento de um posto de alistamento eleitoral na sede da Frente Negra Brasileira (Correio de S. Paulo, 6 de julho de 1934, quinta coluna).

A FNB promoveu um festival dramático dançante com a apresentação pelo Grupo Rosas Negras do esquete Quasi Tragédia e da comédia Almas do outro mundo, e com a realização de um baile (Correio de S. Paulo, 11 de julho de 1934, quarta coluna).

 

 

A Frente Negra Brasileira protestou contra mais um caso de racismo: uma moça negra de 22 anos havia sido laçada em uma rua de São Paulo por um jovem branco da mesma idade que passava em um caminhão. Ela foi arrastada pelos paralelepípedos, perdendo os sentidos (Correio de S. Paulo, 11 de agosto de 1934, sexta coluna).

 

 

Realização na sede da FNB de uma festa de Natal das Crianças (Correio de S. Paulo, 22 de dezembro de 1934, quarta coluna)

 

1935

 

O Grupo das “Rosas Negras”, o Departamento de Festas da FBN, realizou nos salões da Lega Lombarda, em 3, 4 e 5 de março, bailes de carnaval, cuja renda foi revertida para as Escola Frentenegrinas (Correio Paulistano, 24 de fevereiro de 1935, penúltima colunaCorreio Paulistano, 2 de março de 1935, terceira coluna).

O Grande Conselho da Frente Negra Brasileira, presidido por Justiniano Costa, enviou ao presidente da Câmara de Deputados uma representação no sentido de tornar o dia 13 de maio, data da Abolição da Escravatura no Brasil,  feriado nacional (Correio de S. Paulo, 8 de maio de 1935, terceira coluna).

Comemoração, na sede da FNB, do dia 13 de maio, com a realização de palestras e de apresentação de números musicais e literários (Correio de S. Paulo, 13 de maio de 1935, segunda coluna).

Foi anunciada a inauguração do Departamento de Música, n FNB, sob a direção de Maurício P. de Queiroz. O Departamento da Cruz Feminina foi elogiado (Correio Paulistano, 21 de julho, quinta coluna).

Publicação de uma entrevista com Antônio Francisco Napoleão, delegado da FNB no Rio de Janeiro (Diário da Noite, 5 de setembro de 1935, primeira coluna).

 

 

A Companhia Miramar, de teatro, comemorando 150 apresentações consecutivas no Teatro Colombo, encenou a comédia Mãe Preta, de Paulo de Magalhães (1900 – 1972), em homenagem à Frente Negra Brasileira (Correio Paulistano, 10 de setembro de 1935, última coluna).

A Frente Negra Brasileira foi inscrita como partido politico de caráter nacional pelo Tribunal Superior de Justiça Eleitoral (A Noite, 11 de setembro de 1935, quarta coluna).

A FNB comemorou os quatro anos de sua fundação nos dias 21 e 22 de setembro. No Salão Lyra, na rua São Joaquim, 329, Arlindo Veiga dos Santos fez o discurso oficial, seguido da leitura de uma mensagem e da apresentação dos delegados da associação (Correio de S. Paulo, 17 de setembro de 1935, quinta coluna).

 

 

O major José da Silva, comandante da Guarda Civil, contestou a acusação feita por um diretor da FNB de que ele perseguia elementos da raça negra dentro da referida corporação (Jornal do Commercio, 16 e 17 de setembro de 1935, terceira coluna).

 

1936

 

Foi realizada uma quermesse em prol da Frente Negra Brasileira, no Largo do Mercado (Correio Paulistano, 9 de janeiro de 1936, última coluna).

Publicação dos eventos promovidos pela FNB para celebrar o 13 de maio (Correio Paulistano, 10 de maio de 1936, última coluna).

Comemoração dos 5 anos da fundação da Frente Negra Brasileira com a realização de diversos eventos, nos dias 19 e 20 de setembro (Correio Paulistano, 22 de setembro de 1936).

 

 

1937

 

A FNB prestou solidariedade ao então Ministro do Trabalho e interino da Justiça, Agamenon Magalhães (1892 – 1952) (A Noite, 25 de janeiro de 1937, terceira coluna).

Justiniano Costa, em nome da diretoria da FNB, prestou condolências na ocasião da morte do conde Francisco Matarazzo (1854 – 1937) (Correio Paulistano, 14 de fevereiro de 1937, antepenúltima coluna).

A FNB foi uma das associações promotoras de uma sessão cívica em homenagem aos 90 anos do nascimento do poeta baiano Castro Alves (1847 – 1871), em 14 de março, no Teatro Municipal de São Paulo  (Correio de S. Paulo, 13 de março de 1937, quinta coluna).

A FNB participou de uma homenagem à memória de Tiradentes (1746 – 1792) (Correio de S. Paulo, 13 de abril de 1937, quarta coluna).

Publicação do artigo O dever do negro, de João Cândido (1880 – 1969) na edição de abril de A Voz da Raça.

Justiniano Costa, por sua atuação como presidente da FNB, foi homenageado com um almoço na Gruta Baiana, em 21 de abril (Correio de S. Paulo, 22 de abril de 1937, quinta coluna; edição de abril de A Voz da Raça).

A FBN promoveu uma série de eventos comemorativos do 13 de maio (Correio de S. Paulo, 13 de maio de 1937, terceira colunaCorreio Paulistano, 14 de maio de 1937, penúltima colunaCorreio Paulistano, 15 de maio de 1937, quarta coluna).

A cantora e estrela da ópera, a norte-americana Marian Anderson (1897 – 1993), foi homenageada pela Frente Negra Brasileira e visitou a sede da associação (A Voz da Raça, junho de 1937Correio Paulistano, 23 de junho de 1937,última coluna).

 

 

A FNB prestou uma homenagem ao poeta Ciro Costa (1879 – 1937) (A Voz da Raça, julho de 1937).

Publicação de um pequeno artigo sobre o sucesso do Conjunto de Músicas Regionais da Frente Negra Brasileira (A Voz da Raça, julho de 1937).

A Frente Negra Brasileira aderiu ao Partido Republicano Brasileiro (Correio Paulistano, 25 de julho de 1937, primeira coluna).

A Frente Negra Brasileira estava organizando um grande congresso em São Paulo que seria realizado em outubro. Seriam discutidos os problemas econômicos, sociais e culturais da raça negra. Em setembro, seria realizado um congresso político, quando a associação se definiria quanto à sucessão presidencial (A Voz da Raça, agosto de 1937, segunda coluna).

Luiz Costa era o delegado da FNB no Rio de Janeiro (A Noite, 25 de agosto de 1937, quinta coluna).

 

 

Publicação da programação das festividades do sexto ano da fundação da FNB (Correio Paulistano, 15 de setembro de 1937, segunda coluna; A Voz da Raça, 16 de setembro de 1937).

 

 

A Frente Negra Brasileira apoiava a candidatura de Jose Américo de Almeida (1887 – 1980), pré-candidato à Presidência da República (Correio Paulistano, 23 de outubro de 1937, quinta coluna)

Em 10 de novembro de 1937, decretação pelo presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) do Estado Novo que fechou, pouco depois, todos as associações e partidos políticos (Correio da Manhã, 11 de novembro de 1937).

A Frente Negra Brasileira participou das comemorações do Dia da Bandeira (Correio Paulistano, 18 de novembro de 1937, última coluna).

Em novembro, publicação da última edição de A Voz da Raça.

A Frente Negra Brasileira, assim como todos as associações e partidos políticos, foi dissolvida (Jornal do Brasil, 5 de dezembro de 1937, sexta coluna).

 

1938

 

A Frente Negra Brasileira, que havia sobrevivido com o nome União Negra Brasileira,  sob a a presidência do advogado, historiador e jornalista Raul Joviano do Amaral (1914 – 1988), foi extinta em maio de 1938.

 

“Nós, da velha militância, estamos transferindo à mocidade inteligente, culta, laboriosa de hoje, o lábaro que a imprensa negra elevou bem
alto. Mas não só a imprensa negra, a imprensa branca também precisa colaborar porquê, se nós procuramos a confraternização em termos de
respeito, de compreensão, de amor, não só o negro precisa trabalhar em favor dessa compreensão, mas a sociedade brasileira precisa ter
presente que o negro na atualidade, como anteriormente, sempre se esforçou para conquistar o seu espaço; sempre lhe foi negada essa
oportunidade e agora o negro, mais adiantado, mais evoluído, mais coerente, mais consciente das suas necessidades, pode, deve, sem
paternalismo, sem tutela, alcançar esse lugar, conquistando-o”.

Raul Joviano do Amaral, programa da TV Cultura, em 1984

 

Assista aqui o programa CULTNE – Frente Negra Brasileira – 1985 – Parte 1CULTNE – Frente Negra Brasileira – 1985 – Parte 2 e CULTNE – Frente Negra Brasileira – Parte 3.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ASSUNÇÃO, Nádia Cecília Augusto; RIBEIRO, Edméia Aparecida. A Frente Negra Brasileira – 1931 – 1937. Os desafios da escola pública paranaense. Governo do Paraná.

CAVALCANTI, Pedro Celso Uchôa; RAMOS, Jovelino. Memórias do Exílio, Brasil 1964-19??. Editora e Livraria Livramento, 1978.

DOMINGUES, Petrônio José. O “messias” negro? Arlindo Veiga dos Santos (1902-1978): “Viva a nova monarquia brasileira; Viva Dom Pedro III!”. Varia história, vol.22, nº 36 Belo Horizonte, Dez/2006.

DOMINGUES, Petrônio. Paladinos da liberdade: A experiência do Clube Negro de Cultura Social em São Paulo (1932-1938). Revista de História, nú 150, julho, 2004, pp. 57-79. Universidade de São Paulo São Paulo, Brasil

DOMINGUES, Petrônio. Um “templo de luz”: Frente Negra Brasileira (1931-1937) e a questão da educação. Rev. Bras. Educ. 13 (39) • Dez 2008

FERREIRA, Maria Claudia Cardoso. Representações Sociais e Práticas Políticas do Movimento Negro Paulistano: as trajetórias de Correia Leite e Veiga dos Santos (1928-1937), Dissertação de Mestrado – UERJ, 2005.

Frente Negra Brasileira – Depoimentos: Entrevistas e textos: Márcio Barbosa. São Paulo : Editora Quilombhoje, 1998.

GOMES, Flavio. Negros e Política: 1888-1937. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Editor, 2005.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LEITE, Carlos Roberto Saraiva da Costa. A Frente Negra Brasileira. Portal Geledés, 14 de dezembro de 2017.

MALATIAN, Teresa. Memória e contra-memória da Frente Negra Brasileira.

MALATIAN, Teresa. O cavaleiro negro. São Paulo : Editora Alameda, 2015.

MARTINS, Ana. Frente Negra Brasileira (1931 – 1938). Black Past Organization.

RAMATIS, Jacino. Frente Negra, Ação Integralista e conservadorismo como estratégico de enfrentamento ao racismo – 1930 -1937. Rev. Hist. (São Paulo) (181), 2022.

SCHWARCZ, Lilia Moritz. O espetáculo das raças: cientistas, instituições e questão racial no Brasil –1870-1930. São Paulo: Companhia das Letras, 1993.

Site BBC

Site Fundação Palmares – Frente Negra Brasileira

Site Fundação Palmares – Aristides Barbosa

Site Imprensa Negra

Site IpeAfro

Site Literafro

SOTERO, Edilza Correia. Representação Política Negra no Brasil pós Estado Novo. Tese apresentada ao Programa de Pós-Graduação em Sociologia da Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas da Universidade de São Paulo como parte dos requisitos para a obtenção do título de doutor em Sociologia, junho de 2015.

VIEIRA, Flavia Maria Silva. Resistência e luta do Movimento Negro no Brasil: da rebeldia anônima na sociedade escravocrata ao enfrentamento político na sociedade de classes. Revista da ABPN, v. 8, n. 20, jul. 2016 – out. 2016.

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” VI – O Clube Naval e os arquitetos Tommaso G. Bezzi (1844 – 1915) e Heitor de Mello (1875 – 1920)

A partir de uma imagem produzida pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), em torno de 1910, a Brasiliana Fotográfica vai contar um pouco da história do Clube Naval e traçar um pequeno perfil do arquiteto italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi (1844 – 1915), autor do projeto de sua sede atual. É o sexto artigo da série Os arquitetos do Rio de Janeiro. O Clube Naval foi fundado, em 12 de abril de 1884, pelo então capitão de fragata e futuro almirante Luiz Philippe Saldanha da Gama (1846 – 1895), que foi seu primeiro presidente. Sua primeira sede ficava na rua da Misericórdia, nº 35 (Gazeta de Notícias, 20 de março de 1884, primeira colunaGazeta de Notícias, 15 de abril de 1884, segunda coluna).

 

O Globo, 11 de junho de 1984

O GLOBO, 11 de junho de 1984

 

Em 11 de junho de 1900, a sede foi transferida para a Rua D. Manuel, nº 15, na Praça XV, em um terreno que havia sido doado pelo presidente Deodoro da Fonseca (1827 – 1892) (O Paiz, 12 de junho de 1900, quarta coluna).

 

 

Por ocasião da abertura da Avenida Central, hoje Rio Branco, o Governo Federal doou um terreno para a construção da atual sede do Clube Naval. Sua pedra fundamental foi lançada em 1905 e ela foi inaugurada, em 11 de junho de 1910, na Avenida Rio Branco, nº 180, na esquina com a Avenida Almirante Barroso, endereço nobre e tradicional do Centro do Rio de Janeiro. Em estilo neo-clássico, o prédio integra o corredor cultural da cidade e foi tombado definitivamente pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural, em 18 de novembro de 1987. É, com os prédios do Theatro Municipal, do antigo antigo Supremo Tribunal Federal, do Museu de Belas Artes e da Biblioteca Nacional, uma das edificações, na Avenida Rio Branco, remanescentes do início do século XX.

O engenheiro e arquiteto responsável pela construção do novo edifício do Clube Naval foi Heitor de Mello (1875 – 1920), inicialmente de acordo com a planta projetada pelo italiano Tommaso Gaudenzio Bezzi (1844 – 1915) (O Paiz, 14 de fevereiro de 1907, quarta coluna). Heitor já foi tema do artigo Série O Rio de Janeiro desaparecido XXVII e Série Os arquitetos do Rio de Janeiro V – O Jockey Club e o Derby Club, na Avenida Rio Branco e o arquiteto Heitor de Mello (1875 – 1920), publicada no portal em 15 de janeiro de 2024.

 

 

 

Heitor de Mello (18 - 1920) / Arquitetura  no Brasil

Heitor de Mello (1875 – 1920) / Arquitetura no Brasil

 

Ao longo da construção, os dois arquitetos se desentenderam. Bezzo acusou Heitor de alterar seu projeto, do qual seria apenas o empreiteiro. Heitor de Mello respondeu ressaltando que, pelo contrato, além de empreiteiro, ele seria o responsável pela ornamentação da fachada. No artigo da Gazeta de Notícias sobre a inauguração, foi mencionada a realização de um concurso de projetos que teria sido vencido por Heitor (O Paiz, 9 de novembro de 1909O Paiz, 11 de novembro de 1909; Gazeta de Notícias, 11 de junho de 1910).  Helios Seelinger (1878 – 1965) é o autor de pinturas nas paredes do Salão Nobre, decorado em estilo Luis XV. No teto, encontra-se um belo vitral da Casa Formenti.

 

 

 

 

Em 1928, um quinto andar foi acrescido à edificação e, em 1939, o sexto andar foi concluído. Em todos os andares do Club Naval encontram-se obras de arte e um importante acervo de móveis e objetos.

 

Breve perfil de Tommaso Gaudenzio Bezzi (1844 – 1915)

 

 

Bezzi formou-se engenheiro, em Turim, onde nasceu em 18 de janeiro de 1844. Foi voluntário, nas campanhas de Giuseppe Garibaldi (1807 – 1882) para a unificação italiana. Também serviu como oficial do regimento de cavalaria do exército regular, comandado pelo Duque D’Aosta (1845 – 1890), tendo se destacado na Batalha de Custosa contra os austríacos. Foi ferido em combate diversas vezes e foi condecorado com medalhas pelas campanhas da Itália de 1860-1861-1866. Foi condecorado por bravura com uma medalha de prata. Em 1868, viajou para o Uruguai e Argentina.

Seu primeiro projeto no Brasil, para onde veio, na década de 1870, foi o edifício da alfândega de Fortaleza, realizado a pedido do governo imperial, em 1874 (Diário do Rio de Janeiro, 14 de abril de 1874, primeira coluna; Jornal do Commercio, 19 de julho de 1877, quarta coluna; A Constituição (CE), 20 de novembro de 1874, penúltima coluna). Começou a trabalhar como engenheiro-arquiteto no Rio de Janeiro, onde, inicialmente, ficou hospedado na casa do Visconde do Rio Branco (1819 – 1880). Casou-se, em 26 de janeiro de 1876,  com Dona Francisca Nogueira da Gama Carneiro de Bellens, de uma nobre família brasileira (Diário do Rio de Janeiro, 10 de fevereiro de 1876, quinta coluna). A partir dessas relações entrou para o círculo íntimo do imperador Pedro II. O casal residia na Rua Bambina, em Botafogo.

Em 1876, foi designado para fiscalizar as obras da ponte da alfândega de Belém do Pará (A Constituição (PA), 19 de agosto de 1876, última coluna).

Na Exposição Antropológica Brasileira, inaugurada em 29 de julho de 1882, no Museu Nacional, no Rio de Janeiro, na Sala Gabriel Soares, antropológica e arqueológica, exposição de  produtos da arte plumária brasileira, adornos, tecidos e vestes de muitas tribos do Brasil, além das coleções arqueolíticas do Museu Nacional, de Amália Machado Cavalcanti de Albuquerque e dos senhores  Joaquim Monteiro Caminhoá (1836 – 1896), João Barbosa Rodrigues (1842 – 1909) e Tommaso G. Bezzi (1844 – 1915) (A Constituição (PA), 16 de agosto de 1882, terceira coluna). A mostra durou três meses e teve muito sucesso, com um público de mais de mil visitantes. O fotógrafo Marc Ferrez (1843 – 1923), autor da imagem do Clube Naval publicada neste artigo, produziu uma série de registros de objetos e aspectos da vida indígena durante a exposição e algumas fotografias de sua autoria, realizadas quando ele integrou a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878), chefiada pelo geólogo canadense Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), foram expostas.

Ainda em 1882, a Comissão para o Monumento à Independência Brasileira, futuro Museu Paulista, cujo projeto vencedor foi o de Bezzi, o qualificou como arquiteto residente na Corte de reconhecido merecimento artístico (Correio Paulistano, 11 de dezembro de 1882, terceira coluna). Em 1883, passou a residir em São Paulo, na rua do Senador Florencio de Abreu, 43 (Correio Paulistano, 6 de julho de 1883, última coluna). Também em São Paulo, projetou o ajardinamento da Praça da República, realizado entre 1902 e 1904 (Arquivo Histórico de São Paulo); e o Velódromo de São Paulo, inaugurado na década de 1890.

No Rio de Janeiro, além do Clube Naval, Bezzi projetou diversos prédios e residências, dentre eles o antigo Banco do Comércio, na Rua 1º de Março, e reformou o Edifício Itamarati, antiga sede do Ministério das Relações Exteriores, tendo construído sua ala esquerda.

Bezzi fundou algumas associações de fundo patriótico ligadas à Itália, dentre elas a Sociedade dos Combatentes Italianos pela unidade e pela independência da Itália, a Societa Veterani e Reduci e a Sociedade União Beneficente. Foi eleito membro honorário do Instituto de Engenheiros Civis de Londres, agraciado como Oficial da Legião de Honra da França e com o Hábito da Ordem Militar de São Maurício e São Lázaro, pelo governo da Itália. Era Comendador da Coroa Italiana e o representante no Brasil da Cruz Vermelha italiana (Jornal do Brasil, 30 de maio de 1915, sexta coluna).

Faleceu em 23 de maio de 1915, no Rio de Janeiro. Residia na Rua Cosme Velho, 57 (O Paiz, 24 de maio de 1915, terceira coluna; Correio da Manhã, de maio de 1915, penúltima coluna).

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BRUNA, Paulo. Museu Paulista: um restauro complexo. Sessão Temática: novas fronteiras e novos pactos para pesquisas e projetos situados em áreas de preservação e patrimônio CulturalEncontro da Associação Nacional de Pesquisa e Pós-Graduação em Arquitetura e Urbanismo Porto Alegre, 25 a 29 de julho de 2016.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Ipatrimônio

PARETO JUNIOR, Lindener. O cotidiano em construção: os “práticos licenciados” em São Paulo (1893-1933). 2011. Dissertação (Mestrado em História e Fundamentos da Arquitetura e do Urbanismo) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, Universidade de São Paulo, São Paulo, 2011.

Revista do Clube Naval, jan/fev/mar de 2022, nº 401, página 7

SALMONI, Anita; DEBENEDETTI, Emma. Arquitetura Italiana em São Paulo. São Paulo: Perspectiva, 2007.

Site Arquitetura Italiana no Estado de São Paulo

Site da Enciclopédia Treccani

Site Clube Naval

 

Outros artigos da série Os arquitetos do Rio de Janeiro

 

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” I – Porto D´Ave e a moderna arquitetura hospitalar, de autoria de Cristiane d´Avila – Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, publicado em 14 de janeiro de 2021.

Série “Os arquitetos do Rio” II – No Dia Nacional da Saúde, o Desinfetório de Botafogo e um breve perfil do arquiteto português Luiz de Moraes Junior, responsável pelo projeto, de autoria de Cristiane d´Avila, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, em parceria com Andrea C. T. Wanderley, publicado em 5 de agosto de 2023

Série ”Os arquitetos do Rio de Janeiro” III – O centenário do Copacabana Palace, quintessência do “glamour” carioca, e seu criador, o arquiteto francês Joseph Gire, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado em 13 de agosto de 2023

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” IV – Archimedes Memória (1893 – 1960), o último dos ecléticos, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 1º de dezembro de 2023

Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXVII  e “Os arquitetos do Rio de Janeiro ” V – O Jockey Club e o Derby Club, na Avenida Rio Branco e o arquiteto Heitor de Mello (1875 – 1920), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado em 15 de janeiro de  2024

 

 

E, há 200 anos, Hercule Florence chegou ao Brasil!

Há 200 anos, em 8 abril de 1824, chegou ao Rio de Janeiro, a bordo da fragata Marie Théreze, que havia zarpado do porto de Toulon, na França, em fevereiro de 1824, o fotógrafo, desenhista, tipógrafo e naturalista francês Antoine Hercule Romuald Florence (1804 – 1879) (Diário do Rio de Janeiro, 9 de abril de 1824, segunda coluna). Viveu no Brasil entre 1824 e 1879, quando faleceu, em Campinas. Foi, certamente, um dos mais extraordinários estrangeiros que se estabeleceu no país, no século XIX, tendo sido o inventor de um dos primeiros métodos de fotografia do mundo.

Em 11 de agosto de 2023, o Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, anunciou a aquisição da coleção Cyrillo Hercules Florence, composta por aproximadamente 1.200 itens, que reúne a parte mais importante da obra e dos documentos do Hercule Florence.  A coleção estava sob a guarda da família e foi reunida por seu neto, Cyrillo Hercules Florence (1901 – 1995).

 

 

Foi no livro de Florence, Livre d´annotations et les premiers matériaux, em 1834, que ele usou pela primeira vez o verbo photographier – cinco anos antes da palavra ser utilizada na Inglaterra, em 1839, por John Frederick William Herschel (1792-1871). Florence deixou uma descrição do procedimento adotado por ele para obter o registro fotográfico, em 1833.

Foi a partir da pesquisa e do teste realizados pelo professor Boris Kossoy (1941-), aos quais se seguiu a publicação de seu livro “1833: a Descoberta Isolada da Fotografia no Brasil” (1980), que Hercule Florence tornou-se conhecido internacionalmente. Convidamos vocês à leitura dos artigos O francês Hercule Florence (1804 – 1879), inventor de um dos primeiros métodos de fotografia do mundo e Florence, autor do mais antigo registro fotográfico existente nas Américas, já publicados na Brasiliana Fotográfica.

 

Acessando o link para as imagens de Hercule Florence disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Autorretrato de Hercule Flrence, 1855. Detalhe de um retrato de sua família, em Campinas

Autorretrato de Hercule Florence, 1855. Detalhe de um retrato de sua família, em Campinas

 

Foi publicado nos Anais do Museu Paulista, de dezembro de 2019, o artigo Revelando Hercule Florence, o Amigo das Artes: análises por fluorescência de raios X.  A física Márcia de Almeida Rizzutto, coordenadora do NAP-Faepah, atestou, com a ajuda do método conhecido como fluorescência de raios X por dispersão de energia (ED-XRF) para detectar a presença de elementos químicos, que os manuscritos de Florence descrevem fielmente os processos de produção fotográfica por ele testados em 1833. Segundo Boris Kossoy, “é a comprovação física daquilo que já se sabia do ponto de vista químico”.

Nos dias 23 e 24 de maio de 2023, foi realizado no Instituto Moreira Salles, de São Paulo, o seminário internacional 190 anos dos experimentos fotográficos de Hercule Florence para celebrar o seu pioneirismo na descoberta dos processos fotográficos. Vários temas relacionados a Florence foram abordados durante o evento, mas o principal assunto do encontro foi a divulgação dos resultados das análises físico-químicas realizadas, em 2022, de três objetos do inventor, por meio de uma parceria inédita entre quatro instituições de três continentes: o IMS, o Instituto Hercule Florence (IHF), de São Paulo, Brasil; o Getty Conservation Institute (GCI), de Los Angeles, EUA; e o Laboratório HERCULES da Universidade de Évora, Portugal.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Nota da editora: havia dúvidas em torno da data de nascimento de Hercule Florence – seria 28, 29 de fevereiro ou 9 de março de 1804. O artigo Os nascimentos de Hercule Florence, publicado em de 2022 pelo Instituto Hercule Florence esclarece que a data de nascimento foi 28 de fevereiro de 1804 e a data de batizado 29 de fevereiro de 1804. A data 9 de março foi aventada a partir de um erro de leitura de William Luret, ex-jornalista da Radio Montecarlo. Como os artigos Florence, autor do mais antigo registro fotográfico existente nas Américas e O francês Hercule Florence (1804 – 1879), inventor de um dos primeiros métodos de fotografia do mundo haviam sido publicados na Brasiliana Fotográfica em 17 de junho de 2015 e 7 de março 2017, respectivamente, portanto antes das dúvidas em relação à data de nascimento de Florence terem sido dirimidas, constava como data de seu nascimento 29 de fevereiro de 1804, como o próprio havia escrito em seu diário. Segundo Thierry Thomas, historiador belga que se debruçou sobre vida e obra de Florence, o artista pode não ter se enganado. “Hercule, de verdade, não se engana totalmente. Muitas pessoas no passado, consideravam o dia do batismo como o dia de nascimento. Pode ser também que ele só consultou o registro de batismo e não o registro de nascimento”.  As correções já foram realizadas e explicadas nos artigos mencionados.

 

 

 

Foto icônica do arquivo histórico da Fiocruz ilustrará exposição em Lyon, França

 

Foto icônica do arquivo histórico da Fiocruz ilustrará exposição em Lyon, França

Cristiane d’Avila e Ana Luce Girão*

 

No dia 12 de abril, o Museu das Confluências, em Lyon, França, abrirá a exposição Epidemias, cuidando dos vivos. Segundo o texto de abertura do evento, as epidemias são fenômenos biológicos e sociais derivados da inter-relação entre a saúde humana, animal e ambiental. Além de chamar a atenção para a convergência de fatores que podem ocasionar crises sanitárias complexas, a exposição destaca a relevância do passado como fonte de aprendizados para emergências futuras. Ao menos essa parece a mensagem dos curadores com a escolha da imagem que ilustrará o catálogo do evento: uma fotografia de Oswaldo Cruz (1872 – 1917), seu filho Bento Oswaldo Cruz (1895 – 1941) e o pesquisador Carlos Burle de Figueiredo (18? – 1960), em Manguinhos, no ano de 1910.

 

 

A exposição Epidemias, cuidando dos vivos, exibirá coleções de medicina, etnografia, espécimes de história natural e obras contemporâneas sobre as epidemias de peste bubônica, varíola, cólera, gripe de 1918 (gripe “espanhola”), aids e covid-19. O objetivo é percorrer a história da microbiologia para explicar como a humanidade tem enfrentado esses eventos ao longo do tempo. Nessa perspectiva, parece apropriado homenagear o microbiologista que enfrentou doenças cujos surtos ceifaram milhares de vidas, entre o final do século XIX e o início do século XX, no Brasil.

Desde muito jovem, o médico voltou sua carreira para a experimentação, sendo o laboratório seu lugar de pesquisa por excelência. Em sua tese de doutoramento em medicina no Rio de Janeiro, intitulada “A veiculação microbiana pelas águas”, Oswaldo Cruz mergulhou no universo dos micróbios para investigar a qualidade da água que abastecia a cidade.

Recém-formado, instalou um laboratório de análises clínicas em sua casa, no Jardim Botânico, então Freguesia da Gávea, zona sul do Rio. Nesse laboratório particular e no do médico e cientista Chapot Prévost (1864 – 1907), examinou amostras de doentes de cólera, durante o surto da doença no Vale do Paraíba, em 1894. Nesse mesmo período, a convite do médico Egydio Salles Guerra (1858 – 1945), chefe da Policlínica Geral do Rio de Janeiro, montou um laboratório de análises clínicas no Serviço de Moléstias Internas da Policlínica.

Pouco depois, Oswaldo foi a Paris se capacitar em microbiologia no Instituto Pasteur, onde teve o privilégio de estudar com Émile Roux (1853 – 1933), Elie Metchnikoff (1845 – 1916) e outros cientistas da primeira geração de pasteurianos. No Instituto de Toxicologia de Paris participou de experiências no campo da medicina legal, com Charles Vibert (1854 – 1918) e Jules Ogier (1853 – 1913), também cientistas de renome. A fim de ter uma especialidade clínica, buscou nova especialização em moléstias das vias urinárias com o prof. Félix Guyon (1831 – 1920). Para além da formação científica e clínica, encontrou tempo para aprender a fazer vidraria de laboratório em uma fábrica de vidros local, técnica que seria futuramente adotada no Instituto que levaria seu nome.

Em 1899, pouco tempo depois de seu retorno de Paris, Oswaldo Cruz foi para Santos, onde ocorria um surto de peste bubônica, já diagnosticado pelos médicos Adolpho Lutz (1855 – 1940) e Vital Brazil (1865 – 1950), do Instituto Bacteriológico de São Paulo. Para combater a doença era necessária uma grande quantidade de soro antipestoso. A criação do Instituto Soroterápico Federal, no qual Oswaldo Cruz assumiria inicialmente a direção técnica e posteriormente a direção geral, e do Instituto Butantan, em São Paulo, são uma consequência direta deste evento.

Situado no bairro de Manguinhos, então freguesia de Inhaúma, distante da malha urbana, mas acessível pela Estrada de Ferro Leopoldina e pelo porto de Inhaúma, o Instituto Soroterápico Federal foi instalado em uma antiga fazenda que pertencia à municipalidade do Rio de Janeiro. Ao assumir a direção geral, Oswaldo Cruz começa a implantar seu projeto de um centro de pesquisas, produção e ensino, aos moldes do Instituto Pasteur. Em 1908, o instituto recebe um novo estatuto e passa a se chamar Instituto Oswaldo Cruz (IOC), em homenagem ao seu diretor.

Em 1903, Oswaldo Cruz passa a acumular também a função de diretor da Diretoria Geral de Saúde Pública (DGSP), órgão responsável pelos serviços sanitários da Capital Federal e dos portos. Sua principal tarefa era implementar campanhas sanitárias para combater os surtos de febre amarela, varíola e peste bubônica. Em 1907, a cidade do Rio de Janeiro é declarada livre de febre amarela e os casos de peste bubônica estavam em franco declínio. O combate à varíola, feito através da vacina, não obteve o mesmo sucesso, e em 1908 a cidade seria atingida por um novo surto desta doença.

Em 1909, quando deixa a DGSP e passa a se dedicar exclusivamente ao IOC, as obras das novas instalações estavam a todo vapor. Do que hoje chamamos de Núcleo Arquitetônico Histórico de Manguinhos (NAHM), já estavam concluídos o Pavilhão da Peste e a Cavalariça, onde se produzia o soro antipestoso, e o Pombal, dedicado à criação de animais de laboratório e de pombos correio, que faziam a comunicação entre o IOC e a DGSP.

O Pavilhão Mourisco, cuja construção só se concluiria em 1918, já contava com dois andares finalizados. Nestes funcionavam vários laboratórios, dentre os quais o de Oswaldo Cruz, que, assim como os demais, apresentava “paredes lisas, sem ornamentação, revestidas com azulejos brancos e com cantos arredondados nas junções entre as paredes e o piso”, detalham os arquitetos Renato da Gama-Rosa Costa e Alexandre Jose de Souza Pessoas no livro Um lugar para a ciência: a formação do campus de Manguinhos (2003, p.59). Atualmente, esses espaços abrigam exposições e atividades culturais e de divulgação científica voltadas para o público que trabalha e visita o Pavilhão Mourisco.

 

 

 

* Cristiane  d’Avila é jornalista e Ana Luce Girão é historiadora do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)

 

 

 

Referências:

COSTA, R. G. R., PESSOA, A. J. S. Um lugar para a ciência: a formação do campus de Manguinhos [online]. Coord. Benedito Tadeu de Oliveira. Rio de Janeiro: Editora FIOCRUZ, 2003, 264 p. Coleção História e saúde. ISBN: 978-65-5708-113-6. https://doi.org/10.7476/9786557081136.

CRUZ, Oswaldo Gonçalves. A vehiculação microbiana pelas águas. These apresentada à Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Typographia da Papelaria e Impressora (S.A), 1893.

GUERRA, Egydio Salles. Oswaldo Cruz. Rio de Janeiro, Vecchi, 1940.

Site: Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz. Disponível em https://oswaldocruz.fiocruz.br/. Acesso em 19/03/2024.

Documento: Diário de laboratório de Oswaldo Cruz. Arquivo Pessoal Oswaldo Cruz. Acervo Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz.

 

Acesse aqui o artigo O cientista Oswaldo Cruz (1872 – 1917), prefeito de Petrópolis, escrito por Cristiane d’Avila e Ana Luce Girão em parceria com Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica. Foi publicado no portal em 28 de dezembro de 2017.

 

Dia do Bibliotecário

Com quatro imagens do acervo fotográfico da Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, o portal celebra o Dia do Bibliotecário. Dois registros são do prédio na Rua do Passeio que sediou a Biblioteca Nacional, entre 1858 e 1910, e foram produzidos por um fotógrafo ainda não identificado e por Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?). A foto de autoria de Ferreira faz parte do Album de vistas da Bibliotheca Nacional, de 1902.

 

 

As imagens do prédio atual da Biblioteca Nacional, na Avenida Rio Branco, foram produzidas por um fotógrafo ainda não identificado e por Marc Ferrez (1843 – 1923). A de autoria de Ferrez é uma estereografia colorida.

 

 

Acessando o link para as fotografias da Biblioteca Nacional selecionadas e disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Manuel Bastos Tigre e a origem do Dia do Bibliotecário

 

“Como bibliotecário, Bastos Tigre se preocupou não só em fomentar positivamente a profissão, como contribuiu intelectualmente para área com sua principal preocupação: a organização do conhecimento”.

Débora Melo in A importância do discurso da ética na biblioteconomia:

Bastos Tigre, um exemplo de ética profissional, 2012

 

Foi em homenagem à data de nascimento do bibliotecário, engenheiro, jornalista, poeta, publicitário e teatrólogo pernambucano Manuel Bastos Tigre (1882 – 1957), 12 de março, que foi instituído, pelo Decreto nº 84.631, de 9 de abril de 1980 com efeitos em todo o território nacional, o Dia do Bibliotecário. Bastos Tigre era filho do negociante Delfino Tigre (18? – 1932) e de Maria Leontina Bastos Tigre (18? – 1926); e irmão de Hermínia Bastos Tigre, que foi casada com o fotógrafo Louis Piereck (1880 – 1931).

 

“Bastos Tigre foi um espírito alegre, que soube representar a pleno a alma do brasileiro cosmopolita do seu tempo, introduzido que fora, bem moço ainda, no mais significativo da boemia do seu tempo (…) folião poeta (…) sempre jovial, o Bastos Tigre, poeta satírico, irrefreável”.

Otacílio Colares in Bastos Tigre: bibliotecário e poeta da Belle Époque, 1982

 

Boêmio e dono de um humor fino, Bastos Tigre veio para o Rio de Janeiro com cerca de 17 anos e tornou-se uma figura conhecida da Belle Époque carioca. Em 1915, passou em primeiro lugar no primeiro concurso público para o cargo de bibliotecário – do Museu Nacional -, apresentando a tese Sobre a aplicação do Sistema de Classificação Decimal, na organização lógica dos conhecimentos, em trabalhos de bibliografia e Biblioteconomia. Ele havia conhecido esta técnica a partir de um contato com o bibliotecário Melvim Dewey, criador do sistema, que conheceu quando esteve nos Estados Unidos, entre 1906 e 1909, estudando Engenharia, na Bliss School, em Washington. Sua tese foi um marco importante na biblioteconomia brasileira, tendo sido a primeira sobre o assunto elaborada no país.

Foi bibliotecário por 40 anos, tendo trabalhado no Museu Nacional, na Biblioteca Nacional, na Biblioteca da Associação Brasileira de Imprensa e na Biblioteca Central da Universidade do Brasil, aonde foi homenageado após sua morte com uma placa (Diário de Notícias, 12 de março de 1958, penúltima coluna).

 

“É o livro amigo mudo que, calado, nos diz tudo.”

 

  

“A leitura de um bom livro afasta o tédio e estimula o pensamento.” 

 

Bastos Tigre foi o responsável pelo slogan da Bayer que se tornou famoso em todo o mundo: “Se é Bayer é bom“. É também o autor da letra da música Chopp em Garrafa, com música de Ary Barroso (1903 – 1964), que foi interpretada por Orlando Silva (1915 – 1978). Foi inspirada no produto que a Brahma passou a engarrafar. Sucesso do carnaval de 1934, é considerado o primeiro jingle publicitário do Brasil. Foi também o autor do livro Meu Bebê: livro das mamães para anotações sobre o bebê desde seu nascimento. Escreveu 17 livros, o primeiro, Saguão da Posteridade, editado pela Tipografia Altina, em 1902; além de 12 peças de teatro – a primeira, a revista musical Maxixe, estreou em 30 de março de 1906, no Teatro Carlos Gomes (Gazeta de Notícias, 30 de março de 1906, última coluna). Em 1917, fundou a Sociedade Brasileira de Autores Teatrais, a SBAT.

Cronista e articulista, trabalhou em inúmeros jornais como Correio da Manhã, onde por anos assinou a seção humorística “Pingos & Respingos” com o pseudônimo Cyrano & Cia, onde com humor comentava a vida cotidiana carioca, alcançando grande popularidade. Colaborou também com A ÉpocaA Gazeta, A NotíciaGazeta de Notícias, Lanterna, O Filhote da Gazeta, O GloboO Jornal,  O Malho e Rua. Em 1917, fundou a revista humorística Dom Quixote. Ele usava o pseudônimo “D. Xicote”. A revista circulou até 1927.

Faleceu em agosto de 1957, em sua casa, à rua Senador Vergueiro, 192, apartamento 12.

 

 

O primeiro curso de Biblioteconomia da América Latina, na Biblioteca Nacional

 

 

Foi instituído, em 11 de julho de 1911, por iniciativa de seu então diretor, o pernambucano Manuel Cícero Peregrino da Silva (18 – 1956), nos moldes da École de Chartres, o primeiro curso de Biblioteconomia da América Latina e o terceiro no mundo – os dois primeiros foram os da Universidade de Göttingen, na Alemanha, criado em 1886; e o do Columbia College, nos Estados Unidos, criado por iniciativa do bibliotecário norte-americano Melvin Dewey  (1851 – 1931), em 1887 (Anais da Biblioteca Nacional, 1916). Já existia desde 1821, a École des Chartes, na França, criada com a missão de formar futuros curadores patrimoniais, especialmente para bibliotecas, sem, entretanto, se constituir em curso de Biblioteconomia (Origens do ensino de biblioteconomia no Brasil, 2021).

O objetivo de Peregrino da Silva foi dar uma formação ao quadro de funcionários da instituição, que dirigiu entre 1900 e 1924. As matérias do curso eram Bibliografia, que abrangia História do Livro, Administração de Bibliotecas e Catalogação; Iconografia e Numismática; e Paleografia e Diplomática. O ensino era teórico e prático e este último era realizado na própria Biblioteca Nacional, usando seus serviços, considerados padrão.

A primeira turma foi formada em 1915 e o curso regular começou em 12 de abril com 27 alunos, sendo 12 funcionários da casa. Dois dias antes, em 10 de abril foi proferida a aula inaugural com a conferência A função do bibliotecário, realizada por Constâncio Antonio Alves (Correio da Manhã, 10 de abril de 1915, segunda colunaAnais da Biblioteca Nacional, 1916). Ao longo dos anos, foram professores do curso Afrânio Coutinho (1911 – 2000), Cecília Meireles (1901 – 1964) e Sérgio Buarque de Hollanda (1902 – 1982), dentre vários outros. O curso, uma referência na formação em biblioteconomia, funcionou na Biblioteca Nacional até 1969, quando foi transferido para a Unirio.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira de. Complemento indispensável…in Brasiliana Fotográfica, 29 de outubro de 2015.

BALABAN, Marcelo. Estilo Moderno: Humor, Literatura e Publicidade em Bastos Tigre. São Paulo : Editora da Unicamp, 2017.

BNDigital

FERNANDES, Daniel. BIBLIOTECONOMIA | MANUEL BASTOS TIGRE, UM BIBLIOTECÁRIO CHEIO DE HUMOR. BNDigital, 31 de março de 2022

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Hubner, M. L. F., Silva, J. F. M., & Atti, A. (2021). Origens do ensino de biblioteconomia no Brasil. BIBLOS35(1). https://doi.org/10.14295/biblos.v35i1.12105

TIGRE, Sylvia Bastos (Org.). Bastos Tigre: notas biográficas. Brasília, 1982

Site Biblioo

WANDERLEY, Andrea C. T. O “artista fotógrafo”Louis Piereck (1880 – 1931) in Brasiliana Fotográfica, 15 de dezembro de 2020.

O Rio de Janeiro nos cartões-postais da Papelaria e Typographia Botelho

Em comemoração aos 459 anos do Rio de Janeiro, a Brasiliana Fotográfica destaca cinco cartões-postais editados pela Papelaria e Typographia Botelho. São registros coloridos da Avenida Rio Branco, do Palácio Monroe, do Passeio Público e do Theatro Municipal. Foram produzidos, em torno de 1912, e pertencem ao Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadoras do portal. Em seu livro Alhos e bugalhos: ensaios sobre temas contraditórios, de Joyce à cachaça; de José Lins do Rego ao cartão postal (1978), o sociólogo pernambucano Gilberto Freyre (1900 – 1987) escreveu que o cartão-postal “às vezes ilustrado a cores – brilhante de cores até – correspondeu a uma época de euforia e de extroversão na vida nacional”, o início do século XX. Populares desde fins do século XIX, eram usados tanto para o envio de correspondência como para viajar sem sair de casa. Apesar de seu formato pequeno, os cartões-postais acendem, iluminam, valorizam as imagens neles impressas. Bom passeio pelas imagens do Rio de Janeiro, aniversariante do dia!

 

 

 

Acessando o link para as fotografias da Papelaria e Typographia Botelho disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas. 

 

A invenção do cartão-postal relaciona-se com inovações em processos gráficos de reprodução de imagens ocasionadas pelo desenvolvimento da fotografia, descoberta anunciada em 7 de janeiro de 1839, na Academia de Ciências da França. Cerca de sete meses depois, em 19 de agosto, no Instituto da França, em Paris, o cientista François Arago (1786 -1853), secretário da Academia de Ciências, explicou o processo e comunicou que o governo francês havia adquirido o invento, colocando-o em domínio público. A notícia da invenção do daguerreótipo chegou ao Brasil muito rapidamente com a publicação de um artigo no “Jornal do Commercio”, de 1º de maio de 1839, sob o título “Miscellanea”. A invenção do daguerreótipo, desde sua descoberta, transformou de forma definitiva e radical a linguagem e a cultura visual.

 

 

 

Voltando aos cartões-postais. Com o fim do monopólio do Império, gráficas particulares passaram a produzir postais e foram elas que introduziram a impressão em uma das faces. Os cartões-postais tornaram-se objetos de colecionismo e a cartofilia incrementou os negócios de fotógrafos, de gráficas e de editores, como a Papelaria e Typographia Botelho, localizada na Rua do Ouvidor, 65, esquina com Rua do Carmo, que pertencia a Botelho & C.. Produziam cartões de visita, participações de casamento, convites, menus, álbuns e quadros com vistas do Rio de Janeiro; e cartões-postais (Gazeta de Notícias , 15 de maio de 1911, sexta colunaAlmanak Laemmert, 1915, primeira coluna).

 

 

Em 1913, a Papelaria e Typographia Botelho anunciava a chegada de uma grande e variada coleção de cartões-postais. Será que os publicados neste artigo estariam entre eles? (Jornal do Commercio Edição da Tarde, 16 de dezembro de 1913).

 

 

O último registro da Papelaria e Typographia Botelho no Almanak Laemmert é de 1935. Pertencia, então, a Heitor Coupé & C. e anunciava livros para escrituração e artigos para escritório (Almanak Laemmert, 1935,  segunda coluna).

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

FREYRE, Gilberto. Informação, comunicação e cartão postal. In: Freyre, Gilberto. Alhos e bugalhos: ensaios sobre temas contraditórios, de Joyce à cachaça; de José Lins do Rego ao cartão postal. Rio de Janeiro: Nova Fronteira. 1978.

RAMOS, Clarice. Postais para ver: cartofilia no Brasil na primeira metade do século XX na coleção de Estella Bustamante. Dissertação de Mestrado – Instituto de História, Universidade Federal Fluminense, Niterói. 2018.

KOSSOY, Boris. Origens e expansão da fotografia no Brasil. Rio de Janeiro: Funarte. 1980.

NEGRO, Antonio Luigi. O cartão-postal no Brasil do início do século XX: suporte para o encontro entre imagem e ação. Hist. cienc. saúde-Manguinhos 27 (3). Jul-Sep 2020.

SCHAPOCHNIK, Nelson. Cartões-postais, álbuns de família e ícones de intimidade. História da vida privada no Brasil: República: da Belle Époque à Era do Rádio. São Paulo: Companhia das Letras, 2001.

VASQUEZ, Pedro Karp. Postais do Brasil (1893-1930). São Paulo: Metalivros, 2002.

 

Outros artigos publicados na Brasiliana Fotográfica em comemoração ao aniversário do Rio de Janeiro

A fundação do Rio de Janeiro, publicado em 1º de março de 2016, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Uma homenagem aos 452 anos do Rio de Janeiro: o Corcovado e o Pão de Açúcar, publicado em 1º de março de 2017, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

O Rio de Janeiro de Juan Gutierrez, publicado em 1º de março de 2019, de autoria de Maria Isabel Ribeiro Lenzi, Doutora em História pela UFF e historiadora do Arquivo Histórico do Museu Histórico Nacional ; e de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

A Praça Paris no aniversário do Rio de Janeiro, publicado em 1° de março de 2023, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

 

 

 

Uma homenagem aos 150 anos da imigração italiana para o Brasil

Para celebrar o Dia Nacional do Imigrante Italiano, a Brasiliana Fotográfica já homenageou essa comunidade e seus descendentes destacando a obra de três talentosos fotógrafos italianos que atuaram no Brasil no século XIX e nas primeiras décadas do século XX: Camillo Vedani (18? – c. 1888)Nicola Maria Parente (1847 – 1911) e Vincenzo Pastore (1865 – 1918), que já foram temas de publicações do portal. Neste artigo, destacaremos as obras dos fotógrafos, também italianos, José Boscagli (1862 -1945) e Luis Terragno (c. 1831 – 1891)

 

Significado da Bandeira da Itália (cores, formato, história,...) -  Enciclopédia Significados

Bandeira da Itália

 

 

José Boscagli (1862 – 1945)

Na maior parte de sua vida, o italiano José Boscagli, nascido em Florença ou em Siena (as fontes variam), foi pintor e desenhista, mas foi também fotógrafo, tendo trabalhado no ateliê de Jacintho Ferrari (18? – 1935), filho do italiano Rafael Ferrari, um dos fotógrafos pioneiros de Porto Alegre, onde passou a morar em torno de 1897. Foi o pintor oficial nas expedições do Marechal Rondon pelo interior do país. Retratou aspectos da fauna, flora, população e costumes locais, destacando-se, especialmente, as representações dos indígenas e aspectos de sua cultura.

 

Acessando o link para as fotografias de José Boscagli disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Luis Terragno (c. 1831 – 1891)

Nascido em Gênova, Luis Terragno foi um dos pioneiros da fotografia no Rio Grande do Sul, onde já encontrava em torno de 1850. Dom Pedro II (1825 – 1891), fotografado por ele, outorgou a Terragno o título de Fotógrafo da Casa Imperial. Foi o fundador da Loja Maçônica Paz e Ordem, em Porto Alegre, e inventou o fixador à base de mandioca, a pistola Terragno, um aparelho para tirar fotografias instantâneas; o Sinete-Terragno e uma máquina para conservar carnes. No período em que atuou no Rio Grande do Sul, do início da década de 1850 a 1891, Luis Terragno testemunhou o crescimento e desenvolvimento de Porto Alegre que, entre 1820 e 1890, passou de cerca de 12 mil habitantes para pouco mais de 52 mil. Os colonos alemães começaram a chegar a partir de 1824 e, os italianos, a partir de 1875. Foi, no estado, contemporâneo dos fotógrafos Justiniano José de Barros (18? -?), de Madame Reeckel (1837 – 19?), de Rafael Ferrari (18? -?) e de Thomas King, dentre outros. Este último também foi agraciado com o título de Fotógrafo da Casa Imperial. Ao longo de sua carreira de fotógrafo, Terragno ofereceu diversos serviços e produtos como, por exemplo, cursos e câmeras para amadores, além de ter investido em técnicas como a estereoscopia e, depois, a impressão fotográfica sobre superfícies diversas – borracha, mármore, porcelana, tecido etc. Teve estabelecimentos fotográficos em diversos endereços de Porto Alegre.

 

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Luis Terragno. [Pedro II, Imperador do Brasil : retrato], 1865. Porto Alegre, RS / Acervo FBN

Acessando o link para as fotografias de autoria de Luis Terragno disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Dia Nacional do Imigrante Italiano

 

A data remete à chegada ao Porto de Vitória, na então província do Espírito Santo, em 17 de fevereiro de 1874, do brigue barca La Sofia, trazendo, a bordo, 388 pessoas oriundas da península itálica, na maioria das regiões do Vêneto e de Trento, esta última ainda sob o domínio austro-húngaro. A La Sofia havia partido de Gênova, em 3 de janeiro de 1874. O desembarque aconteceu, em 21 de fevereiro que, pela  Lei nº 11.687, de 2 de junho de 2008, tornou-se a data oficial, no Brasil, do Dia Nacional do Imigrante Italiano.

 

 

A imigração, após as primeiras leis abolicionistas, tornou-se uma saída para suprir a falta de mão de obra barata. Certamente, esta decisão impactou fortemente o destino dos escravizados no Brasil. Esta expedição, trazendo trabalhadores para substituir a mão de obra escravizada, foi organizada pelo italiano Pietro Tabacchi (? – 1874), que já vivia no país, é considerada o marco do início do processo da migração em massa dos italianos para o Brasil. Foi um empreendimento privado estabelecido a partir de um acordo entre Tabacchi e o Ministério da Agricultura (O Espírito-Santense, 7 de janeiro de 1873, segunda coluna). Inicialmente os colonos trabalharam nas terras de Tabacchi, na colônia de Nova Trento, atual município de Santa Cruz, mas logo houve uma rebelião. Segundo eles, as condições de trabalho eram muito diferentes das combinadas (O Espírito-Santense, 7 de maio de 1874, primeira coluna; e 7 de maio de 1874, segunda coluna).

 

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Pietro Tabacchi (? – 1874)

 

Um grupo seguiu para as colônias do Sul do país. Outro, formado por 145 italianos, se instalou na Colônia Imperial de Santa Leopoldina. Chegando à colônia, foram para o Núcleo do Timbuy, hoje Santa Teresa, primeiro município fundado por italianos, na Região Serrana do Espírito Santo.

 

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Estima-se que, atualmente, aproximadamente 35 milhões de descendentes de italianos vivam no Brasil.

Uma curiosidade: A Hospedaria de Imigrantes do Brás, em São Paulo, inaugurada em 1887, e, desde 1993, local do Museu da Imigração, acolheu cerca de 800 mil imigrantes italianos durante o final do século XIX e início do século XX.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Brasiliana Fotográfica

Folha de São Paulo

G1

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Site DW

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O aniversário de São Paulo na Brasiliana Fotográfica

Para celebrar os 470 anos da cidade de São Paulo, a Brasiliana Fotográfica selecionou alguns artigos cuja personagem principal é justamente a cidade. O portal convida seus leitores a um passeio pela metrópole, que é o maior centro financeiro da América do Sul e uma das mais populosas do mundo, retratada por diversos fotógrafos presentes no acervo fotográfico da Brasiliana Fotográfica, dentre eles Alfredo Krausz (? – 19?), Claude Lévi-Strauss 91908 – 2009), Edgard Egydio de Souza (1876 – 1956), Frédéric Manuel  (18? – 19?), Guilherme Gaensly (1843 – 1928), Militão Augusto de Azevedo (1837 – 1905) e Vincenzo Pastore (1865 – 1918), além de fotógrafos ainda não identificados. Não deixem de usar a ferramenta zoom para percorrer as ruas, visitar os monumentos e observar o movimento das pessoas e  também as paisagens e edificações da cidade. As imagens são da segunda metade do século XIX até as primeiras décadas do século XX. Feliz aniversário, São Paulo!

 

 

 

 

Lista de artigos publicados na Brasiliana Fotográfica cuja personagem principal é a cidade de São Paulo

 

Brasão de armas de São Paulo

Brasão da cidade de São Paulo onde está escrito em latim NON DYCOR DVCO, que quer dizer “Não sou conduzido, conduzo”

 

Militão Augusto de Azevedo (1837 – 1905) e sua obra-prima, o “Álbum comparativo da cidade de São Paulo 1862-1887″, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 24 de maio de 2015

Vincenzo Pastore, um fotógrafo entre dois mundos (Casamassima, Itália 5 de agosto de 1865 – São Paulo, Brasil 15 de janeiro de 1918), de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 5 de agosto de 2015

São Paulo sob as lentes do fotógrafo Guilherme Gaensly (1843 – 1928), de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 25 de janeiro de 2017

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IV – Rua 25 de março em São Paulo, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 1º de setembro de 2020

A cidade de São Paulo e Tebas (1721 – 1811), reconhecido como arquiteto, em 2018, mais de 100 anos após sua morte, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 25 de janeiro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XI – A Rua da Esperança, em São Paulo, por Vincenzo Pastore, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 14 de dezembro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XII – A Avenida Paulista, o coração pulsante da metrópole, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 21 de janeiro de 2022

O Edifício Martinelli, antigo referencial e símbolo de São Paulo, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 16 de maio de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVI – “Alguma coisa acontece no meu coração”, a Avenida São João nos 469 anos de São Paulo, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 25 de janeiro de 2023 

O Dia do Advogado e a criação das Faculdades de Direito de São Paulo e do Recife, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 11 de agosto de 2023. 

 

 

 

 

 

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVIII – Avenida Beira-Mar

Hoje publicamos o 18º artigo da série Avenidas e ruas do Brasil, sobre a Avenida Central, considerada a considerada a mais bela via corso do mundo. Após cerca de dois anos de obras, sob a direção do engenheiro Mário Roxo, seu primeiro trecho foi inaugurado, em 12 de novembro de 1906, pelo presidente da República, Rodrigues Alves (1848 – 1919), cujo mandato terminou três dias depois; e pelo prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos (1836 – 1913). Foi o engenheiro André Rebouças (1838 – 1898) que, ainda no século XIX , projetou  a construção de uma avenida monumental à beira-mar, do Passeio Público até a Praia da Saudade, atual Praia Vermelha. O diretor-geral de Obras Municipais, Luiz Rafael Vieira Souto (1849 – 1922), em 1894, relembrou a ideia a Henrique Valadares (1852 – 1930), então prefeito do Rio de Janeiro. Em 7 de setembro do mesmo ano, as obras foram iniciadas, porém, com a saída de Vieira Souto e de Valadares de seus cargos, foram interrompidas, em 31 de dezembro de 1894.

 

 

O portal convida o leitor a uma passeio pela avenida a partir de imagens produzidas por fotógrafos ainda não identificados, por Antônio Caetano da Costa Ribeiro (18? – 19?), Augusto (1864 – 1957) e Aristógeton Malta (1904 – 1954), pai e filho, respectivamente; Carlos Bippus (18? – 19?), Felipe Augusto Fidanza (1844 – 1903), Guilherme Santos (1871 – 1966), Jorge Kfouri (1893 – 1965), Leonar (18? – 19?), Luiz Musso (18? -1908), Marc Ferrez (1843 – 1923) e Torres (18? – 19?). São cenas de sua bela paisagem da Avenida Beira-Mar, de ressacas, de suas obras, de pessoas passeando ou aguardando a passagem de visitas ilustres; de construções em suas proximidades e da inauguração de monumentos, dentre outras.

Acessando o link para as fotografias da Avenida Beira-Mar disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

O primeiro trecho tinha aproximadamente três quilômetros, partindo da Avenida Central, atual Rio Branco, e indo até Botafogo (Gazeta de Notícias, 13 de novembro de 1906). Foi construído pela Construtora da Avenida Central e pela Empresa Construtora da Avenida Beira-Mar, sob a direção técnica do já citado Mário Roxo, auxiliado pelos engenheiros Adolfo Costa da Cunha Lima, Antônio de Barros Vieira Cavalcante e José Inácio da Rocha Werneck. As aberturas das duas avenidas, a Beira-Mar e a Central, que havia sido inaugurada, em 7 de setembro de 1904, foram destaques na reforma urbana realizada por Pereira Passos, que ficou popularmente conhecida como o bota-abaixo, entre 1902 e 1906, período em que foi prefeito do Rio de Janeiro.

 

 

“No curto prazo de 23 meses foi construído em terreno quase exclusivamente conquistado ao mar um dos mais extenso e lindos passeios do mundo”

Gazeta de Notícias, 13 de novembro de 1906

 

 

“Em toda a extensão do cais, formado de oito fiadas de cantaria, emregaram-se pedras de mais de quatro toneladas, num total de 1.000.000 de metros cúbicos de alvenaria. O consumo de cimento foi de 25.000 barricas de 180 quilos, e o aterro atingiu a 3.000.000 de metros cúbicos. Custou a Avenida Beira-Mar, inclusive o enrocamento do cais, cerca de oito mil contos de réis”

Charles Julius Dunlop

 

 

Foi finalizada em outubro de 1907. Contornava a orla desde a antiga Praia de Santa Luzia, passando em frente à Cinelândia (antiga Praia da Ajuda), Praia do Boqueirão (em frente ao Passeio Público), Lapa, Glória, Russel e Flamengo, até chegar em Botafogo. Estas praias foram aterradas para sua construção. Uma estreita faixa de areia continuou a existir no Flamengo, permitindo o banho de mar.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Dunlop, Charles Julius. Rio Antigo. Rio de Janeiro: Editora Rio Antigo, 1963.

FERNANDES, Neusa; COELHO,Olino Gomes P. Efemérides Cariocas. Rio de Janeiro, 2016.

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Links para as outras publicações da série “Avenidas e ruas do Brasil”

Série “Avenidas e ruas do Brasil” I– A Avenida Central, atual Rio Branco, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 7 de setembro de 2016

Série “Avenidas e ruas do Brasil” II – A Rua do Imperador em Petrópolis por Klumb, Leuzinger e Stahl, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 26 de junho de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” III – A Rua do Bom Jesus, no Recife, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 6 de agosto de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IV – A Rua 25 de Março, em São Paulo, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 1º de setembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” V – A Rua Direita, a Rua das Mercês e a Rua Macau do Meio, em Diamantina, Minas Gerais, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 22 de outubro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VI  – Rua Augusto Ribas e outras, em Ponta Grossa, no Paraná, pelo fotógrafo Luiz Bianchi, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 16 de novembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VII – A Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 23 de dezembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil VIII – A Rua da Carioca por Cássio Loredano, de autoria de Cássio Loredano, publicada em 20 de janeiro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IX – Ruas e panoramas do bairro do Catete, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 14 de julho de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” X – A Rua da Ajuda, no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 9 de novembro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XI – A Rua da Esperança, em São Paulo, por Vincenzo Pastore, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 14 de dezembro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XII – A Avenida Paulista, o coração pulsante da metrópole, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 21 de janeiro de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XIII – A Rua Buenos Aires no Centro do Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 19 de julho de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XIV – A Avenida Presidente Vargas,, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 31 de agosto de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XV – Misericórdia: rua, largo e ladeira, no Rio de Janeiro, por Cássio Loredano, de autoria de Cássio Loredano, publicada em 8 de dezembro de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVI – “Alguma coisa acontece no meu coração”, a Avenida São João nos 469 anos de São Paulo, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 25 de janeiro de 2023

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVII  e série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXIII – A Praia e a Rua do Russel, na Glória, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 15 de maio de 2023

 

Série “O Rio de Janeiro desaparecido XXVII e Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” V – O Jockey Club e o Derby Club, na Avenida Rio Branco e o arquiteto Heitor de Mello (1875 – 1920)

A Brasiliana Fotográfica publica hoje o 27º artigo da série O Rio de Janeiro desaparecido, sobre os prédios do Jockey Club e do Derby Club, na Avenida Rio Branco, demolidos na década de 1970; e o 5º da série Os arquitetos do Rio de Janeiro, sobre Heitor de Mello (1875 – 1920), autor do projeto dos dois edifícios. Com um registro de autoria de um fotógrafo ainda não identificado e duas estereoscopias de Guilherme Santos (1871 – 1966), o portal vai contar um pouco da história destas construções e de seu arquiteto, além de traçar um pequeno histórico dos dois clubes e do início do turfe no Brasil.

 

 

O fotógrafo amador Guilherme Santos (1871 – 1896) foi um entusiasta da fotografia estereoscópica, tendo sido um dos pioneiros dessa técnica no Brasil, ao adquirir, em 1905, na França, o Verascope, um sistema de integração entre câmera e visor, que permitia ver imagens em 3D, produzidas a partir de duas fotos quase iguais, porém tiradas de ângulos um pouco diferentes. Eram impressas em uma placa de vidro e reproduziam a sensação de profundidade de maneira bem próxima da visão real. Antes dele, entre os anos de 1855 e 1862, o “Photographo da Casa Imperial”, Revert Henrique Klumb (1826 – c. 1886), favorito da imperatriz Teresa Christina (1822 – 1889) e professor de fotografia da princesa Isabel (1846 – 1921), havia produzido vários registros utilizando a técnica da estereoscopia. A Casa Leuzinger também produziu fotografias estereoscópicas.

 

Acessando o link para as fotografias do edifício do Jockey Club e do Derby Club, na Avenida Rio Branco, no Rio de Janeiro disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas

 

As sedes do Jockey Club e do Derby Club

 

 

O Jockey Club foi fundado, em 16 de julho de 1868, nos salões da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional com o fim de dar corridas de cavallo no Prado Fluminense. Seu primeiro presidente foi o comendador Mariano Procopio Ferreira Lage (1821 – 1872), empresário mineiro e diretor da Companhia União e Indústria.

 

 

 

Em 1911, foi iniciada a construção de seu edifício-sede, na Avenida Rio Branco, nº 193,  inaugurado em 1913. A festa dos 45 anos do Jockey Club foi realizada, em 16 de julho de 1913, já na nova sede. Seu projeto foi do arquiteto Heitor de Mello (1875 – 1920). Como construtores, destacaram-se os engenheiros João Pradatzky e Francisco Peixoto. Foi durante décadas o ponto de encontro do mundanismo elegante e sofisticado da cidade.

O Derby Club, clube de turfe, esportes equestres e atividades sociais, foi fundado, em 6 de março de 1885, sob a organização do engenheiro Paulo de Frontin (1860 – 1933).

 

 

 

Seu hipódromo era o Prado do Itamaraty, onde hoje encontra-se o Estádio do Maracanã

 

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Localização dos antigos prados do Derby Club e do Jockey Club

 

 

Em 6 de março de 1916, foi dada uma bênção ao segundo edifício-sede do Derby Club, também na Avenida Rio Branco e também projeto de Heitor de Mello. Ficava ao lado do prédio do Jockey Club (O Paiz, 7 de março de 1916, penúltima coluna).

 

A fusão do Jockey e do Derby originando o Jockey Club Brasileiro

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Em 1932, os dois principais clubes turfísticos da cidade do Rio de Janeiro, o Jockey e o Derby, fundiram-se, constituindo o Jockey Club Brasileiro. O conjunto dos dois imóveis na Avenida Rio Branco transformou-se na sede da nova entidade (Jornal dos Sports, 6 de fevereiro de 1932, sexta coluna).

 

 

 

No ano seguinte, o Hipódromo da Gávea, que havia sido inaugurado pelo Jockey Club, em 11 de julho de 1926, uma réplica do antigo Hipódromo de Longchamps no Bois de Boulogne e o palco mais tradicional do turfe brasileiro, sediou pela primeira vez a maior corrida de cavalo nacional, o GP Brasil, sacramentando a união das duas instituições. Foi disputado no primeiro domingo de agosto de 1933, no dia 6, e vencido pelo cavalo brasileiro Mossoró, montado por Justiniano Mesquita (Fon-Fon, 12 de agosto de 1933).

 

 

A atual sede social do Jockey Club Brasileiro ocupa um quarteirão formado pela Avenida Amtônio Carlos, Nilo Peçanha, Almirante Barroso e Rua Debret, no Centro da cidade, e foi inaugurada em 16 de julho de 1974. Seu projeto foi justamente do arquiteto Lúcio Costa (1902 – 1998), um dos principais defensores da demolição dos antigos prédios do Jockey e do Derby na Avenida Rio Branco (Manchete, edição especial, 1974; Diário de Notícias, 16 de julho de 1974).

 

 

Pequeno histórico da demolição

 

Em julho de 1972, o Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB) propôs ao Instituto do Patrimônio Histórico Nacional (IPHAN) o tombamento do conjunto arquitetônico remanescente da antiga Avenida Central, atual Rio Branco, composto pelo Obelisco, pelo Tribunal de Justiça, pela Biblioteca Nacional, pela Escola Nacional de Belas Artes, pelo Derby Clube, pelo Jockey Club, pelo Clube Naval, pelo Teatro Municipal, pelo Palácio Monroe e pela Assembleia. O parecer do relator do processo, o arquiteto Paulo Santos (1904 – 1988), foi favorável à preservação. Cerca de dois meses depois, o arquiteto e urbanista Lúcio Costa, que havia sido estagiário de Heitor de Mello, apresentou ao IPHAN, de onde era aposentado, o texto Problema Mal Posto, rebatendo o parecer de Paulo Santos, por não reconhecer mérito artístico nestes prédios. Em fevereiro de 1973,  o conselho superior do IPHAN realizou a sessão final sobre o processo de tombamento, quando a proposta de Lúcio Costa de avaliar, em separado, os prédios foi aprovada. Não entraram no livro de tombamento o Jockey Club, o Derby Club e o Palácio Monroe, todos demolidos ao longo da década de 1970. No lugar dos prédios do Jockey e do Derby foi erguido um edifício de 40 pavimentos. No lugar do Palácio Monroe, existe hoje o maior chafariz do Rio de Janeiro – com 10 metros de altura -, comprado na Áustria pelo governo imperial brasileiro, em 1878.  Em homenagem ao palácio, é chamado de Chafariz do Monroe. No estilo Napoleão III,  é uma obra de Mathurin Moreau, que foi executada na fundição francesa Societé Anonyme des Hauts-Fourneaux & Fonderies du Val d’Osne.

Curiosamente, Lúcio Costa, no artigo Muita construção, alguma arquitetura e um milagre, de 1951, declarou a respeito da arquitetura brasileira do período entre final do novecentos e início do século XX (Correio da Manhã, de 15 de junho de 1951, segunda coluna):

 

 

 

Breve perfil do arquiteto Heitor de Mello (1875 – 1920)

 

“Não podemos deixar, neste primeiro número da revista “Architectura no Brasil”, de rendermos a nossa homenagem à memória desse ilustre e inolvidável cultor da architectura pátria. A ele devemos sem dúvida os primeiros passos para o embelezamento de nossa cidade, que estão sendo brilhantemente continuados pela pleiade de artistas que ele preparou”. Assim começava o artigo, publicado em outubro de 1921,  que lembrava o primeiro ano de morte do arquiteto Heitor de Mello (1875 – 1920).

 

 

Heitor de Mello foi um destacado arquiteto da segunda fase do ecletismo carioca, influenciado predominantemente pela École des Beaux Arts de Paris, via Escola de Belas Artes do Rio do Janeiro. Segundo Maria Lúcia Pinheiro Ramalho: Heitor de Mello especializou-se no emprego dos estilos classicizantes da renascença francesa, utilizando-os de acordo com a função do edifício, numa forma bastante personalista do ecletismo tipológico. 

 

 

Nasceu no Rio de Janeiro, em 12 de setembro de 1875, filho do almirante Custódio de Mello (1840 – 1902), um dos líderes da Revolta da Armada e, posteriormente, ministro da Marinha, da Guerra, e ministro interino das Relações Exteriores do governo do presidente Floriano Peixoto (1839 – 1895); e de Edelvira Pereira Pinto de Mello. Casou-se com Silvia Peixoto de Mello e tiveram duas filhas: Maria Cecília Mello Freeman e Maria Luiza Mello Sertório.

Segundo o crítico de arte José Mariano Carneiro da Cunha Filho (1881 – 1946): não era um caçador de amigos, voluntarioso, áspero, incisivo, não poupava os medíocres, nem se apiedava dos incapazes. Combatido não deu trégua aos invejosos. Os inimigos temiam-lhe os epigramas, os invejosos a elegância de maneiras, as boas roupas talhadas nos alfaiates de Londres.

 

 

Iniciou seus estudos no Rio de Janeiro e passou um período na Europa. Heitor formou-se em Arquitetura pela Escola Nacional de Belas Artes (ENBA), onde estudou entre 1895 e 1900, sob a direção do escultor Rodolfo Bernadelli (1851-1931). Foi aluno de Adolfo Morales de Los Rios (1858 – 1928) e de Ernesto da Cunha de Araújo Vianna (1852-1920) e contemporâneo dos pintores Lucilio de Albuquerque (1877 – 1939), Theodoro Braga (1872 – 1953) e João Timotheo da Costa (1878 – 1932), do escultor José Otávio Correa Lima (1878 – 1974) e do arquiteto Aluisio Stahlembrecher (18? – 19?), dentre outros (Gazeta de Notícias, 23 de junho de 1899, penúltima coluna; O Paiz, 18 de janeiro de 1900, última coluna).

 

 

Em 1900, participou da exposição da Escola Nacional de Belas Artes (O Paiz, 2 de setembro de 1900, penúltima coluna). Mais tarde, em 1913, Heitor tornou-se professor da instituição e lecionava Composições de Arquitetura, seu Desenho e Orçamentos. Em 1918, passou a professor catedrático.

 

 

A importância da ENBA e de Heitor de Mello na formação de arquitetos foi ressaltada no artigo O renascimento da Architectura no Brasil (Architectura no Brasil, outubro de 1921):

“Inaugurada a nova Escola Nacional de Bellas Artes. Formaram-se os primeiros arquitetos brasileiros tendo à frente Heitor de Mello. Daí para cá, todos os anos, têm-se sucedido novas turmas de jovens artistas, os pugnadores do ressurgimento arquitetonico do Brasil. Até hoje, todavia, eles não puderam ainda ser compreendidos, ou talvez não tivessem ainda número suficiente para vencer a onda invasora dos deturpadores da estética das nossas cidades. Heitor de Mello, entretanto impôs-se, nesse meio árido, pelo seu talento, sua cultura artística e sua coragem. Os que o acompanharam, os que souberam aproveitar as suas lições, tornaram-se grandes arquitectos, e, assim, possui, hoje o Rio de Janeiro, um grupo já numeroso, que assombrosamente vem se impondo á admiração do governo e do povo”.

Em 1º de julho de 1901, Heitor foi admitido como sócio do Club de Engenharia. Ainda na década de 1910, recebeu o Grande Prêmio de Arquitetura da Exposição Nacional de 1908, da qual foi responsável pela perspectiva.

 

 

Segundo o historiador da arquitetura Yves Bruand (1926 – 2011), o Escritório Técnico Heitor de Mello, fundado em 1898, foi a primeira organização comercial de arquitetura no Brasil dedicada ao desenvolvimento de projetos, acompanhamento e fiscalização de obras.

Em 1905, a autoria de um de seus projetos, uma construção na Avenida Central, estava sendo atribuida a outro arquiteto. Heitor de Mello prontamente reagiu. A abertura da avenida foi uma das principais marcas da reforma urbana realizada por Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), o bota-abaixo, entre 1902 e 1906, período em que foi prefeito do Rio de Janeiro. Essas transformações foram definidas por Alberto Figueiredo Pimentel (1869-1914), autor da seção “Binóculo”, da Gazeta de Notícias, com a máxima “O Rio civiliza-se”, que se tornou o slogan da reforma urbana carioca. Sob um temporal, a avenida foi aberta oficialmente, em 15 de novembro de 1905 (O Paiz, 16 de novembro de 1905, na quinta coluna, sob o título “15 de Novembro”).

 

 

Em 1906, o edifício do Club de Engenharia, projeto de Raphael Rebecchi (1844 – 1922), que estava em construção na Avenida Central, sob a responsabilidade de Heitor de Mello, desabou causando a morte de dois operários, mas ele foi impronunciado pela Justiça (O Paiz, 15 de fevereiro de 1906; O Paiz, 7 de junho de 1908, quarta coluna). Cerca de um ano depois, participou da Exposição da Escola Nacional de Belas Artes com a exibição do projeto dele e de Francisco de Oliveira Passos (1878 – 1958), filho do ex-prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), para o novo prédio do Congresso Nacional (O Paiz, 31 de agosto de 1907, primeira coluna).

Em 1908, casou-se com Sylvia Rodrigues Peixoto (O Paiz, 25 de junho de 1908, última coluna).

Quando Heitor de Mello faleceu, em 15 de agosto de 1920, aos 44 anos, de uma nevrite cardíaca (Gazeta de Notícias, 16 de agosto de 1920, quarta coluna), Archimedes Memória (1893 – 1960), um de seus discípulos, que já trabalhava com ele desde 1918, passou a ser sócio do escritório com o franco-suíço Francisque Couchet (18? – 19?). Memória também, em 1920, sucedeu Heitor como professor de desenho de ornatos e elementos de arquitetura e composição de arquitetura da Escola Nacional de Belas Artes. Em um artigo publicado em 1924, Memória e Cuchet referiram-se a Heitor de Mello como …Genuíno gênio nacional que foi o arquiteto Heitor de Mello cuja atividade e proficiência dotaram o Rio de Janeiro de belos e grandiosos edifícios como o Jockey Club, Derby Club...(Correio da Manhã, 13 de janeiro de 1924, quarta coluna).

 

 

Por iniciativa do já mencionado José Mariano Carneiro da Cunha Filho foi instituído, em 1921, o Prêmio Heitor de Mello, que seria anual, conferido em concurso público e julgado pelo Instituto Brasileiro de Arquitetos (Architectura Brasileira, outubro de 1921, segunda coluna).

Em 18 de dezembro, foi aberta na Escola Nacional de Belas Artes uma exposição com os trabalhos realizados por Heitor de Mello (Correio da Manhã, 16 de dezembro de 1920, penúltima coluna).

 

 

No artigo Um archictecto, de Adalberto Mattos, publicado, em março de 1921, na Illustração Brasileira, várias imagens de projetos de Heitor de Mello foram publicadas.

 

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Lista dos principais trabalhos realizados por Heitor de Mello ao longo de 22 anos de vida profissional:

 

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Errata da listagem publicada no número seguinte da revista: o projeto do prédio de Antônio Maria da Costa, à Avenida Rio Branco, é de Morales de los Rios. A execução foi de Heitor de Mello (Illustração Brasileira, março de 1921Archictectura no Brasil, novembro de 1921, segunda coluna).

A Brasiliana Fotográfica já publicou dois artigos sobre projetos de Heitor de Mello:

Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXIV – O luxuoso Palace Hotel, na Avenida Rio Branco, uma referência da vanguarda artística no Rio de Janeiro, de autoria da pesquisadora e editora do portal, Andrea C. T. Wanderley, publicado em 4 de julho de 2023

O centenário do Palácio Pedro Ernesto, de autoria da pesquisadora e editora do portal, Andrea C. T. Wanderley, publicado em 21 de julho de 2023

 

O início do turfe do Brasil e pequeno histórico do Jockey Club e do Derby Club

Início do turfe no Brasil 

Cavalo de corrida jokey. desenho de tinta preto e branco | Foto Premium

 

O mais antigo registro da realização de corridas de cavalo no Rio de Janeiro é de 25 de maio de 1814 e foi publicado na Gazeta do Rio de Janeiro. As carreiras aconteciam na Praia de Botafogo e eram organizadas por um grupo de comerciantes ingleses estabelecidos na cidade.

 

 

Há o registro das presenças de dom Pedro I (1798 – 1934) e de dona Leopoldina (1797 – 1924) em uma dessas corridas, realizada no dia 31 de julho de 1825, na Praia de Botafogo (Diário Fluminense, 2 de agosto de 1925, primeira coluna).

 

 

No dia 6 de março de 1847, foi publicado no Jornal do Commercio, um tipo de convocação para a instituição mais regular das atividades turfísticas no Brasil, origem da fundação do Club de Corridas, uma sociedade anônima. Os subscritores da iniciativa foram convidados para uma reunião no dia 15 de julho do mesmo ano, em uma sala da assembleia do Cassino, defronte do Passeio Público, quando foi instalada a associação, discutido seus estatutos e eleita sua diretoria (Jornal do Commercio, 6 de março de 1847, segunda coluna; e 14 de julho de 1847, segunda coluna). O grupo do Club de Corridas era formado por Luis Alves de Lima e Silva (1803 – 1880), futuro Duque de Caxias, o coronel Polidoro da Fonseca Quintanilha Jordão (1802 – 1879), o cirurgião Antonio da Costa, o corretor de fundos Henry Harper, o agricultor e capitalista comendador Teles, o major João Guilherme Suckow, Alexander Reed e o Barão do Rio Bonito. O secretário da nova sociedade, João Pereira Darrigue Faro (1803 – 1856), segundo barão e primeiro visconde  do Rio Bonitoem nome de seu primeiro presidente, Luís Alves de Lima e Silva (1803 – 1880)futuro Duque de Caxias, convocou os diretores do Club de Corridas à uma reunião, no dia 6 de dezembro, para tratar-se da comprar de um terreno (Jornal do Commercio, 5 de dezembro de 1847, primeira coluna).

 

 

 

Reuniram-se em maio de 1848 para discutir seus estatutos e deliberar mais uma vez sobre a compra de um terreno (Correio Mercantil, 26 de maio de 1848, última coluna).

Em  janeiro de 1849, foi eleita uma nova diretoria para o Club de Corridas, sob a presidência do Barão do Rio Bonito. O secretário era Marianno Procópio Ferreira Lage (1821 – 1872), que veio a ser, como já mencionado, o primeiro presidente do Jockey Club. Tomaram posse em 5 de fevereiro  de 1849 (Jornal do Commercio, 10 de junho de 1849, primeira coluna).

 

 

Começaram a construir  um prado em São Francisco Xavier, o Prado Fluminense, que ficava na área onde hoje se encontra a UERJ. Em 1º de novembro de 1850, foi realizada a única corrida no Prado Fluminense patrocinada pelo Club de Corridas. Curiosamente, um dos regulamentos da prova era: matar-se-ha qualquer cachorro que ali apparecer. O primeiro páreo disputado foi vencido pelo cavalo Malacarinha, propriedade de Manoel Rocha Maia, montado pelo jóckei D. Thomaz (Jornal do Commercio, 21 de outubro de 1850, última coluna1º de novembro de 1850, penúltima coluna).

 

 

Ainda em 1850,  uma nova reunião foi convocada pelo Club de Corridas para que fosse realizada a revisão dos estatutos e a tomada de decisão sobre a melhor forma de levantar-se recursos para a conclusão das obras do Prado Fluminense. Decidiu-se pelo arrendamento (Correio Mercantil, 19 de novembro de 1950, terceira coluna; 29 de novembro de 1950, quarta coluna).

 

 

Em 3 de fevereiro de 1851, o major alemão João Guilherme Suckow (1797 – 1869) e David Stevenson foram formalizados como os  arrendatários do prado (Correio Mercantil, 1º de abril de 1951, primeira coluna).

 

 

O Prado Fluminense tinha 1.056 metros e tinha o formato de uma ferradura. Ao seu lado foi construída uma arquibancada para 800 pessoas e um pavilhão destinado à família imperial. Em 13 de junho de 1851, foi inaugurado (Jornal do Commercio, 13 de junho de 1851, última coluna; 14 de março de 1851, quarta coluna). Foi um evento de sucesso com o comparecimento de cerca de quatro mil pessoas, dentre eles dom Pedro II e dona Teresa Cristina, que foram recebidos com a execução do Hino Nacional. Os páreos foram vencidos pelos cavalos OrestesNeptunoMalacarinhaSultão, LoteriaKaleb (Jornal do Comercio, 15 de junho de 1851, terceira coluna; A Marmota na Corte, 17 de junho de 1851)

 

 

A segunda corrida aconteceu em 14 de setembro do mesmo ano e também contou com a presença de Pedro II (A Marmota na Corte, 16 de setembro de 1851, segunda colunaO Liberal, 24 de setembro de 1851, primeira coluna).

As corridas prosseguiram sem interrupção até 1854, ano em que um dos empregados de Suckow ateou fogo à arquibancada, destruindo-a. Este fato somado ao prejuízo causado pela última corrida realizada no prado levou à liquidação do Jockey Club Fluminense e à decretação de venda em hasta pública de todos do seus bens móveis e imóveis, só concluída em 1865.

 

 

Como Suckov não podia mais arcar sozinho com os custos do Prado Fluminense, em 9 de junho de  1854, foi fundado o Jockey Club Fluminense, segunda entidade dedicada ao turfe no Rio de Janeiro, sob a presidência do general Polydoro da Fonseca Quintanilha Jordão (1802 – 1879), futuro Visconde de Santa Thereza.  Entre 1854 e 1865, Suckow tornou-se um dos três acionistas do Jockey Club Fluminense e em 7 de setembro de 1865 tornou-se o dono de toda a propriedade. Mudou o traçado do Prado Fluminense, construiu uma nova arquibancada e começaram a se realizar corridas de cavalos, principalmente, de amadores (Gazeta de Notícias, 17 de julho de 1904).

 

 

 

Polydoro da Fonseca Quintanilha Jordão havia sido um dos fundadores do Club de Corridas e esteve, em 1868, presente à assembleia de inauguração do Jockey Club. Foi condecorado por mérito e bravura por sua participação na Guerra do Paraguai. Foi ministro da Guerra, em 1862. A primeira corrida promovida pela nova associação, no Prado Fluminense, aconteceu em 17 de setembro de 1854 com a presença de dom Pedro II (1825 – 1891) e cerca de 1500 pessoas. As corridas foram vencidas pelos cavalos Bonjardim e Hummel. O evento foi um dos temas do Folhetim do Jornal do Commercio e também da crônica Ao correr da Penna, da Gazeta Mercantil (Jornal do Commercio31 de agosto de 1854, última coluna; 18 de setembro de 1854, penúltima coluna24 de setembro de 1854; Correio Mercantil, 24 de setembro de 1854, primeira coluna).

 

 

Os prejuízos acumulados e a queda do interesse do público levaram à extinção do Jockey Club Fluminense após ter sido realizado esse único evento (Correio Mercantil, 18 de fevereiro de 1855, última colunaDiário do Rio de Janeiro, 2 de junho de 1856, última coluna).

Em 23 de agosto de 1957, foram realizadas as primeiras corridas de cavalos promovidas pelo Jockey Club de Petrópolis, no Prado do Fragoso, construído com 500 braças de extensão, no fim da Estrada de Ferro de Mauá. Não foram muito concorridas. Os cavalos ganhadores foram Tebiriça, de José Basílio Teixeira Pires; Crioulo, de Luiz Pinheiro de Siqueira;  Malcreado, de Guilherme de Suckov; Locomotiva, do Barão de Mauá; Fulminante, de Antônio Fernando da Piedade; e Relâmpago, montado por seu proprietário, Manuel da Silva Torres (Correio Mercantil, 23 de julho de 1857, terceiro colunaDiário do Rio de Janeiro, 6 de agosto de 1857, quinta coluna; 16 e 17 de agosto de 1857, penúltima coluna; 24 de agosto de 1857, segunda coluna; 30 de agosto de 1857, primeira coluna; e A Pátria, 6 de agosto de 1857, terceira coluna).

Em Pernambuco, no Hotel Inglez, no Recife, em 12 de novembro, foi instalada uma sociedade denominada Jockey Club (Correio Mercantil, 26 de novembro de 1859, quarta coluna).

Em 27 de maio de 1866, foi fundado, no Rio de Janeiro, o Club Jacome, no picadeiro da rua do Areal. O nome foi uma homenagem ao mestre de equitação Luiz Jacome de Abreu Souza (1828 – 1903). Ele havia promovido, com grande sucesso, no ano anterior, em 26 de novembro de 1865, a primeira corrida de Stepple-Chase – cavalos com obstáculos -, realizada no Brasil. Aconteceu no Campo de São Cristóvão, no Rio de Janeiro. Foram incumbidos pela organização dos estatutos do Club Jacome, além do próprio Jacome, Francisco da Costa Ferraz, Joaquim José da França Junior, Pedro Dias Gordilles Paes Leme e Manoel da Motta Teixeira. Os estatutos foram aprovados pelo governo em 28 de janeiro de 1867 e o Decreto 3.794, de 30 de janeiro de 1867, autorizou a organização da nova entidade (Diário das Leis). Este foi o primeiro ato público relativo a corridas de cavalos no Brasil.

O Clube Jacome chegou a comemorar um ano de existência com a realização de um segundo Stepple-Chase, mas logo desapareceu devido a divergências em relação à localização de seu prado (Novo e Completo Índice Chronologico da História do Brasil, 1854 e 1866; Correio Mercantil, 28 de maio de 1866, primeira colunaBazar Volante, 11 de novembro de 1867; Gazeta de Notícias, 17 de julho de 1904A Noite, 21 de julho de 1951). Foi o tema da comédia teatral escrita por França Júnior, Entrei para o Clube Jacome, que estreou em 12 de janeiro de 1867, no Theatro Gymnasio (Diário do Rio de Janeiro, 12 de janeiro de 1867, última coluna). Luiz Jacome escreveu cinco livros sobre hipologia, tornou-se sócio honorário do Jockey Club, em 1875, e foi o idealizador do que hoje conhecemos como photochart.

 

 

 

Em 15 de julho de 1861, no Rio de Janeiro, uma sociedade denominada Jockey Club promoveu suas primeiras corridas de cavalos na Praia Vermelha (Correio Mercantil, 17 de julho de 1861, terceira coluna).

 

Pequeno histórico do Jockey Club

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O novo Jockey Club foi fundado em 16 de julho de 1868, nos salões da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional com o fim de dar corridas de cavallo no Prado Fluminense, sob a presidência do comendador Mariano Procopio Ferreira Lage (1821 – 1872), empresário mineiro e diretor da Companhia União e Indústria.

 

 

A decisão de fundação da nova entidade foi tomada em duas reuniões.

 

Modelo dos primeiros títulos de sócio emitidos pelo Jockey Club

Modelo dos primeiros títulos de sócio emitidos pelo Jockey Club

 

A primeira foi realizada, em 7 de junho de 1868, na casa do Conde de Herzberg (1822 – 1899), sita no Prado Fluminense. Ele era um capitão reformado do exército prussiano e marido de Leopoldine, filha do major Suckow. Compareceram a esse encontro aqueles que são considerados os dez sócios fundadores do Jockey Club: além do anfitrião, estavam presentes Felisberto Paes Leme (1794 -1887), João Guilherme Suckow (1797 – 1869), Joaquim José Teixeira (1811 – 1885), Henrique Germarck Possolo (18?-1903), Henrique José Teixeira (? -?), Henrique Lambert (?-?), Henrique Moller  (?-?), Luiz de Suckow (1845 – 1878) e Fernando Francisco da Costa Ferraz  (1838 – 1907). À segunda, realizada em 20 de junho, na rua do Conde, nº 37, na casa de Costa Ferraz, médico mineiro, antigo secretário do Club Jacome, que tornou-se um dos diretores do Jockey Club e foi seu presidente entre 1899 e 1903, compareceram 17 pessoas (Revista da Sociedade Jockey Club, 1870).

Na época, o Prado Fluminense pertencia ao major Suckow, um dos fundadores do extinto Jockey Club Fluminense. Foi arrendado pela diretoria do Jockey Club que, em 16 de junho de 1873, sob a presidência de Felisberto Caldeira Brant Potes, o Visconde de Barbacena, adquiriu dos herdeiros de Suckow a propriedade do terreno e das benfeitorias (Diário do Rio de Janeiro, 17 de julho de 1868, segunda coluna).

 

 

Imagens de alguns dos fundadores do Jockey Club

 

 

 

 

 

Houve uma tentativa de fusão entre o Club Jacome e o novo Jockey Club , porém houve divergências. Na ocasião, o presidente honorário do Club Jacome era o conde d´Eu (1842 – 1922), marido da princesa Isabel (1846 – 1921). Na ata da 2ª sessão da Assembleia do Jockey Club, realizada em 30 de janeiro de 1869, foram relatados os procedimentos da tentativa de fusão do Club Jacome, extinto nos primeiros anos da década de 1870 e refundado em novembro de 1909. Nesta mesma assembleia, o Conde d´Eu tornou-se o primeiro agraciado com o título de sócio honorário do Jockey Club (Jornal do Commercio, 27 de setembro de 1868, penúltima coluna; A Vida Fluminense, 3 de outubro de 1868Jornal do Commercio, 31 de outubro de 1868, penúltima colunaSemana Illustrada, 8 de novembro de 1868, segunda coluna; Revista da Sociedade do Jockey Club, 1870; Correio da Manhã, 24 de novembro de 1909, terceira coluna).

 

 

 

No ano seguinte, em 19 de janeiro de 1869, foi outorgado o Decreto nº 4.323, autorizando a incorporação do Jockey Club e aprovando os estatutos. Em 16 de maio de 1869, foi realizada, com a presença de  d. Pedro II (1825 – 1891) e dona Teresa Cristina (1822 – 1889), a primeira corrida do Jockey Club, no Prado Fluminense (Novo e Completo Índice Chronologico da História do Brasil, 1869). A presença constante da família imperial nas corridas foi fundamental para atrair a sociedade chique e elegante para os páreos.

 

 

Programa das corridas do dia 16 de maio de 1869

Programa das corridas do dia 16 de maio de 1869

 

Em 20 de maio de 1911, foi lançada a pedra fundamental do edifício-sede do Jockey Club, foi inaugurado em 1913,  projeto do arquiteto Heitor de Mello. Ficava na esquina das avenidas Rio Branco e Almirante Barroso e foi um dos centros político e mundano do Rio de Janeiro por mais de 60 anos.

 

 

Pequeno histórico do Derby Club

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Guilherme Santos. Alberto I, rei da Bélgica, durante o Grande Prêmio no Derby Club, 26 de setembro 1920. Rio de Janeiro, RJ / Acervo IMS Com a presença de Epitácio Pessoa e do casal real, realização no Derby Club de um páreo com o nome de Alberto I (O Paiz, 27 de setembro de 1920).

 

A origem do Derby Club é o Club de Corridas Villa Isabel, cujo hipódromo, o segundo do Rio de Janeiro, foi erguido por moradores do bairro de Vila Isabel em terrenos cedidos pela Cia. Architectônica, do Barão de Drummond (1825-1897), que havia sido presidente do Jockey Club, em 1874.

 

 

A corrida inaugural aconteceu em 22 de maio de 1884 (Gazeta da Tarde, 23 de maio de 1884, terceira coluna). Em 17 de outubro do mesmo ano, o Club de Corridas Villa Isabel passou a se denominar Derby Fluminense (Gazeta da Tarde, 24 de outubro de 1884, quinta coluna). Sob a presidência do engenheiro Paulo de Frontin  (1860 – 1933) e, sob esta nova razão social, a entidade patrocinou apenas quatro reuniões, entre novembro e dezembro de 1884.

 

 

 

O Derby Fluminense foi liquidado e seu acervo foi rateado. Os 242 membros que acompanharam o presidente na fundação do Derby Club utilizaram o valor de 56 mil réis, que coube a cada membro do extinto Derby Fluminense, e a isso acrescentaram uma jóia de 100 mil réis para a subscrição de suas respectivas cotas na nova sociedade (Gazeta de Notícias, 2 de março de 1885, terceira coluna; 15 de março de 1885, última coluna).

Surgia, assim, o Derby Clube, clube de turfe, esportes equestres e atividades sociais da cidade do Rio de Janeiro, foi, como já mencionado, fundado em 6 de março de 1885,  sob a organização de Paulo de Frontin (O Paiz, 7 de março de 1885, primeira coluna).

 

Placa comemorativa da inauguração do Derby Club, que ficava no pavilhão central do Prado do Itamaraty / Jockey Club Brasileiro 130 anos

Placa comemorativa da inauguração do Derby Club, que ficava no pavilhão central do Prado do Itamaraty / Jockey Club Brasileiro 130 anos

 

 

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Annuarios das Estações Sportivas de 1885 a 1890: Derby Club

 

Sua corrida inaugural aconteceu em 2 de agosto de 1885, com 82 animais inscritos em nove páreos. Foi o grande acontecimento social do ano e a ele estiveram presentes Suas Majestades Imperiais, dom Pedro II e dona Thereza Christina e mais 10.000 pessoas, aproximadamente. O cavalo Aymoré, de propriedade da Coudelaria Aliança e montado por Arthur Oliveira foi o vencedor da primeira prova disputada no Derby Club. Os outros páreos foram vencidos pelos cavalos Cosmos, Progresso, Excelsior, Rio de Janeiro, Seis de Março, Derby Club, Lemgruber e 26 de Julho. Inovador e à frente do seu tempo, logo em sua primeira corrida fez funcionar um cronógrafo elétrico, destinado a marcar com precisão o tempo de cada páreo (Diário do Rio de Janeiro, 3 de agosto de 1885, quarta coluna; 4 de agosto de 1885, segunda coluna).

 

 

Seu hipódromo era o Prado Itamaraty, onde fica atualmente o Estádio do Maracanã (Annuario das estações Sportivas, 1885 – 1890).

 

 

Sua primeira sede foi inaugurada em junho de 1889, na Praça da Constituição, atual Praça Tiradentes.  Em 6 de março de 1916, foi inaugurado seu segundo edifício-sede, na avenida Rio Branco.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Facebook

FERNANDES, Neusa; COELHO,Olino Gomes P. Efemérides Cariocas. Rio de Janeiro, 2016.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MATTOS, Adalberto. Um archicteto. Ilustração Brasileira, março 1921.

MELO, Victor Andrade. “Temos apaixonados para o mar e para a terra”: representações do esporte nos folhetins (Rio de Janeiro; 1851-1855).  Rev Bras Educ Fís Esporte, (São Paulo) 2013, Out-Dez.

Portal Clube de Engenharia

Portal Domínio Público

RAMALHO, Maria Lúcia Pinheiro. Da beaux-arts ao bungalow: uma amostragem da arquitetura eclética no Rio de Janeiro e em São Paulo, 1989. Dissertação (Mestrado) – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo. São Paulo.

Site Academia Nacional de Medicina

Site Arch Daily

Site Estilos arquitetônicos

TERRA, Alcione. HEITOR DE MELLO: Trajetória e Contribuição Profissional na cidade do Rio de Janeiro no período da Primeira República. Dissertação de Mestrado. Universidade Federal do Rio de Janeiro – Faculdade de Arquitetura e Urbanismo, 2004.

WANDERLEY, Andrea C. T. O fotógrafo amador Guilherme Santos (1871 – 1965) in Brasiliana Fotográfica, de 28 de julho de 2016.

 

Outros artigos da série Os arquitetos do Rio de Janeiro

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” I – Porto D´Ave e a moderna arquitetura hospitalar, de autoria de Cristiane d´Avila – Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, publicado em 14 de janeiro de 2021.

Série “Os arquitetos do Rio” II – No Dia Nacional da Saúde, o Desinfetório de Botafogo e um breve perfil do arquiteto português Luiz de Moraes Junior, responsável pelo projeto, de autoria de Cristiane d´Avila, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz, em parceria com Andrea C. T. Wanderley, publicado em 5 de agosto de 2023

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” III – O centenário do Copacabana Palace, quintessência do “glamour” carioca, e seu criador, o arquiteto francês Joseph Gire, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado em 13 de agosto de 2023

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” IV – Archimedes Memória (1893 – 1960), o último dos ecléticos, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 1º de dezembro de 202

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” VI – O Clube Naval e os arquitetos Tommaso G. Bezzi (1844 – 1915) e Heitor de Mello (1875 – 1920), de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 6 de maio de 2024

 

 

Links para os outros artigos da Série O Rio de Janeiro desaparecido

 

Série O Rio de Janeiro desaparecido I Salas de cinema do Rio de Janeiro do início do século XXde autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 26 de fevereiro de 2016.

Série O Rio de Janeiro desaparecido II – A Exposição Nacional de 1908 na Coleção Família Passos, de autoria de Carla Costa, historiadora do Museu da República, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 5 de abril de 2018.

Série O Rio de Janeiro desaparecido III – O Palácio Monroe, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 9 de novembro de 2016.

Série O Rio de Janeiro desaparecido IV - A via elevada da Perimetral, de autoria da historiadora Beatriz Kushnir, publicado na Brasiliana Fotográfica em 23 de junho de 2017.

Série O Rio de Janeiro desaparecido V – O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlopde autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portalpublicado na Brasiliana Fotográfica em 20 de julho de 2018.

Série O Rio de Janeiro desaparecido VI – O primeiro Palácio da Prefeitura Municipal do Rio de Janeirode autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de setembro de 2018.

Série O Rio de Janeiro desaparecido VII – O Morro de Santo Antônio na Casa de Oswaldo Cruzde autoria de historiador Ricardo Augusto dos Santos da Casa de Oswaldo Cruzpublicado na Brasiliana Fotográfica em 5 de fevereiro de 2019.

Série O Rio de Janeiro desaparecido VIII – A demolição do Morro do Castelode autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portalpublicado na Brasiliana Fotográfica em 30 de abril de 2019.

Série O Rio de Janeiro desaparecido IX – Estrada de Ferro Central do Brasil: estação e trilhosde autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de novembro de 2019.

Série O Rio de Janeiro desaparecido X – No Dia dos Namorados, um pouco da história do Pavilhão Mourisco em Botafogode autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de junho de 2020.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XI – A Estrada de Ferro do Corcovado e o mirante Chapéu de Sol, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 22 de julho de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XII – o Teatro Lírico (Theatro Lyrico), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 15 de setembro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XIII – O Convento da Ajuda, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de outubro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XIV – O Conselho Municipal, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 19 de novembro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XV – A Praia de Santa Luzia no primeiro dia do verão, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 21 de dezembro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XVI – O prédio da Academia Imperial de Belas Artes, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, publicado na Brasiliana Fotográfica em 13 de janeiro de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XVII – Igreja São Pedro dos Clérigos, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 18 de março de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XVIII – A Praça Onze, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 20 de abril de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XIX – A Igrejinha de Copacabana, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 23 de junho de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XX – O Pavilhão dos Estados, futuro prédio do Ministério da Agricultura, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 26 de julho de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXI – O Chafariz do Largo da Carioca, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 19 de setembro de 2022. 

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXII – A Cadeia Velha que deu lugar ao Palácio Tiradentes, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 11 de abril de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXIII e Avenidas e ruas do Brasil XVII A Praia e a Rua do Russel, na Glória, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 15 de maio de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXIV – O luxuoso Palace Hotel, na Avenida Rio Branco, uma referência da vanguarda artística no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 4 de julho de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXV – O Theatro Phenix, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 5 de setembro de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXVI – Conclusão do arrasamento do Morro do Castelo por Augusto Malta, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 14 de dezembro de 2023