Série “Conflitos” XII – A Revolução Constitucionalista de 32 e Juscelino Kubitschek nas fotografias da Coleção Cristóvão Barcelos, por Maria de Fatima Morado

O artigo A Revolução Constitucionalista de 32 e Juscelino Kubitschek nas fotografias da Coleção Cristóvão Barcelos, o décimo segundo da série “Conflitos”, é de autoria de Maria de Fátima Morado, historiadora do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica. Estão destacadas, na publicação, dez fotografias da Coleção Cristóvão Barcelos. Ele, como coronel, combateu os paulistas durante a Revolução Constitucionalista liderando o Destacamento Coronel Barcelos na região da Serra da Mantiqueira, em Minas Gerais. Em algumas dessas fotos vê-se o futuro presidente do Brasil,  Juscelino Kubitschek (1902 – 1976), que, enquanto médico do Hospital Militar da Força Pública de Minas Gerais, foi enviado pelo comando-geral para atender as tropas mineiras e instalar um hospital de sangue em Passa Quatro.

 

A Revolução Constitucionalista de 32 e Juscelino Kubitschek nas fotografias da Coleção Cristóvão Barcelos

Maria de Fatima Morado*

 

A Revolução Constitucionalista foi deflagrada no dia 9 de julho de 1932 por lideranças de São Paulo que iniciaram um conflito armado exigindo autonomia para o governo do estado e a constitucionalização do país. Nesse período, o Brasil vivia o sob o Governo Provisório de Getúlio Vargas, que teve início após a Revolução de 1930 – movimento organizado pela Aliança Liberal que depôs o presidente Washington Luís em 24 de outubro de 1930 – e se estendeu até 1934, quando Getulio Vargas foi eleito presidente pelo Congresso Nacional dando início ao Governo Constitucional.

Getulio Vargas, ao assumir o poder, nomeou João Alberto como interventor em São Paulo, o que provocou reações dos integrantes do Partido Democrático (PD), que havia participado da Aliança Liberal e defendia a nomeação de Francisco Morato para esse cargo. Essa contrariedade provocou reações em São Paulo que resultaram na prisão dos líderes democráticos. Logo após, ocorreu o rompimento com o interventor e o lançamento de um manifesto para a instauração de uma Assembleia Constituinte no país estabelecendo a base para a organização do movimento constitucionalista com apoio da oligarquia cafeeira e das classes médias paulistas.

 

Acessando o link para as fotografias da Revolução Constitucionalista de 1932 do acervo do Museu da República disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Ao longo do ano de 1931 até o levante em 9 de julho de 1932 ocorreram iniciativas para que não se recorresse ao uso das armas como também para formar uma articulação para o caso dessa decisão ser inevitável. Entre esses movimentos estavam: negociações para acordo com o governo federal; troca de interventores; formação da FUP (Frente Única Paulista), que uniu os partidos rivais, Partido Democrático (PD) e Partido Republicano Paulista (PRP); crescente mobilização em São Paulo, incluindo comícios e protestos; e a promessa de apoio do Rio Grande do Sul e de uma corrente de líderes políticos de Minas Gerais. Quando os paulistas decidiram pelo início do movimento armado, em 9 de julho, a perspectiva concreta de adesão do Rio Grande do Sul e de Minas Gerais foi frustrada devido à desistência de tomarem parte na aventura. Além disso, o Governo Provisório debelou as tentativas de levantes em apoio ao estado de São Paulo, que acabou ficando isolado. Esse isolamento se tornou ainda maior devido ao fato de os paulistas terem uma força bélica muito inferior às forças federais.

Após alguns meses de confronto, as negociações para o fim do conflito entre o Governo Provisório e os revolucionários paulistas incluíram, de um lado, a exigência do desarmamento da Força Pública Paulista e a aceitação do calendário eleitoral proposto para a formação de uma Constituinte e, de outro lado, a nomeação de uma nova junta governativa federal e o reconhecimento do governo revolucionário paulista que havia assumido o poder. A Revolução Constitucionalista terminou sem a formalização de um acordo e com a deposição do governo revolucionário feita pelo próprio comando da Força Pública Paulista, no dia 2 de outubro. Logo depois, em 1º de novembro, os membros do governo revolucionário e líderes constitucionalistas foram presos e exilados.

 

 

As dez fotografias aqui apresentadas expõem aspectos dos campos de batalhas pelo lado dos combatentes do Governo Provisório e fazem parte da Coleção Cristóvão Barcelos, acervo do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República. Cristóvão de Castro Barcelos (1883-1946), nasceu em Campos dos Goytacazes (RJ) e teve a carreira militar marcada pela participação em eventos fundamentais: em 1918, como primeiro-tenente foi para a França, para cumprir missão na I Guerra Mundial (sobre esse assunto ver a publicação Registros raros da participação militar brasileira na I Guerra Mundial); em 1930, como tenente-coronel participou da Revolução de 30 e, em 1932, já promovido a coronel, combateu os paulistas durante a Revolução Constitucionalista liderando o Destacamento Coronel Barcelos na região da Serra da Mantiqueira (MG).

 

 

Nessa região foi travada um dos maiores confrontos entre as tropas paulistas e as forças do governo federal. O Túnel da Mantiqueira era um ponto estratégico já que está localizado na divisa dos estados de São Paulo e Minas Gerais, entre os municípios de Cruzeiro (SP) e Passa Quatro (MG).

Em algumas dessas fotos destaca-se a presença de Juscelino Kubitschek que, enquanto médico do Hospital Militar da Força Pública de Minas Gerais, foi enviado pelo comando-geral para atender as tropas mineiras e instalar um hospital de sangue em Passa Quatro. Em setembro de 1932, quando as tropas paulistas se retiraram da área do Túnel, Juscelino foi encarregado de realizar a transferência dos feridos para as cidades mineiras de Guaxupé e Varginha, seguindo para Campinas para enfim retornar a Belo Horizonte.

 

 

Em seu livro de memórias, Juscelino relata sua experiência no palco de guerra. Sobre Cristóvão Barcelos diz: “Eu me encontrava sob o comando do coronel Cristóvão Barcelos, pouco depois promovido a general, homem de sólida cultura e possuidor de excepcionais qualidades de caráter.

Ao relembrar como era feito o atendimento aos feridos em um hospital de sangue improvisado, destaca a importância desse evento que para ele significou um marco em sua vida: “É curioso notar como pequenos fatos às vezes têm consequências profundas e chegam mesmo a modificar, de forma surpreendente, uma existência humana. No meu caso, a ida para o Setor do Túnel representou um desses “pequenos fatos”. Fui para Passa Quatro apenas por ser médico. Entretanto, ali o sucesso me sorriu. Conquistei amigos. Salvei vidas humanas. Enfrentei situações difíceis e, para vencê-las, fui obrigado a lançar mão de forças que existiam em mim, em estado latente e que eu, na verdade, desconhecia.”

 

 

Quando analisa a situação de São Paulo no conflito, Juscelino lembra o isolamento do estado que sustentou a guerra com recursos das indústrias e com a atuação dos jovens combatentes dos centros urbanos, mas sem a participação dos operários e trabalhadores do campo que não viam seus interesses representados pela campanha constitucionalista, estando “ambas as categorias, naquela época, inteiramente alheias às competições político-partidárias.”.

Após sua retirada da região do Túnel da Mantiqueira para fazer o acompanhamento dos feridos em Guaxupé e Varginha, Juscelino seguiu para o quartel-general instalado por Cristóvão Barcelos em Campinas (SP). Ali pôde vivenciar a hostilidade da população paulista que dizia compreender: “Aquele ódio coletivo constrangia-me. No íntimo, nutria consideração pela causa de São Paulo e via, com angústia, o sofrimento do povo que havia lutado sozinho por uma Constituição e que, em face da derrota, voltaria a ser mais uma vez humilhado.”

Juscelino considerava o Setor do Túnel uma “sementeira de uma nova geração de políticos. Naquela área, verificava-se, de fato, intensa fermentação política. O prestígio, que algumas pessoas ali adquiriram, levou-as mais tarde às mais elevadas posições no país.”

 

 

As fotografias da coleção Cristóvão Barcelos mostram alguns desses personagens, homens que ao conviverem no campo de batalha construíram relações que passaram de profissionais e pessoais para políticas. Dos atores aqui destacados, após a guerra, Cristóvão Barcelos participou da fundação do Partido Socialista Fluminense ainda em 1932, desligando-se dois meses depois para criar o partido União Progressista Fluminense (UPF), legenda pelo qual foi eleito deputado para a Assembleia Constituinte em maio de 1933. Após o fim dos trabalhos da Constituinte em julho de 1934, disputou o governo do estado do Rio de Janeiro em um processo marcado pela interferência do governo federal e pela violência. Ao ser derrotado voltou para o exército sendo promovido a general em 1938. Juscelino Kubitschek foi eleito presidente da República em 1955.

 

*Maria de Fátima Morado é historiadora do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República.

 

Fontes:

ASSEMBLEIA LEGISLATIVA DO ESTADO DE SÃO PAULO (ALESP). Sessão comemorativa aos 25 anos da Revolução contou com a presença de Juscelino Kubitschek. Informativo da Divisão de Acervo Histórico, São Paulo, ALESP, ano 7, n. 28, maio/junho/julho. 2022.

AUGUSTO. Flávio Antônio Silva. JK, o médico da Força Pública Mineira. Revista do IGHMB, Rio de Janeiro, ano 84, n. 115, especial, 2025.

BRASIL. Ministério da Gestão e Inovação de Serviços Públicos. Estado, administração e reforma: o Governo Provisório de Getúlio Vargas (1930-1934). MAPA/Arquivo Nacional.

DAVIDOFF. Carlos Henrique. Revolução de 1932. In: Dicionário Histórico-Biográfico Brasileiro. Rio de Janeiro: Editora FGV.

JUSCELINO KUBITSCHEK. In: Dicionário Histórico Biográfico Brasileiro pós 1930. 2ª ed. Rio de Janeiro: Editora FGV, 2001

KUBITSCHEK, Juscelino. Meu caminho para Brasília: A experiência da humildade. Brasília: Edições do Senado Federal, 2020. v.1.

LEMOS, Renato. Cristóvão Barcelos. In: ABREU, Alzira Alves de (org.). Dicionário histórico-biográfico da Primeira República (1889-1930). Rio de Janeiro: Editora FGV, 2015.

MOREIRA. Regina da Luz. A Revolução Constitucionalista de 1932. Rio de Janeiro: Editora FGV.

RIBEIRO. Antônio Sérgio. Revolução Constitucionalista de 1932 – 80 anos de uma epopeia. Assembleia Legislativa do Estado de São Paulo (ALESP), São Paulo, 2012.

Dia de Machado de Assis

Pelo Decreto Rio nº 58.207/26, de 18 de junho de 2026, a Prefeitura do Rio de Janeiro instituiu o Dia de Machado de Assis que será celebrado anualmente em 21 de junho, data de nascimento do carioca Joaquim Maria Machado de Assis (21/06/1839 – 29/09/1908), considerado o maior escritor brasileiro de todos os tempos e um dos maiores autores da literatura de língua portuguesa. A data foi incluída no Calendário Oficial de Eventos e Datas Comemorativas da cidade, cenário constante da obra do escritor – lugares e ruas do Rio de Janeiro são constantemente citados nas crônicas, contos e livros de Machado, tendo sido o principal cronista do cotidiano carioca no século XIX.

 

 

Nasceu no Morro do Livramento e viveu muitos anos, entre 1883 e 1908, no Cosme Velho, fato que originou o apelido O Bruxo do Cosme Velho, epíteto eternizado pelo escritor mineiro Carlos Drummond de Andrade (1902 – 1987), autor do poema A um bruxo, com amor* (Correio da Manhã, 28 de setembro de 1958).

 

 

Perde a nossa língua um de seus mais vigorosos e profundos escritores. Com ele desaparece a mais leve e a mais encantadora das nossas prosas, a mais completa e a mais perfeita das organizações literárias que possuímos. Poeta, romancista, dramaturgo e jornalista, era Machado de Assis o tipo culminante e o mais simpático de nosso mundo de letras“.

Correio da Manhã, 30 de setembro de 1908, 

dia seguinte à morte de Machado

 

A Brasiliana Fotográfica celebra a iniciativa da criação do Dia de Machado de Assis destacando duas imagens do escritor. A primeira foi produzida pelo fotógrafo e pintor português Joaquim Insley Pacheco (1830 – 1912), em torno de 1880. Insley foi um dos mais prestigiados e famosos retratistas do Brasil no século XIX, que “tem tido a honra de copiar todos os narizes do Rio…”, de acordo com o poeta e jornalista Faustino Xavier de Novais (1820 – 1869), irmão da esposa de Machado, Carolina Augusta (1835 – 1904) (Correio Mercantil, 24 de outubro de 1863, terceira coluna).

Machado escreveu em sua coluna do Diário do Rio de Janeiro de 7 de agosto de 1864 sobre suas visitas à casa do Pacheco (justamente Insley Pacheco), que definiu como o mais luxuoso Templo de Delos do Rio de Janeiro, exaltando poder ver no mesmo álbum fotográfico os rostos mais belos do Rio de Janeiro, falo dos rostos femininos. Contou também a história da chegada do daguerreótipo na cidade e, em seguida, elogiou o trabalho realizado pelo artista  J.T. da Costa Guimarães, uma miniatura de Diane de Poitiers, exposto no estabelecimento de Insley Pacheco. Finalmente, revelou que havia chegado há pouco tempo no referido ateliê um aparelho fotográfico destinado a reproduzir em ponto grande as fotografias de cartão. Termina seu passeio perguntando-se “Até onde chegará o aperfeiçoamento do invento de Daguerre?”

 

 

A segunda é de autoria de Antônio Luiz Ferreira (18? – 19?) e retrata a Missa campal celebrada em ação de graças pela Abolição da Escravatura no Brasil, em 17 de maio de 1888, em São Cristóvão, no Rio de Janeiro. A presença de Machado na fotografia foi descoberta por mim, pesquisadora e editora do portal, e revelada no artigo Missa Campal de 17 de maio de 1888, publicado em 17 de maio de 2015.

A Missa Campal em São Cristóvão foi uma celebração de Ação de Graças pela libertação dos escravos no Brasil, decretada quatro dias antes, com a assinatura da Lei Áurea. A festividade contou com a presença da princesa Isabel, regente imperial do Brasil, e de seu marido, o conde D´Eu, príncipe consorte, que, na foto, está ao lado da princesa, além de autoridades e políticos. De acordo com os jornais da época, foi um “espetáculo imponente, majestoso e deslumbrante”, ocorrido em um “dia pardacento” que contrastava com a alegria da cidade. Cerca de 30 mil pessoas estavam no Campo de São Cristóvão.

 

 

A decisão da criação do Dia de Machado de Assis foi tomada pelo prefeito Eduardo Cavaliere (1994 -) após reunião com o jornalista Merval Pereira (1949 – ), presidente da Academia Brasileira de Letras (ABL), instituição da qual Machado foi um dos fundadores e primeiro presidente. A ideia é que o dia 21 de junho tenha uma programação dedicada à obra machadiana, semelhante ao Bloomsday, data celebrada anualmente, em 16 de junho, em homenagem ao escritor irlandês James Joyce (1882 – 1941).

 

machado

 

 

Bibliografia de Machado de Assis (ABL)

Queda que as mulheres têm para os tolos, tradução, 1861.
Desencantos, 1861.
Teatro, 1863.
Quase ministro, 1864.
Crisálidas, 1864.
Os deuses de casaca, 1866.
Falenas, 1870.
Contos fluminenses, 1870.
Ressurreição, 1872.
Histórias da meia-noite, 1873.
A mão e a luva, 1874.
Americanas, 1875.
Helena, 1876.
Iaiá Garcia, 1878.
Memórias póstumas de Brás Cubas, 1881.
Tu, só tu, puro amor, 1881.
Papéis avulsos, 1882.
Histórias sem data, 1884.
Quincas Borba, 1891.
Várias histórias, 1896.
Páginas recolhidas, 1899.
Dom Casmurro, 1899.
Poesias completas, 1901.
Esaú e Jacó, 1904.
Relíquias de casa velha, 1906.
Memorial de Aires, 1908.
Crítica, 1910.
Outras relíquias, 1910.
Correspondência, 1932.
Crônicas, 4 vols., 1937.
Crítica literária, 1937.
Casa velha, 1944.

 

*A um bruxo, com amor

Carlos Drummond de Andrade

Em certa casa da Rua Cosme Velho

(que se abre no vazio)
venho visitar-te; e me recebes
na sala trastejada com simplicidade
onde pensamentos idos e vividos
perdem o amarelo,
de novo interrogando o céu e a noite.

Outros leram da vida um capítulo, tu leste o livro inteiro.
Daí esse cansaço nos gestos e, filtrada,
uma luz que não vem de parte alguma
pois todos os castiçais
estão apagados.

Contas a meia-voz
maneiras de amar e de compor os ministérios
e deitá-los abaixo, entre malinas
e bruxelas.
Conheces a fundo
a geologia moral dos Lobo Neves
e essa espécie de olhos derramados
que não foram feitos para ciumentos.
E ficas mirando o ratinho meio cadáver
com a polida, minuciosa curiosidade
de quem saboreia por tabela
o prazer de Fortunato, vivisseccionista amador.
Olhas para a guerra, o murro, a facada
como para uma simples quebra da monotonia universal
e tens no rosto antigo
uma expressão a que não acho nome certo
(das sensações do mundo a mais sutil):
volúpia do aborrecimento?
ou, grande lascivo, do nada?

O vento que rola do Silvestre leva o diálogo,
e o mesmo som do relógio, lento, igual e seco,
tal um pigarro que parece vir do tempo da Stoltz e do gabinete Paraná,
mostra que os homens morreram.
A terra está nua deles.
Contudo, em longe recanto, a ramagem começa a sussurrar alguma coisa
que não se entende logo
e parece a canção das manhãs novas.
Bem a distingo, ronda clara:
é Flora,
com olhos dotados de um mover particular
entre mavioso e pensativo;
Marcela, a rir com expressão cândida (e outra coisa);
Virgília,
cujos olhos dão a sensação singular de luz úmida;
Mariana, que os tem redondos e namorados;
e Sancha, de olhos intimativos;
e os grandes, de Capitu, abertos como a vaga do mar lá fora,
o mar que fala a mesma linguagem
obscura e nova de D. Severina
e das chinelinhas de alcova de Conceição.
A todas decifraste íris e braços
e delas disseste a razão última e refolhada
moça, flor mulher flor
canção de manhã nova…
E ao pé dessa música dissimulas (ou insinuas, quem sabe)
o turvo grunhir dos porcos, troça concentrada e filosófica
entre loucos que riem de ser loucos
e os que vão à Rua da Misericórdia e não a encontram.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Revista Aventuras na História

Site Academia Brasileira de Letras

Site Migalhas

WANDERLEY, Andrea C.T. Missa Campal de 17 de maio de 1888 in Brasiliana Fotográfica, 17 de maio de 2015

___________________O retratista português Joaquim Insley Pacheco (31 de março de 1830 – 14 de outubro de 1912) in Brasiliana Fotográfica, 14 de outubro de 2016

Wikipedia

 

 

 

Série “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” VIII – O Estádio do Maracanã, no Rio de Janeiro, fotografado por Angelo Regato e por fotógrafos ainda não identificados

Com imagens do Estádio do Maracanã do acervo dos Diários Associados – Rio de Janeiro, conjunto de fotos incorporado, em 2016, por um dos fundadores da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles, o portal publica o oitavo artigo da série Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica, celebrando os 76 anos de uma das arenas esportivas mais icônicas do planeta, um templo do futebol mundial, símbolo de uma das grandes paixões nacionais, patrimônio cultural brasileiro e orgulho dos cariocas. Foi construída para a Copa de 1950.

 

 

Os registros são de autoria de fotógrafos ainda não identificados e do italiano Angelo Regato (1912 – 1993), que ficou conhecido como um dos primeiros fotojornalistas a usar uma teleobjetiva no Brasil, provavelmente o primeiro. Chefiou o Departamento de Fotografia dos Diários Associados de 1952 até 1975, quando se aposentou, encerrando sua carreira no Jornal do Commercio. Sobre ele, publicamos um breve perfil e uma cronologia, a 72ª da seção Cronologia de Fotógrafos, da Brasiliana Fotográfica. Selecionamos também imagens aéreas do Maracanã do acervo do Museu Aeroespacial, uma das instituições parceiras do portal. Mostram o estádio, carinhosamente apelidado de Maraca, ainda sendo construído, em 1949, e também do ano de sua inauguração, ocorrida em 16 de junho de 1950. Vida longa ao Maraca!

 

 

 

Acessando o link para as fotografias do Estádio do Maracanã pertencente ao acervo da Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Didi e Pelé por Cássio Loredano. Didi marcou o primeiro gol do Maracanã e Pelé marcou seu milésimo gol no estádio

Didi e Pelé por Cássio Loredano. Didi foi o autor do primeiro gol marcado no Maracanã e Pelé marcou seu primeiro gol pela seleção brasileira e também seu milésimo gol no estádio / Pasmado, 3 de junho de 2026

 

A partir de algumas fotografias exibidas neste artigo, mais uma vez pode-se constatar que as hemerotecas digitais, no caso a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, são ferramentas de pesquisa poderosas e indispensáveis, principalmente na busca de registros históricos nos periódicos. Porém, devido a velhos sistemas de impressão, as imagens ficam prejudicadas. Daí a importância da conservação dos acervos fotográficos originais, que nenhuma hemeroteca conserva com a mesma nitidez. 

 

 

 

 

Em 1946, o Brasil foi escolhido pela FIFA como sede da Copa do Mundo de 1950 e precisava de um grande estádio para receber os jogos. A construção do Maracanã foi muito criticada pelo então vibrante e emergente orador e vereador pela União Democrática Nacional (UDN), Carlos Lacerda (1914 – 1977), devido aos gastos e à localização escolhida para o estádio, defendendo que fosse edificado em Jacarepaguá. O compositor Ary Barroso (1903 – 1964), já consagrado internacionalmente, então vereador no Rio de Janeiro, também pela UDN, e defensor da construção do estádio no terreno do antigo Derby Club, na Tijuca, encomendou ao Ibope uma pesquisa de opinião para que a população escolhesse entre os dois locais. O instituto fez a pesquisa durante jogos dos principais clubes de futebol cariocas. Resultado: 56,8% dos entrevistados escolheram o Derby Club e 9,7%, Jacarepaguá; 6,9% sugeriram outras regiões como Centro, Gávea, Quinta da Boavista e Cascadura. Além disso, 79,2% achavam necessária a construção de um estádio para a cidade e 53,6% se dispunham a arcar com algum ônus tributário para que a prefeitura financiasse a obra. O poeta venceu o tribuno!

A pedra fundamental do Estádio do Maracanã foi lançada em 20 de janeiro de 1948. O coronel Herculano Gomes (1899 – 1963) presidia a Comissão de Construção do Estádio Municipal. Seus arquitetos eram Antonio Dias Carneiro, Orlando Azevedo, Pedro Paulo Bernardes Bastos e Rafael Galvão.  E seus engenheiros estruturais, Alberto Rodrigues da Costa, Antonio Alves Noronha, Paulo Fragoso e Sergio Matos de Souza (O Jornal, 21 de janeiro de 1948).

 

 

 

 

Em junho de 1948, Angelo Regato registrou o local onde seria erguido o Maracanã e as obras ainda não haviam sido iniciadas.

 

 

 

 

O maior estádio do mundo* começou a ser erguido em 17 de agosto de 1948, cerca de sete meses após o lançamento de sua pedra fundamental (Diário da Noite, 17 de agosto de 1948, terceira coluna). No inicio das obras, havia 1.500 homens trabalhando. Nos últimos meses eram 3.000 operários. “A arquitetura de formato oval mede 317 metros no eixo maior e 279 metros no menor. A altura do estádio corresponde a um prédio de seis andares. Os ferros utilizados dariam volta e meia no planeta; foram 500 mil sacos de cimento, 60.000 m2 de pedras e 45.000 m2 de areia” (Jornal da Unicamp, 22 de abril e 4 de maio de 2003).

 

 

O Maracanã foi inaugurado com a presença do então presidente da República, general Eurico Gaspar Dutra (1883 – 1974), de todos os seus ministros, do prefeito do Rio de Janeiro, o general Ângelo Mendes de Moraes (1894 – 1990), e de várias outras autoridades. Foi abençoado pelo cardeal dom Jaime Câmara (1894 – 1971). Tornou-se o maior estádio de futebol do mundo, com capacidade técnica para cerca de 155.000 a 200.000 pessoas, superando o Hampden Park, na Escócia. Atualmente, o Maracanã é o 25º – hoje só pode abrigar oficialmente 94 751 pessoas. O maior do mundo é o Estádio Rungrado Primeiro de Maio (114.000 lugares), na Coreia do Norte, inaugurado em 1º de maio de 1989 (Diário da Noite, 16 de junho de 1950; Site Lance).

 

 

 

Sobre a grandiosidade da obra titânica, a maior construção em concreto armado até então realizada, com capacidade para mais de 150 mil pessoas, José Lins do Rego (1901 – 1957) escreveu:

 

 

No dia seguinte à inauguração, foi realizado um jogo entre as seleções do Rio de Janeiro e de São Paulo. Os paulistas venceram por 3 a 1, mas foi o carioca Didi (1928 – 2001), do Fluminense, que marcou o primeiro gol no estádio (O Jornal, 18 de junho de 1950).

 

 

Poucos dias depois, foi o palco da abertura da Copa do Mundo de 1950, em 24 de junho, quando a seleção brasileira goleou a mexicana por 4 a 0 (Diário da Noite 24 de junho de 1950 e 26 de junho de 1950). E também foi o cenário da final docampeonato, em 16 de julho, que ficou conhecida como Maracanaçoquando o Brasil foi derrotado pelo Uruguai por 2 a 1. Foi, como escreveu Nelson Rodrigues (1912 – 1980), a nossa Hiroshima: “Uma humilhação jamais cicatrizada, que ainda pinga sangue”. O Maracanã, com quase 200 mil pessoas, oficialmente 199.584, até hoje recorde de espectadores em um jogo de futebol, ficou em silêncio. Foi uma verdadeira tragédia esportiva nacional. Antonio Olinto (1919 – 2009), José Lins do Rego e Vargas Neto (1903 – 1977) publicaram crônicas sobre a derrota no Jornal dos Sports, de 18 de julho de 1950.

 

A Derrota

José Lins do Rego

“Vi um povo de cabeça baixa, de lágrimas nos olhos, sem fala, abandonar o Estádio Municipal, como se voltasse de enterro de um pai muito amado. Vi um povo derrotado, e mais que derrotado, sem esperança. Aquilo me doeu o coração. Toda a vibração dos minutos iniciais da partida reduzida a uma pobre cinza de fogo apagada. E, de repente, chegou-me a decepção maior, a ideia fixa de que éramos mesmo um povo sem sorte, um povo sem as grandes alegrias das vitórias, sempre perseguido pelo azar, pela mesquinharia do destino. A vil tristeza de Camões, a vil tristeza dos que nada tem a esperar, seria assim o alimento podre dos nossos corações. Não dormi, senti-me alta noite, como que mergulhado num pesadelo. E não era pesadelo, era a terrível realidade da derrota”.

 

Sobre o assunto, o jornalista e caricaturista Cássio Loredano escreveu o artigo Tempo e placar do Maracanaço, na seção “Por dentro dos acervos”, do Instituto Moreira Salles, de 13 de julho de 2020. Nele publicou “três instantâneos metidos numa das dezenas de pastas do assunto ‘futebol’ no arquivo fotográfico dos Diários Associados no Rio, atualmente incorporado ao acervo do Instituto Moreira Salles. E aqui se publicam pela primeira vez”. Eram os placares da terrível derrota.

 

“E aí está. Às 4:15 está Brasil 1 a 0, Friaça marcara a 1 minuto e meio do segundo tempo. 

 

 

Aos 20, Schiaffino empatou, placar às 4:29.

 

 

E três minutos depois Ghiggia tinha posto o 2 lá em cima. Fazendo o que se orgulhava de só ele, Frank Sinatra e João Paulo II terem conseguido: calar o estádio que vaiava até minuto de silêncio”.

Cássio Loredano

 

Cerca de oito anos depois, às vésperas do Copa do Mundo de 1958, na Suécia, Nélson Rodrigues, em uma crônica publicada na Manchete Esportiva de 31 de maio de 1958, referiu-se à derrota de 1950 e declarou: …desde 50, nosso futebol tem pudor de acreditar em si mesmo. Foi também nesta crônica que criou a expressão complexo de vira-latas.

As seleções brasileira e uruguaia voltaram a se enfrentar numa Copa do Mundo, desta vez no México, em 17 de junho de 1970, no Estádio Jalisco, em Guadalajara, em um dos jogos da semifinal do campeonato. O Brasil venceu de 3 a 1  e os gols foram marcados por Clodoaldo (1949-), Jairzinho (1944-) e Rivelino (1946-). Pelo Uruguai, Luis Cubilla (1940 – 2013).  O Brasil eliminou o Uruguai  e superou o fantasma de 1950.

 

 

Continuando a história do Maracanã…

 

Em 1966, o nome oficial do Maracanã passou a ser Estádio Jornalista Mário Filho, a partir de um projeto apresentado pelo deputado Jamil Haddad (1926-2009) e subscrito pelo deputado Raul Brunini (1919 – 2009); aprovado em 27 de setembro de 1966, poucos dias após o falecimento de Mário Filho (1908 – 1966), em 16 de setembro. Mário Filho foi um dos maiores apoiadores da construção do Maracanã e a ideia do novo nome para o estádio foi de Waldir Amaral (1926–1997), um dos maiores locutores esportivos do rádio brasileiro (Jornal dos Sports20 de setembro de 196628 de setembro de 1966). Em 8 de abril de 2021, o então governador do Rio de Janeiro, Cláudio Castro (1979 -), tornou público o veto à lei que mudava o nome do Estádio do Maracanã. Com isso, o projeto que pretendia alterar o nome oficial de Estádio Jornalista Mário Filho para Rei Pelé foi arquivado.  A decisão de mudança havia sido tomada em março deste ano pela Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro e o pedido de desistência foi feito pelo então presidente da Casa, André Ceciliano (1968-), um dos idealizadores do projeto que tinha como intuito, segundo ele, homenagear Pelé (1940 -2022) em vida (Portal dos Jornalistas, 9 de abril de 2021).

 

 

Maraca também foi a sede da final da Copa do Mundo de 2014, das cerimônias de abertura e encerramento dos Jogos Pan-Americanos de 2007 e dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro de 2016, quando em seus gramado a seleção brasileira de futebol conquistou o ouro olímpico derrotando a Alemanha nos pênaltis. Sediou campeonatos estaduais, a Copa Rio, Mundiais de Clubes. Foi no Maracanã que Mané Garrincha (1933 – 1983) consagrou-se com a camisa do Botafogo e da seleção brasileira, tendo feito lá seu jogo de despedida em 19 de dezembro 1973. Foi no seu gramado que Pelé marcou seu primeiro gol pela seleção brasileira em 7 de julho de 1957, na derrota por 2 a 1 para a Argentina, pela Copa Roca; e também seu milésimo gol, em  19 de novembro de 1969, durante a vitória do Santos por 2 a 1 contra o Vasco, pela Taça de Prata.

Foi também palco de grandes shows como o dos cantores Frank Sinatra (1915 – 1998), em janeiro de 1980; e Paul McCartney (1942-), em abril de 1990 e em dezembro de 2023; e das cantoras Tina Turner (1939 – 2023), em janeiro de 1998; Madonna (1958 -), em novembro de 1993 e em dezembro de 2008; e Ivete Sangalo (1972 -), em dezembro de 2006. Além disso, o papa João Paulo II rezou missas no estádio em julho de 1980 e em outubro de 1987; e o estádio sediou o festival de música Rock in Rio II, em janeiro de 1991.

Alguns importantes eventos esportivos não futebolísticos aconteceram lá. Um deles, em 23 de outubro de 1951, com a presença do vice-presidente Café Filho (1899 – 1970), quando foi realizado um duelo de artes marciais entre o brasileiro Hélio Gracie (1913 – 2009), lutador de jiu-jitsu; e o judoca japonês Masahiko Kimura (1917 – 1993), vencedor do combate (Correio da Manhã, 24 de outubro de 1951).

 

 

Em 2000, nas comemorações de seus 50 anos, o Maracanã ganhou uma Calçada da Fama com as marcas dos pés de vários jogadores como Romário (1966 -), Ronaldo Fenômeno (1976 -) e Zico (1953 -).

O estádio deixou de ser o maior do mundo com as obras para os Jogos Pan-americanos de 2007, quando o campo foi rebaixado e o setor conhecido como Geral foi eliminado – era o espaço mais democrático e popular do futebol. A maior reforma realizada no Maracanã ocorreu entre 2010 e 2013 para adequar o estádio para a Copa de 2014 dentro do padrão Fifa. Tornou-se mais confortável, mas para muitos perdeu sua identidade histórica, que fazia dele uma arena única e especial. Para os Jogos Olímpicos de 2016, foram realizadas novas intervenções para adequar o estádios às cerimônias de abertura e encerramento do evento (Valor Econômico, 8 de outubro de 2012Site OneFootball).

 

 

 

Brevíssimo perfil do fotojornalista Angelo Regato (1912 – 1993)

 

Mineiro de Estrela Dalva, Angelo Regato nasceu em 27 de outubro de 1912 e, ainda na juventude, veio para o Rio de Janeiro. Começou a se aproximar do jornalismo, em 1929, quando foi empregado na empresa de teatro e cinema de Paschoal Carlos Magno (1906 – 1980). Ele levava os anúncios dos filmes e das peças para os jornais. No ano seguinte, começou a trabalhar como fotógrafo no jornal A Pátria, onde permaneceu até 1940Sua máquina fotográfica era a alemã Contessa Nettel. Desta época até meados da década de 1930, trabalhava à noite como porteiro de cinema ou montador de cartaz.

Em entrevista, Regato comentou as condições de trabalho dos fotógrafos da época (O GLOBO, 30 de setembro de 1987).

“Ao mesmo tempo que era fascinante, o emprego era muito puxado. Naquele tempo, o fotógrafo fornecia desde o filme até o ampliador. O jornal só fornecia um quartinho para que pudéssemos revelar as chapas”.

Foi Regato que deu o tiro do magnésio para que fosse feita a foto, de autoria de Arnaldo Vieira (1904 – 1974), da prisão do presidente deposto pela Revolução de 1930, Washington Luís (1869 – 1957), saindo do Palácio Guanabara, residência oficial do chefe de governo, rumo ao Forte Copacabana, onde ficou preso até seguir, exilado, para os Estados Unidos. Era o fim de seu mandato presidencial, iniciado em 15 de novembro de 1926, o último da chamada República Velha. O primogênito de Irineu Marinho, Roberto Marinho (1904 – 2003), que assumiria a direção do jornal, em 1931, atuava na ocasião como repórter de O GLOBO e teve uma participação decisiva neste furo de reportagem. Ele estava no palácio e viu o momento em que Washington Luís entrou no carro, um luxuoso Lincoln. Para tornar a fotografia possível, colocou arbustos no caminho, fazendo com que o carro tivesse que parar por alguns segundos, e assim o fotógrafo que o acompanhava conseguiu fazer o registro. O registro fotográfico, um importante furo jornalístico, foi publicado na capa da terceira edição de O GLOBO de 24 de outubro de 1930 e republicada no dia seguinte. De acordo com o jornal esta fotografia é O mais eloquente documento histórico da deposição do Sr. Washington Luis É um documento único e cujo valor não será mais preciso exaltar.

 

 

Em 1935, Regato passou a trabalhar também no jornal A Nota. Em 1938, foi trabalhar para A Notícia e para veículos dos Diários Associados e foi, como já mencionado, chefe do Departamento de Fotografia do referido conglomerado de mídiade 1952 até 1975.

“Comandava uma equipe de 35 profissionais, que trabalhavam 24 horas por dia. Atendíamos aos jornais da rede e ao departamento de publicidade. Os fotógrafos vibravam quando iam aos concursos de miss”.

Participou de diversas coberturas de eventos importantes da história do Brasil como a já mencionada Revolução de 1930, a chegada ao Brasil dos pracinhas da Força Expedicionária Brasileira com o fim da Segunda Guerra Mundial e a realização da Assembleia Nacional Constituinte de 1946. Registrou a remoção da Igreja São Pedro dos Clérigos sobre gigantescos rolimãs para a abertura da Avenida Presidente Vargas, em 1944; e, de 1936 a 1939, acompanhou o presidente Getúlio Vargas em uma peregrinação pelo país. Acompanhou também Assis Chateaubriand (1892 – 1968), fundador e dono dos Diários Associados, em diversas viagens pelo Brasil.

 

 

Foto de Angelo Regato de um Pracinha comemorando com a família após a chegada da Itália com o fim da Segunda Guerra Mundial, 22 de agosto de 1945. Rio de Janeiro, RJ / Diários Associados (RJ) – Acervo IMS

 

Na enquete Em quem você votaria?, realizada pelo jornal O GLOBO, disse que ainda não havia se definido: “Sou do contra — declarou — Quero novidades. Quero gente nova. É preciso que se dêem oportunidades a outros brasileiros de valor até então desconhecidos por força do regime em que vivíamos. Sou ainda favorável à anistia e pela pacificação da família brasileira” (O GLOBO, 6 de abril de 1945).

Fazendo a cobertura do Circuito da Gávea de automobilismo, foi um dos fotógrafos agredidos pela polícia (O Jornal, 22 de abril de 1947, segunda coluna).

 

 

Pela primeira vez, fotos de sua autoria foram publicadas na revista O Cruzeiro, também dos Diários Associados. Foi na reportagem Energia para o Nordeste, de Theophilo de Andrade (1903 – 1994) (O Cruzeiro, 12 de julho de 1947).

O Diário da Noite foi um inovador na fotografia, publicando, inicialmente clichês de 6 a 8 colunas, e, posteriormente, alcançando sucesso com as fotos colhidas pela teleobjetiva de Angelo Regato, que a usou pela, primeira vez, no dia 4 de Julho de 1948, no Torneio Início do Campeonato Carioca de Futebol (Diário da Noite, 5 de julho de 1948, página 11 e página 28).

 

 

Antes, os fotógrafos de futebol ficavam alojados atrás do gol, sujeitos a pedradas dos torcedores e impossibilitados de variar a produção de imagens. Regato havia participado da cobertura jornalística de um eclipse solar, em Bocaiuva, no interior de Minas Gerais, em maio de 1947 (O Jornal, 21 de maio de 1947). Ele usava sua Contessa Nettel e observou um colega norte-americano trabalhando com uma teleobjetiva Garflex. Foi quando decidiu adquirir a sua, que comprou, à prestação, na Mesbla (O GLOBO, 1º de março de 1962; Boletim da ABI, de 1975).

Passou a morar no Méier em 1949. Nesta época, o futuro e importante colunista social, Ibrahin Sued (1924 – 1995), era seu ajudante.

Em 6 de abril de 1950, fez, de um teco-teco, fotos do descarrilamento do Noturno Campista sobre a ponte do Rio Tanguá. Os registros foram publicados no Diário da Noite. Considerava essa uma de suas melhores coberturas jornalísticas.

É de sua autoria a primeira foto do Maracanã lotado, durante um treino da seleção brasileira para a Copa de 1950. Jogou contra o quadro de aspirantes do Vasco da Gama reforçado por profissionais do time (Diário da Noite, 19 de junho de 1950).

 

 

Participou da cobertura da Copa do Mundo de 1954 na Suíça (Jornal do Sports, 10 de março de 1977, penúltima coluna).

Em 1956, foi um dos fundadores da Associação de Repórteres Fotográficos do Rio de Janeiro, cuja iniciativa foi apoiada por Herbert Moses (1884 – 1972), presidente a Associação Brasileira de Imprensa (ABI), onde, até ter sede própria, a associação de fotógrafos funcionou.

Foi ele que levou Evandro Teixeira (1935 – 2024), recém chegado da Bahia ao Rio de Janeiro, em 1957, até a redação do Diário da Noite. Os dois jornais eram sediados no mesmo edifício da rua Sacadura Cabral, nº 103, na Praça Mauá. Não havia vaga disponível naquele momento, mas, no ano seguinte, Evandro começou a fotografar para o Diário da Noite e a produzir registros para O Jornal. Seus dois primeiros trabalhos no Diário da Noite não deram certo: fotografou, com uma Rolleiflex fornecida pelo jornal, o casamento de uma alemã com um negro, apesar da orientação racista do jornal. Foi demitido pelo diretor do jornal, o mineiro Paulo Vial Correa (1919 – 1975). Angelo Regato deu uma segunda chance a ele: fotografar o desfile de fantasias do Baile do Teatro Municipal, mas Evandro chegou atrasado e Regato teve que providenciar as fotos da revista O Cruzeiro sem o carimbo. Veio então a sua terceira, que seria sua última chance: fazer a cobertura do desfile das escolas de samba na Avenida Rio Branco. Foi um sucesso e Evandro finalmente iniciou sua carreira profissional no Rio de Janeiro, tornando-se um dos maiores fotojornalistas brasileiros de todos os tempos.

O Angelo Regato realmente foi uma pessoa maravilhosa, devo muito a ele que logo me apresentou ao diretor de redação”.

Evandro Teixeira em Arfoc

Participou da cobertura do Campeonato Sul-Americano de Futebol, realizado em Buenos Aires entre 7 de março de 4 de abril de 1959. Participaram da disputa sete seleções: Argentina, campeã do torneio; Bolívia, Brasil, Chile, Paraguai, Peru e Uruguai. O jornalista Armando Nogueira (1927 – 2010), pelo Jornal do Brasil; e o fotógrafo Ângelo Gomes (19? -?), pelo Jornal dos Sports, também participaram da cobertura do evento (Jornal do Brasil, 3 de julho de 1994, segunda coluna).

Em 1968, era um dos dirigentes da Associação de Repórteres Fotográficos do Rio de Janeiro. Pelo menos até 1979 integrava a entidade, pela qual foi condecorado com o título de comendador (O GLOBO, 16 de fevereiro de 1968; Jornal do Commercio, 9 de fevereiro de 1979, penúltima colunaJornal do Commercio, 1º de outubro de 1993, penúltima coluna).

 

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Na foto, Regato é o primeiro à direita / O GLOBO, 16 de fevereiro de 1968

 

Foi noticiado que um retrato de Regato seria inaugurado na sede da Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado do Rio, cujo presidente era Walter Quirino (19? -?) (Jornal do Commercio, 15 de janeiro de 1970, quarta coluna).

Foi homenageado, no Palácio do Comércio, em Niterói, recebendo das mãos de Moacyr Moreira Leite, presidente da Associação Comercial e Industrial do Estado do Rio de Janeiro, um diploma da Associação de Repórteres Fotográficos e Cinematográficos do Estado do Rio, fundada no ano anterior. Regato era um dos fundadores da associação congênere do Rio de Janeiro (O Jornal, 22 de março de 1970, primeira coluna).

 

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Em 13 de maio de 1970, foi um dos profissionais condecorados com as insígnias do Mérito Jornalístico, da Ordem dos Velhos Jornalistas, em uma solenidade realizada na Associação Brasileira de Imprensa. Os outros  foram Dinah Silveira de Queiroz (1911 – 1982), Carlos de Souza Areas, Fernando Hupsel de Oliveira (19? -?), Alceu de Amoroso Lima (1893 – 1983), Raul Pilla (1892 – 1973), Gomes Maranhão (1907 – 1992), Antônio Herrera Filho (c. 1911 – 1980), Alberto Torres e Archimedes Fortini (18? – 1973). Na ocasião, Regato foi apresentado como o primeiro repórter a usar a teleobjetiva na imprensa brasileira. A Medalha do Mérito Jornalístico foi instituída pela Ordem dos Velhos Jornalistas e reconhecida oficialmente  pelo Decreto n° 52.206, de 28 de junho de 1963 (Jornal do Commercio, 14 de maio de 1970, quarta coluna). Pela conquista da Medalha, foi homenageado por colegas de A Notícia e de O Dia (O Jornal, 22 de maio de 1970, segunda coluna).

Integrava a equipe dos Diários Associados responsável pela cobertura jornalística da Copa Mundial de Futebol do México (O Jornal, 17 de abril de 1970).

O Diário da Noite Futebol Clube, clube dos Diários Associados, promoveu, no Social Marabu, no Encantado, um torneio de futebol de salão denominado Angelo Regato, em homenagem ao fotógrafo (O Jornal, 27 de novembro de 1971, primeira coluna).

Publicação da reportagem A bola é redonda para a família Antunes, de Yata Anderson (1944 – 2026), com fotos de autoria de Regato. Da família, fazia parte os jogadores Edu (1947 -), Nando (19?-), Antunes (19?-) e Zico (1953-). Uma curiosidade: Yata foi o único repórter a entrevistar Pelé em campo no seu último jogo no Maracanã, em 1974, e por isso, ficou conhecido como o Amigo do Rei (O Jornal, 7 de novembro de 1970).

Regato devolveu sua Leika e aposentou-se, em 1º de maio de 1975, encerrando sua carreira no Jornal do Commercio, após 46 anos de trabalho. Era, então, o mais antigo repórter fotográfico em atividade do Rio de Janeiro (Boletim da ABI, março e abril de 1975). Continuou trabalhando como profissional independente e visitava ocasionalmente seus amigos nas redação do Jornal do Commercio.

 

 

Em 1982, foi um dos fotógrafos contatados pelo Núcleo de Fotografia da Funarte para dar um depoimento acerca de seu trabalho de fotógrafo de copas do mundo. Na época, a Funarte estava promovendo em sua galeria a exposição Fotografias nas Copas do Mundo. Segundo Regato, os fotógrafos ficavam, normalmente, atrás do gol  (O GLOBO, 9 de junho de 1982).

Foi entrevistado pelo jornal O GLOBO (O GLOBO, 30 de setembro de 1987).

 

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Para aqueles que quisessem se aproximar do mundo da fotografia, Regato deu o seguinte conselho:

“A pessoa deve aguçar a sensibilidade. É preciso que ela seja paciente e criativa”.

 

Faleceu, em 30 de setembro de 1993, em sua residência, na Rua Domingues Freire, no Méier, vítima de um enfarte (Jornal do Commercio, 1º de outubro de 1993, penúltima coluna; Boletim da ABI, de setembro/outubro de 1993, segunda coluna).

 

 

Foi casado com Fernandina Maria Mesquita, com quem teve quatro filhos: Angelo, José, Carlos e Fernanda (Site Family Search; Jornal do Commercio6 de junho de 1976, penúltima coluna 27  de junho de 1976, última coluna).

Em uma de suas colunas, o jornalista Armando Nogueira escreveu:

 “Faço um saudoso parêntese pra relembrar, com ternura, o velho Angelo Regato. Era um mestre. Morreu sem jamais ter perdido um flagrante de um gol num clique de sua fiel speed graf”.

Tribuna da Imprensa, 26 de junho de 1996

 

Acesse aqui a Cronologia de Angelo Regato (1912 – 1993)

 

*Atualmente o maior estádio do mundo é o Estádio Primeiro de Maio Rungradolocalizado em Pyongyang, na Coreia do Norte, com capacidade para 150 000 espectadores.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANTUNES, Fátima Martin Rodrigues Ferreira. Com Brasileiro, Não Há Quem Possa! Futebol e identidade nacional em José Lins do Rego, Mário Filho e Nelson Rodrigues. São Paulo: EdUNESP, 2004.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Jornal da Unicamp, 22 de abril e 4 de maio de 2003

MÁXIMO, João. Maracanã: meio século de paixão. Rio de Janeiro: DBA, 2000.

O GLOBO, 30 de setembro de 1987.

Portal Maracanã

NELSON, Rodrigues. A pátria de chuteiras. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 2013

Revista Superinteressante

SIMAS, Luiz Antônio. Maracanã: quando a cidade era terreiro. Rio de Janeiro : Mórula Editorial, 2021.

Site Arfoc Rio

Site Lance

Site Os Divergentes

 

O Paço Imperial, o palácio mais antigo do Rio de Janeiro

O Paço Imperial, o mais antigo palácio da cidade do Rio de Janeiro, além de importante historicamente – foi palco do Dia do Fico, da assinatura da Lei Áurea e o centro das decisões que ocasionaram a Proclamação da Independência – é também muito bonito, atrativo que certamente impressionou diversos fotógrafos. Hoje destacamos imagens  realizadas por Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?)Camillo Vedani (18? – 1888)Georges Leuzinger (1813 – 1892)Guilherme Santos (1871 – 1966)Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897)Marc Ferrez (1843 – 1923) e Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886). Todos esses fotógrafos já foram personagens centrais de artigos publicados na Brasiliana Fotográfica. Há também imagens produzidas por fotógrafos ainda não identificados. As fotos são provenientes do acervos fotográficos das instituições fundadoras do portal – a Fundação Biblioteca Nacional e o Instituto Moreira Salles –  e de duas de suas instituições parceiras – o Leibniz-Institut fuer Laenderkunde e o Museu Histórico Nacional.

 

 

Acessando o link para as fotografias selecionadas do Paço Imperial disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

O Paço Imperial foi, no século XVIII, a residência do governador e do Vice-Rei. Em 1808, com a vinda de dom João VI (1767 – 1826) para o Rio de Janeiro, passou a se chamar Paço Real e tornou-se a residência oficial da família real e o centro de poder do Reinado e do Império.  Recebeu o nome atual, em 1822, e passou a ser a sede administrativa do governo, além de abrigar eventos oficiais e festas. Com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889, passou a sediar os Correios e Telégrafos.

 

 

Foi tombado pelo SPHAN, em 1938. Em 1982, a Fundação Nacional Pró-Memória, sob a direção de Aloisio Magalhães (1927-1982), deu partida ao processo de restauração do prédio. Em 1985, já reformado sob o comando do arquiteto Glauco Campello (1930-2015), passou a funcionar como um Centro Cultural.

 

 

 

 

Seus 40 anos como centro cultural foram comemorados com a exposição coletiva Constelações, inaugurada em 28 de março e que termina hoje. A curadoria da mostra foi de Claudia Saldanha, Ivair Reinaldim e equipe do Paço Imperial.

 

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Leia aqui alguns artigos publicados na Revista do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional de 1984 sobre a restauração do Paço Imperial:

Paço Imperial: história e ressurreição de um palácio, por Pedro Calmon, então presidente do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, ilustrada com imagens produzidas pelo austríaco Thomas Ender (1893 – 1875), pelo francês Jean-Baptiste Debret (1768 – 1868), do francês Louis-Auguste Moreau (1818 – 1877) e do suíço Abram Louis Buvelot (1814 – 1888), por Antonio Luiz Ferreira (18? – 19?), por Urias Antonio da Silveira (18? – ?), do arquiteto português Pinto Alpoim (1700 – 1775) e de Pedro Lobo (19? -?).

A restauração do Paço: revendo 240 anos de transformações, por Glauco Campello, arquiteto e coordenador da restauração do Paço, ilustrada com aquarelas do inglês Richard Bate (1775 – 1856), de 1808, e do austríaco Thomas Ender (1893 – 1875), de 1817; com um desenho do alemão Karl Wilhelm von Theremin (1784-1852), de 1818, e com um do francês Louis-Auguste Moreau (1818 – 1877) e do suíço Abram Louis Buvelot (1814 – 1888), de 1842; e por fotografias de Marc Ferrez (1843 – 1923), de 1880, e de um fotógrafo ainda não identificado (posterior à Proclamação da República).

O novo Paço: uma obra para debates, pelo arquiteto Cyro Corrêa Lyra, ilustrada com uma imagem produzida por Leandro Joaquim (1838 – 1898), de 1789.

Estudos preliminares para a restauração do Paço, pelo arquiteto José de Souza Reis, com imagens de autoria do inglês William John Burchell (1781 – 1863), de 1825; e do arquivo pessoal do autor.

A pesquisa arqueológica: primeiras notas, pelas arqueólogas Regina Coeli Pinheiro da Silva, Edna June Morley e Catarina Eleonora Ferreira da Silva, ilustrada com fotografias produzidas por Pedro Lobo (19?-?), por uma gravura da Biblioteca Nacional e por plantas das escavações.

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

CAVALCANTI, Lauro. Paço Imperial. Rio de Janeiro : Sextante Artes, 1999.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Portal IPHAN

Portal MultiRio

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site Paço Imperial

 

 

 

Dia Nacional da Imprensa

Com uma fotografia do acervo do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro (IHGB), uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, lembramos o Dia Nacional da Imprensa. Na imagem destacada neste artigo, produzida por um fotógrafo ainda não identificado, estão retratados Manuel Cícero Peregrino da Silva (1866-1956) e Max Fleiuss (1868 – 1943), na Exposição Comemorativa do Primeiro Centenário da Imprensa Periódica no Brasil, promovida, em 1908, pelo IHGB, na época presidida por José Maria da Silva Paranhos Jr., o barão do Rio Branco (1945 – 1912). O pernambucano Manoel Cícero, bibliotecário, professor e político, presidiu o IHGB entre 1938 e 1939. O carioca Max Fleuiss, filho do famoso pintor e caricaturista Henrique Fleuiss (1823- 1882), foi jornalista, historiador, professor, escritor e, como membro do IHGB, foi um dos idealizadores da comemoração. Conforme escrito na fotografia, em 20 de junho de 1933, Bras Vianna (18? – 19?)* a ofereceu – não sabe-se a quem – como recordação da Exposição da Imprensa de 1908.

 

 

A Exposição do Centenário da Imprensa, realizada em 1908, foi o tema de um dos seis módulos da Exposição sobre os 190 anos da imprensa no Brasil, promovida pelo IHGB, entre 13 e 27 de maio de 1998, sob a presidência de Arno Wehling (1947-). A imagem de Manoel Cícero com Fleuiss foi uma das fotografias expostas na mostra. Os outros módulos da exposição de 1998 foram: Antecedentes, Impressão Régia, Primórdios da Imprensa, Bibliografia e Imprensa brasileira atual. Houve também uma conferência. Foram utilizadas peças do acervo do IHGB e também do acervo particular do casal de historiadores Marcello de Ipanema (1924 – 1993) e Cybelle Moreira de Ipanema (1924 -), então 1º secretária da instituição.

 

A Exposição Comemorativa do Primeiro Centenário da Imprensa Periódica no Brasil

promovida pelo IHGB, em 1908

 

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A Exposição Comemorativa do Primeiro Centenário da Imprensa Periódica no Brasil foi a primeira realizada pelo IHGB e aconteceu durante a Exposição Nacional de 1908, ocorrida entre 11 de agosto e 15 de novembro de 1908, na Urca, no Rio de Janeiro. Eram comemorados os 100 anos da Abertura dos Portos às Nações Amigas, decretada em 28 de janeiro de 1808, pelo então príncipe regente de Portugal, dom João de Bragança, futuro dom João VI (1767 – 1826). Foi promovida pelo governo federal e exibiu um “inventário” do Brasil através de seus produtos industriais, agrícolas, pastoris e artísticos. A cidade do Rio de Janeiro havia sido recentemente urbanizada e saneada pelo prefeito Francisco Pereira Passos (1936 – 1913) e pelo cientista Oswaldo Cruz (1872 – 1917), respectivamente.

O conde Afonso Celso (1860 – 1938), futuro presidente do IHGB, entre  1912 e 1938,  presidiu a Comissão Executiva da Exposição da Imprensa.

 

 

Porém a iniciativa de sua realização foi de Max Fleuiss e do engenheiro Alfredo de Carvalho (1870 – 1916), respectivamente o primeiro secretário perpétuo e o segundo secretário do IHGB.

 

 

Na décima terceira sessão ordinária que se realizou em 29 de julho de 1907, no IHGB,  Fleuiss propôs “uma solenidade, de caráter essencialmente histórico, para comemorar o primeiro centenário da imprensa periódica no Brasil”. Seu modelo seria a Exposição de História do Brasil promovida pela Biblioteca Nacional, em 1881 (O Paiz, 31 de julho de 1907, penúltima coluna).

“Considerando que a 13 de maio de 1908 se completa o primeiro centenário do estabelecimento definitivo da Imprensa no Brasl, com a promulgação do decreto que criou a Imprensa Régia, propomos que o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro promova a celebração condigna de data tão memorável, por meio de uma exposição jornalística, a ser inaugurada naquele dia, procurando angariar para este fim o auxílio dos poderes públicos e da Imprensa de todo o país. Para organizar o programa da comemoração e tratar dos meio de realizá-la o Instituto nomeará uma comissão dentre os seus membros” .

A proposta foi assinada por Max Fleuiss, pelo Barão de Studart (1856 – 1938), por Alfredo de Carvalho, por Orville A. Derby (1851 – 1915) e por José Américo dos Santos (1848 – 1918), todos membros do IHGB.

Seu programa seria: “a exposição de todos os jornais publicados no Brasil entre 1808 e  31 de dezembro de 1907;  a publicação de uma monografia ou memória histórica sobre a gênese e os progressos da imprensa periódica no Brasil; a publicação de um catálogo metódico de todos os itens da exposição; e a cunhagem de uma medalha comemorativa”. Foi formada uma comissão para a realização do evento.

 

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Proposta apresentada pelos sócios Max Fleuiss, Barão de Studart, Alfredo de Carvalho, Orville A. Derby e José Américo dos Santos para que o IHGB organizasse uma exposição jornalística comemorativa do primeiro centenário da imprensa no Brasil. Com parecer aprovando a iniciativa e nomeando uma comissão para conduzir os trabalhos. Rio de Janeiro, 29.07.1907. Biblioteca do IHGB.

 

As medalhas comemorativas da exposição seriam feitas por Hans Frei (1868 – 1947), artista de Zurique, devido ao recente falecimento de Julius Meili (1839 – 1907).

Em 20 de agosto de 1907, foi realizada a segunda reunião da comissão executiva da exposição, quando foram indicados nomes que se incumbiriam dos diversos catálogos que seriam produzidos (O Paiz, 20 de agosto de 1907, segunda coluna).

Em 19 de dezembro de 1907, Fleuiss enviou uma carta ao ministro Miguel Calmon (1879 – 1935), ministro da Indústria Viação e Obras Públicas, informando ter enviado circulares às redações de jornais de todo o  Brasil, às bibliotecas públicas e particulares, a presidentes das Câmaras Municipais, colecionadores, etc, e que estava recebendo grande cópia de informações e specimens para a Exposição. Informava que seria elaborada por Alfredo Ferreira de Carvalho uma memória relativa à origem e desenvolvimento da imprensa.

Inicialmente, o evento estava programado para 13 de maio de 1908, data exata dos 100 anos da Imprensa ou Impressão Régia, porém foi adiado para julho e, posteriormente, para agosto. Então, na data exata do centenário, durante a sessão do IHGB, a efeméride foi festejada e o conde de Afonso Celso discursou sobre o tema (Gazeta de Notícias13 de maio de 1908, quarta coluna14 de maio de 1908, penúltima coluna). Dias depois, João Barreto de Menezes (1872 – 19?), comentou o evento (O Paiz, 18 de maio de 1908, quarta coluna).

A Exposição Comemorativa do Primeiro Centenário da Imprensa Periódica no Brasil foi inaugurada em 11 de agosto, em um dos salões do Palácio dos Estados ou Pavilhão dos Estados, que tinha uma dupla função e caráter: espaços monumentais de exposição com estandes com produtos de todos os estados da Federação exibidos nos dois pavimentos e espaços de luxo nos salões de festas e recepções da elite política brasileira. Com estilo neoclássico e ornamentos e composição de características greco-romanas, foi mantido após o encerramento da Exposição de 1908 e atualmente abriga a CPRM – Comissão de Pesquisa de Recursos Minerais, empresa vinculada ao Ministério das Minas e Energia (COSTA, 2018).

 

 

A Biblioteca Nacional (BN), uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, participou da exposição com seu acervo de jornais e revistas. Foram separados e selecionados cerca de 10 mil itens de publicações periódicas brasileiras de seu acervo, a maior das coleções enviadas (Anais da Biblioteca Nacional, 1909). Outra instituição que contribuiu significativamente para o evento, além do IHGB e da BN, foi a Biblioteca da Marinha (Gazeta de Notícias, 13 de maio de 1808, quarta coluna).

Providências para o sucesso e segurança da exposição foram tomadas. Por exemplo:

De acordo com um ofício enviado, em 14 de agosto de 1908, por Fleuiss ao chefe da Secretaria do IHGB, um regime de plantão entre funcionários da instituição deveria ser seguido para que o salão da exposição não ficasse nunca sem vigilância. Durante o período da mostra, ficaria destacado o servente Tibúrcio, que trabalharia das 10h até a hora do encerramento. Das 4 horas da tarde até o encerramento, quatro funcionários se revezariam a partir de uma escala de plantão organizada pelo chefe da secretaria entre Francisco Martins Guimarães, Pedro Borges Leitão, Henrique Carmo Netto e Alexandre Camisão. De acordo com outro ofício enviado de novo por Fleuiss ao chefe da Secretaria, em 24 de agosto de 1908,  a afluência à exposição era incesssante e numerosíssima e, no dia anterior, apenas Tiburcio ficou de plantão entre 12 h e a hora do encerramento. Fleuiss, que havia chegado, às 12h, juntou-se a ele.

“ Não obstante o o Dr. Netto não compareceu, de sorte que para atender às exigências da fiscalização nem eu nem o servente Tiburcio pudemos jantar. Tenho dado sobejas provas de ser amigo dos meus companheiros de trabalho no Instituto e assim é de justiça que também receba provas de amizade. O serviço na Exposição é extraordinário e de pouca duração; o sacrifício, pois, não é dos maiores, desde que haja regular distribuição dos serviços. Recomendo-lhe as providências necessárias…O que sucedeu ontem foi, até certo ponto, uma desatenção pessoal para comigo e uma crueldade. Espero não ter que recomendar novas medidas”.

Integrando as comemorações do centenário da imprensa, em 10 de setembro, data da primeira publicação pela Impressão Régia, em 1808, do jornal Gazeta do Rio de Janeiro, considerado o primeiro periódico publicado no Brasil, Xavier da Silveira (1864 – 1912), proferiu uma palestra , na sede do IHGB. Na ocasião, o general Emydgio Dantas Barreto (1850 – 1931) tornou-se sócio da instituição (O Paiz, 11 de setembro de 1908, quarta coluna).

 

 

A exposição foi encerrada em 30 de setembro de 1908, com uma sessão presidida pelo barão do Rio Branco, com uma palestra do conde Afonso Celso (O Paiz, 29 de setembro de 1908, primeira coluna;  Jornal da Exposição, 1º de outubro de 1908, segunda colunaA Imprensa, 1º de outubro de 1908, penúltima colunaA Imprensa, 6 de abril de 1909, segunda coluna).

 

 

Na comemoração dos 70 anos do IHGB, em 21 de outubro de 1908, foram distribuídos dois volumes do tomo especial da Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro consagrados à exposição comemorativa do centenário da imprensa (O Paiz, 22 de outubro de 1908, quarta coluna). O primeiro trazia Gênese e Progressos da Imprensa no Brasil, de autoria de Alfredo de Carvalho com mais de 50 fotogravuras reproduzindo jornais antigos (Revista do IHGB, 1908).

 

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Tomo Consagrado à Exposição Comemorativa do Primeiro Centenário da Imprensa Periódica no Brasil, parte I

 

De acordo com o I Tomo, a Exposição Comemorativa do Centenário da Imprensa contou com 25 mil jornais e 10 mil ficaram de fora. Ainda no Tomo I, publicação do discurso do conde de Afonso Celso ressaltando a importância da imprensa e da coleta de dados para realização do evento:

“… a Exposição Nacional lacunosa seria, se nela não figurasse uma seção de jornais. Porque a imprensa foi a colaboradora preciosíssima e fomentadora, a defensora, a preconizadora insuprível de todos os melhoramentos industriais e artísticos que opulentam a Exposição. Não fora a imprensa, e a Exposição deixara de ser o que é, dificilmente existiria”.

No Tomo Consagrado à Exposição Comemorativa do Primeiro Centenário da Imprensa Periódica no Brasil, parte II, volume I, constavam as listagens dos periódicos e pequenos históricos da imprensa nos seguintes estados brasileiros, entre 1808 e 1907:

 

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Tomo Consagrado à Exposição Comemorativa do Primeiro Centenário da Imprensa Periódica no Brasil, parte II, volume I

 

Alagoas por Joaquim Thomaz Pereira Diegues, sócio efetivo e orador do Instituto Histórico e Geográfico Alagoano; Amazonas por João Batista de Faria e Souza, delegado à Comissão Central do Estado do Amazonas e membro da comissão nomeada pelo Governo para representar o mesmo estado, no Rio de Janeiro, por ocasião das festas comemorativas do 1º centenário da Imprensa periódica no Brasil e apontado como o possuidor da mais completa coleção de jornais do Amazonas; pelo Ceará, o Barão Studart, sócio correspondente do IHGB e conhecido pelo especial pendor que consagra a trabalhos de semelhante natureza; pelo Maranhão, o ilustrado Augusto Olimpio Viveiros de Castro; pelo Pará, o senador Manoel de Mello Cardoso Barata, sócio honorário do IHGB e apaixonado investigador de assuntos históricos; pela Paraíba, Diógenes Caldas; por Pernambuco, Alfredo de Carvalho, que da história de suas imprensas (Pernambuco e Bahia) possui conhecimentos especiais; pelo Piauí, Abdias Neves; pelo Rio Grande do Norte, Luiz Fernandes; e por Sergipe, o desembargador Manoel Armindo Cordeiro Guaraná.

 

 

Os originais do  2º volume da parte II  foram perdidos em um incêndio ocorrido, em 15 de setembro de 1911, na Imprensa Nacional. E não existiam cópias. Foram perdidos os catálogos dos seguinte estados: Bahia, Distrito Federal, Espírito Santo, Goiás, Minas Gerais, Mato Grosso, Paraná, Rio de Janeiro, Rio Grande do Sul, Santa Catarina e São Paulo (O Paiz, 17 de setembro de 1911A Imprensa, 20 de setembro de 1911, penúltima colunaRevista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, 1911).

 

 

Os organizadores dos capítulos por estado seriam: Bahia, Alfredo de Carvalho; Distrito Federal e Rio de Janeiro, o médico, político e bibliotecário Vieira Fazenda; Espírito Santo, o político Bernardo Horta, formado em Humanidades e Farmácia; Goiás, o advogado e político Joaquim Xavier Guimarães Natal; Minas Gerais, Antônio Augusto de Lima; Mato Grosso, Estevão de Mendonça; Paraná, o diretor de museu, político, jornalista e historiador Romário Martins; Rio Grande do Sul, Victor Silva; Santa Catarina, Lucas Arthur Boiteaux; e São Paulo, Affonso A. de Freitas (COSTA, 2017).

Foram publicados catálogos avulsos de três estados: de Pernambuco, de autoria de Alfredo de Carvalho; do Paraná, de autoria de Alfredo Romário Martins; e o de São Paulo, de autoria de Affonso A. de Freitas. Os dois primeiros foram publicados, em 1908. O último, em 1914.

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Abaixo, a relação dos expositores que concorreram para a Comemoração do Centenário da Imprensa no Brasil. Secretaria do IHGB, 23.11.1908 (Biblioteca do IHGB).

 

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 Breve histórico do Dia Nacional da Imprensa

 

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O dia 1º de junho foi instituído como o Dia da Imprensa, por meio da lei n. 9.831, de 13 de setembro de 1999, no governo do presidente Fernando Henrique Cardoso (1931-), e celebra a primeira publicação do periódico O Correio Brazilienze ou Armazém Literário, editado por Hipólito José da Costa Pereira Furtado de Mendonça (1774 – 1823), em Londres. Por expressar críticas ao governo de dom João VI circulava clandestinamente no Brasil e em Portugal. Era mensal e existiu até 1822, quando o Brasil tornou-se independente. O Correio Braziliense foi, entre junho 1808 até dezembro de 1822, o nosso único jornal – informativo, doutrinário e pugnaz -, mau grado seu relativo inatualismo e deficiente distribuição, e as perseguições que sofreu do real governo. Produzido em Londres, na oficina de W. Lewis, saiu regulamente todos os meses enquanto existiu, num total de 175 números. Compreendia quatro seções: Política, Comércio e Artes, Literatura e Ciências e Miscelânea. Trazia por divisa os seguintes versos de Camões:

 

Na quarta parte nova os campos ara,

E se mais mundo houvera lá chegara

 

 

 

Até  1999, o Dia Nacional da Imprensa era celebrado, em 10 de setembro, quando foi publicado o primeiro número do jornal Gazeta do Rio de Janeiro, em 1808, pela Imprensa Régia ou Impressão Régia. Considerado o primeiro periódico impresso no Brasil, a Gazeta do Rio de Janeiro veiculava o pensamento oficial da corte portuguesa e pertencia à Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra. Tinha quatro páginas, raramente 6 ou 8. Seria publicada aos sábados, mas desde seu segundo número declarou circular também às quartas-feiras. Sua assinatura semestral custava, a domicílio,  3$800, incluídas a edições extras, e o exemplar avulso $080, na loja de Paulo Martin Filho, mercador de livros. Passou a trimestral em julho de 1821. Era redigida por Tiburcio José da Rocha (17? – 18?), oficial da Secretaria de Estrangeiros e Guerra. Trazia por epígrafe os versos de Horácio:

 

Doctrina sed vi promovet insitam, rectique cultus pectora roborant.

A instrução (ou educação) estimula a força inata, e o cultivo da virtude (ou o bom ensino) fortalece o peito (a alma/o caráter).

 

 

 

Brevíssima história da vinda da corte portuguesa no Brasil e o início da imprensa nacional

 

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A história da Imprensa Nacional começou na década de 1800. Cerca de um ano antes da vinda da corte portuguesa para o Brasil, o governo português havia comprado da Inglaterra prelos e material tipográfico para a Secretaria de Negócios Estrangeiros e de Guerra. Na fuga da corte de Portugal para o Brasil, o futuro Conde da Barca, dom Antônio de Araújo de Azevedo (1754-1817), despachou o material, que nem havia sido desencaixotado, na nau Medusa, que fazia parte da esquadra que veio para o Brasil.

 

 

Decretado o Bloqueio Continental por Napoleão (1769 – 1821), imperador dos franceses, contra a Grã-Bretanha, grande inimiga da França, Portugal se vê diante de um impasse: ou mantém relações comerciais com a Grã-Bretanha, o que ocasionaria a invasão francesa, ou corta os laços com Londres, traindo sua tradicional aliada desde a Idade Média, com a provável perda de suas colônias. Chega a Portugal o embaixador Percy Smith (1780- 1855), Visconde de Stangford, para lutar pelos interesses britânicos. O príncipe regente dom João, futuro dom João VI, tenta defender os interesses de seu país negociando a neutralidade. Diante da iminência da invasão francesa, decide partir com a Família Real para o Brasil, mantendo a soberania da maior colônia portuguesa e também não se rendendo a Napoleão.

 

 

A corte embarcou em 27 de novembro de 1807, mas devido a um temporal, só partiu dois dias depois. Escoltados pela armada da Inglaterra, deixaram o país a rainha Dona Maria I (1734 – 1816), o príncipe herdeiro e regente, sua esposa, Carlota Joaquina (1775 – 1830) com seus nove filhos, o aparelho burocrático e a elite do país. Vinte e quatro horas depois, as tropas francesas lideradas pelo marechal Junot (1771 – 1813) chegaram a Lisboa e Portugal tornou-se palco da guerra franco-britânica. A Família Real chegou a Salvador e seu desembarque aconteceu com uma grande solenidade, em 22 de janeiro de 1808.

Ainda em Salvador, em 28 de janeiro, o príncipe regente Dom João, assinou a Carta Régia decretando a Abertura dos Portos às Nações Amigas. Era o fim do monopólio português de comércio com o Brasil. Com a presença da corte no Brasil tornou-se interessante para Portugal o desenvolvimento da colônia. O governo português passou a angariar recursos com os impostos nas alfândegas. A Inglaterra foi a maior beneficiada, pois passou a ter no comércio com o Brasil uma compensação para o bloqueio que sofria na Europa. Os termos da Carta Régia, endereçada ao vice-rei do Brasil, João de Saldanha da Gama Melo Torres Guedes Brito (1773 – 1809), o conde da Ponte, foram inspirados pelo futuro visconde de Cairu, José da Silva Lisboa (1756 – 1835), simpatizante dos princípios liberais do filósofo e economista escocês Adam Smith (1723 – 1790) e orientador da política econômica de dom João no Brasil.

 

 

Em 26 de fevereiro, a esquadra partiu para o Rio de Janeiro, onde chegou em 7 de março de 1808. No dia seguinte, dom João e Dona Carlota desembarcaram na cidade. Pela primeira vez uma colônia recebia um soberano europeu em sua terras.

Poucos meses depois, em 13 de maio de 1808, dia do 41º aniversário do príncipe regente dom João (1767-1826), foi constituída a Impressão Régia. Assinado por dom João, o decreto de Rodrigo de Souza Coutinho (1755-1812), futuro conde de Linhares, e ministro da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra, determinava a instalação no Rio de Janeiro dos prelos trazidos de Lisboa após a fuga da corte portuguesa. A Impressão Régia ficou submetida à mencionada secretaria.

 

 

 

Na mesma data, foi impresso o primeiro trabalho da Impressão Régia, uma Relação de Despachos com os documentos oficiais desde a chegada da corte ao Brasil até aquela data. Era um folheto de 27 páginas e era vendido na loja do livreiro Manuel Jorge da Silva, na Rua do Rosário.

 

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A administração da Impressão Régia coube, por decisão de 24 de julho de 1808,  a uma junta composta por José Bernardes de Castro (17? – 18?), oficial da Secretaria de Estrangeiros e da Guerra; Mariano da Fonseca (1773 – 1848), o antigo consórcio de Silva Alvarenga na jacobina Sociedade Literária, e José Silva Lisboa (1756 – 1835). Primeiramente a Impressão Régia foi instalada na casa do conde da Barca, na Rua do Passeio nº 42, e, em 1810, foi transferida para o andar térreo de um prédio da Rua dos Barbonos (atual Evaristo da Veiga), esquina com a Rua das Marrecas.

A criação da Impressão Régia marcou o início da indústria editorial e da imprensa oficial no Brasil, que foi, segundo Alberto Dinis, o 12º país da América Latina a obter da respectiva metrópole o direito de impressão. Anteriormente, por determinação da Ordem Régia de 6 de julho de 1747  era proibida o uso da tipografia no Brasil – a administração colonial não permitia a tipografia e o jornalismo no Brasil porque os reis de Portugal temiam a difusão de ideias revolucionárias.

Segundo informado por Ana Maria Camargo e Moraes, em Bibliografia da Impressão Régia do Rio de Janeiro (1993), o primeiro livro impresso pela Impressão Régia foi Observações sobre o Commercio Franco no Brazil, de autoria de José da Silva Lisboa (1753 – 1835), o futuro visconde de Cairu.

 

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O estabelecimento da Imprensa Régia e o Decreto de Abertura dos Portos às Nações Amigas, foram as decisões de dom João VI que abriram o Brasil para o mundo do ponto de vista cultural e político.

Porém, tudo que seria impresso passava por uma censura prévia. Os originais eram encaminhados à Imprensa Régia por aviso da Secretaria de Estrangeiros e da Guerra, após examinados pelos censores régios e pelo Desembargo do Paço. Também eram proibidas notícias de livros estrangeiros sem permissão da Intendência da Polícia. Compunham a mesa censória o frade Antônio de Arrábida (1771 – 1850), o padre João Manzoni (17? -18?), José da Silva Lisboa e Luís José Carvalho e Melo (1764 – 1826).

A primeira tentativa de libertação da palavra escrita no Brasil aconteceu na Revolução Pernambucana de 1817. Na Constituição que deveria reger a efêmera república, declarava-se no artigo 25: “A liberdade de imprensa é proclamada, ficando porém o autor de qualquer obra e seus impressos sujeitos a responder pelos ataque à religião, à Constituição, aos bons costumes e caráter dos indivíduos, na maneira determinada pelas leis em vigor”. Mas a censura prévia no Brasil só foi abolida, em 28 de agosto de 1921, por dom Pedro I.

A criação da Impressão Régia também propiciou o surgimento da arte da gravura no Brasil, em 1809, com o notável João Caetano Rivara (c. 1770 – 1824), discípulo de Francesco Bartollozzi (1727–1815); Romão Eloi Casado de Almeida (17? – 18?) e Paulo dos Santos Ferreira Souto. Os dois últimos vieram para o país com o Frade José Mariano da Conceição Veloso (1742 – 1811), certamente do Arco do Cego, importante editora e oficina tipográfica ativa em Lisboa, entre 1799 e 1801, dirigida pelo referido religioso. Foram todos para a Imprensa Régia. Neste mesmo ano foram editados os Elementos da Geometria de Legendre, com 13 figuras gravadas por Souto, as primeiras abertas no Brasil e, em 1812, estampava-se a grande Planta do Rio de Janeiro, levantada em 1808, desenhada por J.A. dos Reis e também aberta por Souto, sob a direção de Rivara. Romão gravou a portada e o retrato de Pope para a edição do Ensaio sobre a Crítica, traduzido pelo conde de Aguiar e impresso em 1810.

 

Agradeço à importante colaboração de Sônia Nascimento de Lima, chefe do arquivo do IHGB e de Fábio Thomas Pinheiro Souza, assistente da Biblioteca do IHGB, para a elaboração deste artigo.

*Provavelmente o jornalista Braz Vianna.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ABREU, Márcia; BRAGANÇA, Aníbal (orgs). Impresso no Brasil: Dois séculos de livros brasileiros. São Paulo: Editora Unesp, 2010.

ABREU, Márcia. Impressão Régia do Rio de Janeiro: novas perspectivas. Parte do Projeto Temático Caminhos do romance no Brasil· séculos XVIII e XIX, financiado pela FAPESP. Revista Convergência Lusíada, 21 – 2005

BARROS, Maria Pia Fontes Lins de; WANDERLEY, Andrea C. T. Agenda do Centro de Documentação da TV Globo.

BETONI, Nicholas Simão. O livro como objeto de coleção: Um recorte da Coleção Rubens Borba de Moraes da Biblioteca Brasiliana Guita e José Mindlin. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação  Interunidades m Museologia da Universidade de São Paulo, 2021.

CAMARGO, Angélica Ricci. Censores régios, Arquivo Nacional, julho, 2011.

CAMARGO, Angélica Ricci. Impressão Régia. Arquivo Nacional, agosto, 2011.

Catálogo dos 190 anos de Imprensa no Brasil 1808 – 1998. Exposição documental 13 a 27 de maio de 1998, IHGB.

COSTA, Alvaro Daniel. A comemoraçãodo centenário da imprensa perióidica brasileira no IHGB: uma memória do jornalismo nacional (1908). Dissertação de Mestrado apresentada ao Programa de Pós-Graduação em História da Universidade Estadual de Ponta Grossa para a obtenção do Título de Mestre em História, Área de História, culturas e identidades, agosto de 2017.

COSTA, Carla. Série “Exposições” III e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” II – A Exposição Nacional de 1908 na Coleção Família Passos in Brasiliana Fotográfica, 5 de abril de 2018.

DINES, Alberto. ‘Aventuras e Desventuras de Antônio Isidoro da Fonseca – nova documentação sobre a malograda Tipografia do Rio de Janeiro no século XVIII, com achegas aos 190 anos da imprensa brasileira in: DINES, Alberto; FALBEL, Nachman; MILGRAM, Avraham (org.) Em nome da fé. São Paulo: Perspectiva, 1999.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Minuta da carta de Fleuiss ao ministro Miguel Calmon, ministro da Indústria Viação e Obras Públicas sobre as providências já tomadas em relação à exposição do centenário da imprensa no Brasil; e propondo o Palácio Monroe para a realização da mesma. Rio de Janeiro, 19.12.1907. Biblioteca do IHGB.

Ofício de Miguel Calmon, ministro da Indístria, Viação e Obras Públicas acusando o recebimento da comunicação da iniciativa do IHGB em comemorar o centenário da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro, 04.09.1907.

Ofício circular expedido a todos os membros da comissão executiva do centenário da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro, 31.07.1907. Biblioteca do IHGB.

PESSOA, Ana; SANTOS, Ana Lucia V. Moradas de engenho e arte: as casas do Conde da Barca no Novo Mundo. Revista do IHGB, Rio de Janeiro, set./dez. 2017.

Portaria do Instituto Histórico e Brasileiro estabelecendo escala de plantão dos funcionários durante a exposição comemorativa do centenário da imprensa. Rio de Janeiro, 14-08-1908. Biblioteca do IHGB.

Portaria do Instituto Histórico e Brasileiro estabelecendo reclamando da escala de plantão dos funcionários durante a exposição comemorativa do centenário da imprensa. Rio de Janeiro, 24-08-1908. Biblioteca do IHGB.

Proposta apresentada pelos sócios Max Fleuiss, Barão de Studart, Alfredo de Carvalho, Orville A. Derby e José Américo dos Santos para que o IHGB organizasse uma exposição jornalística comemorativa do primeiro centenário da imprensa no Brasil. Com parecer aprovando a iniciativa e nomeando uma comissão para conduzir os trabalhos. Rio de Janeiro, 29.07.1907. Biblioteca do IHGB.

Relação dos expositores que concorreram para a Comemoração da º Centenário da Imprensa no Brasil. Secretaria do IHGB, 23.11.1908. Biblioteca do IHGB.

Revista do IHGB, número 31, 2024

Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro- Tomo Consagrado à Exposição Comemorativa do Primeiro Centenário da Imprensa Periódica no Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1908, parte I.

Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro- Tomo Consagrado à Exposição Comemorativa do Primeiro Centenário da Imprensa Periódica no Brasil. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1908, parte II, volume I.

RIZZINI, Carlos. O livro, o jornal e a tipografia no Brasil1500 – 1822 com um breve estudo geral sobre a informação. Livraria Kosmos Editora. Erich Eichner & Cia Ltda. Rio de Janeiro São Paulo Porto Alegre, s/d.

ROMANCINI, Richard. Inventando tradições: os historiadores e a pesquisa inicial sobre o jornalismo in Revista Pj:Br, 1º semestre de 2004.

Site Ministério da Cultura

Site IHGB

O centenário do Palácio Tiradentes

O Palácio Tiradentes foi construído no local onde existia a Casa de Câmara e Cadeia Velha, prédio erguido em torno de 1640, que foi demolido em 1922, quando foi lançada, com a presença do presidente da República, Epitácio Pessoa (1865 – 1942), a pedra fundamental do prédio da nova sede do Legislativo. Cerca de um ano antes, em 1921, foi aprovado um projeto dos arquitetos  Archimedes Memória (1893 – 1960) e  Francisque Couchet (18? -19?) para a sua construção. Inspirado no Grand Palais, o Palácio Tiradentes foi inaugurado em 6 de maio de 1926 e hoje, com fotografias de Augusto Malta (1864 – 1957), de Guilherme Santos (1871 – 1966) e de fotógrafos ainda não identificados, a Brasiliana Fotográfica celebra seu centenário.

 

 

Acessando o link para as fotografias do Palácio Tiradentes disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

O Palácio Tiradentes foi construído no local onde existia a Casa de Câmara e Cadeia Velha, prédio erguido em torno de 1640, quando os membros do Senado e da Câmara do Rio de Janeiro solicitaram a construção de um edifício para abrigar os trabalhos do legislativo. No século XVII, usualmente, nas cidades coloniais da América portuguesa nesses mesmos prédios ficavam as prisões.

 

 

Em 25 de dezembro de 1921, foi aprovado um projeto do cearense Archimedes Memória e do franco-suíço Francisque Couchet, ambos arquitetos, para a construção do Palácio Tiradentes, no local onde existia a Cadeia Velha (Architectura no Brasil, janeiro de 1922). Eles trabalhavam no Escritório Técnico Heitor de Mello (1875 – 1920), que havia falecido, em 1920. Memória e Couchet foram sócios até 1929.

 

 

Archimedes e Couchet foram também responsáveis pelos projetos do Palácio das Festas e do Palácio das Grandes Indústrias, na Exposição Internacional do Centenário da Independência (1922), um dos maiores eventos internacionais já realizados no Brasil, inaugurada no Rio de Janeiro em 7 de setembro de 1922 e encerrada em 24 de julho do ano seguinte; além dos edifícios do Palácio Pedro Ernesto (1923), cujo projeto foi desenvolvido por eles, já que seu autor, Heitor Mello (1875 – 1920), faleceu em 1920; do Hotel Balneário da Urca (1925), futuro Cassino da Urca e sede da TV Tupi carioca; do Jockey Club Brasileiro, na Gávea (1926), e do Botafogo Futebol e Regatas (1928).

 

 

Augusto Malta, Sentados, da esquerda para a direita: Nestor de Figueiredo, Adollpho Morales de los Rios (pai) e Francisco Cuchet. Em pé, na mesma ordem: Arquimedes Memoria, Adolpho Morales de los /rios (filho), Celestino Severo de Juan e Edgar Vianna, de 7 de setembro de 1922. Rio de Janeiro, RJ / Rio antigo, por Charles Dunlop.

Augusto Malta. Sentados, da esquerda para a direita: Nestor de Figueiredo, Adolpho Morales de los Rios (pai) e Francisque Cuchet. Em pé, na mesma ordem: Archimedes Memoria, Adolpho Morales de los Rios (filho), Celestino Severo de Juan e Edgar Viana, 7 de setembro de 1922. Rio de Janeiro, RJ / Rio Antigo, por Charles Dunlop.

 

O prédio da Cadeia Velha foi demolido, em 1922, quando foi lançada, com a presença do presidente da República, Epitácio Pessoa, a pedra fundamental do prédio da nova sede do Legislativo (O Combate, 19 de junho de 1922Fon-Fon, 24 de junho de 1922).

 

 

 

 

 

 

No estilo do palácio é Luiz XVI, moderno, segundo a revista Architectura no Brasil, de janeiro de 1922, foi inspirado no Grand Palais de Paris. O Palácio Tiradentes foi inaugurado em 6 de maio de 1926, no dia em que se completava Um século de vida legislativa no Brasil. Seu nome homenageia Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746 – 1792), um dos líderes da Inconfidência Mineira, que passou cinco dias na Cadeia Velha, da onde foi levado à forca, em 21 de abril de 1792.

Por ordem do então presidente da Câmara, Arnolfo de Azevedo (1868 – 1942), o Palácio Tiradentes foi construído com muita economia, tendo custado 15 contos de réis, metade do custo do Palácio Pedro Ernesto, inaugurado em 1923. Toda sua estrutura é de concreto e tijolo; as estátuas são de massa. Ricos cafeicultores e o estado de São Paulo foram responsáveis pela doação de vários móveis para a nova Câmara Federal, abrigada no Palácio Tiradentes, que ali funcionou de 1926 até 1960 (Correio de Manhã, 7 de maio de 1926O Paiz6 de maio e 7 de maio de 1926; Architectura no Brasil, junho/julho de 1926).

 

 

Na mesma ocasião, foi descerrada, em frente ao plácio, a estátua de Tiradentes, de autoria do escultor Francisco de Andrade  (1893-1953). Em bronze, tem 4,5 metros de altura e, em sua base, lê-se Libertas Quæ Sera Tamen – Liberdade ainda que tardia -, lema dos inconfidentes mineiros inscrito na bandeira oficial do Estado de Minas Gerais.

Francisco de Andrade havia, em 1914, vencido o concurso para realizar a estátua de Tiradentes. A peça deveria representar Tiradentes no momento, em que estava sendo conduzido à forca, em 21 de abril de 1792, no Largo da Lampadosa, atual Praça Tiradentes. O local escolhido para a fixação da estátua é o mesmo ponto onde se localizava a cela em que Tiradentes esteve preso. A estátua foi alvo de críticas e reparos à época, pois representava o alferes mór do Brasil muito velho, vestindo uma túnica de condenado que lembrava desagradavelmente uma camisola de dormir. Representava-o, igualmente, barbado e cabeludo, atributos que à época, já se sabia que Tiradentes nunca os tivera por ser militar (Site Palácio Tiradentes).

 

 

Cerca de dois anos depois, o presidente dos Estados Unidos, Herbert Hoover (1874 – 1964), fez uma visita ao Palácio Tiradentes, em 22 de dezembro de 1928 (Fon-Fon, 29 de dezembro de 1928).

 

 

Abaixo, um imagem de autoria do fotógrafo amador Guilherme Santos (1871 – 1966) no dia da Constituinte de 1934, em 16 de julho de 1934, com a cavalaria e civis diante do Palácio Tiradentes.

 

 

O Parlamento foi fechado pelo presidente Getulio Vargas (1882 – 1954) no período do Estado Novo, de 1937 a 1945, e o Palácio Tiradentes passou a sediar o Ministério da Justiça e o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão de censura do regime. Com a saída de Vargas, em 1945, o Palácio Tiradentes voltou a abrigar a Assembleia Constituinte.

Quando Brasília tornou-se a capital do Brasil, em 1960, no Palácio Tiradentes passou a funcionar a Assembleia Legislativa do Estado da Guanabara (ALEG) que, com a fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, efetivada em 1975, passou a se chamar Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

CASTRO, Ramiro Berbert de. Edifícios da Cadeia Velha, Palácio Monroe e Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro : Empresa Brasil Editora, 1926.

Diário do Rio

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

O GLOBO, 10 de novembro de 2011

Site Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes

Site Palácio Tiradentes

Site Rio Memórias

 

 

 

Série “Teatros e cinemas do Brasil” XVI e Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” X – O centenário do Cinema Odeon

O atual prédio do Cinema Odeon, fotografado pelo alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), em torno de 1930, foi inaugurado em 3 de abril em 1926, na Praça Floriano, nº 7, no auge da presença de salas de cinema na Cinelândia, no centro do Rio (O Paiz, 4 de abril de 1926, segunda coluna). Possuía capacidade para 1.344 pessoas, entre plateia e camarotes. (Jornal do Commercio, 2 de abril de 1926, quarta colunaO Paiz, 4 de abril de 1926, segunda coluna). O edifício, cujo arquiteto foi o alemão Ricardo Wriedt (? – 1961), combina elementos estruturais clássicos com detalhes decorativos Art Déco. Wriedt também projetou a casa, de estilo normando, de Eva Klabin (1903 – 1991), na Lagoa; e o Edifício Novo Mundo, na Lapa. Ele tem projetos tanto no Rio de Janeiro como em outras cidades do Brasil.

O cinema Odeon passou por reformas em fins do século XX e, sob a administração do Grupo Estação, foi fechado em 2014, devido a dívidas. Reaberto, em 2015, como Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, passou a ser, além de sala de cinema, um espaço para cursos, palestras e espetáculos.

O Cine Odeon mantém viva a tradição dos cinemas de rua do Rio de Janeiro e é um monumento à memória do cinema brasileiro e à vitalidade cultural carioca. É a sala de cinema mais icônica do Rio de Janeiro e resiste no quarteirão dos antigos palácios de cinema da cidade. Seu nome tem origem na Antiguidade: os odeons eram os prédios greco-romanos onde aconteciam espetáculos musicais e competições de poesias. Eram menores do que os teatros e possuíam uma cobertura para melhorar a acústica. Muitos teatros e cinemas de todo o mundo trazem este mesmo nome.

 

 

“É o mais belo, o mais luxuoso, o mais confortável e o mais tudo quanto pode desejar de agradável em um cinema, de quantos que existem no Rio…É a realização plena de um sonho desse grande idealista do cinema entre nós, o Sr. Francisco Serrador”.

 Jornal do Commercio, 2 de abril de 1926, quarta coluna

 

 

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Aspectos da inauguração do Cinema Odeon / Cinearte, 21 de abril de 1926

Aspectos da inauguração do Cinema Odeon / Cinearte, 21 de abril de 1926

 

O primeiro filme exibido na nova sala foi Graustark ou Amor de Príncipe, estrelado por Norma Talmadge (1894 – 1957), Eugene O’Brien (1880-1966) Marc McDermott (1871-1929).

 

 

 

 

 

Passou por reformas em fins do século XX e, sob a administração do Grupo Estação, foi fechado em 2014, devido a dívidas. Reaberto, em 2015, como Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro – o Cine Odeon passou a ser, além de sala de cinema, um espaço para cursos, palestras e espetáculos.

 

” O ODEON é parte da memória cultural do Rio de Janeiro e representa uma época em que o cinema e o Centro da cidade se confundiam e se completavam. Sua história acompanha as mudanças da cidade ao seu redor ao longo dos seus 90 anos e continua a encantar o público, combinando com maestria a tradição e a renovação, o clássico e o contemporâneo, sem nunca perder a força da sua identidade“.

Site do Cine Odeon (desativado)

 

Luciano FErrez. Cine Odeon, 1926. Rio de Janeiro, RJ / Acervo Arquivo Nacional

Luciano Ferrez. Fachada do Odeon, 1926. Rio de Janeiro, RJ / Acervo Arquivo Nacional

 

O primeiro Cinema Odeon

 

 

Lembramos aqui que o primeiro Cinema Odeon foi inaugurado, em 16 de agosto de 1909, na então Avenida Central, atual Rio Branco, nº 137, esquina com a Rua Sete de Setembro, instalada pelo Srs. Zambelli & C., no Palacete Guinle.

 

 

Entre 1909 e 1913, o pianista Ernesto Nazareth (1863 – 1934) tocava na sala de espera, tendo merecido um elogio do também pianista e compositor Henrique Oswald (1852 – 1931), que o ouviu no Cinema Odeon: “É admirável esse moço. Que música ele faz! Eu mesmo seria incapaz de interpretá-la com aquela mestria, aquele prodígio de ritmo. E aqui, perdido nesta indiferença…”. Nazareth havia dedicado o tango Batuque (1901) a Oswald.

 

Ernesto Nazareth / Exposição comemorativa do centenário do nascimento de Ernesto Nazareth : 1863-1934

Ernesto Nazareth / Exposição comemorativa do centenário do nascimento de Ernesto Nazareth : 1863-1934

 

Nazareth retornou ao cinema, entre 1913 e 1918, como pianista da orquestra de Eduardo Andreozzi (1892-1979). Villa-Lobos (1887 – 1959) era, na ocasião, o violoncelista. O compositor e professor francês Darius Milhaud (1892 – 1974), que passou uma temporada no Brasil, também o ouviu tocar no Odeon e, posteriormente, escreveu sobre ele em sua autobiografia Notes san musique. Foi também no Odeon que o pianista polonês Arthur Rubinstein (1887-1982) o ouviu tocar, tendo ficado impressionado com sua performance. Sua composição, o tango Odeon, publicado em 1909 pela Casa Mozart (E. Bevilacqua & Cia.) foi dedicado “à distinta empresa Zambelli & Cia.”, proprietária, como já mencionado, do Cinema Odeon. A primeira gravação foi realizada por ele com Pedro Alcântara (1866 – 1929) ao flautim, em 1912. Não foi, na época, uma peça de especial destaque, mas tornou-se um de seus maiores sucessos na segunda metade do século XX.

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Site Ernesto Nazareth 150 Anos – Instituto Moreira Salles

Site Musica Brasilis

Youtube

O Elevador Lacerda, um dos ícones de Salvador

A Brasiliana Fotográfica celebra os 477 anos de fundação de Salvador, ocorrida em 29 de março de 1549, destacando imagens do Elevador Lacerda, um dos maiores símbolos da cidade, um dos principais cartões postais da Bahia e o primeiro edifício urbano elevador do mundo. Os registros destacados foram realizados por Guilherme Gaensly (1843 – 1928), Marc Ferrez (1843 – 1923), Pedro Gonsalves da Silva (18?- 19?) e Rodolpho Lindemann (c. 1852 – 19?). Foram produzidos no século XIX e na década de 1910.

 

 

As obras fotográficas do suíço Gaensly e do carioca Ferrez já foram diversas vezes abordadas em vários artigos da Brasiliana Fotográfica e sobre ambos foram realizados perfis e cronologias publicados no portal: São Paulo sob as lentes do fotógrafo Guilherme Gaensly (1843 – 1928) e O brilhante cronista visual Marc Ferrez (RJ, 07/12/1843 – RJ, 12/01/1923), respectivamente.

Pouco se sabe até o momento sobre os fotógrafos Pedro Gonsalves da Silva e Rodolpho Lindemann. O primeiro era brasileiro ou português e trabalhou como fotógrafo na Bahia, nas décadas 1880 e 1890. Sucedeu Eduardo del Vechi no estúdio da rua Carlos Gomes, nº 116, em Salvador, que já havia pertencido a Antônio da Silva Lopes Cardoso, e batizou o estabelecimento de Photographia Nacional. Posteriormente, transferiu seu ateliê, denominado Photographia Pedro Gonsalves da Silva, como se lê no verso de uma fotografia de sua autoria (imagem abaixo), para a rua Direita do Palácio, nº 8. Destacou-se como retratista e, também de acordo com a imagem abaixo, seu estabelecimento foi premiado com uma medalha de ouro. É avô do fotógrafo baiano Armínio Archimedes Pedro Gonçalves Kaiser  (1925 – 2014), um dos fundadores do Foto Clube de Londrina.

 

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O alemão Rodolpho Frederico Francisco Lindemann tornou-se, na década de 1880, ajudante e, posteriormente, sócio do fotógrafo suíço Guilherme Gaensly (1843 – 1928), em Salvador. Segundo Geraldo da Costa Leal em Um cinema chamado saudade (1997), em 1874, Lindemann  já trabalharia com Gaensly.  Em 1888, Lindemann casou-se com Alaine, irmã de Gaensly. Em 1894, a próspera empresa Gaensly & Lindemann abriu uma filial em São Paulo. Gaensly foi chefiar a sede paulista e Lindemann permaneceu em Salvador. Terminou a sociedade entre Gaensly & Lindemann, em São Paulo, e Gaensly passou a atuar sozinho na Photographia Gaensly. Lindemann é considerado um grande fotógrafo de paisagens tendo produzido vistas de Salvador, de Alagoas e de Pernambuco. Várias vistas de Salvador produzidas por ele foram incluídas pelo barão do Rio Branco (1845 – 1912) no Album de vues du Brésil, lançado em Paris na ocasião da Exposição Universal de 1889, ocorrida entre 6 de maio e 31 de outubro de 1889, e fazia parte da segunda edição de Le Brésil, extrato da Grande Enciclopédia, trabalho dirigido pelo geógrafo Émile Levasseur  (1828-1911), para o qual o barão havia colaborado. Também em 1889 a Photographia Gaensly & Lindemann foi premiada na mencionada exposição.

 

 

Foi inaugurada, em 1906, no Rio de Janeiro, uma exposição artística dos quadros de Lindemann (O Pharol (MG), 20 de maio de 1906, segunda coluna). No Almanak Laemmert de 1906, era noticiada a Photographia Gaensly e Lindemann, na Praça Castro Alves. No ano seguinte, a Photo Lindemann ficava na Praça Castro Alves, nº 33, mas pertencia a José Dias da Costa sob a gerência do gráfico Gramacho (Revista do Brasil (BA), 15 de outubro de 1907).

 

Breve história do Elevador Lacerda

 

 

Acessando o link para as fotografias do Elevador Lacerda, em Salvador, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Um grande desafio de engenharia na época, a construção do elevador foi iniciada, em 17 de outubro de 1869, pela Empresa de Trilhos Urbanos. Foi necessária a perfuração de dois túneis em rocha, um vertical, para abrigar a primeira torre, e outro horizontal, para dar acesso à rua. A Empresa de Trilhos Urbanos era comandada por Antônio de Lacerda (1834 – 1885), encarregado de administrar alguns bondes de tração animal em Salvador que, em parceria com seu irmão, o engenheiro Augusto Frederico de Lacerda (1836 – 1931), posteriormente condecorado como comendador da Imperial Ordem da Rosa, foi o responsável pelo empreendimento. Os irmãos nasceram em Valença, na Bahia, e eram filhos de Antonio Francisco de Lacerda (? – 18?) e Angelica Michelina de Sampaio Vianna (? – 18?).

 

 

O Elevador Hydraulico da Conceição da Praia, nome de batismo do Elevador Lacerda, foi inaugurado, em 8 de dezembro de 1873,  para resolver um grande problema urbano de Salvador – seu desnível. Passou a ser o principal transporte entre a Cidade Baixa a Cidade Alta. Tinha 63 metros de altura, sendo, na época, o elevador mais alto do mundo. Era popularmente conhecido como Parafuso e de suas torres, vê-se a Baía de Todos os Santos, o Mercado Modelo, inaugurado em 1912; e o Forte de São Marcelo, construído no século XVII, outros ícones da paisagem soteropolitana.

 

 

Em 1896, por indicação do Instituto Geográfico e Histórico da Bahia, o Elevador passou a se chamar Elevador Antônio de Lacerda. Entre 1906 e 1907, foi eletrificado pela Companhia Linha Circular de Carris da Bahia (Bahia Illustrada, edição 10, 1918, segunda coluna). Em 1930, foram adicionados mais dois elevadores e uma nova torre. Foi nesta reforma, da qual a empresa norte-americana Otis participou, cujos melhoramentos foram inaugurados, em 15 de setembro de 1930, que sua arquitetura passou a ser em estilo art déco. Outras reformas e revisões foram realizadas ao longo de sua existência (Etc (BA), 15 de setembro de 1930; Jornal do Commercio, 15 e 16 de setembro de 1930, quinta colunaO Jornal, 16 de setembro de 1930).

 

 

Em 1955, o Elevador Lacerda foi estatizado pela Prefeitura de Salvador e, em 1º de julho 1961, novos elevadores da Otis foram inaugurados, mais rápidos e dobrando a capacidade por cabine de 16 para 32 pessoas. Em 7 de dezembro de 2006, foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Site Iphan).

 

 

Entre 2011 e 2013,  o elevador foi transformado em um microprocessado — uma tecnologia inédita até então. Seu processo, antes mecânico, foi modificado e passou a funcionar através de uma base que envia informações e comandos para o seu funcionamento. O elevador instalado na modernização foi um projeto especial da empresa Otis para o Elevador Lacerda devido a sua complexidade e avançada tecnologia (Blog da Otis).

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Biblioteca do IBGE

Blog da Otis

Dicionário Histórico-Biográfico da Fotografia

Guia Salvador Antiga

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

Site Academia Feirense de Letras

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site Family Search

Site Iphan

TRINCHÃO, Glaucia Maria Costa. O Parafuso: de meio de transporte a cartão-postal. Salvador : Editora da Universidade da Bahia, 2010.

XAVIER, Xavier, Melquisedeque. Elevador Lacerda : Salvador, BA, 1957.

 

Série “Teatros e cinemas do Brasil” XV – Fotos aéreas da Cinelândia no centenário da revista “Cinearte”

Com diversas fotos aéreas da Cinelândia, provenientes dos acervos do Museu Aeroespacial e do Instituto Moreira Salles (IMS), instituições parceira e fundadora da Brasiliana Fotográfica, respectivamente, o portal publica o 15º artigo da série Teatros e cinemas do Brasil, que celebra o centenário da primeira edição da revista Cinearte, importante publicação para a crítica e para o estudo do cinema nacional, produzida por advogados, cineastas, críticos de cinema, educadores, intelectuais e jornalistas. 

 

 

A Cinelândia, idealizada pelo empresário espanhol Francisco Serrador (1872 – 1941), foi durante muito tempo, ao longo do século XX, o epicentro da vida cultural do Rio de Janeiro, com uma grande concentração de cinemas, teatros, bares e restaurantes. Fica no entorno da Praça Marechal Floriano, onde se encontram os prédios da Biblioteca Nacional, do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, do Palácio Pedro Ernesto e do Centro Cultural da Justiça Federal e o Palácio Monroe, demolido em 1976.

 

 

As fotos aéreas destacadas nesse artigo são das décadas de 1920, 1930 e 1940. A mais antiga foi produzida em torno de 1926 pela The Aircraft Operating Co. Ltd. e pertence ao IMS. Lembramos aqui que as primeiras fotos aéreas no Brasil foram realizadas, em 1916, pelo fotojornalista Jorge Kfuri (1893 – 1965) que, na época, trabalhava para o periódico A Noite.

 

 

Acessando o link para as fotos aéreas da Cinelândia disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Breve história da revista Cinearte

 

 

Cinearte foi lançada, em 3 de março de 1926, por Mário Marino de Carvalho Behring (1876 – 1933), na época diretor da Biblioteca Nacional, cargo que ocupou entre 1924 e 1932; e pelo cineasta, ator, produtor e crítico de cinema brasileiro, Adhemar Gonzaga (1901 – 1978). Teve como origem a sessão de cinema da revista cultural Para Todos…, onde Gonzaga era repórter. Após 561 edições, sua circulação foi encerrada, em julho de 1942. Inspirada na revista norte-americana Photoplay, lançada em 1910, seus principais assuntos eram os filmes, a indústria e as fofocas de Hollywood, a defesa do cinema brasileiro e da necessidade da criação de uma indústria audiovisual nacional. Tinha muitas propagandas de produtoras estrangeiras e de salas de cinema. Surgiu quando a mídia passava a ter lugar de destaque na formação cultural da sociedade e o interesse pelo cinema crescia. A imprensa acompanhou o fenômeno.

 

 

Um dos pioneiros do cinema nacional, Adhemar foi um dos fundadores, em 1917, com  jovens intelectuais como Otávio de Faria (1908 – 1980) e Plínio Sussekind Rocha (1911 – 1972), de um dos  primeiros cineclubes do Brasil, o Cineclube Paredão, cujo objetivo era estudar o cinema como uma arte. Fundou também a Cinédia, em março de 1930, o mais completo estúdio cinematográfico brasileiro de sua época. Está em funcionamento até hoje. Lançou grandes nomes do cinema brasileiro como Humberto Mauro (1897 – 1983) e Carmen Miranda (1909 – 1955). Produziu 40 filmes, dirigiu nove, foi roteirista e argumentista. Entre os filmes que dirigiu estão Barro Humano (1928), Brasa Dormida (1928), Lábios sem Beijos (1930), Ganga Bruta (1933) e O Descobrimento do Brasil (1937). Também escreveu o livro Setenta Anos do Cinema Brasileiro (1966).

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BNDigital

CATELLI, Rosana Elisa. A revista Cinearte e o projeto de modernização cultural pelo cinema, 2012.

Hemeroteca Digital da Brasiliana Fotográfica

Jornal do Brasil, 25 de agosto de 2021

LUCAS, Tais Campelo. Cinearte: o cinema brasileiro em revista. Dissertação apresentada ao programa de Pós-graduação em História do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em História, 2005.

Site Academia Maçônica Ribeiraopretana de Letras

Site Centro Memória do Circo

Site Museu da Imagem e do Som de São Paulo

O primeiro campo do Clube de Regatas do Flamengo por Augusto Malta

Produzida pelo fotógrafo alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), em torno de 1926, a imagem destacada no artigo de hoje da Brasiliana Fotográfica mostra um aspecto do primeiro campo do Clube de Regatas do Flamengo – O Estádio da Rua Paissandu. Na época, Malta era o fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro, cargo criado para ele, que o ocupou entre 1903 e 1936, quando se aposentou. Fotografou no período as transformações urbanas e os grandes eventos da cidade, personalidades políticas, intelectuais e artísticas; paisagens, monumentos, lojas, o casario e as ressacas. Registrou também aspectos da vida carioca como, por exemplo, o carnaval de rua, o movimento dos quiosques, os eventos sociais e esportivos, os moradores de cortiços, os vendedores ambulantes, as prostitutas, os marinheiros e cenas de praia. Seu legado iconográfico é essencial para a preservação da memória da cidade.

 

 

O Estádio da Rua Paissandu, cercado de palmeiras imperiais, localizava-se na esquina da Rua Paissandu com a Pinheiro Machado. A família Guinle era a proprietária do terreno, que foi arrendado pelo Flamengo, em fins de 1914, quando o Paissandu Atlético Clube deixou de ser o mandante em amistosos e jogos não oficiais do campo. Em 31 de outubro de 1915, foi realizado o primeiro jogo oficial do Flamengo no estádio: foi uma goleada de 5 a 1 sobre o Bangu, que valeu ao rubro-negro o título do Campeonato Carioca daquele ano. Depois viriam, ainda no campo da Rua Paissandu, os títulos de 1920, 1921, 1925 e 1927. Seu último jogo no estádio, em 25 de setembro de 1932, foi contra o Sport Club Brasil e o rubro-negro ganhou de 5 a 0. O Flamengo devolveu o terreno no fim de 1932 (A Noite, 26 de setembro de 1932).  Os maiores públicos do estádio foram Flamengo 0 x 3 Fluminense, em 23  de junho de 1918, e Flamengo 1 x 3 Fluminense, em 24 de agosto de 1919; ambas as partidas registrando cerca de 15 mil pagantesEm 4 de setembro de 1938, foi inaugurado o novo estádio do Flamengo, o Estádio da Gávea, à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, com um jogo pelo Campeonato Carioca, entre o Flamengo e o Vasco, que venceu por 2 a 0, gols de Leonídio Fantoni, conhecido como Niginho (1912-1975).

 

flamengo

 

O Flamengo, cuja torcida é atualmente a maior do mundo, foi fundado, como clube de regatas, em 15 de novembro de 1895. Apenas em 1912, adotou o futebol. Antes de arrendar o Estádio da Rua Paissandu, o time não tinha estádio próprio e realizava seus jogos nos campos do Fluminense, em Laranjeiras; e no do Botafogo, na General Severiano – campos que voltou a utilizar entre 1932 e 1938. Seu atual estádio é o da Gávea (A Noite, 4 de setembro de 1938Jornal dos Sports, 6 de setembro de 1938).

 

 

 

 

Algumas curiosidades sobre o estádio da Rua Paissandu

 

Em 1872, foi fundada uma agremiação chamada Rio Cricket Club, na rua Berquó, atual Rua General Polidoro, semente do Paissandu Atlético Clube. Em 1880, o Rio Cricket Club mudou-se para um terreno alugado na Rua Paissandu e passou a chamar-se Paysandú Cricket Club. Na nova sede, foi construída uma pista de corrida em volta da quadra de críquete, além de quadras de tênis e de um pavilhão onde ficavam as senhoras que vinham assistir aos jogos. O terreno pertencia a Gastão d´Orleans (1842 – 1922), o conde D´Eu e sua esposa, a princesa Isabel (1846 – 1921), frequentava o clube para ver jogos e campeonatos…

 

 

 

…quando ainda era denominado Paysandú Cricket Club foi o local do primeiro jogo do Fluminense Futebol Clube, em 19 de outubro de 1902, quando o time tricolor venceu o amistoso contra o Rio Futebol Clube por 8 a 0 (Revista da Semana, 26 de outubro de 1902, primeira coluna)…

 

 

…em 13 maio de 1917, o estádio foi palco de um jogo amistoso da seleção brasileira de futebol, que venceu o Barracas da Argentina por 2 a 1 (O Paiz, 14 de maio de 1917, primeira coluna).

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

PARDO, Aristides Leo. Os Estádios de Futebol do Estado do Rio de Janeiro: Bola, História e Cultura – Vol. 3. Rio de Janeiro : Editora Tide Karioca, 2025.

Site Fla Estatística

Site Fluminense Futebol Clube

Site Globo Esporte

Site Museu Flamengo

Site Paissandu Atlético Clube