Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXII – A Cadeia Velha, que deu lugar ao Palácio Tiradentes

Em seu 22º artigo da Série O Rio de Janeiro desaparecido, a Brasiliana Fotográfica lembra a história da Cadeia Velha, demolida em 1922, que deu lugar ao Palácio Tiradentes, inaugurado, em 1926, com imagens de autoria de Augusto Malta (1864 – 1957), fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro, entre 1903 e 1936; estereoscopias de Guilherme Santos (1871 – 1966) e registros realizados por  fotógrafos ainda não identificados.

 

 

Acessando o link para as fotografias da Cadeia Velha e do Palácio Tiradentes disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

O Palácio Tiradentes foi construído no local onde existia a Casa de Câmara e Cadeia, prédio erguido em torno de 1640, quando os membros do Senado e da Câmara do Rio de Janeiro solicitaram a construção de um edifício para abrigar os trabalhos do legislativo. ao longo de sua existência, abrigou a Cadeia pública; Casa de Vereança; Senado da Câmara; Tribunal da Relação e Câmara Imperial. No século XVII, usualmente, nas cidades coloniais da América portuguesa nesses mesmos prédios ficavam as prisões. Só em 1747 foi inaugurado o edifício colonial da Câmara e da Cadeia Velha, que, em 1752, passou a abrigar o Tribunal da Relação. Nele os desembargadores exerciam função judiciária para a parte sul do país. Os crimes da parte norte do país ficaram a cargo do Tribunal da Relação de Salvador.

Quarenta anos depois, foi cárcere do alferes Joaquim José da Silva Xavier (1746-1792), o Tiradentes, um dos líderes da Inconfidência Mineira, nos últimos quatro dias de sua vida. Foi lá que, em 18 de abril de 1792, ouviu sua sentença, escrita por D. Maria I de Portugal (1734 – 1816): seria levado à forca pelo crime de lesa-majestade. Sua execução foi realizada no dia 21 de abril de 1792.

Em 1808, com a chegada de d. João VI (1767 – 1826) ao Brasil, a Casa de Câmara e Cadeia serviu de moradia para os empregados da corte. Os antigos prisioneiros foram transferidos para a Cadeia do Aljube, na antiga Rua do Aljube (hoje rua Acre), no bairro da Saúde. A Casa de Câmara e Cadeia passou a ser chamada de Cadeia Velha.

 

 

Abrigou a Assembleia Nacional Constituinte que tinha como missão elaborar a Constituição do Brasil recém liberto de Portugal, mas foi dissolvida pelo Exército por ordem de dom Pedro ( (1798 – 1834), que não aprovou o texto original do documento. Foi sede da Câmara dos Deputados, entre 1826 e 1914, exceto durante a Constituinte Republicana, quando a Inspetoria de Higiene funcionou no prédio da Cadeia Velha. Mas, em 18 de dezembro de 1891, a Câmara dos Deputados voltou para lá.

 

 

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Edifícios da Cadeia Velha, Palácio Monroe e Biblioteca Nacional, de Ramiro Berbert de Castro

 

Em 1914, o prédio da Cadeia Velha se encontrava em péssimas condições e a Câmara foi transferida para o Palácio Monroe, no fim da rua do Passeio, na avenida Central, atual Rio Branco, ponto mais nobre da capital do Brasil, na Cinelândia.

 

 

Entre 1914 e sua demolição, a Cadeia Velha serviu como depósito. Em 25 de dezembro de 1921, foi aprovado um projeto dos arquitetos cearense Archimedes Memória (1893 – 1960) e do franco-suíço Francisque Couchet (18? – 19?) para a construção do Palácio Tiradentes, no local onde existia a Cadeia Velha (Architectura no Brasil, janeiro de 1922). Os arquitetos trabalhavam no Escritório Técnico Heitor de Mello (1875 – 1920), que havia falecido, em 1920. Memória e Couchet foram sócios até 1929. Segundo a revista Architectura no Brasil, de janeiro de 1922o estilo do palácio é Luiz XVI, moderno.

 

 

Archimedes e Couchet foram também responsáveis pelos projetos do Palácio das Festas e do Palácio das Grandes Indústrias, na Exposição Internacional do Centenário da Independência (1922), um dos maiores eventos internacionais já realizados no Brasil, inaugurada no Rio de Janeiro em 7 de setembro de 1922 e encerrada em 24 de julho do ano seguinte; além dos edifícios do Palácio Pedro Ernesto (1923), cujo projeto foi desenvolvido por eles, já que seu autor, Heitor Mello (1875 – 1920), faleceu em 1920; do Hotel Balneário da Urca (1925), futuro Cassino da Urca e sede da TV Tupi carioca; do Jockey Club Brasileiro, na Gávea (1926), e do Botafogo Futebol e Regatas (1928).

 

 

Augusto Malta, Sentados, da esquerda para a direita: Nestor de Figueiredo, Adollpho Morales de los Rios (pai) e Francisco Cuchet. Em pé, na mesma ordem: Arquimedes Memoria, Adolpho Morales de los /rios (filho), Celestino Severo de Juan e Edgar Vianna, de 7 de setembro de 1922. Rio de Janeiro, RJ / Rio antigo, por Charles Dunlop.

Augusto Malta. Sentados, da esquerda para a direita: Nestor de Figueiredo, Adolpho Morales de los Rios (pai) e Francisque Cuchet. Em pé, na mesma ordem: Archimedes Memoria, Adolpho Morales de los Rios (filho), Celestino Severo de Juan e Edgar Viana, 7 de setembro de 1922. Rio de Janeiro, RJ / Rio Antigo, por Charles Dunlop.

 

O prédio da Cadeia Velha foi demolido em 1922, quando foi lançada, com a presença do presidente da República, Epitácio Pessoa (1865 – 1942), a pedra fundamental do prédio da nova sede do Legislativo (O Combate, 19 de junho de 1922Fon-Fon, 24 de junho de 1922).

 

 

 

 

 

 

Em estilo eclético, inspirado no Grand Palais de Paris, o Palácio Tiradentes foi inaugurado em 6 de maio de 1926, no dia em que se completava Um século de vida legislativa no Brasil. Seu nome homenageia o já mencionado Joaquim José da Silva Xavier, o Tiradentes (1746 – 1792).

Por ordem do então presidente da Câmara, Arnolfo de Azevedo (1868 – 1942), o Palácio Tiradentes foi construído com muita economia, tendo custado 15 contos de réis, metade do custo do Palácio Pedro Ernesto, inaugurado em 1923. Toda sua estrutura é de concreto e tijolo; as estátuas são de massa. Ricos cafeicultores e o estado de São Paulo foram responsáveis pela doação de vários móveis para a nova Câmara Federal, abrigada no Palácio Tiradentes. A Câmara Federal ali funcionou de 1926 até 1960 (Correio de Manhã, 7 de maio de 1926O Paiz6 de maio e 7 de maio de 1926; Architectura no Brasil, junho/julho de 1926).

 

 

 

O presidente dos Estados Unidos, Herbert Hoover (1874 – 1964), fez uma visita ao Palácio Tiradentes, em 22 de dezembro de 1928 (Fon-Fon, 29 de dezembro de 1928).

 

 

Abaixo, um imagem de autoria do fotógrafo amador Guilherme Santos (1871 – 1966) no dia da Constituinte de 1934, em 16 de julho de 1934, com a cavalaria e civis diante do Palácio Tiradentes.

 

 

O Parlamento foi fechado pelo presidente Getulio Vargas (1882 – 1954) no período do Estado Novo, de 1937 a 1945, e no Palácio Tiradentes passou a funcionar o Ministério da Justiça e o Departamento de Imprensa e Propaganda (DIP), órgão de censura do regime. Com a saída de Vargas, em 1945, o Palácio Tiradentes novamente abrigou uma Assembleia Constituinte.

Quando Brasília tornou-se a capital do Brasil, em 1960, o Palácio Tiradentes passou a abrigar a Assembleia Legislativa do Estado da Guanabara (ALEG) que, com a fusão dos estados da Guanabara e do Rio de Janeiro, efetivada em 1975, passou a se chamar Assembleia Legislativa do Estado do Rio de Janeiro (ALERJ).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

CASTRO, Ramiro Berbert de. Edifícios da Cadeia Velha, Palácio Monroe e Biblioteca Nacional. Rio de Janeiro : Empresa Brasil Editora, 1926.

Diário do Rio

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

O GLOBO, 10 de novembro de 2011

Site Academia Ipuense de Letras, Ciências e Artes

Site Alerj

Site Rio Memórias

 

Links para os outros artigos da Série O Rio de Janeiro desaparecido

 

Série O Rio de Janeiro desaparecido I Salas de cinema do Rio de Janeiro do início do século XXde autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 26 de fevereiro de 2016.

Série O Rio de Janeiro desaparecido II – A Exposição Nacional de 1908 na Coleção Família Passos, de autoria de Carla Costa, historiadora do Museu da República, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 5 de abril de 2018.

Série O Rio de Janeiro desaparecido III – O Palácio Monroe, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 9 de novembro de 2016.

Série O Rio de Janeiro desaparecido IV - A via elevada da Perimetral, de autoria da historiadora Beatriz Kushnir, publicado na Brasiliana Fotográfica em 23 de junho de 2017.

Série O Rio de Janeiro desaparecido V – O quiosque Chopp Berrante no Passeio Público, Ferrez, Malta e Charles Dunlopde autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portalpublicado na Brasiliana Fotográfica em 20 de julho de 2018.

Série O Rio de Janeiro desaparecido VI – O primeiro Palácio da Prefeitura Municipal do Rio de Janeirode autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de setembro de 2018.

Série O Rio de Janeiro desaparecido VII – O Morro de Santo Antônio na Casa de Oswaldo Cruzde autoria de historiador Ricardo Augusto dos Santos da Casa de Oswaldo Cruzpublicado na Brasiliana Fotográfica em 5 de fevereiro de 2019.

Série O Rio de Janeiro desaparecido VIII – A demolição do Morro do Castelode autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portalpublicado na Brasiliana Fotográfica em 30 de abril de 2019.

Série O Rio de Janeiro desaparecido IX – Estrada de Ferro Central do Brasil: estação e trilhosde autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de novembro de 2019.

Série O Rio de Janeiro desaparecido X – No Dia dos Namorados, um pouco da história do Pavilhão Mourisco em Botafogode autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de junho de 2020.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XI – A Estrada de Ferro do Corcovado e o mirante Chapéu de Sol, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 22 de julho de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XII – o Teatro Lírico (Theatro Lyrico), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 15 de setembro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XIII – O Convento da Ajuda, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 12 de outubro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XIV – O Conselho Municipal, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 19 de novembro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XV – A Praia de Santa Luzia no primeiro dia do verão, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 21 de dezembro de 2021.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XVI – O prédio da Academia Imperial de Belas Artes, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, publicado na Brasiliana Fotográfica em 13 de janeiro de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XVII – Igreja São Pedro dos Clérigos, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 18 de março de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XVIII – A Praça Onze, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 20 de abril de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XIX – A Igrejinha de Copacabana, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 23 de junho de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XX – O Pavilhão dos Estados, futuro prédio do Ministério da Agricultura, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 26 de julho de 2022.

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXI – O Chafariz do Largo da Carioca, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado na Brasiliana Fotográfica em 19 de setembro de 2022. 

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXIII e Avenidas e ruas do Brasil XVII - A Praia e a Rua do Russel, na Glória, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 15 de maio de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXIV – O luxuoso Palace Hotel, na Avenida Rio Branco, uma referência da vanguarda artística no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 4 de julho de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXV – O Theatro Phenix, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 5 de setembro de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXVI – Conclusão do arrasamento do Morro do Castelo por Augusto Malta, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 14 de dezembro de 2023

Série O Rio de Janeiro desaparecido XXVII e Série Os arquitetos do Rio de Janeiro V – O Jockey Club e o Derby Club, na Avenida Rio Branco e o arquiteto Heitor de Mello (1875 – 1920), de autoria de Andrea c. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, em 15 de janeiro de 2024

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