Os garimpeiros de Marc Ferrez e Sebastião Salgado

Há exatamente um mês faleceu, em Paris,  o mineiro Sebastião Salgado (08/02/1944 – 23/05/2025), devido a uma leucemia decorrente de uma malária que contraiu, em 1990, na Nova Guiné, durante a produção da obra Gênesis. Foi um dos maiores fotógrafos de todos os tempos e um dos brasileiros de maior renome internacional. Sua obra humanista levou nossos olhos a lugares remotos e pouco conhecidos e a questões sociais graves e urgentes.

Aqui destacamos uma imagem da mina Pary, em Santa Bárbara, Minas Gerais, de autoria de outro gigante da fotografia, o carioca Marc Ferrez (1843 – 1923). Foi uma das primeiras fotografias de que se tem notícia, até hoje, realizada no interior de uma mina de ouro. Ferrez produziu o registro, em torno 1888, tendo utilizado o flash de magnésio para poder captar a escuridão da cena. Na ocasião, produziu também fotos de Ouro Preto e de Itacolomy. Ele foi um brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX; o único fotógrafo dos oitocentos que percorreu todas as regiões do Brasil, tendo sido, no referido século, o principal responsável pela divulgação da imagem do país no exterior.

 

 

Relacionamos esta foto de Ferrez com uma produzida por Sebastião Salgado cerca de um século depois, em 1986, de operários num garimpo de Serra Pelada, no leste do Pará. Este registro, uma composição de grande força visual, foi incluído na lista das 25 fotografias que, segundo um grupo de especialistas, melhor capturaram e mudaram o mundo, de acordo com o artigo The 25 Photos That Defined the Modern Age (As 25 fotos que definiram a Era Moderna)publicado, em 3 de junho de 2024, no jornal norte-americano The New York Times.

As 25 imagens selecionadas foram realizadas em diversas partes do mundo desde 1955. Além da foto de Salgado, foram escolhidas imagens de Adam Broomberg (1970-) & Oliver Chanarin (1971-), Alberto Korda (1928 – 2001), Blair Stapp (1924 – 1977), Carlijn Jacobs (1991-), Carrier Mae Weems (1953-), Cindy Sherman (1954-), David Jackson (19?- ), Deana Lawson (1979-), Diane Arbus (1923 – 1971), Ed Ruscha (1937-), Ernest C. Withers (1922 – 2007), Eugene Smith (1918 – 1978), Gordon Parks (1912 – 2006),  LaToya Ruby Frazier (1982-), Lee Friedlander (1934-), Malcolm Browne (1931- 2012), Nan Goldin (1953-), Photo Archive Group, Richard Drew (1946-), Robert Frank (1924 – 2019), Staff Sgt. Ivan L. Frederich II (1966-), Stuart Franklin (1956-), William A. Anders (1933 – 2024) e Wolfgang Tillmans (1968-).

Na época da divulgação da lista, no texto assinado no The New York Times pelo escritor e crítico de arte Emmanuel Iduma (1989-), foi destacado que “Um dos aspectos mais marcantes das fotografias de Sebastião Salgado de uma mina de ouro a céu aberto no Brasil é a escala. Milhares de homens –seus corpos curvados e frágeis– são representados em miniatura contra o plano de fundo de uma enorme cova na terra”.

 Salgado declarou sobre o cenário que fotografou em Serra Pelada, onde permaneceu por mais de um mês:

“Só se ouvia o murmúrio de 50 mil pessoas dentro de um imenso buraco. Conversas, sons humanos misturados ao trabalho. Era como se eu ouvisse o murmúrio do ouro na alma de todos ali”.

 

 

A foto de Salgado integra a série Gold – Mina de Ouro Serra Pelada, que retrata o cotidiano daquele que foi o maior garimpo a céu aberto do mundo. A série é uma das principais produções de sua obra – marcada por beleza e engajamento – e reúne 56 fotografias em preto e branco.

Segundo Peter Howe (1942 – 2020), que foi editor de fotografia do The New York Times Magazine, uma das seções dominicais do The New York Times, quando esses registros chegaram ao jornal, todos ficaram em silêncio: “Em toda a minha carreira no The New York Times eu nunca vi editores reagirem a uma série de fotos como reagiram as de Serra Pelada”. Nove foram publicadas na matéria An epic struggle for gold (Uma luta épica pelo ouro), escrita por Marlise Simons, na edição de 7 de junho de 1987.

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Cadernos de Marc Ferrez [Procedimentos e fórmulas] Fundo Família Ferrez / Acervo do Arquivo Nacional

Carta Capital, 27 de maio de 2025

CERON, Ileana Pradilla Ceron. Marc Ferrez – uma cronologia da vida e da obra. São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2018.

Folha de São Paulo, 4 de junho de 2024

G1, 24 de maio de 2025

O GLOBO, 23 de maio de 2025

The New York Times, 7 de junho de 1987 e 3 de junho de 2024

Site Amazon

WANDERLEY, Andrea C.T. O brilhante cronista visual Marc Ferrez (RJ, 07/12/1843 – RJ, 12/01/1923) in Brasiliana Fotográfica, 7 de dezembro de 2016.

Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” VII e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXXII – O prédio da Imprensa Nacional e o arquiteto Antonio de Paula Freitas

Com registros produzidos pelos fotógrafos Augusto Malta (1864-1957), Juan Gutierrez (c.1860-1897), Marc Ferrez (1843-1923) e por Rodrigues & C°. Editores e Proprietários, a Brasiliana Fotográfica publica o 7º artigo da série Os arquitetos do Rio e Janeiro e o 32º da série O Rio de Janeiro desaparecido. É sobre o prédio da Imprensa Nacional que ficava situado na Rua da Guarda Velha, atual Avenida Treze de Maio, no Rio de Janeiro. E também sobre o arquiteto e engenheiro Antonio de Paula Freitas (1843-1906), que o projetou e construiu.

 

 

Acesse aqui o link para as fotografias do prédio da Imprensa Nacional projetado por Paula Freitas disponíveis no acervo fotográfico da Brasiliana Fotográfica

 

 

O edifício gótico-manuelino foi inaugurado, em 31 de dezembro de 1877, por João Maurício Wanderley (1815-1889), o barão de Cotegipe, então ministro da Fazenda, cerca de três anos após o lançamento de sua pedra fundamental, em 26 de agosto de 1874, por José Maria da Silva Paranhos (1819-1880), o visconde do Rio Branco, pai do barão do Rio Branco.

 

 

Foi demolido, entre 1940 e 1941, devido a um projeto de alargamento do Largo da Carioca (Jornal do Brasil, 8 e novembro de 1940, sexta coluna; A Noite, 5 de fevereiro de 1941Gazeta de Notícias, 30 de julho de 1941).

 

Brevíssimos perfis dos fotógrafos que produziram as fotos do prédio da Imprensa Nacional destacadas neste artigo

Augusto Malta (1864-1957)

O fotógrafo alagoano Augusto Malta foi o mais  importante cronista fotográfico do Rio de Janeiro das primeiras décadas do século XX, cidade onde chegou em fins de 1888. Em 1903, foi contratado pela Prefeitura do Rio de Janeiro como fotógrafo oficial, cargo criado para ele. Passou a documentar a radical mudança urbanística promovida pelo então prefeito da cidade, Francisco Pereira Passos (1836-1913), período que ficou conhecido como o “bota-abaixo”. Augusto Malta trabalhou na Prefeitura até 1936, quando se aposentou.

Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897)

A foto destacada abaixo foi produzida pelo fotógrafo Juan Gutierrez, um dos mais importantes fotógrafos paisagistas do século XIX, no Brasil e um dos maiores cronistas visuais do Rio de Janeiro. Foi um dos fotógrafos principais da transição da cidade imperial para a cidade republicana. Entre 1892 e 1896, produziu a maior parte de suas fotografias de paisagens do Rio de Janeiro, que eram vendidas para estrangeiros que visitavam a cidade. Sobre a foto abaixo, a historiadora Maria Isabel Ribeiro Lenzi, do Museu Histórico Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, comentou no artigo O Rio de Janeiro de Juan Gutierrez, publicado no portal, em 1º de março de 2019: Ampliando a imagem, observamos um vendedor de pequenas mercadorias que hoje chamamos de camelô, bem como podemos notar, atrás do prédio da Imprensa Nacional, os primeiros barracos a serem construídos no Morro Santo Antônio, que abrigou uma grande favela no centro do Rio de Janeiro e que no final de década de 1950 foi arrasado.

 

 

 Marc Ferrez (1843-1923)

O carioca Marc Ferrez (1843 – 1923), filhos de franceses, foi um brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX. Sua vasta e abrangente obra iconográfica se equipara a dos maiores nomes da fotografia do mundo. Estabeleceu-se como fotógrafo com a firma Marc Ferrez & Cia, em 1867, na rua São José, nº 96, e logo se tornou o mais importante profissional da área no Rio de Janeiro. Cerca de metade da produção fotográfica de Ferrez foi realizada na cidade e em seus arredores, onde registrou, além do patrimônio construído, a exuberância das paisagens naturais.

 

 Rodrigues & C°. Editores e Proprietários

Há até o momento poucas informações sobre este fotógrafo. Sabe-se que esteve em atividade no Rio de Janeiro nas décadas de 1890 e 1900. O endereço de seu estabelecimento era Rua dos Ouvidor, n° 57.

Breve perfil do engenheiro e arquiteto Antonio de Paula Freitas (1843-1906)

 

 

O engenheiro e arquiteto carioca Antonio de Paula Freitas, nascido em 10 de janeiro de 1843, foi o responsável pelo projeto e pela construção do prédio da Imprensa Nacional, na Rua da Guarda Velha. A tarefa foi atribuída a ele por José Maria da Silva Paranhos (1819-1880), o visconde do Rio Branco, em 1874. O visconde era, então, o ministro da Fazenda e Paula Freitas era engenheiro do ministério (Revista do Instituto Politécnico Brasileiro, fevereiro de 1874).

 

 

 

 

Paula Freitas começou a estudar no Colégio Vittorio com 10 anos de idade. Tornou-se bacharel, em 4 de dezembro de 1863, e doutor em Ciências Físicas e Matemáticas pela antiga Escola Politécnica, em 21 de maio de 1870 (Constitucional, 5 de dezembro e 1863, última colunaDiário do Rio de Janeiro, 21 de maio de 1870, terceira coluna; Renascença, abril de 1907). Havia defendido sua tese, em 17 de março de 1870, com a presença de dom Pedro II (1825-1891) (Diário do Rio de Janeiro, 18 de março de 1870, quarta coluna). Era também engenheiro geógrafo e civil. Foi professor catedrático do curso de Engenharia Civil da Escola Politécnica, conselheiro da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional e engenheiro fiscal do governo junto da companhia das docas de dom Pedro II (Diário do Rio de Janeiro, 12 de novembro de 1871, primeira coluna; Diário do Rio de Janeiro, 2 de janeiro de 1874, segunda coluna). Foi membro da Comissão de Contas da Associação Promotora da Instrução de Meninos, Secretário da Secção de Aclimação da Associação Brasileira de Aclimação e sócio da Sociedade Auxiliadora da Imprensa Nacional (Jornal do Commercio, 20 e julho de 1867, sexta colunaDiário do Rio de Janeiro, 26 e 27 de dezembro de 1876, terceira coluna; Jornal do Commercio, 27 de março de 1877, quinta coluna). Foi membro do Instituto dos Engenheiros Civis de Londres, da Sociedade Francesa de Higiene e da Diretoria do Congresso Científico Latino-Americano. Foi fundador e membro da Administração do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica; do Liceu de artes e Ofícios e do Conselho Diretor do Clube de Engenharia, tendo sido colaborador da Revista de Engenharia (Revista de Engenharia, 10 de agosto de 1879). Presidiu o Instituto Politécnico Brasileiro e foi durante anos responsável pela revista da Sociedade de Geografia do Rio de Janeiro.

 

 

Recebeu, em 13 de novembro de 1877, por seu trabalho Determinação dos Coeficientes numéricos das Fórmulas Matemáticas o importante Prêmio Hawkshaw, honraria instituída pelo Instituto Politécnico Brasileiro e atribuída a quem se destacasse por trabalhos acadêmicos na área da Engenharia. Foi entregue a ele em uma sessão solene no referido instituto, na época presidido pelo visconde do Rio Branco, com a presença de dom Pedro II (Jornal do Commercio, 14 de novembro de 1877, terceira coluna).

Devido a seu destaque tanto nas atividades profissionais como nas acadêmicas foi agraciado, durante o reinado de dom Pedro II (1825-1891), com os títulos de Oficial Menor da Casa Imperial, Cavaleiro da Ordem da Rosa e cavaleiro da Ordem de Cristo.

 

 

Segundo a tese de doutorado A formação da  Escola Politécnica na corte do Império brasileiro (2022), de Laura Roberta Fontana, dentre suas obras estão:

1. História natural popular dos animais, precedida das indispensáveis noções de fisiologia e anatomia dos diferentes grupos zoológicos.

2. Curso de estradas professado na Escola Politécnica do Rio de Janeiro, 1º tomo.

3. Tese apresentada à Escola Central do Rio de Janeiro e sustentada perante a mesma escola, a fim de obter o grau de Doutor em ciências matemáticas e naturais. A obra é dividida em duas partes. Na 1ª parte trata do teorema das velocidades virtuais, independente da consideração dos infinitamente pequenos, e dos princípios fundamentais da mecânica, reduzidos ao menor número possível. Na 2ª parte estuda qual a hipótese que melhor explica a formação primitiva da Terra, e depois se examina a teoria de Laplace.

4. Demonstrar em geral o teorema das velocidades virtuais sem dependência da consideração dos infinitamente pequenos. Demonstrar quais são os princípios fundamentais da mecânica reduzidos ao menor número possível: tese de concurso.

5. Integrais definidas, consideradas como parâmetros. Funções eulerianas. Enchentes dos rios e meios propostos para impedir os seus efeitos: tese de concurso à primeira cadeira do 2º ano da Escola Central.

6. Determinação dos coeficientes numéricos das fórmulas matemáticas.

7. Relatório sobre o abastecimento de água da Cidade do Rio de Janeiro. Este relatório foi escrito de colaboração com o Doutor Manoel Buarque de Macedo em comissão do Ministério da Agricultura.

8. Informações sobre o estado da indústria nacional pela secção de indústria fabril da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional, presidida pelo Doutor Antônio de Paula Freitas.

9. Descrição do novo edifício da Tipografia Nacional do Brasil. A planta deste edifício, feita pelo Doutor, tornou-se quadro na Secretaria de Estado dos Negócios da Fazenda.

10. Discurso pronunciado na sessão magna da Sociedade Acadêmica Atheneu Central em 17 de fevereiro de 1865.

11. Breves considerações sobre os freios empregados nos trens dos caminhos de ferro. Revista de Engenharia, tomo 1º, n. 8, 1879.

 

São de sua autoria os projetos e a construção de vários prédios históricos na cidade do Rio de Janeiro, como o imóvel-sede do Tesouro Nacional, já demolido, e o do Correio Geral, na Rua Primeiro de Março.

 

 

Também projetou, em 1880, a pedido do ministro de Negócios do Império, Francisco Inácio Marcondes Homem de Melo (1837-1918), o barão de Homem de Mello, um edifício para sediar a Faculdade de Medicina, cuja pedra fundamental foi lançada, em 12 de fevereiro de 1881, por dom Pedro II. As obras foram suspensas e só foram terminadas, em 1908, quando o prédio foi utilizado como Palácio dos Estados, um dos pavilhões da Exposição Nacional de 1908, na região da Urca, no Rio de Janeiro, em comemoração ao centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas, decretada em 28 de janeiro de 1808, pelo então príncipe regente de Portugal, dom João de Bragança, futuro dom João VI (1767 – 1926). Em 1909, o Serviço Geológico foi ali instalado, em conjunto com outros órgãos do Ministério da Agricultura. Abriga atualmente o Museu de Ciências da Terra, que está fechado. O prédio foi tombado em 1994.

 

 

Foi engenheiro da Igreja da Candelária, por mais de 20 anos, tendo sido responsável pelo projeto e construção de suas duas sacristias laterais, em 1877, e pelo desenho e colocação – em colaboração com Heitor de Cordoville (c.1851-1904) – do novo revestimento interno em mármore italiano, além da instalação das belíssimas portas em bronze, em 1901 (Renascença, fevereiro de 1905). Em 1898, publicou o livro Memória histórica sobre a fundação e construção da Igreja da Candelária.

 

 

 

Nos últimos anos da década de 1880, como diretor das obras do ministério do Império, apresentou um projeto de melhoramentos no prédio da Escola Politécnica, mas a obra não foi realizada (Gazeta de Notícias, 2 de fevereiro de 1905).

Com Torquarto Neto, Alexandre Wagner, Otto Simon e Theodoro Duvivier, genro de Wagner, criou, em 1891, a Empreza de Construções Civis. Foram pioneiros no desenvolvimento de Copacabana. Paula Freitas, que presidia a empresa, foi o responsável pelo projeto e obras de arruamento do bairro, em 1894. Seu nome foi dado à antiga rua Itororó.

 

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Em 1903, foi eleito intendente municipal e presidente do Conselho de Intendência Municipal (Gazeta de Notícias, 29 de junho de 1903; 18 de julho de 1903, terceira coluna; Jornal do Brasil, 26 de janeiro de 1904, oitava coluna). Porém, devido a divergências políticas com o prefeito Pereira Passos (1836-1913), renunciou aos cargos. Foi, posteriormente, presidente do Conselho do Instituto Politécnico Brasileiro (Gazeta de Notícias, 21 de março de 1905, sexta coluna). Faleceu em 18 de março de 1906, em sua residência, na Rua Marquês de Abrantes, nº82, em consequência de uma cirurgia para a retirada de pedras na bexiga. Foi enterrado no Cemitério São João Batista (Jornal do Brasil, 19 de março de 1906, colunaGazeta de Notícias, 25 de março de 1906, quinta coluna; Revista da Semana, 25 de março de 1906; Renascença, abril de 1907).

 

 

 

Um pouco da história da Imprensa Nacional

 

A história da Imprensa Nacional começou na década de 1800. Cerca de um ano antes da vinda da corte portuguesa para o Brasil, ocasionada pela invasão francesa no país, o governo português havia comprado da Inglaterra prelos e material tipográfico para a Secretaria de Negócios Estrangeiros e de Guerra. Na fuga da corte de Portugal para o Brasil, em 29 de novembro de 1807, o futuro Conde da Barca, dom Antônio de Araújo de Azevedo (1754-1817), despachou o material, que nem havia sido desencaixotado, na nau Medusa, que fazia parte da esquadra que veio para o Brasil. Além da já mencionada embarcação, integravam a esquadra portuguesa que cruzou o Oceano Atlântico conduzindo a família real, a corte, cerca de 10 mil pessoas da aristocracia e todo o Tesouro português as naus Afonso de Albuquerque, Conde D. Henrique e Martins de Freitas, D. João de Castro, Príncipe do Brasil, Príncipe RealRainha de Portugal; as fragatas Golfinho, Minerva e Urânia; os brigues Lebre, Vingança e Voador; e as escunas Curiosa e Furacão.

 

 

Foi constituída como Impressão Régia e foi um dos primeiros atos editados pela Família Real em solo brasileiro, em 13 de maio de 1808, dia do 41º aniversário do príncipe regente dom João (1767-1826), quando foi impresso seu primeiro trabalho, uma Relação de Despachos com os documentos oficiais desde a chegada da corte ao Brasil até aquela data.

“Relação dos despachos publicados na corte I pelo expediente da Secretaria de Estado dos Negócios Estrangeiros e da Guerra | no faustosíssimo dia dos annos de S. A. R. | o príncipe regente N. S. | E de todos os mais que se tem expedido pela mesma Secretaria desde a feliz chegada de S. A. R. nos Estados do Brasil até o dito dia | Rio de Janeiro, em 13 de maio de 1808. | Na Impressão Régia. | Vende-se na Loja de Manoel Jorge da Silva j Livreiro na Rua do Rosário I in-fol. de 27 pp. num”.

Assinado por dom João, o decreto de Rodrigo de Souza Coutinho (1755-1812), futuro conde de Linhares, determinava a instalação no Rio de Janeiro dos prelos trazidos de Lisboa após a fuga da corte portuguesa.

 

 

DECRETO DE 13 DE MAIO DE 1808.

Crêa a Impressão Régia

Tendo-me constado, que os prélos que se acham nesta Capital, eram os destinados para a Secretaria de Estado dos Negocias Estrangeiros e da Guerra; e attendendo á necessidade que ha da officina de impressão nestes meus Estados: sou servido, que a casa, onde elles se estabeleceram, sirva interinamente de Impressão Regia, onde so imprimam exclusivamente toda a legislação e papeis diplomaticos, que emanarem de qualquer Repartição do meu real serviço; e se possam imprimir todas, e quaesquer outras obras; ficando interinamente pertencendo o seu governo e administração á mesma Secretaria. D. Rodrigo de Souza Coutinho, do meu Conselho de Estado, Ministro e Secretario de Estado dos Negocies Estrangeiros e da Guerra, o tenha assim entendido, e procurará dar ao emprego da Officina a maior extensão, e lhe dará todas as Instrucções e Ordens necessárias e participará a este respeito a todas as Estações o que mais convier ao meu real serviço.

Palácio do Rio de Janeiro em 13 de Maio de 1808.

Com a rubrica do Príncipe Regente Nosso Senhor.

Ficava criada a Impressão Régia, que passou a imprimir, em 10 de setembro do mesmo ano a Gazeta do Rio de Janeiro, inaugurando a imprensa no Brasil. Foi inicialmente redigida pelo frei português Tibúrcio José da Rocha (1776-1840). Antes disso, como prevenção à disseminação de ideias revolucionárias no Brasil, não era permitida no país a tipografia e o jornalismo. O Correio Braziliense é um pouco mais antigo, foi lançado em 1º de junho de 1808, mas era impresso em Londres.

 

 

Primeiramente a Impressão Régia foi instalada na casa do conde da Barca, na Rua do Passeio nº 44, e, em 1810, foi transferida para o andar térreo de um prédio da Rua dos Barbonos (atual Evaristo da Veiga), esquina com a Rua das Marrecas. Em 1831, foi transferida para algumas salas da Imperial Academia de Belas Artes, na Avenida Passos. Em 23 de abril de 1836, passou a funcionar no andar térreo da Câmara dos Deputados, antiga Cadeia Velha, na Rua da Misericórdia, onde ficou até outubro de 1860, quando mudou-se para um edifício do governo, na Rua da Guarda Velha, contiguo à Secretaria do Império. Em 1° de outubro de 1862, o governo brasileiro, a partir  de uma deliberação de Pedro de Araújo Lima (1793-1870), o marquês de Olinda, passou a divulgar os atos legais através do Diário Oficial, impresso pela Imprensa Régia.

 

 

Foi José Maria da Silva Paranhos (1819-1880), o visconde do Rio Branco, então ministro da Fazenda, que encomendou ao engenheiro de obras de seu ministério, Antonio de Paula Freitas, o projeto e a construção de um prédio para a Imprensa Nacional.

 

 

 

 

 

Como já mencionado, o prédio foi inaugurado no último dia de 1877 pelo ministro da Fazenda, João Mauricio Wanderley, o barão de Cotegipe.

 

 

Até um incêndio ocorrido, em 15 de setembro de 1911, por volta das 11 horas a noite, o prédio foi sua sede. O fogo teve início no almoxarifado, perto do corredor que separava o edifício do Teatro Lírico, que teve suspensa a opereta Orfeu nos infernos devido à forte fumaça que invadiu a sala de espetáculos. Restou apenas as paredes frontal e laterais, além da tesouraria do edifício. Houve suspeitas de que o incêndio havia sido criminoso, mas nada foi provado durante as investigações. A oficina da Imprensa Nacional passou a funcionar  no Calabouço e no edifício do Ministério da Agricultura.

 

 

 

Em 28 de dezembro de 1940, por iniciativa do presidente Getúlio Vargas (1882-1954), a Imprensa Nacional foi transferida para um edifício na Rua Rodrigues Alves nº 1. Foi sua última sede no Rio de Janeiro.

 

 

 

 

Sua sede em Brasília foi inaugurada, em 21 de abril de 1960, quando o então presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976) acionou a rotativa Marinoni dando início à primeira impressão do Diário Oficial da União na nova capital do Brasil. A Imprensa Nacional é ligada à Casa Civil da Presidência da República (Revista Imprensa Nacional, julho de 2017).

Em 13 de maio de 1982, foi inaugurado, em Brasília, o Museu da Imprensa. Uma das peças exibidas no museu é o Prelo Machado de Assis, uma máquina de impressão tipográfica fabricada, em 1833, de origem inglesa. Funcionou na Imprensa Nacional até 1940 e foi o instrumento de trabalho do escritor Machado de Assis (1839-1908), que foi servidor da Imprensa Nacional, entre os anos 1856 e 1858. Entre 1867 e 1874, Machado foi assessor do diretor do Diário Oficial. Pelo decreto presidencial de 13 de janeiro de 1997, tornou-se patrono da Imprensa Nacional. Em maio de 2017, o órgão criou a Revista Imprensa Nacional com periodicidade bimestral.

 

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Lista dos diretores da Imprensa Régia / Imprensa Nacional de 1808 a 2025

Primeira Junta Diretória (1808 – 1815)

José Bernardes de Castro, José Marino Pereira da Fonseca (marquês de Maricá) e José da Silva Lisboa (visconde de Cairu).

Segunda Junta Diretória (1815 – 1830)

José Bernardes de Castro, José Marino Pereira da Fonseca (marquês de Maricá), José da Silva Lisboa (visconde de Cairu), Silvestre Pinheiro Ferreira, José Saturnino da Costa Pereira (substituto do marquês de Maricá), Francisco Vieira Goulart, Manoel Ferreira de Araújo Guimarães e Januário da Cunha Barbosa.

Diretores (1830 – 1834)

 Januário da Cunha Barbosa e Francisco Crispiniano Valderato.

Administradores 

Braz Antonio Castriolo (1834 – 1857), Manoel Antônio de Almeida (1857 – 1859), João Paulo Ferreira Dias (1859 – 1878), Antônio Nunes Galvão (1878 – 1892), José Marques Acauã Ribeiro (1892 – 1894), Veríssimo Julio de Moraes (1894 – 1897) e Antônio NUnes Galvão (1897 – 1898).

Diretores-Gerais

Mário Nunes Galvão (interino – 1898 -1900), Manuel Alves da Silva (interino – 1900), Antônio Bernardino Lopes Ribeiro Júnior (1900 – 1901), Raimundo Floresta de Miranda (1901 – 1904), Alfredo Augusto da Rocha (1904 – 1910), Manuel Temístocles de Almeida ((1910), Armênio Jouvin (1910 – 1912), Luís Alves Leite de Oliveira Bello (interino – 1912), Manoel Elói de Andrade (1912 – 1913), Leôncio Corrêa (1913 – 1914), José Silveira do Pilar Filho (interino – 1914), Antônio Borges Leal Castelo Branco (1914 – 1922), Eugênio Gracie Cata-Preta (1922 – 1929), Severiano A. Cavalcante (interino – 1929), Antônio Jaime de Alencar Araripe (1930), Aníbal Falcão de Barros Cassal (1931), Heito Bracet (interino – 1931), Francisco Antônio Rodrigues de Salles Filho (1932 – 1935), Manuel Vilerbo de Carvalho e Silva (1935 – 1940), Rubens D´Almeida Horta Porto (1940 – 1944), Francisco de Paula Achilles (1946 – 1951), Alberto Sá Souza de Britto Pereira (1944 – 1946) e (1951 – 1979), Octaciano da Costa Nogueira Filho (1979 – 1980), Dinorá Moraes Ferreira (1980 – 1989), Marlene Freitas Rodrigues Alves (1989 – 1990), Itler Cézar Bado (1990 – 1991), Enio Tavares da Rosa (1991 – 1994), Galba Menegale (1994), Ary Cícero de Moraes Ribeiro (1994 – 1995), Jamil Francisco dos Santos (1995 – 1996), Antônio Eustáquio Corrêa da Costa (1996 – 2000), Carlos Alberto Guimarães Batista da Silva (2000 – 2003), Fernando Tolentino de Souza Vieira (2003 – 2015), José Vivaldo Souza de Mendonça (2015 – 2016), Alexandre Retarnal Barbosa (2016), Pedro Antonio Bertone Ataíde (2016 – 2020),  Ariosto Antunes Culau (2020 – 2021), Sávio Luciano de Andrade Filho (2021), Heldo Fernando de Souza (2021 – 2022) e Afonso Oliveira de Almeida (2023 -).

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Blog Família Paula Freitas

Brasiliana Iconográfica

COSTA, Carla. Série “O Rio de Janeiro desaparecido” II – A Exposição Nacional de 1908 na Coleção Família Passos in Brasiliana Fotográfica, 5 de abril de 2018

Dirigentes da Imprensa Nacional / Imprensa Nacional, Novos Rumos da Comunicação Pública

DUNLOP, Charles. Rio Antigo, volume III. Rio de Janeiro : Editora Rio Antigo Ltda, 1960.

FONTANA, Laura Roberta. Tese de doutorado A formação da  Escola Politécnica na corte do Império brasileiro. Rio de Janeiro : UNIRIO, 2022.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002

LARANJEIRA, Álvaro Nunes. Arqueobiografia do pioneiro da imprensa no Brasil: nas pegadas do frei Tibúrcio. Revista FAMECOS mídia, cultura e tecnologia. Porto Alegre, v. 18, n. 3, p. 765-781, setembro/dezembro 2011.

MIRANDA, Francisco Gonçalves(org). Memória Histórica da Imprensa Nacional. Rio de Janeiro : Imprensa Nacional, 1922.

Site Museu da Imprensa

Portal Arquivo Nacional

Portal MultiRio

Memórias da saúde pública pelas lentes de Augusto Malta

As bibliotecárias Luciana F. Lau e Danielle Barreiros e o arquivista Fabio Carvalho, todos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, desde 2024 uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, são os autores da publicação Memórias da saúde pública pelas lentes de Augusto Malta sobre a história do atendimento de emergência no Rio de Janeiro e a criação, em 1907, do Posto Central de Assistência Pública, origem do atual Hospital Municipal Souza Aguiar. Segundo o artigo, Augusto Malta (1864 – 1957) com suas técnicas fotográficas, que combinavam precisão documental e sensibilidade artística, deixou um legado que nos permite refletir sobre a fotografia urbana como instrumento indispensável para a preservação da memória das cidades, incluindo a memória da saúde pública. Ele foi o fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro, cargo criado para ele, entre 1904 e 1936, quando se aposentou.

 

Memórias da saúde pública pelas lentes de Augusto Malta

 Luciana Lau, Danielle Barreiros e Fábio Carvalho*

 

 

No início do século XX, o Rio de Janeiro, então capital da República, transformava-se em um grande canteiro de obras. Com o propósito de civilizar e modernizar a cidade, o prefeito Pereira Passos (1902-1906) promoveu reformas radicais que alteraram para sempre sua paisagem urbana e social. Essas transformações, marcadas tanto pelo progresso quanto por profundas desigualdades, foram meticulosamente registradas pelas lentes de Augusto Malta (1864-1957), fotógrafo oficial da prefeitura e principal cronista visual dessa era de mudanças e de paisagens efêmeras de uma cidade em transição. Com suas técnicas fotográficas, que combinavam precisão documental e sensibilidade artística, deixou um legado que nos permite refletir sobre a fotografia urbana como instrumento indispensável para a preservação da memória das cidades, incluindo a memória da saúde pública.

O ambicioso projeto de modernização de Pereira Passos, popularmente conhecido como “bota-abaixo”, tinha como objetivo sanear e embelezar a capital federal, seguindo os moldes das grandes metrópoles europeias.

Visando modernizar a saúde pública, em sua gestão, Pereira Passos determinou a criação de postos médicos nas Agências Municipais, sendo possível entrever a possibilidade de atendimento emergencial na cidade do Rio de Janeiro. O então prefeito solicitou  verba para a criação do primeiro grande posto de assistência médica que foi instalado na rua Camerino. O Posto Central de Assistência Pública na Rua Camerino foi a primeira unidade de socorro médico de emergência do município. Tendo suas obras iniciadas em 1906, foi inaugurado em 1º de novembro de 1907 pelo prefeito à época, Francisco Marcelino de Souza Aguiar (1855 – 1935), sendo futuramente homenageado por esta instituição, que foi denominada Hospital Municipal Souza Aguiar, como a conhecemos atualmente.

Como pioneiro na prestação do serviço de urgência, o Posto teve o desafio de implementar um novo modelo de serviço de emergência, que até aquele momento era realizado por farmácias e médicos particulares.

A implementação do novo processo de atendimento de urgência teve como desafio inicial modificar o comportamento dos cidadãos, que após sofrerem algum incidente na rua ou em casa, queriam ser atendidos somente pelos farmacêuticos e médicos particulares, pois esse era o hábito da população. E também porque estranhavam e até “desconfiavam” das ambulâncias brancas, pedindo passagem pela cidade, e do fato de serem levados para um hospital, um lugar desconhecido. Assim, a fim de familiarizar a população com o novo modelo de atendimento de emergência, foi realizada uma estratégia de marketing recomendada por Dr. Paulino Werneck (18? – 19?), superintendente do Posto Central de Assistência, chamada de “ensaios de socorro” na qual pessoas caiam pelas ruas e recebiam atendimento emergencial por meio das ambulâncias. A estratégia mostrou-se efetiva e as ambulâncias passaram a ser chamadas de “mãe carinhosa”.

 

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Ensaio de socorro / DISTRITO FEDERAL (BRASIL), 1922, p. 248

 

Em pouco tempo a quantidade de chamados de urgência aumentaram e o Posto Central de Assistência já não conseguia atender as solicitações recebidas, tornando-se necessário ampliar sua capacidade de atendimento.

Desta forma, o prefeito Souza Aguiar decidiu transferir o Posto Central para um novo endereço na Praça da República.  Coube ao prefeito general Inocêncio Serzedelo Corrêa (1858 – 1932), depois de determinar que fossem feitas ampliações no edifício, inaugurar o Posto em 17 de outubro de 1910. “O prédio tinha três pavimentos e estava equipado com o que havia de mais moderno” (RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 23).

Após a inauguração houve diversas ampliações e reconfigurações dos espaços. Em 1921, após reformulações nos serviços de assistência pública da capital, a Lei n.º 2.401 de 22 de janeiro determinava em seu artigo 28, a construção urgente de um Hospital de Pronto Socorro em anexo ao Posto Central, para a qual já havia verba consignada de mil contos de réis.  O Hospital do Pronto Socorro foi finalmente inaugurado no dia 20 de setembro de 1925.

 

 

Sobre o novo Hospital de Pronto Socorro inaugurado em 1925 comentou-se:

“[…] atendia, de modo satisfatório, aos reclamos da população, visto que se achava bem aparelhado e instalado para aquela época, como também situado em local de grande concentração populacional. Porém, dentro de pouco tempo, verificou-se a insuficiência de recursos do Hospital, tanto no que se relacionava com as suas possibilidades técnicas, como materiais, para o atendimento da população que crescia rapidamente”(RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 39).

Augusto Malta registra mais uma imagem do Posto Central na Praça da República revelando o poder da fotografia como guardiã da memória urbana:

 

 

Na gestão do interventor Pedro Ernesto (1884 – 1942), foi inaugurada uma maternidade no Hospital de Pronto Socorro, com o objetivo de ampliar sua área de atuação junto à população.  E houve a unificação dos serviços do antigo Posto Central de Assistência e do Hospital de Pronto Socorro, permanecendo o último nome.

 

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Prefeito Pedro Ernesto em visita ao Hospital de Pronto Socorro / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 53

 

Novos planos para reforma do Hospital de Pronto Socorro surgiram com o professor Clementino Fraga (1880 – 1971) à frente da Secretaria-Geral de Saúde e Assistência. Previa-se a instalação de 300 leitos e a aquisição de novas ambulâncias no projeto do novo hospital.

 

Projeto do novo hospital / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 57

Projeto do novo hospital / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 57

 

Em 2 de junho de 1955, enquanto o novo hospital ainda estava em construção, o prefeito Alim Pedro (1907 – 1975), no centenário do nascimento de Souza Aguiar, deu ao Hospital do Pronto Socorro, o nome de Hospital Geral Souza Aguiar em reconhecimento. Em 1962, por meio da Lei n.º 279, o hospital passa a ser chamado Hospital Estadual Souza Aguiar e, posteriormente, torna-se Hospital Municipal Souza Aguiar.

 

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Um busto em homenagem a Francisco Marcelino de Souza Aguiar está no segundo andar da Biblioteca Nacional em exposição permanente

 

Na edificação do novo hospital, por se tratar de uma construção de grandes proporções, as novas instalações entraram em funcionamento em etapas, à medida em que eram finalizadas e tinham condições de serem utilizadas. Até que em 04 de novembro de 1968, o novo prédio do Hospital Souza Aguiar foi inaugurado.

 

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Hospital Souza Aguiar / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 113

 

Porém as obras de melhorias no Hospital Souza Aguiar não pararam, conforme discursa o governador Negrão de Lima, mais obras seriam realizadas até que ele ficasse à altura dos melhores hospitais (LIMA, Negrão de., 1965/1970), sendo considerado hoje  o hospital com a maior emergência pública do Rio de Janeiro e da da América do Sul.  Além disso, seu edifício atual, projetado pelo arquiteto Ary Garcia Roza (1911 – 1999), é considerado patrimônio da cidade e foi tombado em 2009. Possui belíssimas obras do artista e paisagista Roberto Burle Marx (1909 – 1994), como o painel interno de pedras e o muro escultório.

 

Hospital Souza Aguiar. Mural de pedras.

Hospital Souza Aguiar. Mural de pedras.

 

** Luciana F. Lau e Danielle Barreiros são bibliotecárias e Fabio Carvalho é arquivista do IBGE.

 

Referências:

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Ivo Pitanguy: bibliografia. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2017.

A UNIÃO. Rio das Ostras, RJ: [s.n.]. Semanal. Acesso em: 2 abr. 2025.

DISTRITO FEDERAL (BRASIL). PREFEITURA. Assistência pública e privada no Rio de Janeiro (Brasil): história e estatística: commemoração do centenário da independência nacional. Rio de Janeiro: Typ. do Annuario do Brasil, 1922. 912 p.

LIMA, Negrão de (Governador). Discursos: Visita às Novas Instalações do Hospital Souza Aguiar de [1965/1970]. Rio de Janeiro, RJ: [s. n.], [1965/1970]. Acesso em: 06 de março de 2025.

RIO DE JANEIRO (Estado). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS. Assistência pública: Guanabara : 80 anos de história. Rio de Janeiro: Secretaria de Saúde do Estado da Guanabara, Superintendência de Serviços Médicos, 1972. 408 p.

SERVIÇO DE UROLOGIA. Hospital Souza Aguiar: experiência em atendimentos de urgência e emergência. [S. l.]: Serviço de Urologia, 2023. Acesso em: 06 de março de 2025.

A Brasiliana Fotográfica no canal “História do Brasil Como Você Nunca Viu”

Prezados leitores da Brasiliana Fotográfica, assistam aqui a entrevista realizada pelo historiador, advogado, genealogista e indigenista Bruno da Silva Antunes de Cerqueira (1979-) com a editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, Andrea C. T. Wanderley (1964-), em 7 de junho de 2025, no canal História do Brasil Como Você Nunca Viu, criado por ele em 2019.

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No Dia Mundial do Meio Ambiente, um pouco da obra do paisagista francês Auguste François Marie Glaziou no Brasil

Com fotografias de Augusto Malta (1864 – 1953), Georges Leuzinger (1813 – 1892), Fritz Busch (18? -?), Guilherme Santos (1871 – 1966), Marc Ferrez (1843 – 1923), Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886), Theodor Preising (1883 – 1962), da Phototypia A. Ribeiro e de fotógrafos ainda não identificados, dentre outros, a Brasiliana Fotográfica celebra o Dia Mundial do Meio Ambiente trazendo um pouco da história do paisagista francês Auguste François Marie Glaziou (1828* – 1906), no Brasil, onde viveu entre fins de 1850 e 1890, destacando seu trabalho como administrador da Floresta da Tijuca e como criador dos jardins do Campo de Santana ou Campo da Aclamação, do Passeio Público e da Quinta da Boa Vista. Glaziou foi, segundo o grande paisagista brasileiro Roberto Burle Marx (1909 – 1994), seu precursor e também o inventor do jardim tropical brasileiro. Foi Flavio Pinheiro, um dos criadores da Brasiliana Fotográfica, que me sugeriu escrever sobre esse tema e a ele dedico essa publicação.

 

Brevíssimo perfil de Auguste François Marie Glaziou, o paisagista do Império do Brasil

“Ele deixou uma obra precursora no domínio da ecologia, do desenvolvimento urbano durável que inspira os paisagistas e urbanistas do século XXI confrontados a uma acelerada urbanização”.

Jean-Yves Mérien (1944-),

professor emérito de Literatura e Civilização Brasileiras na Universidade de Rennes-II,

sobre a obra de Glaziou.

 

 

Auguste François Marie Glaziou foi um importante paisagista francês que atuou no Brasil entre as décadas de 1860 e 1890, tendo deixado sua marca na paisagem urbana do Rio de Janeiro.  Nasceu na cidade de Lannion, na Bretanha, em agosto de 1828, filho primogênito da cozinheira Marie-Josèphe Grovalet   (1795 – 18?) e do jardineiro Yves Glaziou (1804 – 18?). Estudou Botânica no Museu de História Natural de Paris, tendo também praticado agricultura e horticultura. Participou da reforma do Jardim Público da cidade de Bordeaux, onde foi morar em 1854. Em 1856, casou-se com a camiseira Marie Chemineau (1833 -?), sua vizinha na rua Penicaud, em Bordeaux. No ano seguinte, nasceu o filho do casal, Andre Yves Arthur (1857 – 18?). A filha do casal, madame Simard (18? – 19?), nasceu no Brasil.

Em 30 de agosto de 1858, Glaziou, assinou seu pedido de passaporte para viajar para o Rio de Janeiro, no navio norte-americano Thomas Allibonne, que partiu de Bordeaux, na França, em 10 de setembro do mesmo ano.  Declarava-se tanoeiro – artesão que faz ou conserta barris – e agricultor. Adotou o nome Auguste, provavelmente, em homenagem ao botânico Auguste de Saint-Hilaire (1779 – 1853), pesquisador da flora brasileira. Aportou no Rio, como um simples imigrante com poucos recursos, na primavera de 1858, e com ele o jardim europeu do século XIX chegava ao Brasil ** (Jornal do Commercio, 2 de novembro de 1858, última coluna; 8 de novembro de 1858, penúltima coluna13 de novembro de 1858, segunda coluna).

 

 

O primeiro parque que projetou no país foi o do Palácio do Catete, construção realizada entre 1858 e 1867, encomendada por Antonio Clemente Pinto (1795 – 1869), barão de Nova Friburgo. Abriga atualmente o Museu da República, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica. O arquiteto do prédio foi o prussiano Carl Friedrich Gustav Waehneldt (1830 – 1873). Em seguida, criou os jardins da residência do barão de Nova Friburgo, o atual Parque São Clemente, então Chácara do Chalé, em Nova Friburgo; e foi encarregado de arborizar o Cais da Glória, no Rio de Janeiro.

Em 1861, Glaziou iniciou a reforma do Passeio Público, conforme veremos mais adiante neste artigo. Após uma crítica acerca de seu conhecimento em Botânica, publicou uma carta (abaixo), onde contou um pouco de sua vida na França, antes de vir para o Brasil, esclarecendo, segundo suas palavras “quem sou, da onde vim e para onde vou”. Fala no artigo de sua amizade com o naturalista alemão Ludwig Riedel (1790 – 1861), criador do primeiro herbário do Brasil, em 1831 (Correio Mercantil, 21 de agosto de 1862, penúltima coluna).

 

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Glaziou descobriu e introduziu plantas brasileiras em praças e ruas, dentre elas, o oitizeiro, tendo sido um dedicado coletor de plantas em território brasileiro, que ele classificou de acordo com sua espécie, tendo catalogado pela primeira vez diversas espécies nativas brasileiras, como a  maniçoba-do-ceará, cujo nome científico faz referência a ele: Manihot glaziovii.

 

 

Outras espécies cujos nomes científicos referenciam Glaziou: Glaziova Bureau (bignonia), Glaziova Martius (sinônimo de Cocos), Glaziostelma E. Fourn (asclepíade), Glaziophyton Franch (gramínea), Bisglaziova (melastomacetaceae) e Glaziella Berkt (champignon, pirenomiceto).

Introduziu também o uso de árvores de flores e, principalmente, de espécies nativas – muitas delas descobertas e trazidas por ele para o Jardim Botânico do Rio de Janeiro, tendo sido, nas décadas de 1860 e 1870, o responsável pela arborização do Rio de Janeiro. O herbário da Província de Minas para o ensino de zoologia e botânica da Escola de Minas de Ouro Preto era formado por plantas determinadas por ele (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1879).

Em 1864, por encomenda da princesa Leopoldina (1847 – 1871), criou os jardins do Palácio Leopoldina, que já não existe mais. Ficava no bairro do Maracanã.

Em 1865 e 1866, acompanhou o casal Louis (1807 – 1873) e Elizabeth Agassiz (1822 – 1907) em excursões pelos arredores do Rio de Janeiro. Louis Agassiz comandava a Comissão ou Expedição Thayer, que percorreu boa parte do território brasileiro entre o Rio de Janeiro e a Amazônia, viagem que deu origem ao livro A journey in Brazil, editado em Boston, em 1868. A Comissão Thayer foi financiada pelo empresário e filantropo norte-americano Nathaniel Thayer, Jr. (1808-1883), ex-aluno de Agassiz no Museu de Zoologia Comparada, em Harvard. Vale lembrar que Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), o futuro chefe da Comissão Geológica do Império (1875 – 1878), integrada pelo fotógrafo Marc Ferrez (1843-1923), participou da Comissão Thayer – foi a primeira vez que esteve no Brasil.

Glaziou integrou o júri da Exposição Agrícola da Segunda Exposição Nacional, realizada entre 19 de outubro e 16 de dezembro de 1866, na Casa da Moeda (Jornal do Commercio, 19 de novembro de 1866, penúltima coluna). Tornou-se cavalheiro da Ordem de Cristo, pelo decreto imperial de 6 de junho 1868, devido a serviços prestados ao Brasil na Exposição Universal de Paris de 1867 (O Ypiranga, 13 de junho de 1868, primeira coluna).

 

 

A convite de dom Pedro II (1823 – 1891), pelo decreto de 26 de janeiro de 1869, foi nomeado Diretor de Parques e Jardins da Casa Imperial. Ainda em 1869, projetou e executou os jardins da casa de Mariano Procópio Ferreira Lage (1821 – 1872), em Juiz de Fora, Minas Gerais. Entre este ano e 1873, realizou o ajardinamento do Largo do Machado com palmeiras e figueiras e o embelezamento da avenida do Mangue com palmeiras.

Foi também Inspetor dos Jardins Municipais e integrou a Associação Brasileira de Aclimação, para a qual, em 1873, o imperador Pedro II doou um terreno na Imperial Quinta da Boa Vista para depósito de animais e viveiros de plantas. Foi membro da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional (Almanak Administrativo Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1870 , 18721874).

A partir da década de 1870, a paisagem da Quinta da Boa Vista passou a ordenada por ele. Formou com o botânico e diretor do Museu Nacional, Ladislau Netto (1838 – 1894), e com o Barão do Catete (1827 – 1903) o júri da primeira exposição hortícula e agrícola realizada, em Petrópolis, por iniciativa da princesa Isabel, inaugurada em 2 de fevereiro de 1875. A medalha de ouro da exposição foi concedida pao paisagisa e botânico francês Jean Baptiste Binot (1806 – 1894). Por sua participação neste evento, Glaziou foi condecorado com a Ordem da Rosa (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1880; Jornal do Recife, 30 de julho de 1875, primeira coluna).

 

 

Glaziou foi o responsável pelo embelezamento da praça do Campo de Santana, cujas obras foram inauguradas, em 7 de setembro de 1880, com a presença do imperador Pedro II. Foi, na ocasião, agraciado com o título de comendador da Ordem de Cristo.

 

 

Também em 1880, criou, no bairro de São Cristóvão, os jardins da casa de Irineu Evangelista de Sousa (1813-1889), o barão de Mauá, atual Museu do Primeiro Reinado; e jardins em residências de Petrópolis.

Em 1881, a pedido do então diretor da Biblioteca Nacional, Ramiz Galvão (1846 – 1938), Glaziou colaborou na ornamentação do prédio da instituição na ocasião da inauguração da importante Exposição de História do Brasil. Era comendador da Imperial Ordem Russiana de São Estanislau (Almanak Administrativo, Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro, 1881).

Em 20 de abril 1884, com ornamentação de Glaziou, foi aberta a Quarta Exposição da Sociedade Agrícola e Hortícula de Petrópolis, a primeira no Palácio de Cristal – as três primeiras haviam sido realizadas em 1875 (como já mencionado), em 1876 e em 1877, em pequenos pavilhões na Praça Koblenz. Ainda em 1884, realizou dois projetos de jardins público, em Valença, no estado do Rio de Janeiro.

Em 1889, como delegado do Rio de Janeiro na Exposição Universal de Paris, escolheu as flores e as plantas ornamentais brasileiras que compuseram a estufa diante do Pavilhão Brasileiro. Foram emprestadas pelo Museu de História Natural de Paris. Criou ainda um jardim com plantas exóticas e o lago da Vitoria Régia. Por sua participação, foi premiado pelo tribunal do evento (O Paiz, 4 de setembro de 1891, última colunaJornal do Commercio, 31 de março de 1890, segunda coluna). Retornou à França, em 1890 para tratar de febres contraídas durante suas expedições botânicas pelo Brasil.

 

 

Foi homenageado pela colônia francesa do Rio de Janeiro com um retrato e uma mensagem que ressaltava que ele era o melhor entre os franceses (Jornal do Commercio, 17 de setembro de 1890, quinta coluna).

 

 

Foi noticiado que Glaziou deixaria o Brasil – o que não aconteceu – porque os últimos jardins de sua criação e os únicos hoje a seu cargo lhe vão ser retirados (Jornal do Commercio, 20 de janeiro de 1892, quarta colunaO Paiz, 22 de janeiro de 1892, quarta coluna; O Paiz, 23 de janeiro de 1892, quinta coluna). Em maio, voltou ao Rio de Janeiro após uma excursão à Serra do Espinhaço, em Santa Catarina, e a Minas Gerais, a serviço do Museu Nacional (O Paiz, 22 de maio de 1892, sexta coluna).  Glaziou cobrou do governo a quantia que, com a autorização do ministro da Agricultura, havia pedido emprestada para concluir as obras do jardim do Campo da Aclamação. Foi atendido (Jornal do Commercio, 23 de setembro de 1892, quinta coluna; 5 de outubro de 1892, quinta coluna).

Foi nomeado inspetor-geral de Matas, Florestas, Jardins Públicos, Arborização e Caça (O Paiz, 3 de dezembro de 1893, segunda coluna).

Em 1894, passou a integrar a Comissão Exploradora do Planalto Central, a Missão Cruls, chefiada pelo astrônomo e botânico francês Louis Ferdinand Cruls (1848 – 1908), que demarcou uma área de 14.400 Km², considerada adequada para a futura capital do Brasil, que ficou conhecida como “Quadrilátero Cruls” (O Paiz, 20 de junho de 1894, segunda coluna). Cruls comentou a participação de Glaziou na comissão e uma carta enviada para ele por Glaziou sobre a natureza e o clima do Planalto Central foi publicada (Jornal do Commercio, 9 de janeiro de 1895, quarta coluna; 23 de junho de 1896, sétima coluna). Por sua participação na comissão, Glaziou foi declarado Cidadão Honorário de Brasília, em 2006.

Em 1895, viajou para a Europa, de onde escreveria o relatório de sua expedição ao Planalto Central e classificaria com rigor científico as 2.000 mil plantas que havia colhido em Goiás. Foi noticiado que voltaria em oito meses (Gazeta de Notícias, 28 de novembro de 1895, penúltima coluna).

Foi nomeado membro do conselho administrativo da Sociedade Auxiliadora da Indústria Nacional no biênio 1895 /1897 (Jornal do Commercio, 2 de janeiro de 1896, segunda coluna).

No ano seguinte, foi exonerado do cargo de inspetor-geral de Matas, Florestas, Jardins Públicos, Arborização e Caça e nomeado botânico da mesma inspetoria (Gazeta de Notícias, 3 de agosto de 1896, quarta coluna). Em 1897, Glaziou aposentou-se do cargo a partir da sanção de uma lei do Conselho Municipal. Na época, o prefeito do Rio de Janeiro era Francisco Furquim Werneck de Almeida (1846 – 1908) que, elogiou a atuação de Glaziou no Brasil: “tantos serviços prestou ao Brasil, concorrendo para embelezar a sua capital e principalmente para tornar conhecidas no estrangeiro as riquezas de sua imensa flora” (Jornal do Commercio, 5 de maio de 1897, segunda coluna; Gazeta de Notícias, 21 de agosto de 1897, primeira coluna; Jornal do Commercio, 2 de setembro de 1897, quarta coluna).

 

 

 

Glaziou  dotou o Museu Nacional de História Natural de Paris com um quarto das ricas coleções da flora brasileira que lá estão reunidas e colaborou com os mais célebres botânicos de seu tempo, em particular com o alemão Carl Friedrich Philipp Von Martius (1794 – 1868) e seus sucessores, para a realização da Flora Brasiliensis (Jornal do Commercio, 20 de janeiro de 1892, quarta coluna).

Fez ao longo de sua vida algumas publicações, dentre eleas: Notícia sobre botânica aplicada, Resumo numérico das espécies de plantas colhidas na Comissão de exploração do Planalto de Goiás, Algas brasileiras dos arredores do Rio de Janeiro; Cripotógamos vasculares do Brasil e Líquens Brasileiros.

Faleceu, em Bordeaux, na França, em 30 de março de 1906. Já era viúvo.

Em 12 de outubro de 1910, foi inaugurado um busto em mármore em sua homenagem, na Quinta da Boa Vista, obra da escultora paulista Nicolina Vaz de Assis Pinto do Couto (1874 – 1941) .

 

 

Em novembro de 2009, foi inaugurada, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro, a exposição Glaziou e os jardins sinuosos. O evento integrou comemorações do Ano da França no Brasil (O GLOBO, 4 de novembro de 2009).

 

Exposição Glaziou e os jardins sinuosos, no Jardim Botânico do Rio de Janeiro

 

Em 22 de outubro de  2015, o Museu Nacional/UFRJ inaugurou a exposição Plantas do Brasil Central – Resgate histórico e herbário virtual de Auguste Glaziou. O evento foi promovido pelo Herbário e o Departamento de Botânica do Museu Nacional/UFRJ e contou com a conferência Auguste Glaziou e os jardins na segunda metade do século XIX do professor Carlos Terra, diretor da Escola de Belas Artes, e o lançamento do site http://glaziou.cria.org.br, que apresenta o herbário virtual de Glaziou.

 

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Glaziou e algumas de suas obras e colaborações

 

 

Segundo Carlos Gonçalves Terra em  O Jardim no Brasil do Século XIX: Glaziou Revisitado, UFRJ/EBA, 1993 –, a obra de Glaziou, situada tanto na cidade como no estado do Rio de Janeiro e em outras regiões do país, pode ser agrupada em três grupos, de acordo com a documentação sobre seu trabalho.

“O primeiro grupo tem sua atribuição apoiada apenas na opinião de alguns historiadores ou de artigos na imprensa, que trataram do tema. Fazem parte dele: Praça Tiradentes, Largo de São Francisco, Jardins do Palácio do Catete, Jardim da Casa da Marquesa de Santos, todos na cidade -do Rio de Janeiro, RJ; Jardim da Aclimação, em São Paulo, SP; Parque do Museu Mariano Procópio, em Juiz de Fora, MG. Além de outros que se apoiam apenas na tradição oral.

O segundo grupo é formado por aqueles jardins a ele atribuídos e aos quais se pode, com relativa segurança, considerar como obra sua, no seu traçado original, pois existem projetos por ele assinados ou documentos que mencionam sua autoria. São eles: Palácio Imperial, Petrópolis, RJ; Parque São Clemente, Nova Friburgo, RJ; Praça D. Pedro li (atual Praça XV de Novembro), Rio de Janeiro, RJ .

Os exemplos mais significativos constituem o terceiro e o último grupo. Eles podem, com certeza, ser apontados como obra de Glaziou, pois farta documentação existe de sua intervenção no projeto e na execução dos mesmos. Entre as suas realizações na cidade do Rio de Janeiro, optou-se pelo estudo daquelas que ainda hoje mantém as características básicas de seu traçado original, embora a maioria dos elementos que compõe sua estrutura tenham sido alterados ou substituídos no decorrer da evolução urbana da cidade. São eles: Reforma do Passeio Público, onde um novo traçado transformará radicalmente o de Mestre Valentim; Quinta da Boa Vista, em que a natureza a sua volta será modificada, planejada e cultivada; e Campo de Santana, no qual a impregnação de seu tratamento será de acordo com aquele ditado pelo modismo do período – o jardim inglês”. 

Como já mencionado na introdução do artigo, vamos destacar o trabalho de Glaziou na Floresta da Tijuca, no Campo de Santana , no Passeio Público e na Quinta da Boa Vista. Lembramos aqui a importância da presença nas cidades da natureza, de jardins públicos, tanto ambientalmente como socialmente.

 

“Os jardins para as grandes cidades são como escapadas da civilização. Entre duas árvores o homem é inteiramente diverso do homem entre duas vitrines”

João do Rio (1881 – 1921), início de A alma dos jardins (1908)

 

“Que achei eu do nosso século carioca? Achei que será contado como o século dos jardins. À primeira vista, parece banalidade. O jardim nasceu com o homem. A primeira residência do primeiro casal foi um jardim, que ele só perdeu por se atrasar nos aluguéis da obediência, onde lhe veio o mandado de despejo…A cidade é sempre o homem do primeiro jardim. Tem a fé, tem a paciência, tem o amor, mas não há meio de achar um jardim em si mesma, e vai tecendo o século com outros. Creio que fiz um verso: E vai tecendo o século com outros”.

Machado de Assis (1839 – 1908, trecho de sua coluna “A Semana”,

(Gazeta do Rio de Janeiro, 5 de maio de 1895)

 

 

Passeio Público

 

 

 

Ao longo do século XIX, o Passeio Público, inaugurado em 1783, passou por algumas reformas, tendo sido a mais importante a realizada por Glaziou, que teve início em 1861. Ele alterou o traçado original concebido pelo mineiro Valentim da Fonseca e Silva, mais conhecido como Mestre Valentim (c. 1745 – 1813), um dos maiores artistas do período colonial brasileiro. Francisco José Fialho (1814 ‒1885) foi o responsável pela execução da obra e o Passeio Público foi reinaugurado na ocasião da celebração do 40º aniversário da Proclamação da Independência, em 7 de setembro de 1862. Glaziou morava em um chalé dentro do Passeio Público (Diário do Rio de Janeiro, 7 de setembro de 1862, na quarta coluna sob o título “O Passeio Público”Almanak Administrativo Mercantil e Industrial do Rio de Janeiro1862 e 1863).

“A nova composição agregava elementos do jardim à inglesa e tentava dar ao parque uma aparência semelhante à dos parques contemporâneos europeus. No novo projeto, o ponto de vista único e ideal foi substituído pela diversidade de pontos de observação e o eixo longitudinal de simetria substituindo por uma sucessão de planos. Havia caminhos sinuosos, pavilhões, árvores e plantas nativas e água jorrando pela fonte dos jacarés, no grande tanque. As pirâmides de granito, liberadas da vegetação que as encobria, passaram a exibir os medalhões com inscrições do tempo do idealizador do Passeio Público, o vice-rei D. Luís de Vasconcelos”.

Casa de Rui Barbosa

 

 

Em 1863, Glaziou foi acusado de contrabando de pássaros. Na verdade, ele estava trazendo para o Passeio Público três pássaros de uma viagem ao Rio Grande do Sul (Diário do Rio de Janeiro, 14 de abril de 1863, segunda coluna).

 

 

Acessando o link para as fotografias do Passeio Público disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Quinta da Boa Vista

 

Projeto de Glaziou da reforma dos jardins da imperial Quinta da Boa Vista

Projeto de Glaziou da reforma dos jardins da imperial Quinta da Boa Vista / Arquivo do Instituto Brasileiro de Patrimônio Cultural

 

Glaziou projetou os jardins da Quinta da Boa Vista, localizada na Zona Norte carioca, no bairro de São Cristóvão, e atualmente, o Parque da Quinta da Boa Vista, um dos maiores parques urbanos do Rio de Janeiro. Tem grande valor tanto devido a sua paisagem como devido a sua história.

 

A Quinta da Boa Vista e um casarão, futuro Palácio Real ou Paço Real, que existia nela, pertenciam a um rico comerciante, o traficante de escravos Elias Antônio Lopes. Devido à carência de espaços residenciais no Rio de Janeiro, Elias doou sua propriedade ao então príncipe regente dom João (1767 – 1826), quando ele chegou ao Brasil, em 1808. A partir de 1817, transformou-se na moradia da família real até 1889, quando foi proclamada a República no Brasil e a família partiu para Portugal.

O projeto de Glaziou foi apresentado a dom Pedro II, na década de 1860. A partir da década seguinte, a paisagem da Quinta da Boa Vista passou a ser organizada de forma ordenada por ele, que plantou no entorno da residência da família real espécimes do Brasil e de outras regiões do mundo. Representou os espécimes da flora brasileira, congregando-os com as zonas climáticas que habitavam, formando uma “vitrine” da botânica nacional.

 

 

Após a Proclamação da República, o palácio sediou os trabalhos da Assembleia Nacional que resultaram na Constituição Brasileira promulgada em 24 de fevereiro de 1891 (Gazeta de Notícias, 25 de fevereiro de 1891, na primeira coluna). Em 1892, o Museu Nacional do Brasil, criado em 6 de junho de 1818 por dom João VI e sediado no Campo de Santana, mudou-se para o Palácio da Quinta (O Paiz, 13 de março de 1892, na terceira coluna). Denominado, atualmente, Museu Nacional da Universidade Federal do Rio de Janeiro, foi um um dos maiores museus de antropologia e de história natural das Américas. Foi atingido, em 2 de setembro de 2018, por um incêndio de grandes proporções.

Acessando o link para as fotografias da Quinta da Boa Vista disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Campo de Santana

 

Até meados do século XVIII, o Campo de Santana ou Campo da Aclamação era deserto e abandonado, tendo sido escolhido para o despejo de detritos, fato que perdurou até a gestão do vice-rei conde Resende (1790 a 1801), que ordenou o aterro e o saneamento do campo. A partir daí, surgiu a praça, edificações e novas delineações urbanas. Foi Glaziou o responsável pelo embelezamento da praça, iniciado nos primeiros anos da década de 1870 (Jornal do Commercio, 2 de maio de 1872, terceira coluna; e Diário do Rio de Janeiro, 24 de dezembro de 1873, primeira coluna) com a a construção de jardins românticos, cascatas, pontes e grutas. A inauguração da obra aconteceu em 7 de setembro de 1880 com a presença do imperador Pedro II. Na ocasião, como já mencionado, Glaziou foi condecorado como comendador da Ordem de Cristo (Gazeta de Notícias, 7 de setembro de 1880, primeira colunaAlmanak Administrativo, Mercantil e Industrial, 1883; e Gazeta de Notícias, 8 de setembro de 1889, primeira colunaAlmanak Laemmert, 1897, primeira coluna).

 

 

Em 1938, o Campo de Santana entrou para a lista de patrimônio histórico nacional, mas saiu cinco anos depois quando teve 18% de sua área suprimida para abrir passagem à construção da Avenida Presidente Vargas. Foi tombado de novo, em 1978, pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan) segundo o qual o complexo “reúne atributos históricos, uma vez que foi palco de celebrações oficiais e cívicas ligadas à condição do Rio de Janeiro enquanto sede do Império e capital do país; artística, pelo projeto do paisagista francês Glaziou que o levou ao seu primeiro tombamento; e também paisagística, reconhecendo o valor da paisagem de jardim romântico que o bem oferece, foi construído no século XVIII”.

 

Acessando o link para as fotografias do Campo de Santana disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Floresta da Tijuca

A Floresta da Tijuca é o resultado de uma grande obra de reflorestamento iniciada em 1861 pelos seus primeiros administradores, o major Manuel Gomes Archer (1821 – 1907) e o Barão d’Escragnolle (1821 – 1888). Desde fins do século XVIII, a vegetação original que cobria o Maciço da Tijuca havia sido devastada pelas plantações de café e pelas queimadas para produção de carvão. Com isso, as fontes de água potável da região, que abasteciam a cidade, ficaram ameaçadas de secar. A recuperação da floresta começou com a desapropriação das fazendas de café e o plantio de sementes e mudas de árvores nativas e exóticas. Glaziou colaborou com o  Barão d’Escragnolle, entre 1874 e 1888, transformando a floresta num parque, com a abertura de estradas cavalgáveis, fontes, lagos, pontes e áreas de lazer como o mirante do Excelsior, a gruta Paulo e Virgínia e a Vista do Almirante. Com a morte de d´Escragnolle, em 1888, Glaziou assumiu a administração da Floresta, permanecendo no cargo até o início de 1889.

 

 

Acessando o link para as fotografias da Floresta da Tijuca disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 Íntegra de A alma dos jardins (1908), de João do Rio

Os jardins para as grandes cidades são como escapadas da civilização. Entre duas árvores o homem é inteiramente diverso do homem entre duas vitrines. À beira de um lago artificial, na sombra de velhas árvores, o cidadão sente o estremecimento atávico, o acordar dos instintos. Onde houver muitas árvores, o ar livre, o céu azul visto através do rendado das folhas verdes, podeis ter a certeza de que aí as criaturas mais amarfanhadas pela nevrose urbana sentem o desabrocho rubro do sexto sentido. É como a sensualidade, é tal qual a luz e tal qual o perfume, impalpável e invisível, a sensualidade parece pender dos ramos no cheiro forte das folhas, na luz de que se abebera a fronte. As árvores guardam sempre amadriadas no tronco e vêem sempre passar os faunos. Os ramos de certas árvores abrem como querendo abraçar. E há troncos de uma tão insidiosa cumplicidade de amor!…

Por isso quem entra nos jardins por estes meses de primavera mádida volta ao paraíso primitivo, por isso, os jardins encravados na cidade são como as escapadas da natureza, as peias da civilização.

Eu vou aos jardins públicos. Tu também vais. É provável, porém, que nunca tivesses reparado nas pessoas que vão aos jardins. Eu vou e reparo.

Oh! as pessoas que entram nos jardins! Nunca se entra nesses sítios como no teatro, como em qualquer rua, como por uma porta qualquer. Os que transpõem os grandes portões de ferro aproximam-se, sentem a necessidade, ou são forçados a aproximarem-se da natureza. Vede as crianças. Na rua, em casa elas estão de outro modo. Logo que chegam a esses lugares, perdem o respeito como se retomassem o sentimento da liberdade primitiva. É rara a criança da cidade que, vendo uma aléia sombreada de árvores, não sinta a necessidade, a obrigação de se expandir em gestos, de se penetrar daquele verde, daquela atmosfera de quieta e morna e doce sensualidade, e não deite logo a correr.

Correr, correr inutilmente, é um prazer, um enebriamento que nos vem do homem das florestas. As crianças correm, ficam excitadas, ficam mesmo brutais. E, pela manhã, é curioso vê-las à solta, brigando com as amas, gesticulando, gritando, rindo, para, à saída, retomar o passo medido da calçada e do seu grau social. Apenas uma grade separava-as da rua ativa — e era um mundo…

Aos jardins vão também homens e mulheres. Há jardins aristocráticos onde só se encontram — mas oito, dez, mais por dia! — as tentações do escol e o começo dos romances de alto tom. Não só a gente do alto tom, obedecendo a uma sugestão muitas vezes milenar, se julga nos jardins ao abrigo da curiosidade para o abandono dos beijos. Foi bem num jardim que se deu a Revelação — porque até hoje a mulher de todas as classes e o homem de classes variadas procuram, inconscientemente, o jardim para a entrevista.

Entretanto não há quem não tenha trocado palavras como estas, na vida:

— Amanhã?

— Onde?

— No Passeio, às 2.

No Passeio, no Parque da Aclamação, no Jardim Botânico. Não importa o nome. O lugar é sempre um jardim.

Tenho passeado com calma por esses surtos selvagens da cidade e sempre pasmei da variedade dos grupos. Há senhoras casadas que vão a esses lugares, vestidas de escuro com véus espessos. Como em geral elas amam ou se encapricham por cidadãos da sua esfera, os porteiros sabem logo a sorte do felizardo que entra e do infeliz que não entra. Há damas que se sentam nos bancos, à beira dos lagos, e procuram o recesso dos maciços, a sombra da folhagem; e meninas que entram, à volta dos cursos para conversar com os namorados; e há também um fato tocante — se ainda na vida pudesse haver fatos tocantes! —: as mais baixas mulheres, a que o mundo não perdoa, sentem um prazer extraordinário em conversar com o seu querido em sítios umbrosos. O querido é sempre um soldadinho jovem ou um jovem paisano. E é interessante ver entrar para o mesmo lugar homens de tão diferente existência, mulheres de responsabilidade tão variada. Muitas vezes os pares encontram-se. Alguns trocam sorrisos de mútuo consentimento, de doce cumplicidade. Solidariza-os o pecado. Só há uma evidente irritação dos pares, que se traduz pelo olhar frio e duro, pelo súbito silêncio, pelo desenlaçar das mãos, quando passa uma mulher sem companheiro ou um homem isolado. É que lhes germina o egoísmo, e o ciúme primitivo, a necessidade de defesa e da posse. E, por mais que eles saibam do contrário, o atavismo, o instinto sensual, sob a influência amoral das folhas e dos troncos, brota e floresce no jardim sensual.

Nos jardins encontram-se também os desgraçados, os sem emprego, os mendigos. O mendigo é o cisco da cidade. A sua função, com o embotamento das forças vivas da resistência é vegetarizar-se. Os mendigos nos jardins chegam ao fim da desagregação. Os desgraçados, os sem emprego, apoiam-se na eclosão da natureza para criar ânimo, para beber esperanças, e, como os doentes do corpo vão ao campo convalescer, há homens sujos e pálidos nos jardins, sem almoço, sem pão, sem protetores, que pedem às árvores a cura da própria sorte.

Os brutos, os marçanos, os que obedecem apenas à função fisiológica vendo a vida sem poesia, não namoram no teatro onde vão assistir à peça, não namoram à refeição porque vão comer; não namoram na rua porque vão com destino certo. Namoram, isto é, apanham a mulher no jardim, à sombra das árvores. Daí, aos domingos, os jardins estarem cheios. O dia de folga, as bebidas, o prazer, levamnos lá. O instinto rebenta ao contato com o resumo da floresta. Há bandos de adolescentes pesados, de bengalão e charuto, dizendo facécias grossas. E há também bandos de meninas namoradoiras, de costureirinhas, a rir, a responder aos dichotes.

Não vos espanteis, oh! não! À noite, os jardins acolhem também os degenerados, esses doentes da sensualidade, cuja loucura na rua sabe sofrear-se para não entrar no hospício: damas de apetites desvairados, sujeitos de vícios secretos. Não fosse o jardim a recordação da floresta antiga e não precisava de bacantes e de sátiros!

Como a licença cria austeras filosofias, os jardins têm também filósofos, esfarrapados cheios de orgulho, de cabeça socrática e gesto medido que pela manhã dissertam para pequenos grupos sobre a decadência deste país. E tem mesmo ex-pisa-flores, ex-leões da moda, da diplomacia dos falecidos cotillons do Paço. O esfarrapado é severo e condena. O esfarrapado, com as roupas lavadas de benzina, os arcaicos chapéus com reflexos furta-cores, os cabelos pintados, as unhas tratadas, lêem o jornal e guardam horas e horas um digno silêncio. Estão ali, como num museu a arejar. E talvez seja triste vê-los ao sol, aquecendo a carcaça, enquanto um ou outro soldado ou marinheiro, almas simples nascidas nas florestas do norte sentam-se nos bancos e olham as moitas, nostálgicos e pasmos.

Os que passeiam por esses sítios sabem de tudo isso porque os jardins não guardam segredo, para mostrar decerto o poder da sua influência. Não há dama dando rendez-vous a um rapaz, indo ela a uma hora e ele a outra, entrando um por uma porta, e outro por outra sem que os jardins deixem de murmurar esse colóquio. Como? Em tudo — no ambiente, nas correntes misteriosas que vão de folha em folha, cantando a nova. O freqüentador sabe da fatal entrevista apenas pelo andar do homem, e os porteiros, os grandes manuais de amor oculto da cidade, sorriem e diagnosticam à primeira vista.

Os jardins públicos são os guardas da sensualidade. Os seus estados de alma estudam-se pelas horas. De manhã, há crianças, filósofos, vagabundos e gente a fazer o seu footing. A essa hora esforçam-se eles por tomar um ar sério, lavam-se, irrigam-se, tomam a ducha reanimadora dos delírios noturnos. Mas vá o sol subindo e suba ao espaço a poeira, ou melancolicamente teça a chuva entre as folhas uma teia de cristal, começam a chegar os que dormiram até tarde, começam a aparecer os nevropatas, surgem os amorosos. Quando entra um sujeito desconhecido, o jardim parece recebê-lo com um riso silencioso de velho sátiro.

Até as cinco da tarde quando o dia morre, o culto de Eros toma variedades esquisitas e abundantes. Daí em diante, com as primeiras sombras, as combustões amenas, as águas dos lagos mais misteriosas e a voz das árvores mais sensível — podeis ter a certeza que é a ronda da pornéia. A concorrência aumenta. Há gente aos bandos em começo de simpatia e pares solitários em início de contatos. A areia das aléias parece mais seca, um pó seco paira no ar. Por isso os jardins, nas grandes cidades, são como escapadas de civilização, e eu não entro num jardim, sem me sentir dominado pela Natureza brutal — de que com tanto custo, quando não está nos jardins, parece liberto o Homem da Cidade…

 

Artigos publicados na Brasiliana Fotográfica no Dia Mundial do Meio Ambiente

 

A Floresta da Tijuca no Dia Mundial do Meio Ambiente, publicado em 5 de junho de 2019

Bambus, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2020

No Dia Mundial do Meio Ambiente, velas abertas na Baía da Guanabara, publicado em 5 de junho de 2022

No Dia Mundial do Meio Ambiente, a potente imagem da Cachoeira de Paulo Afonso, por Marc Ferrez, publicado em 5 de junho de 2023

 

*Diversas fontes foram consultadas e o ano de nascimento de Glaziou varia entre 1828 e 1833, mas na certidão de casamento de seus pais, consta que ele nasceu em 1828.

**Na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, há o registro da chegada de A. Glaziou, no Brasil, em 1861 (Correio Mercantil, 20 de janeiro de 1861, sexta coluna). Será que esteve aqui em 1858, voltou para a França e depois retornou?

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Archives Departamentales de Côtes  d´Armor –  acte de mariage de Marie-Josephe Grovalet et Yves Glaziou : acte 5, vue 308 dans lot n° 37.

AZEVEDO, Alda; ONO, Fernando Pedro de Carvalho. Ludwig Riedel, o primeiro diretor de jardins da capital do império do Brasil, fevereiro de 2018.

BÉRIAC, Jean-Pierre. Auguste Glaziou, un paysagiste entre Bordeaux et Rio de Janeiro. Revue archéologique de Bordeaux, 2012.

BUREAU, Edouard. Notice Historique sur F.M. Glaziou. Bulletin de la Sociètè de Botanique de France, 28 de fevereiro de 1908.

Câmara Legislativa do Distrito Federal

FERREIRA, João Carlos, MARTINS, Angela Maria Moreira. Quinta da Boa Vista: de espaço de elite  espaço público. Paisagem, ambiente, ensaios, dezembro de 2000.

Glaziou e os jardins sinuosos

GUIMARÃES, Ivo Venerotti. Campo de Santana: o nome do lugar. Dissertação de mestrado. Rio de Janeiro: Universidade Estadual do Rio de Janeiro, 2013.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

HETZEL, Bia, NEGREIROS, Silvia (organizadoras). Glaziou e as raízes do paisagismo no Brazil. Rio de Janeiro : Manati, 2011.

O imperador do Brasil e os seus amigos da Nova-Inglaterra in Anuário do Museu Imperial, 1952 volume 13

MENEZES FILHO, Paulo Ferreira de. A Quinta de Glaziou. A Aula-passeio como divulgação científica, janeiro de 2010.

MÉRIEN, Jean-Yves. Auguste Glaziou. Site Biblioteca Nacional da França, 2009.

MORALES FILHO, Adolfo de. O Rio de Janeiro Imperial. Rio de Janeiro : Topbooks Editora, 2000.

NICOLAU, Giselle Pereira. Hasteando a bandeira tricolor em outros cantos: a imigração francesa no Rio de Janeiro. Tese de doutorado. Rio de Janeiro : Universidade Federal Fluminense, 2018.

Página do Arquivo Nacional no Facebook

PESSOA, Ana. O tabelião Fialho, imaginação e negócios na modernização do Brasil, 2021.

Portal Monumentos do Rio

ROCHA, Marcelo Montiel da. Dr. Glaziou – O Profeta de Brasília in Boletim do Sindicato dos Arquitetos do Distrito Federal, setembro de 2001.

SEGAWA, Hugo. Ao amor do público – Jardins do Brasil. São Paulo : Livros Studio Nobel, Ltda, 1996.

Site Casa de Rui Barbosa

TERRA, Carlos Gonçalves. Os jardins no Brasil do século XIX: Glaziou revisitado. UFRJ: Dissertação de Mestrado em História da Arte, 1993
TRINDADE, Jeanne Almeida da. Os jardins de Glaziou para a Quinta da Boa Vista, Rio de Janeiro / RJ. Revista Espaço Acadêmico, maio de 2014.