Série “Conflitos” XI – Memórias de uma enfermeira “febiana” no front

Memórias de uma enfermeira “febiana” no front

Cristiane d’Avila e Laurinda Maciel*

Há pouco mais de 80 anos, em 6 e 9 de agosto de 1945, os Estados Unidos lançavam sobre o Japão as bombas que ceifaram a vida de milhares de civis e devastaram parte das cidades de Hiroshima e Nagasaki, encerrando os seis longos anos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Expressão da luta contra o nazismo e o fascismo, a contenda incluiu o envio de tropas brasileiras ao norte da Itália em apoio aos Aliados (Estados Unidos, Reino Unido, União Soviética, França, Polônia), após o Brasil declarar guerra à Alemanha e Itália. Parte dessa história pode ser conferida no Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (DAD/COC), em especial a partir do acervo documental de uma brasileira que vivenciou o conflito bélico no front: a enfermeira da Força Expedicionária Brasileira (FEB), Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero (1917-1923).

 

 

Nascida em 23 de outubro de 1917, no Rio de Janeiro, Virgínia era filha e sobrinha de generais. Bacharel em Ciências e Letras pelo Colégio Pedro II, formou-se em Enfermagem Samaritana pela Cruz Vermelha. Com o início da guerra, voluntariou-se para as Forças Armadas do Brasil, o que a levou a compor o Quadro de Emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército (CEERE).

 

Acessando o link para as fotografias relativas à enfermeira Virgínia Portocarrero disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Em 7 de julho de 1944 embarcou para Nápoles, Itália, como uma das 67 integrantes do Primeiro Escalão da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Outras seis enfermeiras, egressas da Escola Anna Nery (EAN), compuseram o quadro da Força Aérea Brasileira (FAB). O grupo atuou nos seguintes hospitais de campanha do exército norte-americano instalados na Itália: 182th Station General Hospital, em Nápoles, 105th Station Hospital, em Cevitavecchia, 64th General Hospital, em Ardenza, 38th Evacuation Hospital, em Cecina, Florença e Pisa; 16th Evacuation Hospital, em Pistola, e 15th Evacuation Hospital, em Corvela.

 

 

Em 7 de julho de 1945, regressou ao Brasil e, em 1957, foi incorporada ao serviço ativo do Exército como 2º tenente e enfermeira na Policlínica Central do Exército. Passou para a reserva, em 25 de setembro de 1962, como 1º tenente, sendo promovida a capitão em 1963.

O arquivo pessoal

O arquivo pessoal de Virgínia, doado ao DAD/COC, em 2010, contém centenas de fotografias, cartas, recortes de jornais, panfletos, ilustrações, desenhos e gravações de canções, entre outros documentos, com destaque para o diário sobre sua experiência como enfermeira da FEB. Nele, ela conta em detalhes o cotidiano de trabalho no hospital de campanha, o atendimento aos feridos e os momentos de descontração, entre outras percepções sobre sua experiência nos campos de batalha.

Em 2021, o arquivo completo foi digitalizado com recursos do Programa Iberarchivos, ação de fomento, acesso, organização, descrição, conservação e difusão do patrimônio documental das nações ibero-americanas voltada à promoção da igualdade de gênero e ao empoderamento de mulheres e meninas, em alinhamento ao 5º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU)[1].

Memórias de uma “‘febiana” no front

Em 14 de março de 2008, Virgínia concedeu entrevista às historiadoras da COC Anna Beatriz de Sá Almeida, Laurinda Rosa Maciel e Margarida Maria Rocha Bernardes relatando sua experiência no front durante quase um ano de trabalho na Itália. Na sequência, destacamos trechos das falas:

“Eu ouvia falar essa coisa toda, não sabe? Eu disse: “Não, eu vou fazer um curso para também ir para essa guerra para cuidar dos militares… com interesse de ir para guerra. E eu fiz o primeiro ano [do curso da Cruz Vermelha], e nisso saiu no jornal O Globo o [chamado para o] voluntariado. Eu aí fui em casa, apanhei os documentos; não disse a ninguém, me apresentei. Chegou de noite o jornal começou a publicar e dar os nomes, aí começaram a telefonar […] para a mamãe e pra mim. Porque a mamãe era uma mãe extraordinária, uma gracinha de mãe; o meu pai um amor, uma coisa formidável. [Eles não sabiam de nada] eu me apresentei e fiquei quietinha porque senão podiam dizer não, e aí que eu não ia fazer porque eu era obediente.

 

 

E aí eu já era maior, podia me apresentar. […] Foi o seguinte: meu tio, irmão de papai mais novo, era chefe de gabinete de Prudente de Morais, general Prudente de Morais, era o general José Portocarrero. […] e eles foram lá pedir para me reprovar no exame de saúde porque eu saí muito bem classificada no curso. Eu fiz tudo que tinha que fazer: ginástica, essas coisas todas…  […] Tinha três em primeiro lugar, uma em segundo, e depois o meu foi o terceiro. Passei em tudo muito bem. Estudava que nem uma danada, não é? Eu não podia deixar de sair, porque eu queria ser aquilo. Já toda fardadinha…

 

 

Embarquei para Natal. Na Base Aérea de Parnamirim e ficamos lá, não sabíamos para onde íamos. Eu e mais cinco e o major Ernestino [Homem de Oliveira], um portento de inteligência, um cirurgião maravilhoso”.

O trabalho nos hospitais de campanha

“De lá [Argel] nós fomos para a Itália. Aí que nós que soubemos que [iríamos] para a Itália. […] Aí quando nós estávamos sentadas, muito bem clareou a cidade toda, que era madrugada, não é? Aí foi o batismo de fogo, porque começaram a bombardear Nápoles, em frente à nossa janela. Nós assistimos. Então o nosso batismo de fogo foi esse. Nós nem pernas tínhamos para sair, ficamos ali sentados, o major, nós duas… Olhando aquele bombardeio caindo na Baía de Nápoles. Estavam invadindo, tantos que morreram. Então, a Baía de Nápoles foi o nosso batismo. […] nós fomos cumprimentar as americanas. Comigo as americanas foram educadíssimas, […] me chamavam na hora da folga para a barraca delas jogar carta, para aprender a falar português, para me ensinar inglês, elas comigo foram fabulosas.

O banho era em conjunto com as americanas. Aquelas barracas grandes, abertas… Cada uma entrava num boxe, tomava banho. E tinha um saco que você jogava roupa suja, e a italiana tinha uma máquina de lavar, que lavava a roupa, mas ela só tinha ordem de lavar as das americanas. Nós levávamos aquilo, de noite na pia…

 

 

Era uma rua de barracas; barracas para lá e barracas de lá e aqui a ruazinha. Eram americanas e brasileiras enfermeiras nesse pedaço. Na outra zona do nosso limite os médicos, e noutra os sargentos e os soldados. Era o nosso limite.

Nessa enfermaria tinha sempre uma americana com uma brasileira para ensinar a rotina do hospital, que era tudo em inglês: os pedidos de medicamento, os médicos receitavam… Tinham médicos que não sabiam nada de inglês. Até à gente eles vinham, eu dizia: “Vê lá, eu de inglês eu… É melhor o senhor saber com americano porque o meu inglês é fraco”.

 

 

Às 7 horas da manhã a gente tinha que entrar. A colega da noite já tinha dado banho. E o banho das americanas elas nunca davam o banho geral. Elas botavam um biombo, porque era leito vago. Quando baixava coronel, general, queimado, paisano… Então eles botavam um biombo que ficava meio falta de respeito, não é? […] nós dávamos injeção na veia, passava no soro, e as americanas não passavam… os próprios americanos gostavam mais de tomar injeção com as brasileiras. Pegávamos o músculo e pow!

Das 7h da manhã às 7h da noite; depois tínhamos um dia de folga total, e trabalhávamos das 7h da noite, às 7h da manhã, 15 dias; os que eram prisioneiros de guerra e estavam feridos iam para a mesma enfermaria. Eles davam pijama, escova de dente, sabonete, alimentação igual, não queriam conversa. Americano então tinha horror de conversar. E eles ficavam danados porque eles [prisioneiros] conversavam à beça comigo porque falavam francês, falavam italiano, espanhol, porque eram cultos; o alemão era cultíssimo. Agora o americano só falava inglês.

Os americanos eram verdadeiras crianças; a gente botava o remédio para eles, tinha que botar na boca, mandar abrir a boca, e ficar segurando ver se eles não jogavam fora. Os alemães eram rigorosos e muito disciplinados.

A sala de choque era uma espécie de urgência, quando eles chegavam iam para ser atendidos logo ali; era uma espécie de boxes para tratamento geral, limpeza e tal. E se dividia pelo quadro: a enfermaria com a gravidade, com a maior gravidade, inclusive para a sala de operações. Era logo classificado. [tinha sala de operações, clínica e choque] e tinha de material cirúrgico, dando suporte […] Era hospital de campo, tudo em barracas, mas tudo [organizado]… Se o bombardeio durasse, [o hospital de campanha com as barracas] ficava enquanto durasse o bombardeio”.

A produção de memória e o término da guerra

“O nome dos vários pontos que nós passamos eu me lembrava porque o meu pai como era professor, ele me instruiu. Ele disse: “Você não mande nada, nada da tua vida militar em carta porque em tempo de guerra isso não vai chegar aqui. Você faz o seguinte: cada doente que você tiver alta, que ele tiver transferência para o Brasil, você dá o meu telefone, dá a ele, pede licença ao comando que vai mandar para o seu pai”. E o papai escreveu uma carta ao Major Ernestino pedindo que deixasse… que liberasse, que queria fazer o meu diário. O major Ernestino permitiu fazer. […] Eles telefonavam, papai ia ao HCE e apanhava.

Ganhei uma máquina fotográfica porque fizeram uma vaquinha. Eu tenho fotografia de tudo. Tudo que eu queria eu tirava. [antes de ter a máquina] eu gostava de fotografia, mas não consegui levar máquina porque não deixaram.

[Ganhava] muitos presentes [dos pacientes], cartas, poesias, tudo, tudo, tudo. E aqui no Brasil eu recebo telefonemas de esposas que ainda estão vivas.

Que já tinha acabado a guerra, e eu vi o Mussolini pendurado de cabeça para baixo, a mulher do Mussolini [Clara Petacci] e três ministros. Vi em Milão, estava perto do Lago de Como, pendurado de cabeça para baixo, e os italianos foram que meteram canivetes, facas. Quem o matou foram os próprios italianos”.

 

O arquivo pessoal de Virgínia Portocarrero, os áudios das entrevistas realizadas, bem como a transcrição das mesmas estão disponíveis para consulta, que pode ser solicitada em https://www.gov.br/pt-br/servicos/consultar-arquivos-historicos-da-fiocruz .

 

[1] Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5: “Igualdade de gênero – Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. Disponível em Sustainable Development Goal 5: Igualdade de gênero | As Nações Unidas no Brasil.

*Cristiane d’Avila é jornalista e Laurinda Maciel é historiadora do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)
Esse artigo passou a integrar a série Conflitos, em 20 de março de 2026.

Fontes:

BERNARDES, M.M.R.; KAMINITZ, S.HC; MACIEL, L.R. et ali. ‘Uma enfermeira da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial: Fundo Virgínia Portocarrero da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz’. Hist. cienc. saude-Manguinhos 29 (2) • Apr-Jun 2022, p.531-550.

CASA DE OSWALDO CRUZ. Departamento de Arquivo e Documentação. Fundo Virgínia Portocarrero. Disponível em: https://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/virginia-portocarrero. Acesso em: 09 nov 2025.

D’AVILA, Cristiane. Força feminina contra o nazismo: a enfermeira brasileira Virgínia Portocarrero na Segunda Guerra Mundial (Artigo). In: Café História. Publicado em 1 mar de 2021. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/enfermeiras-na-segunda-guerra-virginia-portocarrero/. ISSN: 2674-59.

PORTOCARRERO, Virgínia Maria Niemeyer. FIOCRUZ. Rio de Janeiro. 14 de maio. 2008. Entrevista concedida à Anna Beatriz de Sá Almeida, Laurinda Rosa Maciel e Margarida Maria Rocha Bernardes. Acervo da Casa de Oswaldo Cruz. Disponível em: https://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/virginia-maria-de-niemeyer-portocarrero-3. Acesso em: 09 nov 2025.

 

 

A Brasiliana Fotográfica no canal “História do Brasil Como Você Nunca Viu”

Prezados leitores da Brasiliana Fotográfica, assistam aqui a entrevista realizada pelo historiador, advogado, genealogista e indigenista Bruno da Silva Antunes de Cerqueira (1979-) com a editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, Andrea C. T. Wanderley (1964-), em 7 de junho de 2025, no canal História do Brasil Como Você Nunca Viu, criado por ele em 2019.

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Série “Exposições” VIII – A apresentação do Departamento Nacional de Saúde Pública na Exposição Internacional do Centenário da Independência

Uma das apresentações realizada durante a Exposição Internacional do Centenário da Independência em 1922 foi montada pelo então recém-criado Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP). Esse órgão administrativo da saúde pública era uma antiga reivindicação dos intelectuais sanitaristas, que acreditavam que somente uma organização estatal e nacional resolveria os graves problemas de saúde no Brasil. A instalação dessa exposição obteve grande repercussão, sendo saudada pela imprensa como obra vital para a salvação do país. É essa história que o pesquisador Ricardo Augusto dos Santos, da Fiocruz, instituição parceira da Brasiliana Fotográfica desde agosto de 2017, traz para os leitores do portal com a publicação do artigo A apresentação do Departamento Nacional de Saúde Pública na Exposição Internacional do Centenário da Independência e de 14 fotografias do evento.

Nesse momento dramático da história do Brasil e do mundo, publicamos, no final desse artigo, a lista dos 24 artigos, além deste, produzidos por profissionais da Casa de Oswaldo Cruz para o portal. A Fiocruz contribui significativamente no combate ao coronavírus, seja na pesquisa de medicamentos, na elaboração de um plano de contingência diante da pandemia ou na disseminação de informações importantes para a população.

A Organização Mundial da Saúde oficializou no dia 8 de abril de 2020 a indicação do Laboratório de Vírus Respiratórios e do Sarampo da Fiocruz (Instituto Oswaldo Cruz) como laboratório de referência para o combate ao novo coronavírus nas Américas. O laboratório, que já era referência junto à OMS para vírus do tipo Influenza, poderá receber amostras de COVID- 19 de outros países do continente para a realização de sequenciamento genético, localização de mutações, aprofundamento de estudos que possam levar ao desenvolvimento de uma vacina e ao aperfeiçoamento de diagnósticos, além de testes de medicamentos.

 

A apresentação do Departamento Nacional de Saúde Pública na

 Exposição Internacional do Centenário da Independência 

 Ricardo Augusto dos Santos*

 

 

Realizada no Rio de Janeiro em 1922, a Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil ficou marcada pela derrubada do Morro do Castelo, arrasado durante a administração do prefeito Carlos Sampaio (1861-1930). Com a utilização de mangueiras hidráulicas e auxiliado por vagões que levavam o entulho, o monte foi demolido. Desta maneira, a Esplanada do Castelo foi cenário para a construção dos pavilhões da Exposição, projeto dos arquitetos Adolfo Morales de Los Rios (1858 – 1928) e Archimedes Memória (1893-1960). Após a festa, a área valorizada foi ocupada atendendo a necessidades, não somente de ordem higienista, motivo declarado à época, mas, sobretudo, da reprodução do capital imobiliário. A Exposição Internacional de 1922 foi um grande evento, onde não faltaram os principais países. Em seus monumentais prédios estavam presentes, estilos arquitetônicos, aspectos culturais e produtos que a transformaram numa vitrine das nações. Da imensa mostra restaram poucas construções, hoje ocupadas pelo Museu da Imagem e do Som, Academia Brasileira de Letras e Centro Cultural da Saúde.

 

Acessando o link para as fotografias dos Aspectos da Mostra de Saúde Pública do DNSP na Exposição do Centenário em 1922 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Os preparativos para o centenário começaram assim que o aterro foi surgindo na praia de Santa Luzia. Ocupando o terreno obtido com a destruição do morro, a exposição foi montada numa reta, chamada de Avenida das Nações, onde ficavam os edifícios. A publicação oficial da comissão organizadora informa como foi conduzido o trabalho. O objetivo era apresentar a vitória do homem sobre a natureza. Enquanto os países estrangeiros apresentavam aparelhos inovadores, os projetos brasileiros procuravam apagar as marcas do país doente, pobre e analfabeto. No pavilhão da indústria nacional, destacava-se a máquina que produzia energia a partir da queda d’água. A beleza tropical estava sendo dominada e a ciência transformaria o meio selvagem, abandonando a perene condição inferior da nação. Pedagogicamente, se alardeava a possibilidade de transformação da floresta em riqueza econômica, através da exploração dos recursos naturais. Com a ciência, o país alcançaria a civilização.

Uma das apresentações foi montada pelo então recém-criado Departamento Nacional de Saúde Pública (DNSP). Esse órgão administrativo da saúde pública era uma antiga reivindicação dos intelectuais sanitaristas, que acreditavam que somente uma organização estatal e nacional resolveria os graves problemas de saúde no Brasil. A instalação dessa exposição realizada pelo DNSP obteve grande repercussão, sendo saudada pela imprensa como obra vital para a salvação do país, como podemos averiguar através da entrevista concedida pelo médico Renato Kehl (1889 – 1974) que, como funcionário do DNSP, trabalhou na produção.

 

 

Ao jornal A Noite, o eugenista faz relevantes declarações sobre a função da educação higiênica:

Jornal A Noite – Há justo motivo para se acreditar, diz o Dr. Renato Kehl, que estamos em plena fase de higienização nacional, completando a memorável obra de reabilitação sanitária iniciada no nosso país pelo grande patrício Oswaldo Cruz. Dia a dia multiplicam-se as providências de ataque às epidemias e endemias que assolam o território pátrio e são freqüentes as manifestações de aplausos a essa auspiciosa campanha de saneamento que se vai disseminando por quase todos os estados da União. O magno problema está, pois, em foco. Congressos médicos, mensagens, plataformas, discursos e conferências, tratam das medidas profiláticas em execução ou em projeto, mantendo-se unânime a opinião pública de que a política sanitária é a verdadeira política de salvação nacional. O povo, apercebido dos benefícios que estão surgindo com as medidas de saneamento e dos que advirão futuramente, compreende, enfim, que o nosso grande mal não está ligado ao clima nem à gente que habita esta face da terra, mas sim às endemias e epidemias que infelicitam grande parte dos nossos patrícios, principalmente dos que habitam a zonas rurais.

Kehl – A exposição, que vai fazer o Departamento Nacional de Saúde Pública, nas alas laterais do Pavilhão das Festas, vale por uma demonstração do que se tem feito e do que se tem a fazer em matéria de propaganda. Presta-se ainda, para demonstrar ao público, de um modo simples e evidente, a importância da execução dos preceitos ditados pela higiene.

Jornal A Noite – Tem esperanças nessa propaganda com o analfabetismo reinante?

Kehl – Naturalmente. Ao lado da campanha escrita, faz-se a falada, que será compreendida pelos “iletrados”. Ninguém ignora que a propaganda é o elemento mais importante para a vitória de uma campanha, seja ela comercial, política ou sanitária. Antes de tudo, é preciso convencer o público, para depois se lhe pedir ou exigir a colaboração”.[1]

 

 

Em seu arquivo pessoal, Renato Kehl guardou algumas imagens fotográficas desta apresentação. Podemos averiguar que o objetivo era colaborar para a educação higiênica das populações rurais e urbanas. Os objetos e fotografias, reunidas no trabalho, realçavam o valor dos ensinamentos da higiene. As imagens são um fragmento da campanha educativa e sanitária que deveria ser instalada no Brasil. São imagens das habitações típicas das áreas rurais, infestadas de insetos transmissores de doenças. Também eram apresentados os modelos corretos de casas rurais que os camponeses deveriam construir.

 

 

 

 

[1] Entrevista com Renato Kehl. Jornal A Noite, 30/10/1922.

 

*Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz

 

Nota da editora: esse artigo passou a integrar uma série e mudou de título em 1º de dezembro de 2025.

 

Lista dos 24 artigos, além deste, produzidos pela Casa de Oswaldo Cruz para publicação na Brasiliana Fotográfica

(agosto de 2017 a fevereiro de 2020)

casa

Cenas da folia em Manaus em 1913 – 28/02/2020 – Cristiane d´Avila, Casa de Oswaldo Cruz

Trilhos sobre a floresta: imagens da construção da E.F. Madeira-Mamoré – 14/10/2019 – Cristiane d´Avila, Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz

As ruínas de Brás de Pina – 30/09/2019 – Ricardo Augusto dos Santos, Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz / Fiocruz

O funeral de Teixeira Mendes pela lente de Augusto Malta – 02/08/2019 – Ricardo Augusto dos Santos, Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz, e Marcus Vinícius Rubim Gomes é estagiário na Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz

A descoberta da doença de Chagas – 14/06/2019 – Simone Petraglia Kropf, historiadora da Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz

O cotidiano da Manguinhos – 24/04/2019 – Equipe da Fiocruz 

As expedições do Instituto Oswaldo Cruz entre 1911 e 1913 – 14/03/2019 – Cristiane d´Avila, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

Morro de Santo Antônio – 05/02/2019 – Ricardo Augusto dos Santos, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

João Pedro ou João Pedroso? – 11/01/2019 – Ricardo Augusto dos Santos e Francisco dos Santos Lourenço, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: centenário da construção da pesquisa clínica em Manguinho – 21/12/2018 – Dilene Raimundo do Nascimento, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas 100 anos: Carlos e Evandro Chagas em retratos de família,  – 27/11/2018 – Aline Lopes de Lacerda, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: 100 anos de pesquisa clínica – 26/10/2018 – Cristiane d´Avila, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

O sanitarista Belisário Penna (1868 – 1939, um dos protagonistas da história da saúde pública no Brasil – 28/09/2018 – Ricardo Augusto dos Santos, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

Vacinação no Brasil, uma história centenária – 17/08/2018 – Cristiane d´Avila, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

A criação de uma vacina para a peste da manqueira, um marco na história da veterinária brasileira e mundial – 21/06/2018 – Cristiane d´Avila, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

100 anos do Castelo da Fiocruz: criador e criatura – Renato da Gama-Rosa Costa – 15 /05/ 2018, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

100 anos do Castelo da Fiocruz: os pedreiros do castelo da avenida Brasil – Ricardo Augusto dos Santos – 12/04/2018, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

Febre amarela: imagens da produção da vacina no início do século XX – Aline Lopes de Lacerda – 23/03/2018, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

100 anos do Castelo da Fiocruz: a ocupação da Fazenda de Manguinhos – Cristiane d´Avila – 28/02/2018, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

Manguinhos e a cidade do Rio de Janeiro – Equipe da Fiocruz – 19/01/2018, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

O cientista Oswaldo Cruz (1872 – 1917), prefeito de Petrópolis – Cristiane d’Avila com a colaboração de Ana Luce Girão, 28/12/2017, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

O fotógrafo Joaquim Pinto da Silva, o J. Pinto (1884-1951) e a Fundação Oswaldo Cruz – Ricardo Augusto dos Santos, 16/11/2017, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

Manguinhos e os sertões – Equipe da Fiocruz, 09/10/2017 , Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

Novos acervos: Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz – Fotografia, Ciência e Saúde Pública – Equipe da Fiocruz, 30/08/2017, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

 

Links para os artigos sobre exposições nacionais ou internacionais publicados na Brasiliana Fotográfica

O pintor Victor Meirelles e a fotografia na II Exposição Nacional de 1866, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 17 de agosto de 2017.

A festa do progresso: o Brasil na Exposição Continental, Buenos Aires, 1882, de autoria de Maria do Carmo Rainho, Arquivo Nacional, publicado em 29 de março de 2018.

Série “O Rio de Janeiro desaparecido” II – A Exposição Nacional de 1908 na Coleção Família Passos, de autoria de Carla Costa, Museu da República, publicado em 5 de abril de 2018.

Marc Ferrez, a Comissão Geológica do Império (1875 – 1878) e a Exposição Antropológica Brasileira no Museu Nacional (1882), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 29 de junho de 2018.

Paris, 1889: o álbum da exposição universal, de autoria de Claudia B. Heynemann, Arquivo Nacional,publicado em 27 de julho de 2018.

Café Brasil: o Império na Exposição Internacional de Filadélfiade autoria de Claudia B. Heynemann, Arquivo Nacional, publicada em 4 de dezembro de 2019.

Festa das Artes e da Indústria Segunda Exposição Nacional, 1866, de autoria de Claudia Beatriz Heynemann e Maria Elizabeth Brêa Monteiro, Arquivo Nacional, em 5 de abril de 2020.

A Exposição Internacional de Higiene de Dresden, de Cristiane d´Avila, Fiocruz, publicado em 5 de janeiro de 2022.

Série 1922 – Hoje, há 100 anos VIII – A abertura da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil e o centenário da primeira grande transmissão pública de rádio no país, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 7 de setembro de 2022, na Brasiliana Fotográfica.

Três álbuns fotográficos da Exposição Nacional de 1908 no Museu Histórico Nacional: Boscagli, Malta e Musso, de autoria de Maria Isabel Ribeiro Lenzi, historiadora do Museu Histórico Nacional, publicado em 25 de agosto de 2023, na Brasiliana Fotográfica.