Um aspecto da importância da preservação digital de arquivos fotográficos

A imagem que hoje apresentamos pertence ao acervo do Arquivo Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, e foi publicada na revista Fon-Fon, de 10 de outubro de 1936, e mostra o então presidente do Brasil, Getúlio Vargas (1882-1954) em audiência com participantes do III Congresso Feminista, realizado no Rio de Janeiro. Pode ser encontrada a partir de uma pesquisa na Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, a maior coleção de periódicos do Brasil, indispensável para os pesquisadores e uma das fontes mais frequentes e importantes para a realização de pesquisas e elaboração de artigos da Brasiliana Fotográfica. Lembramos ainda que a Fundação Biblioteca Nacional é uma das fundadoras do portal.

Com esse artigo, destacamos um aspecto da importância da preservação digital de arquivos de fotografia, estabelecendo mais uma vez a relação entre uma imagem de um acervo fotográfico, no caso do Arquivo Nacional – uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica – com a forma e o contexto com que ela foi originalmente publicada, o que confere à Hemeroteca Digital da BN especial protagonismo. Mesmo que elas estejam conservadas em plataformas potentes como a Hemeroteca, sua preservação digital em outros arquivos é muito importante porque a partir de recursos tecnológicos como a digitalização e o zoom, passam a ter outra visibilidade e podem ser acessadas em sua qualidade plena.

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Série “Conflitos” XI – Memórias de uma enfermeira “febiana” no front

Memórias de uma enfermeira “febiana” no front

Cristiane d’Avila e Laurinda Maciel*

Há pouco mais de 80 anos, em 6 e 9 de agosto de 1945, os Estados Unidos lançavam sobre o Japão as bombas que ceifaram a vida de milhares de civis e devastaram parte das cidades de Hiroshima e Nagasaki, encerrando os seis longos anos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Expressão da luta contra o nazismo e o fascismo, a contenda incluiu o envio de tropas brasileiras ao norte da Itália em apoio aos Aliados (Estados Unidos, Reino Unido, União Soviética, França, Polônia), após o Brasil declarar guerra à Alemanha e Itália. Parte dessa história pode ser conferida no Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (DAD/COC), em especial a partir do acervo documental de uma brasileira que vivenciou o conflito bélico no front: a enfermeira da Força Expedicionária Brasileira (FEB), Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero (1917-1923).

 

 

Nascida em 23 de outubro de 1917, no Rio de Janeiro, Virgínia era filha e sobrinha de generais. Bacharel em Ciências e Letras pelo Colégio Pedro II, formou-se em Enfermagem Samaritana pela Cruz Vermelha. Com o início da guerra, voluntariou-se para as Forças Armadas do Brasil, o que a levou a compor o Quadro de Emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército (CEERE).

 

Acessando o link para as fotografias relativas à enfermeira Virgínia Portocarrero disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Em 7 de julho de 1944 embarcou para Nápoles, Itália, como uma das 67 integrantes do Primeiro Escalão da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Outras seis enfermeiras, egressas da Escola Anna Nery (EAN), compuseram o quadro da Força Aérea Brasileira (FAB). O grupo atuou nos seguintes hospitais de campanha do exército norte-americano instalados na Itália: 182th Station General Hospital, em Nápoles, 105th Station Hospital, em Cevitavecchia, 64th General Hospital, em Ardenza, 38th Evacuation Hospital, em Cecina, Florença e Pisa; 16th Evacuation Hospital, em Pistola, e 15th Evacuation Hospital, em Corvela.

 

 

Em 7 de julho de 1945, regressou ao Brasil e, em 1957, foi incorporada ao serviço ativo do Exército como 2º tenente e enfermeira na Policlínica Central do Exército. Passou para a reserva, em 25 de setembro de 1962, como 1º tenente, sendo promovida a capitão em 1963.

O arquivo pessoal

O arquivo pessoal de Virgínia, doado ao DAD/COC, em 2010, contém centenas de fotografias, cartas, recortes de jornais, panfletos, ilustrações, desenhos e gravações de canções, entre outros documentos, com destaque para o diário sobre sua experiência como enfermeira da FEB. Nele, ela conta em detalhes o cotidiano de trabalho no hospital de campanha, o atendimento aos feridos e os momentos de descontração, entre outras percepções sobre sua experiência nos campos de batalha.

Em 2021, o arquivo completo foi digitalizado com recursos do Programa Iberarchivos, ação de fomento, acesso, organização, descrição, conservação e difusão do patrimônio documental das nações ibero-americanas voltada à promoção da igualdade de gênero e ao empoderamento de mulheres e meninas, em alinhamento ao 5º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU)[1].

Memórias de uma “‘febiana” no front

Em 14 de março de 2008, Virgínia concedeu entrevista às historiadoras da COC Anna Beatriz de Sá Almeida, Laurinda Rosa Maciel e Margarida Maria Rocha Bernardes relatando sua experiência no front durante quase um ano de trabalho na Itália. Na sequência, destacamos trechos das falas:

“Eu ouvia falar essa coisa toda, não sabe? Eu disse: “Não, eu vou fazer um curso para também ir para essa guerra para cuidar dos militares… com interesse de ir para guerra. E eu fiz o primeiro ano [do curso da Cruz Vermelha], e nisso saiu no jornal O Globo o [chamado para o] voluntariado. Eu aí fui em casa, apanhei os documentos; não disse a ninguém, me apresentei. Chegou de noite o jornal começou a publicar e dar os nomes, aí começaram a telefonar […] para a mamãe e pra mim. Porque a mamãe era uma mãe extraordinária, uma gracinha de mãe; o meu pai um amor, uma coisa formidável. [Eles não sabiam de nada] eu me apresentei e fiquei quietinha porque senão podiam dizer não, e aí que eu não ia fazer porque eu era obediente.

 

 

E aí eu já era maior, podia me apresentar. […] Foi o seguinte: meu tio, irmão de papai mais novo, era chefe de gabinete de Prudente de Morais, general Prudente de Morais, era o general José Portocarrero. […] e eles foram lá pedir para me reprovar no exame de saúde porque eu saí muito bem classificada no curso. Eu fiz tudo que tinha que fazer: ginástica, essas coisas todas…  […] Tinha três em primeiro lugar, uma em segundo, e depois o meu foi o terceiro. Passei em tudo muito bem. Estudava que nem uma danada, não é? Eu não podia deixar de sair, porque eu queria ser aquilo. Já toda fardadinha…

 

 

Embarquei para Natal. Na Base Aérea de Parnamirim e ficamos lá, não sabíamos para onde íamos. Eu e mais cinco e o major Ernestino [Homem de Oliveira], um portento de inteligência, um cirurgião maravilhoso”.

O trabalho nos hospitais de campanha

“De lá [Argel] nós fomos para a Itália. Aí que nós que soubemos que [iríamos] para a Itália. […] Aí quando nós estávamos sentadas, muito bem clareou a cidade toda, que era madrugada, não é? Aí foi o batismo de fogo, porque começaram a bombardear Nápoles, em frente à nossa janela. Nós assistimos. Então o nosso batismo de fogo foi esse. Nós nem pernas tínhamos para sair, ficamos ali sentados, o major, nós duas… Olhando aquele bombardeio caindo na Baía de Nápoles. Estavam invadindo, tantos que morreram. Então, a Baía de Nápoles foi o nosso batismo. […] nós fomos cumprimentar as americanas. Comigo as americanas foram educadíssimas, […] me chamavam na hora da folga para a barraca delas jogar carta, para aprender a falar português, para me ensinar inglês, elas comigo foram fabulosas.

O banho era em conjunto com as americanas. Aquelas barracas grandes, abertas… Cada uma entrava num boxe, tomava banho. E tinha um saco que você jogava roupa suja, e a italiana tinha uma máquina de lavar, que lavava a roupa, mas ela só tinha ordem de lavar as das americanas. Nós levávamos aquilo, de noite na pia…

 

 

Era uma rua de barracas; barracas para lá e barracas de lá e aqui a ruazinha. Eram americanas e brasileiras enfermeiras nesse pedaço. Na outra zona do nosso limite os médicos, e noutra os sargentos e os soldados. Era o nosso limite.

Nessa enfermaria tinha sempre uma americana com uma brasileira para ensinar a rotina do hospital, que era tudo em inglês: os pedidos de medicamento, os médicos receitavam… Tinham médicos que não sabiam nada de inglês. Até à gente eles vinham, eu dizia: “Vê lá, eu de inglês eu… É melhor o senhor saber com americano porque o meu inglês é fraco”.

 

 

Às 7 horas da manhã a gente tinha que entrar. A colega da noite já tinha dado banho. E o banho das americanas elas nunca davam o banho geral. Elas botavam um biombo, porque era leito vago. Quando baixava coronel, general, queimado, paisano… Então eles botavam um biombo que ficava meio falta de respeito, não é? […] nós dávamos injeção na veia, passava no soro, e as americanas não passavam… os próprios americanos gostavam mais de tomar injeção com as brasileiras. Pegávamos o músculo e pow!

Das 7h da manhã às 7h da noite; depois tínhamos um dia de folga total, e trabalhávamos das 7h da noite, às 7h da manhã, 15 dias; os que eram prisioneiros de guerra e estavam feridos iam para a mesma enfermaria. Eles davam pijama, escova de dente, sabonete, alimentação igual, não queriam conversa. Americano então tinha horror de conversar. E eles ficavam danados porque eles [prisioneiros] conversavam à beça comigo porque falavam francês, falavam italiano, espanhol, porque eram cultos; o alemão era cultíssimo. Agora o americano só falava inglês.

Os americanos eram verdadeiras crianças; a gente botava o remédio para eles, tinha que botar na boca, mandar abrir a boca, e ficar segurando ver se eles não jogavam fora. Os alemães eram rigorosos e muito disciplinados.

A sala de choque era uma espécie de urgência, quando eles chegavam iam para ser atendidos logo ali; era uma espécie de boxes para tratamento geral, limpeza e tal. E se dividia pelo quadro: a enfermaria com a gravidade, com a maior gravidade, inclusive para a sala de operações. Era logo classificado. [tinha sala de operações, clínica e choque] e tinha de material cirúrgico, dando suporte […] Era hospital de campo, tudo em barracas, mas tudo [organizado]… Se o bombardeio durasse, [o hospital de campanha com as barracas] ficava enquanto durasse o bombardeio”.

A produção de memória e o término da guerra

“O nome dos vários pontos que nós passamos eu me lembrava porque o meu pai como era professor, ele me instruiu. Ele disse: “Você não mande nada, nada da tua vida militar em carta porque em tempo de guerra isso não vai chegar aqui. Você faz o seguinte: cada doente que você tiver alta, que ele tiver transferência para o Brasil, você dá o meu telefone, dá a ele, pede licença ao comando que vai mandar para o seu pai”. E o papai escreveu uma carta ao Major Ernestino pedindo que deixasse… que liberasse, que queria fazer o meu diário. O major Ernestino permitiu fazer. […] Eles telefonavam, papai ia ao HCE e apanhava.

Ganhei uma máquina fotográfica porque fizeram uma vaquinha. Eu tenho fotografia de tudo. Tudo que eu queria eu tirava. [antes de ter a máquina] eu gostava de fotografia, mas não consegui levar máquina porque não deixaram.

[Ganhava] muitos presentes [dos pacientes], cartas, poesias, tudo, tudo, tudo. E aqui no Brasil eu recebo telefonemas de esposas que ainda estão vivas.

Que já tinha acabado a guerra, e eu vi o Mussolini pendurado de cabeça para baixo, a mulher do Mussolini [Clara Petacci] e três ministros. Vi em Milão, estava perto do Lago de Como, pendurado de cabeça para baixo, e os italianos foram que meteram canivetes, facas. Quem o matou foram os próprios italianos”.

 

O arquivo pessoal de Virgínia Portocarrero, os áudios das entrevistas realizadas, bem como a transcrição das mesmas estão disponíveis para consulta, que pode ser solicitada em https://www.gov.br/pt-br/servicos/consultar-arquivos-historicos-da-fiocruz .

 

[1] Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5: “Igualdade de gênero – Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. Disponível em Sustainable Development Goal 5: Igualdade de gênero | As Nações Unidas no Brasil.

*Cristiane d’Avila é jornalista e Laurinda Maciel é historiadora do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)
Esse artigo passou a integrar a série Conflitos, em 20 de março de 2026.

Fontes:

BERNARDES, M.M.R.; KAMINITZ, S.HC; MACIEL, L.R. et ali. ‘Uma enfermeira da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial: Fundo Virgínia Portocarrero da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz’. Hist. cienc. saude-Manguinhos 29 (2) • Apr-Jun 2022, p.531-550.

CASA DE OSWALDO CRUZ. Departamento de Arquivo e Documentação. Fundo Virgínia Portocarrero. Disponível em: https://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/virginia-portocarrero. Acesso em: 09 nov 2025.

D’AVILA, Cristiane. Força feminina contra o nazismo: a enfermeira brasileira Virgínia Portocarrero na Segunda Guerra Mundial (Artigo). In: Café História. Publicado em 1 mar de 2021. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/enfermeiras-na-segunda-guerra-virginia-portocarrero/. ISSN: 2674-59.

PORTOCARRERO, Virgínia Maria Niemeyer. FIOCRUZ. Rio de Janeiro. 14 de maio. 2008. Entrevista concedida à Anna Beatriz de Sá Almeida, Laurinda Rosa Maciel e Margarida Maria Rocha Bernardes. Acervo da Casa de Oswaldo Cruz. Disponível em: https://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/virginia-maria-de-niemeyer-portocarrero-3. Acesso em: 09 nov 2025.

 

 

Tirando o Brasil dos arquivos por Ricardo Augusto dos Santos

Neste artigo Ricardo Augusto dos Santos, inspirado pela realização da comemoração dos 10 anos da Brasiliana Fotográfica, em abril de 2025, destaca fotografias de cidades presentes no acervo da Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, instituição parceira do portal, na qual ele atua como pesquisador titular. No acervo, estão registrados mais de 900 cidades, povoados e localidades de diferentes estados brasileiros e de outros países. Através dessas imagens, pode-se conhecer melhor o Brasil. Nas gavetas da COC/Fiocruz, foram identificados, além dos registros sobre a atuação dos cientistas e sanitaristas nas campanhas de febre amarela, varíola e peste bubônica no Brasil, produção de vacinas e pesquisas nas áreas de biomedicina, conteúdos a respeito do tenentismo, da Fundação Rockefeller, da hanseníase, da eugenia, da reforma antimanicomial, do alcoolismo e da previdência social, dentre centenas de outros.

 

Tirando o Brasil dos arquivos

Ricardo Augusto dos Santos*

 

 

Em meio às gavetas  da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz, surge uma fotografia da cidade de Cuiabá (MT). Em 1944, a milhares de quilômetros do palco da Grande Guerra, uma faixa anuncia o filme O Grande Ditador, de Charles Chaplin (1889-1977). Fotos como essa, registrando cidades pelo imenso país, conservam a memória do Brasil. Quando iniciamos a participação na Brasiliana Fotográfica, nosso objetivo era apresentar a importância do acervo sob a guarda da Casa de Oswaldo Cruz. São 133 fundos e coleções arquivísticas que reúnem quase três mil metros lineares de documentos, com 23.000 imagens organizadas e disponíveis para consulta, além de 80.000 fotografias e negativos em processo de classificação. Apesar do peso representativo dos temas relativos à história das ciências e da saúde, encontramos diversos assuntos nos arquivos, revelando inestimáveis aspectos da história do Brasil dos últimos 150 anos.[1]

Portanto, além dos registros sobre a atuação dos cientistas e sanitaristas nas campanhas de febre amarela, varíola e peste bubônica no Brasil, produção de vacinas e pesquisas nas áreas de biomedicina, nas gavetas da COC/Fiocruz, identificamos conteúdos a respeito do tenentismo, Fundação Rockefeller, hanseníase, eugenia, reforma antimanicomial, alcoolismo e previdência social. São centenas de temáticas.

No acervo, estão registrados mais de 900 cidades, povoados e localidades de diferentes estados brasileiros e de outros países. Através dessas imagens, podemos conhecer o país. Julgamos que é atribuição de um centro de documentação a ampliação do número de investigadores, permitindo condições de pesquisa aos documentos arquivísticos. Os trabalhos de divulgação devem ser amplos, afinal a função social dos arquivos é justamente torná-los de uso coletivo. Portanto, divulgar os acervos para o público é tarefa vital. Sem demanda à consulta, os documentos não são organizados ou esse processo poderá ser mais lento. A disseminação dos documentos textuais e fotografias propicia que as instituições alcancem um maior número de usuários, utilizando seus acervos, permitindo a multiplicação de seus acessos. No entanto, algo mais importante está em cena. A possibilidade que os brasileiros conheçam o país, suas regiões e habitantes em diferentes épocas.

 

 

Durante o evento de comemoração dos 10 anos da Brasiliana Fotográfica, tomamos conhecimento das visualizações das inúmeras localidades do Brasil.  Em nosso acervo, na Casa de Oswaldo Cruz, possuímos fotografias de centenas de cidades retratando a imensidão do território. Desde o final do século XIX até os dias atuais (2025).

Nosso esforço é tornar maior a identificação entre os arquivos e a população. Uma das principais tarefas é atingir o público leigo que não utiliza os documentos para fins acadêmicos ou culturais. A divulgação não somente amplia o conhecimento sobre os arquivos, incentivando a investigação sobre temas fundamentais, para a emergência de discussões no espaço acadêmico, mas funciona como recurso para o cidadão. Em suma, assegura a informação arquivística para a população leiga.

 

 

 

 

[1] Para acessar a Base Arch: https://basearch.coc.fiocruz.br

*Ricardo Augusto dos Santos é Pesquisador Titular da Fundação Oswaldo Cruz.

O objeto de trabalho: Augusto Malta e sua câmera fotográfica

O objeto de trabalho: Augusto Malta e sua câmera fotográfica

Beatriz Kushnir e Carolina Ferro*

 

A facilidade com a qual produzimos uma fotografia nos dias atuais faz com que nos esqueçamos das dificuldades enfrentadas no passado para registrar um determinado momento, monumento ou evento. Da vinda do daguerreótipo para o Brasil, na década de 1840, até as primeiras décadas do século XX, os objetos destinados às fotografias eram muito maiores e mais complexos. As imagens eram, em sua grande maioria, em preto e branco, tendo em vista que a versão colorida era uma novidade que seria popularizada aos poucos, pós 1907. Também aos poucos os fotógrafos se profissionalizavam e se preocupavam com seus instrumentos de trabalho, acompanhando os avanços técnicos que se aceleravam. Nesse período, mais especificamente no início do século XX, Augusto Malta, fotógrafo oficial do município do Rio de Janeiro, foi um dos nomes mais célebres da fotografia no Brasil.

Malta percorreu a cidade do Rio de Janeiro com diversas câmeras, uma boa parte operada com chapas de vidro à base de gelatina. Segundo Amanda Danelli Costa (2019), essas chapas eram bastante sensíveis à luz, o que permitiam “diafragmas bem fechados e velocidades de obturador entre um segundo e um quarto de segundo”, o que é um avanço se compararmos com os vários minutos que a fotografia demorava a ficar pronta nos seus primórdios. Segundo a autora (COSTA, 2019), os objetos de trabalho de Malta carregavam grandes formatos de negativos (24X30 cm, 18X24 cm e 13X18 cm) e essas informações nos ajudam a afirmar que as técnicas e as câmeras utilizadas por ele são essenciais para a compreensão da qualidade das fotografias que esse profissional nos proporcionou durante mais de 30 anos de trabalho. Ele se deslocava pela cidade sempre com uma câmera pesada, um tripé de madeira, um flash de magnésio e uma maleta com as chapas (BUENO, 2014). Uma dessas câmeras se encontra, hoje, no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

 

Máquina fotográfica de Augusto Malta

Máquina fotográfica de Augusto Malta

 

Não cabe aqui retomar toda a vida de Augusto Malta, tão amplamente divulgada por inúmeros estudiosos. Mas cabe salientar que detalhes importantes de sua vida profissional estão em documentos encontrados no AGCRJ. Do decreto de nomeação à aposentadoria, o viés público de Malta nos faz refletir sobre a prática de produção de uma memória política e histórica pelo poder público e sobre a importância da fotografia como documento.

O alagoano Augusto Malta tornou-se fotógrafo através do decreto n° 445, de 27 de junho de 1903, publicado pelo prefeito Pereira Passos, um dos grandes responsáveis pela remodelação da cidade do Rio de Janeiro. Dentre suas atribuições, estavam “tirar provas photographicas, no número que for necessário, dos edifícios, monumentos, obras da municipalidade e pontos do Districto Federal que lhe forem determinados e bem assim, quando o diretor geral o julgar conveniente, auxiliar o expediente da Directoria”, que era a de Obras e Viação. Para cumprir com uma missão tão grandiosa, Malta precisou de auxiliares, sendo os seus filhos, Aristógiton e Uriel, os mais conhecidos.

Acessando o link para as fotografias de autoria de Augusto Malta e de seus filhos Aristógiton e Uriel disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Em 1909, o cargo de fotógrafo oficial da prefeitura foi extinto, mas em 1913 ele foi recriado e Malta foi o escolhido para ocupar esse lugar devido ao seu profissionalismo e à qualidade de suas fotografias. Ele começou seu trabalho de forma amadora, mas era um grande estudioso e autodidata, o que fez com que aprimorasse sua técnica e a qualidade de suas obras. Ficou na prefeitura até 25 de agosto de 1936, quando se aposentou, tendo passado por 19 prefeitos, comprovando que as disputas políticas pelas quais o Brasil enfrentou, inclusive no período dos movimentos da década de 1930, deixaram intocáveis seu serviço público muito bem prestado. Quem o substituiu foi seu filho Aristógiton, sendo nomeado alguns dias depois, em 9 de setembro do mesmo ano.

No percurso da carreira de Malta, há um momento que, para os historiadores e pesquisadores do Rio de Janeiro em geral, é precioso. Em 1931, o cargo de fotógrafo oficial da prefeitura passa da Diretoria Geral de Viação e Obras para a Diretoria Geral de Engenharia e, no ano seguinte, através do decreto n° 3.759, de 30 de janeiro, novas atribuições somam-se às já relatadas. Agora, é necessário “§2 – Organizar o Archivo photographico e histórico dos serviços executados” e “§3º – Fornecer ao Archivo geral as fotografias históricas relativas ao desenvolvimento da cidade ou de cerimonias realisadas e que tiverem sido photographadas”. Isto significa que Malta passa a ser obrigado por lei a entregar o material produzido na execução de seu trabalho ao Arquivo do Distrito Federal, atual AGCRJ. Graças a essa decisão é que temos mais de 30 mil negativos de Malta em nosso acervo, uma vasta coleção que carrega a história das fotografias e suas técnicas, bem como a história de nossa cidade.último decreto nos faz supor que, ao se aposentar, Malta também teria entregado uma de suas câmeras (talvez a mais utilizada para os serviços da prefeitura), tendo em vista que era um patrimônio da municipalidade, mas, infelizmente é só uma suposição. Malta continuou trabalhando como fotógrafo até sua morte, por enfarto, aos 93 anos.

 

 

A Câmera que se encontra no AGCRJ, provavelmente, é uma Speed Graphic, da empresa Graflex. Lançada pela primeira vez em 1912, ela tinha como propósito ser um instrumento de fotografia de paisagens, voltadas para profissionais que necessitavam de uma câmera mais leve, eficaz e preparada especificamente para esta função. Possivelmente, esse objeto foi adquirido bem depois de seu lançamento, tendo em vista que, à época, as novidades tecnológicas não chegavam com a mesma rapidez que nos dias atuais e, muitas vezes, era necessário importa-las. Sua qualidade é tão notável que, ainda hoje, existem fotógrafos que usam essa câmera para ter a mesma experiência do passado.

 

Máquina fotográfica de Augusto Malta

Máquina fotográfica de Augusto Malta

 

Ao pesquisar sobre a câmera utilizada por Augusto Malta, inúmeras questões são levantadas. Como e quando ela chegou ao AGCRJ? Em que momentos Malta utilizou esse instrumento? Será que ela foi uma das câmeras mais utilizadas pelo fotógrafo? Por que decidiram doar esta e não as outras câmeras? Qual era a circulação e como era a utilização desse tipo de câmera no Rio de Janeiro e no Brasil? Onde esse objeto teria sido comprado?

Infelizmente não temos muitas informações sobre a câmera de Augusto Malta, tendo em vista que os funcionários do Arquivo do Distrito Federal da época não registraram sua entrada, nem suas especificidades. Por isso, convidamos especialistas em câmeras fotográficas e em história da fotografia a visitarem o AGCRJ e nos ajudarem a resgatar um pouco mais da memória desse que foi um personagem icônico de nossa cidade e que nos forneceu inúmeros caminhos de pesquisa.

 

Máquina fotográfica de Augusto Malta

Máquina fotográfica de Augusto Malta

 

 

*Esse artigo teve uma preciosa ajuda na pesquisa e revisão de Rafael Martins de Araújo, estagiário da Gerência de Pesquisa do AGCRJ.

Beatriz Kushnir é diretora do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ). Tem estágio pós-doutoral pela Universidade Estadual de Campinas (UNICAMP) e é doutora em História pela mesma instituição.

Carolina Ferro é gerente de pesquisa do AGCRJ, professora do Centro Universitário Carioca (UniCarioca) e doutora em História pela Universidade Federal Fluminense (UFF).

 

Fontes:

Fontes secundárias:

Livros e artigos:

BUENO, Débora Gauziski de Figueiredo. Documentando a experiência urbana carioca: o Rio de Janeiro pelas fotografias de Augusto Malta e do Rio 365. 2014. Dissertação (Mestrado em Comunicação) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2014.

COSTA, Amanda Danelli. Augusto Malta e a fotografia da alma dos quiosques cariocas. Acervo, Rio de Janeiro, v. 32, n. 2, p. 117-132, maio/agosto 2019.
______. Impressões imagéticas: história, memória e a fotografia carioca de Augusto Malta. 2007. Dissertação (Mestrado em História Social da Cultura) – Pontifícia Universidade Católica do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2008.

TURAZZI, Maria Inez. Câmara fotográfica de Marc Ferrez. In: KNAUSS, Paulo; LENZI, Isabel; MALTA, Marize (Orgs.). História do Rio de Janeiro em 45 objetos. Rio de Janeiro: FGV Editora / Jauá editora / FAPERJ, 2019.

KOSSOY, Boris. O daguerreotipo nos trópicos. Jornal da USP. Publicado em: 29 mar. 2019. Disponível em: https://jornal.usp.br/?p=233593. Acesso em: 30 jul. 2019.

LOUREIRO, Elizabeth Cristina Marques de (Coord.). Augusto Malta: catálogo da série negativo em vidro / Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, Divisão de Editoração, 1994.

MOREIRA, Regina da Luz. Augusto Malta, dono da memória fotográfica do Rio. Portal Augusto Malta. Publicado em: 18 ago. 2008. Disponível em: http://portalaugustomalta.rio.rj.gov.br/blog-post/augusto-malta-dono-da-memoria-fotografica-do-rio. Acesso em: 30 jul. 2019.

Sites:

Informações sobre as máquinas Graflex. Disponível em: https://graflex.org/speed-graphic/which-model.html. Acesso em: 15 ago. 2019.

Informações sobre as máquinas Graflex. Disponível em: https://graflex.org/speed-graphic/graphic-models.html. Acesso em: 15 ago. 2019.

Informações sobre as máquinas Graflex. Disponível em: https://graflex.org/graflex-products-list.html. Acesso em: 15 ago. 2019.

Informações sobre as máquinas Graflex. Disponível em: https://graflex.org/speed-graphic/. Acesso em: 16 ago. 2019.

CLEAVE, Joe Van. A 75 year Old Camera Review. Youtube. Publicado em: 28 mar. 2017. Disponível em: https://www.youtube.com/watch?v=IQEXobv3OC4. Acesso em: 15 ago. 2019.

LENG, Bopp. Graflex Pacemaker Speed Graphic. Youtube. Publicado em: 19 jan. 2019. Disponível em: https://www.youtube.com/results?search_query=Graflex+speed+graphic++1920. Acesso em: 15 ago. 2019.

Fontes primárias:

PREFEITURA DO DISTRICTO FEDERAL. Decreto nº 445, de 27/06/1903.

PREFEITURA DO DISTRICTO FEDERAL. Decreto nº 1365, de 22/07/1919.

PREFEITURA DO DISTRICTO FEDERAL. Decreto nº 3484, de 13/04/1931.

PREFEITURA DO DISTRICTO FEDERAL. Decreto nº 3759, de janeiro de 1932.

PREFEITURA DO DISTRICTO FEDERAL. Boletim da PDF. Jul./set. 1936, p. 316.

 

 

Acesse aqui a Cronologia de Augusto Malta por Andrea Wanderley

Para a elaboração da presente cronologia de Augusto Malta, além da pesquisa em dezenas de periódicos e revistas, valemo-nos, especialmente, do livro Augusto Malta e o Rio de Janeiro: 1903-1936, de George Ermakoff, e do artigo de Regina da Luz Moreira, “Augusto Malta, dono da memória fotográfica do Rio”, publicado no Portal Augusto Malta.

O lançamento do Portal Augusto Malta, em 2008, foi uma importante iniciativa do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ). No portal, estão reunidos o acervo do fotógrafo na referida instituição e no Museu Histórico da Cidade, além de fotografias de seus filhos, Aristógiton e Uriel Malta. Um dos curadores da Brasiliana Fotográfica, Joaquim Marçal, foi consultor do projeto.

O Museu da Imagem e do Som do Rio de Janeiro, o Arquivo Fotográfico da Light, o Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, o Instituto Moreira Salles, a Biblioteca Nacional e o Museu Histórico Nacional são outros importantes acervos da obra do fotógrafo.

Link para publicações sobre a obra de Augusto Malta no site do Instituto Moreira Salles

Link para a matéria Banho de mar – 1915, escrita por Raymundo Athayde e ilustrada com fotografias de Augusto Malta, publicada na revista O Cruzeiro, 22 de abril de 1950).

Link para a matéria Do Convento da Ajuda às luzes da Cinelândia, escrita por Raymundo Athayde com fotos de Augusto Malta e Luciano Carneiro, publicada na revista O Cruzeiro, 9 de setembro de 1950. 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Anais do Museu Histórico Nacional: volume XXXII – 2000, pág 131.

BULHÕES, Antonio & REBELO, Marques. O Rio de Janeiro do bota-abaixo. Rio de Janeiro: Salamandra, 1997

CAMPOS, Fernando Ferreira. Um fotógrafo, uma cidade: Augusto Malta, Rio de Janeiro: Maison Graphique, 1987.

Catálogo da Exposição comemorativa da doação do Acervo Brascan ao IMS – Guilherme Gaenly e Augusto Malta: dois mestres da fotografia brasileira no Acervo Brascan. Rio de Janeiro: Instituto Moreira Salles, 2002

ERMAKOFF, George. Augusto Malta e o Rio de Janeiro: 1903-1936 / George Ermakoff; tradução para o inglês Carlos Luís Brown Scavarda. Rio de Janeiro: G. Ermakoff Casa Editorial, 2009. 288p. : il.; 28cm

KOSSOY, Boris. A fotografia como fonte histórica: introdução à pesquisa e interpretação das imagens do passado. São Paulo: Secretaria da Ind., Com., Ciência e Tecnologia, 1980. (Coleção Museu &Técnicas; 4).

LAGO, Bia Corrêa do;LAGO, Pedro Corrêa do. Coleção Princesa Isabel: fotografia do século XIX. Rio de Janeiro: Capivara, 2008.432p.:il., retrs.

LOUREIRO, Elizabeth Cristina Marques de (coord.). Augusto Malta, Aristógiton Malta: catálogo da série negativo em vidro. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, 1994. (Biblioteca carioca, 29. Instrumentos de pesquisa)

Nosso Século. São Paulo; Abril Cultural, 1980. vol 1 (1900-1910)

Portal Augusto Malta do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

Site da Enciclopédia Itau Cultural

Site do Centro Cultural da Light

Site do Instituto Moreira Salles

Site do Museu da Imagem e do Som

A cidade como Arquivo, o Arquivo da Cidade

Seguindo a diretriz das Ordenações Manuelinas (1512-1603), manifestação da vontade do rei de Portugal, dom Manuel I (1469-1521) de homogeneizar e controlar a administração do crescente Império Português, firmou-se no Rio de Janeiro  uma “arca grande e boa” para a guarda dos documentos públicos, que deram origem ao acervo em depósito no Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ), uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica. É essa história, escrita pela diretora da AGCRJ, Beatriz Kushnir, que o portal publica hoje em homenagem aos 454 anos da fundação do Rio de Janeiro, instituída por Estácio de Sá (1520 – 1567) em um terreno plano entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar.

 

A cidade como Arquivo, o Arquivo da Cidade

Beatriz Kushnir*

 

Somos uma cidade que nasceu lusa. A República se esforçou para apagar os traços de nossa tradição ibérica e teve algum êxito. Mas a forma como nos relacionamos com a burocracia, esta é portuguesa. Aprendemos com eles a circularidade das informações, com cópias, autenticações, três vias, etc.

No processo de expansão ultramarino, a implementação da imprensa permitiu que das manuscritas Ordenações Afonsinas, a lei tipograficamente formatada alcançasse os quatro cantos do Reino na compilação conhecida como Ordenações Manuelinas (1512-1603). Incluso no modus vivendi desta revisão legislativa, há a vontade do rei D. Manuel I (1469-1521), que assumiu a Coroa aos 26 anos, de homogeneizar e controlar a administração do crescente Império Português.

Acessando o link para as fotografias relacionadas a essa publicação e disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

Certamente, a letra impressa permitiu a divulgação e assegurou o conhecimento da legislação. E pela compilação das normas no regulamento, a tentativa de unificação do território. D. Manuel I, o nosso 1º governante, instituiu esse corpo legislativo, que aqui conheceu efetiva vigência no primeiro século das Terras de Santa Cruz. Embora as Ordenações Manuelinas tenham sido revogadas pelas Filipinas, em 1603, acabaram perdurando no tempo. Grande parte de seu conteúdo estava incluso na legislação subsequente e inúmeras de suas disposições continuaram em vigor. Tais normas atravessaram a Independência do Brasil, o 2º Império e a República. Mais de três séculos depois é que o Código Civil de 1917 foi promulgado.

Refletir sobre as Ordenações é mapear o processo de estabelecimento do direito português, monárquico e centralizador, onde a Corte era tida como a “última instância de recurso” no Reino e o Rei, a “última instância de justiça”. O primeiro livro das Ordenações Manuelinas, editado em dezembro de 1512, abarcava os regimentos, os cargos e as atribuições da administração judiciária. É nele que se arrolam as categorias de chanceleres-mor, desembargadores, corregedores, ouvidores, meirinhos, porteiros, carcereiros, entre outros. Há igualmente, as cláusulas quanto a administração e as pontuações quanto aos deveres dos vereadores, almotacés, alcaides, tabeliães. De tal modo, se define e alicerça a máquina administrativa e burocrática do Estado.
No Título 46, “Dos Vereadores das Cidades, Villas, e cousas que a seus Officios pertencem”, se lê no item II que os vereadores farão guardar em uma arca grande e boa, todos os Forais, Tombos, Privilégios e quaisquer outra Escritura que pertençam ao Conselho. Esta área terá duas fechaduras, das quais uma chave terá o Escrivão da Câmara e outra, um dos vereadores. Assim, D. Manuel designou que em todo e qualquer espaço de povoamento do Império Ultramarino fosse instituído um lugar de guarda dos documentos públicos, um arquivo. Não esqueceu igualmente, de regrar pela segurança das informações ali contidas e sabia que sem estas, direitos e deveres não seriam resguardados em uma sociedade escravocrata e pouco letrada.

Quando Estácio de Sá, sobrinho do Governador Geral do Brasil (1557-72), Mem de Sá, desembarcou em Salvador, Bahia, em 1563, tinha como missão fundar uma cidade nas terras da Guanabara e expulsar os franceses que aqui estavam. A família Sá era de fidalgos do Rei. Mem de Sá licenciou-se em Direito e serviu à Coroa por 39 anos. Foi o 1º jurista nomeado para um governo no além-mar e o garantidor dos interesses do Estado português no Brasil. Tendo em mãos as Ordenações Manuelinas, o apoio da Companhia de Jesus e o poder da guerra, investiu na unidade politico-administrativa, no povoamento e na produção de riqueza.

 

 

Em 1º de março de 1565, a Muy leal e heroica cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro foi instituída por Estácio de Sá em um terreno plano entre os morros Cara de Cão e Pão de Açúcar. Neste acampamento militar estavam as bases para a luta que expulsaria os franceses dois anos depois, em 20 de janeiro de 1567. Num desenho tipicamente fantástico, Estácio de Sá foi flechado e morreu, tal e qual o santo que nomeia a cidade e que tem naquela data o seu dia.

 

 

O Governador Geral, ao desfazer o cenário da guerra, deslocou os assentamentos que demarcavam a fundação da cidade para o morro do Castelo, no interior da baía da Guanabara. E ali ergueu uma sólida fortaleza. O Rio de Janeiro, por seu lugar estratégico no âmbito geográfico e político, desde o inicio foi instituído como uma urbe.

 

 

Seguindo a diretriz Manuelinas, aqui também se firmou uma “arca grande e boa” para a guarda dos documentos públicos. Origem do acervo em deposito atualmente no Arquivo Geral da Cidade do RJ (AGCRJ), há no conjunto documental da Câmara Municipal e posteriormente, do Senado da Câmara, o Códice “Legislativo Municipal – Correição dos Ouvidores”.

Inscrito na nota de abertura do livro, toma-se ciência que este tomo é uma “cópia do Livro das Provisões e Correição do ano de 1624 até 1747”. Tal duplicidade foi autorizada pela Vereança em janeiro de 1807. Isto porque, o original achava-se bastante danificado. O manuscrito tem às folhas 23, a inscrição:

“Mil seiscentos e trinta e oito = Correição feita pelo Ouvidor Geral Diogo de Sá da Rocha = Ano do Nascimento de Nosso Senhor Jesus Cristo de mil oitocentos e trinta e oito anos, aos três dias do mês de Março nesta Cidade de São Sebastião do Rio de Janeiro, veio a esta Câmara o Ouvidor Geral Diogo de Sá da Rocha em Correição segundo o costume de que fiz este termo, Diogo Lopes Ramos, Escrivão da Correição, e Ouvidoria Geral desta República, digo, desta Repartição do Sul, que o escrevi”.

No verso da folha, compreende-se que o Ouvidor Geral Diogo de Sá da Rocha vem se certificar da inclusão dos Livros de Registros e das Cartas no Arquivo da Câmara. Da mesma forma, cuidou para que quando se entregassem as chaves do Arquivo e cofres da Câmara, as mesmas se fizesse com a segurança de um registro a quem se entrega. Isto porque,
“para se saber as pessoas que as tem as ditas Chaves; não fiarão os Oficiais um dos outros isto, com pena de cinquenta cruzados aplicados para as obras do Concelho, em que os há por condenados todas as vezes que o contrário fizerem, e o Escrivão será obrigado a notificar aos Oficiais presentes, e ao que ao diante forem este Capítulo”.

Abaixo a reprodução das folhas 23 e 24  do Códice “Legislativo Municipal – Correição dos Ouvidores”, “cópia do Livro das Provisões e Correição do ano de 1624 até 1747” **

documento 1

documento 2

 

No ano de 1638, mesmo sob a regência das Ordenações Filipinas, o controle apontado por D. Manuel garantiu que estes subsídios e muitos outros, chegassem até nós e sublinhassem a instituição desta cidade, neste 1º de março, registrada nos detalhes da segurança aos dados públicos.

 

 

*Beatriz Kushnir é  a Diretora-Geral do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

**Acervo AGCRJ, fundo Câmara Municipal, Série: Legislativo Municipal. Códice: BR RJAGCRJ.CM.LGM.16.4.10, Folha 23V.