Memórias de uma enfermeira “febiana” no front
Cristiane d’Avila e Laurinda Maciel*
Há pouco mais de 80 anos, em 6 e 9 de agosto de 1945, os Estados Unidos lançavam sobre o Japão as bombas que ceifaram a vida de milhares de civis e devastaram parte das cidades de Hiroshima e Nagasaki, encerrando os seis longos anos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Expressão da luta contra o nazismo e o fascismo, a contenda incluiu o envio de tropas brasileiras ao norte da Itália em apoio aos Aliados (Estados Unidos, Reino Unido, União Soviética, França, Polônia), após o Brasil declarar guerra à Alemanha e Itália. Parte dessa história pode ser conferida no Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (DAD/COC), em especial a partir do acervo documental de uma brasileira que vivenciou o conflito bélico no front: a enfermeira da Força Expedicionária Brasileira (FEB), Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero (1917-1923).
Nascida em 23 de outubro de 1917, no Rio de Janeiro, Virgínia era filha e sobrinha de generais. Bacharel em Ciências e Letras pelo Colégio Pedro II, formou-se em Enfermagem Samaritana pela Cruz Vermelha. Com o início da guerra, voluntariou-se para as Forças Armadas do Brasil, o que a levou a compor o Quadro de Emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército (CEERE).
Em 7 de julho de 1944 embarcou para Nápoles, Itália, como uma das 67 integrantes do Primeiro Escalão da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Outras seis enfermeiras, egressas da Escola Anna Nery (EAN), compuseram o quadro da Força Aérea Brasileira (FAB). O grupo atuou nos seguintes hospitais de campanha do exército norte-americano instalados na Itália: 182th Station General Hospital, em Nápoles, 105th Station Hospital, em Cevitavecchia, 64th General Hospital, em Ardenza, 38th Evacuation Hospital, em Cecina, Florença e Pisa; 16th Evacuation Hospital, em Pistola, e 15th Evacuation Hospital, em Corvela.
Em 7 de julho de 1945, regressou ao Brasil e, em 1957, foi incorporada ao serviço ativo do Exército como 2º tenente e enfermeira na Policlínica Central do Exército. Passou para a reserva, em 25 de setembro de 1962, como 1º tenente, sendo promovida a capitão em 1963.
O arquivo pessoal
O arquivo pessoal de Virgínia, doado ao DAD/COC, em 2010, contém centenas de fotografias, cartas, recortes de jornais, panfletos, ilustrações, desenhos e gravações de canções, entre outros documentos, com destaque para o diário sobre sua experiência como enfermeira da FEB. Nele, ela conta em detalhes o cotidiano de trabalho no hospital de campanha, o atendimento aos feridos e os momentos de descontração, entre outras percepções sobre sua experiência nos campos de batalha.
Em 2021, o arquivo completo foi digitalizado com recursos do Programa Iberarchivos, ação de fomento, acesso, organização, descrição, conservação e difusão do patrimônio documental das nações ibero-americanas voltada à promoção da igualdade de gênero e ao empoderamento de mulheres e meninas, em alinhamento ao 5º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU)[1].
Memórias de uma “‘febiana” no front
Em 14 de março de 2008, Virgínia concedeu entrevista às historiadoras da COC Anna Beatriz de Sá Almeida, Laurinda Rosa Maciel e Margarida Maria Rocha Bernardes relatando sua experiência no front durante quase um ano de trabalho na Itália. Na sequência, destacamos trechos das falas:
“Eu ouvia falar essa coisa toda, não sabe? Eu disse: “Não, eu vou fazer um curso para também ir para essa guerra para cuidar dos militares… com interesse de ir para guerra. E eu fiz o primeiro ano [do curso da Cruz Vermelha], e nisso saiu no jornal O Globo o [chamado para o] voluntariado. Eu aí fui em casa, apanhei os documentos; não disse a ninguém, me apresentei. Chegou de noite o jornal começou a publicar e dar os nomes, aí começaram a telefonar […] para a mamãe e pra mim. Porque a mamãe era uma mãe extraordinária, uma gracinha de mãe; o meu pai um amor, uma coisa formidável. [Eles não sabiam de nada] eu me apresentei e fiquei quietinha porque senão podiam dizer não, e aí que eu não ia fazer porque eu era obediente.
E aí eu já era maior, podia me apresentar. […] Foi o seguinte: meu tio, irmão de papai mais novo, era chefe de gabinete de Prudente de Morais, general Prudente de Morais, era o general José Portocarrero. […] e eles foram lá pedir para me reprovar no exame de saúde porque eu saí muito bem classificada no curso. Eu fiz tudo que tinha que fazer: ginástica, essas coisas todas… […] Tinha três em primeiro lugar, uma em segundo, e depois o meu foi o terceiro. Passei em tudo muito bem. Estudava que nem uma danada, não é? Eu não podia deixar de sair, porque eu queria ser aquilo. Já toda fardadinha…
Embarquei para Natal. Na Base Aérea de Parnamirim e ficamos lá, não sabíamos para onde íamos. Eu e mais cinco e o major Ernestino [Homem de Oliveira], um portento de inteligência, um cirurgião maravilhoso”.
O trabalho nos hospitais de campanha
“De lá [Argel] nós fomos para a Itália. Aí que nós que soubemos que [iríamos] para a Itália. […] Aí quando nós estávamos sentadas, muito bem clareou a cidade toda, que era madrugada, não é? Aí foi o batismo de fogo, porque começaram a bombardear Nápoles, em frente à nossa janela. Nós assistimos. Então o nosso batismo de fogo foi esse. Nós nem pernas tínhamos para sair, ficamos ali sentados, o major, nós duas… Olhando aquele bombardeio caindo na Baía de Nápoles. Estavam invadindo, tantos que morreram. Então, a Baía de Nápoles foi o nosso batismo. […] nós fomos cumprimentar as americanas. Comigo as americanas foram educadíssimas, […] me chamavam na hora da folga para a barraca delas jogar carta, para aprender a falar português, para me ensinar inglês, elas comigo foram fabulosas.
O banho era em conjunto com as americanas. Aquelas barracas grandes, abertas… Cada uma entrava num boxe, tomava banho. E tinha um saco que você jogava roupa suja, e a italiana tinha uma máquina de lavar, que lavava a roupa, mas ela só tinha ordem de lavar as das americanas. Nós levávamos aquilo, de noite na pia…
Era uma rua de barracas; barracas para lá e barracas de lá e aqui a ruazinha. Eram americanas e brasileiras enfermeiras nesse pedaço. Na outra zona do nosso limite os médicos, e noutra os sargentos e os soldados. Era o nosso limite.
Nessa enfermaria tinha sempre uma americana com uma brasileira para ensinar a rotina do hospital, que era tudo em inglês: os pedidos de medicamento, os médicos receitavam… Tinham médicos que não sabiam nada de inglês. Até à gente eles vinham, eu dizia: “Vê lá, eu de inglês eu… É melhor o senhor saber com americano porque o meu inglês é fraco”.
Às 7 horas da manhã a gente tinha que entrar. A colega da noite já tinha dado banho. E o banho das americanas elas nunca davam o banho geral. Elas botavam um biombo, porque era leito vago. Quando baixava coronel, general, queimado, paisano… Então eles botavam um biombo que ficava meio falta de respeito, não é? […] nós dávamos injeção na veia, passava no soro, e as americanas não passavam… os próprios americanos gostavam mais de tomar injeção com as brasileiras. Pegávamos o músculo e pow!
Das 7h da manhã às 7h da noite; depois tínhamos um dia de folga total, e trabalhávamos das 7h da noite, às 7h da manhã, 15 dias; os que eram prisioneiros de guerra e estavam feridos iam para a mesma enfermaria. Eles davam pijama, escova de dente, sabonete, alimentação igual, não queriam conversa. Americano então tinha horror de conversar. E eles ficavam danados porque eles [prisioneiros] conversavam à beça comigo porque falavam francês, falavam italiano, espanhol, porque eram cultos; o alemão era cultíssimo. Agora o americano só falava inglês.
Os americanos eram verdadeiras crianças; a gente botava o remédio para eles, tinha que botar na boca, mandar abrir a boca, e ficar segurando ver se eles não jogavam fora. Os alemães eram rigorosos e muito disciplinados.
A sala de choque era uma espécie de urgência, quando eles chegavam iam para ser atendidos logo ali; era uma espécie de boxes para tratamento geral, limpeza e tal. E se dividia pelo quadro: a enfermaria com a gravidade, com a maior gravidade, inclusive para a sala de operações. Era logo classificado. [tinha sala de operações, clínica e choque] e tinha de material cirúrgico, dando suporte […] Era hospital de campo, tudo em barracas, mas tudo [organizado]… Se o bombardeio durasse, [o hospital de campanha com as barracas] ficava enquanto durasse o bombardeio”.
A produção de memória e o término da guerra
“O nome dos vários pontos que nós passamos eu me lembrava porque o meu pai como era professor, ele me instruiu. Ele disse: “Você não mande nada, nada da tua vida militar em carta porque em tempo de guerra isso não vai chegar aqui. Você faz o seguinte: cada doente que você tiver alta, que ele tiver transferência para o Brasil, você dá o meu telefone, dá a ele, pede licença ao comando que vai mandar para o seu pai”. E o papai escreveu uma carta ao Major Ernestino pedindo que deixasse… que liberasse, que queria fazer o meu diário. O major Ernestino permitiu fazer. […] Eles telefonavam, papai ia ao HCE e apanhava.
Ganhei uma máquina fotográfica porque fizeram uma vaquinha. Eu tenho fotografia de tudo. Tudo que eu queria eu tirava. [antes de ter a máquina] eu gostava de fotografia, mas não consegui levar máquina porque não deixaram.
[Ganhava] muitos presentes [dos pacientes], cartas, poesias, tudo, tudo, tudo. E aqui no Brasil eu recebo telefonemas de esposas que ainda estão vivas.
Que já tinha acabado a guerra, e eu vi o Mussolini pendurado de cabeça para baixo, a mulher do Mussolini [Clara Petacci] e três ministros. Vi em Milão, estava perto do Lago de Como, pendurado de cabeça para baixo, e os italianos foram que meteram canivetes, facas. Quem o matou foram os próprios italianos”.
O arquivo pessoal de Virgínia Portocarrero, os áudios das entrevistas realizadas, bem como a transcrição das mesmas estão disponíveis para consulta, que pode ser solicitada em https://www.gov.br/pt-br/servicos/consultar-arquivos-historicos-da-fiocruz .
[1] Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5: “Igualdade de gênero – Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. Disponível em Sustainable Development Goal 5: Igualdade de gênero | As Nações Unidas no Brasil.
Fontes:
BERNARDES, M.M.R.; KAMINITZ, S.HC; MACIEL, L.R. et ali. ‘Uma enfermeira da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial: Fundo Virgínia Portocarrero da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz’. Hist. cienc. saude-Manguinhos 29 (2) • Apr-Jun 2022, p.531-550.
CASA DE OSWALDO CRUZ. Departamento de Arquivo e Documentação. Fundo Virgínia Portocarrero. Disponível em: https://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/virginia-portocarrero. Acesso em: 09 nov 2025.
D’AVILA, Cristiane. Força feminina contra o nazismo: a enfermeira brasileira Virgínia Portocarrero na Segunda Guerra Mundial (Artigo). In: Café História. Publicado em 1 mar de 2021. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/enfermeiras-na-segunda-guerra-virginia-portocarrero/. ISSN: 2674-59.
PORTOCARRERO, Virgínia Maria Niemeyer. FIOCRUZ. Rio de Janeiro. 14 de maio. 2008. Entrevista concedida à Anna Beatriz de Sá Almeida, Laurinda Rosa Maciel e Margarida Maria Rocha Bernardes. Acervo da Casa de Oswaldo Cruz. Disponível em: https://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/virginia-maria-de-niemeyer-portocarrero-3. Acesso em: 09 nov 2025.







