Série “Feministas, graças a Deus!” XIX – A aviadora Anésia Pinheiro Machado (1904-1999)

Com fotos de uma das pioneiras da aviação brasileira, a feminista Anésia Pinheiro Machado (1904-1999), a Brasiliana Fotográfica publica o 19º artigo da série Feministas, graças a Deus e comemora o Dia do Aviador, estabelecido pela Lei n° 218, de 4 de julho de 1936, e celebrado hoje em homenagem à data em que, em 1906, Alberto Santos Dumont (1873 – 1932), conhecido como o “Pai da Aviação”, realizou o primeiro voo do 14-Bis no Campo de Bagatelle, na França. Anésia recebeu seu brevê, a permissão para pilotar aeronaves, em 9 de abril de 1922, com apenas 18 anos. As duas imagens da aviadora destacadas do acervo do portal pertencem ao Museu Aeroespacial, uma de nossas instituições parceiras. Uma delas é do dia 8 de setembro de 1922 e, a outra, de 4 de junho de 1940.

 

 

“O meu desejo de voar talvez seja fruto do meu anseio, sempre cada vez mais intenso, de me elevar, de sair da banalidade do viver comum. E o incontido ímpeto de minha alma, que me impulsiona e me leva a procurar as emoções mais fortes do voo. A vida corriqueira não me satisfaz; ando sempre em busca de alguma coisa nova. E essa faceta de minha personalidade que dirão inconstante, que fez com que eu me dedicasse à aviação”.

Anésia Pinheiro Machado nasceu em 5 de junho de 1904, em Itapetininga, em São Paulo. Cursou a faculdade de Farmácia e trabalhou no Diário de Itapetininga. Foi durante a Festa do Divino, na Catedral de Nossa Senhora dos Prazeres, em 1920, em sua cidade natal, que Anésia viu um avião pela primeira vez e se apaixonou pela aviação. Mudou-se para São Paulo, aos 17 anos, e iniciou o curso de pilotagem, tendo como instrutor o piloto alemão Fritz Roesler. Ela e Thereza de Marzo (1903-1986) realizaram seus voos solos no mesmo dia, 17 de março de 1922.

Mas Teresa recebeu o brevê número 76, em 8 de abril, e Anésia, no dia seguinte, recebeu o brevê 77 da Federação Aeronáutica Internacional. Foram examinadas por Luiz Ferreira Guimarães e Delamare Garcia, da comissão do Aero Club Brasileiro  (O Paiz, 11 de abril de 1922, quinta coluna).

 

 

 

Em 23 de abril de 1922, tornou-se a primeira mulher a realizar um voo com passageiro. Foi também a primeira brasileira a realizar um voo acrobático. E, em 18 de maio de 1922, pilotando um Caudron G3, conquistou o recorde feminino de voo em altitude até então,  alcançando 94.124 metros.

 

Em 10 de junho, voou de São Paulo a Santos na companhia de seu mecânico e de Paulo Duarte, redator de O Estado de São Paulo (O Paiz, 11 de junho de 1922, quarta coluna).

Em 8 de julho, participou, no prado da Mooca, em São Paulo, da homenagem promovida pelo Aero Club aos aviadores portugueses Gago Coutinho (1869-1959) e Sacadura Cabral (1881-1924), que haviam feito a primeira travessia aérea do Atlântico Sul entre 30 de março e 17 de junho de 1922. Anésia ficou em terceiro lugar, depois de Edu Chaves (1887-1975) e Steckmann (?-?), na prova de velocidade realizada durante o evento (O Paiz, 9 de julho de 1922, quarta coluna).

Na ocasião da comemoração do Centenário da Independência, no avião monomotor Caudron G3, Anésia iniciou o voo no qual cruzou 442 quilômetros que separam São Paulo e o Rio de Janeiro. Partiu do Campo de Higianópolis, em 5 de setembro, tendo pousado em Taubaté, Guaratinguetá, Cruzeiro e Pinheiro. Seu destino final foi o Campo dos Afonsos, onde chegou no dia 8 de setembro (O Paiz, 1° de janeiro de 1922, sexta colunaO Paiz, 26 de abril de 1922, penúltima coluna; O Paiz, 29 de agosto de 1922, quarta coluna; O Paiz, 5 de setembro de 1922, quinta coluna; O Paiz, 6 de setembro de 1922, segunda coluna; O Paiz, 7 de setembro de 1922, segunda coluna; O Paiz, 8 e 9 de setembro de 1922, quinta coluna).

 

 

 

Foi a primeira mulher a realizar a façanha, que teve muita visibilidade, e usou o fato para divulgar o movimento feminista. Recebeu um bilhete de Santos Dumont parabenizando-a por seu voo. Junto com o bilhete, ele enviou uma réplica da medalha de São Bento que havia recebido da Princesa Isabel (1846 -1921) e que Anésia levou consigo por toda a sua vida.

 

No artigo A relíquia, o autor reclamou da ausência de uma homenagem às mulheres durante a comemoração do centenário da independência e propôs que o avião em que Anésia havia realizado o voo entre São Paulo e Rio fosse adquirido e elevado à condição de relíquia (O Paiz, 13 de setembro de 1922´, quarta coluna).

Foi homenageada no Theatro São Pedro, na apresentação da peça Amor à terra, de Octavio Rangel (O Paiz, 19 de setembro de 1922, penúltima coluna).

Em 27 de setembro, visitou a Escola de Aviação Naval, na Ilha das Enxadas. No dia seguinte, o Conselho Municipal aprovou uma premiação em dinheiro para ela (O Paiz, 28 de setembro de 1922, quarta colunaO Paiz, 29 de setembro de 1922, penúltima coluna).

Ainda no mesmo ano, como delegada da Liga Paulista pelo Progresso Feminino participou do I Congresso Feminista Internacional, organizado pela Federação Brasileira pelo Progresso Feminino e realizado, entre 19 e 23 de dezembro, no edifício Silogeu, do Instituto dos Advogados, no centro do Rio de Janeiro, e em Petrópolis.

 

 

Participou da Revolução de 1924, motivada pelo descontentamento dos militares com a crise econômica e a concentração de poder nas mãos de políticos de Minas Gerais e de São Paulo. Os rebeldes, sob a liderança do general Isidoro Dias Lopes (1865 – 1949), pretendiam derrubar o governo de Artur Bernardes (1875 – 1955), instituir o voto secreto, fazer mudanças no ensino público e realizar reformas sociais. A rebelião eclodiu, em 5 de julho de 1924, e durou 23 dias. Os rebeldes foram derrotados pelas tropas legalistas do governo federal. Uma das missões de Anésia foi sobrevoar as tropas legalistas e o encouraçado Minas Gerais, jogando flores e panfletos nos quais estava escrito “E se fosse uma bomba?”. Por isso foi proibida de voar até 1939, quando retomou suas atividades. Neste ínterim voltou ao jornalismo e manteve uma coluna sobre aviação no jornal O Paiz. Também trabalhou como jornalista no Departamento de Imprensa e Propaganda e na Assembleia Legislativa (Correio Paulistano, 12 de setembro de 1924, sexta coluna; Correio Paulistano, 1º de janeiro de 1925, penúltima coluna).

Foi publicada uma entrevista com ela na revista Paratodos, de março de 1926.

Em 1940, recebeu do Departamento de Aviação Civil a licença de piloto privado e comercial, em julho e em agosto, respectivamente. No mesmo ano, participou do Campeonato da Semana da Asa e ficou na quinta colocação na prova Cruzeiro do Sul e, na de acrobacia aérea, a quarta coloção.

Ainda nos primeiros anos da década de 40 foi habilitada como instrutora de voo e piloto de voo por instrumentos.

 

 

Sua perícia na execução de acrobacias aéreas, no campo de Manguinhos, onde havia um curso de pilotagem mantido pelo Aero Club Brasileiro, impressionou Mrs. Ulysses Grant McQueen, presidente da Women´s International Association of Aeronautics dos Estados Unidos, durante sua viagem ao Rio de Janeiro. Na ocasião, Anésia manifestou sua insatisfação em relação à diferença das oportunidades dadas aos aviadores homens, sempre muito mais estimulados do que as aviadoras (A Noite, 15 de maio de 1940).

 

 

No livro Frontier by air (1942), a escritora e jornalista Alice Roger Hager (1894-1969) deixou registrado que “Anésia é a melhor piloto do país, não havia dúvidas sobre sua habilidade. Quando fomos ao Aeroclube ela pegou um pequeno Bucher e superou qualquer piloto acrobático que eu já vi”.

Durante a Segunda Guerra Mundial, em 1943, foi convidada pela Federal Aviation Administration para realizar um curso avançado de aviação nos Estados Unidos.

 

 

Entre 1944 e 1948, trabalhou como  piloto e instrutora de voo na Panair do Brasil, e no Centro de Preparação de Oficiais da Reserva, da Força Aérea Brasileira.

 

undefined

Anésia, em 1948, com Donald Dionne, instrutor chefe da Pan American Airways / Instituto Smithsonion , EUA

 

Em 1951,  voou de Nova York para o Rio de Janeiro tornando-se a primeira mulher a pilotar um voo transcontinental, quando percorreu mais de 17 mil quilômetros entre Nova York e Rio de Janeiro em um avião Kian-Navion Super 260. No mesmo ano, atravessou a Cordilheira dos Andes voando de Santiago do Chile a Mendoza, na Argentina.

Em 1954, durante a Conferência de Istambul, foi reconhecida pela Federação Aeronáutica Internacional (FAI), como Decana Mundial da Aviação Feminina, por ser a detentora do brevê mais antigo do mundo ainda em atividade de voo. Na ocasião recebeu o diploma Paul Tissandier.

No ano em que foi celebrado os 50 anos do primeiro voo de avião de Santos Dumont, 1956, Anésia começou uma campanha de difusão do nome do aviador pelo mundo. Conseguiu que uma réplica do avião 14-Bis e do dirigível de Santos Dumont fossem doados ao Museu de Aviação Smithsonion, em Washington. Também lutou para que o nome de Santos Dumont fosse dado a uma das crateras da Lua, nomeada pela União Astronômica Internacional (IAU) em 20 de julho de 1973, data do centenário de nascimento do aviador. A cratera Santos Dumont está localizada nas imediações do lugar onde pousou a nave espacial Apollo 15, em 1971, que executou a primeira missão de caráter eminentemente científico e a primeira que utilizou o jipe lunar. A decisão foi aprovada durante a a 15ª Assembleia Geral da União Aeronáutica Internacional, realizada na Austrália, em agosto de 1973 (O Estado de Mato Grosso, 12 de agosto de 1973).

Ao longo de sua vida, foi condecorada com 19 medalhas nacionais e sete internacionais, dentre elas a Edward Warner, a mais alta distinção da Organização da Aviação Civil Internacional, que recebeu em 1989 por seu pioneirismo e por sua participação no desenvolvimento da aviação civil na América Latina. Era uma das integrantes do Ninety-Nines: Organização Internacional de Mulheres Pilotos, também conhecida como The 99s ou As 99, uma organização internacional voltada para pilotos do sexo feminino. Foi fundada em 1929 por um grupo de mulheres aviadoras sob a liderança de Amelia Earhart (1897-1937), pioneira da aviação dos Estados Unidos.

Anésia faleceu no Rio de Janeiro, em 10 de junho de 1999, no Hospital do Galeão (Jornal do Brasil, 11 de junho de 1999). Seu corpo foi cremado e suas cinzas estão em uma urna que faz parte do acervo do Museu de Cambangu em Santos Dumont, cidade de Minas Gerais.

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Mulheres na aviação – Embraer

Portal G1

SCHUMAHER, Schuma; BRAZIL, Erico Vital (organizadores). Dicionário mulheres do Brasil: de 1500 até a atualidade biográfico e ilustrado. Rio de Janeiro : Jorge Zahar Ed., 2000.

Site Marcos Palhares

Site Ministério da Defesa Força Aérea Brasileira

Site Museu Aeroespacial

Site Organização da Aviação Civil Internacional

Luzes da impressão – Oficinas tipográficas nas antigas fotografias de São Paulo

A ideia da realização deste artigo foi de Roberta Mociaro Zanatta, Supervisora do Núcleo de Catalogação do Instituto Moreira Salles e uma das gestoras da Brasiliana Fotográfica, quando o doutor em Design, Fabio Mariano Cruz Pereira, achou a fotografia “Rua Direita”, produzida por Frédéric Manuel (1868-1961), no acervo da Brasiliana Fotográfica e pediu autorização para utilizá-la em uma publicação que ele havia escrito em conjunto com as docentes Priscila Lena Farias (FAU USP, Brasil) e Emanuela Bonini Lessing (Università IUAV di Venezia, Itália). Entrei em contato com Fabio e combinamos o tema que resultou no texto, escrito por ele, “Luzes da impressão – Oficinas tipográficas nas antigas fotografias de São Paulo”, com destaque para a referida imagem, pertencente à Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras do portal. Publicação, ao final do artigo, de um brevíssimo perfil do francês Frédéric Manuel, autor da foto, escrito por Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal.

Luzes da impressão

Oficinas tipográficas nas antigas fotografias de São Paulo

Fabio Mariano Cruz Pereira*

 

 

 

Em 1906, a Rua Direita, uma das mais importantes do centro histórico da cidade de São Paulo, foi capturada pelo fotógrafo Frédéric Manuel (1868-1961) em uma chapa seca de gelatina e prata. A captura retrata o lado de numeração par da rua, na direção da igreja de Santo Antônio, que ainda hoje se encontra de frente para a atual Praça do Patriarca José Bonifácio. A captura foi realizada nas imediações do escritório[1] da antiga Tipografia Duprat & Cia, na altura do então número 14, e que se apresenta em primeiro plano.[2]

São poucas as fontes de informações a respeito de Frédéric Manuel em São Paulo. O historiador Eric Lemos recuperou alguns dados a respeito desse imigrante francês que produziu imagens seriadas pelo interior paulista no início do século XX, fornecendo conteúdo para a produção de impressos como o Guia Levi (que aparece anotado sobre a fotografia da Rua Direita).

“Transitando entre a pintura e a fotografia, Frédéric Manuel, francês nascido em Paris, chegou ao Brasil durante a década de 1890, estabelecendo-se no Rio de Janeiro para atuar na Companhia Photographica Brazileira de Juan Gutierrez. Transferiu-se posteriormente para São Paulo, onde trabalhou no Estabelecimento Gráfico V. Steidel, manteve ateliê fotográfico na antiga rua Olinda (atual rua João Guimarães Rosa), na Consolação, e permaneceu como fotógrafo do Liceu de Artes e Ofícios de São Paulo até 1940″ (Lemos, 2022,  p. 60).

A Tipografia Duprat & Cia faz parte do levantamento realizado pela equipe de pesquisa ligada ao projeto Tipografia Paulistana, coordenado pela Docente Priscila Farias, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da Universidade de São Paulo (FAU USP).[3] Tal projeto tem ajudado a coletar sistematicamente informações preciosas sobre as oficinas tipográficas que existiram entre 1827 e 1927 – período que corresponde aos primeiros cem anos de impressão na cidade.

A Tipografia Duprat & Cia teve seu início em 1902, depois de suceder ao estabelecimento gráfico da Companhia Industrial de São Paulo que era uma sociedade anônima que atuava em vários ramos da indústria, desde a fabricação de fósforos no bairro da Vila Mariana, compra e venda de terrenos na capital e em Santo Amaro, administração e financiamento de estabelecimentos industriais, construção de imóveis de habitação, estradas de ferro, usinas etc., passando também pela produção de impressos.

A Tipografia da Companhia Industrial de São Paulo vinha de uma sucessão ainda mais antiga, quando adquiriu, por volta de 1890, o material tipográfico da antiga oficina Ao Livro Verde, de Jorge Seckler, que por sua vez foi um importante impressor alemão estabelecido em São Paulo no século XIX e que havia adquirido, por volta de 1862, a oficina de encadernação de Hermann Knoesel. Seckler foi o responsável por produzir impressos importantes que circularam na São Paulo oitocentista, entre eles a longeva série de almanaques comerciais paulistas,[4] hoje dispersos em diferentes instituições arquivísticas, coleções particulares e bibliotecas de obras raras.[5]

Detenho-me um pouco mais sobre a interessante sucessão de oficinas tipográficas, fenômeno que envolvia não apenas o fortalecimento das redes de contato entre os capitalistas do período como também, do ponto de vista material, a transferência e continuidade de diversos estilos de letra adquiridos e mantidos por diferentes gráficos ao longo dos anos. São exemplos a Typographia Pauperio que deu origem à Cardozo, Filho & Motta; a Espindola, Siqueira & Cia, que deu origem à Typographia Siqueira e à Casa Espindola; e também a M. L. Bühnaeds & Cia que deu origem à Weiszflog Irmãos.

As três sucessões ocorridas desde o antigo encadernador Hermann Knoesel, passando por Jorge Seckler, e depois a Companhia Industrial de São Paulo, até finalmente culminar na formação da Duprat & Cia, remontam a uma história de quase meio século. A busca por um passado glorioso, validado pela experiência de antigos mestres tipógrafos e encadernadores na cidade, parece ter motivado os proprietários da Duprat & Cia a se orgulhar de um passado ao qual acreditavam pertencer, a ponto de se identificarem em seus impressos (e também na fachada de sua oficina na Rua 25 de Março) como uma “Casa fundada em 1850” em pleno início do século XX. Esse legado que os irmãos Duprat não hesitavam enaltecer, certamente tinha que ver com os estilos de letra que atravessaram décadas através do papel e da solidez metálica dos tipos, garantindo uma certa aparência a impressos produzidos por diferentes empresas.

Gostaria de convidar o leitor a fixar, por um momento, o olhar na fotografia de Frédéric Manuel para então forçar a imaginação a fim de se colocar em uma época onde não se podia consultar as notícias em um smartphone. Não havia websites ou redes sociais; aliás, a luz elétrica ainda era uma novidade. Quase ninguém possuía carro ou telefone. E também não era possível morar tão longe do ambiente de trabalho, pois os sistemas de transporte público eram limitados e operavam em uma escala muito menor em relação àquela que nos habituamos nos contextos mais recentes. Imaginando-se nessa época, é fácil compreender a importância dos serviços criados para atender às necessidades de comunicação. Os correios eram mais que um serviço de remessa de documentos, eram, pois, um meio de comunicação pessoal cujas mensagens podiam levar dias para alcançar o receptor – sem contar que boa parte da população não sabia ler e escrever, e ainda não havia sido inventada a mensagem de áudio.

É nesse contexto em que as antigas oficinas tipográficas atuavam, fornecendo impressos que circulavam nos mais diversos espaços sociais, facilitando que as notícias chegassem a quem de direito e permitindo que as letras impressas tivessem os destinos mais inesperados. Comunicar novas regras em uma cidade que, ainda tão provinciana, buscava consolidar os interesses de uma recém-instaurada república, reclamava um sistema robusto e eficiente de comunicação local. Não foi, portanto, à toa que as oficinas tipográficas se espalharam em números vultosos pela cidade de São Paulo a partir da última década do século XIX (Pereira e Farias, 2021, p. 28).

Quando Frédéric Manuel flagrou o aspecto da famosa Rua Direita, a Duprat & Cia contava com apenas quatro anos de atividade. Seus proprietários eram os irmãos Duprat, naturais de Recife (PE). Um deles, Alfredo, foi o responsável pela assinatura, em 31 de março de 1902, que selou o registro da nova empresa frente à prefeitura[6]; o segundo irmão, Raymundo, também conhecido como Barão de Duprat (1863-1926), foi ninguém menos que um destacado vereador de São Paulo e, alguns anos depois, o segundo prefeito da cidade (entre 1911 e 1914), e que já havia trabalhado como contador na antiga Companhia Industrial de São Paulo – dona da tipografia que a Duprat & Cia veio a suceder. O leitor atento irá presumir facilmente que, para os irmãos Duprat, o investimento no setor gráfico se ancorava em alicerces sólidos, desde aqueles nobiliárquicos às influências de ordem política. Não à toa a Duprat & Cia existiu por cerca de 35 anos. Ao longo desse período, podemos destacar ao menos dois momentos muito importantes. O primeiro aconteceu provavelmente em meados dos anos 1910, quando a empresa buscou um novo reposicionamento no centro comercial de São Paulo, mudando seu escritório para uma região mais próxima da Igreja da Sé (mas ainda na Rua Direita). Naquele momento, a oficina já dispunha de um imponente edifício instalado em frente à região alagadiça da 25 de Março, onde operavam modernas máquinas elétricas. Propuseram, então, um nome comercial: inicialmente “Companhia Graphica Paulista Duprat”, e, posteriormente, Casa Duprat, grafia que se manteria pelo menos até o início da década de 1930. O segundo momento importante se deu após a morte de Raymundo Duprat em 1926, quando, alguns anos depois, a empresa anunciou sua união com a Casa Mayença, dos irmãos Paternostro, ocorrida provavelmente por volta de 1929. A falência definitiva da empresa seria decretada apenas em 1937, sob a firma societária Duprat & Filhos, e quando instalada no número 28 da Rua de São Bento.[7]

O estudo de estabelecimentos comerciais e fabris por meio de fotografias antigas se insere em uma prática de pesquisa que se utiliza do testemunho fotográfico como fonte primária. Posso citar alguns exemplos interessantes. Um deles é o trabalho do historiador Carlos José Ferreira dos Santos, que, através do exame de registros fotográficos antigos, identificou a presença significativa de carroceiros atuantes na cidade de São Paulo nos primeiros anos do período republicano (Santos, 2008: 139). Outro trabalho interessante é o da professora de sociologia Fraya Frehse, quando, a partir do contato com os registros fotográficos de Militão de Azevedo, realizados no século XIX, deteve-se nas características de animais, veículos e agentes sociais integrados ao ambiente urbano daquela época. Segundo a autora, as fotografias podem ser consideradas “documentos visuais de um imaginário específico de época, do qual o fotógrafo é, sem saber, porta-voz” (Frehse, p. 54).

Por meio do contato com a produção fotográfica realizada no início do século XX, podemos reconhecer a presença de diversas empresas de impressão espalhadas pela cidade de São Paulo, seus endereços, porte físico, relação com o entorno imediato, movimentação de possíveis clientes etc., quase sempre identificadas pelos letreiros que foram instalados em suas fachadas. A escala desses letreiros é curiosa, pois, em muitos casos, como no exemplo da foto em questão, o letreiro se apresenta em uma dimensão mais indicada para longas distâncias. Apesar da Rua Direita não ser muito larga e tampouco estar inserida em posição mais alta em relação às demais ruas, o tamanho do letreiro da oficina parece resultar de uma escolha mais retórica que efetivamente funcional.

O fato de oficinas como a Duprat & Cia instalarem, em suas fachadas, letreiros de grande escala nos revela pelo menos duas coisas importantes sobre a época: a primeira delas é que havia quem fizesse letreiros em grande escala – profissionais ainda pouco conhecidos dos estudos sobre a história dos ofícios urbanos; a segunda é que havia algum interesse em se comunicar com ruas mais distantes, muitas vezes para além do centro comercial, sugerindo que o endereço físico das tipografias eram determinantes nas relações comerciais estabelecidas no campo gráfico local, isto é, o espaço das oficinas tipográficas exercia uma função agregadora, reunindo impressores, artistas, clientes, fornecedores, carroceiros etc.

As antigas oficinas tipográficas brasileiras são ainda pouco conhecidas em nossa história. Embora muito do que elas tenham produzido ainda circule entre nós (em sua maioria livros), restaram poucas informações sobre essas empresas, suas formas de identificação e principalmente sobre os operários que elas contratavam. São parte de um grupo de empresas cuja atividade principal se tornou obsoleta devido à eficiência de outros sistemas produtivos que surgiram ao longo do tempo. Salvo algumas exceções de oficinas que ainda operam de modo didático ou experimental com vistas à revalorização da tipografia como sistema de composição e impressão de textos e imagens.[8]

Gostaria de encerrar esse breve ensaio ressaltando a importância das coleções fotográficas para um melhor entendimento sobre o nosso passado. A Brasiliana Fotográfica desenvolve um trabalho notável para a pesquisa histórica no Brasil, ao lidar com o desafio diário de preservar e difundir registros do passado. Iniciativas como essa permitem a produção de conhecimento tanto a partir da fotografia quanto sobre a fotografia e merecem a nossa mais sincera admiração.

 

[1] Era comum que as tipografias do período tivessem dois endereços: o do “escritório de representação” (às vezes denominado “loja”), geralmente instalado no centro comercial; e o da “oficina” (ou “depósito”), geralmente instalada em uma região mais afastada do centro comercial, onde normalmente eram realizadas as atividades de composição e impressão.

[2] O mesmo prédio aparece em outra fotografia, de autoria desconhecida, também sob a custódia da Brasiliana Fotográfica, com a informação de que o conjunto arquitetônico fora demolido em 1909. Ver: http://acervo.bndigital.bn.br/sophia/index.asp?codigo_sophia=87209.

[3] Ver: https://fau.usp.br/tipografiapaulistana/

[4] A oficina de Jorge Seckler também foi a responsável pela impressão, em 1890, dos Estatutos da Companhia Industrial de São Paulo – empresa que, no mesmo ano, a sucedeu (Companhia Industrial de S. Paulo, 1890). Tal estatuto encontra-se arquivado no depósito relacionado ao 1º Cartório de Notas de São Paulo, custodiado pelo Arquivo Público do Estado de São Paulo, cx. 10309, nº 342.

[5] Para mais informações sobre Jorge Seckler, ver: Farias e Onoda (2015).

[6] Como registrado na página 1.545 do livro Responsabilidades de Oficinas Tipográficas (1899-1907), vol. II, custodiado pelo Arquivo Histórico Municipal de São Paulo.

[7] As informações sobre os últimos anos da Duprat & C. foram recuperadas de antigas edições do Correio Paulistano: 18 mai 1926 (p. 4); 26 fev 1929 (12); 10 jun 1930 (p. 5); 14 dez 1937 (p. 13).

[8] Algumas dessas iniciativas estão relatadas em pelo menos duas importantes publicações. A primeira é o ensaio que nos traz uma reflexão sobre os interesses atuais na antiga tipografia, tendo como foco o contexto italiano (Lessing, Bulegato e Farias, 2019), a segunda é o livro organizado pelas professoras Ana Utsch e Marina Gravier com relatos que discutem diferentes iniciativas de preservação do que poderíamos chamar de “patrimônio gráfico” tendo como foco os países latino-americanos (Utsch e Gravier, 2019).

 

* Fabio Mariano Cruz Pereira é doutor em Design pela Universidade de São Paulo, Brasil, e pela Universitá IUAV de Veneza, Itália. É designer gráfico e pesquisador do Museu Paulista da Universidade de São Paulo.

 

 Referências:

COMPANHIA INDUSTRIAL DE S. PAULO. Estatutos da Companhia Industrial de São Paulo. São Paulo: Typographia a Vapor de Jorge Seckler & Comp., 1890.

CORREIO PAULISTANO. Edições de: 18 mai 1926 (p. 4); 26 fev 1929 (12); 10 jun 1930 (p. 5); 14 dez 1937 (p. 13). Biblioteca Nacional Digital. Disponíveis em: https://memoria.bn.gov.br/hdb/periodico.aspx. Acessos em 11 jul 2024.

FARIAS, P. L.; ONODA, M. A.; Letras toscanas no repertório tipográfico de Jorge Seckler (1883-1895). In: SPINILLO, C. G.; FADEL, L. M.; SOUTO, V. T.; SILVA, T. B. P.; CAMARA, R. J. (Eds). Anais do 7º Congresso Internacional de Design da Informação | CIDI 2015 [Blucher Design Proceedings, num.2, vol.2]. São Paulo: Blucher, 2015.

FREHSE, Fraya. O começo do fim da São Paulo caipira. In: FERNANDES JUNIOR, Rubens; BARBUY, Heloisa; FREHSE, Fraya. Militão Augusto de Azevedo. São Paulo: Cosac Naify, p. 50-73, 2012.

LEMOS, Eric Danzi. Artífices da paisagem. In: BORREGO, Maria Aparecida de Menezes; NASCIMENTO, Ana Paula. Mundos do trabalho. Coleção Museu do Ipiranga, vol. 4. São Paulo: Edusp, p. 58-63, 2022.

LESSING, Emanuela Bonini; BULEGATO, Fiorella; FARIAS, Priscila Lena. La tipografia come new craft: riflessioni storiche e pratiche di riattualizzazione. MD Journal, vol. 7, p. 146-159, 2019.

PEREIRA, Fabio Mariano Cruz; FARIAS, Priscila Lena. Anúncios de oficinas tipográficas paulistanas (1900-1930). Infodesign, vol. 18, n. 2, p. 27-36, 2021.

SANTOS, Carlos José Ferreira dos. Nem tudo era italiano: São Paulo e pobreza: 1890-1915. São Paulo: Annablume/Fapesp, 2008.

UTSCH, Ana; GRAVIER, Marina Garone (Orgs). Encontros em torno de tipos e livros. Belo Horizonte: Editora UFMG, 2019.

 

Frédéric Manuel (1868 – 1961)

Andrea C. T. Wanderley*

As fotografias paulistanas do francês Frédéric Manuel (1868 – 1961), sobre quem há ainda pouquíssima informação, foram realizadas, em 1906, para Menotti Levi (18? – 19?), editor do Guia Levi, publicado, em São Paulo, de 1899 a meados até 1984 (Jornal do Brasil, 19 de novembro de 1900, penúltima colunaA Notícia (RJ), 27 e 28 de agosto de 1906, segunda coluna), cuja utilidade já está comprovada pela aceitação que o público lhe dispensa (Correio Paulistano, 5 de fevereiro de 1905, penúltima coluna). O Guia Levi era uma publicação mensal de horários de trens, de bondes e outras informações úteis (Correio Paulistano, 8 de agosto de 1908, penúltima coluna), Uma curiosidade: o grande arquiteto e urbanista paulistano Rino di Menotti Levi (1901 – 1965) é filho de Menotti Levi.

 

Acessando o link para as fotografias de São Paulo produzidas por Frédéric Manuel, disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

*Andrea C. T. Wanderley é pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica

A inauguração da Estrada de Ferro do Corcovado

Em 9 de outubro de 1884, foi concluída a linha férrea ligando o Cosme Velho às Paineiras, a primeira linha férrea turística das Américas. Ainda hoje a Estrada de Ferro do Corcovado é o principal meio de acesso ao Cristo Redentor, inaugurado em 12 de outubro de 1931, e um dos pontos turísticos mais visitados do Brasil. Com 3.829 metros de trilhos, a ferrovia atravessa a maior floresta urbana do mundo, o Parque Nacional da Tijuca, proporcionando uma das vistas mais deslumbrantes do Rio de Janeiro. A Brasiliana Fotográfica celebra os 140 anos da Estrada de Ferro do Corcovado publicando fotografias da ferrovia produzidas por Augusto Malta (1864-1957), Juan Gutierrez (c.1860-1897) e Marc Ferrez (1843-1923).

 

 

Antes da construção do Cristo Redentor, havia no Corcovado um mirante que, devido a seu formato, ficou conhecido como Chapéu de Sol. Foi encomendado a uma fundição belga e construído, em 1885, por decisão de dom Pedro II (1825 – 1891), substituindo um precário pagode de madeira.  O passeio de trem era, inicialmente, realizado por tração a vapor. O mirante Chapéu de Sol foi totalmente removido, na década de 40, pelo então prefeito Henrique Dodsworth (1895 – 1975), dentro de um programa de melhoramentos no alto do Corcovado (O Jornal, 28 de maio de 1941, sexta colunaGazeta de Notícias, 24 de junho de 1942, quarta colunaCorreio da Manhã, 2 de abril de 1944, quarta colunaRevista da Semana, 17 de junho de 1944).

 

Acessando o link para as fotografias da Estrada de Ferro do Corcovado disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

 

 

Voltando à ferrovia. A concessão para a construção da Estrada de Ferro do Corcovado foi dada aos engenheiros Francisco Pereira Passos (1836-1913), futuro prefeito do Rio de Janeiro, e a João Teixeira Soares (1848-1927), um dos realizadores da Estrada de Ferro do Paraná, de Curitiba a Paranaguá, inaugurada também em 1884 (Revista de Engenharia, 1882, primeira colunaGazeta de Notícias, 8 de janeiro de 1882, segunda coluna).

Pereira Passos havia sido responsável, em 1874, pela elaboração de um plano urbano para o Rio de Janeiro inspirado nas obras realizadas em Paris pelo Barão de Haussmann (1809-1891). A Estrada de Ferro do Corcovado já estava prevista em relatórios de 1875 e 1876 entregues à Coroa pela comissão chefiada por ele.

 

 

O renomado engenheiro Marcelino Ramos da Silva (1844 – 1910), um dos fundadores do Club de Engenharia, que havia estudado nas escolas de Hannover e Hamburgo, na Alemanha, dirigiu as obras. Estavam presentes à inauguração deste primeiro trecho dom Pedro II (1825 – 1891)dona Teresa Cristina (1822 – 1889)a princesa Isabel (1846-1921)o conde D ´Eu (1842-1922), os ministros da Agricultura, Antônio Carneiro da Rocha (1842-1925), e da Guerra, João José de Oliveira Junqueira Júnior (1832-1887), além de outras autoridades e dos diretores da estrada (Gazeta de Notícias, 10 de outubro de 1884, primeira coluna).

 

 

Em 1º de julho de 1885, o tráfego foi aberto até o alto do Corcovado (Jornal do Commercio, 2 de julho de 1885, quinta colunaRevista de Engenharia, 1885, primeira coluna). O ramal ferroviário entre o Cosme Velho e o Corcovado foi construído sob o sistema Riggenbach, com cremalheira denteada sobre um trilho central para dar maior segurança à composição (Revista de Engenharia, 14 de abril de 1884, primeira coluna).

 

 

Em fevereiro de 1910, os trens foram substituídos por máquinas elétricas (O Paiz, 26 de fevereiro de 1910, quinta colunaO Jornal, 5 de abril de 1945, última coluna). Na década de 1970, a ferrovia foi reformada e, em 1979, foram trazidos da Suíça trens mais modernos e seguros. Em 9 de outubro de 2019, na comemoração dos 135 anos da Estrada de Ferro do Corcovado, foi inaugurada a quarta geração de trens (O Paiz, 14 de novembro de 1910, última colunaSite Ferreomodelismo, Trens e Ferrovias do Brasil).

 

 

O Trem do Corcovado já recebeu várias personalidades ilustres como os papas Pio XII (1876-1958) e João Paulo II (1920-2005), o líder espiritual Dalai Lama (1935-), o ator John Travolta (1954-), a cantora Beyoncé (1981-), o inventor Alberto Santos Dumont (1873-1932), os presidentes do Brasil Epitácio Pessoa (1865-1942) e Getúlio Vargas (1882-1954); o cientista Albert Einstein (1879-1955), a princesa Diana de Gales (1961-1997) e o príncipe Charles (1948-), e por Barack (1961-) e Michele Obama (1964-), presidente e primeira-dama dos Estados Unidos, e sua família. Pela centenária estrada de ferro cerca de 600 mil pessoas são levadas anualmente ao Cristo Redentor, considerado a mais antiga atração turística do Brasil.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

 

Série “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” IV – Os 100 anos dos Diários Associados

Hoje os Diários Associados, que já foram o maior conglomerado de mídia do Brasil, completam 100 anos. Foi em 2 de outubro de 1924 que O Jornal, primeiro órgão de comunicação dos Diários foi comprado pelo empresário paraibano Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo (1892-1968).

 

 

O acervo fotográfico dos Diários Associados – Rio de Janeiro foi incorporado, em 2016, por uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles (IMS). O conjunto adquirido pelo IMS possui cerca de 700 mil fotografias e 300 mil negativos com imagens produzidas para o já mencionado O Jornal; para o Diário da Noite, fundado por Chateaubriand, em 1929; e para o Jornal do Commercio, fundado em 1827 e adquirido pelo grupo em 1959. Também possui fotos produzidas pela Agência Meridional, primeira agência de notícias do Brasil, fundada em 1931.

 

Acessando o link para as imagens do Arquivo dos Diários Associados pertencentes ao Instituto Moreira Salles e de dois registros de Assis Chateaubriand que pertencem à Fundação Biblioteca Nacional e que estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Pequeno histórico de O Jornal, primeiro órgão de comunicação dos Diários Associados

 

 

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, conhecido como Chatô, comprou, em 2 de outubro de 1924, O Jornal, fundado em 17 de junho de 1919, por Renato Toledo Lopes e um grupo de dissidentes do Jornal do Commercio. Seu nome, O Jornal, foi uma provocação: era assim que o Jornal do Commercio era chamado internamente. O Jornal tornou-se o primeiro veículo de comunicação dos Diários Associados, um dos maiores conglomerados da história da imprensa brasileira (O Jornal, 2 de outubro de 1924, primeira coluna).

 

 

Chateaubriand fez várias inovações, tanto na linha editorial – substituindo os longos artigos por reportagens, separando claramente informações e comentários. Também mudou a diagramação, reorganizando a paginação gráfica e as técnicas de ilustração.

Seus primeiros diretores foram A. Cruz Santos e o próprio Chateaubriand. Sabóia de Medeiros (18?-19?) era o redator-chefe, mas foi logo substituído por Austregésilo de Athayde (1898-1993), grande amigo de Chatô, que permaneceu por toda sua vida nos DA. O ex-presidente da República, Epitácio Pessoa (1865-1942), era o presidente da empresa e Alfredo Pujol (1865-1930) e Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898-1969), seus diretores. Entre os colaboradores do matutino estavam Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde) (1893-1983), Capistrano de Abreu (1853-1927), Pandiá Calógeras (1870-1934), Humberto de Campos (1886-1934), Paulo de Castro Maya (1895-1928), Carlos de Laet (1847-1927) e Ferdinando Laboriau (1893-1928). Na área internacional, colaboravam  Ruddyard Kipling (1865-1936), prêmio Nobel de Literatura; o ex-premier francês Raymond Poincaré (1860-1934), e o também ex-premier britânico Lloyd George (1863-1945).

 

 

Fechou suas portas, em 28 de abril de 1974, quando publicou sua 16.123ª edição. Alberico de Souza Cruz (1938 – 2022) foi o último secretário de redação. O único voto contrário ao fim do jornal, na Assembleia Geral Extraordinária, foi de Austregésilo de Athayde (1898 – 1993). Chegava ao fim o órgão pioneiro e líder dos Diários Associados (RJ).

 

Diários Associados – acervos fotográficos no Instituto Moreira Salles

 

 Agência Meridional de Notícias (1931 – ) 

A Agência Meridional de Notícias foi fundada em agosto de 1931 e foi a primeira agência de notícias do Brasil. O principal objetivo de Chateaubriand era otimizar e racionalizar entre os jornais de seu conglomerado o intercâmbio de textos e fotos. Seria mais barato que as notícias das editorias nacional, de economia e internacional tivesses tanto sua produção tanto centralizada como compartilhada. Assim, os jornais se ocupariam da cobertura local. Ainda em 1931, Chateaubriand comprou o Diário de Pernambuco (Recife), o mais antigo jornal brasileiro em circulação; e fundou o Diário da Tarde (Belo Horizonte). Na ocasião, já faziam parte dos Diários Associados o Diário da Noite (edições Rio e SP)Diário de Notícias (Porto Alegre),  o Diário de S. Paulo, Estado de Minas (Belo Horizonte) e O Jornal (Rio de Janeiro). Chateaubriand também já era proprietário das revistas A Cigarra O Cruzeiro e das juvenis Detetive O Guri. Foi pela Agência Meridional que o repórter Joel Silveira (1918 – 2007) foi enviado para cobrir a campanha dos pracinhas da FEB na Segunda Guerra Mundial com a seguinte recomendação de Chateaubriand, que se tornou famosa: “Mas não me morra, seu Joel! Repórter é pra mandar matéria, não pra morrer!Em 2007, a Agência Meridional passou a usar nome de D.A. Press. 

Diário da Noite (RJ) (1929 – 1973) 

Em 5 de outubro de 1929, lançamento do Diário da Noite, do Rio de Janeiro, que, feito em duas semanas, no mesmo mês de seu lançamento já havia conquistado entre 60 e 80 mil leitores. Complementava o matutino O Jornal, também de Assis Chateaubriand e tinha duas edições diárias, a primeira saía às 15h. Era dirigido por Chateaubriand, Cumplido de Sant´Anna e Frederico Barata. Apresentava-se como um membro da vanguarda do movimento liberal. Opunha-se ao regime oligárquico da República Velha e defendia a Aliança Liberal. Foi nesse jornal que Nelson Rodrigues escreveu folhetins usando o pseudônimo de Susana Flag. Teve como colaborares Antônio Maria (1921 – 1964), Sérgio Porto (1923-1968), o Stanislaw Ponte Preta e o humorista Aparício Torelly (1895 – 1971), dentre outros. Circulou até junho de 1973.

 

Jornal do Commercio (RJ) (1827 – 2016) 

Assis Chateaubriand comprou o Jornal do Commercio de San Tiago Dantas, em 2 de abril de 1959. Instalado na rua Sacadura Cabral nº 103, passou a ser dirigido por Carlos Rizzini, e voltou à linha editorial conservadora, enfatizando o noticiário econômico, dirigido aos empresários do Rio de Janeiro. O Jornal do Commercio havia sido fundado em 31 de agosto de 1827, pelo tipógrafo e livreiro francês Pierre Plancher (1779 – 1844). Sua primeira edição, com quatro páginas, circulou no Rio de Janeiro em 1º de outubro do mesmo ano. No dia 29 de abril de 2016, foi para as ruas a sua última edição. Era o segundo periódico diário mais antigo do Brasil, perdendo apenas para o Diário de Pernambuco, o mais antigo jornal da América Latina, fundado em 7 de novembro de 1925. Seu presidente era Mauricio Dinepi (1953 – 2025).

 

O Jornal (1919 – 1974)

Em 1924, Assis Chateaubriand comprou O Jornal, fundado em 1919o primeiro elo e o órgão líder da cadeia dos Diários Associados. Nele, Chateaubriand fez várias inovações, tanto na linha editorial – substituindo os longos artigos por reportagens, separando claramente informações e comentários – como em sua diagramação – reorganizando a paginação gráfica, do colunismo e das técnicas de ilustração. Fechou suas portas em 28 de abril de 1974, quando publicou sua 16.123ª edição. Alberico de Souza Cruz foi o último secretário de redação. O único voto contrário ao fim do jornal, na Assembleia Geral Extraordinária, foi de Austregésilo de Athayde. Chegava ao fim o órgão líder dos Diários Associados.

 

 

 

Artigos publicados na Brasiliana Fotográfica com fotografias do acervo dos Diários Associados

Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 30 de maio de 2018.

 

 

 

A Casa dos Artistas nos Diários Associados, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 26 de agosto de 2019.

 

 

 

O Rei Momo por Jean Manzon e por outros fotógrafos dos Diários Associados, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 3 de fevereiro de 2023.

 

 

Brevíssimo perfil de Assis Chateaubriand e dos Diários Associados

 

A imprensa brasileira pode ser dividida em duas fases: antes e depois de Assis Chateaubriand. Conhecido como Chatô e nascido em 4 de outubro de 1892, em Umbuzeiro, tornou-se um magnata das comunicações no Brasil. Foi considerado o Cidadão Kane brasileiro, uma alusão ao filme homônimo de Orson Welles (1915-1985), supostamente baseado na vida do empresário norte-americano William Randolph Hearst (1863-1951), criador de uma enorme rede de jornais em seu país.

Chateaubriand foi uma personalidade polêmica e controversa e um dos mais poderosos e influentes homens públicos da história do país. Em seu auge, os Diários Associados chegaram a ter mais de cem jornais, emissoras de televisão e rádio, revistas e agência telegráfica. Um verdadeiro império de mídia.

Além de jornalista, Chatô foi advogado, embaixador, escritor, mecenas e político. Em 30 de dezembro de 1954, foi eleito para ocupar a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo Getúlio Vargas (1882-1954).  Tomou posse em 27 de agosto de 1955.

 

 

Uma das revistas do império de Chateaubriand, a O Cruzeiro, foi muito importante na história da fotografia no Brasil, tendo dignificado a profissão de repórter fotográfico. Foi publicada pela primeira vez, em 10 de novembro de 1928, e, entre as décadas de 40 e 50, pela utilização de fotografias, enfatizando o fotojornalismo, e por seu conteúdo e projeto gráfico arrojados, representou uma revolução no mercado editorial brasileiro. Seu primeiro diretor foi Carlos Malheiros Dias (1875 – 1941), sucedido por Antônio Accioly Neto (1906-2001) e José Amádio (1923-1992). Dentre importantes fotógrafos que atuaram na revista, destacamos Flávio Damm (1928-2020), Henri Ballot (1921-1997), Jean Manzon (1915-1990), José Medeiros (1921-1990), Luciano Carneiro (1926 – 1959) e Peter Scheier (1908-1979). Em julho de 1975, a revista deixou de circular.

 

 

Chatô fundou o Museu de Arte de São Paulo (MASP), inaugurado em 2 de outubro de 1947. O  crítico e marchand italiano Pietro Maria Bardi (1900-1999), parceiro de Chateaubriand na criação do museu, assumiu sua direção, cargo que ocupou até 1990. As primeiras obras de arte do museu foram selecionadas por Pietro e adquiridas a partir de doações. O museu foi instalado, inicialmente, no prédio,  na época ainda não finalizado, que abrigaria a sede dos Diários Associados, na Rua 7 de Abril, no centro de São Paulo.

 

 

Em 7 de novembro de 1968, o MASP foi transferido para a Avenida Paulista, sua sede atual, projeto arquitetônico arrojado da romana naturalizada brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992), casada com Pietro desde 1946, ano em que vieram para o Brasil. O MASP possui o mais importante acervo de arte europeia do hemisfério sul. A coleção do museu reúne mais de 11 mil obras, incluindo esculturas, fotografias, objetos, pinturas e vestuários de diversos períodos, abrangendo a produção africana, asiática, europeia e das Américas.

 

diariosassociados3

O MASP por Hans Gunter Flieg (1923-2024), 1968 / Acervo IMS

 

Chatô foi também o responsável pela chegada da televisão ao Brasil quando, em 18 de setembro de 1950, inaugurou a primeira emissora de TV do país, a PRF-3, TV Tupi de São Paulo, no chamado Palácio do Rádio. Participaram da cerimônia o próprio Chateaubriand, o bispo Dom Paulo Rollim Loureiro (1908 – 1975)  e a poetisa Rosalina Coelho Lisboa (1900-1975). À noite, numa festa no Automóvel Clube, autoridades e convidados assistiram à primeira transmissão. Existiam menos de mil aparelhos receptores de TV. Com apenas três câmeras e com profissionais como Cassiano Gabus Mendes (1927 – 1993), Homero Silva (1918-1981), Walter Avancini (1935-2001) e Walter Forster (1917-1996), começava a história da TV brasileira. A TV Tupi saiu do ar em 17 de julho de 1980.

 

World Tv: TV Tupi. A Pioneira!

 

A TV Pioneira do Brasil - A História da Tupi

Assista aqui a primeira vinheta da TV Tupi 

 

Ao longo da década de 50, Chateaubriand foi senador da República pela Paraíba e pelo Maranhão. Em 1957,  renunciou ao cargo porque foi nomeado pelo presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976) embaixador do Brasil na Inglaterra. Porém ficava mais tempo no Brasil do que na Inglaterra, fato muito criticado por diplomatas de carreira e também pelos jornais que faziam oposição a ele.  O posto era exercido de fato pelo diplomata Antônio Castello Branco (1916-2001).

 

 

Em 26 de setembro de 1959, Chateaubriand assinou uma escritura pública doando a 22 empregados 49% do controle acionário dos Diários e Emissoras Associados, então o maior império de comunicações da América Latina. Estava criado o Condomínio Acionário Diários e Rádios Associados. Na época, o conglomerado era composto pelas duas revistas mais importantes do país dirigidas a adultos, 12 revistas infantis, dezenas de jornais, 28 estações de rádio, seis estações de televisão, agências de notícias e agências de propaganda (O Jornal, 27 de setembro de 1959, primeira coluna).

Em fevereiro de 1960, Chatô foi levado para a Clínica Doutor Eiras, sob suspeita de enfarte. Foi atendido por um jovem médico que chamou o neurocirurgião Abrahão Ackerman, um dos donos do hospital. Após examiná-lo, constatou que Chateaubriand havia sofrido uma trombose cerebral dupla e que não iria sobreviver (O Jornal, 25 de fevereiro de 1960, primeira coluna; O Cruzeiro, 9 de abril de 1960). Ficou hospitalizado até fim de agosto de 1960 e viveu mais 8 anos (O Jornal, 4 de setembro de 1960, última coluna). Comunicava-se por balbucios e usava uma máquina de escrever adaptada. Continuou, mesmo paraplégico e impossibilitado de falar, a escrever seus artigos. O primeiro após a doença, Compromisso de Sangue, foi publicado em O Jornal de 4 de setembro de 1960.

 

 

 

Em julho de 1962, doou os 51% restantes das ações e quotas que possuía dos Diários e Emissoras Associados aos seus auxiliares, que já haviam recebido os primeiros 49%. Seus filhos foram excluídos desta segunda partilha.

Teve um colapso cardíaco e faleceu, em São Paulo, no Hospital Santa Catarina, em 4 de abril de 1968. Foi velado, no saguão do prédio dos Diários Associados em São Paulo (O Jornal, 5 de abril e 6 de abril de 1968). Pietro Maria Bardi mandou colocar telas do MASP em torno do caixão de Chatô. Também escreveu o artigo Chateaubriand fundador de museus, publicado em O Cruzeiro de 20 de abril de 1968. O sepultamento do Velho Capitão, título criado para ele pelo repórter David Nasser (1917-1980)foi realizado, no dia 6 de abril, no Cemitério do Araçá, em São Paulo.

João Calmon (1916-1999), que era vice-presidente do condomínio acionário dos Diários Associados desde 1962, tornou-se presidente da empresa. Na época, ela era constituída pelos seguintes órgãos: 1) os diários O Jornal (Rio), Jornal do Comércio (Rio), Diário de S. Paulo (S. Paulo), Diário da Noite (S. Paulo), Diário dos Esportes (S. Paulo), O Diário (Santos-SP), O Estado de Minas (Belo Horizonte), Diário da Tarde (Belo Horizonte), Diário Mercantil (Juiz de Fora-MG), Diário da Tarde (Juiz de Fora-MG), Diário de Notícias (Porto Alegre), A Razão (Santa Maria-RS), Estado da Bahia (Salvador), Diário de Notícias (Salvador), Diário de Aracaju (Aracaju), Diário de Pernambuco (Recife), O Norte (João Pessoa), Diário de Borborema (Campina Grande-PB), Diário de Natal (Natal), O Poti (Natal), A Província do Pará (Belém), Correio do Ceará (Fortaleza), Unitário (Fortaleza), O Imparcial (S. Luís), Jornal do Comércio (Manaus), A Nação (Florianópolis), Jornal de Joinville (Joinville-SC), Jornal de Alagoas (Maceió), Folha de Goiás (Goiânia), Diário do Paraná (Curitiba), Monitor Campista (Campos-RJ), Correio Brasiliense (Brasília), O Rio Branco (Rio Branco), Alto Madeira (Porto Velho-RO), Diário da Serra (Campo Grande-MS); 2) as revistas O Cruzeiro, O Guri, A Cigarra, Luluzinha, Bolinha, Brasinha, Gasparzinho, Aventura, Gurilândia, Pré-Estreia, Manda-Chuva, Os Flinstones, Os Jetsons, Pimentinha, Zé Colméia, Combate, Homem no Espaço, Galáxia; 3) as emissoras Rádio Tupi (Rio), Rádio Tamoio (Rio), Rádio Difusora (S. Paulo), Rádio Tupi (S. Paulo), Rádio Cultura (S. Paulo), Rádio Guarani (Belo Horizonte), Rádio Mineira (Belo Horizonte), Rádio Sociedade (Juiz de Fora-MG), Rádio Farroupilha (Porto Alegre), Rádio Sociedade da Bahia (Salvador), Rádio Clube de Pernambuco (Recife), Rádio Tamandaré (Recife), Rádio Borborema (Campina Grande-PB), Rádio Cariri (Campina Grande-PB), Rádio Poti (Natal), Rádio Marajoara (Belém), Ceará Rádio Clube (Fortaleza), Rádio Araripe (Crato-CE), Rádio Gurupi (S. Luís), Rádio Baré (Manaus), Rádio Progresso (Maceió), Rádio Vitória (Vitória), Rádio Difusora (Teresina), Rádio Clube de Goiânia (Goiânia), Rádio Planalto (Brasília); 4) as emissoras de televisão TV Tupi (Rio), TV Tupi (S. Paulo), TV Cultura (S. Paulo), TV Ribeirão Preto (Ribeirão Preto-SP), TV Itacolomi (Belo Horizonte), TV Alterosa (Belo Horizonte), TV Mariano Procópio (Juiz de Fora-MG), TV Piratini (Porto Alegre), TV Itapoan (Salvador), TV Rádio Clube (Recife), TV Borborema (Campina Grande-PB), TV Marajoara (Belém), TV Rádio Clube (Fortaleza), TV Vitória (Vitória), TV Rádio Clube (Goiânia), TV Paraná (Curitiba), TV Coroados (Londrina-PR), TV Brasília (Brasilia); e 5) as agências: Agência Meridional (de notícias, com matriz no Rio e sucursais em todo o Brasil) e SIRTA Serviços de Imprensa, Rádio e Televisão Associados (de publicidade, com matriz no Rio e filiais em todo o Brasil) (CPDOC).

Foi também na década de 60, que o império formado por Chateaubriand começou a decair. Após sua morte, deflagrou-se uma crise nos Diários Associados entre João Calmon e um de seus filhos, Gilberto Chateaubriand (1925-2022), devido a divergências relativas aos rumos da empresa. Desde maio de 2023, o Condomínio Acionário dos Diários Associados é presidido pelo jornalista Josemar Gimenez (1964-).

Acesse aqui a edição de O Cruzeiro, de 20 de abril de 1968, com uma homenagem a Assis Chateaubriand.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BARROS, Maria Pia Fontes Lins de; WANDERLEY, Andrea C. T. Agenda do Centro de Documentação da TV Globo

CARNEIRO, Glauco. Brasil, primeiro: História dos Diários Associados. Brasília : DF. Fundação Assis Chateaubriand, 1999.

G-1

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

IstoÉ, 10 de maio de 2023

MORAIS, Fernando. Chatô – O Rei do Brasil. Cia das Letras: São Paulo, 1994.

O Jornal, órgão líder dos Diários Associados / Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Secretaria, 2007 (Cadernos da Comunicação Série Memória – vol 18).

Revista da USP

Site Academia Brasileira de Letras

Site CPDOC 

Site Diários Associados

Site São Paulo infoco

Veja, 3 de agosto de 1994