As primeiras fotografias aéreas produzidas no Brasil, em 1916, de autoria do fotojornalista Jorge Kfuri

O jornal A Noite noticiou na capa de sua edição de 30 de outubro de 1916 a produção das primeiras fotografias aéreas do Brasil. Elas haviam sido realizadas pelo fotojornalista Jorge Kfuri (1893 – 1965), que, na época, trabalhava para o periódico. Eram imagens do acampamento dos Afonsos tiradas de um biplano, da Escola de Aviação, pilotado pelo aviador italiano Ernesto Darioli (1881 – 19?) (A Noite, 30 de outubro de 1916). Darioli havia chegado ao Brasil, em fins de 1911 (A Noite, 6 de novembro de 1911, quarta coluna). Foi o instrutor de voo do primeiro aviador militar brasileiro, Ricardo Kirk (1874 – 1915). Ambos foram contratados pela União Federal para missões no teatro de operações da Guerra do Contestado.

 

 

 

Voltando às fotografias aéreas. Pouco depois, em 29 de novembro de 1916, Kfuri produziu mais fotografias aéreas, quando voou com o piloto naval Virginius de Lamare (1883 – 1956), futuro major-brigadeiro, no C-1, em uma das três aeronaves Curtiss Flying Boats que haviam sido encomendadas pelo então ministro da Marinha, almirante Alexandrino de Alencar (1848 – 1926). Chegaram ao Brasil em 9 de julho de 1916 (A Noite, 29 de novembro de 1916A Noite, 24 de outubro de 1953, na quarta coluna).

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Breve perfil do fotojornalista Jorge Kfuri

 

 

Jorge Kfuri era sírio ou libanês (as fontes variam*) e na década de 1910 já estava no Brasil. Trabalhou entre essa década e a de 1920 nos jornais O Século e A Noite. Em 28 de outubro de 1913, foi um dos fundadores da Associação dos Photographos de Imprensa, no Rio de Janeiro, provavelmente a primeira do gênero, no Brasil (Fon-Fon, 1º de novembro de 1913). Em 1920, foi aceito como associado na Associação Brasileira de Imprensa (Jornal do Brasil, 23 de junho de 1920, na penúltima coluna). Em 1921, naturalizou-se brasileiro e, em dezembro do mesmo ano, foi contratado como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval (O Paiz, 5 de maio de 1921, na terceira coluna e Relatórios do Ministério da Justiça de 1922O Paiz, 21 de dezembro de 1921, na primeira colunaO Relatório do Ministério da Marinha de 1922). Em 1923, para servir como encarregado técnico do serviço de fotografia aérea da Aviação Naval, o Ministério da Marinha contratou o sr. Jorge Kfuri, servindo também como operador cinematográfico em qualquer dos departamentos da Marinha para que seja requisitado (Jornal do Commercio, 14 de maio de 1923, na segunda coluna). Nos anos 1920, fotos de sua autoria eram publicadas em revistas como a Fon-Fon, a Illustração Brasileira.

Em 1957, em uma cerimônia realizada na praça Salgado Filho, com a presença do presidente da República, Juscelino Kubitschek (1902 – 1976), e de Thomas White, Chefe do Estado Maior da Força Aérea dos Estados Unidos, Kfuri foi condecorado com o grau de Cavaleiro da Ordem do Mérito Aeronáutico. Foi publicada uma fotografia de Kfuri sendo condecorado (Correio da Manhã, 24 de outubro de 1957 e Jornal do Brasil, 24 de outubro de 1957, na primeira coluna). Dois anos depois, em 1959, o presidente da República, Juscelino Kubitschek (1902 – 1976), assinou um decreto suprimindo o cargo de chefe do Serviço Fotográfico da Aeronáutica, vago em virtude da aposentadoria de Jorge Kfuri (Jornal do Dia, 15 de setembro de 1959, na quarta coluna).

Kfuri faleceu em 21 de janeiro de 1965, no Hospital Central da Aeronáutica. Sua esposa, Hilda Carelli Kfuri, publicou um anúncio do enterro, realizado no cemitério São João Batista (Correio da Manhã, 22 de janeiro de 1965, na primeira coluna).

*Em matérias de jornal, ele é referido ora como sírio ora como libanês. A pesquisa da Brasiliana Fotográfica acredita que ele tenha nascido no Líbano por dois fatos: em 1934, ele foi um dos filhos de libaneses homenageados pela Missão Libanesa Maronita do Rio de Janeiro; e o local de seu nascimento como o Líbano é o que consta em seu atestado de óbito.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

GERALDO, Alcyr Lintz. O avião na campanha do Contestado.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Instituto Histórico-Cultural da Aeronáutica. Reide Rio de Janeiro Buenos Aires – Oito histórias, 2021.

Site Early Aviators

Site G1

Site Museu Aeroespacial

WANDERLEY, Andrea C. T. Augusto Malta e Jorge Kfuri, fundadores da Associação dos Photographos de Imprensa, em 1913 in Brasiliana Fotográfica, 2 de setembro de 2025.

WANDERLEY, Andrea C. T. Jorge Kfuri (1893 – 1965), autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro in Brasiliana Fotográfica, 26 de dezembro de 2019.

 

Um dos “furos” do jornal O GLOBO, que hoje completa 100 anos – uma fotografia do presidente Washington Luís, deposto, deixando o Palácio Guanabara rumo ao Forte de Copacabana

Para celebrar o centenário do jornal O GLOBO, que foi fundado há exatos 100 anos, em 29 de julho de 1925, por Irineu Marinho (1876-1925), que faleceu pouco depois, em 21 de agosto de 1925, a Brasiliana Fotográfica destaca uma fotografia pertencente à Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC, uma das instituições parceiras do portal, do presidente deposto pela Revolução de 1930, Washington Luís (1869 – 1957), saindo do Palácio Guanabara, residência oficial do chefe de governo, rumo ao Forte Copacabana, onde ficou preso até seguir, exilado, para os Estados Unidos. Era o fim de seu mandato presidencial, iniciado em 15 de novembro de 1926, o último da chamada República Velha. O registro fotográfico foi realizado por Arnaldo Vieira (1904 – 1974) e o tiro de magnésio foi dado por Angelo Regato (1912 – 1993)*. O importante furo jornalístico foi publicado na capa da terceira edição de O GLOBO de 24 de outubro de 1930 e republicada no dia seguinte. De acordo com o jornal esta fotografia é O mais eloquente documento histórico da deposição do Sr. Washington Luis É um documento único e cujo valor não será mais preciso exaltar. 

 

 

Foi de fato uma imagem única de um momento relevante da história do Brasil, um marco no fotojornalismo do país. O primogênito de Irineu Marinho, Roberto Marinho (1904 – 2003), que assumiria a direção do jornal, em 1931, atuava na ocasião como repórter de O GLOBO e teve uma participação decisiva neste furo de reportagem. Ele estava no palácio e viu o momento em que Washington Luís entrou no carro, um luxuoso Lincoln. Para tornar a fotografia possível, colocou arbustos no caminho, fazendo com que o carro tivesse que parar por alguns segundos, e assim o fotógrafo que o acompanhava conseguiu fazer o registro.

 

Rendido afinal á gloriosa realidade que o cercava, o Sr. Washington Luis retira-se do Palácio Guanabara! O presidente deposto saindo em companhia do cardeal Sebastião Leme foi conduzido ao Forte de Copacabana onde seencontra preso / O GLOBO, 24 de outubro de 1930

O título: Rendido afinal á gloriosa realidade que o cercava, o Sr. Washington Luis retira-se do Palácio Guanabara! O presidente deposto, saindo em companhia do cardeal Sebastião Leme, foi conduzido ao Forte de Copacabana onde se encontra preso. A legenda: O automóvel do Palacio Presidencial quando deixava o Guanabara, conduzindo o Sr. Washington Luís, que se vê de mão ao queixo, cabeça pendente, e tendo a sua direita S.E. o Cardeal D. Sebastião Leme  / O GLOBO, 24 de outubro de 1930

 

O Mais eloquente documento histórico da deposição do Sr. Washington Luis / O GLOBO, 25 de outubro de 1930

O mais eloquente documento histórico da deposição do Sr. Washington Luis / O GLOBO, 25 de outubro de 1930

 

A seguir, o texto publicado em O GLOBO, 25 de outubro de 1930, abaixo da fotografia:

Tivemos a rara felicidade de conseguir, hontem, o instantâneo photographico de um episódio central do movimento pacificador da família brasileira, tomada com grande senso jornalístico e especialmente para o GLOBO. Trata-se do mais precioso flagrante da retirada do Sr. Washington Luis do Palácio Guanabara, já apeado do poder e preso o ex-chefe do governo que, por uma questão de mórbida vaidade e de volúpia despótica atirou o paiz no perigo de uma guerra civil de consequências incalculáveis.

Mas o Exercito Brasileiro foi até onde a disciplina começava a confundir-se com a sua transformação em instrumento de uma defesa pessoal agressiva contra a Nação.  E a Nação logo lhe estendeu os braços na formidável explosão de enthusiasmo e desapego de hontem, ora correndo para as fileiras pacificadoras, ora tomando iniciativas de justiçamento summario, sem excessos de penalidades nem de outros prejuízos além dos que a sua sentença soberana limitava. Ao embate decisivo o autocrata caiu, vendo em torno o vácuo e a solidão porque a dignidade brasileira só o podia cercar das garantias e da indulgência humana que não lhe faltaram até no momento mais extremo.

E eil-o que hai vae vencido em sua megalomania, tão arrogantemente caracterizada até nas suas derradeiras e inúteis atitudes. 

E eil-o  hai vae, no automóvel, sob a guarda do Exercito, abrigado à sombra do manto misericordioso de S Eminência o cardeal Sebastião Leme, a face amparada à  mão esquerda, a fronte pendente como nunca o viramos, remoendo a raiva impotente do desmoronamento.

É um documento historico da mais expressiva eloquencia na sua mudez essa fotografia que o GLOBO estampou, com extraordinario exito, em sua 3ª edição de hontem, rapidamente exgotada, razão pela qual a reproduzimos hoje, á vista da insistência dos pedidos que recebemos neste sentido. É um documento único e cujo valor não será mais preciso exaltar. Contemple-o o povo e fique elle para sempre como advertência vehemente ao futuro da nacionalidade e à precariedade dos caprichos humanos”.

 

Washington Luís – deposição, exílio e morte

 

“A Revolução de 30 foi um movimento armado, iniciado em 3 de outubro de 1930, com o objetivo imediato de derrubar o governo Washington Luís e impedir a posse de Júlio Prestes, eleito presidente da República em 1º de março de 1930. O movimento tornou-se vitorioso em 24 de outubro e Getulio Vargas assumiu o cargo de presidente provisório no dia 3 de novembro. As mudanças políticas, sociais e econômicas que tiveram lugar na sociedade brasileira no pós-1930 fizeram com que esse movimento revolucionário fosse considerado o marco inicial da Segunda República no Brasil “.

(Equipe da Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC, 2023).

 

 

Em 24 de outubro de 1930, os generais Alfredo Malan d’Angrogne (1873 – 1932), Augusto Tasso Fragoso (1869 – 1945) e João de Deus Mena Barreto (1874-1933) entraram no Palácio Guanabara e foram para a sala onde se encontrava o presidente Washington Luís e a alta cúpula do governo. Washington Luís se recusava a sair e só, por volta das 17 horas, com a mediação do cardeal Sebastião Leme (1882 – 1942), consentiu em se retirar, na condição de prisioneiro, pois não havia renunciado. A junta governativa que assumiu o poder, composta pelos generais Tasso Fragoso e Mena Barreto e pelo contra-almirante José Isaías de Noronha (1874 – 1966), determinou, sem êxito, que os revolucionários depusessem as armas. Entretanto, apesar de respeitarem a ordem de cessação dos combates, os destacamentos rebeldes continuaram avançando em direção ao Rio de Janeiro, forçando a junta a entregar o poder no dia 3 de novembro a Getúlio Vargas, chefe da revolução vitoriosa (Atlas Histórico do Brasil FGV).

 

 

A bordo do navio Alcântara, Washington Luís partiu do Brasil rumo à Europa, em 20 de novembro de 1930. O ex-prefeito do Rio de Janeiro, Antônio Prado Junior (1880 – 1955), seguiu para a Europa no mesmo navio  (Correio da Manhã, 21 de novembro de 1930). Mais uma vez o O GLOBO conseguiu produzir um trabalho fotográfico classificado pelo próprio jornal como sensacional pelo seu valor e ineditismo. A equipe que fazia a cobertura do evento teve, inclusive, a máquina fotográfica confiscada por um capitão na Fortaleza de São João, mas algumas das chapas sensibilizadas já haviam sido escondidas e foram publicadas ainda no dia 20 de novembro.

 

O GLOBO, 20 de novembro de 1930

O GLOBO, 20 de novembro de 1930, primeira edição

 

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O GLOBO, 20 de novembro de 1930, primeira edição

 

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O GLOBO, 20 de novembro de 1930, segunda edição

 

O presidente deposto viveu na França, na Suíça, em Portugal e nos Estados Unidos. Em 18 de setembro de 1947, retornou ao Brasil, mas não à política (O Jornal, 19 de setembro de 1947O Cruzeiro, 20 de setembro de 1947).

 

 

Foi morar em São Paulo e dedicou-se a estudar História. Foi membro dos institutos Histórico e Geográfico da Bahia, do Ceará e de São Paulo, membro benemérito da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, presidente honorário da Cruz Vermelha Brasileira, integrante da Academia Paulista de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Faleceu em São Paulo, no dia 4 de agosto de 1957. Nasceu em Macaé, no Rio de Janeiro, em 26 de outubro de 1869. Antes de ser presidente do Brasil, havia sido prefeito, governador e senador de São Paulo, de 1914 a 1919, de 1920 a 1924 e de 1925 a 1926, respectivamente.

 

 O GLOBO

 

 

Capa da primeira edição de O GLOBO, 29 de julho de 2025

Capa da primeira edição de O GLOBO, 29 de julho de 1925

 

Para escolher o nome do seu novo jornal, Irineu Marinho promoveu um concurso, cujo resultado foi anunciado em 20 de junho de 1925. Correio da Noite foi o nome mais votado, mas esse título já era patenteado. O segundo nome mais votado, O GLOBO, foi adotado. Como já mencionado, o jornal foi fundado em 29 de julho de 1925.

Após o falecimento de Irineu Marinho, em 21 de agosto de 1925, O GLOBO passou a ser dirigido pelo jornalista Eurycles de Matos (1894-1931), amigo de confiança do fundador. Roberto Marinho era, na época, secretário particular de seu pai e repórter do jornal. Somente assumiu a direção de O GLOBO, em 8 de maio de 1931, três dias após a morte de Eurycles. Ele exerceu o cargo até sua morte, em agosto de 2003.

 

 

 

 

 

*A informação da autoria da foto e do tiro de magnésio consta no Boletim da ABI, outubro de 1974 e no Boletim da ABI, março e abril de 1975, página 7, penúltima coluna. Foi acrescentada neste artigo em 4 de abril de 2026.

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Acervo Digital de O GLOBO

Arquivo Nacional – Centro de Referência de Acervos Presidenciais

Atlas Histórico do Brasil FGV

Fernandes, Letícia. Era Vargas: Um jovem repórter consegue a foto histórica in O GLOBO, 28 de junho de 2015.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

EQUIPE DA ESCOLA DE CIÊNCIAS SOCIAIS FGV CPDOC. Novos acervos: Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC, in Brasiliana Fotográfica, 25  de junho de 2023.

Site FGV CPDOC

Site Memória O GLOBO

Série “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” IV – Os 100 anos dos Diários Associados

Hoje os Diários Associados, que já foram o maior conglomerado de mídia do Brasil, completam 100 anos. Foi em 2 de outubro de 1924 que O Jornal, primeiro órgão de comunicação dos Diários foi comprado pelo empresário paraibano Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Melo (1892-1968).

 

 

O acervo fotográfico dos Diários Associados – Rio de Janeiro foi incorporado, em 2016, por uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles (IMS). O conjunto adquirido pelo IMS possui cerca de 700 mil fotografias e 300 mil negativos com imagens produzidas para o já mencionado O Jornal; para o Diário da Noite, fundado por Chateaubriand, em 1929; e para o Jornal do Commercio, fundado em 1827 e adquirido pelo grupo em 1959. Também possui fotos produzidas pela Agência Meridional, primeira agência de notícias do Brasil, fundada em 1931.

 

Acessando o link para as imagens do Arquivo dos Diários Associados pertencentes ao Instituto Moreira Salles e de dois registros de Assis Chateaubriand que pertencem à Fundação Biblioteca Nacional e que estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Pequeno histórico de O Jornal, primeiro órgão de comunicação dos Diários Associados

 

 

Francisco de Assis Chateaubriand Bandeira de Mello, conhecido como Chatô, comprou, em 2 de outubro de 1924, O Jornal, fundado em 17 de junho de 1919, por Renato Toledo Lopes e um grupo de dissidentes do Jornal do Commercio. Seu nome, O Jornal, foi uma provocação: era assim que o Jornal do Commercio era chamado internamente. O Jornal tornou-se o primeiro veículo de comunicação dos Diários Associados, um dos maiores conglomerados da história da imprensa brasileira (O Jornal, 2 de outubro de 1924, primeira coluna).

 

 

Chateaubriand fez várias inovações, tanto na linha editorial – substituindo os longos artigos por reportagens, separando claramente informações e comentários. Também mudou a diagramação, reorganizando a paginação gráfica e as técnicas de ilustração.

Seus primeiros diretores foram A. Cruz Santos e o próprio Chateaubriand. Sabóia de Medeiros (18?-19?) era o redator-chefe, mas foi logo substituído por Austregésilo de Athayde (1898-1993), grande amigo de Chatô, que permaneceu por toda sua vida nos DA. O ex-presidente da República, Epitácio Pessoa (1865-1942), era o presidente da empresa e Alfredo Pujol (1865-1930) e Rodrigo Melo Franco de Andrade (1898-1969), seus diretores. Entre os colaboradores do matutino estavam Alceu Amoroso Lima (Tristão de Athayde) (1893-1983), Capistrano de Abreu (1853-1927), Pandiá Calógeras (1870-1934), Humberto de Campos (1886-1934), Paulo de Castro Maya (1895-1928), Carlos de Laet (1847-1927) e Ferdinando Laboriau (1893-1928). Na área internacional, colaboravam  Ruddyard Kipling (1865-1936), prêmio Nobel de Literatura; o ex-premier francês Raymond Poincaré (1860-1934), e o também ex-premier britânico Lloyd George (1863-1945).

 

 

Fechou suas portas, em 28 de abril de 1974, quando publicou sua 16.123ª edição. Alberico de Souza Cruz (1938 – 2022) foi o último secretário de redação. O único voto contrário ao fim do jornal, na Assembleia Geral Extraordinária, foi de Austregésilo de Athayde (1898 – 1993). Chegava ao fim o órgão pioneiro e líder dos Diários Associados (RJ).

 

Diários Associados – acervos fotográficos no Instituto Moreira Salles

 

 Agência Meridional de Notícias (1931 – ) 

A Agência Meridional de Notícias foi fundada em agosto de 1931 e foi a primeira agência de notícias do Brasil. O principal objetivo de Chateaubriand era otimizar e racionalizar entre os jornais de seu conglomerado o intercâmbio de textos e fotos. Seria mais barato que as notícias das editorias nacional, de economia e internacional tivesses tanto sua produção tanto centralizada como compartilhada. Assim, os jornais se ocupariam da cobertura local. Ainda em 1931, Chateaubriand comprou o Diário de Pernambuco (Recife), o mais antigo jornal brasileiro em circulação; e fundou o Diário da Tarde (Belo Horizonte). Na ocasião, já faziam parte dos Diários Associados o Diário da Noite (edições Rio e SP)Diário de Notícias (Porto Alegre),  o Diário de S. Paulo, Estado de Minas (Belo Horizonte) e O Jornal (Rio de Janeiro). Chateaubriand também já era proprietário das revistas A Cigarra O Cruzeiro e das juvenis Detetive O Guri. Foi pela Agência Meridional que o repórter Joel Silveira (1918 – 2007) foi enviado para cobrir a campanha dos pracinhas da FEB na Segunda Guerra Mundial com a seguinte recomendação de Chateaubriand, que se tornou famosa: “Mas não me morra, seu Joel! Repórter é pra mandar matéria, não pra morrer!Em 2007, a Agência Meridional passou a usar nome de D.A. Press. 

Diário da Noite (RJ) (1929 – 1973) 

Em 5 de outubro de 1929, lançamento do Diário da Noite, do Rio de Janeiro, que, feito em duas semanas, no mesmo mês de seu lançamento já havia conquistado entre 60 e 80 mil leitores. Complementava o matutino O Jornal, também de Assis Chateaubriand e tinha duas edições diárias, a primeira saía às 15h. Era dirigido por Chateaubriand, Cumplido de Sant´Anna e Frederico Barata. Apresentava-se como um membro da vanguarda do movimento liberal. Opunha-se ao regime oligárquico da República Velha e defendia a Aliança Liberal. Foi nesse jornal que Nelson Rodrigues escreveu folhetins usando o pseudônimo de Susana Flag. Teve como colaborares Antônio Maria (1921 – 1964), Sérgio Porto (1923-1968), o Stanislaw Ponte Preta e o humorista Aparício Torelly (1895 – 1971), dentre outros. Circulou até junho de 1973.

 

Jornal do Commercio (RJ) (1827 – 2016) 

Assis Chateaubriand comprou o Jornal do Commercio de San Tiago Dantas, em 2 de abril de 1959. Instalado na rua Sacadura Cabral nº 103, passou a ser dirigido por Carlos Rizzini, e voltou à linha editorial conservadora, enfatizando o noticiário econômico, dirigido aos empresários do Rio de Janeiro. O Jornal do Commercio havia sido fundado em 31 de agosto de 1827, pelo tipógrafo e livreiro francês Pierre Plancher (1779 – 1844). Sua primeira edição, com quatro páginas, circulou no Rio de Janeiro em 1º de outubro do mesmo ano. No dia 29 de abril de 2016, foi para as ruas a sua última edição. Era o segundo periódico diário mais antigo do Brasil, perdendo apenas para o Diário de Pernambuco, o mais antigo jornal da América Latina, fundado em 7 de novembro de 1925. Seu presidente era Mauricio Dinepi (1953 – 2025).

 

O Jornal (1919 – 1974)

Em 1924, Assis Chateaubriand comprou O Jornal, fundado em 1919o primeiro elo e o órgão líder da cadeia dos Diários Associados. Nele, Chateaubriand fez várias inovações, tanto na linha editorial – substituindo os longos artigos por reportagens, separando claramente informações e comentários – como em sua diagramação – reorganizando a paginação gráfica, do colunismo e das técnicas de ilustração. Fechou suas portas em 28 de abril de 1974, quando publicou sua 16.123ª edição. Alberico de Souza Cruz foi o último secretário de redação. O único voto contrário ao fim do jornal, na Assembleia Geral Extraordinária, foi de Austregésilo de Athayde. Chegava ao fim o órgão líder dos Diários Associados.

 

 

 

Artigos publicados na Brasiliana Fotográfica com fotografias do acervo dos Diários Associados

Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 30 de maio de 2018.

 

 

 

A Casa dos Artistas nos Diários Associados, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 26 de agosto de 2019.

 

 

 

O Rei Momo por Jean Manzon e por outros fotógrafos dos Diários Associados, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 3 de fevereiro de 2023.

 

 

Brevíssimo perfil de Assis Chateaubriand e dos Diários Associados

 

A imprensa brasileira pode ser dividida em duas fases: antes e depois de Assis Chateaubriand. Conhecido como Chatô e nascido em 4 de outubro de 1892, em Umbuzeiro, tornou-se um magnata das comunicações no Brasil. Foi considerado o Cidadão Kane brasileiro, uma alusão ao filme homônimo de Orson Welles (1915-1985), supostamente baseado na vida do empresário norte-americano William Randolph Hearst (1863-1951), criador de uma enorme rede de jornais em seu país.

Chateaubriand foi uma personalidade polêmica e controversa e um dos mais poderosos e influentes homens públicos da história do país. Em seu auge, os Diários Associados chegaram a ter mais de cem jornais, emissoras de televisão e rádio, revistas e agência telegráfica. Um verdadeiro império de mídia.

Além de jornalista, Chatô foi advogado, embaixador, escritor, mecenas e político. Em 30 de dezembro de 1954, foi eleito para ocupar a cadeira 37 da Academia Brasileira de Letras, sucedendo Getúlio Vargas (1882-1954).  Tomou posse em 27 de agosto de 1955.

 

 

Uma das revistas do império de Chateaubriand, a O Cruzeiro, foi muito importante na história da fotografia no Brasil, tendo dignificado a profissão de repórter fotográfico. Foi publicada pela primeira vez, em 10 de novembro de 1928, e, entre as décadas de 40 e 50, pela utilização de fotografias, enfatizando o fotojornalismo, e por seu conteúdo e projeto gráfico arrojados, representou uma revolução no mercado editorial brasileiro. Seu primeiro diretor foi Carlos Malheiros Dias (1875 – 1941), sucedido por Antônio Accioly Neto (1906-2001) e José Amádio (1923-1992). Dentre importantes fotógrafos que atuaram na revista, destacamos Flávio Damm (1928-2020), Henri Ballot (1921-1997), Jean Manzon (1915-1990), José Medeiros (1921-1990), Luciano Carneiro (1926 – 1959) e Peter Scheier (1908-1979). Em julho de 1975, a revista deixou de circular.

 

 

Chatô fundou o Museu de Arte de São Paulo (MASP), inaugurado em 2 de outubro de 1947. O  crítico e marchand italiano Pietro Maria Bardi (1900-1999), parceiro de Chateaubriand na criação do museu, assumiu sua direção, cargo que ocupou até 1990. As primeiras obras de arte do museu foram selecionadas por Pietro e adquiridas a partir de doações. O museu foi instalado, inicialmente, no prédio,  na época ainda não finalizado, que abrigaria a sede dos Diários Associados, na Rua 7 de Abril, no centro de São Paulo.

 

 

Em 7 de novembro de 1968, o MASP foi transferido para a Avenida Paulista, sua sede atual, projeto arquitetônico arrojado da romana naturalizada brasileira Lina Bo Bardi (1914-1992), casada com Pietro desde 1946, ano em que vieram para o Brasil. O MASP possui o mais importante acervo de arte europeia do hemisfério sul. A coleção do museu reúne mais de 11 mil obras, incluindo esculturas, fotografias, objetos, pinturas e vestuários de diversos períodos, abrangendo a produção africana, asiática, europeia e das Américas.

 

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O MASP por Hans Gunter Flieg (1923-2024), 1968 / Acervo IMS

 

Chatô foi também o responsável pela chegada da televisão ao Brasil quando, em 18 de setembro de 1950, inaugurou a primeira emissora de TV do país, a PRF-3, TV Tupi de São Paulo, no chamado Palácio do Rádio. Participaram da cerimônia o próprio Chateaubriand, o bispo Dom Paulo Rollim Loureiro (1908 – 1975)  e a poetisa Rosalina Coelho Lisboa (1900-1975). À noite, numa festa no Automóvel Clube, autoridades e convidados assistiram à primeira transmissão. Existiam menos de mil aparelhos receptores de TV. Com apenas três câmeras e com profissionais como Cassiano Gabus Mendes (1927 – 1993), Homero Silva (1918-1981), Walter Avancini (1935-2001) e Walter Forster (1917-1996), começava a história da TV brasileira. A TV Tupi saiu do ar em 17 de julho de 1980.

 

World Tv: TV Tupi. A Pioneira!

 

A TV Pioneira do Brasil - A História da Tupi

Assista aqui a primeira vinheta da TV Tupi 

 

Ao longo da década de 50, Chateaubriand foi senador da República pela Paraíba e pelo Maranhão. Em 1957,  renunciou ao cargo porque foi nomeado pelo presidente Juscelino Kubitschek (1902-1976) embaixador do Brasil na Inglaterra. Porém ficava mais tempo no Brasil do que na Inglaterra, fato muito criticado por diplomatas de carreira e também pelos jornais que faziam oposição a ele.  O posto era exercido de fato pelo diplomata Antônio Castello Branco (1916-2001).

 

 

Em 26 de setembro de 1959, Chateaubriand assinou uma escritura pública doando a 22 empregados 49% do controle acionário dos Diários e Emissoras Associados, então o maior império de comunicações da América Latina. Estava criado o Condomínio Acionário Diários e Rádios Associados. Na época, o conglomerado era composto pelas duas revistas mais importantes do país dirigidas a adultos, 12 revistas infantis, dezenas de jornais, 28 estações de rádio, seis estações de televisão, agências de notícias e agências de propaganda (O Jornal, 27 de setembro de 1959, primeira coluna).

Em fevereiro de 1960, Chatô foi levado para a Clínica Doutor Eiras, sob suspeita de enfarte. Foi atendido por um jovem médico que chamou o neurocirurgião Abrahão Ackerman, um dos donos do hospital. Após examiná-lo, constatou que Chateaubriand havia sofrido uma trombose cerebral dupla e que não iria sobreviver (O Jornal, 25 de fevereiro de 1960, primeira coluna; O Cruzeiro, 9 de abril de 1960). Ficou hospitalizado até fim de agosto de 1960 e viveu mais 8 anos (O Jornal, 4 de setembro de 1960, última coluna). Comunicava-se por balbucios e usava uma máquina de escrever adaptada. Continuou, mesmo paraplégico e impossibilitado de falar, a escrever seus artigos. O primeiro após a doença, Compromisso de Sangue, foi publicado em O Jornal de 4 de setembro de 1960.

 

 

 

Em julho de 1962, doou os 51% restantes das ações e quotas que possuía dos Diários e Emissoras Associados aos seus auxiliares, que já haviam recebido os primeiros 49%. Seus filhos foram excluídos desta segunda partilha.

Teve um colapso cardíaco e faleceu, em São Paulo, no Hospital Santa Catarina, em 4 de abril de 1968. Foi velado, no saguão do prédio dos Diários Associados em São Paulo (O Jornal, 5 de abril e 6 de abril de 1968). Pietro Maria Bardi mandou colocar telas do MASP em torno do caixão de Chatô. Também escreveu o artigo Chateaubriand fundador de museus, publicado em O Cruzeiro de 20 de abril de 1968. O sepultamento do Velho Capitão, título criado para ele pelo repórter David Nasser (1917-1980)foi realizado, no dia 6 de abril, no Cemitério do Araçá, em São Paulo.

João Calmon (1916-1999), que era vice-presidente do condomínio acionário dos Diários Associados desde 1962, tornou-se presidente da empresa. Na época, ela era constituída pelos seguintes órgãos: 1) os diários O Jornal (Rio), Jornal do Comércio (Rio), Diário de S. Paulo (S. Paulo), Diário da Noite (S. Paulo), Diário dos Esportes (S. Paulo), O Diário (Santos-SP), O Estado de Minas (Belo Horizonte), Diário da Tarde (Belo Horizonte), Diário Mercantil (Juiz de Fora-MG), Diário da Tarde (Juiz de Fora-MG), Diário de Notícias (Porto Alegre), A Razão (Santa Maria-RS), Estado da Bahia (Salvador), Diário de Notícias (Salvador), Diário de Aracaju (Aracaju), Diário de Pernambuco (Recife), O Norte (João Pessoa), Diário de Borborema (Campina Grande-PB), Diário de Natal (Natal), O Poti (Natal), A Província do Pará (Belém), Correio do Ceará (Fortaleza), Unitário (Fortaleza), O Imparcial (S. Luís), Jornal do Comércio (Manaus), A Nação (Florianópolis), Jornal de Joinville (Joinville-SC), Jornal de Alagoas (Maceió), Folha de Goiás (Goiânia), Diário do Paraná (Curitiba), Monitor Campista (Campos-RJ), Correio Brasiliense (Brasília), O Rio Branco (Rio Branco), Alto Madeira (Porto Velho-RO), Diário da Serra (Campo Grande-MS); 2) as revistas O Cruzeiro, O Guri, A Cigarra, Luluzinha, Bolinha, Brasinha, Gasparzinho, Aventura, Gurilândia, Pré-Estreia, Manda-Chuva, Os Flinstones, Os Jetsons, Pimentinha, Zé Colméia, Combate, Homem no Espaço, Galáxia; 3) as emissoras Rádio Tupi (Rio), Rádio Tamoio (Rio), Rádio Difusora (S. Paulo), Rádio Tupi (S. Paulo), Rádio Cultura (S. Paulo), Rádio Guarani (Belo Horizonte), Rádio Mineira (Belo Horizonte), Rádio Sociedade (Juiz de Fora-MG), Rádio Farroupilha (Porto Alegre), Rádio Sociedade da Bahia (Salvador), Rádio Clube de Pernambuco (Recife), Rádio Tamandaré (Recife), Rádio Borborema (Campina Grande-PB), Rádio Cariri (Campina Grande-PB), Rádio Poti (Natal), Rádio Marajoara (Belém), Ceará Rádio Clube (Fortaleza), Rádio Araripe (Crato-CE), Rádio Gurupi (S. Luís), Rádio Baré (Manaus), Rádio Progresso (Maceió), Rádio Vitória (Vitória), Rádio Difusora (Teresina), Rádio Clube de Goiânia (Goiânia), Rádio Planalto (Brasília); 4) as emissoras de televisão TV Tupi (Rio), TV Tupi (S. Paulo), TV Cultura (S. Paulo), TV Ribeirão Preto (Ribeirão Preto-SP), TV Itacolomi (Belo Horizonte), TV Alterosa (Belo Horizonte), TV Mariano Procópio (Juiz de Fora-MG), TV Piratini (Porto Alegre), TV Itapoan (Salvador), TV Rádio Clube (Recife), TV Borborema (Campina Grande-PB), TV Marajoara (Belém), TV Rádio Clube (Fortaleza), TV Vitória (Vitória), TV Rádio Clube (Goiânia), TV Paraná (Curitiba), TV Coroados (Londrina-PR), TV Brasília (Brasilia); e 5) as agências: Agência Meridional (de notícias, com matriz no Rio e sucursais em todo o Brasil) e SIRTA Serviços de Imprensa, Rádio e Televisão Associados (de publicidade, com matriz no Rio e filiais em todo o Brasil) (CPDOC).

Foi também na década de 60, que o império formado por Chateaubriand começou a decair. Após sua morte, deflagrou-se uma crise nos Diários Associados entre João Calmon e um de seus filhos, Gilberto Chateaubriand (1925-2022), devido a divergências relativas aos rumos da empresa. Desde maio de 2023, o Condomínio Acionário dos Diários Associados é presidido pelo jornalista Josemar Gimenez (1964-).

Acesse aqui a edição de O Cruzeiro, de 20 de abril de 1968, com uma homenagem a Assis Chateaubriand.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BARROS, Maria Pia Fontes Lins de; WANDERLEY, Andrea C. T. Agenda do Centro de Documentação da TV Globo

CARNEIRO, Glauco. Brasil, primeiro: História dos Diários Associados. Brasília : DF. Fundação Assis Chateaubriand, 1999.

G-1

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

IstoÉ, 10 de maio de 2023

MORAIS, Fernando. Chatô – O Rei do Brasil. Cia das Letras: São Paulo, 1994.

O Jornal, órgão líder dos Diários Associados / Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro. Secretaria, 2007 (Cadernos da Comunicação Série Memória – vol 18).

Revista da USP

Site Academia Brasileira de Letras

Site CPDOC 

Site Diários Associados

Site São Paulo infoco

Veja, 3 de agosto de 1994

No Dia do Repórter Fotográfico, destaque para o “Marco no fotojornalimo brasileiro: a seca no Ceará é documentada com fotografias”

No Dia do Repórter Fotográfico, a Brasiliana Fotográfica republica o Marco no fotojornalimo brasileiro: a seca no Ceará é documentada com fotografias. O assunto do artigo, originalmente publicado no portal em 12 de julho de 2015, é a veiculação de duas fotos de vítimas da maior seca nordestina do século XIX, na revista O Besouro, uma das iniciativas pioneiras da imprensa brasileira na utilização de fotografias como documentos comprobatórios de um fato, estabelecendo uma relação entre a narrativa escrita e o registro fotográfico. O autor das imagens, pertencentes ao acervo da Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras do portal, foi Joaquim Antônio Correia, cujo ateliê ficava em Fortaleza, no Ceará.

Para os leitores interessados em fotojornalismo, destacamos o portal Testemunha Ocular, uma iniciativa do Instituto Moreira Salles, instituição fundadora da Brasiliana Fotográfica, para preservar e difundir o passado e o presente do Fotojornalismo brasileiro; e também a exposição Evandro Teixeira. Chile 1973, em cartaz até 13 de novembro de 2023, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.

 

Marco no fotojornalimo brasileiro: a seca no Ceará é documentada com fotografias

 

J.A. Correia. Secca de 1877-78, 1877-1878. Ceará / Acervo FBN

J.A. Correia. Secca de 1877-78, 1877-1878. Ceará / Acervo FBN

 

Segundo o trabalho “Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira”, dos pesquisadores Joaquim Marçal Ferreira de Andrade e Rosângela Logatto, a publicação de fotos de vítimas da maior seca nordestina do século XIX foi uma das iniciativas pioneiras da imprensa brasileira na utilização de fotografias como documentos comprobatórios de um fato (Anais da Biblioteca Nacional, vol 114, de 1994, p.71-83).

Para denunciar a tragédia, o chargista português Rafael Bordalo Pinheiro (1846 – 1905) publicou, em 20 de julho de 1878, em uma ilustração da revista O Besouro, duas fotos que fazem parte de um conjunto de 14 registros fotográficos de vítimas da seca ocorrida entre 1877 e 1878. Porém, não foi dado crédito para o autor das fotos, Joaquim Antônio Correia, cujo ateliê ficava em Fortaleza, no Ceará.

Link para O Besouro de 20 de julho de 1878, ano I, n.16

Esse conjunto de fotografias pertence, atualmente, ao acervo da Biblioteca Nacional.  São imagens chocantes, em formato de cartes de visite, e retratam crianças, homens e mulheres desnutridos e maltrapilhos, de aparência doentia, e, muitas vezes, as fotos, feitas em estúdio, trazem textos rimados que se referem à miséria.

 

Acessando o link para as fotografias de Joaquim Antônio Correia sobre a seca nordestina de 1877/1878 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A publicação da ilustração litográfica das duas fotos sendo seguradas por um esqueleto vestindo paletó, sob o título “Páginas tristes – Scenas e aspectos do Ceará (para S. Majestade, o Sr. Governo e os Senhores Fornecedores verem)”, tinha o objetivo de reforçar denúncias feitas pelo escritor e jornalista José do Patrocínio (1853 – 1905) em artigos publicados no periódico de texto Gazeta de Notícias. Patrocínio fazia, na época, a cobertura jornalística da seca com o principal objetivo de acompanhar a aplicação dos recursos governamentais em seu combate. Partiu em 10 de maio de 1878 e retornou ao Rio de Janeiro, em 12 de agosto do mesmo ano. As matérias foram publicadas, na coluna Folhetim, na primeira página da Gazeta de Notícias, sob o título “Viagem ao Norte” (1).

Mas só o texto não era suficiente. Então, Patrocínio enviou as fotos para a redação da revista O Besouro, para a qual já havia mandado, antes da viagem, o artigo “Sermão de Lágrimas” (O Besouro, edição de 4 de maio de 1878 ), em que tratava, com preocupação, a seca e a situação dos retirantes.

A publicação da ilustração com as fotos de Joaquim Antônio Correia, na revista O Besouro, foi um verdadeiro “anticartão de visita, veemente panfleto que denuncia uma realidade que muitos membros da corte se negavam a enxergar”(“Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira”).

Abaixo, está reproduzido o texto publicado no O Besouro, na página seguinte à ilustração com as fotografias:

“O Ceará

O nosso amigo José do Patrocínio, em viagem por aquela provincia, enviou-nos as duas photographias por que foram feitos os desenhos da nossa primeira página.

São dois verdadeiros quadros de fome e miséria. E´ n´aquelle estado que os retirantes chegam á capital, aonde quasi sempre morrem, apezar dos apregoados soccorros, que segundo informações exactas são distribuídos de maneira improficua.

A nossa estampa da primeira pagina é uma prova cabal áquelles que accusavam de exageração, a pintura que se fazia do estado da infeliz província.

Repare o governo e repare o povo, na nossa estampa, que é a cópia fiel da desgraça da população cearense.

Continuaremos a reproduzir o que o nosso distincto collega nos enviar a tal respeito.”

Uma curiosidade: também dessa viagem ao norte do país originou-se o romance de José do Patrocinio, Os Retirantes, publicado na Gazeta de Notícias, em estilo de folhetim, entre 29 de junho e 10 de dezembro de 1879.

 

(1) – Links para os artigos escritos por José do Patrocínio sob o título “Viagem ao Norte”.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 1º de junho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 6 de junho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 20 de julho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 23 de julho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 3 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 15 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 22 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 30 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 7 de setembro de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 12 de setembro de 1878.

 

Breve cronologia de Joaquim Antônio Correia (18? – ?)

 

seca1

 

1874 – Até este ano, o nome de Joaquim Antônio Correia apareceia no cadastro de contribuintes como dono de uma casa comercial especializada em produtos manufaturados fora da província,que ficava na rua da Palma , nº 17.

1877 - Estabeleceu como fotógrafo na rua Formosa, n° 31. Atuou como retratista por não menos de dez anos e foi contemporâneo de Agio Pio, do prussiano Carlos Frederico Johann Reeckell, do dinamarquês Niels Olsen (1843 – 1911) associado ao austríaco Constantino Barza, do francês Baubrier e de Francisco Brandão, dentre outros.

 

 

1878 – Defendeu-se da acusação de comercializar indevidamente retratos que produzia de moças de família e ameaçou pendurar de cabeça para baixo os retratos de seus devedores (O Cearense, 12 de maio de 1878).

Em maio, conheceu o escritor José do Patrocínio (1853 – 1905), que havia ido para o Ceará para conhecer mais de perto a tragédia da seca. Voltando para o Rio de Janeiro, publicou duas fotos da seca no Ceará de autoria de Correia, na revista O Besouro, de 20 de julho de 1878, do chargista português Rafael Bordallo Pinheiro (1846 – 1905). Foi uma das iniciativas pioneiras da imprensa brasileira na utilização de fotografias como documentos comprobatórios de um fato. Foi um marco na história do fotojornalismo brasileiro.

A publicação da ilustração litográfica das duas fotos sendo seguradas por um esqueleto vestindo paletó, sob o título “Páginas tristes – Scenas e aspectos do Ceará (para S. Majestade, o Sr. Governo e os Senhores Fornecedores verem)”, tinha o objetivo de reforçar denúncias feitas por do Patrocínio em artigos publicados no periódico de texto Gazeta de Notícias. Patrocínio fazia, na época, a cobertura jornalística da seca com o principal objetivo de acompanhar a aplicação dos recursos governamentais em seu combate. Partiu em 10 de maio de 1878 e retornou ao Rio de Janeiro, em 12 de agosto do mesmo ano. As matérias foram publicadas, na coluna Folhetim, na primeira página da Gazeta de Notícias, sob o título “Viagem ao Norte”. Mas só o texto não era suficiente. Então, Patrocínio enviou as fotos para a redação da revista O Besouro, para a qual já havia mandado, antes da viagem, o artigo “Sermão de Lágrimas” (O Besouro, edição de 4 de maio de 1878 ), em que tratava, com preocupação, a seca e a situação dos retirantes.

1881 – Seu estúdio fotográfico dispunha de um grande sortimento de quadros de gosto…máquinas de 4 objetivas…e tudo por preço tão diminuto que admira.

 

 

1883 / 1884 – Antes da assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, Fortaleza, em 24 de maio de 1883, tornou-se a primeira capital brasileira a libertar todos os escravizados. No ano seguinte, em 25 de março de 1884, o Ceará passou a ser o primeiro estado brasileiro a extinguir a escravidão. Correia documentou os líderes da luta escravagista em fotos chamadas de Retratos Libertadores e, em 1883, as comercializava.

 

O Libertador, de 1887

O Libertador,  9 de maio de 1883 / História da fotografia no Ceará do século XIX

 

1885 – Correia anunciou que havia adquirido, em Paris, uma nova máquina para retratos instantâneos (O Cearense, de 28 de julho de 1885, última coluna).

1886 – Anunciava que em seu estabelecimento fotográfico tirava-se retratos pelos processos mais aperfeiçoados (O Libertador, 8 de junho de 1886, última coluna).

1892 – Provavelmente continuou trabalhando como fotógrafo até este ano.

Em 29 de dezembro, inaugurou a primeira fábrica de louças do Ceará, no Boulevard da Conceição (A República, 28 de dezembro de 1892, quarta coluna).

1893 – Anunciou a venda de seu estúdio fotográfico:

“Joaquim Antonio Correia vende a sua fotografia constando de boas lentes, drogas, punsas, etc. A tratar: Rua Formosa, nº 31″ (A República, 30 de maio de 1893). Residia na rua Floriano Peixoto, nº 95.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira de; LOGATTO, Rosângela. Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira Anais da Biblioteca Nacional, vol 114, de 1994, p. 71-83.

BEZERRA, Ari Leite. História da fotografia no Ceará do século XIX. Edição do autor, 2019.

Fundação Palmares

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

Link para o artigo 500 mil mortos: a tragédia esquecida que dizimou brasileiros durante 3 anos no século 19, de Camilla Veras Mota, Camila Costa e Cecilia Tombesi publicada no site da BBC, em 18 de junho de 2021, com as fotografias de Joaquim Antonio Corrêa.*

 

*Esse link foi acrescentado no artigo em 19 de junho de 2021.

**Essa breve cronologia foi inserida em 19 de abril de 2022.

Série “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” III e Série “Carnavais de antigamente” VII – O Rei Momo por Jean Manzon e por outros fotógrafos dos Diários Associados

Neste artigo a Brasiliana Fotográfica vai contar um pouco da história do Rei Momo do carnaval carioca a partir de uma imagem produzida pelo importante fotógrafo francês Jean Manzon (1915 – 1990), responsável pela renovação do fotojornalismo brasileiro na década de 1940. A foto destacada foi publicada no Diário da Noite, de 31 de dezembro de 1948, na ocasião do falecimento do primeiro Rei Momo, Francisco de Moraes Cardoso (1893 – 1948). No registro, de 28 de fevereiro de 1946, ele está na coroação realizada, no Teatro João Caetano, da vedete Mara Rubia (1918 – 1991), eleita dias antes Rainha do Baile do Carnaval das Atrizes de 1946 (Diário da Noite, 21 de fevereiro de 1946, sétima coluna). Vamos também traçar um pequeno perfil de Manzon. Foi em 3 de fevereiro de 1934 que o carnaval carioca foi aberto pela primeira vez por um Rei Momo de carne e osso.

 

 

 

momo

 

 

Os Diários Associados e a importância da preservação de um arquivo fotográfico de imprensa

 

Pela terceira vez uma imagem dos Diários Associados – Rio de Janeiro -, que foi incorporado, em 2016, ao acervo fotográfico de uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles (IMS), é o destaque de uma publicação do portal. Esse conjunto de fotos dos Diários Associados, que já foram o maior conglomerado de mídia do Brasil, possui cerca de 700 mil fotografias e 300 mil negativos com imagens produzidas para O Jornal, primeiro órgão dos Diários, comprado por Assis Chateaubriand (1892 – 1968), em 1924; para o Diário da Noite, fundado por ele, em 1929; e para o Jornal do Commercio, fundado, em 1827, e adquirido pelo grupo em 1959.

Mais uma vez destacamos a relevância da preservação de um arquivo fotográfico de imprensa mesmo que as imagens estejam disponíveis em plataformas como a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, uma das mais importantes fontes de pesquisa do portal. Com a preservação, as fotografias podem, a partir de recursos tecnológicos, como a digitalização e o zoom, terem outra visibilidade e serem acessadas em sua qualidade plena.

 

Acessando o link para as fotografias do Rei Momo publicados em jornais cariocas dos Diários Associados e disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Pequeno perfil de Jean Manzon (1915 – 1990)

 

O fotógrafo e cineasta Jean Manzon nasceu em Paris, em 2 de fevereiro de 1915. Começou sua carreira, aos 16 anos, no jornal L´Intransigeant. Depois trabalhou nas revistas ilustradas Vu e Match e no vespertino Paris Soir. Também trabalhou para o serviço cinematográfico da Marinha Francesa durante a Segunda Guerra Mundial. Veio para o Brasil, em agosto de 1940, e fixou-se no Rio de Janeiro.

Nos primeiros anos da década de 1940, foi o encarregado pela organização do Setor de Fotografia do Departamento de Imprensa e Propaganda do Estado Novo do presidente Getulio Vargas (1882 – 1954). Manzon tinha a função de produzir material para a divulgação da imagem do Brasil no país e no exterior. Editou pela Força Expedicionária Brasileira a revista Brasil na Guerra.

Atuou em diversas publicações dos Diários Associados, principalmente na revista O Cruzeiro, onde começou a trabalhar em 1943, a convite de Frederico Chateubriand (O Cruzeiro, 10 de julho de 1943), onde permanceu até 1951. Neste período produziu mais de 300 fotorreportagens cujos temas a professora e arquiteta Helouise Costa separou em quatro tópicos: política, personalidades, religião e realidade brasileira. Justamente nas décadas de 40 e 50 as matérias da revista tiveram um forte impacto na formação do imaginário brasileiro abordando, muitas vezes, pela primeira vez, alguns assuntos. Formou com David Nasser (1917 – 1980) uma das duplas mais importantes do jornalismo brasileiro. Juntos percorreram o Brasil de norte a sul e é deles, por exemplo, a matéria Enfrentando os chavantes, reportagem pioneira sobre índios brasileiros (O Cruzeiro, 24 de junho de 1944).

Manzon foi o responsável pela renovação do fotojornalismo no Brasil, implantando em O Cruzeiro, a partir de sua experiência europeia, uma linguagem fotográfica que usava ângulos de baixo para cima e vice-versa, tomadas oblíquas, enfatizando detalhes expressivos e utilizando intencionalmente a cenografia, onde a imagem era meticulosamente arquitetada pelo fotógrafo que, desta forma, construia a imagem. Introduzia assim a fotorreportagem, onde a foto não se limitava a ilustrar o texto, mas transmitia um ponto de vista especificamente visual sobre os fatos e resultava, com o texto, uma narrativa estruturada.

Manzon formou em O Cruzeiro uma equipe de fotógrafos que tornou-se pioneira do fotojornalismo moderno no país. Alguns deles foram Luciano Carneiro (1926 – 1959),  José Medeiros (1921- 1990) e Peter Scheier (1908 – 1979).

Na década de 1950, passou a colaborar com a revista Paris Match. Colaborou também com o jornal Última Hora e com a revista Manchete, em cuja capa do primeiro exemplar, de 26 de agosto de 1952, há uma chamada para Uma grande reportagem de Jean Manzon, intitulada Nem tudo é sombra e água fresca, também se trabalha na Câmara dos Deputados.

Ainda nos anos 50, fundou a empresa cinematográfica Jean Manzon Produções, que realizou mais de 900 documentários. Um deles, L´Amazone, foi premiado com o Leão de Ouro do Festival de Cinema de Veneza, Itália, em 1966. Retornou a Paris e, entre 1968 e 1972, assumiu a direção da Paris Match. É de sua autoria os livros Flagrantes do Brasil (1950) e Mergulho na Aventura (1950), este último em parceria com David Nasser; Brasil (1952) e Féerie Brésilienne (1957), entre outros.

Ele se orgulhava de ser o maior propagandista brasileiro no exterior e acusado, muitas vezes, de não mostrar a realidade do Brasil em seus documentários, declarou, em entrevista no artigo de Sérgio Gomes, Profissão otimista, publicado na Folha de São Paulo de 17 de novembro de 1977:

Folha de São Paulo, 17 de novembro de 1977

Folha de São Paulo, 17 de novembro de 1977

Segundo o poeta Manuel Bandeira (1886 – 1968), na apresentação da segunda edição de Flagrantes do Brasil, a obra de Manzon seria como um retrato de “nossa terra, nossos homens e nossos costumes”. Seu acervo é um dos maiores patrimônios cinematográficos de preservação da história e da memória no Brasil e em toda América Latina produzido por um só artista.

Em junho de 1990, em São Paulo, recebeu a Cruz de Oficial da Legião de Honra da França. Jean Manzon faleceu em Reguengos de Monsaraz, em Portugal, em 1º de julho de 1990, devido a um traumatismo craniano ocasionado por uma queda de uma escada (Jornal do Brasil, 5 de junho de 1990; e 3 de julho de 1990).

 

Um pouco da história do Rei Momo I e Único do carnaval carioca

 

 

Na Mitologia Grega, Momo era o deus da festividade, filho do Sono e da Noite. Por sua irreverência e sarcasmo foi expulso do Olimpo. Na Grécia, registros históricos revelam que os primeiros reis Momos até hoje conhecidos desfilavam em festas de orgia por volta dos séculos 5 ou 4 a.C. Já nas bacanais romanas, os participantes selecionavam um Rei Momo entre os soldados mais bonitos do exército e, ao final da festa, ele era sacrificado em honra do deus Saturno.

A primeira representação do Rei Momo de que se tem notícia no Brasil foi feita pelo caricaturista alemão radicado no Brasil, Henrique Fleiuss (1824 – 1882), e publicada na Semana Illustrada, em 2 de março de 1862, primeira publicação humorística ilustrada da imprensa brasileira. Fundada por Fleiuss, existiu entre 1860 e 1876, e teve como colaboradores Joaquim Nabuco (1849 – 1910) e Machado de Assis (1839 – 1908), dentre outros.

 

 

Até hoje, acredita-se que a primeira representação física do Rei Momo no país tenha acontecido em 21 de junho de 1910 durante a encenação da opereta Cupido no Oriente apresentada no Circo Spinelli. O famoso Benjamim de Oliveira (1870 – 1954), um dos autores da peça ao lado de David Carlos (18?-19?) e o primeiro palhaço negro do Brasil, interpretou Momo. O espetáculo contava com 28 músicas de autoria do maestro Paulino do Sacramento (1880 – 1926) e quatro atos.

 

 

 

 

Em 1933, a Federação das Sociedades Carnavalescas do Rio de Janeiro, a Casa dos Artistas e a Empresa Beira-Mar Cassino organizaram a entrada triunfal do Rei Momo no Rio de Janeiro, que seria uma nota interessantíssima do carnaval. A programação foi apresentada por Cerqueira Lima, representante do Touring Club (A Noite, 20 de dezembro de 1932, penúltima colunaA Noite, 28 de janeiro de 1933, quarta coluna; e 14 de fevereiro de 1933, terceira coluna).

 

“Foi uma ideia feliz essa de se dar, assim, como uma apoteose ao deus da folia, abertura oficial aos folguedos de carnaval”.

A Noite, 15 de fevereiro de 1933

 

 

 

E, em 18 de fevereiro de 1933, desembarcou na cidade um Rei Momo, porém de papelão. Foi esculpido pelo cenógrafo Hipólito Colomb que, com o decorador Jayme Silva, o vestiu. Momo chegou à Praça Mauá a bordo do Mocanguê. A alegoria media 13 metros e era iluminada por 800 lâmpadas elétricas. Houve um desfile na avenida Rio Branco e o rei da folia instalou-se no Cassino Beira-Mar. Foi a diretoria do Lloyd Club que promoveu a luxuosa cerimônia de chegada (A Noite, 15 de fevereiro18 de fevereiro, primeira coluna; 18 de fevereiro, quarta coluna; e 19 de fevereiro, de 1933; Diário da Noite, 18 de fevereiro; e 20 de fevereiro de 1933).

 

 

Como provado por fotos publicadas no jornal A Noite, de 21 de fevereiro de 1933, e na mesma data 3ª edição; e de 23 de fevereiro de 1933, já existia um  Rei Momo de carne e osso em 1933, criado por iniciativa dos jornalistas de A Noite Vasco Lima, Raymundo Magalhães Junior, Edgard Pilar Drummond, pseudônimo Palamenta, que integrava o Centro dos Cronistas Carnavalescos; e do caricaturista Fritz, pseudônimo de Anisio Mota. O escolhido para encarnar o soberano do carnaval carioca foi o cronista de turfe, que também trabalhava no jornal, o carioca Francisco Moraes de Cardoso (1893 – 1948), um tipo bonachão, alegre e com cara de glutão.

 

 

Mas foi no ano seguinte, em 3 de fevereiro de 1934, que o Rei Momo de carne e osso abriu o carnaval do Rio de Janeiro. Chegou na Praça Mauá e seguiu pela Avenida Rio Branco até o Palácio das Festas, onde houve um baile em sua homenagem (A Noite, 13 de dezembro de 1933, terceira colunaA Noite, 19 de fevereiro de 1934, primeira coluna; A Noite, 30 de janeiro de 1934, penúltima coluna; A Noite, 3 de fevereiro de 1934; A Noite, 4 de fevererio de 1934).

 

momo10A Noite, 3 de fevereiro de 1934

 A Noite, 3 de fevereiro de 1934

 

Foi vestido, por sugestão do maestro Silvio Piergilli (c.1888 – 1962), que trabalhava no Teatro Municipal e era amigo de Raymundo Magalhães Junior, com a roupa do duque de Mântua, personagem da ópera Rigoletto, de Giuseppe Verdi. Há uma outra versão na qual o caricaturista Fritz teria sido o desenhista da roupa, que teria sido executada por uma costureira do Teatro Municipal. Provavelmente, em 1933, Momo usou a fantasia do duque e, no ano seguinte, 1934, desfilou com a roupa desenhada por Fritz.

 

 

 

O jornal A Noite, de 9 de dezembro de 1948, resumiu assim a história do Rei Momo no carnaval do Rio de Janeiro:

 

momo14momo15

 

O fato é que durante 15 anos, de 1934 até sua morte, em 9 de dezembro de 1948, Moraes de Cardoso reinou no carnaval carioca (A Noite, 9 de dezembro de 1948; O Jornal, 10 de dezembro de 1948, primera coluna). Havia ingressado em A Noite em fins da década de 20, a convite de Adauto de Assis, que chefiava a seção esportiva do jornal. Antes, Moraes Cardoso trabalhava na papelaria Casa Cruz. Quando faleceu, além de repórter esportivo e comentarista de turfe, era Chefe da Seção de Circulação de A Noite.

 

 

 

Retrospectiva do Rei Momo do carnaval carioca desde 1934

 

 

1934 a 1948 – Francisco Moraes Cardoso

1949 – Gustavo Matos

1950 – Jaime de Moraes

1951 a 1957 – Nelson Nobre

1958 a 1971 – Abrahão Reis

1972 – Edson Seraphin de Santana

1973 – Elson Macula

1974 a 1982 – Edson Seraphin de Santana

1983 – Paolo Vicente Paccelli

1984 – Robertão

1985 e 1986 – Elson Macula

1987 a 1995 – Reynaldo Bola

1996 – Paulo Cesar Braga

1997 a 2003 –   Alex de Oliveira

2004 – Wagner Monteiro

2005 – Marcelo Reis

2006 a 2008 – Alex de Oliveira

2009 a 2013 – Milton Junior

2014 a 2016– Wilson Dias da Costa Neto

2017 – Fabio Damião

2018 – Milton Junior

2019 – Wilson Dias da Costa Neto

2020 a 2021– Djeferson Mendes da Silva

2022 – Wilson Dias da Costa Neto

2023 – Djferson Mendes da Silva,

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ABI – Boletim Informativo, 1990

BURGI, Sérgio; COSTA, Helouise (org.). As origens do fotojornalismo no Brasil: um olhar sobre O Cruzeiro. São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2012.

CARDENUTO FILHO, Reinaldo. Discursos de intervenção: o cinema de propaganda ideológica para o CPC e o Ipês às vésperas do Golpe de 1964 São Paulo, 2008. Tese (Mestrado) – Universidade de São Paulo. Escola de Comunicação e Artes.

COELHO, M. Beatriz Ramos de Vasconcelos. A Construção da imagem da nação Brasileira pela fotodocumentação: 1940-1999. São Paulo, 2000. Tese (Doutorado) – Universidade de São Paulo. Faculdade de Filosofia, Letras e Ciências Humanas.

COSTA, Haroldo. 100 anos de carnaval no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro : Irmãos Vitale, 2001.

COSTA, Helouise. Palco de uma história desejada: o retrato do Brasil por Jean Manzon em: Revista do Patrimônio, nº 27, 1998. Maria Inez Turazzi (org.). Brasília: IPHAN, 1998.

COSTA, Helouise. Um olho que pensa: estética moderna e fotojornalismo. Tese de doutoramento. Faculdade de Arquitetura e Urbanismo da USP, 1998.

Dicionário Cravo Albin da Música Popular Brasileira

GOMES, Sérgio. Jean Manzon. Profissão: otimista, artigo publicado na Folha de São Paulo de 17 de novembro de 1977.

Figuras e Coisas do Carnaval Carioca / Jota Efegê: apresentação de Artur da Távola. —2. ed. — Rio de Janeiro: Funarte, 2007.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MANZON, Jean. Flagrantes do Brasil. Rio de Janeiro: Ed. Bloch, 1950.

MANZON, Jean. Memórias do Brasil. São Paulo: Cepar Consultoria e Participações, 2007.

MANZON, Jean. Retrato vivo da grande aventura. São Paulo: Cepar Consultoria e Participações, 2006/2007.

PEREGRINO, Nadja. O Cruzeiro: a revolução da fotoreportagem. Rio de Janeiro, Dazibao, 1991.

PINHEIRO, Marlene M. Soares (1996), A Travessia do avesso: sob o signo do carnaval. São Paulo : Annablume, 1995.

Memória do carnaval, Prefeitura da Cidade do Rio de Janeiro, 1991.

Revista Superinteressante, 14 de fevereio de 2020

Site Enciclopédia Itaú Cultural

Site Fundaj

Site MultiRio

TACCA, Fernando de. O índio na fotografia brasileira: incursões sobre a imagem e o meio. História, ciências, saúde – Manguinhos – Vol. 18, nº 1, p.191-223. Rio de Janeiro., 2011

TeatroBR Blogspot 

 

Acessando o link para as fotografias de Carnaval disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas

Série “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” II – A Casa dos Artistas nos Diários Associados

Pela segunda vez a Brasiliana Fotográfica publica uma imagem do acervo fotográfico dos Diários Associados – Rio de Janeiro. O conjunto de fotos foi incorporado, em 2016, por um dos fundadores da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles (IMS). O conjunto adquirido pelo IMS dos Diários Associados, que já foram o maior conglomerado de mídia do Brasil, possui cerca de 700 mil fotografias e 300 mil negativos com imagens produzidas para O Jornal, primeiro órgão dos Diários, adquirido por Assis Chateaubriand (1892 – 1968) em 1924; para o Diário da Noite, fundado por ele em 1929; e para o Jornal do Commercio, fundado em 1827 e adquirido pelo grupo em 1959. Os registros cobrem um período representativo do século XX – de 1915 a 2005.

Mais uma vez destacamos a relevância da preservação de um arquivo fotográfico de imprensa mesmo que as imagens estejam disponíveis em plataformas como a Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, uma das mais importantes fontes de pesquisa do portal. Com a preservação, as fotografias podem, a partir de recursos tecnológicos como a digitalização e o zoom, terem outra visibilidade e serem acessadas em sua qualidade plena. Abaixo, publicamos a fotografia do Retiro dos Artistas, tema de nosso artigo de hoje, capturada do jornal e, a mesma, digitalizada.

 

 

 

Acessando o link para as fotografias do Retiro dos Artistas do acervo fotográfico dos Diários Associados RJ disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Um pouco da história da Casa dos Artistas

 

 

Inspirado na Maison de Répos de Artistes Dramatiques Français, fundada em 1840 pelo barão Isidore Taylor (1789 – 1879), nos arredores de Paris, o ator Leopoldo Fróes (1882 – 1932) criou  no Rio de Janeiro, então a capital administrativa e cultural do Brasil, a Casa dos Artistas, destinada a profissionais idosos que viveram da música, do teatro, do cinema, da televisão, do rádio ou do circo, tanto como estrelas como atuando nos bastidores. Para a realização de seu empreendimento, Fróes promoveu diversas iniciativas como a organização de um festival popular na Quinta da Boa Vista, em setembro de 1915, cuja renda seria revertida para a Casa dos Artistas e para os flagelados da seca no nordeste do Brasil; a instituição de um ingresso artístico de contribuição ao projeto, inicialmente no Teatro Pathé, onde tinha sua companhia teatral e, posteriormente, adotado em outros teatros. Irineu Marinho (1876 – 1925), dono do jornal A Noite, participou da campanha para a criação da instituição.

A Casa dos Artistas foi oficialmente fundada em 13 de agosto de 1918, no Teatro Trianon, por 68 profissionais. Seus primeiros presidente e vice-presidente foram os atores Leopoldo Fróes e Eduardo Leite (1868 – 1920), eleitos poucos dias depois. Na ocasião, também foi eleita uma comissão feminina de beneficência da qual faziam parte as atrizes Abigail Maia (1887 – 1981) e Amália Capitani (18? – 19?), entre outras. Como homenagem ao ator João Caetano (1808 – 1863), que havia falecido em 24 de agosto de 1863, a data oficial da fundação da Casa dos Artistas passou a ser dia 24 de agosto, e nessa data é comemorado o Dia do Artista. A sede social da Casa dos Artistas ficava na rua Espírito Santo, 53.

O terreno do Retiro dos Artistas, localizado em Jacarepaguá, foi doado pelo jornalista e empresário tcheco Frederico Figner (1866 – 1947), fundador da Casa Edison, pioneiro na comercialização de fonógrafos no Brasil e também o primeiro produtor fonográfico no país. Havia nascido na Boêmia, então parte do Império Austro-Húngaro e, aos 15 anos, imigrou para os Estados Unidos. Na época Thomas Edison (1847 – 1931) havia lançado o fonógrafo e Figner se encantou com a invenção. O nome da futura Casa Edison foi uma homenagem ao inventor. Figner foi para Belém do Pará, em 1891, e, um ano depois, após passar por várias capitais do Brasil mostrando o fonógrafo adquirido nos Estados Unidos, chegou ao Rio de Janeiro, onde, em 1900, inaugurou a Casa Edison, na rua Uruguaiana. No mesmo ano instalou uma sala de gravação anexa à Casa Edison, na Rua do Ouvidor nº 105.  O primeiro disco brasileiro, o lundu Isto é bom, de Xisto Bahia (1841 – 1894), foi gravado, em 1902, justamente na Casa Edison, pelo cantor Manuel Pedro dos Santos, conhecido como Baiano (1870 – 1944). Em 1913, Fred inaugurou uma indústria fonográfica de grande porte em Vila Isabel, que deu origem ao selo Odeon.

 

 

Voltando ao Retiro dos Artistas. Sua primeira sede  foi inaugurada em 25 de abril de 1919 (A Noite, 26 de abril de 1919, primeira coluna). A pedra fundamental da atual sede, no mesmo terreno da primeira, foi lançada em 20 de novembro de 1922, e a inauguração aconteceu em 20 de janeiro de 1925 (O Jornal, 24 de novembro de 1922, quarta coluna e O Jornal, 21 de janeiro de 1925, terceira coluna).

Em 1931, a Casa dos Artistas recebeu sua Carta Sindical, do recém-criado Ministério do Trabalho, tornando-se oficialmente representante dos artistas. Em 19 de outubro do mesmo ano, o então presidente do governo provisório, Getulio Vargas (1882 – 1954), e Pedro Ernesto (1884 – 1942), interventor no Distrito Federal, visitaram o Retiro dos Artistas (Diário da Noite, 20 de outubro de 1931 e O Jornal, 20 de outubro de 1931, primeira coluna). Alguns anos depois, em 24 de setembro de 1938, foi inaugurado um busto de Vargas dentro do Retiro. 

Até 1964, a Casa dos Artistas dividiu-se no atendimento assistencial e sindical e, a partir da fundação do Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro(SATED-RJ),  assumiu sua ação exclusivamente assistencial. Segundo o site da Casa dos Artistas, que depende de trabalho voluntário e de doações, com o passar do tempo e devido a alguns acontecimentos, a Casa dos Artistas se resumiu ao trabalho assistencial do Retiro.

 

 

 

 

 

Em 12 de maio de 2022, o Retiro dos Artistas tornou-se um bem tombado pelo estado do Rio de Janeiro. A determinação foi publicada pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultura (Inepac) no Diário Oficial. Segundo a diretora do Inepac, Ana Cristina Carvalho, o ato do tombamento é de vital importância para a preservação e manutenção da memória fluminense.

“O Retiro dos Artistas é um dos elementos que constituem a identidade e história da classe proletária artística no Rio de Janeiro. Nossa equipe tem trabalhado com o objetivo de reafirmar os papéis de proteção e de fiscalização conferidos legalmente ao Instituto”*

 

*Esses dois últimos parágrafos foram acrescentados em 29 de maio de 2022.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Fontes:

Diário do Rio

Dicionário Cravo Albim da Música Popular Brasileira

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Retiro dos Artistas

Revista do Brasil

Site Cultura e Economia Criativa do Rio de Janeiro

Site Rio & Cultura

Site Sindicato dos Artistas e Técnicos em Espetáculos de Diversões do Estado do Rio de Janeiro- Sated-RJ

VERAS, Flávia Ribeiro. Tese de doutorado: “Fábricas da Alegria” O mercado de diversões e a organização do trabalho artístico no Rio de Janeiro e Buenos Aires 1918 – 1945. Fundação Getulio Vargas, 2017

Série “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” I

Pela primeira vez o portal publica uma imagem do acervo fotográfico dos Diários Associados – Rio de Janeiro. O conjunto de fotos foi incorporado, em 2016, por um dos fundadores da Brasiliana Fotográfica, o Instituto Moreira Salles (IMS). Nessa estreia, foi destacada uma fotografia do hangar para abrigar os zepelins, em construção no Campo de Santa Cruz, e uma do Graf Zeppelin, publicadas em O Jornal, do dia 7 de abril de 1935. O conjunto adquirido pelo IMS dos Diários Associados, que já foram o maior conglomerado de mídia do Brasil, possui cerca de 700 mil fotografias e 300 mil negativos com imagens produzidas para O Jornal, primeiro órgão dos Diários, adquirido por Assis Chateaubriand (1892 – 1968) em 1924; para o Diário da Noite, fundado por ele em 1929; e para o Jornal do Commercio, fundado em 1827 e adquirido pelo grupo em 1959. Os registros cobrem um período representativo do século XX – de 1915 a 2005. Esse texto da Brasiliana complementa o recém publicado, em 25 de maio de 2018,  A primeira passagem do Graf Zeppelin pelo Rio de Janeiro, em 1930, e registros de outras viagens.

A Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional, a maior coleção de periódicos do Brasil, é uma das mais potentes plataformas de informações para diversos tipos de pesquisa e a Brasiliana Fotográfica faz, desde seu início, uma extensa e profícua utilização desse precioso arquivo. Lembramos que a Fundação Biblioteca Nacional é também uma das fundadoras do portal. No caso específico de estabelecer-se uma relação entre uma imagem de um acervo fotográfico de imprensa com a forma e o contexto com que essa imagem foi originalmente publicada – como realizado nessa publicação do portal – faz com que a Hemeroteca Digital da BN ganhe especial protagonismo. E, como lembra Sérgio Burgi, coordenador de Fotografia do IMS, a preservação de um arquivo fotográfico de imprensa, mesmo que seus conteúdos estejam conservados em plataformas como a Hemeroteca Digital, é muito importante: as imagens podem, a partir de recursos tecnológicos como a digitalização e o zoom, terem outra visibilidade e serem acessadas em sua qualidade plena.

Abaixo, a imagem do Hangar dos Zeppelins, no Campo de Santa Cruz, e do Graf Zeppelin, do acervo fotográfico dos Diários Associados Rio de Janeiro, incorporado ao IMS. Acessando o link para a fotografia, disponível na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar a imagem e verificar todos os dados referentes a ela.

 

 

Abaixo, a fotografia e o texto publicados em O Jornal de 7 de abril de 1935:

 

 

‘Sob o “controle da Comissão fiscal de Obras de Aeroportos, do Ministério da Viação, ativam-se os trabalhos de construção do aeroporto de Santa Cruz, construído numa área de milhão de metros quadrados, na fazenda S. José, de propriedade do governo da União.

A construção do ramal da Central do Brasil para aquele campo permitiu o rápido transporte do material e o desenvolvimento consequente dos trabalhos.

Esse aeroporto se constrói de acordo com o contrato do governo com a Luftschiffbau Zeppelin para o estabelecimento de uma linha regular de dirigíveis entre a Europa e o Brasil, serviço que estará em perfeito funcionamento dentre em pouco, logo se concluam as obras do aeroporto.

Ainda neste início de mês o “Zeppelin” reiniciará suas viagens para o Brasil, transportando passageiros, correspondência e encomendas, quinzenalmente, partindo de Friedrichshafen aos sábados, à noite, e chegando a Recife às terças-feiras imediatas.’

O “Zeppelin” atracará no aeroporto de Santa Cruz e regressará imediatamente à Europa. Há uma modificação de rota: a aeronave fará escalas por Sevilha na ida e na volta.’

 

Um pouco da história do Hangar dos Zepelins

Para a construção de um aeroporto para abrigar os zepelins, o governo brasileiro liberou um crédito milionário para o financiamento da obra em troca de um programa mínimo de 20 viagens anuais pelo período de 30 anos, contratado com a Luftschiffbau Zeppelin, fabricante e operador da linha aérea (Correio da Manhã, 10 de maio de 1934, quarta coluna). Sua estrutura de aço foi trazida da Alemanha e o hangar dos dirigíveis zepelins começou a ser construído em 1934, no Aeroporto de Santa Cruz, no Rio de Janeiro, mais tarde rebatizado Aeroporto Bartolomeu de Gusmão, e inaugurado em 26 de dezembro de 1936 pelo presidente da República, Getulio Vargas (1882 – 1954), com a presença de várias outras autoridades, dentre elas o embaixador da Alemanha e o prefeito do Rio de Janeiro, Olímpio de Melo (1886 – 1977) (O Jornal, 27 de dezembro de 1936, quarta coluna). Foi então ativada uma linha regular de transportes aéreos entre a Alemanha e o Brasil. Mais de 5 mil homens participaram da construção do hangar. Na época, existia um trem que saía da Central do Brasil, no Rio de Janeiro, cujo ponto final era o aeroporto.

O hangar foi pouco utilizado pelos zepelins porque a partir da explosão de um deles, o Hindenburg, em 6 de maio de 1937 (O Jornal, 7 de maio de 1937), os voos dos grandes dirigíveis para passageiros foram interrompidos. Segundo reportagem do Jornal do Brasil de 5 de abril de 1981 e outras fontes o Hindenburg pousou no hangar quatro vezes e o Graf Zeppelin, cinco. Em 1943, o aeroporto tornou-se a Base Aérea de Santa Cruz. O hangar serviu como base para o 1º Grupo de Aviação de Caça da Força Aérea Brasileira, que atuou na Segunda Guerra Mundial (Diário de Notícias, 17 de janeiro de 1943, sexta coluna).

Tombado em março de 1998 pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (Iphan), o prédio do hangar tem 274 metros de comprimento, 58 metros tanto de altura como de largura. Seu portão principal, o sul, possui duas folhas, cada uma pesando 80 toneladas – a abertura pode ser feita manualmente ou com motores. O portão norte, com 28 metros de largura e 26 metros de altura, era utilizado para ventilação e saída da torre de atracação. No topo do hangar, a 61 metros de altura, fica a torre de comando. É o último hangar gigante para dirigíveis no mundo (Jornal do Brasil, 28 de março de 1993).

 

Contribuíram para essa publicação a socióloga Roberta Zanatta (IMS), o historiador Rodrigo Bozzetti (IMS), o bibliotecário Alexandre Delarue (IMS), além de Franco Salvoni e Guilherme Gomes, do Núcleo de Digitalização do IMS.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

“Por dentro dos acervos” – Associados ao IMS, por Mànya Millen, 20 de outubro de 1916.

RODRIGUES, Helio Suevo. A formação das estradas de ferro no Rio de Janeiro – o resgate de sua memória. Rio de Janeiro: Sociedade de Pesquisa para Memória do Trem, 2004.

Site Defesa.net

Site Iphan

Site Ministério da Defesa – Força Aérea Brasileira

 

 

Marco no fotojornalimo brasileiro: a seca no Ceará é documentada com fotografias

 

J.A. Correia. Secca de 1877-78, 1877-1878. Ceará / Acervo FBN

J.A. Correia. Secca de 1877-78, 1877-1878. Ceará / Acervo FBN

Segundo o trabalho “Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira”, dos pesquisadores Joaquim Marçal Ferreira de Andrade e Rosângela Logatto, a publicação de fotos de vítimas da maior seca nordestina do século XIX foi uma das iniciativas pioneiras da imprensa brasileira na utilização de fotografias como documentos comprobatórios de um fato (Anais da Biblioteca Nacional, vol 114, de 1994, p.71-83).

Para denunciar a tragédia, o chargista português Rafael Bordalo Pinheiro (1846 – 1905) publicou, em 20 de julho de 1878, em uma ilustração da revista O Besouro, duas fotos que fazem parte de um conjunto de 14 registros fotográficos de vítimas da seca ocorrida entre 1877 e 1878. Porém, não foi dado crédito para o autor das fotos, Joaquim Antônio Correia, cujo ateliê ficava em Fortaleza, no Ceará.

Link para O Besouro de 20 de julho de 1878, ano I, n.16

Esse conjunto de fotografias pertence, atualmente, ao acervo da Biblioteca Nacional.  São imagens chocantes, em formato de cartes de visite, e retratam crianças, homens e mulheres desnutridos e maltrapilhos, de aparência doentia, e, muitas vezes, as fotos, feitas em estúdio, trazem textos rimados que se referem à miséria.

Acessando o link para as fotografias de Joaquim Antônio Correia sobre a seca nordestina de 1877/1878 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A publicação da ilustração litográfica das duas fotos sendo seguradas por um esqueleto vestindo paletó, sob o título “Páginas tristes – Scenas e aspectos do Ceará (para S. Majestade, o Sr. Governo e os Senhores Fornecedores verem)”, tinha o objetivo de reforçar denúncias feitas pelo escritor e jornalista José do Patrocínio (1853 – 1905) em artigos publicados no periódico de texto Gazeta de Notícias. Patrocínio fazia, na época, a cobertura jornalística da seca com o principal objetivo de acompanhar a aplicação dos recursos governamentais em seu combate. Partiu em 10 de maio de 1878 e retornou ao Rio de Janeiro, em 12 de agosto do mesmo ano. As matérias foram publicadas, na coluna Folhetim, na primeira página da Gazeta de Notícias, sob o título “Viagem ao Norte” (1).

Mas só o texto não era suficiente. Então, Patrocínio enviou as fotos para a redação da revista O Besouro, para a qual já havia mandado, antes da viagem, o artigo “Sermão de Lágrimas” (O Besouro, edição de 4 de maio de 1878 ), em que tratava, com preocupação, a seca e a situação dos retirantes.

A publicação da ilustração com as fotos de Joaquim Antônio Correia, na revista O Besouro, foi um verdadeiro “anticartão de visita, veemente panfleto que denuncia uma realidade que muitos membros da corte se negavam a enxergar”(“Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira”).

Abaixo, está reproduzido o texto publicado no O Besouro, na página seguinte à ilustração com as fotografias:

“O Ceará

O nosso amigo José do Patrocínio, em viagem por aquela provincia, enviou-nos as duas photographias por que foram feitos os desenhos da nossa primeira página.

São dois verdadeiros quadros de fome e miséria. E´ n´aquelle estado que os retirantes chegam á capital, aonde quasi sempre morrem, apezar dos apregoados soccorros, que segundo informações exactas são distribuídos de maneira improficua.

A nossa estampa da primeira pagina é uma prova cabal áquelles que accusavam de exageração, a pintura que se fazia do estado da infeliz província.

Repare o governo e repare o povo, na nossa estampa, que é a cópia fiel da desgraça da população cearense.

Continuaremos a reproduzir o que o nosso distincto collega nos enviar a tal respeito.”

Uma curiosidade: também dessa viagem ao norte do país originou-se o romance de José do Patrocinio, Os Retirantes, publicado na Gazeta de Notícias, em estilo de folhetim, entre 29 de junho e 10 de dezembro de 1879.

 

(1) – Links para os artigos escritos por José do Patrocínio sob o título “Viagem ao Norte”.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 1º de junho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 6 de junho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 20 de julho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 23 de julho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 3 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 15 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 22 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 30 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 7 de setembro de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 12 de setembro de 1878.

 

Breve cronologia de Joaquim Antônio Correia (18? – ?)

 

seca1

 

1874 – Até este ano, o nome de Joaquim Antônio Correia apareceia no cadastro de contribuintes como dono de uma casa comercial especializada em produtos manufaturados fora da província,que ficava na rua da Palma , nº 17.

1877 - Estabeleceu como fotógrafo na rua Formosa, n° 31. Atuou como retratista por não menos de dez anos e foi contemporâneo de Agio Pio, do prussiano Carlos Frederico Johann Reeckell, do dinamarquês Niels Olsen (1843 – 1911) associado ao austríaco Constantino Barza, do francês Baubrier e de Francisco Brandão, dentre outros.

 

 

 

1878 – Defendeu-se da acusação de comercializar indevidamente retratos que produzia de moças de família e ameaçou pendurar de cabeça para baixo os retratos de seus devedores (O Cearense, 12 de maio de 1878).

Em maio, conheceu o escritor José do Patrocínio (1853 – 1905), que havia ido para o Ceará para conhecer mais de perto a tragédia da seca. Voltando para o Rio de Janeiro, publicou duas fotos da seca no Ceará de autoria de Correia, na revista O Besouro, de 20 de julho de 1878, do chargista português Rafael Bordallo Pinheiro (1846 – 1905). Foi uma das iniciativas pioneiras da imprensa brasileira na utilização de fotografias como documentos comprobatórios de um fato. Foi um marco na história do fotojornalismo brasileiro.

A publicação da ilustração litográfica das duas fotos sendo seguradas por um esqueleto vestindo paletó, sob o título “Páginas tristes – Scenas e aspectos do Ceará (para S. Majestade, o Sr. Governo e os Senhores Fornecedores verem)”, tinha o objetivo de reforçar denúncias feitas por do Patrocínio em artigos publicados no periódico de texto Gazeta de Notícias. Patrocínio fazia, na época, a cobertura jornalística da seca com o principal objetivo de acompanhar a aplicação dos recursos governamentais em seu combate. Partiu em 10 de maio de 1878 e retornou ao Rio de Janeiro, em 12 de agosto do mesmo ano. As matérias foram publicadas, na coluna Folhetim, na primeira página da Gazeta de Notícias, sob o título “Viagem ao Norte”. Mas só o texto não era suficiente. Então, Patrocínio enviou as fotos para a redação da revista O Besouro, para a qual já havia mandado, antes da viagem, o artigo “Sermão de Lágrimas” (O Besouro, edição de 4 de maio de 1878 ), em que tratava, com preocupação, a seca e a situação dos retirantes.

1881 – Seu estúdio fotográfico dispunha de um grande sortimento de quadros de gosto…máquinas de 4 objetivas…e tudo por preço tão diminuto que admira.

 

 

1883 / 1884 – Antes da assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, Fortaleza, em 24 de maio de 1883, tornou-se a primeira capital brasileira a libertar todos os escravizados. No ano seguinte, em 25 de março de 1884, o Ceará passou a ser o primeiro estado brasileiro a extinguir a escravidão. Correia documentou os líderes da luta escravagista em fotos chamadas de Retratos Libertadores e, em 1883, as comercializava.

 

O Libertador, de 1887

O Libertador,  9 de maio de 1883 / História da fotografia no Ceará do século XIX

 

1885 – Correia anunciou que havia adquirido, em Paris, uma nova máquina para retratos instantâneos (O Cearense, de 28 de julho de 1885, última coluna).

1886 – Anunciava que em seu estabelecimento fotográfico tirava-se retratos pelos processos mais aperfeiçoados (O Libertador, 8 de junho de 1886, última coluna).

1892 – Provavelmente continuou trabalhando como fotógrafo até este ano.

Em 29 de dezembro, inaugurou a primeira fábrica de louças do Ceará, no Boulevard da Conceição (A República, 28 de dezembro de 1892, quarta coluna).

1893 – Anunciou a venda de seu estúdio fotográfico:

“Joaquim Antonio Correia vende a sua fotografia constando de boas lentes, drogas, punsas, etc. A tratar: Rua Formosa, nº 31″ (A República, 30 de maio de 1893). Residia na rua Floriano Peixoto, nº 95.

 

Fontes:

ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira de; LOGATTO, Rosângela. Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira.  Anais da Biblioteca Nacional, vol 114, de 1994, p. 71-83.

BEZERRA, Ari Leite. História da fotografia no Ceará do século XIX. Edição do autor, 2019.

Fundação Palmares

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

Link para o artigo 500 mil mortos: a tragédia esquecida que dizimou brasileiros durante 3 anos no século 19, de Camilla Veras Mota, Camila Costa e Cecilia Tombesi publicada no site da BBC, em 18 de junho de 2021, com as fotografias de Joaquim Antonio Corrêa.*

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

*Esse link foi acrescentado no artigo em 19 de junho de 2021.

**Essa breve cronologia foi inserida em 19 de abril de 2022.