O jornalista e abolicionista José do Patrocínio (1853 – 1905), o “Tigre da Abolição”

Com duas fotografias do acervo fotográfico da Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, o artigo de hoje homenageia o grande jornalista e abolicionista José do Patrocínio (1853-1905), o Tigre da Abolição, que nasceu há exatos 172 anos, em Campos de Goytacazes, no Rio de Janeiro. O registro abaixo é o mais popular de Patrocínio, pelo qual sua imagem ficou conhecida até hoje.

 

 

 

A fotografia seguinte foi produzida quando José do Patrocínio e outros militares que se revoltaram contra o governo de Floriano Peixoto (1839 – 1895) foram deportados para Cucuí, no alto Rio Negro, no Amazonas, em 1892. Está assinada, no lado direito da foto, por M. Lira fotógrafo Iquitos, Peru. Foi doada à Biblioteca Nacional pelo município de São Gabriel, no Amazonas, em 1924.

 

 

Brevíssimo perfil de José do Patrocínio (1853 – 1905),

Zeca para os amigos, Zé do Pato para o povo

 

Se fosse possível reunir todos os artigos, todos os discursos, com que Patrocínio atacou a escravidão e seus defensores, o livro em que ficassem compendiados esses libelos seria o mais belo poema da Justiça

Olavo Bilac (1865 – 1918)

 

José Carlos do Patrocínio foi um dos principais protagonistas da luta pela abolição da escravatura no Brasil, tendo se engajado fortemente na causa a partir do jornalismo. Como já mencionado, nasceu em 9 de outubro de 1853, em Campos dos Goytacazes, norte fluminense. Filho do padre João Carlos Monteiro (1799 – 1876) e da quitandeira Justina Maria do Espírito Santo (c. 1840 – 1885), escravizada que havia sido alforriada, viveu sua infância na fazenda de seu pai, localizada em Lagoa de Cima, onde a violência, a injustiça e a desumanidade do sistema escravocrata fazia parte de seu cotidiano. Quando tinha 13 anos, não pode trabalhar no comércio de seu pai devido a sua cor. Seu impulso pela luta pela liberdade e pela igualdade teve origem, certamente, nestas circunstâncias de sua vida pessoal.

Em 1867, tendo concluído o primário, foi para o Rio de Janeiro, onde trabalhou na Santa Casa da Misericórdia  e retomou seus estudos no Externato de João Pedro de Aquino. Ingressou na Escola de Medicina, em 1871, e concluiu o curso de Farmácia, em 1874. Neste período residiu em uma república de estudantes. Quando terminou o curso, seu amigo João Rodrigues Pacheco Villanova (1852 – 1897), colega do Externato Aquino, convidou-o para morar na na casa da mãe dele, Henriqueta Amélia Ramos (1832-1911), que era casada, segundo casamento, com o capitão Emiliano Rosa de Senna (c. 1825 – 1896), proprietário de terras e de vários imóveis no Rio de Janeiro e avô do futuro pintor Di Cavalcanti (1897 – 1976). Patrocínio passou a lecionar para os filhos do capitão e a frequentar o Clube Republicano, que se reunia na residência, do qual faziam parte os jornalistas Lopes Trovão (1848 – 1925), Pardal Mallet (1864 – 1894) e Quintino Bocaiuva (1836 – 1912), dentre outros.

Em 1875, com Dermeval da Fonseca (c. 1852 – 1914), Patrocínio publicou, entre 1º de junho e 15 de outubro, dez números do quinzenário Os Ferrões. Assim Patrocínio iniciou sua carreira de jornalista. Seus  pseudônimos eram Eurus Ferrão e Notus Ferrão, respectivamente…

 

 

…e assim se apresentaram:

 

 

 

Em 1877, já trabalhava na Gazeta de Notícias, jornal fundado, em 2 de agosto de 1875, por Ferreira de Araújo (1848 – 1900), cujo pseudônimo era Lulu Sênior. Patrocínio assinava, sob o pseudônimo Proudhomme – alusão ao pensador francês Pierre-Joseph Proudhon (1809 – 1865), a coluna “Semana Parlamentar”, cuja primeira publicação aconteceu em 26 de fevereiro de 1877.  A Gazeta de Notícias foi um dos principais meios pelo qual Patrocínio propagou suas ideias abolicionistas.

Ainda em 1877, publicou no jornal o romance Motta Coqueiro ou a pena de morte, onde contou o caso verídico do último enforcamento no Brasil, o do fazendeiro Francisco Benedito de Souza Coqueiro (1799 – 1855), conhecido como Motta Coqueiro, o suposto mandante de um violento crime ocorrido no norte fluminense, em 1852. O livro criticava o sistema judiciário e o uso da pena de morte no Brasil do século XIX (Gazeta de Notícias23 de dezembro de 1877, primeira coluna e 4 de março de 1878, quinta coluna).

 

 

Em 1878, denunciou em uma série de artigos na Gazeta de Notícias a pior seca ocorrida no nordeste do Brasil no século XIX. A cobertura jornalística que realizava sobre a seca tinha como principal objetivo acompanhar a aplicação dos recursos governamentais em seu combate. Partiu, em 10 de maio de 1878, e retornou ao Rio de Janeiro, em 12 de agosto do mesmo ano. As matérias foram publicadas, na coluna Folhetim, na primeira página da Gazeta de Notícias, sob o título “Viagem ao Norte” (1). Mas só o texto não foi suficiente. Então, Patrocínio enviou as imagens produzidas pelo fotógrafo Joaquim Antônio Correia (18? – ?) para a redação da revista O Besouro, do chargista português Rafael Bordalo Pinheiro (1846 – 1905)para a qual já havia mandado, antes da viagem, o artigo Sermão de Lágrimas (O Besouro, edição de 4 de maio de 1878 ), em que tratava, com preocupação, a seca e a situação dos retirantes. A publicação de duas fotos que fazem parte de um conjunto de 14 registros fotográficos de vítimas da seca ocorrida entre 1877 e 1878, em em 20 de julho de 1878, foi um verdadeiro “anticartão de visita, veemente panfleto que denuncia uma realidade que muitos membros da corte se negavam a enxergar”(Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira).

 

 

Em 1879, publicou o romance Os retirantes, uma obra muito importante da literatura brasileira por sua crítica social e pelo engajamento de Patrocínio na causa abolicionista. A seca, a escravidão e a migração forçada são os temas do livro, considerado por muitos o introdutor do Realismo-Naturalismo no Brasil e da literatura da seca.

 

 

 

No mesmo ano, aderiu à campanha pela abolição da escravatura no Brasil. Em torno dele formou-se um grande coro de jornalistas e de oradores, dentre os quais José Ferreira de Meneses (1845 – 1881), Francisco de Paula Ney (1858 – 1897), Joaquim Nabuco (1849 – 1910), Lopes Trovão, Teodoro Sampaio (1855 – 1937) e Ubaldino do Amaral (1842 – 1920).

Foi um dos fundadores da escola noturna gratuita de São Cristóvão. Participaram da inauguração do colégio o capitão Emiliano Rosa de Senna, o conselheiro Saldanha Marinho (1816 – 1895) e João Rodrigues Pacheco Villanova (18? – ?) (Gazeta de Notícias, 23 de setembro de 1879, primeira coluna).

 

 

Em 7 de setembro de 1880, fundou com André Rebouças (1838 – 1898), Joaquim Nabuco (1849 – 1910) e outros a Sociedade Brasileira Contra a Escravidão (Gazeta da Tarde, 10 de setembro de 1880, primeira coluna). No mesmo mês, ele, André Rebouças, Nicolau Joaquim Moreira (1824-1894) e Vicente de Souza (1852 – 1908) criaram a Associação Central Emancipadora (ACE), que começou a promover eventos abolicionistas em teatros – entre julho de 1880 e julho de 1881, a ACE organizou 43. Patrocínio era um orador entusiasmado e atraía grandes plateias (Gazeta de Notícias, 28 de setembro de 1880). Como produto da Sociedade Brasileira Contra a Escravidão, começou a ser publicado, em 1° de novembro de 1880, o jornal O Abolicionista. Na ocasião, Patrocínio já era filiado à maçonaria, que começava a assumir um protagonismo na luta pela abolição.

Casou-se, em 15 de janeiro de 1881, com Maria Henriqueta Sena (1864 – 1929), a Bibi, filha do capitão Emiliano Rosa de Senna (Gazeta da Tarde, 14 de janeiro de 1881, primeira coluna). Nesta época, segundo o historiador Flavio Gomes, os ataques racistas contra ele teriam aumentado devido ao fato de sua esposa ser branca.

 

 

Tiveram cinco filhos – duas meninas, que faleceram antes de completarem dois anos; e três meninos, dos quais os jornalistas Maceo (1897 – 1947) e José Carlos do Patrocínio Filho (c. 1886 – 1929), o Zeca. O filho Tinon desapareceu nas ruas do Rio de Janeiro quando criança e nunca mais foi encontrado. Nunca se soube de seu paradeiro.

 

 

Em 1881, devido ao falecimento de José Ferreira de Meneses, que era o proprietário da Gazeta da Tarde, Patrocínio comprou o jornal. Na época, também colaborava com a Revista Illustrada, de Ângelo Agostini (1843 – 1910). No ano seguinte, foi com Paula Ney para a Bahia, Pernambuco e Ceará para divulgar a causa abolicionista. Patrocínio fez conferências e comícios muito concorridos.

Em 9 de maio de 1883, fundou, em uma reunião organizada na sede da Gazeta da Tarde, a Confederação Abolicionista do Rio de Janeiro, congregando todos os clubes abolicionistas do país. Foi um dos redatores do Manifesto da Confederação Abolicionista, que foi lido em uma sessão solene no Theatro Dom Pedro II, em agosto de 1883. A entidade promoveu fugas de escravizados, passeatas, festas, jantares, comícios e assembleias em prol da causa abolicionista.

 

 

 

 

Viajou para a Europa, em 1883, e retornou ao Brasil, em 1884, ano em que publicou na Gazeta da Tarde, a partir de 5 de abril, o romance Pedro Espanhol, em forma de folhetim, baseado na vida real de um assassino. Foi editado e vendido como livro no mesmo ano. Foi sua terceira e última obra de ficção. Foi reeditada em 2013, pela G. Ermakoff Casa Editorial. 

 

 

Em 1885, fez uma viagem a Campos, onde ele e outros abolicionistas fizeram conferências. Ele trouxe para o Rio de Janeiro sua mãe, Justina Maria do Espírito Santo, já bastante doente (Gazeta da Tarde, 18 de março de 1885, quinta coluna). Ela faleceu meses depois e o enterro transformou-se em um ato político em prol da abolição com a participação de personalidades como Campos Sales (1841 – 1913), Joaquim Nabuco, Prudente de Morais (1841 – 1902), Rodolfo Dantas (1854 – 1901) e Ruy Barbosa (1849 – 1923) (Gazeta da Tarde, 19 de agosto de 1885, última coluna e 20 de agosto de 1885, penúltima coluna).

 

 

Um caso de violência contra pessoas escravizadas foi mostrado, em fevereiro de 1886. “Não é só no interior que se cometem crimes contra os escravos. “As pretas Eduarda e Joana, levadas às redações dos jornais pelo José do Patrocínio e João Clapp provam que na Corte também há verdugos” (Revista Illustrada, 1886, edição 427). As escravizadas Eduarda, de 15 anos, e Joana, de 17, que haviam sido espancadas, foram exibidas pelas ruas do Rio de Janeiro. Seus rostos estavam deformados e as feridas em carne viva. Eduarda ficou cega e Joana morreu. Seu corpo foi carregado pelos abolicionistas, e o funeral rendeu mais um evento público denunciando tortura e assassinato. O caso de denúncia de tortura e assassinato se tornou uma comoção nacional.

 

 

Em agosto de 1887, o governo proibiu aglomerações nas ruas e edifícios públicos. Abolicionistas foram demitidos de seus empregos e partiram para o enfrentamento. Em 6 de agosto, organizaram uma conferência no Teatro Polytheama. Dois dias depois, um encontro em frente ao quartel do Campo da Aclamação. Ambos foram seguidos por enfrentamentos com a polícia. José do Patrocínio falou por muitos de seus companheiros, ao afirmar que “os abolicionistas sinceros estão todos preparados para morrer”.

Ainda neste ano organizou um manifestação em prol da abolição no Theatro Lyrico. A cantora que fazia o papel de Aída, na ópera homônima, a russa Nadina Bulicioff (1858 – 1921), comprou a liberdade de sete escravizados com os presentes que recebeu de seus admiradores. Entregou as cartas de alforrias em pleno palco, em 10 de agosto, em um ato da campanha abolicionista organizado por José do Patrocínio (1854 – 1905) (O Paiz, 11 de agosto de 1886, sexta coluna).

 

 

Em 1886, com expressiva votação, foi eleito vereador do Rio de Janeiro (Gazeta de Notícias, 2 de julho de 1886, quarta coluna). Em 1884, já havia se candidatado a deputado, sem sucesso. Em 1890, 1893 e 1895, voltou a se candidatar, mas não foi eleito.

Em 1887, abandonou a Gazeta da Tarde e fundou e dirigiu o jornal Cidade do Rio, lançado em 28 de setembro de 1887 e publicado até 1902.

Em 13 de maio de 1888, logo após a assinatura da Lei Áurea pela princesa Isabel, abolindo a escravidão no Brasil, no Paço Imperial, Patrocínio fez um um notável discurso e foi saudado com um brinde feito por João Chaves (18? -?), representante da Gazeta de Notícias, tendo sido apontado como o iniciador do movimento abolicionista. Falou à população de uma das portas do Paço. Ofereceu à princesa Isabel, em nome da Confederação Abolicionista, um ramalhete de violetas e camélias artificiais com fitas verdes e amarelas, onde se lia Libertas alma mater (Gazeta de Notícias, 14 de maio de 1888, segunda, terceira  e quinta coluna; O Paiz, 14 de maio de 1888, última coluna). Por sua atuação na luta triunfante do abolicionismo, na qual foi a concretização do espírito nacional, foi homenageado na primeira página da Gazeta de Notícias de 14 de maio de 1888.

 

abolição

 

 

 

 

Idealizada pelo isabelista Manoel Maria de Beaurepaire Pinto Peixoto (18? – 19?) e abençoada por Patrocínio, a Guarda Negra da Redentora foi criada, em 9 de julho de 1888, na casa do abolicionista Emilio Rouède. Era uma instituição formada majoritariamente por libertos com o objetivo de proteger a princesa Isabel. Várias polêmicas aconteceram em torno da associação e do isabelismo – movimento de sustentação ao Terceiro Reinado isabelino, em franca oposição ao republicanismo que enxovalhava a herdeira de D. Pedro II e o marido dela, D. Gastão, o “Conde d´Eu” (Instituto Dona Isabel) – e Patrocínio foi envolvido em algumas delas (Cidade do Rio, 10 de julho de 1888, segunda colunaCidade do Rio, 5 de junho de 1889, terceira coluna; Cidade do Rio, 15 de julho de 1889, primeira colunaCidade do Rio, 20 de julho de 1889, segunda coluna). Respondeu a diversos críticos que o apontavam como um  negro vendido, explicando sua opinião acerca do isabelismo (O Tempo, 4 de agosto de 1888, última coluna):

 

O isabelismo

 

A profunda consideração que voto à redação da A Rua obriga-me a acudir pressurosamente em resposta às arguições, que ela me dirige, a respeito de uma frase por mim proferida no dia 13 de maio: “Enquanto houver sangue e honra abolicionistas, ninguém tocará no trono de Isabel, a Redentora”. Lançada em circulação sem considerações, que a precederam, semelhante frase, concordo, seria a mais terrível ameaça à democracia; a justificação prévia de todos os abusos do poder. Infelizmente o meu discurso não foi estenografado e é impossível, hoje, reproduzir integralmente quanto disse. O meu pensamento, porém, foi acentuar, nos termos os mais precisos, que a data de 13 de maio era a primeira de uma era nova, para a elaboração da qual todos tínhamos concorrido: o imperador, a princesa e o povo; que a essa nova era devia corresponder nova política, para a qual contávamos com a magnanimidade do imperador, que havia feito sacrifício maior que o de Abraão, trazendo ao altar da liberdade pátria em holocausto a sua única e adorada filha; a esta mulher heroica que estreou-se no Governo do país restituindo às mães a dignidade materna e educando os príncipes seus filhos no amor dos infelizes. Partiam dessas primícias governamentais a nossa veneração e a nossa esperança por Isabel, a Redentora; confiávamos que o seu futuro seria a confirmação de seu passado; que ela seria a imperatriz-opinião; a rainha-fraternidade; exortávamo-la a perseverar nesse sistema de governar, porque enquanto houvesse honra e sangue abolicionistas o seu trono seria sagrado. Inferir-se daí que eu tentei fechar todas as válvulas da democracia brasileira, que dei o futuro da pátria em hipoteca ao 13 de maio, sem levar em linha de conta o complemento necessário da nova era nacional, é forçar a lógica para tirar uma conclusão arbitrária.

 

Cidade do Rio, 18 de maio de 1889

 

Foi um defensor do Terceiro Reinado até praticamente o fim do Segundo, que se deu com a Proclamação da República, em 15 de novembro de 1889.  Tornou-se o proclamador civil da República, por ter desfraldado a bandeira do Clube Republicano, na Câmara Municipal do Rio de Janeiro, onde era vereador.

Em fevereiro de 1892, regressou da Europa. Em abril, foi declarado estado de sítio no Rio de Janeiro devido a um movimento em prol da deposição do presidente Floriano Peixoto (1839 – 1895) e aclamação do marechal Manoel Deodoro da Fonseca (1827 – 1892) à presidência. Patrocínio foi preso, acusado de cumplicidade. Ele, além de outros presos, foram deportados  para Cucuí, no alto Rio Negro, no estado do Amazonas (O Paiz, 23 de fevereiro de 1892, sexta colunaO Paiz, 12 de abril de 1892, quinta colunaO Paiz, 17 de abril de 1892, segunda colunaO Paiz, 26 de maio de 1892, quarta colunaGazeta de Notícias, 3 de julho de 1892, quarta coluna).

 

 

 

Ele e outros desterrados foram anistiados em 5 de agosto de 1892 e voltaram para o Rio de Janeiro, em 4 de setembro do mesmo ano. Patrocínio desembarcou no Cais Pharoux (O Paiz, 5 de setembro de 1892, quarta coluna). Devido a dificuldades financeiras e à perseguição política, foi morar no subúrbio de Inhaúma.

De volta ao jornal, Patrocínio continuou criticando o governo. Seu jornal, Cidade do Rio, publicou o manifesto O Veto, de Custódio de Melo (1840 – 1902), um dos líderes da Revolta da Armada contra o regime republicano recém-estabelecido, e apoiou o movimento. Po temer uma nova prisão, Patrocínio se exilou e Luis Murat (1861 – 1929) assumiu a direção do jornal. Cidade do Rio foi interditado, em 1893 – voltou a circular em 1895 (Cidade do Rio, 6 de setembro de 1893, primeira coluna; 8 de setembro de 1893, segunda coluna; 18 de setembro de 1893, primeira coluna). Desta época até 1894, Patrocínio morou na casa de sua sogra e cunhados, em São Cristóvão. Foi procurado pela polícia e houve um boato de que ele havia sido fuzilado em Sepetiba. Durante o exílio, de cerca de 15 meses, do qual só saiu quando se encerrou o mandato de Floriano Peixoto na presidência da República, começou a construir um balão, a sonhar com a ideia de voar.

 

Cidade do Rio, 13 de maio de 1901

Cidade do Rio, 13 de maio de 1901

 

Passou a colaborar com o jornal O Repórter (A Notícia, 2 e 3 de outubro de 1895, segunda coluna).

Compareceu às sessões preparatórias da instalação da Academia Brasileira de Letras, fundada em 20 de julho de 1897, e foi o criador da cadeira nº 21, cujo patrono é Joaquim Serra.

Entusiasta da ciência e da tecnologia, no início do século XX, iniciou a construção de um dirigível de 45 metros, o Santa Cruz, que não foi concluído.

Em 1903, apesar de adoentado, Patrocínio saudou o grande inventor, cientista e aeronauta brasileiro Santos Dumont (1873 – 1932), o Pai da Aviação, presente à gala da ópera Fausto, no Theatro Lyrico, com um discurso que foi uma luminosa queda de estrelas, um dos rasgos de emoções em que se tornou incomparável. Na ocasião, foi acometido de uma hemoptise, causada por tuberculose. A chegada de Santos Dumont ao Rio de Janeiro, neste mesmo dia, 7 de setembro de 1903, pela manhã, a bordo do navio Atlantique, que havia partido de Bordeaux, na França, foi apoteótica. Em menos de um mês o inventor visitou, além do Rio de Janeiro, São Paulo e Belo Horizonte, e permaneceu poucas horas em Salvador e no Recife (Gazeta de Notícias, 8 de setembro de 1903, primeira coluna; Revista da Semana, 13 de setembro de 1903).

 

 

Santos Dumont, que vinha de Minas Gerais, desembarcou na estação de Todos os Santos, onde, com outras personalidades políticas e da imprensa, foi recebido por Patrocínio, em seu hangar, em Inhaúma, onde estava sendo construído o balão Santa Cruz, idealizado por ele. Patrocínio ofereceu champanhe e saudou o aeronauta com um brilhante discurso, respondido por Santos Dumont. Patrocínio, foi um entusiasta da aviação nacional. O dirigível Santa Cruz não chegou a voar (Gazeta de Notícias, 24 de setembro de 1903, penúltima coluna).

No aniversário dos 16 anos da abolição, foi homenageado pela revista O Malho, 14 de maio de 1904: “Salve! José do Patrocínio- Das Almas Grandes a Nobreza é Esta”.

 

O Malho, 14 de maio de 1904

 

Faleceu, em 29 de janeiro de 1905. Morava em Inhaúma e todo o seu funeral durou 14 dias (O Paiz, 30 de janeiro de 1905, sexta coluna; O Malho, 4 de fevereiro de 1905Revista da Semana, 5 de fevereiro de 1905, última coluna).

No discurso de saudação ao novo membro da Academia Brasileira de Letras, Mario de Alencar (1872 – 1925), que passaria a ocupar a cadeira de José do Patrocínio, o acadêmico Coelho Neto (1864 – 1934) referiu-se a Patrocínio e mencionou que ele havia trazido o primeiro carro para o Brasil (Correio da Manhã, 15 de agosto de 1906, terceira coluna).

O desenho abaixo, de autoria  de M.J. Garnier (18? -?), foi publicado na página 108 do livro Sonetos brasileiros, organizado por Laudelino Freire (1873 – 1937) e editado por F. Briguiet & Cie. Editores. Foi usado na obra publicada em 1913.

 

 

 

Um dos netos de Patrocínio, o soldado Carlos Nuno do Patrocínio (1920 – 1946), filho de Maceo, morreu menos de um ano pós retornar da Segunda Guerra Mundial. Integrava o II Grupo do 1º Regimento de Obuses Auto-Rebocados e foi ferido em combate, tendo voltado ao Brasil com neurose de guerra. Suicidou-se e foi encontrado em seu apartamento em o bairro de Inhaúma, no Rio de Janeiro, em 10 de maio de 1946, e foi enterrado no cemitério do Caju.

Para marcar o dia 13 de maio, a Frente Negra Brasileira promoveu a realização de uma missa na Igreja Nossa Senhora dos Remédios e uma passeata. Quando chegaram ao Largo do Arouche, onde fica a herma do advogado Luiz Gama (1830 – 1882) – concebida por Yolando Mallozzi e inaugurada em 1931 -, foi feita uma parada e o presidente da FNB, Arlindo Veiga dos Santos, e o orador Vicente Ferreira (? – 1934) fizeram discursos em homenagem ao grande patrono da raça. A campanha pela construção da herma de Luis Gama foi  liderada pelo jornal Progresso, representante da imprensa negra.

Integrando as celebrações do dia 13 de maio, em 1932, realizadas pela Frente Negra Brasileira, foi inaugurado, na sede da entidade, em São Paulo, um retrato de José do Patrocínio, de autoria de Olavo Xavier (Diário Nacional, 14 de maio de 1932). O propósito fundamental da Frente Negra Brasileira era discutir a questão do racismo, promover melhores condições de vida e a união política e social da “gente negra nacional”.  Teve filiais em diversas cidades paulistas e nos estados da Bahia, Espírito Santo, Minas Gerais, Pernambuco, Rio de Janeiro e Rio Grande do Sul. Existiu entre 1931 e 1937.

No centenário de seu nascimento, em 1953, Patrocínio foi homenageado com a celebração de uma missa na igreja da Irmandade de Nossa Senhora do Rosário de São Benedito dos Homens Pretos e com a inauguração, no jardim da Biblioteca Nacional, de um baixo relevo de bronze dele, elaborado pelo artista Ruffo Franucchi (? – 19?), a partir de uma pintura de Rodolfo Amoedo (1857 – 1941). O monumento foi erigido a partir de um movimento coletivo patrocinado por várias entidades, dentre elas a Associação Brasileira de Imprensa  – ABI -, a Câmara dos Vereadores, a União dos Homens de Cor e a Irmandade de São Benedito. O monumento foi ofertado ao Rio de Janeiro por seu povo e pela prefeitura da cidade. Na ocasião, Abdias do Nascimento (1914 – 2011), artista, professor e ativista do movimento negro; Herbert Moses (1884 – 1972), presidente da ABI; e o deputado Heitor Beltrão, representando a Casa do Jornalista, discursaram (Jornal do Brasil, 9 de outubro de 1953).

 

 

No ano seguinte, para celebrar o aniversário da Lei Áurea, o Teatro  Experimental do Negro, cujo diretor era Abdias do Nascimento, promoveu um Ato Cívico diante do monumento de José do Patrocínio (Jornal do Brasil, 12 de maio de 1955, quinta coluna).

 

 

 

Em 19 de dezembro de 2022, a Fundação Biblioteca Nacional- FBN – inaugurou uma nova placa alusiva ao monumento, dando início às comemorações pelos 170 anos do nascimento de Patrocínio, comemorado em 2023. O descerramento da placa contou com a presença do  do presidente da Comissão de Igualdade Étnico-Racial da ABI, Marcos Gomes; e de Octávio Costa, representando a ABI. Por parte da FBN, estiveram presentes o presidente da instituição, Luiz Carlos Ramiro Junior; seu diretor executivo, João Carlos Nara Jr.; o chefe de gabinete, Fernando Antônio Ferreira; e o chefe do Núcleo de Arquitetura, Luiz Antônio Lopes de Souza.

 

 

Uma curiosidade: segundo relatado por biógrafos e amigos, Patrocínio teria trazido, em 1901, o primeiro carro que circulou nas ruas do Rio de Janeiro. Esta data não foi confirmada pela pesquisa deste artigo. Em algumas fontes a data seria 1884, porém o carro, um modelo francês da marca Peugeot, movido a vapor, o Serpollet, só começou a ser fabricado em 1886. Outra data apontada é 1894, mas neste ano Patrocínio estava escondido, como já mencionado, fugindo da polícia do governo. Segundo João do Rio (1881 – 1921),a respeito do carro de Patrocínio, em seu livro Vida Vertiginosa (1911): “Um, o primeiro, de Patrocínio, quando chegou, foi motivo de escandalosa atenção. Gente de guarda-chuva debaixo do braço parava estarrecida, como se tivesse visto um bicho de Marte ou um aparelho de morte imediata. Não durou muito: sofreu uma batida causada pelo poeta Olavo Bilac e ficou inutilizado.

 

 

(1) – Links para os artigos escritos por José do Patrocínio sob o título “Viagem ao Norte”.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 1º de junho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 6 de junho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 20 de julho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 23 de julho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 3 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 15 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 22 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 30 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 7 de setembro de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 12 de setembro de 1878.

Leia aqui uma crônica escrita por José do Patrocínio Filho sobre seu pai.

 

Veja aqui o programa sobre José do Patrocínio, da série Os Abolicionistas, veiculado pelo canal História do Brasil Como Você Nunca Viu, do historiador Bruno da Silva Antunes de Cerqueira.

 

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Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ALONSO, Ângela. A teatralização da política: a propaganda abolicionista. Anais do XXVI Simpósio Nacional de História – ANPUH • São Paulo, julho 2011.

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Biblioteca Virtual Miguel de Cervantes

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Fundação Biblioteca Nacional. A CAMPANHA ABOLICIONISTA José do Patrocínio COM O CORAÇÃO NOS LÁBIOS.

Motta, Felipe Ronner Pinheiro Imlau. Literatura, fatalidade e história: o jornalismo engajado de José do Patrocínio (1877-1905). Tese (Doutorado em Comunicação) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo, São Paulo, 2008.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MAGALHÃES JUNIOR, Raimundo. A vida turbulenta de José do Patrocínio. Rio de Janeiro: Sabiá, 1969

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OLINTO, Antônio. Patrocínio: 100 anos. Tribuna da Imprensa, 21 de junho de 2005.

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Portal Literafro

Portal Ministério da Cultura

Projeto Intelectuais Negros nas Américas, Universidade Federal Fluminense – José do PatrocínioJosé Ferreira de Menezes, Vicente de Souza

ROCHA, D. Os retirantes (1879), de José do Patrocínio: texto fundador da literatura da secaRevista Crioula29, 95-124, 2022.

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Site Academia Brasileira de Letras

Site Biblioteca Digital de Literatura de Países Lusófonos

Site Family Search

Site FGV CPDOC

Site Geledés

Site Geneanet

Site Jornalismo de Guerra

Site Lideranças Políticas – José Carlos do Patrocínio

Site Monumentos do Rio

SOUZA, Marcos Teixeira de. Motta Coqueiro ou a pena de morte. Revista Jangada, julho/dezembro de 2014.

VASCONCELOS, Rita de Cássia Azevedo Ferreira de. REPÚBLICA SIM, ESCRAVIDÃO, NÃO: o Republicanismo de José do Patrocínio e sua vivência na República. Dissertação apresentada ao Programa de Pós-Graduação da Universidade Federal Fluminense. Mestrado em História Contemporânea I na Universidade Federal Fluminense, 2011.

WANDERLEY, Andrea C.T. Marco no fotojornalimo brasileiro: a seca no Ceará é documentada com fotografias in Brasiliana Fotográfica, 12 de julho de 2015.

No Dia do Repórter Fotográfico, destaque para o “Marco no fotojornalimo brasileiro: a seca no Ceará é documentada com fotografias”

No Dia do Repórter Fotográfico, a Brasiliana Fotográfica republica o Marco no fotojornalimo brasileiro: a seca no Ceará é documentada com fotografias. O assunto do artigo, originalmente publicado no portal em 12 de julho de 2015, é a veiculação de duas fotos de vítimas da maior seca nordestina do século XIX, na revista O Besouro, uma das iniciativas pioneiras da imprensa brasileira na utilização de fotografias como documentos comprobatórios de um fato, estabelecendo uma relação entre a narrativa escrita e o registro fotográfico. O autor das imagens, pertencentes ao acervo da Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras do portal, foi Joaquim Antônio Correia, cujo ateliê ficava em Fortaleza, no Ceará.

Para os leitores interessados em fotojornalismo, destacamos o portal Testemunha Ocular, uma iniciativa do Instituto Moreira Salles, instituição fundadora da Brasiliana Fotográfica, para preservar e difundir o passado e o presente do Fotojornalismo brasileiro; e também a exposição Evandro Teixeira. Chile 1973, em cartaz até 13 de novembro de 2023, no Centro Cultural Banco do Brasil, no Rio de Janeiro.

 

Marco no fotojornalimo brasileiro: a seca no Ceará é documentada com fotografias

 

J.A. Correia. Secca de 1877-78, 1877-1878. Ceará / Acervo FBN

J.A. Correia. Secca de 1877-78, 1877-1878. Ceará / Acervo FBN

 

Segundo o trabalho “Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira”, dos pesquisadores Joaquim Marçal Ferreira de Andrade e Rosângela Logatto, a publicação de fotos de vítimas da maior seca nordestina do século XIX foi uma das iniciativas pioneiras da imprensa brasileira na utilização de fotografias como documentos comprobatórios de um fato (Anais da Biblioteca Nacional, vol 114, de 1994, p.71-83).

Para denunciar a tragédia, o chargista português Rafael Bordalo Pinheiro (1846 – 1905) publicou, em 20 de julho de 1878, em uma ilustração da revista O Besouro, duas fotos que fazem parte de um conjunto de 14 registros fotográficos de vítimas da seca ocorrida entre 1877 e 1878. Porém, não foi dado crédito para o autor das fotos, Joaquim Antônio Correia, cujo ateliê ficava em Fortaleza, no Ceará.

Link para O Besouro de 20 de julho de 1878, ano I, n.16

Esse conjunto de fotografias pertence, atualmente, ao acervo da Biblioteca Nacional.  São imagens chocantes, em formato de cartes de visite, e retratam crianças, homens e mulheres desnutridos e maltrapilhos, de aparência doentia, e, muitas vezes, as fotos, feitas em estúdio, trazem textos rimados que se referem à miséria.

 

Acessando o link para as fotografias de Joaquim Antônio Correia sobre a seca nordestina de 1877/1878 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A publicação da ilustração litográfica das duas fotos sendo seguradas por um esqueleto vestindo paletó, sob o título “Páginas tristes – Scenas e aspectos do Ceará (para S. Majestade, o Sr. Governo e os Senhores Fornecedores verem)”, tinha o objetivo de reforçar denúncias feitas pelo escritor e jornalista José do Patrocínio (1853 – 1905) em artigos publicados no periódico de texto Gazeta de Notícias. Patrocínio fazia, na época, a cobertura jornalística da seca com o principal objetivo de acompanhar a aplicação dos recursos governamentais em seu combate. Partiu em 10 de maio de 1878 e retornou ao Rio de Janeiro, em 12 de agosto do mesmo ano. As matérias foram publicadas, na coluna Folhetim, na primeira página da Gazeta de Notícias, sob o título “Viagem ao Norte” (1).

Mas só o texto não era suficiente. Então, Patrocínio enviou as fotos para a redação da revista O Besouro, para a qual já havia mandado, antes da viagem, o artigo “Sermão de Lágrimas” (O Besouro, edição de 4 de maio de 1878 ), em que tratava, com preocupação, a seca e a situação dos retirantes.

A publicação da ilustração com as fotos de Joaquim Antônio Correia, na revista O Besouro, foi um verdadeiro “anticartão de visita, veemente panfleto que denuncia uma realidade que muitos membros da corte se negavam a enxergar”(“Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira”).

Abaixo, está reproduzido o texto publicado no O Besouro, na página seguinte à ilustração com as fotografias:

“O Ceará

O nosso amigo José do Patrocínio, em viagem por aquela provincia, enviou-nos as duas photographias por que foram feitos os desenhos da nossa primeira página.

São dois verdadeiros quadros de fome e miséria. E´ n´aquelle estado que os retirantes chegam á capital, aonde quasi sempre morrem, apezar dos apregoados soccorros, que segundo informações exactas são distribuídos de maneira improficua.

A nossa estampa da primeira pagina é uma prova cabal áquelles que accusavam de exageração, a pintura que se fazia do estado da infeliz província.

Repare o governo e repare o povo, na nossa estampa, que é a cópia fiel da desgraça da população cearense.

Continuaremos a reproduzir o que o nosso distincto collega nos enviar a tal respeito.”

Uma curiosidade: também dessa viagem ao norte do país originou-se o romance de José do Patrocinio, Os Retirantes, publicado na Gazeta de Notícias, em estilo de folhetim, entre 29 de junho e 10 de dezembro de 1879.

 

(1) – Links para os artigos escritos por José do Patrocínio sob o título “Viagem ao Norte”.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 1º de junho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 6 de junho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 20 de julho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 23 de julho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 3 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 15 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 22 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 30 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 7 de setembro de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 12 de setembro de 1878.

 

Breve cronologia de Joaquim Antônio Correia (18? – ?)

 

seca1

 

1874 – Até este ano, o nome de Joaquim Antônio Correia apareceia no cadastro de contribuintes como dono de uma casa comercial especializada em produtos manufaturados fora da província,que ficava na rua da Palma , nº 17.

1877 - Estabeleceu como fotógrafo na rua Formosa, n° 31. Atuou como retratista por não menos de dez anos e foi contemporâneo de Agio Pio, do prussiano Carlos Frederico Johann Reeckell, do dinamarquês Niels Olsen (1843 – 1911) associado ao austríaco Constantino Barza, do francês Baubrier e de Francisco Brandão, dentre outros.

 

 

1878 – Defendeu-se da acusação de comercializar indevidamente retratos que produzia de moças de família e ameaçou pendurar de cabeça para baixo os retratos de seus devedores (O Cearense, 12 de maio de 1878).

Em maio, conheceu o escritor José do Patrocínio (1853 – 1905), que havia ido para o Ceará para conhecer mais de perto a tragédia da seca. Voltando para o Rio de Janeiro, publicou duas fotos da seca no Ceará de autoria de Correia, na revista O Besouro, de 20 de julho de 1878, do chargista português Rafael Bordallo Pinheiro (1846 – 1905). Foi uma das iniciativas pioneiras da imprensa brasileira na utilização de fotografias como documentos comprobatórios de um fato. Foi um marco na história do fotojornalismo brasileiro.

A publicação da ilustração litográfica das duas fotos sendo seguradas por um esqueleto vestindo paletó, sob o título “Páginas tristes – Scenas e aspectos do Ceará (para S. Majestade, o Sr. Governo e os Senhores Fornecedores verem)”, tinha o objetivo de reforçar denúncias feitas por do Patrocínio em artigos publicados no periódico de texto Gazeta de Notícias. Patrocínio fazia, na época, a cobertura jornalística da seca com o principal objetivo de acompanhar a aplicação dos recursos governamentais em seu combate. Partiu em 10 de maio de 1878 e retornou ao Rio de Janeiro, em 12 de agosto do mesmo ano. As matérias foram publicadas, na coluna Folhetim, na primeira página da Gazeta de Notícias, sob o título “Viagem ao Norte”. Mas só o texto não era suficiente. Então, Patrocínio enviou as fotos para a redação da revista O Besouro, para a qual já havia mandado, antes da viagem, o artigo “Sermão de Lágrimas” (O Besouro, edição de 4 de maio de 1878 ), em que tratava, com preocupação, a seca e a situação dos retirantes.

1881 – Seu estúdio fotográfico dispunha de um grande sortimento de quadros de gosto…máquinas de 4 objetivas…e tudo por preço tão diminuto que admira.

 

 

1883 / 1884 – Antes da assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, Fortaleza, em 24 de maio de 1883, tornou-se a primeira capital brasileira a libertar todos os escravizados. No ano seguinte, em 25 de março de 1884, o Ceará passou a ser o primeiro estado brasileiro a extinguir a escravidão. Correia documentou os líderes da luta escravagista em fotos chamadas de Retratos Libertadores e, em 1883, as comercializava.

 

O Libertador, de 1887

O Libertador,  9 de maio de 1883 / História da fotografia no Ceará do século XIX

 

1885 – Correia anunciou que havia adquirido, em Paris, uma nova máquina para retratos instantâneos (O Cearense, de 28 de julho de 1885, última coluna).

1886 – Anunciava que em seu estabelecimento fotográfico tirava-se retratos pelos processos mais aperfeiçoados (O Libertador, 8 de junho de 1886, última coluna).

1892 – Provavelmente continuou trabalhando como fotógrafo até este ano.

Em 29 de dezembro, inaugurou a primeira fábrica de louças do Ceará, no Boulevard da Conceição (A República, 28 de dezembro de 1892, quarta coluna).

1893 – Anunciou a venda de seu estúdio fotográfico:

“Joaquim Antonio Correia vende a sua fotografia constando de boas lentes, drogas, punsas, etc. A tratar: Rua Formosa, nº 31″ (A República, 30 de maio de 1893). Residia na rua Floriano Peixoto, nº 95.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira de; LOGATTO, Rosângela. Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira Anais da Biblioteca Nacional, vol 114, de 1994, p. 71-83.

BEZERRA, Ari Leite. História da fotografia no Ceará do século XIX. Edição do autor, 2019.

Fundação Palmares

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

Link para o artigo 500 mil mortos: a tragédia esquecida que dizimou brasileiros durante 3 anos no século 19, de Camilla Veras Mota, Camila Costa e Cecilia Tombesi publicada no site da BBC, em 18 de junho de 2021, com as fotografias de Joaquim Antonio Corrêa.*

 

*Esse link foi acrescentado no artigo em 19 de junho de 2021.

**Essa breve cronologia foi inserida em 19 de abril de 2022.

O uso da fotografia na defesa do Serviço de Proteção aos Índios no início da década de 30

No artigo O Serviço de Proteção aos Índios e o Tribunal Especial na Amazônia, a antropóloga Maria Elizabeth Brêa Monteiro, pesquisadora do Arquivo Nacional, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, analisa a história do uso da fotografia como documento de comprovação das atividades e dos atos administrativos do Serviço de Proteção aos Índios – SPI. A autora aborda, especialmente, o momento em que foi instituída uma comissão de inquérito, criada no âmbito de atuação do Tribunal Especial, em 1931, no Amazonas, cujo um dos objetivos foi obstar a atuação do SPI, criado em 1910, por Cândido Mariano da Silva Rondon, afastado por Getulio Vargas de sua direção por não ter participado da Revolução de 30.

 

O Serviço de Proteção aos Índios e o Tribunal Especial na Amazônia

Maria Elizabeth Brêa Monteiro*

 

A criação do Serviço de Proteção aos Índios – SPI,[1] pelo Decreto nº 8.072 de 20 de junho de 1910, pode ser entendida como uma vitória dos setores republicanos de inspiração positivista, liderada por Cândido Mariano da Silva Rondon (1865 – 1958), os quais queriam ver reconhecida a participação dos povos indígenas na formação da nação brasileira, bem como trabalhar para que esses povos fossem respeitados por méritos próprios.[2]

As bases administrativas do SPI foram estabelecidas por seu primeiro diretor, Rondon, e outros militares engajados no trabalho junto aos índios como Antonio Martins Estigarribia (? – 19?) e Alípio Bandeira (1873 – 1939). Rondon ficou à frente do órgão indigenista até 1930, quando foi afastado pela Revolução Liberal comandada por Getulio Vargas (1882 – 1954). A partir daí, o SPI sofreu um lento processo de descaracterização burocrática, sendo sucessivamente transferido aos ministérios do Trabalho e da Guerra[3], enfrentando dificuldades financeiras e pressões políticas. Darcy Ribeiro (1922 – 1997), em seu livro A Política Indigenista Brasileira, traça o impacto da Revolução de 1930 no Serviço de Proteção aos Índios:

“A sobrevivência do SPI e o seu poder dependeram sempre do prestígio pessoal do Marechal Rondon. Assim, em 1930, não tendo Rondon participado da revolução que convulsionou o país, movido pelas convicções positivistas que o impediam de deixar-se aliciar em intentonas – o SPI caiu em desgraça e quase foi levado à extinção. Entretanto, naquele ano, havia alcançado o ponto mais alto de sua história. Havia pacificado dezenas de tribos, abrindo vastos sertões à ocupação pacífica; instalara e mantinha em funcionamento 97 postos de amparo ao índio, distribuídos por todo o país e que eram em regiões inteiras, os únicos núcleos de civilização onde qualquer sertanejo poderia encontrar amparo e ajuda.”[4]

 

 

No Amazonas, a crise do SPI foi assentada por uma Comissão de Inquérito instituída em 21 de janeiro de 1931 pelo interventor federal daquele Estado, Álvaro Maia (1893 – 1969), no âmbito de atuação do Tribunal Especial [5], primeiro órgão de justiça instaurado pela revolução com a finalidade de apurar e julgar fatos políticos e administrativos “que comprometessem a obra de reconstrução revolucionária”. Além de obstar a atuação do SPI na região, a comissão, composta por Manoel Dias Barros (presidente), Cesario C. da Silva, Demétrio Hermes Araujo e José Frota de Menezes Costa, tinha como alvo os servidores do órgão indigenista e, em especial, o inspetor Bento Martins Pereira de Lemos, chefe da Inspetoria do Amazonas e Acre (1ª Inspetoria Regional/I.R. 1) no período de 1916 a 1932.[6]

Acessando o link para as fotografias do Tribunal Especial na Amazônia que pertencem ao Arquivo Nacional e estão disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

A defesa dos índios diante da servidão a que eram submetidos nos barracões do alto Solimões, da invasão das terras reservadas, do uso como mão de obra nos campos de criação de gado, da escravização por seringalistas e comerciantes colombianos no alto rio Negro rendeu a Bento Pereira de Lemos perseguições e ameaças de morte, favorecidas em grande medida pela omissão de políticos e autoridades policiais. Ações criminosas – apresamento de mulheres e filhas, espancamentos, estupros e agressões, esbulho de posses indígenas, tráfico de crianças etc. – aconteciam, principalmente, em regiões inacessíveis e desprovidas de postos indígenas e de agentes do SPI que atuavam para libertar índios do poder de comerciantes locais -seringalistas, balateiros, castanheiros.

Segundo Darcy Ribeiro (1962: 36), “o SPI se revelara muito mais incômodo do que se imaginara, quando de sua criação. Pusera realmente em prática o seu programa opondo-se deste modo a centenas de potentados locais, cujos negócios se baseavam na exploração da mão-de-obra indígena, e cujos projetos de riqueza se assentavam em perspectivas de usurpação de terras de índios.”

Cabe registrar que as terras a serem demarcadas como indígenas eram consideradas devolutas e, desde a Constituição de 1891, pertenciam aos Estados, não ao governo federal. Para esse período, vale mencionar a Lei nº 941 de 16.10.1917 concedendo posse imemorial às terras ocupadas por “índios selvagens ou semi-civilizados”, mais tarde revogada pela Lei nº 1.144 de 20.04.1922. Ainda na década de 1920, o governador do Estado do Amazonas, César do Rego Monteiro (1863 – 1933), diante da crise econômica e financeira da região, iniciou um processo de concessão de terras a imigrantes e empresários estrangeiros. A presença do SPI como representante do governo federal na expansão do controle governamental sobre territórios e populações indígenas começou a incomodar a elite de seringalistas e comerciantes acostumados a deter o mandonismo local sobre a população regional. As condições políticas para demarcação de terras para os índios, como se verifica, eram extremamente adversas não só porque os governadores não queriam abrir mão de terras negociáveis para doar aos índios, mas as populações locais também não o queriam. À medida que o preço da castanha se elevava, por exemplo, prepostos de políticos e altos funcionários estaduais avançavam sobre os castanhais nativos, cujas terras eram requeridas ou invadidas, gerando ameaças, conflitos, expulsões e maus tratos de índios. Acresce-se ainda que com a Revolução de 1930 e o afastamento de Rondon da direção do SPI, as demarcações de terras indígenas sofriam grande interferência das forças políticas locais.

“A mediação da inspetoria junto à justiça e aos poderes estaduais nem sempre salvaguardou os índios, pois havia omissão, conivência e jogos de interesse voltados para as terras e o trabalho indígena.”[7]

Desde a instalação no Acre e no Amazonas da 1ª Inspetoria Regional, IR1, o SPI conseguiu criar um número variável de unidades de assistência aos índios, chamados postos indígenas. Em 1913 eram 6, em 1914 eram 10 e em 1915 eram 7, sem qualquer garantia de posse de terras indígenas. Quando Bento Pereira de Lemos assumiu interinamente a IR1 em 1916, eram apenas 3 – P.I. Jauaperi, PI Abacaxis e Fazenda São Marcos.[8] Durante sua gestão, realizou recenseamentos, delineou medidas para a obtenção de terras para os índios, empreendeu esforços para a fundação de novos postos indígenas e organizou equipes de atração/pacificação.[9] Cada posto era provido de uma infraestrutura básica, um sistema de produção econômica com equipamentos e ferramentas e, quando possível, uma escola de alfabetização.

 

 

O processo destinado a investigar denúncias contra as atividades desenvolvidas pela I.R. 1 e “pesquisar o que de normal ou de anormal se passava naquela Repartição” – [10], é composto por cinco volumes que versam sobre exame do estudo da escrituração da inspetoria, questionando os dados contidos no registro geral de índios, faturas de itens adquiridos, dotações orçamentárias, contratos de cessão de terras e outras denúncias visando a responsabilizar o inspetor Bento Pereira de Lemos por irregularidades administrativas e por fomentar conflitos. Para fundamentar a acusação que rendeu ao inspetor um breve afastamento do SPI, a comissão elaborou um questionário com 11 quesitos a serem respondidos por repartições públicas das esferas federal, estadual e municipal, particulares e casas comerciais. O ponto central das perguntas residia na concessão de terras e na existência ou não de “índios verdadeiros” na região.

“O que a esta Comissão e a quem ler, patenteia o exame da correspondência de alguns Delegados e encarregados de Postos e Aldeamentos, as denúncias, queixas, reclamações e inquéritos presentes à mesma, observados com toda atenção em suas minúcias é que nessas dependências da Inspetoria de Índios, não existem silvícolas, unicamente em alguns lugares, encontram-se poucos descendentes de velhos e extintos aborígenes, que apesar dessa condição, repudiam a classificação que lhes atribui aquele Departamento da administração Federal neste Estado.”[11]

Uma série de depoimentos e denúncias foi arrolada pela Comissão a exemplo do ofício do prefeito de Borba, Sergio R. Pessoa Filho, reclamando da atuação da Inspetoria de Índios do Amazonas de “desrespeito à propriedade particular, sem a menor atenção às leis do Estado e ao princípio constitucional que lhe assegura o domínio das terras devolutas”[12], ou do abaixo-assinado de moradores do distrito de Abacaxis, município de Borba contra o encarregado do SPI, Raimundo da Costa Leite [13], ou da denúncia de Edgard Penha, comerciante de castanha, contestando a presença de índios na região do Jauaperi e exigindo o afastamento de Bento Pereira de Lemos.

“Causa admiração ver-se que os rios Canumã, Abacaxis e Marimari, que nos áureos tempos da borracha eram prósperas zonas, concorrendo com grande coeficiente de rendas para o estado, se vejam hoje reduzidos à simples condição de malocas de índios.”[14]

Como sua argumentação, o inspetor elaborou as razões de defesa apresentadas à Junta de Sanções Federal sob o título “Alegações de defesa apresentadas por Bento Pereira de Lemos”. Trata-se de um documento datado de 3 de junho de 1931, contendo 131 documentos anexos. Acompanha as alegações de defesa um volume com 294 fotografias do período de 1913 a 1930.[15] Essas fotografias foram selecionadas de relatórios anuais durante sua gestão e de inspetores que o precederam expondo as iniciativas de assistência, atividades econômicas, paisagens. Algumas dessas imagens aqui apresentadas são de autoria do auxiliar de fotógrafo do SPI, Anástacio Queiroz que percorreu, de 1928 a 1930, diversas áreas indígenas sob a jurisdição da I.R.1.[16]

 

 

Os organismos voltados à ação junto aos índios, desde a Comissão Rondon com o oficial engenheiro Luiz Thomaz Reis (1878 – 1940), passando pelo período inicial do Serviço de Proteção aos Índios até os anos 1930 e, mais tarde, durante a fase da Seção de Estudos do SPI, criada na década de 1940 pelos fotógrafos Harald Schultz (1909 – 1966) e Heinz Forthmann (1915 – 1978), promoveram um sistemático registro fotográfico. Esse significativo acervo de imagens se caracteriza, principalmente, por retratar diferentes situações: paisagens e vistas do posto, índios e suas famílias em frente às suas habitações, atividades produtivas tradicionais – como fabricação de farinha e tecelagem -, construções e benfeitorias – sede do posto, escola, curral, casa de farinha -, crianças na escola, cerimônias festivas e atividades administrativas como recenseamento e registro civil.

 

 

Bento Pereira de Lemos, como outros indigenistas no lastro da Comissão Rondon, tinha consciência do peso da linguagem fotográfica como uma construção, sendo a fotografia instrumento de divulgação de um ideário e de realizações. A apresentação de um volume de fotografias, anexo às suas alegações de defesa, explicita a finalidade do uso dessas imagens: um elemento de comprovação das atividades e dos atos administrativos de sua inspetoria face às acusações engendradas ao longo do inquérito:

“As inúmeras fotografias, que adiante ofereço – estereotipia flagrante, que reproduz a materialidade dos fatos, expressa na sua nudez e exata nos aspectos que reflete – testificam, de seu lado, os serviços materiais realizados pela Inspetoria, em favor dos índios, desde a sua instalação até os nossos dias.

A palavra pode falsear a verdade. Mas a fotografia só reproduz o que diante da objetiva se lhe apresenta.”[17]

A ênfase na produção de imagens/documentos explica-se pela presunção da objetividade e neutralidade da câmara fotográfica e pelo caráter de prova da fotografia, princípios tão caros ao pensamento positivista. Defensores dessa técnica em todas as suas manifestações e aplicações propunham para a “imagem mecânica um estatuto de fidelidade e exatidão na reprodução da realidade capaz de criar um registro objetivo e comprobatório das suas realizações”.[18] – A objetividade da fotografia confere-lhe um poder de credibilidade tornando-o presente no tempo e no espaço. A fotografia funcionava, pois, como um documento de comprovação, a servir de atestado à execução e ao término dos trabalhos e apresentação dos relatórios finais, como um atesto das atividades em campo e dos atos burocráticos inerentes à administração pública.

 

 

Cabe ainda mencionar um certo alinhamento dos registros fotográficos entre as imagens realizadas durante a Comissão Rondon – [19] – e aquelas efetuadas por fotógrafos do SPI, alguns deles oriundos da experiência de instalação de linhas telegráficas. Exemplo de uma prática já utilizada pela Comissão Rondon e também por diferentes inspetores consiste no registro do uso da música e do gramofone como forma de aproximação.[20]

 

 

O ato de fazer a fotografia já revela, em si, que aquele momento merece um registro; a utilização de elementos simbólicos, como a bandeira brasileira, representando a pátria e a República, vem acentuar esse caráter solene do momento gravado na fotografia. Cabe lembrar que a pátria desempenha um papel importante na ideologia positivista, de mediação, necessário para o desenvolvimento do “instinto social”. Para o “convencimento” dessa “missão” impunha-se o uso de símbolos na qual a imagem do índio fronteiriço ao lado da bandeira nacional marca a existência de um índio brasileiro, e não somente índio.[21]

 

 

Nas palavras de Carlos Augusto da Rocha Freire, o relatório final da Comissão de Inquérito “é um dos raros documentos históricos em que é manifestada pelos depoentes, de forma sistemática, oposição à política indigenista implementada na Amazônia pelo SPI”.[22]

É, pois, através de uma continuada política hostil aos povos indígenas de negação de sua existência e direitos, de opressão e de apropriação de suas terras, que deve ser entendida a instauração da Comissão de Inquérito na I.R.1. Esse cenário, apesar de distante no tempo, ainda atinge muitos indígenas deste país. Na década de 1960, Darcy Ribeiro observava:

“… cada movimento revolucionário ocorrido no Brasil, desde a criação do SPI, pareceu a seus funcionários, nas zonas onde ele mais atua, realizado contra os índios, tais as violências que desencadeava, levadas a efeito pelo novo bando que ascendia ao poder. Nestas ocasiões, os governos locais dependentes do central passam a vender caro o seu apoio e entre suas exigências estava quase sempre a de uma nova política indigenista, que deixasse mãos livres para o esbulho do que restava aos índios.”[23]

 

*Maria Elizabeth Brêa Monteiro é Mestre em História (UERJ) | Pesquisadora do Arquivo Nacional

 

[1]Em 1910, o SPI foi criado como Serviço de Proteção aos Índios e Localização de Trabalhadores Nacionais. Sete anos mais tarde, o setor dedicado à “localização de trabalhadores nacionais” é transferido para o Serviço de Povoamento do Solo, subordinado igualmente ao Ministério da Agricultura, Indústria e Comércio.

[2]Gomes, Mercio P.. Por que sou rondoniano. Estudos Avançados, São Paulo, v. 23, n. 65, 2009.

[3]Diversas repartições públicas, entre elas o SPI, foram incorporadas ao novo Ministério dos Negócios do Trabalho, Indústria e Comércio criado pelo governo provisório em 26 de novembro de 1930. Em 12 de julho de 1934, por força do Decreto nº 24.700, o SPI foi transferido para o Ministério da Guerra, na condição de uma simples seção, sob o argumento de que era necessário proteger as fronteiras e resguardar a nacionalidade e, por isso, o indígena era indispensável, pelas suas qualidades físicas e morais e pela sua adaptação ao clima. Gagliardi, José Mauro. O indígena e a República. SP: Ed. Hucitec/EDUSP/Secretaria de Estado de Cultura de São Paulo, 1989.

[4] Ribeiro, Darcy. A política indigenista brasileira. RJ: Ministério da Agricultura, 1962. p. 31-32

[5] O Tribunal Especial foi criado em 11 de novembro de 1930 pelo Decreto nº 19.398, que instituiu o Governo Provisório. Seu principal objetivo era apurar e identificar os responsáveis pela prática de atos contrários à vida constitucional do país e pelas irregularidades administrativas e financeiras ocorridas durante o governo de Washington Luís. Foi substituído pela Junta de Sanções, em 6 de março de 1931. Disponível em http://www.fgv.br/cpdoc/acervo/dicionarios/verbete-tematico/tribunal-especial. Acesso em 13 de abril de 2018.

[6]BR_RJANRIO_CD Tribunal Especial. Processo nº 640, 1930-1932.

[7] Idem.

[8]Freire, Carlos Augusto da Rocha. O SPI na Amazônia: política indigenista e conflitos regionais 1910-1932. 2.ed. Rio de Janeiro: Museu do Índio, 2009 e Melo, Joaquim Rodrigues de. A política indigenista no Amazonas e o Serviço de Proteção aos Índios: 1910 a 1932. Dissertação de mestrado em Sociedade e Cultura na Amazônia. UFAM, Manaus, 2007.

[9] Atrair e pacificar configurava uma prática preconizada por Rondon desde os trabalhos na Comissão de Linhas Telegráficas e Estratégicas do Mato Grosso ao Amazonas que consistia, sumariamente, em estabelecer contato com os “grupos arredios” de forma pacífica, sem uso da força, ratificando o princípio “morrer se preciso for; matar, nunca”.

[10] Relatório dos trabalhos da comissão apresentados ao interventor federal Alvaro Maia em 08.04.1931. Processo nº 640, v. 1, fl. 4.

[11] Idem. fl.16

[12]Processo nº 640, v. 2, fl. 300.

[13]Processo nº 640, v. 1, fl. 185-186.

[14] Relatório dos trabalhos da comissão apresentados ao interventor federal Alvaro Maia em 08.04.1931. Processo nº 640, v. 1.fl.11.

[15]Processo nº 640, v. 3 e 4.

[16] Freire. op.cit. p. 58-59.

[17] Alegações de defesa apresentadas por Bento Pereira de Lemos. BR_RJANRIO_CD Tribunal Especial. Processo nº 640, 1930-1932 v. 3, fl. 546.

[18] Maciel, Laura Antunes. A nação por um fio: caminhos, práticas e imagens da Comissão Rondon. Tese de doutorado em História, PUC, São Paulo, 1997. p. 144

[19] Sobre a análise das imagens produzidas pela Comissão Rondon ver Tacca, Fernando de. O feitiço abstrato: do etnográfico a imagética da Comissão Rondon. Tese de doutorado em Antropologia Social, USP, 1999.

[20] Antonio Estigarribia, chefe da Inspetoria do Espírito Santo, em seu relatório de atividades no ano de 1920 registra: “Todos estes índios gostam muito de música e o gramofone fez entre eles um verdadeiro sucesso. A ideia primeira que manifestavam era que estava um português escondido dentro ! Este instrumento tem sido meu companheiro inseparável nas visitas aos índios e adquiri dois, para deixar um em cada um dos postos que vão sendo organizados.” Monteiro, Maria Elizabeth Brêa. O círculo de ferro da colonização, o Serviço de Proteção aos Índios e os Botocudos no Espírito Santo. Dissertação de mestrado em História Política, UERJ, 2004. p: 85-86

[21] Tacca, Fernando de. O índio na fotografia brasileira: incursões sobre a imagem e o meio. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, Rio de Janeiro, v.18, n.1, jan.-mar. 2011.

[22] Freire. Op.cit. p. 11.

[23]Ribeiro. Op.cit. 36-37.

 

A Brasiliana Fotográfica publicou, em 12 de julho de 2015, o artigo, “Marco no fotojornalimo brasileiro: a seca no Ceará é documentada com fotografias” que também destaca o caráter de comprobatório da fotografia quando forampublicadas fotos de vítimas da maior seca nordestina do século XIX. Segundo o trabalho “Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira”, dos pesquisadores Joaquim Marçal Ferreira de Andrade e Rosângela Logatto, a publicação desses registros foi uma das iniciativas pioneiras da imprensa brasileira na utilização de fotografias como documentos de comprovação de um fato. 

Para denunciar a tragédia, o chargista português Rafael Bordalo Pinheiro (1846 – 1905) publicou, em 20 de julho de 1878, em uma ilustração da revista “O Besouro”, duas fotos – enviadas por José do Patrocínio (1854 – 1905) – que fazem parte de um conjunto de 14 registros fotográficos de vítimas da seca ocorrida entre 1877 e 1878. Porém, não foi dado crédito para o autor das fotos, Joaquim Antonio Corrêa, cujo ateliê ficava em Fortaleza, no Ceará. Patrocínio havia ido ao Ceará fazer a cobertura da seca para o jornal “Gazeta de Notícias”.

Link para O Besouro de 20 de julho de 1878, ano I, n.16

Acessando o link para as fotografias de Joaquim Antonio Corrêa sobre a seca nordestina de 1877/1878 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Marco no fotojornalimo brasileiro: a seca no Ceará é documentada com fotografias

 

J.A. Correia. Secca de 1877-78, 1877-1878. Ceará / Acervo FBN

J.A. Correia. Secca de 1877-78, 1877-1878. Ceará / Acervo FBN

Segundo o trabalho “Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira”, dos pesquisadores Joaquim Marçal Ferreira de Andrade e Rosângela Logatto, a publicação de fotos de vítimas da maior seca nordestina do século XIX foi uma das iniciativas pioneiras da imprensa brasileira na utilização de fotografias como documentos comprobatórios de um fato (Anais da Biblioteca Nacional, vol 114, de 1994, p.71-83).

Para denunciar a tragédia, o chargista português Rafael Bordalo Pinheiro (1846 – 1905) publicou, em 20 de julho de 1878, em uma ilustração da revista O Besouro, duas fotos que fazem parte de um conjunto de 14 registros fotográficos de vítimas da seca ocorrida entre 1877 e 1878. Porém, não foi dado crédito para o autor das fotos, Joaquim Antônio Correia, cujo ateliê ficava em Fortaleza, no Ceará.

Link para O Besouro de 20 de julho de 1878, ano I, n.16

Esse conjunto de fotografias pertence, atualmente, ao acervo da Biblioteca Nacional.  São imagens chocantes, em formato de cartes de visite, e retratam crianças, homens e mulheres desnutridos e maltrapilhos, de aparência doentia, e, muitas vezes, as fotos, feitas em estúdio, trazem textos rimados que se referem à miséria.

Acessando o link para as fotografias de Joaquim Antônio Correia sobre a seca nordestina de 1877/1878 disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

A publicação da ilustração litográfica das duas fotos sendo seguradas por um esqueleto vestindo paletó, sob o título “Páginas tristes – Scenas e aspectos do Ceará (para S. Majestade, o Sr. Governo e os Senhores Fornecedores verem)”, tinha o objetivo de reforçar denúncias feitas pelo escritor e jornalista José do Patrocínio (1853 – 1905) em artigos publicados no periódico de texto Gazeta de Notícias. Patrocínio fazia, na época, a cobertura jornalística da seca com o principal objetivo de acompanhar a aplicação dos recursos governamentais em seu combate. Partiu em 10 de maio de 1878 e retornou ao Rio de Janeiro, em 12 de agosto do mesmo ano. As matérias foram publicadas, na coluna Folhetim, na primeira página da Gazeta de Notícias, sob o título “Viagem ao Norte” (1).

Mas só o texto não era suficiente. Então, Patrocínio enviou as fotos para a redação da revista O Besouro, para a qual já havia mandado, antes da viagem, o artigo “Sermão de Lágrimas” (O Besouro, edição de 4 de maio de 1878 ), em que tratava, com preocupação, a seca e a situação dos retirantes.

A publicação da ilustração com as fotos de Joaquim Antônio Correia, na revista O Besouro, foi um verdadeiro “anticartão de visita, veemente panfleto que denuncia uma realidade que muitos membros da corte se negavam a enxergar”(“Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira”).

Abaixo, está reproduzido o texto publicado no O Besouro, na página seguinte à ilustração com as fotografias:

“O Ceará

O nosso amigo José do Patrocínio, em viagem por aquela provincia, enviou-nos as duas photographias por que foram feitos os desenhos da nossa primeira página.

São dois verdadeiros quadros de fome e miséria. E´ n´aquelle estado que os retirantes chegam á capital, aonde quasi sempre morrem, apezar dos apregoados soccorros, que segundo informações exactas são distribuídos de maneira improficua.

A nossa estampa da primeira pagina é uma prova cabal áquelles que accusavam de exageração, a pintura que se fazia do estado da infeliz província.

Repare o governo e repare o povo, na nossa estampa, que é a cópia fiel da desgraça da população cearense.

Continuaremos a reproduzir o que o nosso distincto collega nos enviar a tal respeito.”

Uma curiosidade: também dessa viagem ao norte do país originou-se o romance de José do Patrocinio, Os Retirantes, publicado na Gazeta de Notícias, em estilo de folhetim, entre 29 de junho e 10 de dezembro de 1879.

 

(1) – Links para os artigos escritos por José do Patrocínio sob o título “Viagem ao Norte”.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 1º de junho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 6 de junho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 20 de julho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 23 de julho de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 3 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 15 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 22 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 30 de agosto de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 7 de setembro de 1878.

Coluna Folhetim, “Viagem ao Norte”, Gazeta de Notícias, edição de 12 de setembro de 1878.

 

Breve cronologia de Joaquim Antônio Correia (18? – ?)

 

seca1

 

1874 – Até este ano, o nome de Joaquim Antônio Correia apareceia no cadastro de contribuintes como dono de uma casa comercial especializada em produtos manufaturados fora da província,que ficava na rua da Palma , nº 17.

1877 - Estabeleceu como fotógrafo na rua Formosa, n° 31. Atuou como retratista por não menos de dez anos e foi contemporâneo de Agio Pio, do prussiano Carlos Frederico Johann Reeckell, do dinamarquês Niels Olsen (1843 – 1911) associado ao austríaco Constantino Barza, do francês Baubrier e de Francisco Brandão, dentre outros.

 

 

 

1878 – Defendeu-se da acusação de comercializar indevidamente retratos que produzia de moças de família e ameaçou pendurar de cabeça para baixo os retratos de seus devedores (O Cearense, 12 de maio de 1878).

Em maio, conheceu o escritor José do Patrocínio (1853 – 1905), que havia ido para o Ceará para conhecer mais de perto a tragédia da seca. Voltando para o Rio de Janeiro, publicou duas fotos da seca no Ceará de autoria de Correia, na revista O Besouro, de 20 de julho de 1878, do chargista português Rafael Bordallo Pinheiro (1846 – 1905). Foi uma das iniciativas pioneiras da imprensa brasileira na utilização de fotografias como documentos comprobatórios de um fato. Foi um marco na história do fotojornalismo brasileiro.

A publicação da ilustração litográfica das duas fotos sendo seguradas por um esqueleto vestindo paletó, sob o título “Páginas tristes – Scenas e aspectos do Ceará (para S. Majestade, o Sr. Governo e os Senhores Fornecedores verem)”, tinha o objetivo de reforçar denúncias feitas por do Patrocínio em artigos publicados no periódico de texto Gazeta de Notícias. Patrocínio fazia, na época, a cobertura jornalística da seca com o principal objetivo de acompanhar a aplicação dos recursos governamentais em seu combate. Partiu em 10 de maio de 1878 e retornou ao Rio de Janeiro, em 12 de agosto do mesmo ano. As matérias foram publicadas, na coluna Folhetim, na primeira página da Gazeta de Notícias, sob o título “Viagem ao Norte”. Mas só o texto não era suficiente. Então, Patrocínio enviou as fotos para a redação da revista O Besouro, para a qual já havia mandado, antes da viagem, o artigo “Sermão de Lágrimas” (O Besouro, edição de 4 de maio de 1878 ), em que tratava, com preocupação, a seca e a situação dos retirantes.

1881 – Seu estúdio fotográfico dispunha de um grande sortimento de quadros de gosto…máquinas de 4 objetivas…e tudo por preço tão diminuto que admira.

 

 

1883 / 1884 – Antes da assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, Fortaleza, em 24 de maio de 1883, tornou-se a primeira capital brasileira a libertar todos os escravizados. No ano seguinte, em 25 de março de 1884, o Ceará passou a ser o primeiro estado brasileiro a extinguir a escravidão. Correia documentou os líderes da luta escravagista em fotos chamadas de Retratos Libertadores e, em 1883, as comercializava.

 

O Libertador, de 1887

O Libertador,  9 de maio de 1883 / História da fotografia no Ceará do século XIX

 

1885 – Correia anunciou que havia adquirido, em Paris, uma nova máquina para retratos instantâneos (O Cearense, de 28 de julho de 1885, última coluna).

1886 – Anunciava que em seu estabelecimento fotográfico tirava-se retratos pelos processos mais aperfeiçoados (O Libertador, 8 de junho de 1886, última coluna).

1892 – Provavelmente continuou trabalhando como fotógrafo até este ano.

Em 29 de dezembro, inaugurou a primeira fábrica de louças do Ceará, no Boulevard da Conceição (A República, 28 de dezembro de 1892, quarta coluna).

1893 – Anunciou a venda de seu estúdio fotográfico:

“Joaquim Antonio Correia vende a sua fotografia constando de boas lentes, drogas, punsas, etc. A tratar: Rua Formosa, nº 31″ (A República, 30 de maio de 1893). Residia na rua Floriano Peixoto, nº 95.

 

Fontes:

ANDRADE, Joaquim Marçal Ferreira de; LOGATTO, Rosângela. Imagens da Seca de 1877-78 – Uma contribuição para o conhecimento do fotojornalismo na imprensa brasileira.  Anais da Biblioteca Nacional, vol 114, de 1994, p. 71-83.

BEZERRA, Ari Leite. História da fotografia no Ceará do século XIX. Edição do autor, 2019.

Fundação Palmares

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

KOSSOY, Boris. Dicionário histórico-fotográfico brasileiro: fotógrafos e ofício da fotografia no Brasil (1833-1910). São Paulo: Instituto Moreira Salles, 2002. 408 p., il. p&b.

Link para o artigo 500 mil mortos: a tragédia esquecida que dizimou brasileiros durante 3 anos no século 19, de Camilla Veras Mota, Camila Costa e Cecilia Tombesi publicada no site da BBC, em 18 de junho de 2021, com as fotografias de Joaquim Antonio Corrêa.*

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora-assistente e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

*Esse link foi acrescentado no artigo em 19 de junho de 2021.

**Essa breve cronologia foi inserida em 19 de abril de 2022.