O primeiro campo do Clube de Regatas do Flamengo por Augusto Malta

Produzida pelo fotógrafo alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), em torno de 1926, a imagem destacada no artigo de hoje da Brasiliana Fotográfica mostra um aspecto do primeiro campo do Clube de Regatas do Flamengo – O Estádio da Rua Paissandu. Na época, Malta era o fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro, cargo criado para ele, que o ocupou entre 1903 e 1936, quando se aposentou. Fotografou no período as transformações urbanas e os grandes eventos da cidade, personalidades políticas, intelectuais e artísticas; paisagens, monumentos, lojas, o casario e as ressacas. Registrou também aspectos da vida carioca como, por exemplo, o carnaval de rua, o movimento dos quiosques, os eventos sociais e esportivos, os moradores de cortiços, os vendedores ambulantes, as prostitutas, os marinheiros e cenas de praia. Seu legado iconográfico é essencial para a preservação da memória da cidade.

 

 

O Estádio da Rua Paissandu, cercado de palmeiras imperiais, localizava-se na esquina da Rua Paissandu com a Pinheiro Machado. A família Guinle era a proprietária do terreno, que foi arrendado pelo Flamengo, em fins de 1914, quando o Paissandu Atlético Clube deixou de ser o mandante em amistosos e jogos não oficiais do campo. Em 31 de outubro de 1915, foi realizado o primeiro jogo oficial do Flamengo no estádio: foi uma goleada de 5 a 1 sobre o Bangu, que valeu ao rubro-negro o título do Campeonato Carioca daquele ano. Depois viriam, ainda no campo da Rua Paissandu, os títulos de 1920, 1921, 1925 e 1927. Seu último jogo no estádio, em 25 de setembro de 1932, foi contra o Sport Club Brasil e o rubro-negro ganhou de 5 a 0. O Flamengo devolveu o terreno no fim de 1932 (A Noite, 26 de setembro de 1932).  Os maiores públicos do estádio foram Flamengo 0 x 3 Fluminense, em 23  de junho de 1918, e Flamengo 1 x 3 Fluminense, em 24 de agosto de 1919; ambas as partidas registrando cerca de 15 mil pagantesEm 4 de setembro de 1938, foi inaugurado o novo estádio do Flamengo, o Estádio da Gávea, à beira da Lagoa Rodrigo de Freitas, com um jogo pelo Campeonato Carioca, entre o Flamengo e o Vasco, que venceu por 2 a 0, gols de Leonídio Fantoni, conhecido como Niginho (1912-1975).

 

flamengo

 

O Flamengo, cuja torcida é atualmente a maior do mundo, foi fundado, como clube de regatas, em 15 de novembro de 1895. Apenas em 1912, adotou o futebol. Antes de arrendar o Estádio da Rua Paissandu, o time não tinha estádio próprio e realizava seus jogos nos campos do Fluminense, em Laranjeiras; e no do Botafogo, na General Severiano – campos que voltou a utilizar entre 1932 e 1938. Seu atual estádio é o da Gávea (A Noite, 4 de setembro de 1938Jornal dos Sports, 6 de setembro de 1938).

 

 

 

 

Algumas curiosidades sobre o estádio da Rua Paissandu

 

Em 1872, foi fundada uma agremiação chamada Rio Cricket Club, na rua Berquó, atual Rua General Polidoro, semente do Paissandu Atlético Clube. Em 1880, o Rio Cricket Club mudou-se para um terreno alugado na Rua Paissandu e passou a chamar-se Paysandú Cricket Club. Na nova sede, foi construída uma pista de corrida em volta da quadra de críquete, além de quadras de tênis e de um pavilhão onde ficavam as senhoras que vinham assistir aos jogos. O terreno pertencia a Gastão d´Orleans (1842 – 1922), o conde D´Eu e sua esposa, a princesa Isabel (1846 – 1921), frequentava o clube para ver jogos e campeonatos…

 

 

 

…quando ainda era denominado Paysandú Cricket Club foi o local do primeiro jogo do Fluminense Futebol Clube, em 19 de outubro de 1902, quando o time tricolor venceu o amistoso contra o Rio Futebol Clube por 8 a 0 (Revista da Semana, 26 de outubro de 1902, primeira coluna)…

 

 

…em 13 maio de 1917, o estádio foi palco de um jogo amistoso da seleção brasileira de futebol, que venceu o Barracas da Argentina por 2 a 1 (O Paiz, 14 de maio de 1917, primeira coluna).

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

PARDO, Aristides Leo. Os Estádios de Futebol do Estado do Rio de Janeiro: Bola, História e Cultura – Vol. 3. Rio de Janeiro : Editora Tide Karioca, 2025.

Site Fla Estatística

Site Fluminense Futebol Clube

Site Globo Esporte

Site Museu Flamengo

Site Paissandu Atlético Clube

Série “Carnavais de antigamente” XII – Um registro do carnaval em Cuiabá, no Mato Grosso, na década de 1940

Nesta Quarta-Feira de Cinzas, a Brasiliana Fotográfica celebra o Carnaval destacando uma imagem em uma cidade diferente daquelas cujas fotografias da folia de Momo são mais frequentes. É um registro carnavalesco nas ruas de Cuiabá, capital do Mato Grosso, e faz parte do Fundo Fundação Rockefeller, do acervo da Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica. Seu autor ainda não foi identificado e a cena é do dia 20 de fevereiro de 1944. Também listamos todas as publicações do portal sobre o Carnaval, reunidas na série Carnavais de Antigamente. Viva a folia! Viva a cultura!

 

 

Na foto destacada acima, em pleno domingo de Carnaval, vemos apenas três crianças fantasiadas, de mãos dadas, em uma rua perto de um jardim. O Brasil estava sob a ditadura do Estado Novo do presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) e encontrava-se em estado de guerra contra os países do Eixo e a Força Expedicionária Brasileira preparava-se para juntar-se, na Itália, aos países Aliados da Segunda Guerra Mundial. Houve, na época, uma polêmica em torno da conveniência da realização do Carnaval e a proibição de várias manifestações populares em razão deste fato, o que talvez explique a atitude dos adultos que aparecem na fotografia – sem fantasias, apenas passeando pela rua como se fosse um domingo como outro qualquer.

A marchinha Eu brinco, de autoria de Pedro Caetano (1911 – 1992) e Claudionor Cruz (1910 – 1995) interpretada pelo popularíssimo cantor Francisco Alves (1898 – 1952), foi um grande sucesso e foi composta no contexto da polêmica que ameaçou a realização do Carnaval de 1944.

 

Ouça aqui a Marchinha Eu brinco.

Com pandeiro ou sem pandeiro
Eh eh eh eh, eu brinco
Com dinheiro ou sem dinheiro
Eh eh eh eh eu brinco

No céu a lua caminha
Tão triste sozinha
Pra não ser triste também
com pandeiro ou sem pandeiro

Com pandeiro ou sem pandeiro
Eh eh eh eh eu brinco
Com dinheiro ou sem dinheiro
Eh eh eh eh eu brinco

Tudo se acaba na vida
Morena querida
Se o meu dinheiro acabar
Com dinheiro ou sem dinheiro
Meu amor, eu brinco

 

 

Série “Carnavais de antigamente”

“O carnaval é a expressão da nossa alegria. O ruído, o barulho, o tantã espancam a tristeza que há nas nossas almas, atordoam-nos e nos enchem de prazer”.

Lima Barreto (1881 – 1922), em O Morcego (1915)

 

Série “Carnavais de antigamente” I – O carnaval nas primeiras décadas do século XX, publicado em 5 de fevereiro de 2016, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” II – O carnaval do Cordão da Bola Preta, publicado em 9 de fevereiro de 2018, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” III – A Batalha de Flores, publicado em 19 de fevereiro de 2018, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” IV - As Camélias Japonesas no carnaval de Alagoas pelas lentes do fotógrafo amador Luiz Lavenère Wanderley (1868 – 1966), publicado em 21 de fevereiro de 2020, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” V – Cenas da folia em Manaus em 1913, publicado em 28 de fevereiro de 2020, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” VI - Baile de Carnaval em Santa Teresa – Di Cavalcanti, Klixto e Helios Seelinger, na casa de Raul Pederneiras, publicado em 25 de fevereiro de 2022 , de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” VII e “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” III – O Rei Momo por Jean Manzon e por outros fotógrafos dos Diários Associados, publicado em 3 de fevereiro de 2023, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” VIII – Foliões do Carnaval de Diamantina por Chichico Alkmim, publicado em 17 de fevereiro de 2023 , de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” IX – Crianças no carnaval carioca de 1933 por Guilherme Santos, publicado em 8 de fevereiro de 2024, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” X – O carnaval de 1919: o carnaval da revanche, o carnaval triunfante!, publicado em 20 de fevereiro de 2025, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” XI – O carnaval e suas histórias, publicado em 27 de fevereiro de 2025, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BORGES, Luiz.“Eu brinco” e o Carnaval de 1944 in Site Observação & Análise, 1º de março de 2017

DINIZ, André. Almanaque do carnaval: a história do carnaval, o que ouvir, o que ler, onde curtir. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed ., 2008.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Jornal O Dia

O GLOBO, 23 de fevereiro de 2017

PEDREIRA, Flávia de Sá. Carnaval em Tempos de Guerra. O artigo é parte da tese de doutorado Chiclete eu misturo com banana: Carnaval e cotidiano de guerra em Natal (1920-1945), do Departamento de História, IFCH/Unicamp, março de 2004.

SILVA, Sormani. “Vovó me avisou”: memórias do carnaval de guerra (1942-1943) no Rio de Janeiro in Confluências Culturais Revista Interdisciplinar, v. 14, n. 1: 80 anos do final da Segunda Guerra Mundial: memória, história e patrimônios

“Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945)”, do acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro. Destaque para a identificação da casa de Tia Ciata

A Brasiliana Fotográfica publica imagens inéditas do Rio de Janeiro, do acervo do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro (AGCRJ), instituição parceira do portal desde abril de 2016, quando celebrávamos um ano de existência. Sob a presidência do internacionalista e doutor em Ciência Política, Eliseu Santiago, em parceria com a Aprazível Edições, do jornalista, editor de livros, curador de museus e exposições, Leonel Kaz, o AGCRJ lançou o livro digital Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945), que revela um valioso e inédito acervo iconográfico da cidade do Rio no período do Estado Novo, sob a presidência de Getúlio Vargas (1882 – 1954).  A publicação reforça a importância da preservação e difusão do patrimônio histórico e iconográfico do Rio de Janeiro.

 

 

O livro digital está disponível gratuitamente no site do Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro e da Aprazível Edições promovendo acessibilidade e difusão cultural. Foi financiado pelo Programa de Fomente à Cultura Carioca – PRÓ-CARIOCA LINGUAGENS, via Edição PNAB – Política Nacional Aldir Blanc. Lembramos aqui que o acervo do AGCRJ reúne cerca de quatro milhões de itens identificados, além de outros milhões de documentos, fotos e registros ainda em processo de organização.

 

Link para o livro digital Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945) 

 

Hoje a Brasiliana Fotográfica disponibiliza 20 das centenas de imagens publicadas no livro. A partir de recursos tecnológicos como a digitalização e o zoom, os registros fotográficos passam a ter outra visibilidade, podendo ser acessados em sua qualidade plena.

 

Acessando o link para as fotografias publicadas no livro Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937 -1945) disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945) é o resultado de uma extensa pesquisa, da recuperação e da digitalização de imagens realizadas por diversos profissionais do AGCRJ. São fotografias inéditas produzidas pelos filhos de Augusto Malta (1864 – 1957) – Aristógiton (1904-1954) e Uriel (1910 – 1994). Augusto Malta foi, entre 1903 e 1936, o fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro – cargo criado para ele -, e o mais  importante cronista fotográfico da cidade nas primeiras décadas do século XX, responsável por um legado fotográfico incontornável.

 

Foto do Arquivo recortada

Anônimo. Augusto Malta. Rio de Janeiro. Acervo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

 

Aristógiton Malta, nasceu em 1904, no Rio de Janeiro, e começou a auxiliar o pai na prefeitura, em 1925, ano em que Augusto, quando prestava um serviço para a Sul América, teve um de seus dedos dilacerados, devido a uma explosão ocasionada pelo flash de sua máquina fotográfica. Foi operado e ficou internado no Hospital da Ordem Terceira da Penitência. Aristógiton era filho da primeira esposa de Augusto, Laura Oliveira Campos (1874 – 1905).  Casou-se com Helena de Freitas Moutinho (1906 – 1975), em 1933. Em 25 de agosto de 1936, Augusto Malta aposentou-se da Prefeitura e foi substituído por ele, a partir de 9 de setembro do mesmo ano. Em 1938, O presidente da República, Getúlio Vargas (1882 – 1954), visitou a “Feira de Amostras”,  uma exposição de diversas secretarias da Prefeitura do Rio de Janeiro. Um dos stands de maior sucesso foi o da Secretaria de Viação, Trabalho e Obras Públicas, que expôs fotos de Augusto Malta e de seu filho, Aristógiton (A Noite, 31 de outubro de 1938, sob o título “A evolução do Rio através da fotografia”). Foi noticiado que uma foto de sua autoria do Estádio do Maracanã estava nas paredes de todas as repartições da Prefeitura, no hall do Banco da Prefeitura, e também em hotéis em países da Europa, da América do Sul e nos Estados Unidos (A Noite, 18 de maio de 1953, primeira coluna). Faleceu em 15 de agosto de 1954 (A Noite, 18 de maio de 1953, primeira colunaDiário de Notícias, 17 de agosto de 1954, sexta coluna).

 

Aristogiton Malta (1896-1954) / Site Family Search

Aristógiton Malta (1896-1954) / Site Family Search

 

Uriel Malta nasceu, em 28 de setembro de 1910, no Rio de Janeiro, filho da segunda esposa de Augusto, Celina Augusta Verscheuren (1884 – 1969). Passou a trabalhar com o irmão, no Serviço de Fotografia da Prefeitura, em 1937. Já era casado com Hilda de Abreu em 1944. Foi fotógrafo da Prefeitura até fins da década de 1960 e, em 1970, teve assinada a apostila fixando os proventos anuais de inatividade. Uriel faleceu, em Magé, em 5 de agosto de 1994 (Registro Civil do Rio de Janeiro, Site Family Search; Gazeta de Notícias, 4 de julho de 1935, terceira colunaJornal do Brasil, 12 de março de 1937, primeira colunaDiário de Notícias, 3 de abril de 1968, segunda colunaDiário de Notícias, 20 de outubro de 1968, primeira colunaDiário de Notícias, 31 de janeiro de 1969, terceira colunaDiário de Notícias, 7 de abril de 1970, última coluna).

 

Uriel Malta / Site Family Search

Uriel Malta / Site Family Search

 

O trabalho de Aristógiton e Uriel ficou durante muitas décadas à sombra da extraordinária obra de seu pai. As imagens de Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945) resgatam a importância do trabalho dos filhos de Augusto Malta, que fotografaram os últimos anos da belle époque carioca assim como seu desaparecimento.

 

 

O lançamento do livro digital foi realizado, em 27 de janeiro último, por Elizeu Santiago e Leonel Kaz, em um evento no AGCRJ. Em seguida, o professor Antonio Edmilson Martins Rodrigues proferiu a palestra Reformas Urbanas e Cultura no Rio do Estado Novo. O Conselho de Arquitetura e Urbanismo do Rio de Janeiro (CAU/RJ), entidade que apoiou a publicação do livro, foi representada pelo seu presidente, Sydnei Menezes. No dia seguinte, foi realizada uma roda de conversa sob o tema O Rio de Janeiro no Estado Novo: uma perspectiva iconográfica, com os professores Pedro Marreca e Rafael Martins de Araujo, gerente e sub-gerente de Pesquisa do AGCRJ, respectivamente.

 

 

 

 

O lançamento do livro digital foi antecedido pelo resgate de cerca de 14 mil imagens – em positivos com nitrato de prata e negativos – distribuídas em 11 álbuns, que ainda estão em tratamento arquivístico e que futuramente serão disponibilizadas nos bancos de dados do AGCRJ. Foi uma das descobertas mais relevantes realizadas pela instituição nos últimos anos. As imagens capturam as transformações urbanas, culturais e sociais do Rio de Janeiro, entre 1937 e 1945, quando o interventor do então Distrito Federal, o Rio de Janeiro, era Henrique Dodsworth (1895 – 1975).

 

 

Retratam um período de grandes transformações na cidade do Rio: por exemplo, a abertura da Avenida Presidente Vargas e da Avenida Brasil, a expansão dos subúrbios, a urbanização da Pavuna e da Zona Sul, a finalização da esplanada do Castelo e a inauguração do Jardim de Alah. Mais de 500 edifícios desapareceram.

 

Essas obras realizadas na região pela Prefeitura do Rio de Janeiro reduziram muito a Praça Onze de Junho. Logo no início da década de 40, durante o Estado Novo, o então presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) decidiu construir a avenida Presidente Vargas e, pelo projeto, os quarteirões entre as ruas Visconde de Itaúna e Senador Eusébio desapareceriam para sua abertura (O Malho, dezembro de 1941).

 

 

Começaram as demolições. Inúmeras famílias foram desalojadas, prédios foram derrubados, dentre eles algumas construções históricas, como a Igreja de São Pedro dos Clérigos.

 

 

 

 

O segundo trecho da nova avenida foi concluído em 10 de novembro de 1942; e, em 10 de novembro de 1943, foi batizada de Presidente Vargas. Finalmente, em 7 de setembro de 1944, foi inaugurada (O Malhodezembro de 1942abril de 1943dezembro de 1943O País, 10 de novembro de 1943Jornal do Brasil, 8 de setembro de 1944).

 

 

Na fotografia abaixo, foi identificada a casa da lendária Tia Ciata (1854 – 1924), Hilária Batista de Almeida, localizada na Rua Visconde de Itaúna, 117.

 

 

A casa ficava na região da Pequena África do Brasil, expressão baseada numa afirmação do cantor e pintor Heitor dos Prazeres (1898 – 1966) se referindo à área que começava no Porto do Rio de Janeiro e abrangia os atuais bairros da Saúde, Estácio, Santo Cristo, Gamboa e Cidade Nova, até a Praça Onze de Junho. Foi lá que, a partir da década de 1870, a comunidade baiana se estabeleceu no Rio de Janeiro, fazendo da área um local de concentração de diversas manifestações da cultura afro-brasileira. Havia também as tias Bebiana, Carmen e Mônica, dentre outras, que fizeram de suas casas pontos de referência e de convívio, que garantiram a manutenção das tradições africanas na cidade. Nessas casas eram cultuadas a música e a religiosidade afro-brasileira. As casas de Tia Prisciliana, mãe de João da Baiana (1887-1974), e, principalmente, a de Tia Ciata, considerada a matriarca do samba, foram espaços fundamentais da música popular carioca e eram frequentados por Donga, Pixinguinha (1897 – 1973), João da Baiana (1887-1974), o jornalista e dramaturgo Vagalume, pseudônimo de Francisco Guimarães (c. 1880 – 1946), e agitadores culturais como, por exemplo, Hilário Jovino (1873- 1933), Germano Lopes da Silva (? – 1933), o compositor e jornalista Mauro de Almeida(1882 -1956), dentre outros. Foi também na Pequena África que a Deixa Falar, considerada a primeira escola de samba, foi fundada, em 12 de agosto de 1928, pelos sambistas Bide, Mano Edgar, Brancura, Baiaco, dentre outros, além de Ismael Silva, que reivindicava a autoria da expressão escola de samba.

Na época da demolição, a Praça Onze não era apenas um logradouro carioca, mas uma espécie de bairro, pois englobava todas as ruas das imediações. Hoje, esta importante referência na história da formação do Rio de Janeiro, da cultura brasileira e da criação do samba, não existe mais, porém sua região continua sendo importante para o samba: o Sambódromo e o Terreirão do Samba, inaugurados em 1984 e 1991, respectivamente, estão localizados na área. Da Praça Onze resta um pequeno jardim, onde foi instalado um monumento em homenagem a Zumbi, em 1986.

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

São esses os profissionais responsáveis pelo extraordinário Achados e Perdidos: imagens inéditas do Rio de Janeiro (1937-1945):

 

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Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BUENO, Eduardo. TIA CIATA E A PRAÇA ONZE: COMO SURGIRAM AS ESCOLAS DE SAMBA

Diário do Ri0 – Praça Onze

Dicionário de Música Cravo Alvim

GERSON, Brasil. História das Ruas do Rio. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2013.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MALAMUD, Samuel. Recordando a Praça Onze. 1ª edição, Rio de Janeiro, Editora Kosmos, 1988

MOURA, Roberto. Tia Ciata e a pequena África no Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Funarte, 1983.

SILVA, Beatriz Coelho. Negros e Judeus na Praça Onze. A História que não ficou na memória. Rio de Janeiro : Bookstart, 2015.

Site Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro

Site Family Search

WANDERLEY, Andrea C.T. O alagoano Augusto Malta, fotógrafo oficial do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936 in Brasiliana Fotográfica, 10 de julho de 2015.

__________________. Série O Rio de Janeiro desaparecido” XVIII – A Praça Onze in Brasiliana Fotográfica, 20 de abril de 2022.

Série “Teatros e cinemas do Brasil” XIV – O Cinema Íris, o mais antigo cinema em atividade no Rio de Janeiro

 

 

O Íris é o mais antigo cinema em funcionamento no Rio de Janeiro. Projetado pelo engenheiro Paulo de Frontin (1860 – 1933), com um pomposo programa, foi inaugurado por João Cruz Junior (18? – 19?), em 30 de outubro de 1909, nos números 49 e 51 da Rua da Carioca, em um prédio que pertencia à Ordem Terceira da Penitência como Cinema Soberano, uma homenagem a um dos cavalos de seu proprietário, que fez com a Ordem Terceira um contrato de comodato para explorar o imóvel. Tinha 200 lugares e era dividido por uma grade de ferro em 1ª e 2ª classes. Tinha espaço para abrigar duas orquestras, uma na sala de espera e outra no interior da sala de projeção (Gazeta de Notícias, 30 de outubro de 1909, última coluna; Jornal do Brasil, 30 de outubro de 1909, penúltima coluna).

 

 

O Soberano tornou-se um cinema-teatro, em 1911, onde eram apresentadas operetas. No último andar do sobrado que ocupava, passou a funcionar o consultório e depósito da Tizana de Faro, poderoso depurativo (A Notícia, 9 de 10 de setembro de 1911, penúltima coluna; Correio da Manhã, 13 de outubro de 1911, quarta coluna; 25 de outubro de 1911, quinta coluna).

 

 

Em 1912, suicidou-se com um tiro, no Soberano, o artista plástico Domingues Garcia y Vasquez (Correio da Manhã, 19 de janeiro de 1912, primeira coluna;  Gazeta de Notícias, 20 de janeiro de 1912, quinta colunaA Notícia, 20 e 21 de janeiro de 1912, segunda coluna).

No mesmo endereço onde havia funcionado o Cinema Soberano, foi inaugurado o Cinema Victoria (Correio da Manhã, 9 de maio de 1912, última coluna).

 

 

Também no mesmo endereço, Rua da Carioca 49 e 51, foi inaugurado o Cinema Íris, em 16 de julho de 1912 (Correio da Manhã, 16 de julho de 1912, segunda coluna).

 

 

Na década de 1910, disputava a preferência dos fãs de cinema com o Cinema Ideal.

“As segundas-feiras a Rua da Cаrioca ficava intransitável na hora da abertura dos cinemas. Juntava o público do Íris com o do Ideal, pois um ficava quase defronte do outro. As sessões começavam às 13h e interrompiam o trânsito, ninguém passava. Quando tocava a campainha para começar a multidão levava porta e tudo para dentro. No Íris havia um camarada forte, de nome Carlos, que ficava segurando as cordas com um porrete na mão. Ele metia mesmo o porrete para controlar a multidão. As pessoas entravam, sentavam e não podiam mais levantar, pois perdiam o lugar. Quando alguém levantava, o Carlos gritava: “- Mais um, mais dois lugares.” Naquele tempo os cinemas enchiam de verdade. Eu preferia os filmes do Ideal; o Adhemar Gonzaga preferia e os do Iris. Ele gostava mais dos cow-boys, e eu das artistas bonitas. “

Pedro Lima in Filme Cultura, agosto de 1986, página 38

 

Durante um incêndio na sede da sociedade carnavalesca dos Tenentes do Diabo, na Rua da Carioca nº 47, o Cinema Íris foi bastante danificado (O Paiz, 19 de março de 1913, penúltima coluna). Após uma reforma, foi reaberto, em 21 de março 1914 (O Paiz, 21 de março de 1914, última colunaFon-Fon, 28 de março de 1914).

 

 

Em 1915, a Empresa Cinematográfica Universal fechou contrato com João Cruz Junior e o Cinema Íris se tornou a sala lançadora no Rio de Janeiro da companhia norte-americana. Em anúncio de 30 de maio de 1915, a empresa do cinema Íris apresentou seu novo fornecedor (Correio da Manhã, 30 de maio de 1915, última coluna). Semanas depois, o Cinema Íris estava exibindo exclusivamente os filmes americanos fornecidos pela Universal.

 

 

Em 14 de dezembro de 1921, após uma reforma realizada pelo engenheiro Emilio Baumgarten (18? – 19?) que incluiu a ampliação do cinema com a construção de um terceiro andar, uma claraboia para ventilação e uma decoração no estilo art nouveau, foi reinaugurado oficialmente como Novo-Cine-Theatro ÍRIS ou Cinema Íris, nome inspirado na deusa grega homônima que decorava sua entrada. Ostentava também azulejaria importada da Bélgica e espelhos de cristais da França. Foi justamente neste mês e ano que o alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), então fotógrafo da prefeitura do Rio de Janeiro, cargo que exerceu entre 1903 e 1936, produziu os dois registros destacados neste artigo, que pertencem ao acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadora da Brasiliana Fotográfica (Correio da Manhã10 de dezembro de 1921, quarta coluna; 11 de dezembro de 1921, sétima coluna O Jornal, 13 de dezembro de 1921, terceira coluna; 14 de dezembro de 1921, penúltima coluna; 15 de dezembro de 1921, quinta coluna; Jornal do Brasil, 16 de dezembro de 1921, sexta coluna).

 

 

 

Foi também na década de 1920 que o compositor Ary Barroso (1903 – 1964) empregou-se como pianista no Cinema Íris.

Na década de 1970, exibia principalmente filmes de artes marciais e westerns. Passou por uma reforma e foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro – INEPAC -, em 14 de junho de 1978.

Na década seguinte, exibia filmes pornográficos e shows de streap-tease. Bandas de rock passaram a se apresentar no Cinema Íris (Jornal do Brasil, 18 de março de 1988).

Em 1997, a família Cruz comprou o imóvel da Ordem Terceira. Nos anos 1990 e 2000, foi palco de festas e de apresentações de bandas. Recebeu propostas de compra pela Igreja Universal, mas não aceitou.

 

O GLOBO, 20 de março de 2009

O GLOBO, 20 de março de 2009

 

Fazia parte da festa Cine Íris 90 Anos uma exposição de fotografias com imagens produzidas por Malta, pertencentes o acervo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 1º de outubro de 1999, primeira coluna).

 

 

Em comemoração a seu centenário, em 2009, foi promovido no cinema um festival de filmes mudos (TV Brasil). A atriz Marília Pêra (1943 – 2015) compareceu à celebração e foi homenageada pela Sociedade Amigos da Rua da Carioca e Adjacências (Sarca). A atriz tem uma história muito ligada ao Íris, pois sua avó, a também atriz Antônia Marzullo (1894 – 1969), havia trabalhado lá.

 

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No ano seguinte, 2010, sua desapropriação chegou a ser anunciada, mas não aconteceu (O GLOBO, 21 de janeiro de 2010).

O colunista Jan Theophilo, do “Informe JB”, noticiou, em agosto de 2018, que o cinema havia sido desapropriado pelo estado há mais de 60 anos. Segundo o empresário Raul Pimenta Neto, 61, um dos 12 herdeiros da sala, não havia nenhuma informação no Registro Geral de Imóveis (RGI) de que a posse do mesmo fosse do estado, quando a família decidiu comprar o imóvel, em 1997. “No ano passado, quando fui tirar uma certidão, fui pego de surpresa com esta posse, justo quando negociava com um empresário alemão para diversificar a programação da casa” (Jornal do Brasil, 18 de agosto de 2018).

Foi interditado pela Defesa Civil, em 23 de julho de 2025, devido a problemas estruturais, e reaberto em agosto, mês em que uma lista, na qual foi incluído, de 48 imóveis que o governo estadual quer vender para arrecadar R$ 1,5 bilhão, foi enviada à Assembleia Legislativa do Rio. Na lista estão prédios históricos, terrenos, áreas desativadas da segurança pública e até mesmo uma ilha. Porém, o Cine Íris não pertence ao estado e, durante a vistoria para o levantamento, a equipe de consultoria do governo foi informada que o imóvel é de propriedade particular da mesma família há quase um século.

Os longas-metragens Madame Satã (2002) e Olga (2004) assim como a novela Senhora do destino (2004), da TV Globo, tiveram cenas rodadas lá.

O Cinema Íris segue como uma relíquia carioca e sempre foi administrado pela família que o fundou. Atualmente é gerido por Marcelo Argileu Cruz da Silva, que sucedeu Raul Pimenta Neto.

 

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Agenda Bafafá

Diário do Rio, 14 de agosto de 2025 e 9 de setembro de 2025

FREIRE, Rafael de Luna (2022). «Entre divas e seriados». O negócio do filme: A distribuição cinematográfica no Brasil 1907–1915. Rio de Janeiro, RJ: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. p. 356

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Jornal Extra, 16 de outubro de 2009.

O Globo, 16/10/2009

Revista Filme Cultura, agosto de 1986

SCARPIN, Paula. O Cine Íris resiste in Revista Piauí, setembro de 2015

Site Google Arts & Culture

Site INEPAC

Site Rio Filme

 

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