Série “Carnavais de antigamente” XII – Um registro do carnaval em Cuiabá, no Mato Grosso, na década de 1940

Nesta Quarta-Feira de Cinzas, a Brasiliana Fotográfica celebra o Carnaval destacando uma imagem em uma cidade diferente daquelas cujas fotografias da folia de Momo são mais frequentes. É um registro carnavalesco nas ruas de Cuiabá, capital do Mato Grosso, e faz parte do Fundo Fundação Rockefeller, do acervo da Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica. Seu autor ainda não foi identificado e a cena é do dia 20 de fevereiro de 1944. Também listamos todas as publicações do portal sobre o Carnaval, reunidas na série Carnavais de Antigamente. Viva a folia! Viva a cultura!

 

 

Na foto destacada acima, em pleno domingo de Carnaval, vemos apenas três crianças fantasiadas, de mãos dadas, em uma rua perto de um jardim. O Brasil estava sob a ditadura do Estado Novo do presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) e encontrava-se em estado de guerra contra os países do Eixo e a Força Expedicionária Brasileira preparava-se para juntar-se, na Itália, aos países Aliados da Segunda Guerra Mundial. Houve, na época, uma polêmica em torno da conveniência da realização do Carnaval e a proibição de várias manifestações populares em razão deste fato, o que talvez explique a atitude dos adultos que aparecem na fotografia – sem fantasias, apenas passeando pela rua como se fosse um domingo como outro qualquer.

A marchinha Eu brinco, de autoria de Pedro Caetano (1911 – 1992) e Claudionor Cruz (1910 – 1995) interpretada pelo popularíssimo cantor Francisco Alves (1898 – 1952), foi um grande sucesso e foi composta no contexto da polêmica que ameaçou a realização do Carnaval de 1944.

 

Ouça aqui a Marchinha Eu brinco.

Com pandeiro ou sem pandeiro
Eh eh eh eh, eu brinco
Com dinheiro ou sem dinheiro
Eh eh eh eh eu brinco

No céu a lua caminha
Tão triste sozinha
Pra não ser triste também
com pandeiro ou sem pandeiro

Com pandeiro ou sem pandeiro
Eh eh eh eh eu brinco
Com dinheiro ou sem dinheiro
Eh eh eh eh eu brinco

Tudo se acaba na vida
Morena querida
Se o meu dinheiro acabar
Com dinheiro ou sem dinheiro
Meu amor, eu brinco

 

 

Série “Carnavais de antigamente”

“O carnaval é a expressão da nossa alegria. O ruído, o barulho, o tantã espancam a tristeza que há nas nossas almas, atordoam-nos e nos enchem de prazer”.

Lima Barreto (1881 – 1922), em O Morcego (1915)

 

Série “Carnavais de antigamente” I – O carnaval nas primeiras décadas do século XX, publicado em 5 de fevereiro de 2016, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” II – O carnaval do Cordão da Bola Preta, publicado em 9 de fevereiro de 2018, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” III – A Batalha de Flores, publicado em 19 de fevereiro de 2018, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” IV - As Camélias Japonesas no carnaval de Alagoas pelas lentes do fotógrafo amador Luiz Lavenère Wanderley (1868 – 1966), publicado em 21 de fevereiro de 2020, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” V – Cenas da folia em Manaus em 1913, publicado em 28 de fevereiro de 2020, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” VI - Baile de Carnaval em Santa Teresa – Di Cavalcanti, Klixto e Helios Seelinger, na casa de Raul Pederneiras, publicado em 25 de fevereiro de 2022 , de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” VII e “Os Diários Associados na Brasiliana Fotográfica” III – O Rei Momo por Jean Manzon e por outros fotógrafos dos Diários Associados, publicado em 3 de fevereiro de 2023, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” VIII – Foliões do Carnaval de Diamantina por Chichico Alkmim, publicado em 17 de fevereiro de 2023 , de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” IX – Crianças no carnaval carioca de 1933 por Guilherme Santos, publicado em 8 de fevereiro de 2024, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” X – O carnaval de 1919: o carnaval da revanche, o carnaval triunfante!, publicado em 20 de fevereiro de 2025, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Série “Carnavais de antigamente” XI – O carnaval e suas histórias, publicado em 27 de fevereiro de 2025, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BORGES, Luiz.“Eu brinco” e o Carnaval de 1944 in Site Observação & Análise, 1º de março de 2017

DINIZ, André. Almanaque do carnaval: a história do carnaval, o que ouvir, o que ler, onde curtir. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Ed ., 2008.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Jornal O Dia

O GLOBO, 23 de fevereiro de 2017

PEDREIRA, Flávia de Sá. Carnaval em Tempos de Guerra. O artigo é parte da tese de doutorado Chiclete eu misturo com banana: Carnaval e cotidiano de guerra em Natal (1920-1945), do Departamento de História, IFCH/Unicamp, março de 2004.

SILVA, Sormani. “Vovó me avisou”: memórias do carnaval de guerra (1942-1943) no Rio de Janeiro in Confluências Culturais Revista Interdisciplinar, v. 14, n. 1: 80 anos do final da Segunda Guerra Mundial: memória, história e patrimônios

Série “Conflitos” XI – Memórias de uma enfermeira “febiana” no front

Memórias de uma enfermeira “febiana” no front

Cristiane d’Avila e Laurinda Maciel*

Há pouco mais de 80 anos, em 6 e 9 de agosto de 1945, os Estados Unidos lançavam sobre o Japão as bombas que ceifaram a vida de milhares de civis e devastaram parte das cidades de Hiroshima e Nagasaki, encerrando os seis longos anos da Segunda Guerra Mundial (1939-1945). Expressão da luta contra o nazismo e o fascismo, a contenda incluiu o envio de tropas brasileiras ao norte da Itália em apoio aos Aliados (Estados Unidos, Reino Unido, União Soviética, França, Polônia), após o Brasil declarar guerra à Alemanha e Itália. Parte dessa história pode ser conferida no Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (DAD/COC), em especial a partir do acervo documental de uma brasileira que vivenciou o conflito bélico no front: a enfermeira da Força Expedicionária Brasileira (FEB), Virgínia Maria de Niemeyer Portocarrero (1917-1923).

 

 

Nascida em 23 de outubro de 1917, no Rio de Janeiro, Virgínia era filha e sobrinha de generais. Bacharel em Ciências e Letras pelo Colégio Pedro II, formou-se em Enfermagem Samaritana pela Cruz Vermelha. Com o início da guerra, voluntariou-se para as Forças Armadas do Brasil, o que a levou a compor o Quadro de Emergência de Enfermeiras da Reserva do Exército (CEERE).

 

Acessando o link para as fotografias relativas à enfermeira Virgínia Portocarrero disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Em 7 de julho de 1944 embarcou para Nápoles, Itália, como uma das 67 integrantes do Primeiro Escalão da Força Expedicionária Brasileira (FEB). Outras seis enfermeiras, egressas da Escola Anna Nery (EAN), compuseram o quadro da Força Aérea Brasileira (FAB). O grupo atuou nos seguintes hospitais de campanha do exército norte-americano instalados na Itália: 182th Station General Hospital, em Nápoles, 105th Station Hospital, em Cevitavecchia, 64th General Hospital, em Ardenza, 38th Evacuation Hospital, em Cecina, Florença e Pisa; 16th Evacuation Hospital, em Pistola, e 15th Evacuation Hospital, em Corvela.

 

 

Em 7 de julho de 1945, regressou ao Brasil e, em 1957, foi incorporada ao serviço ativo do Exército como 2º tenente e enfermeira na Policlínica Central do Exército. Passou para a reserva, em 25 de setembro de 1962, como 1º tenente, sendo promovida a capitão em 1963.

O arquivo pessoal

O arquivo pessoal de Virgínia, doado ao DAD/COC, em 2010, contém centenas de fotografias, cartas, recortes de jornais, panfletos, ilustrações, desenhos e gravações de canções, entre outros documentos, com destaque para o diário sobre sua experiência como enfermeira da FEB. Nele, ela conta em detalhes o cotidiano de trabalho no hospital de campanha, o atendimento aos feridos e os momentos de descontração, entre outras percepções sobre sua experiência nos campos de batalha.

Em 2021, o arquivo completo foi digitalizado com recursos do Programa Iberarchivos, ação de fomento, acesso, organização, descrição, conservação e difusão do patrimônio documental das nações ibero-americanas voltada à promoção da igualdade de gênero e ao empoderamento de mulheres e meninas, em alinhamento ao 5º Objetivo de Desenvolvimento Sustentável (ODS) da Agenda 2030 da Organização das Nações Unidas (ONU)[1].

Memórias de uma “‘febiana” no front

Em 14 de março de 2008, Virgínia concedeu entrevista às historiadoras da COC Anna Beatriz de Sá Almeida, Laurinda Rosa Maciel e Margarida Maria Rocha Bernardes relatando sua experiência no front durante quase um ano de trabalho na Itália. Na sequência, destacamos trechos das falas:

“Eu ouvia falar essa coisa toda, não sabe? Eu disse: “Não, eu vou fazer um curso para também ir para essa guerra para cuidar dos militares… com interesse de ir para guerra. E eu fiz o primeiro ano [do curso da Cruz Vermelha], e nisso saiu no jornal O Globo o [chamado para o] voluntariado. Eu aí fui em casa, apanhei os documentos; não disse a ninguém, me apresentei. Chegou de noite o jornal começou a publicar e dar os nomes, aí começaram a telefonar […] para a mamãe e pra mim. Porque a mamãe era uma mãe extraordinária, uma gracinha de mãe; o meu pai um amor, uma coisa formidável. [Eles não sabiam de nada] eu me apresentei e fiquei quietinha porque senão podiam dizer não, e aí que eu não ia fazer porque eu era obediente.

 

 

E aí eu já era maior, podia me apresentar. […] Foi o seguinte: meu tio, irmão de papai mais novo, era chefe de gabinete de Prudente de Morais, general Prudente de Morais, era o general José Portocarrero. […] e eles foram lá pedir para me reprovar no exame de saúde porque eu saí muito bem classificada no curso. Eu fiz tudo que tinha que fazer: ginástica, essas coisas todas…  […] Tinha três em primeiro lugar, uma em segundo, e depois o meu foi o terceiro. Passei em tudo muito bem. Estudava que nem uma danada, não é? Eu não podia deixar de sair, porque eu queria ser aquilo. Já toda fardadinha…

 

 

Embarquei para Natal. Na Base Aérea de Parnamirim e ficamos lá, não sabíamos para onde íamos. Eu e mais cinco e o major Ernestino [Homem de Oliveira], um portento de inteligência, um cirurgião maravilhoso”.

O trabalho nos hospitais de campanha

“De lá [Argel] nós fomos para a Itália. Aí que nós que soubemos que [iríamos] para a Itália. […] Aí quando nós estávamos sentadas, muito bem clareou a cidade toda, que era madrugada, não é? Aí foi o batismo de fogo, porque começaram a bombardear Nápoles, em frente à nossa janela. Nós assistimos. Então o nosso batismo de fogo foi esse. Nós nem pernas tínhamos para sair, ficamos ali sentados, o major, nós duas… Olhando aquele bombardeio caindo na Baía de Nápoles. Estavam invadindo, tantos que morreram. Então, a Baía de Nápoles foi o nosso batismo. […] nós fomos cumprimentar as americanas. Comigo as americanas foram educadíssimas, […] me chamavam na hora da folga para a barraca delas jogar carta, para aprender a falar português, para me ensinar inglês, elas comigo foram fabulosas.

O banho era em conjunto com as americanas. Aquelas barracas grandes, abertas… Cada uma entrava num boxe, tomava banho. E tinha um saco que você jogava roupa suja, e a italiana tinha uma máquina de lavar, que lavava a roupa, mas ela só tinha ordem de lavar as das americanas. Nós levávamos aquilo, de noite na pia…

 

 

Era uma rua de barracas; barracas para lá e barracas de lá e aqui a ruazinha. Eram americanas e brasileiras enfermeiras nesse pedaço. Na outra zona do nosso limite os médicos, e noutra os sargentos e os soldados. Era o nosso limite.

Nessa enfermaria tinha sempre uma americana com uma brasileira para ensinar a rotina do hospital, que era tudo em inglês: os pedidos de medicamento, os médicos receitavam… Tinham médicos que não sabiam nada de inglês. Até à gente eles vinham, eu dizia: “Vê lá, eu de inglês eu… É melhor o senhor saber com americano porque o meu inglês é fraco”.

 

 

Às 7 horas da manhã a gente tinha que entrar. A colega da noite já tinha dado banho. E o banho das americanas elas nunca davam o banho geral. Elas botavam um biombo, porque era leito vago. Quando baixava coronel, general, queimado, paisano… Então eles botavam um biombo que ficava meio falta de respeito, não é? […] nós dávamos injeção na veia, passava no soro, e as americanas não passavam… os próprios americanos gostavam mais de tomar injeção com as brasileiras. Pegávamos o músculo e pow!

Das 7h da manhã às 7h da noite; depois tínhamos um dia de folga total, e trabalhávamos das 7h da noite, às 7h da manhã, 15 dias; os que eram prisioneiros de guerra e estavam feridos iam para a mesma enfermaria. Eles davam pijama, escova de dente, sabonete, alimentação igual, não queriam conversa. Americano então tinha horror de conversar. E eles ficavam danados porque eles [prisioneiros] conversavam à beça comigo porque falavam francês, falavam italiano, espanhol, porque eram cultos; o alemão era cultíssimo. Agora o americano só falava inglês.

Os americanos eram verdadeiras crianças; a gente botava o remédio para eles, tinha que botar na boca, mandar abrir a boca, e ficar segurando ver se eles não jogavam fora. Os alemães eram rigorosos e muito disciplinados.

A sala de choque era uma espécie de urgência, quando eles chegavam iam para ser atendidos logo ali; era uma espécie de boxes para tratamento geral, limpeza e tal. E se dividia pelo quadro: a enfermaria com a gravidade, com a maior gravidade, inclusive para a sala de operações. Era logo classificado. [tinha sala de operações, clínica e choque] e tinha de material cirúrgico, dando suporte […] Era hospital de campo, tudo em barracas, mas tudo [organizado]… Se o bombardeio durasse, [o hospital de campanha com as barracas] ficava enquanto durasse o bombardeio”.

A produção de memória e o término da guerra

“O nome dos vários pontos que nós passamos eu me lembrava porque o meu pai como era professor, ele me instruiu. Ele disse: “Você não mande nada, nada da tua vida militar em carta porque em tempo de guerra isso não vai chegar aqui. Você faz o seguinte: cada doente que você tiver alta, que ele tiver transferência para o Brasil, você dá o meu telefone, dá a ele, pede licença ao comando que vai mandar para o seu pai”. E o papai escreveu uma carta ao Major Ernestino pedindo que deixasse… que liberasse, que queria fazer o meu diário. O major Ernestino permitiu fazer. […] Eles telefonavam, papai ia ao HCE e apanhava.

Ganhei uma máquina fotográfica porque fizeram uma vaquinha. Eu tenho fotografia de tudo. Tudo que eu queria eu tirava. [antes de ter a máquina] eu gostava de fotografia, mas não consegui levar máquina porque não deixaram.

[Ganhava] muitos presentes [dos pacientes], cartas, poesias, tudo, tudo, tudo. E aqui no Brasil eu recebo telefonemas de esposas que ainda estão vivas.

Que já tinha acabado a guerra, e eu vi o Mussolini pendurado de cabeça para baixo, a mulher do Mussolini [Clara Petacci] e três ministros. Vi em Milão, estava perto do Lago de Como, pendurado de cabeça para baixo, e os italianos foram que meteram canivetes, facas. Quem o matou foram os próprios italianos”.

 

O arquivo pessoal de Virgínia Portocarrero, os áudios das entrevistas realizadas, bem como a transcrição das mesmas estão disponíveis para consulta, que pode ser solicitada em https://www.gov.br/pt-br/servicos/consultar-arquivos-historicos-da-fiocruz .

 

[1] Objetivo de Desenvolvimento Sustentável 5: “Igualdade de gênero – Alcançar a igualdade de gênero e empoderar todas as mulheres e meninas. Disponível em Sustainable Development Goal 5: Igualdade de gênero | As Nações Unidas no Brasil.

*Cristiane d’Avila é jornalista e Laurinda Maciel é historiadora do Departamento de Arquivo e Documentação da Casa de Oswaldo Cruz (COC/Fiocruz)
Esse artigo passou a integrar a série Conflitos, em 20 de março de 2026.

Fontes:

BERNARDES, M.M.R.; KAMINITZ, S.HC; MACIEL, L.R. et ali. ‘Uma enfermeira da Força Expedicionária Brasileira na Segunda Guerra Mundial: Fundo Virgínia Portocarrero da Casa de Oswaldo Cruz/Fiocruz’. Hist. cienc. saude-Manguinhos 29 (2) • Apr-Jun 2022, p.531-550.

CASA DE OSWALDO CRUZ. Departamento de Arquivo e Documentação. Fundo Virgínia Portocarrero. Disponível em: https://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/virginia-portocarrero. Acesso em: 09 nov 2025.

D’AVILA, Cristiane. Força feminina contra o nazismo: a enfermeira brasileira Virgínia Portocarrero na Segunda Guerra Mundial (Artigo). In: Café História. Publicado em 1 mar de 2021. Disponível em: https://www.cafehistoria.com.br/enfermeiras-na-segunda-guerra-virginia-portocarrero/. ISSN: 2674-59.

PORTOCARRERO, Virgínia Maria Niemeyer. FIOCRUZ. Rio de Janeiro. 14 de maio. 2008. Entrevista concedida à Anna Beatriz de Sá Almeida, Laurinda Rosa Maciel e Margarida Maria Rocha Bernardes. Acervo da Casa de Oswaldo Cruz. Disponível em: https://basearch.coc.fiocruz.br/index.php/virginia-maria-de-niemeyer-portocarrero-3. Acesso em: 09 nov 2025.

 

 

Série “Conflitos” X – Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963), fotógrafo e cinegrafista da FEB

Com fotografias do Cemitério de Pistoia, na Itália, pertencentes ao acervo do Museu da República, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, e um pequeno perfil e cronologia do autor dos registros, Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963), fotógrafo e cinegrafista da Força Expedicionária Brasileira (FEB), o portal lembra os 80 anos do Dia da Vitória na Europa, ocorrido em 8 de maio de 1945, data formal da derrota dos nazistas e da vitória das forças aliadas na Segunda Guerra Mundial. No cemitério foram sepultados os corpos dos integrantes da FEB durante a Segunda Guerra Mundial.  A cronologia de Horacio é a 69ª publicada pelo portal, que acredita que este trabalho seja uma importante contribuição para a historiografia da fotografia brasileira.

 

 

Acessando aqui o link para as fotografias de autoria de Horacio Coelho disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Os restos mortais dos integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) permaneceram no Cemitério de Pistoia até 5 de outubro de 1960, quando foram transladados para o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, localizado no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Em junho de 1965, em substituição ao cemitério, foi erguido no local o Monumento Votivo Militar Brasileiro (MVMB) como homenagem aos expedicionários brasileiros que morreram durante a guerra.

Inicialmente, o Brasil se manteve neutro na Segunda Guerra Mundial, porém, com o afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães, em 1942, o então presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) alinhou o país às nações aliadas, declarando guerra ao países do Eixo.

 

 

 

Brevíssimo perfil de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963)

 

“A tomada de Monte Castelo, os terríveis combates de Montese, tudo foi gravado em celulóide e perpetuado em sal de prata, imagem por imagem, graças a objetiva de Horacio Coelho, sua picareta de trabalho na paz e sua arma de combate na guerra”.

Revista da Semana, 7 de setembro de 1945

 

 

Nasceu em Fernando de Noronha, em Pernambuco, em 2 de setembro de 1890, Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho, filho de Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836 – 1902) e Francisca Cavalcanti de Souza Leão Coelho (c.1859 – 1929). Era neto do português Joaquim José Coelho (1797 – 1860), o Barão da Vitória. Teve com Maria Emilia Coelho (1894 – 1948), com quem foi casado, seis filhos: Pojucan, Rômulo, Rêmulo, Maria Clementina, Murilo e Alberto.

Como cinegrafista e fotógrafo do Ministério da Guerra participou como correspondente da Segunda Guerra Mundial, operando junto à Força Expedicionária Brasileira, na Itália. Foi nomeado pelo marechal Mascarenhas de Moraes (1883 – 1968) (Diário de Pernambuco, 8 de junho de 1944, segunda coluna). Algumas de suas fotos foram publicadas em artigos da Revista da SemanaOs brasileiros combatem sob a neve com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 10 de março de 1945) e Onde a cobra fuma (Revista da Semana, 24 de março de 1945). Outros correspondentes de guerra contemporâneos de Horacio que trabalharam para a imprensa brasileira foram: Allan Fischer (1913 – 1988) (fotógrafo do escritório do Coordenador de Assuntos Econômicos Interamericanos), Egídio Squeff (1911 – 1973) (O Globo), Fernando Stamato (1917 – 1993) (cinematografista do DIP), Frank Norall (19? – ?) (Escritório do Coordenador de Assuntos Interamericanos), Henry Bagley (19? – ?) (Associated Press), Joel Silveira (1918 – 2007) (Diários Associados), Raul Brandão (19? – ?) (Correio da Manhã), Rubem Braga  (1913 – 1990) (Diário Carioca) e Thassilo Mitke (19? – ?) (DIP).

Foi um dos correspondentes de guerra condecorados com a Medalha de Campanha, em 1945 (Diário de Notícias, 6 de dezembro de 1945, segunda coluna). Dois anos depois, em 1947, foi agraciado com uma Medalha de Guerra em uma solenidade realizada no Quartel do Batalhão de Guardas (Correio da Manhã, 20 de março de 1947, segunda coluna).

Com sua aposentadoria, na década de 1950, o cargo de cinegrafista do Exército foi extinto, em 1956 (Portal da Câmara dos Deputados).

Em 8 de maio de 1958, participou da solenidade comemorativa do 13º ano do fim da Segunda Guerra Mundial, realizada na Associação Brasileira de Imprensa quando os correspondentes de guerra foram homenageados. Rubem Braga e Fernando Stamato, dentre outros também estiveram presentes (Diário de Notícias, 9 de maio de 1958, última coluna).

Faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de agosto de 1963, e foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier (Jornal do Commercio, 10 de agosto de 1963, segunda coluna).

Uma curiosidade: Na foto abaixo, o último ajoelhado da esquerda para a direita é Fernando Stamato, filho do fotógrafo e pioneiro do cinema nacional João Stamato (1886 – 1951), que participou da viagem científica promovida pelo Instituto Oswaldo Cruz, em que um grupo de cientistas e engenheiros, entre setembro de 1911 e fevereiro de 1912, percorreu os vales do São Francisco e Tocantins, documentando a jornada, registrando as casas, costumes e pessoas, demonstrando conhecimento das técnicas, além de sensibilidade para fotografar a vida naqueles sertões. O cineasta Fernando Stamato seguiu os caminhos do pai, tendo sido cinegrafista da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra, trabalhando como correspondente na Itália. Viúvo, partiu para os campos da batalha para documentar os movimentos das tropas brasileiras. Sua esposa Lourdes Soares Dutra (1917-1941) havia falecido no parto da filha, que também não resistiu. Durante o conflito mundial, em pleno front, Fernando se apaixonou pela italiana Rossana Bonfatti. Casaram-se em Pistóia (Itália) e, no final da guerra, tiveram uma menina, nascida em 14 de setembro de 1945. No ano seguinte, nasceria outro filho.

 

 

Acesse aqui a cronologia de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963)

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Esse artigo passou a integrar a série Conflitos, em 20 de março de 2026.

 

Fontes:

Allan Fischer Photo

Atlas Histórico do Brasil – FGV

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MORADO, Maria de Fátima. O Cemitério de Pistoia e a memória dos combatentes da FEB in Brasiliana Fotográfica, 18 de fevereiro de 2022.

O GLOBO, 14 de junho de 2015

Portal da Câmara dos Deputados

SANTOS, Ricardo Augusto. João Stamato, um fotógrafo nos sertões in Brasiliana Fotográfica, 9 de fevereiro de 2021.

Site Family Search

Site INPI

Site Memorial da FEB

Portal Domínio Público

O Cemitério de Pistoia e a memória dos combatentes da FEB

A Brasiliana Fotográfica publica o artigo O Cemitério de Pistoia e a memória dos combatentes da FEB com imagens da Coleção Lafayette Brasiliano, do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República, uma das instituições parceiras do portal. Essa coleção é formada por 41 fotografias produzidas, em sua maioria, pelo fotógrafo Horácio Coelho. Além de imagens do cemitério e de cerimônias de sepultamento, há imagens de militares da FEB, entre eles seu comandante, marechal Mascarenhas de Morais, e os proprietários do terreno cedido para a construção do cemitério, Dr. Landini e sua esposa. A autora do artigo é a historiadora Maria de Fátima Morado, que inicia seu texto com uma bela e comovente poesia de Cecilia Meirelles.

 

 

O Cemitério de Pistoia e a memória dos combatentes da FEB

Maria de Fátima Morado*

 

Eles vieram felizes, como para grande jogos atléticos:

com um largo sorriso no rosto, com forte esperança no peito,

- porque eram jovens e eram belos.

 

Marte, porém, soprava fogo por estes campos e estes ares.

E agora estão na calma terra,sob estas cruzes e estas flores,

cercados por montanhas suaves.

 

São como um grupo de meninos num dormitório sossegado,

com lençóis de nuvens imensas, e um longo sono sem suspiros,

de profundíssimo cansaço

 

Cecília Meireles(1901 – 1964)

 

 

O Cemitério Militar Brasileiro foi instalado na cidade italiana de Pistoia, em 02 de dezembro de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial. Nele foram sepultados os corpos dos integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB), onde permaneceram até 05 de outubro de 1960, quando seus restos mortais foram transladados para o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, localizado no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Em junho de 1965, em substituição ao cemitério, foi erguido no local o Monumento Votivo Militar Brasileiro (MVMB) como homenagem aos expedicionários brasileiros que morreram durante a guerra.

 

 

A construção do cemitério foi pensada para agilizar os procedimentos necessários para o transporte, identificação, liberação e ritos fúnebres dos corpos dos soldados brasileiros. Até então, os sepultamentos eram realizados no cemitério de Traquinia e no cemitério militar dos Estados Unidos, em Vada. O deslocamento dos corpos dos postos de coleta para esses cemitérios mudavam de acordo com os novos locais de frentes de batalha. Dessa forma, as distâncias poderiam variar entre 200 km a 360 km o que acarretava o aumento do tempo para a mobilização de soldados dedicados à essa missão. Além disso, a burocracia realizada pela administração do cemitério americano causava atrasos para a liberação da documentação e notificação aos familiares.

 

 

Acessando o link para as fotografias do Cemitério de Pistóia do acervo do Museu da República disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Todo o trâmite para o resgate dos corpos, identificação, sepultamento e homenagem era realizado pelo Pelotão de Sepultamento da FEB, criado em 04 de julho de 1944, pouco após a ida do 1º Escalão da Força Expedicionária Brasileira para a Europa, em 2 de julho de 1944. Em agosto, o Pelotão partiu do Rio de Janeiro, capital federal nessa época, sob o comando do primeiro-tenente Lafayette Brasiliano, que mais tarde foi responsável pela organização do Cemitério de Pistoia.

 

 

Lafayette Vargas Moreira Brasiliano nasceu em 25 de junho de 1913, filho do general do Exército João Moreira de Oliveira Braziliano e de Alcinda Vargas Moreira Braziliano. Lafayette Brasiliano concluiu o Colégio Militar em 1931 e integrou a Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial. Após o final da Guerra, já no posto de capitão, foi nomeado instrutor de ensino militar, em 1946, participando da organização do curso de Intendência. Foi ajudante-de-ordens do presidente Getulio Vargas entre 1951 e 1954, passando para a reserva em 1957. Faleceu em 8 de novembro de 1976, na cidade do Rio de Janeiro.

A Coleção Lafayette Brasiliano, do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República, foi doada em 1999. Essa coleção é formada por 41 fotografias produzidas, em sua maioria, pelo fotógrafo Horácio Coelho. As imagens apresentam a estrutura do cemitério, detalhes das sepulturas e registram cerimônias de sepultamento. Nas fotos da coleção também estão presentes os militares da FEB, entre eles seu comandante, marechal Mascarenhas de Morais, e os proprietários do terreno cedido para a construção do cemitério, Dr. Landini e sua esposa.

 

 

 

 

*Maria de Fátima Morado é Historiadora do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República

 

Fontes:

ADITÂNCIA DO EXÉRCITO JUNTO À EMBAIXADA DO BRASIL NA ITÁLIA. Monumento Votivo Militar Brasileiro (MVMB) “Honra e Glória”. Brasília.

FARIA. Durland Puppin de. O Pelotão de Sepultamento da FEB. Revista Agulhas Negras, Resende, ano 3, n. 3, jan./dez. 2019.

FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS. Força Expedicionária Brasileira (FEB). Rio de Janeiro, 2020.

MEIRELES, Cecilia. Pistoia – Cemitério Militar Brasileiro. Rio de Janeiro: Global, 1955.

PIOVEZAN, Adriane. Os mortos na memória dos vivos: o Cemitério Militar Brasileiro de Pistóia (1945-1960). In: Anais do XVII Encontro Estadual de História da ANPUH-SC. Joinville, 2018.

Ilha da Trindade: síntese histórica

A Ilha de Trindade, localizada na costa do estado do Espírito Santo, foi diversas vezes, entre os séculos XVI e XIX, alvo de disputas entre Portugal e Inglaterra. Devido à Primeira Guerra Mundial, foi criada uma guarnição mista de terra e mar, sob administração do Ministério da Marinha, na Ilha da Trindade, onde, em 24 de maio de 1916, chegou o cruzador Barroso com militares e uma comissão científica, com o material necessário à instalação de uma estação radiotelegráfica. Foi a partir desta comissão científica, capitaneada pelo Museu Nacional que, de maio a outubro de 1916, pesquisadores colheram materiais, produziram registros fotográficos e classificaram espécies até então inéditas. São dessa época as fotografias que pertencem ao acervo do Departamento do Patrimônio Histórico da Marinha do Brasil – uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica – que ilustram o artigo Ilha da Trindade: síntese histórica, escrito pelo capitão de corveta Daniel Martins Gusmão. 

José Domingues dos Santos Filho (1866 – 19?), que fazia parte da equipe do museu, e o então capitão-tenente Moraes Rego (1882 – 1941), encarregado pela instalação de uma estação radiotelegráfica na ilha, foram os responsáveis pelas fotografias. Posteriormente, Santos Filho foi trabalhar no Museu Paulista, onde confeccionava fotografias, copiava mapas, fazia desenhos científicos e foi responsável por pelo menos uma série composta por 12 desenhos aquarelados, a maioria deles baseada nas obras de Hercule Florence (1804-1877). Já Moraes Rego tornou-se patrono das Comunicações Navais no Brasil.

 

Ilha da Trindade: síntese histórica

Daniel Martins Gusmão*

 

 

Em 1501, de passagem a caminho da Índia, o explorador galego João da Nova (c. 1460 – 1509), a serviço de Portugal, avistou a Ilha da Trindade. No entanto, sua posse só foi confirmada pela Coroa portuguesa, em 1503, quando Afonso de Albuquerque (1453 – 1515) navegava pela mesma rota. Ainda no século XVI, foi transformada em capitania e transferida por carta de doação de d. João III (1502 – 1557) ao fidalgo Belchior Camacho, em 1538, que nunca a ocupou. O documento é a primeira manifestação da soberania portuguesa sobre a ilha. Porém, no decorrer dos séculos XVII a XIX, a ilha foi ocupada, por breves períodos, para fins científicos ou militares, por ingleses e portugueses, tendo sido também alvo de disputa por estes reinos devido à sua posição estratégica privilegiada. Em 1825, no tratado que confirmou a Independência do Brasil, Trindade foi incorporada definitivamente ao território brasileiro. No final do século XIX, voltou a ser alvo de disputa e cobiça pelos britânicos.

Em 15 de abril de 1700, o capitão inglês Edmond Halley (1656 – 1742) visitou a Ilha da Trindade para estudos astronômicos e dela tomou formalmente posse em nome do rei Guilherme III (1650 – 1702) e da rainha Ana II (1662 – 1694), da Grã-Bretanha. Como prática usual entre os navegadores da época, foram soltos diversos animais na ilha, entre cabras e porcos, para servir de alimento a possíveis náufragos ou futuros ocupantes. Mais tarde, tal ato desencadearia drásticas alterações na flora da ilha, com consequências extremas na perda do solo e na descaracterização geral da cobertura vegetal. Em 22 de fevereiro de 1724, uma carta régia de d. João V ordenou providências no sentido de impedir que a Companhia Inglesa de Guiné se servisse da Ilha da Trindade para o comércio de escravos. Foi, sem dúvida alguma, um protesto solene contra o ato de 1700 praticado pelo Capitão Halley.

 

Acessando o link para as fotografias da Ilha da Trindade disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Em 28 de maio de 1775, o navegador inglês James Cook (1728 – 1779) também visitou Trindade sem muitas pretensões, deixando-nos impressionante descrição da agressiva natureza da ilha. Os primeiros passos para o início de uma colonização inglesa foi efetivada em 1781, quando desembarcaram no Porto do Príncipe e ergueram um forte, deixando na ilha uma guarnição armada. Os ingleses tinham como objetivo transformar a Ilha da Trindade em ponto de apoio para as suas rotas oceânicas, com o intuito de hostilizar o comércio espanhol com as colônias do Prata devido à guerra travada pela Grã-Bretanha com este país. Ao tomar conhecimento dessa invasão, Portugal formalizou protestos em Londres e, em 1783, deslocou um contingente de militares e civis para ocupar a ilha que, no momento da chegada dos portugueses, já havia sido abandonada pelos ingleses. No ano seguinte contava com 200 habitantes, e, em 1789, este contingente decresceu até 88 militares, quando finalmente, em 1795, a ilha, muito provavelmente pelas condições inóspitas e agressivas já destacadas pelo inglês James Cook, foi completamente desguarnecida.

Seguiu-se um longo período em que a ilha foi visitada por sucessivos navegantes entre ingleses, franceses e americanos que, porém, nela não se fixaram. Por ocasião da Independência do Brasil, o projeto de Constituição elaborado em 1823 incluía, no seu art. 2º, a Ilha da Trindade como compreendida no âmbito do território brasileiro.

Em 1825, visitaram-na uma comissão do Governo brasileiro com a corveta Itaparica. No período da Regência, em 1831, foi expedido um aviso mandando proceder a estudos e exames para a utilização da ilha, entretanto ela continuou relegada ao esquecimento. Em 1839, o notável explorador do continente antártico, James Clark Ross (1800 – 1862), empenhado em fixar a posição do polo sul magnético, esteve na ilha com os naturalistas Joseph Dalton Hoocker (1817 – 1911) e Robert Mac Cormick (1800 – 1890).

Em 1846, a corveta brasileira Sete de Abril esteve na ilha e, em 1856, a corveta Dona Isabel também a visitou durante uma viagem de instrução. A Marinha preocupou-se constantemente para que suas embarcações realizassem visitas periódicas à ilha. Como forma de demonstrar a ocupação do território, o Governo Imperial, por meio do Decreto nº 9.334, de 29 de novembro de 1884, concedeu permissão ao cidadão João Alves Guerra para “explorar minerais e extrair produtos naturais, assim como estabelecer salinas na Ilha da Trindade, podendo explorar-lhe os minérios pelo prazo de 10 anos e as salinas pelo de 30”, fato que não se concretizou. Entre o final do século XIX até 1916 nada menos de 12 expedições aportaram na ilha à procura de tesouros escondidos por hipotéticos piratas.

 

 

 

Preocupados ainda com a questão da não ocupação efetiva da ilha, o Governo Imperial enviou uma comissão no vapor Penedo a fim de estudar a possibilidade de sua utilização como local para exílio de presos políticos, bem como para fixação de um posto de ocupação, o que não aconteceu. Nova ocupação só ocorreria em 1895, quando a Inglaterra tomou posse da ilha mais uma vez, sob o pretexto de instalar uma estação de cabo submarino, que se estenderia até a Argentina, com o argumento de “se tratar de território abandonado e nela não haver vestígio algum de posse de qualquer outra nação”. Desta forma, o comandante do HMS Baraconta, de passagem pela ilha, nela arvorou o pavilhão britânico. Mobilizada a diplomacia brasileira, houve troca de notas. O ministro das Relações Exteriores de Portugal ofereceu-se como mediador, prevalecendo a tese de que a ilha, embora não ocupada, pertencia de direito ao Brasil. A 14 de janeiro de 1897, o cruzador Benjamin Constant transportou para a ilha um marco padrão de granito que não pôde desembarcar. No entanto, no local do Forte da Rainha, um sinal de posse foi hasteado, afirmando a definitiva soberania do Brasil.

 

Marco da Ilha da Trindade

Marco da Ilha da Trindade

 

Em 1910, um novo marco em granito, transportado pelos Cruzadores República e Andrada, foi erguido como forma de confirmar a posse da Ilha da Trindade. O local do marco, que até hoje encontra-se lá instalado, está situado na Praia do Andrada, junto ao Morro das Tartarugas. Em 1915, o governo britânico indagou sobre a ocupação da ilha com o intuito de comprá-la.  O então ministro da Marinha, o almirante Alexandrino de Alencar, respondeu: “quanto à ocupação ou não da Ilha da Trindade, não interessa a estrangeiros: e quanto à venda, o Brasil, apesar de muito grande, não negociava com seus territórios”.

 

 

Com a eclosão da Primeira Guerra Mundial, foi criada pelo Decreto nº 11.181, de 30 de setembro de 1914, uma guarnição mista de terra e mar, sob administração do Ministério da Marinha, nas ilhas de Fernando de Noronha e da Trindade. Para a Ilha da Trindade, chegou, em 24 de maio de 1916, o cruzador Barroso com uma guarnição militar e uma comissão científica, com o material necessário à instalação de uma Estação Radiotelegráfica. Terminada a guerra, a guarnição foi evacuada em 2 de setembro de 1919.

 

 

Foi a partir desta comissão científica, capitaneada pelo Museu Nacional, que, de maio a outubro de 1916, pesquisadores colheram materiais, fizeram observações, registros fotográficos e classificaram espécies até então inéditas. A fauna brasileira ficou acrescida e a ciência ganhou novas espécies, principalmente entre aves e peixes, conforme levantamento fotográfico demonstrado pela comissão.

 

 

De 1924 a 1926, a Ilha da Trindade serviu de presídio político. Com o intuito de consolar um dos presos políticos, a filha do coronel Waldomiro de Lima, Lourdes de Lima, levou para a ilha a imagem de Nossa Senhora de Lourdes, que se encontra numa gruta que leva o seu nome. Evacuados os presos políticos, a partir de 1927, novamente a Ilha da Trindade ficou despovoada.

A Ilha voltou a ser guarnecida em 1941 para impedir que os submarinos do Eixo fossem apoiados durante a Segunda Guerra Mundial, além de garantir o domínio efetivo deste longínquo território pelo Brasil. Tal situação perdurou até junho de 1945, com a retirada da guarnição militar.

Em 1950, uma expedição visitou a ilha com a finalidade de avaliar a sua ocupação permanente e a construção de uma base aeronaval. Em 29 de maio de 1957, por meio do Aviso n° 1.420 do Ministro da Marinha, foi criado o Posto Oceanográfico da Ilha da Trindade (POIT), como parte do programa de participação da Marinha no Ano Geofísico Internacional, possibilitando desta forma, a ocupação permanente da ilha pela Marinha do Brasil, que inicialmente era uma organização militar subordinada à Diretoria de Hidrografia e Navegação. As atividades científicas na ilha foram retomadas e, desde então, são desenvolvidas ações de observações meteorológicas, apoio às pesquisas científicas, atividades de preservação do meio ambiente, além do controle do tráfego marítimo na área. Esta continuidade somente tem sido viável em virtude do apoio da Marinha às pesquisas, sendo a instituição responsável por garantir a presença do Estado brasileiro naquela longínqua porção da Amazônia Azul.

 

 

Por sua localização, em latitude próxima das principais bacias petrolíferas e da região de maior desenvolvimento econômico e concentração populacional do País, a Ilha da Trindade constitui um posto avançado, permanentemente ocupado por um destacamento militar, sendo importante para a Defesa Nacional no que concerne ao emprego do Poder Naval.

As pesquisas científicas permitem identificar o potencial sustentável de exploração e utilização sustentável do patrimônio. Além disso, novas descobertas podem contribuir para preservação do meio ambiente. No caso particular da Ilha da Trindade, o caminho da ciência tem sido uma das prioridades da atuação conjunta da MB, das instituições de pesquisa e universidades.

A partir de 1986, a Organização Militar foi transformada em um setor do Comando do Primeiro Distrito Naval, sendo desde então administrada logística e operacionalmente por este comando. Conforme dispõe o inciso IV, do Art. 20, da Constituição da República, a Ilha da Trindade é um bem da União, entregue pela Secretaria do Patrimônio da União (SPU) ao encargo da Marinha do Brasil (MB), por meio do Termo de Entrega nº SCC-001/84, de 24 de abril de 1984. A Convenção das Nações Unidas sobre o Direito do Mar dá ao Brasil o direito de estabelecer, ao redor da Ilha da Trindade, Mar Territorial, Zona Contígua, Zona Econômica Exclusiva e Plataforma Continental, o que foi concretizado pela Lei nº 8.617/1993.

Nos últimos anos a Marinha tem recebido uma quantidade crescente de solicitações para a realização de pesquisas na Ilha da Trindade. Tais solicitações recomendaram a criação de um programa específico, sob a égide da Comissão Interministerial para os Recursos do Mar (CIRM), coordenado pela MB, aproveitando o apoio logístico regular por ela prestado às instalações que mantém na ilha. Este programa, criado em abril de 2007 e denominado PROTRINDADE (Programa de Pesquisas Científicas na Ilha da Trindade), destina-se a gerenciar o desenvolvimento de pesquisas científicas na Ilha da Trindade, Arquipélago de Martin Vaz e na área marítima adjacente, possibilitando, dessa forma, a obtenção, a sistematização e a divulgação de conhecimentos científicos sobre a região.

 

Geografia

 

A Ilha da Trindade é o cume de elevada montanha submarina que se eleva de uma profundidade de 5.000 metros do assoalho oceânico, sobre uma base de 50 km de diâmetro. Está situada na latitude de 20º 30’S e longitude 29º 49’W e encontra-se no limite da bacia do Brasil, profunda depressão que atinge os 7.000 metros. O seu ponto culminante é o Pico do Desejado, com 600 m de altitude. Está situada a 1.140 km da costa, no pararelo que passa 70 km ao sul de Vitória (ES), tendo o comprimento de 5 km de N.W a S.E e a largura de 2,5 Km, é circundada por uma plataforma que atinge 3 km de largura, com a profundidade de 200 m.

Os rochedos de Martin Vaz, situados 48 km a leste, fazem parte do arquipélago vulcânico. Suas rochas são análogas às da Ilha da Trindade. Grande parte do litoral, especialmente as enseadas e menores reentrâncias, possui um banco de coral que protege a orla do mar. A formação coralígena forma um barranco na zona de arrebentação (afastada da terra 50 m ou mais), com a altura de 5 a 10 m.

A abundância de material piroclástico presente na Ilha da Trindade propiciou a existência de diversas fontes de água. O solo é pouco espesso e escasso, havendo predominância de gramíneas e ciperáceas, enquanto que nas regiões sombrias e úmidas existem grandes florestas de samambaias gigantes. A ilha é cercada por costões abruptos, o que torna difícil e perigosa a sua abordagem, sendo a topografia bastante acidentada nessas áreas.

Nos planaltos originados pelos derrames e depósitos quase horizontais de material piroclástico, a topografia já é mais suave. As rochas que preenchiam antigas chaminés vulcânicas são frequentemente responsáveis pelas formas acidentadas do relevo, como o chamado Monumento, composto de fonólito. As raras e estreitas praias existentes na ilha constituem-se principalmente de fragmentos calcários derivados de recifes de algas calcárias e restos de carapaças de moluscos, formando-se em menos de 10% de fragmentos de rochas vulcânicas.

 

 

 Naufrágios históricos da Ilha da Trindade

 

Atualmente, ao longo de área habitável do POIT é possível encontrar diversos vestígios arqueológicos, tais como âncoras e restos de navios. Tais conjuntos de artefatos fazem parte da cultura material que compõe o contexto de ocupação da ilha ao longo do tempo. No museu do POIT e ao lado da Casa da Chefia estão expostos remanescentes do navio Oceanográfico Beberibe, que naufragou em 1966; do pesqueiro chinês HWA Shing, encalhado deliberadamente em 1989 (ambos na Praia dos Portugueses); e do veleiro Le Roi des Harengs, lançado sobre as pedras em 1994, na Ponta do Valado (Enseada dos Portugueses). Estes sítios arqueológicos representam um pouco da história da ilha.

Cabe destacar também que o Projeto Atlas dos Naufrágios de Interesse Histórico da Costa do Brasil, desenvolvido pela Marinha, possui registros de quatro embarcações naufragadas ao largo da Ilha da Trindade. Tais vestígios, se localizados, representam sítios arqueológicos submersos, consideravelmente formados por restos de embarcações naufragadas. O primeiro desses registros é o do cúter inglês HMS Rattlesnake, que naufragou por mau tempo em 21 de outubro de 1781, quando realizava levantamento hidrográfico no entorno da ilha. Em 1805, uma baleeira americana pegou fogo e os sete sobreviventes foram resgatados pelo navio inglês Agamenon. Em 1817, o bergantim francês La Jeune Sophie naufragou ao se aproximar da ilha. Por último, no ínicio da Grande Guerra, em setembro de 1914, a Ilha da Trindade foi palco de um confronto naval entre o cruzador alemão Cap Trafalgar e o cruzador inglês RMS Carmania, tendo sido o primeiro bombardeado e vindo a naufragar nas proximidades da ilha. Tal evento ficou conhecido na história como a Batalha de Trindade e foi retratado por Charles Dixon (1872 – 1934), em aquarela de papel, tendo como pano de fundo a Ilha da Trindade e o Cap Trafalgar afundando.

 

Carmania sinking Cap Trafalgar off Trinidad, September 14, 1914, 1923 / Acervo do Museu Marítimo Nacional em Londres

Charles Dixon. Carmania sinking Cap Trafalgar off Trinidad, September 14, 1914, 1923 / Acervo do Museu Marítimo Nacional em Londres

 

*Daniel Martins Gusmão é Capitão de Corveta (T) e Ajudante da Divisão de Arqueologia Subaquática da Marinha do Brasil.

 

 

 

FONTES:

ALVES, Ruy José Válka. Ilha da Trindade & Arquipélago Martin Vaz: um ensaio geobotânico. Rio de Janeiro: Serviço de Documentação da Marinha, 1998.

ARRAES, Virgílio Caixeta. A presença britânica na Ilha da Trindade: a reação do Parlamento brasileiro. Brasília: Revista de Informação Legislativa, n. 153, 2002.

CAMINHA, Herick Marques. Organização e Administração do Ministério da Marinha na República. Ministério da Marinha, Brasília˗Rio de Janeiro: Serviço de Documentação Geral da Marinha, 1986.

De Tordesilhas ao Mercosul – uma exposição da história da diplomacia brasileira: Catálogo da exposição. Rio de Janeiro: Ministério das Relações Exteriores, s/d.

PETTIGREW, Willian A. A Dívida da Liberdade: A Companhia Real Africana e a Política do Comércio de Escravos do Atlântico, 1672–1752. Chapel Hill, Carolina do Norte: University of North Carolina Press, 2014.

SECRETARIA DA COMISSÃO INTERMINISTERIAL PARA OS RECURSOS DO MAR. PROTRINDADE: programa de pesquisas científicas na Ilha da Trindade – 10 anos de pesquisas. Brasília: SECIRM, 2017.

TONELLI, Nicélio. A dimensão da ocupação britânica da ilha brasileira de Trindade (1895-1896). Brasília: Revista Brasileira de Política

 

 

Um pouco da história e cronologia da comissão científica na Ilha de Trindade em 1916 e

sobre José Domingues dos Santos Filho (1866 – 19?) e o comandante Tácito Reis de Moraes Rego

Andrea Wanderley**

 

Professor Bruno Lobo

Professor Bruno Lobo, diretor do Museu Nacional

O professor e médico Bruno Lobo (1884 – 1945), diretor do Museu Nacional entre 1915 e 1923, aproveitando a ida do cruzador Barroso para a Ilha da Trindade, em 1916, promovida pelo almirante e ministro da Marinha Alexandrino de Alencar (1848 – 1926), foi para lá acompanhado por quatro auxiliares: Arnaldo Blake de Santa Anna (18? – 19?), Armando dos Santos Belleza (18? – 19?), Pedro Pinto Peixoto Velho (18? – 19?) e José Domingues dos Santos Filho (1866 – 19?). Estes dois últimos ficaram cerca de 6 meses na ilha. Santos Filho foi responsável pela maioria das fotografias produzidas. No período, colheram o seguinte material: mamíferos, aves, répteis, crustáceos, insetos, moluscos, vermes, equinodermes e esponjas, além de espécimes vegetais. O professor Lobo distribuiu o material entre os naturalistas Carlos Moreira (1869 – 1946) – crustáceos e insetos -, Hermann von Ihering (1850 – 1930) – moluscos – Alípio de Miranda Ribeiro (1874 – 1939) – vertebrados – e h (1882 – 1959) – botânica. Também integrava a comissão científica, o assistente de Oswaldo Cruz, o médico e zoólogo Lauro Travassos (1890 – 1970), de Manguinhos, que colheu vermes endoparasitas e colecionou peixes para o Museu Nacional.  As

 

 Breve cronologia

 

1916 – Foi noticiado que o diretor da Museu Nacional, Bruno Lobo, seguiria para a Ilha da Trindade, a bordo do cruzador Barroso (Gazeta de Notícias, 19 de maio de 1916, sexta coluna).

O cruzador Barroso zarpou do Rio de Janeiro, em 20 de maio, sob o comando do capitão de Mar e Guerra José Libânio Lamenha Lins, levando Bruno Lobo e sua equipe: Pedro Pinto Peixoto Velho, José Domingues dos Santos Filho, Arnaldo Blake de Santa Anna e Armando dos Santos Belleza. A comissão do museu conduzia todos os aparelhos e objetos necessários para os minuciosos estudos que vai empreender na ilha no que possa interessar a esse referido estabelecimento (Gazeta de Notícias, 21 de maio de 1916; e Revista Marítima Brasileira, 1916).

Em 24 de maio, chegada do cruzador à Ilha da Trindade (Gazeta de Notícias, 26 de maio de 1916, última coluna).

Em 6 de junho, o Barroso partiu de Trindade e chegou no Rio de Janeiro, em 9 de junho. Bruno Lobo, que retornou, foi muito elogiado. O preparador de taxidermia Pedro Pinto Peixoto Velho e o auxiliar petrógrafo José Domingues dos Santos Filho, da equipe do Museu Nacional, ficaram lá (Gazeta de Notícias, 8 de junho de 1916, penúltima coluna e Gazeta de Notícias, 10 de junho de 1916, terceira coluna). De maio a outubro de 1916, eles colheram materiais, produziram registros fotográficos e classificaram espécies até então inéditas. A fauna brasileira ficou acrescida e a ciência ganhou novas espécies, principalmente entre aves e peixes, conforme levantamento fotográfico realizado por José Domingues dos Santos Filho (Revista da Sociedade Brasileira de Ciências, 1919).

 

 

O vapor Carlos Gomes partiu do Rio de Janeiro, em 24 de setembro, para a Ilha da Trindade onde permaneceu por cerca de 15 dias. Chegou de volta ao Rio de Janeiro, em 13 de outubro, trazendo os preparadores do Museu Nacional, Pedro Pinto Peixoto Velho e José Domingues dos Santos Filho (Gazeta de Notícias, 23 de setembro de 1916, sexta coluna;  Gazeta de Notícias, 15 de outubro de 1916, segunda coluna; e Revista Marítima Brasileira, 1916).

Foi noticiado que haviam sido feitas importantes descobertas pela equipe do Museu Nacional que havia regressado da Ilha da Trindade (Gazeta de Notícias, 22 de outubro de 1916, última coluna).

1918 – Em 3 de agosto, o professor Bruno Lobo fez uma conferência sobre a Ilha da Trindade, na Biblioteca Nacional. Na plateia, o professor Ramiz Galvão (1846 – 1938), o ministro da Marinha Alexandrino de Alencar e o senador Epitácio Pessoa (1865 – 1942), entre outros (Gazeta de Notícias, 5 de agosto de 1918, segunda coluna).

 

 

1919 - O volume de 1919 dos Arquivos do Museu Nacional, dedicado à comemoração do centenário do museu, trouxe três artigos relativos às descobertas realizadas na expedição de 1916 à Ilha da Trindade: de Bruno Lobo, de Lauro Travassos e de Alípio de Miranda Ribeiro (Arquivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro, 1919).

 

José Domingues dos Santos Filho (1866 – 19?) e almirante Moraes Rego (1882 – 1941)***

 

As fotografias publicadas nesse artigo, que pertencem ao acervo do Departamento do Patrimônio Histórico da Marinha do Brasil, foram utilizadas durante a conferência proferida pelo então diretor do Museu Nacional, Bruno Lobo, em 3 de agosto de 1918, na Biblioteca Nacional. Ao final, ele comentou sobre as fotografias:

As fotografias que documentam o presente trabalho foram executadas em sua maioria pelo praticante do Museu Nacional José Domingues dos Santos, devendo contudo algumas à gentileza do comandante Moraes Rego‘.

Tanto Moraes Rego como Santos Filho haviam ido para Trindade a bordo do cruzador Barroso, que chegou à ilha em maio de 1916. Porém Moraes Rego retornou ao Rio de Janeiro no mesmo navio, em junho, enquanto que Santos Filho permaneceu na Ilha da Trindade até outubro de 1916, quando voltou para o Rio de Janeiro a bordo do vapor Carlos Gomes.

 

José Domingues dos Santos Filho (1866 – 19?)

 

Nascido em 22 de fevereiro de 1866, em Rezende, José Domingues dos Santos Filho, da equipe do Museu Nacional, na viagem de 1916 para a Ilha da Trindade,  foi, como já mencionado, o responsável pela maioria das fotos produzidas na ocasião. Em maio de 1917, poucos meses depois de assumir a diretoria do Museu Paulista, Affonso d´Escragnolle Taunay (1876-1958) contratou José Domingues dos Santos Filho, nascido em Rezende, em 22 de fevereiro de 1886, como desenhista-fotógrafo e auxiliar do botânico Frederico Carlos Hoehne (1882-1959). Ambos vinham do Rio de Janeiro, onde haviam colaborado em instituições científicas como, por exemplo, o Museu Nacional. Hoehne e ele também atuavam nos Institutos Soroterápico (futuro Butantan) e Bacteriológico.

José Domingues dos Santos Filho seria responsável no Museu Paulista pela confecção de fotografias, de cópias de diversos mapas, pelos desenhos científicos e ao menos de uma série composta por 12 desenhos aquarelados, a maioria deles baseada nas obras de Hercule Florence (1804-1877). Essas aquarelas integraram a sala “Consagrada ao passado da cidade de São Paulo”, que foi inaugurada em outubro de 1918. Também faziam parte da sala telas como as de José Wasth Rodrigues (1891-1957)  representando os largos do Palácio e da Sé, o grande panorama Inundação da Várzea do Carmo (1892), de Benedito Calixto (1853-1927), documentos históricos emprestados pelo Arquivo Municipal de São Paulo, referidos como uma série de alto valor evocativo absolutamente insubstituível, além de plantas da cidade de São Paulo, como a produzida pelo engenheiro alemão (1804 – 1856), em 1841, copiada por José Domingues dos Santos Filho (Correio Paulistano, 11 de outubro de 1918, quarta coluna).

Em 1920, apesar de estar doente, Santos Filho encaminhou uma série de mapas a Taunay mas informou não ter mais condições de realizar serviços muito extensos. Provavelmente referia-se ao Ensaio geral das Bandeiras paulistas, carta cartográfica onde seu nome aparece com destaque. No mesmo ano foi exonerado, a pedido, do Instituto Soroterápico (Butantan), onde era fotógrafo-micrografista  (Correio Paulistano, 11 de novembro de 1920, quarta coluna). Em 1921, continuava a prestar serviços fotográficos para o Museu Paulista. Seria ele, entre 1928 e 1929, o fotomicrógrafo do Laboratório Central da Diretoria do Serviço de Inspeção e Fomento Agrícola do Ministério da Agricultura? (Almanak Laemmert, 1929 e 1930, )

 

Tácito Reis de Moraes Rego (1882 – 1941)

 

 

O então capitão-tenente Tácito Reis de Moraes Rego foi para Trindade como o encarregado pela montagem da estação radiotelegráfica da ilha (Gazeta de Notícias, 20 de maio de 1916). Ele, Bruno Lobo e o pessoal do escaler que os levou do navio à ilha foram os primeiros a desembarcar em Trindade (Correio de Notícias, 1º de junho de 1916, quinta coluna). Retornou ao Rio de Janeiro, a bordo do cruzador Barroso, em 9 de junho de 1916, e, no dia seguinte, apresentou-se ao então ministro da Marinha, Alexandrino de Alencar, e explicou ser impossível a instalação de uma estação radiotelegráfica na ilha (Correio de Notícias, 11 de junho de 1916, quinta coluna).

Nascido no Rio de Janeiro, em 8 de março e 1882, Moraes Rego ingressou na Escola Naval em 1898, serviu nos navios Minas Gerais e Rio Grande do Sul como radiotelegrafista. Em 1928, quando era adido naval, cursou a Escola de Guerra Naval. Comandou os cruzadores Barroso e o Rio Grande do Sul. Em 1930, comandou a Divisão Naval do Norte e a Divisão de Cruzados. Em julho de 1932, foi designado capitão do Portos de São Paulo, sediado em Santos. Foi também comandante da 2ª Divisão Naval, diretor geral da Fazenda da Marinha, diretor do Serviço de Rádio e diretor geral de Navegação. Quando faleceu, em 14 de dezembro e 1941, era diretor geral do Ensino Naval e presidente do Conselho do Almirantado (Correio da Manhã, 16 de dezembro de 1941, quarta coluna).

É o patrono das Comunicações Navais no Brasil por ter sido o primeiro encarregado da Estação Radiotelegráfica da Ilha das Cobras – Estação Central e por sua atuação nos primórdios das comunicações na Marinha do Brasil.

 

**Andrea Wanderley é editora-assistente e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

*** O pequeno perfil aqui publicado sobre José Domingues dos Santos Filho foi baseado principalmente no trabalho Desenhos como intermediários no projeto de exposição de Taunay para o Museu Paulista: as aquarelas de José Domingues dos Santos Filho, publicado em 2019, de autoria de Ana Paula Nascimento, doutora em História da Arquitetura e do Urbanismo.

 

Fontes:

Dicionário Histórico-Biográfico das Ciências da Saúde no Brasil (1832 – 1930) – Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz

DUARTE, Regina Horta. Barth e a Ilha da Trindade in Histórias, Ciências, Saúde –  Manguinhos, 2012

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

LOBO, Bruno. Conferência sobre a Ilha da Trindade in Arquivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1919.

NASCIMENTO, Ana Paula. Desenhos como intermediários no projeto de exposição de Taunay para o Museu Paulista: as aquarelas de José Domingues dos Santos Filho, 2019

RIBEIRO, A. de Miranda. A fauna vertebrada da Ilha da Trindade in Arquivos do Museu Nacional do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1919.

RIBEIRO, Paulo de Miranda. O professor Carlos Moreira. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1947.

Site do Instituto Oswaldo Cruz

Site do Ministério da Defesa