Série “Conflitos” X – Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963), fotógrafo e cinegrafista da FEB

Com fotografias do Cemitério de Pistoia, na Itália, pertencentes ao acervo do Museu da República, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, e um pequeno perfil e cronologia do autor dos registros, Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963), fotógrafo e cinegrafista da Força Expedicionária Brasileira (FEB), o portal lembra os 80 anos do Dia da Vitória na Europa, ocorrido em 8 de maio de 1945, data formal da derrota dos nazistas e da vitória das forças aliadas na Segunda Guerra Mundial. No cemitério foram sepultados os corpos dos integrantes da FEB durante a Segunda Guerra Mundial.  A cronologia de Horacio é a 69ª publicada pelo portal, que acredita que este trabalho seja uma importante contribuição para a historiografia da fotografia brasileira.

 

 

Acessando aqui o link para as fotografias de autoria de Horacio Coelho disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Os restos mortais dos integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB) permaneceram no Cemitério de Pistoia até 5 de outubro de 1960, quando foram transladados para o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, localizado no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Em junho de 1965, em substituição ao cemitério, foi erguido no local o Monumento Votivo Militar Brasileiro (MVMB) como homenagem aos expedicionários brasileiros que morreram durante a guerra.

Inicialmente, o Brasil se manteve neutro na Segunda Guerra Mundial, porém, com o afundamento de navios brasileiros por submarinos alemães, em 1942, o então presidente Getúlio Vargas (1882 – 1954) alinhou o país às nações aliadas, declarando guerra ao países do Eixo.

 

 

 

Brevíssimo perfil de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963)

 

“A tomada de Monte Castelo, os terríveis combates de Montese, tudo foi gravado em celulóide e perpetuado em sal de prata, imagem por imagem, graças a objetiva de Horacio Coelho, sua picareta de trabalho na paz e sua arma de combate na guerra”.

Revista da Semana, 7 de setembro de 1945

 

 

Nasceu em Fernando de Noronha, em Pernambuco, em 2 de setembro de 1890, Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho, filho de Joaquim de Gusmão Coelho (c. 1836 – 1902) e Francisca Cavalcanti de Souza Leão Coelho (c.1859 – 1929). Era neto do português Joaquim José Coelho (1797 – 1860), o Barão da Vitória. Teve com Maria Emilia Coelho (1894 – 1948), com quem foi casado, seis filhos: Pojucan, Rômulo, Rêmulo, Maria Clementina, Murilo e Alberto.

Como cinegrafista e fotógrafo do Ministério da Guerra participou como correspondente da Segunda Guerra Mundial, operando junto à Força Expedicionária Brasileira, na Itália. Foi nomeado pelo marechal Mascarenhas de Moraes (1883 – 1968) (Diário de Pernambuco, 8 de junho de 1944, segunda coluna). Algumas de suas fotos foram publicadas em artigos da Revista da SemanaOs brasileiros combatem sob a neve com fotos de autoria de Horacio (Revista da Semana, 10 de março de 1945) e Onde a cobra fuma (Revista da Semana, 24 de março de 1945). Outros correspondentes de guerra contemporâneos de Horacio que trabalharam para a imprensa brasileira foram: Allan Fischer (1913 – 1988) (fotógrafo do escritório do Coordenador de Assuntos Econômicos Interamericanos), Egídio Squeff (1911 – 1973) (O Globo), Fernando Stamato (1917 – 1993) (cinematografista do DIP), Frank Norall (19? – ?) (Escritório do Coordenador de Assuntos Interamericanos), Henry Bagley (19? – ?) (Associated Press), Joel Silveira (1918 – 2007) (Diários Associados), Raul Brandão (19? – ?) (Correio da Manhã), Rubem Braga  (1913 – 1990) (Diário Carioca) e Thassilo Mitke (19? – ?) (DIP).

Foi um dos correspondentes de guerra condecorados com a Medalha de Campanha, em 1945 (Diário de Notícias, 6 de dezembro de 1945, segunda coluna). Dois anos depois, em 1947, foi agraciado com uma Medalha de Guerra em uma solenidade realizada no Quartel do Batalhão de Guardas (Correio da Manhã, 20 de março de 1947, segunda coluna).

Com sua aposentadoria, na década de 1950, o cargo de cinegrafista do Exército foi extinto, em 1956 (Portal da Câmara dos Deputados).

Em 8 de maio de 1958, participou da solenidade comemorativa do 13º ano do fim da Segunda Guerra Mundial, realizada na Associação Brasileira de Imprensa quando os correspondentes de guerra foram homenageados. Rubem Braga e Fernando Stamato, dentre outros também estiveram presentes (Diário de Notícias, 9 de maio de 1958, última coluna).

Faleceu no Rio de Janeiro, em 9 de agosto de 1963, e foi sepultado no Cemitério de São Francisco Xavier (Jornal do Commercio, 10 de agosto de 1963, segunda coluna).

Uma curiosidade: Na foto abaixo, o último ajoelhado da esquerda para a direita é Fernando Stamato, filho do fotógrafo e pioneiro do cinema nacional João Stamato (1886 – 1951), que participou da viagem científica promovida pelo Instituto Oswaldo Cruz, em que um grupo de cientistas e engenheiros, entre setembro de 1911 e fevereiro de 1912, percorreu os vales do São Francisco e Tocantins, documentando a jornada, registrando as casas, costumes e pessoas, demonstrando conhecimento das técnicas, além de sensibilidade para fotografar a vida naqueles sertões. O cineasta Fernando Stamato seguiu os caminhos do pai, tendo sido cinegrafista da Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra, trabalhando como correspondente na Itália. Viúvo, partiu para os campos da batalha para documentar os movimentos das tropas brasileiras. Sua esposa Lourdes Soares Dutra (1917-1941) havia falecido no parto da filha, que também não resistiu. Durante o conflito mundial, em pleno front, Fernando se apaixonou pela italiana Rossana Bonfatti. Casaram-se em Pistóia (Itália) e, no final da guerra, tiveram uma menina, nascida em 14 de setembro de 1945. No ano seguinte, nasceria outro filho.

 

 

Acesse aqui a cronologia de Horacio de Gusmão Coelho Sobrinho (1890 – 1963)

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Esse artigo passou a integrar a série Conflitos, em 20 de março de 2026.

 

Fontes:

Allan Fischer Photo

Atlas Histórico do Brasil – FGV

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MORADO, Maria de Fátima. O Cemitério de Pistoia e a memória dos combatentes da FEB in Brasiliana Fotográfica, 18 de fevereiro de 2022.

O GLOBO, 14 de junho de 2015

Portal da Câmara dos Deputados

SANTOS, Ricardo Augusto. João Stamato, um fotógrafo nos sertões in Brasiliana Fotográfica, 9 de fevereiro de 2021.

Site Family Search

Site INPI

Site Memorial da FEB

Portal Domínio Público

O Cemitério de Pistoia e a memória dos combatentes da FEB

A Brasiliana Fotográfica publica o artigo O Cemitério de Pistoia e a memória dos combatentes da FEB com imagens da Coleção Lafayette Brasiliano, do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República, uma das instituições parceiras do portal. Essa coleção é formada por 41 fotografias produzidas, em sua maioria, pelo fotógrafo Horácio Coelho. Além de imagens do cemitério e de cerimônias de sepultamento, há imagens de militares da FEB, entre eles seu comandante, marechal Mascarenhas de Morais, e os proprietários do terreno cedido para a construção do cemitério, Dr. Landini e sua esposa. A autora do artigo é a historiadora Maria de Fátima Morado, que inicia seu texto com uma bela e comovente poesia de Cecilia Meirelles.

 

 

O Cemitério de Pistoia e a memória dos combatentes da FEB

Maria de Fátima Morado*

 

Eles vieram felizes, como para grande jogos atléticos:

com um largo sorriso no rosto, com forte esperança no peito,

- porque eram jovens e eram belos.

 

Marte, porém, soprava fogo por estes campos e estes ares.

E agora estão na calma terra,sob estas cruzes e estas flores,

cercados por montanhas suaves.

 

São como um grupo de meninos num dormitório sossegado,

com lençóis de nuvens imensas, e um longo sono sem suspiros,

de profundíssimo cansaço

 

Cecília Meireles(1901 – 1964)

 

 

O Cemitério Militar Brasileiro foi instalado na cidade italiana de Pistoia, em 02 de dezembro de 1944, durante a Segunda Guerra Mundial. Nele foram sepultados os corpos dos integrantes da Força Expedicionária Brasileira (FEB), onde permaneceram até 05 de outubro de 1960, quando seus restos mortais foram transladados para o Monumento Nacional aos Mortos da Segunda Guerra Mundial, localizado no Aterro do Flamengo, no Rio de Janeiro. Em junho de 1965, em substituição ao cemitério, foi erguido no local o Monumento Votivo Militar Brasileiro (MVMB) como homenagem aos expedicionários brasileiros que morreram durante a guerra.

 

 

A construção do cemitério foi pensada para agilizar os procedimentos necessários para o transporte, identificação, liberação e ritos fúnebres dos corpos dos soldados brasileiros. Até então, os sepultamentos eram realizados no cemitério de Traquinia e no cemitério militar dos Estados Unidos, em Vada. O deslocamento dos corpos dos postos de coleta para esses cemitérios mudavam de acordo com os novos locais de frentes de batalha. Dessa forma, as distâncias poderiam variar entre 200 km a 360 km o que acarretava o aumento do tempo para a mobilização de soldados dedicados à essa missão. Além disso, a burocracia realizada pela administração do cemitério americano causava atrasos para a liberação da documentação e notificação aos familiares.

 

 

Acessando o link para as fotografias do Cemitério de Pistóia do acervo do Museu da República disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Todo o trâmite para o resgate dos corpos, identificação, sepultamento e homenagem era realizado pelo Pelotão de Sepultamento da FEB, criado em 04 de julho de 1944, pouco após a ida do 1º Escalão da Força Expedicionária Brasileira para a Europa, em 2 de julho de 1944. Em agosto, o Pelotão partiu do Rio de Janeiro, capital federal nessa época, sob o comando do primeiro-tenente Lafayette Brasiliano, que mais tarde foi responsável pela organização do Cemitério de Pistoia.

 

 

Lafayette Vargas Moreira Brasiliano nasceu em 25 de junho de 1913, filho do general do Exército João Moreira de Oliveira Braziliano e de Alcinda Vargas Moreira Braziliano. Lafayette Brasiliano concluiu o Colégio Militar em 1931 e integrou a Força Expedicionária Brasileira durante a Segunda Guerra Mundial. Após o final da Guerra, já no posto de capitão, foi nomeado instrutor de ensino militar, em 1946, participando da organização do curso de Intendência. Foi ajudante-de-ordens do presidente Getulio Vargas entre 1951 e 1954, passando para a reserva em 1957. Faleceu em 8 de novembro de 1976, na cidade do Rio de Janeiro.

A Coleção Lafayette Brasiliano, do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República, foi doada em 1999. Essa coleção é formada por 41 fotografias produzidas, em sua maioria, pelo fotógrafo Horácio Coelho. As imagens apresentam a estrutura do cemitério, detalhes das sepulturas e registram cerimônias de sepultamento. Nas fotos da coleção também estão presentes os militares da FEB, entre eles seu comandante, marechal Mascarenhas de Morais, e os proprietários do terreno cedido para a construção do cemitério, Dr. Landini e sua esposa.

 

 

 

 

*Maria de Fátima Morado é Historiadora do Arquivo Histórico e Institucional do Museu da República

 

Fontes:

ADITÂNCIA DO EXÉRCITO JUNTO À EMBAIXADA DO BRASIL NA ITÁLIA. Monumento Votivo Militar Brasileiro (MVMB) “Honra e Glória”. Brasília.

FARIA. Durland Puppin de. O Pelotão de Sepultamento da FEB. Revista Agulhas Negras, Resende, ano 3, n. 3, jan./dez. 2019.

FUNDAÇÃO GETULIO VARGAS. Força Expedicionária Brasileira (FEB). Rio de Janeiro, 2020.

MEIRELES, Cecilia. Pistoia – Cemitério Militar Brasileiro. Rio de Janeiro: Global, 1955.

PIOVEZAN, Adriane. Os mortos na memória dos vivos: o Cemitério Militar Brasileiro de Pistóia (1945-1960). In: Anais do XVII Encontro Estadual de História da ANPUH-SC. Joinville, 2018.