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Dom Pedro II fotografado pelo italiano Luis Terragno (c. 1831 – 1891), Fotógrafo da Casa Imperial

No dia do aniversário de dom Pedro II (1825 – 1891), um entusiasta da fotografia como mecenas e colecionador, a Brasiliana Fotográfica publica um retrato do imperador de autoria do italiano Luigi (Luis) Terragno (c. 1831 – 1891), nascido em Gênova, e um dos pioneiros da fotografia no Rio Grande do Sul, a quem o monarca outorgou o título de Fotógrafo da Casa Imperial. Terragno foi o fundador da Loja Maçônica Paz e Ordem, em Porto Alegre, e inventou o fixador à base de mandioca, a pistola Terragno, um aparelho para tirar fotografias instantâneas; o Sinete-Terragno e uma máquina para conservar carnes.

A fotografia de Pedro II foi produzida quando ele estava no Rio Grande do Sul durante a Guerra do Paraguai (1864 – 1870). Esse registro é bastante diferente das fotografias que conhecemos do imperador. Nela, ele está sem as vestimentas reais, trajado como um gaúcho, localizado cultural e geograficamente no Brasil. Segundo a crônica O Velho Pinto, de Achylles Porto Alegre (1848 – 1926), no livro Serões de Inverno (1923), …Luiz Terragno, um fotógrafo de nomeada que tivermos aqui. Era realmente um bom artista, mas ficou muito vaidoso por haver retratado D. Pedro II, quando ele esteve aqui na sua ida para Uruguaiana…”

 

Terragno fotografou, entre 1865 e 1867, outros personagens envolvidos no conflito como o Duque de Saxe (1845 – 1907) e o Conde d´Eu (1842 – 1922) que em seu livro, Viagem Militar ao Rio Grande do Sul, assim se referiu ao fotógrafo, em 8 de agosto de 1865: A pedido do fotógrafo de Porto Alegre, um italiano, fui-me retratar de poncho e chapéu mole…

Algumas dessas fotos e outras também de autoria de Terragno, de vistas de Porto Alegre, foram exibidas na Exposição de História do Brasil realizada pela Biblioteca Nacional e aberta por Pedro II, em 2 de dezembro de 1881, dia em que o monarca completava 56 anos. A exposição foi um dos mais importantes eventos da historiografia nacional.

 

Acessando o link para as fotografias de autoria de Luis Terragno disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

No período em que atuou no Rio Grande do Sul, do início da década de 1850 a 1891, Luis Terragno testemunhou o crescimento e desenvolvimento de Porto Alegre que, entre 1820 e 1890, passou de cerca de 12 mil habitantes para pouco mais de 52 mil. Os colonos alemães começaram a chegar a partir de 1824 e, os italianos, a partir de 1875. Foi, no estado, contemporâneo dos fotógrafos Justiniano José de Barros (18? -?), de Madame Reeckel (1837 – 19?), de Rafael Ferrari (18? -?) e de Thomas King, dentre outros. Este último também foi agraciado com o título de Fotógrafo da Casa Imperial.

Ao longo de sua carreira de fotógrafo, Terragno ofereceu diversos serviços e produtos como, por exemplo, cursos e câmeras para amadores, além de ter investido em técnicas como a estereoscopia e, depois, a impressão fotográfica sobre superfícies diversas – borracha, mármore, porcelana, tecido etc. Teve estabelecimentos fotográficos em diversos endereços de Porto Alegre.

 

Faça Chuva ou Faça Sol: fotógrafos em Porto Alegre (1849 - 1909), página 353.

Faça Chuva ou Faça Sol: fotógrafos em Porto Alegre (1849 – 1909), página 353.

 

Em 1850, já estava no Brasil e atuava como fotógrafo itinerante na cidade de Rio Grande, no Rio Grande do Sul. Em 1851, atuou em Pelotas. Retornou a Rio Grande, onde permaneceu entre agosto e novembro de 1853, tendo chegado, em Porto Alegre, provavelmente, pouco depois. Casou-se, em 28 de julho de 1855, na Freguesia do Rosário, com Balbina Rita Círio. Tiveram cinco filhos: Luiza (1858-?), Vitor (1861-?), Cândido (1863 – ?), Luís (1867 – ?), Antonio (1875 -?) e Olimpio (18? -?).

 

Passaporte de Terragno 1852 / Acervo AHRS

Passaporte de Luis Terragno,  1852 / Acervo AHRS

 

“Aos vinte e oito dias do mês de julho de mil oitocentos e cinquenta e cinco anos, na casa da residência de João Vicente Bartholomeu Cirio, sita na freguesia de Santa Ana do Rio dos Sinos, em Oratório aprovado para esse fim, pelas oito horaas da tarde, depois de feitas as diligências do estilo, e não havendo impedimento algum na forma do Sagrado Concílio Tridentino, e Cobnstituição do Bispado, por provisão do Excelentíssimo Senhor Cônego Provisor, Vigário Geral deste Bispado Thomé Luiz de Souza, perante mim e das testemunhas Patricio D´Azambuja Cidade, e Luiz Gambarro, se receberam em matrimônio com palavras de presente, e que expressaram no mútuo consentimento os contraentes Luiz Terragno, e D. Balbina Rita Ciro [sic], esta natural desta cidade, filha legítima de João Vicente Bartholomeu [sic], e Dona Rita Joaquina da Conceição, aquele natural da Itália, filho legítimo de Domingos Antônio Terragno, e Angela Maria Peligrinni; receberam as bençãos matrimoniais, e para constar mandei fazer esse termo que assino.

O Vigário José Ignácio de Carvalho e Freitas”

Livro 2º de Casamentos da Freguesia do Rosário (1844 – 1862), folha 16.

Faça Chuva ou Faça Sol: fotógrafos em Porto Alegre (1849 – 1909)

 

Inicialmente, Terragno teve, em Porto Alegre, um estabelecimento fotográfico na Rua do Rosário, esquina coma Rua da Alegria, com o pintor italiano Bernardo Grasselli (? – 1883) que, após passar alguns anos no Uruguai, foi, em 1853, morar, em Porto Alegre. Foi professor de artes e cenógrafo, além de ter colaborado na revista literária O Guaíba. A sociedade duraria cerca de um ano. Deixou de trabalhar com o daguerreótipo e passou a trabalhar com retratos de eletrótipo, um processo mais rápido que permitia fotografar crianças com facilidade.

 

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O Mercantil, 8 de abril de 1854

 

Em 1855, seu estabelecimento ficava na Rua de Bragança, 208, atual Marechal Floriano.

 

O Mercanil, 29 de novembro de 1855

O Mercantil, 29 de novembro de 1855

 

Em 1860, voltou a montar um ateliê onde se localizava seu primeiro estabelecimento. Ao longo dessa década, introduziu, em Porto Alegre, a fotografia estereoscópica.

 

Ateliê de TErragno na rua do Rosário esquina com rua da Alegria, em Porto Alegre, 1862 / Acervo de Carlos Henrique Bertelli

Ateliê de Terragno na Rua do Rosário esquina com Rua da Alegria, em Porto Alegre, 1862 / Acervo de Carlos Henrique Bertelli

 

Neste mesmo ano, trabalhou na cidade de Rio Grande e também em Pelotas, em abril e maio, respectivamente (O Commercial, 4 de abril de 1860; Brado do Sul, 27 de maio de 1860).

Em 1861, divulgou sua invenção: o fixador à base de mandioca. Em 1863, anunciava que em seu estabelecimento tiram-se retratos pelo novo sistema “Alabastrino” cujos retratos são de uma finura e delicadeza superior a tudo o que se tem feito até hoje (O Mercantil, 21 de agosto de 1863).

 

Terragno conquistou a segunda menção honrosa na II Exposição Nacional de 1866, realizada no Palácio da Moeda do Rio de Janeiro entre 19 de outubro e 16 de dezembro de 1866 (Correio Mercantil, 11 de fevereiro de 1867, quarta coluna). O pintor Victor Meirelles (1832 – 1903) foi jurado da seção “Fotografia” e, segundo Tadeu Chiarelli, com o texto que escreveu para o capítulo “Fotografia”, que constou no Relatório sobre exposição, o pintor traçou …aquela que talvez seja a primeira história da fotografia escrita no Brasil (talvez a primeira em língua portuguesa)…

‘A descoberta da fotografia, importante auxiliar das artes e ciências, e que há mais de meio século preocupava o espírito de doutos tornando-se objeto de estudo de alguns sábios da Inglaterra e da França, só nesses últimos tempos atingiu ao grande aperfeiçoamento que apresenta e que bem pouco deixa a desejar’.

O pintor deixou claro seu amplo conhecimento sobre o assunto, desde sua história até as peculiaridades dos processos fotográficos já desenvolvidos. Mostrou-se também entusiasmado com as aplicações da fotografia. Seu julgamento das obras expostas expressava rigor crítico e admiração. Usou em sua avaliação valores e parâmetros que eram, tradicionalmente, utilizados na crítica de pinturas como, por exemplo, os efeitos de luz e a nitidez das imagens. Com sua apreciação, Meirelles incentivou o diálogo entre a fotografia e a pintura.

A classe de “Fotografia” foi dividida entre “panoramas”, “panoramas  diversos para álbuns”, “estereoscópios”, “álbuns” e “retratos”. Foram premiados com medalha de prata José Ferreira Guimarães (1841 – 1924)Joaquim Insley Pacheco (18? – 1912), Carneiro & Gaspar, Augusto Stahl (1828 – 1877) & Germano Wanchaeffer (1832 – ?) e E.J. Van Nyvel; com medalha de bronze Christiano Junior (1832 – 1902), Modesto e Jacy Monteiro & Lobo. Finalmente, além de Terragno, obtiveram menções honrosas José de Melo Arguelles,  João Ferreira Villela (18? – ?) e Leon Chapelin (18? -?). Na categoria “Paisagem”, a medalha de prata foi obtida por Georges Leuzinger (1813 – 1892).

 

 

Sobre Terragno, Meirelles escreveu:

“Não são inteiramente privadas de merecimento as provas fotográficas enviadas por este senhor. Nota-se o retrato de uma senhora que foi também reproduzido sobre fino tecido de um lenço; bem como as outras provas, representando algumas vistas”.

Terragno ofereceu uma doação em dinheiro aos enfermos vítimas da epidemia de cólera, em 1867 (Relatório dos Presidentes das Províncias Brasileiras : Império (RS), 1867). Neste mesmo ano, vendeu todo seu acervo e material, anunciando sua partida ao exterior mas, em 1868, voltou a Porto Alegre e abriu um novo estúdio, na Rua da Ponte, 237.

Era maçom e foi um dos fundadores, em 24 de setembro de 1869, da Loja Luz e Ordem. Foi eleito seu primeiro administrador.

Em 1870, abriu uma filial de seu estabelecimento fotográfico na rua dos Andradas, 433.

Em 28 de setembro de 1872, foi solenizada a promulgação da lei de 28 de setembro de 1871 com uma festa imponente , em que pela primeira vez na província do Rio Grande do Sul se realizou a cerimônia do batismo maçônico conferido a 25 lowtons. O Irmão Luiz Terragno, venerável da Loja Luz e Ordem executou a liturgia e, em seguida, entregou a uma menina de 10 anos sua carta de liberdade (Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil : Jornal Offical da Maçonaria Brazileira (RJ), abril de 1872). Segundo a Grande Loja Maçônica da Cidade de São Paulo, Lowtons  são “filhos, enteados e netos (de ambos os sexos) de maçons desde que tenham idade entre sete e quatorze anos. Ao serem adotados por uma Loja Maçônica, através de uma cerimônia especial de adoção de Lowtons, a Loja contrai para com eles a obrigação de servir-lhe de tutor e guia na vida social”.

 

 

 

 

Esteve presente à celebração do padroeiro da Loja Maçônica Progresso e Humanidade, em Porto Alegre (Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil : Jornal Offical da Maçonaria Brazileira (RJ), abril a julho de 1874).

 

 

Participou de uma cerimônia maçônica de juramento de adesão da Loja Luz e Ordem ao Grande Oriente Unido do Brasil, reconhecendo-a como a única potência macônica legítima do Império (O Maçon: órgão da maçonaria (RS), 15 de julho de 1874).

 

 

Foi citado no artigo A emigração para o Brasil, publicado no Giornalle delle Colonie, de Roma (A Nação, 24 de setembro de 1874).

 

 

Como venerável da officina batizou quatro lowtons na celebração do padroeiro São João da Loja Maçônica Luz e Ordem (Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil : Jornal Offical da Maçonaria Brazileira (RJ), abril a agosto de 1875Maçon: órgão da maçonaria (RS), 1º de julho de 1875, primeira coluna).

Em abril de 1875, foi inaugurada  a segunda Exposição Provincial do Rio Grande do Sul ou Exposição Commercial e Industrial, uma mostra de agricultura, indústria e comércio, realizada no Edifício do Atheneo Rio Grandense, em Porto Alegre. Segundo o historiador Athos Damasceno (1902 – 1975), foi Carlos von Koseritz (1830 – 1890), jornalista, poeta e importante personalidade da colônia alemã no sul do Brasil durante o Segundo Império, quem sugeriu a inclusão na exposição “de uma seção especial destinada a exibição de obras de arte, assim imprimindo no parque um cunho de sensibilidade e cultura…”(Relatórios dos Presidentes das Províncias Brasileiras: Império (RS), 11 de março de 1875).

Dois fotógrafos apresentaram seus trabalhos nesta exposição: Madame Reeckell (1837 – 19?) e Terragno (18? – 1891), que, a esta altura, possuía estabelecimentos fotográficos no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina (O Despertador, 19 de novembro de 1875, primeira coluna).

 

 

 

Houve uma polêmica em torno do sistema fotográfico  À luz tangente entre Terragno e a fotógrafa Madame Reeckell (1837 – 19?) que no jornal A Reforma, de 4 de agosto de 1870, publicou:

“Luz Tangente. O sr. Terragno, em a pedido inserto no Riograndense, tratando dos retratos à luz tangente, diz que os não tiro pelo mesmo sistema dos seus. Os retratos chamados pelo sr. Terragno de à luz tangente –  são na minha opinião iguais aos que tiro e tenho anunciado. Quem quiser convencer disso venha à minha casa para ver os retratos que tenho tirado e outros de fotógrafos do Rio de Janeiro, também do mesmo sistema, isto é, preferindo-se os dias escuros para o trabalho dessa qualidade de fotografias. O sr. Terragno é injusto quando atribui-me querer imitá-lo, dando o nome de retratos – à luz tangente – que só s.s. pode tirar, quando é certo que os tiro há muito tempo. Desafia-me a apresentar os aparelhos e ingredientes que são precisos. Poderá vê-los  quem quiser. O sistema é simples e não faço mistério para com as pessoas que, visitando a minha galeria, pedem par ver os aparelhos de que me sirvo. Quanto a supor que usei do emblema seu no meu anúncio publicado na Reforma, declaro que nada tenho com isso. E o sr. Terragno com aquela empresa deve entender-se a respeito. M Reeckell”.

Na IV Exposição Nacional de 1875, inaugurada em 12 de dezembro e finda em 16 de janeiro de 1876, Terragno recebeu uma Medalha de Mérito. Exibiu fotografias do mercado e da estação de bondes de Porto Alegre e quatro retratos no formato carte de visite. Indicando o espírito tecnológico dessa exposição, havia uma classe intitulada Aparelhos e métodos fotográficos, onde Terragno apresentou o fixador à base de mandioca que havia inventado.

“O ácido da mandioca é um produto tóxico de um cheiro característico, e não consta que tenha sido analisado. Em 1861 extrai uma quantidade equivalente mais ou menos a duas onças, fiz algumas aplicações na fotografia e vi que substituía com grande vantagem o ácido acético e ainda o ácido fórmico.

Se ao banho revelador de ferro se substituir o ácido acético pelo da mandioca, pode-se diminuir de metade a exposição (pose), e geralmente o negativo não necessita de reforço.

Este ácido não ataca o ouro nem a prata; ataca porém energicamente o alumínio e o magnésio, e produz sais deliquescentes.

Tendo preparado um sal de ferro, atacando este metal por uma mistura de 1 parte de ácido sulfúrico e dois partes de ácido de mandioca, a cujo sal dou o nome de sulfo-mandiocate de ferro, o qual emprego em lugar do sulfato de ferro: torna-se o revelador por excelência, porque não só permite diminuir muito a exposição, como acusa os mais pequenos (sic) detalhes, mesmo nos lugares em que a ação da luz for muito fraca.

Quando o Sr. d´Ormano foi à Europa “incorporar a Companhia do gás” levou um frasquinho deste ácido para “mandar analisar em Paris”; em consequência da guerra franco-prussiana, e outros inconvenientes, resultou que o senhor d´Ormano na sua volta me devolvesse o ácido sem ter sido analisado.

“As minhas ocupações”, e mesmo “a falta de certos recursos não me têm permitido fazer outras experiências”; creio, porém, que este ácido convenientemente analisado pode ter diversas aplicações nas artes e indústria e mesmo em medicina, e teria a vantagem de se aproveitar de um produto natural, que é deitado fora, pois que ele é extraído da água de mandioca. 

O processo da extração não é difícil, bem que um tanto laborioso”. 

Luis Terragno no Catálogo da Exposição de 1875

 

Dentre outros, também participaram da exposição os fotógrafos Alberto Henschel (1827 – 1892)Augusto de Azevedo Militão (1837 – 1905)Felipe Augusto Fidanza (c. 1847 – 1903) e Georges Leuzinger (1813 – 1892) (Jornal do Commercio, 4 de fevereiro de 1876, segunda colunaDiário do Rio de Janeiro, 4 de fevereiro de 1876, última coluna).

Marc Ferrez (1843 – 1923) apresentou, na seção de Obras Públicas da IV Exposição Nacional, dois álbuns com imagens dos recifes de Pernambuco, do baixo São Francisco e da cachoeira de Paulo Afonso, além de registros de corais e madrepérolas. As imagens, produzidas durante a viagem da Comissão Geológica, foram projetadas por Ferrez durante uma conferência do professor Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), chefe da comissão (Diário do Rio de Janeiro, 27 e 28 dezembro de 1875, primeira colunaO Globo, 4 de janeiro de 1876, na penúltima coluna, e Diário do Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 1876, quarta coluna).

Em um anúncio, Terragno informava que não produzia fotos de crianças aos domingos e em dias santos (O Despertador, 9 de novembro de 1875).

 

 

A Grande Loja Maçônica Provincial de Porto Alegre havia sido regularizada em 14 de dezembro de 1875 por Terragno e outros maçons (Boletim do Genrande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil : Jornal Offical da Maçonaria Brazileira (RJ), janeiro a abril de 1876). Ele era o segundo grande vigilante da Grande Loja Provincial de São Pedro do Rio Grande do Sul ao oriente de Porto Alegre; e também o athers da Loja Paz e Ordem (Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil : Jornal Offical da Maçonaria Brazileira (RJ), página 464 e página 495, maio a agosto de 1876).

Em 1876, Terragno e os fotógrafos Marc Ferrez (1843 – 1923)Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), e José Tomás Sabino (18? – c. 1881) participaram da Exposição Internacional da Filadélfia, nos Estados Unidos, aberta em 10 de maio. O New York Commercial Advertiser, de 29 de maio de 1876, publicou um artigo que informava que “riquíssimas fotografias da exploração geológica a cargo do professor Hartt” haviam sido apresentadas pelo Brasil na Exposição Universal da Filadélfia aberta em 10 de maio. Fotografias de Ferrez realizadas para a Comissão Geológica do Império foram premiadas com  medalha (The Rio News, 5 de agosto de 1879). Insley Pacheco também recebeu uma medalha por suas fotografias (O Liberal do Pará, 28 de novembro de 1876, na segunda coluna e Diário do Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1876, na sexta coluna). Uma curiosidade: a comissão de organização da Exposição da Filadéfia modificou as regras da premiação: os ganhadores receberiam um diploma, uma medalha de bronze e uma cópia certificada do parecer do júri, rompendo com o padrão de premiação hierárquica.

Neste mesmo ano, Terragno anunciou a venda de aparelhos fotográficos para amadores. Segundo o anúncio, com essas máquinas qualquer pessoa pode se divertir a tirar retratos e vistas e que para sso bastariam poucas aulas (A Reforma, 24 de novembro de 1876).

Em 1877, anunciou que só em seu estabelecimento, na Praça Conde d´Eu, se tiravam retratos com o novo e magnífico sistema non pareil que conferia à arte fotográfica beleza, delicadeza, suavidade, e o que é mais que tudo uma perfeita conservação, a qual garantimos (A Reforma, 7 de julho de 1877).

Pediu e teve negado pelo presidente da Seção de Geologia Aplicada e Química do Governo Imperial, Antônio Correa de Souza Costa, em 31 de dezembro de 1878, o privilégio para fabricar álcool e um ácido sui generis extraido da mandioca (O Auxiliador da Indústria Nacional, janeiro de 1879; Jornal do Commercio, 30 de janeiro de 1879, segunda coluna).

 

 

Em 1881, anunciou que em seu ateliê, na Praça da Alfândega, 294, oferecia Retratos Victoria em quadros dourados, entregues 5 minutos depois de tirados (Jornal do Commercio (RS), 15 de novembro de 1881).

No mesmo ano, participou da Exposição Provincial Brasileira-Alemã do Rio Grande do Sul. Havia inventado a pistola Terragno, um aparelho para tirar fotografias instantâneas (Gazeta de Notícias, 6 de dezembro de 1881, quarta colunaA Pacotilha (MA), 25 de dezembro de 1881, segunda coluna).

 

 

Como já mencionado, em 1881, Terragno participou da Exposição de História do Brasil realizada pela Biblioteca Nacional, aberta em 2 de dezembro, quando Pedro II completava 56 anos. Foi organizada por Benjamin Franklin de Ramiz Galvão (1846 – 1938), diretor da Biblioteca Nacional de 1870 a 1882.

“…a exposição buscou reunir uma grande massa de publicações sobre a história do país, tendo como objetivos, em primeiro lugar, recolher e localizar documentos que pudessem ajudar a compreender a história brasileira; em segundo lugar, favorecer a organização de um catálogo em que diversos tipos de documentos de vários momentos da história do país poderiam ser localizados, ordenados e divulgados aos estudiosos”.

 Biblioteca Nacional

 

Terragno expôs as seguintes fotografias:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Thumbnail

Luis Terragno. Antônio Gomes, soldado paraguaio, 27 de abril de 1867 / Acervvo FBN

 

 

 

 

 

Também na Exposição de História do Brasil da Biblioteca Nacional foi apresentado o álbum Vistas fotográficas da Colônia Dona Francisca, importante conjunto iconográfico da colonização alemã no sul do Brasil, dedicado ao imperador dom Pedro II. As imagens foram produzidas, em 1866, por Johann Otto Louis Niemeyer, fotógrafo, provavelmente, de origem alemã. Imagens produzidas por Augusto Riedel (1836 – ?) também foram expostas (Catálogo da Exposição de História do Brasil 1881-2, vol.2, páginas 1415, 1416, 1422, 1456, 1508 e 1612).

Em 1882, o estabelecimento de Terragno, em Porto Alegre, ficava na Praça da Alfândega.

Em 29 de setembro de 1883, foi naturalizado brasileiro.

Foi noticiado que ele estava no Rio de Janeiro e que havia inventado sinetes foto-metálicos, o Sinete-Terragno, que em vez da firma dão o retrato do dono. Foi concedido a ele, em 1º de setembro, o privilégio de invenção durante 15 anos (Revista de Engenharia, 1883, segunda coluna; Correio Paulistano, 6 de setembro de 1883, última colunaGazeta de Notícias, 5 de outubro de 1883, sexta coluna; A Federação, 24 de julho de 1884, terceira coluna).

 

 

 

Gazeta de Porto Alegre, 27 de setembo de 1883

Gazeta de Porto Alegre, 27 de setembo de 1883

Anunciou ter recebido dos Estados Unidos um novo aparelho, o Megapito, por meio do qual pode, com qualquer tempo, sem auxílio de luz solar, tirar retratos de tamanho natural (O Despertador, 12 de julho de 1884, primeira coluna).

 

 

Leiloou os móveis, livros e material fotográfico de sua moradia e ateliê, na Rua dos Andradas. Em 20 de março de 1885, partiu de Porto Alegre com sua família, a bordo do Victoria. Estabeleceu-se em Pelotas (A Federação (RS), 24 de fevereiro de 1885, última coluna; e A Federação (RS), 27 de fevereiro de 1885, última coluna; A Federação (RS), 21 de março de 1885, segunda coluna; Correio Mercantil, 12 de agosto de 1885).

 

 

Ainda neste ano, escreveu um perfil do jovem Fausto Werner (1863 – 1927), futuro constituinte de 1892 e deputado estadual de Santa Catarina (O Estudante (SC), 1º de outubro de 1885).

Em janeiro de 1887, voltou a Porto Alegre, na Rua de Bragança (A Federação (RS), 4 de março de 1887, última coluna).

Em 1888, um de seus filhos tornou-se seu sócio no estúdio fotográfico, que se mudou para a Rua do General Câmara, nº 46. Este foi,o último endereço de seu ateliê, fechado e vendido, em 1889 para o fotógrafo Ciro José Pedrosa.

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Inventou, em 1890, uma máquina para conservar carnes (A Federação: órgão do Partido Republicano (RS), 18 de junho de 1890, segunda coluna).

 

 

Luis Terragno faleceu, em 16 de setembro de 1891, de angos pectoris (A Federação (RS), 19 de setembro de 1891, última colunaJornal do Commercio, 27 de setembro de 1891, última coluna).

 

 

Sua missa de um ano foi celebrada na Catedral de Porto Alegre (A Federação: órgão do Partido Republicano (RS), 13 de setembro de 1892, última coluna).

 

 

Fotos de autoria de Terragno integraram a exposição A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX, no Centro Cultural do Banco do Brasil, entre 29 de janeiro e 23 de março de 1997. Outros fotógrafos da mostra foram Albert Frisch (1840 – 1918)Albert Richard Dietze (1838 – 1906)Augusto Riedel (1836-?)Benjamin Robert Mulock (1829 – 1863)Felipe Augusto Fidanza (c. 1847 – 1903)Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890)Georges Leuzinger (1813 – 1892)Henrique Rosen (1840 – 1892)Hercule Florence (1804 – 1879)Jean Victor Frond (1821 – 1881)Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912)Louis Niemeyer (18? – ?)Marc Ferrez (1843 – 1923) e Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886), dentre outros. A exposição seguiu para a Pinacoteca de São Paulo (20 de abril a 25 de maio de 1997. Em 4 de julho de 1997, foi aberta no Museo Nacional de Bellas Artes, de Buenos Aires, na Argentina, onde ficou em cartaz até o dia 31 do mesmo mês. Entre 8 de junho e 30 de julho de 2000, a exposição foi apresentada no Centro Português de Fotografia, no Porto, em Portugal.

Fotografias de Terragno foram expostas na mostra Retratos do Império e do Exílio, que ficou em cartaz, no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, entre 22 de fevereiro e 29 de maio de 2011. Foi curada pelo fotógrafo dom João de Orleans e Bragança (1954-) e por Sérgio Burgi (1958 -), Coordenador de Fotografia do IMS e um dos curadores da Brasiliana Fotográfica. Outros fotógrafos da exposição foram  Albert Henschel (1827 – 1882)Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), Félix Nadar (1820 – 1910), Otto Hees (1870 – 1941) e Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886).

 

Acessse aqui a Cronologia de Luis Terragno (c. 1831 – 1891)

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

 

ALEGRE, Achylles Porto. Serões de Inverno. Porto Alegre: Livraria Selbach, 1923.

ALVES, Hélio Ricardo. A Fotografia em Porto Alegre: o século XIX. In: ACHUTTI, Luiz Eduardo (Org.). Ensaios (sobre o) Fotográfico. Porto Alegre: Unidade Editorial, 1998.

BRACHER, Andréa; GONÇALVES, Sandra Maria Lucia Pereira. Luiz Terragno: o início da fotografia no Rio Grande do Sul  in Primórdios da Comunicação Midiática no Rio Grande do Sul. Florianópolis: Insular, 2021. 328 p. p. 63-91

CASTRO, Danielle Ribeiro de . Photographos da Casa Imperial: A Nobreza da Fotografia no Brasil do Século XIX. IV Encontro Nacional de Estudos da Imagem e I Encontro Internacional de Estudos da Imagem.  Londrina, PR, 07 a 10 de maio de 2013.

Conde d´Eu. Viagem Militar ao Rio Grande do Sul. Belo Horizonte : Editora Itatianai. São Paulo : Ed. da Universidade de São Paulo, 1981.

DAMASCENO, Athos. Colóquios com a minha cidade. Porto Alegre : Globo, 1974.

DUARTE, Miguel Antônio de Oliveira. Faça chuva ou faça sol: fotógrafos em Porto Alegre (1849-1909). Porto Alegre, RS, 2016.

Enciclopédia Itaú Cultural – Bernardo Grasselli e Luis Terragno

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LENZI, Teresa; MENESTRINO, Flávia. Pioneiros da fotografia em Rio Grande. Indícios de passagens e permanências. Relato de uma pesquisa histórica. Revista Memória em Rede, Pelotas, v.2, n.5, abr. / jul. 2011

MELLO, Bruno Cesar Euphrasio de. A cidade de Porto Alegre entre 1820 e 1890: as transformações físicas da capital a partir das 89 impressões dos viajantes estrangeiros. Dissertação de Mestrado em Planejamento Urbano e Regional – Faculdade de Arquitetura, Universidade Federal do Rio Grande do Sul, Porto Alegre, 2010.

Site Grande Loja Maçônica da Cidade de São Paulo

Site Grande Loja Maçônica do Estado do Rio Grande do Sul

STUMVOLL, Denise; SILVA, Wellington. Carte de Visite e outros Formatos: retratos no acervo fotográfico do Museu da Comunicação Hipólito José da Costa (1880-1920). Porto Alegre: Museu de Comunicação Social Hipólito José da Costa, 2019. I

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VASQUEZ, Pedro Karp. O Brasil na fotografia oitocentista. São Paulo: Metalivros, 2003.

 

Cronologia de Luis Terragno (c. 1831 – 1891)

Cronologia de Luis Terragno (c. 1831 – 1891)

 

 

c. 1831 – Nascimento de Luigi (Luis) Terragno, na Itália, filho de Domingos Antônio Terragno, e Angela Maria Peligrinni.

 

Passaporte de Terragno 1852 / Acervo AHRS

Passaporte de Luis Terragno,  1852 / Acervo AHRS

 

c. 1850 – Passou  por Paris, onde existem registros de suas fotografias.

1850 - Já estava no Brasil e atuava como fotógrafo itinerante em Rio Grande, no Rio Grande do Sul.

1851 – Atuava em Pelotas, também no Rio Grande do Sul.

1853 - Retornou a Rio Grande e estabeleceu-se, na Rua do Pito, nº 59. O ateliê passou a se chamar Terragno e Cª. e ele permaneceu na cidade de agosto a novembro de 1853.

Chegou em Porto Alegre, provavelmente, ainda em 1853.

1854 – Inicialmente, Terragno teve, em Porto Alegre, um estabelecimento fotográfico na Rua do Rosário, esquina coma Rua da Alegria, com o pintor italiano Bernardo Grasselli (? – 1883) que, após passar alguns anos no Uruguai, foi, em 1853, morar, em Porto Alegre. Foi professor de artes e cenógrafo, além de ter colaborado na revista literária O Guaíba. A sociedade duraria cerca de um ano.

Deixou de trabalhar com o daguerreótipo e passou a trabalhar com retratos de eletrótipo, um processo mais rápido que permitia fotografar crianças com facilidade. Deixou de trabalhar com o daguerreótipo e passou a trabalhar com retratos de eletrótipo, um processo mais rápido que permitia fotografar crianças com facilidade. Tornou-se o principal retratista da capital gaúcha.

 

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O Mercantil, 8 de abril de 1854

 

1855 – Casou-se, em 28 de julho de 1855, na Freguesia do Rosário com Balbina Rita Círio. Tiveram cinco filhos: Luiza (1858-?), Vitor (1861-?), Cândido (1863 – ?), Luís (1867 – ?), Antonio (1875 -?) e Olimpio (18? -?).

“Aos vinte e oito dias do mês de julho de mil oitocentos e cinquenta e cinco anos, na casa da residência de João Vicent Bartholomeu Cirio, sita na freguesia de Santa Ana do Rio dos Sinos, em Oratório aprovado para esse fim, pelas oito horaas da tarde, depois de feitas as diligências do estilo, e não havendo impedimento algum na forma do Sagrado Concílio Tridentino, e Cobnstituição do Bispado, por provisão do Excelentíssimo Senhor Cônego Provisor, Vigário Geral deste Bispado Thomé Luiz de Souza, perante mim e das testemunhas Patricio D´Azambuja Cidade, e Luiz Gambarro, se receberam em matrimônio com palavras de presente, e que expressaram no mútuo consentimento os contraentes Luiz Terragno, e D. Balbina Rita Ciro [sic], esta natural desta cidade, filha legítima de João Vicente Bartholomeu [sic], e Dona Rita Joaquina da Conceição, aquele natural da Itália, filho legítimo de Domingos Antônio Terragno, e Angela Maria Peligrinni; receberam as bençãos matrimoniais, e para constar mandei fazer esse termo que assino.

O Vigário José Ignácio de Carvalho e Freitas”

Seu estabelecimento ficava na Rua de Bragança, 208, atual Marechal Floriano. Além de produzir retratos, oferecia à clientela medalhas, alfinetes para senhoras e caixas, dentre outros produtos.

 

O Mercanil, 29 de novembro de 1855

O Mercantil, 29 de novembro de 1855

 

1860 – Voltou a montar um ateliê onde se localizava seu primeiro estabelecimento, na Rua do Rosário, esquina com a Rua da Alegria. Oferecia retratos pelo novo sistema de ambrótipo, e retratos ditos em relevo com o sem paisagem; em fundo colorido, salientes, duplos ou de duas vistas, em oleados e em melanotipo. Fazia cartes de visite e participações de casamento onde o o nome da pessoa era substitído por uma fotografia. Vendia máquinas fotográficas e ensinava aos interessados como tirar retratos.

 

Ateliê de TErragno na rua do Rosário esquina com rua da Alegria, em Porto Alegre, 1862 / Acervo de Carlos Henrique Bertelli

Ateliê de Terragno na Rua do Rosário esquina com Rua da Alegria, em Porto Alegre, 1862 / Acervo de Carlos Henrique Bertelli

 

Neste mesmo ano, trabalhou na cidade de Rio Grande e também em Pelotas, em abril e maio, respectivamente (O Commercial, 4 de abril de 1860; Brado do Sul, 27 de maio de 1860).

Foi anunciada sua partida para o Rio de Janeiro e para Buenos Aires.

1861 – Divulgou sua invenção: o fixador à base de mandioca.

1862 – Introduziu, em Porto Alegre, a fotografia estereoscópica, produzindo vistas urbanas da cidade com essa técnica.

1863 - Segundo o historiador Athos Damasceno (1902 – 1975), ao que parece estabeleceu-se, em Porto Alegre, na Rua Clara, 33 (Rua João Manuel).

Anunciava que em seu estabelecimento tiram-se retratos pelo novo sistema “Alabastrino” cujos retratos são de uma finura e delicadeza superior a tudo o que se tem feito até hoje (O Mercantil, 21 de agosto de 1863).

1865 / 1867 - Nesse período, Terragno fotografou dom Pedro II que havia ido para o Rio Grande do Sul devido à Guerra do Paraguai (1864 – 1870), além de outros personagens envolvidos no conflito como o Conde d´Eu (1842 – 1922) e o Duque de Saxe (1845 – 1907).

 

1866 – Terragno conquistou a segunda menção honrosa na II Exposição Nacional de 1866 realizada no Palácio da Moeda do Rio de Janeiro entre 19 de outubro e 16 de dezembro de 1866(Correio Mercantil, 11 de fevereiro de 1867, quarta coluna). O pintor Victor Meirelles (1832 – 1903) foi jurado da seção “Fotografia” e, segundo o professor Tadeu Chiarelli, com o texto que escreveu para o capítulo “Fotografia”, que constou no Relatório sobre exposição, o pintor traçou …aquela que talvez seja a primeira história da fotografia escrita no Brasil (talvez a primeira em língua portuguesa)…

‘A descoberta da fotografia, importante auxiliar das artes e ciências, e que há mais de meio século preocupava o espírito de doutos tornando-se objeto de estudo de alguns sábios da Inglaterra e da França, só nesses últimos tempos atingiu ao grande aperfeiçoamento que apresenta e que bem pouco deixa a desejar’.

O pintor deixou claro seu amplo conhecimento sobre o assunto, desde sua história até as peculiaridades dos processos fotográficos já desenvolvidos. Mostrou-se também entusiasmado com as aplicações da fotografia. Seu julgamento das obras expostas expressava rigor crítico e admiração. Usou em sua avaliação valores e parâmetros que eram, tradicionalmente, utilizados na crítica de pinturas como, por exemplo, os efeitos de luz e a nitidez das imagens. Com sua apreciação, Meirelles incentivou o diálogo entre a fotografia e a pintura.

A classe de “Fotografia” foi dividida entre “panoramas”, “panoramas  diversos para álbuns”, “estereoscópios”, “álbuns” e “retratos”. Foram premiados com medalha de prata José Ferreira Guimarães (1841 – 1924)Joaquim Insley Pacheco (18? – 1912), Carneiro & Gaspar, Augusto Stahl (1828 – 1877) & Germano Wanchaeffer (1832 – ?) e E.J. Van Nyvel; com medalha de bronze Christiano Junior (1832 – 1902), Modesto e Jacy Monteiro & Lobo. Finalmente, além de Terragno, obtiveram menções honrosas José de Melo Arguelles,  João Ferreira Villela (18? – ?) e Leon Chapelin (18? -?). Na categoria “Paisagem”, a medalha de prata foi obtida por Georges Leuzinger (1813 – 1892).

 

 

Sobre Terragno, Meirelles escreveu:

“Não são inteiramente privadas de merecimento as provas fotográficas enviadas por este senhor. Nota-se o retrato de uma senhora que foi também reproduzido sobre fino tecido de um lenço; bem como as outras provas, representando algumas vistas”.

1867 / 1868 - Terragno ofereceu uma doação em dinheiro aos enfermos vítimas da epidemia de cólera, em 1867 (Relatório dos Presidentes das Províncias Brasileiras : Império (RS), 1867).

Vendeu todo seu acervo e material, anunciando sua partida ao exterior mas, em 1868, voltou a Porto Alegre e abriu um novo estúdio, na Rua da Ponte, 237, atual Rua do Riachuelo, em frente a seu antigo estabelecimento. Oferecia um grande sortimento de objetos de fotografia e de álbuns, além de máquinas fotográficas para amadores.

 

1869 - Era maçom e foi um dos fundadores, em 24 de setembro de 1869, a Loja Luz e Ordem.

1870 - Abriu uma filial de seu estabelecimento fotográfico na Rua dos Andradas, 433.

Anunciou tirar retratos À luz tangente, segundo ele uma técnica muito superior a todas empregadas até então.

1872 - Em 28 de setembro de 1872, foi solenizada a promulgação da lei de 28 de setembro de 1871 com uma festa imponente , em que pela primeira vez na província do Rio Grande do Sul se realizou a cerimônia do batismo maçônico conferido a 25 lowtons. O Irmão Luiz Terragno, venerável da Loja Luz e Ordem executou a liturgia e, em seguida, entregou a uma menina de 10 anos sua carta de liberdade (Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil : Jornal Offical da Maçonaria Brazileira (RJ), abril de 1872). Segundo a Grande Loja Maçônica da Cidade de São Paulo, lowtons  são “filhos, enteados e netos (de ambos os sexos) de maçons desde que tenham idade entre sete e quatorze anos. Ao serem adotados por uma Loja Maçônica, através de uma cerimônia especial de adoção de Lowtons, a Loja contrai para com eles a obrigação de servir-lhe de tutor e guia na vida social”.

 

 

 

 

1874 – Esteve presente à celebração do padroeiro da Loja Maçônica Progresso e Humanidade, em Porto Alegre (Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil : Jornal Offical da Maçonaria Brazileira (RJ), abril a julho de 1874).

 

 

Participou de uma cerimônia maçônica de juramento de adesão da Loja Luz e Ordem ao Grande Oriente Unido do Brasil, reconhecendo-o como a única potência macônica legítima do Império (O Maçon: órgão da maçonaria (RS), 15 de julho de 1874).

 

 

Foi citado no artigo A emigração para o Brasil, publicado no Giornalle delle Colonie, de Roma (A Nação, 24 de setembro de 1874).

 

 

1875 – Como venerável da officina batizou quatro lowtons na celebração do padroeiro São João da Loja Maçônica Luz e Ordem (Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil : Jornal Offical da Maçonaria Brazileira (RJ), abril a agosto de 1875Maçon: órgão da maçonaria (RS), 1º de julho de 1875, primeira coluna).

Em abril de 1875, foi inaugurada  a segunda Exposição Provincial do Rio Grande do Sul ou Exposição Commercial e Industrial, uma mostra de agricultura, indústria e comércio, realizada no Edifício do Atheneo Rio Grandense, em Porto Alegre. Segundo o historiador Athos Damasceno (1902 – 1975), foi Carlos von Koseritz (1830 – 1890), jornalista, poeta e importante personalidade da colônia alemã no sul do Brasil durante o Segundo Império, quem sugeriu a inclusão na exposição “de uma seção especial destinada a exibição de obras de arte, assim imprimindo no parque um cunho de sensibilidade e cultura…”(Relatórios dos Presidentes das Províncias Brasileiras: Império (RS), 11 de março de 1875).

Dois fotógrafos apresentaram seus trabalhos nessa mostra: Madame Reeckell (1837 – 19?) e Terragno que, a esta altura, possuía estabelecimentos fotográficos no Rio Grande do Sul e em Santa Catarina (O Despertador, 19 de novembro de 1875, primeira coluna).

 

 

 

Houve uma polêmica em torno do sistema fotográfico  À luz tangente entre Terragano e a fotógrafa Madame Reeckell (1837 – 19?) que no jornal A Reforma, de 4 de agosto de 1870, publicou:

“Luz Tangente. O sr. Terragno, em a pedido inserto no Riograndense, tratando dos retratos à luz tangente, diz que os não tiro pelo mesmo sistema dos seus. Os retratos chamados pelo sr. Terragno de à luz tangente –  são na minha opinião iguais aos que tiro e tenho anunciado. Quem quiser convencer disso venha à minha casa para ver os retratos que tenho tirado e outros de fotógrafos do Rio de Janeiro, também do mesmo sistema, isto é, preferindo-se os dias escuros para o trabalho dessa qualidade de fotografias. O sr. Terragno é injusto quando atribui-me querer imitá-lo, dando o nome de retratos – à luz tangente – que só s.s. pode tirar, quando é certo que os tiro há muito tempo. Desafia-me a apresentar os aparelhos e ingredientes que são precisos. Poderá vê-los  quem quiser. O sistema é simples e não faço mistério para com as pessoas que, visitando a minha galeria, pedem par ver os aparelhos de que me sirvo. Quanto a supor que usei do emblema seu no meu anúncio publicado na Reforma, declaro que nada tenho com isso. E o sr. Terragno com aquela empresa deve entender-se a respeito. M Reeckell”.

Na IV Exposição Nacional de 1875, inaugurada em 12 de dezembro e finda em 16 de janeiro de 1876, Terragno recebeu uma Medalha de Mérito. Exibiu fotografias do mercado e da estação de bondes de Porto Alegre e quatro retratos no formato carte de visite. Indicando o espírito tecnológico dessa exposição, havia uma classe intitulada Aparelhos e métodos fotográficos, onde Terragno apresentou o fixador à base de mandioca que havia inventado.

“O ácido da mandioca é um produto tóxico de um cheiro característico, e não consta que tenha sido analisado. Em 1861 extrai uma quantidade equivalente mais ou menos a duas onças, fiz algumas aplicações na fotografia e vi que substituía com grande vantagem o ácido acético e ainda o ácido fórmico.

Se ao banho revelador de ferro se substituir o ácido acético pelo da mandioca, pode-se diminuir de metade a exposição (pose), e geralmente o negativo não necessita de reforço.

Este ácido não ataca o ouro nem a prata; ataca porém energicamente o alumínio e o magnésio, e produz sais deliquescentes.

Tendo preparado um sal de ferro, atacando este metal por uma mistura de 1 parte de ácido sulfúrico e dois partes de ácido de mandioca, a cujo sal dou o nome de sulfo-mandiocate de ferro, o qual emprego em lugar do sulfato de ferro: torna-se o revelador por excelência, porque não só permite diminuir muito a exposição, como acusa os mais pequenos (sic) detalhes, mesmo nos lugares em que a ação da luz for muito fraca.

Quando o Sr. d´Ormano foi à Europa “incorporar a Companhia do gás” levou um frasquinho deste ácido para “mandar analisar em Paris”; em consequência da guerra franco-prussiana, e outros inconvenientes, resultou que o senhor d´Ormano na sua volta me devolvesse o ácido sem ter sido analisado.

“As minhas ocupações”, e mesmo “a falta de certos recursos não me têm permitido fazer outras experiências”; creio, porém, que este ácido convenientemente analisado pode ter diversas aplicações nas artes e indústria e mesmo em medicina, e teria a vantagem de se aproveitar de um produto natural, que é deitado fora, pois que ele é extraído da água de mandioca. 

O processo da extração não é difícil, bem que um tanto laborioso”. 

Luis Terragno no Catálogo da Exposição de 1875

 

Dentre outros, também participaram da exposição os fotógrafos Alberto Henschel (1827 – 1892)Augusto de Azevedo Militão (1837 – 1905)Felipe Augusto Fidanza (c. 1847 – 1903) e Georges Leuzinger (1813 – 1892) (Jornal do Commercio, 4 de fevereiro de 1876, segunda colunaDiário do Rio de Janeiro, 4 de fevereiro de 1876, última coluna).

Marc Ferrez (1843 – 1923) apresentou na seção de Obras Públicas da IV Exposição Nacional, dois álbuns com imagens dos recifes de Pernambuco, do baixo São Francisco e da cachoeira de Paulo Afonso, além de registros de corais e madrepérolas. As imagens produzidas durante a viagem da Comissão Geológica foram projetadas por Ferrez durante uma conferência do professor Charles Frederick Hartt (1840 – 1878), chefe da comissão (Diário do Rio de Janeiro, 27 e 28 dezembro de 1875, primeira colunaO Globo, 4 de janeiro de 1876, na penúltima coluna, e Diário do Rio de Janeiro, 3 de fevereiro de 1876, quarta coluna).

Em um anúncio, Terragno informava que não produzia fotos de crianças aos domingos e em dias santos (O Despertador, 9 de novembro de 1875).

 

 

A Grande Loja Maçônica Provincial de Porto Alegre havia sido regularizada em 14 de dezembro de 1875 por Terragno e outros maçons (Boletim do Grande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil : Jornal Offical da Maçonaria Brazileira (RJ), janeiro a abril de 1876).

1876 – Era o segundo grande vigilante da Grande Loja Provincial de São Pedro do Rio Grande do Sul ao oriente de Porto Alegre; e também o athers da Loja Paz e Ordem (Boletim do Genrande Oriente Unido e Supremo Conselho do Brazil : Jornal Offical da Maçonaria Brazileira (RJ)página 464  e página 495, maio a agosto de 1876).

Terragno e os fotógrafos Marc Ferrez (1843 – 1923)Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912) e José Tomás Sabino (18? – c. 1881) participaram da Exposição Internacional da Filadélfia, nos Estados Unidos, aberta em 10 de maio. O New York Commercial Advertiser, de 29 de maio de 1876, publicou um artigo que informava que “riquíssimas fotografias da exploração geológica a cargo do professor Hartt” haviam sido apresentadas pelo Brasil na Exposição Universal da Filadélfia aberta em 10 de maio. Fotografias de Ferrez realizadas para a Comissão Geológica do Império foram premiadas com  medalha (The Rio News, 5 de agosto de 1879). Insley Pacheco também recebeu uma medalha por suas fotografias (O Liberal do Pará, 28 de novembro de 1876, na segunda coluna e Diário do Rio de Janeiro, 2 de dezembro de 1876, na sexta coluna). Uma curiosidade: a comissão de organização da Exposição da Filadéfia modificou as regras da premiação: os ganhadores receberiam um diploma, uma medalha de bronze e uma cópia certificada do parecer do júri, rompendo com o padrão de premiação hierárquica.

Terragno anunciou a venda de aparelhos fotográficos para amadores. Segundo o anúncio, com essas máquinas qualquer pessoa pode se divertir a tirar retratos e vistas e que para sso bastariam poucas aulas (A Reforma, 24 de novembro de 1876).

1877 – Anunciou que só em seu estabelecimento, na Praça Conde d´Eu, se tiravam retratos com o novo e magnífico sistema non pareil que conferia à arte fotográfica beleza, delicadeza, suavidade, e o que é mais que tudo uma perfeita conservação, a qual garantimos (A Reforma, 7 de julho de 1877).

Expôs três retratos pelo sistema cromo-fotográfico na loja de Rosa & Filhos.

1879 – Pediu e teve negado pelo presidente da Seção de Geologia Aplicada e Química do Governo Imperial, Antônio Correa de Souza Costa, em 31 de dezembro de 1878, o privilégio para fabricar álcool e um ácido sui generis extraido da mandioca (O Auxiliador da Indústria Nacional, janeiro de 1879Jornal do Commercio, 30 de janeiro de 1879, segunda coluna).

 

 

1881 - Anunciou que em seu ateliê, na Praça da Alfândega, 294, oferecia Retratos Victoria em quadros dourados, entregues 5 minutos depois de tirados (Jornal do Commercio (RS), 15 de novembro de 1881).

Terragno participou da Exposição Provincial Brasileira-Alemã do Rio Grande do Sul. Havia inventado a pistola Terragno, um aparelho para tirar fotografias instantâneas (Gazeta de Notícias, 6 de dezembro de 1881, quarta colunaA Pacotilha (MA), 25 de dezembro de 1881, segunda coluna).

 

 

Algumas das fotos que Terragno produziu de personagens envolvidos na Guerra do Paraguai e outras, de vistas de Porto Alegre, foram exibidas na Exposição de História do Brasil realizada pela Biblioteca Nacional e aberta por Pedro II, em 2 de dezembro de 1881, no dia em que o monarca completava 56 anos. Foi um dos mais importantes eventos da historiografia nacional, tendo sido organizada por Benjamin Franklin de Ramiz Galvão (1846 – 1938), diretor da Biblioteca Nacional de 1870 a 1882.

 

“…a exposição buscou reunir uma grande massa de publicações sobre a história do país, tendo como objetivos, em primeiro lugar, recolher e localizar documentos que pudessem ajudar a compreender a história brasileira; em segundo lugar, favorecer a organização de um catálogo em que diversos tipos de documentos de vários momentos da história do país poderiam ser localizados, ordenados e divulgados aos estudiosos”.

 Biblioteca Nacional

 

Terragno expôs as seguintes fotografias:

 

 

 

 

 

 

 

 

 

 

Também na Exposição de História do Brasil da Biblioteca Nacional foi apresentado o álbum Vistas fotográficas da Colônia Dona Francisca, importante conjunto iconográfico da colonização alemã no sul do Brasil, dedicado ao imperador dom Pedro II. As imagens foram produzidas, em 1866, por Johann Otto Louis Niemeyer, fotógrafo, provavelmente, de origem alemã. Imagens produzidas por Augusto Riedel (1836 – ?) também foram expostas (Catálogo da Exposição de História do Brasil 1881-2, vol.2, páginas 1415, 1416, 1422, 1456, 1508 e 1612).

 

1882 - O estabelecimento de Terragno, em Porto Alegre, ficava na Praça da Alfândega, 295. Anunciava retratos duplos, retratos inalteráveis ao carbono e, em fim de novembro, lançou um novo processo de seu invento – Cyanotipo – novo, surpreendene e maravilhoso processo, segundo o qual qualquer pessoa podia tirar seu próprio retrato tantas vezes quanto quisesse, em 5 minutos, sem emprego de drogas e apenas com um pouco d´água, 1 chapa, prensa e pael eerm o suficiente par 32 retratos!

1883 – Foi noticiado que Terragno estava no Rio de Janeiro e que havia inventado sinetes foto-metálicos, o Sinete-Terragno, que em vez da firma dão o retrato do dono. Foi concedido a ele, em 1º de setembro, o privilégio de invenção durante 15 anos (Revista de Engenharia, 1883, segunda colunaCorreio Paulistano, 6 de setembro de 1883, última colunaGazeta de Notícias, 5 de outubro de 1883, sexta colunaA Federação, 24 de julho de 1884, terceira coluna).

Gazeta de Porto Alegre, 27 de setembo de 1883

Gazeta de Porto Alegre, 27 de setembo de 1883

 

 

Foi naturalizado brasileiro, em 29 de setembro de 1883. Em sua carta de naturalização, declarava-se católico apostólico romano, natural de Villa Lotta.

1884 – Anunciou ter recebido dos Estados Unidos um novo aparelho, o Megapito, por meio do qual pode, com qualquer tempo, sem auxílio de luz solar, tirar retratos de tamanho natural (O Despertador, 12 de julho de 1884, primeira coluna).

Anunciou ter recebido dos Estados Unidos um novo aparelho, o Megapito, por m

 

 

1885 Leiloou os móveis, livros e material fotográfico de sua moradia e ateliê, na Rua dos Andradas. Em 20 de março de 1885,  partiu de Porto Alegre com sua família, a bordo do Victoria. Foram para Pelotas (A Federação (RS), 24 de fevereiro de 1885, última coluna; e A Federação (RS), 27 de fevereiro de 1885, última colunaA Federação (RS), 21 de março de 1885, segunda coluna; Correio Mercantil, 12 de agosto de 1885).

 

 

Escreveu um perfil do jovem Fausto Werner (1863 – 1927), futuro constituinte de 1892 e deputado estadual de Santa Catarina (O Estudante (SC), 1º de outubro de 1885).

1887 - Em janeiro,voltou a Porto Alegre, na Rua de Bragança, onde passaria a oferecer retratos pelo sistema de phototypia (A Federação (RS), 4 de março de 1887, última coluna).

Encarregava-se de ilustrações de livros e de jornais e fazia retratos sobre cristal – christalografia.

1888  -Um de seus filhos tornou-se seu sócio no estúdio fotográfico, que se mudou da Rua Bragança, 198 para a Rua do General Câmara, nº 46.

 

 

Ofereciam retratos pelo sistema Megatipo.

1889 – Terragno & Filho encerraram suas atividades no ateliê da Rua General Câmara, 46, que foi vendido ao fotógrafo Ciro José Pedrosa.

1890 – Inventou uma máquina para conservar carnes (A Federação: órgão do Partido Republicano (RS), 18 de junho de 1890, segunda coluna).

 

 

1891 – Faleceu em 16 de setembro de 1891, de angorpectorio (A Federação (RS), 19 de setembro de 1891, última colunaJornal do Commercio, 27 de setembro de 1891, última coluna).

 

 

1892 - Sua missa de um ano foi celebrada na Catedral de Porto Alegre (A Federação: órgão do Partido Republicano (RS), 13 de setembro de 1892, última coluna).

 

 

1997 - Fotografias de Terragno integraram a exposição A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX, no Centro Cultural do Banco do Brasil, entre 29 de janeiro e 23 de março de 1997. Outros fotógrafos da mostra foram Albert Frisch (1840 – 1918)Albert Richard Dietze (1838 – 1906)Augusto Riedel (1836-?)Benjamin Robert Mulock (1829 – 1863)Felipe Augusto Fidanza (c. 1847 – 1903)Franz Keller-Leuzinger (1835 – 1890)Georges Leuzinger (1813 – 1892)Henrique Rosen (1840 – 1892)Hercule Florence (1804 – 1879)Jean Victor Frond (1821 – 1881)Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912)Louis Niemeyer (18? – ?)Marc Ferrez (1843 – 1923) e Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886), dentre outros. A exposição seguiu para a Pinacoteca de São Paulo (20 de abril a 25 de maio de 1997. Em 4 de julho de 1997, foi aberta no Museo Nacional de Bellas Artes, de Buenos Aires, na Argentina, onde ficou em cartaz até o dia 31 do mesmo mês.

2000 – Entre 8 de junho e 30 de julho, a exposição A Coleção do Imperador: fotografia brasileira e estrangeira no século XIX foi apresentada  no Centro Português de Fotografia, no Porto, em Portugal.

2011 – Fotografias de Terragno foram expostas na mostra Retratos do Império e do Exílio, que ficou em cartaz, no Instituto Moreira Salles, no Rio de Janeiro, entre 22 de fevereiro e 29 de maio de 2011. Foi curada pelo fotógrafo dom João de Orleans e Bragança (1954-) e por Sérgio Burgi (1958 -), Coordenador de Fotografia do IMS e um dos curadores da Brasiliana Fotográfica. Outros fotógrafos da exposição foram  Albert Henschel (1827 – 1882)Joaquim Insley Pacheco (c. 1830 – 1912), Nadar (1820 – 1910), Otto Hees (1870 – 1941) e Revert Henrique Klumb (c. 1826 – c. 1886).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

O Brasil do futebol, uma paixão nacional

Hoje a seleção brasileira de futebol estreia na Copa do Mundo do Catar jogando contra a Sérvia em busca do hexacampeonato e a Brasiliana Fotográfica traz para seus leitores fotografias dos estádios de futebol dos clubes cariocas Botafogo e Fluminense. Diversos jogadores que fizeram a glória do Brasil em copas do mundo e em outros campeonatos internacionais vieram destes dois times de futebol, dentre eles Amarildo (1939-), Castilho (1927 – 1987), Didi (1928 – 2001), Félix (1937 – 2012), Garrincha (1933 – 1983), Jairzinho (1944-), Marcos Carneiro de Mendonça (1894 – 1988), Nilton Santos (1925 – 2013), Paulo César (1949-) e Zagallo (1931-).

A imagem do estádio do Botafogo foi produzida, em 1º de abril de 1941, por Uriel Malta (1910 – 1994), filho do alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), que foi fotógrafo da prefeitura do Rio de Janeiro entre 1903 e 1936.

 

 

Uma das fotos do Fluminense Football Club foi produzida, em torno de 1921, pelo sírio naturalizado brasileiro e autor das primeiras fotografias aéreas do Rio de Janeiro, Jorge Kfuri (1893 – 1965).

 

 

A outra, de 19 de julho de 1935, foi produzida pela Escola de Aviação Militar, cujo setor responsável pela atividade de fotografar era a Seção Foto e estava vinculada às escolas de aviação que formavam pilotos e observadores aéreos, além de funcionar como uma “escola técnica de aviação” que formava também militares especializados em fotografia e em toda a técnica envolvida.

 

 

Breve história da chegada do futebol no Brasil

 

 

Foi o paulista Charles Miller (1874 – 1953) que trouxe o futebol para o Brasil. Filho de britânicos, após uma estadia na Inglaterra, de 1884 a 1894, retornou ao Brasil trazendo duas bolas de futebol, um livro de regras e dois jogos de uniformes. A primeira partida aconteceu em 14 de abril de 1895: uma disputa entre os funcionários da Companhia de Gás e da São Paulo Railway, na Várzea do Carmo, em São Paulo. A equipe de Miller, a São Paulo Railway, derrotou a adversária por 4 x 2. O pioneirismo de Miller é contestado por alguns historiadores que afirmam que o futebol já era praticado no Brasil na década de 1870.

 

Retrospectiva dos campeões e da classificação do Brasil em Copas do Mundo

 

Faltam poucos meses: expectativas do Brasil para a Copa do Mundo do Catar

 

O Brasil é o único país que participou de todas as edições de copas do mundo e já sediou duas delas, em 1950 e em 2014. Além disso é o maior vencedor da competição, com cinco títulos: 1958, 1962, 1970, 1994 e 2002.

1930 – Copa do Mundo do Uruguai. Campeão: Uruguai. Brasil: 6º lugar

1934 – Copa do Mundo da Itália. Campeão: Itália. Brasil: 14º lugar

1938 – Copa do Mundo da França. Campeão: Itália. Brasil: 3º lugar

1950 – Copa do Mundo do Brasil. Campeão: Uruguai. Brasil: vice-campeão

1954 – Copa do Mundo da Suíça. Campeão: Alemanha. Brasil: 5º lugar

1958 – Copa do Mundo da Suécia. Campeão: Brasil

1962 - Copa do Mundo do Chile. Campeão: Brasil

1966 - Copa do Mundo da Inglaterra. Campeão: Inglaterra. Brasil: 11º lugar

1970 - Copa do Mundo do México. Campeão: Brasil.

1974 - Copa do Mundo da Alemanha Ocidental. Campeão: Alemanha. Brasil: 4º lugar

1978 – Copa do Mundo da Argentina. Campeão: Argentina. Brasil: 3º lugar

1982 - Copa do Mundo da Espanha. Campeão: Itália. Brasil: 5º lugar

1986 - Copa do Mundo do México. Campeão: Argentina. Brasil: 5º lugar

1990 - Copa do Mundo da Itália. Campeão: Alemanha. Brasil: 9º lugar

1994 - Copa do Mundo dos Estados Unidos. Campeão: Brasil

1998 - Copa do Mundo da França. Campeão: França. Brasil: vice-campeão

2002 - Copa do Mundo da Coreia do Sul e Japão. Campeão: Brasil

2006 - Copa do Mundo da Alemanha. Campeão: Itália. Brasil: 5º lugar

2010 - Copa do Mundo da África do Sul. Campeão: Espanha. Brasil: 6º lugar

2014 – Copa do Mundo do Brasil. Campeão: Alemanha. Brasil: 4º lugar

2018 -  Copa do Mundo da Rússia. Campeão: França. Brasil: 6º lugar

2022 - Copa do Mundo do Catar. Campeão: ? Brasil: ?

 

 fifa

 

 

A Brasiliana Fotográfica agradece à colaboração do talentoso caricaturista Cássio Loredano, uma enciclopédia do futebol, para elencar os jogadores do Botafogo e do Fluminense.

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Link para o artigo Dia Nacional do Futebol, publicado na Brasiliana Fotográfica, em 19 de julho de 2016.

 

Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra

Na data da celebração do Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra a Brasiliana Fotográfica destaca alguns artigos publicados no portal. A data remete à morte de Zumbi de Palmares, em 20 de novembro de 1695, em Alagoas. Ele foi o líder do Quilombo dos Palmares, o maior do período colonial brasileiro, que localizava-se na região da Serra da Barriga, na Capitania de Pernambuco, atual região de União dos Palmares, em Alagoas. Traído por um dos seus principais comandantes, Antônio Soares, foi morto na serra de Dois Irmãos, local de seu esconderijo. Foi esquartejado e sua cabeça foi cortada e exposta na Praça do Carmo, em Recife.

Zumbi dos Palmares (Alagoas,1655 – Alagoas, 20 de novembro de 1695), publicado em 20 de novembro de 2015

 

Antônio Parreiras - Zumbi 2.jpg

Zumbi (1927), pintura de Antonio Parreiras (1860 – 1937) / Acervo do Museu Antonio Parreiras, Niterói

 

A mulher de turbante, de Alberto Henschel, publicado em 13 de maio de 2020

 

 

Série “1922 – Hoje, há 100 anos” X – A morte do escritor Lima Barreto (1881 – 1922), publicado em 1º de novembro de 2022

 

 

Depois de uma importante mobilização do movimento negro e a aprovação pelo Senado, a partir da sanção da Lei 10.639, de 2003, que determina o ensino de História e Cultura Afro-Brasileira nas escolas, o Dia da Consciência Negra entrou no calendário escolar. Cerca de oito anos depois, a então presidente Dilma Rousseff oficializou 20 de novembro como Dia Nacional de Zumbi e da Consciência Negra, com a lei nº 12.519, de novembro de 2011 (G1, 11 de novembro de 2011). Porém a data só é feriado em locais com leis municipais ou estaduais específicas. O senador Randolfe Rodrigues apresentou o Projeto de Lei do Senado, nº 482 de 2017, que torna o 20 de novembro feriado em todo o país. O texto avançou em 2021 e seguiu para a Câmara dos Deputados.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Fontes:

Agência Senado

Folha de São Paulo, 21 de novembro de 2005

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Série “1922 – Hoje, há 100 anos” X – A morte do escritor Lima Barreto (1881 – 1922)

Com uma imagem do acervo da Fundação Biblioteca Nacional, uma das instituições fundadoras da Brasiliana Fotográfica, produzida por um fotógrafo ainda não identificado, o portal publica o décimo artigo da Série 1922 – Hoje, há 100 anos sobre a morte do jornalista e escritor Lima Barreto, em 1º de novembro de 1922, de gripe toráxica e colapso cardíaco, em sua casa, na rua Major Mascarenhas, 26, em Todos os Santos, no Rio de Janeiro. Faleceu lendo um exemplar da revista francesa Revue de Deux Mondes. Lima Barreto foi, nas palavras do escritor Monteiro Lobato (1882 – 1948), “o criador de uma nova fórmula de romance. O romance de  crítica social sem doutrinarismo dogmático”. *

 

 

A mesma foto destacada acima foi publicada na notícia de sua morte, na capa da edição do jornal A Noite, de 2 de novembro de 1922.

 

 

Os dois centenários que inspiraram a Série 1922, Hoje, há 100 anos, cujos artigos têm sido publicados na Brasiliana Fotográfica ao longo de 2022, foram o da Semana de Arte Moderna, realizada em fevereiro de 1922; e o da Exposição Internacional do Centenário da Independência da República, inaugurada em setembro de 1922. E os dois eventos foram temas que interessaram Lima Barreto.

Por exemplo, o escritor criticou a ligação dos intelectuais paulistas do Modernismo com o artista italiano Filippo Marinetti (1876 – 1944), em um texto publicado na revista Careta (Careta, 22 de julho de 1922). 

 

 

Foi chamado de “escritor de bairro” na resposta à critica, publicada na coluna Luzes & Refrações, da revista Klaxondivulgadora do Modernismo no Brasil, que foi editada entre 15 de maio de 1922 e janeiro de 1923 (Klaxon, 15 de agosto de 1922).

 

 

O último artigo de Lima Barreto publicado na revista Careta, após sua morte, na edição de 11 de novembro de 1922, foi justamente sobre a Exposição Internacional do Centenário da Independência da República: Uma sorpreza da exposição.

 

 

Também foi um crítico do desmonte do Morro do Castelo, realizado justamento devido à realização da Exposição do Centenário, e escreveu sobre o assunto. Destacamos aqui o artigo Megalomania (Careta, 28 de agosto de 1920). Em 1905, havia escrito a crônica O subterrâneo do Morro do Castelo (Correio da Manhã de 28 de abril de 1905, terceira coluna).

 

 

Brevíssimo perfil de Lima Barreto (1881 – 1922)

 

“Passemos além: mais do que nenhuma outra arte, mais fortemente possuindo essa capacidade de sugerir em nós o sentimento que agitou o autor ou que ele simplesmente descreve, a arte literária se apresenta com um verdadeiro poder de contágio que a faz facilmente passar de simples capricho individual, em traço de união, em força de ligação entre os homens, sendo capaz, portanto, de concorrer para o estabelecimento de uma harmonia entre eles, orientada para um ideal imenso em que se soldem as almas, aparentemente mais diferentes, reveladas, porém, por elas, como semelhantes no sofrimento da imensa dor de serem humanos”.

O destino da literatura, por Lima Barreto,

Revista Sousa Cruz, outubro e novembro de 1921

 

 

“Espírito forte, observador preciso, de estilo próprio, Lima Barreto tem o temperamento integral do artista”.

Fon-Fon, 22 de janeiro de 1910

 

Carioca, Afonso Henriques de Lima Barreto nasceu em 13 de maio de 1881, exatamente sete anos antes da assinatura da Lei Áurea. Filho do tipógrafo Joaquim Henriques de Lima Barreto (1853 – 1922) e da professora primária Amália Augusta (1862 – 1887), que haviam se casado em 1878.  O casal teve mais quatro filhos:  Nicomedes, que nasceu, em 1879, mas viveu apenas oito dias; Evangelina, nascida em 1882; Carlindo, em 1884; e Eliézer, em 1886. Foi afilhado do senador Afonso Celso (1836 – 1912), o Visconde de Ouro Preto.

 

 

Lima Barreto era negro e neto de escravizados e sua vida foi fortemente marcada pelo preconceito racial, como fica evidenciado em sua crônica O Pecado (1904) (Revista Souza Cruz, agosto de 1924).

 

 

Esteve presente, com seu pai, tanto no Largo do Paço para testemunhar a assinatura da Lei Áurea, em 13 de maio de 1888, como, alguns dias depois, em 17 de maio, na Missa Campal do Campo de São Cristóvão.

Sobre o Dia da Abolição escreveu uma crônica, Maio, publicada na Gazeta da Tarde, de 4 de maio de 1911.

 

 

Maio

Estamos em maio, o mês das flores, o mês sagrado pela poesia. Não é sem emoção que o vejo entrar. Há em minha alma um renovamento; as ambições desabrocham de novo e, de novo, me chegam revoadas de sonhos. Nasci sob o seu signo, a treze, e creio que em sexta-feira; e, por isso, também à emoção que o mês sagrado me traz, se misturam recordações da minha meninice.

Agora mesmo estou a lembrar-me que, em 1888, dias antes da data áurea, meu pai chegou em casa e disse-me: a lei da abolição vai passar no dia de teus anos. E de fato passou; e nós fomos esperar a assinatura no Largo do Paço.

Na minha lembrança desses acontecimentos, o edifício do antigo paço, hoje repartição dos Telégrafos, fica muito alto, um sky-scraper; e lá de uma das janelas eu vejo um homem que acena para o povo.

Não me recordo bem se ele falou e não sou capaz de afirmar se era mesmo o grande Patrocínio.

Havia uma imensa multidão ansiosa, com o olhar preso às janelas do velho casarão. Afinal a lei foi assinada e, num segundo, todos aqueles milhares de pessoas o souberam. A princesa veio à janela. Foi uma ovação: palmas, acenos com lenço, vivas…

Fazia sol e o dia estava claro. Jamais, na minha vida, vi tanta alegria. Era geral, era total; e os dias que se seguiram, dias de folganças e satisfação, deram-me uma visão da vida inteiramente festa e harmonia.

Houve missa campal no Campo de São Cristóvão. Eu fui também com meu pai; mas pouco me recordo dela, a não ser lembrar-me que, ao assisti-la, me vinha aos olhos a “Primeira Missa”, de Vítor Meireles. Era como se o Brasil tivesse sido descoberto outra vez… Houve o barulho de bandas de música, de bombas e girândolas, indispensável aos nossos regozijos; e houve também préstitos cívicos. Anjos despedaçando grilhões, alegorias toscas passaram lentamente pelas ruas. Construíram-se estrados para bailes populares; houve desfile de batalhões escolares e eu me lembro que vi a princesa imperial, na porta da atual Prefeitura, cercada de filhos, assistindo àquela fieira de numerosos soldados desfiar devagar. Devia ser de tarde, ao anoitecer.

Ela me parecia loura, muito loura, maternal, com um olhar doce e apiedado. Nunca mais a vi e o imperador nunca vi, mas me lembro dos seus carros, aqueles enormes carros dourados, puxados por quatro cavalos, com cocheiros montados e um criado à traseira.

Eu tinha então sete anos e o cativeiro não me impressionava. Não lhe imaginava o horror; não conhecia a sua injustiça. Eu me recordo, nunca conheci uma pessoa escrava. Criado no Rio de Janeiro, na cidade, onde já os escravos rareavam, faltava-me o conhecimento direto da vexatória instituição, para lhe sentir bem os aspectos hediondos.

Era bom saber se a alegria que trouxe à cidade a lei da abolição foi geral pelo país. Havia de ser, porque já tinha entrado na consciência de todos a injustiça originária da escravidão.

Quando fui para o colégio, um colégio público, à rua do Resende, a alegria entre a criançada era grande. Nós não sabíamos o alcance da lei, mas a alegria ambiente nos tinha tomado.

A professora, Dona Teresa Pimentel do Amaral, uma senhora muito inteligente, a quem muito deve o meu espírito, creio que nos explicou a significação da coisa; mas com aquele feitio mental de criança, só uma coisa me ficou: livre! livre!

Julgava que podíamos fazer tudo que quiséssemos; que dali em diante não havia mais limitação aos propósitos da nossa fantasia.

Parece que essa convicção era geral na meninada, porquanto um colega meu, depois de um castigo, me disse: “Vou dizer a papai que não quero voltar mais ao colégio. Não somos todos livres?”

Mas como ainda estamos longe de ser livres! Como ainda nos enleamos nas teias dos preceitos, das regras e das leis!

Dos jornais e folhetos distribuídos por aquela ocasião, eu me lembro de um pequeno jornal, publicado pelos tipógrafos da Casa Lombaerts. Estava bem impresso, tinha umas vinhetas elzevirianas, pequenos artigos e sonetos. Desses, dois eram dedicados a José do Patrocínio e o outro à princesa. Eu me lembro, foi a minha primeira emoção poética a leitura dele. Intitulava-se “Princesa e Mãe” e ainda tenho de memória um dos versos:

“Houve um tempo, senhora, há muito já passado…”

São boas essas recordações; elas têm um perfume de saudade e fazem com que sintamos a eternidade do tempo.

Oh! O tempo! O inflexível tempo, que como o Amor, é também irmão da Morte, vai ceifando aspirações, tirando presunções, trazendo desalentos, e só nos deixa na alma essa saudade do passado às vezes composta de coisas fúteis, cujo relembrar, porém, traz sempre prazer.

Quanta ambição ele não mata! Primeiro são os sonhos de posição: com os dias e as horas e, a pouco e pouco, a gente vai descendo de ministro a amanuense; depois são os do Amor – oh! como se desce nesses! Os de saber, de erudição, vão caindo até ficarem reduzidos ao bondoso Larousse. Viagens… Oh! As viagens! Ficamos a fazê-las nos nossos pobres quartos, com auxílio do Baedecker e outros livros complacentes.

Obras, satisfações, glórias, tudo se esvai e se esbate. Pelos trinta anos, a gente que se julgava Shakespeare, está crente que não passa de um “Mal das Vinhas” qualquer; tenazmente, porém, ficamos a viver, esperando, esperando… o quê? O imprevisto, o que pode acontecer amanhã ou depois. Esperando os milagres do tempo e olhando o céu vazio de Deus ou deuses, mas sempre olhando para ele, como o filósofo Guyau.

Esperando, quem sabe se a sorte grande ou um tesouro oculto no quintal?

E maio volta… Há pelo ar blandícias e afagos; as coisas ligeiras têm mais poesia; os pássaros como que cantam melhor; o verde das encostas é mais macio; um forte flux de vida percorre e anima tudo…

O mês augusto e sagrado pela poesia e pela arte, jungido eternamente à marcha da Terra, volta; e os galhos da nossa alma que tinham sido amputados – os sonhos, enchem-se de brotos muito verdes, de um claro e macio verde de pelúcia, reverdecem mais uma vez, para de novo perderem as folhas, secarem, antes mesmo de chegar o tórrido dezembro.

E assim se faz a vida, com desalentos e esperanças, com recordações e saudades, com tolices e coisas sensatas, com baixezas e grandezas, à espera da morte, da doce morte, padroeira dos aflitos e desesperados…

 

 

Lima Barreto frequentou a Escola Pública Municipal da rua do Rezende, o Liceu Popular Niteroiense, o Ginásio Nacional (antigo Colégio Pedro II) e o internato do Colégio Paula Freitas.

 

Acervo da Fundação Biblioteca Nacional

Acervo da Fundação Biblioteca Nacional

 

Ingressou na Escola Politécnica do Rio de Janeiro onde iniciou o curso de Engenharia, que teve que abandonar, em 1903, devido à necessidade de sustentar seus irmãos, já que seu pai teve um diagnóstico de neurastenia. No mesmo ano, passou no concurso de amanuense da Secretaria da Guerra.

 

 

Boêmio, foi um crítico contundente da mentalidade burguesa de sua época. Amava e criticava o Rio de Janeiro, sua cidade natal, de onde nunca saiu. Segundo a crítica literária Beatriz Resente: “O Rio de Janeiro das crônicas de Lima Barreto é a cidade dos contrastes, das revoltas, das ruínas sob o vento do progresso, mas é também a expressão de uma paixão tão forte que a outras, mais humanas, não deixa espaço”.

 

“Lima Barreto foi com efeito a figura mais original de boêmio que teve nos últimos tempos a intelectualidade carioca”.

José Garcia Margiocco (18? – 1923), escritor e jornalista

(Careta, 11 de novembro de 1922)

 

Colaborou em diversos jornais e revistas, dentre eles Careta, Fon-FonGazeta da TardeFloreal (dirigida por ele).

 

 

Seu romance de estreia foi Recordações do Escrivão Isaías Caminha, cujo personagem central foi inspirado em Edmundo Bittencourt (1866 – 1943), dono do Correio da Manhã (Careta, 5 de fevereiro de 1910). É considerada sua obra-prima o livro Triste Fim de Policarpo Quaresma (1915), publicado inicialmente em folhetins, entre agosto e outubro de 1911, na edição da tarde do Jornal do Commercio (Correio Paulistano, 29 de junho de 1916, primeira coluna; A Noite, 1º de outubro de 1916, primeira coluna). Outros de seus livros foram o Cemitério dos VivosHistórias e Sonhos, o último publicado enquanto estava vivo; Os BruzundangasClara dos Anjos e Diário Íntimo. Seus temas, como a denúncia da discriminação racial, a defesa dos excluídos da sociedade, a luta pelos direitos civis e a crítica aos políticos, dentre outros, continuam muito atuais.

Sobre Lima Barreto, o escritor Monteiro Lobato (1882 – 1948) escreveu, em 1º de outubro de 1916, numa carta para o também escritor Godofredo Rangel (1884 – 1851):

“Conheces Lima Barreto? Li dele, na Águia, dois contos, e pelos jornais soube do triunfo do Policarpo Quaresma, cuja segunda edição já lá se foi. A ajuizar pelo que li, este sujeito me é romancista de deitar sombras em todos os seus colegas coevos e coelhos, inclusive o Neto. Facílimo na língua, engenhoso, fino, dá impressão de escrever sem torturamento – ao modo das torneiras que fluem uniformemente a sua corda-d’água”.

Livraria da Universidade de Santa Maria

 

Ao longo de sua vida, foi internado duas vezes no Hospício Nacional de Alienados, originalmente Hospício de Pedro II, devido ao alcoolismo: em 1914, quando ficou lá durante dois meses; e, no Natal de 1919 – ficou até fevereiro de 1920. Durante esta segunda internação começou a escrever o romance inacabado Cemitério dos Vivos.

“Voltei para o pátio. Que coisa, meu Deus! Estava ali que nem um peru, no meio de muitos outros, pastoreado por um bom português, que tinha um ar rude, mas doce e compassivo, de camponês transmontano. Ele já me conhecia da outra vez. Chamava-me você e me deu cigarros. Da outra vez, fui para a casa-forte e ele me fez baldear a varanda, lavar o banheiro, onde me deu um excelente banho de ducha de chicote. Todos nós estávamos nus, as portas abertas, e eu tive muito pudor. Eu me lembrei do banho de vapor de Dostoiévski, na Casa dos Mortos. Quando baldeei, chorei; mas lembrei de Cervantes, do próprio Dostoiévski, que pior deviam ter sofrido em Argel e na Sibéria. Ah! A Literatura ou me mata ou me dá o que eu peço dela”.

 

 

Como já mencionado, Lima Barreto faleceu, em 1º de novembro de 1922, Dia de Todos os Santos (Jornal do Brasil, 3 de novembro de 1922).

Poucos dias após sua morte, o escritor Coelho Neto (1864 – 1934) escreveu sobre ele na edição do Jornal do Brasil de 5 de novembro de 1922:

 

 

Na edição da revista Careta, de 11 de novembro de 1922, foi publicado o artigo O bohemio immortal, do jornalista e escritor gaúcho José Garcia Margiocco (18? – 1923).

 

 

O escritor Enéas Ferraz (1896 – 1977), autor de A História de João Crispim, uma biografia romanceada de Lima Barreto, prestou uma homenagem ao escritor na crônica A Morte do Mestre (O Paiz, 20 de novembro de 1922). Sobre o livro de Ferraz, Lima Barreto havia escrito a crítica História de um Mulato, publicada em O Paiz, 17 de abril de 1922.

Lima Barreto ficou invisibilizado durante décadas talvez devido à ascenção, no Brasil, da eugenia, uma espécie de racismo científico. Sobre o tema ele havia escrito a crônica Considerações Oportunas, publicada no ABC, em 16 de agosto de 1919. Dez anos depois, realizou-se o Primeiro Congresso Brasileiro de Eugenia, no Rio de Janeiro, entre 30 de junho e 7 de julho de 1929. O evento integrava as comemorações do centenário da Academia Nacional de Medicina (Correio da Manhã, 31 de maio, sétima coluna; e 2 de julho, primeira coluna; de 1929).

A obra de Lima Barreto foi resgatada nos anos 50, quando foi publicado o livro A vida de Lima Barreto 1881-1922 (1952), de Francisco Assis Barbosa (1914 – 1991). Em 1953, foi inaugurada a Biblioteca Lima Barreto, em Madureira; e, em 1956, sob a organização de Assis Barbosa, foi iniciada a publicação, pela Editora Brasiliense, de sua obra completa, em 17 volumes. Em 1982, foi o homenageado pela Escola de Samba Unidos da Tijuca, cujo enredo foi Lima Barreto – Mulato, pobre, mas livre. Já no século XXI, o escritor foi o homenageado na Festa Literária Internacional de Paraty (Flip) de 2017.

Uma curiosidade: foi um dos 40 escritores que elegeu Olavo Bilac (165 – 1918) O Príncipe dos Poetas Brasileiros em um concurso promovido pela revista Fon-Fon, em 1913 (Fon-Fon, 4 de janeiro de 1919).

 

 

Outra curiosidade: J. Caminha, Leitor, Aquele, Amil, Eran, Jonathan, Inácio Costa foram pseudônimos usados por Lima Barreto e identificados pelo pesquisador Felipe Botelho Corrêa, que resultou na descoberta de 164 textos inéditos em livro e que foram reunidos na obra Sátiras e outras subversões, publicado em 2016. Lima Barreto também usou os pseudônimos Alfa Z, Phileas Fogg, Puck, Rui de Pina e S. Holmes. 

Uma última curiosidade: O jornalista Irineu Marinho (1876 – 1925), que foi colega de Lima no Liceu Niteroiense, batizou seu jornal, fundado em 1925, como O GLOBO, nome do jornal fictício criado pelo escritor no livro Recordações do Escrivão Isaías Caminha.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

 

Fontes:

BARBOSA, Francisco de Assis. A vida de Lima Barreto (1881- 1922). São Paulo : Autêntica Editora, 2017.

Blog Lobato com você

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

O GLOBO, 28 de julho de 2016

RESENDE, Beatriz. Lima Barreto e o Rio de Janeiro em fragmentos. São Paulo : Autêntica Editora, 1993.

SANTOS, André Luiz dos. Caminhos de alguns ficcionistas brasileiros após as Impressões de Leitura de Lima Barreto. Rio de Janeiro, 2007. Tese (Doutorado em Letras – Área de Concentração: Literatura Brasileira) – Faculdade de Letras. Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2007.

SCHWARCZ, Lilia. Lima Barreto, triste visionário. São Paulo : Companhia das Letras, 2017.

Portal Literafro

Portal O Tempo

 

Ouça aqui o podcast lançado pela Rádio Batuta, do Instituto Moreira Salles, em comemoração ao centenário de morte do escritor: Lima Barreto: o negro é a cor mais cortante.

 

Leia aqui o artigo A pena engajada de Lima Barreto, de Guilherme Tauil, publicado no portal Crônica Brasileira, do Instituto Moreira Salles.

* O primeiro parágrafo do artigo foi modificado em 12 de novembro de 2022.

 

Links para os artigos já publicados da Série 1922 – Hoje, há 100 anos

Série 1922 – Hoje, há 100 anos I – Os Batutas embarcam para Paris, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, publicado em 29 de janeiro de 2022

Série 1922 – Hoje, há 100 anos II- A Semana de Arte Moderna, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, publicado em 13 de fevereiro de 2022, na Brasiliana Fotográfica

Série 1922 – Hoje, há 100 anos III – A eleição de Artur Bernardes e a derrota de Nilo Peçanha, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, publicado em 1º de março de 2022, na Brasiliana Fotográfica

Série 1922 – Hoje, há 100 anos IV – A primeira travessia aérea do Atlântico Sul, realizada pelos aeronautas portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicada em 17 de junho de 2022, na Brasiliana Fotográfica

Série 1922 – Hoje, há 100 anos V – A Revolta do Forte de Copacabana, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicada em 5 de julho de 2022, na Brasiliana Fotográfica

Série 1922 – Hoje, há 100 anos VI – A fundação da Federação Brasileira para o Progresso Feminino, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 9 de agosto de 2022, na Brasiliana Fotográfica

Série 1922 – Hoje, há 100 anos VII – A morte de Gastão de Orleáns, o conde d´Eu (Neuilly-sur-Seine, 28/04/1842 – Oceano Atlântico 28/08/1922), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 28 de agosto de 2022, na Brasiliana Fotográfica.

Série 1922 – Hoje, há 100 anos VIII – A abertura da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil e o centenário da primeira grande transmissão pública de rádio no país, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 7 de setembro de 2022, na Brasiliana Fotográfica.

Série 1922 – Hoje, há 100 anos” IX – O centenário do Museu Histórico Nacional, de autoria de Maria Isabel Lenzi, historiadora do Musseu Histórico Nacional, publicado em 12 de outubro de 2022, na Brasiliana Fotográfica.

A construção do Bondinho do Pão de Açúcar sob as lentes de Therezio Mascarenhas

A Brasiliana Fotográfica destaca imagens da construção do Bondinho do Pão de Açúcar realizadas pelo fotógrafo Therezio Mascarenhas (18? – 19?), cuja biografia ainda é pouco conhecida. Na primeira década do século XX, ele morava em Vitória e, provavelmente, conheceu o engenheiro civil Augusto Ferreira Ramos (1860 – 1939), criador e construtor do Bondinho do Pão de Açúcar, em torno de 1909, quando este estava fazendo obras de instalação de água, luz, força e tração, no Espírito Santo.

 

 

Acessando o link para as fotografias do Bondinho do Pão de Açúcar de autoria de Therezio Mascarenhas disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

O Pão de Açúcar com seu bondinho e o Cristo Redentor são os principais pontos turísticos do Brasil, segundo e primeiro  mais visitados do país, e marcas registradas do Rio de Janeiro, seus mais conhecidos cartões-postais.

 

 

O Bondinho do Pão de Açúcar já foi visitado por diversas celebridades, dentre elas o físico Albert Einstein (1879 – 1955), o cantor e compositor Bob Marley (1945-1981), o papa João Paulo II (1920 – 2005); em 1941, pelo futuro presidente dos Estados Unidos, John Kennedy (1917-1963); as atrizes Halle Berry (1966-) e Natalie Portman (1981-), o ator Robert de Niro (1943-), a cantora Tina Turner (1939-) e Malala Yousafzai (1997-), ganhadora do Prêmio Nobel da Paz em 2014. Em um dos bondinhos foram filmadas cenas de 007 Contra o Foguete da Morte (1979): em uma das sequências, o agente James Bond, na época interpretado pelo ator Roger Moore (1927 – 2017), se equilibrou, a mais de 500 metros de altura, em seus cabos de aço.

 

 

Um pouco da história do Bondinho do Pão de Açúcar

 

O projeto do bondinho era ousado e grandioso e estava em consonância com as transformações urbanas realizadas no Rio de Janeiro, no começo do século XX, durante a gestão do prefeito Francisco Pereira Passos (1836 – 1913), entre 1903 e 1906. Para sanear e modernizar a cidade diversas demolições foram feitas. Era a política do “bota-abaixo”, como ficou popularmente conhecida, que contribuiu fortemente para o surgimento do Rio de Janeiro da Belle Époque. Essas transformações foram definidas por Alberto Figueiredo Pimentel (1869-1914), autor da seção “Binóculo”, da Gazeta de Notícias, com a máxima “O Rio civiliza-se”, que se tornou o slogan da reforma urbana carioca.

 

 

O criador do Bondinho do Pão de Açúcar, Augusto Ferreira Ramos, nascido em 22 de agosto de 1860, em Cantagalo, no estado do Rio, formou-se, em 1882, na Polytecnica do Império do Brasil, atual Faculdade de Engenharia da UFRJ, e tornou-se sócio do Clube de Engenharia, em 1894, por indicação de Conrado Jacob de Niemeyer (1831 – 1905). Faleceu em 28 de julho de 1939, em sua residência, na rua 5 de julho, nº 130, em Copacabana (O Globo, 29 de julho de 1939).

 

O Globo, 29 de julho de 1939

Augusto Ferreira Ramos / O Globo, 29 de julho de 1939

 

Visionário, ele teve a ideia da criação do bondinho, durante a Exposição Nacional de 1908, na região da Urca, no Rio de Janeiro, em comemoração ao centenário da Abertura dos Portos às Nações Amigas, inaugurada em 11 de agosto de 1908. Ramos foi um dos coordenadores do pavilhão do estado de São Paulo devido ao café, um dos assuntos de seu interesse, e sobre o qual escreveu tanto sobre o seu cultivo como sobre sua comercialização. O café era, na época, o principal produto da balança comercial do Brasil.

A construção de um caminho aéreo entre os morros da Baía de Guanabara alavancaria o turismo na cidade. Conseguiu capital – entre os investidores estavam Eduardo Guinle (1846-1912)Candido Gaffrée (1845-1919) e Raymundo de Castro Maya (1894 – 1968) – apoio do governo e fundou a Cia Caminho Aéreo Pão de Açúcar.

 

 

As obras foram realizadas entre 1909 e 1912. O teleférico carioca, cujas duas linhas somam 1325 metros, superou os dois que existiam na época: o do Monte Ulia, na Espanha, com extensão de 280 metros; e o de Wetterhorn, na Suíça, com 560 metros. O empreendimento custou uma fortuna, dois milhões de contos de réis, e centenas de operários, além de alpinistas, trabalharam em sua construção.

 

 

Os bondinhos de madeira maciça foram trazidos da Alemanha e fixados nos cabos com o auxílio de guindastes. Foi contratada a empresa alemã J.Pohling, de Colônia, que fabricou e montou os equipamentos.

 

 

Finalmente, em 27 de outubro de 1912, foi inaugurado o caminho aéreo no Rio de Janeiro, entre a Praia Vermelha e o Morro da Urca, que se tornaria o mundialmente famoso Bondinho do Pão de Açúcar (Careta, 5 de outubro de 1912). Alguns dias antes, houve uma visita da imprensa às obras (Correio da Manhã, 10 de outubro de 1912). Em 1º de dezembro, foi inaugurada a iluminação elétrica no caminho aéreo (Jornal do Brasil, 1º de dezembro de 1912, na última coluna).

 

 

O bondinho no segundo trecho, entre o Morro da Urca e o Pão de Açúcar, numa extensão de 750 metros e 396 metros de altura, começou a funcionar no dia 18 de janeiro de 1913, completando a ligação até o alto do pico do Pão de Açúcar (O Paiz, 19 de janeiro de 1913, quarta coluna).

 

 

Augusto Ferreira Ramos dirigiu a empresa até 1934, ano em que o industrial e banqueiro Carlos Pinto Monteiro assumiu a administração da Companhia Caminho Aéreo Pão de Açúcar até 1962, quando o engenheiro Cristóvão Leite de Castro (1904 – 2002) assumiu a direção. Durante sua gestão, em 1969, a Companhia do Pão de Açúcar obteve permissão para duplicar a linha e, após algumas reformas, passou a contar com quatro novos bondinhos, cada um com capacidade para transportar 75 passageiros. Os trabalhos foram completados em 29 de outubro de 1972.

Em 1993, Cristóvão passou o cargo para sua filha, Maria Ercília Leite de Castro, mestre em Administração de Empresas pela COPPEAD. Em 2002, o bondinho passou por outra reforma com a substituição dos oito cabos de aço e na realização de melhorias como nova pintura, iluminação, equipamento de som e placas de sinalização. Foram gastos 852 mil dólares. Entre 2008, foram inaugurados quatro novos bondinhos e a operação do teleférico foi digitalizada.

Em 2022, zerou suas emissões de carbono e ganhou uma nova marca e um novo lema: Parque Bondinho Pão de Açúcar, “Felicidade lá em cima”. Recebeu de presente, em homenagem aos seus 110 anos uma canção, O bondinho, de Roberto Menescal, Alex Moreira e Cris Delanno. É dirigido por Sandro Fernandes.

 

 

Uma curiosidade: em novembro de 2021, Anna Caroline Boyd Martine entrou para a história do cartão postal carioca, tornando-se a primeira mulher a trabalhar como operadora de cabine do teleférico do Parque Bondinho Pão de Açúcar.

 

Acesse aqui um artigo publicado na revista Brazil – Ferro – Carril, número 36, em 1912, onde o projeto do Bondinho do Pão de Açúcar é explicado detalhadamente.

 

 

 

Pequeno perfil e cronologia de Therezio Mascarenhas (18? – 19?)

 

Como já mencionado, pouco se sabe, até hoje, sobre a biografia do fotógrafo Therezio Mascarenhas. A partir da pesquisa na Hemeretoca Digital da Biblioteca Nacional, segue uma pequena cronologia de sua vida, que ajuda a traçar um pouco de seu perfil.

 

 

 

1900 – Procedente do Rio de Janeiro, fazendo quarentena na Ilha Grande, chegada do vapor nacional Pernambuco , em Vitória. Therezio era um dos passageiros (O Estado do Espírito Santo: Ordem e Progresso, 24 de julho de 1900, última coluna).

1908 – Foi um dos convidados de F. Clemetson, superintendente da Estrada de Ferro Sul do Espírito Santo, para viajar para Engenheiro Reeve com o cientista e ministro plenitenciário da França, Charles Wiener (1851–1913), nascido em Viena, que ficou bastante conhecido por suas viagens ao Peru (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 20 de fevereiro de 1908, quarta coluna).

Fotografou indígenas do Rio Doce (Diário da Manhã: Órgão do Partido Conservador (ES), 20 de fevereiro de 1908, segunda coluna).

Identificado como um ativo jovem, Therezio seguiu para o Rio de Janeiro, no paquete Maranhão, em 6 de junho, com a intenção de conversar com o diretor da Sociedade Nacional de Agricultura sobre a abertura de um estabelecimento de artigos e ferragens para a lavoura. Retornou em julho (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 7 de junho de 1908, quinta colunaCommercio do Espírito Santo, 24 de julho de 1908, segunda coluna).

Foi anunciado que ele abriria, na rua da Alfândega, em Vitória, um depósito para máquinas para a lavoura importados da Europa e da América do Norte (Cachoeirano, 20 de junho de 1908, terceira coluna).

Publicação de uma poesia de sua autoria (O Malho, 8 de agosto de 1908).

1909 - Ele e Casemiro Guimarães tiraram várias diversas fotográficas do piquenique dos sócios do Club de Regatas, realizado na Ilha do Boi, no Espírito Santo (Commercio do Espírito Santo, 22 de março de 1909, primeira coluna).

O engenheiro Augusto Ferreira Ramos (1860 – 1939), criador e construtor do Bondinho do Pão de Açúcar, promoveu uma excursão durante a qual os aplicados amadores Paulo Motta e Therezio Mascarenhas tiraram várias fotografias (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 8 de abril de 1909, última coluna). Provavelmente, em torno deste ano, Augusto e Therezio se conheceram.

Foi publicada na revista Fon-Fon uma fotografia do capor Queen Eleanor de sua autoria. Foi identificado como fotógrafo amador (Fon-Fon, 24 de abril de 1909).

 

 

Praticava tiro ao alvo (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 4 de maio de 1909, primeira coluna).

No Café Globo, em Vitória, houve uma exposição de fotografias de sua autoria dos serviços de abastecimento e luz realizados pelo engenheiro Augusto Ferreira Ramos. Foi identificado como amador e nesses registros Therezio revelava muito bom gosto pela arte (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 24 de maio de 1909, quinta colunaCorreio do Espírito Santo, 26 de maio de 1909, segunda coluna).

Fazia parte da comitiva de Augusto Ferreira Ramos em visitas de obras hidráulicas realizadas pelo engenheiro  (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 10 de julho de 1909, segunda colunaDiário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 13 de julho de 1909, quinta coluna).

Participou da homenagem realizada pelo governo do Espírito Santo ao presidente Afonso Pena (1847 – 1909), na Catedral de Vitória (Commercio do Espírito Santo, 13 de julho de 1909, última coluna).

Foi noticiado seu aniversário, no dia 23 de agosto (Correio do Espírito Santo, 23 de agosto de 1909, primeira coluna).

Produziu várias fotografias durante uma excursão ao Jucu promovida pelo engenheiro Augusto Ferreora Ramos, contratante dos serviços de água, luz e esgoto de Vitória, que ofereceu um piquenique à família do político capixaba Torquato Moreira e a outras distintas famílias (Commercio do Espírito Santo, 21 de setembro de 1909, segunda coluna).

Esteve presente na missa de sétimo dia do prefeito de Vitória, Ceciliano Abel de Almeida (Commercio do Espírito Santo, 24 de novembro de 1909, quarta coluna).

Fotografou as festas realizadas na Escola Aprendizes de Marinheiro e foi identificado como um hábil fotógrafo (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 23 de dezembro, segunda coluna).

1910 – Possuia um estabelecimento fotográfico na Villa Moscoso, nº 16, em Vitória, no Espírito Santo (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 26 de fevereiro de 1910, segunda colunaAlmanak Laemmert, 1910, primeira colunaAlmanak Renault, 1912, última coluna).

Estava vendendo artigos  fotográficos (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 10 de março de 1910, última coluna).

 

 

1911 - Chegou no porto de Vitória, procedente do norte no paquete Sattelite (Diário da Manhã: Órgão do Partido Construtor (ES), 18 de outubro de 1911, segunda coluna).

1916 - Seu estabelecimento fotográfico na Villa Moscoso, em Vitória, no Espírito Santo, foi anunciado pela última vez no Almanak Laemmert (Almanak Laemmert, 1916, última coluna).

1927 - Ele e Augusto Ferreira Ramos foram alguns dos subscritores do abaixo-assinado feito por moradores e proprietários na Praia Vermelha, elogiando os melhoramentos realizados pelo prefeito do Rio de Janeiro, Antônio da Silva Prado Junior (1880 – 1955), na remodelação da principal artéria e nas cercanias da região, o que facilitaria a visita ao encantador passeio do Pão de Açúcar (O Paiz, 14 de dezembro de 1927, segunda coluna).

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Diário do Rio

Extra, 27 de outubro de 2022

Correio Braziliense, 12 de junho de 2008

Folha de São Paulo, 12 de fevereiro de 2022

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Jackobson, Andrea. O bondinho do Pão de Açúcar. Rio de Janeiro : Editora Andrea Jackobson, 2018.

O GLOBO, 13 de junho de 2011

O GLOBO, 20 de outubro de 2012

Portal Clube de Engenharia

Rezende, Nilza. Pão de Açúcar – A Marca do Rio / Sugar Loaf – Rios Trademark.  Editora Clio.

Revisa EDVD

Serra News

Site Bondinho do Pão de Açúcar

Site Instituto Histórico Geográfico Brasileiro

Superinteressante, 4 de julho de 2018

Uma homenagem aos médicos

Hoje é Dia do Médico e a Brasiliana Fotográfica presta uma homenagem a esses imprescindíveis profissionais, destacando artigos já publicados no portal relativos à medicina  – como vacinação, criação de instituições, realização de expedições, de congressos – e a importantíssimos médicos brasileiros como Arthur Neiva (1880 – 1943), Belisário Penna (1868 – 1939), Carlos Chagas (1879 – 1934), Evandro Chagas (1905 – 1940), João Pedroso Barreto de Albuquerque (1869 – 1936), João Pedro de Albuquerque (1874 – 1934) e Oswaldo Cruz (1872 – 1917). A maioria dos artigos foi escrito por pesquisadores da Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, uma das instituições parceiras do portal. A data escolhida para celebrar o Dia do Médico é referente a São Lucas, padroeiro da medicina. Viva os médicos e as médicas! Viva a ciência!

 

 

Artigos publicados na Brasiliana Fotográfica relativo à medicina 

 

O cientista Oswaldo Cruz (1872 – 1917), prefeito de Petrópolis – 18/12/2017 – Cristiane d’Avila com a colaboração de Ana Luce Girão,  Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz, em parceria com Andrea C. T. Wanderley

Manguinhos e a cidade do Rio de Janeiro – 19/01/2018 - Equipe da Fiocruz – Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz.

100 anos do Castelo da Fiocruz: a ocupação da Fazenda de Manguinhos – 28/02/2018 - Cristiane d´Avila, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz.

Febre amarela: imagens da produção da vacina no início do século XX – 23/03/2018 - Aline Lopes de Lacerda, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

100 anos do Castelo da Fiocruz: os pedreiros do castelo da avenida Brasil – 12/04/2018 - Ricardo Augusto dos Santos, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz.

Os 100 anos do Castelo da Fiocruz: criador e criatura – 15 /05/ 2018 - Renato da Gama-Rosa Costa, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz.

Vacinação no Brasil, uma história centenária – 17/08/2018 – Cristiane d´Avila, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz.

O sanitarista Belisário Penna (1868-1939), um dos protagonistas da história da saúde pública no Brasil, 28/09/2018 – Ricardo Augusto dos Santos, da Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz.

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: 100 anos de pesquisa clínica – 26/10/2018 – Cristiane d´Avila, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz.

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas 100 anos: Carlos e Evandro Chagas em retratos de família,  – 27/11/2018 – Aline Lopes de Lacerda, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

Instituto Nacional de Infectologia Evandro Chagas: centenário da construção da pesquisa clínica em Manguinho – 21/12/2018 – Dilene Raimundo do Nascimento, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz.

João Pedro ou João Pedroso? – 11/01/2019 – Ricardo Augusto dos Santos e Francisco dos Santos Lourenço, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

As expedições do Instituto Oswaldo Cruz entre 1911 e 1913 – 14/03/2019 – Cristiane d´Avila, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz.

A descoberta da doença de Chagas – 14/06/2019 – Simone Petraglia Kropf, Casa de Oswaldo Cruz , Fiocruz, em parceria com Andrea C. T. Wanderley

E o ex e futuro presidente do Brasil morreu de gripe…a Gripe Espanhola de 1918 – 23/03/2020 – Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

As doenças do Rio de Janeiro no início do século XX e a Revolta da Vacina em 1904 – 05/04/2020 – Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

A apresentação do Departamento Nacional de Saúde Pública na Exposição Internacional do Centenário da Independência – 13/04/2020 – Ricardo Augusto dos Santos, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz.

Nos passos de Oswaldo: imagens das expedições do IOC aos portos do Brasil em entre 1911 e 1913 – 25/05/2020 –  Cristiane d’Avila, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

Curso de Aplicação no Instituto Oswaldo Cruz, 08/10/2020 – Ricardo Augusto dos Santos, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz.

Porto D´Ave e a moderna arquitetura hospitalar, 14/01/2021 – Cristiane d´Avila, Casa de Oswaldo Cruz / Fiocruz

À mesa, os pioneiros da ciência brasileira, 07/06/2021 – Cristiane d´Avila, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz

Os “Instântaneos Cruéis” de Monteiro Lobato, 26/11/2021 – Ricardo Augustos dos Santos, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz.

A Exposição Internacional de Higiene de Dresden, na Alemanha, em 1911, 05/01/2022 – Cristiane d´Avila, Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz.

Fotografias da Gripe Espanhola do fundo Moncorvo Filho, da Casa de Oswaldo Cruz, 11/03/2022 – Ricardo Augusto dos Santos, Felipe Almeida Vieira e Francisco dos Santos Lourenço,  Casa de Oswaldo Cruz, Fiocruz.

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Uma homenagem aos professores

No Dia do Professor, a Brasiliana Fotográfica homenageia esses profissionais tão importantes para a formação da sociedade, destacando artigos já publicados no portal sobre mulheres que foram professoras no Brasil ou no exterior, dentre elas a compositora Chiquinha Gonzaga (1847 – 1935), a advogada Maria Luiza Dória Bittencourt (1910 – 2001), a escritora Mariana Coelho (1857 – 1954) e a cientista francesa Marie Curie (1867 – 1934).

 

 

A data escolhida para celebrar os professores refere-se ao dia 15 de outubro de 1827, quando dom Pedro I (1798 – 1934), então imperador do Brasil, decretou uma Lei Imperial, criando as Escolas de Primeiras Letras. A partir desta norma, todas as cidades deveriam ter suas escolas de primeiro grau. O decreto também estabelecia o salário e a forma de contratação dos professores, além das matérias básicas a serem ensinadas (Império do Brasil, 1827, segunda coluna; Portal da Presidência da República – Casa Civil). O Dia do Professor tornou-se feriado escolar nacional através do Decreto Federal nº 52.682, de 14 de outubro de 1963 (Portal da Câmara dos Deputados). Viva os professores e as professoras! Viva a educação!

 

Artigos publicados na Brasiliana Fotográfica sobre mulheres que foram professoras

 

 

A cientista Marie Curie (1867 – 1934) no Museu Nacional, Rio de Janeiro, 1926 – 05/07/2018 – Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

Série “Feministas, graças a Deus!” II – Natércia da Cunha Silveira (1905 – 1993), o jequitibá da floresta – 20/08/2020 – Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

Série “Feministas, graças a Deus!” V – Feminista do Amazonas: Maria de Miranda Leão (1887 – 1976), 29/11/2020 – Maria Elizabeth Brêa Monteiro, Arquivo Nacional.

Série “Feministas, graças a Deus!” VI – Júlia Augusta de Medeiros (1896 – 1972) fotografada por Louis Piereck (1880 – 1931) – 09/12/2020 – Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

Série “Feministas, graças a Deus” VII – Almerinda Farias Gama (1899 – 1999), uma das pioneiras do feminismo no Brasil – 23/02/2021 – Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

Série “Feministas, graças a Deus!” IX – Mariana Coelho (1857 – 1954), a “Beauvoir tupiniquim” – 15/06/2021 – Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

E a primeira-dama Nair de Teffé leva a música de Chiquinha Gonzaga para o Palácio do Catete, em 1914 – 05/05/2021 – Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

Série “Feministas, graças a Deus!” X – Maria Luiza Dória Bittencourt (1910 – 2001), a primeira deputada da Bahia – 25/03/2022 – Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica.

 

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

Série “1922 – Hoje, há 100 anos” IX – O centenário do Museu Histórico Nacional

Série “1922 – Hoje, há 100 anos” IX – O centenário do Museu Histórico Nacional

Publicamos o artigo Cem anos do Museu Histórico Nacional, de autoria da historiadora Maria Isabel Lenzi, o 9º da Série 1922 – Hoje, há 100 anos. O Museu Histórico Nacional é uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica e foi o primeiro museu voltado à história do país e também o primeiro a ter suas portas sempre abertas à visitação de qualquer pessoa, já que o Museu Nacional, mais antigo museu do Brasil, recebia somente pesquisadores agendados. Foi idealizado pelo escritor e jornalista Gustavo Barroso.

 

 

Acessando o link para as fotografias do Museu Histórico Nacional disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

Cem anos do Museu Histórico Nacional 

Maria Isabel Ribeiro Lenzi*

 

 

Em 1922 o Brasil fazia 100 anos. Era preciso comemorar o centenário da nação e mostrar ao mundo civilizado a modernidade da Capital Federal que há alguns anos havia passado por grande reforma. Mas ainda havia um vestígio colonial que, na opinião dos que estavam no poder, deveria ser extirpado: o Morro do Castelo, outeiro que abrigava a cidadela fundadora do Rio de Janeiro. Assim se fez. Com terra arrancada da colina histórica, aterrou-se a ponta do Calabouço, no litoral do bairro da Misericórdia e, no local, foi estabelecida a Exposição Internacional de 1922, que celebrou o centenário da independência do Brasil.

 

 

O antigo arsenal de guerra, a Casa do Trem e o Forte de Santiago, prédios coloniais, foram preservados da demolição e adaptados para receber o Palácio das Grandes Indústrias. Duas salas contíguas deste Palácio receberam o Museu Histórico Nacional que foi criado em 2 de agosto pelo decreto nº 15.596 do presidente Epitácio Pessoa e aberto ao público em 12 de outubro de 1922.

 

 

Na ocasião de sua inauguração, foram expostas 643 peças museológicas. Foi o primeiro museu voltado à história do país e também o primeiro a ter suas portas sempre abertas à visitação de qualquer pessoa, já que o Museu Nacional, mais antigo museu do Brasil, recebia somente pesquisadores agendados.

 

 

O MHN foi idealizado por Gustavo Barroso, que preocupado com a reverência de um passado nacional, o idealizou baseado numa concepção monumental da história, na qual os grandes heróis e os grandes feitos coloniais e monárquicos seriam cultuados.  Gustavo Barroso dirigiu o MHN quase que ininterruptamente, até sua morte em 1959.  Em 1930 ele foi afastado do cargo por Getúlio Vargas, mas retornou menos de dois anos depois.

 

 

 

Com o final da Exposição Internacional, o MHN começou a se expandir. Em 1923, o estado adquire o primeiro núcleo da coleção J. J. Raposo, com 357 objetos. No ano seguinte, o museu recebeu de Guilherme Guinle o primeiro núcleo do que veio a compor a coleção Guinle.  Também neste ano, foi aberto o primeiro circuito de exposições de longa duração, com as mostras “Arqueologia e História” e “Numismática”. Com o objetivo de divulgar o acervo do museu foi publicado o “Catálogo Geral da Primeira Seção – Arqueologia e História”.

Com a Revolução de 1930, Getúlio Vargas nomeou Rodolfo Garcia para a direção do MHN. Neste ano, o museu passou por uma ampliação de sua área física e, em 1931, foi realizada a primeira exposição temporária: “Exposição Comemorativa do Centenário da Abdicação de D. Pedro I”.  Em 1932, estabeleceu-se, nas dependências do museu, o curso de Museus para formação de conservadores de museus, que em 1951 foi formalizado como curso universitário. Posteriormente, em 1979, é transferido para as Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro. Deste modo, o curso de Museologia que hoje está na Uni-Rio tem o MHN em sua origem.

Gustavo Barroso retorna à direção em 1932 e dois anos depois é criada a Inspetoria de Monumentos Nacionais como um departamento do Museu Histórico Nacional – extinta em 1937 com a criação do Serviço de Patrimônio Histórico e Artístico Nacional (IPHAN).

Em 1939, um importante acervo é adquirido pelo governo federal, a coleção Souza Lima, composta de 486 esculturas religiosas em marfim provenientes das índias portuguesas. Trata-se do maior conjunto deste gênero em uma instituição pública.

A partir de 1940, anualmente, até 1975 foram editados os Anais do MHN, que se tornaram uma das principais revistas de divulgação científica em Museologia. Em 1995, os Anais são retomados e ainda hoje a publicação é uma referência nas áreas de Museologia, Patrimônio, Colecionismo e História.

 

 

Em 1941, o governo federal arrematou em leilão a coleção de arte Djalma da Fonseca Hermes, cujo tema é o Brasil. O conjunto foi distribuído entre o MHN, Museu Imperial e o Palácio Guanabara. Coube ao MHN 168 objetos. No final da década de 1940, sete carruagens – berlindas e traquitanas – foram doadas à instituição pelo cidadão português Joaquim Ferreira Alves.  Passaram por uma importante restauração e hoje fazem parte da exposição “Do móvel ao Automóvel: transitando pela história”.

O MHN deu apoio técnico para a criação de importantes museus, como o Museu Imperial e o Museu da Inconfidência na década de 1940, o Museu do Folclore, o Museu Rodoviário de Paraibuna. Com o falecimento de Gustavo Barroso, em 1959, Josué Montello assumiu a direção do Museu e recebeu do presidente Juscelino Kubitschek o Palácio do Catete para que este viesse a abrigar o Museu da República como uma divisão do MHN. A partir de então, a maior parte do acervo referente à República foi transferido para o Museu da República. Inclusive o quarto onde ocorreu o suicídio do Getúlio Vargas que até então estava montado no MHN. Em 1983, o Museu da República se desvinculou do MHN.

Em 1968, a coleção Sophia Jobim entra no acervo do MHN através de doação de seu irmão Danton Jobim. Esta é uma das coleções mais consultadas por pesquisadores, com 656 objetos além dos documentos e da biblioteca da feminista e primeira professora de indumentária histórica na Escola de Belas Artes.

 

 

Em 1969, novo circuito de exposição é inaugurado: doze salas com exposição organizada cronologicamente, de acordo com os regimes políticos de cada época. Neste ano, são iniciados os famosos cursos do MHN. Foram 21 realizados pela Sociedade de Desenvolvimento do MHN.

Sob a direção de Gerardo Câmara, em 1971, teve início o “Programa de Exposições Itinerantes”, que levava o MHN para outros estados do Brasil. Em 1974, com Rui Mourão dirigindo o MHN, é inaugurada a Reserva Técnica, em termos de Museologia, uma iniciativa pioneira no Brasil.

 

 

De 1985 a 1988, Solange Godoy assume a direção do museu, período em que foi vinculado à Fundação Pró-Memória. Neste triênio, tiveram lugar importantes realizações: recuperação do Pátio Minerva; lançamento do “Thesauros para Acervos Museológicos”; inauguração do primeiro módulo “Colonização e Dependência” na exposição de longa duração; criação da Associação de Amigos do Museu Histórico Nacional; início da restauração do carro Protos, usado pelo Barão do Rio Branco; inauguração da primeira exposição temporária internacional “Peru Arqueológico”. Em 1995, o indigenista Luiz Felipe Figueiredo Cipré doou  ao MHN sua “Coleção Etnográfica”, com 358 peças de sociedades indígenas.

Foi no período em que Heloísa Duncan estava na direção do museu (1989) que tiveram início as obras de restauração da Casa do Trem e que foi inaugurada a exposição “Farmácia Homeopática Teixeira Novaes”, doada ao MHN pela Fundação Roberto Marinho.

 

 

Os três anos da direção de Ecyla Brandão (1990 a 1993) foram marcados pela inauguração da exposição “Memória do Estado Imperial”; pela restauração e exposição da obra “Combate Naval do Riachuelo”, de Victor Meirelles; pela reforma do auditório e ampliação da Reserva Técnica do MHN.  Ainda em 1992, a instituição participou do evento internacional ECO 92 e abriu suas galerias para as exposições “Mestres do Ártico” e “Nossas Florestas, nossa herança”.

Vera Lúcia Bottrel Tostes foi a diretora mais longeva depois de Gustavo Barroso. Vera, que já era servidora do MHN, assume a direção em 1994, onde permanece até 2014. Em sua gestão o museu passou por uma grande reformulação e modernização nas exposições e nos produtos oferecidos ao público. Em 1995, a edição dos Anais do Museu Histórico é retomada. Dois anos depois, é realizado o primeiro Seminário Internacional, evento que se tornou tradicional no mês de outubro. Em 1996, foi criado o primeiro site do MHN na internet.

 

 

No ano 2000 o MHN participa ativamente das comemorações dos 500 anos da chegada dos portugueses à América com a exposição internacional “Carta de Caminha” e a inauguração do Centro de Referência Luso-Brasileira em parceria com o Ministério das Relações Exteriores de Portugal.

Em 15 de março de 2008, o museu recebe os presidentes Luís Inácio Lula da Silva e Antônio Cavaco Silva, presidente de Portugal, para a inauguração da exposição “Um novo mundo, um novo império: a corte portuguesa no Brasil”. Naquele ano, o MHN coordenou as comemorações do bicentenário da chegada do príncipe regente D. João ao Brasil.

Em seu aniversário de 90 anos, em 2012, o MHN é reconhecido como uma instituição com contribuições relevantes à cultura brasileira e recebe do Ministério da Cultura a Ordem de Mérito Cultural. Neste mesmo ano, ofereceu ao público uma exposição com sua trajetória: “Museu Histórico Nacional: 90 anos de Histórias”.

 

 

Com aposentadoria de Vera Tostes no final de 2014, Ruth Beatriz Caldeira de Andrada dirigiu o museu interinamente até outubro de 2015. Neste período, o MHN apresentou aos cariocas a exposição “Tão importante e tão esquecido, o bairro da Misericórdia” no contexto das comemorações dos 450 anos da cidade do Rio de Janeiro.

O Professor Paulo Knauss foi o primeiro diretor a passar por concurso para o cargo. Sua gestão, de outubro de 2015 a 2019, foi marcada por importantes realizações, entre elas, a aprovação do regimento interno do museu; a implantação do Plano Anual de patrocínio cultural por meio da Lei de Incentivo à Cultura; a criação da sala Tiradentes no módulo Cidadania da exposição permanente; o envolvimento do MHN na Olimpíada, recebendo três exposições mexicanas; o desenvolvimento do Projeto Curadoria Compartilhada com representantes de grupos sociais específicos – movimento negro, feministas, judeus, comunidade da Vila Autódromo.

Ainda neste quatriênio, pensando na formação de público, foi implementado o Programa Educativo-Cultural de visitação temática “Bonde da História” e “Bondinho da História”, além da criação do Centro de Referência de Educação Museal. Também na gestão de Paulo Knauss, a publicação dos Anais do MHN passou ao formato eletrônico. Outra realização relevante deste período foi a reforma da Reserva Técnica com aquisição de novos mobiliários, como estantes deslizantes ampliando a capacidade de armazenagem.

 

 

De 2019 até a atualidade o MHN está com direção interina. Vânia Bonelli, de 1º de janeiro de 2020 a 8 fevereiro de 2022, e Aline Montenegro Magalhães, de 9 de fevereiro de 2022 a 25 de julho de 2022. Tempo duro de pandemia, mas o museu não parou. Foram realizadas diversas lives e exposições on line neste período.  Atualmente, é dirigido, ainda interinamente, por Fernanda Castro e oferece ao público a exposição Rio 1922, sobre o Rio de Janeiro no ano da comemoração do centenário da independência e de sua fundação.

O Museu Histórico Nacional completa seu centenário em outubro de 2022. Nestes 100 anos muita coisa mudou na instituição.  Se, quando da sua fundação, o MHN se esmerava em guardar a cultura material da elite econômica e militar, a partir dos anos 80 com a entrada de artefatos indígenas, o acervo do MHN passou a representar outros segmentos sociais até que, em 1992, foi criada a Política de Aquisição de Acervo, para sistematizar esse esforço do MHN de representar efetivamente toda a sociedade.

 

*Maria Isabel Ribeiro Lenzi é Doutora em História pela UFF e historiadora do Arquivo Histórico do Museu Histórico Nacional (IBRAM/MTur)

 

Links para os artigos publicados da Série 1922 – Hoje, há 100 anos

Série 1922 – Hoje, há 100 anos I – Os Batutas embarcam para Paris, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, publicado em 29 de janeiro de 2022

Série 1922 – Hoje, há 100 anos II- A Semana de Arte Moderna, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, publicado em 13 de fevereiro de 2022, na Brasiliana Fotográfica

Série 1922 – Hoje, há 100 anos III – A eleição de Artur Bernardes e a derrota de Nilo Peçanha, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, publicado em 1º de março de 2022, na Brasiliana Fotográfica

Série 1922 – Hoje, há 100 anos IV – A primeira travessia aérea do Atlântico Sul, realizada pelos aeronautas portugueses Gago Coutinho e Sacadura Cabral, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicada em 17 de junho de 2022, na Brasiliana Fotográfica

Série 1922 – Hoje, há 100 anos V – A Revolta do Forte de Copacabana, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicada em 5 de julho de 2022, na Brasiliana Fotográfica

Série 1922 – Hoje, há 100 anos VI – A fundação da Federação Brasileira para o Progresso Feminino, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 9 de agosto de 2022, na Brasiliana Fotográfica

Série 1922 – Hoje, há 100 anos VII – A morte de Gastão de Orleáns, o conde d´Eu (Neuilly-sur-Seine, 28/04/1842 – Oceano Atlântico 28/08/1922), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 28 de agosto de 2022, na Brasiliana Fotográfica.

Série 1922 – Hoje, há 100 anos VIII – A abertura da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil e o centenário da primeira grande transmissão pública de rádio no país, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 7 de setembro de 2022, na Brasiliana Fotográfica.

Série 1922 – Hoje, há 100 anos X –  A morte do escritor Lima Barreto (1881 – 1922), de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicado em 1º denovembro de 2022, na Brasiliana Fotográfica.

O Dia do Compositor Brasileiro, uma data a ser festejada

A Brasiliana Fotográfica comemora o Dia do Compositor Brasileiro, criado em 7 de outubro de 1948, por iniciativa do cantor e compositor Herivelto Martins (1912 – 1992), com um artigo do jornalista André Luis Câmara. Quando criou esta data comemorativa, Herivelto estava em franca batalha pelo reconhecimento dos autores de música e letra, responsáveis por uma das expressões artísticas mais importantes e reconhecidas do país – a canção. O leitor poderá apreciar, ao longo da publicação, fotografias de Chiquinha Gonzaga, grande compositora, pianista e maestrina, além de um dos primeiros nomes na história da música popular brasileira a lutar pelos direitos autorais dos compositores, e do grande músico Pixinguinha, dentre outras.

 

O Dia do Compositor Brasileiro, uma data a ser festejada

André Luis Câmara*

Desde 1948, a data de 7 de outubro marca a comemoração do Dia do Compositor Brasileiro. Foi uma iniciativa de Herivelto Martins, autor de clássicos da música popular, como “Segredo” e “Cabelos brancos, ambos com Marino Pinto; “A Lapa”, com Benedito Lacerda; “Praza Onze”, com Grande Otelo; “Atiraste uma pedra”, com David Nasser, ou “Ave Maria no morro”. (Clique nos links, ao longo do texto, para acessar gravações da Discografia Brasileira do Instituto Moreira Salles).

Sempre envolvido na luta pelo direito autoral, Herivelto Martins esteve à frente da União Brasileira de Compositores (UBC), criada em 1942, e acompanhou muitos colegas que deixaram essa entidade para fundar, em 1946, a Sociedade Brasileira de Autores, Compositores e Escritores de Música (Sbacem), da qual integrou o Conselho Deliberativo. Além disso, se tornou o primeiro presidente do Sindicato Nacional dos Compositores Musicais (Sindcom), em 1952.

 

 

Quando propôs que houvesse o Dia do Compositor Brasileiro, ele estava, portanto, em franca batalha pelo reconhecimento dos autores de música e letra, responsáveis por uma das expressões artísticas mais importantes e reconhecidas do país – a canção -, seja em ritmo de samba, samba-canção, modinha, marchinha, marcha-rancho, choro, bossa nova, baião, valsa, bolero, toada, balada, e por aí em diante.

 

Chiquinha Gonzaga abre alas

 

 

Se, entre profissionais da composição, e mesmo do canto, houve uma presença predominantemente masculina, pelo menos até a primeira metade do século XX, algumas mulheres conseguiram se contrapor a um universo machista, e se destacaram no panorama da música popular brasileira, a começar por Chiquinha Gonzaga.  Composta para o desfile do cordão Rosa de Ouro, em 1899, “Abre alas” se tornou um clássico do Carnaval. É inclusive, para o jornalista e letrista Nelson Motta, uma das “101 canções que tocaram o Brasil” (MOTTA: 2016).

 

Acessando o link das fotografias de Chiquinha Gonzaga disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar a imagem e verificar todos os dados referentes a ela.

 

Essa marcha-rancho seria gravada como um dobrado, em versão instrumental, em 1910, pela Banda da Casa Faulhaber. No ano seguinte, a gravação seria feita pela Banda da Casa Edison, registro lançado somente em 1913, e em cujo selo do disco Odeon R 120174/ 120323 aparece como parceiro de Chiquinha Gonzaga o instrumentista Santos Bocot, que foi professor do compositor e maestro Anacleto de Medeiros.

Da lavra da compositora, podem ainda ser destacadas diversas outras canções, entre as centenas que compôs, como “Corta-jaca” ou “Lua branca”.

 

 

Chiquinha Gonzaga não é somente lembrada como grande compositora, pianista e maestrina, é também um dos primeiros nomes na História da música popular brasileira a lutar pelos direitos autorais dos compositores e uma das fundadoras da Sociedade Brasileira de Autores Teatrais (Sbat), em 1917. No entanto, nessa entidade havia uma hierarquização que levaria, anos mais tarde, não só a descontentamentos, como à união de compositores em novas sociedades arrecadadoras. A primeira delas seria a Associação Brasileira de Compositores e Autores (ABCA), em 1938. Em seguida, viriam as já citadas UBC e Sbacem.

 

O “pequeno direito”

 

Embora a Sbat contasse com um setor para tratar especificamente dos compositores, priorizava os autores teatrais. Estes recebiam o “grande direito”; aqueles, o “pequeno”. É que, nesse sistema, os compositores foram inicialmente incluídos como autores de música para teatro, atividade muita em voga no meio artístico da época, quando fazia grande sucesso o chamado “teatro de revista”.

Em espetáculos assim é que foi lançado o primeiro samba-canção, em 1928, “Linda flor”, com melodia de Henrique Vogeler e letra de Cândido Costa. No ano seguinte, recebeu nova letra de Freire Júnior e o título de “Meiga flor”. Meses depois, estreava na revista Miss Brasil, de Luiz Peixoto e Marques Porto, autores que lhe colocaram nova letra e o nome de “Iaiá”, para ser interpretado pela vedete Araci Cortes.

 

 

Foi com a terceira e definitiva letra que esse samba-canção ganhou fama, sendo gravado pela própria Araci Cortes, em disco Parlophon nº12926, lançado em 1929. No selo fonográfico aparecia “canção brasileira”, com o título “Linda flor (Iaiá)”. Pouco mais tarde, ganharia popularidade com o nome derradeiro: “Ai, Ioiô”.

O lançamento desse disco já acontece após o advento da gravação elétrica, feita com microfone, a partir de 1927. Até então, o processo de gravação de discos era mecânico. Grosso modo, funcionava assim: o cantor, acompanhado dos músicos, emitia sua voz
por um cone do qual se captava o som, e uma agulha imprimia a gravação em um disco de zinco recoberto com cera. Dessa matriz se faziam as cópias.

A gravação fonográfica no Brasil foi iniciada pela Casa Edison. Fundada em 1900 porFrederico Figner, comerciante de origem tcheca, durante os dois primeiros anos vendia fonogramas reproduzidos em cilindros para fonógrafo, aparelho sonoro ali também à
venda, e que fora inventado por Thomas Edison, em 1877. A partir de 1902, esse estabelecimento, que funcionava na Rua do Ouvidor, no Rio de Janeiro, passou a gravar e a comercializar discos, ao mesmo tempo em que vendia o aparelho próprio para a reprodução do novo som: o gramofone. Tanto os discos quanto o gramofone são invenções do alemão Emil Berliner datadas de 1887. Os discos, de 78 rotações por minuto (rpm), vinham com duas músicas, uma de cada lado. [1]

 

 

O primeiro compositor a ser gravado em disco no Brasil foi Xisto Bahia. Seu lundu “Isto é bom” foi lançado pela Casa Edison, em 1902, com o selo Zon-o-phone nº 10001, na voz do cantor Baiano.

 

 

 

Este seria também o intérprete da primeira gravação do samba “Pelo telefone”, lançada em janeiro de 1917, um marco da discografia nacional, cuja autoria atribuída exclusivamente a Donga e Mauro de Almeida é até hoje controversa.

 

 

Discos em evidência

 

A gravação de discos, tanto no período mecânico, quanto no do sistema elétrico, colocava em evidência não somente os cantores, mas também os compositores, muito embora, até fins dos anos 1920, um dos principais veículos de comercialização das canções fosse ainda a venda de partituras para piano (encontrado geralmente em casas abastadas) e os jornais de modinha (destinados a um público mais abrangente). Os discos passavam a ser cada vez mais procurados, antes ainda do auge da Era do Rádio.

Um dos compositores que mais fez sucesso nas décadas de 1910 e 1920 foi Sinhô, que se tornou conhecido como “rei do samba”. Em outubro de 1919, durante a fase mecânica de gravação, Francisco Alves gravou para o Carnaval de 1920 a marcha “Pé de Anjo”.

Quase dez anos depois, o mesmo Sinhô fez sucesso já no sistema elétrico de gravação quando, por seu intermédio, o cantor Mário Reis estreou, em 1928, com três discos 78 lançados em sequência, que traziam sambas de sua autoria. O que se tornou mais popular foi o Odeon 10278. De um lado, estava “Jura”; do outro, “Gosto que me enrosco”.[1]

 

 

 

Juntos, Francisco Alves e Mários Reis formaram uma das mais famosas duplas de cantores de samba, gravando 12 discos 78, entre o fim de 1930 e o início de 1933. Aos dois coube lançar sucessos dos chamados Bambas do Estácio, como “Se você jurar”, de Ismael Silva e Nílton Bastos. A dupla também cantou, em primeira mão, sambas de Noel Rosa, como “Fita amarela”.

 

 

 

Com o crescente interesse do público pelo disco, principalmente depois da profissionalização do rádio, em 1932, quando a propaganda comercial radiofônica foi liberada,[2] a situação dos compositores que recebiam o “pequeno direito” instituído pela Sbat ficou cada vez mais incontornável.

Um dos dirigentes dessa sociedade, o pianista e grande melodista Custódio Mesquita, parceiro de Mário Lago no clássico fox-canção “Nada além”, nunca conseguiu se livrar das contrariedades a que um cargo assim leva um artista. Como conta o historiador Orlando de Barros:

“No período em que Custódio esteve na Sbat – quase toda sua vida profissional – ocorreram três momentos particularmente tumultuados. O primeiro se estendeu de cerca de 1930 até 1935, chegando ao auge em 1933, e consistiu na disputa pelo direito de execução das canções e peças de teatro no rádio emergente. O segundo, desde o fim de 1936 a 1937, decorreu do descontentamento da distribuição dos direitos de execução musical pela Sbat aos seus criadores. O terceiro, em pleno Estado Novo, se agudizou entre 1939 e 1942, ainda resultante das reclamações dos compositores populares, suscitando, dessa vez, o surgimento de outras entidades arrecadadoras” (BARROS: 2001, p. 288).

 

Tempos de streaming

 

Mesmo depois do surgimento de uma variedade de entidades arrecadadoras e da criação do Escritório Central de Arrecadação e Distribuição (Ecad), o direito autoral, na época atual do streaming, continua a ser uma luta para quem compõe canções. Essa atividade, ao longo do século XX, e no século XXI, passou a ser exercida mais fortemente por mulheres, a exemplo de cantoras e compositoras como Maysa e Dolores Duran, que criaram na década de 1950 diversos sucessos, entre eles “Ouça” e “A noite do meu bem”, respectivamente.

Passados 74 anos desde que foi criada, a data de 7 de outubro nos lembra da importância desses e dessas que nos emprestam “sua testa/ construindo coisas pra se cantar”, como diz Caetano Veloso em “Festa imodesta”, lançada por Chico Buarque em 1974. Compositores e compositoras permanecem a brilhar, ao lado de Chiquinha Gonzaga e de outros ícones da música popular brasileira, como o imortal Pixinguinha, que com João de Barro, o Braguinha, é autor de “Carinhoso”, choro que tão bem expressa o lugar significativo que a canção ocupa na memória coletiva.

 

 

Acessando o link das fotografias de Pixinguinha disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar a imagem e verificar todos os dados referentes a ela.

 

Parabéns aos compositores e compositoras, e um viva a Herivelto Martins. Feliz Dia do Compositor Brasileiro!

 

[1] Em fins da década de 1950, a indústria do disco lançaria no Brasil o compacto simples, chamado de single nos países de língua inglesa, e que também apresentava uma faixa de cada lado, mas em 33 rotações por minuto. Era um disco em formato menor, com 7 polegadas, enquanto o 78 tinha 12.

[2] Além dos três discos 78 com sambas de Sinhô, Mário Reis, em 1928, lança outros dois: um com sambas de Caninha e J.F. Freitas; outro, com sambas de Alfredo Dermeval e Ary Barroso.

[3] Decreto nº 21.111, de 1º de março de 1932, assinado por Getúlio Vargas, então chefe do chamado Governo Provisório da República dos Estados Unidos do Brasil, aprova regulamento para os serviços de radiocomunicação no território nacional. Como deputado federal pelo Rio Grande do Sul, Vargas havia sido autor da lei do direito autoral, um dos motivos pelos quais contava com boa receptividade entre artistas. O Decreto nº 5.492, de 16/07/1928, conhecido como Lei Getúlio Vargas, durante o governo de Washington Luiz, regulou a organização das empresas de diversão e a locação de serviços teatrais, além de dispor sobre questões relacionadas ao cinema, ao rádio e à indústria do disco.

 

*André Luís Câmara é jornalista, pesquisador, poeta, mestre e doutor em Letras pela PUC-Rio, bolsista do projeto Memória e História do Arquivo-Museu de Literatura Brasileira da Fundação Casa de Rui Barbosa (AMLB-FCRB).

 

Fontes:

BARROS, Orlando de. Custódio Mesquita: um compositor romântico no tempo de Vargas (1930-45). Rio de Janeiro: Eduerj, 2001.

DICIONÁRIO Cravo Albin da música popular brasileira: https://dicionariompb.com.br/ Acesso em: 03/08/2022.

DINIZ, Edinha. Chiquinha Gonzaga: história de uma vida. Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor, 2009.

DISCOGRAFIA Brasileira do Instituto Moreira Salles: https://discografiabrasileira.com.br/ Acesso em 03/08/2022.

FRANCESCHI, Humberto M. A Casa Edison e seu tempo. Rio de Janeiro: Sarapuí, 2002.

MELLO, Zuza Homem; SEVERIANO, Jairo. A canção no tempo: 85 anos de música brasileira. V.1. São Paulo: Editora 34, 1997.

MOTTA, Nelson. 101 canções que tocaram o Brasil. São Paulo: Estação Brasil, 2016.

SEVERIANO, Jairo. Uma história da música popular brasileira: das origens à modernidade. 2ª ed. São Paulo: Editora 34, 2013.

TINHORÃO, José Ramos. Música popular – do gramofone ao rádio e TV. 2ª ed. São Paulo: Editora 34, 2014.

 

A Brasiliana Fotográfica agradece a colaboração de Isadora Cirne, assistente cultural do Departamento de Música do Instituto Moreira Salles.

Acesse aqui os artigos E a primeira-dama Nair de Teffé leva a música de Chiquinha Gonzaga para o Palácio do Catete, em 1914 e Série “1922 – Hoje, há 100 anos” I – Os Batutas embarcam para Paris, em 29 de janeiro – Uma história de música e de racismo, ambos de autoria de Andrea C. T. Wanderley, publicados na Brasiliana Fotográfica em 5 de março de 2021 e em 29 de janeiro de 2022, respectivamente.

Nota da editora:

Segundo a União Brasileira dos Compositores:

“Em 1983, o deputado Cunha Bueno apresentou o projeto de Lei 581/83, com o objetivo de oficializar o 7 de outubro de Herivelto como “o Dia do Compositor, a ser celebrado (…) em todo o território nacional”. De acordo com o documento, o dia foi festejado até 1980 apenas no Rio de Janeiro e, no ano seguinte, passou a ser celebrado também em São Paulo. A proposta do projeto era a de elevar essa comemoração a todo o país.

O projeto foi arquivado em 1989, por conta da Resolução 6/89, da Câmara dos Deputados, que definiu a extinção das proposições anteriores à redemocratização e ainda em tramitação. Mas a celebração informal se manteve — afinal, nunca é demais homenagear aqueles que criam a nossa música, uma das manifestações culturais mais fortemente associadas ao Brasil”.

Andrea C. T. Wanderley