Série “Avenidas e ruas do Brasil” XIX – A Rua dos Ourives, atual Miguel Couto, no centro do Rio de Janeiro

 

 

No 19° artigo da série Avenidas e ruas do Brasil, o destaque são as fotos da Rua dos Ourives realizadas pelo fotógrafo alagoano Augusto Malta (1864-1957) que, em 1903, tornou-se o fotógrafo oficial da prefeitura do Rio de Janeiro, cargo criado para ele. Passou a documentar a radical mudança urbanística promovida pelo então prefeito da cidade, Francisco Pereira Passos (1836-1913), período que ficou conhecido como o “bota-abaixo”. Augusto Malta trabalhou na Prefeitura até 1936, quando se aposentou. Foi o principal fotógrafo da evolução urbana do Rio nas primeiras décadas do século XX.

 

Anônimo. Augusto Malta. Rio de Janeiro. Acervo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

Anônimo. Augusto Malta. Rio de Janeiro. Acervo Arquivo Geral da Cidade do Rio de Janeiro.

 

Acessando o link para as fotografias da Rua dos Ourives produzidas por Augusto Malta disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

A origem da Rua dos Ourives, atual Rua Miguel Couto

 

Em meados do século XVIII, a Rua dos Ourives fazia parte do Caminho do Parto para Conceição, que ia da Igreja de Nossa Senhora do Parto até o Morro da Conceição. Nela começaram a se instalar todos os ourives da cidade, impedidos, a partir de 1742, de realizar sua atividade em qualquer outro lugar. A medida foi tomada pelo governador português Gomes Freire de Andrada (1757-1817), o Conde de Bobadela, com o objetivo de facilitar a arrecadação e a fiscalização, impedindo desvios do ouro, cujo quinto deveria ser pago a Portugal. A Carta Régia de 30 de julho de 1766 proibiu no Brasil as indústrias de ourives, fiadores de ouro, de sedas e algodões tecidos. O vice-rei Conde da Cunha (1700-1791), em 1767, se referia à Rua dos Ourives como a maior e mais populosa da cidade. “O ouro que ali se lavra é muito mais do que se sabe e se imagina. E quase todo extraviado das Casas de Fundição.(…) A rua é um coito de ladrões e vagabundos; todos interessados no contrabando do ouro.”

O episódio da proibição foi lembrado no romance As Mulheres de Mantilha (1870), de Joaquim Manuel de Macedo (1820-1882):

“É provável que também uma sinistra medida tomada pelo governo de Lisboa e executada pelo conde da Cunha concorresse muito para o desgosto profundo que causou a sua administração.

Ou porque se quisesse prevenir o muito descaminho do ouro em pó e em folhetas, ou porque, como parece mais verdadeiro, se resolvesse sob aquele pretexto sacrificar os interesses legítimos dos colonos aos interesses egoístas dos ourives da metrópole, a Carta Régia de 30 de julho de 1766 mandou extinguir o ofício de ourives nas capitanias de Minas Gerais, Rio de Janeiro, Bahia e Pernambuco, e foi o conde da Cunha o infeliz executor desse assassinato da ourivesaria que principalmente no Rio de Janeiro tinha chegado a um grau de perfeição que excluía o concurso dos produtos
respectivos da metrópole.

A Carta Régia de 30 de julho de 1766 era a pobreza para muitos, e a iniqüidade para todos. Um castiçal de prata amassado, uma colher de prata quebrada, uma jóia de ouro precisando de conserto, deviam ou perder-se, ou ir pedir conserto a Portugal.

O governo de Lisboa sentenciara à morte a ourivesaria do Brasil e o conde da Cunha era o algoz que enforcava a vítima no patíbulo levantado pelo despotismo”.

 

 

 

No século XIX, com a chegada de dom João VI ao Rio de Janeiro, em 1808, foram revogadas as medidas do alvará de 5 de janeiro de 1785 – assinado pela rainha dona Maria I (1734-1816) -, que proibia o estabelecimento das manufaturas e indústrias no Brasil e em todos os seus domínios ultramarinos.

 

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Trecho do alvará de 5 de janeiro de 1785

 

 

Alvará do príncipe regente João VI, de 1º de abril de 1808:

“Eu o príncipe regente faço saber aos que o presente alvará virem: que desejando promover, e adiantar a riqueza nacional, e sendo um dos mananciais dela as manufaturas, e melhoram, e dão mais valor aos gêneros e produtos da agricultura, e das artes, e aumentam a população dando que fazer a muitos braços, e fornecendo meios de subsistência a muitos dos meus vassalos, que por falta deles se entregariam aos vícios da ociosidade: e convindo remover todos os obstáculos, que podem inutilizar, e prestar tão vantajosos proveitos: sou servido abolir, e revogar toda e qualquer proibição, que haja a este respeito no Estado do Brasil, e nos meus domínios ultramarinos, e ordenar, que daqui em diante seja o país em que habitem, estabelecer todo o gênero de manufaturas, sem excetuar alguma, fazendo os seus trabalhos em pequeno, ou em grande, como entenderem que mais lhes convém, para o que. Hei por bem revogar o alvará de cinco de janeiro de mil setecentos oitenta e cinco e quaisquer leis, ou ordens que o contrário decidam, como se delas fizesse expressa, e individual menção, sem embargo da lei em contrário”.

 

Um alvará de 11 de agosto de 1815 declarou livres os ourives para trabalharem e negociarem com obras e ouro e prata. Ele passaram a viver um de seus melhores períodos e a Rua dos Ourives se transformou em uma das mais importantes ruas cariocas, passando a ter maior número de estabelecimentos comerciais da cidade.

“Declaro livre aos Ourives o trabalharem e negociarem com obras de ouro e prata.

     Eu o Principe Regente faço saber aos que o presente Alvará com força de lei virem, que havendo determinado no do 1º de abril de 1808, que fosse livre a qualquer dos meus fieis vassallos habitadores deste Estado do brazil e Dominios Ultramerinos, estabelecer manufacturas de todo o genero, e sem exccepção de alguma, revogando qualquer prohibição, que houvesse a este respeito, com o fim de augmentar e promover a industria nacional, e de não tolher a qualquer a livre faculdade de applicar-se aos trabalhos decentes e lucrosos; deve entender-se comprehendida nesta disposição a prohibição , que tinham de usar do seu officio os Ourives de ouro e prata desta Cidade, e mais partes do Brazil estabelecida na Carta Régia de 30 de Julho de 1766, para que se julgue abolida e levantada; e muito mais porque os motivos que precederem e determinaram a referida prohibição não se verificaram de todo, como mostrou a experiencia ; nem já existem depois das disposições dos Alvarás de 1 de Setembro e 12 de Outubro de 1808, que puzeram em effectiva observancia as providencias antes estabelecidas nos Capitulos 2º e 3º do de 13 de Maio de 1803, para acautelare preveniros extravios do ouro em pó, facilitando-se-lhe a fundição e promovendo-se-lhe o troco e permutas nas casas determinadas a este fim: tendo consideração a todo o referido e ao mais que me foi presente em consulta da Mesa do desembargo do Paço, com que fui servido conformar-me : hei por bemrevogar a abolir a sobredita Carta Régia de 30 de Julho de 1766; ficando livre aos Ourives de ouro e prata trabalhar nestes metaes e negociar nas obras que delles fizerem , como lhes convier.
     Pelo que : mando á Mesa do Desembargo do Paço e da Consciencia e Ordens; Presidente do meu Real Erario; Regedor da Casa da Supplicação do Brazil; Conselho da minha Real Fazenda ; Governadores e Capitães Generaes ; ea todos os tribunaes, ministros de Justiça e mais pessoas, a quem o conhecimento deste Alvará pertencer, o cumpram  e guardem, não obstante quaesquer disposições, que o contrario determinem: que todas hei por derogadas como se de cada um fizesse expressa e individual menção. E valerá como Carta passada pela Chancellaria, posto que por ella não ha de passar , e que o seu effeito haja de durar mais de um anno, sem embargo da ordenação em contrario. Dado no Rio de Janeiro a 11 de Agosto de 1815.

PRINCIPE com guarda.

     Alvará com força de lei pelo qual Vossa Alteza Real ha por bem revogar e abolir a Carta Regia de 20 de Julho de 1766 pelos motivos acima expostos.

Para Vossa Alteza real ver.

Joaquim José da Silveira o fez. Bernardo José de Souza Lobato o fez escrever.”

Em 1821, os primeiros alemães vindos para o Brasil fundaram na Rua dos Ourives o Clube Germânia. A rua também foi a moradia dos primeiros imigrantes judeus. Em 1846, a região atingiu o ápice, concentrando 66 das 78 joalherias cariocas. Segundo o romancista francês Gustavo Aimard (1818-1883), no livro Le Brésil nouveau (1886), nas casas da rua as “… janelas brilham com ouro e prata: candelabros, lampadários, custódias, relicários, toda a ourivesaria das igrejas está lá exposta, e  também faz-se as pulseiras, seus fechos, os diademas, todo o mundum muliebrem de que falam os poetas latinos… Gustavo Aimard era o pseudônimo de Olivier Gloux. Ele esteve no Brasil durante o Segundo Reinado e conheceu pessoalmente o imperador dom Pedro II (1825-1891), que o impressionou por sua simplicidade.

 

 

Em 1888, a Rua dos Ourives foi dividida em duas frações: entre as ruas São José e a Sete de Setembro passou a se chamar Rodrigo Silva e, entre a Rua do Ouvidor e o Largo de Santa Rita, manteve a denominação de Rua dos Ourives. Em 1936, a Rua dos Ourives teve seu nome alterado para Rua Miguel Couto, importante nome da medicina brasileira, que teve consultório na rua que hoje historiamos.

 

 

A Rua dos Ourives foi mencionada no conto Pobre Finoca! (1891), de Machado de Assis (1839-1908):

“Saíram todos e subiram a rua. Finoca não se enganara; Macedo estava à esquina da rua dos Ourives. Disfarçou mas fitou logo os olhos nela. Ela não tirou os seus do chão, e foram os de Alberta que receberam os dele, entre curiosa e piedosa. Macedo agradeceu o favor”.

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

AIMARD, Gustave: Le Brésil Nouveau. Paris, E. Dentú editeur, 1886, páginas 124 e 125.

GERSON, Brasil. História das Ruas do Rio. Rio de Janeiro: Bem-Te-Vi, 2013.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

O Arquivo Nacional e a história luso-brasileira

OZANAM, Luiz Henrique. A jóia mais preciosa do Brasil – joalheria em Minas Gerais 1735-1815. Tese de doutorado – Universidade Federal de Minas Gerais, 2013.

Portal Rio um olhar no tempo 1565 a 2011

Site Rede Artesanato Brasil

 

 

Os bondes do Rio de Janeiro de antigamente

O Rio de Janeiro foi a primeira cidade da América do Sul a organizar um serviço de transportes coletivos sobre trilhos de ferro. Antes dos bondes elétricos, havia os bondes à tração animal e a vapor. Vamos passear pelas ruas cariocas entre o final do século XIX e as primeiras décadas do século XX a partir de uma seleção de imagens de bondes disponível no acervo fotográfico da Brasiliana Fotográfica? São registros realizados por fotógrafos ainda não identificados, por Augusto Malta (1864 – 1957), Guilherme Santos (1871 – 1966), José Baptista Barreira Vianna(1860-1925)Juan Gutierrez (c. 1860 – 1897) e Marc Ferrez (1843 – 1923), dentre  vários outros. Contamos também, no artigo, um pouco da história do surgimento e desenvolvimento deste meio de transporte na cidade.

Acessando o link para uma seleção de fotografias de bondes do Rio de Janeiro de antigamente disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar a imagem e verificar todos os dados referentes a ela.

 

“Na verdade, o bonde foi um elemento essencial para a expansão e organização do espaço urbano no Rio de Janeiro”

 

Elisabeth von der Weid, historiadora

 

 

 

A primeira concessão para implantar o serviço dos bondes sobre trilhos e os de tração animal no Rio de Janeiro foi dada em 1856 ao médico inglês Thomas Cochrane (1805-1873), sogro do escritor José de Alencar (1829-1877), que casou-se, em 1864, com a primogênita do médico, Georgiana Augusta (1946-1923) (Diário do Rio de Janeiro, 14 de abril de 1856, sexta coluna; Descendência de José de Alencar). O primeiro trajeto ligou o Rocio (hoje Praça Tiradentes) à Tijuca com carros puxados a cavalos.

 

Ele formou a empresa Companhia de Carris de Ferro da Cidade à Boavista na Tijuca, mais conhecida como Companhia Ferro-Carril da Tijuca. Em janeiro de 1859, trafegou pela primeira vez no Rio de Janeiro um bonde puxado a burros (Jornal do Commercio, 15 de janeiro, quinta coluna; e 4 de fevereiro, segunda coluna, de 1859).

 

Gravura do primeiro bonde a tração animal que circulou no Rio de Janeiro / Rio Antigo, de Charles Dunlop

Gravura do primeiro bonde a tração animal que circulou no Rio de Janeiro / Rio Antigo, de Charles Dunlop

 

A primeira linha regular de bondes à tração animal foi inaugurada em 26 de março de 1859 pelo imperador Pedro II,  ligando o centro da cidade ao Alto da Boa Vista. A cerimônia de bênçãos ocorreu na estação central da Rua do Conde. A Família Real seguiu com membros do governo e com a família de Cochrane para o Andaraí. No outro carro seguiram diretores da companhia e alguns convidados. Foi servido um almoço a todos na chácara de F. A. Marques (Jornal do Commercio, 26 e 27 de março de 1859, segunda coluna). Havia dois veículos, importados da Inglaterra, que faziam as viagens pela manhã e pela tarde. Os carros eram puxados por burros e foram apelidados de maxambombas pelos cariocas, provavelmente por analogia aos trens da Estrada de Ferro D. Pedro II que iam até um engenho com este nome na zona rural (WEID). Em 1861, Irineu Evangelista de Souza, o Barão de Mauá (1813 – 1889), empresário pioneiro das estradas de ferro no país, assumiu a presidência da Companhia de Carris de Ferro da Cidade à Boavista, que mudou a tração animal para vapor. Em novembro de 1866, a empresa de carris da Tijuca, em dificuldades financeiras, suspendeu seus serviços e a concessão caducou em seguida, por interrupção de tráfego (WEID).

 

 

A partir do fim da década de 1860, os bondes, ainda movidos por tração animal, começaram a se multiplicar no Rio de Janeiro. Desde então, muitas empresas se constituíram para explorar o negócio. Em 1868, a Companhia Ferro-Carril do Jardim Botânico, organizada pelo Barão de Mauá, entrou em operação, com bondes puxados a burro. Mauá havia se associado ao banqueiro norte-americano Charles Bachus Greenough (1824 – 1880) que, em 1866 criou nos Estados Unidos a Botanical Garden Rail Road Company Ltd.

 

 

O primeiro trecho, da rua do Ouvidor ao Largo do Machado, foi inaugurado em outubro de 1868. Ainda neste ano os trilhos chegaram a Botafogo. A estação do Jardim Botânico só foi inaugurada em 1871.

 

 

Segundo o escritor e entusiasta do Rio Antigo Charles Julius Dunlop (1908–1987), em seu livro Apontamentos, foi nesta fase que começou a ser utilizado o termo bond para designar o novo tipo de transporte. A origem teria sido um sistema de bloco de cinco passagens instituído pela Botanical Garden. Os blocos eram comprados nas estações e as passagens tinham escrito em cima o nome da companhia, a palavra bond (título), o valor e um desenho do veículo. Em pouco tempo, o termo generalizou-se.

Em 1880, os trilhos chegavam ao alto da Gávea.

Em crônica publicada em 4 de julho de 1883, Machado de Assis (1839 – 1908) atesta o sucesso desse meio de transporte coletivo “essencialmente democrático”. Com sua inconfundível ironia, o cronista Machado, sob o pseudônimo Lélio, assinou a série coletiva “Balas de Estalo”, publicada na Gazeta de Notícias, entre os anos de 1883 e 1886. Na crônica sobre os bondes, ele divulgou, com sua fina ironia, dez de setenta artigos que regulamentariam o convívio entre os passageiros dos bondes.

 

 Balas de estalo

Ocorreu-me compor umas certas regras para uso dos que frequentam bondes. O desenvolvimento que tem tido entre nós esse meio de locomoção, essencialmente democrático, exige que ele não seja deixado ao puro capricho dos passageiros. Não posso dar aqui mais do que alguns extratos do meu trabalho; basta saber que tem nada menos de setenta artigos. Vão apenas dez.

ART. I Dos encatarroados

Os encatarroados podem entrar nos bondes com a condição de não tossirem mais de três vezes dentro de uma hora, e no caso de pigarro, quatro. Quando a tosse for tão teimosa, que não permita esta limitação, os encatarroados têm dois alvitres: — ou irem a pé, que é bom exercício, ou meterem-se na cama. Também podem ir tossir para o diabo que os carregue. Os encatarroados que estiverem nas extremidades dos bancos, devem escarrar para o lado da rua, em vez de o fazerem no próprio bonde, salvo caso de aposta, preceito religioso ou maçônico, vocação, etc., etc.

ART. II Da posição das pernas

As pernas devem trazer-se de modo que não constranjam os passageiros do mesmo banco. Não se proíbem formalmente as pernas abertas, mas com a condição de pagar os outros lugares, e fazê-los ocupar por meninas pobres ou viúvas desvalidas, mediante uma pequena gratificação.

ART. III Da leitura dos jornais

Cada vez que um passageiro abrir a folha que estiver lendo, terá o cuidado de não roçar as ventas dos vizinhos, nem levar-lhes os chapéus. Também não é bonito encostá-los no passageiro da frente.

É permitido o uso dos quebra-queixos em duas circunstâncias: — a primeira quando não for ninguém no bonde, e a segunda ao descer.

ART. IV Dos quebra-queixos

É permitido o uso dos quebra-queixos em duas circunstâncias: — a primeira quando não for ninguém no bonde, e a segunda ao descer.

ART. V Dos amoladores

Toda a pessoa que sentir necessidade de contar os seus negócios íntimos, sem interesse para ninguém, deve primeiro indagar do passageiro escolhido para uma tal confidência, se ele é assaz cristão e resignado. No caso afirmativo, perguntarlhe-á se prefere a narração ou uma descarga de pontapés. Sendo provável que ele prefira os pontapés, a pessoa deve imediatamente pespegá-los. No caso, aliás extraordinário e quase absurdo, de que o passageiro prefira a narração, o proponente deve fazê-lo minuciosamente, carregando muito nas circunstâncias mais triviais, repetindo os ditos, pisando e repisando as coisas, de modo que o paciente jure aos seus deuses não cair em outra.

ART. VI Dos perdigotos

Reserva-se o banco da frente para a emissão dos perdigotos, salvo nas ocasiões em que a chuva obriga a mudar a posição do banco. Também podem emitir-se na plataforma de trás, indo o passageiro ao pé do condutor, e a cara para a rua.

ART. VII Das conversas

Quando duas pessoas, sentadas a distância, quiserem dizer alguma coisa em voz alta, terão cuidado de não gastar mais de quinze ou vinte palavras, e, em todo caso, sem alusões maliciosas, principalmente se houver senhoras.

ART. VIII Das pessoas com morrinha

As pessoas que tiverem morrinha, podem participar dos bondes indiretamente: ficando na calçada, e vendo-os passar de um lado para outro. Será melhor que morem em rua por onde eles passem, porque então podem vê-los mesmo da janela.

ART. IX Da passagem às senhoras

Quando alguma senhora entrar, o passageiro da ponta deve levantar-se e dar passagem, não só porque é incômodo para ele ficar sentado, apertando as pernas, como porque é uma grande má-criação.

ART. X Do pagamento

Quando o passageiro estiver ao pé de um conhecido, e, ao vir o condutor receber as passagens, notar que o conhecido procura o dinheiro com certa vagareza ou dificuldade, deve imediatamente pagar por ele: é evidente que, se ele quisesse pagar, teria tirado o dinheiro mais depressa.

Os bondes deixaram as ruas na década de 1960, mas ainda frequentam o imaginário da cidade como um ícone do Rio antigo. Santa Teresa é o último bairro carioca entrecortado pelos trilhos.

Gazeta de Notícias,  04/07/1883

 

 

Na cidade do Rio de Janeiro, em 8 de outubro de 1892, foi inaugurada a primeira linha de bonde elétrico da América do Sul, pela Companhia Ferro Carril do Jardim Botânico. O bonde partiu, sob aplausos do povo, da curva do antigo Teatro Lírico e foi até a estação do Largo do Machado, conduzindo o então vice-presidente da República em exercício na presidência, marechal Floriano Peixoto (1839 – 1895) e convidados. Houve quem temesse viajar nesse primeiro veículo elétrico e a empresa mandou pintar no encosto dos bancos o aviso “A corrente elétrica nenhum perigo oferece aos srs. passageiros“. Os carros abertos eram a marca registrada dos nossos bondes, devido ao calor da cidade.

 

 

 

 

 

 

 

Uma semana depois, o escritor Machado de Assis relatou suas impressões:

“Não tendo assistido a inauguração dos bonds elétricos, deixei de falar neles. nem sequer entrei em algum, mais tarde, para receber as impressões da nova tração e contá-las. daí o meu silêncio da outra semana. anteontem, porém, indo pela praia da lapa, em um bond comum, encontrei um dos elétricos, que descia. era o primeiro que estes meus olhos viam andar…Em seguida, admirei a marcha serena do bond, deslizando como os barcos dos poetas, ao sopro da brisa invisível e amiga. mas, como íamos em sentido contrário, não tardou que nos perdêssemos de vista, dobrando ele para o largo da lapa e rua do passeio, e entrando eu na rua do catete. nem por isso o perdi de memória. a gente do meu bond ia saindo aqui e ali, outra gente entrava adiante e eu pensava no bond elétrico. assim fomos seguindo; até que, perto do fim da linha e já noite, éramos só três pessoas, o condutor, o cocheiro e eu. os dois cochilavam, eu pensava…”

Gazeta de Notícias, 16 de outubro de 1892

 

A ampliação do serviço de bondes garantia a circulação dos moradores, incentivando os negócios e a expansão da cidade. Seu papel como elemento propulsor de expansão urbana foi tão grande, que o ilustre jurista baiano Rui Barbosa (1849 – 1923) declarou, em 1898:

“O bonde foi até certo ponto a salvação da cidade. Foi o grande instrumento, o agente incomparável do seu progresso material. Foi ele que dilatou a zona urbana, que arejou a cidade, desaglomerando a população, que tornou possível a moradia fora da região central, onde até então todos nos apinhávamos sem luz, sem ar, sem espaço. (…) O Rio é realmente a pátria adotiva do bonde, a sua pátria de eleição” .

Em 1920, o bonde era o principal meio de transporte para 84% da população carioca. Segundo Ruy Castro, “…Caso se esticassem os quilômetros de trilhos da Light nas ruas do Rio, seria como ir de bonde da praça Mauá a São Paulo – eram 448 quilômetros de trilhos, com cerca de 480 carros cobrindo sessenta itinerários. Todos os usavam, dos escriturários e chapeleiras aos críticos de literatura e ministros do Supremo. Eram o veículo democrático por excelência”.

Com exceção de dois bondes que ainda trafegam pelo bairro carioca de Santa Teresa, o sistema foi aposentado em 1967, quando a última linha no Alto da Boa Vista parou de circular. O VLT, que é o bonde moderno, começou a circular no Rio de Janeiro, em maio de 2016.

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

ABREU, Maurício de A. Evolução urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, IPLANRIO/Zahar, 1987.

AZEVEDO, Aroldo. Os Cochranes do Brasil. São Paulo : Companhia Editora Nacional, 1965.

BARROS, Maria Pia Fontes Lins de; WANDERLEY, Andrea C. T. Agenda do Centro de Documentação da TV Globo

BENCHIMOL, Jaime L. Pereira Passos, um Haussmann tropical. Rio de Janeiro, Secretaria Municipal de Cultura, Turismo e Esportes, 1990.

CASTRO, Ruy. Metrópole à beira-mar. O Rio moderno dos anos 20. São Paulo : Companhia das Letras, 2019.

DUNLOP, Charles. Rio Antigo, volume I. Rio de Janeiro : Editora Rio Antigo Ltda, 1958.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MORRISON, Alen. Rio de Janeiro - História dos bondes e 75 fotografias.

MORRISON, Alen. The tramways of Brazil – a 130 years survey, 1989.

O GLOBO, 15 de maio de 2016

Portal MultiRio

Site Rio Memórias

WEID, Elisabeth von der. O bonde como elemento de expansão urbana no Rio de Janeiro. Fundação Casa de Rui Barbosa.

 

Série “Conflitos” IX – Os 120 anos da Revolta da Vacina

A Revolta da Vacina, cujo início aconteceu há 120 anos, volta a ser tema da Brasiliana Fotográfica. Foram dias, em 1904, de 10 a 16 de novembro, muito marcantes na história da saúde pública no Brasil. Foi, na época, a maior revolta urbana ocorrida no Rio de Janeiro, onde, só em 1904, cerca de 3.500 pessoas haviam morrido vitimadas pela varíola. O estopim do protesto popular foi a promulgação, em 31 de outubro de 1904, e a regulamentação, em 9 de novembro do mesmo ano, da Lei nº 1261, que tornava obrigatória a vacinação em massa contra a varíola. A lei foi colocada em prática pelo então Diretor Geral de Saúde Pública, Oswaldo Cruz (1872 – 1917).

 

 

Ele foi contratado para o cargo para combater tanto a varíola como a peste bubônica e a febre amarela, que grassavam na capital da República e que fizeram com que o Rio de Janeiro recebesse o apelido de túmulo dos estrangeiros. O prefeito do Rio de Janeiro era Francisco Pereira Passos (1836 – 1913) e, o presidente do Brasil, Rodrigues Alves (1848 – 1919), que faleceu, no final da década seguinte, durante a pandemia da gripe espanhola. O Rio de Janeiro era a maior cidade do Brasil, com cerca de 800 mil habitantes, e a questão sanitária era um grande problema: as redes de esgoto e água eram precárias e não havia coleta de lixo. A campanha pelo saneamento e de combate às doenças fazia parte de um plano de governo para mudar a imagem do Brasil no exterior, que passava pela mudança da imagem da capital federal.

 

 

Oswaldo Cruz foi chamado de Napoleão da seringa e lanceta (O Malho, 29 de outubro de 1904).

 

 

Paralelamente à revolta popular, aconteceu um movimento militar orquestrado pelos generais Silvestre Travassos (1848 – 1904) e Olímpio da Silveira (1887 – 1935), Lauro Sodré (1858-1944), Barbosa Lima (1862-1931), o major Gomes de Castro (1836-1909) e o capitão Augusto Mendes de Moraes (18?-19?), que se reuniram no dia 14 de novembro de 1904, no Clube Militar. Tinham por objetivo derrubar o governo de Rodrigues Alves, que foi aconselhado a ir para um navio de guerra, onde teria mais segurança. Ele recusou. Silvestre Travassos foi atingido por um tiro durante os confrontos e faleceu em 22 de novembro.

 

 

No dia 16 de novembro, foi decretado o estado de sítio e revogada a obrigatoriedade da vacinação. Com isso, o movimento popular arrefeceu, os serviços voltaram a funcionar e a cidade se apaziguou. Saldo do movimento: 945 prisões, 461 deportações, 110 feridos e 30 mortos (Gazeta de Notícias, 17 de novembro de 1904 e 18 de novembro de 1904).

 

 

“A vacina antivariólica já havia sido desenvolvida em 1796, pelo médico Edward Jenner, na Inglaterra. No Rio de Janeiro, a vacinação da doença era obrigatória para crianças desde 1837 e para adultos desde 1846, conforme o Código de Posturas do Município. No entanto, a regra não era cumprida porque a produção de vacinas era pequena, tendo alcançado escala comercial apenas em 1884. O imunizante também não era bem aceito pelo povo, ainda desacostumado com a própria ideia da vacinação, e diferentes boatos corriam na época, como o de quem se vacinava ganhava feições bovinas”(Portal Fiocruz).

A rejeição à vacina ocasionou uma nova epidemia de varíola no Rio de Janeiro, em 1908, com, de acordo com a Casa de Oswaldo Cruz, mais de 6.500 casos da doença. Só nesta época a população começou a procurar voluntariamente a vacina nos postos de saúde.

O Brasil só erradicou a varíola na década de 1970. O último caso de varíola humana do país foi registrado no Rio de Janeiro em 1971. E, em 1973,o Brasil recebeu o certificado da OMS de erradicação da doença (Site Invivo).

 

Leia aqui As doenças do Rio de Janeiro no início do século XX e a Revolta da Vacina em 1904, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicada em 5 de abril de 2020.

 

 

Veja aqui um documentário produzido pela Casa de Oswaldo Cruz sobre a história da varíola, de sua vacina e da Revolta da Vacina.

A vacinação é até hoje reconhecida como uma estratégia eficaz no fortalecimento de uma sociedade saudável e na preservação da saúde da população.

“A política de vacinação é responsabilidade do Programa Nacional de Imunizações (PNI) do Ministério da Saúde. Estabelecido em 1973, o PNI desempenha um papel fundamental na promoção da saúde da população brasileira. Por meio do programa, o governo federal disponibiliza gratuitamente no Sistema Único de Saúde – SUS 48 imunobiológicos: 31 vacinas, 13 soros e 4 imunoglobulinas. Essas vacinas incluem tanto as presentes no calendário nacional de vacinação quanto as indicadas para grupos em condições clínicas especiais, como pessoas com HIV ou indivíduos em tratamento de algumas doenças (câncer, insuficiência renal, entre outras), aplicadas nos Centros de Referência para Imunobiológicos Especiais (CRIE), e inclui também as vacinas COVID-19 e outras administradas em situações específicas”.

 Portal do Ministério da Saúde

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Esse artigo passou a integrar a série Conflitos, em 20 de março de 2026.

Fontes:

BENCHIMOL, Jaime Larry. Pereira Passos: um Haussmann Tropical. A renovação urbana na cidade do Rio de Janeiro no início do século XX. Rio de Janeiro: Secretaria Municipal de Cultura, Departamento Geral de Documentação e Informação Cultural, 1992.

BENCHIMOL, Jaime Larry. Reforma urbana e Revolta da Vacina na cidade do Rio de Janeiro. In: Jorge Ferreira e Lucilia de Almeida Neves Delgado (org.) O Brasil Republicano. O tempo do liberalismo excludente. Da proclamação da República à Revolução de 1930. 3. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2008.

BENTO, Claudio Moreira. A revolta da vacina obrigatória na Escola a Praia Vermelha e na Escola Preparatória e Tática de Realengo.

BIBEL, David J.; CHEN, T.H. Diagnosis of Plague: an Analysis of the Yersin-Kitasato Controversy. American Society for Microbiology, 1976.

Biblioteca Virtual Oswaldo Cruz

BRASIL. Ministério da Justiça. Relatório 1904 – 1905. Imprensa Nacional, Rio de Janeiro, 1905.

CARVALHO, José Murilo de: Os Bestializados – O Rio de Janeiro e a República que não foi. São Paulo : Companhia das Letras, 1987.

COSTA, Zouraide; ELKHOURY, Ana; FLANNERY, Brendan; ROMANO, Alessandro. Evolução histórica da vigilância epidemiológica e do controle da febre amarela no Brasil, 2011.

CURY, Bruno da Silva Mussa. Combatendo ratos, mosquitos e pessoas: Oswaldo Cruz e a saúde pública na reforma da capital do Brasil (1902-1904). / Bruno da Silva Mussa Curry. – 2012. 160 f. Dissertação (Mestrado em História) – Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro, Programa de Pós-graduação em História, Rio de Janeiro, 2012.

Dicionário Cravo Alvim

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Ministério da Saúde

MOURELLE, Thiago. A revolta da vacina. Arquivo Nacional: Que República é essa?, 21 de janeiro de 2020.

Nosso Século. São Paulo : Abril Cultural, 1980.

Portal Fiocruz – A trajetória do médico dedicado à ciência

Portal Fiocruz  – A Revolta da Vacina

Projeto Memória – Fundação Banco do Brasil

Revista da Vacina – Ministério da Saúde – Centro Cultural da Saúde

ROCHA, Oswaldo; CARVALHO, Lia de Aquino. A era das demolições Habitações Populares. Rio de Janeiro : Biblioteca Carioca, 1986

SEVCENKO, Nicolau. A Revolta da Vacina: mentes insanas em corpos rebeldes. São Paulo: Cosac Naify, 2010.

Site BBC

Site Butantã

Site CPDOC

Site Multirio

 

Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXIX – O cabaré e restaurante “Mère Louise” e o Casino Balneario Atlantico

Com fotografias produzidas por Augusto Malta (1864-1957), por Torres (18?-19?) e pela Escola de Aeronáutica Militar, a Brasiliana Fotográfica conta um pouco da história do restaurante e cabaré Mère Louise, que existiu entre os primeiros anos do século XX e 1934, quando foi demolido para dar lugar ao Casino Balneario Atlantico, inaugurado, em 1935, e demolido na década de 1970. Ficavam na Avenida Atlântica, na altura do Posto 6 e são o assunto do 29º artigo da série O Rio de Janeiro desaparecido. As duas construções marcaram a história do Rio de Janeiro de antigamente.

 

Acessando o link para as fotografias deste artigo produzidas por Augusto Malta, pela Escola de Aeronáutica Militar e por Torres disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá visualizar e magnificar as imagens.

 

Na esquina da rua da Igrejinha de Copacabana, atual Rua Francisco Otaviano, com a Avenida Atlântica, no Posto 6, em Copacabana, conhecido como o cantinho da alegria, onde os pescadores se misturavam aos romeiros que iam a já mencionada igrejinha, havia uma casa cujo dono era, pelo menos desde 1902, Edmundo Bittencourt (1886 – 1943), proprietário do jornal Correio da Manhã. Ele a alugou para a francesa Mme. Louise Chabas, (1843 – 1918), que abriu o restaurante Mère Louise, em torno de 1903, conforme noticiado pelo semanário Rua do Ouvidor, de 10 de janeiro de 1903. Foi muito elogiado por sua gastronomia. Na referida edição era sugerido: um passeio a Copacabana e comer no restaurante de Mme . Louise Chabas, perto da igrejinha, dirigido pelo sr. August Castella onde encontrarão boas iguarias e preços cômodos. Era também um hotel.

 

 

O restaurante de Mme. Chabas passou a ser, em 1907,  também o cabaré Mère Louise, que se tornou um dos cabarés mais famosos do Brasil, à maneira do de Montmartre, em Paris, onde quem saiba fazer algo sobe ao palco e… faz o que sabe!”.  Segundo o escritor Ruy Castro (1948-), no livro A Noite do Meu Bem, o estabelecimento funcionava ao estilo de um saloon do Oeste americano, com varanda, portas em vaivém dando para o salão, piano, balcão, espelho e mesas, tudo em torno de uma cadeira de balanço da qual Madame Louise controlava o movimento. Apesar do ambiente mais propício a vaqueiros, seus clientes eram a nata letrada e boêmia do Rio: políticos, ministros de Estado, diplomatas, artistas e jornalistas, alguns acompanhados de ‘amigas’ ou admiradoras. Ainda segundo Castro: Louise conhecia a todos pelo nome e ia de mesa em mesa, falando com cada um. Tal intimidade tornava natural que, em emergências, ela cedesse – pela escorchante diária de 6 mil-réis – discretos aposentos nos fundos para quem precisasse ‘repousar‘.

 

 

 

Mme. Chabas vendeu o estabelecimento, em torno de 1911, para a Companhia Cervejaria Brahma e continuou funcionando como Mère Louise, onde era oferecido não somente roleta a dez tostões, mas colos e pernas nuas como atrativo estonteante e embriagador de muita alma nova que se corrompe, de muito talento em flor que se esteriliza, de muita promissora atividade que se estiola (Gazeta de Notícias, 2 de março de 1911, terceira coluna; Gazeta de Notícias, 22 de novembro de 1911, segunda coluna; Gazeta de Notícias, 15 de junho de 2014, penúltima coluna). Ela teria então pago suas dívidas com o dinheiro da venda e anunciado que se recolheria ao Asilo da Velhice Desamparada (Fon-Fon, 26 de abril de 1913, segunda coluna; e 3 de maio de 1913). Em 1913, trabalhava no Beco das Carmelitas (O Paiz, 2 de outubro de 1913, penúltima coluna)Em 1914, foi anunciado que ela dirigiria o Recreio Ipanema, uma casa no estilo da antiga Igrejinha no fim da linha de Ipanema (Gazeta de Notícias, 30 de maio de 1914, última coluna). Foi noticiado que ela estava doente, agonizando. Na mesma reportagem, foi revelado seu verdadeiro nome: Benoit Dubieff. Na época, além do restaurante de Ipanema, possuía duas propriedades na rua Santa Clara (Correio da Manhã, 12 de novembro de 1914, quarta coluna). Neste mesmo ano, foi acionada por Joseph Espoleli, com quem havia sido casada por cerca de três meses, entre 4 de dezembro de 1905 e 7 de março de 1906, que alegava que Mme. Chabas havia vendido o Mère Louise, que não pertenceria a ela, mas aos dois (Correio da Manhã, 26 de junho de 1914, primeira coluna).

 

 

Em 1917, dirigia o Café Belevue e um hotel no Leme (Gazeta de Notícias, 21 de julho de 1917, última coluna; A Noite, 2 de maio de 1917, terceira coluna). Faleceu, pobre, em 19 de maio de 1918 e foi sepultada no dia seguinte, no Cemitério São Joao Batista (A Noite, 19 de maio de 1918, última colunaGazeta de Notícias, 20 de maio de 1918, quarta coluna; Correio da Manhã, 20 de maio de 1918, terceira coluna).

Voltando ao Mère Louise. No Carnaval de 1914, gentis senhoritas promoveram batalhas noturnas de confete e lança-perfume em frente ao restaurante. Nos fins de tarde, um aviador francês, Lucien Deneau, iniciava as batalhas de seu Bleriot. O hangar do aviador ficava em frente ao Mère Louise (O Paiz, 17 de julho de 1913, última colunaA Noite, 7 de fevereiro de 1914, primeira coluna).

Na tarde do dia 5 de julho de 1922, em que dezoito oficiais e soldados rebeldes deixaram o Forte de Copacabana para se bater até a morte contra as forças do governo de Epitácio Pessoa — os “18 do Forte” —, o Mère Louise não tinha por que se meter. Aliás, tudo recomendava a neutralidade. Mas, quando os militares passaram pela sua porta, um de seus clientes, o gaúcho Otavio Corrêa, veio lá de dentro, chegou à calçada e lhes fez um aceno. Estava aderindo à rebelião e queria uma arma. O tenente Newton Prado acedeu e entregou-lhe um fuzil Mauser. Corrêa juntou-se a eles e, na mais famosa foto que se fez da marcha, pode-se vê-lo de terno escuro e chapéu-chile — o único civil da foto —, na primeira fila. Talvez por isso tenha sido um dos primeiros a ser abatido, antes mesmo que chegassem à rua Bolívar. Com isso, o Mère Louise tinha agora um mártir (CASTRO, Ruy, 2015).

Em 1930, o Mère Louise ou Restaurante Igrejinha estava decadente, tendo sido cenário de assassinato, morte suspeita, tentativa de suicídio e outros episódios de violência. Uma curiosidade: era com a comida do Mère Louise que o então ex-presidente Washington Luís (1869 – 1957), deposto e preso no Forte de Copacabana devido à Revolução de 30, se alimentava. Em 1931, o Mère Louise quase foi fechado por autoridades do 30° distrito. No mesmo ano, em setembro, o juiz da Primeira Vara Cível deferiu o requerimento de leilão dos bens da massa falida de José Caulino, o restaurante e bar Igrejinha (Mère Louise). Foi demolido em 1934 (Correio da Manhã, 15 de setembro de 1904, quinta coluna; Jornal do Brasil, 23 de abril de 1907, segunda colunaJornal do Brasil, 15 de julho de 1907, oitava coluna; O Jornal, 6 de fevereiro de 1930, sexta coluna; O Jornal, 11 de março de 1930, sexta coluna; O Jornal, 30 de outubro de 1930, penúltima colunaO Jornal, 16 de novembro de 1930, segunda coluna; O Jornal, 3 de dezembro de 1930, penúltima colunaA Batalha, 27 de janeiro de 1931, primeira coluna; A Batalha, 28 de maio de 1931 penúltima coluna; O Jornal, 17 de junho de 1931, primeira colunaA Batalha, 26 de setembro de 1931, quarta colunaJornal do Brasil, 1° de fevereiro de 1934, sexta coluna).

 

Em seu lugar, foi inaugurado, em 20 de março de 1935, o Casino Balneario Atlantico, belo prédio em estilo art decó. Anunciado como o Palácio encantado do Posto VI. Sonho maravilhoso dos contos de Sherehazade, viria a preencher uma lacuna existente na mais bela praia do mundo: Copacabana. Foi construído pela Comp. Melhoramentos e Construcções e seu proprietário era Alberto Quatrini Bianchi  (1892 – 19?).

 

 

Antes da inauguração oficial, foi realizado no cassino um baile de carnaval, em 23 de fevereiro de 1935 (Beira-Mar, 16 de fevereiro de 1935; Correio da Manhã, 19 de março de 1935, sétima colunaA Noite, 21 de março de 1935, quarta colunaBeira-Mar, 30 de março de 1935; Fon-Fon, 9 de abril e 13 de abril de 1935).

O baile inaugural do Casino Balneario Atlantico foi a nota carnavalesca de sabbado passado. Todo o Rio elegante compareceu, por assim dizer, á festa sumptuosa que mobilizou os círculos sociaes da metrópole para o primeiro grande baile do Carnaval de 1935. Luxo. Alegria. Deslumbramento. Delírio. Nos salões do novo centro da elegância, em Copacabana, decorados pelos 96 artistas Gilberto Trompowisky e Luiz de Barros, movimentaram-se as figuras mais expressivas do nosso mundanismo. Focaliza esta pagina alguns detalhes photographicos da grande festa do Casino Balneario Atlantico, que annuncia para os quatro dias de Carnaval outros bailes igualmente sumptuosos (Fon-Fon, 9 de março de 1935).

 

 

 

Com o Cassino Copacabana Palace, oficialmente denominado Copacabana Casino-Theatro, inaugurado em 1932; e o Cassino da Urca – Casino Balneário da Urca -, inaugurado em 1933, formava o Trio de Luxo das casa de jogos do Rio de Janeiro  Neles circulavam jogadores, artistas brasileiros e estrangeiros, políticos e personalidades ilustres da sociedade.

 

 

 

 

No mesmo ano de sua inauguração, 1935, o Cine-Varieté, no Casino Balneário Atlântico, passou a receber o público, tornando-se um dos mais chiques e elegantes locais da Avenida Atlântica. Apresentava produções internacionais e nacionais e realizava matinés infantis. Aos domingos eram distribuídos brinquedos para as crianças (Beira-Mar, 9 de novembro de 1935).

 

Beira-Mar, de 1935

 

O presidente Eurico Gaspar Dutra (1883 – 1974) através do Decreto-Lei 9.215 proibiu o  jogo no Brasil, em 30 de abril de 1946, e os cassinos fecharam suas portas.  O Botafogo Futebol e Regatas inaugurou onde havia funcionado o Casino Balneario Atlantico, seu Departamento do Posto 6, em 25 de janeiro de 1947. Funcionava também no antigo cassino uma boate e salões do Dinner Club (Correio da Manhã, 23 de janeiro de 1947, segunda colunaCorreio da Manhã, 12 de fevereiro de 1947, sexta coluna; Correio da Manhã, 9 de maio de 1947, quarta coluna).

Em 1955, a TV Rio foi inaugurada onde antes funcionava o Casino Atlântico (Tribuna da Imprensa, 1° de fevereiro de 1955, sétima coluna; Tribuna da Imprensa, 13 de julho de 1955, quarta colunaCorreio da Manhã, 4 de maio de 1956, primeira coluna). Por ter criado na população o hábito de ver televisão, a emissora foi carinhosamente apelidada de A Carioquinha.

 

 

No início da década de 1970 foi despejada e o Casino Atlantico voltou à posse de seus antigos proprietários, a família Bittencourt (Jornal do Brasil, 5 de agosto de 1970, quinta coluna).

Em setembro de 1971, na maior transação imobiliária realizada no Rio, o quarteirão onde ficava o antigo Cassino foi vendido à firma H. C. Cordeiro Guerra (Jornal do Brasil, 4 de setembro de 1971, sexta coluna).

 

 

Em 1972, o prédio foi demolido e, em 1974, foi lançado o Shopping Cassino Atlântico e um hotel (Jornal do Brasil, 17 de março de 1972Jornal do Brasil, 21 de abril de 1974Jornal do Brasil, 2 de maio de 1974).

 

 

O Shopping Cassino Atlântico segue em funcionamento. O Hotel Rio Palace foi inaugurado, em 1979, e, no dia 22 de janeiro de 1980, o célebre cantor norte-americano Frank Sinatra (1915-1998) realizou no hotel seu primeiro show no Rio de Janeiro para o lançamento oficial do prédio. Foi uma apresentação para 600 pessoas.

Entre 1996 e 2017, foi arrendado pelo Grupo Accor, dono da marca Sofitel. Um retrofit, iniciado em 2017, mudou totalmente seu interior e o Hotel Fairmont Copacabana substituiu o Sofitel, tendo sido aberto em 5 de agosto de 2019.

 

Fontes:

Agenda Bafafá

Associação de Moradores de Copacabana

CABRAL, Sérgio. No tempo de Ary Barroso. São Paulo : Lazuli Editora, 2016.

CASTRO, Ruy. A noite do meu bem. São Paulo : Companhia das Letras, 2015.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

MOTA, Isabela; PAMPLONA, Patricia. Vestígios da paisagem carioca: 50 lugares desaparecidos do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro ; Mauad X, 2019.

Site Museu da TV

Site Os Divergentes

Site Posto Seis

VIEIRA, Antônio Tostes Baetas. Os cassinos trio de luxo do Rio de Janeiro: Atlântico, Copacabana e UrcaDissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Memória Social, novembro de 2013.

WANDERLEY, Andrea C.T. Série A fundação de Copacabana in Brasiliana Fotográfica, 6 de julho de 2016.

WANDERLEY, Andrea C.T. Série “Avenidas e ruas do Brasil” VII – A Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro in Brasiliana Fotográfica, 23 de dezembro de 2020.