Com fotografias produzidas por Augusto Malta (1864-1957), por Torres (18?-19?) e pela Escola de Aeronáutica Militar, a Brasiliana Fotográfica conta um pouco da história do restaurante e cabaré Mère Louise, que existiu entre os primeiros anos do século XX e 1934, quando foi demolido para dar lugar ao Casino Balneario Atlantico, inaugurado, em 1935, e demolido na década de 1970. Ficavam na Avenida Atlântica, na altura do Posto 6 e são o assunto do 29º artigo da série O Rio de Janeiro desaparecido. As duas construções marcaram a história do Rio de Janeiro de antigamente.
Na esquina da rua da Igrejinha de Copacabana, atual Rua Francisco Otaviano, com a Avenida Atlântica, no Posto 6, em Copacabana, conhecido como o cantinho da alegria, onde os pescadores se misturavam aos romeiros que iam a já mencionada igrejinha, havia uma casa cujo dono era, pelo menos desde 1902, Edmundo Bittencourt (1886 – 1943), proprietário do jornal Correio da Manhã. Ele a alugou para a francesa Mme. Louise Chabas, (1843 – 1918), que abriu o restaurante Mère Louise, em torno de 1903, conforme noticiado pelo semanário Rua do Ouvidor, de 10 de janeiro de 1903. Foi muito elogiado por sua gastronomia. Na referida edição era sugerido: um passeio a Copacabana e comer no restaurante de Mme . Louise Chabas, perto da igrejinha, dirigido pelo sr. August Castella onde encontrarão boas iguarias e preços cômodos. Era também um hotel.
O restaurante de Mme. Chabas passou a ser, em 1907, também o cabaré Mère Louise, que se tornou um dos cabarés mais famosos do Brasil, à maneira do de Montmartre, em Paris, onde quem saiba fazer algo sobe ao palco e… faz o que sabe!”. Segundo o escritor Ruy Castro (1948-), no livro A Noite do Meu Bem, o estabelecimento funcionava ao estilo de um saloon do Oeste americano, com varanda, portas em vaivém dando para o salão, piano, balcão, espelho e mesas, tudo em torno de uma cadeira de balanço da qual Madame Louise controlava o movimento. Apesar do ambiente mais propício a vaqueiros, seus clientes eram a nata letrada e boêmia do Rio: políticos, ministros de Estado, diplomatas, artistas e jornalistas, alguns acompanhados de ‘amigas’ ou admiradoras. Ainda segundo Castro: Louise conhecia a todos pelo nome e ia de mesa em mesa, falando com cada um. Tal intimidade tornava natural que, em emergências, ela cedesse – pela escorchante diária de 6 mil-réis – discretos aposentos nos fundos para quem precisasse ‘repousar‘.
Mme. Chabas vendeu o estabelecimento, em torno de 1911, para a Companhia Cervejaria Brahma e continuou funcionando como Mère Louise, onde era oferecido não somente roleta a dez tostões, mas colos e pernas nuas como atrativo estonteante e embriagador de muita alma nova que se corrompe, de muito talento em flor que se esteriliza, de muita promissora atividade que se estiola (Gazeta de Notícias, 2 de março de 1911, terceira coluna; Gazeta de Notícias, 22 de novembro de 1911, segunda coluna; Gazeta de Notícias, 15 de junho de 2014, penúltima coluna). Ela teria então pago suas dívidas com o dinheiro da venda e anunciado que se recolheria ao Asilo da Velhice Desamparada (Fon-Fon, 26 de abril de 1913, segunda coluna; e 3 de maio de 1913). Em 1913, trabalhava no Beco das Carmelitas (O Paiz, 2 de outubro de 1913, penúltima coluna). Em 1914, foi anunciado que ela dirigiria o Recreio Ipanema, uma casa no estilo da antiga Igrejinha no fim da linha de Ipanema (Gazeta de Notícias, 30 de maio de 1914, última coluna). Foi noticiado que ela estava doente, agonizando. Na mesma reportagem, foi revelado seu verdadeiro nome: Benoit Dubieff. Na época, além do restaurante de Ipanema, possuía duas propriedades na rua Santa Clara (Correio da Manhã, 12 de novembro de 1914, quarta coluna). Neste mesmo ano, foi acionada por Joseph Espoleli, com quem havia sido casada por cerca de três meses, entre 4 de dezembro de 1905 e 7 de março de 1906, que alegava que Mme. Chabas havia vendido o Mère Louise, que não pertenceria a ela, mas aos dois (Correio da Manhã, 26 de junho de 1914, primeira coluna).
Em 1917, dirigia o Café Belevue e um hotel no Leme (Gazeta de Notícias, 21 de julho de 1917, última coluna; A Noite, 2 de maio de 1917, terceira coluna). Faleceu, pobre, em 19 de maio de 1918 e foi sepultada no dia seguinte, no Cemitério São Joao Batista (A Noite, 19 de maio de 1918, última coluna; Gazeta de Notícias, 20 de maio de 1918, quarta coluna; Correio da Manhã, 20 de maio de 1918, terceira coluna).
Voltando ao Mère Louise. No Carnaval de 1914, gentis senhoritas promoveram batalhas noturnas de confete e lança-perfume em frente ao restaurante. Nos fins de tarde, um aviador francês, Lucien Deneau, iniciava as batalhas de seu Bleriot. O hangar do aviador ficava em frente ao Mère Louise (O Paiz, 17 de julho de 1913, última coluna; A Noite, 7 de fevereiro de 1914, primeira coluna).
Na tarde do dia 5 de julho de 1922, em que dezoito oficiais e soldados rebeldes deixaram o Forte de Copacabana para se bater até a morte contra as forças do governo de Epitácio Pessoa — os “18 do Forte” —, o Mère Louise não tinha por que se meter. Aliás, tudo recomendava a neutralidade. Mas, quando os militares passaram pela sua porta, um de seus clientes, o gaúcho Otavio Corrêa, veio lá de dentro, chegou à calçada e lhes fez um aceno. Estava aderindo à rebelião e queria uma arma. O tenente Newton Prado acedeu e entregou-lhe um fuzil Mauser. Corrêa juntou-se a eles e, na mais famosa foto que se fez da marcha, pode-se vê-lo de terno escuro e chapéu-chile — o único civil da foto —, na primeira fila. Talvez por isso tenha sido um dos primeiros a ser abatido, antes mesmo que chegassem à rua Bolívar. Com isso, o Mère Louise tinha agora um mártir (CASTRO, Ruy, 2015).
Em 1930, o Mère Louise ou Restaurante Igrejinha estava decadente, tendo sido cenário de assassinato, morte suspeita, tentativa de suicídio e outros episódios de violência. Uma curiosidade: era com a comida do Mère Louise que o então ex-presidente Washington Luís (1869 – 1957), deposto e preso no Forte de Copacabana devido à Revolução de 30, se alimentava. Em 1931, o Mère Louise quase foi fechado por autoridades do 30° distrito. No mesmo ano, em setembro, o juiz da Primeira Vara Cível deferiu o requerimento de leilão dos bens da massa falida de José Caulino, o restaurante e bar Igrejinha (Mère Louise). Foi demolido em 1934 (Correio da Manhã, 15 de setembro de 1904, quinta coluna; Jornal do Brasil, 23 de abril de 1907, segunda coluna; Jornal do Brasil, 15 de julho de 1907, oitava coluna; O Jornal, 6 de fevereiro de 1930, sexta coluna; O Jornal, 11 de março de 1930, sexta coluna; O Jornal, 30 de outubro de 1930, penúltima coluna; O Jornal, 16 de novembro de 1930, segunda coluna; O Jornal, 3 de dezembro de 1930, penúltima coluna; A Batalha, 27 de janeiro de 1931, primeira coluna; A Batalha, 28 de maio de 1931 penúltima coluna; O Jornal, 17 de junho de 1931, primeira coluna; A Batalha, 26 de setembro de 1931, quarta coluna; Jornal do Brasil, 1° de fevereiro de 1934, sexta coluna).
Em seu lugar, foi inaugurado, em 20 de março de 1935, o Casino Balneario Atlantico, belo prédio em estilo art decó. Anunciado como o Palácio encantado do Posto VI. Sonho maravilhoso dos contos de Sherehazade, viria a preencher uma lacuna existente na mais bela praia do mundo: Copacabana. Foi construído pela Comp. Melhoramentos e Construcções e seu proprietário era Alberto Quatrini Bianchi (1892 – 19?).
Antes da inauguração oficial, foi realizado no cassino um baile de carnaval, em 23 de fevereiro de 1935 (Beira-Mar, 16 de fevereiro de 1935; Correio da Manhã, 19 de março de 1935, sétima coluna; A Noite, 21 de março de 1935, quarta coluna; Beira-Mar, 30 de março de 1935; Fon-Fon, 9 de abril e 13 de abril de 1935).
O baile inaugural do Casino Balneario Atlantico foi a nota carnavalesca de sabbado passado. Todo o Rio elegante compareceu, por assim dizer, á festa sumptuosa que mobilizou os círculos sociaes da metrópole para o primeiro grande baile do Carnaval de 1935. Luxo. Alegria. Deslumbramento. Delírio. Nos salões do novo centro da elegância, em Copacabana, decorados pelos 96 artistas Gilberto Trompowisky e Luiz de Barros, movimentaram-se as figuras mais expressivas do nosso mundanismo. Focaliza esta pagina alguns detalhes photographicos da grande festa do Casino Balneario Atlantico, que annuncia para os quatro dias de Carnaval outros bailes igualmente sumptuosos (Fon-Fon, 9 de março de 1935).
Com o Cassino Copacabana Palace, oficialmente denominado Copacabana Casino-Theatro, inaugurado em 1932; e o Cassino da Urca – Casino Balneário da Urca -, inaugurado em 1933, formava o Trio de Luxo das casa de jogos do Rio de Janeiro Neles circulavam jogadores, artistas brasileiros e estrangeiros, políticos e personalidades ilustres da sociedade.
No mesmo ano de sua inauguração, 1935, o Cine-Varieté, no Casino Balneário Atlântico, passou a receber o público, tornando-se um dos mais chiques e elegantes locais da Avenida Atlântica. Apresentava produções internacionais e nacionais e realizava matinés infantis. Aos domingos eram distribuídos brinquedos para as crianças (Beira-Mar, 9 de novembro de 1935).
O presidente Eurico Gaspar Dutra (1883 – 1974) através do Decreto-Lei 9.215 proibiu o jogo no Brasil, em 30 de abril de 1946, e os cassinos fecharam suas portas. O Botafogo Futebol e Regatas inaugurou onde havia funcionado o Casino Balneario Atlantico, seu Departamento do Posto 6, em 25 de janeiro de 1947. Funcionava também no antigo cassino uma boate e salões do Dinner Club (Correio da Manhã, 23 de janeiro de 1947, segunda coluna; Correio da Manhã, 12 de fevereiro de 1947, sexta coluna; Correio da Manhã, 9 de maio de 1947, quarta coluna).
Em 1955, a TV Rio foi inaugurada onde antes funcionava o Casino Atlântico (Tribuna da Imprensa, 1° de fevereiro de 1955, sétima coluna; Tribuna da Imprensa, 13 de julho de 1955, quarta coluna; Correio da Manhã, 4 de maio de 1956, primeira coluna). Por ter criado na população o hábito de ver televisão, a emissora foi carinhosamente apelidada de A Carioquinha.
No início da década de 1970 foi despejada e o Casino Atlantico voltou à posse de seus antigos proprietários, a família Bittencourt (Jornal do Brasil, 5 de agosto de 1970, quinta coluna).
Em setembro de 1971, na maior transação imobiliária realizada no Rio, o quarteirão onde ficava o antigo Cassino foi vendido à firma H. C. Cordeiro Guerra (Jornal do Brasil, 4 de setembro de 1971, sexta coluna).
Em 1972, o prédio foi demolido e, em 1974, foi lançado o Shopping Cassino Atlântico e um hotel (Jornal do Brasil, 17 de março de 1972; Jornal do Brasil, 21 de abril de 1974; Jornal do Brasil, 2 de maio de 1974).
O Shopping Cassino Atlântico segue em funcionamento. O Hotel Rio Palace foi inaugurado, em 1979, e, no dia 22 de janeiro de 1980, o célebre cantor norte-americano Frank Sinatra (1915-1998) realizou no hotel seu primeiro show no Rio de Janeiro para o lançamento oficial do prédio. Foi uma apresentação para 600 pessoas.
Entre 1996 e 2017, foi arrendado pelo Grupo Accor, dono da marca Sofitel. Um retrofit, iniciado em 2017, mudou totalmente seu interior e o Hotel Fairmont Copacabana substituiu o Sofitel, tendo sido aberto em 5 de agosto de 2019.
Fontes:
Associação de Moradores de Copacabana
CABRAL, Sérgio. No tempo de Ary Barroso. São Paulo : Lazuli Editora, 2016.
CASTRO, Ruy. A noite do meu bem. São Paulo : Companhia das Letras, 2015.
Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional
MOTA, Isabela; PAMPLONA, Patricia. Vestígios da paisagem carioca: 50 lugares desaparecidos do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro ; Mauad X, 2019.
VIEIRA, Antônio Tostes Baetas. Os cassinos trio de luxo do Rio de Janeiro: Atlântico, Copacabana e Urca. Dissertação apresentada ao Programa de PósGraduação em Memória Social da Universidade Federal do Estado do Rio de Janeiro como requisito parcial para a obtenção do título de Mestre em Memória Social, novembro de 2013.
WANDERLEY, Andrea C.T. Série A fundação de Copacabana in Brasiliana Fotográfica, 6 de julho de 2016.
WANDERLEY, Andrea C.T. Série “Avenidas e ruas do Brasil” VII – A Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro in Brasiliana Fotográfica, 23 de dezembro de 2020.















