Série “Carnavais de antigamente” X – O carnaval de 1919: o carnaval da revanche, o carnaval triunfante!

Com uma imagem de autoria do alagoano Augusto Malta (1864-1957), fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro, entre 1903 e 1936, a Brasiliana Fotográfica relembra o carnaval carioca de 1919, o primeiro grande evento realizado na cidade após a pandemia de Gripe Espanhola. Após o luto pela doença, o povo foi à forra! Foi o carnaval da revanche, o carnaval triunfante!

 

 

 

Vamos para a Festa da Penha de 1918, uma festa religiosa realizada no alto do morro. Neste ano aconteceu nos dois primeiros domingos de outubro, foi suspensa devido à Gripe Espanhola, e voltou a realizar-se em 8 e 15 de dezembro (O Paiz, 6 de outubro de 1918, terceira colunaO Paiz, 8 de dezembro de 1918, penúltima coluna). Mas era no sopé da pedra onde está construída a Igreja da Penha que a festa atraía, segundo o jornalista Jota Efegê (1902-1987): “Os boêmios, o povo da lira, a gente do samba, e com eles os malandros, os valentes, os capoeiras sempre acorriam aos festejos da Penha. Misturavam-se às famílias (principalmente portuguesas) que lá iam para seus piqueniques regados ao farto verdasco”.

E durante a Festa da Penha, que normalmente era frequentada por cerca de 60 mil pessoas, e que abria o período carnavalesco, Oscar José Luiz de Morais (1883-1961), conhecido como Caninha, frequentador, no início do século XX, das casas das tias baianas da Pequena África, e amigo dos sambistas Donga (1889-1974), João da Baiana (1887-1974) e Pixinguinha (1897-1973), lançou uma música que fez muito sucesso, o maxixe Gripe Espanhola cuja letra era:

 

 

A Espanhola está aí

A Espanhola está aí

A coisa não está brincadeira

Quem tiver medo de morrer não venha

Mais à Penha

 

E estava mesmo! A Gripe Espanhola aconteceu, entre 1918 e 1920, em três ondas. Entre os meses de setembro e novembro de 1918, a epidemia assolou o Brasil. Estima-se que cerca de 65% da população brasileira tenha sido infectada pela Gripe Espanhola e por volta de 35.240 pessoas tenham morrido em São Paulo e no Rio de Janeiro e 300 mil em todo o Brasil. Esses números variam e diversas fontes os consideram abaixo das estatísticas reais. A pandemia acometeu cerca de 50 % da população mundial e a Organização Mundial de Saúde estima que tenha causando entre 20 e 40 milhões de mortes.

 

 

Depois da tragédia, veio a esbórnia! O que aconteceu no Rio de Janeiro, entre o sábado de carnaval e a quarta-feira de cinzas de 1919 – 1º e 5 de março – foi um carnaval animadíssimo, como uma vingança contra a terrível doença que havia atingido intensamente a cidade.

 

 

Texto de Pierrot, pseudônimo do jornalista Manuel Bastos Tigre (1882-1957), publicado no Correio da Manhã, 20 de janeiro de 1919:

“CARNAVAL

Quem não morreu da Espanhola, quem dela pôde escapar não dê mais tratos à bola, toca a rir, toca a brincar…A quadra não é de prantos! Tragam nos lábios sorrisos pois já por todos os cantos se ouve a música dos guisos. O Carnaval está na porta e da tristeza e da dor Momo a sequência nos corta com seu rabumba atreador.

A Folia está na rua e aos requebros do “Can Can” vai-se ao império da Lua numa alegria louçã. Vai o prazer aos confins , remexe-se a Terra inteira, ao som vivaz dos clarins, ao roncar do Zé Pereira.

Pinta-se a manta e o sete, ao jogar com as meninas tempestades de confete, de “Redó” e de serpentinas. Só há momentos simpáticos pros cavalheiros que ufanos vão brincar nos Democráticos ou nos bravos Fenianos. Por isso, pois, minha gente, bolas aos planos sinistros sobre o novo presidente, sobre os futuros ministros, sobre o caso complicado, cheio de negras mazelas, do tal Comissariado, com as suas muitas tabelas.

Deus Momo toca a rebate!…Ei-lo ! A Folia cá está!… Um viva à Flor do Abacate a ao Ameno Resedá!…”

                                                                                    Pierrot

 

 

No 12º capítulo das “Memórias de Nelson Rodrigues” foi publicado, em 10 de março de 1967, no Correio da Manhã: 

“Começou o Carnaval e, de repente, da noite para o dia, usos, costumes e pudores tornaram-se antigos, obsoletos, espectrais. As pessoas usavam a mesma cara, o mesmo feitio de nariz, o mesmo chapéu, a mesma bengala (naquele tempo, ainda se lavava a honra a bengaladas). Mas algo mudara. Sim, toda a nossa íntima estrutura fora tocada, alterada e, eu diria mesmo, substituída… Éramos outros seres que nem bem conheciam as próprias potencialidades. Cabe então a pergunta: e por quê? Eu diria que era a morte, sim a morte que desfigurava a cidade e a tornava irreconhecível. A Espanhola trouxera no ventre costumes jamais sonhados. E, então, o sujeito passou a fazer coisas, a pensar coisas, a sentir coisas inéditas e, mesmo, demoníacas… Estou aqui reunindo as minhas lembranças. Aquele Carnaval foi, também, e sobretudo, uma vingança dos mortos mal vestidos, mal chorados e, por fim, mal enterrados. Ora, um defunto que não teve o seu bom terno, a sua boa camisa, a sua boa gravata é mais cruel e mais ressentido do que um Nero ultrajado. E o Zé de S. Januário está me dizendo que enterrou sujeitos em ceroulas, e outros nus como santos. A morte vingou-se, repito, no Carnaval… E tudo explodiu no sábado de Carnaval. Vejam bem: até sexta-feira, isto aqui era o Rio de Machado de Assis; e, na manhã seguinte, virou o Rio de Benjamim Costallat ou, ainda, do Theo Filho… Desde as primeiras horas de sábado, houve uma obscenidade súbita, nunca vista, e que contaminou toda a cidade. Eram os mortos da Espanhola e tão humilhados e tão ofendidos que cavalgavam os telhados, os muros, as famílias… Nada mais arcaico do que o pudor da véspera. Mocinhas, rapazes, senhoras, velhos cantavam uma modinha tremenda. Eis alguns versos: “Na minha casa não racha lenha. Na minha racha, na minha racha/ Na minha casa não há falta de água/ Na minha abunda”, etc. etc. As pessoas se esganiçavam nos quatro dias…”

 

 

Anos depois, Carlos Heitor Cony (1926 – 2018) escreveu, na Folha de São Paulo, de 19 de fevereiro de 1996, um artigo sobre a Gripe Espanhola e o carnaval de 1919:

“Carnaval vem, Carnaval vai, e eu não consigo esquecer o Carnaval que não vivi, nem nascido era, o Carnaval de 1919.
Mário Filho, irmão de Nelson Rodrigues, que deu nome ao estádio do Maracanã, sempre me falava nesse Carnaval paradisíaco, os olhos dele estufavam dentro das órbitas, rememorando bacanais terríveis, terríveis esbórnias, um Carnaval apocalíptico -e seus cabelos cor-de-fogo ficavam eriçados como as cerdas bravas do javali-, imagem do Eça de Queiroz que Nelson divulgou à saciedade.
Havia um motivo para o eriçamento dos cabelos cor-de-fogo do Mário: ele vira e ouvira coisas naquele remoto ano, logo depois da Primeira Guerra Mundial e da gripe espanhola que matou milhares de pessoas em todo o mundo.
No Rio, o sujeito ia atravessar a rua, botava o pé no meio-fio com plena saúde e chegava morto ao meio-fio do outro lado. Era fulminante a gripe, os parentes deixavam os mortos nos bondes, pagavam a passagem deles, como se passageiros fossem. Não havia tempo nem lugar para o enterro.
Natural que, depois da fase mortuária, viesse a fase libertária, ou libertina, basta dizer que as delegacias da cidade registraram a queixa de 4.315 defloramentos e outros tantos casos de abandono do lar, adultério e até incesto.
E Mário Filho arregalava os olhos, os cabelos cor-de-rosa vibravam, Nelson apreciava a exaltação do irmão, nunca entrou nesse tema, deixou-o para Mário, que tentou, tentou, tocou no assunto num outro romance, mas não foi fundo, como o tema pedia e o irmão mais jovem esperava.
E assim é que o Carnaval de 1919 permanece inédito, à espera que algum desocupado encare a época, o Rio da gripe e do depois da gripe, o Rio cuja violência explodiu no sexo de um Carnaval como nunca houve nem haveria igual.
A idéia de Mário era pegar como narrador um personagem nascido nove meses depois, um filho dessa esbórnia, desse pânico pela morte que estourou donzelas e famílias. Os brasileiros nascidos na feliz data de novembro de 1919 que se habilitem”.

A folia de Momo foi festejada no Rio de Janeiro por cerca de 400 mil pessoas em um clima de euforia de fim de mundo, afinal não se sabia se a gripe voltaria. Poderia ser o último carnaval de muitos foliões! Traumas e medos foram transformados em euforia. Além disso, a crônica carnavalesca estava em seu auge e os jornalistas ligados ao carnaval, importantes tanto nas redações como na sociedade carioca, noticiavam o dia da dia dos festejos tornando a imprensa uma grande e crucial promotora do sucesso do carnaval triunfante!

Felizmente, a Espanhola não voltou ao Brasil!

Acesse aqui todos os artigos da Série Carnavais de antigamente.

 

Andrea C. T. Wanderley

Pesquisadora e editora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Acervo Casa do Choro

BUTTER, David. De sonho e de desgraça: o Carnaval carioca de 1919. Rio de Janeiro : Mórula Editorial, 2022.

EFEGÊ, Jota. Meninos, eu vi. Rio de Janeiro: Funarte, 1985.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Dicionário Ricardo Cravo Albim da Música Popular Brasileira

SANTOS, Daniel Santana; VAISBIH, Renato. A Cobertura do Carnaval de 1919 nas Páginas do Correio da Manhã e da Gazeta de Notícias. Intercom – Sociedade Brasileira de Estudos Interdisciplinares da Comunicação 44º Congresso Brasileiro de Ciências da Comunicação – VIRTUAL – 4 a 9/10/2021

SANTOS, Ricardo Augusto dos. O Carnaval, a peste e a ‘espanhola’. História, Ciências, Saúde – Manguinhos, v. 13, n. 1, p. 129-58, Jan.-Mar. 2006.

SIMAS, Luiz Antonio. A origem da Festa da Penha.

WANDERLEY, Andrea C. T. E o ex e futuro presidente do Brasil morreu de gripe…a Gripe Espanhola de 1918 in Brasiliana Fotográfica, 23 de março de 2020.

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