Série “Teatros e cinemas do Brasil” XVI e Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” X – O centenário do Cinema Odeon

O atual prédio do Cinema Odeon, fotografado pelo alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), em torno de 1930, foi inaugurado em 3 de abril em 1926, na Praça Floriano, nº 7, no auge da presença de salas de cinema na Cinelândia, no centro do Rio (O Paiz, 4 de abril de 1926, segunda coluna). Possuía capacidade para 1.344 pessoas, entre plateia e camarotes. (Jornal do Commercio, 2 de abril de 1926, quarta colunaO Paiz, 4 de abril de 1926, segunda coluna). O edifício, cujo arquiteto foi o alemão Ricardo Wriedt (? – 1961), combina elementos estruturais clássicos com detalhes decorativos Art Déco. Wriedt também projetou a casa, de estilo normando, de Eva Klabin (1903 – 1991), na Lagoa; e o Edifício Novo Mundo, na Lapa. Ele tem projetos tanto no Rio de Janeiro como em outras cidades do Brasil.

O cinema Odeon passou por reformas em fins do século XX e, sob a administração do Grupo Estação, foi fechado em 2014, devido a dívidas. Reaberto, em 2015, como Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro, passou a ser, além de sala de cinema, um espaço para cursos, palestras e espetáculos.

O Cine Odeon mantém viva a tradição dos cinemas de rua do Rio de Janeiro e é um monumento à memória do cinema brasileiro e à vitalidade cultural carioca. É a sala de cinema mais icônica do Rio de Janeiro e resiste no quarteirão dos antigos palácios de cinema da cidade. Seu nome tem origem na Antiguidade: os odeons eram os prédios greco-romanos onde aconteciam espetáculos musicais e competições de poesias. Eram menores do que os teatros e possuíam uma cobertura para melhorar a acústica. Muitos teatros e cinemas de todo o mundo trazem este mesmo nome.

 

 

“É o mais belo, o mais luxuoso, o mais confortável e o mais tudo quanto pode desejar de agradável em um cinema, de quantos que existem no Rio…É a realização plena de um sonho desse grande idealista do cinema entre nós, o Sr. Francisco Serrador”.

 Jornal do Commercio, 2 de abril de 1926, quarta coluna

 

 

odeon5

Aspectos da inauguração do Cinema Odeon / Cinearte, 21 de abril de 1926

Aspectos da inauguração do Cinema Odeon / Cinearte, 21 de abril de 1926

 

O primeiro filme exibido na nova sala foi Graustark ou Amor de Príncipe, estrelado por Norma Talmadge (1894 – 1957), Eugene O’Brien (1880-1966) Marc McDermott (1871-1929).

 

 

 

 

 

Passou por reformas em fins do século XX e, sob a administração do Grupo Estação, foi fechado em 2014, devido a dívidas. Reaberto, em 2015, como Centro Cultural Luiz Severiano Ribeiro – o Cine Odeon passou a ser, além de sala de cinema, um espaço para cursos, palestras e espetáculos.

 

” O ODEON é parte da memória cultural do Rio de Janeiro e representa uma época em que o cinema e o Centro da cidade se confundiam e se completavam. Sua história acompanha as mudanças da cidade ao seu redor ao longo dos seus 90 anos e continua a encantar o público, combinando com maestria a tradição e a renovação, o clássico e o contemporâneo, sem nunca perder a força da sua identidade“.

Site do Cine Odeon (desativado)

 

Luciano FErrez. Cine Odeon, 1926. Rio de Janeiro, RJ / Acervo Arquivo Nacional

Luciano Ferrez. Fachada do Odeon, 1926. Rio de Janeiro, RJ / Acervo Arquivo Nacional

 

O primeiro Cinema Odeon

 

 

Lembramos aqui que o primeiro Cinema Odeon foi inaugurado, em 16 de agosto de 1909, na então Avenida Central, atual Rio Branco, nº 137, esquina com a Rua Sete de Setembro, instalada pelo Srs. Zambelli & C., no Palacete Guinle.

 

 

Entre 1909 e 1913, o pianista Ernesto Nazareth (1863 – 1934) tocava na sala de espera, tendo merecido um elogio do também pianista e compositor Henrique Oswald (1852 – 1931), que o ouviu no Cinema Odeon: “É admirável esse moço. Que música ele faz! Eu mesmo seria incapaz de interpretá-la com aquela mestria, aquele prodígio de ritmo. E aqui, perdido nesta indiferença…”. Nazareth havia dedicado o tango Batuque (1901) a Oswald.

 

Ernesto Nazareth / Exposição comemorativa do centenário do nascimento de Ernesto Nazareth : 1863-1934

Ernesto Nazareth / Exposição comemorativa do centenário do nascimento de Ernesto Nazareth : 1863-1934

 

Nazareth retornou ao cinema, entre 1913 e 1918, como pianista da orquestra de Eduardo Andreozzi (1892-1979). Villa-Lobos (1887 – 1959) era, na ocasião, o violoncelista. O compositor e professor francês Darius Milhaud (1892 – 1974), que passou uma temporada no Brasil, também o ouviu tocar no Odeon e, posteriormente, escreveu sobre ele em sua autobiografia Notes san musique. Foi também no Odeon que o pianista polonês Arthur Rubinstein (1887-1982) o ouviu tocar, tendo ficado impressionado com sua performance. Sua composição, o tango Odeon, publicado em 1909 pela Casa Mozart (E. Bevilacqua & Cia.) foi dedicado “à distinta empresa Zambelli & Cia.”, proprietária, como já mencionado, do Cinema Odeon. A primeira gravação foi realizada por ele com Pedro Alcântara (1866 – 1929) ao flautim, em 1912. Não foi, na época, uma peça de especial destaque, mas tornou-se um de seus maiores sucessos na segunda metade do século XX.

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Site Ernesto Nazareth 150 Anos – Instituto Moreira Salles

Site Musica Brasilis

Youtube

E o Oscar vai para…(II)

No próximo domingo, o filme brasileiro O Agente Secreto (2025), de Kleber Mendonça Filho (1968-)concorre em quatro categorias na premiação do Oscar, que será realizada em Los Angeles, nos Estados Unidos: Melhor Filme, Melhor Filme Estrangeiro, Melhor Ator – com Wagner Moura (1976-); e pelo prêmio de Melhor Seleção de Elenco, categoria que faz sua estreia na premiação este ano, com Gabriel Domingues (19?-) concorrendo. Além disso, o brasileiro Adolpho Veloso (1989-) foi indicado na categoria Melhor Fotografia pelo filme Sonhos de Trem. A Brasiliana Fotográfica homenageia o cinema brasileiro destacando os 15 artigos publicados na Série Teatros e Cinemas do Brasil e também o artigo E o Oscar vai para…  Viva o cinema nacional! Viva a cultura brasileira!

 

 

Nestes artigos, o leitor poderá navegar por inúmeras fotos presentes em nosso acervo, produzidas por diversos fotógrafos como Alfredo Krausz (1902 – 1953), Augusto Malta (1864 – 1957) e Marc Ferrez (1843 – 1923); e conhecer um pouco mais da história do cinema e do teatro brasileiro e também sobre Benjamin Abrahão Calil Botto (1901 – 1938)Jorge Kfuri (1893 – 1965)João Stamato (1886 – 1951)Nicola Parente (1847 – 1911)Marc Ferrez (1843 – 1923) e seus filhos; e Walter Garbe (18? – 19?), fotógrafos que fizeram parte da história do cinema no Brasil, e que já foram temas de artigos publicados na Brasiliana Fotográfica.

 

 

E o Oscar vai para…, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 2 de março de 2025

 

Série “Teatros e cinemas do Brasil”

 

Série “Teatros e cinemas do Brasil” I e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” I – Salas de cinema do Rio de Janeiro do início do século XXde autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica,  publicado em 26 de fevereiro de 2016

Série “Teatros e cinemas do Brasil ” II – Os teatros do Brasil, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 21 de março de 2016

Série “Teatros e cinemas do Brasil” III – A inauguração do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 14 de julho de 2017

Série “Teatros e cinemas do Brasil” IV - Cinema no Brasil – a primeira sessão e um pouco da história do Cinema Odeon, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 8 de julho de 2021

Série “Teatros e cinemas do Brasil” V e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XII – O Teatro Lírico (Theatro Lyrico), de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 16 de setembro de 2021

Série “Teatros e cinemas do Brasil” VI - O Theatro de Santa Isabel, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 28 de outubro de 2021

Série “Teatros e cinemas do Brasil VII – Teatro Amazonas (Theatro Amazonas), em Manaus, a “Paris dos Trópicos”, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 28 de dezembro de 2021

Série “Teatros e cinemas do Brasil” VIII - O Teatro João Caetano, no Rio de Janeiro, no Dia Mundial do Teatro, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 27 de março de 2023

Série “Teatros e cinemas do Brasil” IX – Dia do Cinema Brasileiro, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 19 de junho de 2023

Série “Teatros e cinemas do Brasil” X e Série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXV – O Theatro Phenix, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado em 5 de setembro de 2023

Série “Teatros e cinemas do Brasil” XI – O Theatro da Paz, em Belém do Pará, inaugurado em 15 de fevereiro de 1878, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicado em 15 de fevereiro de 2024

Série “Teatros e cinemas do Brasil ” XII - A Lanterna Mágica que iluminava o Cine Delícia: imagens e cinema na coleção Jota Soares – FUNDAJ, de autoria do historiador Tásso Brito – FUNDAJ, publicado em 29 de maio de 2024

Série “Teatros e cinemas do Brasil” XIII – Marc Ferrez e o cinema, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, publicado em 19 de junho de 2024

Série “Teatros e cinemas do Brasil” XIV – O Cinema Íris, o mais antigo cinema em atividade no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, em 5 de fevereiro de 2026

Série “Teatros e cinemas do Brasil” XV – Fotos aéreas da Cinelândia no centenário da revista “Cinearte” , de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica, em 3 de março de 2026

 

Concorrentes de O Agente Secreto no Oscar 2026

 

oscar

 

Na categoria Melhor Filme os concorrentes são: Bugonia, F-1, Frankenstein, Hamnet, Marty Supreme, Uma Batalha após a outra, Valor Sentimental, Pecadores e Sonhos de Trem. O vencedor foi Uma Batalha após a outra.

Na categoria Melhor Filme Estrangeiro os concorrentes são: A voz de Hind Rajab (Tunísia), Foi apenas um acidente (França), Sirat (França) e Valor Sentimental (Noruega). Este último foi o vencedor.

Na categoria Melhor Ator, Wagner Moura concorre com Timothée Chalamet (1995-) por Marty Supreme, Leonardo DiCaprio (1974-) por Uma Batalha após a outra, Ethan Hawke (1970-) por Blue Moon, e Michael B. Jordan (1987-) por Pecadores. Jordan foi o vencedor.

Finalmente, na categoria estreante Melhor Seleção de Elenco, Gabriel Domingues concorre com Nina Gold (1967-) por Hamnet, Jennifer Venditti (19?-) por Marty Supreme, Cassandra Kulukundis (1971-) por Uma Batalha após a outra e Francine Maisler (19?-) por Pecadores. O vencedor foi  Uma Batalha após a outra.

 

 

Concorrentes de Adolpho Veloso por Sonhos de Trem na categoria Melhor Fotografia

 

Os concorrentes do brasileiro Adolpho Veloso são: Dan Laustsen (1954-) por Frankenstein, Darius Khondji (1955-) por Marty Supreme, Michael Bauman (19?) por Uma Batalha após a outra e Autumn Durald Arkapaw (1979-) por Pecadores, que foi a vencedora.

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

Esse artigo foi atualizado em 15 de março de 2026.

Série “Teatros e cinemas do Brasil” XV – Fotos aéreas da Cinelândia no centenário da revista “Cinearte”

Com diversas fotos aéreas da Cinelândia, provenientes dos acervos do Museu Aeroespacial e do Instituto Moreira Salles (IMS), instituições parceira e fundadora da Brasiliana Fotográfica, respectivamente, o portal publica o 15º artigo da série Teatros e cinemas do Brasil, que celebra o centenário da primeira edição da revista Cinearte, importante publicação para a crítica e para o estudo do cinema nacional, produzida por advogados, cineastas, críticos de cinema, educadores, intelectuais e jornalistas. 

 

 

A Cinelândia, idealizada pelo empresário espanhol Francisco Serrador (1872 – 1941), foi durante muito tempo, ao longo do século XX, o epicentro da vida cultural do Rio de Janeiro, com uma grande concentração de cinemas, teatros, bares e restaurantes. Fica no entorno da Praça Marechal Floriano, onde se encontram os prédios da Biblioteca Nacional, do Theatro Municipal do Rio de Janeiro, do Palácio Pedro Ernesto e do Centro Cultural da Justiça Federal e o Palácio Monroe, demolido em 1976.

 

 

As fotos aéreas destacadas nesse artigo são das décadas de 1920, 1930 e 1940. A mais antiga foi produzida em torno de 1926 pela The Aircraft Operating Co. Ltd. e pertence ao IMS. Lembramos aqui que as primeiras fotos aéreas no Brasil foram realizadas, em 1916, pelo fotojornalista Jorge Kfuri (1893 – 1965) que, na época, trabalhava para o periódico A Noite.

 

 

Acessando o link para as fotos aéreas da Cinelândia disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Breve história da revista Cinearte

 

 

Cinearte foi lançada, em 3 de março de 1926, por Mário Marino de Carvalho Behring (1876 – 1933), na época diretor da Biblioteca Nacional, cargo que ocupou entre 1924 e 1932; e pelo cineasta, ator, produtor e crítico de cinema brasileiro, Adhemar Gonzaga (1901 – 1978). Teve como origem a sessão de cinema da revista cultural Para Todos…, onde Gonzaga era repórter. Após 561 edições, sua circulação foi encerrada, em julho de 1942. Inspirada na revista norte-americana Photoplay, lançada em 1910, seus principais assuntos eram os filmes, a indústria e as fofocas de Hollywood, a defesa do cinema brasileiro e da necessidade da criação de uma indústria audiovisual nacional. Tinha muitas propagandas de produtoras estrangeiras e de salas de cinema. Surgiu quando a mídia passava a ter lugar de destaque na formação cultural da sociedade e o interesse pelo cinema crescia. A imprensa acompanhou o fenômeno.

 

 

Um dos pioneiros do cinema nacional, Adhemar foi um dos fundadores, em 1917, com  jovens intelectuais como Otávio de Faria (1908 – 1980) e Plínio Sussekind Rocha (1911 – 1972), de um dos  primeiros cineclubes do Brasil, o Cineclube Paredão, cujo objetivo era estudar o cinema como uma arte. Fundou também a Cinédia, em março de 1930, o mais completo estúdio cinematográfico brasileiro de sua época. Está em funcionamento até hoje. Lançou grandes nomes do cinema brasileiro como Humberto Mauro (1897 – 1983) e Carmen Miranda (1909 – 1955). Produziu 40 filmes, dirigiu nove, foi roteirista e argumentista. Entre os filmes que dirigiu estão Barro Humano (1928), Brasa Dormida (1928), Lábios sem Beijos (1930), Ganga Bruta (1933) e O Descobrimento do Brasil (1937). Também escreveu o livro Setenta Anos do Cinema Brasileiro (1966).

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

BNDigital

CATELLI, Rosana Elisa. A revista Cinearte e o projeto de modernização cultural pelo cinema, 2012.

Hemeroteca Digital da Brasiliana Fotográfica

Jornal do Brasil, 25 de agosto de 2021

LUCAS, Tais Campelo. Cinearte: o cinema brasileiro em revista. Dissertação apresentada ao programa de Pós-graduação em História do Instituto de Ciências Humanas e Filosofia da Universidade Federal Fluminense como requisito parcial para a obtenção do grau de Mestre em História, 2005.

Site Academia Maçônica Ribeiraopretana de Letras

Site Centro Memória do Circo

Site Museu da Imagem e do Som de São Paulo

Série “Teatros e cinemas do Brasil” XIV – O Cinema Íris, o mais antigo cinema em atividade no Rio de Janeiro

 

 

O Íris é o mais antigo cinema em funcionamento no Rio de Janeiro. Projetado pelo engenheiro Paulo de Frontin (1860 – 1933), com um pomposo programa, foi inaugurado por João Cruz Junior (18? – 19?), em 30 de outubro de 1909, nos números 49 e 51 da Rua da Carioca, em um prédio que pertencia à Ordem Terceira da Penitência como Cinema Soberano, uma homenagem a um dos cavalos de seu proprietário, que fez com a Ordem Terceira um contrato de comodato para explorar o imóvel. Tinha 200 lugares e era dividido por uma grade de ferro em 1ª e 2ª classes. Tinha espaço para abrigar duas orquestras, uma na sala de espera e outra no interior da sala de projeção (Gazeta de Notícias, 30 de outubro de 1909, última coluna; Jornal do Brasil, 30 de outubro de 1909, penúltima coluna).

 

 

O Soberano tornou-se um cinema-teatro, em 1911, onde eram apresentadas operetas. No último andar do sobrado que ocupava, passou a funcionar o consultório e depósito da Tizana de Faro, poderoso depurativo (A Notícia, 9 de 10 de setembro de 1911, penúltima coluna; Correio da Manhã, 13 de outubro de 1911, quarta coluna; 25 de outubro de 1911, quinta coluna).

 

 

Em 1912, suicidou-se com um tiro, no Soberano, o artista plástico Domingues Garcia y Vasquez (Correio da Manhã, 19 de janeiro de 1912, primeira coluna;  Gazeta de Notícias, 20 de janeiro de 1912, quinta colunaA Notícia, 20 e 21 de janeiro de 1912, segunda coluna).

No mesmo endereço onde havia funcionado o Cinema Soberano, foi inaugurado o Cinema Victoria (Correio da Manhã, 9 de maio de 1912, última coluna).

 

 

Também no mesmo endereço, Rua da Carioca 49 e 51, foi inaugurado o Cinema Íris, em 16 de julho de 1912 (Correio da Manhã, 16 de julho de 1912, segunda coluna).

 

 

Na década de 1910, disputava a preferência dos fãs de cinema com o Cinema Ideal.

“As segundas-feiras a Rua da Cаrioca ficava intransitável na hora da abertura dos cinemas. Juntava o público do Íris com o do Ideal, pois um ficava quase defronte do outro. As sessões começavam às 13h e interrompiam o trânsito, ninguém passava. Quando tocava a campainha para começar a multidão levava porta e tudo para dentro. No Íris havia um camarada forte, de nome Carlos, que ficava segurando as cordas com um porrete na mão. Ele metia mesmo o porrete para controlar a multidão. As pessoas entravam, sentavam e não podiam mais levantar, pois perdiam o lugar. Quando alguém levantava, o Carlos gritava: “- Mais um, mais dois lugares.” Naquele tempo os cinemas enchiam de verdade. Eu preferia os filmes do Ideal; o Adhemar Gonzaga preferia e os do Iris. Ele gostava mais dos cow-boys, e eu das artistas bonitas. “

Pedro Lima in Filme Cultura, agosto de 1986, página 38

 

Durante um incêndio na sede da sociedade carnavalesca dos Tenentes do Diabo, na Rua da Carioca nº 47, o Cinema Íris foi bastante danificado (O Paiz, 19 de março de 1913, penúltima coluna). Após uma reforma, foi reaberto, em 21 de março 1914 (O Paiz, 21 de março de 1914, última colunaFon-Fon, 28 de março de 1914).

 

 

Em 1915, a Empresa Cinematográfica Universal fechou contrato com João Cruz Junior e o Cinema Íris se tornou a sala lançadora no Rio de Janeiro da companhia norte-americana. Em anúncio de 30 de maio de 1915, a empresa do cinema Íris apresentou seu novo fornecedor (Correio da Manhã, 30 de maio de 1915, última coluna). Semanas depois, o Cinema Íris estava exibindo exclusivamente os filmes americanos fornecidos pela Universal.

 

 

Em 14 de dezembro de 1921, após uma reforma realizada pelo engenheiro Emilio Baumgarten (18? – 19?) que incluiu a ampliação do cinema com a construção de um terceiro andar, uma claraboia para ventilação e uma decoração no estilo art nouveau, foi reinaugurado oficialmente como Novo-Cine-Theatro ÍRIS ou Cinema Íris, nome inspirado na deusa grega homônima que decorava sua entrada. Ostentava também azulejaria importada da Bélgica e espelhos de cristais da França. Foi justamente neste mês e ano que o alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), então fotógrafo da prefeitura do Rio de Janeiro, cargo que exerceu entre 1903 e 1936, produziu os dois registros destacados neste artigo, que pertencem ao acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadora da Brasiliana Fotográfica (Correio da Manhã10 de dezembro de 1921, quarta coluna; 11 de dezembro de 1921, sétima coluna O Jornal, 13 de dezembro de 1921, terceira coluna; 14 de dezembro de 1921, penúltima coluna; 15 de dezembro de 1921, quinta coluna; Jornal do Brasil, 16 de dezembro de 1921, sexta coluna).

 

 

 

Foi também na década de 1920 que o compositor Ary Barroso (1903 – 1964) empregou-se como pianista no Cinema Íris.

Na década de 1970, exibia principalmente filmes de artes marciais e westerns. Passou por uma reforma e foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro – INEPAC -, em 14 de junho de 1978.

Na década seguinte, exibia filmes pornográficos e shows de streap-tease. Bandas de rock passaram a se apresentar no Cinema Íris (Jornal do Brasil, 18 de março de 1988).

Em 1997, a família Cruz comprou o imóvel da Ordem Terceira. Nos anos 1990 e 2000, foi palco de festas e de apresentações de bandas. Recebeu propostas de compra pela Igreja Universal, mas não aceitou.

 

O GLOBO, 20 de março de 2009

O GLOBO, 20 de março de 2009

 

Fazia parte da festa Cine Íris 90 Anos uma exposição de fotografias com imagens produzidas por Malta, pertencentes o acervo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 1º de outubro de 1999, primeira coluna).

 

 

Em comemoração a seu centenário, em 2009, foi promovido no cinema um festival de filmes mudos (TV Brasil). A atriz Marília Pêra (1943 – 2015) compareceu à celebração e foi homenageada pela Sociedade Amigos da Rua da Carioca e Adjacências (Sarca). A atriz tem uma história muito ligada ao Íris, pois sua avó, a também atriz Antônia Marzullo (1894 – 1969), havia trabalhado lá.

 

cinemairis7

 

No ano seguinte, 2010, sua desapropriação chegou a ser anunciada, mas não aconteceu (O GLOBO, 21 de janeiro de 2010).

O colunista Jan Theophilo, do “Informe JB”, noticiou, em agosto de 2018, que o cinema havia sido desapropriado pelo estado há mais de 60 anos. Segundo o empresário Raul Pimenta Neto, 61, um dos 12 herdeiros da sala, não havia nenhuma informação no Registro Geral de Imóveis (RGI) de que a posse do mesmo fosse do estado, quando a família decidiu comprar o imóvel, em 1997. “No ano passado, quando fui tirar uma certidão, fui pego de surpresa com esta posse, justo quando negociava com um empresário alemão para diversificar a programação da casa” (Jornal do Brasil, 18 de agosto de 2018).

Foi interditado pela Defesa Civil, em 23 de julho de 2025, devido a problemas estruturais, e reaberto em agosto, mês em que uma lista, na qual foi incluído, de 48 imóveis que o governo estadual quer vender para arrecadar R$ 1,5 bilhão, foi enviada à Assembleia Legislativa do Rio. Na lista estão prédios históricos, terrenos, áreas desativadas da segurança pública e até mesmo uma ilha. Porém, o Cine Íris não pertence ao estado e, durante a vistoria para o levantamento, a equipe de consultoria do governo foi informada que o imóvel é de propriedade particular da mesma família há quase um século.

Os longas-metragens Madame Satã (2002) e Olga (2004) assim como a novela Senhora do destino (2004), da TV Globo, tiveram cenas rodadas lá.

O Cinema Íris segue como uma relíquia carioca e sempre foi administrado pela família que o fundou. Atualmente é gerido por Marcelo Argileu Cruz da Silva, que sucedeu Raul Pimenta Neto.

 

 

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Agenda Bafafá

Diário do Rio, 14 de agosto de 2025 e 9 de setembro de 2025

FREIRE, Rafael de Luna (2022). «Entre divas e seriados». O negócio do filme: A distribuição cinematográfica no Brasil 1907–1915. Rio de Janeiro, RJ: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. p. 356

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Jornal Extra, 16 de outubro de 2009.

O Globo, 16/10/2009

Revista Filme Cultura, agosto de 1986

SCARPIN, Paula. O Cine Íris resiste in Revista Piauí, setembro de 2015

Site Google Arts & Culture

Site INEPAC

Site Rio Filme

 

.