O Íris é o mais antigo cinema em funcionamento no Rio de Janeiro. Projetado pelo engenheiro Paulo de Frontin (1860 – 1933), com um pomposo programa, foi inaugurado por João Cruz Junior (18? – 19?), em 30 de outubro de 1909, nos números 49 e 51 da Rua da Carioca, em um prédio que pertencia à Ordem Terceira da Penitência como Cinema Soberano, uma homenagem a um dos cavalos de seu proprietário, que fez com a Ordem Terceira um contrato de comodato para explorar o imóvel. Tinha 200 lugares e era dividido por uma grade de ferro em 1ª e 2ª classes. Tinha espaço para abrigar duas orquestras, uma na sala de espera e outra no interior da sala de projeção (Gazeta de Notícias, 30 de outubro de 1909, última coluna; Jornal do Brasil, 30 de outubro de 1909, penúltima coluna).
O Soberano tornou-se um cinema-teatro, em 1911, onde eram apresentadas operetas. No último andar do sobrado que ocupava, passou a funcionar o consultório e depósito da Tizana de Faro, poderoso depurativo (A Notícia, 9 de 10 de setembro de 1911, penúltima coluna; Correio da Manhã, 13 de outubro de 1911, quarta coluna; 25 de outubro de 1911, quinta coluna).
Em 1912, suicidou-se com um tiro, no Soberano, o artista plástico Domingues Garcia y Vasquez (Correio da Manhã, 19 de janeiro de 1912, primeira coluna; Gazeta de Notícias, 20 de janeiro de 1912, quinta coluna; A Notícia, 20 e 21 de janeiro de 1912, segunda coluna).
No mesmo endereço onde havia funcionado o Cinema Soberano, foi inaugurado o Cinema Victoria (Correio da Manhã, 9 de maio de 1912, última coluna).
Também no mesmo endereço, Rua da Carioca 49 e 51, foi inaugurado o Cinema Íris, em 16 de julho de 1912 (Correio da Manhã, 16 de julho de 1912, segunda coluna).
Na década de 1910, disputava a preferência dos fãs de cinema com o Cinema Ideal.
“As segundas-feiras a Rua da Cаrioca ficava intransitável na hora da abertura dos cinemas. Juntava o público do Íris com o do Ideal, pois um ficava quase defronte do outro. As sessões começavam às 13h e interrompiam o trânsito, ninguém passava. Quando tocava a campainha para começar a multidão levava porta e tudo para dentro. No Íris havia um camarada forte, de nome Carlos, que ficava segurando as cordas com um porrete na mão. Ele metia mesmo o porrete para controlar a multidão. As pessoas entravam, sentavam e não podiam mais levantar, pois perdiam o lugar. Quando alguém levantava, o Carlos gritava: “- Mais um, mais dois lugares.” Naquele tempo os cinemas enchiam de verdade. Eu preferia os filmes do Ideal; o Adhemar Gonzaga preferia e os do Iris. Ele gostava mais dos cow-boys, e eu das artistas bonitas. “
Pedro Lima in Filme Cultura, agosto de 1986, página 38
Durante um incêndio na sede da sociedade carnavalesca dos Tenentes do Diabo, na Rua da Carioca nº 47, o Cinema Íris foi bastante danificado (O Paiz, 19 de março de 1913, penúltima coluna). Após uma reforma, foi reaberto, em 21 de março 1914 (O Paiz, 21 de março de 1914, última coluna; Fon-Fon, 28 de março de 1914).
Em 1915, a Empresa Cinematográfica Universal fechou contrato com João Cruz Junior e o Cinema Íris se tornou a sala lançadora no Rio de Janeiro da companhia norte-americana. Em anúncio de 30 de maio de 1915, a empresa do cinema Íris apresentou seu novo fornecedor (Correio da Manhã, 30 de maio de 1915, última coluna). Semanas depois, o Cinema Íris estava exibindo exclusivamente os filmes americanos fornecidos pela Universal.
Em 14 de dezembro de 1921, após uma reforma realizada pelo engenheiro Emilio Baumgarten (18? – 19?) que incluiu a ampliação do cinema com a construção de um terceiro andar, uma claraboia para ventilação e uma decoração no estilo art nouveau, foi reinaugurado oficialmente como Novo-Cine-Theatro ÍRIS ou Cinema Íris, nome inspirado na deusa grega homônima que decorava sua entrada. Ostentava também azulejaria importada da Bélgica e espelhos de cristais da França. Foi justamente neste mês e ano que o alagoano Augusto Malta (1864 – 1957), então fotógrafo da prefeitura do Rio de Janeiro, cargo que exerceu entre 1903 e 1936, produziu os dois registros destacados neste artigo, que pertencem ao acervo fotográfico do Instituto Moreira Salles, uma das instituições fundadora da Brasiliana Fotográfica (Correio da Manhã, 10 de dezembro de 1921, quarta coluna; 11 de dezembro de 1921, sétima coluna; O Jornal, 13 de dezembro de 1921, terceira coluna; 14 de dezembro de 1921, penúltima coluna; 15 de dezembro de 1921, quinta coluna; Jornal do Brasil, 16 de dezembro de 1921, sexta coluna).
Foi também na década de 1920 que o compositor Ary Barroso (1903 – 1964) empregou-se como pianista no Cinema Íris.
Na década de 1970, exibia principalmente filmes de artes marciais e westerns. Passou por uma reforma e foi tombado pelo Instituto Estadual do Patrimônio Cultural do Rio de Janeiro – INEPAC -, em 14 de junho de 1978.
Na década seguinte, exibia filmes pornográficos e shows de streap-tease. Bandas de rock passaram a se apresentar no Cinema Íris (Jornal do Brasil, 18 de março de 1988).
Em 1997, a família Cruz comprou o imóvel da Ordem Terceira. Nos anos 1990 e 2000, foi palco de festas e de apresentações de bandas. Recebeu propostas de compra pela Igreja Universal, mas não aceitou.
Fazia parte da festa Cine Íris 90 Anos uma exposição de fotografias com imagens produzidas por Malta, pertencentes o acervo do Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro (Jornal do Brasil, 1º de outubro de 1999, primeira coluna).
Em comemoração a seu centenário, em 2009, foi promovido no cinema um festival de filmes mudos (TV Brasil). A atriz Marília Pêra (1943 – 2015) compareceu à celebração e foi homenageada pela Sociedade Amigos da Rua da Carioca e Adjacências (Sarca). A atriz tem uma história muito ligada ao Íris, pois sua avó, a também atriz Antônia Marzullo (1894 – 1969), havia trabalhado lá.
No ano seguinte, 2010, sua desapropriação chegou a ser anunciada, mas não aconteceu (O GLOBO, 21 de janeiro de 2010).
O colunista Jan Theophilo, do “Informe JB”, noticiou, em agosto de 2018, que o cinema havia sido desapropriado pelo estado há mais de 60 anos. Segundo o empresário Raul Pimenta Neto, 61, um dos 12 herdeiros da sala, não havia nenhuma informação no Registro Geral de Imóveis (RGI) de que a posse do mesmo fosse do estado, quando a família decidiu comprar o imóvel, em 1997. “No ano passado, quando fui tirar uma certidão, fui pego de surpresa com esta posse, justo quando negociava com um empresário alemão para diversificar a programação da casa” (Jornal do Brasil, 18 de agosto de 2018).
Foi interditado pela Defesa Civil, em 23 de julho de 2025, devido a problemas estruturais, e reaberto em agosto, mês em que uma lista, na qual foi incluído, de 48 imóveis que o governo estadual quer vender para arrecadar R$ 1,5 bilhão, foi enviada à Assembleia Legislativa do Rio. Na lista estão prédios históricos, terrenos, áreas desativadas da segurança pública e até mesmo uma ilha. Porém, o Cine Íris não pertence ao estado e, durante a vistoria para o levantamento, a equipe de consultoria do governo foi informada que o imóvel é de propriedade particular da mesma família há quase um século.
Os longas-metragens Madame Satã (2002) e Olga (2004) assim como a novela Senhora do destino (2004), da TV Globo, tiveram cenas rodadas lá.
O Cinema Íris segue como uma relíquia carioca e sempre foi administrado pela família que o fundou. Atualmente é gerido por Marcelo Argileu Cruz da Silva, que sucedeu Raul Pimenta Neto.
Andrea C.T. Wanderley
Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica
Fontes:
Diário do Rio, 14 de agosto de 2025 e 9 de setembro de 2025
FREIRE, Rafael de Luna (2022). «Entre divas e seriados». O negócio do filme: A distribuição cinematográfica no Brasil 1907–1915. Rio de Janeiro, RJ: Museu de Arte Moderna do Rio de Janeiro. p. 356.
Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional
Jornal Extra, 16 de outubro de 2009.
O Globo, 16/10/2009
Revista Filme Cultura, agosto de 1986
SCARPIN, Paula. O Cine Íris resiste in Revista Piauí, setembro de 2015
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