Série “Os arquitetos do Rio de Janeiro” VIII – O prédio do Supremo Tribunal Federal, atual Centro Cultural da Justiça Federal; o Museu Nacional de Belas Artes e o arquiteto Adolfo Morales de los Rios (1858 – 1928)

Com fotografias produzidas por Augusto Malta (1864 – 1957)Jorge Kfuri (1893 – 1965), Luiz Musso (18? – 19?), Marc Ferrez (1843 – 1923), pela Papelaria e Typographia Botelho e por fotógrafos ainda não identificados, a Brasiliana Fotográfica publica o oitavo artigo da série Os arquitetos do Brasil, sobre o antigo prédio do Supremo Tribunal Federal, atual Centro Cultural da Justiça Federal; e sobre o Museu Nacional de Belas Artes. Também conta um pouco da história de seu arquiteto, o espanhol Adolfo Morales de los Rios y Garcia de Pimentel  (1858 – 1928). Dos 17 prédios projetados por ele para a Avenida Central, no início do século XX, esses, que são os temas desse artigo, são os únicos que não foram demolidos. Além de arquiteto, Morales de los Rios foi urbanista, professor e historiador. Desempenhou um importante papel na modernização arquitetônica do Brasil em fins do século XIX e primeiras décadas do XX.

 

Edifício do Supremo Tribunal Federal, atual Centro Cultural da Justiça Federal

 

 

A construção do edifício do Supremo Tribunal Federal (STF) foi iniciada, em 1905, e estava integrada ao projeto de reurbanização do Rio de Janeiro, então a capital federal. A princípio, o prédio abrigaria a Mitra Arquiepiscopal, mas foi adquirido pelo governo federal para abrigar o STF, instalado em 3 de abril de 1909 (Brazilian Review, 21 de novembro de 1905, segunda colunaGazeta de Notícias, 2 de abril de 1909, terceira coluna). O edifício é um dos mais importantes testemunhos da arquitetura eclética do Brasil.

 

 

O prédio abrigou o STF até 1960, quando o tribunal foi transferido para Brasília, a nova capital do Brasil. Desde então, o edifício sediou o Superior Tribunal Eleitoral, o Tribunal de Alçada e varas da Justiça Federal de 1ª Instância. Após obras de restauração que duraram cerca de sete anos, o prédio foi aberto ao público, em 4 de abril de 2001, como Centro Cultural da Justiça Federal. Foi inaugurado com a exposição permanente Justiça e Cidadania e com a mostra temporária sobre a obra do importante fotógrafo cearense Chico Albuquerque (1917 – 2000), pioneiro da publicidade brasileira na década de 1940. Havia também uma exposição mostrando o prédio antes e depois da restauração (Jornal do Brasil, 4 de abril de 2001, primeira coluna).

 

Acesse aqui o link para as fotografias do antigo prédio do Supremo Tribunal Federal, atual Centro Cultural da Justiça Federal disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

Edifício do Museu Nacional de Belas Artes

 

 

Em 1908, a sede da Academia Nacional de Belas Artes foi transferida para um edifício também na Avenida Central e também projetado por Adolfo Morales de los Rios. Acredita-se que o desenho original de Morales de los Rios tenha sido modificado pelo escultor Rodolfo Bernadelli (1852 – 1931), que era diretor da escola. De acordo com o “afrancesamento” da Avenida Central, a fachada principal do prédio baseou-se em uma das alas do Museu do Louvre, projetada pelo arquiteto francês Hector-Martin Lefuel (1810 – 1880), que trabalhava para Napoleão III (1808 – 1873). Apresenta medalhões pintados por Henrique Bernardelli (1857 – 1936) retratando integrantes da Missão Francesa e outros artistas brasileiros, além de frontões, colunatas e relevos em terracota representando as grandes civilizações da antiguidade. As fachadas laterais são inspiradas no renascimento italiano e trazem mosaicos realizados pelo francês Félix Gaudin (1851 – 1930), com retratos de artistas famosos.

Em 1931, a Escola Nacional de Belas Artes foi incorporada à Universidade do Rio de Janeiro, futura Universidade do Brasil, e, a partir de 1937, dividiu o prédio com o Museu Nacional de Belas Artes (MNBA), criado em 13 de janeiro de 1937 por iniciativa de Gustavo Capanema (1900 – 1985), ministro da Educação do governo de Getúlio Vargas (1882 – 1954), e inaugurado em 19 de agosto de 1938. O MNBA possui o maior acervo de obras de arte do século XIX no Brasil, sendo um dos mais importantes museus de arte do país. O edifício foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 24 de maio de 1973. Está fechado ao público desde 2020 e passa por uma reforma. Sua reabertura está prevista para fins de 2025. A atual Escola de Belas Artes foi, entre 1974 e 1975, transferida para o prédio Jorge Machado Moreira projetado para a Faculdade de Arquitetura e Urbanismo (FAU), no campus do Fundão, da Universidade Federal do Rio de Janeiro.

 

Acesse aqui o link para as fotografias do Museu Nacional de Belas Artes disponíveis na Brasiliana Fotográfica

 

 

Brevíssimo perfil do arquiteto Adolfo Morales de los Rios (1858 – 1928)

 

 

O arquiteto, urbanista, historiador e professor espanhol Adolfo Morales de los Rios y Garcia de Pimentel nasceu em Sevilha, em 10 de março de 1858, filho do capitão-general da Extremadura, de Granada e da Galícia, Adolfo Morales de los Rios e de Salud Pimentel y Garcia de Ambues. Trabalhou, inicialmente, na França, onde conheceu o arquiteto Viollet-le-Duc (1814 – 1879), um dos precursores da arquitetura moderna. Cursou arquitetura na Escola de Belas Artes de Paris, entre 1877 e 1882. Retornou à Espanha onde foi o responsável pelos projetos do Cassino de San Sebastián, do Gran Teatro de Cadiz e do Banco da Espanha, em Madri. Em 1889, aceitou o convite para fundar uma escola de arquitetura no Chile. Passou pelo Brasil para onde retornou, em 1890, devido a problemas políticos que impediram seu estabelecimento no Chile. Veio a convite do arquiteto belga mr. de Mot, encarregado da urbanização de Teresópolis (Correio da Manhã, 4 de setembro de 1928, quinta coluna).

 

“Fui e continuo a ser um bom brasileiro, sem deixar de ser um bom espanhol”.

Adolfo Morales de los Rios y Garcia de Pimentel

 

No Brasil, participou de obras de saneamento, de construção de estradas, tendo sido presidente e diretor da Companhia Auto-Viação Centro de Minas. Em 1897, passou a lecionar na Escola Nacional de Belas Artes, no Rio de Janeiro. Em 1901, Morales de los Rios lançou a ideia de fazer uma ponte em estrutura metálica para ligar o Rio a Niterói, mas o projeto não saiu do papel.

Na primeira década do século XX, participou da construção da Avenida Central, cuja abertura foi uma das principais marcas da reforma urbana que ficou conhecida como o bota-abaixo, realizada, entre 1902 e 1906, pelo então prefeito do Rio de Janeiro, Francisco Pereira Passos (1836 – 1913). Essas transformações foram definidas por Alberto Figueiredo Pimentel (1869-1914), autor da seção “Binóculo”, da Gazeta de Notícias, com a máxima “O Rio civiliza-se”, que se tornou o slogan da reforma urbana carioca. Essa intervenção urbana tornou o Rio uma cidade cosmopolita, moderna. Dos mais de 80 prédios da Avenida Central, 17 saíram da prancheta de Morales de los Rios – hoje de seus projetos para a avenida só restaram os prédios que são os tema deste artigo.

 

 

Morales de los Rios era também interessado em antropologia e tentou compreender ritos de feitiçaria, mitologia e história, e métodos construtivos dos “povos primitivos”, e entre estes estavam os índios brasileiros, que ocuparam um espaço especial em seus estudos, sobretudo em “Ôka, Taba, Tabajara” (MORALES DE LOS RIOS, Adolfo. Ôka, Taba, Tabajara. Documentação manuscrita, IHGB): um “tratado” sobre a arquitetura indígena.

Em janeiro de 1915, publicou seis artigos intitulados Uma questão importante – A primitiva fundação da cidade no jornal A Noite – 25 de janeiro26 de janeiro27 de janeiro28 de janeiro30 de janeiro e 31 de janeiro. Na seção “Reportagens Íntimas” da revista Fon-Fon, publicação de uma entrevista com Morales de los Rios (Fon-Fon, 18 de agosto de 1917).

Projetou cerca de quatro mil obras no Brasil, dentre elas a Basílica do Imaculado Coração de Maria, no Méier, tombada pelo município, em 2009, e única igreja em estilo neomourisco na cidade; o Palácio São Joaquim, na Rua da Glória, em estilo eclético e construído, em 1918, para ser a residência do primeiro arcebispo do Rio, cardeal pernambucano dom Joaquim Arcoverde Cavalcanti de Albuquerque (1850 – 1930).

 

 

Faleceu em 3 de setembro de 1928, na Casa de Saúde Pedro Ernesto, no Rio de Janeiro, e foi enterrado no Cemitério São João Batista (Correio da Manhã, 4 de setembro de 1928, quinta colunaO Paiz, 5 de setembro de 128, primeira colunaRevista da Semana, 8 de setembro de 1928). Foi casado com Maria Cuadras (18? -19?) e teve um filho, o também arquiteto Adolfo Morales de los Rios Filho (1887-1973), e duas filhas, Eugênia (18? -19?) e Margarita (18? -19?).

 

 

 

 

Outros prédios projetados por Adolfo Morales de los Rio representados no acervo fotográfico da Brasiliana Fotográfica

 

Jornal O Paiz (demolido)

 

Parque de Diversões da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil, em 1922 (demolido)

 

A convite dos organizadores da Exposição Internacional do Centenário da Independência do Brasil, realizada, em 1922, no Rio de Janeiro, escreveu o artigo Resumo monográfico da evolução da arquitetura no Brasil (1922/1923), que foi publicado no Livro de Ouro Comemorativo do Centenário da Independência e da Exposição Internacional do Rio de Janeiro – pág 97 a 103.

 

Palácio São Joaquim, construído entre 1912 e 1918

 

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

O GLOBO, 3 de janeiro de 2016 e 30 de junho de 2024

RAMOS, Renato Menezes (org.). O Restaurante Assyrio é Persa… e o Café Mourisco também, de Adolfo Morales de los Rios: Comentários e Anotações. 19&20, Rio de Janeiro, v. VI, n. 2, abr./jun. 2011

RICCI, Claudia Thurler. Sob a inspiração de Clio: O Historicismo na obra de Morales de los Rios19&20Rio de Janeiro, v. II, n. 4, out. 2007.

Site Centro Cultural da Justiça Federal

Site Enciclopédia Itáu Cultural

Site Ibram

Site Instituto Moreira Salles

Site Museus do Rio

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