A Lanterna Mágica que iluminava o Cine Delícia: imagens e cinema na coleção Jota Soares – FUNDAJ

O historiador Tásso Brito, colaborador do setor de Iconografia da Fundação Joaquim Nabuco, uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, é o autor de nosso artigo de hoje, A Lanterna Mágica que iluminava o Cine Delícia: imagens e cinema na coleção Jota Soares – FUNDAJ, onde ele destaca um conjunto de diapositivos de lanterna mágica na coleção Jota Soares, que foi um dos principais expoentes, entre 1923 e 1931, do movimento que ficou conhecido como Ciclo de Cinema de Recife. Tornou-se um colecionador, uma espécie de guardião da memória e narrador da história do cinema pernambucano do período mudo. Publicamos também um breve perfil de Jota Soares (1906 – 1988), escrito por mim, Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal.

 

 

Acessando o link para as imagens do Arquivo Jota Soares da Fundação Joaquim Nabuco disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

 

A Lanterna Mágica que iluminava o Cine Delícia: imagens e cinema na coleção Jota Soares – FUNDAJ

  Tásso Brito*

 

As luzes se apagam, a tela do Cine Delícia se ilumina na cidade de Maceió, o Pavilhão da Bahia na Exposição Nacional de 1908 aparece imponente com detalhes dourados e rosa. As cores numa projeção de sala de cinema naquele momento foram viabilizadas através de uma Lanterna Mágica, também chamada de epidascópio, mecanismo de projeção de imagens por meio de uma câmera escura e um jogo de lentes. A luz atravessava uma placa de vidro, que poderia ser pintada com tinta translúcida, e projetada numa tela. A imagem do Pavilhão da Bahia exibida no Cine Delícia é uma imagem em prata, com retoques coloridos em dourado e rosa, envolta por uma moldura de papel preto fino, e posicionada entre duas placas de vidro medindo 8,3 x 9,8 cm.

 

 

Esta imagem faz parte de um conjunto de diapositivos de lanterna mágica na coleção Jota Soares, salvaguardada na Fundação Joaquim Nabuco. Jota Soares foi ator, diretor e produtor de filmes entre 1923-1931, no movimento que ficou conhecido como Ciclo de Cinema de Recife, por ter se desenvolvido nesta capital. Jota era um dos principais expoentes do movimento, mas também era um colecionador. Os diapositivos da coleção foram um presente dado por Salomão Carneiro, também conhecido como Carneiro Tiririca, proprietário do Cine Delícia que, até 1908, chamava-se Teatro Maceioense. Localizava-se na Rua do Sol, antiga Rua do Rosário, na capital de Alagoas.

 

 

Jota preservou os diapositivos em uma caixa de madeira com informações referentes ao conjunto doado. Essas ações possibilitaram que estas imagens chegassem até nossos dias. Sendo (re)descobertos durante o processo de revisão de alguns acervos da Fundação Joaquim Nabuco, no começo de 2024. Os diapositivos retratam temas diversos, mas há outras imagens da Exposição Nacional de 1908.

 

 

 

 

A Exposição Nacional de 1908, realizada no Rio de Janeiro, foi criada para celebrar o centenário da abertura dos portos às nações amigas. Além disso, se propunha a fazer o Brasil se (re)conhecer como nação, por meio das produções realizadas pelas unidades federativas brasileiras. Mas a exposição também foi feita para o Rio de Janeiro se mostrar, uma vez que havia pouco tempo que a antiga capital do Brasil tinha passado por reformas urbanas empreendidas pelo presidente Rodrigues Alves, o prefeito Pereira Passos e o sanitarista Oswaldo Cruz. O conjunto de diapositivos de lanterna mágica da coleção Jota Soares não se restringe às imagens da Exposição Nacional. Retrata também a Europa, outros estados brasileiros, bem como quadros pintados a mão. Cabe destaque à produção de Luiz Lavenère Wanderley (1868-1966)r, um dos pioneiros na fotografia em Alagoas, com registros do cotidiano, de paisagens e do Carnaval.

 

 

 

 

 

 

Muitas vezes as lanternas mágicas são tidas como antecessoras dos projetores de cinema, mas, pelo menos no Cine Delícia, essas tecnologias coexistiram. No final de década de 1930, as luzes do Delícia se acenderam pela última vez, os expectadores deixaram a sala olhando aquela tela que tanto maravilhou os olhares com imagens e filmes. O prédio do Cine Delícia foi demolido em 1945, mas os diapositivos de lanternas acabam de ganhar aqui uma nova chance de deliciar nosso olhares, um século depois.

 

 

 

Thumbnail

Luiz Lavenère Wanderley. Pintura de barco a vela em mar agitado, s/d / Acervo Fundaj

 

 

*Tásso Brito é historiador e colaborador do setor de Iconografia da Fundaj.

 

Breve perfil de Jota Soares (1906 – 1988), 

guardião da memória e narrador da história do cinema pernambucano do período mudo

 Andrea C.T. Wanderley**

 

 

Nascido em 16 junho de 1906, em Propriá, em Sergipe, José da Silva Soares Filho, o Jota Soares, foi um dos pioneiros do cinema pernambucano. Seu pai, o comerciante José Soares da Silva, era dono do Cinema Guarani, um dos primeiros em Propriá. Jota Soares foi, aos 13 anos, para Aracaju, onde, além de ter aulas de teatro e canto, realizou seus estudos secundários. Em 1919, depois da falência de seu pai, foi trabalhar como operário em uma fábrica de chocolate, na Bahia. Finalmente, em 1922, mudou-se para Recife, onde atuou como músico no Bloco de Voluntários do Exército e serviu no Tiro de Guerra com seu irmão, futuro general Heleno Soares Castelar. Após um breve período no Rio de Janeiro, retornou a Recife e ingressou numa companhia de circo.

Em 1924, segundo relato dele, foi assistir a uma filmagem realizada no Lazareto do Pina do longa-metragem Retribuição, produzido pela Aurora Film, e ofereceu-se para colaborar: “E terminei de tripé e câmara nas costas, o que repeti em outros dias. Era um domingo. Meu ingresso no cinema estava assegurado”. Foi assistente de fotografia do longa.

 

 

Os fundadores da Aurora Film, localizada na Rua de São João, 485, no bairro de São José, foram o ourives pernambucano Edson Chagas (1901-1958), o gravador potiguar Gentil Roiz (1899-1975) e o estudante de engenharia pernambucano Luís de França Rosa – que adotou o nome artístico de Ary Severo (1903 – 1994). O filme Retribuição começou a ser realizado em 1923, dirigido por Roiz, tendo Edson como diretor de fotografia e Severo como assistente de direção. No elenco, Almery Steves (1904 – 1982), futura esposa de Ary Severo, e Barreto Jr (1903 – 1983), dentre outros. Ary e Almery formaram o casal romântico mais famoso do Ciclo do Recife.

 

 

 

 

 

Considerado o primeiro filme de ficção pernambucano, Retribuição foi lançado em 16 de março de 1925, no Cine Royal, inaugurado em 6 de novembro de 1909 e situado na Rua Barão da Vitória (atual Rua Nova), n° 47 (Diário de Pernambuco, 7 de novembro de 1909, terceira coluna). Foi, na década de 20, o templo sagrado do cinema pernambucano, por abrigar diversos filmes de produção local. Foi o segundo cinema do Recife e fechou suas portas em 1954. A primeira sala de cinema da capital pernambucana, o Cinema Pathé, havia sido inaugurada, em 27 de julho de 1909, no nº 45, na mesma Rua Barão da Vitória (Diário de Pernambuco, 27 de julho, segunda coluna).

 

 

 

Voltando ao filme Retribuição. Ele marcou o início do chamado Ciclo do Recife, um dos importantes ciclos de produções cinematográficas que ocorreu fora do eixo das capitais do Rio de Janeiro e de São Paulo, nas décadas de 1910 e 1920 – outros exemplos são os ciclos de Cataguases e de Campinas (Diário de Pernambuco, 15 de março de 1925, terceira coluna). Jota Soares tornou-se o principal memorialista do Ciclo do Recife, tendo escrito uma série de 59 artigos na coluna “Relembrando o cinema pernambucano —1923-1931 (Dos arquivos de Jota Soares)”, publicados no jornal Diário de Pernambuco, aos domingos, entre 2 de dezembro de 1962 e 23 de fevereiro de 1964. Nestes artigos, Soares contava histórias sobre os bastidores das produções, homenageava pessoas ligadas ao ciclo, reconstituía o enredos dos filmes. O surgimento do cinema falado marcou o declínio da produção cinematográfica do Ciclo do Recife, que teve seu fim no começo dos anos 1930, com o lançamento de No cenário da vida, de Luís Maranhão e Jota Soares. Durante o ciclo, foram produzidos pela Aurora Film, Planeta Filmes, Iate Filme, Veneza Filme, Liberdade Filme, Olinda Filme, Spia Filme, Goiana  Filme e Vera Cruz quase cinquenta filmes entre curtas e longas-metragens, filmes de ficcção e de não-ficção.

Jota Soares participou como ator nas produções da Aurora Film: Um Ato de Humanidade (1925), Aitaré da Praia (1925) e Jurando Vingar (1925), todos dirigidos por Gentil Roiz. Uma curiosidade: no filme Aitaré da Praia, em uma briga entre seu personagem, Traira, e Aitaré, interpretado por Ary Severo, levou um soco de Severo e perdeu dois dentes (Diário de Pernambuco, 4 de novembro de 1988).

Também na Aurora Film atuou em Herói do Século XX (1926), desta vez dirigido por Ary Severo e debutou como diretor, com apenas 20 anos, em A Filha do Advogado (1926), inicialmente dirigido por Severo. O filme estreou, em 11 de outubro de 1926, no Royal (Jornal do Recife, 6 de outubro de 1926). Na época, a Aurora Film já pertencia a João Pedrosa da Fonseca, um bem sucedido comerciante do Recife, que financiou o filme (Cinearte, 18 de agosto de 1926).

 

 

Dirigiu também Sangue de Irmão (1926), único filme de enredo (ficção) da Goyanna-Film, e a segunda versão de Aitaré da Praia, com Ary Severo e Luiz Maranhão, pela Liberdade-Film.

 

 

Jota Soares tornou-se um importante colecionador da história do cinema mudo pernambucano, tornando-se uma referência para os pesquisadores da história do cinema brasileiro. Colecionava também itens do cinema norte-americano e europeu (Diário da Manhã (PE), 22 de setembro de 1972, última coluna). Seu arquivo foi adquirido, em 1984, pela Fundação Joaquim Nabuco.

Em 1944, escreveu a História da Cinematografia Pernambucana, cronologia com as realizações do cinema pernambucano entre 1923 e 1931. Este texto transformou-se em fonte para a discussão do cinema mudo pernambucano, num dos primeiros livros sobre a história do cinema brasileiro, escrito por Alex Viany em 1959, intitulado “Introdução ao cinema brasileiro”. Também fundou Museu-cinema, uma mistura de arquivo de imagens e cineclube, onde se exibiam os filmes mudos pernambucanos (BEHAR, 2003).

Foi um comentarista de futebol de sucesso e introduziu pugilismo na televisão do Recife. Como radialista, iniciou sua carreira, em agosto de 1948, no Departamento de Jornalismo da Rádio Jornal do Commercio. Na Rádio Tamandaré comandou o programa Epopéia do Cinema. Trabalhou em diversas outras emissoras de rádio do Recife e de Olinda, a última foi a Super Rádio Clube. Em 1971, foi instituída a Taça Jota Soares, ofertada ao jogador de futebol campeão de disciplina (Diário de Pernambuco, 24 de junho de 1971, última coluna). No ano seguinte, em 1° de fevereiro de 1972, a Câmara Municipal outorgou-lhe o título de Cidadão do Recife (Diário da Manhã (PE), 2 de fevereiro de 1972, primeira colunaDiário da Manhã (PE), 12 de setembro de 1972, última coluna).

Em 1974, foi o intérprete principal do curta-metragem Labirinto, do jornalista e cineasta Fernando Spencer (1927 – 2014), um dos responsáveis pelo “resgate” cultural do Ciclo, reafirmando seu caráter de momento inaugural e mítico do cinema pernambucano (Behar, 2003); e, em 1979, foi o narrador do documentário J. Soares, um pioneiro do cinema, de Spencer e Flávio Rodrigues (1949-) (Jornal do Brasil, 20 de julho de 1980).

Faleceu, no Recife, em 24 de janeiro de 1988 (Diário de Pernambuco, 25 de janeiro de 1988). Dias depois foi publicado, no Diário de Pernambuco, o artigo Relembrando o Pioneiro Jota Soares, de Fernando Spencer (Diário de Pernambuco, 27 de janeiro de 1988).

 

 

**Andrea C.T. Wanderley é editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica.

 

Fontes:

ARAÚJO, Luciana Corrêa. Entre o local e o internacional: Jota Soares e a cultura cinematográfica no Recife. Revista de la Asociason Argentina de Estudios de Cine y Audiovisual, 2019.

BEHAR, Regina. Labirintos da Memória no cinema pernambucano: o “ciclo”da década de 20. ANPUH – XXII SIMPÓSIO NACIONAL DE HISTÓRIA – João Pessoa, 2003.

Blog de Fernando Medeiros

Enciclopédia Itaú Cultural

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

SANTOS, Marcos. O longo trajeto do cinema feito em Pernambuco. Olhar de Cinema, 23 de abril de 2018.

Site Cinemateca Pernambucana

Site História de Alagoas

Site IMDB – https://www.imdb.com/name/nm1217959/

Site IMS

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