Um dos “furos” do jornal O GLOBO, que hoje completa 100 anos – uma fotografia do presidente Washington Luís, deposto, deixando o Palácio Guanabara rumo ao Forte de Copacabana

Para celebrar o centenário do jornal O GLOBO, que foi fundado há exatos 100 anos, em 29 de julho de 1925, por Irineu Marinho (1876-1925), que faleceu pouco depois, em 21 de agosto de 1925, a Brasiliana Fotográfica destaca uma fotografia pertencente à Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC, uma das instituições parceiras do portal, do presidente deposto pela Revolução de 1930, Washington Luís (1869 – 1957), saindo do Palácio Guanabara, residência oficial do chefe de governo, rumo ao Forte Copacabana, onde ficou preso até seguir, exilado, para os Estados Unidos. Era o fim de seu mandato presidencial, iniciado em 15 de novembro de 1926, o último da chamada República Velha. O registro fotográfico foi realizado por Arnaldo Vieira (1904 – 1974) e o tiro de magnésio foi dado por Angelo Regato (1912 – 1993)*. O importante furo jornalístico foi publicado na capa da terceira edição de O GLOBO de 24 de outubro de 1930 e republicada no dia seguinte. De acordo com o jornal esta fotografia é O mais eloquente documento histórico da deposição do Sr. Washington Luis É um documento único e cujo valor não será mais preciso exaltar. 

 

 

Foi de fato uma imagem única de um momento relevante da história do Brasil, um marco no fotojornalismo do país. O primogênito de Irineu Marinho, Roberto Marinho (1904 – 2003), que assumiria a direção do jornal, em 1931, atuava na ocasião como repórter de O GLOBO e teve uma participação decisiva neste furo de reportagem. Ele estava no palácio e viu o momento em que Washington Luís entrou no carro, um luxuoso Lincoln. Para tornar a fotografia possível, colocou arbustos no caminho, fazendo com que o carro tivesse que parar por alguns segundos, e assim o fotógrafo que o acompanhava conseguiu fazer o registro.

 

Rendido afinal á gloriosa realidade que o cercava, o Sr. Washington Luis retira-se do Palácio Guanabara! O presidente deposto saindo em companhia do cardeal Sebastião Leme foi conduzido ao Forte de Copacabana onde seencontra preso / O GLOBO, 24 de outubro de 1930

O título: Rendido afinal á gloriosa realidade que o cercava, o Sr. Washington Luis retira-se do Palácio Guanabara! O presidente deposto, saindo em companhia do cardeal Sebastião Leme, foi conduzido ao Forte de Copacabana onde se encontra preso. A legenda: O automóvel do Palacio Presidencial quando deixava o Guanabara, conduzindo o Sr. Washington Luís, que se vê de mão ao queixo, cabeça pendente, e tendo a sua direita S.E. o Cardeal D. Sebastião Leme  / O GLOBO, 24 de outubro de 1930

 

O Mais eloquente documento histórico da deposição do Sr. Washington Luis / O GLOBO, 25 de outubro de 1930

O mais eloquente documento histórico da deposição do Sr. Washington Luis / O GLOBO, 25 de outubro de 1930

 

A seguir, o texto publicado em O GLOBO, 25 de outubro de 1930, abaixo da fotografia:

Tivemos a rara felicidade de conseguir, hontem, o instantâneo photographico de um episódio central do movimento pacificador da família brasileira, tomada com grande senso jornalístico e especialmente para o GLOBO. Trata-se do mais precioso flagrante da retirada do Sr. Washington Luis do Palácio Guanabara, já apeado do poder e preso o ex-chefe do governo que, por uma questão de mórbida vaidade e de volúpia despótica atirou o paiz no perigo de uma guerra civil de consequências incalculáveis.

Mas o Exercito Brasileiro foi até onde a disciplina começava a confundir-se com a sua transformação em instrumento de uma defesa pessoal agressiva contra a Nação.  E a Nação logo lhe estendeu os braços na formidável explosão de enthusiasmo e desapego de hontem, ora correndo para as fileiras pacificadoras, ora tomando iniciativas de justiçamento summario, sem excessos de penalidades nem de outros prejuízos além dos que a sua sentença soberana limitava. Ao embate decisivo o autocrata caiu, vendo em torno o vácuo e a solidão porque a dignidade brasileira só o podia cercar das garantias e da indulgência humana que não lhe faltaram até no momento mais extremo.

E eil-o que hai vae vencido em sua megalomania, tão arrogantemente caracterizada até nas suas derradeiras e inúteis atitudes. 

E eil-o  hai vae, no automóvel, sob a guarda do Exercito, abrigado à sombra do manto misericordioso de S Eminência o cardeal Sebastião Leme, a face amparada à  mão esquerda, a fronte pendente como nunca o viramos, remoendo a raiva impotente do desmoronamento.

É um documento historico da mais expressiva eloquencia na sua mudez essa fotografia que o GLOBO estampou, com extraordinario exito, em sua 3ª edição de hontem, rapidamente exgotada, razão pela qual a reproduzimos hoje, á vista da insistência dos pedidos que recebemos neste sentido. É um documento único e cujo valor não será mais preciso exaltar. Contemple-o o povo e fique elle para sempre como advertência vehemente ao futuro da nacionalidade e à precariedade dos caprichos humanos”.

 

Washington Luís – deposição, exílio e morte

 

“A Revolução de 30 foi um movimento armado, iniciado em 3 de outubro de 1930, com o objetivo imediato de derrubar o governo Washington Luís e impedir a posse de Júlio Prestes, eleito presidente da República em 1º de março de 1930. O movimento tornou-se vitorioso em 24 de outubro e Getulio Vargas assumiu o cargo de presidente provisório no dia 3 de novembro. As mudanças políticas, sociais e econômicas que tiveram lugar na sociedade brasileira no pós-1930 fizeram com que esse movimento revolucionário fosse considerado o marco inicial da Segunda República no Brasil “.

(Equipe da Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC, 2023).

 

 

Em 24 de outubro de 1930, os generais Alfredo Malan d’Angrogne (1873 – 1932), Augusto Tasso Fragoso (1869 – 1945) e João de Deus Mena Barreto (1874-1933) entraram no Palácio Guanabara e foram para a sala onde se encontrava o presidente Washington Luís e a alta cúpula do governo. Washington Luís se recusava a sair e só, por volta das 17 horas, com a mediação do cardeal Sebastião Leme (1882 – 1942), consentiu em se retirar, na condição de prisioneiro, pois não havia renunciado. A junta governativa que assumiu o poder, composta pelos generais Tasso Fragoso e Mena Barreto e pelo contra-almirante José Isaías de Noronha (1874 – 1966), determinou, sem êxito, que os revolucionários depusessem as armas. Entretanto, apesar de respeitarem a ordem de cessação dos combates, os destacamentos rebeldes continuaram avançando em direção ao Rio de Janeiro, forçando a junta a entregar o poder no dia 3 de novembro a Getúlio Vargas, chefe da revolução vitoriosa (Atlas Histórico do Brasil FGV).

 

 

A bordo do navio Alcântara, Washington Luís partiu do Brasil rumo à Europa, em 20 de novembro de 1930. O ex-prefeito do Rio de Janeiro, Antônio Prado Junior (1880 – 1955), seguiu para a Europa no mesmo navio  (Correio da Manhã, 21 de novembro de 1930). Mais uma vez o O GLOBO conseguiu produzir um trabalho fotográfico classificado pelo próprio jornal como sensacional pelo seu valor e ineditismo. A equipe que fazia a cobertura do evento teve, inclusive, a máquina fotográfica confiscada por um capitão na Fortaleza de São João, mas algumas das chapas sensibilizadas já haviam sido escondidas e foram publicadas ainda no dia 20 de novembro.

 

O GLOBO, 20 de novembro de 1930

O GLOBO, 20 de novembro de 1930, primeira edição

 

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O GLOBO, 20 de novembro de 1930, primeira edição

 

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O GLOBO, 20 de novembro de 1930, segunda edição

 

O presidente deposto viveu na França, na Suíça, em Portugal e nos Estados Unidos. Em 18 de setembro de 1947, retornou ao Brasil, mas não à política (O Jornal, 19 de setembro de 1947O Cruzeiro, 20 de setembro de 1947).

 

 

Foi morar em São Paulo e dedicou-se a estudar História. Foi membro dos institutos Histórico e Geográfico da Bahia, do Ceará e de São Paulo, membro benemérito da Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, presidente honorário da Cruz Vermelha Brasileira, integrante da Academia Paulista de Letras e membro do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro. Faleceu em São Paulo, no dia 4 de agosto de 1957. Nasceu em Macaé, no Rio de Janeiro, em 26 de outubro de 1869. Antes de ser presidente do Brasil, havia sido prefeito, governador e senador de São Paulo, de 1914 a 1919, de 1920 a 1924 e de 1925 a 1926, respectivamente.

 

 O GLOBO

 

 

Capa da primeira edição de O GLOBO, 29 de julho de 2025

Capa da primeira edição de O GLOBO, 29 de julho de 1925

 

Para escolher o nome do seu novo jornal, Irineu Marinho promoveu um concurso, cujo resultado foi anunciado em 20 de junho de 1925. Correio da Noite foi o nome mais votado, mas esse título já era patenteado. O segundo nome mais votado, O GLOBO, foi adotado. Como já mencionado, o jornal foi fundado em 29 de julho de 1925.

Após o falecimento de Irineu Marinho, em 21 de agosto de 1925, O GLOBO passou a ser dirigido pelo jornalista Eurycles de Matos (1894-1931), amigo de confiança do fundador. Roberto Marinho era, na época, secretário particular de seu pai e repórter do jornal. Somente assumiu a direção de O GLOBO, em 8 de maio de 1931, três dias após a morte de Eurycles. Ele exerceu o cargo até sua morte, em agosto de 2003.

 

 

 

 

 

*A informação da autoria da foto e do tiro de magnésio consta no Boletim da ABI, outubro de 1974 e no Boletim da ABI, março e abril de 1975, página 7, penúltima coluna. Foi acrescentada neste artigo em 4 de abril de 2026.

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Acervo Digital de O GLOBO

Arquivo Nacional – Centro de Referência de Acervos Presidenciais

Atlas Histórico do Brasil FGV

Fernandes, Letícia. Era Vargas: Um jovem repórter consegue a foto histórica in O GLOBO, 28 de junho de 2015.

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

EQUIPE DA ESCOLA DE CIÊNCIAS SOCIAIS FGV CPDOC. Novos acervos: Escola de Ciências Sociais FGV CPDOC, in Brasiliana Fotográfica, 25  de junho de 2023.

Site FGV CPDOC

Site Memória O GLOBO

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