Memórias da saúde pública pelas lentes de Augusto Malta

As bibliotecárias Luciana F. Lau e Danielle Barreiros e o arquivista Fabio Carvalho, todos do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística, o IBGE, desde 2024 uma das instituições parceiras da Brasiliana Fotográfica, são os autores da publicação Memórias da saúde pública pelas lentes de Augusto Malta sobre a história do atendimento de emergência no Rio de Janeiro e a criação, em 1907, do Posto Central de Assistência Pública, origem do atual Hospital Municipal Souza Aguiar. Segundo o artigo, Augusto Malta (1864 – 1957) com suas técnicas fotográficas, que combinavam precisão documental e sensibilidade artística, deixou um legado que nos permite refletir sobre a fotografia urbana como instrumento indispensável para a preservação da memória das cidades, incluindo a memória da saúde pública. Ele foi o fotógrafo oficial da Prefeitura do Rio de Janeiro, cargo criado para ele, entre 1904 e 1936, quando se aposentou.

 

Memórias da saúde pública pelas lentes de Augusto Malta

 Luciana Lau, Danielle Barreiros e Fábio Carvalho*

 

 

No início do século XX, o Rio de Janeiro, então capital da República, transformava-se em um grande canteiro de obras. Com o propósito de civilizar e modernizar a cidade, o prefeito Pereira Passos (1902-1906) promoveu reformas radicais que alteraram para sempre sua paisagem urbana e social. Essas transformações, marcadas tanto pelo progresso quanto por profundas desigualdades, foram meticulosamente registradas pelas lentes de Augusto Malta (1864-1957), fotógrafo oficial da prefeitura e principal cronista visual dessa era de mudanças e de paisagens efêmeras de uma cidade em transição. Com suas técnicas fotográficas, que combinavam precisão documental e sensibilidade artística, deixou um legado que nos permite refletir sobre a fotografia urbana como instrumento indispensável para a preservação da memória das cidades, incluindo a memória da saúde pública.

O ambicioso projeto de modernização de Pereira Passos, popularmente conhecido como “bota-abaixo”, tinha como objetivo sanear e embelezar a capital federal, seguindo os moldes das grandes metrópoles europeias.

Visando modernizar a saúde pública, em sua gestão, Pereira Passos determinou a criação de postos médicos nas Agências Municipais, sendo possível entrever a possibilidade de atendimento emergencial na cidade do Rio de Janeiro. O então prefeito solicitou  verba para a criação do primeiro grande posto de assistência médica que foi instalado na rua Camerino. O Posto Central de Assistência Pública na Rua Camerino foi a primeira unidade de socorro médico de emergência do município. Tendo suas obras iniciadas em 1906, foi inaugurado em 1º de novembro de 1907 pelo prefeito à época, Francisco Marcelino de Souza Aguiar (1855 – 1935), sendo futuramente homenageado por esta instituição, que foi denominada Hospital Municipal Souza Aguiar, como a conhecemos atualmente.

Como pioneiro na prestação do serviço de urgência, o Posto teve o desafio de implementar um novo modelo de serviço de emergência, que até aquele momento era realizado por farmácias e médicos particulares.

A implementação do novo processo de atendimento de urgência teve como desafio inicial modificar o comportamento dos cidadãos, que após sofrerem algum incidente na rua ou em casa, queriam ser atendidos somente pelos farmacêuticos e médicos particulares, pois esse era o hábito da população. E também porque estranhavam e até “desconfiavam” das ambulâncias brancas, pedindo passagem pela cidade, e do fato de serem levados para um hospital, um lugar desconhecido. Assim, a fim de familiarizar a população com o novo modelo de atendimento de emergência, foi realizada uma estratégia de marketing recomendada por Dr. Paulino Werneck (18? – 19?), superintendente do Posto Central de Assistência, chamada de “ensaios de socorro” na qual pessoas caiam pelas ruas e recebiam atendimento emergencial por meio das ambulâncias. A estratégia mostrou-se efetiva e as ambulâncias passaram a ser chamadas de “mãe carinhosa”.

 

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Ensaio de socorro / DISTRITO FEDERAL (BRASIL), 1922, p. 248

 

Em pouco tempo a quantidade de chamados de urgência aumentaram e o Posto Central de Assistência já não conseguia atender as solicitações recebidas, tornando-se necessário ampliar sua capacidade de atendimento.

Desta forma, o prefeito Souza Aguiar decidiu transferir o Posto Central para um novo endereço na Praça da República.  Coube ao prefeito general Inocêncio Serzedelo Corrêa (1858 – 1932), depois de determinar que fossem feitas ampliações no edifício, inaugurar o Posto em 17 de outubro de 1910. “O prédio tinha três pavimentos e estava equipado com o que havia de mais moderno” (RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 23).

Após a inauguração houve diversas ampliações e reconfigurações dos espaços. Em 1921, após reformulações nos serviços de assistência pública da capital, a Lei n.º 2.401 de 22 de janeiro determinava em seu artigo 28, a construção urgente de um Hospital de Pronto Socorro em anexo ao Posto Central, para a qual já havia verba consignada de mil contos de réis.  O Hospital do Pronto Socorro foi finalmente inaugurado no dia 20 de setembro de 1925.

 

 

Sobre o novo Hospital de Pronto Socorro inaugurado em 1925 comentou-se:

“[…] atendia, de modo satisfatório, aos reclamos da população, visto que se achava bem aparelhado e instalado para aquela época, como também situado em local de grande concentração populacional. Porém, dentro de pouco tempo, verificou-se a insuficiência de recursos do Hospital, tanto no que se relacionava com as suas possibilidades técnicas, como materiais, para o atendimento da população que crescia rapidamente”(RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 39).

Augusto Malta registra mais uma imagem do Posto Central na Praça da República revelando o poder da fotografia como guardiã da memória urbana:

 

 

Na gestão do interventor Pedro Ernesto (1884 – 1942), foi inaugurada uma maternidade no Hospital de Pronto Socorro, com o objetivo de ampliar sua área de atuação junto à população.  E houve a unificação dos serviços do antigo Posto Central de Assistência e do Hospital de Pronto Socorro, permanecendo o último nome.

 

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Prefeito Pedro Ernesto em visita ao Hospital de Pronto Socorro / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 53

 

Novos planos para reforma do Hospital de Pronto Socorro surgiram com o professor Clementino Fraga (1880 – 1971) à frente da Secretaria-Geral de Saúde e Assistência. Previa-se a instalação de 300 leitos e a aquisição de novas ambulâncias no projeto do novo hospital.

 

Projeto do novo hospital / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 57

Projeto do novo hospital / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 57

 

Em 2 de junho de 1955, enquanto o novo hospital ainda estava em construção, o prefeito Alim Pedro (1907 – 1975), no centenário do nascimento de Souza Aguiar, deu ao Hospital do Pronto Socorro, o nome de Hospital Geral Souza Aguiar em reconhecimento. Em 1962, por meio da Lei n.º 279, o hospital passa a ser chamado Hospital Estadual Souza Aguiar e, posteriormente, torna-se Hospital Municipal Souza Aguiar.

 

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Um busto em homenagem a Francisco Marcelino de Souza Aguiar está no segundo andar da Biblioteca Nacional em exposição permanente

 

Na edificação do novo hospital, por se tratar de uma construção de grandes proporções, as novas instalações entraram em funcionamento em etapas, à medida em que eram finalizadas e tinham condições de serem utilizadas. Até que em 04 de novembro de 1968, o novo prédio do Hospital Souza Aguiar foi inaugurado.

 

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Hospital Souza Aguiar / RIO DE JANEIRO (ESTADO). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS, 1972, p. 113

 

Porém as obras de melhorias no Hospital Souza Aguiar não pararam, conforme discursa o governador Negrão de Lima, mais obras seriam realizadas até que ele ficasse à altura dos melhores hospitais (LIMA, Negrão de., 1965/1970), sendo considerado hoje  o hospital com a maior emergência pública do Rio de Janeiro e da da América do Sul.  Além disso, seu edifício atual, projetado pelo arquiteto Ary Garcia Roza (1911 – 1999), é considerado patrimônio da cidade e foi tombado em 2009. Possui belíssimas obras do artista e paisagista Roberto Burle Marx (1909 – 1994), como o painel interno de pedras e o muro escultório.

 

Hospital Souza Aguiar. Mural de pedras.

Hospital Souza Aguiar. Mural de pedras.

 

** Luciana F. Lau e Danielle Barreiros são bibliotecárias e Fabio Carvalho é arquivista do IBGE.

 

Referências:

ACADEMIA BRASILEIRA DE LETRAS. Ivo Pitanguy: bibliografia. Rio de Janeiro: Academia Brasileira de Letras, 2017.

A UNIÃO. Rio das Ostras, RJ: [s.n.]. Semanal. Acesso em: 2 abr. 2025.

DISTRITO FEDERAL (BRASIL). PREFEITURA. Assistência pública e privada no Rio de Janeiro (Brasil): história e estatística: commemoração do centenário da independência nacional. Rio de Janeiro: Typ. do Annuario do Brasil, 1922. 912 p.

LIMA, Negrão de (Governador). Discursos: Visita às Novas Instalações do Hospital Souza Aguiar de [1965/1970]. Rio de Janeiro, RJ: [s. n.], [1965/1970]. Acesso em: 06 de março de 2025.

RIO DE JANEIRO (Estado). SUPERINTENDÊNCIA DE SERVIÇOS MÉDICOS. Assistência pública: Guanabara : 80 anos de história. Rio de Janeiro: Secretaria de Saúde do Estado da Guanabara, Superintendência de Serviços Médicos, 1972. 408 p.

SERVIÇO DE UROLOGIA. Hospital Souza Aguiar: experiência em atendimentos de urgência e emergência. [S. l.]: Serviço de Urologia, 2023. Acesso em: 06 de março de 2025.

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