Os garimpeiros de Marc Ferrez e Sebastião Salgado

Há exatamente um mês faleceu, em Paris,  o mineiro Sebastião Salgado (08/02/1944 – 23/05/2025), devido a uma leucemia decorrente de uma malária que contraiu, em 1990, na Nova Guiné, durante a produção da obra Gênesis. Foi um dos maiores fotógrafos de todos os tempos e um dos brasileiros de maior renome internacional. Sua obra humanista levou nossos olhos a lugares remotos e pouco conhecidos e a questões sociais graves e urgentes.

Aqui destacamos uma imagem da mina Pary, em Santa Bárbara, Minas Gerais, de autoria de outro gigante da fotografia, o carioca Marc Ferrez (1843 – 1923). Foi uma das primeiras fotografias de que se tem notícia, até hoje, realizada no interior de uma mina de ouro. Ferrez produziu o registro, em torno 1888, tendo utilizado o flash de magnésio para poder captar a escuridão da cena. Na ocasião, produziu também fotos de Ouro Preto e de Itacolomy. Ele foi um brilhante cronista visual das paisagens e dos costumes cariocas da segunda metade do século XIX e do início do século XX; o único fotógrafo dos oitocentos que percorreu todas as regiões do Brasil, tendo sido, no referido século, o principal responsável pela divulgação da imagem do país no exterior.

 

 

Relacionamos esta foto de Ferrez com uma produzida por Sebastião Salgado cerca de um século depois, em 1986, de operários num garimpo de Serra Pelada, no leste do Pará. Este registro, uma composição de grande força visual, foi incluído na lista das 25 fotografias que, segundo um grupo de especialistas, melhor capturaram e mudaram o mundo, de acordo com o artigo The 25 Photos That Defined the Modern Age (As 25 fotos que definiram a Era Moderna)publicado, em 3 de junho de 2024, no jornal norte-americano The New York Times.

As 25 imagens selecionadas foram realizadas em diversas partes do mundo desde 1955. Além da foto de Salgado, foram escolhidas imagens de Adam Broomberg (1970-) & Oliver Chanarin (1971-), Alberto Korda (1928 – 2001), Blair Stapp (1924 – 1977), Carlijn Jacobs (1991-), Carrier Mae Weems (1953-), Cindy Sherman (1954-), David Jackson (19?- ), Deana Lawson (1979-), Diane Arbus (1923 – 1971), Ed Ruscha (1937-), Ernest C. Withers (1922 – 2007), Eugene Smith (1918 – 1978), Gordon Parks (1912 – 2006),  LaToya Ruby Frazier (1982-), Lee Friedlander (1934-), Malcolm Browne (1931- 2012), Nan Goldin (1953-), Photo Archive Group, Richard Drew (1946-), Robert Frank (1924 – 2019), Staff Sgt. Ivan L. Frederich II (1966-), Stuart Franklin (1956-), William A. Anders (1933 – 2024) e Wolfgang Tillmans (1968-).

Na época da divulgação da lista, no texto assinado no The New York Times pelo escritor e crítico de arte Emmanuel Iduma (1989-), foi destacado que “Um dos aspectos mais marcantes das fotografias de Sebastião Salgado de uma mina de ouro a céu aberto no Brasil é a escala. Milhares de homens –seus corpos curvados e frágeis– são representados em miniatura contra o plano de fundo de uma enorme cova na terra”.

 Salgado declarou sobre o cenário que fotografou em Serra Pelada, onde permaneceu por mais de um mês:

“Só se ouvia o murmúrio de 50 mil pessoas dentro de um imenso buraco. Conversas, sons humanos misturados ao trabalho. Era como se eu ouvisse o murmúrio do ouro na alma de todos ali”.

 

 

A foto de Salgado integra a série Gold – Mina de Ouro Serra Pelada, que retrata o cotidiano daquele que foi o maior garimpo a céu aberto do mundo. A série é uma das principais produções de sua obra – marcada por beleza e engajamento – e reúne 56 fotografias em preto e branco.

Segundo Peter Howe (1942 – 2020), que foi editor de fotografia do The New York Times Magazine, uma das seções dominicais do The New York Times, quando esses registros chegaram ao jornal, todos ficaram em silêncio: “Em toda a minha carreira no The New York Times eu nunca vi editores reagirem a uma série de fotos como reagiram as de Serra Pelada”. Nove foram publicadas na matéria An epic struggle for gold (Uma luta épica pelo ouro), escrita por Marlise Simons, na edição de 7 de junho de 1987.

 

Andrea C.T. Wanderley

Editora e pesquisadora da Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Cadernos de Marc Ferrez [Procedimentos e fórmulas] Fundo Família Ferrez / Acervo do Arquivo Nacional

Carta Capital, 27 de maio de 2025

CERON, Ileana Pradilla Ceron. Marc Ferrez – uma cronologia da vida e da obra. São Paulo : Instituto Moreira Salles, 2018.

Folha de São Paulo, 4 de junho de 2024

G1, 24 de maio de 2025

O GLOBO, 23 de maio de 2025

The New York Times, 7 de junho de 1987 e 3 de junho de 2024

Site Amazon

WANDERLEY, Andrea C.T. O brilhante cronista visual Marc Ferrez (RJ, 07/12/1843 – RJ, 12/01/1923) in Brasiliana Fotográfica, 7 de dezembro de 2016.

Série “Avenidas e ruas do Brasil” V – A Rua Direita, a Rua das Mercês e a Rua Macau do Meio, em Diamantina, Minas Gerais

Série “Avenidas e ruas do Brasil” V – A Rua Direita, a Rua das Mercês e a Rua Macau do Meio, em Diamantina, Minas Gerais

 

No quinto artigo da série “Avenidas e ruas do Brasil”, a Brasiliana Fotográfica destaca imagens de três ruas na cidade de Diamantina, em Minas Gerais: a Rua Direita, a Rua das Mercês e a Rua Macau do Meio. O registro da rua Direita foi realizado, no século XIX, pelo fotógrafo alemão Augusto Riedel (1836 – ?) e os da Rua das Mercês e Macau do Meio pelo mineiro Chichico Alkmim (1886 – 1978), já nas primeiras décadas do século XX. Em suas ruas de pedras, com várias subidas e descidas, onde se encontra um casario homogêneo e bem conservado, fazemos uma viagem no tempo…

 

 

Diamantina é uma das mais importantes cidades históricas do Brasil e sua formação está ligada à exploração de ouro e de diamante. Sua ocupação inicial ocorreu com o bandeirante Jerônimo Gouveia (16? – ?) que, seguindo o curso do rio Jequitinhonha, encontrou uma significativa quantidade de ouro nas confluências dos rios Piruruca e Grande. O povoado começou a surgir nas primeiras décadas do século XVIII, em torno dos rios garimpados. A cidade de Diamantina, cuja origem foi o Arraial do Tijuco (ou Tejuco), foi oficialmente fundada em 6 de março de 1831. O conjunto arquitetônico de seu centro histórico foi tombado pelo Instituto do Patrimônio Histórico e Artístico Nacional, em 16 de maio de 1938. Em dezembro de 1999, Diamantina recebeu da Unesco o título de Patrimônio Cultural da Humanidade (Jornal do Brasil, 2 de dezembro de 1999).

 

“Diamantina foi o maior centro de extração de diamantes do mundo no século XVIII, condição que se refletiu na evolução da cidade, desfavorecendo a formação de um espaço urbano arquitetônico na forma de uma praça representativa do poder político e religioso, como era então regra geral. Sua arquitetura civil tem referência especial pela extrema homogeneidade do seu casario. Possui uma estética sóbria, simples, porém refinada se comparada com outras cidades de sua época. Suas fachadas são bem geometrizadas e seu padrão foi sistematicamente reproduzido pela cidade, não havendo rupturas estilísticas importantes. Essas edificações apresentam evidentes testemunhos da reprodução do modelo cultural de origem portuguesa.” 

                               Portal Iphan

Brasão de Diamantina

Brasão de Diamantina

 

Augusto Riedel (1836 – ?) e Diamantina

 

Considerado um dos mais talentosos fotógrafos paisagistas dos oitocentos, o alemão Augusto Riedel (1836-?) foi proprietário de um estúdio fotográfico à Rua Direita nº 24, em São Paulo (Diário de São Paulo, de 1º de outubro de 1865, primeira coluna), na década de 1860, e na Rua Cassiano, 41, no Rio de Janeiro, entre 1875 e 1877. De sua produção, restaram 40 imagens do álbum Viagem de S.S.A.A. Reaes Duque de Saxe e seu Augusto Irmão D. Luis Philippe ao Interior do Brasil no Anno 1868 – que se tornou um dos trabalhos clássicos da documentação fotográfica do século XIX no Brasil. Os registros de Diamantina fazem parte deste conjunto. O duque de Saxe, dom Luis Augusto de Saxe Coburgo e Gotha (1845 – 1907), era genro do imperador Pedro II (1825 – 1891), marido da princesa Leopoldina de Bragança e Bourbon (1847 – 1871). A presença do nome do fotógrafo na capa do álbum indica que ele já devia ser bastante conhecido e que provavelmente devam existir outras fotos dele ainda hoje não amplamente reconhecidas.

 

 

A viagem representada no mencionado álbum durou meses , durante os quais foram percorridos os estados de Minas Gerais, onde foram retratadas, além de Diamantina, as cidades de Ouro Preto, Mariana, Sabará, Lagoa Santa e o primeiro vapor do rio das Velhas, além das minas de Morro Velho; vistas do rio São Francisco, que levaram os viajantes até Penedo, em Alagoas; Sergipe e, finalmente, Bahia, último estado visitado pela expedição. São possivelmente os mais antigos registros fotográficos dessas regiões do Brasil.  O itinerário percorrido sugere um grande interesse do grupo em geologia e em assuntos relativos à mineração. Um obscuro diamantinense publicou uma homenagem à visita dos príncipes à Diamantina (Diário do Rio de Janeiro, de 10 de agosto de 1868, primeira coluna).

 

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Acessando o link para as fotografias de Augusto Riedel de aspectos de Diamantina disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 Chichico Alkmim (1886 – 1978) e Diamantina

 

O mineiro Chichico Alkmim (1886 – 1978), autodidata, pioneiro da fotografia de estúdio em Diamantina, e primeiro cronista visual da cidade, atuou na profissão de 1907 a 1955. Seu primeiro ateliê foi inaugurado em 1912 e sua obra, uma das principais referências da memória visual de Minas Gerais, compreende imagens da arquitetura diamantinense, sua religiosidade, suas ruas, costumes, ritos e retratos de seus habitantes. Chichico retratou a burguesia e também os trabalhadores ligados ao pequeno garimpo, ao comércio e à indústria. Produziu imagens de casamentos, batizados, funerais, festas populares e religiosas, paisagens e cenas de rua. De 1955, quando parou de  fotografar, até 1978, ano de sua morte, continuou cuidando de seu acervo, que guardava no porão de sua casa.

 

 

Acessando o link para as fotografias de Chichico Alkmim de aspectos de Diamantina disponíveis na Brasiliana Fotográfica, o leitor poderá magnificar as imagens e verificar todos os dados referentes a elas.

 

 

Andrea C. T. Wanderley

Editora e pesquisadora do portal Brasiliana Fotográfica

 

Fontes:

Hemeroteca Digital da Biblioteca Nacional

Portal Iphan

Site Prefeitura de Diamantina

 

Links para as outras publicações da série “Avenidas e ruas do Brasil”

 Série “Avenidas e ruas do Brasil” I – Avenida Central, atual Rio Branco, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 7 de setembro de 2016

Série “Avenidas e ruas do Brasil” II – A Rua do Imperador em Petrópolis por Klumb, Leuzinger e Stahl, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 26 de junho de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” III – A Rua do Bom Jesus, no Recife, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 6 de agosto de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IV – A Rua 25 de Março, em São Paulo, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 1º de setembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VI  – Rua Augusto Ribas e outras, em Ponta Grossa, no Paraná, pelo fotógrafo Luiz Bianchi, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 16 de novembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil” VII – A Avenida Atlântica, em Copacabana, no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 23 de dezembro de 2020

Série “Avenidas e ruas do Brasil VIII – A Rua da Carioca por Cássio Loredano, de autoria de Cássio Loredano, publicada em 20 de janeiro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” IX – Ruas e panoramas do bairro do Catete, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 14 de julho de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” X – A Rua da Ajuda, no Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 9 de novembro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XI – A Rua da Esperança, em São Paulo, por Vincenzo Pastore, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 14 de dezembro de 2021

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XII – A Avenida Paulista, o coração pulsante da metrópole, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 21 de janeiro de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XIII – A Rua Buenos Aires no Centro do Rio de Janeiro, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal,  publicada em 19 de julho de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XIV – A Avenida Presidente Vargas,, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 31 de agosto de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XV – Misericórdia: rua, largo e ladeira, no Rio de Janeiro, por Cássio Loredano, de autoria de Cássio Loredano, publicada em 8 de dezembro de 2022

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVI – “Alguma coisa acontece no meu coração”, a Avenida São João nos 469 anos de São Paulo, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 25 de janeiro de 2023

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVII  e série “O Rio de Janeiro desaparecido” XXIII – A Praia e a Rua do Russel, na Glória, de autoria de Andrea C. T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 15 de maio de 2023

Série “Avenidas e ruas do Brasil” XVIII – Avenida Beira-Mar, de autoria de Andrea C.T. Wanderley, editora e pesquisadora do portal, publicada em 22 de janeiro de 2024